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1897
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O Theatro, 07/01/1897
Nenhuma novidade houve nestes últimos sete dias, e ainda bem, porque
tenho que publicar a estatística theatral de 1896.
– No Apollo o Champignol á força pronuncia-se como um franco successo, o
no Recreio é ainda o Rio nu a peça que mais dá que fazer ao bilheteiro.
– Corre como certo que a companhia Dias Braga vae fazer uma grande
excursão ao norte da Republica; uma folha de hontem chegou mesmo a
afrmar que o embarque é amanhã; entretanto, os annuncios do Variedades
promettem para a próxima semana um drama novo,
– Nossa Senhora dos Navegantes. Não tive tempo de procurar meu amigo
Dias Braga e indagar o que ha de verdade nessas contradictorias noticias. O que
for soará.
– Creio bem que tenha algum fundamento o boato, porque neste instante
o Variedades está sendo muito desejado pela nova associação emprezaria que
acaba de ser organizada para explorar os gêneros predilectos do publico, e da
qual fazem parte o ensaiador Jacinto Heller, o comediographo Vicente Reis, o
compositor Costa Junior, o actor Gonçalves Pamplona e o machinista Antonio
da Cunha.
A peça de estréa será o Filhote, revista de Vicente Reis.
– Terminando este pequeno introito, não posso esquecer que o actor Araújo
conversou commigo a proposito do papel que desempenhou no Direito por
linhas tortas. Foi muito justo e reparo que lhe fiz no meu ultimo folhetim, mas
imaginem que o pobre artista foi obrigado a estudar em dous dias o que tinha
de dizer e fazer!
– Agora passemos á estatistica:
***
Durante o anno de 1896 realizaram-se em nossos theatros 1676
espectaculos (menos 141 que em 1895), que vão descriminados no seguinte
quadro:
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Convem observar que n’esses 1676 espectaculos estão comprehendidos os
concertos, as funções de acrobacia, prestidigitação, etc.
Façamos agora a nomenclatura, por ordem alphabetica, das peças
representadas durante o anno, com o numero de representações ao lado
do titulo, que será impresso em italico todas as vezes que se tratar de peça
exhibida pela primeira vez n’esta capital.
Dividindo convenientemente os gêneros, comecemos pelas
Operas Naci onaes
Fosca, 2 representações; Guarany, 11; Moema, 3; Salvador Rosa, 3.
Operas Estrangei ras
Africana, 3; Ainda, 5; Baile de mascaras, 2; Barbeiro de Sevilha, 2; Carmen,
5; Cavalleria Rusticana, 11; Cristobal Colon, 4; La Dolores, 6; Ernani, 1; Fausto,
2; Era Diavolo, 2; Gioconda, 6; Huguenotes, 2; Lucia, 7; Mephistofeles, 1;
Palhaços, 12; Rigoletto, 1; Somnambula, 3; Traviata, 1; Trovador, 3.
Tragedi as
Hamlet(em italiano), 3; Luiz XI (id.), 1; Nova Castro, 3; Othelo (em ital.), 5;
Rei Lear (id.), 2; – sem contar um fragmento de Arduino de Ivréa, em italiano.
Teatros
/ Mês
Recreio Apollo Lucinda Variedades S. Pedro Eden-
Laveadio
Sant’Anna Eldorado Lyrico Phoenix
noite/dia noite/dia noite/dia noite/dia noite/dia noite/dia noite/dia noite/dia noite/dia noite/dia
Janeiro 29 2 27 4 11 0 23 1 3 0 27 0 0 0 13 0 6 0 2 0
Fevereiro 19 0 27 3 23 1 17 3 6 0 4 1 0 0 0 0 0 0 4 0
Março 6 1 26 5 30 4 31 3 5 1 8 1 0 0 0 0 0 0 2 0
Abril 25 1 15 2 23 2 26 1 1 0 8 1 0 0 0 0 0 0 1 0
Maio 28 5 14 0 18 2 29 0 24 0 17 1 0 0 0 0 0 0 0 0
Junho 24 4 26 1 16 0 29 0 24 0 17 3 0 0 0 0 0 4 2 0
Julho 30 3 28 4 28 3 5 0 25 0 11 0 8 1 0 0 5 4 1 0
Agosto 28 4 31 5 28 1 0 0 19 3 16 0 14 0 0 0 9 4 11 0
Setembro 29 3 30 4 29 3 0 0 30 4 3 0 12 0 0 0 9 2 5 0
Outubro 30 1 24 1 5 2 15 1 18 4 0 4 24 0 14 0 9 0 1 0
Novembro 27 1 18 1 19 1 28 3 0 1 0 0 19 0 17 1 0 1 0 1
Dezembro 29 2 23 1 5 0 27 1 9 1 1 0 24 1 8 0 0 0 4 0
Total 331 319 251 248 158 128 163 53 47 40
1.676
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Dramas Naci onaes
Triste é dizel-o: um unico, os Filhos da viuva, que só teve uma
representação! Entretanto, mencionaremos Portugal e a loba d’Africa,
“alegoria” dramatica, representada 4 vezes.
Dramas Estrangei ros
Aimée, ou o assasino por amor, 4; Anjo da meia noite, 5; Aristrocracia e
povo, 1; Cabana do pae Thomaz, 4; Cadastro de polica, 2; O capital, 4; Castello
do Diabo, 4; Conde de Monte Christo, 15; A consciencia, 2, Crime do padre
Amaro, 10; Dalila, 9; Dama das Camellias, 7; Doida de Montmayor, 2; D. João
Tenório (em hespanhol), 1; D. Pedro V, 10; D. Sebastião, 3; Dona Ignez de
Castro, 7; Dois proscriptos, 7; Dois sargentos, 1; Drama do povo, 5; Drama no
fundo do mar, 17; Duas orphans, 12; Estranguladores de Paris, 10; Fé, esperança
e caridade, 1; Filha do estalajadeiro, 2; Filha do mar, 9; Filho de Coralia, 8;
Filhos do capitão Grant, 13; Gaspar, o serraleiro, 1; Gran Galeoto, 7; A guerra
civil, 5; Herança de ódio, 2; Jack, o estripador, 23; Joanna a doida, 2; João
Brandão, 1; João José, 32 (19 no Variedades e 13 no Lucinda); José do Telhado,
3; Kean (em ital.), 1; Ladrões do mar, 6; Magdalena, 3; A Magdalena da Arte, 2;
Martyr, 4; Mestre de forjas (em ital.), 1; Morgadinha de Valflor, 13; Morte civil
(em ital.), 3; Nero (id.), 1; Palhaço, 2; Patria (em ital.), 2; Papá Martin (id.),
1; Paulo e Virginia, 1; Pedro Sem, 3; Os Rantzan (em ital.), 1; Remórso vivo, 4;
Rocambole, 3; Ruina do Castello Negro, 3; O segredo de um padre, 12; Supplicio
de uma mulher, 6; Tosca, 15; 29 ou honra e gloria, 8; Vivanderia do 16º de
linha, 2; Voluntario de Cuba, 7.
Comedi as Naci onaes
Amor com amor se paga, 1; Amor por annexins, 3; Carta anonyma, 2; Da
Monarchia a Republica, 9; O Defunto, 3; Direito por linhas torta, 2; Irmãos
das almas, 14; Judas em sabbado de Alleluia, 2; Mariquinhas dos Apitos, 4;
Nhô Quim, 5; Occurrencias da Central, 1; Portuguezes ás direitas, 13; Typo
brasileiro, 1.
Comedi as Estrangei ras
America e Europa (em italiano), 1; Apuros do Gregorio, 2; Arthur ou
16 annos depois, 2; Amor de velho, 3; Avós improvisados, 1; O Bacharel, 4;
Cantico dos canticos (em ital.), 1; Capricho feminino, 13; Casamento de Figaro
(em ital.), 1; Casamento singular, 5; Casem-se, rapazes!, 2; Cautela com as
mulheres, 1; Champignol á força, 3; Comissario de policia, 5; Ciumes de André,
2; Diabo atraz da porta, 1; Ditoso fado, 2; Dous surdos, 3; Um entreacto, 1;
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Entre conjugues, 3; Espadelada, 4; A espartilheira (em ital.), 1; Estréa de uma
actriz, 6; O Estudante e a lavadeira, 1; Fernanda, 6; Flagrante delicto, 3; Fura-
vidas, 4; O Hotel do Livre Cambio, 38; Já ouvi espirrar este nariz, 1; Mãe e Filha,
1; Marido nas palminhas, 1; Martyrios de um estudante, 1; Mercador de Veneza
(em ital.), 1; Moços e velhos, 1; O mundo em confusão, 1; Ninguem chore a
minha morte, 1; Noite de sarilho, 1; A ordem é resomnar (com o titulo: “O
capitão e o soldado”), 1; Ouros, copas, espadas e páos, 7; Pragas do capitão, 2;
Provincianos em Lisboa, 2; Rabagas (em ital.), 1; Recordações da mocidade,
2; Repudio minha mulher (em ital.), 1; O Sr. Director (id.), 1; O senhor está no
club, 1; Sinos de Corneville em casa, 7; Tio Padre, 2; Tombola (em ital.), 1; Tres
mulheres para um marido, 9; Trinta botões, 6; Tudo ás avessas, 2; Zaragueta, 3.
Operetas e Revi stas Naci onaes
Abacaxi, 3; Amapá, 44; Aquidaban, 5; Bendego, 5; Bilontra, 24; a Fantasia,
14; Major, 9; Pão-Pão, queijo-queijo, 87; Pum, 7; Rio Nú, 152; Vespera de Reis, 7;
Zé Povinho, 16.
Zarzuelas, Operetas e Revi stas Estrangei ras
Anillo de hierro, 4; Os africanistas, (em port.), 7; Babolin (ital.), 2;
Barberilho de Lavapiés, 3; Barbeirinho de Sevilha (port.), 6; Los baturros, 3;
Bibi & C.(port.). 17; Bilha quebrada (id.), 9; Boccacio (ital.), 5; El cabo primeiro,
8; A cabula (port.), 8; C. D. L. (hesp.), 1; Cadiz (id.), 5; Las campanadas,
4; Los carboneros, 1; Certamen nacional, 2; Chateau Margaux (hesp.), 5; A
cigarra e a formiga (port.), 21; I comici tronati, 4; Como está la sociedad, 5;
Corda sensível, 3; Coro de senoras, 2; Dama de Ouros (port.), 2; Devuelta del
nivero, 3; o Diabo, 14; Dia e noite (port.), 14; Dose mulheres de Japhet (port.),
6; Duo de la Africana (hesp.), 2; Filha de Mme. Angot (ital.), 2; El gorro
frigio, 3; Granadeiros (ital.), 11; Grande avenida, 5; Gran via, 8; Guerra santa
(hesp.), 5; El husar, 9; a Ilha de Trindade (pot.), 23; Já somos tres (hesp.),
3; Juanita (ital.), 7; La leyenda del monge, 2; Lucero del alba, 1; Madgyares, 2;
Marina, 9; Mascotte, 19; Mimi Bilontra, 1; El monaguilho, 2; Musica clossica,
1; Nina Pancha, 6; Orpheu no inferno (ital.), 2; Ouro, mulheres e gloria (já
representada com o titulo “In cerca de felicitá”), 2; Pandora (port.), 23; Paquita
(id.), 1; Periquito, 2; Pescadores de Napoles (ital.), 2; Poço encantado, 2;
Ponte do Diabo, 2; Quem fuera libre!, 3; Raphael e a Fornarina (ital.), 3; Rei
que damnou, 6 (4 hesp. e 2 ital.); Sensitiva (hesp.), 2; Sinos de Corneville,
10 (4 em ital.); Solar dos Barrigas, 3; Surcouf, 9; El tambor de granaderos,
16; La tempestad, 2; Testamento da velha, 15; Tim tim por tim tim, 93 (51
por crianças); Torear por lo fino, 1; Velho da montanha (ital.), 2; Vendedor
6
de passaros (id.), 15; 28 dias de Clarinha (port.), 13; Zangolotinos, 1; Las
zapatilhas, 1.
Magi cas
A aranha de ouro, 7; Amores de Psyché, 6; A conquista de um throno, 15;
Gato Preto, 9; Maças de ouro, 19; Milagres de Santo Antonio, 4; Rainha dos
genios, 26; Rosa de Diamantes, 14; Santa Isabel, rainha de Portugal, 8.
***
Como se vê, a estatistica de 1896 é ainda mais desanimadora que a de
1895...
Decididamente é preciso fazer alguma coisa pelo nosso theatro...
A. A.
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O Theatro, 14/01/1897
Percorramos os nossos theatros um por um, excepção feita dos que se
acham fechados, e do S. Pedro, aonde a imprensa não é convidada, et pour
cause.
– No Apollo proseguem as representações de Champignol á força, peça que
agrega excepcionalmente, apezar de não estar bem representada, e isto por
ter sido atirada com muita precipitação, para a scena. Bem traduzido, bem
interpretado pelos artistas, sem trololó encaixado a martello e sem língua de
trapos, o Champignol levaria uma fortuna ao Apollo. Ainda assim, não há rasão
de queixa.
– O Variedades, que tem variado os seus espetaculos, esteve hontem
de portas fechadas para ensaio geral do novo drama Nossa Senhora
dos Navegantes, annunciado para sabbado, e no Recreio tivemos uma
representação sporadica do Periquito, em beneficio do actor Machado, que é
sempre o mesmo hilariante Liborio. As outras noites forma tomadas pelo Rio-
nú, inteiro ou fragmentado.
Não posso vêr annunciado o Periquito, que não me lembre a noite da
primeira representação dessa opereta, há um bom par de annos, no Principe
Imperial, hoje Variedades. Souza Bastos, então, empresario d’aquelle theatro,
trouxera de Lisboa o libretto, que é uma adaptação, feita por elle e um collega
nosso por nome Costa Braga, da opera-comica Vert-vert, de Mailhac e Halévy.
Elle precisava de uma peça para a Herminia, uma peça em que não entrasse
a Pepa, que já era a grande estrella da companhia e na ocasião necessitava de
descanço. O Souza Bastos não morria de amores pelo Periquito, mas como não
tinha outra coisa á mão de semear, confiou o libretto ao maestro Alvarenga,
regente da sua orchestra, com recommendação expressa de lhe dar a partitura
com a breviedade possivel.
Esse Alvarenga era extraordinário: compunha com uma facilidade
pasmosa, aqui, ali, onde estivesse. Precisava-se de um couplet? de um côro? de
um concertante? Era só pedir por bocca! Elle puxava uma cadeira, sentava-se
diante do banco do carpinteiro ou da cupola do ponto, e aviava a encomenda
emquanto o diabo esfregava um olho. Algumas vezes o vi escrevendo assim a
musica do Periquito e de outras peças.
Naquella noite entrei na caixa do Príncipe Imperial momentos antes de
subir o panno, e Souza Bastos disse-me: – Não vás ver a peça! – Porque? – Não
vale a pena. É cousa para cinco ou seis representações! O libretto é fraquito e a
musica bem mostra que foi escrita a vapor. A Herminia vai destestavelmente, o
Peregrino está inteiramente fora de seu genero e o próprio Machado não tem
8
na peça um dos seus melhores papeis. A enscenação é pauperrima, não me
custou nada.
Á vista d’essa informação insuspeita de um individuo interessado pela
peça quer como emprezario quer como auctor deixei-me ficar na caixa do
theatro depois de subir o panno, e muito admirado fui ouvindo, a medida que
proseguia a representação, as gargalhadas e os applausos do publico. O famoso
tango que tanto se popularisou, produziu verdadeiro delirio.
Souza Bastos enganara-se: o libretto apezar de não ter metade da graça
do original, era muito interessante; a partitura conquanto escripta a vapor,
tinha alguns numeros lindissimos, que o publico bisou e trisou; Herminia foi
o ideal dos Periquitos, Machado o Liborio que todos conhecemos, e Peregrino,
actor que poucas vezes errava, interpretou com muita felicidade o papel do
mestre de dansa. De acto em acto, de scena em scena o Souza Bastos cahia
das nuvens. A opereta essa não cahiu: foi representada consecutivamente
um numero consideravel de vezes e é uma das peças de seu genero que mais
reprises têm tido.
– O Sant’Anna, que estava fechado a dissolução da companhia de que era
emprezaria a actriz Ismênia dos Santos, reabriu hontem as suas portas para
apresentar ao publico um theatrinho de bonecos.
O espetáculo foi dividido em tres partes.
Constou a primeira de uma Dansa macabra, executada por sete esqueletos
que provocaram hilariedade, embora pareça extraordinário haver esqueletos
que façam rir. Essas ossadas, que de repente se desarticulam e se articulam
outra vez, não são uma novidade para os fluminenses que n’aquelle mesmo
theatro já apreciaram cousa idêntica.
A segunda parte constou de uma magicasinha em 2 actos, intitulada
Nicromancia, que, francamente, não agradou. A peça não tem graça e os
bonecos não valem os da companhia Lupi, que eram perfeitos, – lembram-se?
Terminou o espetáculo com uma pantomima-baile em 11 quadros, o
Incêndio de Carthago. Os espectadores não entenderam nada. As pantomimas
são difceis de perceber quando representadas por artistas de carne e osso que
não sejam bons mimicos; imagine-se o que será executado por titeres!
A partitura do bailado tem alguns números muito bonitos, mas a orchestra,
que era insufciente, não conseguiu dar-lhe nenhum relevo.
O publico teria perdido seu tempo, se não assistisse a uma
interessantissima exposição de scenarios, e n’isso, exclusivamente n’isso
consistiu, na minha opinião, todo o encanto do espectaculo. O scenographo
Dell’acqua é um artista comsummado, e creio bem que as suas bellas
9
scenographias sejam bastantes para attrahir todo o Rio de Janeiro ao
Sant’Anna.
Quem for a esse theatro, não para rir, não para ver bailarinas presas por
uns cordeis que só os cegos não distinguem, mas para admirar e applaudir os
trabalhos de um magnifico scenoprapho, passará uma bella noite e empregará
muito bem o seu dinheiro.
***
Acha-se de passagem n’esta capital o Sr. Alexandre Fernandes, poeta e
dramaturgo rio-grandense, domiciliado, na Bahia, onde se faz profissão de
jornalista.
O seu theatro consta das seguintes peças já representadas, todas escriptas
de collaboração com o Dr. Silio Boccanera Junior: o Grito da consciencia e
Adelia Carré, dramas, a Frôr da arta sociedade, comedia de costumes, e o Diabo
na Beocia, O Meio do mundo e o Rei Dinheiro, revistas de acontecimentos da
Bahia.
Os meus comprimentos ao distincto collega, que acaba de publicar a sua
setima colleção de versos, intituladas-Lyrios.
É do meu dever referir-me de vez em quando, n’estes folhetins, a Caixa
Beneficente Theatral, sympathica associação de caridade, que lá vai seguindo
desassombradamente o seu caminho, e cujo estado é relativamente prospero.
Para isso têm contribuido principalmente os emprezarios dos nossos
theatros facilitando por todos os meios os espectculos em beneficio da Caixa, e
derramando todas as noites nos seus cofres uma gotta do oceano das receitas.
Essa esmola tem sido dada não só por nacionaes como estrangeiros. Nem
as companhias eqüestres, nem os proprios emprezarios tauromachicos se
eximen desse imposto voluntario que os ennobrece.
Peza-me que haja uma nota discordante n’este unisono de caridade; peza-
me que haja uma excepção na regra adoptada pelos bemfeitores da Caixa
Beneficente Theatral; peza-me que entre os nomes d’esses bemfeitores não
figure o do emprezario Taveira, que deu uma fructuosa série de espectaculos
n’esta capital e outra em S. Paulo!
Logo que aqui chegou a companhia Taveira, Vicente, o infatigavel
procurador da Caixa, foi ter immediatamente com o emprezario, que é tambem
actor, e pedio para ella o mesmo beneficio que todas as outras emprezas se
habituaram a fazer-lhe: a quantia de 1$500, isto é, a importância de uma
entrada em cada espectaculo.
O emprezario recebeu com muita amabilidade o seu collega reprezentante
da associação e respondeu que no fim da temporada pagaria tantas vezes 1$500
10
quantos fosses os espectaculos realizados pela companhia. Prometteu mais – e
isto sem ninguem lhe pedir – que daria um espectaculo em beneficio da Caixa,
e mais tarde prometteu ainda ceder-lhe a importancia de uma grande multa
comminada á actriz Medina. Como se vê, eu deito os pontos nos is.
Quando a companhia voltou de S. Paulo e se preparava para regressar a
Portugal, Vicente, sempre solicito, preoccupado sempre com os interesses da
Caixa, procurou varias vezes o emprezario, que lhe dizia: – Sim... amanhã...
depois... procure-me logo... esteja descançado... vou ver isso-, e outras phrases
evasivas de quem tem diante de si o mais terrível dos massadores.
O grande caso é que todas as companhias nacionaes e estrangeiras que tem
trabalhado no Rio de Janeiro depois de instituida a Caixa Beneficente Theatral,
foi a companhia Taveira a Única que lhe não deu alguns tostões!
Quero crer que o emprezario, cavalheiro intelligente, amavel, bem
educado e, segundo me dizem, generoso, se esqueceu de cumprir a sua
promessa, foi isso devido á balburdia causada pelos preparativos da viagem;
mas quero crer também que suggestões de terceiros o levassem a proceder tão
incorrectamente com uma associação que devia merecer-lhe o mesmo respeito
e a mesma sympathia que mereceu ao seu collega Giovanni Emmanuel, e que
mereceria ás suas colegas Adelaide Ristori e Sarah Bernhardt se cá voltassem.
A. A.
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O Theatro, 21/01/1897
Já estou farto de começar os meus folhetins por estas palavras: “Nenhuma
novidade houve durante os ultimos sete dias”. Hoje acrescentarei que nenhuma
haverá enquanto não tivermos o Fanfan no Apollo e a Capital Federal no
Recreio. Não fallo do annunciado Filhote, porque a empreza Costa Reis & C., já
não inaugura com essa revista os seus espectaculos do Lucinda. A estréia será
com uma peça velha, mas aplaudida, a Rainha dos genios, que apanhou um
bom numero de representações no Éden Lavradio.
Para não ficar fechado, deu o Lucinda hospedagem a um prestidigitador
e a um kinetographo. Não vi um, nem outro, mas, a julgar pelas informações,
nenhum delles enthusiasmou a platea. Nem a platea nem os camarotes.
Emquanto não se representa a Capital Federal, o Recreio vae recorrendo
em primeiro logar ao Rio Nu, que é ainda o seu prato de resistência (Basta dizer
que no ultimo domingo a 162ª revista de Moreira Sampaio realisou 2:500$000
de receita) e em segundo logar ao Perequito, ao Direito por linhas tortas e
aos Africanistas; e emquanto não se representa o Fanfan, consegue o Apollo
muito boas casas com o Champignol á força, o que não impede a empreza de
annunciar hoje a Cigarra e a formiga, pra variar.
Os bonecos, ou antes, os scenarios do insigne Dellacqua vão attrahindo
alguma concurrencia ao Sant’Anna. Ainda hontem ali se exhibiu outro bailado,
as Grandes festas da China, em que se admiram, como nas Ruinas de Carthago
verdadeiros primores da scenographia.
Não é nenhuma novidade o Milagre de Nossa Senhora dos Navegantes, que
a empreza do Variedades annunciou, não sei porque carga d’agua, como peça
original portugueza, “representada com grande sucesso mais de 200 vezes
nos theatros de Lisboa.” É o mesmo drama que os fluminenses conhecem com
o titulo de Nossa Senhora da Bonança e que durante algum tempo, no S. Luiz
(hoje casa de bilhares, appareceu com outra denominação, O Libertino). Não
fui ao Variedades, porque o Dias Braga entendeu – fez muito bem – que não
devia convidar a imprensa para assistir á exhumação de um fossil. Não lhe
quero mal por isso: O Milagre de Nossa Senhora dos Navegantes tem lhe levado á
bilheteria um pouco d’aquillo de que elle tanto precisa para carregar ás costas
uma companhia dramática.
O que não tem faltado são benefícios, e o caso explica-se naturalmente
pela grande quantidade de artistas que actualmente se acham desempregados.
Annunciam-se: para hoje, no Recreio, o dos actores Rocha e Leite, e para
amanhã os das actrizes Marietta Aliverti, também no Recreio, e Olympia
Amoedo, no Apollo. O producto da matinée que se realizará domingo, no
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Variedades, é destinado á compra do jazigo do pobre Castro, um cômico de
quem o publico talvez já não se lembre (Poor Yomek!), e na segunda-feira
seguinte haverá mais dous benefícios, ambos recomendáveis: no Apollo
o da Caixa Beneficente Theatral e no Recreio o das victimas do desastre
ultimamente ocorrido na Ilha de S. Miguel dos Açores. Este ultimo é promovido
pelo Brandão, que naturalmente é d’aquella ilha, de onde veio para o Brasil aos
nove annos de idade. Quando eu nasci já cá o encontrei.
***
A propósito da Caixa Beneficente Theatral, devo uma resposta á firma
Soares e Medeiros & C., que sob o titulo Contribuição obrigatoria me invectivou
há duas pelas columnas indictoriaes do Jornal do Brasil, n’um artigo contendo
dous paragraphos.
O primeiro paragrapho e o seguinte: “A empreza Soares de Medeiros & C.
declara ser inteiramente falsa a obrigação de contribuir esta empreza com a
mais insignificante quantia para a Caixa Beneficente Theatral, de quem nem
mesmo se vangloria de ser socia!... Diante pois da maneira exquisita por que
procuram dous conhecidos escriptores Arthur Azevedo & Sampaio afrmar
sob o condemnavel proposito de uma perseguição impropria de almas tão
generosas, que a esmola que os dous resolveram manter a bem dos cofres
da mesma Caixa e no proposito de sustentarem á sua cesta uma promessa a
que nos esquivamos...cumpre-nos asseverar não só ser inexacto semelhante
compromisso da nossa parte, como também não ter nenhum fundamento as
desarrazoadas prevenções que os taes senhores da mesma Caixa conservam
contra a nossa humilde e despretenciosa empreza!”
Os leitores dos meus folhetins conhecem a questão, porque já a expuz
nestas columnas: Na penultima sessão da directoria da Caixa Beneficente
Theatral, estando eu presente, o respectivo procurador declarou que o actor
Soares de Medeiros, emprezario do theatro S. Pedro, negara-se a dar á Caixa
a esmola de 1$500 por espectaculo que realizasse, como faziam e fazem
todos os outros emprezarios dos nossos theatros, e negara-se, acrescentou o
mesmo procurador, sob o pretexto de que o Dr. Moreira Sampaio, presidente,
e eu, vice-presidente da Caixa eramos os dois maiores inimigos dos artistas
theatraes. O Dr. Moreira Samapio tinha sido acusado pelo actor Medeiros de
haver escripto cousas que nunca escreveu, e a mim não me perdoava elle esta
innocente facecia: “No S. Pedro, a associação dos tiros deu aos Dous proscriptos
um descanço bem merecido. “O Madairos mal’a Isolina” atiram-se depois de
amanhã á Dona Ignez de Castro.” Ora ahi está porque o Dr. Moreira Sampaio
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e eu eramos “os dous maiores inimigos dos artistas.”, e os perseguidores dos
despretenciosos e humildes emprezarios Medeiros & C.!
Francamente, carissimos leitores: se de um modo tão positivo recahia
sobre as nossas pessoas a culpa de perder a Caixa 15 tostões todas as vezes
que houvesse um tiro no S. Pedro, qual era o nosso dever? Oferecer-nos
immediatamente para suprir, com a nossa bolsa particular, o desfalque
produzido pela energica resolução do emprezario. Foi o que fizemos, e, se
assim não fizemos, mostrariamos ter muito pouco espirito.
Quanto á expressão “contibuição obrigatoria”, empregada n’aquelle
paragrapho, foi tolice, porque a prova de que a contribuição não é obrigatoria
e sim voluntaria, é que ninguém obrigou a empreza a pagal-a. Para o Dr.
Moreira Sampaio e eu é que ella se tornou virtualmente obrigatoria, tanto
mais tratando-se, como se tratava, de uma miseravel questão de nickeis, cuja
solução estava ao alcance das nossas bolsas de litteratos pobres.
Vamos agora ao segundo paragrapho. E-lo-o:
“Em todo o caso folgamos em servir de motivo para que o cofre beneficente
dos Artistas Dramaticos, obtenha um pouco mais de meios para a multiplicação
de sua receita...lamentando apenas que a decantada esportula dos dignos
obreiros do bem se não eleve a uma cifra que possa merecer um pouco mais de
enthusiasmo e reconhecimento da parte dos vivos, bem como a competente
gratidão dos associados mortos, que no mesmo finados tanta caridade e
respeito tem recebido d’esses bemfazejos directores e muito principalmente
digamos do panegyrista director vice.”
É provavel que o leitor não mettese o dente nesse período sesquipedal,
que a mim tambem me poz tonto, porque, confesso, não sou muito forte em
prosa teratologica. O final do amphiguri allude ás verdades que num dos meus
últimos folhetins escrevi a propósitos de um morto. Ora, eu tenho tido mais de
uma vez occasião de dizer nos meus escriptos que não considero a morte uma
desgraça, mas uma funcção naturalissima a que todos nós, mais tarde ou mais
cedo, nos temos que submetter. Não admitto que, pelo simples facto de morrer,
João Fernandes seja arvorado de Cezar. Isto é um sentimentalismo absurdo,
uma pieguice tola. Estou prompto a respeitar os mortos, comtanto que sejam
dignos de respeito.
É verdade que o morto de quem se trata era socio da Caixa Beneficente
Theatral, mas socio do tempo em que não havia estatutos nem directoria; elle
não tinha nenhuma das condições exigidas para obter diploma: não trabalhava
directa nem indirectamente para o theatro. A menos que me queiram persuadir
de que é trabalhar para o theatro meter-se de gorra com uma actriz e larapiar-
lhe o dinheiro!
14
Demais, saibam os Srs. Soares de Medeiros & C., que quando acceitei o
logar que elles com infinita graça chamam de director-vice, de modo algum
hypothequei a minha independencia de escriptor publico. Se para exercer esse
honroso cargo sou obrigado a fazer o elogio de todos os meus consocios e dizer
urbi et orbi que são todos muito boas pessoas, vou já d’aqui mandar o meu
ofcio de demissão!
***
Não! eu não sou inimigo dos nossos actores...Digo mais: não creio que
algum dia tivessem elles amigo mais sincero, mais devotado do que eu. O
próprio actor Soares de Medeiros, que se irritou co uma inofensiva pilheria,
porque, á forca de fazer o Pedro da Castro já se imaginava príncipe, nunca
recebeu de mim senão palavras de animação e louvor. Abrindo ao acaso
a colleção d’estes folhetins, encontro a seguinte phrase, escripta ainda a
propósito dos tiros do S. Pedro: “A própria empreza d’aquelle theatro tem uma
confiança tão limitada nos seus artistas, que nem ao menos pode á imprensa
que os vá ver e ouvir. Entre elles figura, entretanto, o meu velho camarada
Soares de Medeiros, que é por muitos respeitos, um actor digno da estima
publica.”
Para provar ao meu ex-velho camarada que ainda o tenho em boa conta,
apezar de toda a sua fofa e ridicula vaidade, não hezito em recommendar ao
publico a nova companhia que n’este momento se organiza, e de que, segundo
me consta, é elle socio, para explorar o theatro dramatico no Sant’Anna.
O que pelo, o que reclamo, é que essa companhia não seja despretenciosa
e muito menos humilde; que não socorra de um pessoal de furiosos nem de
um repertorio de onde figurem os Dous proscriptos, o Homem da mascara
negra e que jandas velharias que fizeram o seu tempo. Venham dramas novos,
que os há, mas bem traduzidos, bem ensaiados, bem postos em scena, bem
representados para uma platéa que enxergue alguma coisa para espectadores
que não digam “o Madairos mal’a Isolina,” e sem exclusão da imprensa, que é a
força motriz do theatro!
Quanto á Caixa Beneficente Theatral, não esteja o actor Soares de Medeiros
tão irritado – que diabo! – contra um beneficio da sua classe. Se não é socio,
proponha-se: nem elle nem eu sabemos o que nos espera na velhice, quando já
não podermos – elle representar o Pedro da Castro e eu escrever folhetins.
Terminando, não posso deixar de agradecer-lhe o ter me fornecido
assumpto. Sem elle, não sei como encheria estas columnas!
A. A.
15
O Theatro, 28/01/1897
Tomou posse o novo conselho da Intendencia, e eu a toda hora pergunto
aos meus botões quem substituirá, no seio da edilidade, o meu amigo Julio
Carmo, a cujos benemeritos esforços devemos o pouco-muito que já está sendo
feito em relação ao Theatro Municipal.Entre os novos intendentes alguns
conheço que não consistirão, de certo, na ruina de uma idéa de tanto interesse
para a nossa civilisação intellectual. Lembrando apenas um nome, citarei o
do meu collega de imprensa Eugenio de Carvalho, autor de uma comedia em
verso já representada, e provavelmente de outras que se conservem ineditas
á falta de um theatro. O autor da Musa alegre prestaria um grande serviço á
litteratura e a á arte dramatica, se levantasse as armas despostas pelo intrepido
Julio Carmo, manejando-as em prol do Theatro Municipal.
Porque, pergunto eu, não se trata de iniciar desde já o processo de
desapropriação dos quatro predios da praça Tiradentes, desapropriação essa
ha muito tempo auctorisada pelo ultimo conselho?
Estou informando que a arrecadação dos competentes impostos durante
o anno passado importou em quantia superior a 95:000$000. Note-se,
entretanto, que só a 15 de fevereiro começou a respectiva cobrança, e esta não
foi nem podia ser feita com toda a regularidade, por ter havido muita demora
na regulamentação das respectivas leis.
Accresce que tivemos um anno theatral pauperrimo, conforme se verifica
pela estatistica recem-publicada nestas columnas. Espero que durante o
presente anno a arrecadação será mais consideravel.
Não é, pois, por falta de dinheiro que a Intendencia não dá o primeiro
passo para a construcção do Theatro Municipal, tão necessario ao nosso
progresso artistico, tão indispensavel aos nossos foros de capital civilisada.
***
A companhia Dias Braga, que está reconstituindo o melhor do seu
repertorio em vista de uma pequena excursão que pretende fazer a Juiz
de Fora, e depois á Bahia e ao Espirito Santo, deu-nos hontem a reprise da
applaudida comedia em 4 actos, Doutoras, de França Junior.
Como these pouco vale esse trabalho, porque as nossas doutoras são
tão poucas que constituem verdadeiras excepções, e com excepções não
se argumenta no theatro nem no romance; o espectador ou o leitor só se
interessa deveras quando vê no palco de um theatro ou nas paginas de um
livro a reproducção final dos costumes. Entretando, Doutoras tem muito valor
como peça de theatro, e pode ser considerada a obra prima do mallogrado
16
comediographo brazileiro: é engenhosa, bem articulada, as situações e os
episodios são preparados com arte, e decorrem do proprio dialogo, espirituoso,
vivo, natural e scintillante.
As scenas accessorias são muito bem tratadas, e a situação insustentavel
em que se acham dous esposos que são ao mesmo tempo dous ofciaes do
mesmo ofcio, é pintada por mão de mestre, com uma intensidade de colorido
digna de Labiche.
O 4º acto, que tanta sorpresa causou quando a peça foi pela primeira vez
representada, é antes um epilogo, mas um epilogo delicioso de sentimento e
observação. Aquella criança, que é o principal personagem, o deus ex-machina
d’esse ultimo acto, foi um verdadeiro achado. Só um filho poderia dar cabo
d’aquella ignobil e ridicula rivalidade entre marido medico e mulher medica.
Quando se representou esta comedia, insinuou alguem que França Junior
tinha sido inspirada pela Doctoressse, que pouco tempo antes fora exhibida em
Paris. O publico se convenceu de que a insinuação era calumniosa, quando
ouvio a peça franceza traduzida por Figuereido Coimbra e representada no
Lucinda. O trabalho de França Junior é muito mais interessante que o de Paul
Férrier, e nenhuma similhança existe entre as duas comedias.
Sem estabelecer confronto entre o desempenho dada ás Doutoras pela
companhia do Variedades e a primitiva interpretação, direi que o publico sahiu
hontem do theatro plenamente satisfeito. Leolinda Amoedo, Elisa de Castro,
Ferreira e, se não me engano, Bragança conservaram os papeis que crearam no
Recreio Dramatico.
Helena Cavalier e Adelaide Coutinho foram duas magnificas doutoras, o
consciencioso actor Marques tem no velho Praxedes um dos seus melhores
papeis, e os demais artistas concorreram para o bom exito da representação.
***
Nos outros theatros nada de novo. A symphatica empreza do Apollo
festejou o seu quinquagessimo especatulo e annuncia para amanhã a primeira
representação da opereta Fanfan la Tulipe. No Recreio volta hoje á scena o
inexgotavel Tim tim por tim tim com a Pepa nos seus dezoito papeis e Machado
no de Ulysses. No Lucinda está imminente a inauguração dos trabalhos da
empreza Costa, Reis & C. com a reprise de Rainha dos Genios. No Sant’Anna
tivemos hontem bailado Excelsior, representado por bonecos, mas muito bem
posto em scena pelo notavel scenographo Sr. Dell’Acqua.
***
No meu ultimo folhetim falei, muito por alto, da matinée annunciada para
o proximo domingo no Variedades e cujo producto será applicado a compra de
17
um jazigo para os restos mortaes d’aquelle pobre Castro, que foi um dos nossos
actores comicos mais estimados, o que aliás não impede que já esteja um tanto
esquecido.
Não creio que haja no mundo um publico mais ingrato do que o nosso...
Entretanto, não se pode dizer que os actores sejam as unicas vitimas da sua
ingratidão e é isso que os deve consolar.
Os brazileiros esquecem-se com uma promptidão admiravel dos vultos
mais eminentes da politica, do commercio, das armas, da sciencia, das lettras
e das artes de seu paiz! Agora mesmo, tratando-se de promover uma pequena
manifestação e apreço á memoria de Gonçalves Dias e Jose de Alencar, torna-
se necessario que a impensa esteja todos os dias a lembrar quaes foram esses
dous homens e que serviços prestaram...
Não admira, pois que o Castro, um actor modesto que em nenhum
paiz teria as honras da celebridade, fosse completamente varrido da
memoria dos seus comtemporaneos. Um dos seus ultimos papeis foi o de
Praxedes, na deliciosa comedia brazileira de que me ocupei mais acima.
Elle desempenhava-o com extraordinaria correcção, dando muito relevo ao
personagem.
– Era o Castro um desses actores genericos, de tanta utilidade n’uma
companhia como a de Dias Braga, que sempre nos espantou com a
estupenda variedade de seu repertorio. Era da escola do Maggioli, outro
bom artista, ainda mais completo, de quem já não se fala tambem, e que
mostrou egualmente correcto no comico e do dramatico. O Castro, esse era
exclusivamente comico, mas, se fazia muito boa figura n’um papel de centro,
como nas Doutoras, não era menos acceitavel a interpretar um galan, como na
Almanjarra.
Foi o actor Domingos Braga que teve a idea de organizar um espectaculo
cuja receita se destinasse a esse piedoso, tributo de respeito e de saudade á
memoria de seu infeliz collega. Eu ficarei satisfeito se se conseguir a somma
precisa, mas para isso é necessario que no proximo domingo, á 1 hora, o theatro
Variedades se encha de espectadores.
A. A.
18
O Theatro, 04/02/1897
Tivemos no Apollo a primeira representação de Fanfan, o Tulipa, opereta
em 3 actos e 4 quadros, de Jules Prével e Paul Férrier, musica de Varney.
Data esta peça de 1882, e nada tem de commum com o bello drama de Paul
Meurice Fanfan La Tulipe, representado pela primeira vez em 1858 e que ainda
ultimamente fez as delicias dos parisienses, com o grande Coquelin no papel de
protagonista.
Fanfan La Tulipe é o typo alegre e fanfarrão do soldado francez do tempo
de Luiz XV. O personagem de Prével e Férrier tem o defeito de gabar-se a todo
instante das suas prendas; não creio que na vida real ninguem o suportasse;
mas no theatro o efeito é seguro, e os espectadores comprazem-se na
admiração de um espirra-canivetes, que leva tres actos a ser disputado por tres
mulheres ao mesmo tempo. Ainda se fosse uma em cada acto!
O libreto é um pouco frio, mas espirituoso e bem feito; tem situações
engraçadas, embora sem grande originalidade, como a interessante scena dos
maridos enganados, no 2º acto, que é quasi copiada de Les trois épiciers, de
Anicet Bourgeois.
A musica é lindissima e basta para assegurar á peça um bom numero de
representações. Ha alli uma deliciosa variedade de coplas, duettos, tercettos,
concertantes, etc., cada qual mais bello. O final do 2º acto é de levantar a platéa
mais indiferente, não só pela admiravel melodia do canto patriotico
Nestes peitos renasce a esperança,
como pela engenhosa combinação das vozes e da orchestra, formando um
hymno imponente e magestoso.
As horas do desempenho couberam á graciosa Lopiccolo, que no papel de
Pimpinella ainda uma vez revelou a sua incotestavel habilidade; mas todos
os outros personagens foram bem interpretados, sendo de justiça destacar os
incomparaveis Mattos e Peixoto, e ainda Rangel Junior, actor que progride
sempre, mostrando as melhores disposições de hombrear com aquelles dois
insignes collegas.
A enscenação é muito cuidada, tanto no que diz respeito a scenarios,
vestuarios e accessorios, como no tocante á figuração geral, ao movimento
do palco, muito bem disposto pelo meu velho camarada Adolpho Faria, que
nasceu ensaiador como se nasce poeta.
Para o bom exito da representação concorrem os coros, que fazem jus ao
qualificativo da chapa – disciplinados,e a orchestra, dirigida por Assis Pacheco
com aquelle ensthusiasmo juvenil e comunicativo que todos lhe apreciam.
19
Fanfan, o Tulipa vae dar tempo á companhia Apollo para ensaiar
folgadamente o Lambe feras. Tal é o titulo dado por Moreira Sampaio á sua
traducção de La plantation Thomassin, de Maurice Ordonneau.
***
Ao que parece, a empreza Costa, Reis & C. inaugurou sob os melhores
auspicios os seus trabalhos no theatro Lucinda, que tem estado cheio ou quasi
cheio todas as noites.
Por falta de tempo não assisti á reprise da Rainha dos Genios, peça
experimentada em bom numero de representações no Eden-Lavradio, que é,
aliás, o mais ingrato dos nossos theatrinhos.
Dizem-me que o desempenho de alguns papeis não vale o da primitiva; em
compensação, a peça tem agora dois bailados novos e o insigne bailarino Vitulli
é sempre muito appladido.
Vicente Reis e Azeredo Coutinho arranjaram uma peça para crianças. O
mais que lhes posso desejar é que vão vel-a todas as crianças do Rio de Janeiro,
que naturalmente irão ao theatro senão acompanhadas pelas respectivas
familias.
***
Nos outros theatros nada de novo.
Do Sant’Anna desappareceram os bonecos do Sr. Dell’Acqua, e a companhia
Dias Braga partio, sans tambour ni trompette, para Juiz de Fora, deixando
o Variedades a um emprezario que já annuncia o “iniciamento da época
zabumbabetica de 1897”. Pobre Variedades!...
***
Amanhã, se não mentem os annuncios, será representada pela primeira
vez, no theatro Recreio Dramatico, a peça de costumes brasileiros em 3 actos e
12 quadros, a Capital Federal, escripta pelo auctor destas linhas.
Em 1891 representou-se no theatro Apollo, com muita acceitação do
publico, a minha decima revista de anno, que se intitulava Tribofe. Nessa
revista havia uma comedia, cuja acção corria parallela com a exhibição
dos principaes acontecimentos de 1890, – uma comedia que, se fosse
convenientemente desenvolvida, poderia destacar-se do resto da peça.
O actor Brandão, que agradou extraordinariamente representando o papel
de Euzebio, um dos primeiros personagens da comedia, que elle tornou o
primiero, lamentava, e com razão, que o Tribofe estivesse condemnado á vida
ephemera das revistas do anno, e por isso não lhe fosse possivel conservar um
20
dos papeis de seu repertorio. E o artista durante largo tempo insistiu commigo
para extrahir uma nova peça da peça velha.
Eduardo Garrido, depois de assistir a uma representação de Tribofe,
manifestou igualmente a opinião de que havia alli dentro uma comedia que
devia ser aproveitada. Uma comedia, accrescentou elle, que poderia ter um
magnifico titulo: a Capital Federal.
O illustre comediographo, meu amigo e mestre, devia escrever commigo a
peça de que é padrinho, pois foi elle quem a baptisou e antes mesmo que ella
nascesse, mas, infelizmente para o publico, Garrido retirou-se para a Europa e
eu não tive a honra da sua collaboração.
Esperaria eu que elle voltasse, ou fariamos ambos a peça, embora afastados
um do outro pela vastidão do oceano, se ultimamente o amavel emprezario
Silvia Pinto me não procurasse, pedindo-me com muito empenho que
arranjasse a Capital Federal para o seu theatro.
Escrevi então essa comedia, que é um trabalho, devo dizel-o, quasi
inteiramente novo, pois o que aproveitei do Tribofe não occupa a decima
parte manuscripto. Ampliei scenas, inventei situações e introduzi novos
personagens importantes, entre os quaes o de Lola, destinado á actriz Pepa e o
de Figueiredo, que escrevi para o actor Colás.
Como uma simples comedia sahia do genero dos espectaculos actuaes do
Recreio Dramatico, e isso não convinha nem ao emprezario, nem ao auctor,
nem aos artistas, nem ao publico, resolvi escrever uma peça espectaculosa,
que deparasse aos nossos scenographos, como deparou, mais uma occasião
de fazer boa figura, e recorri tambem ao indispensavel condimento da musica
ligeira, sem, contudo, descer até o genero conhecido pela caracteristica
denominação de maxixe.
Foram conservados alguns bonitos numeros da partitura do Tribofe,
escripta pelo inspirado Assis Pacheco,e introduzida por uma linda valsa,
composta por Luiz Moreira. Da composição de todos os demais numeros, que
não são poucos, em boa hora se encarregou o jovem Nicolino Milano, talento
musical de primeira ordem, a quem está reservado um grande futuro na arte
brasileira.
– Clelia, Adelaide de Lacerda e Henrique Machado (sem fallar de Brandão)
tem a cargo os personagens – agora muito mais complexos – que com tanta
distincção representaram no Tribofe, e os demais artistas do Recreio ficaram
bem aquinhoados, especialmente Pepa e Cólas. Olympia Amoedo, Estephania
Louro, Leonardo, Zeferino e Portugal não tem razão de queixa; Maria Mazza,
Magdalena Vallet, Marieta Aliverti, Pinto, Lopes e Louro encarregaram-se de
21
papeis inferiores ao seu merecimento artistico; a esses tenho que agradecer a
obsequiosa boa vontade com que se houveram.
Peço aos leitores me desculpem occupar-lhes a attenção com a historia de
minha peça; mas, como não falta por ahi quem diga que a Capital Federal é
cousa velha, quero desde já desfazer o carapetão e por os pontos nos is.
***
É justo que neste folhetim, consagrado exclusivamente ao theatro,
sejam dadas as boas vindas ao meu velho amigo e illustre confrade Lino de
Assumpção, recentemente chegado de Lisboa.
Lino de Assumpção é como todos sabem, o auctor de muitas peças e
o traductor de muitissimas, representadas com applauso nos theatros de
Portugal e do Brasil.
A. A.
22
O Theatro, 11/02/1897
No meu penultimo folhetim lembrei a conveniência de ser quanto antes
iniciado o processo de desapropriação dos predios ns. 57 a 63 da praça
Tiradentes, predios cujos terrenos a lei destinou á construção do futuro
Theatro Municipal.
Pois bem, – comquanto vivamos n’um paiz onde ninguem tem o direito de
se admirar de cousa alguma, acabo de saber, com grande surpresa, que um
desses predios, o de n. 63, está sendo reedificado, e – com grande tristeza o
digo! – só por má fé ou má vontade poude a directoria das obras municipaes
consentir em similhante escandalo.
Como o terreno é foreiro á municipalidade e a cada não vale nada, a
desapropriação custaria dez contos de réis, ou pouco mais; agora, tendo
aquella extraordinaria repartição permittido o iniciamento das obras, e
prosseguindo estas, a despeza necessariamente se elevará a cem ou duzentos, e
esse dinheiro – que horror – será tirado do pequeno patrimonio formando por
onerosos impostos, pagos com tanto sacrificio pelas emprezas theatraes!
Chamo aos gritos a attenção do Sr. Prefeito, que é um homem de honra,
para esse attentado que avilta e envergonha a nossa municipalidade. A
reedificação do predio de que se trata vae dar ainda uma vez ensejo aos
detractores – que não são poucos – da nossa administração municipal, e não
se póde dizer que d’esta feita não tenham elles razão, ou, pelo menos, todas as
apparencias de razão...
Deus me livre de fazer juizos temerarios sobre quem quer que seja, mas a
directoria de obras nem n’uma taboinha se salva, se a reconstrução continua.
No mundo dos theatros, onde não faltam maldizentes, já se diz que é para
engordar proprietarios condescentes que os theatros pagam esses impostos
amassados com o suor e o sangue dos miseros artistas...
A reedificação do predio n. 63 da praça Tiradentes é uma afronta feita á
opinião publica.
***
Para dar espectaculos no Sant’Anna, reuniram-se ultimamente alguns
artistas sob a direcção do actor Cezar de Lima, e inauguraram no ultimo
sabbado a companhia, representando O Zé, drama em 5 actos e 6 quadros,
original de Julio Vieira, o malogrado actor-auctor portuguez que pagou com a
vida o arrojo de passar nesta cidade o verão de 1894.
23
O drama dir-se-hia de um Gaston Marot, escripto com todas as ficelles
inventadas por Pixerecourt e seu rancho; não há ali sombra de litteratura, mas
simplesmente a habilidade de um escriptor operoso que conhecia o theatro.
Julio Vieira escreveu O Zé para fazer beneficio com a peça no Principe
Real, de Lisboa, e, como não era tolo, arranjou para si um papel de gaiato
sentimental, rethorico e generoso, que de vez em quando faz e diz certas
cousas daquellas que infallivelmente arrancam uma salva de palmas ás platéas
faceis dos sabbados e domingos.
A peça tem o seu ponto de partida no caso de uma pobre rapariga, que,
andando pelas ruas de Lisboa a pedir esmola, encontra um janota que lhe quer
comprar um beijo por dois tostões, o que é muito pouco, mesmo com o cambio
pela hora da morte, como neste momento. O gaiato, que vê a transacção,
intervem defendendo a pequena contra os instinctos libidinosos do janota,
e d’essa cavalheiresca intervenção resulta uma longa serie de peripecias
terriveis, que se succedem até a meia noite, hora em que se ajusta afinal o feliz
consorcio do Zé com a Joanninha.
A peça tem todos os matadores, para empregar uma phrase caracteristica
de jogo, que foi applicada ao theatro; não lhe faltam assasinatos, roubos,
victimas innocentes, paes desnaturados,e sessão de jury, presidida pelo actor
Galvão com tanta naturalidade que, para applaudir o juiz, fechei os olhos
á impropriedade do tribunal. Esse Galvão, que parece physicamente com o
incomparavel Coquelin, é hoje sem duvida um dos nossos melhores actores.
Admira-me que os emprezarios o releguem do primeiro plano, em vez de
aproveitar as suas incontestaveis aptidões. No Brazil existe uma centena de
artistas dramaticos, mas não há mais de meia duzia que lhe levem as lampas;
o meu desejo era vel-o collocado no logar que lhe cabe e que elle não occupa
por motivos que não são da minha conta nem me compete indagar. Elle que os
pondere... e os conjure.
O papel do protagonista – O Zé – comquanto não seja o de um travesti, foi
satisfactoriamente desempenhado pela actriz Maria del Carmen, que possue
as melhores qualidades, infelizmente prejudicadas pela dicção, que não é nem
pode ser portugueza, e os demais papeis, que são muitos, foram confinados
a artistas, alguns dos quaes gozam da estima publica e fazem o possivel para
conserval-a.
O publico applaudiu com enthusiasmo, e com certeza irá hoje assistir á 4ª
representação do Zé, que foi amavelmente oferecida á imprensa fluminense.
***
24
Estão annunciadas no Apollo as duas ultimas representações da
interessante opereta Fanfan, que na proxima semana será substituida pelo
vaudeville o Lambe-féras, peça alegre e engenhosa que desde já recommendo
aos meus leitores,e no Lucinda continuam as representações da magica a
Rainha dos Genios, peça arranjada para crianças, mas que a gente grande
aprecia de muito bom grado.
O Variedades – coitado! – está todo entregue aos bailes “zabumbabeticos”
do Juca, emquanto Dias Braga e os seus companheiros exhibem aos povos do
Parahybuna o seu repertorio opulento, ecclectico... e indefectivel. Digam lá se
valia a pena alargar, altear, limpar, caiar e pintar o Variedades!...
A companhia do Recreio, depois de tres representações inqualificaveis da
revista o Bilontra (não fallemos de cousas tristes), ofereceu ao publico a 1ª
da Capital Federal, burleta em 3 actos e 12 quadros, escripta pelo autor destas
linhas e posta em musica por Nicolino Milano, Assis Pacheco e Luiz Moreira.
Não me cumpre ser juiz em causa propria. Tudo quanto poderia dizer
da peça já o disse no meu ultimo folhetim, e agora só me resta agradecer ao
emprezario Silva Pinto, aos artistas que tomaram parte na representação,
aos compositores acima citados, aos scenographos, aos coristas, á orchestra,
ao pessoal do movimento, a todos, emfim, que fizeram o sucesso da Capital
Federal, peça em que a parte do autor não é, certamente, a mais consideravel.
***
A 1ª representação da minha burleta coincidiu com a data anniversaria da
reorganização da empreza Fernandes, Pinto & C.
Para commemoração d’essa data, um grupo de escriptores e artistas
organizou elegantemente polyanthéa oferecida ao emprezaio Silva Pinto e
muito bem impressa na Montalverne. Para essa publicação contribuiu com
quatro insulsas quadrinhas, que peço licença para transcrever aqui, não só
como demonstração de apreço ao amavel polyantheado (deixem passar o
adjectivo), como para reproduzir um verso que a revisão desfigurou:
Caro amigo Silva Pinto,
N’este dia tão fulgente
Eu sito, palavra! Eu sinto
Não poder dar-lhe um presente
Um par de botões de punho
Ou de jarras do Japão;
Ou violetas – sem Junho,
Ou camelias – no verão;
25
Pois dizer-lhe não preciso
N’estes versinhos á toa
O muito que sympathiso
Co’a sua amavel pessoa!
Mas, em falta de um presente,
Mando-lhe um voto formal:
Os capitaes lhe accrescente
A Capital Federal!
Amen! Accrescento agora em prosa chilra e latim de sachristia.
A. A.
26
O Theatro, 18/02/1897
Um dos nossos mais habeis dramaturgos é, incontestavelmente, o meu
velho amigo Antonio Lopes Cardoso, autor de algumas peças applaudidas, e de
muitas outras, como O sacramento é a lei, que se conservam ineditas, á espera
de melhores tempos para a litteratura dramatica.
Quando pela primeira vez a imprensa fluminense denunciou a existencia
dessa hediondez humana, – o caften, e a justiça publica livrou o Rio de Janeiro
(não para sempre, infelizmente) de ignobil presença de uns miseraveis que
traziam da Europa infelizes mulheres para empregal-as, por conta delles, no
exercicio da mais baixa prostituição, Lopes Cardoso, depois de ler o muito
que por ahi se escrevia sobre os usos e costumes dessa canalha, e um tanto
industriado pelo famoso Climaco dos Reis, que no assumpto falava de cadeira,
achou que havia ali materia para um drama,e poz mãos á obra. Isto se passou
em 1880.
Pouco depois estava concluida a peça e não lhe faltava nenhum dos
terriveis episodios do caftismo que pudessem ser exhibidos á luz da rampa,
desde a seducção da victima, arrancada a uma familia honesta, por meio de
falsas promessas de um bem estar venturoso, até o seu abandono final, depois
da exploração completa.
No drama acontece, entretanto, o que infelizmente não consta que jamais
acontecesse na vida real: um moço pernambucano, rico e intelligente, viajando
para distrahir-se, encontra em Baden-Baden, já em companhia de seu algoz, a
desventurada Judith, heroina da peça; enamora-se della, acompanha-a ao Rio
de Janeiro, e quando vê o lamaçal em que a chafurdam, o seu amor ofendido
e magoado tem uma violenta explosão, e depara ao personagem uma série de
lances dramáticos, dignos dos applausos de uma boa platéa.
Não posso contar por miudo as peripecias do drama; o que neste momento
escrevo é a impressão de uma leitura feita há dezesete annos; não pode ser
completa nem absolutamente exacta.
Lembro-me que na peça havia um bello typo de rapazola, caixeiro de
venda, que tinha pela pobre Judith, sua visinha, um sentimento vago em que
a sympathia e a piedade se misturavam para formar um afecto indefinido e
suave.
O drama reclamava enscenação algum tanto pittoresca; – o prologo
passava-se em Baden-Baden e um dos actos no jardim do Recreio, em noite de
espectaculo.
O drama era, pois, para tentar os emprezarios, e efectivamente os tentou;
mas o Conservatorio ou a Policia daquelle tempo – não sei bem qual dos dois
27
– entendeu oppôr-se á representação. Uma peça que se intitulava os Caftens!...
Que horror!...O autor empregou todas as diligencias para que o inexplicavel
interdicto fosse levantado, e nada conseguiu senão cançar-se.
Desesperado, Lopes Cardoso tratou de esquecer o seu manuscripto, que
foi para o fundo da gaveta fazer companhia ao Sacramento é a lei, á Festa do
Bomfim e a tantas outras peças; não pensou mais nisso.
Mas passam-se annos,e graças ao Paiz, que chama a attenção do publico
para a “podridão do vicio”, volta á baila a questão do caftismo. Somente, os
caftens, que a pouco foram voltando sorrateiramente, agora são brazileiros:
naturalisaram-se para não ser expulsos pela segunda vez.
Lopes Cardoso, querendo aproveitar a opportunidade e concorrer com o
seu trabalho para a campanha aberta contra esses bandidos, foi ao fundo da
gaveta onde dormia a peça, tirou-a e levou-a ao Conservatorio Dramatico.
Esse primeiro passo foi facilmente vencido, mas... restava a Policia, e a
Policia não quis dar o visto sem o qual o drama não poderia ser representado.
Nessa ocasião e neste mesmo logar eu me pronunciei francamente contra
a condemnação da peça, e disse que a modificação de certas scenas feitas de
commum accôrdo entre o dramaturgo e o representante da autoridade policial,
contentaria ambas as partes. “O titulo, caftens, escrevi eu, que a muita gente
a muita gente parecerá rebartativo, é a palavra que todos os dias figura nos
jornaes e até já muitas vezes tem sido ofcialmente empregada. O fundo de
peça é moral, pois outra cousa não pretende o autor senão voltar á execração
publica uma classe de miseraveis para quem todos os rigores são brandos.
Deploro, pois, que assim se aniquille o esforço artistico de um homem que
pensa e trabalha.”
Mas não houve razão que convencesse a Policia de que praticava uma
injustiça, e o manuscripto voltou para o fundo da gaveta.
D’esta vez, porém, o somno foi mais curto. Eugenio de Magalhães,
que reside em S. Paulo, veio a esta capital e pediu a Lopes Cardoso que lhe
confiasse a peça, para ser representada por um grupo de artistas que elle na
ocasião tratava de reunir para dar alguns espectaculos sob a sua direcção. O
dramaturgo accedeu promptamente, e lá se foram os Caftens para S. Paulo,
dentro da mala do estimado actor.
A noticia da proxima representação da peça foi lá recebida de pé atraz.
Pudéra! um drama não é impunemente condemnado durante dezessete annos,
e São Paulo não poderia consentir que lhe servissem um prato que repugnara
ao paladar do Rio de Janeiro...Mas Eugenio de Magalhães teve uma idéa feliz:
convidou toda a imprensa paulista para uma leitura da peça, e submetteu-se ao
juizo dos jornalistas, dizendo-lhes: Os senhores decidirão se os Caftens devem
28
ser ou não representados. – A imprensa accedeu ao convite, ouviu a leitura, e
acceitou o drama, que, post tantos tantosque labores, acaba de ser representado
no theatro Polytheama.
Infelizmente os meus collegas da capital visinha são muito parcos na
apreciação do espectaculo. Concordam todos em que a peça agradou e não foi
mal representada, mas nenhum delles é completo, como convinha, tratando-se
da 1ª representação de um drama nacional condemnado, durante tantos annos,
pela prepotencia ofcial.
Um delles teve esta phrase, que me fez sonhar: “Hajam vista os applausos
prolongados e freneticos da platéa nas bellas scenas e situações altamente
dramaticas desenroladas entre os olhos dos espectadores, que fitam os
protagonistas do drama com attenção sobremaneira concentrada.”
O que está averiguado é que o publico de S. Paulo encheu tres vezes o
Polytheama, theatro de vastas dimensões, e as mais respeitaveis familias
assistiram á representação dos Caftens, sem que ninguem protestasse.
Lopes Cardoso, sem poupar nenhuma situação que pudesse impressionar o
espectador e fazer realçar a sua peça, teve o engenho preciso para cortar as
escabrosidades do assumpto: o seu drama é um trabalho honesto.
Oxalá venha um dia ao Rio de Janeiro o grupo capitaneado por Eugenio
de Magalhães, para dar aqui algumas representações dos Caftens. O publico
fluminense, como o de S. Paulo, vingará o dramaturgo da sem-razão da
censura prévia.
***
Nenhuma novidade em os nossos theatros a não ser a dos acrobatas
Chulvis, que fazem diabruras no São Pedro. No Recreio a Capital
Federal pronuncia-se como um sucesso, no Lucinda os ensaios do Filhote
interromperam as representações da Rainha dos Genios; no Apollo annuncia-
se para amanhã a primeira representação do Lambe-feras, vaudeville muito
engraçado, e para o Sant’Anna organisa-se uma companhia dramatica sob a
direcção de Ismenia dos Santos, companhia que se estreiará com um drama
posthumo de Corina Coaracy, intitulado Moema.
A. A.
29
O Theatro, 04/03/1897
Como por motivos imperiosos não me foi possivel dar o meu folhetim de
quinta-feira passada...
Antes de ir mais longe: parece-me que vale a pena dizer aos leitores da
Noticia quaes foram aquelles motivos, mesmo porque não quero que me tomem
por algum vadio. Ahi vae a cousa em poucas palavras:
Tenho por habito escrever os meus folhetins ás quartas-feiras á noite ou
ás quintas de manhã. Aconteceu que na quarta-feira da semana passada fui
á recepçãodo palacio do Cattete, festa a que não podia faltar, em primeiro
logar por que fui honrado com um convite, e confesso que não estou muito
habituado a taes distincções, e em segundo logar tinha grande curiosidade em
ver e admirar o palacio, que é realmente digno de admiração.
Depois das onze horas da noite eu disse aos botões da minha casaca:
– Bom! São horas! Vou para a casa! Á meia noite lá estarei, se Deus quizer...
Ponho-me á fresca, abro a janella do meu gabinete, accendo um charuto,
disponho dose tiras de papel sobre a mesa, sento-me, mólho a penna, e toca a
escrever! Duas ou tres horas depois – conforme a disposição do espirito – fica
prompto o folhetim, e eu entrego-me aos braços de Morpheu com a consciencia
de um Tito que não perdeu a sua madrugada.
Sahi, pois, do placio e, como tenho o bom gosto de morar em Santa
Thereza, que é Tijuca dos pobres, fui ter á estação do largo da Carioca. Mas, oh,
decepção! O trafego dos carros electricos estava interrompido desde as onze e
vinte; tinha havido um transtorno qualquer na casa da machina.
Quis retroceder e subir a montanha pedibus calcantibus, mas um
obsequioso empregado da Companhia Ferro-Carril Carioca fez o favor de
informar-me que a electricidade não tardaria a funccionar; era uma questão de
minutos.
Á vista dessa declaração animadora, tomei logar no carro cuja viagem se
interrompêra logo depois do ponto de partida, e no qual se achavam muitas
damas e cavalheiros que resignadamente esperavam que o vehiculo se puzesse
em movimento.
Uma hora depois, vendo que não sahiamos d’alli nem á mão de Deus Padre,
quis de novo subir a pé, mas outro informante, ainda mais obsequioso que o
primeiro, me demoveu de tão heróico propósito ainda com estas palavras: – É
questão de minutos.
Para encurtar razões: eram 3 horas da madrugada quando subimos.
Digam-me agora se podia escrever alguma cousa um pobre diabo chegando á
casa áquella hora, depois de taes peripécias, mal humorado e lastimoso!
30
Deitei-me e adormeci, no firme propósito de acordar d’alli a duas horas
e trabalhar; mas como estivesse fatigado, dormi cinco horas a fio e, quando
tornei a abrir os olhos, já não havia tempo de escrever e mandar o folhetim.
A moralidade do caso é a seguinte, que eu recommendo, em forma de
conselho, aos escriptores que, como eu, tenham obrigação de dar umas tantas
linhas de prosa pela manhã: – Escreve o teu artigo de vespera.
***
Como por motivos imperiosos, dizia eu ao começar, não me foi possivel dar
o meu folhetim de quarta-feira passada, chego tarde para dizer alguma coisa
sobre o Lambe-feras, o vaudeville do Apollo.
Chego tarde, porque a peça vae ser já depois de amanhã substituida pelo
Gallo de Ouro, opereta de Audran, que ha dez annos foi representada no
Lucinda e agradou bastante.
La plantation Thomassin é uma comedia frivola, mas original, espirituosa
e cheia de fantasia, deliciosamente interpretada por Mattos e Peixoto,
principalmente por este ultimo, tão á vontade no seu inverosimil papel de
marido mentiroso. Infelizmente a intepretação de outros personagens deixa
alguma cousa que desejar, e a platéa, razão tem ella, não me parece disposta a
aceitar a Sra. Ismenia Matteos senão como cantora. Realmente, confiar em um
papel de comedia a essa lingua de trapos, é estragar completamente a comedia.
Moreira Sampaio não foi feliz na escolha do titulo que deu á sua traducção:
Lambe feras, não sei porque, tem alguma cousa de rebartativo que não me
agrada; nem todos os espectadores conhecem a accepção em que o verbo
lamber é alli empregado. Muitos dias antes de ser representada a peça, eu pedi
a Moreira Sampaio que lhe mudasse o titulo; elle não me fez a vontade e eu
não insisti, porque em theatro nem sempre pensar é acertar. Vejo agora que
tinha razão: nem Lambe-feras é o titulo para cartaz, nem está perfeitamente
justificado, em primeiro logar porque o personagem que lambe feras não é o
primeiro da peça, e em segundo logar porque a sua virtude de lambel-as nada
tem que ver com a acção da comedia. Moreira Sampaio sabe, melhor do que eu,
quanto vale um bom titulo.
Apezar do titulo e apezar da Sra. Matteos, que é inintelligivel, não havia
motivo para que o Lambe-feras não desse um bom numero de representações.
A comedia mantem o publico em hilariedade durante tres actos, as situações
mais engraçadas succdedem-se n’um tiroteio continuado, e Assis Pacheco
escreveu para a comedia alguns numeros de musicas interessantes, entre os
quaes uma barcarola que tem sido muito gabada.
31
Faço votos para que a excellente companhia do Apollo encontre no Gallo
de Ouro a desforra do Lambe-feras, e caminhe desassombradamente até pôr
em scena a grande magica o Bico do Papagaio, em que estão fundidas as suas
esperanças de prosperidade e fortuna.
***
O Sr. Vice-presidente da Republica dignou-se a assistir, no Recreio
Dramatico, á recita do autor da Capital Federal, e a sua respeitavel presença
deu áquelle theatro um aspecto estranho e desusado.
Quando agradeci ao Sr. Dr. Manoel Victorino, em meu nome e no dos
artistas, a honra que lhe aprouve conceceder-nos, fiz ver a S. Ex. que da pessoa
do chefe de Estado dependia em grande parte a moralisação dos nossos
espectaculos. Se o primeiro magistrado da Republica aparecesse de vez em
quando num camarote, nem haveria os excessos que lastimam quantos se
interessam pelo progresso da arte, nem a melhor sociedade fluminense estaria
tão divorciada do theatro.
***
Nos outros theatros nada de novo: no Recreio proseguem as representações
da Capital Federal e no Lucinda está imminente a primeira do Filhote, revista de
1896.
A companhia Dias Bragas, de torna viagem de Juiz de Fora e com o pé no
estribo para o Norte, annuncia para hoje, no Variedades, uma representação da
Graça de Deus, cuja história é assim conta por Henri Rochefort, no seu recente
livro Les aventures de ma vie:
“D’Ennery, cujas memorias seriam, sem duvida, mais interessantes que as
minhas, e que está, como ninguem, ao corrente do movimento theatral da sua
época, ainda ultimamente me explicava a enorme parte que se deve attribuir á
boa ou má sorte no sucesso de uma peça ou no destino de um auctor.
Um dia, pouco depois de se haver lançado na carreira litteraria, D’Ennery
passeava no boulevard por um destes calores betuminosos que esvasiam os
theatros, quando se chegou a elle o director da Gaîté e á queima roupa lhe
propoz o seguinte:
– Tenho em ensaio uma grande peça de espectaculo, que não pode subir
á scena antes de mez e meio e estou actualmente com o theatro ás moscas:
não vae là ninguem. Peço-lhe um favor que mais tarde tratarei recompensar:
arranje-me em oito dias um dramalhão qualquer, a primeira cousa que lhe vier
á cabeça. Entrará immediatamente em ensaios, mas desde já o previno que não
poderá ter mais de vinte e tantas representações.
32
D’Ennery, que não queria outra cousa senão trabalhar, desde logo se poz
a imaginar um drama qualquer, quando subitamente ouvio um realejo moer
a Graça de Deus, muito em voga n’aquelle momento. Essa cançao, música de
Luiza Puget e lettra de Gustavo Lemoine, lhe appareceu de repente como
feita para ser recortada em tantos actos quantas coplas tinha. Elle foi ter com
Lemoine, e oito dias depois a Graça de Deus era lida aos artistas.
O drama teve quinhentas representações consecutivas. De sorte
que a grande peça do espetaculo para a qual o director tinha mandado
pintar deslumbrantes scenarios, ficou dois annos á espera, e cahio, aliás,
redondamente.
A Graça de Deus foi o ponto de partida da grande situação dramatica de
D’Ennery, que, se não fosse o embaraço em que se debatia o director da Gaîte,
e se não tivesse encontrado providencialmente um tocador de realejo, talvez
ainda levasse muito tempo a procurar uma brecha.”
Factos d’essa ordem são muito comuns nos theatros, onde tem toda a
applicação o velho ditado: “De onde não se espera, d’ahi é que vem.”
***
A Noticia deu hontem aos seus leitores uma idéa approximada do que seja
o Espiritismo, a nova peça de Sardou, representada por Sarah Bernhardt e os
seus dignos companheiros da Renaissance.
Parece que d’esta vez o illustre dramaturgo, em que preze á sua
extraordinária habilidade, não esteve na altura do seu renome. A famosa scena
final em que um marido, que se suppõe viuvo, tem um longo dialogo com a
sua esposa, muito convencido de que está conversando não com ella, mas com
o espirito d’ella, é de uma extravagancia tal, que o um Sardou e uma Sarah
poderiam livral-a de uma patetada imminente. Em todo o caso, como a peça é
do auctor de Nos intimes e de Les vieux garçons, é de presentir que se salve pelo
espirito, embora não se salve pelo espiritismo.
A. A.
33
O Theatro, 11/03/1897
Uma bonita peça que agradou, foi applaudida e desappareceu ao cabo de
sessenta representações, constitue uma verdadeira novidade quando, passados
dez annos, reapparece no palco. É o caso do Gallo de Ouro, a graciosa opereta
que em 1887 tanto exito alcançou no theatro Lucinda e ante-hontem recebeu o
melhor acolhimento dos frequentadores do theatro Apollo.
O libretto de Maurice Ordonneau – o mesmo auctor do Lambe-féras – é
mais primoroso pelo espirito que pela originalidade. Trata-se da eterna historia
do fidalgo que se apaixona pela camponeza, sua companheira de infancia, e lhe
dá o seu nome illustre a despeito da opposição da familia, provando assim que
não ha philosofo mais egualitario do que o amor.
O libretto, alegrado por um magnifico typo de intendente, que em 1887
era o Peixoto e, felizmente, é ainda o Peixoto em 1897, tem um perfume de
poesia que não é muito comum nessa especie de litteratura, e satisfaz pela
despretensão apparente, pela singeleza e, sobretudo, pela habilidade com que
está feito; mas a partitura é cem vezes superior ao libretto: Audran está todo
alli, com a sua espontaneidade, a sua opulencia melodica, as suas interessantes
reminiscencias das melopéas do seculo passado, dos bons tempos do calção, da
cabelleira e do talon rouge. Ouvir os duettos, as canções, as coplas e os córos do
Gallo de Ouro é uma incontestavel delicia.
Conserva também o seu antigo papel o tenor Oyanguren, que suspira o seu
amor e commanda o seu regimento com a mesma paixão e a mesma galhardia
de 1887. Quem naquelle tempo lhe ouvia os suspiros e o acompanhava em dous
magnificos duetots era a saudosa Cinira Polonio, que Portugal roubou ao Brasil
para vingar-se de tantas que o Brasil tem lhe roubado. A camponeza de hoje é
a Lopiccolo, tão mignonne, tão graciosa, e incontestavelmente melhor actriz do
que a outra era há dez anos.
Ao lado da Lopiccolo faz uma boa figura Ismênia Matteos, que é muito
bonita, canta como um rouxinol e emprega os mais louvaveis esforços para
falar a nossa lingua com a perfeição desejavel.
Gabriela Montani representa com muita graça o seu papel de marqueza
sentimental e casamenteira, e Rangel é magnifico a interpretar um typo meio
velhaco, meio palurdio, que a tudo se presta para ser dono da hospedaria que
dá o titulo á peça. Citemos ainda Nazareth, actor intelligente e estudioso, um
dos bons auxiliares da symphatica empreza do Apollo.
Boa enscenação em que se revela o dedo de Adolpho Faria, scenarios
novos, esplendido guarda-roupa, córos irreprehensiveis, e uma bella orchestra,
34
dirigida pelo talentoso e communicativo Assis Pacheco, bacharel – quem o
diria? – em sciencias juridicas e sociaes.
Espero que o Gallo de Ouro, applaudido, como foi ante-hontem, não só pelo
gallinheiro, mas por toda a sala do Apollo, tantas vezes se faça ouvir que dê
tempo á empreza de cuidar lentamente do Bico do Papagaio.
***
Para hoje está annunciada a primeira representação do Filhote, que,
segundo uma declaração feita pela empreza nos respectivos annuncios, é peça
que “em espírito, riqueza e luxo deixa para traz todas as outras do mesmo
genero”.
Folgarei de que o publico se mostre da mesma opinião dos annuncios,
e o meu amavel e operoso confrade Dr. Vicente Reis, auctor da peça, veja
recompensados os seus louvaveis esforços.
Elle declara que a revista nada tem de politica, nem contém a menor
ofensa pessoal. Ainda bem, porque, agitados como se acham os animos, fôra
de máo aviso expor certos assumptos no palco. A peça que faça rir, que seja
bem representada, que tenha bom trololó com ou sem maxixe, e conseguirá
muitas representações consecutivas. É o menos que lhe desejo.
***
Vou ser o primeiro a transmittir ao publico fluminense esta agradavel
noticia:
A empreza do Recreio Dramatico prepara um bello espectaculo para o 1º de
maio proximo, o dia da inauguração da estatua de José de Alencar.
Nesse espectaculo assistiremos a uma representação de Mãe, a obra-prima
theatral do grande escriptor brazileiro, devendo o papel da protogonista ser
interpretado pela talentosa actriz brazileira Clelia de Carvalho.
O espectaculo terminará com um a-proposito em verso, que será
apresentado a apotheose de Alencar.
A empresa do Recreio mandará preparar dous camarotes, um destinado ao
presidente da Republica e outro á familia do illustre romancista e dramaturgo,
que occupa o logar de honra na litteratura do nosso paiz. Conta-se que assista
a esse espectaculo a fina flor da sociedade fluminense, e que perdure em todas
as memorias a grata recordação de uma noite exclusivamente consagrada á
litteratura e á arte.
***
Do distincto emprezario portuguez Sr. Afonso dos Reis Taveira, que por
duas vezes nos visitou, recebi, escripta do Porto, uma carta que, por muito
35
longa, não póde ser aqui transcripta, como eu desejava, desde a primeira até a
ultima palavra. Copiarei alguns trechos, quantos bastem para a justificação que
procura aquelle cavalheiro. Ei-los:
“No jornal A Notícia, de 14 de janeiro p.p., diz V., no seu folhetim, que o
meu procedimento para com a Caixa Beneficente Theatral foi incorrecto. Seria
incorrecto, sendo verdadeira a informação que forneceram a V., mas garanto-
lhe sob minha palavra de honra, e provo-lhe, que procedi o mais correctamente
possível.
“.................................................................................................................
“Logo que cheguei com minha companhia a essa capital, fui visitado pelo
Sr. Vicente, procurador da Caixa Beneficente Theatral, que me pediu para
beneficiar a referida Caixa com a quantia de 1$500 por cada espectaculo que
realisasse no Rio de Janeiro. Como eu não tinha a honra de conhecer o Sr.
Vicente, nem sabia da existencia da Caixa, e muito principalmente por não
estar a meu cargo a gerencia da empreza, aconselhei o Sr. Vicente a que se
entendesse com o Sr. Celestino da Silva, que era quem podia resolver e dispor
como melhor entendesse das receitas da empreza, conformando-me eu com
tudo que elle fizesse. Entenderam-se os dous e ficou assente que a empreza
daria, não 1$500 todas as noites, mas uma quantia fixa no fim da exploração da
companhia Taveira.
“O Sr. Celestino da Silva, a quem pedi para narrar por escripto a verdade de
quanto se passou, poderá explicar a razão porque a Caixa Beneficente Theatral
não recebeu importancia alguma; emquanto que eu nada mais posso dizer,
visto que o Sr. Vicente nunca mais me procurou até ao dia do meu embarque
para a Europa.”
Interrompo a transcripção da carta do Sr. Taveira, para dizer que o Sr.
Celestino da Silva confirma o que alli está escripto, com as seguintes lettras,
que me dirigio de Lisboa: “Declaro que os factos passaram-se como o Taveira
os relata, e que, se a empreza não entrou com 150$, correspondentes aos 100
espectaculos que ahi realizou, foi por não ter o Vicente apparecido nos dias em
que se efectuaram as ultimas récitas da companhia, e eu não me ter lembrado
de retirar tal importancia. Procurado pelo Vicente, dias depois do embarque do
Taveira, respondi-lhe o que acima deixo dito, accrescentando que ia escrever
ao Taveira a tal respeito e que, logo que eu aqui chegasse, lhe remetteria tal
importancia.”
Continuemos a transcrever a carta do Sr. Taveira:
“Diz mais V. que eu promettêra, sem ninguem m’o pedir, que daria um
espectaculo em beneficio da Caixa. Isso é tudo quanto ha de mais falso. Em tal
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beneficio não fallei ao Sr. Vicente nem a outra qualquer pessoa. Como poderia
eu dispor do que não me pertencia?
“.................................................................................................................
“Temos ainda a multa comminada á actriz M., e que eu promttêra, segundo
informaram a V., que reverteria a favor da caixa.
“.................................................................................................................
“Para regularisar o meu serviço do palco e para que os artistas cumprissem
com mais cuidado os seus deveres, entendi afixar uma tabella em que dizia:
“Previno os Srs. artistas que as faltas aos ensaios e irregularidades de serviço,
são de hoje em diante punidas com multas, cujo producto reverterá em favor
da Caixa Beneficente Theatral”. Nunca houve multa alguma em taes condições.
A actriz M. entendeu não cumprir o seu contracto e foi por mim multada em
900$, correspondente ao seu ultimo mez de ordenado. Pertencia essa multa
á Caixa Beneficente Theatral? Pertencia á empreza, como uma pequena
imndenisação dos prejuizos que aquella actriz lhe causára. Foi isto o que
respondi ao Sr. Vicente, quando casualmente nos encontrámos e elle me disse:
– Já sei que a Caixa tem lá uma multa gorda a receber.”
As minhas accusações de janeiro foram escriptas em virtude de declarações
categoricas do Sr. Vicente, feitas em sessão da directoria da Caixa Beneficente
Theatral. Como fui honrado com a eleição de vice-presidente d’essa associação
de caridade, entendi que era do meu dever, n’estas columnas consagradas ao
theatro, defendel-a contra a desconsideração de um emprezario, que eu tinha e
tenho na conta de um homem de bem.
***
Recommendarei com muito empenho aos meus leitores os beneficios dos
actores Cezar de Lima e Colás, o incomparavel Figueiredo da Capital Federal.
O beneficio de Cezar de Lima será segunda-feira, no Apollo, com o engraçado
Lambe-féras, e um intermedio em que tomam parte Pepa e Brandão, e o de
Colás amanhã, no Recreio, com um espectaculo attrahente e variadissimo, em
que figura a desejada reprise do Duo da Africana.
***
Terminarei, inserindo n’esta columna, sem outro proposito que não seja
o de archival-as em lettra de fôrma, estas quatro espirituosas quadrinhas que
Moreira Sampaio teve a gentileza de me enviar na noite da minha récita da
Capital Federal:
37
Ao Arthur
Justo é que consintas tu
Que eu traga, e é bem natural,
Á Capital Federal
Applausos do Rio Nu.
Somos paes, e, como pae
Meu desejo externo, pois:
Vamos nos casar os dois,
A ver o que delles sai?
Se não levas isto a mal,
Toca a tratar dos papeis,
Que o pinto contos de réis
Ha de dar para o enxoval.
E desta bella união
Os padrinhos, a meu ver,
Certamente devem ser
A gentil Pepa e o Brandão.
Moreira Sampaio
26-2-97.
O casamento seria de uma enorme desigualdade, porque o Rio Nu tem um
dote de perto de duzentas representações, ao passo que a Capital Federal conta
apenas vinte e tantas, embora se mostre muito disposta a ir por ahi além...
A. A.
38
O Theatro, 18/03/1897
O recrutamente, mais que a agitação causada pelos ultimos successos, tem
prejudicado grandemente os nossos pobres theatros. As pessoas desejosas de
assistir a um espectaculo deixam-se ficar em casa receiosas de serem agarradas
á sahida do theatro e mettidas n’um panier à salade como se fossem réos de
policia.
Dizem-me que já hontem foram dadas terminantes ordens para cessar
o recrutamento, que é um attentado á Constituição da Republica. Se é isso
exacto, conto que cesse tambem o desespero dos emprezarios e dos artistas.
***
No meu ultimo folhetim escrevi as seguintes palavras:
“Para hoje está annunciado a primeira representação do Filhote, que,
segundo uma declaração feita pela empreza nos respectivos annuncios, é peça
que “em espirito, riqueza e luxo e deixa para traz todas as outras do mesmo
genero”. Folgarei de que o publico se mostre da mesma opinião dos annuncios.”
Não sei qual seja a opinião do publico. A minha é inteiramente
desfavoravel. Não quero repetir o que já disse no Paiz, onde escrevi, aliás com
benevolencia, a noticia da primeira representação. Isto não quer dizer que
a minha opinião seja a dos demais espectadores. Interrompido depois da 3ª
representação por um incidente desagradavel, provocado por uma actriz,
que não foi correcta nem se mostrou boa camarada, o Filhote volta amanhã á
scena, com a actriz Blanche Grau no papel abandonado pela sua collega. Pode
ser que todo o publico do Rio de Janeiro vá ao Lucinda, póde ser que a peça
tenha muitas representações,e pode ser que todo o publico estas se contem por
enchentes. Se assim fôr, ainda bem para a companhia em cujo elenco figuram
alguns artistas muito estimaveis, como Balbina Maia, Rocha Leite, Alberto
Pires e outros.
A peça não tem pés nem cabeça e, por Deus o juro, eu não diria o contrario
fosse ella escripta por meu pae ou por meu filho; entretanto, levo a lealdade ao
ponto de declarar: 1º, que o auctor, segundo estou informado, supprimiu certas
phrases do seu manuscripto, capazes de fazer corar um jagunço; 2º, que alguns
dos artistas desempenham satisfactoriamente os seus papeis; 3º, que a musica
não é má; 4º, que os coros e a orchestra são irreprehensiveis; 5º, que os bailados
são interessantes e muito bem dansados pelo casal Vitulli; 6º, que dous ou tres
scenarios produzem muito efeito.
Essa declaração ahi fica porque, segundo me consta, o auctor do Filhote
está furioso com a noticia que, bem a meu pezar, rabisquei para ser publicada
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no Paiz. Elle escreveu uma resposta, aliás inofensiva, e andou a mostral-a a
quantos conhecidos encontrava, dizendo que a sua prosa appareceria no Jornal
do Brasil do dia seguinte. Diversos cavalheiros me trouxeram essa noticia.
Dizer aos leitores que passei uma noite agitadissima seria mentir-lhes:
dormi como um abbade; confesso, porém, que pela manhã, um dos meus
primeiros cuidados foi procurar o Jornal do Brasil.
Em vez do artigo annunciado, e que para mim já não era inedito, pois
o autor transformara-o em uma especie de rhapsodia, eu o ouvira, com
ligeiras variantes, cinco ou seis vezes, encontrei no Jornal do Brasil uma
descompostura anonyma! O meu primeiro movimento foi de indignação contra
o Dr. Vicente Reis, porque, se desculpo a quem for por falta de talento escreve
um Filhote, não perdôo a quem por falta de caracter escreve um insulto e não
assigna. Lendo pela segunda vez e com mais cuidado a mofina, reconheci que
aquelle pedacinho de prosa estava escripto em melhor portuguez e com mais
pico do que habitualmente escreve o autor do Filhote. Aquillo não é delle,
comquanto a assignatura – Oras bolas – de alguma forma o trai: mas há alli
um “mijão de tinta” (esse mijão sou eu), que, sendo uma novidade, jamais
ocorreria ao betunto do Dr. Vicente Reis.
Nessa mofina me accusaram de ter sido pornographico duas vezes quando
escrevi a Capital Federal: lançam-se em rosto uma chalaça que não é minha, e
publicam de má fé os quatro ultimos versos de uma oitava que, assim cortada
ao meio, parece, realmente, ignobil, quando não é.
O Dr. Vicente Reis não é feliz no genero revista; faltam-lhe fantasia e não
sabe fazer versos, que não são um grande elemento em producções dessa
ordem. Porque não se ensaia n’outro genero?...porque não se atira á peça de
costumes, para o que não lhe falta certa doze de observação comica? Aquelle
titulo, o Filhote, daria uma boa comedia, mesmo porque o typo do filhote é
exploravel e nunca foi explorado. Reflicta e veja quantos efeitos comicos pode
encontrar no filhote um comediographo intelligente.
Mas querem apreciar a fantasia do Dr. Vicente Reis? O seu filhote é o
Habeas corpus...E sabem onde está o Habeas corpus? No Olympo! Venus evia-o
em commisão ao Rio de Janeiro! É o caso de perguntar o que tem Judas com as
almas dos pobres.
Não! Não é assim que se fazem revistas.
***
Nos demais theatros nada de novo. No Recreio, onde fizeram, para a noite
da festa do Colás, reprises da Gran-Via e do Duetto da “Africana”, prosseguem
as representações da Capital Federal, e no Apollo, que tem lutado heroicamente
40
contra a crise, continua em scena a linda opereta o Gallo de Ouro. N’este
theatro está annunciado, para quarta-feira, o beneficio do estimado actor
Zeferino de Almeida.
***
No dia 12 do mez passado falleceu em Veneza Jacintho Gallina, que era
reputado o primeiro comediographo italiano da actualidade, e considerado
pelos seus patriotas como o Goldoni moderno.
Glalina mereceu em vida a erecção do seu busto no atrio do theatro
Goldoni, d’aquella cidade, que era a do seu nascimento, e ainda ultimamente
a municipalidade de Veneza votou em seu favor uma pensão vitalicia de 200
francos.
Os fluminenses não conhecem as comedias de Gallina, pois não me consta
que nenhuma outra tenha sido aqui representada além de Cosi ra il mondo, que
a prodigiosa menina Gemina Cuniberti interpretava maravilhosamente.
Os seus ultimos trabalhos intitulavam-se Serenissima, Esmeralda, La base
de tuto e Fora del mondo. Deixou em ensaios uma comedia intitulada Senza
bussola.
Jacintho Gallina contava apenas 45 annos de idade. A sua morte é muito
lamentada por toda a imprensa italiana.
***
Outro fallecimento, cuja noticia deve interessar aos leitores fluminense, é o
do baixo Castelmary, que na noite de 10 do mez passado cahiu morto no palco
do theatro Metropolitano, de New York, na occasião em que representava a
parte de Tristão na Martha de Flotow.
Castelmary foi um dos melhores artistas trazidos ao Rio de Janeiro pelo
benemerito emprezario Ferrari. Era um cantor e um actor de extraordinario
talento. Quem poderá esquecel-o no Mephistofles do Fausto ou no Marcello dos
Hugnenotes?
Filho de uma familia novre de Tolosa (França), Castelmary iniciou a sua
vida artistica na Opera de Paris, mas pouco depois abraçou o theatro italiano,
a que se conservou sempre fiel. Ultimamente era contractado dos famosos
emprezarios Abbey e Grau, de New York, e já não tinha forças para cantar os
seus grandes papeis de outrora. Morre quase septuagenario, deixando a fama
de um excelente artista e de um distinctissimo cavalheiro.
A. A.
41
O Theatro, 01/04/1897
Os artistas da companhia organisada para o theatro Variedades
resolveram, emquanto esperavam pela 1ª representação de Moema, dar duas
recitas com o drama portuguez a Batalha do Bussaco, de Augusto Cesar de Sá.
Eu quizera dizer as minhas impressões sobre a peça, mas não o farei,
receioso de lançar a conta do pobre auctor as mutilações que lhe fizeram,
provavelmente para facilitar os ensaios. Imaginem se ha dramaturgo que
resista a um lapis vermelho (ou azul) manejado pelo actor Victorino Vellosa!
Os papeis, apezar de reduzidos por tal processo, não estavam sabidos, e o
ponto, coitado! teve um trabalho cruel, que devia ser largamente gratificado;
mas ainda assim alguns artistas mostraram as suas habilidades, e, entre estes,
Galvão, actor com quem sympathiso por ver que tem a perfeita intuição da sua
arte. Dizem me que, antes mesmo de estreiar, já deixou elle a companhia do
Variedades. Foi pena.
Batalha do Bussaco tem dous galans: um frade e um soldado. Este ultimo
papel foi desempenhado pelo actor Augusto Mesquita. A Gazeta de Noticias
achou-o quente, mas a mim me pareceu frio, com quanto voltasse ha poucos
dias das regiões equatoriaes.
As representações de Batalha do Bussaco foram dadas em homenagem ao
Sr. Conselheiro Antonio Ennes, que não foi ao theatro, e fez bem: o espectaculo
serviria talvez para o ministro, mas com certeza não era digno do dramaturgo.
***
A empreza do Recreio faz uma reprise do Jovem Telemaco, da qual não digo
nada por não ser indiscreto, visto que a imprensa não foi convidada para o
espectaculo.
O Jovem Telemaco é uma das traducções mais espirituosas de Eduardo
Garrido, que deu ao seu trabalho um valor que não tem o original de Eusebio
Blasco.
E sabem onde elle começou e terminou a traducção? A bordo do paquete
que o transportou para o Rio de Janeiro ha vinte e tantos annos, quando aqui
veio pela primeira vez, trazido por Furtado Coelho para “montar” no S. Luiz
a Pera de Satanaz. O Jovem Telemaco, representado logo depois dessa magica,
obteve um longo e justificado sucesso. O papel de Mentor é citado como um
dos melhores de Guilherme de Aguiar, que era de um comico irresistivel no
famoso discurso das “represalias aquaticas”.
***
42
Os artistas que trabalhavam no Lucinda não quizeram esperar pelo
sentinario do Filhote, e dissolveram-se. A noticia dessa dissolução contrariou-
me, porque o Sr. Dr. Vicente Reis tinha escripto para a sua revista um quadro
suplementar mettende á bulha todas as immoralidades com que as minhas
peças escandalisaram as familias. Eu estava com grande curiosidade de saber
por que forma e com que graça era zurzido pelo poeta.
Desse quadro inedito nada sei senão que terminava com uma apotheose,
não á Moralidade Publica, não ao Decoro Social, mas aos bravos coroneis
Moreira Cesar e Tamarindo. Ignoro que relação o insigne revisteiro encontrou
entre as minhas immoralidades e o desastre de Canudos, mas tudo ha que
esperar de uma intelligencia tão atilada e subtil.
– “Vejam, meus senhores! Diria, talvez, a Critica, apontando para a minha
pessoa, muito bem reproduzida pelo actor mais gordo da companhia, – olhem
para aquelle homem!... (Surdina na orchestra).
Emquanto esse homem ofende
A moralidade publica
Dous grandes heroes defendem
A honra da gran Republica!
(A orchestra executa o hynno nacional. Rasga-se o pano de fundo. Apotheose.
Fogos cambiantes).
***
Como o Sr. Dr. Vicente Reis não conseguiu amarrar-me ao seu pelourinho
aristophanesco, tomou a ressolução de vingar-se por outra forma, e anda
dizendo aos amigos e conhecidos que eu copiei a Fantasia não sei de que
peça hespanhola. É mentira, ou antes, é calumnia, e o auctor do Filhote fica
solemnemente desafiado para produzir em publico a prova d’essa tremenda
accusação de gatunice litteraria.
***
A empreza do Apollo, que com tanto heroismo tem lutado coma injustiça
do publico, festejou o seu centesimo espectaculo, que devia ter sido com a
centesima representação da Cigarra e a Formiga.
Assis Pacheco, o symphatico maestro, que no desempenho das suas
funcções de compositor, ensaiador e regente da orchestra tem revelado
aptidões excepcionais, foi alvo de uma manifestação especial, obrigada a
tinteiro de prata e discursos. Foram egualmente applaudidos todos os outros
artistas que com o seu esforço e o seu talento fizeram com que a companhia
43
Apollo desse provas de uma actividade intelligente, nunca d’antes conhecida
em os nossos palcos.
***
Novidades em perspectiva; no Recreio reapparecerá amanhã a Capital
Federal, com uma distribuição de papeis quasi inteiramente nova; no
Variedades annuncia-se, tambem para amanhã, a primeira representação de
Moema, e prepara-se para breve uma reprise de Frei Satanaz, para a estreia de
Pepa e Brandão que a empreza d’esse theatro teve a fortuna de contractar; o
Apollo promette-nos uma grande magica, o Bico de Papagaio, e para amanhã
o beneficio do estimado actor Zeferino de Almeida; o Sant’Anna receberá
brevemente a vista de Lucinda Simões, e de sua filha, a actriz brasileira Lucilia,
que, segundo informações fidedignas, é uma ingenua muito aproveitavel para
o futuro Theatro Municial.
Escrevem-nos de Lisboa dizendo que “a companhia, sem ser composta
de notabilidades, é, em todo caso, muito boa, pois, além de Lucinda, Lucilia
e Laura Simões (irmã de Lucinda) tem um magnifico elenco de artistas
conhecidos como sejam Barbára, Encarnação Reis, Amelia Pereira, Telmo,
Setta da Silva Alves, Caetano Reis, Joaquim Ferreira, Cardoso, Conde e outros
que o Rio de Janeiro ainda não conhece, como Christiniano de Souza actor de
nascimento”.
O repertorio é esplendido. A estréa será com Georgette, de Sardou,
seguindo-se Madame Sans-Gêne e Belle maman, do mesmo auctor, Franeillon
e Demi-monde, de Dumas, Amoureuse, a obra prima de Port-Riche, Les
demivierges, de Marcel Prévost, Mancha que limpa, de Echegaray, Le pardon, de
Jules Lemaitre, e outras muitas peças novas, entre as quaes La loi de l’homme,
o ultimo e estrondoso successo da Comédie Française, e Les deux gosses,
um dramalhão de Decourcelle que tem levado ao Ambigu toda a população
pariziense.
Tanto Madame Sans-Gêne como para algumas peças modernas virão de
Paris todos os scenarios e accessorios afim de que a enscenação seja, senão
egual á parisiene, pelo menos o mais approximado possivel.
A. A.
44
O Theatro, 08/04/1897
Nada de novo. O espectaculo mais interessante dos ultimos dias, e o que
atrahiu maior numero de espectadores (sobretudo por ser de graça), efectuou-
se, não em nenhum theatro, mas no salão nobre do Cassino Fluminense...
Mas não falemos de cousas tristes, nem mettamos o bedelho em factos que
não são da alçada d’estes folhetins.
***
No theatro, meus caros leitores, como em todas as cousas d’este mundo, o
homem põe e Deus dispõe.
A provecta actriz e emprezaria Ismenia dos Santos (aqui é o caso de dizer
que foi a mulher e não homem quem poz) organizou para o theatro Variedades
uma companhia dramatica, e tencionava inaugurar os respectivos trabalhos
na semana passada, com a primeira representação de Moema, drama, ou, para
repetir o que dizem os annuncios, “lenda dramatica”, producção posthuma de
Corina Coaracy.
Aconteceu, porém, que, na vespera do ensaio geral, dous ou tres dos
actores que deviam tomar parte nesse espectaculo, se despediram da
companhia, ao mesmo tempo que Pepa e Brandão se desalojavam do Recreio.
Ismenia, que não tem nada de tola, chamou os dous popularissimos artistas
para o seu theatro, e tratou immediatamente de pôr em scena o Tim tim por
tim tim, que foi representado justamente na noite em que devia ser exhibida a
Moema. No theatro, trabalha-se com uma rapidez incrivel, desde que haja boa
vontade.
Os verdadeiros amantes da arte dramatica ficaram, talvez, contrariados
por lhes terem promettido uma peça litteraria e lhes darem uma revista
estaladissima; entretanto, sou obrigado a reconhecer que a empreza deu no
vinte: apanhou taes enchentes, que a primeira representação de Moema ficou
transferida para a proxima segunda-feira.
Esta reprise, um pouco atabalhoada, da famosa revista de Souza Bastos,
é o que em linguagem theatral se chama um tiro, e muita gente dirá que não
fica bem a uma companhia regular fazer a sua estréa com um tiro. De accordo;
hão de convir, porém, que o tiro foi dado com polvora fina, e d’esta vez o
Variedades foi uma boa arma de precisão. Pudera! com esses dous artilheiros
que se chamam Brandão e Pepa, não há tiro que talhe! Releva ainda notar
que Pinto, Cezar de Lima, Portugal e os demais artistas que tomam parte na
representçaõ do Tim tim (não os tenho a todos de memoria) são muito bons
serventes de peça.
45
***
Infelzimente não me será dado assistir á primeira representação da peça
de Corina Coaracy. Depois de amanhã estarei de viagem para uma estação
balnearia, onde pretendo curar velhos achaques. Contraria-me cá não estar,
porque – confesso – ardo em curiosidade de vêr como a saudosa e mallograda
C. Cy conseguiu fazer uma peça em 4 actos e 9 quadros, aproveitando pura
e simplesmente uma anedocta da nossa tradicção colonial. É verdade que
essa anedocta, ou, se quizerem, esse episodio é interessante e poetico; mas
é tão curto, que não atino como o dramaturgo mais engenhoso lograsse
desenvolvel-o sem evitar certa monotonia.
Lembrem-se de que a paixão de Moema não forneceu a Assis Pacheco
acção bastante para o libretto de um acto de opera.
Todavia, confio muito no talento de Corina Coaracy, comquanto o seu
unico trabalho theatral, alem d’este que vai ser agora submettido ao juizo do
publico, seja um drama tirado do Guarany, em collaboração com seu esposo
Visconti Coaracy, tambem fallecido. Não confundam esse drama como outro
Guarany, que o mesmo escriptor, de sociedade com L. J. Pereira da Silva,
extrahiu do mais illustre dos nossos romances, e fez estrondoso successo
quando representado no Provisorio pela companhia Heller.
E a proposito: nos primeiros annuncios de Moema dizia-se que a peça
era tambem extrahida de um romance de José de Alencar. Essa declaração é
extravagante. A autora, com quem entretive relações de amizade, algumas
vezes, conversando commigo, se referiu ao seu drama e me afrmou que
era trabalho original. Moema não figura em nenhum dos livros do grande
romancista cearense.
Já tivemos este anno uma peça brazileira, a Capital Federal, vamos ter
outra agora, Moema, e mais tarde ainda outra, o Conselheiro, de Valentim
Magalhães, a qual já se acha em ensaios no Recreio. Isto sem contar com o que
ainda não está annunciado... Ora ainda bem que não será este anno tão pobre
theatralmente fallando, como os seus ultimos prodecessores.
Tive ensejo de ouvir, na “prova de papeis” o primeiro acto de Conselheiro,
um acto de exposição, mas bem lançado, incisivo, com uma bella scena – uma
pelo menos – que há de vibrar e provocar o enthusiasmo da platéa, se, como
espero, fôr bem representada.
***
Não me compete dizer nada sobre as alterações por que passou o
desempenho da Capital Federal. Não quero molestar os artistas que se foram
nem os que ficaram. A uns e outros me confesso reconhecido pelo muito que
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fizeram e estão fazendo em favor da minha peça, que, graças á boa vontade
da companhia do Recreio, continua “fazendo o seu dever”, como se diz em
linguagem de bastidores.
Senti muito que por divergencias com o emprezario, Pepa e Brandão
abandonassem a contragosto os papeis que escrevi para elles e tão brilhante
interpretações tiveram: mas forçoso é reconhecer que Pepita Anglada e
Leonardo empregaram os mais intelligentes esforços para que o publico os
aceitasse, como os aceitou, animando-os com o seu applauso e concorrendo
aos espectaculos.
Tanto substituidos como substitutos recebam n’estas linhas a expressão de
meu reconhecimento.
***
No Apollo trabalha-se activamente para que o Bico de Papagaio esteja em
scena sabbado, 17, – sabbado de alleluia.
Já todos sabem que essa magica é de Eduardo Garrido, condição esta que
lhe afiança um triumpho. Imaginem o que serão as decorações, cuja execução
está confiada aos turvinas da scenographia, e os machinismos, trabalhados a
capricho pelo engenhoso Augusto Coutinho!
Os papeis estão distribuidos á fina flor da companhia, augmentada agora
com uma cantora a valer, a Sra. Broggi, que fez parte da companhia Tomba.
Mattos e Peixoto, que declararam guerra de morte á melancolia do publico,
figuram naturalmente no primeiro plano, e a musica é arranjada, muito bem
arranjada, já se sabe, por Assis Pacheco, e os ensaios são dirigidos por Adolpho
Faria, que nasceu ensaiador como outros nascem poetas.
Desculpará o leitor occupar-lhe a attenção com uma peça que ainda não
está por ser representada; mas a viagem, de que acima fallei, vae privar-me de
assistir á primeira representação do Bico de Papagaio, e eu não quero perder
esse ensejo de manifestar a minha symphatia aos emprezarios e artistas do
Apollo, que têm sido admiraveis de tenacidade e trabalho, lutando contra a
injustiça do publico fluminense com um heroismo digno de animação e louvor.
***
A actual directoria da Caixa Beneficente Theatral celebrou a sua ultima
sessão. Na proxima segunda-feira se realisará a assemblea geral para a eleição
dos novos directores. O estado da associação é relativamente prospero, graças
aos favores e symphatias que ella tem merecido.
Não posso esquecer neste artigo o magnifico diploma que Rodolpho
Amoedo, e insigne pintor, filho de dois eximios artistas dramaticos, desenhou
e ofereceu á Caixa Beneficente Theatral para ser distribuido, mediante
47
retribuição, aos respectivos socios, depois de photographados nas ofcinas
Gutierrez. É um trabalho que honra o autor da Narração de Philetas. Os leitores
terão brevemente occasião de admiral-o: vae ser exposto.
A. A.
48
O Theatro, 15/04/1897
O director d’A Noticia exigio que mesmo em viagem eu escrevesse os meus
folhetins das quintas-feiras. Debalde lhe fiz ver quanto isso me seria difcil,
porque, se na propria Capital Ferderal, sem sahir dos meus commodos, no
conforto do meu gabinete (que tanta saudade me causa neste momento)
muitas vezes me vejo em serios embaraços para encher um certo numero
de tiras de papel exclusivamente com este assumpto: o theatro, – que fará
em terra estranha, longe dos meus tarecos, n’um quarto de hotel, sentindo-
me invandir por uma nova natureza, como acontece a todo homem caseiro,
quando sae bruscamente dos seus habitos?
Não tenho remedio senão obedecer á voz de commando. É uma questão
de disciplina. Entendo que os auxiliares de uma folha, redactores ou simples
collaboradores, são como soldados de um regimento. Manda o chefe? É
marchar para a frente, sem tugir nem mugir.
Eu poderia deixar correr a penna em divagações dessa ordem até chegar
á ultima tira, tratando tudo menos do assumpto dos leitores d’A Noticia
procuram as quintas-feiras n’estas colunas menores; mas tal procedimento
seria desleal e incorrecto. O meu folhetim deve ser fiel ao seu titulo: vou
escrever sobre theatro.
***
Ao chegar á capital de S. Paulo, o meu primeiro cuidado, foi indagar que
espectaculos havia n’essa noite. O velho theatro S. José estava fechado, mas no
Polytheama exhibiam-se os titeres do Sr. Dell’Acqua, e no Apollo representava-
se, pela primeira vez o drama sacro, ou antes, a magica Os milagres de S.
Benedicto.
Os titeres já eu conhecia por tel-os visto no Sant’Anna: os leitores estarão,
talvez, lembrados de que n’estas columnas applaudi aquelle Sr. Dell’Acqua
como um scenographo notavel; restavam-me, pois, os alluididos Milagres.
O Apollo, é de dimensões acanhadissimas, edificado n’um local que não
servia absolutamente para um theatro; entretanto, é de justiça reconhecer que
o construtor aproveitou quanto poude o terreno de que dispunha. O theatrinho
faz lembrar, pela disposição dos logares (por mais nada), o nosso antigo
Gymnasio, que desappareceu deixando tão gratas recordações aos amantes da
arte dramatica.
É de admirar que em S. Paulo não haja um bom theatro, luxuoso, elegante,
com todos os aperfeiçoamentos modernos. O S. José é aquillo que se sabe, e
os paulistas embirram com elle tanto como os fluminenses com o S. Pedro;
49
não vi o Polytheama, mas dizem-me que é uma barraca indecente; quanto ao
Apollo, está ao pintar para uma cidade da roça. O governo e os homens ricos de
S. Paulo têm-se lembrado de construir tudo menos um theatro! Levantaram-
se edificios publicos de uma belleza incontestavel, como a grandiosa Escola
Normal e a Thesouraria de Fazenda, esse mimo de architectura; passeando
pela cidade, encontram-se palacetes, como o da marqueza de Itú, dignos de
figurar nos Champs-Elysses de Paris; um particular gastou perto de 100 contos
na construcção do Velodromo Paulista, que é bellisimo; o Frontão, segundo me
dizem, não é inferior ao da rua do Lavradio, abrem-se bonitas ruas, rasgam-se
formosas avenidas, transforma-se maravilhamente a lendaria Paulicéa – e não
se faz um theatro!
Porventura esse melhoramente não corresponderia ao desejo do publico? A
resposta ahi está na enchente que apanharam os alludidos Milagres: não havia
no Apollo um logar vasio e a mesma hora o Polytheama estava completamente
cheio.
A falta de um bom theatro em S. Paulo mostra á evidencia que a arte
dramatica – a mais bella das artes – é a ultima preocupação d’aquelles que
tanto poderiam fazer em beneficio d’ella, se assim o quizessem.
A cidade do Ribeirão Preto possue, segundo me informaram, um theatro
melhor que qualquer dos da capital do Estado!
***
Mas voltemos ao São Benedicto:
Assisti apenas á representação do priacto e dei-me por satisfeito.
Quem havia eu de encontrar no Apollo desempenhando um papel de
rapariga? A Sra. Julia Gobert, arrastando penosamente (coitada!) a sua
corpulencia e os seus invernos! O papel de Satanaz, que obriga o actor a entrar
e sahir meia duzia de vezes pelo alçapão, foi interpretado pelo Sr. Abreu, um
artista que ha alguns annos fazia parte da companhia Dias Braga,e não me
parece ter aproveitado completamente as disposições que então mostrava.
S. Benedicto era um actor cuja voz não reconheci; pela cara não podia eu
saber quem era: estava pintado de preto. O actor Silva, um dos emprezarios
da companhia, era o comico da peça, um pescador a quem o diabo corta em
pedaços que S. Benedicto reune uns aos outros, restituindo a vida ao morto
e repetindo o conhecidissimo truc do Amor é o diabo, que era uma das peças
de resistencia do Martins – lembram-se? – quando teve empreza no Cassino-
Franco-Brésilien, hoje Sant’Anna?
Parecia feliz o publico, um publico bonancheirão, disposto ao riso,
recebendo com gargalhadas unisonas tudo quanto dizia e fazia o actor Silva. A
50
magica, a julgar pelo primeiro acto, estava bem ensaiada e regularmente posta
em scena.
Os annuncios dos Milagres de S. Benedicto só traziam o nome do auctor da
musica, Marcellimo Cleto, pernambucano distincto, um dos fundadores da
Revista Contemporanea, onde inserio bons artigos de critica musical. Aquella
partitura é um ligeiro peccado da mocidade.
Vou corrigir o esquecimento dos annuncios, dizendo que os auctores da
magica representada no Apollo são Dr. Antonio de Souza Pinto e o fallecido
Thomaz Espiuca, actor que abandonou o theatro para se fazer dentista e
morreu empregado publico.
O Dr. Souza Pinto, que é hoje um dos nossos mais conhecidos
jurisconsultos, auctor do Dicionario de legislação commercial, era estudante e
poeta quando perpetrou o S. Benedicto, por encommenda de um emprezario
pernambucano. Antes d’isso fizera representar outra peça do mesmo genero e
uma comedia intitulada Abgnegação de uma bailarina. São d’elle os seguintes
livros de versos: Harpejos da mocidade, Idéas e sonhos, Aspectos, e mais duas
grandes monographias sobre Camões e o marquez de Pombal, além de uma
infinidade de artigos publicados na imprensa republicana. O Dr. Souza Pinto
deixou de cultivar as lettras desde que, ha alguns annos, se filiou á escola
positivista.
A. A.
51
O Theatro, 22/04/1897
Escrever em Poços de Caldas um folhetim que se intitula O theato, é um
verdadeiro four de force, que os meus leittores, espero, hão de tomar na devida
consideração...
Em S. Paulo apanhei, felizmente, um espectaculo no theatro Apollo, e
encontrei ahi materia para encher umas tantas tiras de papel; mas n’esta
villa não há outro espectaculo senão o do circo Hilario, armado na praça do
Senador Godoy, em frente ao meu hotel.
Todas as noites entram pelos meus ouvidos os sons de charanga e das
gargalhadas provocadas pelo palhaço, e sabe Deus se tenho vontade de lá ir,
porque, confesso, gosto de peloticas, principalmente quando não ha outra
cousa; mas a primeira recommendação de Poços de Caldas é – não apanhar
sereno.
Este conselho não é religiosamente seguido por muitos dos meus
companheiros, que não sabem resistir ás attracções da roleta, e lá vão por ahi
fora ao encalce da fortuna; mas eu submetto-me a clasura com a resignação do
doente que não deseja outra cousa senão restabelecer-se.
Ah! Se eu ao menos podesse falar dos espectaculos da natureza, teria
prompto o meu folhetim, porque aqui os há de uma belleza incomparavel; isso,
porém, seria ultrapassar os limites que me foram traçados neste hospitaleiro
rodapé.
***
Levado pelo rifão que diz: “quem não bebe na taverna folga nella”,
procurei ler a opinião dos jornaes do Rio de Janeiro sobre a representação da
lenda dramatica Moema, de Corina Coaracy, e folguei de ver que o criterioso
noticiarista do Jornal do Commercio achou que tive razão quando, no meu
penultimo folhetim, duvidei, mesmo sem conhecer a nova peça, que do
episodio de Moema, tão poetico, sim, mas tão resumido, se podesse fazer um
drama em 4 actos e 9 quadros.
A acção de Moema desenvolve-se entre os tupinambás. Ora, os nossos
indios, que tão bello efeito fazem no romance e na poesia, são detestaveis no
theatro, onde não se pode evitar que tenham o aspecto ridiculo de espanadores
ambulantes. A esse respeito já me pronnunciei longamente, por ocasião de ser
representada Moema de Assis Pacheco e Delgado de Carvalho.
Accresce que é impossivel reproduzir em scena, com a desejavel exactidão,
os usos e costumes dos nossos selvicolas: por mais que o autor, o artista e o
ensaiador procurem approxirmar-se da verdade, não poderão nunca lá chegar.
52
Portanto quer me parecer que os dramaturgos devem de uma vez por todas
renunciar aos nossos selvagens, e deixal-os aos poetas e romancistas, que farão
melhor uso delles. Não conheço nada mais absurdo, como scena de costumes,
do que o famoso bailado do Guarany.
Todavia, parabens e até agradecimentos sejam dados a Ismenia dos Santos,
intelligente e generosa emprezaria, que, n’esta época de abastardamento do
theatro, não hesitou em realisar despezas relativamente elevadas para exhibir
uma obra posthuma de Corina Coaracy, rendendo assim homenagem as nossas
lettras e a memoria da talentosa e mallograda escriptora que promettia tanto.
Faço votos para que o publico possa comprehender e recompensar tão boas
intenções.
***
Á hora em que for publicado este folhetim já deve ter apparecido no Apollo
o Bico de Papagaio, magica de Eduardo Garrido. Conto que agrade a peça e
dê fructuosas e consecutivas enchentes, pois que bem merece a companhia
daquelle theatro, não só pela sua perseverança e força de vontade, como pela
escolha do seu repertorio.
O publico tem sido por demais injusto para com essa companhia, de que
fazem parte alguns dos nossos artistas mais estimaveis; espero, entretanto, que
o Bico de Papagaio seja o inicio de uma nova phase, verdadeiramente feliz.
***
Entre os jornaes e revistas que á ultima hora metti no meu sacco de viagem
como profusão de leitura para estes longos dias de villegiatura, encontrei um
dos ultimos numeros do Don Quixote, contendo, sob o titulo de Theatros, um
artigo muito interessante de Tony, velho collega que pode fallar de cadeira
sobre estes assumptos.
Tony refere-se ao cancan, não ao cancan coreographico, mas ao “outro,
mais pernicioso e mais damninho, que mora e vive, prolifera e cresce, estraga e
inutilisa o nosso theatro, o cancan dos bastidores”
Leiamol-o:
“São os cancas lá de dentro que determinam toda essa serie de
desastres, que todos nós cá de fora apreciamos, mas cujos fundamentos não
comprehendemos; são esses malditos cancans que nos reservam as maiores
surpresas, oferecendo á nossa contemplação factos, soluções e embrulhadas,
que ninguem pode comprehender, e situações que ninguem pode deslindar
ainda que ponha em contribuição um processo de critica o mais radical, o mais
paciente, o mais arguto, e o mais cuidado!”
53
E em seguida Tony escreve estas palavras necessariamente duras de roer,
mas que exprimem perfeitamente a verdade:
“Evidentemente o cancan dos camarins e dos escriptorios theatraes
concorre muito mais poderosamente para o descalabro do que o cancan da
scena; e na crise actual, temerosa e profunda, – porque não dizer a verdade?
– a desharmonia e a ausencia da confraternidade entre os artistas, a falta
de [p. i.] nas emprezas, as facilidades d’estas e principalmente o desrespeito
aos nossos contractos, aos quaes fallecem todas as condições legaes precisas
para a sua garantia efectiva, collocam: – emprezarios nas contigencia de
viverem a adular estrellas de rutilo assas duvidoso; artistas – na alternativa
de substituirem sem recursos ou acompanharem uma frota a que falta a
bandeira.”
Tenho me fartado de repetir isso mesmo por outras palavras. No dia em que
só estabelecer a mais perfeita harmonia entre artistas e emprezarios; no dia em
que todos se convencerem de que devem cooperar para o bem commum; no
dia em que desapparecer dos bastidores a intriga, que Tony descreve como “um
microbio que se insinuapelo urdimento do theatro, e pelas bambolinas, e pelos
camarins, e pelas cordas, e pelos tangões, e pelos pannos, e pelos comparsas, e
pelos artistas, e pelos emprezarios”, nesse dia o theatro no Rio de Janeiro será
uma cousa mais seria do que o é na actualidade.
Dirão que a industria e não a arte lucrará com isso. Enganam-se: a arte
tem tudo a ganhar com que todos os artistas estimem e se respeitem uns aos
outros, porque não ha peça, não ha scena, não ha dialogo que não resinta desse
desconcerto.
Os verdadeiros culpados de tudo issso, os que engendram esse lastimavel
estado de cousas, são, não os emprezarios, não os artistas, mas certos
individuos que se dizem amigos d’esta ou d’aquella empreza, e andam todas
as noites, de palco em palco, trazendo e levando “novidades” intrigando,
semeando a discordia, provocando os odios, inutilisando todos os bons esforços
de quem trabalha para que o nosso theatro não seja uma choldra infecta.
Artistas e emprezarios tratem, principalmente, de evitar esse inimigo, – o
intrigante, que dá no theatro como cupim na madeira.
A. A.
54
O Theatro, 29/04/1897
Ha um Deus para os folhetinistas!
Difcilmente eu acharia em Poços de Caldas assumpto para encher duas
tiras de papel, se o meu amigo Bellarmino Carneiro não recebesse do Dr.
Antomio de Souza Pinto uma carta em que este illustre cidadão se refere
ao meu penultimo folhetim, escripto da capital de S. Paulo. Embora sem a
devida venia, vou transcrever o trecho em que o poeta das Idéas e sonhos e
o jurisconsulto do Dicionário de legislação commercial brazileira allude ao
dramaturgo dos Milagres de S. Benedicto. Estou certo de que esta indiscrição me
será perdoada.
Eis o trecho:
“Li, ha pouco dias, um folhetim da Noticia, em que A.A., teu companheiro
de digressão, com a gentileza e bondade que lhe são proprias, me cita o nome,
a proposito de certo S. Benedicto com quem me relacionei ahi por volta de 1871
ou 1872, que nunca mais tornei a ver, e do qual não esperava mais ter noticia.
Creio que o venerado thamaturgo se vinga, ainda decorridos tantos annos,
do acrescimo de milagres que o obriguei a participar, embora o protesto de um
velho frade franciscano, que me emprestara o Flos sanctorum, impondo-me
depois a penitencia, que rigorosamente cumpri, de lêr-lhe o manuscripto da
peça, da primeira á ultima linha, inclusive as rubricas.
Induzio-me a essa falsificação agiologica o excellente e nunca esquecido
Thomaz Espiuca, sabendo que tinha por auxiliares na seducção a amisade que
sempre lhe dediquei, e tambem as difculdades materiais dos primeiros annos
de uma vida que nem sempre navegou em mar de rosas.
Mas n’esse delicto de impostura, n’ese assalto brutal á boa fé dos
contemporaneos, foram co-autores, além dos dois citados pelo A.A., o nosso
amigo Rangel S. Paio, a quem, vae talvez para bons vinte e seis annos,
publicamente denunciei de connivente naquelle falcatrua litteraria.
Elle é com certeza muito mais culpado do que eu mesmo, posto que apenas
tivesse escripto um acto do dramalhão – o do julgamento do santo, que é por
sinal aquelle por que as platéas mais se babam.
Decididamente, se não fossse o apparato scenico e a vivacidade do dialogo
no acto a que me estou referindo; se não fosse, sobretudo, a vehemencia da
accusação do Diabo, transformando em promotor publico,e a defesa não sei
mais de que inspirado Lachaud, ha muito já que o S. Benedicto dos meus
peccados teria deixado de ser um grande escandalo do theatro, onde aliás
ainda hoje, pelo que ouço dizer, os escandalos não são de ordinario pequenos.
55
Depois d’estes esclarecimentos, em que vae implicito o meu agradecimento
pela sua amabilidade, dirás ainda ao A.A. que não foi o meu positivismo,
desgraçadamente muito ignorante e completo que me arredou de vez da
carreira das lettras amenas, mas a consciencia de que essa careira era para a
minha mediocriedade um becco sem sahida: digo isto como quem se confessa.
A. Comte que tinha a mais ferverosa admiração pelos grandes poetas, cuja
leitura assidua recomenda aos seus discipulos. Por elle cheguei a melhor
comprehendel-os e ama-los. Ora, exactamente d’essa convivencia me veio o
desgosto pelas rimas e outras litteratices que algumas vezes perpetrei, e das
quaes, ponderando bem, nem eu mesmo tirei proveito.”
Ora ahi está uma confissão em que o penitente exagera as suas culpas, ou
antes, arroga-se pecados que não tem. Os livros do Dr. Antonio de Souza Pinto
attestam que o auctor dos Aspectos, o redactor do Trabalho, do Democrata e
do Diabo a quatro, o escriptor applaudido dos retrospectos politicos do Diario
de Pernanbuco, e, principalmente, o monographo de Luiz de Camões e do
marquez de Pombal, não tinha o direito de abandonar as lettras. Se attribui o
facto á influencia do Positivismo – doutrina que respeito e adimiro – foi por ver
que o Positivismo, por via de regra, arranca a penna das mãos dos prosados
e poetas que dão ao seu espirito aquella orientação philosophica. Foi o que
aconteceu a Mariano de Oliveira e a tantos outros.
***
Senti muito não estar no Rio de Janeiro para assistir (com certeza seria
convidado) á leitura do libretto que sob o titulo Pelo amor! escreveu Coelho
Netto para ser posto em musica por Leopoldo Miguez, e representado no
Cassino Fluminense pelos amadores do Sagrado Coração de Jesus.
Contentei-me com a leitura da noticia enthusiastica do Jornal do
Commercio, reservando-me para applaudir a opera na jubilosa noite em que me
fôr dado ouvil-a. Entretando, cá de longe me associo confiadamente á ovação
feita a Coelho Neto na sua propria tenda de trabalho.
***
Alegrou-me a noticia da apresentação do projeto que providencia para
a construcção do Theatro Municipal. Não foi debalde que appellei para os
sentimentos artisticos do meu companheiro de imprensa Eugenio de Carvalho,
que será na Intendencia o substituto de Julio Carmo, protector do nosso
theatro.
Além da assignatura do talentoso moço figuram no projeto a dos intedentes
Carlos Barbosa, Americo de Albuquerque, Henrique Lagden, Venancio Silva,
Lobo Junior, Corrêa de Mello, Duque Estrada, Joaquim da Rosa, Sabino Pessôa,
56
Tertuliano Coelho, Quirino de Araujo, Alfredo Maggioli, Pedro de Carvalho e
Germack Possolo. Quero que esses nomes fiquem registrados neste folhetim,
onde mais tarde algum curioso – quem sabe? – virá buscar subsidios para a
historia do theatro brazileiro.
O projecto autorisa o Prefeito a abrir a concurrencia publica para a
extracção de vinte loterias municipaes, perfazendo o total de 2.000:000$, cujo
beneficio, bem como o producto dos impostos, propostos no mesmo projecto,
será applicado á construcção do theatro na parte do jardim da praça da
Republica fronteira ao quartel do corpo de Bombeiros.
O projecto crea dous premios de 5:000$, um destinado ao autor da melhor
produção dramatica de assumpto historico nacional apresentado em concurso
e julgado por uma commissão em que se achará representada a Academia
Brazileira de Lettras, e o outro do melhor plano para o theatro apresentado
igualmente em concurso e julgado por uma commisão de cinco pessoas
idoneas, duas das quaes deverão ser professoras da Escola Nacional de Bellas
Artes.
Espero que o projecto seja convertido em lei o mais depressa possivel, para
que dentro em pouco tempo o Theatro Municipal seja uma victoriosa realidade.
***
A Caixa Beneficente Theatal renovou a sua directoria.
O novo presidente da benemerita associação é o meu velho amigo Adolpho
Faria. Não poderia a eleição ser mais feliz nem mais acertada. Adolpho, pelo
seu caracter, pela sua intelligencia, pelo nobre interesse que tantas vezes
revelado lhe tem merecido a benemerita associação e principalmente pela
sympathia de que goza entre o pessoal de nossos theatros, era o presidente
indicado.
O actor Mattos me substituio na vice-presidencia. Ora, ahi está uma
substituição que me honra e que eu applaudo de todo coração.
Possam os novos eleitos levar por diante a Caixa Beneficente Theatral, e
promover o seu engrandecimento e progresso.
***
Alceste, o folhetinista que no Jornal do Commercio mette o Bedelho em tudo,
não tem o mesmo espirito de justiça que o seu molieresco homonymo.
Chegou até á margem do ribeirão dos Poços o seu ultimo folhetim, do qual
desemtranho este periodo terrovelmente interrogativo:
“Mas, aqui para nós, quem excita a curiosidade feminina e masculina
senão o jornalismo, de ha umma certa parte para cá, com secções piccarescas,
semi-pornographicas, com anedoctas a Bocacio e a Pigault Lebrun, senão
57
os esciptores de pochades theatraes como Bilontras, Filhotes e quejandas
entremeadas de copias bregeiras, de requebrados ignobeis, de fados, danças do
ventre e outras depravações com as quaes, com grande gaudio de emprezarios
e igual proveito de direitos do autor, se tem corrompido o paladar publico?
Dizem-me que Alceste é o pseudonymo do Sr. Carvalho, habil guarda-livros,
reputado autor de um Manual Mercantil e de uma arte de passar recibos. S.
S. Irritou-se commigo porque protestei, aliás com toda a delicadeza, contra a
sua opinião de que para Furtado Coelho melhor faria morrer do que ensinar
prosodia.
Não me defendo de haver escripto nos jornaes “secções piccarescas”,
porque não me doe a consciencia de haver concorrido com ellas para a
depravação de ninguem; mas não me sofre a paciencia que o Sr. Carvalho
emparellhe o Filhote, uma moxinifada obscena, com o Bilontra, cujo argumento
é a luta do Trabalho contra a Ociosidade, para salvar um pobre diabo do vicio e
da miseria.
Se o Sr. Carvalho me apontar no Bilontra uma phrase, um dito, uma
palavra que não possam entrar nos ouvidos mais pudibundos, eu comprometto-
me a ler, com sentinella á vista, toda a colleção do Bedelho em tudo.
S.S. Commetteu uma injustiça não grande como eu commetteria se disesse
que o seu Manual Mercantil não pode ser lido por senhoras.
A. A.
58
Theatro, 06/05/1897
Está paga a divida contrahida pela nação brazileira com a memoria de José
Alencar. Já se ergue no largo do Cattete a estatua do grande escriptor cearense,
modelada por Bernardelli.
Honra a quantos se empenharam para que o Brazil se desobrigasse desse
dever, honra a quantos contribuiram para esse bronze, que é o attestado
eloquente de que neste paiz nem todos os homens de lettras morrem. Não
morreu Gonçalves Dias, não morreu José de Alencar, Machado de Assis não
morrerá, talvez.
N’este folhetim, consagrado ao theatro, cumpre-me fazer o eleogio do
dramaturdo de Mãe e das Azas de um anjo, que teria edificado sobre os mais
solidos alicerces o theatro brazileiro, se a sabedoria das nações nos não
ensinasse que “uma andorinha só não faz o verão”. Que teria Moliére sem os
seus predecessores, os seus contemporaneos, e os que vieram depois delle
continuar a obra gigantesca inaugurada em L’etourdi e concluida com Le
malade imaginaire?
No theatro José de Alencar não teve emulos, e, o que é mais, teve
emulação; por isso mesmo não deixou herdeiros. Os alicerces ficaram, mas a
obra parou e nunca mais foi por diante. A tarefa era pesada para um homem
só, e o dramaturgo, além de absorvido pela politica, a grande inimiga da nossa
civilisação intellectual, preferio naturalmente escrever romances para 50.000
leitores a escrever comedias para 5.000 espectadores.
Incontestavelmente, Mãe é o mais precioso florão da nossa litteratura
dramatica; é uma peça de theatro que há de existir emquanto existir a lingua
portugueza, e será muitas vezes representada quando tivermos um theatro, em
que peze ao facto de nos lembrar o que para sempre desejaramos esquecer –
que no Brazil houve escravos.
O Demonio familiar é uma comedia de costumes profundamente brazileira,
uma das joias mais puras do nosso patrimonio litterario, e as Azas de um anjo
bem mereciam que as vingassemos da perseguição estupida que lhes moveu a
policia de quarenta annos atraz.
O Jesuita, recusado por João Caetano, que era um grande actor mas um
pessimo juiz em materia de litteratura, e representado no theatro S. Luiz,
pouco tempo antes da morte do auctor, apenas duas ou tres vezes, para uma
platéa vasia, o Jesuita é talvez o nosso melhor drama historico.
Essas tres grandes composições constituem o espolio dramatico de José
de Alencar. Não metto em linha de conta o Credito, publicado ultimamente
pela Revista Brazileira, nem Rio de Janeiro verso e reverso, e muitos menos o
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libretto de opera-comica A noite de S. João, musicada por Elias Lobo. Bastam
Mãe, o Demonio familiar, as Azas de um anjo e o Jesuita para fazer de Alencar
a segunda figura do nosso thearo, porque a primeira é, nã há duvida, Luiz
Carlos Martins Penna, o primus inter pares, o comediographo brazileiro por
excecellencia, que seria um colloso, se a morte não arrebatasse aos 33 annos,
isto é, na edade em que se observa e se analysa.
***
Eu lembrei ao Sr. Silva Pinto, emprezario do Recreio, que uma
representação extraordinaria de Mãe, na noite do propria dia em que se
inaugurasse a estatua de Alencar, seria, além de um bom negocio, uma
manifestação digna do eminente dramaturgo e dos nossos artistas. O
espectaculo seria completado por uma allegoria em verso, que um dos nossos
poetas ou eu mesmo, se outra pessoa não se quizesse encarregar disso,
escreveria como um pretexto para a apotheose do dramaturgo. Com toda a
certeza do publico afuiria ao nosso theatro.
A idéa d’esse espectaculo sorriu ao Sr. Silva Pinto, que immediatamente
mandou comprar um exemplar da peça e extrahir os papeis. Creio mesmo que
estes chegaram a ser distribuidos. O meu collega Feliciano Prazeres não perdeu
occasião de dar noticia de tão symphathico projecto, na sua interessante
e copiosa secção theatral do Jornal do Brasil, e eu mesmo, n’um dos meus
folhetins d’esta folha, o assoalhei e encareci.
Não sei se devido a uma noticia ironica da Cidade do Rio, não sei se receioso
do exito da representação, o Sr. Silva Pinto recuou e desistiu do espectaculo.
A cidade do Rio perguntava que artistas representariam o drama de Alencar.
A resposta seria a apresentação do elenco da companhia do Recreio. O
emprezario não precisaria ir buscar nenhum artista fora do seu theatro.
Quem melhor que a velha Clelia interpretaria o papel da protagonista de
Mãe? Duvido que a fallecida actriz Maria Veluttti, que o creou, lhe podesse dar
mais brilhantismo e verdade.
***
Lembrei-me desse espectaculo manqué por ter lido no Jornal do Commercio
a seguinte pergunta feita por motivo da recepção da esquadra chilena: “Onde
está o theatro nacional, em que possamos mostrar aos nossos hospedes os
artistas dramaticos brazileiros e as producções dos nossos dramaturgos e
comediographos?”
A representação do drama de Alencar no Recreio Dramatico não
responderia a essa interrogação de um modo absoluto e completo, mas, emfim,
60
seria uma comemoração digna do auctor do Guarany e um espectaculo digno
da ofcialidade chilena.
***
A julgar pelas folhas, pois que nenhuma noticia tenho de outra
origem, vejo que o Bico de Papagaio, a nova magica do Apollo, agradou
extraordinariamente, e as enchentes succedem-se no theatrinho da rua do
Lavradio. Ainda bem.
Faço votos para que essa fortuna se prolongue, afim de que a sympathica
empreza do Apollo recupere o tempo e o dinheiro que tem perdido.
***
Recebi n’este buen retiro alguns numeros do Seculo, de Lisboa, n’um
dos quaes encontrei o retrato de Rosa Villiot e lisonjeiras referencias ao seu
trabalho n’uma revista de Souza Bastos, representada no theatro da Trindade e
intitulada Em pratos limpos.
“Rosa Villiot, escreve aquella folha, está bem em scena, é elegante, tem
voz agradavel, diz com distincção e canta com arte, – predicados que a tornam
muito recommendavel no momento em que vão rareando as estrellas de
opereta nos nossos theatros. Na revista actualmente em scena sobresae pela
graça com que executa a dansa brazileira, que é um dos sucessos da peça.”
Esses elogios nos agradam porque a actriz de quem se trata, apezar de
ter nascido em França, é brazileira, é nossa; mas – que diabo! – se as estrellas
de opereta vão rareando em Lisboa, no Rio de Janeiro já rarearam ellas ha
muito tempo, e Rosa Villiot melhor faria occupando na sua terra um logar que
difcilmente conquistará em outra parte.
Vamos lá! – um bom movimento e um pequeno passeio ao escriptorio das
Messageries Maritimes.
***
O meu ultimo folhetim appareceu eivado de pequenos erros typographicos.
Dispense-me de fazer uma errata a classica intelligencia dos leitores,
invariavelmente benevolos.
Poços de Caldas, 3 de maio.
A. A.
61
O Theatro, 13/05/1897
Eis-me de novo na bella capital paulista, longe de Poços de Caldas, onde
apenas tres figuras humanas e a memoria de um morto me recordam cousas do
theatro.
O morto era França Junior. O celebrado comediographo do Direito por
linhas tortas e das Doutoras exhalára o ultimo suspiro no Hotel da Empreza,
onde eu morava. Nunca me aconteceu passar pela porta do quarto mortuario,
o quarto n. 30, que me não lembrasse delle, e das bellas manhãs de outubro
de 1880, quando...escreviamos juntos, na rua de D. Carlota, em Botafogo, uma
revista de anno, que foi interdicta pela policia... a pedido de um emprezario.
Essa é uma historia que merece contada e que algum dia contarei, para a
edificação das massas.
– Caminho do cemiterio, aonde eu ia em busca do tumulo de França Junior,
levando uma braçada de dhalias amarellas, disseram-me que os restos mortaes
do comediographo já lá não estavam. Havia um anno que a piedosa viuva fora
buscal-os e levara-os comsigo discretamente, silenciosamente, sem mandar á
imprensa uma noticia inutil.
– Pobre França Junior, como deve ser doloroso morrer n’um paradisiaco
logar em que não se morre, cercado de colinas risonhas e verdejantes, sob o
mais formoso céo do mundo!
Das tres figuras humanas que eu Poços de Caldas me recordavam o
nosso theatro occupava o primeiro logar o meu illustre amigo Sr. Barão de
Paranapiacaba, que residia com sua familia no hotel do Globo.
Sua Ex. occupou durante muitos annos o logar de presidente do
Conservatorio Dramatico Brazileiro, e era o terror dos autores e traductores
sempre que se approximava a primeira representação de qualquer peça.
Entretanto, esse cargo só lhe valeu dissabores: nem o conservatorio poz o
theatro para diante, nem o lapis fatidico de João Cardoso (n’aquelle tempo
Sua Ex. não era ainda barão) consegui saturar n’esta ou n’aquella producção a
moralidade ou a litteratura que lá não havia.
O Sr. Barão de Paranapiacaba é um velho que não envelheceu, ou, se
preferem, um velho moço, com um espirito vivaz que a boa leitura ainda
guarnece todos os dias, e bom, afectuoso, obsequiador, communicativo e
alegre. O clima de Poços de Caldas não é estranho a tanta fortuna.
– Segunda figura: o Batata – lembram-se? – o Batata, o decano dos
cambistas, classe que eu, na minha qualidade de autor dramatico, estimo
particularmente porque sempre considerei os cambistas como as andorinhas
62
do theatro, os nuncios do bom tempo, os mensageiros do successo, os arautos
da fortuna.
O Batata reside na ilha balnearia, onde cultiva, é o termo, o extraordinario
nariz com que a natureza o dotou, nariz que valeu ao dono a leguminoza
alcunha pela qual é conhecido, e que só pode ser comparado ao do meu velho
camarada Frederico Aroeira, contra-regra do Recreio Dramatico.
Está visto que em Poços de Caldas, onde não ha theatro, não póde o Batata
exercer a sua velha profissão, mas aquelle clima prolonga-lhe a existencia,
torna-o alegre, apezar de sexagenario e achacado, e elle, por conseguinte, não
quer saber de outro ambiente.
– Terceira figura: a Bertha, a Bertha Celestina, uma franceza que
representava em portuguez nas companhias de que era emprezario, n’aquelle
mesmo theatro do Recreio, o felizardo Guilherme da Silveira.
Façam um pequeno esforço de memoria, e lembre-se d’ella no Piperlin, por
exemplo.
Não tinha talento, mas era boa rapariga. Engordou e está muito
conservada, vivendo honestamente, ha muitos annos, com um cavalheiro que
gosta muito de Poços de Caldas.
– Durante a minha excursão tenho, aliás, encontrado outros ex-artistas, –
por exemplo: Santos Silva e Fany Vernaut.
Santos Silva, o Balão Julio Cesar do Bilontra – lembras-te, Moreira
Sampaio? – está em S. Paulo. Veio visitar-me ao hotel. Não o conheci á primeira
vista, por me apparecer barbado. Não tem sido infeliz: é proprietario e arranjou
um emprego no Diario Ofcial. Dei-lhe os parabens por ter abandonado o
theatro a tempo.
Fanny Vernaut, que era uma actriz de merito, de muito merito,
principalmente no repertorio brazileiro, tem hoje uma casa de modas na rua de
S. Bento, desta capital, e vae fazendo negocio.
Entretanto, não me arrefeceu nella o enthusiasmo pela arte. – Estou bem
estabelecida, tenho muita freguezia, diz ella mas, em havendo o Theatro
Municipal, deixo tudo pelo modesto logarinho com que por ventura me
contemplarem.
***
Infelizmente creio que tão cêdo Fanny Vernaut não deixará o seu
estabelecimento de modas: o Sr. prefeito do Districto Federal acaba de vetar
a lei municipal cujo projecto me occupei com tanto enthusiasmo no meu
penultimo folhetim.
63
Li essa noticia em duas linhas apressadas de uma folha qualquer; não
conheço os motivos que levaram S. Ex, a sanccionar uma lei que tão de
prompto providenciava sobre a construcção do prejectado theatro; não sei de
que modo o S. Ex. justicou o seu veto; estou, portanto, na impossibiliade de
apreciar e discutir o facto que me penalisou bastante.
Não ha duvida que os altos poderes do Estado têm uma inexplicavel
antiphatia pelo theatro; ha de ser muito difcil convencel-os de que é preciso
fazer alguma cousa em pról da litteratura dramatica. Paciencia.
***
Estive uma noite d’estas no Theatro Polytheama, que é uma especie, para
melhor, do incendiado Polytheama do Rio de Janeiro – vasto abarracamento
cujo constructor só teve em vista accomodar na platéa os camarotes. O theatro
não tem absolutamente acustica
Na vespera tinha se estreiado alli uma companhia dramatica italiana,
dirigida pelos artistas Zaira Tiozzo e Henrique Cunneo, que os meus leitores
fluminenses conhecem; representara-se a Tosca, de Sardou.
Coube-me por sorte assistir a uma representação de Phrinéa, comedia de
Castelvecchio, escripta em bonitos versos, mas com umas infantilidades de
preparatoriano em férias.
A Tiozzo, que infelizmente estava rouca (e quem não está rouco a estas
horas em S. Paulo?) é sempre a mesma actriz experimentada e correcta, que
vio e ouvio a Sarah, e o Sr. Cuneo é o actor muito acceitavel, em que pese a
uma cabelleira natural que lhe assenta, valha-o Deus como um chinó mal feito;
mas o resto da companhia é menos que mediocre.
Dir-se-hia que a empreza recrutou o seu pessoal entre os milhares de
italianos que vagueiam nas ruas esta cidade, e nem ao menos indagou se elles
tinham geito para a cousa. Alguns parece pizarem no palco pela primeira vez.
O pobre diabo encarregado da parte, aliás importante, de Phidias, é tão actor
como eu.
Havia pouca gente no theatro, mas a que estava não se mostrou exigente e
applaudio com certo enthusiasmo, chamando repetidas vezes á scena tanto os
artistas como os...os outros.
É incrivel que em S. Paulo, onde mada falta, não haja um bom theatro nem
uma boa companhia dramatica!
***
Encontrei-me no Castellões com o actor Eugenio de Magalhães que, apezar
de desesperançado, tenciona organizar no Rio de Janeiro uma companhia para
dar alguns espectaculos aqui, seguindo depois para os Estados do Sul.
64
Deus o preoteja.
***
Termino o meu folhetim dando a boa vinda ao dono da casa, o nosso
Rochinha, que tantas vezes nos fez.
Dentro em poucos dias dar-lhe-ei um abraço...mas que abraço!...
A. A.
65
O Theatro, 20/05/1897
Eis-me, finalmente, restituido ao meu Rio de Janeiro, onde certamente não
será preciso fazer grandes esfoços de imaginação para encher algumas tiras de
papel.
Entretanto, permittam ainda os leitores uma legeira referencia ao ultimo
espectaculo que assisti, em S. Paulo, no theatro Polytheama.
Representou-se o Othelo. Zaira Tiozzo foi uma Desdemona pesada e
automniça, mas afectuosa e apaixonada, dando ao seu trabalho uma grande
intensidade dramatica e arrancando estrondosos applausos a uma platéa aliás
muito condescendente.
Tão condescendente, que no papel de Othelo o Sr. Cuneo foi festejado
como poderiam sel-o Salvini, Irving ou Emmanuel! Entretanto, ninguem
imagina que cousas fez o Sr. Cuneo, principalmente no ultimo acto, que
representou a dar corridas e saltinhos!
Já uma vez eu o tinha visto interpretar o Othelo no Theatro Lyrico, sem que
elle me escandalisasse com um trabalho tão fora de ville e termo.
O papel de Yago foi entregue a um senhor gordo, cujo nome me escapa, e
cujo retrato andava exposto em diversas vitrines á rua Quinze de Novembro.
Apezar de tudo, esse Yago era indigno daquelle Othelo, porque, se o
Sr. Cuneo é insufciente nesse papel, não lhe faltam outros em que o actor
distincto que é, – ao passo que o tal homem gordo (tão gordo quanto eu) é a
negação da arte de representar.
Para que os leitores tenham idéa do que foi essa exhibição do Othelo, basta
dizer-lhes que as scenas capitaes entre o mouro e seus alferes provocaram
franca hilariedade! Já é dar provas de grande habilidade fazer rir com o Othelo!
Volto ao que disse: S. Paulo merecia ter um theatro (um pelo menos) tão
sumptuoso e bonito como os seus palacios e palacetes, – um theatro onde se
exhibissem companhias de primeira ordem, qualquer que fosse o seu genero.
Eu sei – e já disto tratei n’um destes folhetins – eu sei que alguem se
propõe a levantar um bom theatro em S. Paulo, mas toda a difculdade está na
acquisição do terreno, que não ficará por menos de 500 ou 600 contos de réis!
Nastas condições difcil é dotar a bella capital paulista com um melhoramento
que tanta falta lhe faz, a não ser que os poderes publicos de algum modo
aplainem tal difculdade, ou que algum proprietario tenha um rasgo de
abnegação e patriotismo.
A exma. baroneza da Limeira mandou abrir uma grande avenida em
terrenos seus, no coração da cidade, terrenos que, segundo me dizem, ella
só vende para a edificação de palacios. Não custa nada a essa senhora, que é
66
millionaria, vender baratinho o terreno preciso para o theatro concorrendo
assim para que S. Paulo possuisse um monumento artistico de cuja falta tanto
se resente a sua civilisação intellectual.
Mas nem eu espero que estas linhas caiam sob os olhos da baroneza
da Limeira, nem creio que S. Ex. esteja convencida de que em S. Paulo é
indispensavel um theatro mais decente que o Apollo ou o Polytheama.
***
Não fui ainda ao Variedades assistir á representação dos Vinte e Oitos
de Clarinha: não sei o que vale a endiabrada Pepa na interpretação da
protogonista, nem o turbulento Brandão mettido na pelle de Michonnet; mas,
a julgar pelas informações, os dois populares artistas representam aquelles
papeis com muita graça.
Em compensação, fui assistir á 26ª do Bico de Papagaio, e folgo de lembrar
aos leitores que as minhas previsões se relizaram.
A peça, arranjada por Eduardo Garrido com o seu extraordinario
engenho, tantas vezes provado; é uma magica parecida com todas as magicas,
primando, todavia, pelo bom amaino das scenas e situações e pela graça e
vivacidade do dialogo. Aquella invenção do pontapé-talisman é uma das
ratices mais originaes que tenho visto em theatro, e o efeito é seguro, graças
principalmente ao Peixoto, que tira todo o partido possivel do papel de
receptaculo de pontapés.
Ainda no Bico de Papagaio encontrou o Mattos occasião de mostrar o que
vale como artista comico, e é de justiça mencionar Lopiccolo, Rangel, Ismenia
Matteos, Gabriella, Nazareth, Barbosa, etc., pois todos se esforçam para que
perdure o succeso da magica.
Tem agradado immenso a musica de Abdon Milanez, por vezes um tanto
pretenciosa para o genero, que exige apenas um ligeiro trololó. Ha no 2º acto
uma linda marcha, que me encantou deveras, como tambem me encantou a
musica do bailado do 3º acto, muito bem dansado pelo casal Vitnulli.
Que dizer da enscenação do Bico de Papagaio? É realmente extraordinaria a
riqueza de scenarios, vestuarios e accessorios, e em verdade vos digo, leitores,
que bastava o espectaculo visual para levar a todo o Rio de Janeiro ao Apollo: a
peça agradaria n’uma terra de surdos.
Carrancini, o fantasioso scenographo achou ainda no cerebro novas
combinações de machinismos e visualidades, e arranjou para o Bico de
Papagaio uma apotheose final tão maravilhosa, tão surpreendente, que será
o desespero de quantas magicas de agora em diante se exhibirem no Rio de
Janeiro.
67
***
Quem não tem andado em maré de fortuna, et pour cause, é o Recreio
Dramatico; mas a empreza é tenaz e até hoje não lhe tem faltado a protecção
d’essa Providencia mysteriosa que preside aos destinos dos nossos theatros.
Estou certo de que o Conselheiro, a peça de Valentim Magalhães e Nicolino
Milano, abrirá para o Recreio uma nova éra de prosperidade. A primeira
representação está annunciada para amanhã, e é anciosamente esperada,
tanto pelos amigos do celebrado autor dos Contos e Lutas, como pelo publico
em geral.
O Conselheiro, sendo uma comedia de costumes, não deixa de ser tambem,
ao que me consta, uma peça de espectaculo, em cuja enscenação se procurou
regalar não só com o ouvido como com a vista. Espera-se um verdadeiro
sucesso.
***
Á toa não se diz que os nossos theatros são outros tantos focos de
maledicencia e de intriga. No doce retiro em que me achei, feliz e descançado,
entre as bellas montanhas sul-mineiras, foi encontrar-me uma carta
anonyma dizendo que o insigne actor-emprezario Cardoso da Motta cabalára
desesperadamene para que eu fosse derrotado, como fui,na eleição de
presidente da Caixa Beneficente Theatral.
Se isso fosse verdade, eu agradeceria de todo o coração ao festejado artista,
porque nem eu era candidato ao cargo, nem, como a vida trabalhosa que levo,
poderiam sorrir-me a honra e a massada de o exercer.
Mas isso não é verdade, porque, na estação central da estrada de Ferro, ao
sahir do trem que, tão cedo infelizmente, me trouxe do alludido retiro, uma das
primeiras pessoas conhecidas que encontrei foi elle, Cardoso da Motta, muito
occupado em fazer embarcar as bagagens de sua companhia, que na manhã
seguinte devia partir para Bello Horizonte.
O eximio actor-emprezario, mal me vio, deu-me um abraço, perguntou com
interesse pela minha saude, e, tratando-me por tu, pedio-me que no primeiro
folhetim da Noticia (eil-o) dissesse alguma coisa em favor de sua empreza.
Ora ahi têm os leitores como no theatro se calumnia e se intriga!
Não! não era preciso que Cardoso da Mota solicitasse os meus serviços; não
era preciso que me elle fallasse para que eu dissesse nestas columnas que a sua
a sua companhia é digna do favor publico, não só pela organisação do pessoal,
em que figura o Machado, um dos nossos comicos mais populares, como
pela intelligente e acertada escolha do repertorio. Faço votos para que o meu
68
bom amigo Cardoso da Motta e os seus dihnos companheiros voltem de Bello
Horizonte cheios de dinheiro e de gloria.
***
E por fallar na Caixa Beneficente Theatral: não se esqueçam os leitores de
que é domingo proximo que se realisa, no Theatro Lyrico, o grande concerto
annunciado em beneficio da sympathica e benemerita associação de caridade.
Esse concerto, organisado e levado a efeito pelos nossos mais notaveis
professores de musica, membros efectivos da Caixa, promette, tal é a sua
importancia, assignalar uma data na historia artistica do Rio de Janeiro.
***
Entretanto, a nossa corporação musical está de luto fechado. Falleceu o
pobre Adopho Lindner, e o seu fallecimento, ocorrido no meio do espalhafato
das festas chilenas, passou – peza-me dizel-o! – quasi despercebido.
Pois Adolpho Lindner era alguem. Sob aquela apparencia de bohemio
escondia-se um trabalhador extraordinario. Compositor de merito, tendo
no mais alto grao o talento do improviso, orchestrador de primeira ordem,
magnifico regente, tocando todos os instrumentos fallando diversas linguas,
intelligente, muito bem educado, Adolpho Lindner deixaria um nome,
se não fosse um philosopho amargo, que se comprazia no silencio e na
obscuridade. Era um melancolico e só deixava e só deixava de o ser quando
se deixava excitar pelo alcool, seu inimigo terrivel. Dir-se-hia que, como Felix
d’Arvers, tinha um segredo n’alma e um mysterio na vida que o obrigavam ao
retrahimento, á quasi mysantropia. Era um homem honrado, uma creatura
meiga e afectuosa como a sua arte. Eu guardarei no fundo do coração a doce
lembrança d’esse bom companheiro de trabalho.
A. A.
69
O Theatro, 27/05/1897
O theatro brasileiro acaba de sofrer uma perda bastante sensivel com a
morte do actor Joaquim Maia, um dos raros que ainda nos restavam com quem
poderiamos contar quando chegasse o almejado instante da regeneração.
Joaquim Maia não era uma summidade artistica, nem n’essa conta se
tinha; nunca provocou da platéa grandes explosões de enthusiasmo, nunca
fez uma creação verdadeiramente notavel, que deixasse fama; era, porém,
muito intelligeute, e sempre se mostrou escrupuloso na interpretação de
todos os papeis, ainda os mais insignificantes, que lhe foram confinados,
não me constando que sacrificasse nenhum, quer no genero comico, quer no
dramatico. Era verdadeiro typo do actor consciencioso.
A correção de sua vida particular, que foi um exemplo de honra,
necessariamente se reflectio sobre o seu merecimento de actor. O caso é que o
enterro de Joaquim Maia, sem aliás ter sido annunciado, foi uma imponente
manifestação de pezar, a que parte do publico se associou.
Filho de Portugal, de onde veio aos nove annos de idade para o Brazil,
brazileiro desde 15 de novembro de 1889, Joaquim Maia, que era apenas
quinquangenario, encetou a carreira artistica aos dezenove annos.
Principiou, como maior parte dos nossos actores mais considerados, por
trabalhar em theatrinhos particulares. Depois de abandonar o commercio e
fazer do theatro a sua profissão, mourejou durante muitos annos pelo interior,
aqui e ali, pertencendo a um sem numero de companhias ambulantes, até que
fixou residencia n’essa capital, onde até então só estivera intermitentemente.
D’ahi por diante foi se tornando conhecido ao nosso publico, graças a
alguns papeis que representou com muitos applaudos no Recreio Dramatico.
Depois de deixar esse theatro, Joaquim Maia nunca mais “esquentou logar”
em nenhum outro. A proposito escrevi no Paiz o seguinte, que transcrevo para
não dizer a mesma cousa por outras palavras:
“Elle pouco tempo se demorava em qualquer theatro, porque não podia ver
nada mal feito sem protestar e em termos taes que logo o incompatibilisavam
com o emprezario ou o ensaiador. Sabia perfeitamente que aquillo não era da
sua conta, que fazia mal intervindo em assumptos que lhe não competiam, mas
não se podia conter e protestar sempre.
“Tratava-se muitas vezes de questões de lana caprina, como a collocação
de uma cadeira ou a passagem de um personagem dea direita para a esquerda,
quando não era um erro gramatical que lhe feria os ouvidos. Gritava e
gesticulava como se fosse o autor ou ensaiador da peça, e esse procedimento,
70
que em conversas intimas algumas vezes lhe censurei, naturalmente o
indispunha com os seus companheiros.
“No theatro puzeram-lhe a alcunha de Sete sciencias e o consideravam
como um insubordinado, um revoltoso difcil de aturar. Entretanto, com que
sinceridade e com que desejo de se tornar util e ver todas as cousas nos seus
respectivos logares o prestativo e incorrigivel Joaquim Maia provocava esses
conflictos, cujo resultado era, por via de regra, o sacrificio do seu pão!”
O theatro Municipal, que se demora tanto, era a sua esperança, o seu
sonho, o seu idéal. Ainda no leito de sofrimento, no delirio da febre, elle não
fallou n’outra cousa emquanto poude fallar.
Como thesoureiro da Associação Protetora dos Artistas, foi o melhor
substituto que poderia encontrar o velho e honrado actor Gusmão. O
patrimonio da sociedade cresceu nas suas mãos honestas.
Era o marido da actriz Balbina, que o publico habituou aos seus
applausos,e deixou dois filhos sem outra herança a não ser a do seu nome.
Tinha a pobreza digna, e tão bem praticava a difcil virtude da economia,
que, apezar dos longos periodos de ociosidade a que era condemnado, não
pelo seu caracter, nunca recorreu á bolsa de ninguem para viver.
Uma particulariedade notavel: nunca fez beneficio.
Tal é, em traços rapidos, o perfil do distinctissimo artista que acaba de
desapparecer, e que occuparia o meu folhetim inteiro, se outros assumptos não
me pedissem espaço.
***
O principal desses assumptos é o Conselheiro, a peça que acaba de ser
exihibida no Recreio Dramatico.
Juro por Deus que daria parte dos meus thesouros, se os tivesse, para
registrar nesta columnas um triumpho alcançado no theatro por qualquer
dramaturgo brazileiro; não era preciso que esse dramaturgo fosse o meu
excellente collega e amigo Valentim Magalhães, em quem reconheço um dos
nossos primeiros talentos litterarios e um trabalhador infatigavel e honesto.
Infelizmente só póde aqui ficar a historia de um desastre, sobre o qual seria de
mao gosto insistir, uma vez por semana, com a sua prosa estimada.
Mais condemnavel que o trabalhe de Valentim Magalhães me pareceu,
entretanto, o procedimento de certa parte do publico, visivelmente indisposta
menos com a peça que com o autor da peça, e fazendo dos proprios pés os
interpretes da sua antiphatia pessoal.
Comprehendo que de um escriptor de talento e sobretudo de um critico
rigoroso como Valentim Magalhães se exijia alguma cousa mais que o
71
Conselheiro; mas não comprehendo que a mesma platéa que ouve de caba a
rabo, sem protestar, o Burro de carga, o Filhote e a quejandas borracheiras,
se mostre tão irritada contra uma comedia que pelo menos é escripta com
grammatica e tem, apezar dos seus defeitos, personagens bem observados e
desenhados a primor.
O grande defeito da peça é não ser uma peça. Eu esperava que os dous
ultimos fossem o prosseguimento logico (theatralmente logico) do primeiro,
que eu conhecia por ter assistido á leitura dos papeis. Infelizmente não são, e
d’ahi o insucesso da obra.
No 1º acto, todo de exposição, o autor apresenta-nos como situação
culminante uma scena violenta entre dous homens por amor de uma mulher.
Violenta, digo, porque a luta entre os dous rivaes acaba por uma tentativa de
assassinato.
É muito natural que a scena, aliás muito bem feita, interesse deveras o
espectador que desde esse momento não liga nenhuma importancia a mais
nada, absolutamente nada, que não seja a historia daquella mulher collocada
pelo autor entre dous homens que a desejam.
A nós espectadores cahiu-nos a alma aos pés quando se apresentou em
outro papel, no 2º acto, o actor que no 1º desempenhára o do rival quasi
essasssinado, o que evidentemente nos previnia de que o personagem
desapparecêra, como de facto desappareceu, e desappareceu tambem a
mulher, e desappareceu tambem o outro rival que só volta no 3º acto para dizer
que está casado e com filhos.
Entretanto, Valentim Magalhães pegou do namoro ridiculo de uma
rapariga insignificante, namoro que no 1º acto parecia uma simples situação
accessoria, e fez d’iso o peão de sua peça. Foi um logro pregado ao publico.
Outro defeito do Conselheiro é procurar efeitos de melodrama com
personagens burlescos, ou, para me explicar melhor, apresentados de um
modo burlesco. Uma senhora que diz, em versos aliás muito chistosos, que
não gostou da Europa porque lá não ha paraty, não póde por forma alguma ser
tomada a serio (no theatro, já se vê) quando soluça umas pharases dramaticas
ao ver o filho ferido por uma bala e a filha raptada por um bilontra. Um gatuno,
apresentado ao publico por meio de um recitativo de revista, impressiona
mediocremente o espectador quando cae baleado e se estorce nas convulsões
da morte. No theatro nenhuma situação deve ser exhibida sem o indispensavel
preparo. Preparar é a grande habilidade do dramaturgo, habilidade que se
aprende com Scribe (que é hoje tratado com tanto desprezo) e não com esses
revolucionarios do theatro, que em França têm causado a fallencia de uma
duzia de emprezarios.
72
Valentim Magalhães não póde queixar-se dos Srs. Fernandes, Pinto &
C., que enscenaram decentemente o seu Conselheiro, nem dos respectivos
interpretes, entre os quaes figuram alguns dos nossos actores mais
aproveitaveis para as comedias de costumes nacionaes: Clelia, Flavio, Cólas,
França e Leonardo. Este ultimo é impagavel no papel de Faz-tudo, que é,
inquestionavelmente, o melhor da peça. Araujo arranjou uma bella cabeça de
pae nobre.
Nicolino Milano compoz para o Conselheiro alguns numeros de musica
bonita, mas sem a originalidade que lhes daria...se se esforçasse.
***
Nos demais theatros não ha nada novo. Por emquanto, mas amanhã
teremos uma grande novidade: a estréa da companhia dramatica de Lucinda
Samões, com Georgette, um drama de Sardou, velho em França, velho na Italia,
mas completamente novo para o Rio de Janeiro.
– E ahi vão mais algumas noticias soltas:
– Têm sido assignados muitos logares para os promettidos espectaculos da
companhia lyrica Sanzone.
– Pepa e Brandão retiraram-se ambos do Variedades. Ella foi substituida
por Leonor Rivero, recentemente chegada; elle pelo actor Galvão, que deixa o
Recreio Dramatico.
– No Apollo continua o grande successo do Bico de Papagaio.
– Organisou-se (cuido que para o Lucinda) uma nova companhia dramatica
de que é director o meu distincto collega Accacio Antunes.
– Esteve esplendido o concerto realisado no Lyrico em beneficio da Caixa
Beneficente Theatral. Infelizmente a receita não foi tão boa como seria
se a autoridade policial, a pretexto de exigir a necessaria licença, que por
esquecimento não foi tirada, não prolongasse a hora de começar o espectaculo,
de modo que parte do publico se retirou farta do esperar que lhe vendessem
os bilhetes. Em occasiões analogas bastava d’antes o deposito da respectiva
importancia. Porque tão odiosa excepção? Dar-se-ha caso que a Caixa
Beneficente Theatral tenha inimigos na policia?
– Bello Horizonte, a nova capital de Minas, recebeu o seu baptismo de arte
dramatica!
Estreiou-se alli, com extraordinario exito, a excellente companhia
dramatica de que é emprezario e principal artista o meu bom amigo e
camarada Cardoso da Motta.
73
Os bello-horisontaes estão satisfeitissimos; tudo faz crêr que o insigne actor
emprezario achasse entre elles um verdadeiro Pactolo. Faço os mais ardentes
votos para que assim aconteça. Cardoso da Motta merece-o.
A. A.
74
O Theatro, 10/06/1897
Como na quinta-feira passada, por estar enfermo e impossibilitado de
escrever, faltei com o meu folhetim semanal, chego tarde, talvez, para falar da
estreia da companhia dramatica portugueza.
O theatro Sant’Anna encheu-se nessa noite a deitar fora; nem podia deixar
de ser assim, porque nada menos de cinto motivos, cada qual mais forte,
concorriam para que a enchente fosse completa:
1º, ha muito tempo os fluminenses não se regalavam com theatro
dramatico, e o nosso publico – deixem lá falar quem fala! – não se deixa
levar unicamente pela bambochata; a prova é que nenhuma boa companhia
dramatica deixou de realisar optimos lucros no Rio de Janeiro;
2º, reapparecia Lucinda Simões, actriz de muito valor, a quem o nosso
publico jamais regateou os seus applausos e de quem tinha saudades;
3º, estreava-se Lucilia Simões, actriz de 18 primaveras, nascida no Rio de
Janeiro, que vinha de Lisboa precedida de grande fama e endeusada, póde-se
dizer, por todo o jornalismo alfacinha;
4º, representava-se, pela primeira vez, n’esta capital, uma peça de Victorien
Sardou, comediographo cujo nome constitui sempre um chamariz de primeira
ordem nos cartazes dos nossos theatros;
5º, a companhia contava outras figuras nossas conhecidas, entre as quaes
Setta da Silva, que ha mais de vinte annos cantava na Filha de Maria Angú:
Oh! Não me digas isso não! –
Cardozo, o barytono da companhia Manzoni – lembram-se? –; Caetano
Reis, Amelia Pereira e Encarnação Reis. A esses artistas já conhecidos veio
juntar-se Telmo Larcher, que chegou ante-hontem e amanhã se estreará no
Senhor Director.
Georgette, a peça de estreia, não é, certamente, uma das melhores
comedias de Sardou; mas releva notar que a traducção representada é feita,
não do original francês, mas da versão italiana, e eu não duvido que o trabalho
tenha sido alterado, porque os italianos, como os hespanhoes, têm por costume
corrigir os auctores francezes com uma sem ceremonia estupenda.
Nota-se no 2º acto uma precipitação de scenas indigna do extraordinaro
engenho do auctor da Familia Benoiton e outros primores do theatro
moderno, e o 4º acto sorprehende toda a gente com um deslance que não é,
theatralmente fallando, um desenlance, e deixa sem solução a these que o
auctor pretende sustentar: Um homem honesto pode esposar a filha honesta de
75
uma mulher deshonesta? – O que nos mostra a vida real é que mesmo esta (não
é preciso ser a filha) pode encontrar um homem honrado que se apaixone por
ella, e se deixe levar pela paixão até o casamento.
Entretanto, Georgette não deixa de ter algumas scenas muito bem feitas,e o
dialogo é espirituoso e de uma vivacidade incomparavel.
Georgette(porque não Georgina?) é uma cascadeuse de café-concerto que
por morte de um de seus amantes ficou herdeira de não sei quantos milhões,
e comprou o titulo de duqueza a um velho irlandez esbodegado com que se
casou por annuncio.
O generoso amante deixou-lhe, além dos milhões, uma filha, a quem ella
dá uma educação de primeira ordem, e que, mentindo, faz passar por filha de
seu primeiro marido, um conde que nunca existiu.
Já o leitor adivinha que a pequena enamora-se de um fidalgo, cuja familia
descobre o passado da duqueza e desde logo se oppõe a um casamento
desegual.
A mãe do fidalgo deixa-se, entretanto, convencer de que a moça não tem
culpa de ser filha de quem é, e consente em ser sogra da probresinha, comtanto
que a duqueza desappareça da circulação, entretanto para um convento; a
moça, porém, não hesita entre o namorado e a mãe, e a comedia, contra a
espectativa geral, não acaba por um casamento, como aquellas de que tanto
gostava D. João VI, se não mente a fama.
Tem uma grande intensidade dramatica a scena do 3º acto, em que a filha
da duqueza descobre, de inducção em inducção, todo o passado de sua mãe, e
Lucilia Simões representou-a com uma certeza de efeitos realmente admiravel
n’uma artista de sua edade.
Couberam-lhe as honras da noite, e o publico bem lh’o mostrou, fazendo-
lhe uma ovação que a consagrou definitivamente. Não ha duvida: Lucilia
Simões é alguem.
O meu estado de saúde ainda não me consentiu vel-a na Francillon,
mas são todos accordes em tecer-lhe os maiores elogios. Quem estes não a
desvairem, não a convençam de que é já uma actriz consummada. Não; Lucilia
Simões sabe tudo quanto não se aprende, e deve aprender tudo quanto ainda
não sabe, nem póde saber, porque no theatro a perfeição relativa só se adquire
depois de certa edade. Mas para adquiri-la é preciso acreditar apenas em uma
terça parte do que escrevem certos criticos louvaminheiros e uns tantos poetas
que muitas vezes consideram um artista genial simplesmente porque genio é
uma rima para proscenio.
76
Lucinda é – um pouco mais cheia de corpo e um nadinha menos moça –
aquella mesma Lucinda que tantas vezes nos encantou no theatrinho que ainda
hoje conserva o seu nome.
O papel de Georgette, uma baroneza d’Ange menos cynica e mais
sentimental, foi perfeitamente estudado e ella representa-o com uma
sensibilidade que attenua toda a aspereza do personagem. É notavel a
habilidade e a delicadeza com que Lucinda faz sentir alguma cousa que a
duqueza conservou da cabotine. Essa prova real do seu talento de observação
depoz a seu favor o publico desde o primeiro dialogo entre ella e o actor
Christiano de Souza, que interpretou uma especie de Degesnais, um
d’esses personagens “de dizer”, encarregados pelos auctores de lisonjear os
espectadores, isto é, de repetir em voz alta o que elles estão pensando comsigo.
O actor Christiano de Souza é distincto, veste-se muito bem, tem boa
prosodia e é de uma sobriedade de gesticulação propria de quem veio
representar os incomparaveis artistas da casa de Molière. Dizem-me que elle é
formado em direito e interrompeu a carreira de magistrado para ser actor. Não
sei; em todo o caso, adivinha-se que tomou chá em pequeno.
Os demais artistas que tomaram parte na representação da Georgette
contribuiram – uns mais, outros menos – para o sucesso d’esse espectaculo de
estreia.
***
Escrevo este folhetim de volta do theatro Lyrico, onde fui assistir á estreia
da companhia Sansone, ou antes, Rotoli e Sansone, visto que o Mephistofeles
do anno passado veio este anno arvorado em emprezario.
A Noticia dispõe de um critico musical, e este naturalmente dirá aos
leitores, lá mais de cima, as impressões que trouxe da Guarda-Velha; isso não
obsta a que eu lhes confesse que estou encantado com a prima-dona Stinko-
Palermini, que desempenhou o papel de Aida. Ha muito tempo eu não tinha o
prazer de ouvir uma cantora que tivesse tão bonita voz e que cantasse tão bem.
Essa artista vale a companhia inteira: o resto, naturalmente eclypsado
pelo talento d’ella, não me encheu as medidas. O tenhor Grani, de quem se
diziam maravilhas, estava tão nervoso, tinha tanto medo, e tão visivel, que
não mostrou todos os recursos e aprazou o publico para uma nova audição.
Nos coros ha glyceristas e prudentistas, a julgar o jovem e symphatico
regente Polacco, a quem a Sra. Stinco cedeu um terço das honras da noite. Da
enscenação não falemos.
Mas creiam os leitores que vale a pena dar 12$ por uma cadeira, só para
ouvir a Sra. Stinco soluçar o Numi, pietá!
77
***
A molecagem das torrinhas é que está cada vez mais insupportavel. E a
policia cruza os braços diante daquelle escandalo que tanto depõe contra a
nossa civilisação!
Hontem um estrangeiro, que pela primeira vez tinha a desgraça de assistir
a um espectaculo no Rio de Janeiro, ficou pasmado diante da gritaria da
garotada.
– Se isto é, no Lyrico, disse elle, que será nos demais theatros!
É escusado é dizer que o estrangeiro ainda mais pasmado ficou.
– Não admira, observou elle, que o pobre Grani esteja com tanto medo.
Uma sala tão turbulenta amedronta o artista mais corajoso! Este publico
servirá para estimular um toureiro, não um cantor!
E o peior é que todos dizem que os desordeiros e gritadores das torrinhas
são estudantes. Não sei como os rapazes das nossas academias ainda não
lembraram de protestas contra essa calumnia.
***
Dispensem-me os leitores de fallar dos outros theatros; como já lhes disse,
estive doente e por conseguinte privado de frequental-os durante as ultimas
noites.
Não assisti á reprise do Frei Satanaz no Variedades, nem á do Pão-pão,
queijo-queijo no Recreio; mas faço tentar os artistas, por occasião da festa do
meio-centenario do Bico de Papagaio, e convidar-me para a do centenario.
A. A.
78
O Theatro, 17/06/1897
A companhia dramática portugueza continou brillhantemente com
o Senhor director a serie de seus espectaculos, encetada com Georgette e
Francillon. O Senhor director não é, como Georgette, uma peça á Scribe,
refinada no cadinho do espirito de Sardou, nem, como Francillon, um paradoxo
posto em scena com a extraordinaria habilidade e o primoroso estylo de Dumas
Filho. Oh! Não! – o Senhor director é uma peça que participa da comedia e do
vaudeville de quiproquós.
Brisson e Carré, os dois auctores da peça, só tiveram em vista fazer rir, a
menos que pretendessem satyrisar os costumes burocraticos de França, que, a
dar-lhes credito, são de uma immoralidade revoltante.
Ha em Paris uma repartição publica tendo como director geral um
individuo que se chamou succesivamente Delamare, De Lamare e De la Mare,
á medida que foi galgando a escada das promoções. Esse individuo, que é um
satyro, tem sido amante de algumas senhoras casadas com os empregados que
se acham sob suas ordens, e todos sabem que estes não adiantam um passo no
funccionalismo sem metter de empenho as suas caras metades. Um d’elles, que
é solteiro, recorre a uma prima condescendente.
Entre os empregados ha um que, por nome Lambertin, que ultimamente se
casou com uma bonita moça e teve o descoco de não apresental-a ao director,
para pagar o dront du seigneur. Esse infeliz amanuense está condemmado: ha
de ser sempre um pobre diabo, pois tem a louca pretensão de querer subir pelo
seu merecimento, e não pela sua vergonha.
Acontece que vaga uma sub-prefeitura qualquer, e o governo, por uma
dessas anomalias que só se vêem no theatro, encarrega o tal director de indicar
para sub-prefeito um empregado escolhido entre o pessoal ás suas ordens, aliás
muito reduzido.
Sabe d’isso Mme. Mariolle, a sogra de Lambertin, que exproba
constantemente ao genro não cuidar a serio de seu futuro nem do futuro da
sua famillia, – e tece a velha os pausinhos afim de que a filha, Mme. Lambertin,
vá ter com o director. Mas o amanuense descobre a tempo essa leviandade, e
protesta com tanta vehemencia que Suzana, outra filha de Mme. Mariolle, que
acaba de chegar dos Estados Unidos, onde se casou, enviuvou e enriqueceu,
assiste a um conflicto de famillia.
Suzana, uma parizense americanisada, dá tofa a razão a Lambertin, que
submette a contenda ao seu juizo; mas uma idéa ao mesmo tempo generosa
e malígna lhe atravessa o espirito: tomar o nome da irmã e ir ao gabinete do
79
director, ao antro do minotauro, diz ella, arranjar a nomeação de subprefeito
para o cunhado.
O director por tal forma se embelleza da viuva, que Lambertin é nomeado,
e, desfeito o engano, elle o director, em vez de se zangar, casa-se com a astuta
rapariga que provavelmente vingara mais tarde (isto não diz a peça) as
victimas daquelle Don Juan de secretaria.
Quero crer que esta comedia não seja uma copia fiel do que se passa na
vida real, e que os empregados das repartições francezas tenham outros meios
de subir que não sejam aquelles; mas não ha duvida que a peça é bem feita,
prima por um dialogo espirituoso e vivo, e por algumas scenas espisodicas de
um comico irresistivel.
O desempenho do papeis teve os seus senões: Mme. Mariolle, a sogra,
não se adapta ao temperamento artistico de Encarnação Reis, que não nasceu
para fazer “damas caricatas”; Bouquet, personagem episodico mas muito
interessante de um empregado pé-de-boi, encontrou em Cardoso um interprete
intelligente, mas muito exaggerado, e Caetano Reis amulherou singularmente
um typo de homem. Em compensação, Lucinda Simões tem na viuva astuta um
dos seus melhores papeis, Telmo e Lucilia dão um excellente casal Lambertin,
Christiano de Souza desempenha satisfactoriamente o typo do director, e Setta
da Silva dá muito relevo e muita graça ao papel de um continuo escandalisado,
que volta a face ao busto da Republica todas as vezes que o director fica no
gabinete a sós com alguma senhora.
As honras do desempenhou couberam a Lucinda, cujo trabalho no 2º acto
é infinitamente superior a toda a peça. Ha muito tempo eu não via representar
tão bem; senti, portanto, um prazer inexprimivel, e o meu espirito fez uma
longa viagem ao passado, revivendo aquelles bellos tempos em que ainda
havia no Rio de Janeiro uns vestigios de arte dramatica, uns restos de decoro
artistico.
Lucinda e sua filha, Lucilia, que é tambem um grande talento, poderiam
ser aproveitadas ambas para o Theatro Municipal, se realmente houvesse o
animo deliberado de dotar esta cidade com esse melhoramento imprescindivel;
mas eu já vou desanimando, pois que desanimar é a sina de quantos neste paiz
sonham com um pouco de litteratura e de arte.
***
Trago os meus parabens ao activo e symphatico emprezario Sanzone
pelos triumphos repetidos da sua companhia lyrica. Devo dizer que o tenhor
Grani ficou rehabilitado pela segunda representação de Aida, e que Palermini
confirmou estrondosamente na Gioconda a magnifica impressão que causára
80
na sua estreia. Quiroli, esse é um tenor que começa no Rio de Janeiro como
Gayarre e Tamagno, para tornar-se mais tarde um artista universal,e...Não! não
quero invadir uma seára que me não pertence, nem tratar de assumptos que
escapam à minha competencia.
Já tive a lealdade de confessar que no theatro lyrico muitas vezes o
que mais me agrada é justamente aquillo a que os profissionaes fazem má
cara. Por exemplo: o meu collega Luiz de Castro, do andar de cima, acha
que a Lucia não presta mais nada, eu, que aliás admiro Wagner, tenho que a
Lucia é um primor de melodia, um drama musical intenso e vibrante na sua
extraodinaria simplicidade de efeitos. Não faço mais do que applicar á musica
o meu eclectismo litterario: pelo facto de admirar um Flaubert, não me sinto
desobrigado de admirar tambem um Bernardin de Saint-Pierre.
O que posso fazer, sem entrar nos altos dominios da critica musical, é
juntar os meus louvores aos de toda a imprensa, que se desfaz em elogios
ao corajoso e benemerito Sanzone. Corajoso, porque traz ao Brasil uma
companhia quase de primeira ordem, sem se importar com esse maldito
cambio que assasinou Mancinelli; benemerito, porque, senão fosse elle, faltaria
ao publico fluminense este genero de primeira necessidade, – o lyrico.
***
Nos nossos theatros nada de novo:
No Variedades preparam-se activamente dos Dous garotos, a mesma
peça de Decourcelle que está em ensaios no Sant’Anna com o titulo Os dous
abandonados. Esse drama completou em 19 de abril ultimo, no Odéon, de Paris,
quinhentas representações! Pode-se dizer que é um successo sem precedentes.
– No Apollo o exito do Bico do Papagaio tem sido tal, que a companhia
está com duas peças ensaiadas e promptas para subir á scena: Ha caça e caça
(Monsieur chasse) e Zoé (La bonne de chez Duval). Como se vê, no Apollo não
se dorme.
– É de justiça mencionar a boa figura que fez no Recreio de Colás,
desempenhado o papel de protogonista creado com tantos applausos do
publico pelo popularissimo Brandão. Entretanto, como a revista de Moreira
Sampaio, que tem perto de duzentas representações, está necessariamente
cançada, a empreza do Recreio annuncia para depois d’amanhã a reprise do Ali-
Babá, que é uma das melhores peças dos irmãos Cogniard, uma das melhores
partituras de Henrique de Mesquita. Esse pouco!
– Para o Lucinda formou-se uma companhia de operetas, magicas e
revistas, da qual são emprezarios Pepa e Brandão. A estréa se fará com o
Capitão Lobishomem, opereta de Gervasio Lobato e Acacio Antunes, musica de
81
Assis Pacheco, seguindo-se uma grande magica de muito apparato, a Coroa de
Fogo.
– A companhia dramatica dirigida pelo eximio actor Cardoso da Motta,
meu particular amigo, seguio já de Bello Horizonte, onde ganhou rios de
dinheiro, para Ouro-Preto, onde ganhará oceanos de ouro. Estão satisfeitos os
desejos de meu coração afectuoso e terno.
***
Hontem á noite, lendo o Jornal do Commercio, fui sorprehendido pela
noticia de haver fallecido em Paris Henri Meilhac, que neste seculo foi,
incontestavelmente, uma das individualidades mais symphaticas do theatro
francez. Dizem-me que essa triste noticia nos fôra transmittida pelo telegrapho.
Confesso que me passou completamente despercebida, e attribuo o facto a ter
estado doente e arredio da leitura dos jornaes.
No meu proximo folhetim tratarei do morto, que tem certamente direito a
alguma cousa mais do que uma simples referencia ligeira e apressada.
A. A.
82
O Theatro, 24/06/1897
A companhia dramatica portugueza deu-nos o Perfume, comedia em 3
actos, de Ernesto Blum e do defunto Raul Toché, os dois autores felizes de Paris
fin de siècle e tantas outras comedias de verdadeiro sucesso.
O Perfume tem sua historia no Rio de Janeiro: logo depois de representada
em Paris, a peça foi traduzida pelo defunto Oscar Pederneiras e submettida á
approvação do Conservatorio Dramatico. O defunto Dr. Ataliba de Gomensoro,
que era então o presidente dessa instituição hoje quasi defunta, achou que a
comedia era immoral e não consentio que a exhibissem, apezar dos trinta mil
empenhos que houve para que elle mudasse de resolução.
Mais tarde Soares de Souza (mais um defunto), naturalmente autorisado
pela familia do traductor, agarrou na traducção, desfigurou a peça, mettendo-
lhe musica, e fel-a representar no Variedades com o titulo o Fruto Prohibido,
que não se compadecia absolutamente com o assumpto. Foi um desastre.
Depois d’isso, em 1893, o Perfume foi representado no theatro Lyrico pela
companhia franceza de que fazia parte a incomparavel Judic, a quem coube o
papel de Sylvana. D’essa vez o Conservatorio, reflectindo, talvez, que
Le français dans les mots braves l’honneteté
autorizou a representação da comedia, sem lhe alterar uma syllaba.
Esse facto bastaria para provar a inutilidade do Conservatorio, se este
pobre diabo já não estivesse condemnado pelo actual ministro da justiça e
negocios interiores.
***
Tratando-se de uma peça conhecida, não me deterei a contar os leitores
o complicado enredo do Perfume, que, apezar da extraordinaria habilidade
com que está feito e da engehosa articulação das scenas e dos episodios entre
si é menos uma comedia que uma pochade. Entra na categoria dos vaudevilles
sem musica, de tanta acceitação no palco do Palais Royal, mas desvia-se
sensivelmente do genero dos de Labiche, onde a verosimilhança não é jamais
sacrificada.
Lembrem-se de que o ponto de partida da peça é um preparado que tem
a pretensão de ser perfume, e no emtanto cheira mal. Até aqui vamos bem: o
chimico póde ter se enganado; mas o liquido é inodoro emquanto está quente e
depois de frio fede que tresanda; isto só se admitte n’uma pochade.
83
O que não se póde negar é que o Perfume tem um dialogo engraçadissimo,
em que as pilherias se succedem umas ás outras n’um tiroteio admiravel. A
peça é...não direi – immoral – como dizia o Dr. Gomensoro, porque ainda estou
por saber em que consiste a immoralidade no theatro...a peça é francamente
pornographica, mas ahi está! – o dialogo tem tanta graça, sorprehende o
espectador com uns repentes de tanto pico, tão bem achados, vindos tão a
proposito, que a gente perdoa todas as audacias do enredo. Aquelle dito – Que
noite para a sciencia! – vale uma comedia inteira.
Entretanto, não aconselharei a empreza Sant’Anna a que continue a
lançar mão d’esse genero de peças. A companhia portugueza tem conseguido
o que ha muito tempo nenhuma outra consegue: attrahir ao theatro parte da
sociedade fluminense, que parecia resolvida a afastar-se delle para sempre.
As famillias que vão ao Sant’Anna têm melindres, bem ou mal entendidos,
que convem respeitar no proprio interesse interesse do emprezario. Esses
melindres são a causa principal do seu afastamente dos nosso theatros, que
por desgraça nem sempre se mostram escrupulosos e dignos. Não duvido que
haja alguma hypocrisia, mas estou certo de que ha muita sinceridade nesse
retrahimento.
Lucinda Simões, dado o desconto de representar em portuguez uma peça
escripta n’um francez, ou antes, n’um parasiense quase intraduzivel, não se
mostrou, no papel de Sylvana, inferior á Judic, e eu não sei que outro elogio
maior lhe possa fazer. É admiravel o talento de observação com que ella
reproduz o typo de uma burgueza ingenua, honesta, despretenciosa, que não
se enfeita, que não se espartilha, que não deseja agradar a mais ninguem neste
mundo senão ao homem a quem ama por ser seu marido e a quem admira por
ser um sabio, um chimico celebre, que, não satisfeito de descobrir o microbio
dos dentes, inventa um perfume que fede! Tão ingenua, coitadinha, que,
convencida de ter passado a noite com outro homem, quando efectivamente
a passou com seu marido, escreve a este uma carta de despedida em que
se assigna “tua esposa adultera até a morte”. A leitura dessa carta é um
primoroso trabalho de Lucinda Simões, que aliás é notavel desde a primeira
até a ultima scena.
Christiano de Souza agradou muito no papel de Theodoro, e o publico
fez-lhe justiça, mas, ainda assim, não me pareceu que o distincto actor
portuguez levasse as lampas ao nosso Peixoto, que foi Theodoro do tal Fructo
prohibido. Cardoso, Setta da Silva, Laura Simões, etc, deram todos muito boa
conta do recado.
***
84
No Recreio Dramatico houve uma reprise do Ali-Babá, que está posto
em scena, senão com propriedade, ao menos com decencia. O papel do
protagonista foi regularmente desempenhado pelo Colás, e o de Casmim, que é
o mais difcultoso d’aquella peça e talvez de todas as peças do mesmo genero,
foi sacrificado pelo Leonardo. Este actor – já por mais de uma vez o tenha dito –
tem muita graça natural e é um excellente comico, mas para o papel de Cassim
é indispensavel muita fibra dramatica. O defunto Lisboa represental-o no Rio
de Janeiro o defunto Guilherme de Aguiar. Este é o folhetim dos defuntos.
Entretanto, vale a pena matar saudades do Ali Babá. A musica de Henrique
de Mesquita não envelheceu, e o famoso tango, muito bem cantado e dansado
pelos corristas do Recreio, é ainda bisado com o enthusiasmo de outr’ora.
***
A companhia lyrica Sanzone tem marchado de triumpho em triumpho.
São todos concordes em louvar o emprezario que, apezar da crise economica,
trouxe ao Rio de Janeiro um grupo de artistas digno das melhores scenas
lyricas da Europa. Até hoje só tem desagradado uma cantora, que introduzio
na Mignon uma scena de faniquitos numca jamais cogitada pelos autores;
mas essa cantora foi immediatamente substituida por outra, que nos
proporcionarpa o prazer de ouvir a opera de Ambroise Thomas sem episodios
supplementares.
Folgo de registrar n’estas columnas que a rapaziada das galerias, ao que
parece, tomou juizo. Deus assim o queira.
***
Nos outros theatros nada de novo: no Apollo continuam as representações
do Bico de Papagaio; o Variedades annuncia para amanhã a primeira de Dois
Garotos, o mesmo drama que tambem amanhã será representado no Sant’Anna
com o titulo de Os abandonados; e no Lucinda ensaia-se activamente o Capitão
Lobishomem, para estréa, na proxima semana, da companhia Pepa e Brandão.
***
Vou desobrigar-me agora da promessa, feita aos leitores no meu folhetim
passado, de lhes dizer alguma cousa a respeito de Henrique Meilhac, o celebre
comediographo parisiense, ultimamente fallecido. Mais um defunto!
Meilhac nasceu em Paris no anno de 1832, e começou a vida como
desenhador, collaborando para o Journal pour rire, com o pseudonymo de
Thallin.
Estreou-se no theatro aos 23 annos de edade, em 1855, com duas peças que
passaram despercebidas – Santania e Gardetoi, je me garde.
85
Até 1862 escreveu sósinho quatorze peças, algumas das quaes tiveram
grande acceitação; d’aquelle anno em diante começou a collaborar com
Ludovico Halévy, longa e celebre ligação que devia durar vinte annos, e
produzir os melhores fructos.
Toda a gente conhece o theatro de Meilhac e Halevy. Quem ha ahi que
desconheça o Barba Azul, a Gran Duqueza, a Bella Helena, a Perichole, a Cigarra,
os Salteadores e aquella incompravel Frou-frou, que tantas lagrimas tem feito
derramar? Occuparia n’este folhetim um espaço de que não disponho a simples
nomenclatura das peças representadas n’esta capital, devidas á collaboração
d’esses dois irmãos siamezes do theatro.
Depois da Roussotte, que foi a ultima peça assignada por ambos, elles
separam-se em 1882, e ainda em tal circumstancia fizeram lembrar os referidos
siamezes.
Pouco depois entravam ambos para a Academia Franceza.
Ludovico Halévy abandonou inteiramente o theatro; Henrique Meilhac
continuou entretanto a cultival-o. Isto não prova que Halévy não pudesse
dispensar Meilhac, mas prova que Meilhac podia dispensar Halévy. A proposito
de Labiche e dos seus innumeros collaboradores, Emilio Augier escreveu o
seguinte: “Il est certain que dans tout concubitus il y a un mâle et une femelle;
or, il n’est pas douteux que Labiche est un mâle”. No concubitus de Meilhac e
Halevy o macho era Meilhac.
Para prova ahi estão as peças que elle escreveu sósinho, depois da
separação, e entre as quaes citarei de memoria Ma Camarade, Gotte, Decoré e
Ma Cousine, que são modelos de graça e de observação.
Meilhac era um escriptor de primeira ordem, um espirito finissimo, que
nunca recorreu a um quiproquó nem a uma grosseria para fazer rir. No seu
theatro há, pelo menos, meia duzia de comedias de costumes que se tornarão
classicas, e existirão emquanto existir a lingua de Molière e de Beaumarchais.
A. A.
86
O Theatro, 01/07/1897
No dia seguinte ao do meu ultimo folhetim, o famoso drama parisiense
Les deux gosses, de Pierre Decourcelle, era representado simultaneamente em
dois theatros, – no Variedades com o titulo Os dois garotos, primorosamente
traduzido por Guiomar Torrezão,e no Lucinda com o titulo Os abandonados,
mal traduzido pelo meu melhor amigo.
O autor da peça,filho do fallecido dramaturgo Decourcelle, que teve a sua
hora de celebridade, e sobrinho de D’Ennery, não tem ainda quarenta annos,
mas ha muito tempo que trabalha para o theatro.
A sua peça de estréa foi, se me não engano, L’as de trèfle, melodrama
muito divertido,representado em Paris,quando eu lá estava, em 1883, e alguns
annos depois exhibido nesta capital,no Recreio Dramatico, pela empreza
Dias Braga, que o fez traduzir pelo meu collega Azeredo Coutinho. A peça – e
d’isso dou testemunho – agradou muito em Paris, mas passou completamente
despercebida no Rio de Janeiro.
N’aquelle mesmo anno se representou no Palais Royal uma engraçadissima
comedia de Decourcelle intitulada Le fond du sac. Depois d’isso elle trabalhou
sempre e foi sempre feliz. Que o diga o estrondoso successo de L’Abbé
Constantin que de collaboração com Hector Crémieux, o velho autor do Orphée
aux enfers e da Jolie parfumeuse, extrahio do romance de Ludovic Halévy.
Citarei ainda Le gendarme, comedia que não conheço, representada
n’aquelle mesmo theatro, e por fim o dramalhão Gigolette, um grande successo
do Ambigu, predecessor do successo, ainda maior, de Les deux gosses, que estão
com perto de seiscentas representações consecutivas, e não parecem dispostos
a abandonar tão cedo a scena.
***
O meu collega Luiz de Castro já contou por miudo o enredo da peça aos
leitores da Noticia; portanto, escusado é insistir sobre esse ponto. O drama não
é absolutamente superior a tantos outros que não lograram a mesma fortuna;
mas o autor teve o grande merito de modernisar o genero, e, demais, escreve
com um pouco mais de estylo que o pae e o tio.Os dous pirralhos (julgo que
pirralho é a verdadeira traducção de gosse) são na realidade commovedores;
estão ambos postos em scena com grande habilidade e revelam um
extraordinario conhecimento da technica do theatro.
Na sua qualidade de futuro herdeiro de D’Ennery, não hesitou Decourcelle
em assenhorear-se de alguma cousa do tio, com a mesma semcerimonia com
que La Limace penetra alta noite em casa de Kerlor e com o mesmo aplomb
87
com que Claudinet pede ao lacaio de sua supposta mãe uma garrafa do seu
Bordeaux. Efectivamente, algumas scenas e situações de Les deux gosses fazem
lembrar muitas peças de D’Ennery, com especialidade as Duas orphãs, essa
obra-prima do genero.
Entretanto, o publico nada tem que ver com esses pequeninos furtos,
naturalmente autorisados em familia. O que elle quer saber é se o drama o
diverte ou o commove, e por este lado está satisfeitissimo, pois raras vezes
lhe dão peças como esta, em que todos os elementos de agrado se encontram
engenhosamente reunidos, e onde o drama e a comedia se acotovelam sem se
prejudicar um ao outro.
Quanto ao desempenho dos papeis em qualquer dos theatros, louvo-me
ainda na apreciação do meu collega do andar de cima, sem,todavia, acceitar
a sua opinião a respeito do talento dramatico de Lucinda Simões. É verdade
que ella é insigne na comedia; mas quem outr’ora a vio representar a Thereza
Raquin e a Tosca, ainda ha poucos dias a Georgette e agora o papel de Helena
de Kerlor,não lhe póde negar qualidades muito apreciaveis de actriz dramatica.
A nossa Ismenia dos Santos,que interpreta o mesmo personagem no
Variedades, está admiravelmente talhada para o papel e lhe dá o desempenho
caloroso que lhe convém, conseguindo efeitos de arrebatar a platéa; mas não
busquemos confrontar duas artistas de temperamentos diversos, tratando-se,
de mais a mais,de um personagem illogico,escripto sem nenhuma intenção
psychologica, e no qual tão bem assentam os arrebatamentos do dramalhão
pantafacudo como a sobriedade do drama intimo.
Não estabelecer confronto entre os dois theatros, porque, tendo traduzido
a peça para o Sant’Anna, os leitores de ma fé poderão confundir na mesma
individualidade o folhetinista e o traductor, levando-me preso quer tenha eu
cão,quer não n’o tenha.
Se eu disser que a representação do Variedades é superior á do Sant’Anna,
logo se bramará que pretendo fazer praça de independencia, mostrando-
me aliás ingrato com a empreza que generosamente confiou a traducção da
peça aos meus cuidados; se eu afrmar que o Sant’Anna leva as lampas ao
Variedades, logo se dirá que a minha opinião parece-se com a de Sosia na
comedia de Molière:
Le véritable Amphytrion
Est l’Amphytrion où l’on dine.
Por conseguinte, o melhor é evitar um enxurro de maledicencia e dizer que
o drama,applaudido em ambos os palcos, tanto n’um como n’outro promette
88
longa e fructuosa carreira, comquanto de boa administração me pareça evitar
o facto das representações simultaneas da mesma peça em dois theatros. O
drama de Decourcelle será uma excepção á regra,se tanto no Sant’Anna como
no Variedades fizer a sua obrigação, como se diz em gyria de bastidores. Ahi
estão para exemplo a Volta do mundo em 80 dias, o Solar dos Barrigas e mais
recentemente o João José, peças que não deram a dois theatros o que deveriam
dar a um só, se um só as explorasse.
Tanto os Dois garotos como os Abandonados se resentiram, na primeira
representação, do duello em que se empenharam as duas emprezas que
pareciam animadas pela razão do velho annexim: candeia que vae adiante
allumia duas vezes... O caso é que, conseguindo ambas dar a peça na mesma
noite, convidaram o publico para um ensaio geral...
Entretanto releva dizer que a companhia dramatica portugueza ainda
estava em Lisboa e já os jornaes fluminenses diziam que Les deux gosses
figuravam no repertorio d’ella.
Não se póde em boa justiça dizer que essa empreza se atravessasse no
caminho de quem quer que seja.
***
A companhia lyrica Sanzone continúa a agradar extraordinariamente ao
publico, aos assignantes e á critica. Tivemos uma Africana muito regular e
um magnifico Trovador; amanhã teremos, se não mentem as noticias, a nova
opera Bohemia, de Puccini, o grande compositor de Manon Lescaut, com quem
o nosso publico e eu precisamos familiarisar-nos para nos ir submettendo aos
poucos á influencia dos continuadores de Wagner. Dizem que sem isso não ha
hoje em dia dilettantismo que preste.
***
Nos nossos theatrinhos nada de novo além dos Garotos e dos Abandonados:
No Recreio, onde continúa em scena o velho Ali-Babá, activam-se os
ensaios de uma peça nova, brazileira, Mil contos, original de Demetrio Toledo
e Eduardo Victorino, musica de Nicolino Milano; o Lucinda prepara-se para a
estréa, que está imminente, da companhia Pepa e Brandão, com a opereta o
Capitão Lobishomem, de Gervasio Lobato, musica de Assis Pacheco;no Apollo
continúa o Bico do papagaio na sua marcha ascendente para o centenario.
A proposito do Bico, noticiarei aos leitores que a representação de amanhã
será dada em beneficio do autor da musica, o nosso Abdon Milanez,que tanto
concorreu com o seu bello spartito para o successo da magica.
89
– E já agora não sahirei do Apollo sem lembrar, outrosim, que o beneficio
do Peixoto está marcado para a proxima segunda-feira, com o Gallo de ouro, a
magnifica opereta em que tem o festejado actor um dos seus melhores papeis.
***
Encheram-me de contentamento as noticias dos formidaveis triumphos que
Eleonora Duse tem alcançado em Paris.
Muita gente ha de estar lembrada que na minha secção De palanque,
do saudoso Diario de Noticias, fui no Rio de Janeiro o maior campeão
da inolvidavel artista, quando aqui se apresentou sem nome, sem
recommendação, mas já na força do seu divino talento.
Lembra-me que no dia seguinte ao da estréa da Duse, com a Fedora, de
Sardou, só achei um companheiro de imprensa para o meu enthusiasmo: Luiz
José Pereira da Silva, que no Paiz estava então encarregado da critica theatral.
Os demais collegas torciam o nariz, e n’aquella occasião só tinham sympathias
para o Andó, que era, aliás, um excellente artista.
Quando me lembro que a Duse até versos me fez recitar de um camarote...!
Oxalá que ella voltasse agora triumphante e celebre, a esta formosa terra
onde recebeu, por bem dizer, o seu baptismo de gloria, e onde deixou um
publico fanatisado que a acolheria nos braços com explosões sinceras de
enthusiasmo e de amor!
A. A.
90
O Theatro, 08/07/1897
O grande acontecimento theatral do Rio de Janeiro nos últimos dias – e
creio que se póde dizer: nos últimos annos – foi a representação da Bohemia,
de Puccini. Ha muito tempo não nos davam em theatro uma peça nova de tanto
va lor, e cuja execução correspondesse tão bem á excellencia da obra.
Quando ha tempos li a noticia de que das Scenas da vida da Bohemía fôra
extrahido um libretto de opera, fiquei admirado porque não conhecia romance
que menos se prestasse a essa formula de sacrilegio litterario. O livro de Henri
Murger forneceu uma comedia, não ha duvida, uma bonita comedia escripta
por Theodore Barrière, representada em 1849, e muito applaudida pelos
parisienses; mas uma opera...?! Emfim, tempos antes,cantara-se na Opéra-
Comique, de Paris, embora sem nenhum successo, La femme de Claude, opera
extrahida da incomparavel peça de Dumas Filho que, como se sabe, é uma
tragédia moderna, de grande simplicidade, na qual figuram, por bem dizer,
dois personagens apenas. Qualquer dia porão em musica Monsieur Alphonse e
Une visite de noces!
A representação da Bohemia tudo me explicou: a peça, escripta com muito
en genho por Illica e Giacosa (este ultimo é poeta e auctor dramatico de primo
cartello), não é precisamente uma opera,mas uma comedia cantada, que
poderia ser pura e simplesmente declamada, desde que lhe supprimissem os
córos e os concertantes.A grande habilidade dos auctores do libretto consistio
em concretisar a acção e o dialogo de modo a não alongar a peça, conservando-
lhe toda a intensa poesia do romance, e todo o seu inebriante perfume de
mocidade e de amor.
Como Puccini se desobrigou da esmagadora tarefa de traduzir
musicalmente a obra de Murger, é cousa que só ouvindo se saberá, e conto
que ninguem deixe de ir ao Lyrico admirar a obra do mestre italiano. Eu, por
mim, que sou profano em musica, e não completei ainda a educação dos meus
ouvidos, declaro que “comprehendi” em primeira audição esta magnifica
partitura, extremamente melodica, é verdade, mas escripta segundo os
processos Wagnerianos, sem coplas, sem arias, sem cabalettas, ostentando
garbosa uma opulencia de instrumentação variada e complicadissima.
Attribuo o facto ao assumpto da peça. Aos vinte annos eu, como todos os
rapazes dessa edade, me familiarisei intimamente com o romance de Murger,
e não hesito em afrmar que elle exerceu certa influencia sobre a minha vida,
tal a impressão que me deixou. Fui tambem um bohemio, e vivi entre bohemios
que deixavam a perder de vista a collecção murgeriana. Rodolpho,Marcello,
91
Colline e Schaunard, reunidos, não dão uma perna do Matheus de Magalhães,
o rei dos bohemios.
Se na primeira audição a musica de Wagner conseguia apenas atordoar
o meu cerebro, entrando por um ouvido e sahindo por outro, é porque as
maravilhosas lendas do Rheno pouco interessavam ao meu espirito latino;
tratando-se agora da Bohemia parisiense de Henri Muger, e de personagens
com os quaes, por bem dizer, convivi, e que amei, a musica tão suggestiva e tão
penetrante de Puccini (que necessariamente foi tambem um bohemio) fez-me
o efeito extranho de despertar cá dentro recordações e saudades, a ponto de
parecer a repetição de alguma cousa que eu ouvira em sonhos, talvez, naquella
quadra longinqua.
As honras da execução da Bohemia cabem ao maestro Polacco, que fez
prodigios na sua orchestra, e á Palermini, que no papel de Mimi se revelou um
dos sopranos dramaticos mais notaveis que têm vindo ao Rio de Janeiro.
Archangeli, o sympathico barytono, seria um Marcello ideal se tivesse
physico para o papel;mas quem póde admittir um bohemio faminto com
aquelle corpo e aquellas côres? O mesmo digo eu de Rodolpho, o poeta; o tenor
Quiroli tem uma bella voz e é, incontestavelmente, artista de muito futuro;mas
a sua figura de burguez bem almoçado e jantado não dá uma pallida idéa
do personagem de Murger. Em compensação, o baixo Rotoli deu-nos um
Colline copiado d’après nature. A expressão indizivel com que no 4º acto esse
artista soluça as suas despedidas a um velho sobretudo, antes de sahir para
empenhal-o, bem mostra, helas! que a velha instituição do prego não lhe é
desconhecida. A Campagnoli é uma boa Musette, e Baldassari me agradaria no
papel de Schaunard, se a sua roupa de xadrez e o seu chapéo inverosimil não
me dessem antes a idéa de uma caricatura de Daumier que de um bohemio
de Murger. E a proposito dos vestuarios direi que os da Bohemia são muito
pittorescos, mas de uma correcção impossivel n’uns individuos que não tinham
com que matar a fome.
A execução musical é perfeita, e tanto basta para que o emprezario Sr.
Sanzone se torne digno de todos os louvores e agradecimentos pelo prazer, que
nos proporcionou, de admirar e applaudir uma verdadeira obra-prima.
O repertorio da companhia é opulento e bem defendido por um grupo de
artistas de primeira ordem: ainda hontem tivemos a Hebréa, de Halevy, que
não ouviamos ha muitos annos; entretanto, bastaria a magnifica representação
da Bohemia para encher metade de uma boa temporada lyrica.
***
92
Estreou-se no Lucinda uma companhia de operetas, magicas e revistas,
de que são emprezarios os populares artistas Pepa e Brandão, cujos nomes
figuram em lettras de fogo na fachada do theatro.
A peça escolhida para essa estréa foi o Capitão Lobishomem, opereta em 3
actos, de Gervasio Lobato, musica de Assis Pacheco.
A peça foi primitivamente uma simples comedia, escripta para um
beneficio do actor Silva Pereira, no Gymnasio, de Lisboa, e ahi representada
sem sucesso. Depois da morte do auctor,alguem se encarregou de adubal-a
com máos, malissimos versos, que Assis Pacheco teve a insigne pachorra de
pôr em musica, escrevendo uma partitura ligeira e saltitante, mas um pouco
sacrificada pela consideravel tosquia a que foi submettida durante os ensaios.
Gervasio Lobato escreveu o Burro do Sr. alcaide e o Solar dos Barrigas
depois do Capitão Lobishomem; como esta peça tinha cahido, passando
despercebida,elle não hesitou em aproveitar n’aquellas uns typos que
suppunha para sempre condemnados ao esquecimento. É por isso que tanta
analogia achou a critica entre esta e os demais trabalhos do mallogrado
comediographo, cuja memoria deve ser defendida. Estou certo de que,
se ainda vivesse, Gervasio não consentiria nas representações do Capitão
Lobishomem,sem primeiro disfarçar melhor as taes analogias, que tão máo
efeito produzem.
Isto posto, direi que, ainda assim, a peça não me pareceu tão ruim como
a classificaram certos collegas. O dialogo é por vezes espirituoso e todo
o 3º acto tem muita graça. Com mais um pouco de trabalho, escolhidas
com discernimento as opportunidades para o trololó, desenvolvido
convenientemente o papel do protagonista, e articuladas com mais consistencia
as scenas umas ás outras, o Capitão Lobishomem daria um magnifico libretto.
Brandão é a alegria da peça; elle sósinho enche a scena, principalmente
no 3º acto, com a sua exuberancia e a sua fantasia. Pepa não tem o que fazer;
em compensação, Balbina está nos seus geraes, interpretando um papel de
velha ridicula, sentimental e romantica. Dos demais artistas citarei Cezar de
Lima, que poucas occasiões tem tido de fazer a figura que faz no papel do barão
de Cessa, escripto para Silva Pereira, e Maria Falcão, muito graciosa n’uma
serrana levada da bréca. Um dos nossos criticos achou que Lucinda Simões não
sabe chorar; se elle visse a opereta do Lucinda,naturalmente acharia que Maria
Falcão não sabe rir, e desta vez teria mais razão.
Apezar dos pezares, o Capitão Lobishomem vae levando concurrencia ao
Lucinda; mas o verdadeiro chamariz são aquelles dois nomes – Pepa e Brandão
– que brilham em lettras de fogo na fachada do theatro.
93
***
E nada mais de novo: Les deux gosses continuam em scena tanto no
Variedades como no Sant’Anna,e applaudidos em ambos os theatros; o
Apollo explora ainda e ainda ha de explorar o Bico do Papagaio, emquanto a
companhia do Recreio arranja as malas para uma excursão á linda Paulicéa.
***
Só ante-hontem succumbio em Paris Henri Meilhac, cuja necrologia
publiquei n’um dos meus ultimos folhetins, induzido por uma falsa noticia do
correspondente do Jornal do Commercio.
A. A.
94
O Theatro, 15/07/1897
Uma unica novidade: a primeira representação de Mancha que limpa,
drama em 4 actos, de José Echegaray, representado no theatro Sant’Anna pela
companhia dramatica portugueza dirigida por Lucinda Simões.
O argumento é o seguinte, contado muito por alto:
Dona Conceição (Encarnação Reis), viuva rica, domiciliada em Madrid,
tem na sua casa duas orphãs, cuja educação tomou a si: Henriqueta (Lucilia
Simões) e Mathilde (Lucinda Simões). Tem tambem um filho homem, Dom
Fernando (Telmo Larcher), que destina a Henriqueta, a menina dos seus olhos,
apezar de ser um monstro de hypocrisia e maldade. Mathilde, essa é a bondade
em pessoa, mas a viuva, não sei porque, antipathisa com ella, e até parece
odial-a.
D. Fernando, esse não a odeia, antes pelo contrario, e quer casar-se com
ella, não obstante o bom conceito que lhe merece a dissimulada Henriqueta.
Mathilde,fiel ao proverbio “amor com amor se paga”, bebe os ares pelo moço,
mas repelle-o por saber que o desejo de sua mãe adoptiva é que elle seja
marido da outra, e sacrifica o seu amor.
Uma visita da casa, Dom Lourenço – personagem muito bem desenhado
pelo autor e regularmente interpretado pelo actor Cardoso –,despeitado pelo
riso de mofa com que Mathilde recebeu o oferecimento da sua mão de esposo,
conta a Dona Conceição que a pobresinha tem um amante, pois foi vista a sahir
sósinha, á noite, da casa de um rapaz solteiro, Dom Julio, personagem que
apparece n’uma unica scena e foi representado pelo actor Caetano Reis.
Mathilde está innocente, pois não tinha ido a essa casa maldita, onde
aliás não passára do corredor, senão para vigiar os passos de Henriqueta, a
verdadeira amante de DomJulio. Está innocente, mas não se defende para não
accusar a culpada.
Outra visita da casa, Dom Justo, uma especie de Degenais avelhentado
(esse papel é muito bem feito pelo actor Christiano de Souza) conta a Mathilde
uma historia de familia cuja reproducção me tomaria um espaço de que não
disponho, e convence-a de que se deve defender; ella quer fazel-o, mas é
tarde: Henriqueta tomou as suas precauções com uma habilidade infernal e as
apparencias condemnam a innocente. Todos em casa, inclusive as visitas, se
voltam contra ella, e o proprio Dom Fernando, que momentos antes pretendia
raptal-a, é o primeiro a applaudir a mãe quando a expulsa de casa. Mathilde
sae, jurando que tudo fará para impedir o casamento de Dom Fernando com
uma mulher indigna delle.
95
Até esse final do acto,que é realmente pathetico,a peça é muito acceitavel
e produz o melhor efeito, pois tem qualidade de primeira ordem; mas no
ultimo acto o drama descamba para a tragedia e finalisa por uma catastrophe
extravagante e inutil. Vão ver:
No dia do casamento de Dom Fernando e Henriqueta, Mathilde volta para
cumprir o seu juramento, mas o noivo, cego de colera, fecha-a n’um quarto,
movimento que me pareceu ridiculo, por me trazer á memoria as antigas
cafúas dos nossos collegios.
Indignado por uma carta que não abrio, que não leu, mas cujo assumpto,
não sei porque, adivinha,e cuja auctoria attribue, suggestionado por
Henriqueta, á pobre Mathilde, Dom Fernando vae buscal-a na cafúa para
mostrar-lhe que nem sequer rasgára o sobrescripto, e sae, levando pela mão a
noiva. Vão casar-se.
Mathilde fica sosinha, abre a carta e lê. Victoria! A assignatura é de
Dom Julio, o amante de Henriqueta, que de longe, de muito longe, das ilhas
Balneares, confessa tudo a Dom Fernando e lealmente o previne de que não se
deve casar com essa mulher maculada.
Dom Fernando e Henriqueta voltam casados, e Mathilde, triumphante,
apresenta a carta aberta ao noivo, que d’esta vez lê e se convence. Desesperado,
elle avança para Henriqueta, mas encontra-a cahida sobre um divan, morta,
apunhalada por Mathilde, que para esse horroroso assassinato se serve de uma
faca de cortar papel, presente enviado á noiva por Dom Lourenço, o intrigante.
Acodem todos sobresaltados, e Dom Fernando, para salvar Mathilde, tem a
idéa generosa de declarar ter sido elle o assassino da mulher que o deshonrava.
Dona Conceição, que é muito ciosa dos seus moveis, horripila-se vendo o divan
e o tapete manchados de sangue, e Dom Fernando justifica o titulo da peça com
esta phrase final: – É mancha que limpa!
Mathilde seria mais logica, isto é, estaria mais de accordo com a sua
natureza submissa e resignada, se perdoasse; mas na Hespanha, ao que parece,
o publico tem pelos dramas a mesma opinião que pelas touradas, achando que
sem sangue nem ellas nem elles valem cousa nenhuma.
Resalta nesse terceiro acto a preoccupação de escrever um papel completo
e violento, pondo em contribuição todos os recursos artisticos de uma actriz
determinada. Sabe-se que Echegaray é o Sardou de Maria Guerrero,como
Sardou é o Echegaray de Sarah Bernhardt.
De uma actriz como Lucinda Simões, sem grandes impetos, sem
arrebatamentos de melodrama,e cujo merito consiste principalmente n’uma
naturalidade digna dos melhores applausos, eu não exijo que interprete
esses papeis turbulentos forçando a natureza e acompanhando o auctor na
96
monstruosidade da sua concepção; por isso não lhe quero mal por me não
haver dado no final do terceiro e em todo o ultimo acto mais do que uma
approximação da Mathilde desvairada e sanguinolenta com que em má hora
sonhou o insigne dramaturgo hespanhol. Em compensação, o seu trabalho
foi irreprehensivel, emquanto o personagem não se afastou da verdade,
mostrando uma preoccupação infinita da verdadeira arte.
A respeito de Lucilia Simões escrevi com tanta sinceridade e tanta
convicção algumas linhas publicadas pelo Paiz,que vou transcrevel-as, porque
não saberia talvez dizer o mesmo por outras palavras:
“Echegaray nunca imaginou que a sua peça tivesse outro papel além do
de Mathilde. Tem-n’o, sim, porém esse papel – o de Henriqueta –, foi feito,
não pelo auctor, mas por Lucilia Simões. Poucas vezes tenho tido occasião de
admirar no theatro, em lingua portugueza, uma interpretação assim, definitiva
e completa. Lucilia reproduz com um talento incomparavel tudo quanto o
personagem tem de felino, de astucioso, de máo, de ignobil e de horrivelmente
duplice. Representa o papel inteiro com os olhos, que são do tamanho e têm
a expressão que ella quer, e o seu corpo anguloso e flexivel contorce-se em
movimentos de mulher hysterica, ou de gata voluptuosa, ou de demonio
exorcismado. Um grande triumpho artistico!”
Em conclusão: Mancha que limpa contiuúa dignamente a série de
representações da companhia dramatica portugueza que, dando uma
feição ecclectica ao seu repertorio, já annuncia para a proxima semana o
engraçadissímo Hotel do Livre Cambio.
***
Na mesma noite em que se representava no Sant’Anna a peça de Echegaray
realisava-se no Variedades uma grande manifestação de apreço a Ismenia dos
Santos, por motivo do sucesso que ella obteve na representação do papel de
Helena de Kerlor, nos Dous garotos.
Não compareci á festa por dous motivos: o primeiro por não ter sido
convidado e o segundo por estar no Sant’Anna, retido pelo dever de assistir
á representação de uma peça nova. Estas linhas que me desculpem para
com Ismenia dos Santos,que sempre considerei a primeira actriz dramatica
brazileira, cujo elogio escrevi muitas vezes e cujo retrato publiquei no meu
periodico o Album, com palavras de merecido louvor.
***
Infelizmente a companhia Sanzone, depois do triumpho brilhante que
alcançou com a Bohemia, de Puccini, ainda não deu motivo para novos
enthusiasmos. Dizem-me que o Baile de mascaras deixou muito a desejar,e
97
hontem assisti á representação de um acto de opera que, se não fosse a
Palermini, não seria o 4º acto dos Huguenotes nem aqui nem em casa do diabo.
Afiançam-me que o sympathico emprezario cede a pedidos e suggestões
dos proprios dilettantes,quando põe em scena certas operas para as quaes não
se acha apercebido com os indispensaveis elementos. Não faça isso. Consulte
o seu discernimento e os seus interesses, sem dar ouvidos a conselheiros e
amigalhaços. Cem o pessoal artistico de que dispõe, o Sr. Sanzone facilmente
evitará noites desagradáveis como a de hontem. O repertorio é tão opulento!...
ha tanto onde escolher!...
***
A companhia do Recreio Dramatico partio para S. Paulo, onde se estreará
amanhã; a companhia Dias Braga voltou hontem de Pernambuco, por não
dispôr de um theatro no Pará, que era o projectado termo da sua excursão; a
empreza do Apollo annuncia as ultimas representações do Bico do papagaio,
mas eu não creio que a applaudida magica seja retirada de scena antes do
centenario com que deve contar,á vista das ultimas receitas.
E com taes noticias, já agora escusadas porque esta folha dispõe
actualmente de um copioso noticiario theatral, dou ponto ao meu folhetim.
A. A.
98
O Theatro, 22/07/1897
Mancha que limpa forneceu apenas oito representações á companhia
dramatica portugueza,cujo repertorio é de um eclectismo á Dias Braga. Para
prova,ahi está que o drama sanguinolento de Echegaray foi substituido pelo
Hotel do Livre Cambio.
Folguei com esta reprise para ter occasião de elogiar sem ambages o actor
Telmo Larcher, realmente admiravel no papel de Pinglet. Já me opprimia ver
esse artista, que nasceu para representar a comedia, a braços com personagens
de melodrama, como Jorge de Kerlor, dos Abandonados,e Fernando, de
Mancha que limpa.
Releva notar que elle não sacrificava absolutamente esses papeis
dramaticos; expectorava com toda a convicção o seu Infame! o seu Miseravel! e
quejandas interjecções do genero; mas o publico, não obstante animal-o com
calorosos applausos, sentia-o deslocado e a contragosto...
Eil-o agora á vontade no Hotel do Livre Cambio, esgaravatando
minuciosamente o seu personagem e aproveitando, sem esforço apparente, e
com a maior verdade possivel, todos os respectivos efeitos.
Telmo é um discipulo de Valle, o incomparavel artista cuja convivencia
de tanto lhe servio, e eu de boa vontade o recommendo como um exemplo a
alguns dos nossos actores que buscam efeitos comicos sacrificando a logica dos
seus personagens. Na propria farça Telmo procura e encontra a boa comedia.
Vejam como representa, no 2º acto da peça de Feydeau e Desvallières, uma
scena que o menor exaggero, um simples gesto mal calculado, um tudo-nada
tornariam repugnante e estupida. Interpretado por elle, Pinglet, a quem os
autores não deram – valha a verdade – musculos nem sangue, é uma creatura
animada, que vive, que palpita, que salta da scena para a vida real. Admira que
Lisboa consinta que a abandone todos os annos e o theatro de D. Maria não
segure com unhas e dentes esse artista novo, – mais do que novo: moderno
–,que contorna tão bem os seus personagens,desde que estes não o obriguem a
violentar e torcer o seu talento de comediante.
Desta vez quem está fóra do seu genero é a encantadora Lucilia. Demais a
mais, o papel de Madame Paillardin, que lhe foi distribuido, é insignificante da
primeira á ultima scena.
Desgostou-me – para que negal-o? – ouvir-lhe cantar couplets – e couplets
intrusos, – comquanto – verdade, verdade – a sua voz não me parecesse
inferior á de algumas das nossas estrellas de opereta. Mas se tivesse algum
valimento a minha opinião, eu a aconselharia a não representar senão o drama
99
e a comedia, mesmo quando se tratasse de uma dessas festas de caridade em
que, por via de regra, são permittidos certos desvios e extravagancias.
No theatro portuguez Lucilia vae occupar, se quizer,o logar, vago ha tantos
annos, de Manoela Rey; para lá chegar, é preciso que a perversidade dos
alfacinhas não assoalhe no Chiado e na Avenida que ella cantou a opereta na
rua do Espirito Santo.
Encarnação Reis, que já nos apresentou a sogra do Senhor Director de
bigode, apresenta-nos agora Madame Pinglet de bigode e barba. Ella imagina
que a cortiça queimada póde tornal-a mais comica, do mesmo modo que certos
actores imaginam que um nariz postiço é bastante para dar graça a um typo. O
que falta á Encarnação Reis para fazer damas caricatas não é a barba: é a voz, o
gesto, a inflexão, o olhar. É uma actriz nova e bem parecida, que se sacrifica ás
necessidades da empreza. Outra que está fóra do seu genero.
Amelia Pereira desempenhou o papel da creada com a mesma graça
maliciosa e picante que ha um anno foi tão apreciada no Apollo; Setta da Silva,
Caetano Reis, Cardoso e os demais artistas que figuraram na distribuição
deram boa conta do recado. O publico rio-se a bom rir. O Hotel do Livre Cambio
tem uma boa duzia de representações seguras.
***
Não foi tão feliz, no Variedades, a reprise da Mimi Bilontra, apezar de bem
defendida por um pessoal valente, sendo o papel da protagonista confiado á
sua primeira interprete, Leonor Rivero,uma das actrizes-cantoras que o nosso
publico mais quer, e para a qual parece ter sido escripto aquelle famoso verso
de Agrippa d’Aubigné:
Une rose d’automne est plus qu’une autre exquise.
A empreza deixou a Bilontra para recorrer aos Garotos, e accelera os
ensaios de Mil Contos,a nova producção de Eduardo Victorino e Demetrio
Toledo, a qual, segundo estou informado, promette e promette muito. Vel-o-
hemos na proxima semana; mas desde já faço votos para que Mil Contos faça
entrar na bilheteria do Variedades pelo menos vinte por cento da quantia
indicada no titulo da peça.
***
No Lucinda, abandonado pela companhia Pepa e Brandão, houve alguns
espectaculos variados, que consistiam, principalmente, na exhibição de um
cínematographo, o melhor que se tem visto nesta capital, o que não quer dizer
que fosse um modelo de perfeição.
100
Como o cinematographo, por mais maravilhosa que seja essa invenção, não
basta para preencher um espectaculo inteiro, a empreza contratou um grupo
de artistas hespanhoes, que representavam zarzuelas em um acto, e um moço
que mostrava cães e macacos ensinados.
O espectaculo era divertido e muito proprio para a meninada, mas as
familias provavelmente acharam os preços um tanto puxados, porque lá não
foram, nem lá mandaram os pequenos. O caso é que o cinematographo, os
hespanhoes, os cães, os macacos e uma cabra – que me esqueci de mencionar
– abalou tudo para Juiz de Fóra, a hospitaleira princeza do Parahybuna. Ainda
não é desta vez que se regenera a arte no Lucinda!
***
Disse eu que Pepa e Brandão abandonaram esse theatro. Accrescentarei
que foram para o Recreio, abandonado por seu turno pelos artistas da empreza
Fernandes, Pinto & C., actualmente em S. Paulo, onde se estreiaram sob os
melhores auspicios.
Mas, pelos modos, a policia estava á espera que Pepa e Brandão tomassem
conta do Recreio para mandar fechar o theatro e obrigar o respectivo
proprietario a dotal-o com alguns melhoramentos, cuja necessidade se
impunha.
Por conseguinte, a companhia só dentro em alguns dias reapparecerá, –
não com o Capitão Lobishomem, que é carta fóra do baralho, mas com uma
réprise do Abacaxi, a decantada revista de Moreira Sampaio e Vicente Reis.
***
Reappareceu no Eden-Lavradio, que está, justiça se lhe faça, um theatrinho
catita, a celebre companhia infantil que o anno passado me fez gastar em pura
perda não sei quantos litros de tinta Sardinha.
Os artistas são os mesmos sem tirar nem pôr; apenas cada um delles tem
agora mais um anno de edade e mais um palmo de altura.
Na vespera da estréa da companhia recebi a seguinte carta, firmada por um
amigo que estimo e considero:
“Meu caro Arthur Azevedo – A V., que tão bom camarada tem sido, venho
solicitar um grande obsequio.
A Companhia Infantil vae dar espectaculos no Eden.
Na minha opinião – e fallo com sciencia – não se trata de uma especulação
torpe, e sim de uma simples exploração commercial. Mais de vagar, procural-o-
hei para expor o que sei a respeito, cumprindo notar que não sou emprezario,
nem empregado, ou cousa equivalente. Interesso-me, porém, por um dos socios
e alguns dos jovens artistas; é por isso que venho pedir-lhe para não escrever
101
contra a empreza, nem contra a troupe. Prefiro que silencie,se não puder fallar
bem, ou por outra, se não puder deixar de fallar mal.
Repito: mais de vagar procural-o-hei, e desde já agradeço-lhe o favor.
Creia-me sempre etc.”
O amigo que me escreveu essa carta não me procurou, como prometteu;
mas na propria noite da estreia encontrou-se commigo no theatro, renovou o
seu pedido, e fez-me prometter não dizer mal da empreza nem dos artistas.
Portanto, vou dizer bem, o que não me será custoso, tratando-se, como se
trata, de uma simples “exploração commercial”.
A peça escolhida para a estreia, o Tim tim por tim tim, obra litteraria de
uma ingenuidade tal que parece escripta expressamente para crianças, teve um
desempenho magistral: a menina Carmem, nos 18 papeis, acaçapou a Pepa, e o
espirituoso menino,que fez o deputado, metteu o Peixoto n’um chinelo! Todos
os outros artistas, e as cantigas, os mexidos, a orchestra, a enscenação em
general estiveram na altura da revista infantil de Souza Bastos.
Não me cansarei – já que um amigo assim o quer – de recommendar ao
publico fluminense esses espectaculos que, além de o divertirem, constituem,
ouso afrmal-o, uma escola de cidadãos prestantes e excellentes mães de
familia.
A infancia encontrou o melhor abrigo n’esta “exploração commercial”, que
descobrio o meio, até hoje ignorado, de utilizar as crianças em beneficio das
familias. Pois não é nobre, não é sublime ver um fedelho a sustentar pae e mãe?
Não! não desanimenos essa exploração que é tudo quanto póde haver de
mais commercial.
Segundo me consta, os pequenos artistas estão ensaiando os Sinos de
Corneville. Eis ahi outra peça apropriada á infancia. Já estou d’aqui a ver um tio
Gaspar minusculo a tremer diante das armaduras do castello mal assombrado,
e as pequenitas erguendo as saias a cantar:
Olhae! Olhae!
Examinae!
Tudo isto é bom... ouro é de lei!
Mas... o diabo é que me quer parecer que o publico está concordando com
o que eu disse o anno passado...
***
102
E nada mais de novo, nem mesmo no theatro Lyrico. A empreza Sansone
adormeceu sobre os louros da Bohemia, mas conta acordar amanhã, ao som da
symphonia do Guarany. Pois acorde, que são horas.
A. A.
103
O Theatro, 29/07/1897
Por decreto de 21 do corrente foi extincto o Conservatorio Dramatico
Brasileiro, que tinha sido creado ha 26 annos, e foi extincto, diz aquelle acto
ofcial, por ter a experiencia mostrado que nenhuma influencia conseguio elle
exercer sobre o theatro nacional e a litteratura e arte dramatica.
Eu peço venia para observar que tão elevados intuitos não presidiram
á creação do mostrengo. Veio este ao mundo não para estimular auctores
dramaticos, mas para afastar do theatro os escriptores que mostrassem alguma
vocação para a litteratura dramatica.
Nunca me hei de esquecer que o Escravocrata, um drama de combate
que Urbano Duarte e eu escrevemos (elle mais do que eu), não poude ser
representado porque assim o entendeu, não o Conservatorio, mas o presidente
do Conservatorio, que sempre foi o Conservatorio inteiro! Nesta população de
alguns milhões de habitantes (a Estatistica nunca nos disse o numero ao certo)
havia um cidadão, um só, que tinha nas mãos o destino de qualquer peça de
theatro, representando um esforço e muitas vezes uma audacia que merecia,
pelo menos, algum estimulo.
Resta saber se o Conservatorio vae ser substituido pela Policia: o decreto
nesse ponto não me parece sufcientemente claro; leiamol-o:
“Art. 1º. Fica extincto o Conservatorio Dramatico.
Art. 2º. Para a execução das peças theatraes e exhibições em casas de
espectaculo, a policia cingir-se-ha a tomar conhecimento, com antecedencia,
da peça ou do programma que tiver de ser executado, cabendo-lhe prohibir ou
suspender o espectaculo se verificar que d’elle possam resultar perturbação da
ordem publica ou ofensas ao decoro publico.”
Parece-me que,tendo a policia tomado conhecimento da peça, deveria ser
isto uma garantia para o emprezario e o autor; mas esse direito, que lhe dá
o decreto, de suspender as representações por motivos que não lhe podiam
ter escapado quer na leitura quer nos ensaios a que, por outro decreto da
mesma data, é obrigada a assistir, expõe o autor e o emprezario á injustiça e a
violencia.
Eu não sou contra a censura, porque a considero uma garantia não só
para os espectadores como para todos quantos vivem da industria theatral;
acho, porém, que a lei deve cercal-a de todas as cautellas para que não façam
d’ella um instrumento de perseguição e maldade. Depois de ter dado a policia
a necessaria licença para ser representada uma peça qualquer, a revogação
desse acto deveria exigir formalidades de certa ordem que infelizmente não
foram decretadas n’aquelle acto, que sujeitou ao capricho de um homem a
104
liberdade do pensamento, o interesse profissional e o espirito sagrado da nessa
Constituição.
Estamos livres, ao que parece, da censura litteraria que n’uma comedia
me substituio a palavra cueiros pela palavra fachas, porque a palavra cueiros
tinha uma syllaba irreverente; mas se algum futuro chefe de policia um dia
resolver,pelo seu livre alvedrio, supprimir injustamente n’outra comedia,
minha ou de quem quer que seja, não uma palavra mas a peça inteira, será o
caso de cantar: C’n’était pas la peine... como na Madame Angot.
***
Outro decreto, tambem de 21 do corrente, regula “a inspecção dos theatros
e outras casas de espectaculo da Capital Federal”. Esse decreto é acompanhado
das respectivas instrucções divididas em cinco capitulos. O 1º contem
disposições vantajosas para o publico, mas o artigo 8º determinando que “nem
por conta da empreza, nem de particulares, podem os bilhetes ser vendidos
dentro ou fóra do escriptorio do theatro por preço maior que o estabelecido”,
deveria ter accrescentado: “á excepção dos individuos que se acharem munidos
da respectiva licença da Intendencia Municipal”.
Ora essa liçença constitue um imposto de 1:000$ annualmente, e não é
justo que a Municipalidade cobre do cidadão X. tanto dinheiro para exercer um
direito não reconhecido pelo governo da União.
No capitulo segundo vemos que da prohibição ou suspensão de uma peça
por ordem da policia haverá recurso para o governo, mas nenhum governo
quererá, necessariamente, desmoralisar a policia, revogando o seu acto, e por
conseguinte a situação continúa a mesma para os interessados.
Diz o artigo 12º: “Os actores que alterarem o texto das
peças,accrescentando ou diminuindo palavras, que derem a estas sentido
equivoco por meio de inflexão da voz e gestos, ou nas pantomimas e dansas
fizerem acenos e meneios indecentes,incorrerão na multa de 10$ a 20$, e em
quatro a oito dias de prisão”. Se a policia quizer dar inteiro cumprimento a essa
disposição, não haverá espectaculos, porque os nossos artistas, salvo honrosas
excepções, passarão na cadêa a maior parte da existencia.
O art. 13 é incomprehensivel. “Serão responsabilisados, na conformidade
das disposições do art. 282 do Codigo Penal, os actores que reproduzirem
no palco textos obcenos ou ofensivos da moral publica consignados no
original.” – Como podem os actores ser responsabilisados pelo que fizerem com
permissão da policia?
105
O paragrapho unico do art. 15 obriga os emprezarios a preencher os entre
actos com musica, e todos sabem que nos primeiros theatros dramaticos do
mundo, a começar pela Comédie-Française, a orchestra é hoje dispensada.
Passemos ao capitulo 3º:
O art. 16 é copiado de algum regulamento antigo, do tempo em que se dizia
caput em vez de bis, – mas isso é um innocente anachronismo que faz sorrir.
Tambem faz sorrir o art. 19, que parece redigido por Mr. de La Palisse ou
pelo “meu amigo Banana”: Os espectadores da platéa deverão sentar-se nos
logares indicados pelos numeros dos bilhetes de que se houverem munido “.
O art. 20 prohibe que se fume no recinto dos theatros. Oh! podesse este
artigo ter severa execução!
O § unico do mesmo art. 20 diz que “os espectadores esforçar-se-hão
por não embaraçar a vista uns dos outros”. A esse § prende-se, talvez, o § 7º
doart. 35, exigindo que em todos os theatros haja uma sala de toilette “onde as
espectadoras possam deixar os seus chapéos”.
“Emquanto durar o espectaculo, diz o art. 21, é vedado o ingresso no
scenario a todas as pessoas que não pertencerem ao respectivo serviço”.
Comprehende-se essa disposição á vista da exiguidade das caixas (e não dos
scenarios, como dizem as instrucções) de alguns dos nossos theatros; mas para
o Lyrico e para o São Pedro de Alcantara ella é simplesmente absurda, e Deus
nos livre que o futuro theatro Municipal não tenha um foyer des artistes como
a Comédie-Française e todos os theatros que se respeitam. Demais, o actor
no seu camarim está em sua casa, onde ninguem impedir póde de receber as
visitas que o procuram.
No capitulo 4º encontro outra disposição, a do art. 30, que me parece
muito perigosa: “Nos casos de absoluta conveniencia publica, poderá o chefe
de policia mandar fechar, provisoria ou definitivamente, qualquer casa de
espectaculo.” Seria necessario designar esses casos de “absoluta necessidade
publica”.
O art. 33 estatue, mas muito deficientemente, sobre os contractos entre
actores e emprezarios. Como não tenho agora espaço para tratar do assumpto,
que considero importante, reservo para outro folhetim a analyse desse artigo.
E nada mais tenho a notar por emquanto, a não ser, no § 3º do art. 35, a
palavra inflammaveis que alli está exprimindo justamente o contrario do que
se pretendia dizer. Senão, leiam: “§ 4.º Obrigará a directoria ou empreza a
tornar inflammaveis, por meio de processos chimicos, não só forros de papel e
outros objectos de facil combustão,mas tambem as buchas das armas de fogo e
involucros dos artefactos pyrotechnicos.”
106
E ahi está apreciado, muito por alto, esse regulamento que encerra, não
ha duvida, disposições assisadas para a boa ordem dos espectaculos, mas não
contém determinação alguma que possa interessar á litteratura e á arte.
***
Nada de novo nos theatros. Para amannhã está annunciada, no Variedades,
a 1ª representação de Mil contos, a desejada peça de Eduardo Victorino e
Demetrio de Toledo.
A. A.
107
O Theatro, 05/08/1897
O autor d’estas linhas escreve para o theatro ha já um bom par de annos;
entretanto, antes de assistir á representação da ultima peça do Variedades, não
lhe passaria nunca pela cabeça que o publico acceitasse aquella scena da barca
de Nictheroy, em que um cavalheiro,enjoando, vomita sobre uma senhora.
Um dos auctores entretem commigo boas relações de amizade;se
porventura elle me houvesse consultado sobre a conveniencia de adiccionar
similhante scena á sua peça, eu immediatamente o aconselharia a que a tal não
se arriscasse. Como é de suppôr que não me désse ouvidos e se deixasse levar
pela propria inspiração, imaginem com que cara ficaria eu quando e vomito
fosse, como foi, acolhido por uma gargalhada do publico!
Já agora estou convencido de que certas comedias de Aristophanes podem
ser representadas no Rio de Janeiro tal qual o grande atheniense as escreveu...
***
– A peça doVariedades, a que me refiro, intitula-se Mil Contos,tem 3 actos
e 12 quadros, e é escripta por Demetrio de Toledo, em collaboração com
Eduardo Victorino. Este ultimo é um dos autores do Burro de carga, e o outro,
que andou mal desfazendo a sociedade que contrahira com Orlando Teixeira, é
um dos autores do Pão pão, queijo queijo, que, pelo menos, tinha versos que se
ouvissem.
É difcil dizer a que genero theatral pertencem os Mil Contos; têm alguma
cousa de comedia, de opereta, de magica e de revista de anno. Um rapaz
pauperrimo, mas alegre, porque entende, e entende muito bem, que tristezas
não pagam dividas, apanha mil contos não sei em que loteria e atira-se ás
cocottes, deixando-se prender por uma d’ellas, cuja apresentação é feita n’um
duetto escandalosissimo. Dois sujeitos, um dos quaes é tio d’esse millionario
pandego, perseguem-n’o em toda a parte para lhe impingirem as filhas, e
tratam, por todos os meios e modos, de o arrancar aos braços da tal cocotte.Elle
foge-lhes como o diabo da cruz, e afinal, como lhe ponham a faca aos peitos,
intimando-o a escolher entre as duas pequenas, decide-se... pela prostituta. No
tempo de D. João VI as peças terminavam com mais compostura.
Como se vê, ha ahi um argumento de comedia, ou antes, de vaudeville,
pois não é verosimil que um individuo qualquer, e muito menos um individuo
que possue mil contos, seja obrigado a fugir para não acceitar uma noiva
de quem não gosta; mas a acção da comedia é interrompida por scenas de
revista,lembrando ao publico certos acontecimentos recentes como a estada
dos chilenos nesta capital e a inundação havida na noite do famoso baile
108
do palacio de Itamaraty; e o segundo acto acaba por uma scena de magica,
no fundo do mar, onde os peixes conversam e as sereias dansam. Tambem
a apotheose final é de magica ou de revista, e no 3º acto a apresentação dos
cocheiros e das criadas é uma verdadeira scena de opereta, comquanto não se
pareça nada com a dos Sinos de Corneville.
Os auctores classificaram o seu trabalho de “peça fantastica, typica e
episodica”, mas eu não comprehendo esssa classificação. Typica porque tem
typos? Episodica porque está cheia de episodios? “Peça typica” não sei o que
seja; “peça episodica” é,por exemplo,Madame Sansgêne porque põe em scena
um episodio da época napoleonica.
Mas a classificação da peça não vem ao caso,tanto mais que o proprio
publico difcilmente poderá classifical-a. Sinto devéras que Demetrio de
Toledo não nos désse uma prova mais decisiva da sua habilidade. Nos Mil
Contos transparecem qualidades que não foram aproveitadas e que o serão,
estou certo, n’outra peça escripta com mais cuidado. E um conselho que eu
daria ao meu joven collega, se tivesse auctoridade para isso, é que se deixasse
dessa preoccupação de escrever cousas ambiguas, que só produzem algum
efeito quando são arranjadas com extraordinaria finura. Não siga as pegadas
do Dr. Vicente Reis.
As honras do desempenho couberam aos actores Zeferino,Leite e Galvão.
Este ultimo perdeu no ultimo acto, infelizmente, um pouco do entrain com
que representára os dois primeiros. Zoferino esteve delicioso n’um quadro em
que fez o typo de um escrivão de policia, e Leite monologou com habilidade
incrivel, no papelinho de um matuto brasileiro que volta de Paris,umas
pilherias de cabellos brancos. Rocha e Sepulveda, actores, aliás, de muito
prestimo,estavam ambos fóra do seu elemento, e o ultimo não sabia palavra do
que tinha a dizer.Dolores Lima foi graciosa e Leonor Rivero exhibio lindissimas
toilettes, quasi tão lindas como a dona. Dos demais artistas não ha que dizer
bem nem mal.
Os auctores não devem nada á enscenação, que é pauperrima. No 3º acto
apresentam-se,n’um salão de ouro e marmore, senhoras que vêm, assistir a um
casamento com vestidinhos de chita, ao lado de cavalheiros de paletó sacço! E
admira que o illustre e venerando mestre Furtado Coelho figure no cartaz como
ensaiador da peça, quando um fiscal da companhia dos bonds de Botafogo,em
vez de entrar na estação do largo da Carioca, entra na charutaria do meu
amigo e freguez Sr. Machado e os actores Sepulveda e Zeferino embarafustam
pela rua da Carioca para tomar um daquelles bonds.
A musica de Nicolino Milano, compositor nacional de incontestavel talento,
é muito agradavel; alguns numeros são tão bonitos e saltitantes, que foram
109
bisados com enthusiasmo. D’esses numeros o que mais agradou foi aproveitado
da partitura do infeliz Conselheiro,peça que, apezar dos pezares, tinha mais por
onde se lhe pegasse que estes Mil Contos.
Entretanto, não duvido que o trololó, as dansas, as toilettes de Leonor
Rivero e a figura hilariante do Galvão disfarçado em cozinheira levem muitas
enchentes ao Variedades.
***
Se Victorien Sardou fosse meu camarada como Demetrio Toledo, eu
teria dois desgostos neste folhetim, porque tambem Madame Sans-gène me
desagradou como peça de theatro.
Á vista do estrondoso successo que a comedia alcançou em Paris, eu estava
na doce convicção de que aquillo fosse uma obra-prima. Enganava-me.
A peça, representada no Sant’Anna com tanto esmero pela companhia
dramatica portugueza, não passa exceptuando uma scena do 2º acto, de
insignificante pretexto para a reconstituição pittoresca de uma época
interessante, pondo em scena o imperador Napoleão, o marechal e a marechala
Lefebvre, Fouché (o famoso ministro da policia), a lavandaria da futura
marechala, um salão e um gabinete do palacio de Compiégne, moveis e
tapeçarias do tempo, bonitos uniformes, sumptuosos vestidos, accessorios de
notavel propriedade historica, uma comparsaria formada com as principaes
figuras da côrte de Bonaparte, etc., etc., etc.
Já se vê que com taes elementos a comedia não póde deixar de interessar o
espectador; mas não ha duvida que o dramaturgo desappareceu para dar logar
ao archeologo. Eu prefiro o Sardou dos Intimos e da Familia Benoiton.
No papel da marechala Lefebvre, fidalga que conserva no palacio imperial
as maneiras e a linguagem da mulher do povo, que foi, a incomparavel Lucinda
não accrescenta nem diminue a gloria, que ninguem lhe contesta, de ser a
primeira actriz de comedia em lingua portugueza. O papel não é difcil.
O actor Caetano Reis soube transformar-se physicamente em Napoleão;
mas nem esse nem os outros papeis nada valem, inclusive o de Fouché,
personagem curiosissimo a quem Sardou não deu o relevo que devia dar.
Entretanto, é justo que todos assistam á representação de Madame Sans-
géne, porque não me lembro de ter visto nunca no Rio de Janeiro posta em
scena tão a caracter uma peça cuja acção não se passa na actualidade. Não se
póde exigir mais. Pena é que alguns fidalgos e damas da côrte se mostrem quasi
tão desageitados como a ex-lavandeira que Napoleão arvorou em duqueza;
mas vão lá reclamar esses requintes de enscenação n’outros theatros que não
sejam os de Paris!
110
***
No Lyrico tivemos hontem a Manon, de Massenet. Dou a palavra ao meu
collega do andar de cima.
Nos outros theatros nada de novo: a companhia Pepa e Brandão continúa á
espera de que terminem as obras do Recreio; no Apollo festejou-se o centenario
do Bico de Papagaio, e no S. Pedro representam de vez em quando o D. Pedro V
com o titulo de Pena de Morte. Ao que parece, o nome do “moço-velho” já não
chama ninguem ao theatro.
***
Falleceu ha dias o Sr. Victor José de Freitas Reis, que tem direito a uma
referencia neste folhetim, por ter sido o concessionario da construcção de um
theatro que nunca se fez e sabe Deus se se fará.
O plano desse theatro,destinado principalmente a representações lyricas,
foi feito pelo insigne e mallogrado architecto italiano Sante Bucciarelli, que ha
quatro annos foi assassinado pela maldita febre amarella. Fosse aproveitado
esse plano, e teriamos um theatro de primeira ordem, digno da primeira
capital da America do Sul.
Infelizmente, como o theatro devia ser construido no local actualmente
occupado pelo Corpo de Bombeiros, surgiram difculdades taes,que a
construcção ficou eternamente adiada. A morte de Freitas Reis tirou-nos agora
toda a esperança de ver realisado esse melhoramento urgente e indispensavel.
Entretanto, o plano ahi está; quando quizerem...
***
Por falta de espaço não volto hoje a tratar, como prometti, do novo
regulamento dos theatros,que não as perde por esperar.
A. A.
111
O Theatro, 12/08/1897
Vou examinar, comforme prometti, o art. 33 do novo regulamento dos
theatros, approvado pelo decreto n. 2.558, de 21 do mez passado. Diz esse
artigo:
“A autoridade policial, por meio de multa até 100$,ou de prisão até um
mez, obrigará os empregados do scenario (este scenario é adoravel!) a cumprir
os seus contractos, para que não se interrompam os espectaculos ou seu
deixem de realizar as promessas feitas ao publico (art. 141 do regulamento de
janeiro de 1842).
Tanto os contractos celebrados no Brazil, como no estrangeiro, entre
artistas e emprezarios, para representação n’esta capital, serão apresentados
ao chefe de policia para serem visados.”
Parece-me que esse artigo devia ser immeditamente seguido de outro
concebido nos seguintes termos:
“A autoridade policial só procederá contra os empregados do scenario que
recusarem cumprir os seus contractos, se o emprezario do theatro provar que
os vencimentos dos ditos empregados se acham pagos em dia.”
Na realidade, o regulamento, querendo – faço-lhe justiça – proteger o
publico, protege apenas o emprezario a reduz o artista á escravidão. Se o actor
X. se recusa a trabalhar, porque não lhe pagam, é multado e vae para a cadeia,
ao passo que ao emprezario caloteiro nenhuma pena se impõe!
Dir-me-hão talvez que está virtualmente comprehendido que só no caso de
se achar o artista pago e satisfeito poderá a autoridade proceder contra elle,
se porventura faltar á fé do seu contracto; mas isso de disposições virtuaes
é uma historia, e a primeira obrigação de qualquer lei é não se prestar ao
sophisma e ser feita de modo que não possa ter duas interpretações diversas. O
regulamento é omisso.
É preciso attender aos interesses reciprocos do emprezario e do
artista,porque a falta de uma lei que os resguarde a ambos é uma das causas
fundamentaes do abatimento em que cahio a arte dramatica no Brazil.
É preciso negar a qualquer bicho careta o direito de se fazer emprezario
sem primeiramente provar que se acha aparelhado com os indispensaveis
recursos. Para isso basta um artigo do teôr seguinte:
“Nenhum cidadão, nacional ou estrangeiro, poderá ser emprezario de
theatro sem depositar no Thesouro Federal, em dinheiro ou apolices da divida
publica, quantia correspondente a um mez dos vencimentos mensaes de todo
o pessoal que contractar para o serviço de scena. Com esse deposito será pago
o dito pessoal, se, vencida uma quinzena, não o tiver sido pelo emprezario,
112
ficando este, sob pena de lhe ser cassada a respectiva licença, obrigado a
perfazer, dentro em tres dias, a importancia total do deposito.”
Só depois de promulgado esse artigo, poderia o governo exigir multa,
cadeia e até forca para o artista que não quizesse cumprir o seu contracto.
***
Admira que o regulamento seja tão meticuloso que dê ao chefe de policia
attribuições de contraregra, incumbindo-o de obstar a que se mostrem nos
bastidores pessoas estranhas á representação (art.29) e outras singularidades
contenha, como a da fiscalisação dos annuncios do panno de bocca (art. 35
§1º), e não haja alli nenhuma disposição contra o escandalo que todas as noites
se nota nos chamados jardins dos nossos theatros, que são tambem uma da
causas, a principal, talvez, do desregramento da arte. Aquelle sussurro, aquella
algazarra, aquelle saltar de rolhas, aquelle mercado de prostituição, aquella
vergonha, emfim, não mereceu um artigo nem um simples paragrapho no
regulamento! Póde o governo limpar a mão á parede!
***
O Apollo deu-nos o vaudeville em 3 actos La bonne de chez Duval, bem
traduzido por Acacio Antunes com este simples titulo Zoé. São autores da peça
Antonin Mars, o collaborador de Bisson nas hilariantes Surprezas do divorcio,
e aquelle pobre Hyppolito Raymond, um escriptor alegre, que acabou pelo
suicidio como os seus emulos Hector Cremieux e Raul Toché.
A peça é muito engraçada e, pelos modos, tera no Apollo uma carreira
relativamente mais prospera que nos Nouveautés, de Pairs, onde logrou apenas
trinta e tantas representações.
O enredo é cheio de inverosimilhanças e quiproquós,como o de todo o
vaudeville moderno que se respeita, mas os personagens, as situações e os
episodios estão bem inventados, os efeitos são seguros e o publico ri-se a bom
rir de principio a fim.
O 2º acto produzio um efeito de hilaridade fóra de commum, e se ao 3º
não succedeu o mesmo, foi simplesmente por falta de enscenação. Esse 3
o
acto
representa uma mairie de Paris: prestava-se a um scenario mais pittoresco
do que aquella sala fria,de paredes nuas. Todos sabem que a municipalidade
parisiense tem confiado a insignes artistas a decoração das suas mairies, e que
cada uma d’essas repartições apresenta um aspecto verdadeiramente artistico.
Em tal scenario, o nosso Frederico de Barros acharia uma nota ainda mais
suggestiva que a do curioso restaurante do 1º acto, – um restaurante qualquer,
porque o traductor se lembrou, e com razão, que o publico fluminense não sabe
o que é o bouillon Duval,e se admiraria de ver uma casa de pasto ornada com
113
certo luxo,mas onde umas mesas teriam toalhas e guardanapos, e outras não, á
vontade dos freguezes.
Na mairie do Apollo nem ao menos figura o indefectivel busto da Republica
e nas paredes não ha um edital para remedio. Aquillo será tudo, menos
uma mairie parisiense, – e eu afianço á empreza que uma enscenação mais
apropriada daria outro tom á peça.
Gaston Serpette, escrevendo para Zoé uma partitureta leve e graciosa,e
Assis Pacheco, instrumentando com muita delicadeza a musica de Gaston
Serpette, contribuiram para o sucesso. Alguns numeros foram bisados com
enthusiasmo.
Quando o actor Mattos se apresentou no palco para fazer a sua primeira
scena eu, que não conhecia absolutamente a peça e suppunha que o
personagem fosse o de um homme du monde, disse aos meus botões: – Que
diabo! o Mattos desta vez errou o seu typo: parece-me antes um criado
disfarçado com a roupa do patrão... – Continuou o espectaculo, e poucos
minutos depois eu vi que o artista representava efectivamente o papel de um
Mascarille...do seculo XIX. E os meus botões disseram-me: – Ainda não foi
desta vez que o Mattos errou. – Realmente, eu diria que é esse um dos seus
melhores papeis, se esta fórmula de elogio não se tivesse tornado um logar
commum em relação ao artista que levantou a successão de Guilherme de
Aguiar.
Lopiccolo representou com a sua graça habitual o papel da protagonista,
mas deu pouca intenção ás cançonetas,que não passaram aquem da ribalta;
Rangel, um artista cuja sobriedade é digna de louvor, fez boa figura ao lado
de Mattos, e foi bem acompanhado por Elisa de Castro, Gabriella Montani,
Nazareth, Barbosa e Oyanguren, um cantor que eu não esperava désse tão boa
conta do seu papel de comedia.
Parabens a Adolpho Faria pelo bem ensaiado que está este vaudeville
turbulento e alegre, que vae dar ao Julio (bilheteiro) a mesma faina que o Bico
do papagaio.
***
Nos outros theatros nada de novo. Continuam as representações de
Madame Sans-Céne no Sant’Anna e dos Mil contos no Variedades.
Está imminente a re-inauguração do Recreio para o reapparecimento da
companhia Pepa e Brandão. Dizem-me que o theatro passou por importantes
melhoramentos e está no trinque.
***
114
Creiam os meus piedosos leitores que não ha nada nesta vida que me
acarrete maiores semsaborias que assistir á representação de um trabalho
de autor brazileiro, não gostar da peça e escrever a minha opinião, aliás
attenuada sempre pelo desejo de não ferir fundo e pelo receio de me lançarem
estupidamente em rosto a minha qualidade de ofcial do mesmo ofcio.
Consta-me que ha dias, numa folha da tarde,fui acoimado de
monopolisador dos theatros, e, no emtanto, desafio a todos os emprezarios
havidos n’esta capital de 1873 – anno em que aqui cheguei – até hoje, a declarar
se algum dia lhes pedí que fizessem representar uma peça minha. Jámais,
ouvem bem? jámais escrevi ou traduzi para o theatro peça que não fosse
previamente solicitada pelos emprezarios, sem que eu de modo algum influisse
para a encommenda. Entretanto, mais de uma producção alheia tem sido
representada por minha intervenção.
Um dos meus inimigos é um moço que teve a infelicidade de escrever uma
revista de que eu tive a desgraça de não gostar, o que aliás succedeu a todos
os demais espectadores. Ha dias, achando-me a jantar por acaso no mesmo
restaurant onde esse moço tambem jantava em companhia de dois cavalheiros,
elle da sua mesa entrou a fazer-me umas caretas ameaçadoras que parecia
dizerem: “Sou eu, não tenho medo de ti! – Entra, Juca!...” Eu continuei a
comer tranquillamente o meu jantar, que estava delicioso, fazendo a mim
mesmo esta reflexão que o homemzinho tem mais quéda para as caretas que
para as revistas, e que talvez melhor figura fizesse a representar que a escrever
pachuchadas.
O meu amigo Demetrio Toledo, que é um rapaz de espirito apezar de co-
autor dos Mil Contos, não seria capaz de se dar a semelhante desfructe na mesa
de um restaurante, e de mais a mais defronte de uma garrafa inquietadora;
elle se contentou com dirigir-me por esta mesma folha uma delicada cartinha
em que ha um topico – um unico – contra o qual levantarei o seguinte protesto:
Não fui assistir prevenido á representação dos Mil Contos, e, se o fosse, não me
perdoaria a mim mesmo essa indignidade.
Permitta-se-me a transcripção do alludido topico, sobre o qual farei ainda
uma pequena observação:
“Desgostou-me que você, na sua prevenção contra a peça, não
comprehendesse, ou melhor, não quizesse comprehender a sua classificação
de peça typica. Por peça typica entendo eu um certo genero de peças em que
figuram e abundam personagens mais ou menos originaes, com seus caracteres
exaggeradamente accentuados e em que prevalece e predomina o exaggero de
uns certos traços que não existem no desenho ou na apresentação commum
115
dos personagens: são typos. O Pum é uma peça typica. Dirá você: “E eu que sem
saber escrevi uma peça typica!”
Pois escreveu, pelo menos a meu vêr.”
Permitta o collega que eu não acceite esse papel de Mr. Jourdain que me
distribue tão á ligeira. “Peça typica nunca foi isso, nem o será emquanto não
reformarem a lingua portugueza. Por emquanto typico só é aquillo que serve
de typo. A rigor póde-se dizer que o Othelo, de Shakespeare, Le Mysantrope, de
Moliere, La vida es sueno, de Calderon, Le mariage de Figaro, de Beaumarchais,
Le demi-monde, de Dumas, La cagnotte, de Labiche, etc. são peças typicas,
– mas não creia, meu caro amigo, que sejam peças typicas os Mil contos, de
Demetrio Toledo e Eduardo Victorino, nem o Pum de Eduardo Garrido e Arthur
Azevedo.
Termino com a publicação da seguinte carta, que se prende ao assumpto:
“Meu caro Arthur. – Peço a palavra para uma explicação.
Na carta que te dirigio, procurando defender-se da critica que fizeste, no
teu folhetim da Noticia, á peça Mil contos, Demetrio de Toledo alludio á scena
do meu Rio Nú, em que os passageiros do bond eletrico levam o lenço ao nariz,
emquanto um personagem exclama: “Quininha, isto se faz no bond?”
Devo dizer-te, a bem da verdade, que não existe na minha peça indicação
ou rubrica de especie alguma, marcando aquelle movimento de parte dos
passageiros.
Fizeram-n’o por sua alta recreação alguns actores (e quantas vezes
collaboram elles!) e como a cousa désse resultado, continuaram a fazel-o.
A phrase, esta, sim, existe; mas escrevendo-a, deixei ao espectador a
liberdade de interpretal-a como quizer.
Demetrio de Toledo, a quem aprecio e de quem sou camarada, não devia,
depois de confessar que não procura imitar quem quer que seja, apadrinhar-se
com o meu Rio Nú, ainda mais lembrando-se de que vêr é uma cousa e fazer
idéa e outra.
E ahi fica a exploração do teu – Moreira Sampaio.”
A. A.
116
O Theatro, 19/08/1897
Lastimo sinceramente que o primoroso escriptor Coelho Netto, sendo,
como é, um espirito esclarecido, provocasse, com a publicação de um artigo no
Correio de Minas, de Juiz de Fóra, o estrondoso protesto que n’este momento é
a nota dominante em o nosso meio theatral.
A nenhum jornalista, uma vez que se sujeite ás respectivas consequencias,
se póde negar o direito de escrever, por mais injusta, por mais absurda que
seja a opinião que fórma d’esta ou d’aquella classe de individuos. Coelho
Netto, porém, estava collocado em situação de não poder assoalhar com
tanta sobranceria o juizo pouco lisonjeiro que lhe merecem os nossos artistas
dramaticos.
Tinha uma peça em ensaios no Recreio, theatro de que são emprezarios o
actor Brandão e a actriz Pepa, e, no emtanto, escreveu isto:”Em uma cidade
onde a Pepa é uma estrella de primeira grandeza e o Brandão um astro fulgido,
a Arte é uma bastardia”.
Pedio a mais de uma empreza que trabalhos seus fossem representados
pelos mesmos artistas que segundo a sua expressão “vieram da tripeça, do
banco de carpinteiro, do torno,das companhias de policia, das ofcinas
dos arsenaes,das plataformas dos bonds, e, sem syntaxe, sem distincção,se
encarregam de primeiros papeis, mettendo os pés pelas mãos com uma
empafia revoltante.” Não se deve olhar para tão longe: Molière foi tapeceiro e
Shakespeare guardador de cavallos.
Eu não venho defender os nossos artistas, que bem mostraram não precisar
de quem os defenda; não venho tão pouco applaudir os excessivos que na
reunião do theatro Apollo disseram cousas que, para honra da classe, não
deviam ter sido pronunciadas; venho defender-me a mim mesmo, porque o
artigo de Coelho Netto me chegou por casa.
Depois de arrastar pela rua da amargura os nossos pobres artistas, que
nenhum mal lhe fizeram e algum bem lhe poderiam fazer, o auctor do Rei
phantasma escreveu o seguinte:
“Tambem para as peças que aqui apparecem só mesmo taes interpretes.
Os chamados escriptores dramaticos, que se impõem, ufanamente, como os
sustentaculos do theatro nacional, que fazem? revistas e magicas, nada mais,e
com taes bambochatas apparecem disputando a corôa immortal.”
Ora, além do Pelo amor!, que eu não conheço, mas que não duvido seja
uma obra-prima, como tanta gente me tem afiançado,Coelho Netto não deu
ao theatro, que me conste, senão uma bambochata intitulada Indemnisação ou
Republica e a traducção de uma comedia de Labiche.
117
Não creio que os trabalhos theatraes cuja representação elle tentou sejam
de uma esthetica mais elevada que a dos generos predilectos do nosso publico,
e não creio por uma razão muito simples: um dia Coelho Netto me confiou
o manuscripto de uma peça de sua lavra e teve a bondade de pedir a minha
collaboração. Eu não lh’a dei por motivos independentes da minha vontade,
mas li a peça, e verifiquei que tinha sido escripta para esse publico bon enfant e
sincero que adora o trocadilho e dá o cavaquinho pelo trololó.
O facto de haver sido honrado pelo insigne romancista com tal convite,
fez com que eu pasmasse diante da sua declaração de não querer tornar-
se “parceiro dos collaboradores da chirinola que tudo sacrificam por uma
pingue porcentagem e calorosos applausos de uma claque de analphabetos de
farandula.”
Se parceria não houve, foi minha a culpa. Quizesse eu, e a estas horas
teriamos ambos comido os mesmos tantos por cento e á custa da mesma
farandulagem.
Não me arrependo de haver escripto peças que, se não agradaram a
espiritos finos como o do cinzelador das Balladilhas(nem essa ambição
eu nunca revelei), tiveram, pelo menos, o merito de divertir o publico e
proporcionar a algumas familias meios seguros de subsistencia honrada.
Se não procuro os nossos empresarios para lhes pedir que me ponham em
scena uma peça litteraria, é porque a exhibição desse trabalho necessariamente
aproveitaria apenas á minha vaidade. Não quero adquirir fama nem satisfazer
os meus caprichos de artista com sacrificio dos interesses alheios. Porisso
reclamo ha tanto tempo um theatro ofcial.
Coelho Netto sabe perfeitamente que eu tenho feito varias tentativas
dignas de certa consideração. Lembro-me que uma das minhas traducções
de Molière, feita em verso, mereceu da sua penna de ouro elogios que me
captivaram para sempre.
E a prova de que, mesmo na alta sociedade fluminense,não sou
considerado, como Coelho Netto me considera no seu artigo do Juiz de Fóra,
um reles auctor ad usum de analphabetos de farandula, é que o nosso collega
Luiz de Castro, em nome dos distinctos amadores do Cassino, me pedio que
escrevesse uma comedia para acompanhar o Pelo amor.
Escusei-me allegando que não tinha agora tempo nem vagar para produzir
um trabalho digno de figurar em tão honrosa companhia, mas Luiz de Castro
insistio, dizendo-me que, pelo menos, adaptasse á scena brazileira uma
comediasinha fanceza que elle escolheu. Obedeci, – e como lhe fizesse ver que
não desejava figurar no programma, o nosso amavel collega disse-me: Nós
fazemos questão do teu nome.
118
Já vê Coelho Netto que o meu nome não ficou tão aviltado como lhe
parece, pelas abençoadas porcentagens a que devo, talvez, o futuro dos meus
filhinhos.
Amanhã irei ao Cassino Fluminense, não como auctor de bambochatas que
dispute a “corôa immortal”, mas como simples espectador desejoso de que o
poema dramatico Pelo Amor! marque o inicio de uma era de prosperidade para
o theatro brazileiro, e seja, efectivamente, digno dessa outra corôa, tambem
immortal,que vae ser oferecida a Coelho Netto.
***
Andam na baila as comedias manuscriptas de Luiz Carlos Martins Penna
que existem na Bibliotheca Nacional.
A livraria Garnier pretende fazer uma edição das obras completas do nosso
grande comediographo, e pedio ao governo permissão para mandar copiar,
n’aquelle estabelecimento, algumas d’aquellas comedias, que nunca foram
impressas.
A permissão foi concedida, mas a filha de Martins Penna, que fizera doação
de taes manuscriptos ao Estado, por seu turno pedio que elles lhes fossem
restituidos, e o governo accedeu.
A Gazeta de Noticias pronnunciou-se contra a restituição, e o ministerio da
justiça ouvio a esse respeito a directoria da Bibliotheca Nacional. Está n’isso a
questão.
Se os manuscriptos devem ser publicados tanto me faz que estejam aqui
ou alli, comtanto que não os percam. A minha questão é outra: Martins
Penna publicou a maior parte das suas comedias, e,se algumas deixou de
publicar, foi naturalmente porque teve para isso razões que talvez devam ser
respeitadas. Parece-me que, antes de mandar os manuscriptos para o prélo,
seria conveniente confial-os a alguem que os examinasse com toda a attenção,
e verificasse – o que não seria difcíl – o fundamento dos escrupulos do
auctor, que os conservou inedictos. A Academia Brazileira de Lettras, a que
pertence Sylvio Romero, auctor de um brilhante estudo sobre Martins Penna,
recentemente publicado, poderia encarregar-se d’essa tarefa.
É o que eu proponho, e tão obvios são os motivos da minha proposta, que
me abstenho de justifical-os.
***
Nos theatros não ha nada novo, a não ser a reabertura do Recreio, pela
companhia Pepa e Brandão, com a reprise do Abacaxi. O theatrinho está limpo,
elegante, pintado e sarapintado de novo e a revista foi tão applaudida que
parecia uma peça nova. O Variedades annuncia para amanhã outra reprise: a
119
do immorredouro Tim tim por tim tim, e o Sant’Anna uma peça nova (Emfim!),
A segunda mulher do Tancredo, cuja 1ª representação será dada em benefico de
Lucilia Simões.
A. A.
120
O Theatro, 26/08/1897
No Sant’Anna, a companhia dramatica portugueza dirigida por
Lucinda Simões deu-nos em primeira representação a peça em 4 actos do
conhecido dramaturgo inglez Arthur Pinero, intitulada The segond mistress
Tanqueray,traduzida por Henrique Chaves com o titulo A segunda mulher.
Todo o interesse d’esta comedia intima, conscienciosamente escripta, sem
a menor preoccupação de efeitos scenicos nem de situações emociontantes
(deixem passar esse adjectivo barbaro), concentra-se n’um typo de mulher
nevrotica, desenhado,sombreado e colorido com extraordinaria segurança
de mão. Paula Tanqueray, que veio augmentar a opulenta galeria feminina
do mundo da ficção, é de uma psychologia meticulosa e penetrante. Tanto
assim, que as maiores actrizes da nossa epoca têm-se deixado tentar por esse
personagem. Afrontando-o, Lucinda Simões não fez mais que obedecer a um
movimento do seu amor proprio, estimulada, talvez, pelo exemplo das suas
illustres collegas.
Infelizmente a insigne artista foi obrigada a estudar em poucos dias esse
personagem, que necessariamente reclama uma interpretação longamente
preparada; o seu trabalho sahio um pouco pallido, e só n’uma ou n’outra scena
conseguio vibrar com a intensidade precisa. Espero, entretanto, que, depois de
assenhorear-se definitivamente do seu papel, e esmiuçal-o phrase por phrase,
Lucinda se torne uma das melhores interpretes de Paula Tanqueray.
Convém observar que desta vez ella foi mal acompanhada pelos seus
collegas do Sant’Anna; a peça foi geralmente mal representada, embora
Christiano de Souza fizesse o possivel para valorisar um tolo com quem todos
os espectadores antipathisavam,e Telmo Larcher procurasse por todos os meios
e modos, sem o conseguir, tornar interessante um Desjenais palavroso.
A segunda mulher pertence a essa categoria de peças que não passam
áquem da ribalta,em não havendo certa egualdade no desempenho de todos os
papeis. É preciso que os artistas sintam os cotovellos uns dos outros, como diz
uma figura muito usada pelo mestre Sarcey, que é ainda, em que pese aos seus
detractores, um grande evangelisador em materia de theatro.
***
No Recreio tivemos uma reprise dos Vinte e oito dias de Clarinha, opereta
que é ouvida sempre com muito prazer pelo nosso publico; no Apollo revezam-
se os espectaculos com Zoé e o Bico do papagaio; no Variedades, depois de uma
reprise infructifera do Tim tim por tim tim, voltaram á scena os Dois garotos; e
121
no Eden Lavradio a companhia infantil representa os Sinos de Corneville, o que
é o cumulo da extravagancia. Se me dizsessem que um menino,
Das faixas infantis despido apenas,
viria augmentar a considerabilissima lista dos Gaspares que temos visto
em os nossos palcos, eu encolheria os hombros, dizendo: – Isso é lá possivel!
–; mas a pouco e pouco me tenho convencido, infelizmente, de que nada é
impossivel nos theatros do Rio de Janeiro.
***
Graças á empreza do Variedades, á Caixa Beneficente Theatral, aos
professores e alumnos da Escola Nacional de Bellas Artes, e á imprensa,
não passou despercebido ante-hontem, 24 de agosto, o 34º anniversario do
fallecimento de João Caetano. Eu tomei parte nessa consagração, publicando
no Paiz um esboço biographico do primeiro artista dramatico brazileiro.
O deploravel incidente Coelho Netto determinou este anno uma explosão
de respeito,pela memoria do grande artista, maior que nos outros annos, – e
comprehende-se perfeitamente que os nossos actores procurem, contra as
injustas accusações de que foram victimas, a egide augusta daquelle morto que
tanto honrou e ennobreceu a classe.
Reunam-se na mais estreita solidariedade á sombra do nome illustre de
João Caetano todos quantos vivem do theatro e para o theatro,amem-se,
respeitem-se, ajudem-se todos uns aos outros, lancem ao desprezo absurdas e
gratuitas injurias, attaquem de frente o preconceito, imponham-se á sociedade,
sejam dignos da arte do theatro, que é a mais bella das artes,e a profissão do
actor será tão considerada pelo povo como a dos funccionarios mais altamente
guindados na administração da Republica.
***
Abro espaço n’estas columnas á seguinte carta, visivelmente escripta por
pessoa que se interessa pelo theatro:
“Sr. A. A. – A extraordinaria bulha levantada pela imprensa sobre o Pelo
Amor! do illustre escriptor brazileiro Coelho Netto, que um grupo de amadores
chefiados pelo Sr. Luiz de Castro, pretende representar no Cassino,na noite
de 24 do corrente, suggere-me algumas considerações que submetto á
reconhecida e provada competencia de V. em assumptos de arte dramatica.
Não figurassem no elenco (posso chamar-lhe assim?) nomes conhecidos
na haute gomme fluminense e outro, que não o tem tido, seria o procedimento
da imprensa, tão parca de elogios para uns, tão prodiga para outros. Ponho
de parte o merito das peças que vão ser exhibidas, pois desde já, inda antes de
ouvil-as, creio sejam dois primores, baseado nos nomes que firmam o arreglo
122
e o original, e entro francamente no assumpto que é o ponto capital das mal
alinhavadas regras que me animo a dirigir-lhe.
Ha na capital algumas associações, cujos principaes intuitos são
proporcionar aos seus socios diversões dramaticas por amadores. Amadores?
Que disse eu?! A calcular pelo silencio da imprensa, de que é sem duvida V. um
dos mais operosos obreiros, eu deveria talvez escrever antes – curiosos – pois
que o termo-amadores – indica algo de mais elevado. Entretanto se V. e mais
alguns, poucos, que tomam a serio estas questões de arte, se quizessem dar
ao incommodo de assistir a algumas recitas, representando os jornaes em que
escrevem, como já fez uma vez no club da Gavea, teria occasião de verificar
que não só n’este, mas tambem nos clubs do Engenho Velho, Riachuelo e
Gymnastico Portuguez, ha curiosos e talvez amadores de algum merito.
V. sabe perfeitamente que no palco perde-se o feitio e que só a pratica o faz
novamente adquirir; porque, pois, tão extraordinarios elogios, tão retumbante
reclame para curiosos de hoje, e tão sepulchral silencio (deixe passar a
chapa á Soares de Passos) para os curiosos de hontem? Em todos os ramos
da actividade humana ha os que trabalham por necessidade, por amor e por
curiosidade; o theatro é, talvez, de todos elles, o que mais facilmente fascina;
o polvo enorme estende os tentaculos a todas as classes sociaes; vae buscar
as suas victimas á rua e á ofcina,á ofcina e á sala; Umas, prendem-se para
sempre ao algoz que as martyrisa e afaga e fazem-se – actores de profissão;
vão pelo talento e pelo estudo ás culminancias da arte ou vegetam ignoradas
entre bastidores, luctando pela vida no labutar quotidiano; Outras, fogem á
profissão, mas não fogem á seducção e dedicam com amor as horas de ocio
ao cultivo da arte adorada e estudam e cansam-se e representam emfim! São
applaudidos e com isso julgam-se bem pagos de muitas noites de trabalho
assiduo e violento. Mas a imprensa limita-se a dar a noticia que lhe mandam –
já feita; posso afrmal-o e proval-o –, e n’isso se resume tudo.
Porque não inicia V. uma campanha séria no sentido de fazer aos amadores
uma critica justa, animando-os e corrigindo-os quando errem? Um cartão
permanente de cada uma das sociedades dramaticas,uma critica justa depois
de cada uma das representações e terá V. prestado talvez um grande serviço
mais á arte dramatica. Quantos futuros gloriosos artistas não se lembrariam de
que fora V. quem lhes abrira de par em par as portas da... immortalidade?
É na noite de 24 a representação de Uma senhora illustrada e do Pelo Amor;
sem medo, sem receio diga V. aos distinctos principiantes a verdade inteira.
Siga depois para os demais clubs dramaticos e veja sem piedade, diga a todos
as suas impressões sem benevolencia, mas com justiça, que terá os applausos
de todos os que ainda se interessam por estas cousas de arte.
123
Tudo a uns e nada a outros; é muito... e é pouco.
Rio, 23 de agosto de 1897.
De V. etc. – Gilberto Clèment.”
Peço ao meu amavel correspondente que considere como uma resposta á
sua carta o final da noticia da festa do Cassino, que escrevi para esta folha e foi
publicada hontem. Nos espectaculos de curiosos e amadores a critica perde os
seus direitos.
E, quando os não perdesse,imagine-se que independencia poderia haver
na apreciação desses espectaculos e que milhão de difculdades de estylo seria
necessario sobrepujar para dizer dous terços da verdade a uma senhora da
haute gomme, como lhe chama o Sr. Gilberto Clement!
Se os actores de profissão, que representam por dinheiro, são de uma
susceptibilidade que me obriga a escolher termos que os não melindrem,
phrases que os não magoem, adjectivos que attenuem outros adjectivos, os
amadores, esses me fariam ficar com a penna eternamente suspensa sobre o
papel, sem se atrever a garatujar uma lettra.
Á primeira observação desagradavel que eu fizesse a respeito da Exma Sra.
Dona ***, sua Ex. logo exclamaria: – Este sujeito trata-me como se eu fosse
uma actriz!
Nada,meu caro Sr. Gilberto Clément; prefiro não embarcar nessa galera. Já
não me faltam motivos de aborrecimento.
A. A.
124
O Theatro, 02/09/1897
Reappareceu no Sant’Anna o Demi-Monde, que incontestavelmente é a obra
prima de Dumas Filho.
A primeira representação d’esta interessante réprise foi dada em beneficio
de Lucinda Simões, que todos nós sabemos quanto vale no difcilimo papel
da baroneza d’Ange, o seu melhor papel, aquelle em que mais vibra o seu
peregrino talento de comediante. O tempo não modificou, felizmente, os
extraordinarios recursos da actriz, e Lucinda hoje mostra precisamente os 30
annos de idade que devia ter a elegante aventureira quando cubiçava o nome
honrado do ingenuo Raul de Nanjac.
Os demais artistas que se prestaram a esta piedosa exhumação dramatica,
fizeram a melhor figura ao lado da sua insigne collega; é de justiça, entretanto,
mencionar especialmente Lucilia Simões, que deu ao papel de Marcellina um
relevo que nunca teve nos palcos da nossa terra.
Christiano de Souza, que tinha de luctar com a recordação esmagadora
de Furtado Coelho, a encarnação artistica mais completa e mais definitiva de
Olivier de Jalin, desde a primeira scena conquistou o auditorio pela correcção
com que representou esse personagem, um dos mais bellos do theatro francez
contemporaneo.Mas quem vio Furtado Coelho representar Olivier de Jalin,
quem ouvio, no 2º acto da peça, explicar a Raul de Nanjac o que é o Demi-
Monde e se deliciou com o famoso couplet dos pecegos, declamando com
aquella impeccabilidade de dicção que tanto o distingue entre os mais notaveis
actores da lingua portugueza, não póde admittir outro Olivier de Jalin que não
seja elle.
N’isto não vae nenhum reparo malevolo contra Christiano de Souza,
artista de grande futuro, que faz bem afrontando os mais difceis papeis e
submettendo-se, com uma audacia sympathica,aos mais perigosos confrontos.
Sem essas resoluções, nenhum artista de theatro, tenha a disposição que tiver,
passará jámais da cepa torta.
***
Poucas noites antes da réprise do Demi-Monde assisti, naquelle mesmo
theatro, á primeira representação dos Amantes legitimos,comedia parisiense
em 3 actos, de Ambroise Janvier e Marcel Ballot. Sahi satisfeitissimo.
A peça participa dos dois generos – comedia e vaudeville; tem scenas de
uma observação espirituosa e fina, a par de algumas extravagancias de farça,
mas deixa uma deliciosa impressão na alma do espectador.
125
Os auctores tiveram a habilidade de inventar um typo de sogra, e sabe Deus
quanto lhes custou encontrar alguma cousa nova, n’um veio tão longamente
explorado. Esse papel,confiado a Lucinda Simões, foi representado com
extraordinaria finura; deve ser citado como um dos bons trabalhos da eximia
interprete da baroneza d’Ange. De resto,Lucilia, Christiano, Setta, Cardoso,
Bellardo e Laura de tal modo se houveram, que talvez se possa afrmar que,de
todas as peças até hoje representadas pela companhia do Sant’Anna, é esta a
que tem tido um desempenho mais homogeneo.
– Aos Amantes legitimos servio de lever de rideau o Cabello branco, de
Octave Feuillet, uma comediasinha que já tem cabellos brancos, mas é e será
sempre ouvida com muito prazer.
***
Não sahirei do Sant’Anna sem convidar os leitores para assistirem ao
espectaculo que amanhã se realizará nesse theatro em beneficio da prestismosa
actriz Encarnação Reis, – e creiam-me: nunca houve mais espontaneo réclame.
Sei que essa artista se tem queixado da severidade com que a trato, e eu
quero mostrar-lhe que nenhuma má vontade existe de minha parte contra ella.
Em vez de se queixar de mim, Encarnação, que é uma actriz dramatica,
deveria queixar-se da fatalidade que a tem levado a desempenhar quasi
exclusivamente papeis caricatos, que não estão na sua indole e com os
quaes não se compadecem nem a sua voz lacrimosa, nem o seu aspecto
juvenil. Quando Encarnação fazia parte da companhia Amelia Vieira, onde
representava muito discretamente os papeis do seu genero, não lhe faltaram
nunca os meus encomios.
Eu tenho o costume de não mentir aos meus leitores todas as vezes que dou
a minha opinião individual sobre qualquer assumpto. Esta independencia de
caracter nem sempre é commoda, bem sei: ainda ha poucos dias, segundo li no
Jornal do Brazil, servi de divertimento publico por não ter pedido emprestada a
opinião do visinho; mas que querem? – pagam-me para escrever a verdade ou
o que eu supponho ser a verdade,e,quando não a escrevo, resta-me ao menos a
consolação de me haver enganado a mim mesmo antes de enganar os outros. A
natureza fez-me grosso, mas graças a Deus não me fez engrossador.
***
O caso é que me sinto feliz todas as vezes que as minhas verdades só pódem
ser agradaveis, e é por isso que a minha penna vae deslisar gostosamente sobre
o papel, tratando da primeira representação da comedia Ha caça... e caça. É tão
bom dizer bem!
126
Não sei se a empreza do Apolo apanhou um successo de bilheteria: o
publico anda arredio das peças em que não haja maxixe e fogo de bengala...
Entretanto, o exito da primeira representação foi estrondoso e parecia
annunciar uma serie de trinta enchentes, pelo menos.
Tenho que dizer bem dos auctores, Desvallières e Feydeau, que, escrevendo
Monsieur chasse, deram mais uma prova da extraordinaria habilidade, da graça
hilariante, da turbulenta fantasia que haviam mostrado aos fluminenses no
Hotel do Livre Cambio e no Champignol á força;
Tenho que dizer bem do meu bom collega Acacio Antunes, que foi
felicissimo na traducção, desde o titulo até a ultima scena;
Tenho que dizer bem de cada um dos artistas encarregados de todos os
papeis: Mattos e Peixoto, tão bem concertados para a delicia do publico;
Nazareth, correctissimo,dando a prova real de um merecimento que tem
passado um tanto despercebido; Gabriella Montani, Elisa de Castro,Campos,
Barbosa,todos,emfim, que todos paceciam ajustados para protestar com o seu
trabalho e o seu talento (protesto mais persuasivo que todos os manifestos
possiveis) contra a opinião do illustre escriptor que os collocou abaixo dos
amadores de salão;
Tenho, finalmente, que dizer bem de Adolpho Faria, cujo enthusiasmo
de artista e zelo de ensaiador não arrefecem nem com a idade, nem com a
pobreza, nem com o azedume de ver perdido um ideal sagrado.
A magnifica representação de Ha caça... e caça prova exuberantemente
que as peças deste genero, como de todos os outros, exigem o maior numero
possivel de ensaios e não devem ir para a scena de afogadilho. O successo
persistente do Bico do Papagaio consentio que a comedia fosse ensaiada como
devia ser; é pena que ao Champignol, por exemplo, não succedesse a mesma
fortuna.
A isto me responderão, talvez, que uma companhia não póde estar parada,
e uma empreza não deve sacrificar muito tempo a uma peça que não lhe inspira
grande confiança por não ter apotheoses nem trólóló. Já cá não estará quem
fallou.
***
No Recreio a companhia Pepa e Brandão fez uma reprise dos Vinte e
oito dias de Clarinha, e emquanto prepara novas attracções revesa os seus
espectaculos com essa opereta, o Capitão Lobishomem e o Abacaxi, e o
Variedades annuncia para hoje a primeira representação do Regimento, um
drama militar que alcançou grande successo em Paris.
***
127
Os nossos artistas dramaticos mandaram-me ante-hontem um delicado
mimo, agradecendo algumas palavras que escrevi em defesa da sua classe.
Acceitei commovido essa honra, que considero excessiva: elles têm feito tanto
por mim, têm sido para mim tão bons companheiros de trabalho, têm me
ajudado tanto a viver, que, postos os nossos serviços reciprocos nas conchas de
uma balança, os meus pesariam mil vezes menos. Este mimo faz com que eu
perca definitivamente a esperança de equilibrar as conchas.
Reflecti longamente nos meios de retribuir a gantileza, e, depois de muito
matutar, lembrei-me de oferecer aos nossos artistas, – para ornamento do
salão da Caixa Beneficente Theatral – o retrato de João Caetano.
Pintado a oleo, em tamanho natural, esse retrato é um dos primeiros
trabalhos (primeiros em data) do nosso Victor Meirelles, e foi oferecido ao
grande artista em 1857. João Caetano conservou-o na sua sala até morrer.
Ocioso é dizer que tenho grande estima por esse quadro, aliás adquirido
em leilão por uma somma irrisoria;mas é de todo o coração que o ofereço aos
nossos artistas.
Vicente,o activo procurador da Caixa, póde vir ou mandar buscal-o quando
quizer.
A. A.
128
O Theatro, 09/09/1897
Tivemos no Variedades a primeira representação de uma peça militar, em
5 actos e 7 quadros, o Regimento, de Jules Mary e Georges Grisier, traduzida
por um escriptor portuguez que não se mostrou sufcientemente familiarisado
com a lingua franceza. Quando os nossos collegas de Portugal nos mandam
traducções conscienciosas como a dos Amantes legitimos,não tenho senão que
os louvar,mas quando nos mandam trabalho de fancaria como a traducção
do Regimento, o meu dever é lastimar que as nossas emprezas não recorram á
prata de casa, incontestavelmente de melhor quilate.
A peça do Variedades não tem attrahido grande concurrencia, o que não
quer absolutamente dizer que não seja uma das mais curiosas de quantas do
seu genero se têm exhibido nestes ultimos tempos em os nossos theatros. O
enredo não é formidável de engenho nem de originalidade, mas as situações
dramaticas estão bem preparadas, os episodios são pittorescos e não lhe falta o
elemento comico, sem o qual não ha dramalhão que resista.
Comprehendo que a peça não produza no Rio de Janeiro o mesmo efeito
que produzio em Paris, devido principalmente ao cuidado que os auctores
tiveram de armar ao enthusiasmo das platéas populares, mettendo em scena
um regimento inteiro; mas não comprehendo que o publico fluminense – e
quantas vezes tem elle commettido essa injustiça! – condemne um drama sem
saber o que elle é nem o que vale.
Accresce que a empreza do Variedades poz em scena o Regimento, senão
com luxo, ao menos com certo capricho, e que todos os papeis estão menos
mal representados, sobresahindo na parte dramatica Ismenia,Dolores de
Lima,Galvão,Sepulveda, Veiga, Leal e Grijó, um estreiante de muita habilidade,
que fez as suas primeiras armas em S. Paulo, – e na parte comica o mesmo
Galvão (pois que o seu papel participa dos dous generos), Branca de Lima,
Leite, Zepherino e Rocha.
De passagem digamos que estes dous ultimos artistas realisam hoje o seu
beneficio, e que são dignos dos applausos e da protecção do publico.
Voltando ao Regimento,convido os leitores a assistirem á representação
desse drama, que lhes não recommendo – oh, não! – como uma obra de
arte,mas como um trabalho mais interessante que outros de muita fortuna em
os nossos palcos.
***
129
Nos outros theatros nada de novo: no Apollo e no Recreio preparam-se
peças novas, que subirão á scena durante a proxima semana, e os annuncios
do Sant’Anna promettem para amanhã o Romance de um moço pobre, uma
das peças que o nosso publico mais aprecia, e que ha muito tempo não é
representada nesta capital.
Essa primeira representação é dada em beneficio de Telmo Larchez,
que terá em Bevalan um personagem bem amoldado ao seu temperamento
artistico.
Teve o beneficiado a gentileza de oferecer a festa aos seus collegas do
Brazil, os quaes, reconhecidos, lhe oferecerão, por seu turno, uma bonita
medalha de ouro,delicada lembrança que será muito agradavel ao distincto
actor portuguez.
E, já que estou com a mão na massa dos beneficios, lembrarei aos leitores
que na proxima terça-feira se realisará o do actor Setta da Silva, uma das
figuras mais sympathicas da companhia do Sant’Anna, e a quem muito
estimo, por ter sido, ha mais de vinte annos, o artista que mais me estimulou
no começo da minha obscura carreira de escriptor theatral. N’esse tempo
trabalhava elle na Phenix e era tambem um principiante, mas um principiante
que já se mostrava muito disposto a vir a ser o artista que é. Faço votos para que
o meu velho companheiro de trabalhos e de esperanças tenha a satisfação de
ver o theatro completamente cheio por occasião da sua festa.
***
O meu collega e amigo Luiz de Castro penhorou-me com generosas
referencias feitas á minha pessoa nas suas ultimas Artes e manhas, da Gazeta de
Noticias; mas ao mesmo tempo escreveu alguma cousa que eu peço licença para
rebater em tom de boa camaradagem.
Queixa-se o collega de que eu, tendo combatido com louvavel
tenacidade,durante muitos annos, em favor do theatro nacional, mostrasse tão
moderado enthusiasmo pela sympathica tentativa dos amadores do Cassino,
e não encontrasse palavras de animação para ella, nem antes nem depois da
representação do Pelo Amor!
Ora, o collega ha de estar lembrado que, oito ou dez dias antes da
exhibição do bello poema dramatico de Coelho Netto, escriptor notavel a
quem nunca regateei os applausos mais sinceros e mais expontaneos,desde a
publicação do seu primeiro livro, eu disse-lhe,em conversa, que confiava no
exito da tentativa, e ia escrever nesse sentido, recommendando o espectaculo
com todo o ardor com que pudesse aquecer a minha prosa.
130
No dia seguinte, eu escorvava a penna e punha os adjectivos de
promptidão, quando me cahio sob os olhos o malfadado numero do Correio de
Minas,em que Coelho Netto me arrastava pela rua da amargura, collocando-
me entre “os collaboradores da chirinola, que tudo sacrificam por uma
pingue porcentagem e calorosos applausos de uma claque de analphabetos de
farandula”. A phrase me ficou de cór.
Metta o collega a mão na consciencia e diga se eu tinha o direito de
animar uma tentativa a cuja frente se achava o jornalista que fazia de mim
tão deploravel conceito; torne o collega a metter a mão na consciencia, e diga
se, terminada a festa, me ficaria bem assoalhar um enthusiasmo cheio de
hypocrisia e de humilhação.
Encarregado pela Noticia de relatar a festa, fil-o com toda a dignidade,
sem negar o incontestavel merecimento do trabalho de Coelho Netto. Apenas
observei que lhe faltava aquillo a que o auctorizado critico do Jornal do
Commercio chama theatralidade.
Depois d’esse artigo – nunca o Rochinha se lembrasse de me mandar
ao Cassino! – desencadearam-se tantos odios contra mim,que até de judas
me fizeram n’um sabbado que felizmente não era o de alleluia. Sofrida
essa provação, que a mocidade das nossas escolas reservou, que me conste,
unicamente a dois reprobos – eu e o Dr. Fort –,seria preciso que eu fosse
realmente um judas, para entoar lôas a uma tentativa que me custava tão caro.
Luiz de Castro refere-se tambem a uma parodia do Pelo Amor! que se acha
em ensaios no Recreio Dramatico, e, depois de me attribuir essa producção,
escreve o seguinte:
“Eu bem sei que as obras mais bellas têm sido parodiadas; nem na
minha observação vae,a bem dizer,uma censura. Pelo contrario, penso que a
parodia será excellente reclame ao poema de Coelho Netto e é uma prova do
merecimento do Pelo Amor! Lastimo apenas que,em uma terra como a nossa,
em que a arte theatral tanto decahio, a primeira tentativa que se faz para o seu
resurgimento seja logo parodiada justamente pelo homem que mais se tem
batido em favor do theatro municipal.”
Ninguem se acha auctorisado a dizer que eu seja o auctor da parodia; mas,
quando o fosse, nada teria que ver com isso o facto de me haver batido pelo
theatro municipal. Não, não sou eu o parodista: mas, como o actor Brandão
me deu a ler o manuscripto, posso afiançar o meu collega que o trabalho é
inofensivo, tendo, aliás, o seu valor litterario, porque está escripto em versos
rigorosamente metrificados.
131
O auctor, que não sei quem é, não teve outro intuito senão fornecer aos
artistas do Recreio uma peça que talvez possa – quem sabe? – attrahir o publico
durante algumas noites. Está visto que se Coelho Netto não fosse alguem e o
Pelo Amor! não fosse alguma cousa, o poeta não escreveria o Amor ao pello. É
este o titulo da tal parodia.
A. A.
132
O Theatro, 16/09/1897
Luiz de Castro declara que a minha resposta de quinta-feira passada não o
satisfez. Hão de convir que o meu bom collega é bem difcil de contentar.
Analysemos o seu folhetim ponto por ponto:
“Tenho notado com pezar, diz elle, que A. A. nunca perde occasião de se
referir ao artigo de Coelho Netto publicado no Correio de Minas.” Que diabo!
sem taes referencias eu não poderia dar a explicação que Lulu Junior provocou.
Esse artigo, accrescenta elle para esclarecer um ponto,”foi escripto ha mais
de seis mezes e publicado na Folha do Norte do Pará, de que Coelho Netto é
collaborador”. Se o collega não o dissesse, eu não o acreditaria, porque o artigo
começa por estas palavras: – “A proposito do meu poema dramatico Pelo Amor,
escripto expressamente para ser desempenhado pelos amadores do grupo
‘Coração de Jeus’, etc” – e ha seis mezes não estava ainda resolvido que esse
trabalho fosse representado no Cassino.
E depois de se admirar da coincidencia do artigo só ser conhecido nas
vesperas da representação do Pelo Amor, escreve Luiz de Castro que lhe
afiançaram ter sido um collega de imprensa quem levara ao theatro Apollo o
famoso numero do Correio de Minas. Ignoro quem fosse o ofcioso collega; eu,
que nunca leio os jornaes do Pará nem os de Juiz de Fóra, só tive noticia do
artigo pelo actor Portugal e isso depois de convocada a reunião do Apollo.
Luiz de Castro compara á resposta que lhe dei o acto do collega que lançou
fogo ao paiol da polvora, e diz que nós ambos somos humanos, generoso
euphemismo de invejosos. Como o folhetinista das Artes e artimanhas me
conhece mal! Creia; meu amigo, creia que eu só tenho inveja dos moços de
vinte annos, porque ter vinte annos é a maior fortuna de um homem.
Diz Luiz de Castro não saber em que me baseei para tomar á minha
conta as amabilidades que Coelho Netto dirigio aos “chamados escriptores
dramaticos que aqui se impõem, ufanamente, como os sustentaculos do
theatro nacional, e só fazem revistas e bambochatas”. Isso agora seria
ingenuidade se não fosse ronha... Ronha,sim senhor! Leiam as palavras que ahi
ficam aspeadas e digam se eu poderia deixar de tomar para mim a carapuça.
Demais, o talentoso chronista falou dos “collaboradores de chirinola, que tudo
sacrificam por uma pingue porcentagem”, e no Rio de Janeiro só dois auctores,
que me conste, têm se feito pagar pelos emprezarios com porcentagens sobre
a receita bruta dos espectaculos: Moreira Sampaio e eu. Ora, humano seria eu
se deixasse que o meu velho companheiro e amigo fosse o unico a servir-se da
carapuça, que é elastica.
133
“O que eu sei é que tambem eu tenho escripto para o theatro, diz Luiz de
Castro, e nem um só instante me passou pela idéa que aquillo fosse commigo”.
O mesmo não diria o collega se já estivesse representada a peça que escreveu
com Moreira Sampaio e que vae ser exhibida no theatro Apollo, peça que o
collocará, fatalmente, no rol dos “collaboradores da chirinola”. Mas não faça
caso: sejam boas as porcentagens e deixal-os fallar!
Luiz de Castro admira-se de me ter visto conversando fraternalmente com
Coelho Netto, e de ter lido, no dia seguinte, uma referencia, escripta por mim,
ao famoso artigo de Juiz de Fóra... ou do Pará! Acha tambem isso humano (o
collega embirrou com o tal humano!), mas não sei, realmente, o que tenha uma
cousa com outra. Desde o principio desta questão nunca escrevi uma unica
palavra que pudesse melindrar Coelho Netto, e as minhas veleidades litterarias
são tão insignificantes, que não considero o seu artigo motivo para eu deixar
de fallar-lhe. Como escriptor fiquei magoado, confesso, mas não como homem
particular, porque ha em mim duas entidades distinctas, e eu não sacrifico uma
á outra.
O proprio collega é o primeiro a dizer que nós, jornalistas,devemos “pôr
de parte os nossos resentimentos pessoaes e collocar-nos acima das paixões
mesquinhas”.
Passo por alto os periodos em que o folhetinista insiste na idéa de que
eu devia, antes e depois da representação do Cassino, animar a sympathica
tentativa. Dessa arguição me defendi tão longamente, que ocioso me parece
voltar á carga. Luiz de Castro é de parecer que eu poderia, sem humilhação,
soltar foguetes á festa, e eu continúo a pensar o contrario. São modos de vêr.
Posso estar enganado (errare humanum est),mas, até segunda ordem do meu
caracter e do meu bom senso, não me accusarei de nenhum máo procedimento.
Queixa-se o auctor das Artes e artimanhas de que eu me esqueci de acudir
ao seu appello de escrever para os amadores do Cassino uma comedia em
verso e o libretto de uma opera, afim de ser posto em musica por Alberto
Nepomuceno.
Ora, meu caro collega, já que insiste sobre esse ponto e me estimula a
fallar, como dizia aquelle delicioso Mal das Vinhas, de hilariante memoria,
conversemos amistosamente:
O collega pedio-me que escrevesse uma comedia original para os distinctos
amadores do Cassino. Accedi promptamente a esse pedido, que me lisonjeou
devéras, e escrevi, com efeito, uma comedia,que não me animei a apresentar
por não me ter parecido sufcientemente na altura da situação, – o que prova
ter eu tomado a tentativa a serio. Disse com toda a franqueza ao meu collega
que não dispunha do tempo material para fazer um trabalho reflectido, que
134
pudesse acompanhar, sem desdouro para o meu pobre nome, um trabalho de
Coelho Netto, escriptor reputado, estylista de pulso.
O meu collega pedio-me então que lhe traduzisse uma pequena comedia
de Valabrégue, e eu, sentindo – pois não tenho nada de tolo – o ridiculo que
me traria o figurar com uma traducçãosinha ao lado do poema dramatico do
eminente confrade, não me animei, comtudo, a dizer que não, e submetti-me:
traduzi a comedia e assignei o trabalho. O collega tivera a bondade de me
declarar que fazia questão do meu nome.
Representou-se a comedia e o publico rio-se, o que quer dizer que ella
preencheu o fim a que se destinava. Todavia, tratando-se de repetir o mesmo
espectaculo, a comedia desappareceu do annuncio. Desappareceu porque? Por
ter desagradado? Não. Por ser indigna do selecto auditorio? Não. Por ser de
Valabrégue? Não. A comedia desappareceu do annuncio pura e simplesmente
por ter sido traduzida por mim, – ora ahi está!
Pelo menos, o meu trabalhinho foi condemnado, sem que nenhuma
explicação me dessem...
Depois disto, é, pelo menos, para estranhar me peçam librettos de opera
e comedias em verso. Eis o que eu não quiz dizer ao meu bom collega Luiz
de Castro quando respondi ás suas Artimanhas da semana passada, e o que
digo agora, fazendo uma pequena violencia a mim mesmo. Entretanto, estou
prompto, desde que seja este o desejo do Centro Artistico,a escrever o libretto
e a comedia que o meu bom collega exige num convite que,não obstante ser
muito amavel, tem os seus ares de desafio.
Luiz de Castro gasta muitas linhas do seu folhetim com o Amor ao pello; diz
estar aliviado de um grande peso,por ter eu declarado não ser o auctor dessa
insigne pachouchada, e até me dá os parabens, – que não acceito, porque,
repito, a parodia tem muita graça. Póde ser que não agrade ao publico, mas
tem graça, e os versos são cousa supimpa.
O auctor guarda o mais rigoroso incognito; o manuscripto foi
mysteriosamente enviado ao actor Brandão pelo correio; a obra tanto póde
ser minha como do proprio Luiz de Castro, que talvez – quem sabe? – tenha
escripto o Amor ao pello e esteja agora a divertir-se á minha custa. Se é sua
obra, dou-lhe por meu turno os parabens.
O caso é que a pachouchada me agradou tanto que me ofereci para dirigir
os ensaios, e já fiz a marcação. Será representada terça-feira proxima, e não
ofenderá, afianço, o melindre nem a susceptibilidade de quem quer que seja.
***
135
E, se permitte o meu bom collega Luiz de Castro, deitemos ponto final
n’esta questão, que não creio possa interessar profundamente aos leitores da
Gazeta nem aos da Noticia.
Não foi para isto que o Rochinha me incumbio de encher ás quintas-feiras o
rodapé da sua folha.
Veja o collega que sou obrigado a deixar no tinteiro o movimento theatral
da semana, e com elle nada menos de cinco primeiras representações: a Criada
de Perona, Esposa e Virgem e Mata-a, ou ella te matará, no Variedades, e Vade
retro,Satanaz! e Uma Senhora Illustrada, no Recreio.
A. A.
136
O Theatro, 30/09/1897
A grande novidade theatral d’estes ultimos dias foi o Perdão, comedia em
3 actos, de Jules Lemaitre, representada no Sant’Anna pelas actrizes Lucinda e
Lucilia Simões e o actor Christiano de Souza.
A circumstancia de contar apenas tres personagens, dois dos quaes nunca
se encontram em scena, e a de não ter monologos nem apartes, constituem,
por bem dizer, todo o encanto da peça, verdadeiro tour de force da dramaturgia
moderna. Junte-se a isto um dialogo espirituoso e bem feito, uma articulação
artificiosa de situações que insensivemente se vão confundindo umas nas
outras, com uma gradação engenhosa dos efeitos, e ahi têm uma comedia bem
escripta.
Mas se o Perdão é um interessante modelo de technica do theatro,
como obra psychologica é menos audaz que extravagante, e mais falsa que
paradoxal. Os tres personagens são absurdos e, digamol-o, repugnantes,
comquanto o auctor os dourasse como dantes se douravam as pillulas difcies
de tragar. Imaginem uma senhora que tem um marido moço, intelligente,
elegante, sympathico, solicito, e sem razão plausisivel o engana pouco tempo
depois de casada; imaginem um marido que, suggestionado pelos conselhos de
uma amiga, perdôa a esposa culpada, lhe diga onde, quando e quantas vezes
se encontrou com o amante, e acaba por se atirar nos braços da outra, que tão
empenhada se mostrára na reconciliação do casal; imaginem a tal amiga, que,
sendo tambem casada, se deixa seduzir por esse homem depois de restituil-o
á familia; imaginem que depois de tanta patifaria, marido e mulher entendem
que pódem viver felizes,porque estão quites um com o outro...
Um jornalista de muito espirito disse-me que a peça, como certo romande
de Camillo, deveria intitular-se a Corja, e eu não estou longe de concordar com
essa opinião. É, realmente, necessario o talento magico de um Jules Lemaître
para fazer acceitar, com o sorriso nos labios,a comedia e os personagens, aliás
muito bem representados pelos tres distinctos artistas.
***
O meu bom collega Luiz de Castro deu prova de intelligencia e bom gosto,
escolhendo a opera-comica Philémon et Baucis, para figurar no interessante
espectaculo-concerto organisado por Arthur Napoleão e realizado segunda-
feira, no theatro Lyrico, em beneficio das viuvas e orphãos dos soldados
mortos em Canudos. A partitura é de uma belleza peregrina, e faz honra ao
incomparavel Gounod de quem o publico fluminense conhece apenas o Fausto,
a famosa Ave Maria, e aquella não menos famosa serenata de Maria Tudor, que
tem sido cantada por todas as donzellinhas sentimentaes:
137
Quand tu ris, sur ta bouche
L’amor s’épanouit
Quando ouviremos nós Sapho, Romeu e Julietta, Mireille,e as grandes
composições sacras do eminente artista que tão profundo sulco deixou na
historia musical do seculo?
***
N’um dos meus ultimos folhetins escrevi que no theatro os amadores, et
pour cause, devem escapar á analyse da imprensa; mas não posso deixar de
abrir uma excepção relativamente á Exma. Sra. D. Elvira Gudin, que se revelou
no papel de Baucis verdadeira artista,e como artista deve ser tratada.
Quem canta e representa por aquella forma um papel tão
difcil,accentuando com tanta intelligencia e tal discernimento artistico o
“destaque” entre a velhinha do primeiro acto e a moça faceira do segundo,é
alguma coisa mais do que uma simples amadora.O seu trabalho não foi
nem podia ser completo:o gesto claudicou,parte da voz deixou-se ficar na
garganta,faltou o sorriso que durante as primeiras scenas do segundo acto
não se devia afastar dos labios da rejuvenescida Báucis, mas que são esses
pequeninos defeitos á vista de tantas e tão surprehendentes qualidades?
Lastimo – e pelo amor de Deus não supponham que digo uma heresia! –
lastimo que pelo nascimento, pela educação, pela fortuna, pela familia,pelo
preconceito, a scena lyrica esteja privada dessa distinctissima artista que, com
alguns mezes de aprendizado, se tornaria, talvez, uma celebridade universal.
***
O Amor ao pello, a parodia do Recreio escripta pelo tal poeta que continúa
a guardar o anonymo e necessariamente já começou a guardar tambem
as porcentagens, é – eu não lhes dizia? – uma inofensiva brincadeira, que
talvez passasse despercebida, se alguns moços – ignoro por que motivo –
não se incumbissem de lhe fazer um estrondoso réclame. E é assim que uma
pachuchada, escripta para durar o que duram as pachuchadas, o espaço de tres
ou quatro representações, será exhibida muitas vezes... por obra e graça dos
seus proprios detractores!
Se fosse eu, efectivamente, o poeta do Amor ao pello, agradeceria de
todo o coração aos moços prestimosos que se encarregaram de dar á peça
uma notoriedade que ella não pretendia. Já agora só se falla por toda a parte
no Amor ao pello, e não ha ninguem no Rio de Janeiro que não deseje vel-o e
ouvil-o.
138
Apezar da afrmação de certos collegas da imprensa, continuo a dizer que
não escrevi a parodia, sem, comtudo, notem bem, declinar da responsabilidade
da sua exhibição. Pois que concorri para que a peça fosse representada, e até
ajudei o amigo Brandão a ensaial-a; acceito com muito prazer a parte que me
cabe na pateada.
Tanto mais que não se me dava de ser o auctor de um trabalho tão elogiado
por toda a imprensa. O Jornal do Commercio disse que a peça tem versos
bem feitos, fluentes e engraçados; a Gazeta de Noticias afrmou que o auctor
conseguio o fim que teve em vista: – fazer rir –, e accrescentou que as pilherias
são inofensivas e ditas em muito bom verso; o critico d’O Paiz escreveu que ha
muito tempo não ouvia em scena versos tão preciosos, e descobrio na parodia
“uma distincta preoccupação da arte, que, mesmo nos trechos mais comicos,
já quasi nas fronteiras da farça se revela e scintilla”; a Cidade do Rio achou que
a peça é bem escripta e faz honra ao auctor, que o Jornal do Brazil considera
“um homem de espirito, excellente poeta e com extraordinario geito para
aquelle genero de trabalho”; a Noticia encontrou na peça versos admiraveis,
de uma graça inexcedivel, “prendendo, pelo comico e pelo interesse das
situações, o espectador da primeira á ultima scena”; a Gazeta da Tarde não via
na peça espirito forçado nem graça pezada; “não ha,disse ella, a menor phrase,
o menor dito ofensivo, preenchendo a parodia o seu fim principal – fazer
rir; e, finalmente, a Republica reconheceu que a peça “não podia ser melhor
architectada” e “fez rir a bandeiras despregadas uma platéa das difceis de
contentar”.
Eu por mim, sou de opinião que a pachuchada não merecia
Ni cet exces d’honneur, ni cette indignité,
e faço votos para que ella continue a dar boas casas á empreza Pepa e Brandão
e optimas porcentagens ao mysterioso e laureado poeta.
***
Cumprindo a promessa feita no meu ultimo folhetim ao amigo
Portugal,lembro aos leitores que amanhã se realizará no Recreio o beneficio
desse prestimoso artista e distincto cavalheiro, que conta reunir no theatro os
seus innumeros amigos.
***
Desappareceram n’um incendio os ultimos vertigios do theatro S. Luiz,
construido por Furtado Coelho, inaugurado em 1 de Janeiro de 1870, e
139
transformado ha alguns annos em casa de bilhares, cuido que por causa do
barulho da rua e do barulho dos bifes que se batiam no hotel visinho.
A Noticia annunciou que eu faria hoje o historico do pobre theatro, mas,
como vêm os leitores, falta-me o espaço: aonde me levariam as minhas
recordações? O assumpto me fornecerá um longe folhetim, quando eu não tiver
outra materia de que tratar.
Limito-me por hoje a lembrar aos leitores que foi no S. Luiz que
desabrochou o talento da nossa Ismenia dos Santos; que naquelle palco se
apresentou ao publico o extraordinario artista que se chamou Guilherme de
Aguiar; que alli os fluminenses applaudiram pela primeira vez Emilia Adelaide,
Helena Cavalier, Brazão,Joaquim de Almeida,Alvaro,Maggioli e Mattos, o
insigne Mattos que hoje faz as delicias dos espectadores do Apollo e apresenta
uma creação nova em cada papel de que se incumbe; que naquella casa fez
as suas primeiras armas, em companhia do incomparavel Valle, o nosso
querido Peixoto; e que alli nasceu para a arte, aos 19 annos de idade, Eugenio
de Magalhães, que neste instante moureja pelo interior de S. Paulo com uma
companhia ás costas.
.................................................................................................................
Jà nada existe do theatrinho senão a fachada, que lá está ainda com o seu
Apollo inclinado para a rua, como querendo pular.
Essa estatua ha um bom par de annos deu muito que fallar, porque a
imprensa em pezo entendeu que mais dias menos dias ella cahiria sobre a
cabeça de um transeunte incauto.
Pois bem, passaram-se os annos, houve grandes chuvas, grandes ventos,
grandes tempestades, inclusive a da revolta, e agora um incendio medonho, e
lá está o divino Apollo!
***
Como se devia confranger o coração de Furtado Coelho quando o velho
e illustre actor passou ha dias por aquelle montão de ruinas, que foram o seu
sonho e a sua gloria, e se lembrou, por exemplo, da noite memoravel em que
interpretou o Figaro do Barbeiro de Sevilha, depois de consorciar nos cartazes
os nomes de Beaumarchais e de Machado de Assis!
Furtado Coelho terá esta noite uma consolação: ainda de pé, como o Apollo
da fachada do seu theatro, faz beneficio no Variedades, representando o seu
velho papel do general do Gaiato de Lisboa, e o theatro se encherá, e os seus
fieis irão abraçal-o no modesto camarim.
A. A.
140
O Theatro, 07/10/1897
A companhia dramatica portugueza que trabalhava no theatro Sant’Anna
sob a direcção de Lucinda Simões partio hontem para São Paulo, onde hoje
se estreiará com a Mancha que limpa, de José Echegaray. O espectaculo de
despedida foi ante-hontem com o Demi-monde, de Dumas Filho. O theatro
encheu-se completamente, e não faltaram applausos a todos os artistas.
Antes d’esse espectaculo, que fechou com chave de ouro a série das
representações da companhia, tivemos a famosa comedia Divorciemo-nos, de
Sardou e Najac.
O papel de Cypriana é, no repertorio de Lucinda Simões, um dos
que menos resistiram á acção do tempo. Christiano de Souza interpretou
satisfatoriamente o de Des Prunelles, e Telmo, se não foi o melhor dos
Adhemares que temos visto, poz em contribuição, n’algumas scenas, as
suas excellentes qualidades de actor comico. Os tres personagens de que se
encarregaram esses artistas são,por bem dizer, os unicos da comedia, que
é, de principio a fim, um delicioso tercetto. Entretanto, bom será que antes
de apresentar a peça ao publico de S. Paulo, mais exigente que o nosso,a
companhia corrija,com meia duzia de bons ensaios, alguns pontos fracos da
representação.
Vem a pello dizer que nos espectaculos do Sant’Anna, todos os
espectadores ou, pelo menos, os mais avisados em coisas de theatro, notavam
que havia alli muito cuidado com os personagens do primeiro plano, e alguma
negligencia na exhibição dos do segundo, o que necessariamente estabelecia
certa desproporção,cujo efeito não era dos mais agradaveis. Dispondo dos
elementos de que dispõe, a empreza poderá com algum trabalho evitar essa
desproporção e aperfeiçoar a interpretação do seu magnifico repertorio.
Perdeu a companhia dois artistas de muita utilidade – Setta da Silva e
Amelia Pereira, – que se despediram á franceza; em compensação, contractou
os serviços do actor Grijó, que, póde-se dizer, preencheu uma lacuna, pois não
havia no elenco um verdadeiro galan dramatico. Espero que esse esperançoso
artista brazileiro substitua os seus provectos collegas Telmo e Caetano Reis
n’alguns papeis em que estes não se achavam bem á vontade, e d’esse modo
consiga ir por deante.
Conto que o publico da adiantada capital paulista receba os artistas da
companhia Lucinda Simões com a sympathia e os applausos a que elles têm
direito, e lhes faça a justiça que os fluminenses lhes fizeram. Aos meus leitores
de São Paulo (se é que os tenho) recommendo especialmente Lucilia Simões,
141
cujo talento é uma flôr que apenas desponta no jardim da arte, e já esparge
inebriante perfume.
***
Não ficará vasio o theatro Sant’Anna: foi arrendado por um grupo de
artistas que pertenciam ao Variedades e formaram uma associação que
promette.
Esse grupo, ou antes, essa companhia, porque é uma companhia bem
organisada e completa, inaugura hoje os seus trabalhos com a 1ª representação
dos Caftens, o drama de Antonio Lopes Cardoso, do qual por mais de uma vez
me tenho occupado nestes folhetins.
A peça, que é muito bem feita e nada tem de escandalosa, foi ensaiada
por Furtado Coelho, que faz parte da nova associação, e está posta em scena,
segundo me consta, com certo capricho quer na distribuição dos papeis, quer
no tocante a scenarios e accessorios.
O drama, que ha muitos annos dormia no fundo da pasta do dramaturgo,
foi ultimamente representado em S. Paulo com um exito que concorreu,
naturalmente, para que os artistas do Sant’Anna o acolhessem pressurosos e
solicitos.
É de esperar que o publico fluminense, n’estes ultimos tempos tão atirado
ao Sant’Anna, continue a frequentar esse theatro, muito embora o proverbio
sustente que santos de casa não fazem milagres.
***
No Recreio tivemos uma comédia em 3 actos, original de Accacio
Antunes, Ás onze e meia, muito applaudida no Gymnasio, de Lisboa, onde foi
representada com o titulo Zola em acção.
Os personagens da comedia são antes caricaturas que typos, nas
respectivas situações e no dialogo ha, talvez, menos observação que fantasia;
entretanto, não ha duvida que o auctor revele no seu trabalho, despretencioso
como obra de arte, um engenho que raras vezes nos depara o theatro
portuguez contemporaneo. As scenas são bem articuladas umas nas outras, e
os personagens apparecem e desapparecem naturalmente, trazidos ou levados
por circumstancias preparadas pelo dialogo. Isto é o que hoje não se vê na
maior parte das peças não traduzidas.
Accacio Antunes escreveu a sua peça para um theatro fechado,onde só se
representavam comedias, e para uma companhia que não só dispunha de um
ator comico excepcional – José Antonio do Valle –, como de outros artistas
habituados a fazer boa figura ao lado d’esse eminente companheiro; a maior
preoccupação do auctor foi a de inventar personagens que se amoldassem a
142
taes interpretes; não quiz escravisar a sua actividade procurando dotar com
outras condições uma comedia tão bem defendida pela distribuição dos
papeis.
A companhia do Recreio não tem theatro para dispensar taes condições;
uma comedia sem acção, como Ás onze e meia, ha de ser fatalmente
sacrificada naquelle palco, habituado ás peças espectaculosas – dramalhões,
magicas, revistas ou operetas – representadas ao som da vozeria irreverente
dos espectadores que ficam no jardim e muitas vezes nem sabem o que se
representa. Alli, é indispensavel que tanto o auctor como o actor tenham como
collaboradores os scenographos, os musicos, os coristas, os comparsas, os
aderecistas, os electricistas, etc. Sem isso, sem outro chamariz que não seja um
dialogo espirituoso, está bem aviado o auctor que leve uma peça ao Recreio.
Accacio Antunes – é triste dizel-o – terá na Corôa de Fogo, a magica em ensaios,
uma estrondosa compensação do insuccesso logico da sua comedia.
Cesar de Lima, que é um actor de muita vida (e neste ponto sahio ao
pae) deve corrigir a monotonia da sua dicção, variando, o mais que puder, as
inflexões dos seus personagens. É esse o reparo amigavel que me desperta o
desempenho que elle deu ao principal papel da comedia,um maluco mettido
a romacista, pretendendo aproveitar para os seus romances todas as scenas a
que assiste na vida real, intrigando e mentindo para que os episodios se tornem
mais interessantes.
Balbina,apezar de dolorosamente abalada pela morte de um filho, teve
as honras do desempenho no papel de uma velha gaiteira e sentimental;
Pinto, Portugal, Lino Rabello, Lima, Estephania Louto etc., deram boa conta
do recado; mas que querem? faltavam os scenarios, a musica, a rouparia, a
figuração e a luz electrica!
***
No Apollo é que não falta nada disso. Só a apotheose final da Filha do
Inferno uma das mais bellas e originaes que se têm visto em os nossos theatros,
é bastante para levar toda a população do Rio de Janeiro á rua do Lavradio. Por
isso, a peça continua a mostrar-se, na bilheteria, digna successora do Bico do
papagaio.
***
A empreza que dá espectaculos aos sabbados e domingos no theatro São
Pedro achou um excellente meio de rejuvenescer os Dois proscriptos.D’antes
a peça era assim annunciada: Os dois proscriptos ou a restauração de Portugal;
agora dizem os cartazes: A restauração de Portugal ou Os dois proscriptos.
Quando teremos Honra e gloria ou o 29?
143
Eu ha mezes disse aos leitores destes folhetins que o Dr. Vicente Reis
propalava por ahi que a minha revista a Fantasia tinha sido copiada de uma
peça hespanhola, e desafiei o mesmo Dr. a produzir em publico a prova dessa
gatunice. Até hoje nenhuma prova appareceu.
Um folhetinista da Folha da Tarde fez-me, domingo passado, a mesma
tremenda accusação, e precisou, dizendo que a peça plagiada se intitula a
Historia de um gymnasio.
Declaro que não conheço, nem mesmo de titulo, semelhante peça, e
declaro mais que estou prompto a entregar á Caixa Beneficente Theatral
a quantia de 1:400$, importancia dos direitos de autor que recebi por 14
representações da Fantasia, desde que fique provado, a juizo de pessoas
competentes, ter eu commettido a feia acção de que me accusam.
Tratando-se de accrescentar o patrimonio de uma associação de
beneficencia, conto que o folhetinista da Folha da Tarde não se exima á
apresentação das provas, que solicito de animo tranquillo e em termos tão
cortezes.
A. A.
144
O Theatro, 14/10/1897
Os artistas que formavam, no Variedades, a companhia dramatica dirigida
por Ismenia dos Santos, e dissolvida ignoro por que motivo, reuniram-se em
associação e arrendaram o Sant’Anna, inaugurando os seus trabalhos neste
theatro com o drama em 5 actos os Caftens, original de A. Lopes Cardoso.
Escripta ha dezesete annos, quando o caftismo se implantou no Rio de
Janeiro, provocando posteriormente rigorosas medidas policiaes, a peça
foi interdicta pelo Conservatorio Dramatico Brazileiro, e o auctor, por mais
diligencias que empregasse para levantar o interdicto, não conseguio tiral-a da
gaveta onde ficou profundamente esquecida.
Como durante muitos annos a praga do caftismo desappareceu por
completo desta capital, Lopes Cardoso perdeu a esperança de aproveitar o
seu trabalho; ultimamente, porém, quando o Paiz, em memoravel campanha
contra o vicio, revelou á sociedade fluminense que os caftens tinham todos
voltado pela sorrelfa e cynicamente se entregavam de novo á sua ignobil
industria, o desesperançado dramaturgo desengavetou o manuscripto e
levou-o a Emilia Adelaide, que tinha então empreza no Variedades.
A peça foi favoravelmente acolhida pela emprezaria e logrou o almejado e
serodio visto do Conservatorio, que já então esperneava, coitado, nas ancias da
sua longa e lenta agonia; mas desta vez foi a policia que não consentio que os
Caftens fossem exhibidos no palco.
Entretanto, o actor Eugenio de Magalhães, que conhecia a peça, pedio
a Lopes Cardoso que l’ha confiasse, e levou-a para São Paulo onde a fez
representar sem que nenhum espectador se mostrasse escandalisado,nem
protestasse contra as cruezas das situação ou do dialogo. Ella agradou ao
publico paulista, e este facto necessariamente influio para que os artistas do
Sant’Anna, entrevendo um successo, resolvessem pol-a em scena.
Parece que se enganaram, porque durante alguns dias procuro debalde nos
jornaes o annuncio do Sant’Anna, o qual só hoje reappareceu; entretanto, o
drama é bem feito em comparação com o que geralmente aqui se produz – ou
não se produz – para o theatro; os artistas dão boa conta do recado e o publico
da primeira noite se mostrou satisfeito e applaudio com esse enthusiasmo
que é o quantum satis para fazer crer que uma peça vae ter uma boa serie de
representações.
Algumas scenas pareceram um tanto cruas a certos espectadores, o que
era inevitavel, tratando-se de tão escabroso assumpto; mas é forçoso convir
que o auctor soube attenual-as com uma habilidade e uma discrição muito
para serem louvadas. O critico do Jornal do Commercio, em quem reconheço
145
competencia e a cuja penna devo d’essas finezas que não se retribuem com
os simples agradecimentos do estylo, escreveu que os paes de familia não
deviam levar as filhas solteiras á representação dos Caftens. A mim me parece
que o theatro – seja qual fôr o genero da peça que se represente – não se fez
para as moças solteiras, mas tambem me parece que aquelle simples titulo
era sufciente para pôr de sobre-aviso os respectivos paes. Ninguem póde ir
enganado ao theatro onde se representa um drama intitulado os Caftens,com
personagens de nomes tão suggestivos como Judith, Wanda, Mullen, etc.
Convenhamos, pois, que o annuncio da peça foi previdente e leal.
Lopes Cardoso é um escriptor theatral que não merece o retrahimento a
que tem sido condemnado por circumstancias especiaes. Não o julguem pelos
Caftens que, apezar de todas as suas qualidades, é uma peça de occasião,
escripta à la diable, improvisada quasi, para aproveitar de prompto um
incidente da vida social. Entre as suas producções ineditas, que não são poucas,
ha uma tragedia burgueza, o Sacramento e a lei, que eu lhe pediria de muito
bom grado no momento em que me visse director de uma boa companhia
dramatica.
– Terminada a representação do Santa Anna, desciamos a rua da Carioca
dois collegas de imprensa e eu, quando um d’elles me disse, apontando para
certas infelizes que conversavam ruidosamente de janella para janella: – Não
ha duvida que, depois de assistir uma pessoa á representação dos Caftens, sente
compaixão por estas pobres mulheres. – Está nessa phrase toda a moralidade
da peça.
***
O folhetinista da Folha da Tarde accudio ao repto que lhe lancei no meu
folhetim passado. A peça da qual eu roubei (esta expressão foi empregada
por elle) a idéa da minha infeliz revista a Fantasia, já não é hespanhola, mas
franceza, já não se intitula Historia de um gymnasio, porém Memorias do
Gymnasio. Elle não a tem: vio-a nas mãos do Dr. Vicente Reis, no tempo em
que esse moço, entretendo relações commigo, frequentando a minha casa,
chamando-me na dedicatoria de uma photographia seu mestre e seu amigo,
mostrava a toda a gente, em segredo, uma brochura que todos viam e ninguem
lia, e jurava que d’alli fôra copiado o meu trabalho, filho da minha intelligencia
e do meu esforço!
Afrma o folhetinista que os auctores da peça franceza são Dumanoir
e Lambert Thiboust, dois comediographos celebres. Ora, no diccionario de
Larousse, para o caso a melhor fonte de informações que conheço, figuram
os titulos de 101 peças de Lambert Thiboust e de 46 de Dumanoir; e as unicas
146
Memorias que là encontrei foram as Memorias de Mimi Bamboche, que Moreira
Sampaio traduzio com o titulo de Mimi Bilontra.
Isto não quer dizer que não existam as Memorias do Gymnasio. Diz o
folhetinista que mandou buscal-as, e espera recebel-as dentro de mez e
meio, prazo muito longo, convenham, para supportar o labéo injusto que me
atiraram. Eu não roubei!
Apello para a honra do Dr. Vicente Reis, pedindo-lhe para exhibir o
exemplar que andou mostrando. Apello igualmente para quem quer que seja,
amigo ou inimigo, que por ventura possua outro exemplar. Creio que não posso
dar melhor prova da minha serenidade.
O mesmo folhetinista (e agora peço licença para me desviar dos assumptos
obrigados d’este rodapé) accusa-me de ter plagiado de Armand Silvestre
um dos meus contos, os Charutos. – accusação que ha mais de um anno vi
formulada, talvez por elle mesmo, na Cidade do Rio.
Esse escripto figura n’um volume de minha lavra, Contos Ephemeros,
que já esta impresso, mas só será publicado no fim do anno, pois destina-se
especialmente aos assignantes do Paiz.
Ora façam favor de lêr a nota que n’esse volume acompanhará os Charutos:
“Poucos dias depois de publicado este conto no Paiz, recebi uma carta
anonyma, em que me accusavam de o haver copiado do livro de Victor Tissot
L’Allemagne amoureuse.
Mais tarde um folhetinista da Cidade do Rio afrmou aos seus leitores que
os Charutos eram plagiados de um conto de Armand Silvestre.
O facto explica-se do seguinte modo: os dois escriptores francezes fizeram
o mesmo que eu fiz, – aproveitaram uma velha anedocta anonyma e contaram-
n’a, cada qual a seu modo, exercendo assim um direito permittido neste genero
de litteratura. Não existe plagio, desde que o auctor tenha dado uma fórma
original á sua narrativa.
Se arranjar um conto com uma velha anedocta, é plagiar, plagiar o
escriptor que romantisa ou dramatisa qualquer facto historico. A historia não
se inventa.
O caso é que, muito antes de 1884, anno em que foi publicado o livro de
Victor Tissot, já eu conhecia a anedocta dos charutos; e o conto, que nunca li,
de Armand Silvestre, provavelmente appareceu depois daquella data.
Ha neste volume outros escriptos contra os quaes se poderia formular a
mesma accusação, como as Pillulas, Episodios de Viagem e outros.”
Accusa-me ainda o folhetinista de haver plagiado a Marcellina, que figura
nos Contos fóra da moda, de L’habil’euse (Elle diz La bileuse porque ouvio mal o
recado) de François Coppée.
147
A idéa do conto, que não é, aliás, o melhor da collecção, foi-me suggerida
por Xisto Bahia. O finado artista contou-me, com pequenas modificações, o
incidente que aproveitei. A actriz Marcellina existio,e tinha esse mesmo nome;
os demais personagens do conto ainda existem, e um delles, que se acha nesta
capital, esfriou as suas relações commigo depois que se vio fielmente retratado
pela minha penna.
Quando Antonio Salles notou, n’uma folha do Ceará, em termos aliás
cortezes a semelhança entre o conto de François Coppée e o meu, procurei o
escripto do poeta, e cahi das nuvens ao ver que realmente a idéa era a mesma;
só a idéa, porque ninguem, lendo os dois contos, dirá que um seja a traducção
do outro.
Nesse tempo Xisto Bahia já estava morto. Elle teria lído o conto de Coppée?
Tel-o-hia ouvido de alguem que o lesse? Não sei, e para defender-me não
preciso de outra allegação senão a de que seria o ultimo dos idiotas se plagiasse
um dos mais lidos e mais estimados escriptores contemporaneos.
Em resumo: nunca li a tal peça de Lambert Thiboust e Dumanoir, nunca li o
tal conto de Armand Silvestre, e só li o de Françoies Coppée depois de escripta
a Marcellina. Esta é a verdade. Ha concessões, talvez, mas não ha vergonhas na
minha vida honesta e laboriosa de escriptor pobre.
A. A.
148
O Theatro, 21/10/1897
Paula Ney ha oito dias é o assumpto obrigado de todos os folhetins, e n’este
rodapé, consagrado inteiramente ao theatro, não virá, talvez, fóra de proposito
o nome do inolvidavel bohemio, que durante uma semana foi dramaturgo.
Um dia – já lá se vãa muitos annos – appareceu em todos os jornaes a
noticia de que elle escrevêra um drama em 3 actos; a Carta anonyma, que ia
entrar em ensaios n’um dos nossos theatros. Paula Ney fallava da sua peça
em todas as rodas, contava o enredo, expunha scenas inteiras, citava os finaes
dos actos, e repetia algumas phrases que pozera nos labios dos principaes
personagens.
Muita gente se convenceu da existencia da Carta anonyma e se preparou
para applaudil-a; mas a verdade é que o drama jamais passou da imaginação
para o papel. Um emprezario d’aquelle tempo – Guilherme da Silveira, se me
não engano – debalde insistio com o fantasioso auctor para que lhe levasse o
manuscripto.
O bonito é que, dous ou tres annos antes de pregada (é o termo) a peça
de Paula Ney, Lopes Trovão, que nesse tempo não sonhava ser senador da
Republica, e Arthur Barreiros, o insigne prosador que a morte nos levou tão
cedo, começaram a escrever de collaboração uma comedia com aquelle mesmo
titulo, a Carta anonyma, cujas primeiras scenas ouvi ler a um dos auctores. Que
fim levaria esse manuscripto?
De Arthur Barreiros, que era meu particular amigo, e cujo prematuro
desapparecimento foi uma das mais dolorosas contrariedades da minha vida,
possúo ainda, entre os meus papeis de estimação, o começo de outra comedia
original que se intitularia os Commendadores.
Mas voltemos a Paula Ney: quem não se lembra da parte activa que elle
tomou nos festejos que se fizeram no S. Pedro, em 1886, na memoravel noite do
beneficio de Sarah Bernhardt? As galerias estavam occuppadas exclusivamente
por estudantes desta capital e de S. Paulo, e o grande bohemio, de pé, na
platéa,servindo-se de uma bengala como de uma batuta, dava o signal dos
applausos ou impunha silencio aos manifestantes. Póde-se dizer que foi elle a
alma da festa.
Com que sinceridade, com que fervor, com que eloquencia, digamos, elle
admirava a divina Sarah, que desvendára aos seus olhos e ao seu espirito de
atheniense uns tantos segredos da arte que nunca dantes lhe foram revelados!
E o osso é que Paula Ney durante muitos annos se constituio na sociedade
fluminense o defensor enthusiasta e persuasivo da grande tragica, e todos
149
sabem quanto elle era excessivo e intolerante quando tomava a peito a defeza
de alguem ou de alguma cousa.
N’uma revista de anno intitulada Mercurio, exhibida no Lucinda em 1887,
havia uma scena em que figuravam Sarah Bernhardt e Paula Ney, representado
com extraordinaria felicidade pelo actor Colás. Por occasião do ensaio geral,
o Ney apresentou-se no theatro, e, assistindo a tal scena, fez um estrupicio
medonho (estrupicio era um termo de sua predilecção), e não descançou
emquanto Moreira Sampaio e eu, que eramos os autores da revista, não
supprimimos certa phrase allusiva a um escandalo dado pela celebre artista,
quando na caixa do theatro chicoteou uma pobre mulher, cujo nome não me
occorre neste momento.
Debalde quizemos fazer ver ao turbulento Ney que esse escandalo tivera
grande repercursão, dando até logar a um processo judicial, e que nós
exerciamos o nosso direito satyrisando um facto do dominio publico. Elle a
nada attendeu, e só deixou de gritar, gesticular e bater com pés e mãos quando
nos declarávamos vencidos por tão violento systema de exigir a modificação de
uma scena.
Hoje, agradecemos-lhe ter feito o que fez, porque, se a phrase fosse
proferida no palco, certamente nos arrependeriamos de a ter escripto.
***
Permittam os leitores que eu volte ainda a tratar da accusação, que me
fizeram, de haver plagiado a Fantasia.
O folhetinista da Folha da Tarde respondeu o seguinte ao meu ultimo
artigo:
“Depois do folhetim de quinta-feira, de A. A., esperavamos que o bacharel
Vicente Reis fizesse qualquer declaração pela imprensa ou exhibisse a peça que
tem em mãos e da qual diz sem rebuços ter sido plagiada a Fantasia.
“A polemica está travada entre dois inimigos seus (*). Desafiado, porém,
a sahir a campo, accusado por A. A. de uma traição, não é absolutamente
aceitavel o seu procedimento. Continuamos a afrmar que vimos a peça nas
mãos do bacharel Vicente, que a mostrava com indicação de plagio. Não
sabendo de outra pessoa que possuísse a comedia, nesta capital, mandamos
vir de Paris, pela livraria Garnier, e de Montevidéo a Buenos-Aires, pelos Srs.
Raul Ghighiliassa & C., estabelecidos com agencias de annuncios naquellas
capitaes.”
A cousa agora é entre mim e o Dr. Vicente Reis. Reitero a declaração de
que, verificado que seja, por pessoas competentes, que eu plagiei a Fantasia,
estou prompto a entrar para os cofres da Caixa Benificente Theatral com a
150
quantia de 1:400$000, importancia dos direitos do auctor que recebi por 14
representações d’essa revista. O meu accusador não póde nem deve eximir-se
a um facto de que resulta uma victoria para si e uma esmola, relativamente
avultada, para uma asseciação misericordiosa.
O folhetinista da Folha da Tarde declara que fazia um juizo errado de minha
individualidade litteraria; procurou agora os meus escriptos e reconheceu que
eu tenho trabalhos digno de nota, bons versos, etc. “Indubitavelmente, diz elle,
dos que escrevem entre nós para theatros, é quem tem mais a arte do savoir
faire”, – e esta phrase implica necessariamente a idéa de que, para escrever
uma despretenciosa bambochata, eu não teria a triste necessidade de copiar
um trabalho alheio.
Agradeço ao folhetinista a lealdade da sua declaração, embora eu proprio
nenhum valor litterario reconheça nos escriptos que correm mundo com o
meu nome, alguns dos quaes desejaria que não tivessem feito gemer os prelos,
para não gemer tambem a minha consciencia. N’esta questão de plagios não
defendo a minha litteratura, defendo os meus brios; não se trata do escriptor,
trata-sa do homem. A Fantasia é um trabalho inferior, mas é meu, isto é, sahio
inteiramente do meu cerebro, e me foi pago pelo preço que adoptei para os
meus trabalhos theatraes quando não são traduzidos nem imitados. Se a
Fantasia não é uma peça original e foi como tal impingida a um emprezario,
commetti um abuso de confiança, e mereço, portanto, cadeia.
***
Chivot e Duru,dois auctores parisienses que escreveram sempre de
collaboração, ha muitos annos figuram nos annuncios dos theatros do Rio de
Janeiro.
Duru falleceu ha alguns annos, e Chivot agora, aos 19 do mez passado, com
67 annos de edade.
É admiravel a nomenclatura das peças que elles deixaram; mencionarei
apenas, por ordem de datas, as que têm sido traduzidas e representadas n’esta
capital; ainda assim, é provavel que me escapem muitas:
Meus olhos, meu nariz e minha bocca, musica de Francisco Libanio Colás,
o auctor da Vespera de Reis; Le beau du nois, não me lembra com que titulo;
Les cent vierges, (A ilha dos Pyrilampos e ultimamente A ilha da Trindade);
Les Braconniers (Garra de açor,) Le carnaval d’un merle blanc (traducção de
Joaquim Serra: Inauditas proezas de uma pomba sem fel); Fleur-de-thè (Flor
de chá); Les chevaliers de la Table-Ronde (Os cavalleiros andantes); Les forfaits
de Pipermans (não me lembra com que titulo); L’ile de Tulipatan (A ilha das
Cobras),La blanchisseuse do Berp-op-Zoom (Paquita); Pampon (A rainha do
151
carnaval),Les pommes d’or (As maçans de ouro), L’étoile du berger (A rosa de
diamantes), Madame Favart, Les locataires de monsieur Blondeau (não me
lembra o titulo da traducção), Les noces d’Olivette (A filha do senescal), La
Mascotte (o maior successo da opereta), Gilette de Narbonne, Boccacio, Le truc
d’Arthur (O estratagema de Arthur), A priceza das Canarias, O passaro azul, A
cigarra e a formiga, Surcouf, Les petites Godin (As meninas Godin) etc.
Chivot poderia deixar uma fortuna só de direitos de auctor recebidos dos
theatros do Rio de Janeiro...
***
Nos nossos theatros nada de novo. É anciosamente esperada a 1ª
represenda Coroa de fogo, a grande magica arranjada por Acacio Antunes para
a empreza Pepa e Brandão. Todo o Rio de Janeiro vae passar pelo Recreio,
como na época do Rio Nu.
A. A.
* Observarei ao folhetinista que não dou ao Dr. Vicente Reis a honra de ser
seu inimigo.
152
O Theatro, 28/10/1897
É admiravel que n’uma cidade populosa,como é o nosso Rio de Janeiro,
todos os theatros, á excepção do Apollo, se tenham conservado fechados
durante algumas noites, e bem amargas são as considerações que facto
naturalmente desperta.
Esse estado de cousas é pura e simplesmente devido á negligencia dos
emprezarios e dos artistas; dos emprezarios porque, apezar de todos os
pezares, não se convencem de que sem um bom repertorio não ha companhia
possivel, e dos artistas porque, por via de regra, gastam a ensaiar qualquer peça
um tempo enorme, e, ao chegar o ensaio geral, não sabem os seus papeis...
***
De tempos a esta parte, os nossos artistas, salvo honrosas excepções, não
se dão ao trabalho de decorar os papeis que lhes são confiados, e a profissão
do ponto – quem o diria? – tornou-se a mais ardua de exercer em os nossos
theatros. O systema será magnifico para crear excellentes pontos, mas é
tambem muito efcaz para estragar os melhores actores.
Estudar um papel não consiste, bem sei, no trabalho de o decorar: mas
nenhum artista, por mais talento que tenha, por mais estimado que seja, não
póde representar dignamente a sua parte desde que a não haja decorado.
A representação exige tanto cuidado, a taes minucias é forçoso attender;
a preoccupação de não sahir um momento de dentro do personagem é
tão absoluta e tão absorvente, que o artista não deve ir para o palco fiado
unicamente no ponto. A sua obrigação é esquecer-se de que esse funccionario
existe, e fazer completa abstracção da cupola em que elle se mette.
Os italianos, que decoram os seus papeis com uma facilidade
extraordinaria, chamam o ponto il suggeritori. A palavra está dizendo que a
funcção d’esse empregado é apenas suggerir ao actor o que tem a dizer, quando
a este porventura falhe a memoria. Elle naturalmente não lê alto a peça inteira,
como os nossos infelizes pontos; lê para si, acompanhando a representação
com todo o cuidado para, no momento opportuno, acudir a um lapso de
memoria.
Em os nossos theatros é muito comum, entretanto, os espectadores
ouvirem do ponto as “fallas” do artista antes que este as diga, e muitas vezes
o publico reclama, e com razão, porque – vamos e venhamos! – não ha nada
mais desagradavel que ouvir um monologo transformado por essa fórma em
dialogo.
153
Dir-me-hão que é penoso o trabalho de decorar. Não ha tal. É uma questão
de habito, e, para adquiril-o, cada artista deve ter os seus processos especiaes,
conforme a sua propria natureza. O decorar faz parte da arte dramatica; sem
essa faculdade o artista não é, não póde ser perfeito. Aquelle que se habitua
a ir para a scena sem saber os seus papeis, difcilmente se corrigirá desse
terrível defeito; mas o habito de decorar exercita necessariamente a memoria,
facilitando todo o trabalho de assimilação.
Os nossos melhores artistas despparecidos não entravam no palco sem
trazer os papeis na ponta da lingua; respeitavam-se as tradições de João
Caetano, que não seria João Caetano se algum dia houvesse recorrido aos bons
ofcios do ponto. Vasques, Arêas, Guilherme de Aguiar, Lisboa, Peregrino, e
tantos outros, que deixaram nome, punham o maior cuidado em saber de cór
os seus papeis, por mais longos, por mais esmagadores que fossem.
Nos bons tempos do nosso theatro, os papeis eram tão bem decorados, que
o velho Arêas uma noite, pouco antes de fallecer, recitou, para eu ouvir, sem
alteração de uma syllaba, todos os versos do confidente da tragedia Aristodemo,
que representára, ao lado de João Caetano, em 1841.
Hoje representa-se uma pecinha em 1 acto, em verso, e os artistas, salvo,
repito, honrosas excepcões, desfiguram a metrificação irreprehensivel do
poeta, accrescentando ou supprimindo syllabas e substituindo umas palavras
por outras. Por que? Porque não se dão ao trabalho de decorar, trabalho que é
um complemento – que digo eu? – uma condição fundamental da sua arte.
O mal seria remediado, se os ensaiadores se negassem a pés juntos a
pôr em scena qualquer peça, emquanto os papeis não estivessem sabidos,
e a primeira representação se pudesse efectuar independentemente do
ponto. Furtado Coelho conseguio muitas vezes esse resultado, porque era um
ensaiador que se impunha ao respeito dos artistas, e elle proprio, como actor,
era o primeiro a dar o bom exemplo, decorando o que tinha a dizer. Por que
outros não o conseguirão tambem?
Convidar o publico para assistir á representação de uma peça cujos papeis
não estão sabidos, é o mesmo que se lhe dessem scenarios não acabados de
pintar ou vestuarios incompletos. Comprehende-se bem que os espectadores
se desgostem d’essa falta de attenção, e deixem o theatro ás moscas. Por isso,
e só por isso, é que as comedias não fazem carreira em os nossos palcos, onde
o genero era dantes tão apreciado, e com tanta justiça. Todas as vezes que as
nossas emprezas põem em scena uma magica ou uma revista, os scenarios, as
tramoias, o guarda-roupa e a musica fazem com que os ensaios se prolonguem
exaggeradamente, e alguns artistas, não todos, á força de ensaio, acabam por
saber os seus papeis. Com as comedias, que não dependem da enscenação,
154
já não acontece o mesmo, e é por isso que são em geral mal representadas e
afugentam o publico.
Acontece, como em todas as cousas, pagar o justo pelo peccador: é assim
que a comedia Ila caça... e caça, que foi muito bem interpretada, tem tido até
hoje apenas 15 representações.
Os nossos emprezarios e os nossos artistas não se queixem de outros senão
de si mesmos...
***
Estive hontem no Apollo, aonde fui attrahido pela curiosidade de apreciar
a actriz-cantora Londina Orlatti, que na Filha do Inferno substituio com alguma
vantagem a actriz-cantora Ismenia Matteos. A estreiante tem boa voz, sabe
estar em scena e é bonita, qualidade esta que infelizmente se tem tornado
rarissima nos palcos fluminenses. Comprehende-se que o grão-visir do 3º
acto dê cem mil sequins por aquella escrava... Ella que estude sériamente a
prosodia portugueza e que se corrija daquella gesticulação larga e solemne de
comprimaria de opera.
A Filha do Inferno me divertio bastante com os esplendores da sua
enscenação, e com o endiabrado Peixoto, cada vez mais espirituoso e brilhante.
***
Amanhã, – se não mentem os cartazes – teremos a Corôa de fogo no Recreio
Dramatico.
A magica foi arranjada por Accacio Antunes e está posta em scena com
todo o capricho, quer no tocante aos scenarios e machinismos, quer no que diz
respeito aos vestuarios, cujos figurinos foram desenhados por Julião Machado.
A musica de Luiz Moreira é lindissima e os principaes papeis estão confiados a
Pepa e Brandão.
Com taes elementos é de suppor que todo o Rio de Janeiro vá ter ao
Recreio Dramatico.
***
Ainda ha por ahi outras novidades theatraes, de companhias que se
organisam ou que se reorganisam; mas tão desencontradas são as noticias, que
prefiro não as dar ao publico. O que fôr soará.
***
Está enganado o cavalheiro que me escreveu uma carta com o pseudonymo
de Mercurio: o libreto dos Sinos de Corneville é de Clairville e Gabet e não de
Chivot e Duru.
A. A.
155
O Theatro, 04/11/1897
Ainda uma vez me vejo embaraçado ao fazer o meu folhetim semanal:
passei as ultimas noites entre as quatro paredes do meu quarto, e, por enfermo,
não me foi dado assistir ás duas primeiras representações que constituiram as
unicas novidades theatraes da semana.
Não me faltará occasião de apreciar a Corôa de Fogo, porque, pelos
modos,essa magica tão cedo não desapparecerá do Recreio; á vista, porém,
do que hontem me disse o actor Leite, um dos associados do Sant’Anna, vêr o
Naufragio do “Colombo” é um “impossivel que encontrei na vida”.
A peça não deu para a diaria na segunda representação e a terceira foi
transferida por falta de publico. Os artistas, que não estão dispostos a trabalhar
para o bispo (como é costume dizer), resolveram retiral-a de scena, embora por
ahi se afiance,talvez com fundamento, que sabbado e domingo elles farão duas
ultimas tentativas.
Apezar de sabido em cousas de theatros, declaro que não posso explicar a
mim mesmo essa injustiça do publico.
O drama está assignado por Guiomar Torrezão, um nome feito nas lettras
portuguezas, e foi recebido pela imprensa com elogios, se não enthusiasticos,
pelo menos sinceros e expressivos. Dizem-me que elle tem todos os requisitos
para agradar ás nossas platéas populares e não lhe faltaram os applausos dos
espectadores que a ouviram.
A companhia dramatica do Sant’Anna é – ou era – um nucleo de artistas
acceitaveis, fazendo o possivel e até o impossivel – coitados! – para attrahir
concurrencia ao theatro.
No desempenho do Naufragio do “Colombo”,a imprensa distinguio, com
palavras de merecido louvor, a actriz Maria Falcão, realmente possuidora de
qualidades muito aproveitaveis, que não têm sido, infelizmente, aproveitadas,
e mencionou o trabalho do actor Galvão, que, tendo incontestavel direito a um
logar no primeiro plano entre os seus collegas do Rio de Janeiro, tem sido, pela
sua má estrella, condemnado a figurar exclusivamente em peças abandonadas
pelo publico.
Entre os demais artistas, que tomaram parte na representação do Naufragio
do “Colombo”, vejo nomes estimados e até consagrados pelos applausos das
nossas platéas.
Como se explica, pois, que esse Naufragio naufragasse de um modo tão
desastroso?
É desanimadora, é esmagadora a terrivel provação por que acabam de
passar esses artistas que, desesperançados de achar um emprezario que os
156
contratasse assegurando-lhes os meios de subsistencia honesta, tinham se
armado de toda a boa vontade, de toda a energia, de toda a coragem para
enfrentar com a indiferença do publico!
Dizia-se que a primeira tentativa a que elles se arrojaram – a representação
dos Caftens – fôra mal succedida simplesmente por causa do titulo da peça,
o que não creio; mas essa explicação não procede, tratando-se do Naufragio
do “Colombo”, titulo que por fórma alguma póde sobresaltar a pudicicia ou
inquietar os escrupulos de quem quer que seja.
Lancemosesta lamentavel crise á conta dos tempos que atravessa toda a
nossa actividade industrial, e o desgosto que isso nos causa fique registrado
nestas columnas, onde mais tarde – quem sabe? – olhos curiosos virão buscar
alguns subsidios para a tristissima historia do nosso theatro.
***
A Coroa de Fogo, essa realizou uma receita de perto de vinte contos de réis
nas quatro primeiras representações, mas tem a fortuna de ser magica e de
estar posta em scena com uma prodigalidade tal, que não me admiraria ver
amanhã reunidos alguns conselhos de familia e interdictos os emprezarios do
Recreio.
Accacio Antunes, que se vae lamber com optimas porcentagens, foi
mais feliz que este seu creado. Ha uns bons vinte annos (ça ne me rajeunit
pas...) arranjei a mesma peça, com o titulo a Filha do Fogo,para o S. Pedro de
Alcantara. É verdade que o Guilherme da Silveira – e n’aquelle tempo, em que
as apotheoses custavam dez réis de mel coado – não abrio os cordeis á bolsa
como o Brandão e a Pepa; mas em compensação proporcionou-me interpretes
da força de Martinho, Peregrino, Faria, Carvalho Lisboa e outros cuja
enumeração viria mais a proposito ante-hontem, dia dos mortos.
Entre os vivos ainda ahi estão o Machado, que n’aquelle tempo encetava
a sua brilhante carreira de actor comico, e Jesuina, a viuva de De Giovanni e
de Peregrino, que eu encontro em todas as primeiras representações, quando
não ha enchente real, melancolicamente sentada no fundo da platéa, cheia de
cabellos brancos e de saudades.
Apezar de tão bem defendida por aquelles valentes artistas e por alguns
bonitos numeros de musica, tirados d’aqui e dalli,e outros compostos por
Cyriaco de Cardoso, que já naquelle tempo poderia ter escripto a magnifica
partitura do Solar dos Barrigas, a Filha do Fogo foi um insuccesso tal, que até
hoje nunca mais me metti a arranjador de magicas.
Vejo com prazer que a mesma peça, manipulada por um collega mais habil
e mais experimentado do que eu era naquelle tempo, se pronuncia agora como
157
um successo que será, talvez, um pendant ao do Rio Nú, que fez a fortuna de
outra empreza naquelle mesmo theatro. Ainda bem.
Receba Accacio Antunes,recebam Pepa e Brandão as minhas felicitações, e
não se esqueçam de me convidar quando fôr a festa do centenario.
***
Os mesmos amadores, creio, que ultimamente nos deram o prazer de ouvir,
no theatro Lyrico, Philémon et Baucis, de Gounod, promettem-nos para amanhã
Mireille, do mesmo compositor.
O libretto dessa opera, que tem trinta e tantos annos e ainda não
envelheceu, nem tão cedo envelhecerá, é tirado por Michel Carré (um dos
auctores de Philémon et Baucis) do famoso poema de Frederic Mistral, o
grande poeta da Provença,o glorioso emulo de Roumanille e de Aubanel, – e
a partitura é considerada por muitos criticos a mais inspirada de quantas o
auctor do Fausto produzio para o theatro. A grande aria de Mireille Mon cœur
ne peut changer, souviens-toi que je t’aime é uma das mais bellas do repertorio
moderno.
Embora simples amadores não nos dêem nem nos possam dar em toda
a sua extensão as incomparaveis bellezas da obra de Gounod, o espectaculo
annunciado não póde ser mais attrahente nem mais artístico.
Hypotheco desde já todos os meus louvores a tão sympathica tentativa, e
mando os parabens ao meu bom collega Luiz de Castro por mais esse tour de
force da sua actividade.
***
A Filha do Inferno continúa a levar muito dinheiro á bilheteria do Apollo.
A. A.
158
O Theatro, 12/11/1897
Como sóe acontecer todas as vezes que uma desgraça convulsionada
o paiz, o ignobil e estupido attentado de que escapou, graças a Deus, o
presidente da Republica, e o barbaro assassinato do illustre marechal Machado
Bittencourt, prejudicaram sensivelmente os nossos theatros.
Essa generalisação, os nossos, é aqui mal cabida, porque no Rio de Janeiro
apenas duas emprezas theatraes funccionaram actualmente com regularidade:
a do Recreio Dramatico e a do Apollo. Não metto em linha de conta o grupo
que dá espectaculos sporadicos no velho S. Pedro, com dramalhões estafados
e quasi tão velhos como o proprio theatro em que elles ainda se representam,
nem a companhia infantil, que annuncia para depois d’amanhã duas zarzuelas
novas, ainda mais novas, creio, que os artistas que as vão executar.
Mas voltaremos ao nosso ponto de partida: o Recreio e o Apollo foram
obrigados a fechar suas as portas durante dois dias, e as respectivas emprezas
só condicionalmente puderam annunciar os seus espectaculos para o terceiro
dia, que era domingo.
Pondo de parte o consideravel prejuizo material causado a esses
estabelecimentos commerciaes, que proporcionam meios de subsistencia
a numerosas familias, digamos que, nas occasiões de agitação popular, o
governo devia ser o mais interessado em que o povo se divertisse. Ao envez
de mandar fechar os dois unicos theatros que funccionavam, melhor faria elle
promovendo, por meios indirectos, a abertura dos outros que se conservavam
fechados.
A gente que vae ao theatro não é a que conspira. Se no sabbado passado
houvesse espectaculos, talvez não fosse tão numeroso e por conseguinte tão
forte o grupo dos arruaceiros e empastelladores de typographias.
Estou convencido de que é por falta absoluta de outras attracções, que
nesta capital toda a gente se atira á politica e mette o nariz onde não é
chamada, fallando pelos cotovellos, dando por páos e por pedras, perturbando
o penoso trabalho de quem governa.
O facto de haver escapado o presidente da Republica a uma tentativa de
assassinato que, realizada, teria as mais terriveis consequencias, pois seria,
talvez, o esphacelamento e a consummação da ruina do nosso paiz, devia ser
motivo para que a população, reunida em todos os theatros, acclamasse o chefe
do Estado as som do hymno nacional.
É verdade que, ao lado desse motivo de jubilo, havía o cadaver ainda
quente de um marechal da Republica, de um benemerito da Patria; mas esse
morto seria tambem acclamado, porque a sua morte valeu uma apotheose!
159
Eu não quizera que os meus filhos morressem de outra fórma, se me fosse
dado escolher para elles um genero de morte. Machado Bittencourt cahio
glorificando o exercito brazileiro e salvando o Brazil!
***
Á falta de melhor assumpto, deixem-me voltar à minha lamuria de dois
folhetins passados:
Uma população consideravel, como a do Rio de Janeiro, está reduzida
apenas a dois theatros, nos quaes se representam duas magicas do genero
d’aquellas em que auctores e actores cedem necessariamente o passo a
machinistas e scenographos.
A corôa de fogo e a Filha do inferno, postas ambas em scena com muita
sumptuosidade, são mais um triumpho para Cirrancini, Coliva, Frederico de
Barros, Canellas, Afonso de Oliveira, Camões, Augusto Coutinho e Velloso
Braga, scenographos e machinistas; a fama de Eduardo Garrido e Accacio
Antunes nada, absolutamente nada tem que ganhar nem que perder com
essas exhibições; Pepa e Lopiccolo, as duas estrellas de primeira grandeza,
Peixoto e Brandão, os dous comicos populares que se puzeram ao serviço das
tramoias e dos scenarios de uma e outra peça,deslumbram, agradam, fazem
rir, attraem as platéas, mas não têm, no seu fóro intimo de artistas, o prazer de
gastar um ceitil de talento e de observação interpretando personagens que nem
pertencem á vida real, nem ao mundo da poesia, que deixa de ser abstracto na
obra de um Shakspeare, de um Moliére, de um Calderon, ou de um Goethe.
A grande delicia do publico intelligente e vibratil que vae aos espectaculos
é a comedia de costumes, e pena è, realmente, que, possuindo, quand même,
alguns artistas aptos para esse genero, estejamos condemnados a passar sem
elle.
As nossas magicas,attrahindo – podéra não attrahirem! – a grande massa
do publico, não são precisamente o espectaculo digno de certos habitués sem
os quaes o theatro será tudo menos theatro. A satisfação, necessaria, ouso
afrmal-o, de que se acham privados esses espectadores de escol, é o incidente
que mais me afige no descalabro a que o nosso palco chegou.
Tudo, entretanto, se remedearia, se um homem de boa vontade e dispondo
dos capitaes sufcientes para resistir ás difculdades dos primeiros tempos,
congregasse uns tantos elementos que ainda nos restam e se acham dispersos,
aqui e alli, inutilisando-se, talvez,como os relogios que levam muito tempo sem
corda.
***
160
Quando ha tres annos e tres mezes, na noite de 14 de julho de 1894,
eu contemplava,do alto de Santa Thereza, o enorme braseiro fumegante
a que estava reduzido aquillo que uma hora antes ainda era o Polytheama
Fluminense, disse aos meus botões esta phrase perversa mas sincera:
– Bom; agora vão levantar um theatro onde estava um barracão!
Tempos depois, mostraram-me, efectivamente, o plano do bello theatro
que projectavam erguer sobre aquellas cinzas.
Todavia, taes transtornos sobrevieram que, pouco depois, o projecto era
destruido e o plano posto á margem... Ante-hontem foi inaugurado, no local do
Polytheama, o Frontão Velocipedio Fluminense.
O novo edificio é muito bonito e eu sou um amigo declarado do
cyclismo; entretanto, como ainda prefiro um bom espectaculo a uma
boa corrida de bicycleta (que diabo! o theatro foi sempre a minha paixão
dominante!),lamento que aquelle terreno esteja occupado por outro
estabelecimento que não um theatro.
É verdade que o respectivo proprietario terá o direito de me tapar a bocca,
apontando para o Variedades e o Santa Anna que estão fechados, para o S.
Pedro que só se abre aos domingos, para o Eden-Lavradio que só funcciona de
vez em quando, para o Lucinda que abriga, um museu ceroplastico, e para a
Phenix, a minha saudosa Phenix, convertida em casa de extracção de loterias...
***
É com prazer que registro a boa noticia de que o popular actor Machado
organisou para o Variedades uma companhia cujo elenco foi hontem publicado
na secção Theatros, desta folha.
Já está desde hontem em ensaios a peça de inauguração, uma opereta,
o Serralho de Nabor, original de Eduardo Victorino, Demetrio de Toledo e
Orlando Teixeira.
Faço os mais sinceros votos pelo bom exito de uma tentativa por tantos
motivos sympathica.
***
Vae ser bem triste o final d’este folhetim:
Falleceu ante-hontem, depois de uma rapida molestia, o actor Augusto
de Mesquita, que contava apenas 34 annos de edade, e ha 15, pelo menos,
trabalhava em os nossos theatros com muita acceitação do publico. Nasceu em
Portugal, mas achava-se desde muito criança no Brazil.
Era bem parecido, sympathico, elegante, e possuia uma voz sonora e
theatral, qualidades estas que o levaram a desempenhar de preferencia os
161
papeis amorosos, e lhe assignalaram o logar, que occupou durante muitos
annos, de tenorino de opereta.
Um tanto frio, um tanto negligente no estudo dos seus papeis, Augusto de
Mesquita, que era dotado de uma intelligencia prompta e segura, começava
agora a tomar a serio a sua arte. Os seus ultimos trabalhos revelavam grandes
progressos. Aos quarenta annos – a edade dos grandes artistas – poderia ser
um actor consummado, e prestar grandes serviços ao theatro brazileiro.
A fatalidade não consentio que o pobre artista lá chegasse...
Mesquita, nas ultimas peças em que appareceu ao publico, teve occasião
de se exhibir nos diversos generos, que experimentára, como se a todos elles
fizesse as suas ultimas despedidas. Foram taes peças: o Capitão Losbishomem,
opereta, Abacaxi, revista-magica, Vade retro, Satanaz! zarzuela, Uma senhora
illustrada, comedia, e o Naufragio do Colombo, drama. Neste ultimo appareceu
abrasado pela febre que o devia levar ao tumulo.
Mais um infortunio, pois, para o extenso ról dos infortunios que têm
ultimamente pezado sobre o nosso theatro...
Resignemo-nos.
A. A.
162
O Theatro, 18/11/1897
Os leitores necessariamente conhecem a opereta Les brigands, a peça mais
engraçada, talvez, de quantas escreveram Meilhac e Halévy, proporcionando a
Ofenbach o ensejo de produzir uma das suas partituras mais saltitantes. Pois
essa opereta é a genese de L’hotel du Tohubohu, que acaba de ser representado
no Apollo com o titulo de Hotel Babel.
Na peça de Meilhac e Halévy trata-se de salteadores e na de Maurice
Ordonneau de saltimbancos; em ambas, porém, as situações comicas são as
mesmas sem tirar nem pôr, com a diferença de que nos Brigands ellas resaltam
com muita naturalidade e muita logica da propria acção e do proprio dialogo
e são verdadeiros modelos de technica theatral, ao passo que no Hotel de Tohu-
bohu o espectador lhes sente o longo e minuncioso preparo.
Com o fim de proteger os amores de um amigo, e auxiliado por uma
companhia de pelotiqueiros, cuja directora deseja vingar-se de uma
estalajadeira insolente, um pintor estroina transforma em estalagem a casa
de campo de seus tios, Mr. E Mme. Moulinet, bons e pacatos burguezes, que
não gostam de ver a mobilia desarranjada, nem os objectos fóra do logar. O
amor da ordem e do methodo no lar domestico, e o respeito que às boas almas
inspiram os velhos moveis, passando de avós a netos, são delicadamente
pintados em deliciosos couplets.
No hotel improvisado, Mlle. Dremer, a menina amada pelo amigo do tal
estroina, deve, acompanhada pelo pae, encontrar-se com certo conde italiano,
que a pretende. Um dos saltimbancos faz-se passar por esse fidalgo, no intuito
de desmoralisal-o aos olhos do pae e da filha, e, quando chega o verdadeiro
conde, a noiva é substituida por Mlle. Flora, a directora da companhia, e o
futuro sogro por outro saltimbanco. E a gente lembra-se logo de Falsacappa,
Campotasso, Pietro, Fiorella e outros personagens d’aquelles inolvidaveis
Brigands.
Escusado é dizer que tudo se arranja no 3º acto, e ficam todos satisfeitos,
inclusive os espectadores, que se têm rido a valer.
O 1º acto é um pouco frio, mas o 2º, que eu quizera vêr representado com
mais vivacidade, é muito cheio, e o 3º não desmerece do 2º, sendo que em
todos elles é um prazer para os ouvidos a musiqueta graciosa e facil de Victor
Roger, compositor avisado, que conhece todos os efeitos do genero.
A talentosa Lopiccolo desempenha com muita graça o seu papel de
saltimbanca transformada em estalajadeira, cantando com muita discrição
a sua parte, e, no papel da noiva, uma estreiante que responde ao sonoro
nome de Lina Rubini, revela tal ou qual disposição para a scena, e mostra uma
163
extraordinaria facilidade em pronunciar a lingua portugueza. Disse o meu
prezado collega do Paiz que essa estreiante é discipula da Lopiccolo: ella que
aproveite os bons ofcios de tão bôa mestra, sem comtudo deixar de ouvir, nas
horas vagas, os conselhos do seu ensaiador, que tem a virtude de se chamar
Adolpho Faria.
Mattos representa com a graça e a naturalidade do costume o papel do
futuro sogro; mas é pena que no 2º acto a Loppiccolo, armada de um espanador
impertinente, prejudique sem necessidade uma dessas scenas mudas em que
elle é sempre eximio. Rangel dá boa conta do turbulento papel do saltimbanco
transformado em conde italiano; Barbosa, cuja voz de barytono tem feito
reaes progressos, é um namorado muito acceitavel; Pedro Nunes, o conde,
està bem, principalmente no dialogo com a supposta noiva e o sogro macanjo,
e os demais artistas – Elisa de Castro, Olympia Amoedo, Nazareth, Campos
e Pedro Augusto – se esforçam para que a peça tenha um desempenho muito
satisfatorio, e que satisfaz realmente.
O exito desta opereta depende em grande parte da enscenação, e
justiça é dizer que, por esse lado, não ha que observar, sendo que em toda
a representação é visivel o capricho com que o ensaiador, o já mencionado
Adolpho, procurou fazer com que se não perdesse nenhum dos respectivos
efeitos.
Accacio Antunes sahio-se perfeitamente das difculdades com que tinha
de arcar, traduzindo uma opereta quasi toda escripta em argot de saltimbancos
parisienses. O titulo Hotel Babel é que me não agrada: prefiro o de Lisboa: Hotel
da Barafunda, que traduz muito bem o original. Babel tem a desvantagem de
rimar com hotel, e demais, na famosa torre dos filhos de Noé, não havia outra
confusão que não fosse a das linguas. É verdade que nos nossos theatros raro é
o espectaculo em que as linguas não se confundem.
Tinham-me dito que a nova opereta do Apollo era muito livre. Tal não me
pareceu. É verdade que só assisti á 3ª representação: as liberdades foram talvez
supprimidas. Se o foram, não fizeram falta; o que alli está é sufciente para
divertir o publico durante tres horas.
***
Continuam no Recreio as representações da Coroa de Fogo, com os
seus scenarios sumptuosos, as suas apotheoses deslumbrantes, os seus
engenhosos machinismos e tramoias, e o seu popularissimo Brandão, a animar
o espectaculo com aquella formidolosa exuberancia comica de bruleur de
planches.
164
Ninguem, que assista á representação da Coroa de Fogo,sahe do theatro
dando por mal empregado o seu tempo; aquillo, quando mais não seja, é um
prazer para os olhos.
***
Não fui ver as duas zarzuelas do Eden-Lavradio. Bem sei que estes folhetins
me impõem a obrigação de assistir a todos os espectaculos theatraes,mas – que
querem? – é um sacrificio, a que não me submetto,assistir a representações
infantis; tenho que o theatro não foi inventado para crianças, e é, pelo menos,
um contrasenso obrigal-as a representar peças escriptas para “gente grande”.
***
De volta de S. Paulo, partiram hontem para Lisboa os artistas da
companhia portugueza que, sob a direcção de Lucinda Simões, nos
proporcionou no theatro Sant’Anna uma serie de bons espectaculos.
Ao dar-me o seu abraço de despedida, Lucinda, que actualmente está
contractada para representar no theatro D. Maria,assegurou-me que d’aqui
adousannos voltará ao Rio de Janeiro, trazendo uma boa companhia, cujo
repertorio virá completamente ensaiado, para evitar certas representações,
preparadas de afogadilho, que não resistem, nem podem resistir, aos esforços
mais intelligentes.
Está, pois, o publico fluminense emprazado para o fim do seculo.
Acham-se tambem contractados no theatro D. Maria Christiano de Souza e
Lucilia Simões, a distincta actriz brazileira, com quem poderiamos contar se o
Theatro Municipal se tornasse uma realidade palpavel.
Agora que já não é prefeito o Sr. Dr. Furquim Werneck, illustre cidadão que
infelizmente não sympathisa com o theatro, talvez tenhamos a satisfação de o
ver substituido por um cavalheiro animado de melhores sentimentos pela arte
dramatica. Se assim fôr, eis ali um motivo de jubilo para as nossas lettras e para
os poucos artistas que ainda nos restam.
***
Tenho que registrar o fallecimento de um auctor dramatico, o Dr. João
Climaco Lobato, que deixou algumas peças, umas representadas no Norte
e outras ineditas. Ha muitos annos deixara de escrever para o theatro,
entregando-se de corpo e alma aos seus deveres de magistrado.
Não me consta que nenhuma das suas peças fosse representada no Rio de
Janeiro. O mesmo succedeu às de Franklin Tavora, Sabbas da Costa, Casimiro
de Assis e outros dramaturgos, cujo theatro não transpoz a linha divisoria que,
em materia de litteratura dramatica, separou até certo tempo o Norte e o Sul.
165
Agrario de Menezes foi o unico a transpor essa linha. Em compensação, todos
os auctores do Sul foram representados no Norte.
***
Falleceu tambem um modesto servidor dos nossos theatros, o contraregra
Frederico Aroeira, que eu conheci ha vinte e tantos annos labutando sempre,
até que veio a molestia e consequentemente...a miseria.
Valeu-lhe nos ultimos dias, amargos e lacrimosos, e fez-lhe o enterro, a
Caixa Beneficente Theatral, que continúa a desempenhar dignamente a sua
nobre e piedosa missão de caridade e de amor.
A. A.
166
O Theatro, 25/11/1897
Os nossos emprezarios e os nossos artistas estão queixosos – e com toda a
razão – do incremento que tem tomado o jogo nos frontões e velódromos da
rua do Lavradio.
Pois mais extraordinario que isso pareça, não ha duvida que taes
estabelecimentos desviam o publico dos espectaculos theatraes n’um centro
populoso como o Rio de Janeiro!
No actual momento funccionam com regularidade apenas dois theatros
– o Apollo e o Recreio; todavia, nem um nem outro consegue encher-se, nem
mesmo aos domingos; apezar de ter cada um delles em scena uma boa peça,
regularmente representada,com muita boa enscenação, e adubada ao gosto do
publico.
Depois que se inaugurou o Frontão-Velocipedio e depois que o Velodromo
Nacional ampliou o seu systema de jogo, inventando até poules de consolação
para attrahir os próprios desconsolados, os bilheteiros do Apollo e do Recreio
tiveram sensivel diminuição de trabalho...
Bem sei que os emprezarios desses estabelecimentos, onde o cyclismo, o
nobre cyclismo, que não me canço de engrandecer, é apenas um pretexto para
a mais desenfreada jogatina, estão no seu direito e cumprem até o seu dever,
fazendo com que a porcentagem do jogo seja representada pelo maior bolo
possivel; elles têm os papeis em regra: pagam pezados impostos, e submettem-
se de cabeça baixa a todas as exigencias das leis e das auctoridades incumbidas
de as fazer respeitar; mas não é triste – respondam-me! – não é triste ver os
theatros e os poucos artistas que ainda nos restam sacrificados ao jogo?
No tempo em que a famosa bicharia do Jardim Zoologico locupletava o
barão de Drummond (Deus lhe falle n’alma!); no tempo em que os famigerados
book-makers tinham as portas francamente escancaradas aos patáos de ambos
os sexos, de todas as côres e de todas as edades, o meu velho amigo Jacintho
Heller, então emprezario do Sant’ Anna, teve uma idéa que não classificarei de
genial: introduzir no seu theatro o jogo das peças, como o barão introduzira no
seu jardim o jogo dos bichos.
O processo seria o mesmo: haveria em jogo vinte e cinco peças, como na
Villa Isabel havia vinte e cinco bichos, e cada noite, o titulo de uma d’ellas, a
premiada, appareceria no quadro mysterioso que, pendurado pela manhã, só
seria aberto á noite, depois do 2º acto.
Eu, que já então escrevia estes folhetins, insurgi-me, antes mesmo que
a policia interviesse, como interveio, contra essa idéa, cuja realização se
me afigurava o tiro de honra (ou de deshonra, como queiram) dado na arte
167
dramatica. Hoje estou quasi convencido do contrario, e tenho que os theatros
só poderão lutar com os seus concurrentes da rua do Lavradio, quando
proporcionarem aos espectadores occasião de jogar durante os intervallos.
Reflectindo bem, a idéa, sem deixar de ser repulsiva, não é tão paradoxal
como á primeira vista parece.Por que se consente o jogo nos prados de
corridas? Porque os prados de corridas melhoram a raça cavallar e o paiz
precisa de bons cavallos para o exercito. Por que se permitte o jogo nos
velódromos? Porque os velódromos desenvolvem o cyclismo, e o cyclismo
é necessário como um reconstituinte, que é, dos musculos e do sangue. Por
que se tolera o jogo nos frontões? Por que a pelota é egualmente um exercicio
proveitoso ao nosso organismo, se bem que os pelotaris que se exhibem nesses
estabelecimentos sejam todos estrangeiros e profissionaes, não me constando
que até hoje tenham feito escóla no Rio de Janeiro.
Pois bem: nos theatros haveria tambem uma razão muito forte para
cohonestar o jogo: o desenvolvimento da arte e da litteratura dramatica. Os
emprezarios dos theatros onde se jogasse teriam por obrigação pôr em scena,
durante o anno, duas ou tres peças nacionaes, que fossem litterarias, a juizo de
uma commissão de pessoas idoneas.
Não ha duvida que o jogo é immoral, mas menos immoral seria nos
theatros que nos prados, nos velódromos e nos frontões, e se nestes logares é
elle cohonestado pelo melhoramento das raças, nos theatros tambem o seria
pelo melhoramento da arte, sendo que na nossa boa terra as condições em
que se acha o theatro – bitola por onde se mede a civilisação de um povo – são
inferiores ás dos cavallos e ás dos homens.
Accresce que no “jogo das peças” não haveria meio de fazer trapaças, ao
passo que nas corridas de cavallos, nos partidos de pelota e nas apostas de
bicycletta os jogadores de boa fé são quasi sempre victimas das mais ignobeis
falcatruas.
Ainda agora leio na Semana Sportiva, o interessante periodico do meu bom
camarada Henrique Blatter, um curioso entre-filetes, cuja leitura me parece
mais que suggestiva para arredar de todo o animal pensante a idéa de arriscar
um nickel na rua do Lavradio.
“É curioso, diz elle, o estudo do argot dos velódromos, o qual está sempre
passando por transformações interessantes.
O tribofe, que é puramente gyria dos prados, tomou nos velódromos o
nome suggestivo de mala, mas esse mesmo vae desapparecendo com a marcha
do progresso.
Entre os maleiros que se prezam não diz mais: “vamos fazer uma mala”;
mas sim: “vamos desenvolver o cyclismo”.
168
E o desenvolvimento do cyclismo, que está tomando um desenvolvimento
enorme, é, por um antagonismo curioso, a lepra desse bello e util sport.
Ha amadores decentes, honrados, briosos, que prezam a sua dignidade,
mas infelizmente estes não são muitos.
O numero dos que desenvolvem é maior, e as emprezas dos velódromos
precisam de andar com os olhos muito abertos para que o publico não seja
desenvolvido do modo mais cruel.
A quint’essencia do desenvolvimento deu-se ha dias, causando pasmo e
inveja aos mais matriculados tribofeiros dos prados.
Fechou-se a casa da poule. N’uma das duplas havia uma só vendida. O
desenvolvedor-mór, que estava de olhos accesos, bispou quem era o possuidor
d’essa unica poule, e zás! comprou-lh’a por 20$000.
Anda a roda e ganha á tôa a tal dupla, dando o rateio de 202$, que bem
chegou para todos quantos trabalharam pelo desenvolvimento do cyclismo.
E o publico ficou convencidissimo de que não é possivel haver fraude
quando ganham corredores com uma poule só vendida!
O meio de se avisar os indicados para vencer está descoberto; o
desenvolvedor-mór colloca-se n’um certo logar das archibancadas e na primeira
volta grita com toda a força dos seus pulmões: “Tóca, fulano.” É esse fulano
o indigitado para o primeiro logar. Na segunda volta usa do mesmo processo
e clama: “Tóca, beltrano!” É beltrano o que deve tirar o segundo. E não ha
castigo.
Parece-nos facil, assim descoberto o processo da tramoia, burlar as malas.
E as emprezas dos velódromos, se quizerem que os seus esforços para o
desenvolvimento do cyclismo sejam corôados de bom exito,têm que lançar mão
de todos os meios para acabar com os taes desenvolvimentos.”
Elles que lancem mão de quantos meios quizerem. Fui testemunha dos
esforços ingentes que fizeram, para acabar com as malas, os ex-directores do
Velódromo Nacional, cavalheiros escrupulosissimos, negociantes conceituados,
incapazes de pactuar com tribofeiros, maleiros e desenvolvedores. Não
conseguiram nada...
Das duas uma: ou não permittam o jogo nos velódromos e frontões, ou
o tolerem tambem nos theatros, onde, pelo menos, haverá certeza de que o
povinho não será embarrilado. Entretanto, o idéal seria que se não jogasse em
parte alguma, embora não houvesse... melhoramento de raças.
***
Subio á scena, em 18 do mez passado, no theatro da Opera Comica, de
Paris, o poema lyrico em 4 actos Le spahi, posto em musica por um compositor
169
brazileiro, ou antes, por um compositor nascido no Brazil, – Luciano Lambert,
filho do professor do mesmo nome que envelheceu e falleceu nesta capital.
Le spahi foi a opera premiada em 1896, no concurso trienal da cidade de
Paris; ainda o velho Lambert, que pouco depois fechava para sempre os olhos,
teve tempo de receber e de communicar aos amigos a noticia do triumpho
alcançado pelo seu filho querido.
Ao que parece, não agradou a nova opera de Luiz Lambert, que não é
um estreiante, pois que em Rouén (se me não engano) fez representar com
successo outra opera cujo titulo não me occorre neste momento. Le spahi até o
ultimo dia de outubro só tinha tido duas representações.
A critica – é preciso notar – fez ver que a partitura foi sacrificada pelo
libretto, assignado, alias, por dois escriptores de merecimento, um dos quaes,
Luiz Gallet, é, ha muito tempo, considerado mestre nesse genero de litteratura.
O livro Le roman d’un spahi, d’onde foi extrahido o libretto, não fornecia
absolutamente uma acção dramatica interessante; um dos criticos escreve
o seguinte: “Lè roman de Pierre Loti est tout en détails minutieux, en
descriptions colorées, en états d’âmes intimement confondus dans l’aspect
toujours renouvele du paysage, en grouillements de foules, on tintamarres de
bivouacs rendus avec cette vérité saisissante, cet séde mieux que Loti. Mais de
sujet, point, ou si peu. Et ce peu lá, les librettistes l’ont encore amoindri, réduit
a l’aspect de simple anecdote ou parfois de tableau vivant.”
Mas a critica – e sabe-se como é exigente a critica parisiense quando se
trata de musica – a critica reconhece que Luciano Lambert tem idéas musicaes,
e que a sua orchestração, curiosa, minuciosa,recherchée,agrada ao ouvido e não
o fatiga. Já é alguma cousa.
Pareceu-me que, tratando-se de um compositor nascido no Brazil, embora
não seja brazileiro, a noticia devia interessar aos leitores habituaes destes
folhetins.
***
Deixo ao meu collega Luiz de Castro a doce tarefa de dizer aos leitores d’A
Noticia as impressões que trouxe hontem do theatro Lyrico, onde os nossos
mais applaudidosamadores cantaram Mireille, a esplendida opera de Gounod.
A. A.
170
O Theatro, 02/12/1897
Inauguraram-se hontem no theatro Variedades os trabalhos da “companhia
de vaudeville, opereta, magicas e revistas” de que é emprezario o sympathico o
popular actor Machado.
Subio á scena, em primeira representação, a opereta em 3 actos e 4
quadros, original de Eduardo Victorino,Demetrio de Toledo e Orlando Teixeira,
musica de Ofenbach, Suppé, Serpette, Chapi, Lecocq, Audran,Chueca,
Valverde, Assis Pacheco, Luiz Moreira e Paulino Sacramento. Excuzez du peu.
O libretto, extravagante como todos os librettos de opereta, revela que
os tres auctores têm habilidade bastante para o theatro: o que lhes falta é um
pouco de paciencia, e na profissão das lettras, alguem o disse, a paciencia é
meio genio.
Efectivamente, com mais uma dóse dessa virtude, elles teriam articulado
com mais consistencia os episodios e as situações da peça, e esta não
seria inferior a tantas outras, do mesmo genero, importadas de França e
ruidosamente applaudidas pelas nossas platéas. Mas nota-se, principalmente
nos dois ultimos actos, certa precipitação que prejudica alguns efeitos,
alguns dos quaes, tratados com mais reflexão, seriam infalliveis e de um
comico irresistivel. Ainda assim, os espectadores riram, e não deram por mal
empregada a noite.
Parece-me egualmente que os auctores poderiam, sem sacrificar a peça,
attenuar umas tantas escabrosidades, algumas das quaes são sublinhadas pelos
artistas com lamentavel desaso. A actriz Maria Augusta, que desempenhava
o papel de uma rainha caricata, parecia receiosa de que os espectadores não
percebessem certas phrases que nem ambiguas eram, e atirava-as por cima da
ribalta com uma intenção impertinente.
Na minha humilde opinião, as honrar da noite couberam ao actor Leite,que
no papel de Fructuoso, ministro de todas as pastas do reino de Asneiropolis,
mostrou perfeita comprehensão do genero, provocando o riso com esta simples
phrase Viva o rei! – phrase com que provavelmente os auctores não contavam.
Infelizmente o papel não era dos mais consideraveis: Frctuoso appareceu
apenas no 1º acto e no final do 3º; mas nesse final o seu reapparecimento foi
recebido com uma salva de palmas, prova cabal de que o publico estava com
saudades delle.
Machado, Francisco de Mesquita, Zeferino, Castilho e outros artistas
atravessam alegremente a peça. Rose Méryss, cujo reapparecimento no palco
é motivo de jubilo para os seus numerosos amigos e admiradores, não tem o
171
papel brilhante que merecia, e Dolores Lima, sempre graciosa,intelligente e
sympathica, é uma princeza Nathalia de primeira ordem.
Ha na peça bonitos numeros de musica, bonitos bailados, bonitos
scenarios, bonitos versos, como os sabe escrever Orlando Teixeira, e uma
bonita apotheose, um pouco fresca, representando o banho das odaliscas.
Nessa apotheose figuram as “mulheres de boa plastica” que acudiram ao
annuncio da empreza.
O Serralho de Nabor levará, espero, muita gente ao Variedades, mas não é
esta ainda a peça que ha de consagrar o talento dos tres esperançosos moços
que a assignam,e a quem um dia applaudirei sem reservas.
***
Uma commissão de actores foi ante-hontem pedir ao Sr. presidente da
Republica, em nome de todo o numeroso pessoal que vive dos theatros,a
sua intervenção benefica,afim de ser reprimida a jogatina dos velódromos e
frontões, indubitavelmente uma das causas do abandono em que o publico tem
deixado as representações theatraes.
Não sei quaes serão os efeitos desse recurso; mas quer me parecer que
ao chefe do Estado, comquanto as providencias contra o jogo não estejam
directamente nas suas attribuições, basta-lhe, para proteger os artistas,
manifestar um pouco de sympathia por elles, que bem a merecem. L’amitié d’un
grand homme est un bienfait des dieux, disse o poeta.
De resto, o Sr. Dr. Prudente de Moraes mostrou-se extremamente amavel
para com os artistas que o procuraram, dando-lhes a entender que o actual
prefeito municipal, não tendo, como o seu illustre predecessor, compromissos
que o obriguem a cuidar menos do districto que da politica, será bastante
energico para prestar aos theatros o serviço agora reclamado dos poderes
publicos.
***
A minha posição n’este assumpto não é das mais agradaveis. O meu
folhetim passado já me valeu uma descompostura anonyma na Secção alheia
da Gazeta da Tarde... Mas não importa, meus senhores: tenho costas largas e
ando seriamente empenhado em puxar a braza do publico para a sardinha do
theatro.
Entretanto, a descompostura foi injusta, porque sou amigo declarado da
bycicleta, da pelota, e, em geral, de todos os exercicios physicos; é contra o
jogo, só contra o jogo que me insurjo, vendo-o escancarado assim a todas as
classes, a todas as bolsas, a todas as idades, sem fiscalisação, sem policiamento,
sem criterio de especie alguma.
172
Creio que n’esta campanha, aliás pacifica, – simples campanha de rodapé –,
serei applaudido pelos caracteres sãos. E se o não for, paciencia.
***
Foi-me ante-hontem entregue a seguinte carta:
“Acabo de receber a revista em 1 acto Les Mémoires du Gymnase, de
Dumanoir e Clairville, que occasionou a nossa polemica, escrevendo eu pela
Folha da Tarde e V. pela Noticia.
Falhou, portanto, o Larousse, no qual disse V. não ter encontrado nenhuma
peça com esse titulo, entre as que foram escriptas por Dumanoir.
Podemos agora, portanto, liquidar a questão que o Dr. Vicente Reis
levantou em tempo.
Na Fantasia, se bem me lembro, havia um personagem que adormecia
pensando n’uma peça para a qual não encontrava enredo. Durante o seu
somno, apparecia-lhe em sonho a Fantasia, que servia de comadre da revista e
perante a qual se desenrolavam os acontecimentos.
Na revista de Dumanoir e Clairville ha necessidade de uma peça para
reabrir o Gymnasio. Um dos personagens pergunta onde a encontrar e outro
reponde-lhe que ha necessidade de recorrer ao magnetismo.
“Poudret (com vivacidade). – Podemos recorrer ao magnetismo. Diz-se que
elle ensina tudo.
A Viuva. – E nós temos a nossa somnambula, que é a melhor de todas.
Chamem-na.”
Apparece então a Fantasia, que serve de comadre, e passam-se os diversos
acontecimentos de Paris em sua presença.
Ora, concordará V. que, se não é a mesma cousa, ha no emtanto uma
semelhança extrema.
Para julgar do facto, escolho desde já, com toda a lealdade, para juízes os
meus collegas Rodrigues Barbosa e Urbano Duarte, do Jornal do Commercio,
que mantêm com V. laços de amisade, podendo V. completar com outros nomes
o jury.
A peça de Dumanoir será por mim entregue ao Rodrigues Barbosa.
Appellando para os deveres de lealdade, espero ver publicada esta carta. –
Claudio Junior. – 29 de novembro de 1897.”
Não, eu não concordo que haja entre a minha revista e a de Dumanoir
e Clairville “uma semelhança extrema”; creio mesmo (pois que não
conheço a peça franceza) que ellas se parecem tanto como um ovo com um
espeto;entretanto, como a questão vae ser afecta a um jury, não me é licito
insistir.
173
O Sr. Claudio Junior, indicando para juizes dous amigos meus, põe-me
na singular contingencia de indicar por meu turno dois cavalheiros que não
entretenham commigo relações de amisade. Indico, pois, o Sr. Felinto de
Almeida, que ha muitos annos deixou de me fallar, e o Sr. Eduardo Victorino,
que nunca me fallou; peço-lhes que não se recusem á massada que bem a
contra gosto lhes proporciono.
A. A.
174
O Theatro, 09/12/1897
Deliciou-me a segunda representação da Mireille, pois que á primeira não
me fôra dado assistir. Deliciou-me,palavra! O libretto é o melhor que poderia
fornecer a famosa epopéa rustica de Mistral, e a partitura um mimo, em que
peze á opinião de um dos nossos musicographos, que não achou por onde lhe
pegasse. É um mimo, repito, – e, se o não fosse, difcilmente se sustentaria no
repertorio do theatro da Opera Comica, de Paris, durante trinta e tantos annos.
Já disse aos meus leitores, por mais de uma vez, os motivos que me
aconselham a não apreciar o trabalho dos amadores do theatro. A critica perde
os seus direitos desde que não se trate de artistas de profissão, embora, nos
ultimos espectaculos do Cassino e do theatro Lyrico, o espectador,a quem
estranhassem quaesquer exigencias descabidas, tivesse o direito de responder
com o celebre verso de Boileau, citado ha dias pelo meu collega de L’Étoile du
Sud a proposito dessas mesmas representações:
C’est un droit qu’ á la porte on achète en entrant.
Ha, todavia, entre os amadores que interpretaram a opera de Gounod,
uma artista excepcional, cujo nome não posso deixar de mencionar neste
repositorio fiel das minhas impressões de theatro. Já todos sabem que me refiro
á Exma. Sra. D. Elvira Gudin, que tinha sido uma excellente Baucis e foi agora
uma esplendida Mireille. Quando ella canta, a gente esquece-se de que está
assistindo a uma representação de amadores.
O meu collega Luiz de Castro, que tem sido a mola real desse curioso
movimento artistico, já escolhendo, já ensaiando as peças, póde gabar-se de
ter conseguido um resultado brilhante; mas, para fallar com toda a franqueza,
não creio que esse resultado inflúa sobre os destinos do nosso malsinado
theatro. As damas e cavalheiros da melhor sociedade fluminense que formam
o grupo dos amadores do Cassino e do theatro Lyrico não poderão exhibir-
se continuada e systematicamente diante do publico pagante embora sob o
interessante pretexto das obras pias, – e desde que o publico não seja, como
tem sido, admittido nesses espectaculos, que influencia poderão elles exercer
sobre o theatro brazileiro?
Não é ao escol da sociedade, não é ao high-life dos bairros elegantes que
é preciso ensinar o bom caminho em materia de arte dramatica. A cousa é
convencer o publico, o grosso publico, de que ha no theatro alguma cousa mais
digna de applausos que as operetas, as magicas, as revistas e os dramalhões
pantafaçudos que, na minha opinião, constituem o mais pernicioso dos
175
generos. A sociedade fina, essa está divorciada do theatro, e as representações
de amadores, publicas ou privadas, só servirão para afastal-a d’elle mais, se é
possivel.
Entretanto, se Luiz de Castro fizer representar ainda outra opereta
franceza, bom será que o libretto seja traduzido. Ha nisso duas conveniencias:
a primeira é que os amadores (brazileiros todos,á excepção do Sr. Dufriche,
que falla o portuguez) estarão mais á vontade representando no seu proprio
idioma, e a segunda é que mais uma vez se tentará – tentará pelo menos –
acabar com essa velha e estupida abusão de que a nossa lingua, tão sonora, tão
musical, não se presta absolutamente ao canto.
Alberto Nepomuceno,o insigne artista que tem dirigido a orchestra nos
espectaculos do Lyrico, dar-me-ha toda a razão; os leitores hão de estar
lembrados que elle pôz em musica bonitos versos de Juvenal Galleno, João de
Deus e outros poetas brazileiros e portuguezes, para mostrar que a lingua de
Eça de Queiroz e Machado de Assis não é das que menos se prestam á musica.
***
Um cavalheiro, que se mostra amigo sincero do theatro, o Sr. J. Caetano
Garção, tomou a serio as ironias do meu penultimo folhetim, que aventava a
idéa de se estabelecer nos theatros o jogo das peças, á imitação do jogo dos
bichos.
“Quando, depois de esgotados todos os meios licitos (escreve elle), só
tivermos, como unico recurso, a execução de tal medida, n’esse dia, cobrindo
de crepe a estatua de João Caetano, lançaremos em altos brados o nosso
protesto de indignação, e, permittindo-nos a liberdade de parodiar o genial
poeta, exclamaremos:
Quand en n’a plus d’honneur, on n’a plus de théàtre!”
Esteja descançado o meu amavel correspondente, que não terá occasião
de cobrir a estatua do nosso artista nem de protestar, desfigurando um verso
de Victor Hugo. Aquillo não passa de uma boutade de folhetinista alegre. No
dia em que houvesse nos theatros o jogo das peças, o primeiro perturbador da
ordem publica seria este seu criado. Descance.
Os termos em que está redigida a representação levada ao presidente da
Republica pela commissão dos theatros, devem tranquilisal-o a tal respeito. Os
nossos artistas jamais lançariam mão, para viver, dos meios ignobeis que elles
são os primeiros a condemnar. Para o cheiro dos nickeis do povinho ganhos ao
176
jogo, nenhum dos nossos emprezarios teria o olfato insensivel dos Vespazianos
da velocipedia e da pelota. Descance.
A representação produzio, por emquanto, magnificos efeitos... moraes;
despertou, não ha duvida, muita sympathia, e os jornalistas não lhe fizeram
carga, á excepção do collega da Semana Sportica, que necessariamente devia
gabar a noiva.
***
O Apollo esteve em festas durante as duas ultimas noites: ante-hontem
era o beneficio do Mattos e hontem o primeiro anniversario da empreza. Em
ambos os espectaculos foi representado o Bico de Papagaio, o maior successo da
companhia. Antes d’isso tinha voltado á scena a interessante opereta A cigarra
e a formiga, desempenhando a Sra. Lina Rubini, a contento geral, o papel da
formiga, na primitiva desempenhado pela Sra. Ismenia Matteos.
Envio os meus parabens a Moreira Sampaio, Adolpho Faria e mais
emprezarios do Apollo, pela intelligencia, perseverança e firmeza de animo
com que se houveram durante o anno mais calamitoso, talvez, de que rezam os
annaes do nosso theatro.
Dentro de poucos dias os valentes artistas do Apollo partirão para S.
Paulo, onde os espera o theatro S. José. Conto que não se hão de arrepender
do passeio, para o bom exito do qual não lhes falta nenhum dos elementos
precisos.
***
E nada mais de novo: no Variedades continuam as representações do
Serralha de Nabôr, e no Recreio as da Corôa de Fogo.
***
Domingo proximo haverá no theatro Apollo uma bella matinée, organisada
pelos actores Peixoto, Mattos, Machado e Sepulveda, em favor de um jornalista
que se acha ha mezes gravemente enfermo e lutando com serias difculdades
para viver.
Realiza-se o espectaculo por um movimento expontaneo daquelles artistas,
ou antes, do Peixoto, a quem os outros se associaram com enthusiasmo:
tratava-se de uma pessoa que prestou os melhores serviços á classe theatral,
quer como jornalista, quer no exercício de outra profissão muito diversa. O
beneficiado é completamente estranho á idéa do beneficio.
Conto que no Apollo não fique logar para a cabeça de um alfinete. Poucas
vezes o publico é solicitado para um fim tão sympathico e tão justo.
A. A.
177
O Theatro, 16/12/1897
Partio hontem para S. Paulo a companhia do theatro Apollo, fugindo á
crise por que estão passando neste momento os theatros da Capital Federal.
A empreza luctou até onde podia luctar, conseguindo, durante o seu
primeiro anno de existencia, desobrigar-se, por meio de verdadeiros milagres
de economia, de todos os compromissos que contrahira. Para isso concorreram
os esforços reunidos de todo o pessoal, principalmente de Adolpho de Faria,
director interno, e Moreira Sampaio, director externo da companhia.
Durante esse anno foram postas em scena as seguintes peças (não afianço
que me não escapasse alguma): Champignol, Ha caça e... caça e o Lambe-féras,
vaudevilles; a Cigarra e a formiga,Fanfan, o Gallo de ouro, Zoé, e o Hotel Babel,
operetas, o Bico de papagaio e a Filha do inferno, magicas. Entre essas dez peças
só houve duas reprises: a da Filha do inferno e a do Gallo de ouro: eram todas as
demais completamente novas para o nosso publico.
Por ahi se vê com que bôa vontade tem trabalhado a companhia do Apollo.
Pôr em scena em dose mezes dez peças, cada uma das quaes reclama, em
condições normaes, dois mezes de bons ensaios, é um tour de force que o nosso
publico infelizmente não aprecia, e, o que é peor, não recompensa.
Espero que os paulistas se mostrem menos esquivos, e saibam fazer justiça.
A companhia leva dois comicos de primeira ordem: o Mattos e o Peixoto –
uma estrella de primeira grandeza: a Lopiccolo – essas tres figuras principaes
vão acompanhadas por um estado-maior de se lhe tirar o chapéo: excellentes
actores, insignes bailarinos, um bom corpo de córos e um regente de orchestra
que constituio este anno a mais extraordinaria das revelações: Assis Pacheco,
ensaiador de um gosto apurado e de uma actividade prodigiosa.
Boa viagem!
***
A empreza do Recreio pelos modos fica sem a Pepa, que volta, segundo
consta, para a companhia Silva Pinto, actualmente em Santos e de viagem para
o Rio Grande do Sul; no Variedades annuncia-se para breve a 1ª representação
de uma revista de anno,o Diabo a quatro, de Vicente Reis e Demetrio de Toledo;
no Sant’Anna teremos amanhã, se não mentem as noticias, a inauguração de
uma nova companhia dramatica dirigida pelo actor Soares de Medeiros. Ahi
têm os leitores em que se cifra o movimento theatral do Rio de Janeiro n’estes
ultimos dias.
***
178
Está decidida a questão da Fantasia. Felizmente para mim, não tenho que
me envergonhar de uma gatunice litteraria, nem estou obrigado a entrar para
os cofres da Caixa Beneficente Theatral com a importancia dos respectivos
direitos de auctor, conforme declarei que faria se se verificasse que eu
plagiára a peça. Aproveito a opportunidade para fazer identica declaração
relativamente a todas as outras peças de theatro que desde 1875 tenho feito
representar como trabalhos meus, originaes: a pessoa que em qualquer d’esses
trabalhos descobrir cópia ou plagio, terá o direito de exigir que os competentes
direitos de auctor havidos e por haver revertam em favor d’aquella associação.
Eis o laudo apresentado pelo illustre homem de lettras Sr. Filinto de
Almeida, confirmado pelo auctor dramatico Sr. Eduardo Victorino e pelos
meus amigos Urbano Duarte, publicista, e Rodrigues Barbosa, critico theatral,
a todos os quaes agradeço penhoradissimo a boa vontade com que se
submetteram á estopada de ler a minha pobre revista:
“Para dar o meu parecer na questão travada entre os Srs. Claudio Junior e
Arthur Azevedo, li attentamente a Fantasia, revista em 1 prologo, 2 actos e 13
quadros, escripta pelo segundo e representada no theatro Eden-Lavradio no
anno passado, e a revista em 1 acto Les mémoires du Gymnase, de Dumanoir e
Clairville, representada no Gymnasio, de Paris, em 1850, – e poderia resumir a
minha opinião em poucas palavras:
Nada ha, absolutamente nada, de commum entre as duas peças, a não ser
um personagem – a Fantasia – tratado aliás diversamente pelos dois auctores.
Reportando-me á carta do Sr. Claudio Junior, transcripta no folhetim
O theatro, da Noticia de 2 do corrente (carta que foi o unico documento
apresentado aos arbitros e que mal podia servir ao esclarecimento da questão,
porque se refere a factos anteriores, a uma polemica havida em tempos entre
os dois escriptores brazileiros, a qual eu não acompanhei), parece-me que
a accusação feita ao Sr. Arthur Azevedo era de que na sua revista havia um
episodio extremamente semelhante a outro da pequena peça de Dumanoir e
Clairville. A meu ver não ha tal.
Diz a carta do Sr. Claudio Junior:
‘Na Fantasia, se bem me lembro,havia um personagem que adormecia
pensando n’uma peça para a qual não encontrava enredo. Durante o seu
somno, apparecia-lhe em sonho a Fantasia, que servia de comadre da revista e
perante a qual se desenrolavam os acontecimentos.
Na revista de Dumanoir e Clairville ha necessidade de uma peça para
reabrir o Gymnasio. Um dos personagens pergunta onde a encontrar e outro
responde-lhe que ha necessidade de recorrer ao magnetismo.
179
Poudret (com vivacidade). – Podemos recorrer ao magnetismo. Diz-se que
elle ensina tudo.
A Viuva. – E nós temos a nossa somnambula, que é a melhor de todas.
Chamem-n’a.
Apparece então a Fantasia, que serve de comadre, e passam-se os diversos
acontecimentos de Paris em sua presença.’
Houve confusão ou engano da parte do Sr. Claudio Junior no resumo que
em sua carta fez de ambas as peças.
Na de Arthur Azevedo o personagem não adormece pensando n’uma
peça para a qual não encontra enredo. Esse personagem recebe a visita de um
emprezario que lhe recusa um drama e lhe encommenda uma revista de anno;
mas para escrever a revista o que falta ao personagem não é o enredo – cousa
aliás bem dispensavel em tal genero de peças – mas fantasia, e é a Fantasia que
elle invoca ao adormecer. Esta apparece sahindo da estante dos livros que se
transforma n’uma gruta luminosa e florida, e vem em soccorro do escriptor.
Não é, porém, comadre da revista nem torna a apparecer, depois do prologo,
senão nas duas scenas finaes para dar uma explicação ao publico e para
ordenar a apotheose.
Isto quanto á peça de Arthur Azevedo.
Quanto á peça franceza – depois que a viuva diz a falla traduzida pelo Sr.
Claudio Junior na sua carta: “E nós temos a nossa somnambula, que é a melhor
de todas; chamem-n’a”, não apparece logo a Fantasia, como que invocada pela
somnambula, segundo parece inferir-se da carta (“apparece então a Fantasia,
etc.”) Ao contrario, quando Stanislas a interroga sobre o futuro do Gymnasio,
ella só lhe responde com referencias ao passado, tanto que elle canta:
[p. i.] j’lui demande l’avenir
E c’est l’passé qu’elle m’annonce.
Depois, e só na scena seguinte, é que entra a Fantasia, sem nenhuma
especie de invocação, annunciada por um criado.
Mas essa Fantasia não serve de comadre á revista, pela simples razão de
que na revista não ha comadres nem compadres; nem deante della se passam
os diversos acontecimentos de Paris, mas sómente e um acontecimento – a
reabertura do theatro depois da reforma do edificio, ou, se quizerem, do
repertorio d’esse theatro.
Não ha, portanto, nem entre as duas peças, nem entre os dois episodios em
que apparece a Fantasia, nenhuma semelhança extrema ou remota.
180
É este o meu parecer.
Rio de Janeiro, 6 de dezembro de 1897. – Filinto de Almeida.”
“Concordo.
Eduardo Victorino.”
“Concordo absolutamente com o criterioso parecer do Sr. Filinto de
Almeida.
Rio, 13 de dezembro de 1897.
Urbano Duarte.”
“Penso do mesmo modo.
Rodrigues Barbosa.”
Lembrarei ainda uma vez aos meus leitores que essa terrivel mentira foi
inventada pelo bacharel Vicente Reis, a quem nem mesmo eu poderia applicar,
se quizesse, a pena de Talião, porque, se, perdendo todo o sentimento da minha
dignidade, me resolvesse a propalar que elle plagiára de um auctor francez
qualquer das suas peças, ninguem, absolutamente ninguem o acreditaria.
A. A.
181
O Theatro, 23/12/1897
Neste folhetim, consagrado exclusivamente ao theatro, não póde ser
esquecido o nome de Alphonse Daudet, o grande morto do dia. É verdade
que, na obra do grande escriptor, o theatro não brilha tão intensamente como
o romance, mas as suas peças lhe assignalam, não ha duvida, um logar na
primeira fila entre os dramaturgos contemporaneos.
O que faltou a Daudet, para a sua consagração definitiva de auctor
dramatico, foi um grande successo theatral, como os tiveram Dumas e Augier,
Sardou e Meilhac. Nenhuma das suas peças vibrou tanto como a primeira,
– um drama em 1 acto, primoroso de sentimento e de arte, o Ultimo idolo,
representado no Odeon, em 4 de fevereiro de 1862. A propria Arlesiana, se é tão
a miudo representada, é isso devido principalmente á magnifica partitura de
Bizet.
Não é longa a lista das peças deixadas pelo eminente romancista: depois do
citado Ultimo idolo e do Cravo branco, tambem em 1 acto, fez elle representar
uma opera comica, Os ausentes,a qual, se lhe tirarem a musica de Ferdinand
Poise, fica sendo uma delicada comedia, e assim a vi representar em 1882 no
Gymnasio de Lisboa.
Aos ausentes seguio-se o Irmão mais velho, outro drama em 1 acto, e depois
o Sacrificio, comedia, Lise Tavernier, drama, e a Arlesiana, que data de 1872.
Representou-se depois uma peça extrahida por Adolpho Belot do seu
primeiro romance. Fromont ieune et Risler ainé, seguindo-se outra opera-
comica, o Carro, posta em musica por Pessard.
D’ahi por deante appareceram outras peças, tiradas dos seus romances o
Nababo, Jack, os Reis no exiho, Sapho, Numa Rumestan e Tartarin nos Alpes. Um
dos seus contos, a Mentirosa, forneceu tambem uma comedia a Léon Hennique.
Nos ultimos annos, Daudet apresentára duas obras fortes: a Lucta pela vida
e o Obstaculo.
Esta ultima peça foi traduzida por Macedo de Aguiar e representada
no theatro Lucinda. Ha muitos annos Furtado Coelho representou naquelle
mesmo theatro o Irmão mais velho. Além desses dois trabalhos, não me consta
que nenhuma outra peça de Alphonse Daudet fosse exhibida no Rio de Janeiro.
***
O actor Soares de Medeiros, que é um dos nossos artistas mais
classificados, chamou a si alguns collegas e organisou uma companhia
dramatica para o Santa Anna, que se conservava fechado desde que ocorreu
alli o lastimoso Naufragio do Colombo.
182
Ainda desta vez tivemos uma peça maritima, a que tambem não falta o
seu naufragiosinho, – a Revolta no mar, já representada com outro título, – Um
drama no alto mar, se me não engano.
Tratando-se de uma peça velha, e chovendo a cantaros, não assisti á
primeira representação; dizem-me, porém, que tudo se passou muito bem, e
que os espectadores – poucos, infelizmente – se retiraram satisfeitos.
Parece-me que foi um erro estrear-se a companhia com uma peça velha; o
dinheiro gasto com essa reprise daria, com certeza, para pôr em scena alguma
cousa nova. Se os nossos emprezarios se dessem ao trabalho de procurar
peças, encontral-as-hiam, se não a dar com um páo, ao menos em quantidade
sufciente para uma boa escolha. Basta dizer que o drama parisiense, tão do
agrado do nosso publico, ha muito tempo não é convenientemente explorado;
entretanto, a producção em França não esmoreceu um momento, e ha uma
infinidade de peças não conhecidas no Rio de Janeiro, que estão mesmo a pedir
que as traduzam e as representem.
Os artistas do Sant’Anna têm, entre outras peças exploráveis, La gigolette,
de Decourcelle, o auctor d’esse afortunado drama Les deux gosses,que deu ao
theatro do Ambigu 750 representações seguidas, caso virgem nos annaes do
theatro parisiense. La gigolette foi também um grande successo e, como peça, é
muito superior Les deux gosses, que foram garotos no Variedades e abandonados
no Santa Anna.
O publico necessariamente cança-se de vêr sempre os mesmos titulos nos
programmas dos espectaculos; está provado, e mais que provado, que elle
embirra com os remontes, e dá o cavaquinho por qualquer novidade que tenha
os indispensaveis elementos para attrahil-o. Desde que um drama seja bem
architectado, desde que tenha um pouco de paixão e um pouco de pittoresco,
e haja artistas que o representem pelo menos com essa boa vontade que em
muitos casos suppre até mesmo a falta de talento, o publico vae ao theatro.
O actor Soares de Medeiros, que tem alguma cousa mais que a simples boa
vontade, acha-se á testa de uma companhia que póde vencer com facilidade o
retrahimento do publico. A cousa é cuidar seriamente do repertorio, isto é, da
materia prima da industria do theatro, porque, meus amigos, sem peças não ha
espectaculos possiveis.
***
Desse mal terrivel – a falta de uma peça – deve queixar-se a companhia do
Recreio Dramatico; mas – com franqueza – de quem é a culpa?
183
Já lá se vão quarenta e tantos dias que subio á scena a Corôa de fogo, e
depois disso a companhia não poz em scena e, o que é peior, não ensaiou
nenhuma outra peça.
Bem sei que a empreza teve os seus desgostos intimos, e que a emprezaria
Pepa trouxe de canto chorado o emprezario Brandão, estabelecendo-se entre
esses dois artistas, que poderiam fazer de mãos dadas a fortuna daquelle
theatro, um conflicto de que resultou deixarem ambos de ser emprezarios; mas
o publico nada tem que ver com esses desaguisados: observa, desgosta-se, e
deixa-se ficar em casa jogando a bisca em familia. Faz elle muito bem.
Felizmente o Recreio entrou em nova phase, e eu conto que o meu honrado
amigo e comprovinciano Josè Guimarães actual emprezario, sendo,como
é, pessoa idonea, intelligente e criteriosa, saberá lavrar aquella mina que se
chama o Recreio Dramatico. Deixem là fallar o Coelho Netto nas scintillantes
Fagulhas da Gazeta: o publico fluminense não póde ser agora outro que não
era ha mezes, quando applaudia naquelle mesmo theatro, calorosamente,
enthusiasticamente, duas peças postas em scena pela empreza Fernandes,
Pinto & C. Peças, venham peças, que o publico ahi está!
A Pepa foi substituida pela Herminia Adelaide, que ha muito tempo se acha
afastada do palco, mas conserva ainda os requisitos que fizeram della uma
das actrizes mais festejadas pelas nossas platéas. Dentro de um mez, se tanto,
o leitor será convidado para assistir ao reapparecimento da diva, e á primeira
representação de uma peça nova, expressamente escripta para a companhia do
Recreio.
Mas, d’aqui até lá, como attrahir o publico? Ahi está, meu caro José
Guimarães, um problema difcil de resolver... Eu,se estivesse no seu logar,
fecharia o theatro e só o reabriria com a peça nova. Aproveitadas as noites,
poder-se-ia apromptal-a em 15 dias. Isto não é um conselho: é simplesmente
uma opinião.
***
Vejam se eu tenho ou não razão:
Ainda hoje li n’O Paiz que se organisou nesta capital uma companhia
dramatica, de que são emprezarios os Srs. Grillo, Alvaro & C., para dar
espectaculos no theatro Engenho-Velho, á rua Mariz e Barros n. 14.
A noticia accrescenta que o primeiro espectaculo será depois d’amanhã,
com as comedias as Almas do outro mundo e os Irmãos das almas.
Essas almas fizeram cahir-me a alma aos pés! Pois os novos emprezarios
pretendem attrahir o publico á rua Mariz e Barros (bonds da Villa-Isabel),
representando peças que elle está farto de vêr na rua do Espirito Santo?
184
Vá que annunciassem os Irmãos das almas, uma das melhores comedias
do nosso incomparavel Martins Penna; mas – que diabo! – era preciso que a
acompanhassem de alguma cousa inedita!
***
O meu illustre e glorioso amigo José do Patrocinio, que sempre foi um
mãos largas – honra lhe seja! – deu agora para fazer economias,naturalmente
porque os tempos andam bicudos,e contractou,portanto, o bacharel Vicente
para escrever a secção theatral da Cidade do Rio.
O critico respondeu por essa secção ao final do meu ultimo folhetim,
confessando que não plagiei a Fantasia de nenhuma peça franceza, segundo
elle asseverou a meio mundo, mas afrmando que aproveitei para a minha
peça algumas situações da sua Bicharia... Seja tudo pelo amor de Deus! Daqui
a nada elle me accusa de ter roubado ao Lopes Trovão um par de calças para
meu uso!
Pois, senhores, não me peza na consciencia ter assistido a nenhuma
representação da tal Bicharia, porque, no tempo em que a peça foi pregada
ao publico, eu não era obrigado, por dever de ofcio, a supportar quanta
borracheira se exhibe em os nossos palcos; e se na Fantasia alguma cousa
houvesse que, mesmo de longe, lembrasse qualquer invenção litteraria do
alludido bacharel,seria o caso de penitenciar-me, mettendo-me n’um deserto e
fazendo vida de anachoreta.
O auctor da Bicharia termina o seu artigo dizendo que, por causa da minha
corpulencia, lhe faço o efeito de uma féra. Isso é asneira, porque ha féras que
não são corpulentas; entretanto, para provar ainda uma vez que as nossas
impressões diferem muito, direi que o bacharel Vicente me fez sempre o
efeito, não de uma féra, mas de um percevejo.
A. A.
185
O Theatro, 30/12/1897
O anno que termina amanhã foi um dos mais terriveis para o nosso theatro,
que atravessa uma phase verdadeiramente inquietadora.
N’esta materia fui sempre um optimista e, apezar dos pezares, julgo
ainda que nem tudo está perdido; mas o que temos visto e o que vemos é
realmente para desanimar o proprio Dr. Pangloss. Só me conforta, no estado
de abatimento a que o theatro chegou no Rio de Janeiro, ou antes, no Brazil,
a doutrina philosophica de que é preciso demolir para construir, ou antes,
a esperança de que a necessidade de uma reacção energica se imponha ao
espirito das nossas classes dirigentes.
É mais que tempo (já muitas vezes o tenho dito) de cuidar seriamente do
Theatro Municipal. Com o dinheiro que já se acha arrecadado póde-se iniciar
alguma cousa – quando mais não seja senão a construcção do edificio. Bastaria
esse facto para reanimar um poucochinho muita gente que já desesperou de
ver erguido o theatro.
Quando o illustre Dr. Furquim Werneck deixou de ser prefeito, eu
encontrei-o na rua Moreira Cesar, muito contente por se sentir alliviado
daquelle cargo, ou antes, daquella carga, que nos seus hombros representava
uma série de compromissos politicos, e pezará menos algumas arrobas nos do
Dr. Ubaldino do Amaral, que não foi nomeado por nenhum partido.
– Já sei que está zangado commigo porque não cuidei do Theatro
Municipal, disse-me o ex-prefeito com o mais amavel dos seus sorrisos.
– Zangado, não; mas confesso que teria muito prazer se aquella criança lhe
nascesse nas mãos.
– Que quer? Na situação em que nos achavamos, era preciso cuidar
primeiro de panem que de circences.
Mas – que diabo! – se nos assenta a carapuça juvenalesca, se podemos ser
comparados aos romanos da decadencia, claro está que precisamos de uma e
de outra cousa...
E o theatro, como eu o sonho, e como o sonham todos os bons espiritos que
nesta boa terra ainda não se deixaram avassalar de todo pela politicagem, é
por ventura comparavel aos circos de Roma?... algum ponto de contacto existe
entre os interpretes, nossos contemporaneos, do drama e da comedia e os
gladiadores e belluarios do outro tempo?... não ha um abysmo entre o theatro
moderno e o amphytheatro antigo?...
Dar um theatro ao povo é também dar-lhe pão, – o pão do espirito, tão
necessario, tão alimentador, tão sagrado como o pão nosso de cada dia.
186
As desgraças publicas não devem ser um pretexto para nos esquecermos de
que é preciso, mesmo entre lagrimas, fazer alguma cousa em pról da litteratura
e da arte. A França da revolução, afogada n’um oceano de sangue, não se
esqueceu do theatro, que era uma das joias mais preciosas do seu patrimonio,e
Napoleão, alguns annos mais tarde, interrompia as suas batalhas para assignar,
no estrangeiro, um decreto que salvava o theatro francez.
É verdade que a revolução surprehendeu na casa de Molière artistas que se
chamavam Molé, Larive, Saint-Phal, Dazincour, Dugazon, Monvel, Fleury, e a
Dumesnil, a Contat, a Raucourt, e outros, outras, continuadores das gloriosas
traduções da Clairon, e de Lekain, Preville, Bellecour, Brizard, etc.: é verdade
que, no tempo em que Napoleão assignava o famoso decreto de Moscow, a
scena franceza era illuminada por dois genios, Talma e Mlle. Mars; é verdade
que a França possuia Corneille, Racine e Molière, tres sóes fulgurantes em
volta dos quaes gravitavam luminosos satelites, – e nós não temos nada,
absolutamente nada, a não ser a tradição de um actor excepcional e de alguns
escriptores de talento, que abandonados por elle e outros antes mesmo que elle
os abandonasse.
Mas releva notar que, se a França refazia, o que lhe era relativamente facil,
e nós devemos fazer, o que nos é muito difcil, em compensação não pesam
sobre nós as calamidades que pesavam sobre ella, e, se o cambio está por
baixo, se a vida tem se tornado penosa, se as garantias do cidadão se acham
suspensas,graças a uma récua de ambiciosos e desmiolados, nada disso é
motivo para que não se faça o Theatro Municipal, para que não se estenda essa
taboa de salvação á arte e á litteratura dramatica.
Construido o theatro, o resto virá pela ordem natural das cousas. Luctar-
se-ha no começo com muitas difculdades mas sem luctar não se consegue
nada n’este mundo, e muito menos um theatro. Dar-se-hão espectaculos que
não serão, talvez, modelos de arte consummada, de arte pura, como agora se
diz, e eu não comprehendo por não saber o que seja arte impura; mas a pouco e
pouco tudo se irá melhorando, os artistas e os dramaturgos surgirão como por
encanto, e nós deixaremos aos nossos filhos um theatro, que elles tratarão de
conservar e aperfeiçoar. Construamos a colmeia, e não nos faltarão abelhas.
O grande caso é não esmorecer deante dos ataques desses energumenos
que não respeitam as intenções mais respeitaveis, nem desculpam os erros mais
desculpaveis, enxergam uma utopia em cada idéa, tomam por fantasia o que é
convicção, por philaucia e que é coragem, por ofcio o que é sacerdocio e por
negociata o que é sacrificio e abnegação. Ouvidos surdos aos maldizentes que
mais dia menos dia estouram envenenados pelas proprias linguas, e erga-se,
187
altivo o sobranceiro, o Theatro Municipal, consciente não da sua força, que não
a terá tão cedo mas da sua honra e do seu patriotismo.
É preciso, é urgente haver nesta cidade, que continúa (quand même)a ser
a primeira da America do Sul, uma casa de espectaculos brazileiros, que não
nos aviltem nem nos envergonhem. O theatro chegou no Rio de Janeiro a
um estado tal,que será um crime não lhe acudir. E por amor de Deus não me
aborreçam mais com essa opposição incongruente e obtusa que se resume
n’esta formula absurda: – Não façamos nada, porque não temos nada feito!
No proximo folhetim publicarei – como tenho feito ha tres annos – a
minha estatistica annual dos theatros do Rio de Janeiro. É um documento
commovedor, para o qual chamo desde já a attenção de quantos ainda se
interessam pela nossa civilisação intellectual.
***
O bacharel Vicente Reis chamou-me burro pela Cidade do Rio,de segunda-
feira passada. Estou na impossibilidade de protestar ou reagir contra essa
injuria, porque ha tempos não reagi nem protestei quando o alludido bacharel,
em varias dedicatorias, me chamou seu mestre... É preciso efectivamente ser
burro para ter sido mestre daquella besta.
A. A.

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