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C
omeços são tão significativos quanto seus finais. Um
corredor que não vence uma corrida não se conso-
la com uma grande largada. Finais bem-sucedidos
normalmente são determinados pelos momentos mais co-
muns do percurso.
Todavia, somos obcecados pelos começos — o começo de
um novo projeto, um novo relacionamento, um novo livro.
Todo mundo quer começar uma revolução, mas ninguém
quer lutar até o último homem.
Queremos ser extraordinários, para ser lembrados muito
tempo depois de partirmos, para ser parte de algo maior do
que nós mesmos, para deixar um legado; e ainda assim não
queremos ir trabalhar na segunda-feira de manhã.
Uma vida de começos humildes pode terminar com um
significado épico. Uma vida pode fazer um mundo de dife-
rença. Como isso acontece é um segredo. Não é um segredo
1.
Começos
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porque poucas pessoas sabem disso; mas é um segredo por-
que poucas pessoas vivem como se soubessem.
Esta é uma jornada ao descobrimento desse segredo.
Mas isso é só o começo.
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E
u tive uma infância estranha: cresci em um lar cristão
— o que já é bastante estranho. Porém, o que torna
isso interessante é o fato de ter crescido como cristão
na Malásia, lugar em que há muitas religiões diferentes, et-
nias e mistura de culturas. Os cristãos somam de 10% a 12%
da população, então crescer como um cristão por lá foi um
tanto fora do comum.
Desde os meus primeiros dias, convivi com budistas, hin-
dus e muçulmanos. Quando eu era jovem, tinha amigos que
não podiam ir à minha festa de aniversário porque precisa-
vam ir com suas famílias queimar incenso no túmulo de seu
avô — uma tradição anual para muitos budistas. No ensino
médio, eu trabalhava meio período como copywriter em uma
pequena agência de publicidade e meus colegas de profissão
2.
Armazenando
a grandeza
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eram muçulmanos. Vez por outra, o assunto da conversa com
meus colegas era a fé e conversávamos sobre nossas diferentes
visões de vida sem nenhum constrangimento.
Meu pai cresceu em uma família hindu. Meu avô era um
oficial ou ancião no templo hindu local e durante a maior
parte da sua infância e adolescência meu pai queria seguir os
passos do seu pai.
Então, ele conheceu minha mãe. Os dois eram estudantes
na Universidade de Singapura; ele estudava ciência política
e ela já era formada em ciência política. Minha mãe cresceu
em uma igreja Anglicana — uma contribuição dos britânicos
bons que colonizaram a Malásia —, mas a sua fé, na melhor
das hipóteses, era nominal.
À medida que o relacionamento dos meus pais se torna-
va mais sério, minha mãe estabeleceu uma condição: deixou
claro que somente se casaria com um cristão. Meu pai não
perdeu tempo para se converter ao cristianismo, uma deci-
são que mudou para sempre o modo como sua família se
relacionaria com ele. Daquele momento em diante, ele e
minha mãe foram cortados das comunicações que fossem
mais do que básicas e formais com os pais dele e suas irmãs
e irmãos. Mudar de religião não é algo que as pessoas fazem
com muita frequência na Malásia. Rejeitar a fé de sua famí-
lia é um tapa no rosto que desonra ostensivamente seus pais
e ancestrais.
QUANDO SONHEI COM A ÁFRICA
Crescendo em um lar cristão, converti-me umas 352 vezes
antes do meu oitavo aniversário. Toda vez que alguém falava
na igreja a respeito de céu e inferno, eu pensava:
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Não quero ir para o inferno. Parece terrível. Mas e se eu fiz
alguma coisa recentemente que, de algum modo, cancelou
meu passaporte para o céu? Não quero arriscar. Vou fazer a
oração de novo.
E antes que eu percebesse, meus pés estavam me levando em
direção àquele lugar tão familiar no altar. Acho que respondi a
todos os apelos que fizeram. E a maioria das minhas “conver-
sões” foram em resposta àquela pergunta: “Se você for atrope-
lado por um caminhão hoje, você sabe para aonde vai?” Essa
frase sempre me perturbava. Talvez você se identifique comigo.
Em certo ano, meus pais me mandaram para um acampa-
mento de crianças da igreja, distante cerca de 50 km de casa,
no alto das colinas da Malásia. Eu estava lá com algumas cen-
tenas de crianças de outras cidades, todas experimentando
pela primeira vez a sensação de estar fora de casa e conviven-
do com a natureza.
Foi lá que encontrei meu destino, nos olhos de uma moça
norte-americana.
Era uma missionária que fora à Malásia para trabalhar
com crianças pequenas. E nós éramos um quarto cheio de
crianças asiáticas pequenas. Havíamos acabado de cantar e
estávamos nos preparando para dormir, deitando em nossas
esteiras esticadas no chão de concreto. Do lado de fora das
janelas, havia um mar de folhagem verde e abundante. O
sol estava se pondo e os insetos tropicais saíam para a noite.
Ventiladores de teto giravam barulhentos sobre nossas cabe-
ças, conseguindo apenas movimentar o ar úmido e denso ao
nosso redor, como uma enorme toalha molhada.
A moça norte-americana caminhou até a frente e quase
imediatamente, como uma canção de ninar, sua voz silenciou
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a sala. Ela tinha uma maneira toda especial de nos fazer
ouvir. Cada palavra era como uma onda suave invadindo a
areia. Seu rosto era delicadamente enrugado, seu sorriso era
calmo e havia uma magia gentil em seus olhos. Em minha
lembrança, era uma mistura de Princesa Diana e Madre Te-
reza, talvez porque estivéssemos no início dos anos 1980 e
ela era um dos poucos norte-americanos que eu conhecia.
Seja lá o que for, eu a ouvia com atenção arrebatada en-
quanto nos contava uma história sobre o explorador Dr.
David Livingstone.
Não era como as aulas da Escola Dominical — não havia
flanelógrafo nem peças de cenário —, mas ficávamos fasci-
nados. A missionária nos disse que o Dr. Livingstone sabia
desde cedo que ele gostaria de se aventurar por regiões des-
conhecidas do mundo para contar às pessoas a respeito de
Jesus. Ela falou como ele se tornou médico e foi para a África
ajudar as pessoas. Ficamos encantados quando ela descreveu
o impacto que ele teve como explorador e missionário. Ele
mapeava novos territórios e pregava às pessoas que nunca ti-
nham ouvido sobre Jesus.
A sala estava imóvel como uma pedra — e lembre-se: ha-
via duzentas crianças ali! Os sons da floresta desapareciam ao
fundo. Tudo o que ouvíamos era a voz suave e calma da mis-
sionária norte-americana, que gentilmente mudou de tom
ao nos contar como Dr. Livingstone havia morrido, como
seu corpo foi enterrado na Inglaterra, mas como seu coração
havia permanecido na África. Enquanto via seus olhos se en-
cherem de lágrimas, meus olhos começaram a marejar. Não
consegui me controlar.
Novamente, começamos a cantar uma música tranquila.
A moça norte-americana permanecia lá na frente, nos pedin-
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do para orar quanto a dar nossa vida para ser usada por Deus,
para fazer parte de algo extraordinário. Para mim, a decisão
era óbvia. Como poderia fazer algo menos do que estar en-
volvido, de algum modo, na mudança de vida das pessoas?
Gostaria que minha vida fizesse parte de algo maior que eu
mesmo. Isso era o que Deus nos pedia para fazer. Foi isso que
David Livingstone e a moça norte-americana fizeram com
suas vidas. Por que eu escolheria algo diferente?
Gostaria que minha vida fizesse parte
de algo maior que eu mesmo. Isso era o
que Deus nos pedia para fazer.
EXPANDINDO MINHA VISÃO
Na minha infância, meus pais alimentaram meu amor pelos
livros. Eu esperava ansioso o dia de ir à livraria ver que novo
prazer minha mesada conseguiria comprar. Todo sábado, de-
pois da minha natação matinal, costumávamos ir à biblioteca
e passar a tarde toda lendo. E depois, toda a família se reunia
no jantar e discutia o que havia lido. Nossas conversas ao re-
dor da mesa do jantar tratavam de questões sociais, fé, Bíblia
e de nossos amigos. Minha irmã e eu crescemos com uma
grande imagem do mundo.
No meu aniversário de 10 anos, meus pais me presen-
tearam com a autobiografia de George Muller, um homem
que mudou a vida de mais de 100.000 crianças, construindo
orfanatos em Bristol, na Inglaterra, durante os anos 1800.
Fui fisgado. Daquele momento em diante, minha vontade era
ler cada vez mais esse tipo de literatura. Queria ler sobre as
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pessoas que tiveram um impacto significativo no mundo. Li a
respeito de Charles Finney, John Wesley e um intercessor cha-
mado Rees Howells. Envolvi-me uma vez com um dos livros
da série de mistérios Hardy Boys, mas na maioria das vezes de-
vorava as histórias de pessoas que valem a pena ser lembradas.
“O SENHOR TEM GRANDES COISAS PARA VOCÊ”
Conforme eu crescia, meu sonho de um dia fazer algo im-
portante era alimentado por pessoas ao meu redor. Em nossa
igreja, amáveis senhoras de meia idade me procuravam nas
manhãs de domingo e diziam: “Glenn, o Senhor tem grandes
coisas para você” ou “o Senhor quer fazer grandes coisas na
sua vida” ou “o Senhor vai usá-lo de maneira poderosa”.
Quando adulto, descobri que aquelas palavras eram sim-
plesmente uma versão de “bom menino” ou “arrase com eles”.
Todavia, isso afetou minha atitude e expectativas. Cada pala-
vra era como sangue novo correndo no meu coração jovem.
Sabia que era verdade: as grandezas eram o meu destino.
Quanto mais conversávamos, mais eu
percebia que não tínhamos simplesmente
sonhos; tínhamos destino. [...]Estávamos
então todos sentados, esperando que
alguma coisa grande nos acontecesse.
Na faculdade, descobri que muitos dos meus amigos
haviam crescido em um ambiente estável e similar ao meu.
Quanto mais conversávamos, mais eu percebia que não tí-
nhamos simplesmente sonhos; tínhamos destino. Nunca
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havia sido rodeado por tantas pessoas com um futuro tão
grande e inevitável! Estávamos então todos sentados, espe-
rando que alguma coisa grande nos acontecesse.
O lance sobre a visão é que às vezes visualizamos mais
coisas do que podemos administrar de uma só vez. Às vezes,
Deus nos dá um vislumbre das possibilidades, porém não é
tudo para agora. Entretanto, por causa disso, erramos ao pen-
sar que nenhuma dessas coisas é para agora. Agimos como se
a mera posse de um sonho seja o fim da nossa responsabilida-
de. Calmamente, dizemos a nós mesmos:
Em toda minha vida, as pessoas me disseram que me envol-
veria em grandes coisas. Li a respeito e ouvi pessoas que re-
almente fizeram uma diferença com suas vidas. Tudo bem,
estou pronto para que grandes coisas aconteçam. Aqui vou
eu! Estou esperando pelas grandes coisas. O Senhor fará
grandes coisas na minha vida e estou apenas esperando esse
sonho se tornar realidade.
A VIDA NO TIVO
l
Como resultado das nossas grandes expectativas, gravamos
nossas vidas sem a intenção de fazê-lo — apenas apertamos
o botão de “pausa” e colocamos tudo em espera. Na verdade,
cada um de nós estava dizendo:
Sei que Deus quer me usar para realizar grandes coisas. En-
tão, vou armazenar toda a grandeza que está sendo construída
em mim no momento e um dia estarei em uma arena diante
de milhares e milhares de pessoas e — boom! — liberarei
toda aquela grandeza para cada um.
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Talvez nenhum de nós dissesse isso dessa maneira, mas eu
sei que alguns dos meus colegas pensavam assim. Nas minhas
aulas de teologia, muitos dos alunos estavam a caminho de
se tornar pastores e líderes em igrejas pelo país ou ao redor
do mundo. Entretanto, eles estavam apenas planejando. En-
quanto isso, enquanto absorviam toda a teologia e aprendiam
todas as técnicas de ministério, não serviam em nenhuma
igreja ou ministério local. Por essa razão, alguns nem mesmo
frequentavam uma igreja (shhhh! Não contem para os pro-
fessores!). Não faziam parte de nenhuma mudança pequena
ou local enquanto estudavam. Apenas estudavam e armaze-
navam grandes coisas.
Isso era estranho para mim, porque Deus não dirá no dia
da formatura:
Agora sim! Você terminou sua graduação ou o seu mestrado
em teologia. Fantástico! Aqui está um ministério itinerante;
você falará para milhares de pessoas todo final de semana.
Você será o pastor dessa igreja e no seu ministério haverá
um crescimento de proeminência nacional.
O problema em armazenar grandezas é... bem, é impossí-
vel. Não podemos conter nossa paixão, nossa energia e nos-
sos sonhos de agir até estarmos no lugar certo. Se tentarmos
isso, chegaremos lá e descobriremos que toda a grandeza se
perdeu. Se tentarmos guardar nossa visão para o dia perfeito,
a perderemos. Chegaremos ao lugar em que pensamos estar
prontos e descobriremos que nada restou.
Se vivermos cada fase da vida como um trampolim para
as grandes coisas, nos acharemos vivendo cada momento a
meia força. Deus deseja que tomemos o que está se movendo
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em nosso coração hoje e façamos alguma coisa aqui e agora.
Em vez de esperar que grandes coisas aconteçam, deveríamos
perguntar a Deus:
O que faço a respeito dessa ideia agora? Sei que talvez algum
dia haja um cumprimento maior do sonho — talvez exista
uma parte que será revelada somente daqui a vinte anos —,
mas o que faço aqui e agora?
Tudo o que Deus colocou dentro de nós deve ser expresso
e devemos agir aqui e agora — ou isso nunca se multiplicará
e crescerá. Não importa quão insignificante e pequeno isso
pareça ser, podemos fazer alguma coisa hoje; podemos come-
çar com alguma coisa.
Não podemos conter nossa paixão, nossa
energia e nossos sonhos de agir até estarmos
no lugar certo. [...] Se tentarmos guardar nossa
visão para o dia perfeito, a perderemos.
AQUELA GRANDE COISA
Eu trabalho em nossa igreja com universitários e muitos de-
les têm grandes sonhos em seus corações, mas se sentem em
compasso de espera e ficam meio constrangidos com essa si-
tuação. Não é um problema de armazenar a grandeza; eles
apenas não descobriram ainda por onde começar.
Ouvi certa vez um comediante comentar a diferença en-
tre estudantes de universidades e estudantes de communi-
ty colleges.
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Se você perguntar para uma pessoa qual escola
ela frequenta e ela for de uma universidade, a resposta será
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muito fácil. “Vou à Universidade do Colorado” ou “Vou à
USC” ou “NYU” ou qualquer outra. Clara e objetiva. Mas
se você perguntar a um estudante de um community college
a mesma coisa, a resposta quase sempre será um pouco mais
longa.
“Veja bem, estou apenas experimentando... olha só, eles
bagunçaram minha transcrição e estou tentando obter ajuda
financeira no momento... Eventualmente vou me transferir
para...” e continua assim, porque estão constrangidos por
não se sentirem “no caminho”, seja lá o que isso signifique.
Encontro a mesma situação com muitas pessoas que estão
fora da escola, mas que não encontraram “aquela grande coi-
sa” para devotar suas vidas. Eles dizem:
Agora estou fazendo isso... trabalho na Starbucks, mas na
hora certa trabalharei para um editor cristão, ou em uma
igreja grande ou irei para o campo missionário ou descobri-
rei o lugar onde possa fazer grandes coisas para Deus.
Enquanto eu pensava sobre isso e falava com vários jovens
e até mesmo lutava com essa tensão na minha vida, cheguei à
conclusão de que não existe um momento em que de repente
alcançamos a grandeza ou começamos a fazer grandes coisas.
Acredito que temos a possibilidade de fazer parte de grandes
coisas todos os dias e talvez nem mesmo perceber. Quando o
personagem bíblico Jacó sonhou com a “escada para o céu”
acampado em Betel, exclamou: “Sem dúvida, o SENHOR
está neste lugar, mas eu não sabia!”
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Sem dúvida, Deus tra-
balha em nossas vidas agora, onde estamos hoje — nas con-
versas na rua, na hora do almoço ou em qualquer situação.
Certamente, Deus está nesses lugares, mesmo que não perce-
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bamos. A grandeza não é sempre óbvia. Frequentemente, ela
é tão sublime que a perdemos.
Facilmente, também assumimos que o lugar que tem im-
portância é outro lugar. Além-mar. No campo missionário.
Na próxima esquina. Aos quarenta anos. Quando atingirmos
nosso primeiro milhão. Onde quer que seja. Nem mesmo
consideramos que uma mudança duradoura começa onde
estamos. Não consideramos a possibilidade de que Deus
pode nos usar aqui e agora. Não consideramos seriamente
que Deus nos colocou exatamente onde estamos porque ele
tem uma boa razão. Ele pode nos usar aqui. Se Deus pode
nos usar em outro lugar, porque assumirmos que onde ele
deseja nos usar é em outro lugar, diferente daquele onde esta-
mos agora? Pense nisso. Quais são as coisas que estão bem na
sua frente agora e que você negligencia porque está olhando
para outro lugar? Quem são as pessoas que ignorou por não
pertencerem a uma tribo distante que, no seu coração, você
planejou alcançar? Por que não começar buscando uma opor-
tunidade local e pequena e fazer algumas coisas boas? Abra
seus olhos. Ouça mais atentamente o próximo. Dê aquele
pequeno passo inicial, aquele ato simples de obediência e veja
o que acontece.
Neemias era apenas um homem
comum, que acabou fazendo uma
diferença extraordinária.
FORA DO NORMAL
Uma das minhas histórias favoritas da Bíblia é a de Neemias.
Sou atraído por ele porque, como muitos personagens bíblicos,
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ele teve um impacto significativo na história. Mas diferente
dos nossos outros heróis da Bíblia, que são reis, profetas ou
sacerdotes — ou o próprio Filho de Deus —, Neemias era
apenas um homem comum que acabou fazendo uma dife-
rença extraordinária. Ele não era um dos doze apóstolos. Pelo
que sabemos, nenhum milagre aconteceu durante sua vida.
Ele nunca proferiu uma única palavra profética, nunca curou
uma pessoa nem ganhou uma batalha decisiva. Era apenas
um copeiro e se tornou famoso pelo seu papel como em-
preiteiro. Não era como a média dos heróis bíblicos. Ainda
assim, ele é diferenciado na minha mente exatamente porque
faz parte da média. Gosto muito da história de Neemias por-
que, apesar dos seus começos humildes, ele se encontra no
meio de um momento que muda a história.
Nascido judeu em um país estrangeiro, Neemias era filho
daquilo que ficou conhecido como a Dispersão. Há mais de
um século, seus ancestrais judeus haviam sido cativos pelos
babilônios como castigo pela desobediência a Deus. Mais
tarde, quando os persas aniquilaram os babilônios, muitos
judeus mudaram para a Pérsia. Este foi o lugar onde Neemias
nasceu e ele não conhecia outro lar além de Susã, a capital do
país. Ainda assim, ele nunca se sentia totalmente em casa lá.
Havia ouvido histórias de como Deus havia prometido
fazer de Abraão uma grande nação e lhe dar um filho na sua
velhice; como Deus enviou Moisés para libertar os descen-
dentes de Abraão quando em grande número foram escra-
vizados pelo reino egípcio; como toda uma geração morreu
no deserto do Sinai pela sua falta de fé; como Josué liderou
uma nova geração em vitórias sobre um exército após o outro
quando possuíram a terra; como Deus deu a Israel o grande
rei Davi e como todo rei depois disso foi comparado a ele.
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Havia ouvido a respeito das profecias que previram o exílio e
também a respeito da promessa do retorno para Judá quando
Deus traria seu povo de volta para a terra como prova da sua
fidelidade infindável. Agora, na época de Neemias, o retorno
prometido estava começando a acontecer.
Certamente, a situação de Neemias incitou perguntas so-
bre sua identidade, herança e seu verdadeiro lar. Ele havia
crescido em uma cultura que questionava a justiça e a so-
berania divina. Havia crescido em uma cultura de dúvidas,
onde a incerteza era a única coisa que fazia sentido. Isso não é
tão diferente da nossa cultura. Ainda assim, de algum modo,
Neemias se apegou às histórias de sua terra. Cresceu ansiando
uma terra que nunca havia visto e esperando morar em uma
cidade de que apenas havia ouvido falar. Cresceu crendo na
redenção e confiando em um Deus que parecia distante. De
alguma maneira, em meio a toda aquela confusão e questio-
namento, Neemias encontrou uma centelha de fé e a atiçou
para se tornar uma chama ardente.
Ainda assim, de algum modo, Neemias se
apegou às histórias de sua terra. Cresceu
ansiando uma terra que nunca havia visto
e esperando morar em uma cidade de que
apenas havia ouvido falar.
É difícil dizer se Neemias tinha consciência da impor-
tância da mudança mundial que estava prestes a realizar;
suspeito que não. Quando o seu momento chegou, ele não
planejou mudar o mundo; apenas estava fazendo a coisa ne-
cessária. Aquela coisa que precisava ser feita. Independen-
temente de Neemias ter ou não consciência do que faria,
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creio que podemos tirar dessa história alguns princípios de
mudança de vida que influenciarão nossas histórias.
Na cena de abertura do livro de Neemias, descobrimos
que um dos seus irmãos, Hanani, retornara de uma visita a
Judá. Aparentemente, os persas haviam permitido que alguns
judeus retornassem do cativeiro para sua terra e Hanani es-
tava em um grupo que havia voltado para Susã para relatar a
situação. Quando Neemias perguntou como estavam as coi-
sas em Judá, Hanani respondeu:
Está ruim, Neemias. Ruim demais. Os muros queimados.
As pedras viraram entulho. Tudo está amontoado. Tudo
ruiu. Uma grande bagunça.
4
Os poucos judeus que haviam retornado para Jerusalém vi-
viam em circunstâncias horríveis. Os muros da cidade se torna-
ram ruínas e se abriram para todo tipo de perigo. Os portões
foram queimados e não havia como repará-los. A desolação dei-
xou a cidade exposta a todo tipo de gente, vegetação e saque.
A cidade de Deus era uma árvore morta, uma concha moída.
Quando Neemias ouviu as notícias, sentou-se e chorou.
Embora nunca tivesse estado em Jerusalém, ele sabia que era
o orgulho da nação. Era a capital e tinha sido destruída. Ele
ficou tão oprimido pela tristeza, que jejuou e orou por vários
dias, confessando seus pecados, os pecados de sua família e os
de seu povo, os judeus. Ao orar, ele lembrou Deus de algumas
promessas feitas anteriormente ao povo de Israel:
Lembra-te agora do que disseste a Moisés, teu servo: “Se
vocês forem infiéis, eu os espalharei entre as nações, mas, se
voltarem para mim, obedecerem aos meus mandamentos e
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os puserem em prática, mesmo que vocês estejam espalha-
dos pelos lugares mais distantes debaixo do céu, de lá eu os
reunirei e os trarei para o lugar que escolhi para estabelecer
o meu nome.”
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Neemias decidiu que precisava ir a Jerusalém e fazer al-
guma coisa em relação à condição da cidade. Ele orou para
que Deus lhe concedesse favor diante do rei persa e que este
atendesse a seus pedidos. O amor de Neemias por Jerusalém
não permitiu que ele ficasse parado, simplesmente esperando
que alguma coisa grande acontecesse.
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