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Pietro Gori

A ANARQUIA
PERANTE OS
TRIBUNAIS
achiamé
Rio de Janeiro
Pietro Gari
sUMÁRIo
Prefácio /7
Texto da defesa de Gari / 19
Uma acusação monstruosa / 22
O que éo anarquismo / 31
Os equívocos dapronúncia / 48
O ideal revolucionário / 58
Palavras finais /60
PREFÁCIO
Nascido em Messina, Itália, em 3 de agosto
de 1859, Pietro Gori devotou-se à propaganda e
defesa dos ideais libertários emtermos quefazem
dele uma figura destacada da história do anar-
quismo.
Os recursos familiares permitiram-lhe que es-
tudasse em Livorno eemPisa, doutorando-se em
Direito, nesta última universidade, em1889, com
atese "Miséria eDelito".
Desde os 18anos, porém, quejá realizava con-
ferências para operários e estudantes, ao mesmo
tempo que colaborava emdiversos periódicos.
Acusado de propaganda subversiva e depro-
motor degreves, eainda por ter publicado oopús-
culo Pensamentos Rebeldes, Pietro Gori foi jul-
gado em 1880, no Tribunal dePisa, mas o defen-
sor, o grande criminalista italiano Enrico Ferri,
conseguiu asua absolvição.
Voltou a ser julgado, por propaganda ilegal,
em 1890, com mais 20 operários, pela participa-
ção emuma conferência promovida pelas associa-
ções populares de Livorno no to de Maio desse
ano; e dessa vez foi condenado aum ano de pri-
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são, pena que seria revogada emrecurso - sem
interesse prático, aliás, pois Gori aguardara ojul-
gamento na situação deprisão preventiva, que se
prolongou bastante.
Foi nessa altura, naprisão, quePietro Gori co-
meçou arevelar os seus talentos poéticos, escre-
vendo três volumes deversos, publicados emMi-
lão com o título Prisões e Batalhas; aedição, de
10.000 exemplares, esgotou-se empoucos dias.
Juntando-se ao advogado eanarquista italia-
no Saverio Merino nadefesa dos companheiros -
Gori exerceu sempre intensamente aadvocacia -,
os dois, e ainda Errico Malatesta e Amilcare
Cipriani, seriam talvez, em 1891, os militantes
mais ativos eentusiastas domovimento anarquis-
taitaliano.
Em 8deabril de 1891, Pietro Gori participou,
emMilão, deumcomício internacional sobre "di-
reito ao trabalho", o qual contou também comre-
presentações espanholas, francesas erussas; eem
agosto desse ano, foi delegado ao Primeiro Con-
gresso Operário Italiano, também emMilão, en-
cabeçando alinha socialista antiautoritária que se
opôs comdenodo àlinha autoritária defendida pelo
socialista Filippo Turati.
No ano seguinte (14 e15deoutubro de1892),
no congresso operário de Gênova, éinevitável a
cisão entre anarquistas e socialistas-parlamenta-
ristas - nasce então, aliás, oPartido Socialista lta-
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liano -, e Pietro Gori assume o papel de maior
relevo, contrariando vigorosamente as propostas
deAndrea Costa (outro grande nome domovimen-
to anarquista italiano, que trocou em 1879 pelo
socialismo revolucionário, decujo partido erade-
putado em 1892).
De 1892 emdiante, Gori participou de diver-
sas agitações operárias e realizou excursões por
toda aItália, organizando sociedades de resistên-
cia edeinstrução.
Em Milão, e com outros companheiros, fun-
dou ojornal OAmigo do Povo earevista científi-
ca Luta Social, periódicos objeto de sucessivas
apreensões policiais que estiveram na origem de
outros tantos processos-crime.
Na segunda metade de 1894, já muito perse-
guido, Gori viu-se forçado asair daItália, refugi-
ando-se primeiro emLugano (Suíça) - paradeiro
habitual dos exilados políticos -, passando daí à
Alemanha e, depois, a Bruxelas, onde Elisée
Reclus o convidou areger umcurso de "Sociolo-
gia Criminal" naUniversidade Nova.
" Os insistentes pedidos de extradição do go-
verno italiano obrigaram Pietro Gori a procurar
refúgio, sucessivamente, na Inglaterra, Holanda,
Noruega, Suécia, Irlanda, e, finalmente, emNova
Iorque, desdobrando-se sempre Gori numa incan-
sável e intensissirna atividade de conferencista;
assim, esó no ano de 1895/96, Gori percorreu em
9
estradas-de-ferro perto de 33.000km, realizando
cerca de 300 conferências.
Voltando aLondres, em 1896, uma tuberculo-
se o impediu de acompanhar Louise Michel aos
Estados Unidos, mas Pietro Gori prosseguiu com
asuaatividade depropagandista libertário, quer na
Prússia (Hamburgo, Berlim, Dresden), quer noIm-
pério Austro-Húngaro (Praga, Viena, Budapeste).
De novo enfermo - estamos emprincípios de
1897- Gori temdevoltar à Itália, onde não éinco-
modado imediatamente pelas autoridades, mas fica
sujeito, contudo, aoregime deliberdade vigiada.
Chegamos a1898 esão conhecidos os aconte-
cimentos queagitaram aItália: primeiro, emmaio,
as barricadas de Milão e as centenas de desem-
pregados queforam mortos, sóporque pediam pão
etrabalho ao rei Humberto I; depois, em 1Ode
setembro, o atentado do anarquista italiano Luigi
Lucheni à imperatriz Elizabeth (Sissi) daAustria,
que sucumbiu aos ferimentos recebidos.
Embora não seja conhecido com detalhe o
envol vimento direto de Pietro Gori no primeiro
daqueles eventos, ocerto équeoTribunal deGuer-
radeMilão ocondenou severamente: napenaprin-
cipal deoito anos deprisão - seguida dedesterro
comdomicílio imposto, por mais 10anos -, acres-
cida da medida de segurança de três anos de
internamento emregime de vigilância pessoal, e
ainda na pena acessória de interdição definitiva
do exercício daprofissão (a advocacia).
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Ora, Pietro Gori - que respondera à revelia,
pois por cautela passara àclandestinidade - con-
seguiu chegar àFrança, onde se manteve algum
tempo com aajuda de Sébastien Faure; daí pas-
sou para Barcelona, embarcando para Buenos
Aires emjunho de 1898.
Na Argentina, Gori foi professor de crimi-
nologia, fundou arevista Criminologia Moderna,
e, em25 demaio de 1901, promoveu aconstitui-
ção da Federación Obrera Regional Argentina
(FORA), que rapidamente agregou cerca de
250.000 membros, transformando-se namais im-
portante central sindi cal argentina (anarco-sindi-
calista).
Regressando aRoma em1903, Pietro Gori di-
rige' comLuigi Fabbri, arevista OPensamento, e
até morrer foi um infatigável propagandista li-
bertário, quer em conferências quer emreuniões
populares.
Falecido em 8 dejaneiro de 1911, na ilha de
Elba (emPortoferraio), oúltimo discurso proferi-
dopor Pietro Gori - entãojá bastante atingido pela
tuberculose - foi oelogio fúnebre deAndrea Costa
(que falecera em 19dejaneiro do ano anterior).
Autor devasta obra poética (Cancioneiro dos
Rebeldes e outros livros de versos), Gori escre-
veu no exílio aletra dacélebre canção "Addio Lu-
gano Bella", epopéia política dos proscritos li-
bertários do fim do século 19; e escreveu ainda
11
várias obrasjurídicas (desociologiacriminal, so-
bretudo) epolíticas - estas últimas, as chamadas
Conferências Politicas, reunidas em10volumes.
***
ofuneral dePietro Gori constituiu uma im-
pressionante manifestação depesar enão éexa-
gero dizer quequasetodo oElbao acompanhou
até asepultura, chorando aperda deumhomem
bom, leal egeneroso, queàcausaanarquista de-
dicaraomelhor doseuesforço esaber.
Lutador desinteressadopeloideal daanarquia,
doqual sempreseafirmoufervoroso adeptoede-
fensor, Gori era, sinceramente, amadopelopovo,
eessa suapopularidade impressiona vivamente,
sobretudo por setratar deumintelectual- advo-
gado, poeta, sociólogo eprofessor universitário.
Simplesmente, Pietro Gori nunca se afastou
dopovoe, aocontrário, chegavaarevelar-sequa-
seingênuonoseuapostoladoeaténametodologia
doseucombate.
Homempuro, Gori eraadmiradopor todospe-
los seus sentimentos humanitários - edelesedi-
ziaquetinha apreocupação dequeninguémgri-
tasseapalavra "morte" fossecontraquemfosse.
Lia-se no Le Libertaire: "para nós... Pietro
Gori está.semprevivo. As suas obras, oseupen-
samento, omagníficoexemplodetodaasuavida,
não desapareceram danossamemória, enãojul-
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garemos nunca honrá-lo melhor, senão quando nos
abraçarmos, possuídos de um novo ardor, àcha-
ma doideal aque sucumbiu".
E, curiosamente, emapontamento necrológico
sobre Gori, uma semana após suamorte, escreveu
Mussolini: "Nós, socialistas, diante dos despojos
de Pietro Gori, levantamos, enlutados, as nossas
bandeiras!"; obusto deGori, porém, levantado sobre
oseu túmulo, no cemitério deRosignano (naTos-
cana), seria mutilado mais tarde pelos fascistas.
Os escritos eintervenções orais de Gori não
relevam muito, ou não relevam decisivamente, no
plano da elaboração doutrinária eideológica.
Nessa medida éque Pietro Gori prestou, fun-
damentalmente, uma poderosa contribuição, em-
penhado como se mostrou sempre na defesa in-
transigente dos ideais anarquistas, quer na difu-
são deles, quer na sua justificação sociológica,
nunca se poupando a esforços numa atividade e
com um entusiasmo e um espírito de sacrificio
notáveis.
A essa tarefa emprestou três qualidades apre-
ciáveis, que muito concorreram para o êxito da
suapropaganda: aformação jurídica, queeragran-
de; apreparação cultural, que não era inferior, e,
finalmente, aartedeadvogado eos dotes oratórios,
que arrastavam os ouvintes a grandes movimen-
tos dealma. Sob oângulo das idéias, propriamen-
teditas, Pietro Gori foi sempre umconvicto parti-
13
dário do comunismo libertário - nalinha deKro-
potkin, Malatesta e Cafiero -, tal como este co-
meçou adesenhar-se apartir do congresso daFe-
deração doJura, emLaChaux-de-Fonds, em1880.
Portanto, eainda mais que os coletivistas an-
tiautoritários que seguiam Bakunin, não defendia
Pietro Gori apenas acoletivização dosmeios depro-
dução, mas também quefossem postos emcomum
os próprios bens deconsumo, cuja repartição não
devia ser regulada pelas associações de trabalha-
dores (de acordo com as prestações detrabalho),
cabendo antes fazer valer o princípio de que tais
bens deviam ser distribuídos emharmonia coma
fórmularde cada umsegundo as suas possibilida-
des, acadaum segundo as suas necessidades".
Isto, no plano dos princípios; especificamen-
te, a conjuntura política italiana obrigou Pietro
Gori abater-se intrepidamente contra oparlamen-
tarismo dos socialistas, tática legalista essa que
Gori denunciava como o "prejuízo mais perni-
cioso que causa aomovimento socialista eoperá-
rio", desviando as atenções do proletariado para --
"fins absolutamente secundários e muitas vezes
inconclusivos, sobretudo quando setrata depolí-
tica e de governo" (conferência-programa, inti-
tulada "Socialimo legalista esocialismo anárqui-
co", proferida em Milão, em 4 de abril de 1892
apud Pietro Gori, Conferenze Politiche, Milão,
1948).
14
A esse ideário semanteve fiel Pietro Gori até
ofim deseus dias.
***
A peça forense que se segue, documenta as
alegações finais- ou discurso dedefesa- dePietro
Gori no chamado processo-crime dos "Anarquis-
tas de Gênova", e compendia, em certo sentido,
os princípios ideológicos professados pelo autor.
]á se disse que Gori foi além do mais, advo-
gado; enão fica ma] acrescentar que foi umgran-
de advogado.
Estagiou no escritório de' um dos mais: reno-
mados causídicos milaneses do seu tempo - oso-
cialista Turati --, comquemcedo seiniciou naprá-
tica daprofissão.
Ora, aenvergadura intelectual dePietro Gori,
apoiada numa eloqüência impetuosa, tudo foram
atributos que o levaram rapidamente aum lugar
degrande prestígio nos tribunais italianos emge-
ral - eno foro milanês, emparticular.
Foi chamado aintervir, assim, emnumerosas
causas (sobretudo em processo$ políticos movi-
dos contra anarquistas), e, precisamente por isso
- porque havia defendido Santo Caserio por duas
vezes em causas políticas anteriores -, Pietro
Gori chegou aser implicado no atentado queaque-
le perpetrou contra o presidente francês Sadi-
Carnot.
15
Quanto ao discurso queorasepublica, alei-
turadele- pelasuasimplicidadeeclareza- por si
sóseexplica.
Vários anarquistas italianos - entreos quais
secontavaopintor deLivornoPlinioNomellini-
foramprocessados pelo crimede"associação de
malfeitores", infração penal quecostumareceber
O tratamento reservado aos crimes deterrorismo,
ou contra asegurança doEstado, eque, no caso
(art. 248 do Código Penal Italiano), era punido
comumapenaquetinhaolimitemínimodecinco
anos deprisão.
Não seria muito escrupulosa aacusação pú-
blica emrelação aos indícios queautorizasssem
semelhante imputação (extensiva, aprincípio, ao
próprio Gori - quenãochegou, porémaser pro-
nunciado), e assim o fez sentir, calorosamente,
Pietro Gori, queaproveitou para denunciar, com
ardor, asirregularidades dainstrução policial eos
víciosdevidasocial italiana, aomesmotempoque
expunha - eo fez combrilhanti smo- aquilo a
que ele chamava as teorias socialistas anárqui-
cas.
Édeacreditar quemuito sereceassepelodes-
fecho dojulgamento, pelas sucessivas vagas de
histeria queas autoridades deixavamabater sobre
os anarquistas, emconseqüência daondadeaten-
tados, da autoria de anarquistas individualistas,
queassombravamos governos.
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A sériejá eralonga, antes dejunho de1894, e
já depois de11dejulho de1892, data daexecu-
ção de Ravachol: em 23 de julho de 1892,
Alexander Berkman dispara efereomagnata do
aço Henry Clay Frick; emmaio de 1893, Paolo
Sehicchi lançaumabomba sobreoconsulado es-
panhol deGênova; em9dedezembro domesmo
ano, Auguste Vaillant atenta, também comdina-
mite, contra a Câmara dos Deputados francesa;
em 12 de fevereiro de 1894 - o processo dos
"Anarquistas deGênova" aguardavaojulgamen-
to-, ÉmileHenry lançaopânico (aindaàbomba)
no cafédeSaint-Lazare (edepois dojulgamento,
nodia24domesmomês, SantoCaserio apunhala
Sadi-Carnot).
Logo se alcança, assim, que seria da maior
expectativa oambienteàvoltadojulgamento dos
"Anarquistas deGênova"; emelhor secompreen-
de, emconformidade, quePietro Gori usasse das
necessárias cautelas emumdiscursoquepodiaser
apenas umapeçajurídica, mas queémais doque
isso, poistrata-setambémdeumaintervenção po-
líticaqueilustra, documentalmente, umdosperío-
dos mais expressivos dahistória do anarquismo,
ou, commais rigor, da história do comunismo
libertário - senãosequiser atribuir-lhe umsenti-
" domais amplo ouumsignificado mais atual.
Alfredo Gaspar
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TEXTO DA DEFESA
DEGORI
Senhores Juizes:
Depois dorasgado vôo ao céu daciência edo
sentimento dessa águia dopensamento jurídico ita-
liano, conhecida pelo nome deAntonio Pellegrini,
meu amigo e mestre, dou começo àminha tarefa
vivamente comovido equase desesperado, falan-
do do ponto devista social destes homens edes-
tas idéias, queailudida multidão inconsciente tam-
pouco conhece eentende. Mas as minhas pobres
palavras, se bem que reflitam a tumultuosa im-
pressão dasolenidade domomento, brotarão, sem
embargo, do coração, eterão aos vossos olhos o
mérito, porventura oúnico, dasingeleza edaleal-
dade.
E, por dever delealdade, permiti-me antes de
continuar quefaçaconstar umacoisaefaçaumade-
claração.
O senhor Siro Sironi, ex-chefe da polícia de
Gênova e chefe atualmente na capital da Itália,
cornprazeu-se em denunciar-me, amim também,
como cúmplice destes homens para delinquir con-
tra as pessoas, apropriedade, aordem pública, e
para cometer na companhia deles todos os dispa-
rates de que fala o art. 248 do Código Penal.
A Câmara do Conselho do Tribunal de Gêno-
va, em num ato de relativa justiça, absolveu-me
da acusação.
21
Orabem, Senhores Juízes, eutenho vívíssimo
empenho em declarar o seguinte: que, se profes-
sar asnobres idéias anarquistas édelito, sedenun-
ciar as iniqüidades deuma civilização odiosa, se
combater todas as formas detirania edeexplora-
ção, seter os olhos fixos naaurora doporvir incor-
ruptível eselevar àmultidão demíseros eoprimi-
dos aboanova daliberdade edajustiça, setudoisso
édelito, então detodos esses fatos soutambém cul-
pado efizestes mal emabsolver-me. E seas vos-
sas leis oconsentem, rogo-vos quemeabris asgra-
des daquela jaula, enobreci da neste momento, e
permiti-me queme sente aolado destes honradís-
simos malfeitores, para responder como acusador
às estranhas acusações que hoje asociedade (de-
mos-lhe este nome) lança contra estes homens.
Uma acusação monstruosa
Disse a acusação pública que este não é o
processo das idéias; eeutento quesim, queéopro-
cesso das idéias, e, algo pior ainda, oprocesso das
intenções.
Tentou o Sr. Delegado sustentar que todo o
indivíduo élivre depensar como quiser. Isto diz-
se, eéverdade; mas também éesta uma detantas
mentiras convencionais sobre as quais sebaseia a
caduca ebamboleante organização social.
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Livre depensar, segundo sepretende, entre as
impenetráveis paredes docrânio? Mas neste caso,
ilustremagistrado doMinistério Público, muito obri-
gado pela vossa liberalidade e pelas vossas leis.
O pensamento humano não temnecessidade des-
taconcessão. Ele exercita no íntimo detodo oor-
ganismo pensante os direitos imprescritíveis de
um soberano que não tem aprepotência dos des-
confiados inquisidores ou torpes policiais.
E aliberdade depropagar edefender este pen-
samento o que as leis sábias elivres (se leis sábi-
as elivres pode haver) devem, não somente con-
sentir, mas também garantir.
Mas o meu egrégio adversário não o entende
deste modo echega até aafirmar que este proces-
sonão éumprocesso político. Por quê? Acaso por
política deve entender-se somente aarte mesqui-
nha defazer edesfazer ministérios? E não notais,
emtodas as manifestações, que qualquer discus-
são política é atualmente uma questão essencial-
mente social? Não vos dais conta de que os in-
telectos perspicazes e os espíritos sedentos de
idealismo elevado ehumano, olhando tanto para
asubstância das coisas como para asuaforma ári-
da, tendem para uma grande obra de renovação,
através das modestas eperenes demonstrações da
injustiça econômica que fere os trabalhadores, os
quais são (quer queira, quer não queira o Senhor
Delegado) os únicos produtores detoda ariqueza
social?
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Mas o atual defensor das leis quer que esta
obra decrítica edereconstrução ideal sejasomente
privilégio emonopólio dos filósofos ... segundo diz
o acusador público. E põe-no nervoso que estes
operários, estes trabalhadores, quesão os mais in-
teressados nesta elevada questão, que ao fimeao
cabo é problema eterno da vida social (e que é
hoje problema essencialmente operário), sepreo-
cupem ese ocupem com amor destas idéias, des-
tes debates, destas aspirações. Ooperário ideal do
senhor Procurador devia ser o pacífico ruminan-
te, semsensações esempensamentos, que sedei-
xasse tranqüilamente, e sem protestar, conduzir
por aquele que tivesse a astúcia de se munir de
um persuasivo bastão edeumpar detesouras.
Mas estes trabalhadores, queestão sempre em
rude eperpétua luta com afadiga eamiséria diá-
rias (uma eoutra, herança dolorosa do povo) le-
vantam a cabeça e protestam contra esta classe
que extrai dos seus músculos as melhores forças,
sem lhes corresponder com aadequada compen-
sação; estes homens aspiram adias melhores para
asua classe desprezada; aspiram aum futuro de
liberdade e de bem-estar para todos; proclamam
que os operários - estes desconhecios criadores
do bem-estar eda sociedade - têmo direito dese
sentar àmesa do grande banquete social, à qual
os seus esforços conjugados trouxeram baixelas
tão ricas emanjares tão requintados; demonstram
que tudo quanto existe de belo e de útil sobre a
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Terra foi produzido pelo seu esforço; afirmam que
o único vínculo que envolve a destruí da falange
dos novos catecúmenos é o trabalho, que hoje se
converte para eles em estigma de inferioridade
social, mas que amanhã será para todos o único
brasão denobreza; eainda queemvolta deles ruja
amaré das paixões egoístas evis, desfraldam va-
lorosamente ao vento uma bandeira eserenamen-
te enfrentam as perseguições mais idiotas eos es-
cárnios mais amargos.
E, todavia, nesta bandeira está escrita uma pa-
lavra de esperança e de amor para todos os de-
serdados, para todos os oprimidos, para todos os
famintos da Terra, ou seja, para todas as multi-
dões infinitas e beneméritas sobre as quais se
envaidece, rindo àsgargalhadas, umapequena mi-
noria de privilegiados.
Ah! Acaso estes seres não têm direito apen-
sar, só por que não são filósofos? Não têmodirei-
to demanifestar os seus pensamentos emvoz alta?
Por que selhes proíbe professarem publicamente
essa fé num futuro mais eqüitativo emais huma-
no? Como seotrágico evergonhoso presente fosse
aúltima etapa da humanidade na sua incessante
peregrinação atéaconquista dos ideais! ... Sim, isto
é um delito, um atroz delito de grande amor aos
homens, livremente professado emuma socieda-
dena qual o antagonismo dos interesses determi-
naoódio entreos indivíduos, entre asclasses, entre
as nações; umódio imenso que faz sangrar os co-
25
rações sensíveis, uma injustiça sem limites que
permite ao parasita rebentar deindigestão aolado
do produtor que morre de fome. Está aqui toda a
síntese do problema.
A análise é feita cotidianamente pelo cam-
ponês, oqual sepergunta como épossí vel que ele,
cansando-se dia enoite acavar aterra, fustigado
pelos ventos do inverno e queimado pelos raios
desol do verão, permanece sempre pobre eeco-
nomicamente sujeito a um patrão que nem uma
gota de suor derramou sobre aqueles campos, que
nenhum esforço muscular dedicou àqueles despre-
zados trabalhos dos quais ahumanidade extrai o
selJ pão diário.
, A análise continua-a o operário da indústria,
'o qual vê sair dos seu trabalho, com o dos seus
companheiros, torrentes de riqueza, que, em vez
deproporcionarem obem-estar dafamília dos ver-
dadeiros produtores, como são os operários, aca-
bam por encher a gaveta do capital, que sem a
virtude fecunda do trabalho seria uma coisa per-
feitamente inútil no mundo.
A análise completam-na todos os trabalhado-
res, desde omarítimo que desafia operigo demil
tempestades para nos trazer os artísticos objetos
japoneses eas pérolas preciosas para as senhoras
lânguidas, sempre preocupadas sobre como ofe-
recerãornelhor asrecepções facilitadas pelos ren-
dimentos ... dos demais, até ao esquálido profes-
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sor, ao qual apátria não dá sequer amilésima par-
te do que paga aesses uniformizados agentes, in-
cumbidos, pelo modo mais breve, de exterminar
opróprio semelhante emguerra "aberta" e"leal",
e, se têm oportunidade, de convencer os plebeus
com o "argumento" deque não vale apena levan-
tarem demasiado avoz quando tiverem fome.
Mas estas análises, estas demonstrações po-
dem fazer-se ... in pectore; ai daqueles que as de-
nunciem!. .. A verdade (especialmente quando éa
verdade amarga enua) deve dizer-se sotto voce.
Melhor ainda é nem falar dela: deste modo, não
setêm dores de cabeça nem incômodos. No caso
contrário, um Sironi qualquer, ainda que seja co-
mendatore, osfaz encarcerar (pelo menos) emme-
nos tempo do que canta o galo, trama uma lenda
romântica quelogo transmite àautoridade judiciá-
ria: fala enigmaticamente de certos indícios apu-
rados pela espionagem ... (respeitabilíssima) ede-
pois de haver associado estes homens, honrados
na desgraça comum, emuma detenção preventi-
va, encontra por fim um tribunal que os associa
para responder (in solidum) no termos doart. 248
do Código Penal, até que o Ministério Público,
atando-os àmesma cruz, os associa de novo ao
prazer coletivo de desfrutarem meio século de
penas, entre reclusões edetenções.
E muitos destes, como se provou já, nem se-
quer se' conheciam, nem uma só vez se haviam
27
cruzado no caminho do trabalho edamiséria que
lhes são comuns.
Deviam encontrar-se eassociar-se nabancada
dadesgraça; porque hoje, menos quenunca sepo-
de chamar aesta bancada abancada dadesonra.
Certamente que uma cadeia invisível eideal
unia, ainda que sedesconhecessem, os seus espí-
ritos sonhadores dejustiça edeuma paz lumino-
sa; edespertaram do seu belíssimo sonho comas
algemas nos pulsos, amontoados como feras polí-
ticas entre os ferros desta jaula que os encerra.
Ah, nobres malfeitores! Eu renovo a minha
saudação einsisto nahonra quetenho, doaltodesta
solene tribuna, depoder reivindicar as idéias que
me unem a mim, em liberdade, com todos vós,
encarcerados. E renovo aminha petição à acusa-
ção pública: seestas idéias são delito, encarcerai-
me amim também ejuntai-me aestes homens.
Entre estes malfeitores, simentre eles me sen-
tiriaorgulhoso; não entre aqueles outros que em
Roma enestes mesmos dias sevêem conduzidos
emcarruagens esem algemas ao Supremo Tribu-
nal, porque tiveram afortuna de fazer milhões ...
Mas perdoai-me, já me esquecia dos referidos se-
nhores do capital, se bem que zelosos guardiães
dapropriedade emteoria, mas que sedeleitavam,
abolindo, praticamente, a propriedade dos de-
mais... embeneficio próprio, equetodos vós, ami-
gos acusados, ainda que demolidores teóricos da
28
propriedade, comoprivilégio declasse, ereivin-
dicadores dariquezainteira para asociedade in-
teira, não havíeis nunca deitado avossa mão so-
bre o queos primeiros têmdesupérfluo (apesar
desaberemquetodo essesupérfluo erafruto dos
vossos suores e das vossas privações), e vos
conservasteis puros parateremodireito degritar,
emplena carados outros: "vos sois uns ladrões!"
E semembargo, amisériatem-vos atormenta-
dováriasvezes, anecessidadevárias vezesvostem
estimulado ehaveis sabidoresistir-lhe; eenquan-
to os restantes roubavam para satisfazer as suas
orgias, nenhum devós tirou aos demais nemse-
quer cincocentavosparaavossaalimentação, nem
para dar decomer aos vossos filhos, quevos pe-
diampão; vóspermanecesteis firmes, pobres, hon-
rados atéoescrúpulo, atéoridículo; eorepresen-
tante dalei pede, semembargo avossacondena-
ção, como setivesseis sidomalfeitores.
Os demais, os provocadores, os devoradores
demilhões, esses obterão porventura aliberda-
de... pararoubar outros tantos.
São estes, Senhores Juízes, os homens que
deveisjulgar! E émonstruoso oraciocínio do Sr.
Delegado do Ministério Público. Está deacordo
emquetodos os réus sãoincapazes dedelinqüir.
Mais ainda: estádeacordoemreconhecer quesão
capazes de colaborar emtodo o gênero deobras
boas egenerosas, comotrabalhadores infatigáveis
ecidadãos semmancha.
29
Reconhece, econvém comigo, ainda queonão
tenha dito, que aestes homens para os quais pede
uma condenação, sentir-se-á sempre orgulhoso e
considerar-se-á honrado, edepois dacondenação,
em apertar-lhes amão.
Mas como... ! Depois de todas estas declara-
ções, não sevos queimavam os lábios quando para
estes homens, que vós próprios reconheceis de
fonte segura como honrados, pedis, tantos "prê-
mios" devigilância edeprisão?
Ou o meu grande amor à causa me apaixona,
ou haveis esquecido anorma mais elementar de
toda alegislação penal.
Que lei, eque Magistrado, qualquer que seja
(ainda que superficialmente consciente esereno)
pode condenar indivíduos que não delinqüiram e
que são incapazes de delinqüir? E eu pergunto-
vos: que crime cometeram estes homens?
E vós responder-me-eis: Nenhum. Mas (ajun-
tareis) dados os princípios que dizem professar,
para alcançar os seus fins políticos esociais, de-
verão cometer isto, praticar aquilo eaqueloutro, e
o mais que alei prevê como delito. Por isso vos
dizia: isto é, defato, umprocesso deintenções, e
na verdade, durante os debates, várias vezes se
me escapou a palavra delito intencional. Direi
mais: isto não eapenas umprocesso deintenções.
Éum processo à probabilidade de que os acusa-
dos tenham, dentro de algum tempo, a intenção
3IJ
derealizar umdeterminado fato previsto epunido
pelo Código Penal.
Isto já é o cúmulo, não darepressão jurídica,
mas da repressão policial.
o que éo anarquismo
De onde vêm e quem são, todos o vemos. A
que tendem estes indivíduos?
A questão social, que étão antiga como o an-
tagonismo entre dominados edominadores, atra-
vessa hoje umperíodo crítico euma solução (que
uns desejam pacífica, outros crêem que será ine-
vitavelmente violenta) seimpõe ao velho mundo
em bancarrota. E até o mais cego (excetuando o
Sr. Delegado do Ministério Público) vê os relâm-
pagos sangrentos que rasgam as nuvens carrega-
das de eletricidade.
Nestas obscuras épocas de transição, aparte
dos que escoltam o futuro é perigosa. A palavra
de advertência confunde-se com o grito derevol-
ta; o livre pacto de fraternidade entre os que so-
nham eos queentrevêem umnovo mundo, éinter-
pretado como um contrato entre ladrões que
preestabelecem o modo de repartirem entre si os
despojos do próximo; acrítica formada com ele-
vados argumentos detransformação embeneficio
detodos éinterpretada como umataque maligno de
31
espíritos rebeldes aordens decrépitas queosorto-
doxosjulgam santas einderrogáveis.
Mas oquehádeinderrogável nestemundo, o
quehá deimutável nas multiformes leis dos ho-
mens?
Sem embargo, nesta luta secular das novas
contraasvelhasidéias; nestafaseaguda, entreuma
época moribunda (como umvelho carregado de
achaques) eoutraépocaquedespontanohorizon-
te, radiosa como uma aurora, háuma estranha e
sintomáticasemelhançadeepisódios. Assimcomo
não énovo oconfronto entreaatual épocahistó-
rica, deinegável decadência, melhor dito, dedes-
moronamento do paganismo. burguês, semmais
missão cívica e semmais ideal, eo desmorona-
mento apocalíptico doantigopaganismo, arrasta-
dopela galhardia esfuziante dójovem cristianis-
mo.
Então, como agora, deentreaturba menos-
prezada selevantaramhomens, pobres deciência
mas ricos desentimentos, os quais combatiamo
desregramento dospoderosos edos parasitas.
Naquela revolta damultidão, incendiadapela
propaganda cristã, precisamente Emílio de La-
veleyeviujá agênesedosocialismo.
Socialismo todo sentimental, disparidadeim-
pulsiva. Melhor: irrupçãoapaixonadadealmasge-
nerosas contra asflagrantes monstruosidades so-
ciais, comprovação serenamentecientíficadoan-
32
tagonismo entreos direitos dopovo, semprepo-
bre e explorado, e os privilégios dos ricos, dos
patrões, semprerefratários à liberdade eaobem-
estar dos oprimidos.
Ah! Seeu vos lesse, representante dalei, as
veementes invetivas que aquelas almas rebeldes
- queforamossantos padres daIgreja=Iançaram
contra os ricos, acaso vos sentireis impelidos a
.imitar o vosso colega, e superior hierárquico, o
Procurador deMilão, queemumjornal das vos-
sas preferências, secomprazeu emrecriminar as
opiniões dos santos sobre ariqueza eaproprie-
dadeprivada, opinião reproduzida no ditoperió-
dico do livro deLaveleye, quetenho àmão, O
Socialismo Contemporâneo, equeprincipia com
umainsolente definição deSãoBasílio: "Orico é
umladrão", etermina, depois deformular osmais
terríveis impropérios contra os privilegiados da,
Terra, comestacomunística consideração deSão
Clemente: "Emboajustiça tudo deveria perten-
cer atodos. Éainiqüidade oquefaz aproprieda-
deprivada".
E Laveleye, que foi um ardoroso socialista
cristão, tira como conclusão que: "é impossível
ler atentamente asprofecias doAntigoTestamen-
to, elançar aomesmo tempo umavista deolhos
sobreascondições econômicas atuais, semsesen-
tir impelido acondenar esteestado decoisas em
nomedoideal evangélico".
33
Mas os santos padres daIgreja, homens sim-
ples erústicos, recriminavam pessoalmente os ri-
cos porque ignoravam (o que aciência veio aen-
sinar mais tarde) arigidez das leis históricas, que
não permitem se atribua àmaldade dos indivídu-
os oque éproduto dainjustiça dos sistemas econô-
micos epolíticos que até opresente têmprejudi-
cado o gênero humano.
Por isto, os socialistas anarquistas modernos,
quando falam deexploradores, quando selançam
com desdém aafrontar os burgueses eacombatê-
los, não éporque lhes atribuam, atítulo demalda-
de, aculpa das misérias sociais. Sabemmuito bem
que apobreza fisiológica, intelectual emoral da
plebe enganada deve atribuir-se atodo um siste-
madecoisas queinevitavelmente converte uns em
escravos eoutros emtiranos.
Mas, como dizia hápouco, oquemais aproxi-
mana suafisionomia complicada aépoca naqual
surgiu oprimeiro apostolado batalhador docristia-
nismo com o momento histórico que atualmente
vemsurgindo, belo como umjovem gladiador pelo
novo conceito dehumanitarismo, vem aser ano-
vidade da dominação face às manifestações das
idéias derenovação social.
Caifás (diga-se semintenção maliciosa) eraum
acusador público dos seus tempos, epediu acon-
denação dojusto, como sedutor einstigador das
plebes contra asleis doEstado econtra auti possi-
detis dos ricos, dos escribas edos fariseus.
34
E eupenso queseoart. 248 doCódigo Penal
Italiano nos parece novo, velha é, no entanto, a
acusação, velhos são os métodos eos objetivos
queaaconselham.
É a guerra não confessada e dissimulada; a
guerra surda, implacável aopensamento, umdia
religioso, ontempolítico, hojesocial.
Mas antigaegloriosa éafalange dos malfei-
tores' imortais nahistória. E sobreanossacabeça
- oh, Senhores Juizes! - fala ainda comamuda
eloqüência do sacrifício, estaluminosa figura de
Cristo, o anarquista datúnica vermelha dehá 18
séculos, como disse Renan, crucificado como
malfeitor entreosmalfeitores.
A história incorruptível deu razão aorebelde
da Galiléia e condenou os seus juízes. Desde o
mais vil dos patíbulos, ele, oprimeiro quetrouxe
a boa-nova aos pobres e aos martirizados, o
inexorável acusador dos ricos e dos hipócritas
fariseus, o rebelde justiceiro dos vendilhões do
templo, fala ainda, através dos séculos, alingua-
gemhumana queamuitos, depois dasantificação
doseusofrimento, pareceu epareceaindapalavra
divina.
E aquelaoutratúnicavermelha, quenestedia
revivenanossamemóriacomoaniversário dasua
morte, adeGaribaldi, oproscrito, omalfeitor, o
condenado àforcapor aqueamesmadinastia que
da sua mão recebeu dois reinos? Não vos re-
cordais?
35
Ah! Entre essas duas túnicas vermelhas, fla-
mejando no princípio eno fimdestes 18séculos,
quantas nobres vidas dizimadas ou condenadas
pelatirania!
Éestaasortecomumatodos os percursores.
Amiúde sepensa (eàsvezes comrelativaboa-fé)
encarcerar econdenar estesmalfeitores, estesmal-
vados, e estes homens não foramsenão as van-
guardas degerações novas.
É, por conseguinte, históriavelha, adestespro-
cessos de malfeitores ... honradíssimos. E, com
pequenas diferenças, asimputações sãosempreas
mesmas. Os perseguidos de ontem, convertidos
emdominadores, perseguem no dia seguinte as
vanguardas, comidênticos motivos deacusação.
Semembargo, o passado deveria ser umali-
Çã9paranosdemoritrar quenenhumaperseguição
ésuficiente paradeter umaidéia, seestaéverda-
deiraejusta. ''
Umilustre sacerdote, Lamennais, escreviahá
umséculo, nas suasPalavras de um Crente, estas
santas exortações aos cristãos doseutempo.
Podemrepetir-se, dirigidas aos odiados cris-
tãos danossa época:
"Lembrai-vos das catacumbas.
Naqueles tempos, conduziam-vos ao patíbulo,
abandonavam-vos às bestas ferozes nas colinas, para
diversão da plebe, arrojavam-vos aos milhares para o
fundo das minas edos cárceres, pisavam-vos como se
36
fosseis apedra das praças públicas, confiscavam-vos
os vossos bens e, para celebrardes os vossos proscri-
tos mistérios, não vos deixavam mais que opó daterra.
Que diziam os vossos perseguidores?
Diziam que vós predicáveis doutrinas perigosas,
que avossa seita (assim lhe chamavam) perturbava a
ordem e apaz pública, que, violadores das leis eini-
migos da humanidade, ameaçáveis o mundo.
E no meio detanta desventura, sob esta agressão,
que pedieis vós? A .liberdade.
Reclamáveis o direito de não obedecer senão ao
vosso Deus, de o servir e o adorar segundo avossa
consciên cia.
E quando, ainda que enganando-se na sua fé, ou-
tros vos reclamaram este segundo direito, ele foi res-
peitado por vós, como pedisteis um dia aos pagãos
que o respeitassem.
Sim, respeitaram-no para não renegarem amemó-
ria dos vossos antecessores, emhomenagem às cinzas
dos vossos mártires. E senão vos recordais dos ensi-
namentos de Cristo, recordai-vos ao .menos das ca-
tacumbas".
Eu gostaria quealgum liberalote ou volteriano
homem degoverno dos nossos dias lesse denovo
emeditasse neste livrinho do fervoroso sacerdo-
te. Algo poderia aprender nele sobre isto quemuito
sepredica epouco sepratica: oculto daliberdade.
E agora vol temos àcausa.
Quem são estes socialistas anarquistas? Vós
já o sabeis, Senhores Juizes. Ali naquela jaula
37
estais vendo uma numerosa eescolhida represen-
tação deles.
São trabalhadores íntegros ealegres, estudio-
sos decoração einteligentes, como Luís Galleani,
artistas inovadores, como Plínio Nomellini, bur-
gueses que, havendo renunciado aos privilégios e
aos prejuízos da sua classe, são paternalmente
acolhidos pela grande família dopovo queespera
os seus inevitáveis destinos.
São operários, como obravo Faina eopeque-
no Barobino, que têmcoração emente para sentir
epensar, equejulgam ter o direito depensar em
voz alta.
Todos eles, como todos os homens queobser-
vamdesapaixonadamente ascoisas domundo, têm
dirigido asi próprios as seguintes simples pergun-
tas:
Por que é que a maioria dos homens, ainda
que trabalhe eproduza, se vê constrangi da a ser
pobre e a manter com o seu suor uma minoria
ociosa, cuja única ocupação consiste em consu-
mir os produtos do trabalho alheio?
Por que é que aterra, que anatureza deu por
herança comum atodos os homens, foi por alguns
fracionada, fraudulenta eviolentamente, edividi-
da emseu exclusivo beneficio? Que sediria seo
mesmo setivesse feito comoar eaágua, elemen-
tos necessários àvida? Dir-se-ia que era umrou-
bo sacrílego? Mas o ar e a água - um fluido e
38
líquido rebeldes, anárquicos - foram subtraídos
emgrande parte ao monopólio dos privilegiados.
Mas acaso aterra não étambém umelemento
essencial à vida coletiva? Acaso não deveria ser,
por natureza e destino próprio, herança comum
do gênero humano?
E as máquinas, os instrumentos de trabalho,
as casas, os meios detroca ede produção, aserem
privilégio de alguns, acaso não o seriam melhor
dos trabalhadores, que com o seu suor transfor-
maram esses bens em instrumentos produtivos e
fecundos - do que daqueles quenada fizeram, que
jamais produziram? '
Mas não, dizem os socialistas anarquistas;
tampouco isto seria justo,
Tudo, desde os instrumentos de trabalho até
os bens de consumo, desde aterra àmaquinaria,
desde as minas até os meios detroca edaprodu-
ção, sendo tudo fruto da cooperação social, tudo
deve ser proclamado patrimônio dasociedade in-
teira,
E éprecisamente nesta afirmação que oideal
luminoso da fraternidade surge como um flo-
rescimento espontâneo desta harmonia deinteres-
ses entre oindivíduo easociedade, desta admirá-
vel comunhão dos direitos de cada homem com
os direitos da espécie inteira.
Comumexemplo simples eclaro, Lamennais,
sempre no livrinho de que vos falava há pouco,
39
r-"
sintetiza anecessidade jurídica e natural do co-
munismo. Vamos ouvi-lo outra vez:
"Se numa colméia algumas abelhas gananciosas
dissessem: todo omel que está aqui é nosso, edispu-
sessem à vontade dos frutos do trabalho das demais,
que seria das outras abelhas?
A Terra é como uma grande colméia e sepessoa
há aquem falte onecessário, isso significa que outras
têm amais. E então ajustiça eacaridade desaparece-
ram da Terra".
Quem pode deixar deduvidar deque ajustiça
eacaridade se alberguem ainda sobre esta Terra,
minada pela iniqüidade, quando tantos etantos ca-
recem do necessário?
Nas humanas abelhas, muitas estão condena-
das afabricar o mel, eoutras, poucas, reservam-
se o direito de... o devorar. E as laboriosas até
perderam o ferrão.
É, pois, a socialização da colméia e do mel,
ou, deixando a linguagem figurada, a socializa-
ção detodas as riquezas, aquilo aqueos socialis-
tas anarquis tas pedem.
E proclamam, como primeira necessidade, a
abolição dapropriedade privada, causadiretadopri-
vilégio econômico, eindireta domonopólio político
dealgumas classes sobre as demais dasociedade.
Os anarquistas estão na vanguarda do socia-
lismo, mas não são, no fundo, senão alegião mais
40
•. . . .
batalhadora do grande exército socialista. O ma-
gistrado doMinistério Público quis argumentar as-
sim: "Aos socialistas, entendo-os eadmiro-os. São
razoáveis; procuram conquistar o poder público,
e, por conseguinte, movem-se na órbita das nos-
sas leis. Mas os anarquistas estão fora da lei;
predicam arevolução como único meio para atin-
girem o seu ideal".
Deixo aos colegas socialistas (permitem-me
que lhes chame colegas, por muito antipática que
lhes seja apalavra), incumbidos da defesa, ade-
monstração deque os socialistas também querem
a abolição da propriedade privada, necessidade
fundamental detoda atransformação em sentido
francamente socialista, e o protesto contra este
implícito atestado deinocuidade que oMinistério
Público prodigalizou ao seu partido.
Compreende-se perfeitamente que isto seja
apenas uma astúcia deacusação; porque seos réus
fossem simplesmente socialistas, então oraciocí-
nio do Senhor Delegado seria muito diferente.
Porque, enfim, cientificamente falando, os anar-
quistas não são senão os socialistas mais radicais,
etêm emvista, contemporaneamente, aabolição
de toda a espécie de exploração do homem pelo
homem, eaabolição detoda aautoridade do ho-
mem sobre ohomem, comaabolição do Estado ou
Governo, ou seja qual for o órgão centralizador
que pretenda impor avontade de uns poucos, ou
demuitos, à autonomia eao livre acordo.
41
Éeste umideal irrealizável? .. Vós, Senhores
Juízes, sois incompetentes para ojulgar. A verda-
deé que ahistória marcha irresistivelmente dati-
rania para aliberdade. Os dias, os anos, os sécu-
los, são os passos, os períodos, as etapas desta
imensa mas incessante viagem dahumanidade.
Quão mesquinhas seafiguram estas academi-
asjurídicas com o seu cortejo dedores humanas,
face ao rolar infinito das coisas no imenso céu do
tempo edo espaço! Porque seafatalidade históri-
ca arrasta a sociedade humana até aquela meta
ideal, ansiada por estes caluniados apóstolos da
plebe, nenhuma condenação, por feroz que seja,
poderá impedir ou deter, nem por umsegundo, a
irresistivel marcha. E uma lei degravitação social,
rígida einviolável, como alei dagravitação fisica.
Não impeçais, pois, opensamento dos homens,
filósofos ou operários que sejam, que prescutam
a finalidade desta lei suprema da vida social, e
permiti que omais difícil problema (o davida co-
letiva) encontre por fim o seu Newton.
E já que oMinistério Público, apropósito da
anarquia, disse coisas tão extraordinárias, porque
inexatas, já que incorreu emtantas inverossimi-
lhanças, escutai por ummomento oquesobre esta
matéria disse um filósofo autêntico, Bovio, ao
qual, emnome daOrdem dos Advogados, daqual
faço parte nominalmente, envio uma respeitosa
saudação. No seu magistral livro A Doutrina dos
Partidos na Europa, escreve:
42
"Já que arevolução, para cumprir amissão que o
seu ciclo lhe destina, se apresenta como social, opar-
tido revolucionário por excelência deve ser anárqui-
co; deve apresentar-se não como adversário desta ou
daquela forma deEstado, mas detodo oEstado, por-
que ali onde vê oEstado, vê privilégios emisérias, vê
dominadores esúditos, classes diretoras eclasses de-
serdadas, vê política enão justiça, vê códigos e não
direitos, vê cultos dominantes enãoreligiões, exérci-
tos enão defesas, escolas enão educação, vê o extre-
mo luxo eaextrema carência; ecomo quer que seja o
pontífice, orei, opresidente, odiretório, oditador, ele
é sempre o Estado; divide em duas palies a comuni-
dade, eenquanto mais divide(comeste ou outro nome)
mais domina.
Orgulhoso e altaneiro com os súditos, invejoso
com os vizinhos, oEstado é, no interior, aagressão, e,
no exterior, aguerra. Sob opretexto deser oagasalho
dasegurança pública, é, por necessidade, desapossador
eviolento; com opretexto decustodiar apaz entre os
cidadãos e as palies interessadas, é o provocador de
guerras intemas eextemas. Chama bondade à obedi-
ência, ordem ao silêncio, expansão à destruição, civi-
lização à dissimulação.
É, como aIgreja, filho daignorância comum eda
debilidade dos demais. Aos homens adultos, manifes-
ta-se como é: o maior inimigo do homem, desde o
nascimento à morte .
...Anárquico é opensamento eahistória vai até a
anarquia. O pensamento de cada indivíduo é autô-
nomo, e todos os pensamentos dos homens formam
um pensamento coletivo que move a História, esgo-
43
tando avitalidade do Estado epondo emrelevo cada
vez mais a antinomia insuperável entre o poder cen-
tral ealiberdade do homem.
Justifica o Estado como quereis, consagrai-o,
confundindo-o com o Deus subtraído à Igreja, fazei-
o imperialista, democrático, burguês, monárquico,
republicano, esempre tereis desentir-vos aamamen-
tar um tirano, contra o qual protestareis continua-
mente emnome do pensamento edanatureza"
omaisferoz anarquistanãoteriapronunciado
contraoEstado, oGovernoouqualquer outroór-
gãocentralizador, umaacusação tãoterrível.
Os anarquistas militantes, quesão essencial-
mentesocialistas, entendem aanarquiacomoum
fimpolítico do socialismo; efilósofos eecono-
mistas insignes, entreos quais sepodecitar Spen-
.cer, naInglaterra, eoprofessor Loria, na Itália,
dãoimplicitamente razão aos anarquistas quando
consideramoEstado eoGoverno como superes-
truturas doregimeeconômico.
Defato, naAntigüidade, sendoospatrícios os
possuídores das riquezas, eramestes queforma- .
vamogoverno, zeloso defensor dos seus interes-
ses, comdesprezo dos direitos das plebes. E as
agitações provocadas pelas leis agrárias, comos
Gracos, easrevoltas dosescravos, comEspartaco
e Tito Vízio, foram o grande protesto daqueles
tempos contraaexploração econômicaeasubse-
qüentetiraniapolítica dopatriciado.
44
-.
NaIdade Média, quando os senhores feudais,
emguerras aventureiras, seapoderaram, por meio
da pilhagem, das terras, povoações ecidades, es-
tenderam também o seu duplo senhorio, econô-
mico epolítico, sobre os servos dagleba eoexér-
cito multicolor dos vassalos. Mas ainda aqui abase
do privilégio político era oprivilégio econômico;
ali onde o clero possuía uma extensa superficie
deterrenos evastas comunidades religiosas, oseu
poder, baseado nos interesses materiais, conver-
tia-se empolítico eassumia amais feroz das tira-
nias - adas almas esobre as consciências.
O ano de 1789 surgiu, saudado como uma au-
rora, depois da noite escura da Idade Média. A
burguesia levantou-se, reivindicadora, eentre tor-
rentes desangue proclamou os direitos dohomem.
Mas adeclaração dos direitos ficou somente es-
crita no papel enada mais. E aigualdade civil, tal
como era realmente, não passava de mais uma
mentira, ante adesigualdade econômica.
Os trabalhadores que haviam despertado ao
som daMarselhesa ehaviam ajudado aburguesia
a derrubar a Bastilha e a rechaçar a Europa
reacionária que murmurava junto das fronteiras
francesas, deram-se conta mais tarde de que se
havia efetuado uma simples mudança de autori -
dades, enada mais.
E estes trabalhadores, obrigados acansarem-
se eternamente sobre as terras dos outros, sobre
as máquinas dos outros, no fundo das minas dos
45
outros, passaram dacondição deservos àdeassa-
lariados. Os amos tiveram namão avida fisioló-
gica destes escravos modernos: os assalariados.
Poderão estes ter uma vida intelectual, uma
vi da moral? ,
E como aliberdade fisiológica mantém aple-
be das cidades edos campos emuma ainda mais
triste miséria da inteligência e do coração, deste
modo ariqueza capitalista assegurou àburguesia
triunfante omonopólio dopoder político.
Por isso os anarquistas, deacordo com as de-
mais escolas socialistas na crítica do capital eda
riqueza ena abolição dapropriedade privada, ti-
ram como conclusão que a supressão do privilé-
gio econômico conduz àsupressão do Estado eà .
livre associação dos soberanos individuais, con-
graçados nos interesses eharmônicos na comuni-
dade dotrabalho edo bem-estar.
Assim, os anarquistas, havendo aprendido na
história ena experiência que oEstado eoGover-
no não foram nem são outra coisa senão os instru-
mentos da defesa do privilégio econômico de al-
gumas classes, pensam que, quando desaparecer
esse privilégio com otriunfo do socialismo, tam-
pouco oEs tado eo Governo terão razão de exis-
tir.
A esse alto problema, Senhores Juízes - já o
sabeis -, se sacrifica todo aquele que tem inteli-
gência ecoração.
46
***
A VidaModerna, umperiódicoliteráriodeMi-
lão comgrande tiragem, acaba depublicar uma
informação sobreosocialismo.
Esteinquéritoresultou numverdadeiro plebis-
cito desimpatiapelo grande ideal derenovação,
por parte dos mais ilustres homens deciência e
artistas italianos.
Orabem, detodas estasrespostas mais oume-
nosheterodoxas, pemiti-me queleiaadeumanar-
quistamilitantecujoúnicoeexclusivoméritocon-
sisteemnão esconder amínima vibração do seu
pensamento.
Leio uma parte desta resposta só porque
condensabrevementetudoquantojá expusdemo-
dotruncado edesunido:
"O socialismo, quenasuaaplicação integral con-
duz ao comunismo científico, será um ordenamento
econômico, no qual aharmonia do interesse decada
umcomointeresse detodos resolverá oantagonismo
sangrento entreos direitos doindivíduo eos daespé-
cie. Mas no socialismo, que é abase econômica da
sociedade futura, devemestar praticamente concilia-
dos os dois grandes princípios daigualdade e dali-
berdade. Daí oatrevido emal compreendido concei-
to deanarquia: a liberdade das liberdades. Estaserá
amanhã a coroação política necessária do socialis-
mo, como sucede hoje com acorrente francamente
libertária. A anarquia não é o socialismo autoritá-
47
rio, ahumanidadequeafogaoindivíduo.Nãoécomoa
desordem burguesa, o homem que esmaga ahuma-
nidade. Mas resume o ideal deumacordo espontâ-
neo das vontades edas soberanias individuais, do
desfrute dobem-estar criado pelotrabalho detodos,
sem exploração: estáaqui aidealidadeeconômica,sem
coação; estáaqui aidealidadepolítica, doverdadeiro
socialismo" .
Aqui estão os homens quedeveisjulgar, se-
nhores Juízes. Aqui estão as idéias queestes ho-
mens professam.
Os equívocos da pronúncia
Masosfatos pelos quaisvêmacusados, osfa-
tospelos quais vêmpronunciados como"associa-
ção demalfeitores" àluz dodispostono art. 248
doCódigoPenal- "contraaadministraçãodajus-
tiça, oudefépública, ouasegurançapública, con-
traosbons costumes ouaordemfamiliar, oucon-
traapessoaouapropriedade" -, osfatos, osfatos,
oh! acusador público, quais, quantos, ondeestão?
Quando, ondeecomo, Luís GalIeani eosseus
companheiros atentaram contraachamadajusti-
ça' quando équesubtraíram documentos emfa-
vor depotentados (como outros fizeramimpune-
mente), quando é quevenderam ou compraram,
oureduziramsentençasjudiciais?
48
Quando atentaram contra afé pública?
Acaso falsificaram moedas, ou duplicaram
cheques bancários, ou roubaram o erário, ou cor-
romperam deputados ou ministros, ou se deixa-
ram corromper através de alguma cruz de co-
mendador ou à custa do título de senador?
Onde, quando atentaram contra a segurança
pública? Onde estão as bombas, os explosivos, as
máquinas infernais por eles fabricadas?
O senhor representante do Ministério Público
deve ter partido acabeça aoimaginar uma bomba
no inocentíssimo tubo apreendido aum dos réus.
Desenvolveu esforços sobre-humanos para o car-
regar compalavras ... explosivas. Mas otubo conti-
nuou na mesma, inofensivo, eloqüente prova da
inocência destes indivíduos; eaí ficou vazio, va-
zio como esteprocesso, inchando unicamente com
a fantasia mórbida de uma polícia sem escrúpu-
los. De queoutra forma puseram estes homens em
perigo asegurança pública?
Acaso são comerciantes que falsificam o vi-
nho, ou industriais gananciosos que, para poupa-
rem, amanhã porão emperigo, nas minas ou nas
fábricas, avida demilhares deoperários produto-
res? São porventura alguns Mouravieff - fim de
século, que restabeleceu aordem entre as plebes
famintas descarregando metralha sobre os estô-
magos vazios?
Como equando atentaram contra os bons cos-
.tumes eaordem das famílias? Não são estes, Se-
49
nhores Juízes, os que se valem da miséria para
comprarem oamor dejovens desesperadas, os que
estupraram virgens, valendo-se do dinheiro ou da
sua autoridade de patrões, não são estes os bri-
lhantes "Don Juan" que pervertem as esposas po-
bres.
Sonharam, é verdade, com uma família que
fosse oresultado espontâneo doamor, enão opro-
duto artificioso deumnegócio legal, muitíssimas
vezes nabase dointeresse. Sobre afisionomia tra-
dicional da família de que fala o código, sonha-
ram injetar a seiva jovem de um sentimento que
não tem as hipocrisias do calculismo, nem os
convencionalismos das leis: o amor livre. O amor
que aceita ovínculo da única lei, que emsi mes-
mo encerra oprêmio easanção: alei danatureza.
Estes indivíduos não querem destruir a família.
Querem regenerá-Ia, purificá-Ia - nada mais.
Perguntai-o aos velhos, perguntai-o às suas es-
posas, perguntai-o asuas mães, àqueles pobres fi-
lhos do povo que tendes visto às portas deste edi-
fício com os olhos vermelhos de lágrimas, inter-
rogando emsilêncio os vossos semblantes, oh! Se-
nhores Juízes, leiais neles a sorte dos seus entes
queridos; perguntai-o aestes velhos eaestas mu-
lheres.
É seguro que vos responderão que os 35 ho-
mens que aacusação pública qualifica demalfei-
tores, são filhos, maridos e pais amorosíssimos.
50
Responder-vos-ão que asua condenação equiva-
le ao desmoronamento econômico emoral destas
angustiadas fami1ias. E apetição cruel da acusa-
ção pública já deferiu umterrível golpe nos cora-
ções destas gentes que, chorosas, esperam; e a
pena que para estes homens se pede, isto sim, é
que é um verdadeiro atentado à paz, à tran-
qüilidade destas laboriosas famílias inocentes.
Onde, quando, por fim, atentaram contra as
pessoas ou a propriedade? Elas querem o desa-
parecimento-da burguesia, como classe privilegia-
da, mas não amorte dos burgueses.
Como anarquistas, consideram que quem nas-
cefilho demilionário não temmérito algum, nem
sequer tem odireito agozar dessas riquezas, por-
que não as produziu; do mesmo modo, não po-
dem atribuir ao rico aculpa de ser rico.
Éverdade que ariqueza excessiva deuns de-
riva da excessiva miséria de outros, já que é
óbvio concluir que, sehá quem tenha demasiado,
haverá por conseguinte quem tenha pouco.
Mas não épara matar todos os burgueses que
os socialistas anarquistas declaram aguerraà bur-
guesia, senão para suprimir as causas daexplora-
ção edamiséria dos trabalhadores. Éuma guerra
ao sistema econômico epolítico, mas guerra de
princípios edeargumentos.
E estaluta não nasceu das recomendações dos
socialistas ou dos anarquistas, mas de uma fata-
51
lidade histórica. A sua origem está no antagonis-
mo de classes. Será a eliminação das classes no
seio dagrande família desocialistas dos trabalha-
dores fraternais, solidários elivres, queafará ces-
sar. Esta luta, inevitável, será tanto mais áspera e
feroz quanto mais desapiedada for areação. A vio-
lência dos de cima determina inevitavelmente a
violência dos de baixo. A liberdade verdadeira,
grande, completa: eis aqui amais eficaz medida
preventiva contra o chamado delito político ou
social não é, ao fimeaocabo, para quemoobser-
vebem, senão oprotesto sangrento dopensamen-
to maltratado. Falando dedelito político quanto à
anarquia, certamente queonosso espírito, Senho-
res Juízes, recorre àretaliação terrivel queéavin-
gança escolhida pelas almas exacerbadas contra a
cínica sociedade dos potentados edos homens do
governo que confiam àpolítica acura das enfer-
midades sociais.
E perguntar-vos-eis: não se confessam anar-
quistas os dinamitistas pari sienses? Não declaram
querer transformar omundo, destruindo-o comdi-
namite?
Ah, Senhores Juizes ... Antes dejulgardes es-
tes homens, que entrevêem aerafeliz dahumani-
dade rejuvenescida, fora do sonho negro de uma
grande purificação por meio de incêndios e de
explosivos, énecessário descer primeiro aoinfer-
no dos sofrimentos edas misérias, no qual as al-
mas se converteram emcinzas.
52
Antes, énecessário compreender por que len-
to processo psicológico estes espíritos, estes co-
rações chegam ao extremo, transbordando ódios.
Nem a propaganda destes sedutores, a cujas
fileiras me orgulho de pertencer, já que foi sem-
pre obra de espíritos inquietos erebeldes areno-
vação da civilização, nem os violentos artigos do
jornal, influíram de modo algum nas motivações
impulsivas desses cavaleiros damorte edo ideal.
Simples evãs palavras não podem semear tan-
to ódio, tanta rebeldia. Éademonstração diária e
perene das inquietações sociais que arrasta estes
voluntários do patíbulo a efetuar o protesto tre-
mendo eruidoso. Só avertigem deum profundo
espasmo moral é capaz de levantar dos abismos
do oceano humano, esgotado por tempestades tão
negras, estes átomos ignorados, até à sensualida-
de espantosa que faz tremer o mundo adormeci-
do, no meio das suas orgias, dos seus direitos e
dos oprimidos, e sacudir os sonhos voluptuosos
comretumbantes fragores. Certamente que as ge-
rações vindouras, resgatadas pelo amor epelo ci-
vismo, seespantarão com estas trágicas raivas de
umséculo agonizante. Mas então aestranheza será
legítima, porque arazão eoespírito defraternidade
e, desolidariedade terão dominado quanto há ain-
da de agressivo ede atavismo bestial no organis-
mo dacasta humana.
Mas acaso as instituições atuais têm o direito
de se queixar do que sucede por obra dos dina-
53
mitistas edos apunhaladores, quando écerto que
elas serefugiam no militarismo, que é, como es-
creve Leon Tolstói, aescola da violência?
Têm o direito de se surpreender estes gover-
nantes dopovo, que fazem consistir toda alógica
do governo na boca das espingardas e na ponta
das baionetas, eque crêem poder legalizar avio-
lência dos poderes constituídos comoenorme pre-
texto darazão deEstado?
E digo-vos, Senhores Juizes, anarquista fer-
voroso como sou emeorgulho deser, sabido como
éque o anarquismo militante procede naItália de
dois nomes gloriosos: Mario Pagano e Carlo
Pisacane -, digo-vos, repito, que abomino o san-
gue eaviolência, eque avida deum semelhante
ésagrada para mim, como ésagrada (edou teste-
munho disso diante dobanco doloroso onde estão
estes 35honrados homens) para todos os anarquis-
tas, que são corações nobres que choram a dor
alheia muito mais que aprópria dor.
Mas quando depois de tanta acumulação de
misérias edeinjustiças sobre os débeis, os pobres
eos indefesos, vemos algumas dessas almas tor-
turadas levantarem-se, terríveis como atempesta-
de, contra os satisfeitos eos poderosos da Terra,
não seremos nós, seguramente, que nos unamos
aos quenos julgam econdenam, porque, materia-
listas emfilosofia, edeterministas emsociologia,
cremos que seria ridículo instaurar um processo
54
aosurgimentodoentusiasmo, qualquer quesejao
terror earuína quedaí possater resultado;
Digo isto para sustentar queéloucura querer
inferir dos atos individuais eimpulsivos dealgu-
mas pessoas umaqualquer responsabilidade mo-
ral para todos aqueles queprofessam as mesmas
idéias políticas esociais. Ferozmente absurdo se-
ria pronunciar sobre estes réus umjuízo que se
deixasseinfluenciar dealgumamaneirapelomedo
deexplosões, sucedidas emoutros lugares, econ-
tra cujos autores asociedadejá sevingou, aliás
deummodo bastante impiedoso.
Não écontra apessoa nemcontra aproprie-
dade que atentam os anarquistas, que acima de
tudo pretendem formar umasociedade na qual o
roubo eohomicídio sejamimpossíveis. A expro-
priação queeles queremseráfeitapelo povo, em
benefício detodos, ou, como sediria emdireito
admini strativo, por razões de utilidade pública.
Fulano rouba umrelógio asicrano, emproveito
próprio? Isto éoroubo.
Os camponeses deumaregião põem emco-
mumos campos por eles cultivados epor outros
explorados, e declaram-nos propriedade social,
convidando osantigos donosatrabalhar neles, em
conjunto, oualargarem-nos, substituindo, emuma
palavra, apropriedade detodos àpropriedade de
uns poucos? Está aqui a expropriação legítima,
por motivo deutilidade pública; isto éoquenós,
55
socialistas anarquistas, chamamos reivindicação
dasriquezas àsociedadeinteira.
lmaginai que a esta socialização daterra se
seguedesdelogo, por obradeoutros trabalhado-
res, asocialização das máquinas, das minas, ede
todas as fontes deriquezaedeprodução, etereis
umanovaeconomiapública, quesubstituirá oin-
teresse privado, destruindo o antagonismo das
classes. Tereis, emumapalavra, osocialismo. Co-
roai-o comaliberdadeverdadeira, íntegra, etereis
aanarquia.
Querelação podeter esteluminosoideal com
o art. 248 do Código Penal Italiano? Dizia bem
Baradino, não obstanteos sustosdoSenhor Dele-
gado doMinistério Público. Fazer aapologia do
roubo, seria fazer a apologia da sociedade bur-
guesa. Defato, pode-secompreender queemuma
sociedade na qual, como avida demonstra, os
honrados beneficios do capital setiram daquela
parte do trabalho quenão sepagaaooperário, e
por conseguinte resultam emverdadeiros os pró-
prios roubos legais, dizia eu, tanto adesgraçada
fatalidade social quearrastaCarloMoretti, opro-
tagonista dos Desonestos, deRovetta, aroubar o
dinheiro dacaixa, como aimperiosanecessidade
fisiológica queobrigaValjean, emOsMiseráveis,
deVictor Hugo, aarrebatar, comviolência, um
pão, dos muitos quehavia, para aplacar afome
dos seus, quemorriamdeinanição.
56
Mas perante tais fatos, mesmo perpetrados
por causas privadas, não hánecessidade deser so-
cialista ou anarquista para encontrar para eles uma
justifi cação.
Basta simplesmente ser um homem de bom
senso edebomcoração para concluir, precisamen-
te de acordo com uma personagem dabela ever-
dadeira comédia deRovetta, "que para ter odirei-
to dejulgar econdenar um homem, é necessário
haver passado, sem culpa, pelas mesmas circuns-
tâncias, emvirtude das quais ooutro cedeu ecaiu".
E até aciência do Direito Penal ensina que "a
necessidade não conhece alei", eFrancesco Car-
rara, como corolário jurídico do direito à vida,
concluiu que"roubo cometido por necessidade não
é delito, já que fatalmente no conflito entre o su-
premo einviolável direito àexistência eomenor
etransitório direito de propriedade privada, não
há dúvida alguma de que asuperioridade eotri-
unfo devem estar do lado do direito àvida, que é
soberano entre os direitos humanos".
Este é, nem mais nem menos, o argumento do
anarquista aojulgar os ataques privados àpropri-
edade privada. E é, como todos podem ver, o ar-
gumento dobom senso edo bom coração, que as-
socia aalta fantasia do poeta francês à, conclusão
jurídica do criminalista italiano.
De tudo quanto, apressadamente ede boa-fé,
acabo devos expor, Senhores Juízes, podereis for-
mar umcritério sintético, exato eobjetivo das teo-
57
I
l
rias socialistas anárquicas; econcluireis (confio
nisso) que elas não constituem senão umideal de
igualdade ede liberdade, porventura, ousado (se
quereis), mas muito contrário aumilícito crimi-
nal emenos ainda comrelação ao art. 248 do Có-
digo Penal.
o ideal revolucionário
Mas estes indivíduos, acrescenta a acusação
pública, não são anarquistas teóricos, como Hen-
rique Ibsen ou Elisée Réclus; professam idéias
anarquistas revolucionárias, epoderão passar fa-
cilmente do direito àação.
A revolução ... ! É esta a palavra que vos faz
tanto medo? E não haveis aprendido na história
que todo oautêntico progresso humano está mar-
cado por umtraço sangrento, eque tanto no cam-
po político como no científico foram sempre mi-
norias inconformistas que empunharam abandei-
ra da verdade, em torno da qual caíram, comba-
tendo, outriunfaram, arrastando atrás delas maio-
rias inconscientes?
Não vos recordais que aos grandes facciosos
dorenas cimento italiano sechama hoje percurso-
res, mártires; que os revolucionários pela pátria se
converteram atualmente emfiguras monumentais?
Não pensais, por fim, que as mesmas leis em
nome das quais pedis - oh, acusador público? - a
58
condenação dos meus amigos, que amesma for-
ma sacramental com a qual vós - oh, Senhores
Juízes! - começareis avossa sentença, nasceram
do sangue de uma grande revolução? Espártaco,
Guilherme TeU, Danton, Kossuth, Garibaldi: aqui
está arevolução; Cristo, Confúcio, Lutero, Gior-
dano Bruno, Galileu, Darwin: aqui está ainda a
revolução.
Eis ainda aqui opresente, que serevela aopas- .
sado e prepara o futuro. Dilacerai a História, se
quereis destroçar a gloriosa legenda da revolu-: .
ção. Arrebatai das mãos das crianças que vão à
escola os livros que, falando de Brutus que apu-
nhalou por amor àliberdade, edeRienzi, propan-
gadista por amor ao povo, ensinam que a revo-
lução é o dever sagrado contra atirania. E proibí
as peregrinações do vosso forte povo marítimo,
que leva coroas de homenagem à estátua de Ba-
liIIa, o pequeno fundeiro cujo nome é querido a
todos os oprimidos, porque da sua mão partiu a
primeira pedra contra os prepotentes opressores.
"Ser revolucionário, Senhores Juízes, não quer
dizer "ser violento".
Quantas vezes, nahistória, aviolência não es-
teve da parte das leis e dos seus defensores, e a
ordem, ao contrário, daparte dainsurreição edos
seus militantes' Ser revolucionário pela grande
idéia dajustiça social, quer dizer pôr aforça cons-
ciente ao serviço dos direitos dos trabalhadores; é
59
conspirar com o pensamento e com a ação para
restabelecer aordem verdadeira nomundo, coma
pacificação dos ânimos na harmonia 40s interes-
ses edas liberdades individuais. Neste sentido, são
revolucionários osmeus amigos, acusados nos pre-
sentes autos. Estes dizem ao povo: "tu és amaio-
ria; tu és o direito eaforça. Basta quetu queiras,
. eo dia da redenção será realidade para ti". E aos
trabalhadores: "vós sois os mais importantes, os
criadores do bem-estar dos' demais. Basta que o
quereis, eo bem-estar estará garantido para vós e
as demais criaturas humanas".
Imaginai, Senhores Juízes, que este raciocínio
se converte, como inevitavelmente se converterá
na consciência matriz do proletariado earevolu-
ção ter-se-á feito.
Nem toda aforça do exército edapolícia será
suficiente para deter este entusiasmo humano, e
esta fé eestajuventude.
Há algo mais forte que o medo eo capricho
dos governantes e das classes dominadoras: é a
irresistívellei dahistória eesta anuncia-nos aine-
vitável vitória do proletariado.
Palavras finais
Avaliai, pois, Senhores Juízes, que seriedade
podem ter estes processos, construí dos sobre ade-
60
lação deconfidentes subornados, anteaserenafa-
talidade dahistória.
Nãoquero, nãoposso, nãodevoentrar nasvís-
ceras débeis, muito débeis naverdade, destepro-
cesso. Osvalentes colegas, aosquais foi distribuí-
daessaanálise, dissecarão as íntimas obscurida-
des processuais, aberrativo fruto dafantasia poé-
tica dosenhor Sironi.
Mas apressando-me à conclusão destajálar-
gadefesa, devomanifestar-vos, aindaquenãoseja
novo nemingênuo nestas coisas, aimpressão de
desgostoquemecausoutodoosistemaacusatório
dosenhor Sironi.
Numagrandeáriamelodramática desalvador
da sociedade, este egrégio comendador falou-
vos daorganizaçãoanárquicadeGênovaedeSam-
pierdarena, assegurou-vosaexistênciadecírculos e
degrupos depropaganda edeação. E, apergun-
tasdoJuiz-Presidente, enossas, arespeitodequem
o houvesse informado deambas as coisas, o se-
nhor chefedapolícia respondia invariavelmente:
"por meio deconfidentes cujos nomes nãoposso
revelar".
Ah! É assimo sistema deacusação anônima
quesequer inaugurar naItálianos processos po-
líticos? Se a voz da acusação permanecesse na
sombraeencontrasseomenor econasvossascons-
ciências, Senhores Juízes, seriamil vezes melhor
queaignorásseis epouparieis palavras.
61
Far-vos-iaestourarderisosevoscontasseuma
destas perversas brincadeiras dequeàsvezes são
alvo estes desgraçados danossasociedade queo
povo indentifica comomais breveedepreciativo
dos vocábulos - bufos - econvencer-vos-ia em
seguida dasuaimbecilidade intelectual emoral.
Permiti-me quevos dêsóumaamostra.
No Círculo deEstudos Sociais deMilão, há
cerca dedois anos, apareceram duas sinistras fi-
guras quedespertaram, amimeaoutros, suspei-
tas deueeramespiões. Preparamos, então, uma
comédia. Umamigo, empregado no comércio, e
semfiliação política, tinha umaestranha seme-
lhança comoadvogado Saveiro Merlino.
Pedimos-lhe quedesempenhasse opapel des-
teúltimo como sehouvessevindoaMilãoincog-
nitamente, já que o verdadeiro Merlino sevia
insistemente perseguido pelapolícia.
Os dois suspeitos, ouvindo falar deMerlino
emMilão, propuseram-se convidá-Io acomer na
suacasa.
O suposto Merlino acei tou comentusiasmo
aqueleconvite, pagopelos fundos secretos dapo-
lícia. Mas a um sinal combinado dos espiões,
quando atravessava agaleria, foi detido onosso
amigo por umanuvem depoliciais, queacredi-
taram seriamente, emvista dadenúncia formal,
ter capturado com as suas garras o verdadeiro
Merlino.
62
Bastou que a imprensa zombasse deste
espisódio para que logo o pusessem em liberda-
de.
Este fato pode ser um termômetro, Senhores
Juízes, para graduarem devidamente as delações
dos confidentes respeitáveis do senhor Sironi.
E seisto não bastasse, permiti-vos quevos leia,
muito mais eloqüente que aminha pobre palavra,
uma página das lições dedireito criminal domeu
respeitável mestre, oprofessor Francesco Carrara,
apropósito da fé que os magistrados conscientes
podem prestar aos confidentes anônimos.
[Nesta parte, o defensor lê, no meio da maior
atenção, algumas contundentes páginas do pro-
fessor Carrara contra a acusação secreta e con-
tra a espionagem política, com a exortação aos
juizes de gritarem o "procul esto, profanis ", a
estes métodos dignos da antiga inquisição. Logo
retoma a sua defesa.]
Depois destas páginas de nobre ejusto des-
prezo do mais ilustre campeão da escola penal
clássica, contra estes sistemas acusatórios, dignos
de outros tempos, que mais poderia eu acrescen-
tar, para demolir oedifício deacusação, oqual se
desmorona ecai pelo seu próprio peso?
A Luís Galleani toca-lhe, éverdade, uma gran-
de culpa. Encontra-se registrada, pela ordem, no
63
lugar respectivo da Câmara do Conselho. Oh!,
amigo Galleani! Tu havias falado uma vez, en-
quanto o trem cruzava velozmente a estação de
Sampierdaren com o terrível agitador milanês
Pietro Gori - sabes? - com aquele cujos passos a
polícia espia incessantemente, como ati.
Perdoa-me, meu amigo. Quem teria podido
imaginar que aqueles fraternais abraços deveriam
.um dia, emteu prejuízo, pesar nabalança daJus-
tiça? Quempoderá pensar quedepois detanto san-
gue derramado pela causa daliberdade, depois de
tantos rios de tinta etantas torrentes de retórica
consagradas acelebrar os fatos de uma nova Itá-
lia, uma costeleta devorada em conj unto no res-
taurante deuma estação, entre achegada eapar-
tida dotrem, poderia constituir oelemento deuma
conspiração de dinamitistas, e que um aperto de
mãos dado sem mistério a um amigo que passa,
poderia, indiciar a prova de uma associação de
malfeitores? Além destes tremendos contatos com
umamigo depassagem, emplena estação detrens,
que outros fatos concretos poderieis imputar a
Galleani? E se são estes íntimos contatos com o
espantoso agitador milanês que sobretudo pesam
eagravam aposição de Galleani, por que éque o
odiado alvo dapolícia foi absolvido, epode ago-
ra, acoberto dainviolabilidade datoga, vingar-se
com este discurso dahonra quelhe negaram, não
o deixando enfileirar ao lado destes temerários
malfeitores?
64
Senhores Juízes:
Omeu dever deamigodosréus, solidário com
asidéias por eles professadas, omeupiedoso ofi-
cio dedefensor destes homens edestes princípi-
os, acabo deocumprir, nãocertamente comhabi-
lidade' mas simcomfésincera.
À vossa bela egloriosa Gênova chegava eu
esta manhã da minha Milão, forte e.laboriosa,
com amemória cheia deimpressões indeléveis
que me recordavam aquele "Mestre das Belas
Artes".
Seéverdade que aartereflete o espírito do
tempo, ali naquelapalestra dogênioitaliano, pal-
pitahoje, Senhores Juízes, umaacentuadanotade
rebeldia, contra aqual todos os Sironi einsetos
destemundo nadapodem. É aonda das misérias
humanas que setransbordam numgrito dedor e
deprotesto dos pincéis ecinzéis dos artistas.
Desdeo Último Espártaco, doescultor Ripa-
monti, às Reflexões de um Faminto, deLorgoni,
todo oproblema danossa épocaseagita admira-
velmente, e grita, e ameaça, naquelas figuras e
naquelas telas.
Por querazão équeosenhor Sironi nãotrama
umprocesso contraaartemoderna, comoinstiga-
dorado ódio declasse edaapologia decrimes?
Por quenão denuncia todos aqueles artistas, fina
flor do gênio italiano jovem, como constituindo
umaassociação demalfeitores?
65
Mas tu, Plínio Nomellini, paga-as por todos.
A ti, pintor nato doazul edaluz, apalavraanar-
quia nãotemeteu medo.
Seguiste comolhos apaixonados as fúlgidas
constelações dofirmamento ecompreendesteque
umcódigoinédito, mas inviolável, oregula: alei
danatureza. Contemplaste oflorescimento anár-
quico dos prados eneles lestetambémamesma
lei natural, quenenhumlegislador humano pode
encerrar emumlivro, anão ser queaadultere. E
na espontânea harmonia das cores, das formas e
dasforçasdavida, advinhasteumaespontâneahar-
monia dedireitos edeinteresses nahumanidade
libertada.
Amante daverdade, nuaebela, acariciaste-a
nas tuas telas. E osenhor Sironi vênelas umsím-
bolo: eleodeia os símbolos. Tambémos impera-
dores quetorturaram os primeiros cristãos odia-
vamacruz. Ossubordinados docomendador mais
tarde, nas tuas telas, viram claramente p]anos...
defortificações.
Hoje a brutal realidade tirou-te aliberdade,
roubou-te omundo ideal dosteus sonhoslumino-
sos, eatirou-te para o banco do sacrifício, entre
Galleani, aprumado eleal, eBarabino, emcujas
veias demarinheiro irreverente correcertamente
osanguefervente dogenovês Balilla.
Eranecessário queaarte, precursora dotem-
po, tivesseaqui asuarepresentação, entreoenge-
nho eotrabalho.
66

,'"
I
Mas todos vós - oh!, 35 acusados! -, levantai
asvossas cabeças ante os vossos juízes, semmedo
nemtemores. Opovo, estejuiz soberano, estepovo
audaz etenaz desta nobilíssima cidade, já vos ab-
sol veu atodos.
Dizem-no erepetem-no os estremecimentos
de afeto e de simpatia que vos acompanharam
diariamente até as portas do cárcere.
E agora, Senhores Juízes, julgai-os já, vós pró-
pnos.
Decidi seédelito reclamar para os deserdados
asuaparte defelicidade, seécriminosa asuamis-
são deliberdade, depaz, emprol dacansada raça
humana.
Vós não querereis, não ousareis condenar es-
tes serenos combatentes deuma idéia, por culpas
que não lhes cabem.
Nos fins deste século, nascido deuma revolu-
ção aqual escreveu comsangue epromulgou com
ofogo dos seus canhões adeclaração dos direitos
do homem; nesta Gênova, respeitável pela memó-
ria de dois grandes revolucionários: Cristóvão
Colombo, sonhando diante do vosso encantador
golfo com um mundo novo para o oferecer à ve-
lha Europa, eJosé Mazzini, desejando uma Itália
- modelo deverdades edejustiça entre as gentes;
dois grandes solitários, dois grandes perseguidos
e escarnecidos pelo vulgo, composto por almas
tontas enéscias; nesta Gênova, repito, eante este
67
povo fiel às suas tradições deliberdade, uma con-
denação do pensamento, como seria acci tar no
todo ou em parte as conclusões do delegado do
Ministério Público, significaria umultraje aestas
solenes recordações.
E, vós, Senhores Juizes, absolvereis. Tenho fé
msso.
Porque seacreditais poder deter ocaminho das
idéias daredenção social comos anos dereclusão
e de vigilância; se vos declarásseis competentes
para julgar as imprescritíveis manifestações do
pensamento humano quetrabalha pela paz eafe-
licidade dos homens; sevos detenninásseis amar-
car as frontes serenas daqueles íntegros trabalha-
dores com o estigma de uma suposta infâmia, o
que afinal não seria para eles senão o batismo do
sacrifício, oh! então, ainda que eu esteja longe
quando proferirdes avossa sentença, lembrai-vos,
oh! Juízesl , destas minhas últimas ehonradas pa-
lavras: Por cima davossa sentença, está asenten-
çadaHistória; por cima dos vossos tribunais, está
otribunal incorruptível do porvir.
[Ruidosos e prolongados aplausos -- em. vão
reprimidos pelo Presidente, A calorosa demons-
tração renova-se na rua, pela multidão entusias-
mada, ao grito de "Vivam os amados malfeito-
res! "]
68