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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAZONAS

ESCOLA NORMAL SUPERIOR


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Disciplina: HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA E AMAZÔNICA.
UNIDADE II - COLONIZAÇÃO, CATEQUESE E ILUSTRAÇÃO: da
Educação Jesuítica às Aulas Régias de Pombal.
Prof.: MARCOS ANDRÉ FERREIRA ESTÁCIO
Unidade II – COLONIZAÇÃO, CATEQUESE E ILUSTRAÇÃO: da Educação
Jesuítica às Aulas Régias de Pombal.
• A Educação Brasileira no Período Colonial: do ensino jesuítico (Plano de
Estudos e o Ratio Studiorum) às reformas pombalinas.
• Os franciscanos na Educação Brasileira.

2.1 A EDUCAÇÃO BRASILEIRA NO PERÍODO COLONIAL: do ensino jesuítico
(Plano de Estudos e o Ratio Studiorum) às reformas pombalinas.
Buscar no passado as raízes do presente, tem sido uma constante no
esforço que homens e mulheres têm feito para compreender sua identidade.
Aprender estes elos que articulam o hoje e o ontem, nem sempre é uma tarefa
simples, sobretudo quando nos dispomos a examinar tempos mais remotos, como
o período colonial brasileiro.
A história do Brasil no século XVI, não pode ser desvinculada dos
acontecimentos da Europa, já que a colonização resultou da necessidade de
expansão comercial da burguesia enriquecida com a Revolução Comercial. As
Colônias representavam não só maior ampliação do comércio, como também eram
fornecedoras de produtos tropicais e metais preciosos.
No Brasil, de início a ação dos portugueses se restringiu à extração do
pau-brasil e algumas expedições exploratórias. A partir de 1530, teve início a
colonização com o sistema de capitanias hereditárias e a monocultura do açúcar.
Para os invasores que chegavam, os habitantes nativos eram um “gentio”
a escravizar e explorar. Sem os conhecimentos dos povos civilizados, possuíam
enorme saber sobre o meio em que viviam e uma capacidade de adaptação; eram
sensíveis ao belo, cultivavam a memória de seus ancestrais, possuíam fortes
vínculos familiares e no trabalho observavam as condições de idade e sexo.
Ao terem suas terras invadidas pelos europeus, não se deixaram dominar
sem resistência, pois se opuseram de forma ostensiva rechaçando suas presenças
pela força das armas que possuíam. As batalhas entre os colonizadores e nativos,
ocorrem durante todo o período inicial da ocupação do território brasileiro,
prolongando-se até o século XVIII, e algumas delas foram: a Confederação dos
Tamoios, a Guerra dos Potiguaras, Levante Tupinambá, Confederação do Cariri,
Guerra dos Manaus, dentre outros.
Por se encontrarem em um estágio “primitivo” de desenvolvimento em
relação ao homem branco, os nativos foram expropriados de suas terras, quando
não escravizados. Enganados pelo brilho das bugigangas trazidas pelos europeus,
ou dominados à força pelas armas de fogo, representaram no início do período
colonial, a mão-de-obra gratuita de que necessitavam os exploradores para
cumprirem sua tarefa: extrair lucro para a Coroa Portuguesa.
Passados os primeiros anos da descoberta, o reino português, com o
intuito de administrar o vasto território e não perdê-lo, instituiu o regime de
capitanias hereditárias, e estas tinham como objetivo o povoamento, a defesa e a
propagação da fé católica; mas essa estratégia revelou-se inviável. Visando facilitar
as atividades das capitanias, Portugal institui o sistema de Governo Geral, este o
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primeiro representante do “poder público” na Colônia, e tinha por objetivo, não
substituir, mas apoiar as capitanias, para que o processo de colonização fosse
desenvolvido normalmente. O primeiro governador foi Tomé de Souza.
O pau-brasil, a primeira riqueza a explorada, representava a atividade
econômica de maior importância na nova terra, pois os troncos de cor vermelha
tinha valor comercial muito significativo, uma vez que neste momento histórico, as
técnicas de tingimento eram bastante rudimentares; e assim, a Coroa Portuguesa
declarou a exploração comercial com seu monopólio.
A exploração desordenada levou ao esgotamento desta riqueza. Foi nesse
período que se desenvolveu a segunda alternativa para obtenção de lucro: a cana
de açúcar. O engenho era a forma de organização econômica para onde
convergiam os novos interesses coloniais, e localizavam-se em terras férteis de
várias regiões, principalmente o Recôncavo Baiano e Pernambuco.
A economia colonial se expandiu em torno do engenho de açúcar, e o
grande proprietário de terras recorreu ao trabalho escravo, inicialmente dos índios,
e depois, dos negros. Latifúndio, escravatura e monocultura eram as
características da estrutura econômica colonial, a qual explicitava o caráter
patriarcal da sociedade, centrada no poder do senhor de engenho. A estratificação
social era basicamente dual.
A superprodução de açúcar, motivada pela exploração dessa monocultura
no Caribe, provocou a decadência dessa fonte de lucros da Metrópole. Quando
isso ocorreu, uma terceira modalidade de exploração começou a se viabilizar: a
mineração. Esta veio a oferecer a Portugal, maiores dividendos financeiros; e com
isso ocorreu um deslocamento geográfico da empreitada colonial do litoral para o
interior, onde se localizavam as jazidas descobertas, sobretudo, nas regiões de
Minas Gerais e Goiás.
Vale ressaltar, que de 1580 a 1640, Portugal encontrava-se sob o domínio
Espanhol, e uma das repercussões na Colônia era a freqüência com que os países
inimigos da Espanha, como França, Inglaterra e Holanda atacavam as costas
brasileiras. A mais importante e duradoura foi a dos holandeses em Pernambuco.
Esta invasão apresentou uma iniciativa diversa daquela que os habitantes da
Colônia haviam experimentado. O objetivo principal era estabelecer as bases de
um empreendimento comercial voltado para a dinâmica do capital mercantil, e por
isso, os holandeses necessitavam de uma estrutura urbana e um modo de vida
distinto daquele imposto pelo monopólio ibérico.
As constantes lutas pela manutenção das terras e os câmbios nos ciclos
de exploração propiciaram a ocupação da Colônia, promovendo assim, a
interiorização da população. Movimentos de insurreição contra o poder lusitano
identificam os primeiros sinais de esgotamento da ordem vigente e preparavam o
caminho para o fim do pacto colonial.
A situação da Metrópole não é simples, subordinada inicialmente a
Espanha pelo Pacto Ibérico, Portugal atravessava um processo de decadência
econômica. O Brasil, por ser a mais importante Colônia, sofreu o enrijecimento da
política mercantilista e a exclusividade do monopólio do comércio passou a ser
vigiada com atenção maior. Além disso, a dependência de Portugal em relação à
Inglaterra, potência em ascensão, aumentou.
Assim, ao contrário da Europa, onde o capitalismo encontrava-se em
processo de implantação pela expansão comercial e instalação do sistema fabril, o
Brasil permaneceu em uma fase pré-capitalista. O modelo econômico da Colônia
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foi o agrário-exportador dependente, baseado na produção de cana de açúcar e o
emprego da mão-de-obra escrava.
Em meio a tantas dificuldades, Portugal se viu na contingência de mais
uma vez, recorrer à Colônia como estratégia para solucionar seus graves
problemas; pois em 1807, Napoleão Bonaparte invade as terras lusitanas, em
razão de Portugal não ter acatado o Bloqueio Continental imposto pela França à
Inglaterra. Como resultado, em 1808, com o apoio dos britânicos, D. João transfere
a sede da Coroa Portuguesa para o Brasil. A primeira providência tomada foi à
abertura dos portos brasileiros às nações amigas, o que representou na, prática,
um passo decisivo rumo à independência.
Como se percebe do até aqui exposto, os portugueses aqui aportaram
com o objetivo explícito de lucro por meio de exploração das riquezas naturais. As
ações educativas empreendidas a partir de sua chegada também expressavam
esse interesse, podendo ser percebido nas prioridades dadas a determinados
aspectos em suas atividades na “terrae brasilis”.
Ou seja, a educação não era meta prioritária, haja vista que não houve
necessidade de formação especial para o desempenho de funções na agricultura.
Além disso, as metrópoles européias enviavam religiosos para o trabalho
missionário e pedagógico, com a finalidade de converter o gentio e impedir que os
colonos se desviassem da fé católica.
A intenção não era simplesmente difundir a religião, pois em uma época de
obscurantismo, a Igreja, submetida ao poder real era um instrumento importante
para a garantia da unidade política, já que uniformizava a fé e a consciência. A
atividade missionária facilitava sobremaneira a dominação metropolitana e, nessas
circunstâncias, a educação assumiu papel de agente colonizador.
Vale ressaltar que o marco inicial na educação no Brasil se deu com a
instituição do Sistema de Governo Geral. Em 1549, o primeiro governador geral,
Tomé de Souza, chegou à Colônia acompanhado por quatro padres e dois irmãos
jesuítas, chefiados por Manuel da Nóbrega; e esses foram os nossos primeiros
educadores. Apenas 15 dias após sua chegada na cidade de Salvador, os jesuítas
fizeram funcionar uma escola de ler e escrever, e esse foi o início do processo de
criação das escolas elementares, secundárias, seminários e missões, espalhadas
pelo Brasil até 1759, quando os jesuítas foram expulsos pelo Marques de Pombal.
É importante salientar, que antes da chegada dos jesuítas, em decorrência
do “estado primitivo” em que se encontravam os indígenas, a educação não
chegara a se escolarizar. A participação direta da criança nas diferentes atividades
tribais era quase que suficiente para a formação necessária quando atingisse a
idade adulta.
E assim iniciou-se a educação no Brasil, respondendo aos interesses
políticos e aos objetivos religiosos da Companhia de Jesus. Esta, se propôs a
combater o protestantismo, ocupando uma posição proeminente nas lutas que
travavam contra a Reforma e o Modernismo que ela representava na Europa. À
Metrópole interessava a catequização dos indígenas, tornando-os submissos, o
que facilitaria aceitarem o trabalho que deles exigiriam os colonizadores; e o
objetivo destes era o lucro fácil, rápido e abundante.
Os jesuítas aqui aportaram com a missão de difundir a fé católica, a
conversão dos indígenas, por meio da catequese e da instrução; e esses eram
seus principais objetivos. A Companhia de Jesus assegurava a hegemonia
espiritual da Metrópole sobre o novo território. Se os soldados do rei conquistavam
pela força, os soldados de Deus conquistavam pela persuasão.
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Os padres aprenderam à língua tupi-guarani e elaboraram textos usados
para catequese, sendo que, José de Anchieta elaborou uma gramática tupi. Falar
em tupi, conhecida como a língua geral, tornou-se tão comum, que as autoridades
portuguesas, temerosas que a língua nativa dominasse, exigem o uso exclusivo do
português.
Como não conseguiam agir sobre os índios adultos, os jesuítas
conquistavam os filhos destes, os curumins. De início eles aprendiam a ler e a
escrever com os filhos dos colonos. Anchieta usava teatro, música, poesia, diálogo
em versos para atrair a atenção da criança; e assim, aos poucos os meninos
aprendiam a moral e a religião cristã. O sistema comunal primitivo começou a ser
abalado quando os padres ridicularizaram a figura do pajé e os ensinamentos da
tribo, condenaram a poligamia e pregaram a forma cristã de casamento.
Para que a ação missionária fosse realizada da melhor maneira, foram
criadas missões ou reduções, localizadas no sertão, longe dos colonos ávidos por
escravos. É bom lembrar que esses aldeamentos constituíram-se em uma das
fontes de renda da Companhia de Jesus, onde se desenvolvia intensa atividade
agrícola e administração rigorosa dos jesuítas. Não esqueçamos que os índios
eram nômades e confiná-los em missões caracteriza-se como uma forma de
violência; por isso é injusto considerar o índio preguiçoso, sem levar em conta, que
na sua cultura, o objetivo e o ritmo do trabalho eram, e ainda o são,
significativamente, diferentes dos impostos pelos europeus.
O trabalho educacional desenvolvido pelos jesuítas tem duas fases
distintas:
• Na primeira, optam pelo Plano de Estudos dos Jesuítas, concebidos
por Manuel da Nóbrega, voltado para o ensino de primeiras letras,
catequese, música e alguma iniciação profissional;
• Na segunda, inspiraram-se no Ratio Studiorum, concentrando
esforços no ensino de humanidades, filosofia e teologia.
O Plano de Estudos dos Jesuítas, tinha a intenção de catequizar e instruir
os indígenas, assim como também, os filhos dos colonizadores. Iniciava pelo
aprendizado português, incluía a doutrina cristã, a escola de ler e escrever; depois
seguia como ensino de canto orfeônico e música instrumental; posteriormente, ou o
direcionamento para o aprendizado profissional agrícola ou a aula de gramática, e
por fim a viagem à Europa. É importante acrescentar que dentre as melhores,
recrutava-se para as vocações sacerdotais.
Assim, a característica principal do Plano de Estudos era o ensino de
primeiras letras, catequese, música e iniciação profissional, com o objetivo de
converter o gentio por meio da catequese e instrução e a “docilização” do escravo,
para que aceitassem a sua condição.
Com a organização e funcionamento do ensino jesuítico por meio do Ratio
Studiorum, que privilegiou o ensino das Humanidades, Filosofia e Teologia, ficou
claro a preocupação de concentrar esforços na educação dos filhos dos colonos e
na formação dos futuros sacerdotes. Este plano concentrava sua programação nos
elementos da cultura européia e evidenciava um desinteresse de “instruir” também
o índio, e tal plano vigorou de 1570 a 1759.
No Ratio existiam as escolas de primeiras letras, o “ensino secundário” e o
“ensino superior”. Nas escolas de primeiras letras, participavam toda a população
indígena e branca, exceto as mulheres, pois neste período a educação feminina
restringia-se a prendas domésticas e a boas maneiras.
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No “ensino secundário” eram oferecidos três cursos: Letras, Filosofia e
Ciências. O Curso de Letras compreendia: o estudo da Gramática Latina,
Humanidades e Retórica; no Curso de Filosofia, o estudo de: Lógica, Metafísica e
Moral; e no Curso de Ciências: Matemática, Ciências Físicas e Naturais.
O “ensino superior”, destinava-se principalmente à formação de
sacerdotes, oferecia o curso de Teologia e Ciências Sagradas. Assim os jovens
que não se interessavam pela carreira eclesiástica e que pretendessem continuar
os estudos deviam seguir para a Europa.
Logo, os colégios jesuítas representaram a principal instituição de
formação da elite colonial. A formação intelectual foi marcada pela rigidez nas
formas de pensar e interpretar a realidade, e forte censura aos livros, o objetivo
educacional era, essencialmente, religioso; e o método de ensino utilizado era a
imitação, e a “função social da escola” seria a de impor e preservar a cultura
marcada pelo autoritarismo.
Desta feita, compreende-se que as escolas jesuítas reuniam os filhos dos
índios e colonos, mas separava os catequizados dos instruídos. A ação sobre os
índios estava resumida na cristianização e pacificação, tornando-os dóceis para o
trabalho; aos filhos dos colonos, uma educação ampla, para além do ler e escrever.
Para enfrentar o senhor da casa grande, os jesuítas conquistaram seus elementos
passivos, além do filho, a mulher e os escravos, e assim mantém viva a
religiosidade da família educando o menino.
Outro método de ação estava no confessionário, pois o padre ouvia os
pecados e assim modelava a forma de pensar dos colonos. Era a tradição das
famílias que o primogênito herdaria o patrimônio do pai e continuaria seu trabalho
no engenho; o segundo seria destinado para as letras e o terceiro deveria ser
padre, confirmando com isso o mito do padre.
Diante da importância dada aos graus acadêmicos para a classificação
social, aumenta a procura da escola por parte dos mestiços, provocando o
incidente conhecido como “questão dos moços pardos”. Os colégios dos jesuítas
haviam proibido a matrícula de mestiços por serem muitos e provocarem arruaças,
mas tiveram de renunciar à decisão discriminatória tendo em vista os subsídios que
recebiam.
Os jesuítas dedicavam especial atenção ao preparo dos professores, os
quais somente estavam aptos após os trinta anos, pois selecionavam
cuidadosamente os livros e exerciam rigoroso controle sobre as questões a serem
suscitadas pelos professores, especialmente em teologia e filosofia. O sistema
educacional que implantaram estendeu-se a todo o território, de Salvador até São
Vicente, de Pernambuco ao Pará; e segundo Fernando Azevedo, quando os
jesuítas foram expulsos do Brasil, eles possuíam 25 residências, 56 missões e 17
colégios e seminários, sem contar os seminários menores e as escolas de ler e
escrever.
Nada fizeram para proteger dos maus-tratos os escravos, em particular as
meninas e mulheres, vítimas da exploração sexual. As crianças negras não tinham
acesso às escolas; pois os jesuítas consideravam desnecessário educá-las e
evangelizá-las. Com o declínio crescente da Companhia de Jesus, instalou-se uma
verdadeira campanha contra o poder dos jesuítas, contra a obra educacional que
realizavam, considerada obsoleta e obscurantista; e essa campanha culminou com
a expulsão dos jesuítas do reino português e de suas Colônias por Marquês de
Pombal em 1759.
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No período de 210 anos, de 1549 a 1759, os jesuítas promoveram uma
ação maciça na catequese dos índios, educação dos filhos dos colonos, formação
de novos sacerdotes, e da elite intelectual, os bacharéis em Belas-Artes, Direito e
Medicina, formação de educadores recrutados em seu meio, além do controle da fé
e da moral dos habitantes da nova terra. Além disso, com suas missões foram à
base da economia florestal amazônica, advindo daí grande lucro.
A atuação constante dos jesuítas entre os índios e na sociedade colonial,
imprimiu uma marcante forma de ideário católico na concepção de mundo dos
brasileiros, assim como também iniciaram a desintegração da cultura indígena. E
essa ação promoveu a uniformização do pensamento brasileiro de norte a sul, do
litoral ao planalto, impondo a religiosidade cristã.
A expulsão dos soldados de Deus, não é fato que se restringiu ao contexto
educacional; mas ao contrário, a organização escolar que desenvolveram
representava uma das dimensões do poder político e econômico que alcançaram
na Colônia. Seu afastamento estava associado também a isso, pois pela
persuasão conquistaram o gentio, logo, chegou uma hora que bani-los do território
era uma questão de sobrevivência política; e assim foi feito. Porém, depois da
expulsão dos jesuítas, desmoronou-se a estrutura criada pelos padres, e os índios
aculturados não conseguiram subsistir moral e economicamente.
No século XVIII, a Europa enfrentou a crise do regime absolutista e
mercantilista, e estes se opuseram aos ideais liberais, os quais culminariam com as
resoluções burguesas. Nesse contexto, a Inglaterra antecipou-se a essas
alterações políticas e econômicas, surgindo como potência transformadora da
economia européia ao iniciar o capitalismo industrial.
Portugal, que tivera até então um poderio advindo das Colônias de
além-mar, achava-se em franco declínio e submeteu-se a tratados comerciais
lesivos para si e para as Colônias, em troca da proteção inglesa. O Tratado de
Methuen evidenciava isto, pois por meio dele, Portugal obrigava-se a comprar a
produção dos lanifícios ingleses (obras de arte, tecidos ou manufatura de lã), o que
impedia de desenvolver sua indústria manufatureira e que também afetava as
Colônias, pois as riquezas do Brasil eram levadas à Inglaterra para pagamento de
dívidas.
Não conseguindo acompanhar a transformação das forças produtivas na
Europa, Portugal tentava superar o atraso pelo fortalecimento do Estado, expresso
pelo despotismo esclarecido do rei Dom José I. O gestor dessa reorganização
administrativa e econômica foi o primeiro-ministro Sebastião José de Carvalho e
Melo, também conhecido como Marquês de Pombal, que procurou modernizar o
reino a fim de manter o absolutismo real.
Foi no decorrer do século XVIII, que cresceu a animosidade contra a
Companhia de Jesus; pois o governo temia o seu poder econômico e político,
exercido sobre todas as camadas sociais ao modelar-lhes a consciência e o
comportamento. E mais, desde os tempos de Nóbrega, a coroa se comprometeu a
destinar a Companhia de Jesus uma taxa especial de 10% da arrecadação dos
impostos, além da doação de terras. Logo, ela tornou-se rica com todos esses
benefícios, somada a produção agrária das missões, as quais eram bastante
lucrativas.
Entre as muitas alegações políticas às intromissões dos jesuítas, por
ocasião da resistência indígena dos Sete Povos das Missões à determinação de
transferir seus núcleos, Pombal aproveitou-se para atribuir a Companhia o
interesse de formar “Império Temporal Cristão” na região das missões; e também
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de que era detentora de um poder econômico que deveria ser devolvido ao
governo e que educava o cristão a serviço da ordem religiosa e não nos interesses
da Coroa.
Assim em 1759, o Marquês de Pombal, expulsou os jesuítas, de Portugal e
de todos os seus domínios e com eles todas as suas escolas, e esta expulsão não
se restringiu apenas ao contexto educacional. A organização escolar que
desenvolveram representava apenas umas das dimensões do poder político e
econômico que alcançaram. O afastamento dos jesuítas associava-se justamente a
isso, pois pela persuasão conquistaram o gentio, e assim chegava-se em um
momento em que bani-los é uma questão de sobrevivência para a Metrópole.
Ao serem expulsos, os jesuítas, possuíam no Brasil, aproximadamente, 25
residências, 36 missões e 17 colégios e seminários, sem contar os seminários
menores e as escolas de ler e escrever. Com a expulsão dos jesuítas do Brasil, o
sistema educacional que haviam implantado desmantelou-se, e todas as suas
escolas foram fechadas, subsistindo apenas a Escola de Artes e Edificações
Militares, a Aula de Artilharia e os Seminários de São José e São Pedro.
Suprimiu-se assim, um ensino bem estruturado, mas que nem por isso era
modelo de excelência, pois se caracterizava por uma orientação rígida, dogmática,
anti-científica, acanhada, voltada quase que exclusivamente para os interesses
religiosos e políticos da Companhia de Jesus.
Podemos sim, questionar a validade do ensino jesuíta na formação da
cultura brasileira, mas é indiscutível que de início foi prejudicial o desmantelamento
da estrutura educacional montada pela Companhia de Jesus. Os bens dos padres
jesuítas foram confiscados, muitos livros e manuscritos destruídos e nada sendo
reposto. De imediato, o ensino regular não foi substituído por outra organização
escolar.
Várias medidas legais marcaram a progressiva eliminação do poder jesuíta
em Portugal e no Brasil, dentre as quais citamos:
1. Alvará de 28 de junho de 1759 – Extingue todas as classes e
escolas jesuítas e reformula o ensino de Letras e Humanas;
2. Lei de 3 de setembro de 1759 – Expulsa dos seus Reinos e
Domínios os Reguladores da Companhia de Jesus;
3. Alvará de 25 de fevereiro 1761 – Confisca os bens da Companhia
de Jesus e os integra aos da Coroa; e
4. Lei de 9 de setembro de 1773 – Concede o Real Beneplácito para
a execução da Bula do Papa Clemente XIV a qual extingue a
Companhia de Jesus.
O período pombalino demarcou um momento importante na história da
educação brasileira, pois entra em cena o “poder público estatal” como agente
responsável pela definição de rumos no campo educacional. Assim, surgiu o
ensino público, não mais aquele financiado pelo Estado que formava o indivíduo
para a Igreja, mas sim, financiado pelo e para o Estado. A ação de Pombal, que se
contrapôs a visão religiosa tentava instituir um “estado laico”, emancipando o
ensino público da influência pedagógica dos jesuítas.
Marquês de Pombal só iniciou a construção do ensino após vários anos,
provocando retrocesso de todo o sistema educacional brasileiro; e várias medidas
desconexas e fragmentadas antecederam as primeiras providências efetivas,
quando foi implantado o ensino público oficial. A Coroa nomeou professores e
estabeleceu planos de estudos e inspeção. O Curso de Humanidades, típico do
ensino jesuíta, foi modificado para o sistema de Aulas Régias de Latim, Grego,
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Filosofia e Retórica, que não substituíram o eficiente sistema organizado pelos
jesuítas. As tais Aulas Régias, caracterizavam-se como aulas de disciplinas
isoladas, e somente foram organizadas em 1776, com a colaboração dos
franciscanos. O Alvará de 1762, mais que se efetivou no Brasil apenas em 1776,
autorizava o funcionamento de 15 aulas de gramática latina, 3 de língua grega, 6
de retórica e 3 de filosofia nacional, sendo despachados 15 docentes de Lisboa
para o Brasil.
A legislação educacional pombalina foi:
1. Lei de 1768 – Criação da Real Mesa Censória, encarregada de
cuidar dos negócios da educação, e proibia as obras de Locke,
Hobbes, Rousseau, Spinosa, Voltaire e outros, porque poderiam
levar o país na direção do deísmo, ateísmo e materialismo;
2. Lei de 1772 – Criação das Escolas Menores sob a inspeção da Real
Mesa Censória; e
3. Alvará de 1772 – Regula a cobrança de Subsidio Literário (imposto
único destinado à manutenção do ensino elementar e
secundário, incidindo sobre: a carne, o sal, a aguardente, o
vinagre e outros) gerando recursos que nem sempre foram
aplicados na manutenção das aulas.
Nas aulas régias, o ensino do latim era entendido apenas como um
instrumento de domínio da cultura latina e admitir o auxílio da língua portuguesa;
no ensino do grego, as dificuldades deveriam ser gradualmente vencidas: primeiro
a leitura, depois os preceitos gramáticos e, por último, a construção; no ensino da
retórica, não deveria ter seu uso restrito ao público e a cátedra, devendo tornar-se
útil ao contato cotidiano; as aulas de filosofia ficaram para mais tarde, e na
verdade, pouca coisa aconteceu, e diante da ruptura parcial com a tradição, este
campo causou muito receio ou muita incerteza em relação ao novo. Todas as
dificuldades que existiram também na Metrópole, quanto à falta de gente preparada
e de dinheiro, se fizeram sentir no Brasil de forma mais aguda.
As transformações ocorridas ao “nível secundário” não afetaram as
“escolas de primeiras letras”, ele permaneceu desvinculado dos assuntos e
problemas da realidade imediata. O modelo continuou sendo o exterior civilizado a
ser imitado; e para maior garantia, aqueles que tinham o interesse e condições de
cursar o “ensino superior” deveriam continuar enfrentando os riscos das viagens e
freqüentar a Universidade de Coimbra, agora reformada, ou outros centros
europeus.
Em vez de um único sistema, passaram a existir escolas leigas e
confessionais, mas todas seguindo os mesmos princípios herdados do passado; foi
então que surgiu o “ensino público”, financiado pelo Estado, mas um Estado ainda
incipiente. Influenciado pelas idéias dos enciclopedistas franceses, Pombal
pretendia modernizar o ensino, liberando-o da estreiteza e do obscurantismo que
lhe imprimiram os jesuítas.
Mas suas intenções louváveis não podiam se concretizar, por falta de
meios materiais e humanos. As transformações ocorridas no nível secundário não
atingiram as escolas de primeiras letras. Este ensino permaneceu desligado dos
problemas da realidade, calcado nos moldes do Ratio Studiorum. No Brasil, não foi
possível sequer dispensar o trabalho dos mestres religiosos com formação
jesuítica.
As reformas pombalinas visavam transformar Portugal em única Metrópole
capitalista a exemplo do que a Inglaterra já era há mais de um século; visavam,
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também, provocar algumas mudanças no Brasil, com o objetivo de adaptá-lo,
enquanto Colônia, à nova ordem pretendida em Portugal. O Estado que não
intervinha na gestão das “escolas elementares e secundárias”, tomou a seu cargo,
por iniciativa de Pombal, a função educativa que passou a exercer, em colaboração
à Igreja, aventurando-se a um longo plano de oficialização do ensino.
Até a vinda da família real para o Brasil, o ensino aqui desenvolvido
limitou-se a um trabalho educacional precário, assegurado de maneira irregular em
umas poucas instituições sob a responsabilidade das ordens dos carmelitas,
mercedários, beneditinos e franciscanos, que em seus conventos ministravam um
ensino medíocre, aos seminários de formação sacerdotal, à educação dos filhos
das famílias abastadas em seus próprios lares.
O “ensino secundário” desapareceu como sistema e se resumia, de
maneira irregular, às aulas régias que só tiveram a vantagem, em relação ao
dogmatismo jesuítico, de introduzir novas matérias, com mais línguas vivas, com
matemática, física, ciências naturais e outras. Os professores das aulas régias
eram os padres-mestres e capelães de engenho.
Entretanto a iniciativa pombalina não passou de um esboço que não se
efetivou por várias razões, entre elas:
1. A escassez de mestres régios nomeados para trabalhar na Colônia;
2. A insuficiência de recursos; e
3. Isolamento cultural da Colônia.
Logo, constata-se que embora a Reforma Pombalina tenha pretendido instituir um
“sistema de instrução pública”, isto de fato, não ocorreu.
No governo seguinte, de D. Maria I, ocorre um movimento conhecido sob o
nome de “Viradeira”, isto é, o combate sistemático ao pombalismo, a tentativa de
retornar à tradição, vista, mais uma vez, como uma maneira adequada de si
resolverem os problemas, problemas estes que, em realidade, se vão agravando.

2.2 OS FRANCISCANOS NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA.
Texto em anexo, de autoria de LUIZ FERNANDO CONDE SANGENIS,
retirado do livro Histórias e Memórias da Educação no Brasil: séculos XVI – XVIII
(Vol. 1), organizado por MARIA STEPHANOU e MARIA HELANA CAMARA
BASTOS e publicado em 2004 pela Editora Vozes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.
ARANHA, Maria Lúcia Arruda. História da Educação. São Paulo: Editora Moderna,
1996.

COSTA, Messias. A educação nas constituições do Brasil: dados e direções. Rio
de Janeiro: DP&A, 2002. (Coleção pesquisa, seleção, compilação e organização).

FÁVERO, Osmar (Org). A educação nas constituintes brasileiras: 1823 – 1988. São
Paulo: Autores Associados, 1996. (Coleção Memória da Educação).

FILHO, Geraldo Francisco. A educação brasileira no contexto histórico. Campinas:
Alínea, 2001.

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