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D.

AFONSO HENRIQUES
Pai da pátria portuguesa: 1109 - 1185
De História ela sabe, e muito. Mas a irreverência tropical toma-lhe o braço e a Angela começa a espanejar
a poeira que deixámos acumular sobre os vultos primeiros de Portugal. Já sacudido, aí vem o Fundador.
Vamos lá aproveitar para meter conversa...
FCS


QUANDO TUDO ACONTECEU...
1109: Provável ano de nascimento, em Coimbra, do
infante Afonso Henriques, filho do conde Henrique
de Borgonha e de dona Teresa, bastarda do rei
Afonso VI de Castela e Leão. No mesmo ano morre
Afonso VI. Início da disputa entre dona Urraca, a
herdeira legítima, dona Teresa e vários outros
pretendentes ao trono. A briga pelo poder dura
anos. - 1122: Afonso Henriques antecipa em sete
séculos um gesto de Napoleão Bonaparte.
Ignorando o cardeal que presidia a cerimônia, arma-
se cavaleiro na catedral de Zamora. - 1128: Afonso
Henriques luta contra a mãe, dona Teresa, e seu
aliado, o conde galego Fernão Peres de Trava. As
tropas de Afonso Henriques e dona Teresa se
enfrentam no campo de São Mamede, junto ao
castelo de Guimarães. O exército galego é
derrotado. Esta vitória leva dona Teresa a desistir
da idéia de anexar a região portucalense ao reino da
Galícia. - 1129: No dia 6 de abril, Afonso
Henriques dita uma carta em que se proclama
soberano das cidades portuguesas. - 1135: Afonso
VII, filho de dona Urraca, é coroado “imperador de
toda a Espanha” na catedral de Leão. Afonso
Henriques se recusa a prestar vassalagem ao primo.
- 1137: Paz de Tui. Após lutar com Afonso VII no
Alto Minho, Afonso Henriques promete ao
imperador “fidelidade, segurança e auxílio contra
os inimigos”. - 1139: Batalha de Ourique. Afonso
Henriques vence cinco reis mouros. - 1140: Afonso
Henriques começa a usar o título de Rei. -
1143: Provável Tratado de Zamora no qual
estabelece a paz com o primo Afonso VII. Primeiro
passo para a independência portuguesa. Afonso
Henriques escreve ao Papa Inocêncio II e se
declara - e a todos os descendentes - “censual” da
Igreja de Roma. A palavra “censual” significa que
Afonso Henriques é obrigado a prestar obediência
apenas ao Papa. Na região que governa, portanto,
nenhum outro poder é maior que o dele. -
1147: Afonso Henriques expulsa os mouros de
Lisboa e várias outras cidades portuguesas. -
1169: Afonso Henriques é feito prisioneiro pelo rei
de Leão, Fernando II. - 1179: A Igreja Católica
reconhece, formalmente, a realeza de Afonso
Henriques. -1180: Final dos conflitos com
Fernando II, de Leão, pela posse de terras na região
da fronteira e costa da Andaluzia. - 1185: Afonso
Henriques morre na cidade em que nasceu. Sua
herança, além de imensa fortuna, é o Condado
Portucalense, primeiro território europeu que
estabelece sua identidade nacional.


“... não quero mais saber do lirismo que não é
libertação.”
(Manuel Bandeira, Poética)


Ninguém merece mais este título que o infante
Afonso Henriques, filho de dona Teresa,
bastarda do rei Afonso VI de Leão e Castela, e
do conde Henrique de Borgonha. Pouca gente
sabe. Mas, graças à esperteza política de Afonso
Henriques, Portugal é a primeira nação européia
a se estabelecer como Estado independente.
Antes do ano 1200, Portugal já é Portugal. Com
direito, inclusive, a língua própria: o galaico-
português.
Gênio, estadista, raposa política, vitorioso,
implacável, espertíssimo: Afonso constrói uma
história rocambolesca. Tudo que pode manipular
a seu favor, manipula sem escrúpulos. Inicia a
trajetória de vitórias fundando um reino. Para
tanto, manda mamãe para o espaço sem sequer
dizer adeus. Naquele tempo, porém, ninguém
cogita a possibilidade de Portugal ser
conseqüência de um Complexo de Édipo mal
resolvido. Até porque, Freud ainda não pensa
em nascer.
O avô de Afonso Henriques destaca-se como um
dos homens mais poderosos de sua
época. Amigo pessoal de Santo Hugo - que não
sabe que será santo, mas já constrói a Abadia de
Cluny, o maior templo que a cristandade jamais
erguera - , Afonso VI tira do bolso, ou dos
cofres públicos, grande parte dos recursos que
financiam o sonho de Hugo. Bem relacionado
com os outros reis cristãos, influente, excelente
jogo de cintura, Afonso VI, entre uma e outra
doação a Cluny, consegue casar sua bastarda
com um dos condes de Borgonha - família
finíssima, não é assim, toda hora, que um
Borgonha se mistura à gente mal nascida.
Mas Afonso VI embrulha a oferta para presente:
Henrique leva Teresa e, de quebra, o Condado
Portucalense, terras a oeste de Castela que, há
tempos ensaia a gracinha de viver por conta
própria. Afonso VI, sabendo das estrepolias
portucalenses, resolve matar dois coelhos com
uma cajadada só. Em 1092, reúne as duas
unidades condais da região – ao norte e ao sul do
rio Douro – e determina que o novo e único
condado pertencerá à Teresa – e ao marido dela,
claro. Urraca, a filha legítima, sentará no trono
de Leão e Castela, como ensinam as regras da
moral e dos bons costumes.
Mais do que bom e preocupado papai, Afonso
VI tenta ampliar seu poder e garantir domínio
sobre maior extensão de terras. Tiro pela culatra.
Tão logo o rei de Leão e Castela mete o bedelho
no Condado Portucalense, a nobreza local inicia
forte movimento separatista.
Coitado de Henrique de Borgonha, estrepa-se
nesta história. Além de gerar a genialidade de
Afonso Henriques, pouco lucra com o
casamento. Fica zanzando em Portucale,
tentando ajudar ao filho. Mas o rebento é
rebelde e dispensa-lhe os palpites. Dom
Henrique, francês chiquérrimo, se
aborrece. Assusta-o a idéia de passar para a
posteridade qual simples reprodutor. Mas a
culpa é do sogro. Afonso VI, ao engendrar a
novela, comete um de seus poucos erros
políticos: não leva em conta nem o bairrismo do
Condado Portucalense, nem a possibilidade de
alguém armar uma falseta.


“...um poder mais alto se
alevanta...”
(Camões, Os Lusíadas)
Afonso Henriques, ele
mesmo, sagra-se cavaleiro.
Entretanto, o que está a
acontecer no resto do
mundo? Consulta a Tábua
Cronológica.








Arma – quem é avô de estadista, deve tomar
precauções. Afonso Henriques tem 20 anos
quando Afonso VI morre. Se famílias se
estraçalham pela baixela de prata da vovó,
imaginem quando o motivo é o poder de uma
coroa. Desentendem-se todos. Urraca discute
com o Bispo de Compostela, atrita-se com rei de
Aragão, cospe desaforos para o conde da
Galícia, faz e acontece. Acometida de olho-
grande, síndroma que costuma atacar herdeiros
menos favorecidos, Teresa desanda a arquitetar
alianças desastrosas – quem sai aos seus, não
degenera.
De repente, Teresa dá o passo fatal.
Arquitetando anexar Portucale à Galícia, alia-se
aos galegos, tradicionais rivais dos barões de
Portucale.
É desconhecer o filho, menino que emite sinais
de seu gênio – no bom e no mau sentido - aos 13
anos. Nesta idade, na cerimônia em que o
sagram cavaleiro, na catedral de Zamora,
Afonso Henriques manda às favas o bispo e ele
mesmo sagra-se. Recusa a mediação divina.
Igualzinho Napoleão, alguns séculos mais tarde
– pena o infante não falar francês, língua
dos sofisticados, nenhum compêndio de história
esqueceria tal feito.
Dizem, não há provas documentais, que o avô
fica orgulhosíssimo com a petulância do fedelho
- é pena que tanto talento evapore em Portugal,
comenta Afonso VI. Fofoca, naturalmente.
Portugal e Espanha cultivam uma antipatia
milenar, todo mundo sabe e não perde ocasião
de jogar lenha na fogueira.
Enfim, com tal filho nas mãos, dona Teresa,
além de se aliar aos galegos, aparece com outro
conde debaixo de braço, contando uma história
trôpega de “apoio político”. Arma-se o circo.
Com 21 anos, Afonso Henriques cerca
Guimarães e declara uma briga de gafieira:
quem está fora, não entra; quem está dentro, não
sai. Nem mamãe, suposta rainha do condado.
É bom que se diga: igual ao avô, o infante não
dá ponto sem nó. Fareja que, com poucas
chances na linha sucessória de Leão e Castela,
precisa descobrir o próprio espaço. Quer o
poder, seu lugar é no condado materno.
Tudo aponta para o fato de que o infante apenas
capitaliza o desagrado da nobreza portucalense.
Desagrado que se acentua quando Teresa enfia
os galegos no caldeirão. O esperto Afonso
Henriques já andava observando que, além do
anseio de se libertar de Castela, as cidades de
Portucale identificam-se cultural e
ideologicamente. Para ele, não parece tarefa
difícil transformá-las em uma só força política.
Teresa apenas fornece a justificativa para o
infante virar a mesa.


“Eu tenho apenas duas mãos,
E o sentimento do mundo...”
(Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do mundo)


Contando assim, parece fácil. Não é, senão
qualquer pessoa faria. Afonso Henriques tem
enorme sensibilidade. Age na hora certa, com
as pessoas certas, da maneira certa. Não
falseia. Comporta-se como perfeito animal
político do início ao fim de sua história. Faz a
História, coloca o mundo nas mãos. Tolos são
os que o cercam, incapazes de observar a
genialidade do príncipe enquanto ele arma o
bote.
Os habitantes de Guimarães, liderados pela
nobreza e pela burguesia, recebem o infante
libertador de braços abertos. Existe uma carta
documentando este apoio. Teresa ainda tenta
combatê-lo. A batalha acontece em 1128, no
campo de São Mamede, perto do castelo de
Guimarães. Primeira vitória do infante. Ele
mesmo se surpreende com a facilidade com
que derrota o exército galego e expulsa a
rainha e seu conde. Em documento, ditado a
alguém de letras, declara: “Eu, o infante
Afonso, filho do conde Henrique, livre já de
toda a opressão,...., na posse pacífica de
Coimbra e todas as cidades de Portugal...”


“...Se governar fosse fácil,
não seriam necessários espíritos
iluminados...”
(Bertold Brecht, Dificuldade de governar)







Pronto, o Condado Portucalense começa a
escorregar para dentro de seu bolso. Daí para frente,
cabe a ele segurar a peteca e combater quem lhe
atrapalhar os sonhos. Combate e vence. Quando não
vence pela força, moedas de ouro resolvem a
situação – ah, a corrupção, não é de hoje que nos
persegue.
Os inimigos principais são os mouros, aboletados

O infante custeia a
construção da catedral
de Braga. Entretanto, o
que está a acontecer no
resto do mundo?
Consulta a Tábua
Cronológica.


na maior parte do território português. Mas o primo
Afonso VII e Fernando II, ambos de Castela,
também levam umas cacetadas. Este último,
prenderá Afonso Henriques em Badajoz e se
espantará com a riqueza do rei português. De
resgate, Afonso Henriques pagará quase duas
toneladas e meia de ouro. Na maior facilidade e sob
os delirantes aplausos dos conterrâneos que não
queriam perdê-lo de jeito nenhum.
Para alcançar tal prestígio, Afonso Henriques sua.
Passa a vida combatendo e costurando acordos
políticos. O primeiro, com a Igreja Católica, pedra
angular do qualquer poder durante a baixa Idade
Média. Quem não recebe a benção episcopal que
trate de procurar novo emprego. Logo após a vitória
de São Mamede, Afonso Henriques estabelece suas
relações com a Igreja: cede em tudo. Sabe onde
pisa, os clérigos têm força demais para serem
contrariados.
Em troca de apoio amplo, geral e irrestrito, o
arcebispo de Braga recebe a garantia de seus
privilégios: direito de cunhar moedas e autoridade
absoluta sobre a cidade. Não satisfeito, o infante
custeia a construção da catedral de Braga, abarrota
os piedosos cofres, reconhece a autoridade divina
sobre a sua e prestigia os eventos da fé. Espanto: os
arcebispos de Braga cumprem sua parte. Durante os
quase 60 anos de reinado, não abandonam Afonso
Henriques. Uma relação perfeita, se casamentos
transcorressem assim, advogados de família
morreriam de fome.
A raia miúda conventual colabora da melhor
maneira possível. Em textos da época, monges do
Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, não
economizam elogios a Afonso Henriques:
“prudente, sábio, inteligente belo, gigante, leão
rugidor” – quase uma comissão de frente. Depois da
batalha de Ourique, então, os frades passam a
delirar. Na opinião deles, Afonso Henriques é o
“eleito de Deus para provar a autonomia de Portugal
e dos portugueses”.
Antes da Batalha de Ourique, um divisor de águas
na vida de Afonso Henriques e na História lusitana,
o infante contorna outros problemas. O primeiro,
mostra ao clã castelhano que a conversa mudaria.


“Chegado tinha o prazo
prometido,
Em que o rei castelhano já
aguardava
Que o príncipe, a seu mando
sometido,
Lhe desse a obediência que
esperava...”
(Camões, Os Lusíadas, canto terceiro)



Em 1135, sepultadas as controvérsias sobre a
sucessão de Afonso VI, o filho de dona
Urraca sobe ao trono com o título de Afonso
VII. A cerimônia na catedral de Leão é
apoteótica, o novo rei exibe luxo excessivo.
Da família, só Afonso Henriques não
comparece. A intenção parece clara: mostrar,
de uma vez por todas, que o Condado
Portucalense não presta vassalagem ao
soberano de Leão e Castela e que Afonso
Henriques considera-se tão rei quanto o
primo recém-coroado.
Afonso VII retalia a desfeita e os dois trocam
sopapos. Em 1137, porém, assinam a Paz de
Tui, onde Afonso Henriques promete a
prestar a Afonso VII “fidelidade, segurança e
auxílio contra os inimigos”. Não existem
documentos claros sobre este período mas,
provavelmente, nosso infante levou uma
corrida. Não corresponde à personalidade
dele assinar documentos humilhantes. A sorte
é que desrespeita o compromisso – ou não
seria Afonso Henriques. Em 1143, o papa
Inocêncio II precisa enviar um cardeal para
apaziguar os primos. Porém, antes, acontece
Ourique. Milagre, juram alguns. Tramóia de
Afonso Henriques, aponta a lógica. Afinal,
convenhamos, Jesus Cristo não flana por aí,
batendo papo com infantes, na maior
naturalidade.

“...Cinco escudos azuis
esclarecidos,
em sinal destes cinco reis
vencidos...”
(Camões, Os lusíadas, canto terceiro)
D. Afonso Henriques e a
batalha de Ourique.
Entretanto, o que está a
acontecer no resto do mundo?
Consulta a Tábua
Cronológica.















Tudo sobre Ourique são conjeturas. Mas a
história é tão importante que marca o
imaginário português, permanece no brasão
do país - cinco escudos, cinco quinas, cada
qual com cinco bolas representando os cinco
reis mouros degolados na batalha – e,
finalmente, transforma Afonso Henriques em
rei de fato e de direito. Até hoje,
historiadores portugueses discutem o
episódio.
Alexandre Herculano encarrega-se de tornar
a batalha ainda mais célebre ao afirmar que
“Ourique não passa de uma lenda”. Deus nos
acuda, Portugal vem abaixo. Acusam-no de
herege – é bom lembrar que último herege
lusitano tinha ido parar na fogueira apenas
um século antes, tempo historicamente
insignificante - de anti-clerical, de ateu, de
agnóstico, de... Bem, deixa para lá. Se gritam
algo pior, a memória não registra.
Historiadores contemporâneos, entre eles
José Hermano Saraiva, tendem a colocar
Ourique no devido lugar. De concreto, sabe-
se que ocorre uma batalha no dia 25 de julho
de 1139, que o exército mouro é
numericamente superior e que a vitória cabe
a Afonso Henriques. Desconfia-se, também,
que Afonso VII, naquela altura sitiando




Aurélia, cidade moura de enorme
importância estratégica, ajuda a meter o
primo na enrascada. Ao receber a notícia que
o infante pratica uma razzia – tipo de
combate usado pelos portugueses, que
gostam de se infiltrar em território inimigo,
surpreendê-los, destruí-los e fugir correndo –,
Afonso VII mexe seus pauzinhos, desviando
o exército islâmico que marchava em socorro
à Aurélia, para destruir o infante. Pode ser, a
participação de Afonso VII não passa de
mais uma hipótese.
Nem o local da batalha é preciso. A cidade de
Ourique fica tão ao sul de Lisboa, tão no
interior dos territórios mouros, que parece
impossível o infante ter se arriscado tanto.
No entanto, há registros de
outras razzias ousadas. Por outro lado, no
início da Idade Média, chamava-se de
Ourique o Baixo-Alentejo. Lenda e História
não decifram estes mistérios.
A versão popular da batalha de Ourique
conta que Afonso Henriques combate imenso
exército islâmico, mata cinco reis mouros e
coloca o resto da multidão para correr. Tudo
em um dia. Especial favor de Cristo Nosso
Senhor que, na véspera, aparece ao infante
com quem conversa amigavelmente. Apenas
Afonso Henriques vê Cristo - que, aliás,
surge escoltado de anjos – e apenas Afonso
Henriques ouve-o garantir a próxima e
espetacular vitória portuguesa.
O moral da soldadesca alcança as nuvens
quando eles sabem quem lhes fizera uma
visitinha. Além do mais, 25 de julho é
dedicado a Santiago, o mata-mouros, santo
que jamais abandona cristãos em perigo.
Especialista em degolas, Santiago trabalha
com eficiência invejável – aparentemente,
é o primeiro ser do planeta a conhecer o lugar
exato das carótidas, não perde uma. Hoje,
parece, aposentou-se. Como se vê, tudo
colabora para o sucesso do infante.
Batalha vencida, povo em delírio, igreja
desvanecida. O infante passa a se assinar “rei
dos portugueses”. Neste momento, define-se
a identidade lusa. Afinal, Ourique estabelece
o importante diferencial: em que outro lugar
o rei conversa, ao vivo e em cores, com as
hostes celestiais?
Em 1143, quando o Cardeal Guido de Vico,
emissário do papa, reúne o infante e Afonso
VII em Zamora, território de Leão, para
tentar convencê-los que a animosidade entre
ambos favorece aos infiéis, Afonso
Henriques joga outra cartada genial.
Alegando o milagre de Ourique, escreve a
Inocêncio II, reclamando para si e seus
descendentes, ostatus de “censual”. Ou seja,
dependente apenas de Roma. Dentro de seu
território manda ele e só ele – estamos
conversados.
O Vaticano custa a responder. Na verdade,
exatos 36 anos. E só responde depois que
Afonso Henriques acelera o processo com
uma esmolinha de mil moedas de ouro.
Quando, em 1179, a Igreja de Roma,
finalmente, reconhece a realeza de Afonso
Henriques, o reconhecimento já não tem
importância. A independência se consumara,
Portugal afirmara sua soberania e o infante
encerrava a vida como rei de primeira
grandeza.
Em Zamora, do encontro entre os primos e o
cardeal, Afonso Henriques colhe um lucro
imediato. Afonso VII tira o cavalinho da
chuva e entende que o infante português
jamais lhe prestará vassalagem. Por conta
própria, começa a tratá-lo de igual para igual.
Engana-se quem pensa que a vida de Afonso
Henriques resume-se a trançar fofocas
políticas, fazendo e desfazendo aliados. O
homem parece uma fera. Combate ao lado
dos soldados, comportando-se como igual,
sem frescuras de hierarquia. Sua tropa mais
que o respeita: venera-o . Obedece qualquer
ordem.


“... sangue seco nas roupas,
olhar duro,
na roupa o crime escrito...”
(Carlos Drummond de Andrade, Os assassinos)


Com a desculpa de empurrar infiéis de volta
aos locais de origem, Afonso Henriques
amplia o território português: Lisboa,
Santarém, Almada, Óbidos, Palmela,
Sesimbra. Combate após combate, destruindo
mouros como quem destrói ratos, Afonso
Henriques constrói seu reino. Na reconquista,
a política é de terra arrasada: matar quem se
movia, queimar o resto. Quase um milênio
antes de os americanos levarem uma corrida
dos subnutridos guerrilheiros vietcongs,
Afonso Henriques adota táticas de guerrilha.
Comandando um exército pequeno, ele
entende que sua vantagem mora no elemento
surpresa. Os generais da época pedem os sais
com tamanha ousadia - como se, para morrer,
fosse realmente necessário seguir um
figurino.
Nosso rei apronta novidades. Quando prevê
combates longos, contrata mercenários.
Geralmente cruzados, a caminho da Terra
Santa, que aproveitam a escala em Portugal
para degolar islâmicos e recolher o produto
do saque – promessa do rei. O cerco de
Lisboa, em 1147, segue este modelito. Entre
portugueses e cruzados ávidos por lucro fácil,
Afonso Henriques reúne centenas de
milhares de homens e cerca de 150 navios.
A reconquista de Lisboa é um triste e belo
episódio da História portuguesa. Afonso
Henriques exagera na violência. Redime-se,
mais tarde, com a Carta de segurança de
1170 que proibirá cristãos e judeus de
maltratar os mouros da região de Lisboa.
Definitivamente, El Rei aprecia grandes e
inesperados gestos.
Sorrateiro, costuma agir por baixo dos panos,
pré-estréia do jeito luso-brasileiro de ser. O
bandoleiro Geraldo Sem Pavor, que
saracoteia desenvolto em terras de Castela,
provavelmente trabalha para Afonso
Henriques. Se o infante não pode invadir
propriedade alheia, um preposto oficioso
pode. Não há como provar. Mas os cavaleiros
de Geraldo Sem Pavor pertencem ao
Conselho de Coimbra, é difícil imaginar tais
cidadãos combatendo sem aprovação real.
O infante que pretende ser rei, vira um mito.
É impossível separar verdade e lenda na
biografia de Afonso Henriques. Ele antecede
seu tempo, revela-se um gênio de
extraordinária visão política e indiscutível
coragem moral. Dele, restam poucos
registros escritos pelos monges de Santa Cruz
- até porque, além dos monges, ninguém
mais sabe escrever, nem Afonso Henriques.


“...Sapatos bordados a ouro,
Esmeraldas e rubis,
Ametistas para os dedos, vestidos de
diamantes,
Escravas para servi-la...”
(Jorge Amado, Alegre Menina)


Os relatos da época – descontados os elogios
de praxe - delineiam um perfil justo,
generoso e irreverente. Retratam o caráter
corajoso, sujeito a crises de cólera, capaz de
atos de violência e de reconhecer seus
erros. Elogiam a frugalidade à mesa e
ressaltam a tendência conquistadora. Não
apenas de poder e terras. De mulheres,
também. Ou principalmente.
Casado com a discreta Mafalda de Sabóia -
com quem tem sete filhos, entre eles, o
herdeiro Sancho –, Afonso Henriques
abençoa quatro bastardos. Um documento de
1184, descortina o inesperado pai carinhoso.
Quando uma de suas filhas legítimas casa
com o conde de Flandres, Afonso Henriques
não titubeia. Para alegrar a noiva, enche
vários navios com o que existe de mais fino.
As naus saem do porto de Lisboa abarrotadas
de vestidos bordado a ouro, jóias preciosas,
sedas, mais ouro, mais jóias, tudo que
pudesse alegrar a menina alegre, filha de pai
poderoso.


“Que destino é o meu senão o de
assistir o meu destino...”
(Vinicius de Moraes, A vida vivida)

O testamento de Afonso Henriques, primeiro
rei do primeiro país europeu a adquirir
consciência de nacionalidade, revela que, até
na morte, ele se comporta como estadista.
Sua imensa fortuna, amealhada em mais de
meio século de guerras e saques, confunde-se
com o próprio tesouro português. O rei a
destina ao fortalecimento da nação. Por
ordem dele, centenas de milhares de
maravedis são entregues à defesa - El
Rei pressente que os mouros preparam um
contra-ataque. Outra centena de milhares
constróem hospitais e sustentam ordens
religiosas e militares. Os mais pobres
recebem seu quinhão. Erguem-se igrejas e
catedrais. Conventos acolhem doações e
sustentam-se anos.
Ao herdeiro, Sancho I, Afonso Henriques
deixa a única recomendação geopolítica: a
construção de uma ponte entre o norte e o sul
do país para não se perder a unificação que
ele custara fazer e manter. Pena que não
existam registros se Sancho obedeceu, ou
não, às ordens paternas.
Afonso Henriques, o pai da pátria
portuguesa, morre no dia 6 de dezembro de
1185, em Coimbra, mesma cidade onde
nasceu. Seu corpo é enterrado no Mosteiro de
Santa Cruz.
Angela Dutra de Menezes