You are on page 1of 4

LIBERTAÇÃO - Caminho do Guerreiro Pacífico (Dan Millman

)
Às vezes temos a impressão de que todo nosso esforço e desgaste físico, psicológico e mental
são em vão diante das dificuldades encontradas no trajeto percorrido até nossa meta. É por
este motivo em especial que torna mais cômodo para a maioria das pessoas sonhar com coisas
ínfimas, pequenas, pois tais sonhos são mais fáceis de conquistar e exigem muito menos
paciência e força do que os grandes sonhos.
Se queremos alcançar grandes sonhos, teremos que passar por suas longas trilhas recheadas
de espíritos falsos e invejosos, os quais a toda hora e a todo custo tentam nos desviar do
percurso, tentando nos iludir ao dizer que não somos capazes de chegar ao final. É preciso ter
consciência deste árduo caminho e, o mais importante, saber que durante este caminho, por
mais forte que sejamos, haverão momentos em que fraquejaremos, derramaremos lágrimas,
entraremos em pânico. Nada mais do que o natural. Isto não é uma derrota, e sim parte de
nosso crescimento para que no final do caminho sejamos dignos da conquista do tão esperado
sonho.

Agora falarei diretamente com você, meu grande amigo, possuidor de grandes sonhos: você
tem todos os pré-requisitos para tornar seus anseios em realidade. Sei que a vida parece dura
em alguns momentos, mas é o modo dela nos fazer evoluir e chegar àquele "clique" na
consciência. Na verdade a vida não é rancorosa, muito menos as pessoas ao seu redor. Quem
as torna difícil é a sua persistência em acumular as feridas causadas no trajeto, não deixando-
as curar enquanto caminha. Muitas pessoas tentarão te ferir. Consciente ou
inconscientemente. Poucas errarão. Algumas lhe deixarão cansado e fatigado. Muitas lhe
quebrarão as pernas. Mas não desista. Apenas esteja consciente que será ferido neste
caminho. É um fato, não uma probabilidade. Aceitando isto, ficará mais fácil deixar
sentimentos de mágoa, ressentimentos, tristeza e até mesmo baixa auto-estima se
acumularem em seu peito tornando sua respiração cada vez mais fraca.
Como nada acontece por acaso, deixo uma frase que conclui lendo um trecho do livro O
Caminho do Guerreiro Pacífico enquanto voltava de ônibus para casa esta manhã:
"Nesta vida existem pessoas em vários níveis espirituais. O único nível que deve se
preocupar é o seu. Pessoas em nível inferior só precisam de bondade. Já pessoas de nível
maior, aspirantes à espiritualidade, precisam de algo mais em que pensar. Aí que a vida se
torna um desafio."
Grande amigo, lembre-se disto quando a vida lhe parecer dolorosa. Sua caminhada ainda não
está no fim, mas está perto de chegar à luz da consciência. ^_^ Você não está sozinho...



LIBERTAÇÃO (trecho retirado do livro O Caminho do Guerreiro Pacífico, de Dan Millman)

(...) A baía amanheceu encoberta por uma neblina que ocultava o sol de verão e resfriava o ar.
Acordei tarde, tomei chá e comi uma maçã. (...) coloquei alguns biscoitos na tigela e fui assistir
hipnotizado à televisão. Estiquei a mão para pegar outro biscoito e descobri que a tigela
estava vazia. Será que tinha comido todos os biscoitos?
Decidi iniciar lentamente minhas atividades diárias. (...) Ao final daquela manhã fui correr em
torno do Campo Edward. Lá conheci Dwight (...). Tive que perguntar seu nome pela segunda
vez, porque não fixei na primeira; outro sinal de desatenção e de mente dispersiva.
Após algumas voltas completas, Dwight fez uma observação sobre o céu azul. Eu estivera tão
imerso em meus pensamentos que nem olhara para o céu.
Observei que o ginásio eu me concentrava em cada ação, mas quando o movimento cessava,
os pensamentos voltavam a obscurecer minha percepção.
Nessa noite fui cedo para o posto, na esperança de encontrar Sócrates no início do turno. (...)
Eu estava pronto a receber qualquer antídoto para a minha superatividade mental que
Sócrates estivesse disposto a me dar.
Esperei. Chegou meia-noite. Logo depois chegou Sócrates também. Sentamos no escritório e
comecei a espirrar. Soc colocou a chaleira de água para o chá no fogo. Como de hábito, iniciei
com uma pergunta:
- Socrates, como posso parar com meus pensamentos, a minha mente... (...)
- Primeiro precisará entender de onde provêm os pensamentos, como eles surgem. Por
exemplo, agora você está resfriado, os sintomas físicos lhe dizem que o corpo precisa de
reequilibrar, retomar a relação adequada com a luz do sol, o ar puro, a alimentação simples,
enfim, relaxar em seu ambiente.
- O que isso tudo tem a ver com a mente?
- Tudo. Pensamentos ocasionais que perturbam e distraem também são sintomas de
desarmonia com seu meio ambiente. Quando a mente resiste à vida, os pensamentos
afloram. Quando por acaso algo entra em conflito com uma convicção, está estabelecida a
desordem. O pensamento é uma reação inconsciente à vida.
Um carro entrou no posto; era um casal de idosos, vestidos formalmente e sentados como
duas varetas no banco da frente.
- Venha comigo - ordenou Soc. Ele tirou o blusão de couro e a camisa de algodão, revelando o
peito e os ombros lisos, com músculos alongados e bem definidos. Aproximou-se do carro pelo
lado do motorista e sorriu para o casal chocado:
- Em que posso ajudá-los pessoal? Gasolina para abastecer seus espíritos? Talvez óleo para
suavizar os pontos ásperos do dia? Que tal uma bateria nova para colocar um pouco de
energia na vida de vocês? - Ele piscou ostensivamente para o casale, sorrindo ficou esperando
pela resposta. O carro saiu em disparada. Socrates coçou a cabeça. - Talvez eles tenham se
lembrado de que deixaram a torneira aberta em casa.
Enquanto relaxávamos bebericando o chá, no escritório, Sócrates explicou sua lição:
- O que você viu foi aquele homem e aquela mulher resistirem ao que, para eles, representa
uma situação anormal. Condicionados por seus valores e medos, eles não sabem lidar com a
espontaneidade. Eu poderia ter sido o ponto culminante do dia deles! Veja só, Dan, é isso o
que acontece quando você resiste: sua mente dispara. Os mesmo s pensamentos que o
invadem são, na verdade, criados por você.
- e a sua mente funciona diferente?
- Minha mente é um lago sem ondulações. A sua é repleta de ondas, porque você se sente
dividido e, com frequência, ameaçado por um acontecimento indesejável. Sua mente é um
lago onde alguém acaba de jogar uma pedra!
Eu ouvia, contemplando as profundezas de minha xícara de chá, quando senti que eu estava
debaixo d'água, olhando para cima. Era ridículo! Será que eu caíra em minha própria xícara de
chá? Eu tinha barbatanas e guelras: era um peixe. Agitei o rabo e nadei para o fundo, onde
havia silêncio e paz.
De repente, uma pedra enorme atingiu a superfície da água. Ondas de choque atingiram-me
por trás. Minhas barbatanas bateram novamente e parti em busca de abrigo. Escondi-me, até
que tudo voltasse a acalmar. O tempo passou e acostumei-me com as pequenas pedras que às
vezes caíam na água, formando ondas. Contudo, as pedras grandes ainda me assustavam.
Eu estava deitado no sofá, num universo árido e repleto de sons, contemplando de olhos
arregalados o sorriso de Soc.
- Socrates, foi incrível!
- Por favor, outra história de peixe não! Alegra-me que você tenha dado uma bela nadada.
Agora, posso continuar?
Ele não esperou a resposta.
"Você era um peixe muito nervoso, fugindo das ondulações. Mais tarde, acostumou-se a elas
mas continuou não percebendo o que as causava. Como pode ver, é necessário que o peixe
dê um salto magnífico de percepão de modo a ampliar sua visão da água em que está imerso
e alcançar a origem das ondulações. Um salto de percepção semelhante será exigido de
você. Quando puder compreender claramente a fonte, verá que as ondulações da mente
nada têm a ver com você. Simplesmente as observará sem qualquer apego, não sendo mais
impelido a agir cada vez que uma pedra for jogada. Você estará livre da turbulência do
mundo, quando acalmar os pensamentos. Lembre-se... quando estiver perturbado,
abandone os pensamentos e ocupe-se da mente!"
- Como, Sócrates?
- Nada má esta pergunta - Exclamou. - Segundo o que você aprendeu no treinamento físico, os
saltos de ginástica... ou os de percepção não acontecem de uma vez - exigem tempo e prática.
E a prática da percepção da origem de suas próprias ondulações é a meditação.

(...)

Nesse momento, uma velha perua Volkswagen branca, com um arco-íris pintado na lateral,
entrou ruidosamente no posto. No seu interior havia seis pessoas. Duas mulheres e quatro
homens, todos vestidos, da cabeça aos pés, com os mesmos trajes azuis. Reconheci-os como
sendo membros de um dos inúmeros grupos espirituais surgidos recentemente na região da
baía. Aquela gente esquisita e virtuosa evitou admitir nossa presença, como se o nosso
mundanismo pudesse contaminá-los.
Naturalmente, Soc respondeu ao desafio, simulando imediatamente um personagem manco e
com problema de fala. Coçando-se sem parar, era um perfeito Quasímodo.
- Ei amigo - disse ao motorista, cuja barba era a mais comprida que eu já vira - , quer gasolina
ou não?
- Queremos sim - disse o homem, a voz mole como um quindim.
Soc olhou de soslaio para uma das duas mulheres no banco de trás e, enfiando a cabeça pela
janela, murmurou:
- Ei, vocês meditam? - perguntou, como se estivesse se referindo a uma forma solitária de
satisfação sexual.
- Meditamos, sim. - disse o motorista, transpirando superioridade cósmica na voz. - Será que
agora você pode colocar gasolina no nosso carro?
Com um gesto de mão, Soc pediu que eu enchesse o tanque enquanto ele continuava a
interpelar o motorista.
- Ei, tu parece uma mulher metido neste vestido, cara... não me leve a mal, é legal¹ E por que
não faz a barba? O que é que você está escondendo debaixo desses pelos?
Eu me encolhi todo, e ele piorou ainda mais as coisas.
- Ei. - dirigiu-se a uma das mulheres - , este cara é seu namorado? Me conta - pediu ao outro
homem no banco da frente: - Você transa ou economiza, como li no National Enquirer?
Foi o bastante. Enquanto Soc contava o troco - com lentidão torturante, ele errava na conta e
começava tudo de novo - eu estava prestes a explodir de gargalhadas, e o pessoal no carro
tremia de raiva. O motorista arrancou o dinheiro da mão dele e deixou o posto da forma
menos santificada possível. Soc gritou para eles:
- A meditação é boa. Continuem praticando!!
Mal retornáramos ao escritório, um grande Chevy entrou no posto. O ruído da campainha
chamando foi seguido por uma buzina musical e impaciente. Eu saí como Socrates.
Atrás do volante estava um "adolescente" de quarenta anos, usando roupas de cetim
espalhafatosas e um grande chapéu de safári com uma pena espetada na copa. Ele era
extremamente irrequieto e não parava de tamborilar o volante. Ao seu lado, uma mulher de
idade indefinida pestanejava cílios postiços no espelho retrovisor, enquanto empoava o nariz.
Por algum motivo eles me ofenderam. Pareciam asnos. Senti vontade de dizer: "Por que não
agem de acordo com a sua idade?" Mas preferi observar e aguardar.
- Ei cara, tem máquina de cigarros aqui? - indagou o motorista hiperativo.
Sócrates parou o que estava fazendo e, com um sorriso afável, respondeu:
- Não, senhor, mas tem um mercado aberto a noite inteira logo ali na estrada - voltou a
verificar o óleo com toda a atenção. Ele devolveu o troco como se estivesse servindo chá ao
imperador.
Depois que o carro arrancou cantando pneus, permanecemos junto à bomba, aspirando o ar
noturno.
- Você tratou essa gente com tanta cortesia, mas foi positivamente antipático com os
devotos de roupa azul, que, sem dúvida, estão num nível de evolução superior. Qual é?
Pela primeira vez ele me deu uma resposta simples e direta:
- Os únicos níveis que devem preocupar você são os meus... e os seus - disse, com um
sorriso. - Essas pessoas só precisavam de bondade. As outras, aspirantes à espiritualidade,
precisavam de algo mais em que pensar.
- E do que eu preciso?
- Apenas a prática semanal de meditação (...) - respondeu ele, rápido