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O Canto de Mulheres nas Culturas Mediterrânicas
ou
O Canto de Mulheres nas Culturas Ibero-americanas

(NOTA: eu penso ser preferível esta segunda possibilidade, podendo envolver as
identidades ibéricas e latino-americanas em que encontramos práticas e tradições
claramente relacionadas e bem documentadas)

Breve nota sobre a construção da identidade musical Ibero-americana
É a voz que nos salva. Antes de ser canto e conto, melodia e palavra, é o grito
involuntário do ar que nos inunda os pulmões no nascimento. Tudo nos vai soar diferente, a
partir desse momento. O ventre da nossa mãe já não filtra e mistura os sons exteriores com
os do seu corpo.
Falam agora connosco como se compreendêssemos o sentido de cada palavra. E ouvimos
as primeiras melopeias que se misturam com o calor da pele, o cheiro dos corpos que nos
abraçam, o sabor do leite que nos acalma. O Mundo é uma amálgama de sons, cheiros, luz.
Frio e calor são agora sensações novas. Mãos que nos tocam, tecidos que nos embrulham. E
o adeus definitivo a esse mar quente onde vivemos em total comunhão com a mulher que
nos gerou.
Os três primeiros anos de vida são decisivos. Tudo se transforma em nós e à nossa volta.
E como ninguém sabe muito bem o que a criança entende, a experiência da humanidade
aconselha que tudo seja feito para que o novo ser adquira os saberes e habilidades
experimentadas por muitas gerações de pais, tios e avós. A voz, o toque das mãos e o gesto
acompanham o cuidar do corpo que é alimentado, limpo, protegido de tudo o que o possa
por em perigo.
Cantam-lhes muito
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, aos meninos. Fazem-se jogos em que as palavras se repetem vezes
sem fim, entoadas sobre motivos melódicos, a par com os sons da língua materna, onde as
marcas de cada cultura já estão presentes. Tudo se conjuga para que o sentimento de
segurança que está associado aos rostos e vozes dos cuidadores da infância sejam o
território de afecto e significado profundos que os acompanhará durante toda a vida. Quase
tudo será para sempre entendido por esses filtros inconscientes, território imaterial presente
em cada decisão e avaliação do que nos é estranho.

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Canções de embalar, designação que preferimos a canções de regaço, do berço, de acalentar. Canción de Cuna,
em castelhano; Berceuse, em francês; Lullaby em inglês; de Ninar, no Brasil; Wiegenlied, em alemão.
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Adolfo Coelho (1883)
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lembrava-nos, há um século, que "os contos e rimas infantis parecem
ser como o leite materno, que nenhuma preparação, por mais adiantada que esteja a
ciência, poderá igualar"
3
. Sabe-se hoje quanto estas criações literárias, genericamente
designadas por este autor como “pedagogia das amas”, são adequadas ao desenvolvimento
do pensamento e linguagem dos bebés (João dos Santos, 1987).
Da fórmula constam, essencialmente, ritmo e melodia, determinados
pela regularidade métrica e pela sonoridade das palavras, com relevo
para a alternância de acentos fortes e fracos, para a rima e para as
repetições. Constam ainda, gestos e mímica ligados intimamente à linha
prosódica e também processos de carácter poético ou lúdico que
alimentam a criatividade, com particular relevo para o nonsense. O seu
modo de transmissão - de viva voz - pressupõe a proximidade, o prazer
do contacto físico dos interlocutores e a permanente adequação
comunicativa.
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Como refere Gomes Pedro (1985)
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é na etapa pré-natal que surge a oportunidade de uma
pré-aprendizagem auditiva. O feto aprende, nesse período, a conhecer a voz da mãe, nas suas
qualidades de timbre, inflexão, entoação e ritmo, não sendo por isso de estranhar a
preferência do bebé, após o nascimento, pela voz da sua mãe. Cantar e falar ao bebé é um
comportamento humano essencial, até porque a relação mãe-bebé é uma relação “radicada
no contacto sonoro intra-uterino do feto no ventre materno através das baladas amnióticas ao
ritmo do coração. É neste espaço íntimo e fusional da “noite uterina” que se esboçam a
pulsação e os movimentos ondulantes de vaivém, que irão constituir, após o nascimento, o
protótipo da canção de embalar” (Carvalho, 1994)
6
. As mais antigas referências conhecidas
relativas a canções portuguesas de embalar - também chamadas de arrulhar, acalentar, ninar
e nanar - datam do século XVI, constituindo dois grupos diferenciados: canções de acalentar
(quando o bebé está ao colo) e canções de embalar (quando o bebé está no berço).
As canções de embalar e as canções de uma maneira geral são uma espécie de catalisador na
importante transição do mundo não verbal da criança ao mundo da comunicação verbal,
permitindo uma integração suave dos ritmos e melodias da língua materna. As canções de
embalar, as cantilenas, os jogos com palavras, as lengalengas cantadas às crianças,
transmitem-lhe segurança e estabelecem laços de ternura.

2
COELHO, A (1883) Os Elementos Tradicionais da Educação - Estudo Pedagógico, Lisboa: Livraria Universal, p.65
3
ibidem
4
COELHO, A (1994) Jogos e Rimas Infantis, Porto: Asa
5]
Citado por Ana Margarida Ramos no texto de introdução ao ante-projecto de criação do Centro Virtual de Pedagogia das Amas
(2003)
6
ibidem
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A criação de um Centro Virtual de Pedagogia das Amas permitiria disponibilizar conteúdos do
património oral herdado para a educação dos bebés: rimas, lengalengas, canções de
embalar, jogos rítmicos e contos repetitivos, na complementaridade dos seus recursos
expressivos, que envolvem movimentos, sons, palavras e expressões sonora e corporal.
Em 2006, foi criada uma Comissão Científica de Acompanhamento e um Conselho Técnico de
Coordenação
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para a promoção de repertórios dedicados à infância, nomeadamente os que
são transmitidos por mulheres. Os principais Centros de investigação e Instituições
vocacionadas para o trabalho com crianças e jovens mobilizaram-se para esse propósito.
Caso se promova a actual candidatura, contaremos seguramente com essas pessoas e outras
nos Países Ibero-americanos que partilham connosco esse Património Imaterial.
A importância dada pelas comunidades humanas desde sempre a esta transmissão,
presente em todas as culturas, só se pode avaliar se reconhecermos o sucesso obtido na
aprendizagem da língua materna e dos padrões imateriais de comportamento por todas as
crianças, sendo as excepções objecto de cuidados especiais. A diversidade linguística que
encontramos nestas comunidades só é possível pela presença de mulheres conhecedoras
dessas práticas junto das novas gerações.
Encontramos desde o séc. XVI referencia a canções de embalar em Portugal e Espanha
8
.
Nas comunidades ibéricas espalhadas pelo mundo, as canções de embalar, rimas e lenga-
lengas estão sempre presentes sendo seguramente um dos principais suportes de
transmissão da língua mesmo em condições muito adversas, como se verifica nas
comunidades sefarditas expulsas de Portugal e Espanha no séc. XVI e onde ainda hoje
podemos encontrar esses repertórios.

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Ana Paula Guimarães (textos) (IELT)
Carlos Neto (motricidade) (Faculdade de Motricidade Humana – Departamento de Ciências da Motricidade)
Clara Castilho e Fernanda Ramos (vinculação e pedagogia terapêutica) (Centro Doutor João dos Santos - Casa da Praia)
Filipe Reis (antropologia da educação) ( ISCTE)
Isabel Cruz (pedagogia) (Centro de Estudos e Projectos em Educação de
Infância /Universidade do Algarve)
Isabel Freire (mediação) (Universidade de Lisboa - Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação )
Helena Rodrigues (música) (Universidade Nova - Departamento de Ciências Musicais)
Laura Scheidecker (antropologia)
Luísa Horta e Costa (saúde materno-infantil) (Fundação Materno -Infantil Nossa Senhora do Bom Sucesso)
Maria de Lourdes Carvalho (psicologia educacional) (Centro de Estudos da Criança – Universidade do Minho)
Maria Augusta Seabra Diniz (literatura para crianças) (docente aposentada da Escola Superior de Educação de Lisboa)
Maria José Costa (rimas e lengalengas) (Investigadora)
João Seabra Diniz (psicanálise)
Otília de Sousa (linguística) (Escola Superior de Educação de Lisboa)
Paula Coimbra (música) (Academia Os Violinhos)
Teresa Brandão (motricidade - necessidades educativas especiais) (Faculdade de Motricidade Humana – Departamento de Ensino Especial
e Reabilitação)
Dora Batalim e Maria da Conceição Rolo (Centro de Estudos e Recursos de Literatura e Literacia)
Domingos Morais (Movimento Português de Intervenção Artística e Educação pela Arte)
8
VASCONCELOS, José Leite de , “Canções do Berço segundo a Tradição Popular Portuguesa”, Revista Lusitana, X, 1907, pp-1-86;
Opúsculos, vol II. Lisboa, Imprensa Nacional, pp.780-927.
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Uma primeira constatação, feita por quem olhou as práticas musicais dos povos e culturas da
Terra, é a sua (omni)presença e papel relevante em todos os actos que marcam a existência
humana, “do berço à cova”, com gostava de dizer Michel Giacometti
9
.
E porque persistem estas mulheres de Portugal, Espanha e da América Latina, em aprender e
partilhar saberes que por vezes nem pertencem ao seu universo urbano e parecem pertencer a
um outro tempo? Ou será que pertencem, embora transfigurados e descontextualizados mas
ainda apelando ao que de mais essencial as mobiliza?
Talvez o segredo esteja afinal na convivialidade e funções da música feita pelas
mulheres nas culturas latino-americanas em que a voz e o corpo se soltam e revelam novos
sentidos. São assim capazes de embalar sem ter de adormecer, chamar como se estivessem no
alto de um monte, invocar trabalhos que já não existem - do linho, das mondas, da apanha da
azeitona. E amam e sofrem sem objecto visível, inventam romarias e festas, lançam preces,
esconjuros e maldições, fazem encomendações, rezas e promessas cantadas a Divindades que
quase deixaram de as acompanhar.
A Terra e os seus frutos são temas constantes, marcando talvez a mais sólida ligação com o
seu Tempo, no respeito e gratidão de quem dela depende, agora e sempre. E a Palavra que
nasce e se organiza em textos cantados de uma poética deslumbrante que marca toda a
produção literária e musical Ibero-americana.
Quem passa por este processo como que renasce ao estabelecer os elos que permitem
compreender o que é ser Mulher em Portugal, Espanha e na América Latina. As lições
recebidas nessa nova liturgia do Canto terão talvez transformado as suas vidas, dando-lhes
instrumentos únicos para recriar em cada geração o que de mais essencial caracteriza a sua
comunidade. E premiou-as, pela sua dedicação e persistência, com o domínio de um vasto
repertório de canto no feminino que embora diferente de região para região, em cada
País e Continente, apresenta características que nos permitem dizer estar perante um
Património Imaterial com enormes afinidades, bem documentadas pelos estudos
musicológicos e de literatura tradicional que bem merece ser reconhecido e classificado
pela UNESCO como pertencendo à Humanidade.
Domingos Morais e Maria da Conceição Rolo
Fevereiro de 2014

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GIACOMETTI, Michel; Cancioneiro Popular Português. Lisboa, Círculo de Leitores, 1981.