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TV DESTINO

14/04/2008
Central Destino de Produção Cap. 22

FOGO SOBRE TERRA
Novela de
Walter de Azevedo

Inspirada no original de
Janete Clair
Colaboração de
Eduardo Secco

Direção
Claudio Boeckel e Marco Rodrigo

Direção Geral
Luiz Fernando Carvalho

Núcleo
Luiz Fernando Carvalho
Personagens deste capítulo

LEONOR LOURDES ISABEL
MÉDICO CAMILA IVONE
FELIPE BÁRBARA QUEBRA-GALHO
RODRIGO ANDRÉ HEITOR
BALBINA HILDA BRUNO
ZULMIRA PADRE CELESTE
ADALGISA MUNDICA LEILA
BRENO DIOGO LUCENA
CHICA EDUARDA
NARA ARTHUR

Atenção
“ Este texto é de propriedade intelectual exclusiva da TV DESTINO LTDA e por conter informações confidenciais, não
poderá ser copiado, cedido, vendido ou divulgado de qualquer forma e por qualquer meio, sem o prévio e expresso
consentimento da mesma.No caso de violação do sigilo, a parte infratora estará sujeita às penalidades previstas em
lei e/ou contrato.”
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 2

CENA 01. HOSPITAL EM CUIABÁ. SAGUÃO. INTERIOR. TARDE

CONTINUAÇÃO. O MÉDICO CONTA PARA LEONOR COMO VINÍCIUS ESTÁ. FELIPE E
RODRIGO, AO LADO, OUVEM A CONVERSA.

CORTA PARA:

LEONOR — Como é? O senhor está me dizendo... O senhor está me dizendo que o
meu filho não vai mais poder andar? O meu filho está paralítico?

MÉDICO — Outros exames ainda precisam ser feitos. Eu apenas estou lhe dando
um primeiro diagnóstico. Ele teve uma lesão em uma das vértebras. A
sorte é que... É que a coisa poderia ter sido pior.

LEONOR — Pior?! Pior do que isso?!

MÉDICO — É. Dependendo da altura da lesão, da vértebra onde ela acontece,
poderia ser muito pior sim. O seu filho poderia ter ficado tetraplégico.

LEONOR — Meu Deus do céu.

MÉDICO — Como eu disse, nós ainda precisamos de outros exames. Cuidamos
dele logo que chegou e fizemos uma avaliação preliminar. No momento
ele não sente nada da cintura pra baixo. Pode ser que aos poucos ele vá
recuperando os movimentos e a sensibilidade.

LEONOR — Mas também pode ser que não.

MÉDICO — Pode. Eu poderia entrar em vários detalhes técnicos agora, mas acho
que a senhora não teria cabeça pra absorver tudo.

LEONOR — Mas eu quero! Quero saber exatamente o que está acontecendo com o
meu filho. Tudo! Por favor, me fale tudo.

MÉDICO — Está bem. Vamos nos sentar.

O MÉDICO, LEONOR, FELIPE E RODRIGO SE SENTAM.

CORTA PARA:

CENA 02. CLUBE RECREATIVO. QUARTO DE ZULMIRA. INTERIOR. TARDE

ZULMIRA ESTÁ SENTADA NA CAMA PROCURANDO ALGUNS PAPÉIS. AS GAVETAS
DO CRIADO MUDO ESTÃO SOBRE A CAMA. BALBINA BATE NA PORTA E ENTRA.

BALBINA — Que bagunça é essa?

ZULMIRA — Fecha a porta.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 3

BALBINA FECHA A PORTA.

BALBINA — Vim aqui achando que ia lhe encontrá descansando e ocê tá armando
esse fuzuê!

ZULMIRA — Tô aqui procurando um documento muito importante.

BALBINA — Que documento?

ZULMIRA — A escritura da casa.

BALBINA — E pra que ocê qué isso?

ZULMIRA — Menos pergunta e mais ação, Balbina. Me ajuda aqui.

BALBINA — Ocê tá é memo ficando ruim das idéia.

BALBINA VAI ATÉ O ARMÁRIO E TIRA UMA PASTA DE DENTRO DE UMA GAVETA.
ENTREGA A ZULMIRA.

BALBINA — Se num sô eu pra sabê onde tão as coisa nessa casa.

ZULMIRA SORRI PARA BALBINA, ABRE A PASTA E ENCONTRA A ESCRITURA.

ZULMIRA — Que susto. Pensei que tinha perdido.

BALBINA — Onde já se viu. Num lembrá onde coloca coisa importante dessa.

ZULMIRA — Não me atormenta, Balbina. Eu preciso saber também onde está o
contrato social do clube, alvará de funcionamento, essas coisas.

BALBINA — Isso deve de tá na pasta do clube. Deixa que eu pego procê.

BALBINA VAI ATÉ OUTRO LADO DO ARMÁRIO E PEGA UM CAIXA DE PAPELÃO, QUE
COLOCA EM CIMA DA CAMA.

BALBINA — Tudo que é do clube tá aí. Eu e a Madalena guardamo tudo nas pasta.

ZULMIRA — Vocês são ótimas. Não sei o que seria de mim sem vocês.

ZULMIRA COMEÇA A REVIRAR A CAIXA.

BALBINA — Continuo sem entendê porque ocê qué tanto essas coisa.

ZULMIRA — Porque eu descobri que têm coisas que não podem mais esperar. (p)
Eu venho adiando, adiando, fingindo que não está acontecendo nada, só
que agora não dá mais.

BALBINA — Ocê tá falano...Da sua...Da sua doença?
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 4

ZULMIRA — É. Tô falando da minha doença. (p) A cada dia que passa as dores são
piores. Essa crise que eu tive hoje... Pensei que ia morrer. (p) Então, eu
fiquei aqui na minha cama, quietinha, pensando. Já tá na hora de parar de
esconder o sol com a peneira. Preciso ser prática.

BALBINA — Ocê precisa é procurá outro médico, isso sim!

ZULMIRA — De novo essa conversa, Balbina? Já fui ao médico. Já sei o que eu
tenho. No estágio que está, não adianta mais fazer nada. É uma questão
de tempo.

BALBINA SE SENTA AO LADO DE ZULMIRA E SEGURA SUA MÃO. ESTÁ
EMOCIONADA.

BALBINA — Queria tanto pode fazê arguma coisa por ocê. É muito ruim ficá vendo
essa doença mardita lhe consumi. Uma mulhé tão boa, tão forte.

ZULMIRA — Não fica assim não, minha amiga.

BALBINA — E como é que ocê qué que eu fique?

ZULMIRA ABRAÇA BALBINA.

ZULMIRA — Ah, Balbina. Pra mim você é como uma irmã. Sempre esteve do meu
lado, me ajudando, enfrentando tudo comigo. E olha que a gente
enfrentou coisa.

BALBINA — Enfrentou sim.

ZULMIRA SEGURA AS MÃOS DE BALBINA E ENCARA A AMIGA.

ZULMIRA — Vou precisar muito de você agora.

BALBINA — Ocê sabe que pode contá comigo.

ZULMIRA — Sei. E eu preciso muito que você faça uma coisa pra mim.

BALBINA — Que coisa?

ZULMIRA — Eu vou lhe dizer. Preste muita atenção.

ZULMIRA COMEÇA A FALAR COM BALBINA FORA DO AÚDIO.

CORTA PARA:

CENA 03. DIVINÉIA. EXTERIOR. TARDE

Sonoplastia: “DIVINÉIA” – EUSTÁQUIO SENA. TOMADA MOSTRANDO O MOVIMENTO
NA PRAÇA. TERMINA MOSTRANDO A PREFEITURA.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 5

CORTA PARA:

CENA 04. PREFEITURA. SALA DO PREFEITO. INTERIOR. TARDE

BRENO ESTÁ FALANDO AO TELEFONE.

BRENO — Eu entendi, Vidigal! Eu entendi! Quem não tá entendendo é você!
Homem de Deus! Criatura, me ouça! Eu preciso que esse projeto seja
aprovado na câmara. (p) Preciso porque vai ser bom pra cidade! (p) Mas
é claro que vai! (p) Claro que você é contra! Você é da oposição! (p) Ah,
não vai concordar? Vai barrar? Não têm problema! Eu faço uma medida
provisória! (p) Mas é claro que faço! Se o Presidente pode fazer lá em
Brasília, eu também faço aqui em Divinéia!

ADALGISA ENTRA E PARECE UM POUCO AFLITA PARA FALAR COM BRENO.

BRENO — Não acredita? Então pode esperar! Segunda eu tô mandando essa
medida. (p) Passe bem!

BRENO DESLIGA O TELEFONE.

BRENO — Ele vai ver se eu faço! Afinal de contas eu sou ou não sou o prefeito
dessa joça?

ADALGISA — Prefeito, eu tenho um recado urgente pro senhor.

BRENO — Que recado? Se for problema nem me fala porque hoje eu tô
atravessado! É sábado, não era nem pra eu estar aqui. Aliás, a senhora
também não. Eu não vou pagar hora extra.

ADALGISA — Acho que é problema sim. Foi a sua mulher que ligou.

BRENO — E você ainda acha que é problema? Eu tenho certeza! Lourdes só me
liga pra trazer problema. O que foi dessa vez?

ADALGISA — Ela pediu pra eu lhe avisar que está levando a sua filha pro hospital.

BRENO — Pro hospital?! Como assim?

ADALGISA — Parece que a Camila... Está doente.

BRENO — Ah, não!

BRENO SAI CORRENDO.

CORTA PARA:

CENA 05. HOSPITAL. SAGUÃO. INTERIOR. TARDE
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 6

O HOSPITAL ESTÁ CHEIO. CHICA E NARA AJUDAM AS ENFERMEIRAS. LOURDES
ENTRA, TRAZENDO CAMILA. A MENINA ESTÁ MUITO FRACA.

LOURDES — Alguém me ajuda aqui, por favor!

CHICA VAI ATÉ LOURDES E CAMILA.

CHICA — O que foi, dona Lourdes?

LOURDES — É a minha filha, Chica! Ela não está nada bem. Eu acho... Eu acho
que ela está doente também.

CHICA — Vixi Maria!

LOURDES — O Doutor Pirillo precisa examinar a minha Camila! Pelo amor de
Deus, Chica!

CHICA — Carma, dona Lourdes. A senhora num fica nervosa. Senta ali com a
menina que assim que ele pudê, já lhe atende.

CHICA LEVA LOURDES E CAMILA PARA UM CANTO E A MENINA SE SENTA.

LOURDES — Fica aqui, minha filha. O médico já vai lhe atender.

CAMILA — Meu corpo tá doendo, mãe.

LOURDES — Ô meu amor. Aguenta um pouquinho. Já, já ele lhe atende. Espera um
pouquinho aqui.

LOURDES PUXA CHICA PARA OUTRO LADO.

LOURDES — Chica, pelo amor de Deus! Não pode acontecer nada com a minha
filha!

CHICA — Dona Lourdes, num adianta a senhora ficá nervosa assim. Essa doença
pode sê perigosa, mas também pode num sê nada. Têm um bando de
gente que já melhorô.

LOURDES — Eu sei, mas o filho do seu Olavo...

CHICA — Foi só ele, dona Lourdes! Num adianta fica colocano minhoca na
cabeça! Senta lá do lado da sua menina e fica com ela. Eu vô lá dentro
falá com o doutor.

LOURDES — Você tá certa, Chica. Eu... Eu é que estou muito nervosa. Vendo
chifre em cabeça de cavalo. Vou ficar com a Camila.

CHICA — Faz isso.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 7

LOURDES VAI SE SENTAR AO LADO DE CAMILA.

CHICA — É. Doença num escolhe rico nem pobre. Pega todo mundo.

CORTA PARA:

CENA 06. FAZENDA DE HEITOR. SALA. INTERIOR. TARDE

BÁRBARA ESTÁ DEITADA NO SOFÁ LENDO UMA REVISTA. ANDRÉ ENTRA.

BÁRBARA — Mas olha só! Quem é vivo sempre aparece.

ANDRÉ — Aparece nesse estado aqui. Parecendo um zumbi.

ANDRÉ SE SENTA.

ANDRÉ — Fiquei a noite toda acordado. Não consegui pregar o olho.

BÁRBARA — Em hospital, quem consegue?

BÁRBARA SE SENTA.

BÁRBARA — E o seu pai? Como é que ele está?

ANDRÉ — Todo arrebentado. Mas pelo que o médico falou, ele vai melhorar.

BÁRBARA — Que bom.

ANDRÉ — Me deu uma pena dele. Um homem daquela idade apanhar assim.
Covardia!

BÁRBARA — E o delegado disse o quê?

ANDRÉ — Delegado?

BÁRBARA — Claro! Vocês deram queixa, não deram?

ANDRÉ — Não.

BÁRBARA — Como não, André?! Surraram o coitado do velho! A polícia precisa
saber! Precisa descobrir quem fez essa barbaridade!

ANDRÉ — Isso nem passou pela minha cabeça. Eu fiquei tão sem saber o que
fazer.

BÁRBARA — Tudo bem. É compreensível. Mas agora que o susto já passou, você
precisa correr atrás disso. Até porque, quem bateu nele pode querer bater
de novo.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 8

ANDRÉ — É. Você têm razão. Eu vou falar com o delegado. (p) Mas antes eu
precisava descansar um pouco.

BÁRBARA — Tá com fome? Quer que eu peça pra Rita esquentar o almoço?

ANDRÉ — Não, obrigado. Só quero tomar um banho e dormir um pouco mesmo.

BÁRBARA — Faz isso. Depois, se você quiser, eu te acompanho até a delegacia.

ANDRÉ — Valeu.

ANDRÉ SE LEVANTA.

ANDRÉ — E cadê o Diogo e a Eduarda?

BÁRBARA — Saíram. Foram na fazenda de um tal coronel aí.

ANDRÉ — Coronel?

BÁRBARA — É. Nem adianta me perguntar o nome do infeliz que eu não vou
lembrar. (p) E eu fiquei aqui, abandonada na imensidão do agreste.

ANDRÉ SORRI.

ANDRÉ — Se ligarem do hospital você me chama?

BÁRBARA — Chamo sim. Pode ir descansar.

ANDRÉ VAI PARA O QUARTO

BÁRBARA — E eu continuo aqui, abandonada, sem nada pra fazer. Onde é que eu
tava com a cabeça quando resolvi vir pra cá? Bárbara, sua cabeça não
anda nada boa.

CORTA PARA:

CENA 07. HOSPITAL. SAGUÃO. INTERIOR. TARDE

HOSPITAL CHEIO. CHICA E NARA ATENDENDO AS PESSOAS JUNTO COM AS
ENFERMEIRAS. CAMILA E LOURDES ESTÃO SENTADAS EM UM CANTO. BRENO
ENTRA AGITADO.

BRENO — Cadê a minha filha? Aonde é que está a minha filha?

CHICA — Prefeito?

BRENO VÊ LOURDES E CAMILA E VAI ATÉ ELAS.

BRENO — O que tá acontecendo, Lourdes?!
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 9

LOURDES — Tá acontecendo que a Camila não tá bem. Trouxe correndo aqui pro
hospital!

BRENO — Filha, o que você tá sentindo? Fala aqui pro pai.

CAMILA — Dor no corpo, na cabeça.

BRENO — Será que não é... Gripe?

LOURDES — Não sei, mas com tudo que ta acontecendo, é melhor prevenir.

BRENO — E o médico? O que foi que ele disse?

LOURDES — Doutor Pirillo ainda não atendeu a gente.

BRENO — Como não! E ele tá fazendo o quê?

CHICA SE APROXIMA.

CHICA — Tá cuidando de todo o resto que chegou antes. Se o senhor tivesse
liberado dinheiro pra contratá mais médico, a coisa num tava desse jeito.

BRENO — Você não vai querer ficar me cobrando agora, não é, Chica Martins?!

CHICA — Só tô lhe respondeno o que o senhor perguntô.

BRENO — Eu vou lá dentro falar com ele! Minha filha não pode ficar esperando.
Ela precisa ser atendida agora!

BRENO VAI ENTRAR NA SALA, MAS VÁRIAS PESSOAS QUE ESTÃO ESPERANDO
PARA SEREM ATENDIDAS SE COLOCAM NA FRENTE DELE, COM CARA DE POUCOS
AMIGOS.

BRENO — Vocês saiam da minha frente! Eu preciso passar.

MULHER — Têm que passá pra quê?

HOMEM — Ocê num tá vendo que ele qué furá a fila? Tá quereno passá a nossa
frente!

MULHER 2 — Aqui o senhor num passa!

BRENO — Vocês não entenderam! A minha filha está doente! Ela precisa ser
atendida pelo médico!

HOMEM — Os filho de todo mundo aqui tá do memo jeito. Ela num é melhor que
ninguém. Se nóis tá esperano, ela espera também!

BRENO — Eu não vou ficar aqui batendo boca com vocês! Eu vou entrar nessa
sala e ninguém vai me impedir!
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 10

HOMEM — Isso é o que nóis vai vê.

QUATRO HOMENS E DUAS MULHERES COMEÇAM A ANDAR NA DIREÇÃO DE BRENO
QUE, ASSUSTADO, RECUA.

BRENO — Vocês... Vocês não podem fazer isso! Eu sou o prefeito!

MULHER — Ele que é o curpado!

BRENO — Culpado?

MULHER 2 — É isso memo! A curpa é dele de num tê médico!

BRENO — Calma, minha gente!

MULHER — Calma nada! As pessoa tão morrendo por curpa dele!

CORTE PARA CHICA, LOURDES E CAMILA.

LOURDES — Isso não vai acabar bem! Eles estão cercando o Breno!

CHICA — Seu prefeito perdeu uma boa oportunidade de ficá quieto!

LOURDES — Pelo amor de Deus, Chica! Faça alguma coisa! Eles lhe ouvem! Eles
vão matar o Breno!

CHICA — A senhora tá certa.

CHICA SE COLOCA ENTRE BRENO E AS PESSOAS.

CHICA — Vamo acabá com essa zona aqui no hospital?!

HOMEM — Ocê saia da frente, Chica! Nós vai pegá esse mardito! Isso tudo aqui é
curpa dele!

CHICA — Ocês num vai pegá ninguém!

MULHER — Ele vai tê o que merece!

CHICA — Ah é? Então tá bão! Então pode vir! Só que antes ocês vão tê que
passá por mim!

AS PESSOAS FICAM OLHANDO SURPRESAS PARA CHICA.

CHICA — E aí? Quem é o primeiro? Tô esperano?

CORTA PARA:

CENA 08. DIVINÉIA. PRAÇA. EXTERIOR. TARDE
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 11

Sonoplastia: “DIVINÉIA” – EUSTÁQUIO SENA. HILDA CRUZA A PRAÇA. ALGUMAS
PESSOAS A CUMPRIMENTAM E ELA APENAS RESPONDE COM UM ACENO FRIO DE
CABEÇA. CAMINHA ATÉ ENTRAR NA IGREJA.

CORTA PARA:

CENA 09. IGREJA. INTERIOR. TARDE

PADRE LUÍS ESTÁ TROCANDO AS FLORES DO ALTAR. HILDA ENTRA, FAZ O SINAL
DA CRUZ E SE APROXIMA DO PADRE.

HILDA — Boa tarde, Padre.

PADRE LUÍS SE VIRA E VÊ HILDA.

PADRE — Dona Hilda! Eu não a vi entrar.

HILDA — Percebi. Será que nós podemos conversar?

PADRE — Claro. Vamos até a sacristia.

HILDA E O PADRE VÃO PARA A SACRISTIA.

CORTA PARA:

CENA 10. IGREJA. SACRISTIA. INTERIOR. TARDE

HILDA E O PADRE ENTRAM.

PADRE — Por favor, sente-se.

HILDA — Muito obrigada.

OS DOIS SE SENTAM.

PADRE — Aqui nós podemos conversar melhor. No que eu posso lhe ajudar?

HILDA — Me ajudar? Em nada. Eu não sou uma mulher que precise de ajuda.
Eu só quero que o senhor me esclareça uma coisa.

PADRE — Claro. Pois não. Que coisa?

HILDA — Eu quero saber o motivo de eu não ter mais sido chamada pras
reuniões sobre a quermesse.

PADRE — Reuniões? Eu não estou entendendo. A senhora participou de todas.

HILDA — Então quer dizer que... Nós estamos há dias sem ninguém mover uma
palha pela festa da Santa?
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 12

PADRE — Dona Hilda, a cidade está passando por uma crise. Uma epidemia.
Quase todas as famílias têm uma pessoa doente. Ninguém está com
cabeça pra pensar na quermesse.

HILDA — Isso é um absurdo, Padre! Quer dizer então que porque meia dúzia de
mortos de fome ficaram doentes, a nossa festa mais tradicional vai ser
esquecida?

PADRE — Não é bem assim.

HILDA — É claro que é! Faltam pouco mais de duas semanas pra quermesse. Se
o senhor não têm competência pra cuidar de tudo, então deixe na minha
mão. Lhe garanto que a Santa vai ter a festa mais bonita que já fizeram
em sua homenagem!

PADRE — Mas dona Hilda, as pessoas...

HILDA — As pessoas ficam doentes e morrem. Acontece. A vida é assim. Ainda
mais esses miseráveis. Não podem pegar uma gripe que já começam a
cair pelos cantos. São uns encostados, isso sim!

HILDA SE LEVANTA.

HILDA —Já que o senhor não vai fazer nada mesmo, então pode deixar tudo por
minha conta. Enquanto os outros se preocupam com os descamisados, eu
vou tratar do que é importante. Passar bem.

HILDA SAI.

CENA 11. HOSPITAL. SAGUÃO. INTERIOR. TARDE

CONTINUAÇÃO DA CENA 07. CHICA ENTRE O PREFEITO E A POPULAÇÃO.

CHICA — E aí? Tô esperano! Quem é que vai sê o primeiro?

MULHER — Num acredito que ocê tá do lado do prefeito! Tá defendeno esse
traste!

CHICA — Se eu tivesse do lado dele, a essa hora tava tratando da minha vida! Já
faz dia que eu tô aqui enfiada nesse hospital só pra ajudá! Ocês larga a
mão de sê malagradicido! (p) Só tô dizeno que isso aqui num é hora e
nem lugar pra esse tipo de coisa! O hospital tá cheio de doente, inclusive
os parente de ocês. Chega de confusão! Num têm médico, num têm
enfermeira suficiente e agora ocês vão querê arrumá uma briga aqui
dentro?! Pensa bem no que ocês tão fazeno! (p) Num tô defendendo esse
traste aqui não! Mas o jeito que ocês têm de dá uma lição nele e num
votá no infeliz nas próxima eleição!
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 13

BRENO — Chica!

CHICA — Mas o pior é que quando chega o dia, ocês esquece de tudo e vota
nele de novo!

HOMEM 2 — Chica tá certa. Agora num é hora pra isso. Vamo respeitá os doente.

AS PESSOAS, AINDA UM POUCO CONTRARIADAS, VOLTAM PARA OS SEUS
LUGARES.

BRENO — Obrigado, Chica. (p) Mas não precisava ter falado daquele jeito das
eleições.

CHICA — Ah é? Então se o senhor quisé, eu chamo eles aqui de novo. Tão
doido pra tê uma conversinha de pé de ouvido com o senhor!

BRENO — Não! Não! É melhor não!

LOURDES SE APROXIMA.

LOURDES — Breno, escuta a Chica. Fica quieto e vamos sentar ali no nosso canto.
É melhor. Daqui a pouco o Doutor Pirillo nos atende. Chica, muito
obrigado.

LOURDES E BRENO SE SENTAM PERTO DE CAMILA. NARA SE APROXIMA DE CHICA.

NARA — Ocê devia de tê deixado eles darem uma surra nesse infeliz. Era o que
ele merecia.

CHICA — Até ocê, Nara? Em vez de me ajudá, fica botando lenha na fogueira?

NARA — Eu num disse nada na hora.

CHICA — Mas também num fez nada pra segurá esse povo! Se num fosse eu, a
coisa ia tê ficado feia aqui!

NARA — Cada um faz o seu caminho nessa vida. Prefeito Breno fez o dele.
Vim falá com ocê porque preciso i embora.

CHICA — Mas agora, Nara? Isso aqui tá tão cheio de gente.

NARA — Eu sei, mas tenho que resorve umas coisa minha. Eu vorto depois.

CHICA — Tá certo. Vai tratá da sua vida. Pode deixá que eu fico aqui, mas por
favor, ocê vorta memo.

NARA — Vorto sim. Inté depois.

NARA SAI.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 14

CHICA — Chica Martins, ocê é memo uma besta! Se vivesse em outro lugar
num tava passando por isso agora! Eu devia era me candidatá a prefeita!
(p) Deus que me livre! Vai que eu ganho?! Mais quatro ano nessa cidade
e eu morro!

CHICA VOLTA A ATENDER AS PESSOAS.

CORTA PARA:

CENA 12. HOSPITAL. EXTERIOR. TARDE

NARA SAI DO HOSPITAL E VAI EM DIREÇÃO À SUA CHARRETE. HILDA VÊM
ANDANDO PELA PRAÇA, VÊ A ÍNDIA E VAI ATÉ ELA.

HILDA — Nara!

NARA SE VIRA E VÊ HILDA.

HILDA — Tinha certeza que você também estava metida nesse hospital. Está
doente também, ou apenas ajudando os mortinhos de fome?

NARA — Tô ajudando as pessoa. Mas a senhora num sabe o que é isso.

HILDA — Que pena. Deus poderia ser bom pra mim. Em vez de ajudar, você
poderia estar doente. Aliás, índio está sempre doente. Eu particularmente
acho que isso é desculpa pra não trabalhar. Sempre achei que a sua raça
não gostava muito do trabalho.

NARA — Que eu saiba, de nóis duas, a que nunca trabalhô foi a senhora.

HILDA SORRI PARA NARA.

HILDA — Continua com o nariz em pé, não é, índia? A mesma arrogância. O
mesmo orgulho.

NARA — A senhora têm arguma coisa pra falá comigo? Se num tivê, eu vô
segui meu caminho porque tenho coisa pra fazê.

HILDA SE APROXIMA DE NARA. ESTÁ SÉRIA.

HILDA — Você sabe que eu tenho um assunto pra tratar com você. E também
sabe muito bem qual é.

NARA — Não sei... Não sei do que a senhora tá falando.

HILDA — Não se faça de boba, bugra! Eu estou falando da Bárbara.

NARA ENCARA HILDA.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 15

NARA — O que é que têm a minha filha?

HILDA — Você já deve saber que ela está na cidade.

NARA — Sei sim.

HILDA — Eu vou lhe dizer apenas uma vez. Nem pense em se aproximar dela.
Nem pense em contar a verdade pra Bárbara.

NARA — Era o que eu devia de fazê! Ocês tiraram a minha filha de mim!
Enganaram ela! Contaram um monte de mentira. Ela têm o direito de
sabê que a mãe tá viva, que tá aqui! Têm direito de sabê que a mãe sou
eu!

HILDA — Índia, não faça isso.

NARA — E me dá um motivo pra eu num fazê.

HILDA — Se você ousar se aproximar da Bárbara, eu mando acabar com a sua
raça. E eu não estou brincando! Mando lhe matar da mesma forma que
mandei há mais de vinte anos!

NARA FICA SURPRESA.

HILDA — Tá lembrada do incêndio na sua tapera? Infelizmente o Juliano lhe
tirou de lá. Mas eu garanto que isso não vai acontecer de novo. Se eu
precisar tomar alguma atitude contra você, dessa vez ninguém vai lhe
ajudar. Eu não erro duas vezes, bugra.

NARA — Então foi a senhora memo? Eu sempre suspeitei.

HILDA — Pois agora você têm certeza. Eu não brinco, Nara. Se eu digo que
mando lhe matar é porque mando mesmo. Não pague pra ver.

HILDA VAI EMBORA. NARA COMEÇA A CHORAR DE RAIVA. FALA CONSIGO MESMA.

NARA — Véia mardita. Cobra! Assassina!

NARA MONTA EM SUA CHARRETE E VAI EMBORA.

CORTA PARA:

CENA 13. CASA DE HILDA. SALA. INTERIOR. TARDE

HILDA ENTRA NERVOSA. MUNDICA VAI ATÉ ELA.

MUNDICA — Que bão que a senhora chegou. Eu queria lhe perguntá do jantar.

HILDA — Agora não, Mundica.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 16

MUNDICA — Mas é que eu preciso...

HILDA — Agora não! Não me ouviu falar, criatura lesa! Saia daqui! Me deixe
sozinha!

MUNDICA — Sim... Sim senhora.

MUNDICA SAI APRESSADA. HILDA SE SENTA.

HILDA — Tenho certeza de que essa... Nara ainda vai me criar muitos
problemas. Ah, Heitor, maldita a hora em que você se deitou com a
bugra. Maldita a hora!

CORTA PARA:

CENA 14. FAZENDA DE ARTHUR. SALA. INTERIOR. TARDE

DIOGO, EDUARDA, ARTHUR E ISABEL ESTÃO DE PÉ. O CASAL ACABOU DE CHEGAR.

ARTHUR — Então você é o famoso Diogo Azulão?

DIOGO — Eu sou o Diogo Azulão, mas não sabia que era famoso.

ARTHUR ESTENDE A MÃO PARA DIOGO, QUE O CUMPRIMENTA.

ARTHUR — Coronel Arthur Braga. Um seu criado.

DIOGO — Acho que o senhor e a Eduarda já se conhecem.

ARTHUR — Já sim. Ela falou comigo lá na fazenda. Um encanto de moça. Como
vai?

EDUARDA — Muito bem.

ARTHUR — Mas vamo sentá. Vocês por favor, fiquem à vontade.

EDUARDA, DIOGO E ARTHUR SE SENTAM.

ARTHUR — Isabel, você providencia uns petiscos pra gente. Um bolo, um suco.
Capricha lá na cozinha.

ISABEL — Sim senhor. Com licença.

ISABEL SAI.

DIOGO — Nós não queremos dar trabalho.

ARTHUR — Trabalho nenhum. Na verdade isso é hábito da gente aqui de Divinéia.
Não pode aparecer visita em casa que nós enchemo o pobre de comida.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 17

TODOS RIEM.

ARTHUR — Lembro muito pouco de você. Tenho uma imagem sua e do Pedro, os
dois bem pequenos, passeando com seu pai na praça.

DIOGO — Isso faz tempo.

ARTHUR — Bastante. Lembro muito do seu pai também. Era um homem muito
sério, muito respeitado. Meu pai elogiava muito ele. Admirava de
verdade. Uma pena tudo o que aconteceu.

DIOGO — Foi. Eu também me lembro um pouco do senhor.

ARTHUR — Que senhor? A gente tem quase a mesma idade. Pode me chamar de
Arthur, de você.

DIOGO — Eu me lembro de você. Também não lembro muito. Pouca coisa.
Acho que a gente se encontrava mais quando tinha festa na cidade ou no
domingo, na praça.

ARTHUR — É isso mesmo. (p) Seu irmão deve de tê ficado muito contente de lhe
ver.

DIOGO — Eu ainda não me encontrei com o Pedro.

ARTHUR — Não?

DIOGO — Não. Na verdade ele nem sabe que eu estou aqui em Divinéia. Meu
irmão está viajando. Uma viagem de trabalho.

ARTHUR — Entendi. Bom, logo ele deve estar de volta. (p) Faz muito tempo que
vocês não se vêem?

DIOGO — Dezessete anos.

ARTHUR — Faz tempo. Acho que você vai ficar surpreso quando encontrá com
ele.

DIOGO — Por quê?

ARTHUR — Se eu falar, acaba a surpresa. Mas acho que você vai gostar. Gosto
muito do Pedro. Ele é uma ótima pessoa.

EDUARDA — O Diogo ficou muito curioso quando eu disse que o senhor...

ARTHUR — Senhor, não.

EDUARDA — Quando eu disse que você tinha procurado por ele.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 18

ARTHUR — Eu imagino. Bom, em primeiro lugar eu fui mesmo pra dar as boas
vindas. Fui cumprir o meu papel de bom vizinho que eu sou. (p) Mas eu
não vou lhe mentir. Eu tenho um assunto pra tratar com você. Na
verdade não é bem com você, é com o Heitor, mas como ele quase não
têm aparecido por aqui, acho que você pode me ajudar.

DIOGO — Se estiver ao meu alcance.

EDUARDA — Se quiserem que eu saia pra vocês conversarem melhor...

DIOGO — Depende do Arthur.

ARTHUR — Eu acho que seria deselegante da minha parte lhe pedir isso, Eduarda.

EDUARDA SE LEVANTA.

EDUARDA — Deselegância nenhuma. Eu entendo que o assunto seja particular.
Quem sabe eu não posso ir até a cozinha e ajudar a sua governanta com o
nosso lanchinho?

ARTHUR — Você não se incomoda mesmo?

EDUARDA — É claro que não.

EDUARDA APONTA PARA A PORTA QUE LEVA À COZINHA.

EDUARDA — É por ali, não é.

ARTHUR — É sim.

EDUARDA — Fiquem à vontade.

ARTHUR — Muito obrigada.

EDUARDA SAI.

ARTHUR — Agora que estamos só nós dois, eu posso falar mais à vontade. (p)
Diogo eu gostaria muito de saber a quantas anda a história da construção
da tal da hidrelétrica aqui em Divinéia.

DIOGO FICA OLHANDO PARA ARTHUR.

CORTA PARA:

CENA 15. FAZENDA DE ARTHUR. COZINHA. INTERIOR. TARDE

IVONE ESTÁ PREPARANDO O LANCHE SOB A SUPERVISÃO DE ISABEL.

IVONE — Ainda bem que a gente sempre têm um bolinho saído do forno aqui na
fazenda.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 19

ISABEL — E o suco?

IVONE — Faço num minuto.

EDUARDA ENTRA.

EDUARDA — Dá licença?

ISABEL — Pois não? A senhora precisa de alguma coisa?

EDUARDA — Não. O assunto que eles têm a tratar é particular. Vim até aqui ver se
vocês não precisam de ajuda.

ISABEL — Não. Não é necessário.

EDUARDA — Mas eu posso ficar aqui com vocês?

ISABEL — Claro. Por favor.

EDUARDA SE SENTA.

EDUARDA — Isabel o seu nome, não é.

ISABEL — Isso.

IVONE — A senhora aceita um pedacinho de bolo?

EDUARDA — Aceito, sim.

IVONE SERVE O BOLO PARA EDUARDA.

EDUARDA — E o seu nome?

IVONE — Meu?

EDUARDA — É. Qual é o seu nome?

IVONE — É Ivone.

EDUARDA COME UM POUCO DO BOLO.

EDUARDA — Que delícia. Foi você quem fez?

IVONE — Fui sim senhora.

EDUARDA — Tá de parabéns. Já percebi que seu eu ficar muito tempo aqui em
Divinéia vou sair rolando de gorda. Todo mundo cozinha bem aqui.

ISABEL — É um hábito nas fazendas. Ivone têm uma mão ótima.

EDUARDA — Deu pra perceber.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 20

IVONE — O refresco já vai sair num minuto.

QUEBRA-GALHO ENTRA.

QUEBRA — Dá licença.

ISABEL — O que foi, Quebra-Galho?

QUEBRA — A senhora me descurpa, dona Isabel, mas aquele home tá aí de novo.

ISABEL — Que homem?

QUEBRA — Aquele que queria falá com o Coroné. (p) O da menina.

ISABEL — Ah. Diga que eu já vou atendê-lo.

QUEBRA — Sim senhora. Dá licença.

QUEBRA-GALHO SAI.

ISABEL — Dona Eduarda, se a senhora me der licença, eu preciso resolver um
probleminha com um empregado.

EDUARDA — Fique à vontade.

ISABEL SAI ATRÁS DE QUEBRA-GALHO.

EDUARDA — Você trabalha aqui há quanto tempo?

IVONE — Desde que eu era pequena. Meu pai era colono. Aí eu fui ficando.
Aprendi o serviço aqui, depois me casei.

EDUARDA — Você é casada?

IVONE — Sou sim. Com Quebra-Galho.

EDUARDA — Como é?

IVONE — Quebra-Galho. Esse que veio aqui chamá dona Isabel.

EDUARDA — Mas Quebra-Galho é apelido, não é?

IVONE — É Sim. O nome dele é Romildo. Chamam de Quebra-Galho porque
ele tá sempre se metendo a fazê as coisa. Tá sempre quebrando o galho
dos outro.

EDUARDA — Ele me pareceu ser uma boa pessoa.

IVONE — É sim. Eu brigo com ele, mas é um bom marido. Um bom pai.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 21

EDUARDA — Quantos filhos você têm?

IVONE — Três. Duas menina e um menino. (p) A senhora vai achá os nome
deles engraçado.

EDUARDA — Por quê?

IVONE — Coisa de Quebra-Galho. Eu queria dá nome normal, mas ele cismou.
Meu marido adora tudo que é meio de transporte.

EDUARDA — Quais os nomes? Prometo que não vou rir.

IVONE — Todo mundo ri. Vô falá. As menina são Estrada de Ferro e Rodoviária
e o menino é Ônibus.

EDUARDA QUASE RI, MAS SE SEGURA.

EDUARDA — Estrada de Ferro, Rodoviária e Ônibus?

IVONE — Eu sei que eu num devia de tê deixado. Só que Quebra-Galho fica
azucrinando quando qué uma coisa. Mas as criança num liga não. Elas
tão acostumada. E afinar de conta, o que interessa num é o nome e sim o
que a pessoa é, a senhora num acha?

EDUARDA — Acho sim, Ivone. (p) Gostei de você.

IVONE — Também gostei da senhora. Uma moça bonita, conversadêra. Aqui eu
quase num tenho com quem falá. Dona Isabel quase num abre a boca.

EDUARDA — Ela é séria, não é?

IVONE — Bota séria nisso. Pronto. O refresco tá pronto. Vô servi pra senhora.

EDUARDA — E enquanto eu como esse bolo aqui e tomo o refresco a gente fica
papeando.

IVONE — Sim senhora.

IVONE SERVE O SUCO PARA EDUARDA ENQUANTO AS DUAS CONVERSAM
ANIMADAS, FORA DO ÁUDIO.

CORTA PARA:

CENA 16. FAZENDA DE ARTHUR. EXTERIOR. TARDE

QUEBRA-GALHO ESTÁ CONVERSANDO COM UM HOMEM. ISABEL SE APROXIMA.

ISABEL — Pode ir, Quebra-Galho. Deixa que eu cuido disso.

QUEBRA — Licença.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 22

QUEBRA-GALHO VAI EMBORA.

HOMEM — Não sei se a senhora tá lembrada de mim.

ISABEL — Eu sei quem é o senhor. Nós nos falamos ontem. Eu fiquei de
conversar com o Coronel sobre a sua filha.

HOMEM — É isso memo.

ISABEL — O Coronel hoje anda muito ocupado. Não vai poder lhe ajudar. Mas o
senhor pode passar daqui há uns dois ou três dias. Até lá pode ser que ele
consiga arranjar tempo e... Ajude a sua menina.

HOMEM — Dois ou três dia?

ISABEL — Isso. Volte entre segunda e terça-feira e me procure.

HOMEM — Sim senhora. Muito obrigado. Muito obrigado mesmo.

O HOMEM VAI EMBORA ENQUANTO ISABEL O OBSERVA COM ALTIVEZ E
DESPREZO.

CORTA PARA:

CENA 17. FAZENDA DE ARTHUR. SALA. INTERIOR. TARDE

ARTHUR E DIOGO CONVERSAM SENTADOS.

ARTHUR — E a minha preocupação é essa, Diogo. Eu tenho aqui as minhas terra,
minha fazenda. Minha família tá aqui desde antes do meu avô. Mais ou
menos que nem a sua. O que eu quero saber é qual é o meu risco nessa
história da tal da hidrelétrica. Porque eu entendo que o país precisa de
energia, que isso vai trazê progresso pra região, que vai acabar com a
sêca, entendo tudo isso. Agora, o que não pode, é eu sair prejudicado.
Ocê tá compreendendo o meu ponto de vista, não tá?

DIOGO — Claro.

ARTHUR — O que eu queria mesmo era falar com o Heitor, mas essas coisas não
dá pra gente discutir por telefone. Ainda mais que ainda não é hora de
ninguém ficá sabendo de nada. Então, quando me disseram que você tava
por aqui, resolvi lhe procurar. Ainda mais que eu sei que você é
engenheiro. Sei também que Heitor lhe quer tocando esse projeto.
Ninguém melhor do que você pra me tirar essas dúvidas.

DIOGO — Arthur, eu acho que, infelizmente, não vou poder lhe ajudar.

ARTHUR — Não?
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 23

DIOGO — Não. Na verdade eu nem sei se vou trabalhar na construção da
hidrelétrica. O meu tio quer muito isso, mas ainda não me decidi. É uma
excelente oportunidade, vai ser ótimo pra minha carreira, mas... Mas eu
ainda não sei se é o certo à fazer.

ARTHUR — Eu pensei que você tinha voltado aqui pra Divinéia por causa disso.

DIOGO — Não. Eu vim mesmo pra rever o meu irmão. Claro que o meu tio
pediu pra eu sondar um pouco, observar, fazer uma análise, mas tudo de
forma superficial. Acho que a única pessoa que pode mesmo responder
às suas perguntas é o meu tio.

ARTHUR FICA UM POUCO DECEPCIONADO.

ARTHUR — Você acabou de quebrar as minhas pernas. Tava certo que podia me
ajudar.

DIOGO — Eu sinto muito.

ARTHUR — Não têm problema. Paciência. É que, como você deve imaginar, esse
assunto tá martelando na minha cabeça. E não é só na minha não. Na do
prefeito, do presidente da câmara. É uma coisa muito séria. Vai mudar a
vida de todo mundo.

DIOGO — Eu entendo. Talvez fosse melhor o senhor dar um pulo em São Paulo
e falar diretamente com o meu tio. Tenho certeza de que ele vai ter o
maior prazer em lhe receber.

ARTHUR — É. Talvez eu faça isso mesmo.

ARTHUR SORRI PARA DIOGO.

CORTA PARA:

CENA 18. SÃO PAULO. EXTERIOR. TARDE

Sonoplastia: “AMARGO” – ZECA BALEIRO. TOMADAS MOSTRANDO A CIDADE DE
SÃO PAULO.

CORTA PARA:

CENA 19. APARTAMENTO DE HEITOR. QUARTO DO CASAL. INT. TARDE

HEITOR ESTÁ COLOCANDO ALGUNS DOCUMENTOS EM SUA PASTA DE TRABALHO.
BRUNO BATE NA PORTA E ENTRA.

BRUNO — Vim correndo, do jeito que você mandou.

HEITOR — Fecha a porta e senta aqui que é coisa importante.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 24

BRUNO FAZ O QUE HEITOR MANDA.

BRUNO — Pode falar.

HEITOR — Tô indo pra Brasília agora. O Deputado me ligou.

BRUNO — Então... A coisa tá bem adiantada pro nosso lado?

HEITOR — Não sei. Ele não me falou nada pelo telefone. Pediu apenas que eu
fosse me encontrar com ele lá. Eu já havia programado essa viagem, mas
não pra hoje.

BRUNO — Então a notícia deve ser boa.

HEITOR — Eu espero que sim. (p) O meu medo é que entre outra construtora no
páreo. Já gastei dinheiro demais com esse projeto pra morrer na praia.

BRUNO — Bom, é um risco que você sabia que estava correndo desde o início.
Calculado.

HEITOR — É. Eu sei.

HEITOR APANHA UM ENVELOPE E ENTREGA A BRUNO.

HEITOR — Eu acho que na segunda feira já estou aqui, mas caso não esteja, têm
algumas coisas pendentes e que eu preciso que você resolva.

BRUNO — Pode deixar.

HEITOR — Têm uma reunião com os investidores do shopping center. Eu queria
que você me substituísse. Eu sei que você tá por dentro do projeto, mas
aí nessa pasta têm algumas informações complementares que eu preciso
que você leia antes da reunião.

BRUNO — Fique tranqüilo. Eu resolvo tudo.

HEITOR OLHA O QUARTO, COMO SE CERTIFICASSE DE QUE NÃO ESQUECEU NADA.

HEITOR — Acho que não esqueci nada. Me leva até o aeroporto?

BRUNO — Claro.

HEITOR APANHA A MALA DE VIAGEM E A PASTA DE TRABALHO E OS DOIS SAEM.

CORTA PARA:

CENA 20. APARTAMENTO DE HEITOR. QUARTO DO CASAL. INT. TARDE

CELESTE E LEILA ESTÃO SENTADAS CONVERSANDO. HEITOR E BRUNO SAEM DO
QUARTO CONVERSANDO.
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 25

CELESTE — Já conversaram? Que rápido!

HEITOR — Eu só tinha que passar algumas instruções pro Bruno. Ele vai me
levar ao aeroporto. Acho que na segunda eu estou de volta. Vamos logo
que eu estou com pressa.

BRUNO — Até logo.

HEITOR E BRUNO VÃO EMBORA ENQUANTO CELESTE OLHA, ENTRE FRUSTRADA E
TRISTE.

CELESTE — Você viu só, Leila? Nem se despediu de mim direito. Nem um beijo.

LEILA — Você ainda não se acostumou com isso?

CELESTE — Não.

CELESTE SE SENTA.

CELESTE — Mas já deveria.

LEILA — Não é de hoje que o Heitor faz esse tipo de coisa.

CELESTE — Eu sou uma idiota mesmo. Fico achando que ele vai mudar. Mudar,
não. Que vai voltar a ser o que era.

LEILA — Esses tempos acabaram, meu bem. É melhor você colocar isso na
cabeça. O Heitor nunca mais vai ser como era antes de vocês se casarem.

CELESTE FICA COM UM OLHAR PERDIDO E TRISTE.

CORTA PARA:

CENA 21. FAZENDA DE HEITOR. EXTERIOR. TARDE

Sonoplastia: “AI QUEM ME DERA” – CLARA NUNES. NARA VEM ANDANDO ENTRE
OS ARBUSTOS, TOMANDO CUIDADO PARA NÃO SER VISTA. PÁRA ATRÁS DE UMA
ÁRVORE E FICA OLHANDO PARA A FAZENDA. ALGUNS SEGUNDOS DEPOIS,
BÁRBARA SAI NA VARANDA. FICA OLHANDO O CAMPO. NARA SE EMOCIONA. FICA
COM LÁGRIMAS NOS OLHOS.

NARA — É ela. É a minha filha. (p) Que moça mais bonita que ela ficou.
Bárbara. Minha filha Bárbara.

LUCENA — Tá fazeno o que aqui, índia?

NARA SE VIRA ASSUSTADA, DANDO DE CARA COM LUCENA. A CAM MOSTRA O
ROSTO DE SATISFAÇÃO DELE E DEPOIS CORTA PARA O DE APREENSÃO DELA. A
FOGO SOBRE TERRA Capítulo 22 Pag.: 26

IMAGEM CONGELA E SE TRANSFORMA EM UM MURO DE TERRA, QUE VIRA A
BARRAGEM DE UMA HIDRELÉTRICA.

FIM DO CAPÍTULO

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