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IDÉIAS

Misérias (e gr andeza) da filosofia

Um caminho para levar o pensamento crítico de filósofos realmente dignos desse nome ao grande público e resistir à
onipresença midiática de intelectuais de segundo escalão a serviço do poder

Michel Onfray

Depois do que atualmente se chama o fim dos grandes discursos – cristianismo, freudismo, marxismo, estruturalismo – e não
obstante sua pretensa morte, nunca a filosofia esteve tão bem. E, ao mesmo tempo, nunca esteve tão mal... Bem, porque, sem
descontinuar, esperam-se dela sentido, respostas a questões éticas e políticas, existenciais portanto: como pensar, viver e agir
sem referências transcendentais num mundo submetido unicamente às leis do mercado? Mal, porque, diante dessa demanda
generalizada, a oferta permite aos medíocres, aos comerciantes, aos cínicos, aos oportunistas passarem adiante uma série de
mercadorias de má qualidade.

Primeiro tempo: misérias da filosofia. Nesse universo tão implacável quanto os outros – o sábio nunca se separa de sua adaga e
de seus venenos! –, falsamente policiado, mas verdadeiramente brutal e selvagem, quem legitima o filósofo? Os estudos
universitários? O concurso de ingresso ao magistério de nível médio? O doutorado? O ensino da disciplina? Com certeza não,
pois haveria uma excessiva abundância. Um Michel-Edouard Leclerc, por exemplo, aluno de seu amigo Michel Serres, diplomado
pela Sorbonne, parece dificilmente merecer esse epíteto.

Linhagem existencial e linhagem de gabinete

Na Antigüidade, a coisa era simples: o filósofo vive como filósofo. A prova de sua essência? Sua existência. Vê-se, por seus
hábitos alimentares, pelo corte rente de seus cabelos ou por seus pelos hirsutos, por seu bastão, sua tigela, sua veste de linho
branco ou seus andrajos, que se está diante de um pitagórico, um estóico ou um cínico. Porque, nessa época, o termo filósofo
designa o indivíduo que põe em prática uma teoria que lhe permite alcançar a sabedoria – um estado de beatitude entre ele e
ele, entre ele e os outros, entre ele e o mundo.

O cristianismo oficial modificou a definição ao longo dos séculos. Ainda hoje, vivemos em parte sob o regime cristão. Este chama
de filósofo o personagem que coloca sua inteligência, seu saber, sua retórica e seu trabalho a serviço do poder instalado e forja
para o uso dos poderosos um arsenal conceitual que permite, em seguida, a legitimação política de sua ação. Durante séculos, a
filosofia funcionou como disciplina incestuosa e numa lógica de gabinetes. As pessoas se esforçavam para dissertar sobre o sexo
dos anjos, seu número e a disposição dos tronos no Paraíso, a excelência da guerra santa e justa, os fundamentos ontológicos
aristotélicos da transubstanciação e outras questões apaixonantes de um corpus escolástico que continua fascinando alguns
filósofos contemporâneos que têm o gosto dos sofismas e das retóricas abstrusas.

Ainda hoje, a filosofia é trabalhada por essas duas tradições: linhagem existencial e linhagem de gabinete. Os primeiros pensam
em função de uma salvação individual e visam a uma vida transfigurada, para além da vida mutilada da maioria das pessoas.
São filósofos 24 horas por dia e tentam fazer coincidirem seus pensamentos e suas ações. Os segundos refletem por outrem, os
outros, o mundo, e não aplicam necessariamente a si suas conclusões, e são, em contrapartida, muito hábeis em dar lições a
todo o planeta.

Epicuro e Heidegger

É difícil imaginar Epicuro sendo epicurista das 9 horas ao meio-dia, das 14 horas às 18 horas, tirando férias em agosto – onde?
Em Saint-Paul de Vence; ou aspirando à aposentadoria – para fazer o quê? Gerenciar suas ações na bolsa; preocupado em
preservar seus fins de semana – com que objetivo? Convidar seus amigos para irem a Marrakesh... Em compensação, não há
contra-indicação ao que Heidegger, em sua pequena cabana na floresta negra e, depois, na Universidade, explica à sombra dos
crematórios sobre o esquecimento do ser, o niilismo europeu, a restauração da metafísica, e depois denuncia colegas – Eduard
Baugmarten – ao NSDAP1 , com sua carteira do partido nazista no bolso. Os dois modos de ser são radicalmente antinômicos.

Em que ponto estão os filósofos hoje? Uns acreditam ainda nas potencialidades magníficas do Jardim, outros na convivência com
a época. Houve filósofos a soldo do Estado cristão, depois os famosos “idiotas úteis” à ideologia marxista-leninista, passando
pelos cúmplices dos poderes instalados – Platão e Denys, Voltaire e Frederico II, Carl Schmidt e Adolf Hitler, Jean Guitton e
Philippe Pétain, Alexandre Kojève e Antonio de Oliveira Salazar, Jean-Toussaint Desanti e Josef Stalin, Jacques Attali e François
Mitterrand etc.

Fratura recente

Uma parte das misérias da filosofia contemporânea decorre de um momento de fratura recente: 1977. Esta data permite, na
verdade, pensar os “novos filósofos” de outro modo que não como uma pura e simples moda midiática, o que se fez com
demasiada freqüência. É necessário reler ou ler os textos a fim de parar de reduzir esse tempo filosófico a uma história
recortada, de aparição de efebo no estúdio do programa Apostrophes ou de happening de um Maurice Clavel, autoproclamado
“jornalista transcendental” – muito jornalista mas, no todo, bem pouco transcendental..

Que diz esse momento dos “novos filósofos? Gilles Deleuze faz, em seu tempo, uma análise dessa máquina de guerra: nada de
livro, nada de idéias, mas uma orquestração midiática de amigos e malandros do meio parisiense das “pessoas de letras” para
debates televisionados.. A obra desses filósofos? Sua cena na telinha. Gilles Deleuze enganou-se ao acreditar que se tratava de
uma concha vazia. Aliás, será que se deu o trabalho de ler esses livros? Ele tinha mais o que fazer e ninguém o critica por isso.
Mas as três ou quatro obras que monopolizaram a crônica na época declaravam guerra à esquerda realmente de esquerda sob o
pretexto de que ela provinha de Marx, portanto de Lênin, portanto do Gulag. Para evitar o stalinismo na França, seriam
celebrados então novos ídolos: o advento de Tocqueville, a reabilitação de Raymond Aron, seguidos, mais tarde, por Marcel
Gauchet e consortes.

L’archipel du Goulag2, tão celebrado pelos “novos filósofos”, demonstrava, pois, que a esquerda francesa era perigosa! Jean-
Marie Benoist, professor assistente de Claude Lévi-Strauss, escreve Les Nouveaux primaires3, em 1978. A última capa esclarece:
“Simpatizante ativo dos novos filósofos”. Visitado pelo ímpeto que estimula Chateaubriand lutando contra Napoleão, o filósofo
disputa uma vaga de conselheiro geral no Val-de-Marne contra Georges Marchais. E perde...

A vitória dos “novos filósofos”

No entanto, os “novos filósofos” ganharam: seu ódio de uma esquerda verdadeira, a assimilação desta ao gulag, ao terrorismo,
ao stalinismo, portanto, in fine, ao nazismo, substituída por dois mandatos lamentáveis, para a esquerda, de um François
Mitterrand que, convertido ao liberalismo alguns meses após sua chegada ao poder, acelerou o movimento de decomposição.
Desde então, no Partido Socialista, a leitura de De la Démocratie en Amérique4 substitui a de Jaurès. Laurent Fabius instala-se
na cadeira de Léon Blum, cadeira que não acha suficientemente grande para si.

Trinta anos depois, o balanço é conhecido: desesperança política, abstencionismo recorde, oportunismo dos partidos que se
revezam no poder, violência urbana, aumento da delinqüência, desemprego exponencial, instabilidade do emprego exacerbada,
transferências de empresas para outros países, acompanhadas agora por ameaças patronais, retrocesso do social, racismo,
xenofobia, anti-semitismo, miséria social, sexual, mental, afetiva, triunfo da mediocridade mercantil nos canais de televisão e
entre um bom número de editores, desmembramento das políticas de saúde, de educação, de cultura etc. E presença de Jean-
Marie Le Pen no segundo turno da eleição presidencial.

Oferta débil para qualquer demanda

Surfando no mercado liberal, a filosofia tem também seus oportunistas: houve o que Daniel Accursi chama, em La Nouvelle
guerre des dieux5 , os “filósofos de sacristia” que atacavam o pretenso “pensamento 68”, fabricado inteiramente com um pouco
de leituras mal feitas e muita má-fé, para tentar ocupar o lugar deixado vago no mercado midiático pela explosão da Nova
filosofia, enquanto cada ex-combatente dessa defunta corrente agia agora por conta própria.. O humanismo kantiano, a volta à
ética do autor da Doctrine de la vertu, desemboca, para Luc Ferry, seu principal bajulador, num ministério onde o
nietzschianismo de opereta fez mais a lei do que o imperativo categórico...

Houve, depois, La Sagesse des modernes6 , novo breviário ético para os tempos pós-modernos em que se podia ler que uma
canção de Edith Piaf vale mais que todo Pierre Boulez, que o dodecafonismo é uma impostura porque não se pode assobiar
Répons embaixo do chuveiro (sic...), que a moral cristã merece uma espanada para tirar o pó conceitual quanto à forma,
certamente, mas de modo algum quanto ao conteúdo, que o slogan da Frente Nacional, “primeiro os franceses”, não é
monstruoso, que em termos de bioética é urgente esperar e nada fazer, tudo isso regado com uma gota de Epicuro, uma pitada
de Kant e de uma pequena dose de Espinosa.

Eis porque é preciso votar em Raffarin – que não se engana quanto a isso, visto que ele confessa na imprensa sua amizade, sua
preferência, seu interesse por Luc Ferry, André Comte-Sponville, Bernard-Henri Lévy, Alain Fienkelkraut e alguns outros autores
do mesmo nível.. Falsamente indignados, surpresos, um ou outro relatou que não conhecia o primeiro-ministro, que só o havia
encontrado uma vez etc. Mas também se pode gostar das idéias dessas pessoas que falam e publicam! Que eles não se
queixem, portanto, pelo fato de que alguém os leia, excepcionalmente... E, que se saiba, essas idéias não são francamente
incompatíveis com... digamos, para rir um pouco, a Weltanschauung do Poitevin.

As misérias da filosofia, para acabar esse aspecto, supõem algumas palavras sobre a produção formatada por e para o mercado
de uma oferta débil para responder a qualquer demanda filosófica: pequenos tratados, breves manuais (sic), sínteses sobre as
grandes questões em tamanhos pequenos, obras para filosofar sem Prozac, breves vade-mecum, convites para se tornar filósofo
em 24 horas ou utilizando o celular, e outros livros que constituem uma biblioteca cor-de-rosa da filosofia. Será possível descer
mais baixo?

Filósofos dignos desse nome

Segundo tempo, para não morrer de desespero: grandeza da filosofia. De fato, existem filósofos simpatizantes daquilo que
fundamentalmente nega a filosofia, oportunistas, cínicos, jovens lobos que têm pressa em utilizar o mundo midiático para se
tornar uma figura, um nome suscetível de ser barganhado, depois reciclado no mercado: jornalista pago por artigo em algum
jornal nas páginas “idéias”, responsável pelo setor cultural de uma revista, consultor de televisão, figurante em um programa de
idéias divulgadas depois da meia-noite, diretor de coleção, conselheiro literário, membro de um júri, leitor de uma editora e
outras prebendas que apontam sem dificuldade o amigo dos poderes. O testemunho concreto, contentemo-nos com olhar.

Mas há, igualmente, filósofos dignos desse nome, aqueles que dão as costas, por sua vida, seu pensamento, sua obra, seus
escritos, seus comportamentos, seus engajamentos, aos simpatizantes da infâmia. Há algum tempo, podia-se contar com um
Michel Foucault e Gilles Deleuze; recentemente, com Pierre Bourdieu; hoje, com um conjunto de filósofos que pensam nossa
modernidade de maneira crítica: como Jacques Derrida refletindo sobre a hospitalidade, o direito à filosofia, a amizade, a
televisão, o terrorismo; Alain Badiou pensando a ética, a estética, mas também o Kosovo, o 11 de setembro e Le Pen/Chirac;
René Schérer efetuando novas variações seriais e fourieristas sobre o cosmopolitismo; Jacques Bouveresse analisando o poder
da imprensa e a nocividade dos jornalistas na fabricação de uma opinião pública; Noam Chomsky provando a existência de um
Estados-Unidos diferente daquele do Império; Raoul Vaneigem persistindo num situacionismo lírico e alegre; Toni Negri
dissecando a globalização; depois, Annie Le Brun, fiel aos vislumbres negros do surrealismo; André Gorz pensando radicalmente
o trabalho, a renda de subsistência, o capital imaterial; François Dagognet formulando uma epistemologia de esquerda, radical e
progressista; Bernard Stiegler analisando a miséria simbólica e seus efeitos reais hoje. Como não se alegrar com a fecundidade
de um pensamento contemporâneo intenso, crítico, que mostra a vitalidade de uma filosofia enfrentando aquela que colabora
com o mundo do jeito que ele vai?

Vozes necessárias

Outra razão para se alegrar: a possibilidade de fazer ouvir uma parte de suas idéias através da televisão. Porque é preciso sair
da alternativa que obriga a responder à pergunta de maneira simples e sucinta, binária e maniqueísta: a favor ou contra a
televisão em si, de modo absoluto! Igualmente, paremos de acreditar que existe uma linha de ruptura entre filósofos midiáticos
e os outros. Donde a necessidade de definir uma ética que recuse os dois excessos: a recusa pura e simples, por princípio – que,
com freqüência, é a posição daqueles que não são convidados e para os quais se torna uma questão de honra nunca pôr os pés
na televisão! –, ou a aceitação sistemática, para ali dizer qualquer coisa. De modo que é preciso agir como nominalista (o
nominalismo é a arma de guerra contra todos os platonismos), saber que não há televisão em si, mas programas específicos nos
quais se pode, ou não, propor um discurso alternativo à opinião pública comum, alimentada 24 horas por dia por essa mídia que
é financiada pela publicidade...

Que Jacques Derrida fale no programa de Edwy Plenel, no canal LCI, sobre o 11 de setembro, sobre os Estados delinqüentes,
que François Dagognet defenda há muito tempo a homoparentalidade ou a excelência da transgênese na telinha, que se possa
também ouvir Peter Sloterdijk, no programa de Franz-Olivier Giesbert, tentar uma definição do pós-moderno contemporâneo,
que Toni Negri converse com o excelente Pierre-André Boutang no canal Histoire, como outrora se pôde ouvir e ver Jankélévitch
no programa de Bernard Pivot, Pierre Bourdieu em La Marche du siècle, Jean-Grançois Lyotard no de Guillaume Durand, que
convidou igualmente Paul Ricœur, René Girard, Claude Lévi-Strauss etc... Todas elas são vozes necessárias e é útil ouvi-las.

Fórum hiper-moderno

A televisão não é a Sorbonne: nela não se professa durante duas horas diante de um público que assiste à aula do professor, o
qual lê suas notas sem ser interrompido ou questionado. Não lhe peçamos o que nunca pretendeu dar: ela não é a mídia servil
do Collège de France, da Universidade ou da Ecole pratique des hautes études, mas um fórum hiper-moderno. De modo
evidente, se esse lugar não é o anfiteatro do douto, não deve tampouco ser sua sarjeta: colocar a filosofia na rua não obriga a
deixá-la se prostituir. Cada pessoa deve saber, conforme o convite que lhe é feito, se quer aparecer no programa “Tout le monde
en parle”, ou no “Vivement dimanche” – para onde convergem, em contrapartida, aqueles que vivem no mundo liberal como um
peixe dentro d’água.

Quanto ao resto, a aparição de um filósofo crítico na televisão vale sobretudo pela possibilidade de pôr outras pistas à disposição
de quem assiste: o essencial começa depois de desligar o televisor. Comprar o livro, ler, trabalhar. A televisão é um meio –
etimologia de mídia -, não um fim. Para um pensador crítico, ir a ela não é um pecado mortal, nem mesmo venial, mas um
possível gesto militante, uma resistência de pixel7 , como se pôde falar, nos anos negros, de uma resistência de papel.

Em resumo: há um pensamento crítico e filósofos em quantidade, animados, atuantes. Eles podem aparecer midiaticamente
para fazer ouvir uma palavra alternativa ao mundo liberal. Se essa oportunidade não for aproveitada pelo telespectador para
efetuar um trabalho pessoal, é menos um problema da televisão transformada em bode expiatório do que de preguiça intelectual
do telespectador que não se interessa pela filosofia.

Ofertas dignas da filosofia

Outro motivo para se alegrar e para diagnosticar um excelente estado de saúde: o desejo de filosofia. Deixemos de lado os
sucessos de livraria fabricados pela moda, pelo tempo, o que chamo acima de biblioteca cor-de-rosa. Olhemos, antes, para o
lado dos intempestivos gregos e romanos que têm tiragens consideráveis: sonho, por exemplo, com as reedições, em novas
traduções, de livros ou de fragmentos escolhidos de Sêneca, sobre a velhice e a vida feliz, de Marco Aurélio, sobre a
preocupação consigo e com a sabedoria, de Cícero, sobre a amizade, o dever, o sofrimento, a morte, de Plutarco, sobre a
consciência tranqüila, de Aristóteles, sobre a ética, muitas provas do desejo de um saber e, depois, do desejo de reatar com os
problemas das filosofias existenciais.

Visto que a filosofia constitui o objeto de um desejo, é necessário que haja ofertas dignas dela. Deixemos de lado o café
filosófico que recorre ao modelo do estúdio de televisão com um animador raramente formado em filosofia. Sobre assuntos
amplos, imprecisos ou formulados como uma questão de curso para a última série do ensino médio, freqüentemente aparecem
improvisações pessoais sem método, sem argumentos, sem lógica, sem substância e, principalmente, sem conteúdo crítico. A
máquina de café filosófico funciona vagamente lubrificada por um ou dois nomes de filósofos úteis para decorarem discursos
públicos, que tomam a filosofia como refém mas que, em seu nome, fabricam muito mais uma oportunidade de sociabilidade do
que um exercício filosófico comunitário.

Pensar fora dos guetos

Deixemos também de lado a Universidade, que reproduz o sistema social, ensina uma historiografia fabricada sob medida por
ela e para ela – platonismo, idealismo, cristianismo, escolástica, tomismo, cartesianismo, kantismo, espiritualismo,
hegelianismo, fenomenologia e outras oportunidades para não tocar no mundo do jeito que ele vai....

Depois, reencontremos formas para praticar diferentemente a filosofia. Quando Bergson ensinava no Collège de France, as
senhoras ali se espremiam, as pessoas se instalavam nas janelas, as saídas de emergência ficavam apinhadas de público,
punham-se flores sobre a mesa à qual se sentava para fazer sua intervenção – a tal ponto que ele confessava não ser, afinal de
contas, nenhuma bailarina... Ou Sartre que, em 1945, fez sua conferência sobre o existencialismo em uma sala perturbada pelos
fãs: correria nos guichês de entrada, empurrões, cadeiras quebradas, pancadas e ferimentos, mulheres em síncope, desmaios,
polícia... Dois momentos em que o público de não especialistas vinha em massa ouvir falar da relação entre liberdade e vontade,
ou das relações entre essência e existência. Nos dois casos, o público não iniciado veio à filosofia sem a mediação das
instituições habituais.

No espírito dessa vontade de pensar fora dos guetos, foi criada, em 2002, a fórmula da Universidade Popular de Caen,
conservando o mais interessante da fórmula universitária: a transmissão de um conteúdo, o trabalho de pesquisa colocado à
disposição do público, a seriedade das informações, a progressão no tempo. A mesma coisa com o café filosófico, interessante
pela liberdade de entrar e de sair, de ir e vir sem nenhum controle, sem exigência de diplomas, sem nenhuma condição para vir
– gratuidade integral, uma fórmula sem qualquer obrigação ou sanção. Na primeira hora, propõe-se um curso, com teses críticas
e alternativas; na segunda, examinam-se, coletivamente, as propostas do primeiro período.

Filosofia alternativa e radical

Nessa Universidade Popular8 , os conteúdos são alternativos: nela se ensinam as idéias feministas (Séverine Auffret) ou o
pensamento político (Gérard Poulouin) na perspectiva de um pensamento crítico e no espírito da Escola de Frankfurt; nela se
abordam também, numa lógica existencial, a psicanálise (Françoise Gorog), o cinema (Arno Gaillard), a epistemologia (Jean-
Pierre Le Goff), o jazz (Nicolas Béniès), a arte contemporânea (Françoise Niay); e se pratica a filosofia para crianças (Gilles
Geneviève) a partir da idade de sete anos, considerando-se que a filosofia não se resume a seu exercício escolar e calibrado – a
dissertação e o comentário de texto canônico – mas que ela pode também consistir na conversa sobre o natural questionando –
e portanto, filosófica - as crianças. Mais tarde, tendo trabalhado durante anos com eles, pode-se, de modo razoável, considerar
os trabalhos práticos institucionais aos quais, com demasiada freqüência, se reduz a disciplina para a maior parte dos alunos.
Porém, somente mais tarde. A equipe considera a fórmula de Antoine Vitez, falando sobre o Teatro Nacional Popular (TNP) – “O
elitismo para todos” –, um imperativo categórico.

No que me diz respeito, proponho ali uma contra-história (filosófica) da filosofia, concentrando-me nos mecanismos da
historiografia clássica: contra a tradição denunciada acima – a tirania dos idealismos platônicos, cristãos e alemães –, é
proposta, ano após ano, uma leitura do arquipélago pré-cristão visto do lado antiplatônico, atomista, materialista, cínico,
cirenaico, epicurista; uma desconstrução da fábula cristã e o exame das diversas dimensões, bem como de seu contexto, das
resistências ao cristianismo – agnósticas, epicuristas renascentistas e humanistas; depois, a proposta de um outro Grande
Século que reabilite o pensamento barroco dos libertinos, antes de continuar, nos anos seguintes, observando o princípio
cronológico. O objetivo? Mostrar a existência, ocultada pela instituição, de uma filosofia alternativa, crítica, radical, hedonista,
praticável, útil e existencial.

Misérias limpas e misérias sujas

A Universidade Popular, com base no princípio libertário do fundador Georges Deherme, se propõe ser um “intelectual coletivo”
para usar uma fórmula de Pierre Bourdieu. Em outros termos, trata-se, primeiro, de uma equipe constituída por indivíduos que
têm, todos eles, suas particularidade, mas que estão sempre preocupados em confrontar suas teses, suas teorias, seus
trabalhos, suas leituras com o grupo. Essa comunidade filosófica não visa a uma univocidade ideológica, mas a uma coerência:
uma prática existencial, feliz e política da filosofia, um engajamento de esquerda que pressupõe que não se acumula o saber
para fins pessoais mas, sim, que o saber seja partilhado, dado e distribuído aos que, normalmente, dele são privados – o
popular da Universidade Popular.

Com freqüência, tenho sido criticado pelo uso de “popular” na fórmula Universidade Popular porque nossa época vendida ao
liberalismo transforma em populista todo empreendimento popular e denuncia como demagogia a aspiração a uma real
democracia direta. O filósofo mundano, parisiense, superexposto pela mídia, preocupa-se preferencialmente com as misérias
limpas: Kosovo, Ruanda, Afeganistão, Argélia, o 11 de setembro. A miséria suja? O povo, as periferias, o operário, o proletário,
o sem-teto, o sem-direito, o assalariado que recebe apenas o salário mínimo, o empregado com contrato temporário e, para
dizer numa só palavra, o pobre: que importância podem ter? É a negligência deles que fabrica o segundo turno da eleição
presidencial que conhecemos: da miséria suja nascem as políticas sujas. Não as impedir, ainda que modestamente, sobretudo
modestamente, é contribuir para elas.

Combate ao microfascismo

O fascismo de farda, militar, de botas, desapareceu enquanto tal. O poder está em toda parte – ensinamento de Foucault – e o
microfascismo substituiu, portanto, a fórmula totalitária maciça – ensinamento de Deleuze. Como combater esse microfascismo?
Por meio de micro-resistências. Construir individualidades esclarecidas, fortes, serenas, poderosas, decididas, dotadas de uma
vontade firme, bem consigo mesmas – que é a condição para se estar bem com os outros. Passar da vida mutilada à vida justa e
boa através da vida transfigurada. Um projeto existencial e político.

O intelectual coletivo que é esta comunidade filosófica da Universidade Popular propõe, como anti-república de Platão (fechada,
cercada, totalitária, hierarquizada, racial), um Jardim de Epicuro (aberto, livre, igualitário, amigável, cosmopolita) fora dos
muros. Não mais confinado num espaço arquitetônico e sedentário, mas nômade, irradiando a partir de si. Essa micro-sociedade
móvel pode produzir efeitos por capilaridade: após o desaparecimento do projeto revolucionário insurrecional e do único apoio
deleuziano do “devenir revolucionário dos indivíduos”, restam-nos as revoluções moleculares – ensinamento de Guattari. Tarefa
eminentemente apaixonante...

(Trad.: Iraci D. Poleti)

1 - Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Organizado a partir de 1920.
2 - Alexandre Soljénitsyne, L’archipel du Goulag, Seuil, Paris, 1973.
3 - Jean-Marie Benoist, Les nouveaux primaires, Hatier, Paris, 1978.
4 - Alexis de Tocqueville, De la démocratie en Amérique, Flammarion, Paris (reedição col. de bolso).
5 - Daniel Accursi, La nouvelle guerre des Dieux, Gallimard, Paris, 2004.
6 - Luc Ferry et André Comte-Sponville, La Sagesse des modernes, Robert Laffont, Paris, 1999.
7 - N.T.: Um pixel (picture element) é a menor partícula homogênea capaz de ser registrada e transmitida por um sistema
informático.
8 - http://perso.wanadoo.fr/michel.onfray/

Fonte: http://diplo.uol.com.br/2004-10,a1003 – 14/06/2008 – 19h