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A U T O G E S T A O
E A N A R O U I S M O
. -
G aston Leva! R ené Berthier
Frank M intz
Tradução
Plínio Augusto Coêlho
SUMÁRIO
Apresentação
Frank Mintz
7
Concepções Construtivas
do Socialismo Libertário
Gaston Leval
15
Concepções Anarco-sindicalistas
da Autogestão
René Berthier
61
Ensinamentos
da Autogestão Espanhola
Frank Mintz
75
Resultados da Coletivização:
Conclusões e Estimativas Gerais
Frank Mints
93
A PR E S E N T A ÇÃO
Prank Mintz
Retomar textos trinta anos depois pode parecer um projeto
estranho e difícil, mas a exploração social permanece idêntica,
eaté mesmo mais agressiva emais arrogante. E éprecisamente
a descrição de experiências em oposição total ao que nos im-
põem como sendo normal, natural, lógico, que torna esses teste-
munhos indispensáveis.
A solidariedade social entre os cidadãos eaeficácia econô-
mica deempresas coletivizadas pelos assalariados existiram em
plena guerra civil, a despeito dos obstáculos materiais e das
oposições dos pretensos "especialistas" da política deesquerda.
Os três textos articulam-se de maneira complementar. Os
dois primeiros consagram-se a uma exposição das diferentes
elaborações teóricas dos ídeóíogos anarquistas e à aplicação
prática no sindicalismo, geralmente denominado anarco-síndi-
calismo. Eles são marcados pelos conhecimentos sólidos epelas
fortes personalidades de seus autores. E, no entanto, são obje-
tivos e praticamente exaustivos. Os autores mais importantes
do pensamento anarquista desfilam nas páginas de Leval, e a
organização anarco-sindícalísta cotidiana está presente emBer-
thier com a inevitável crítica dos grupos políticos.
Eu só acrescentarei uma breve observação ao texto deGas-
ton Leval: um autor marxista, Antón Pannekoek, escreveu um
8 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
esboço de projeto de sociedade emLes Conseils ouvriers, em
1948, muito próximo deA Conquista do Pão, escrito por Kro-
potkin, em 1892, mas muito menos concreto, na minha avalia-
ção.
Noque diz respeito aRené Berthier, eu gostaria deressaltar
ainda mais a vantagem, e sobretudo a necessidade, da 'rotatí-
vidade das tarefas", quer dizer, a formação do maior número
possível de sindicalistas (mulheres e homens, evidentemente)
comresponsabilidades concretas, que são confiadas anovos mi-
litantes, uma vez que uma certa experiência é adquirida. Essa
prática dá umverdadeiro sentido à crítica fraternal eàs capaci-
dades de controle pela base da organização de um sindicato.
O terceiro artigo é do autor destas linhas, e é completado
por dados concretos dos resultados da coletivização, como se
dizia nos anos 30, ou da autogestão, termo que prefiro por ser
mais claro e conforme à ação direta dos trabalhadores espa-
nhóis edos assalariados emgeral. Esse artigo parece-me man-
chado por uma certa agressividade (porque destinado a umcon-
junto em que eram dados exemplos e descrições da revolução
espanhola) que omite alguns aspectos positivos que citarei re-
sumidamente.
Uma pergunta lógica para se fazer épor que o anarquismo
era tão forte na Espanha, quando elejá havia desaparecido dos
outros países. Na realidade, trazer esta questão é esquecer o
essencial, isto é, que as idéias socialistas, autoritárias ou não,
nunca penetraram nos países industrializados de ponta (àexce-
ção de raros momentos: I.w.w. nos Estados Unidos até 1914,
aproximadamente; anarco-sindicalismo e spartakistas na Ale-
manha até a instauração do hitlerismo, bem favorecido pela
ausência de apelo à ação direta dos trabalhadores dos estados-
maiores socialista ecomunista), como bem omostram os movi-
mentos operários reformistas atuais dos Estados Unidos, Grã-
Bretanha, países escandinavos, Alemanha.
APRESENTAÇÃO 9
A influência de um sindicalismo anticapitalista na Espa-
nha explica-se pela composição da C.N.T.epela origem política
_e social de seus afiliados. Seos objetivos da C_,N.T. são o comu-
nismo libertário, tal como o definiram Bakunin e Kropotkin,
entre outros, o sindicato é, contudo, aberto a todos os trabalha-
dores sem distinção política e religiosa. Observamos que os
trabalhadores espanhóis efetuaram uma escolha no leque tático
libertário contra aoligarquia. A influência sobre os artistas eos
escritores émenos forte que na França, bem como o terrorismo,
o individualismo e as tentativas de comunas, muito pouco cor-
rentes, ao contrário da Rússia e da Bulgária.
Além disso, os responsáveis, os quadros, emanaram dos
próprios trabalhadores, pela fôrma anarco-síndícalísta. E eles
aparecem desde o início da presença da Primeira Internacional
na Espanha. Anselmo Lorenzo, Morago a partir de 1870. Com
os movimentos do final do século, Tarrida del Mármol, Sánchez
Rosa, a partir de 1890. Coma criação da C.N.T.,em 1911, temos
Negre, Buenacasa. Após a tentativa de 1917, Salvador Seguí,
Pestana, Peiró. Durante a ditadura de Primo de Rivera, Durruti,
García Oliver, Ascaso etc. Comocomeço da república: Peirats, M.
R. vãzquez, Cipriano Mera, David Antona. Durante aguerra, os
irmãos Sabater etc. Portanto, sem interrupção, desde 1870 até
1936, sucedem-se categorias, gerações de sindicalistas, forma-
dos eexperimentados.
Esses sessenta anos de militantismo, de autodidatismo
proletários nas cidades e nos campos são a força da C.N.T.Sea
compararmos coma Rússia onde só encontramos três focos de
agitação. De início, são os decabristas, no começo do século
XIX. Em seguida, os exilados convertidos ao socialismo como
Herzen, Bakunin, os "narodnlki" ou populistas que iamao povo,
mas que eram filhos da burguesia ou da nobreza, estabelecem
os referenciais de toda a tomada de consciência do século se-
guinte. Enfim, no século xx, emque praticamente omovimento
10 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
dos trabalhadores só forma seus quadros emquinze anos, entre
1905 e 1920, assistimos a uma aceleração decisiva. Infeliz-
mente, nenhum trabalhador tem função importante, porquanto
só os intelectuais pequeno-burgueses como Lenin, Trotski, Bu-
kharin etc., estão no poder, antes de entredevorarem-se. Nada
parecido na Espanha; os responsáveis emanados da pequena
burguesia são ínfimos: os médicos Vallina e Puente nos anos
30.
o segundo elemento que explica a força da C.N.T. é sua
organização, que repousa sobre três pontos: a ação direta, o
sindicato único eofederalismo.
• A ação direta, conformemente à tática enunciada pelos
sindicalistas revolucionários franceses (cujas idéias iam do
marxismo proletarista às idéias anarquistas, comuma unidade
anticapitalista), consiste em recusar o máximo possível as ne-
gociações diretas com o patronato, exigindo a satisfação do
máximo de reivindicações dos trabalhadores. Concretamente,
duas atitudes ofereciam-se aos patrões: ceder ou opor-se, a pro-
va de força, o que, em geral, provocava nas massas operárias
uma reação em cadeia. Temos um exemplo disso em 1919 com
agreve deLa Canadiense.
A central elétrica da Catalunha, La Canadiense, foi parali-
sada por uma greve de solidariedade para com os operários da
contabilidade, depois a solidariedade estendeu-se às outras
centrais de eletricidade, depois às fábricas têxteis. O governo
decretou o estado de emergência na Catalunha e mobilizou os
trabalhadores, que, contudo, recusavam-se a trabalhar. As rei-
vindicações tinham passado ao aumento salarial, àjornada de
oito horas eao pagamento da metade dos dias degreve. A greve,
iniciada em janeiro emLa canadiense, alcançara a Catalunha
em fins de fevereiro. Em março, a greve continuou, e, de 24 de
março a 7de abril, foi a greve geral. Em 14 de abril, o sindicato
APRESENTAÇÃO 11
patronal aceitava todas as reivindicações, inclusive alibertação
de 3.000 trabalhadores.
Essa greve inteiramente conduzida pela C.N.T.,éum exem-
plo de eficácia dessa central que agrupava no mesmo ano
755.000 membros, aproximadamente 10%da população ativa.
Somente na Catalunha, a C.N.T. tinha 252.000 membros, em
1920, ea V.G.T. (controlada pelo Partido Socialista, e que rejei-
tava a ação direta), para toda a Espanha, 211.000.
Essa mesma solidariedade existiu durante aRepública, em
1931, com a greve dos empregados da companhia telefônica
(dependente da I.T.T.).Numa cidade andaluza, emRonda, o sin-
dicato dos camponeses decidiu apoiar essa greve, etodos os pos-
tes telegráficos da região foram cortados. Isso significa que os
camponeses, em grande parte analfabetos, tinham uma ação
eficaz e solidária, pois, com efeito, tinham uma visão e uma
consciência políticas, embora estivessem apartados da cultura
burguesa (egraças àaudição deleituras emvoz alta da impren-
sa anarco-sindicalista).
•Osindicato único, como seu nome o indica, reagrupava
os trabalhadores de uma mesma empresa, ou de uma mesma
localidade, quando ela era pequena. Sua importância deve-se a
que, emvez deseparar, opor os assalariados emcategorias arti-
ficialmente criadas pelos patrões: executivos, técnicos, enge-
nheiros, empregados, operários etc., ele os unificava, e, por
conseqüência, cada reivindicação era geral, o que gerava uma
solidariedade euma eficácia muito maiores que na V.G.T. orga-
nizada ao modo europeu (isto é, como na França, na Alemanha
etc.). É fácil compreender como as greves eram vitoriosas: Às
vezes, quando a pressão das massas não era suficiente, indiví-
duos ou grupos (mais ou menos próximos do sindicato) encarre-
gavam-se deaumentá-Ia. As greves vitoriosas geravam umaflu-
xo de militantes, eas greves seguintes tornavam-se ainda mais
12 AUTOGESTÃO E ANARQUlSMO
importantes por causa dos sucessos passados e do maior nú-
mero de participantes.
• Ofederalismo dava uma grande leveza de ação àC.N.T.,
pois cada região, ou federação local e municipal, podia tomar
iniciativas sem ter que consultar comitês centrais mais ou me-
nos apar dos problemas. Umexemplo típico éode 1933: aC.N.T.
e a U.G.T. estavam em desacordo quanto a uma tática comum.
Entretanto, nas Astúrias, as duas regionais assinaram umacor-
do dealiança (oque mostra ainfluência das táticas anarquistas
na U.G.T.).Todavia, no seio da regional C.N.T.,afederação de La
Felguera recusou oacordo. Oque àprimeira vista parece contra-
ditório, correspondia a situações e realidades locais entre a
C.N.T.e a U.G.T.
Umterceiro aspecto especialmente diferente eparticular é
esse que qualificaremos deglobalismo. A C.N.T.nunca se limi-
tou ao sindicalismo, eseus locais abrigavam cursos dealfabeti-
zação tanto quanto escolas inspiradas em Ferrer para crianças.
Seopedagogo anarquista Francisco Ferrer foi fuzilado em1909,
as escolas continuaram em todas as províncias da Espanha,
com a ajuda econômica dos diferentes sindicatos e dos pro-
fessores, que eram militantes que ensinavam após suas jorna-
das de trabalho. Oesperanto, ovegetarianismo, a medicina na-
tural, a propaganda anticoncepcional, a emancipação da mu-
lher, os encontros deentretenimento (Ias jíras) eram não apenas
conhecidos mas apoiados por inúmeras revistas locais e regio-
nais. Se tomarmos simplesmente 1932, além das publicações
clássicas como Solidaridad Obrera(Barcelona, diário), Tierray
Libertad (Barcelona, hebdomadário), La Novela Ideal (mensal),
La Revista Blanca (Barcelona, mensal), Nosotros (Valência,
mensal), Redenciôn (Alcoy), Acción (Cadix) etc., surgem várias
publicações: CNT (Madri, diário), Orto (valência), Solidaridad
Proletaria (Sevilha), La Voz de! Campesino (Ierez) etc.
APRESENTAÇÃO 13
Esse aspecto múltiplo-cultural não era de forma alguma
gratuito. Eleseopunha emtudo à cultura católica: do princípio
da vida comos prenomes Acracio, Floreal, Germinal, Helios etc.,
Luz, Libertaria, Alba emoposição a J esus, Salvador, Ignacio ou
Ifiakí (Inácio de Loiola, fundador dos jesuítas) e para as mu-
lheres, Covadonga (primeira vitória contra os muçulmanos com
a aparição de São Tiago), Amparo (proteção da Virgem), Sole-
dad, Dolores (solidão edor da virgem), sem contar os múltiplos
locais de revelação da Virgem: Pilar, Begofia, Guadalupe, Mont-
serrat, Nuria etc.; até a morte, os ateus e maus cristãos eram
excluídos do cemitério católico.
E o marxismo, tanto teórico quanto prático, era combatido
eapresentado tal como é, quer dizer, a nova ideologia das clas-
ses possuintes para continuar a explorar os trabalhadores. Os
ensinamentos de Bakunin, Kropotkin, Rocker, Nettlau eram pu-
blicados em livros, brochuras, bem como os escritos dos anar-
quistas russos: Archinov, Makhno, Volineos dos cenetistas que
estiveram na V.R.S.S.: M. Prieto, Pérez Combina, Martín Gudell,
Pestana. E em literatura: Multatuli, Panaít Istrati, Zola eram
muito estimados.
Eis um rápido esboço das razões da força, da permanência
de um movimento sindical que marcou profundamente a histó-
ria espanhola do início do século xx. Atualmente, após a dita-
dura de Franco, que consistiu na lavagem cerebral de várias
gerações pela incrustação de idéias mussolinianas e católicas,
com o aval de Roma ede Washington, depois, pelo surgimento
da sociedade de consumo, o anarco-síndícalísmo relança-se
lentamente, mas a autogestão, durante a guerra civil, serve de
farol, como esse exemplo serviu a alguns sindicalistas polone-
ses às vésperas do golpe de Estado militar de 1981.
Oconjunto que compõe esses três textos de Leval, Berthier
e Mintz é uma resposta à propaganda capitalista de respeito à
natureza, aos seres humanos, ao progresso eao fimda história,
14
AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
quando os lucros das classes dirigentes não cessam deelevar-se,
a corrupção émoeda corrente ea imensa maioria dos habitantes
do globo encontra-se na miséria.
Frank Mintz
Setembro de 2002
CO N CE PÇÕE S CO N S T R U T I VA S
DO S O CI A LI S M O LI BE R T ÁR I O
G aston Leval
Precisemos, desde o início deste pequeno estudo, o que
entendemos por "socialismo libertário", eque poderíamos deno-
minar de outro modo, anarquismo social, o que outros chamam
deanarquia. Todavia, há aproximadamente trinta anos* oautor
destas linhas renunciou à palavra "anarquia", pelo que ela tem
de imprecisão econtradição, pelas confusões que ela provoca no
seio do próprio movimento anarquista, eda qual Proudhon, que,
por primeiro, quis atribuir-lhe um sentido oposto àquele que
sempre existiu na língua francesa, foi um edificante exemplo.
Poderíamos falar com ele de socialismo mutualista, ou fe-
deralista, de coletivismo ede federalismo socialista comBaku-
nin e seus amigos da Primeira Internacional, de comunismo
anarquista comKropotkin, decomunismo libertário comalguns
de seus discípulos. Mas é difícil resolver quem, de Bakunin ou
Kropotkin, tinha mais razão, não na ética profunda dos con-
ceitos, mas no que, à luz da experiência, implica seu emprego
prático. É impossível definir deantemão oque responde, ou res-
ponderia melhor às circunstâncias de tempo e lugar, e na ver-
dade, às vezes étnica, da condição humana.
* Leia- se, há mais de 60 anos. (N. do T. )
16 AyTOGESTÃO E ANARQUISMO
Eis por que adotamos a expressão genérica de socialismo
libertário. Mas énecessário ressaltar, desde já, que todas essas
definições respondem ao mesmo princípio de base (socialismo
libertário) e têm um caráter sinonímico constante.
* * *
E, precisamente, a profusão dos termos citados, aos quaís
podemos acrescentar os deanarquismo comunista, ou deanarco-
sindicalismo, prova, desde o início, que o espírito construtivo
foi, por assim dizer, consubstancial pelo surgimento da escola
an-arquista, ou antiautoritária, antigovernamental, antiestatista
do socialismo. Seos pensadores, os teóricos esociólogos dessa
escola esforçaram-se para encontrar a melhor fórmula, simulta-
neamente jurídica e organizacional, de caráter positivo, que
podia ser encontrada, é que o problema da reconstrução social
interessava-os ao mais alto grau.
Isso está emcontradição comaopinião da imensa maioria
daqueles que se ocupam - sem grande integridade intelectual
- comos grandes problemas detransformação-social que estão
na ordem do dia. Essa imensa maioria atém-se ao sentido nega-
tivo da palavra "anarquia" eaos escritos críticos fazendo parte
da literatura que reivindica essa idéia. Sua consciência deescri-
tor, de comentadores ou de sociólogos, não os conduz mais
longe. Assim, vem-nos em mente o caso de Berdiaeff, que a
altura do vôo filosófico ao qual ele se arriscava deveria ter tor-
nado mais curioso, epara quem Bakunin era apenas um demo-
lidor, porquanto ele havia escrito essa frase:
'1\ paixão pela destruição éeminentemente construtiva".
Veremos, mais adiante, o quanto esse [uízo sumário é
inepto.
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO L1BERTÁRIO 17
Entretanto, devemos também reconhecer que foi um erro
mortal de Proudhon a escolha desse vocábulo a esse ponto dis-
cutível, embora seu caráter etimológico pudesse, comauxílio de
muita dialética, dar-lhe aparentemente, etalvez, razão. As con-
seqüências desse erro propagaram-se, econtinuam apropagar-se,
repetimos, no interior do próprio movimento anarquista. Não se
define um ideal por uma negação. E foi o sentido negativo do
vocábulo que dominou. Oespírito de revolta, tão amiúde justi-
ficado contra a injustiça social e os malefícios da sociedade
autoritária e de classes, encontrou nessa negação uma síntese
niilista, expressão desua exasperação. Assim, amaioria daque-
les que sofriam a exploração do homem pelo homem, a miséria
ea fome, aqueles que exasperavam comas guerras do aparelho
de repressão eexploração estatista, só viam esses aspectos ne-
gativos de uma doutrina que, entre aquelas preconizadas pelas
correntes revolucionárias, era, excetuando o cooperativismo, a
mais rica em concepções construtivas, daquelas que reivindi-
cavam o socialismo.
É preciso ressaltar esse fato. Exceto ocooperativismo, prin-
cipalmente aquele da escola de Nimes, e que, por sinal, está
longe de perseguir sempre objetivos de transformação social e
de socialização integral, só aescola anarquista, do anarquismo
social', oferece um conjunto de definições, ensaios, antecipa-
ções, planos, métodos, previsões podendo guiar, ou contribuir a
guiar os povos no caminho do futuro. Com relação a isso, o
marxismo é de uma indigência surpreendente. Na literatura
marxista, só encontramos idéias referindo-se aessa questão no
livro deAuguste Bebel, intitulado A Mulher. Isso éaconseqüên-
cia da posição teórica de Marx, que combatia sempre, como
fizeram posteriormente os anarquistas a-sociais - individua-
listas ou individualizantes - eesse encontro ésaboroso - toda
tentativa deantecipação sobre areconstrução social. Nisso, Rosa
Luxemburgo - a heróica Rosa Luxernburgo, - e Karl Kautsky,
i
18 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
o sumo-sacerdote do marxismo após a morte de Engels, e que
também foi, ao menos em certos limites, o mestre-pensador de
Lenin, sustentaram as mesmas posições teóricas que, segundo
eles, correspondiam ao socialismo científico - marxista, éóbvio.
E a ironia dos fatos - mais uma na história - quer que
seja a escola, da qual os pensadores mais eminentes que deram
contribuições construtivas válidas, que passa por só ter um
caráter negativo, não oferecendo nenhuma solução ao proleta-
riado chamado àrevolução, enquanto aquela da qual os pensa-
dores, teóricos, escritores, em nada contribuíram, caricaturí-
zando sobre as "receitas para as marmitas da sociedade futura",
passa por apresentar soluções construtivas que lhe valem uma
boa parte das adesões proletárias, emesmo intelectuais de alto
nível.
vejamos agora rapidamente os aspectos positivos do pen-
samento libertário.
PROUDHON
Começaremos por Proudhon, "o pai da anarquia", como
dizia Kropotkin num célebre processo. Aqueles que o leram,
realmente leram, sabem que a "solução do problema social" foi
uma de suas maiores preocupações. Isso provocou nele dois
tipos de escritos, fragmentários ou não. Nos primeiros, Prou-
dhon exortava os trabalhadores e os outros socialistas a se
preocupar seriamente com ocomo da revolução. Nos segundos,
esforçava-se para deitar as bases da reconstrução, epreconiza-
va as medidas práticas a tomar em pleno período revolucioná-
rio, se a revolução acontecesse",
Antes de tudo, Proudhon afirma várias vezes que seu so-
cialismo é construtivo. Seu lema freqüentemente repetido é:
Destruam et aedificabo! E ele proclama:
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO LIBERTÁRIO 19
"Sim, sou socialista, mas socialista com premeditação e
consciência, socialista não apenas porque protesto contra o
regime atual da sociedade, mas por que qfirmo um novo regi-
me, que deve resultar, como tudo o que se. produz na socie-
dade, da negação de uma realidade passada ao estado de uto-
pia. Sou socialista, isto é, simultaneamente reformador eino-
vador, demolidor earquiteto; pois, na sociedade, esses termos,
conquanto opostos, são sinônimos. (Artigo "Lesocialisme jugé
par M. Proudhon", emLa Voix du Peuple, 14de maio de 1849).
Em7de dezembro do mesmo ano, no mesmo jornal, escre-
via num artigo intitulado "APierre Leroux":
"Sou socialista, enfim. Disse cemvezes que o socialismo,
enquanto ele se limita àcrítica da economia atual, e que pro-
põe àcrítica suas hipóteses, é uma protestação: mas quando
formula idéias práticas e positivas, é a mesma coisa que a
ciência social. Protesto contra a sociedade atual, e procuro a
ciência; por essa dupla razão, sou socialista".
Mas ele não se contenta emprocurar. Traz orientações pre-
cisas, diretrizes nas quais as massas podem inspirar-se, pe-
dindo ao mesmo tempo a estas últimas para procurar, elas tam-
bém, eencontrar.
No quarto artigo da série intitulada ''A propos de L?uis
Blanc", e publicado em 8de janeiro de 1850, em La Voix du
Peuple, ia ainda mais longe:
"Desde que eu me interesso pela coisa pública, muitas
vezes ouvi os patriotas fazerem-se essa pergunta escabrosa: '0
que faremos no dia seguinte à Revolução?' Mas devo dizer
igualmente que nunca vi sequer um deles responder essa per-
gunta. Aconselhar-se-ia, dizia-se, com as circunstâncias; e a
pergunta era lançada ao ar sem que se pensasse mais nela. Foi
assim que o fruto de todas as nossas revoluções foi,constan-
temente perdido pelo povo.
20 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
[...] Emrevolução, aquele que sabe o que quer eo que faz,
está seguro de comandar os outros: tal éa lógica dos fatos, ea
política das massas.
[...] Oescrutínio de 1852, supondo que o povo aguarde até
1852
3
, será, não duvidem disso, o sinal de uma nova revo-
lução.
Oque faremos no dia seguinte a essa revolução?
Tal éa pergunta que o povo deve fazer a si mesmo, deve
estudar sem descanso, e resolver num breve prazo.
Votar não étudo, manifestar-se não énada, épouco tomar
à baioneta o Hôtel de vnie- e as Tulherias: é preciso saber
utilizar a vitória.
Que o povo, portanto, interrogue-se eresponda. Pois se, no
dia da Revolução, ele não tiver a solução pronta, após um
tempo de interrupção na orgia demagógica, ele retomará por
séculos àmonarquia e ao capitalismo, ao governo do homem
pelo homem, àexploração do homem pelo homem".
Tais eram os conselhos de orientação geral. Mas, sendo in-
citado aisso pelas círcuntâncías, Proudhon também sabia preco-
nizar normas precisas respondendo a uma dada situação. Eis o
que ele escrevia em4 de maio de 1848, diante da incapacidade
da república burguesa que acabava de ser proclamada, e antes
que eclodisse a insurreição de junho:
"Que um comitê provisório seja instituído emParis, para a
organização da troca, do crédito eda circulação entre os traba-
lhadores;
Que esse comitê se ponha em relação com comitês seme-
lhantes estabelecidos nas principais cidades;
Que pelos cuidados desses comitês, seja formada uma re-
presentação, imperium in imperio, diante da representação
burguesa',
* Sede da Prefeitura. (N. do T.)
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO LIBERTÁRIO 21
QueO germe da nova sociedade seja lançado no meio da
sociedadeantiga;
Quea carta do trabalho seja imediatamente posta na or-
demdo dia, e os principais artigos definidos no mais breve
prazo;
Queas bases do governo republicano sejamdefinidas, e
poderes especiais concedidos para esse fimaos mandatários
dos trabalhadores".
Comovemos, a aplicação dessas concepções teria represen-
tado uma verdadeira revolução social; eisso ultrapassava oâm-
bito da posse individual dos meios de produção e de troca, na
qual se aprouve e se comprouve a encerrar o pensamento prou-
dhoniano.
E dez anos mais tarde.em-seu livro Idée générale de Ia Ré-
volution au XIxeme siêcle, Proudhon reafirmava que o papel dos
trabalhadores era fundar o socialismo; ele descrevia o processo
dessa empreitada da qual conhecia acomplexidade, eesforçava-
se para dar aos trabalhadores o indispensável sentido das res-
ponsabilidades:
"Enfim aparecem as companhias operárias, autênticos
exércitos darevolução, ondeotrabalhador, assimcomoosol-
dadonobatalhão, manobracomaprecisão desuas máquinas: .
ondemilhares devontades, inteligentes eorgulhosas, fundem-
se numa vontade superior como os braços que elas animam
engendram por seuconcertouma forçacoletivamaior quesua
própriamultítude'".
As tentativas práticas. Proudhon não se contentou em'
afirmar princípios e objetivos, nem em preconizar meios. Ele
também fez tentativas construtivas. Podemos discutir o valor
delas (sob a condição de situar-se no tempo em que elas foram
Iançadas), ou as modalidades. Oimportante, para oobjetivo que
22 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
buscamos ao escrever este curto ensaio, émostrar a perseve-
rança deseu esforço nabusca das realizações práticas.
A tentaiva mais conhecida foi acriação doBanco de trocas,
esobretudo oBancado Povo. Essebanco devia assegurar gra-
tuitamente ocrédito (idéiacaraaProudhon, equeeleexigiuaté
mesmo pelavialegislativa). Créditoquedeviafavorecer as tro-
cas entre produtores, "aprestação decapitais eodesconto dos
valores não podendo gerar nenhumjuro". Tratava-se, emsuma,
de tornar os produtores senhores das atividades econômicas
que, após aprodução, constituíam, na ordemcapitalista, fontes
deenriquecimento individual obtido pela exploração organiza-
da da massa dos trabalhadores. A possibilidade deobter ocré-
dito gratuito permitiria aos aderentes liberar-se dojugo do pa-
tronato edocapitalismo. A moeda tradicional transformava-se
embônus de circulação.
Proudhon fracassou emsua tentativa. Eispor queseignora
emdemasia o projeto deduas instituições que são seu desen-
volvimento. Trata-se doSindicato Geral da Produção, edoSin-
dicato Geral do Consumo.
Emverdade, esses doispontos, queampliavamecompleta-
vamosobjetivos doBanco do Povo, foramaobradejules Leche-
valier, "nosso amigo comum", escreveProudhon, quetinha sido
secretário da Companhia das Índias: " É aelequedevemos pela
idéia do estabelecimento dos dois Sindicatos dos quais iremos
falar avocês: foi sob sua direção especial quesefez aelabora-
ção desua organização, tal comoela vos será apresentada". A
inserção desse duplo projeto no livro, solutton du problême so-
cial prova queelefazia seu oconteúdo doqual eis aqui otexto
essencial:
"Essesindicato será composto, comomembros ativos, de
delegados naturais dos diversos ramos deprodução;
Seus atributos consistem:
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO L1BERTÁRIO 23
1- Em constituir a corporação livre e democrática como
regime absoluto e definitivo de todos os trabalhadores, qual-
quer que seja sua condição presente na sociedade; que eles já
estejam organizados emassociação, que eles ainda pertençam
ao patronato, ou que trabalhem isoladamente.
Ele deverá também provocar a organização das associa-
ções.
2 - Emliquidar a posição dos trabalhadores, isto é, tornar
suas pessoas e seus instrumentos de trabalho disponíveis;
As atitudes a serem tomadas em relação aos trabalhado-
res repousam sobre três bases:
- Liquidação prévia de cada produtor;
- Comandita recíproca dos trabalhadores para os instru-
mentos de trabalho;
- Encomendas recíprocas para a alimentação da oficina e
do trabalho;
3 - Emcentralizar as relações dos fabricantes emtodos os
produtos;
4 - Emcontrolar os produtos;
5 - Em concorrer à repartição do trabalho, e, por conse-
qüência, do desemprego entre as diferentes oficinas, com o
objetivo de gerar o equilíbrio entre a produção eo consumo;
6- Emconcorrer para a liquidação da velha indústria em
relação à nova;
7- Emprover os custos gerais do movimento industrial e
a compensação dos deslocamentos operados na indústria por
causa do emprego dos novos procedimentos;
8- Emdesinteressar os inventores;
9 - Emsolicitar as invenções e as melhorías,
10 - Emconstituir o fundo comumpara as indenizações a
conceder às diversas indústrias por ummodo decompensação
recíproca;
11- Emconstituir o seguro mútuo de todas as corporações
contra todos os sinistros suscetíveis de avaliação.
24 AUTO GESTÃO E ANARQUISMO
12- Emnegociar egarantir os empréstimos decada cor-
poração especial emrelação ao Banco do Povo, sendo que,
evidentemente, as únicas coberturas serão emcapital, avida
dotrabalhador avaliada eqüitativamente, eemcirculação cor-
rente, as obrigações demão-de-obra.
13- Emorganizar oaprendizado detal sorte:
a) que a criança possa sempre sesituar segundo sua vo-
cação;
b) que o excesso de trabalhadores não possa produzir-se
numa corporação,
c) que o aprendiz, graças ao engajamento de reembolso
contratado por elepara seus pais, possa receber o crédito de
alimentação necessário durante otempo emque seu trabalho
não cobrirá seu gasto;
d) quetodas as corporações quenecessitam deaprendizes
possam ter àvontade;
14 - Emregular as relações de cada corporação como
sindicato geral quanto a sua participação aos gastos feitos
pelos aprendizes econcernentes àcorporação, bemcomo os
meios para reembolsar seus gastos;
15- Emregular as condições deindenização edeserviços
mútuos emcaso dedoença, acidente ouinvalidez.
Eleproverá isso por meio de seu fundo de reserva epor
umacontribuição doconjuntodostrabalhadores aocaixageral.
Tratará comcada corporação das condições nas quais ela
deveráintervir no que concerneaseus membros.
16- Emorganizar umcaixa central para as pensões de
aposentadoria. Osfundos desse caixa serão constituídos pela
cotização das corporações.
Ocaixa central, de concerto ou emparticipação comas
corporações, contribuirá comas pensões de.aposentadoria
para uso dos trabalhadores;
17- Embuscar o modo deengrenagem dos trabalhos, a
fimdeevitar os desempregos inerentes acertas indústrias, e
contrabalançar a funesta influência exercida sobre o homem
peladivisão parcelar nos trabalhos".
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO LIBERTÁRIO 25
Dissemos que Proudhon não foi oautor do projeto que aca-
bamos de reproduzir, assim como também não foi o autor da-
quele concernindo o Sindicato Geral do Consumo. Mas esses
projetos devem ser considerados como fazendo parte do prou-
dhonismo que eles dão continuidade, no estudo intitulado Banco
do Povo, na exposição geral que o precede, e do qual Proudhon
é o autor. As estreitas relações entre jules Lechevalier e Prou-
dhon, e os trabalhos do grupo de estudos proudhoniano, onde
esses projetos foram elaborados, confirmam essa opinião. O
pensamento de Proudhon era bem mais plástico erico, não ape-
nas de conteúdo concreto, como também de possibilidades, que
podem supor tais ou quais intérpretes, e somos obrigados a
repetir que aqueles que não vêem nesse pensamento senão uma
defesa do artesanato generalizado estão nos antípodas da ver-
dade. As citações que lemos há pouco o provam. Poderíamos
escolher muitas outras, igualmente probatórias. Assim, esta,
tomada deIdée générale de Ia Révolution ao XIX!mesiêcle, Prou-
dhon responde àqueles de seus adversários que criticam suas
concepções anarquistas, edá da anarquia definições que aimen-
sa maioria daqueles que reivindicam seu pensamento deveria
conservar:
"Fazer anarquia pura: isso lhes parece inconcebível, ri-
dículo, éumcomplôcontra arepública eanacionalidade. 'Eh!
oquepõemnolugar dogoverno', exclamam, 'esses quefalam
desuprimi-Io?'
Nãoencontramos nenhuma dificuldade para responder.
a que colocamos no lugar do governo já odissemos: éa
organização industrial.
a que colocamos no lugar das leis, são os contratos..Ne-
nhuma lei votada, nempela maioria, nempor unanimidade;
cada cidadão, cada comuna ou corporação faz asua",
a que colocamos no lugar dos poderes políticos, são as
organizações econômicas.
26 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
oquecolocamosnolugar das antigas classes decidadãos,
nobreza eplebeidade, burguesia eproletariado, sãoas catego-
rias eespecialidades defunção, Agricultura, Indústria, Comér-
cioetc.
Oquecolocamos nolugar dos exércitos permanentes, são
as companhias industriais.
Oque colocamos no lugar da polícia, éa identidade dos
interesses.
Oque colocamos no lugar da centralização política, éa
centralização econômica".
Poderíamos reproduzir muitos outros textos dessegênero,
quesão definiçõesdeprincípio, assaz precisas paraqueseacuse
osocialista ean-arquista Proudhon defalta deespírito constru-
tivodecaráter igualmente socialista ean-arquista. Seeleficou
nas linhas gerais, estas erambastante claras para prolongar,
desenvolvendo oscaminhos rumo aos quais sebuscava oenga-
jamento. Eoqueelenão fazia, pediaaoutros parafazê-lo. Neste
sentido, os dois projetos deSindicatos, que sepõemdeacordo
tambémcomaposição claramente inimiga daviolência revolu-
cionária que sempre foi a sua, são, teoricamente, exemplos de
aplicação das idéias proudhonianas.
BA KU N I N
Bakunin foi emparte discípulo de Proudhon - edos ou-
tros pensadores franceses que fundaram o socialismo desde
Babeuf, edoqual tevearevelação pelaleitura deumlivrosobre
o socialismo francês que lhe caiu nas mãos na Alemanha. De
passagem pela Suíça, conheceu Weitling, o fundador da "Liga
dos justos", partidário do comunismo. EmParis, foi o contato
comumgrande número derevolucionários, eoestudo deseus
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO L1BERTÁRIO 27
pensamentos. Todavia, sobretudo do ponto de vista político, da
negação do Estado, o autor de Oque é a Propriedade? foi quem
mais o influenciou.
Mas ele logo o ultrapassou. Proudhon baseia sua doutrina
da justiça num princípio moral de onde ele deduz concepções de
jurisprudência amiúde abstratas, difíceis de serem seguidas.
Suas análises econômicas críticas são muito fortes, mas Baku-
nin segue umoutro caminho. Elepossui uma vastíssima cultura
filosófica, conhecendo tanto os filósofos gregos quanto os Enci-
clopedistas franceses, e os alemães, particularmente Hegel.
Apaixona-se pelas ciências materialistas eexperimentais. Cen-
sura emProudhon sua excessiva inclinação àmetafísica. A dife-
rença de formação intelectual dos dois homens desempenha um
papel evidente.
Bakunin raciocina, constrói seu pensamento inspirando-se,
segundo a marcha do progresso e do desenvolvimento das des-
cobertas, tanto nas revelações da física, daastronomia, quanto na
química ena biologia. E seu pensamento abrange avida huma-
na na terra, como abrange o infinito do cosmos edo tempo.
E é comessa amplitude eesse dom de análise que ele luta
pela revolução social, que analisa seus fatores, que vêoque tan-
tos outros não vêem. E diz claramente que os insurretos de
junho de 1848 perderam abatalha porque eles tinham instinto,
mas não idéias claramente elaboradas, porque o socialismo era
rico emnegações que lhe davam mil vezes razão contra o privi-
légio, mas demasiado pobre em idéias concretas. E, sempre
dando o exemplo, Bakunin escreve para as sociedades secretas
que organiza, inspira programas nos quais precisa o princípio e
a prática do federalismo, define uma doutrina econômica e so-
cial, ocoletivismo, que ultrapassa do ponto devista socialista -
Bakunin geralmente se chamou socialista, socialista revolucio-
nário - eético o mutualismo proudhoniano. Torna-se o organi-
zador mais dinâmico da Primeira Internacional, cria na Europa
28 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
acorrente do socialismo antiestatista, e, inclusive, na Espanha,
na Itália, na Suíça, a corrente do socialismo, simplesmente, e
deixa, ao morrer, um pensamento cujas repercussões estendidas
até à Revolução espanhola, é sempre um farol do qual não se
deve ignorar a luz.
Assim como Proudhon, ele diz aos revolucionários, mesmo
àqueles que o atacam, que é preciso saber aonde se vai, e por
quais caminhos, se não se quiser fracassar de novo. E éemter-
mos eloqüentes que se dirige aos partidários da escola marxista:
"E essa idéia, qual éela? É aemancipação não apenas dos
trabalhadores de tal indústria ou tal país, mas de todas as
indústrias possíveis ede todos os países do mundo, éa eman-
cipação geral de todos esses no mundo, que, ganhando peno-
samente sua miserável existência cotidiana por um trabalho
produtivo qualquer, são economicamente explorados e politi-
camente oprimidos pelo capital, melhor dizendo, pelos proprie-
tários e pelos intermediários privilegiados do capital". Tal é a
força negativa, belicosa erevoluçionária da idéia. E a força po-
sitiva? É a fundação de um mundo social novo, assentado uni-
camente no trabalho emancipado, e criando-se por si mesmo,
sobre as ruínas do mundo antigo, pela organização e pela fe-
deração livre das associações operárias libertas do jugo, tanto
econômico quanto político, das classes privilegiadas.
Esses dois lados da mesma questão, um negativo eo outro
positivo, são inseparáveis. Ninguém pode querer destruir sem
ter ao menos uma idéia longínqua, verdadeira ou falsa, da
ordem das coisas que deveria, segundo ele, suceder àquela que
existe no presente; e quanto mais essa idéia está presente
nela, mais sua força destrutiva torna-se poderosa, e quanto
mais ela se aproxima da verdade, quer dizer, mais conforme
está ao desenvolvimento necessário do mundo social atual.
mais os efeitos de sua ação destrutiva tornam-se salutares e
úteis. Pois a ação destrutiva é sempre determinada, não ape-
nas em sua essência e no grau de sua intensidade, mas ainda
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO LlBERTÁRIO 29
em seus modos, em suas vias e nos meios que ela emprega,
pelo ideal positivo que constitui sua inspiração primeira, sua
alma:".
É verdade que Bakunin termina seu primeiro escrito conhe-
cido, um longuíssimo artigo intitulado A Reação na Alemanha»,
por essa frase muito freqüentemente citada, eque o próprio Ber-
diaeff, que visivelmente não a leu, considera como uma apolo-
gia do niilismo absoluto: ''Apaixão pela destruição éeminente-
mente construtiva". Mas esta frase, que corresponde aumestilo
de pensamento hegeliano (ea influência de Hegel aparece com
freqüência em Bakunin, que por sinal o interpreta à sua ma-
neira), não tem outro sentido senão este: "só queremos ardente-
mente destruir porque queremos ardentemente construir", ere-
pete apalavra deordem deProudhon: "Destruam et aedificabo".
Nem mais, nem menos.
Assim, desde 1863, emseu verdadeiro primeiro escrito teó-
rico, O Catecismo Revolucionário, Bakunin, que acompanhava
em toda a medida do possível a evolução das forças sociais e
dos elementos construtivos nelas presentes, escrevia:
'~s associações cooperativas operárias são um fato novo
na história; assistimos seu nascimento, e podemos apenas
pressentir, mas não determinar atualmente, o imenso desen-
volvimento que sem nenhuma dúvida elas assumirão, e as
novas condições políticas e sociais que delas surgirão no fu-
turo. É possível, e mesmo muito provável que, ultrapassando
um dia os limites das comunas, das províncias, e até mesmo
dos Estados atuais, elas dêem uma nova constituição à socie-
dade inteira, partilhada não mais em nações, mas emgrupos
industriais diferentes eorganizados segundo as necessidades
não da política, mas da produção".
* Texto emtradução. (N. do T.)
30 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
Essa antecipação de porvir mundial de uma sociedade so-
cializada é, no mesmo escrito, evocada não mais só em relação
às cooperativas que os pioneiros de Rochdale criaram sem maio-
res ambições do que aquelas que se circunscreviam à sua locali-
dade; resumindo outros desenvolvimentos, demasiado longos
para serem reproduzidos, ou mesmo condensados aqui, Baku-
nin, que começa a prever outras possibilidades organizadoras,
escreve:
"Quando as associações produtoras elivres':', cessando de
ser escravas etornando-se, por sua vez, senhoras eproprie-
tárias docapital quelhes será necessário, compreenderemem
seu seio, atítulo demembros cooperadores, aoladodas forças
operárias emancipadas pelainstrução geral", todas as inteli-
gências especiais exigidas por cada empresa; quando, com-
binando-se entre si, semprelivremente segundo suas necessi-
dades e sua natureza, elas formarem uma imensa federação
econômica comumparlamento esclarecido" pelos dados tão
amplos quanto possível edetalhados por umaestatística mun-
dial, tal comoainda não podeexistir hoje, eque, combinando
a oferta ea procura, poderá governar, determinar erepartir
entre diferentes países a produção da indústria mundial, de
sorte que não haverá mais, ou quase, crises comerciais ein-
dustriais, estagnação forçada, desastres, penas nemcapitais
perdidos, então, otrabalho humano, emancipação decadaum
edetodos, regenerará omundo".
Essa visão mundial, que se antecipou àquela dos mundia-
listas atuais, não impede Bakunin dedefender odireito das par-
tes que compõem o todo. Os dois fatos supõem-se reciproca-
mente. NaProposition motivée que ele apresenta no congresso
da Liga da Paz e da Liberdade, em 1867, declarava:
"Emprimeiro lugar, que todos os aderentes daLigadeve-
rão, por conseqüência, tender, por todos os seus esforços, a
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO LIBERTÁRIO 31
reconstituir suas pátrias respectivas, afimdenelas substituir
aantiga organização, fundada decimaparabaixonaviolência
eno princípio deautoridade, por uma nova organização, não
tendo por base senão os interesses, as necessidades eos atra-
tivos naturais das populações, nemoutros princípios senão a
livrefederaçãodos indivíduos nas comunas, das comunas nas
províncias, das províncias nas nações, eenfim, destas nos
Estados Unidos da Europa, deinício, emais tarde, no mundo
inteiro".
E, retomando incansavelmente aessa concepção política,
ele escreverá quatro anos mais tarde, noPréambule pour deu-
xiême livraison de "I'Bmpire Knouto-germanique",
'~futura organização social deveser feitaapenas debaixo
paracima, pelalivreassociação efederaçãodostrabalhadores,
nas associações, de início, depois nas comunas, nas regiões,
nas nações, efinalmente numa grande federação universal. É
só então que serealizará averdadeira evivificante ordemda
liberdade edafelicidadegeral, essa ordemque, longederene-
gar, afirma, ao contrário, epõeemconcordância os interesses
dos indivíduos edasociedade".
Mas emseu segundo documento teõríco", onde encontra-
mos, comalgumas variantes, oconjunto das teses doCatecismo
Revolucionário - do ponto devista federalista, íntemaciona-
lista, pedagógico, direitos da criança eda mulher etc., todas
coisas eminentemente construtivas - Bakunin tinha anterior-
mente insistido no mesmo tema- esobreas outras, cujopro-
blema daliberdade, quesó podiaser oresultado dodesapareci-
mento da exploração do homem pelo homem, e que se apre-
sentava, para aescola socialista libertária, comcaracterísticas
muito mais complexas - dentre as quais aquestão do federa-
lismo edo centralismo. Todavia, não éinútil lembrar que, na
r
32 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
enumeração das condições exigidas para a admissão do can-
didato à Fraternidade Internacional, é mencionado que este
deverá lutar "com todas as suas forças para o triunfo de uma
organização social na qual todo indivíduo, chegando à vida,
homem ou mulher, encontre meios iguais de sustento, educação
e instrução em sua infância eem sua adolescência, eque mais
tarde, tendo chegado à maioridade, encontre facilidades exte-
riores, isto é, políticas, econômicas e sociais iguais para criar
seu próprio bem-estar aplicando ao trabalho as diferentes forças
ecapacidades cuja natureza o terá dotado, eque uma instrução
igual para todos terá nele desenvolvido".
Falta-nos espaço para reproduzir todos os textos em que
Bakunin repete incansavelmente o enunciado desses objetivos.
Citemos, para terminar, o programa daAliança da Democracia
Socialista, por ele fundada em 1868, quando, coma minoria de
oposição, retirou-se da Liga da Paz e da Liberdade. Esse pro-
grama, que assinavam homens como Ferdinand Buisson, Élisée
e Paul Reclus, Benoit Malon, [ules Guesde, afirmava que
"a terra, os instrumentos de trabalho, como qualquer outro
capital, tornando-se a propriedade coletiva de toda a socie-
dade, sópossamser utilizados pelostrabalhadores, quer dizer,
pelas associações agrícolas eindustriais".
Nós ressaltamos deliberadamente essa última frase do ar-
tigo 2, eque completa essa outra, do artigo 5, onde se coloca a
questão da supressão dos Estados políticos que deverão "desa-
parecer na união universal das livres associações tanto agrí-
colas quanto industriais".
Bakunin aderiu àInternacional, que éconstituída, demodo
predominante, por associações operárias. E sempre levado por
seu gênio criador, ele entrevê as possibilidades que oferecem as
"uniões de ofícios", como se dizia então, ao se falar dos síndí-
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO LIBERTÁRIO 33
catos operários. Ele aprofunda, analisa, constrói. Em estudos
como La Politioue de I'tncernattonalisme, desenvolve uma série
de idéias das quaís, em 1906, a Carta de Amiens será apenas
uma pálida repetição. Elevê nas associações operárias o funda-
mento, o instrumento de realização do socialismo. Mas não se
contenta em expor essa visão de futuro. Dá conselhos sobre a
necessária cultura operária. Pois, o que quer se tenha dito, é o
menos demagogo dos teóricos edos guias. E ele preconiza, em
1869, 1870, 1871, a constituição deJederações internacionais
de oficios, vendo - é o único a dízê-lo - na Internacional o
principal instrumento construtor da Europa socialista. Infeliz-
mente, a Primeira Internacional foi levada ao reformismo edis-
solvida alguns anos mais tarde porque, diz-nos Engels, "ela
havia cumprido sua missão histórica".
r
KR O PO T KI N
Proudhon foi o teórico do mutualismo que, em seus come-
ços, implicava aposse dos meios de produção pelos produtores,
e, se não o observássemos de perto, podia assimilar-se a uma
concepção da propriedade individual sob forma de artesanato
generalizado. Bakunin, por seu coletivismo, preconizava a pro-
priedade coletiva dos meios de produção, tanto na indústria
quanto na agricultura 14. Kropotkin, que aparecerá imediata-
mente depois dele, tornar-se-á o teórico eo sociólogo mais emi-
nente do comunismo-anarquista, evidentemente".
O problema da elaboração de idéias construtivas, da ne-
cessidade deconcepções realizadoras também se coloca para ele
desde os primeiros momentos. Estará sempre presente em seu
pensamento. E, desde 4dejaneiro de 1882, no jornalLe Revolte,
que ele fundou, e que é o único a circular em língua francesa
pela incapacidade dos anarquistas desse país, escreve umartigo
34 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
intitulado Théorie et Pratique no qual se junta a Bakunin e
Proudhon quanto àexperiência das revoluções passadas. A bur-
guesia de 1848 ede 1871 sabia o que queria:
"Mas o povo nada sabia. Naquestão política, elerepetia
seguindoaburguesia: República e sufrdgio universal, em1848;
emmarçode1871, diziacomapequenaburguesia: A Comuna!
Mas nem em 1848, nem em 1871ele tinha qualquer idéia
precisadoqueeranecessário empreender pararesolver aques-
tão do pão e do trabalho. A organização do trabalho, essa
palavradeordemde1848(fantasma ressuscitado ultimamente
sobuma outra formapelos coletivistas alemães) 16 eraumter-
mo tão vago que nada dizia; assim como o coletivismo, tão
vago quanto aInternacional de1869naFrança. Se, emmarço
de 1871, se se tivesse questionado todos aqueles que traba-
lharam para a realização da Comunasobreo que havia para
resolver aquestão do pão edotrabalho, queterrível cacofonia
derespostas contraditórias seteria ouvido!".
Kropotkin voltou aesse assunto emtermos tão claros, oito
anos mais tarde, eno mesmo jornal. Voltou de novo, de passa-
gem, mas cominsistência, emquase todos os seus livros. E éem
seu belo estudo sobre a Revolução Francesa que ele escreve,
depois de ter descrito as aspirações igualitárias que exprimiam
os precursores do socialismo, Mably, Morelli, o vigário jacques
Roux eoutros:
"Infelizmenteessas aspirações comunistas não assumiam
umaformaclara, concreta, entreospensadores quequeriamo
bemdo povo. Enquanto na burguesia instruída as idéias de
liberação setraduziam por todoumprograma deorganização
política eeconômica, ao povo só seapresentava, sobaforma
devagas aspirações, as idéias deliberação e reorganização
econômica. Aqueles que falavamao povonão buscavam defi-
nir aformaconcreta sobaqual essedesiderato ouessas nega-
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO LIBERTÁRlO 35
ções podiam manifestar-se. Acreditar-se-ia, inclusive, que eles
evitavam precisar. Voluntariamente ou não, eles pareciam di-
zer: "Para que falar ao povo sobre a maneira como ele se orga-
nizará mais tarde? Isso esfriaria sua energia revolucionária.
Que ele tenha tão-somente a força do ataque para marchar ao
assalto das velhas instituições. Mais tarde, veremos como
resolver isso". Quantos socialistas e anarquistas ainda proce-
demda mesma maneira! Impacientes para acelerar o dia da
revolta, tratam de teorias adormecedoras todas as tentativas
de lançar alguma luz sobre o que a revolução deverá buscar
introduzir" .
Para trazer um pouco de luz a essas questões, Kropotkin,
após seu pr,imeiro livro de demolição social, Palavras de um
Revoltado *, escreveu um livro de caráter reconstrutivo, sob o
título sugestivo deA Conquista do Pão. A simples enumeração
dos capítulos sucessivos dá uma idéia do que nele era tratado:
Nossas riquezas; A abastança para todos; O comunismo anar-
quista; A expropriação; Osgêneros alimentícios; A moradia; O
vestuário; As vias e os meios; As necessidades de luxo; O traba-
lho agradável; O livre acordo; Osalariado coletivista, Consumo
e produção; A descentralizaçâo das indústrias; A agricultura.
Este livro, que foi como abíblia do anarquismo comunista
durante meio-século, e traduzido em quinze ou vinte línguas,
não estava isento de insuficiências, precisamente quanto à
questão das vias e dos meios. No que concerne a esse assunto,
Kropotkin estava aquém do construtivismo bakuniniano, e pe-
cava por umenorme otimismo quanto àcapacidade de inovação
eimprovisação dos "homens edas mulheres de boa vontade" e
Sobre o acesso universal a um grau de consciência que permi-
tiria o livre consumo sob forma de "livre retirada". A maioria
* Obratraduzida eemrevisão, comlançamento previsto para o 1Q semestre
de2003. (N. do T.)
36 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
dos anar9uistas aderiu a essas soluções de facilidade, mas,
como veremos, alguns reagiram eesforçaram-se, atitude lógica
e sensata em semelhante caso, para completar esse aporte de
princípios gerais que, malgrado lacunas, constituía uma impor-
tante contribuição para a procura de soluções construtivas, e
para a definição de princípios revolucionários.
Kropotkin escreveu mais tarde um outro livro intitulado
Campos, Fábricas e oficinas no qual, combase em documenta-
ção um pouco sistemática, desenvolvia a teoria da integração
regional, segundo uma concepção humanista da economia.
JA M E S G U I LLA U M E
Umintelectual de menor envergadura, mas de imaginação
mais positiva, tinha, no mesmo ano da morte de Bakunin, edi-
tado uma brochura muito densa tendo a substância deum livro,
na qual abordava os problemas práticos da revolução. [ames
Guillaume, que foi omelhor colaborador de Bakunin, epor sinal
expulso comele da Primeira Internacional pelo congresso dessa
organização, celebrado em Haia, em 1872, graças a uma cons-
piração eficazmente montada por Marx, era, na Suíça, professor
de História aos 23 anos. Escreveu posteriormente (depois de ter
perdido seu cargo oficial) outros livros sobre a história das
revoluções, e, instalado na França onde foi colaborador deFerdí-
nand Buisson em sua obra de reforma pedagógica, seu livro
monumental I'Intemational, documents et souvenírs, fonte
inesgotável desse importante capítulo dahistória social européia.
A brochura da qual é agora objeto intitula-se Idées sur
l'organisation sociale. Não se trata tanto de formular aqui as
grandes linhas, mas os detalhes da organização da sociedade
socialista. O problema é, para ele, imaginar a prática da socie-
dade socialista.
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO LIBERTÁRIO 37
No que concerne à agricultura, ele demonstra um pragrna-
tismo ditado pelo conhecimento epelo senso comum. A organi-
zação comunitária, pelas novas máquinas emétodos deagricul-
tura, será generalizada tanto quanto possível; tanto quanto
possível, pois as questões de tipo de produção, configuração do
solo, preferências humanas poderão se apresentar, e será pre-
ciso levar em consideração isso. Mas também será necessário
esforçar-se para superar a propriedade industrial.
As previsões que decorrem daí permitem antecipar que:
'Agerêncía dacomunidade, eleitapor todososassociados,
poderá ser confiada seja aumúnico indivíduo". seja a uma
comissão devários membros; seráatémesmopossível separar
as diversas funções administrativas eentregar cadaumadelas
a uma comissão especial. A duração do trabalho será fixada
não por uma lei aplicada a todo o país, mas pela própria co-
munidade; todavia, como a comunidade estará emrelações
comtodos ostrabalhadores agrícolas daregião, deve-seadmi-
tir comoprovável queumacordo sejaefetuado entre todos os
trabalhadores para aadoçãodeuma baseuniforme sobreesse
ponto. Os produtos do trabalho pertencem à comunidade, e
cadaassociado recebedela, sejaemnatura (víveres, vestuário
etc), seja emmoeda detroca, aremuneração do trabalho por
elerealizado. Emalgumas associações, essa remuneração será
proporcional à duração do trabalho; emoutras, ela será em
razão simultaneamente daduração dotrabalho edanatureza
das funções desempenhadas; outros sistemas ainda poderão
ser tentados epraticados... Todavia, pensamos queoprincípio
do qual sedevebuscar amaior aproximação possível éo se-
guinte: De cada um segundo suasforças, a cada um segundo
seus meiosv",
Para os trabalhos da indústria, [ames Guillaume separa os
trabalhadores que poderão continuar na base do trabalho índi-
38 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
vidual (alfaiates, sapateiros etc.j daqueles que concernem às
grandes indústrias. Para estes -últimos, escreve:
"cada oficina, cada fábrica formará uma associação
detrabalhadores que permanecerá livre para administrar-
se do modo que lhe aprouver, desde que os direitos de
cada um sejam salvaguardados, e que os princípios de
igualdade edejustiça sejam postos em prática".
Entretanto, não se trata deorganizar cada empresa àparte,
voltada para ela mesma, guiada unicamente por seus interesses!
"Quando, por exemplo, no diadaRevolução, os operários
tipógrafos dacidadedeRomativeremtomado possedetodas
as tipografias da cidade, eles deverão imediatamente reunir-
se emassembléia geral para ali declarar que o conjunto das
tipografias deRomaconstitui apropriedade comumdetodos
os tipógrafos romanos. Depois, tão logoacoisasejapossível,
eles deverão dar mais umpasso, esolidarizar-se comos tipó-
grafos das outras cidades daItália. Oresultado dessepacto de
solidariedade seráaconstituição detodososestabelecimentos
tipográficos daItália como propriedade coletivadaFederação
dos tipógrafos italianos".
Temos aí uma antecipação do sindicalismo. Para [ames
Guillaume, a comuna é a federação local dos grupos de produ-
tores. Essa federação local, ou comuna, ocupar-se-à dos servi-
ços que compreendem os trabalhos públicos, as trocas por inter-
médio de um "balcão de troca", afabricação, e a distribuição
dos produtos alimentares, os serviços de estatísticas, higiene,
segurança, educação e assistência.
Oautor estende-se sobre as modalidades de organização e
funcionamento de cada um desses serviços, eaborda, como es-
pecialista que era, as novas normas pedagógicas, questão que,
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO LIBERTÁRIO 39
com Bakunin e Paul Robin - Ferdinand Buisson também se
ocupava disso, sem nenhuma dúvida -, havia sido aventada
no seio das seções federalistas suíças da Primeira Internacional.
Depois aparece a visão de conjunto, com as federações
corporativas que se confederarão:
"Umavezquetodososramosdaprodução, inclusiveaquela
da produção agrícola, tiveremse organizado dessa maneira,
uma imensa redefederativa, abrangendo todos osprodutores,
e, por conseqüência, igualmente todos os consumidores, co-
brirá todo o país, ea estatística da produção edo consumo,
centralizada pelosescritórios das diversas federações corpora-
tivas, permitirá determinar demaneira racional o número de
horas da jornada normal de trabalho, o preço de custo dos
produtos eseuvalor detroca, bemcomoaquantidade emque
esses produtos devemser criados para suprir as necessidades
doconsumo".
A Federação das comunas deverá constituir-se não apenas
em escala nacional, mas internacional eeuropéia:
'~s antigas fronteiras dos países tendo sido apagadas,
todas as Federações de Comunas, pouco a pouco, entrarão
nessa fraternal aliança".
Resumimos, bemimperfeitamente, essa brochura tão subs-
tancial, da qual certos pontos podem prestar-se à discussão (e
james Guillaume oadmitia), mas que, ainda hoje, poderia inspi-
rar muitos revolucionários.
o A N A R QU I S M O E S PA N HO L
Naessência, éno pensamento deBakunin quejames Guillau-
me inspirava-se, eédesse pensamento que ele seesforçava para
40 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
prever a aplicação. Omesmo podemos dizer dos esforços cons-
trutivos do anarquismo espanhol.
A Espanha não deu sociólogos economistas como Prou-
dhon eKropotkin, ou construtores da envergadura de Bakunin.
Por outro lado, o mais talentoso de seus teóricos anarquistas,
Ricardo Mella, permaneceu proudhoniano, defendendo a pro-
priedade individual generalizada dos meios de produção, e, em
seguida, um coletivismo anarquista que nada tinha a ver com
aquele de Bakunin cujas amplas concepções ultrapassavam o
princípio "a cada um segundo suas obras", porquanto, como
vimos, ele proclamava odireito "para todo ser humano chegado
àvida" àigualdade dos meios de existência, de instrução, ede
todos os bens que a sociedade podia fornecer. Mesmos direitos
para a mulher, para os velhos, para todos aqueles que não po-
dem ser produtores. Não estávamos distantes do princípio co-
munista "a cada um segundo suas necessidades, de cada um
segundo suas forças", eapós uma célebre polêmica comAnsel-
mo Lorenzo, Mella reconheceu apertinência desse princípio.
Mas desde 1870, data de seu nascimento, o movimento
sindical, obra dos anarquistas, decidia constituir-se organica-
mente em seções de ofícios, em federações nacionais de seções
de ofícios, em federações locais interprofissionais, em federa-
ções regionais, otodo articulado comvistas à transformação da
sociedade": A partir dessa data, nesse mesmo congresso, ele se
pronunciava a favor da "cooperação de consumo" e, como com-
plemento, de "cooperativas de socorro mutualistas ede instru-
ção pública".
Isso quer dizer que, desde essa data, os anarquistas espa-
nhóis superam, e de muito, os objetivos, as vias e os meios da
Carta deAmiens adotada na França trinta eseis anos depois. E
éno espírito coletivo dos militantes amiúde anônimos, obscuros,
mas sempre ativos e criadores que nasce e desenvolve-se esse
senso construtivo que se afirmou, por meio de tantas lutas,
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO LIBERTÁRIO 41
vicissitudes, vitórias ederrotas, das quais vimos os resultados
durante a revolução de 1936~39. É particularmente em sua ati-
vidade sindical que o movimento anarquista, que foi sempre
anarquista, e nunca sindicalista no sentido em que se entende
comumente, aprendeu a coordenar os esforços e as forças, a
praticar a solidariedade, a pôr, acima dos regionalismos polí-
ticos, a solidariedade operária. É uma das razões pelas quais a
organização geral denominou-se, e denomina-se ainda, Confe-
deração Nacional do Trabalho (sigla: C.N.T.),oque implicava um
sentimento e uma prática da unidade de ação absolutamente
contrários às divisões mais ou menos históricas, geográficas ou
étnicas exploradas pelos partidos.
Esse espírito construtivo de fundo, que também aparecia
nas magníficas resoluções dos congressos, teve seus intérpre-
tes ocasionais entre certos escritores, a começar por Ricardo
Mella que, numa forte brochura El Ideal Anarquista, escrevia:
"Quando toda a riqueza social estiver colocada à dispo-
sição de todos para produzir, trocar e consumir, a necessidade
de um entendimento geral irnpor-se-á pela lei natural. Os pro-
dutores se agruparão emassociações diversas, umas ocupan-
do-se da produção dos alimentos, as outras da produção do
vestuário, outras ainda da construção de moradias. Por sua
vez, as associações se agruparão, constituindo grupamentos
de associações, eassim, graças a essa organização seriada das
partes, constituír-se-á uma grande federação de sociedades
autônomas que, abrangendo numa ampla síntese a imensa
- variedade da vida social, reunirá todos os homens sob a ban-
deira de uma felicidade real e positiva".
Emsíntese, as grandes linhas positivas estão sempre pre-
sentes, e encontramos aqui mais substância do que num livro
como La Société Future dejean Grave, tão pobre de imaginação.
Também encontramos uma exposição, breve, mas que con-
42 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
firma a orientação dessa visão de conjunto que caracterizava os
anarquistas da Espanha. Ela foi extraída de uma brochura inti-
tulada Uma Polêmica. Essa polêmica ocorreu por volta de 1900,
entre umsetior Marsillach do qual ignoramos tudo, eJ osé Prat,
por sinal, amigo de Mella, e que foi um dos valores do movi-
mento ao final do século XIX, e até em 1936. Quanto àprática
das idéias, J osé Prat escrevia:
"Eoproletariado esforça-separarealizar: deiníciocomba-
tendo, comseus sindicatos deofícios, os interesses declasse
queseerguemcontraoprogresso social; emseguida, estabele-
cendo as bases da nova sociedade por meiodacooperação. É
verdade que a cooperação, hoje encarnada nas cooperativas
operárias, não é, muito pelocontrário, anovasociedade, mas
elaéseugerme, malgrado todas as suas deficiências que são
o fruto do meio social. Ela não resolve o problema emseu
conjunto, elanão produz aharmonia dosinteresses, não asse-
gura obem-estar, nempodealcançá-lo, porqueosigno mone-
tário, aconcorrência, apropriedade etc., transformam-na nu-
masociedadecomercial somando-se às outras, aaburguesa e
a faz sefechar diante da idéia coletiva desocialização total.
Mas abase cooperativa sobreaqual repousará a nova socie-
dadejáfoi inventada, oimpulso àlivrecooperaçãofoi dado, e
inaugura omodelo sobreo modo segundo oqual poderá fun-
cionar anovasociedade.
Ascooperativas operárias não podemlutar contra aunião
dos capitais burgueses. Pelo fato de ser uma sociedade de
capitais operários, cujos lucros não podemestender-se senão
aseus membros, as cooperativas limitamaprática dasolida-
riedade. Mas o·trabalhador forma-se ali, aprende a adminis-
trar, afazer funcionar aproduçãoeadistribuição dosprodutos
semnecessidade detutores nemdeclasses diretoras.
Suponhamos por ummomento que arevolução suprimiu
a propriedade privada, e seu defensor, a autoridade; que os
meios deprodução edetransporte estejamnas mãos dos tra-
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO L1BERTÁRIO 43
balhadores, estendam-essa cooperação daprodução edocon-
sumo pelosofíciosfederados nas localidades, nas regiões, nas
nações, emtoda ahumanidade; suponhamos que, ao mesmo
tempo, sejamestabelecídas as estatísticas necessárias para
que a todo o momento eemtodos os.lugares se possa saber
exatamente emquelugares osprodutos eas necessidades são
mais numerosos=, demodoadistribuir os primeiros segundo
ademanda, pois bem, eledisporá comautoridade das linhas
gerais do plano dasociedade futura, repousando sobreas ba-
sesnaturais: oapoiomútuo, acooperaçãoparatodos osaspec-
tos davida, embenefício detoda aespéciehumana".
Tal era oestado de espírito dominante dos anarquistas es-
panhóís".
CO R N E LI S S E N
Christian Cornelissen, deorigem holandesa, foi, desde Prou-
dhon, o único economista de categoria internacional do anar-
quismo comunista. Sua obra maior éum Tratado deEconomia
Política, demasiado denso evolumoso para ser lido pelos traba-
lhadores. Mas ele publicou em 1900 umlivro intituladoA cami-
nho da nova sociedade, com o objetivo de reforçar as bases
teóricas do comunismo libertário, e precisar os meios para al-
cançá-lo. Extraímos algumas passagens características desse
livro, há muito tempo desaparecido de circulação:
"Deveparecer-nos natural - abstração feita daexecução
dos detalhes - que os campos sejamcultivados segundo o
-modo escolhido emcada comuna pela população adulta. Do
mesmo modo, énatural que a colheita sejaarmazenada não
nos trezentos celeiros dos quais nos falou Fourier, mas num
único celeiro comum, ou ao menos numnúmero restrito de
armazéns deprovisões.
44 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
oque caracteriza a propriedade deuma coisa éodireito
de dela poder dispor, o pleno poder, reconhecido como um
"direito" pelaprópria sociedade, não apenas deservir-se asi
mesmo dessa coisa segundo lheaprouver, mas igualmente de
aliená-Ia.
Quando, nasociedade comunista>, os campos comuns ti-
veremsido cultivados da maneira que os habitantes adultos
das comunas tiveremdecidido, só poderia tratar-se do direito
reconhecido pela direção do trabalho no interior das respec-
tivas comunas.
Entretanto, essas comunas não seriam "proprietárias"
desses campos no sentido emqueapalavra "propriedade co-
munal" écompreendida emnossa sociedadeburguesa.
Osmandatários dos habitantes não poderiam alienar os
domínios das respectivas comunas. Issojáéaconseqüênciado
que sedenomina sociedade comunista. Mas os habitantes de
uma comuna poderão pôr-se deacordo comaqueles de uma
outra sobamelhor forma decultura decertas parcelas, soba
armazenagem, otransporte etc., dos produtos colhidos, e, em
geral, emrelação atudo oque concerneà organização do tra-
balho necessário.
Damesma forma, os operários deuma mina, deuma fá-
brica ou deuma oficina coletiva, bemcomo aqueles que tra-
balham nos estabelecimentos deuma ferrovia, ou deuma li-
nhadebarcosavapor,decidirãoseguramente, segundoaordem
comunista dasociedade, sobretudooqueconcerneàexecução
deseu próprio trabalho, sendo tambémautônomos no âmbito
desua própria atívidade.
Odireito depropriedade lhes faltará, contudo, no sentido
emque eles não poderão ter a liberdade dealienar, aniquilar
oumesmo deteriorar emseus estabelecimentos respectivos os
edifícios ou as máquinas, os materiais ou os instrumentos
confiados aos seus cuidados. Elesnão teriamoquesechama
no direito romano:jus utendi et abutendi.
[...] Suponhamos, para escolher umexemplo num certo
ramo de indústria, que as vidraçarias de umpaís qualquer
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO LIBERTÁRIO 45
sejamverdadeiramente socializadas; isso terápor conseqüên-
cia que os operários organizados detodas as vidraçarias do
país fixarão por umcertoperíodo aquantidade devidraçarias
dediferentes tipos que, deacordo como consumo dos anos
precedentes, será demandada para uso dopróprio país ouex-
portada ao estrangeiro. Essa quantidade deverá ser repartida
proporcionalmente entre asvidraçarias nas diferentes regiões
do país segundo aforçaprodutiva decada umdesses estabe-
lecimentos.
Seas vidraçarias existentes não bastassem para a pro-
dução desejada, os operários organizados das vidraçarias
desse país deveriam, para fundar novas fábricas nesse novo
ramodeindústria, entrar emrelação comosoperários dacons-
trução civil. A quantidade deproduto afornecer, por cadavi-
draçaria do país, uma vez fixada, seria ao pessoal de cada
estabelecimento que caberia toda aorganização do trabalho,
desde que tomasse cuidado para que a quantidade fixada de
vidraçaria fosse realmente entregue equefosse da qualidade
solicitada. Assim, caberia aos próprios operários regular a
duração eadivisão dotrabalho. Tomadaemdetalhe, essa pro-
dução será dirigida pela própria natureza do trabalho, modi-
ficadasegundo as condições locais eventuais".
A U T O R E S DI VE R S O S
Sébastien Faureescreveu umlivrointitulado Mon Commu-
nisme, por volta dos anos 1920, como uma conseqüência da
polêmicanascida daoposição entreaescolaautoritária, bolche-
vique, e a escola libertária que previa seus desvios. Elequis
mostrar a concepção eo funcionamento deuma sociedade co-
munista anarquista, imaginando umaverdadeira utopia, istoé,
uma criação puramente imaginária, que mostrava por quais
meiosegraças aquais etapas as dificuldades criadas pelarevo-
lução epelo "período detransição" tinham sido vencidas.
46 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
Na verdade, faltava-lhe, antes de tudo, possuir conheci-
mentos emeconomia, e, emseguida, ter osenso prático da orga-
nização do trabalho e dos trabalhadores. E se pode, e se pôde
censurar-lhe por resolver teoricamente muitas dificuldades. Mas
nos parece útil citá-Io, como uma nova prova da concepção, ou
do espírito construtivo permanente do socialismo. Pois sébas-
tien Faure era por natureza racional, E a parte construtiva que
nos parece a mais interessante de seu livro éaquela emque ele
faz um de seus personagens descrever o mecanismo federalista
da organização da produção e do consumo.
Nabase, eseguindo uma elaboração demasiado esquema-
tizada, encontramos o indivíduo; depois vem a comuna, reunião
de indivíduos; o conjunto das necessidades desses indivíduos
fornece totais que são transmitidos àorganização comunal pro-
vincial; todas as províncias do país fazem o mesmo, de modo
que se conhece a importância das necessidades nacionais ao
mesmo tempo em que se leva em consideração as necessidades
de cada indivíduo.
Chegados ao cume da organização nacional, os números,
exprimindo essas necessidades, determinam um movimento
inverso, o da produção: da nação à província ou às províncias,
das províncias às comunas, segundo suas possibilidades de
produção, depois das comunas aos indivíduos. Devemos obser-
var que Sébastien Faure não dá aos sindicatos de produtores o
papel que vimos emtantos outros teóricos. Kropotkin, de resto,
também não o dava. Acantona-se numa concepção abstrata que
contém certos princípios de uma pureza indiscutível, cuja apli-
cação não têm nada a ver com as dificuldades da vida. E os
anarquistas franceses não se preocuparam em completar essa
visão. Todavia, uma vez mais, avisão realizadora existia, e, in-
clusive, implicava uma homogeneidade que era preferível à au-
sência completa não apenas de concepções positivas aplicáveis,
como também de espírito construtivo.
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO LIBERTÁRIO 47
É-nos impossível, o tempo e o espaço nos faltam, citar
todos os teóricos do socialismo libertá rio que se pronunciaram
sobre essas questões. Ao acaso de nossas lembranças, recorda-
mos, no que se refere à Itália, de Errico MaIatesta que, sobre-
tudo na última parte de sua vida, pedia a seus camaradas a
elaboração de um programa construtivo, eque, quando ele tra-
tava, de passagem, dos problemas da revolução, exprimia seu
desejo de ver os ferroviários fazerem funcionar os trens, e os
camponeses apoderar-se da terra e trabalhá-Ia embenefício de
todos. Pietro Gori, o grande advogado, e sem dúvida o melhor
orador do anarquismo internacional, previa, semadiantar deta-
lhes técnicos, a organização de grupamentos federados de pro-
dutores, e Luigi Fabbri, discípulo de Malatesta, entrevia uma
atividade criadora baseada não apenas nos sindicatos, mas
também nas cooperativas, nas comunas, e nos autênticos so-
vieres". A esses nomes, acrescentemos o de Pierre Ramus (Ru-
dolf Grossmann) que foi, na Áustria, a figura mais eminente do
anarquismo, e escreveu um livro intitulado Reconstruction de
Ia société par te communisme anarchiste. Faz muito tempo que
li o primeiro tomo deste livro, traduzido do espanhol, para que
possamos dele citar ou mesmo resumir as grandes linhas. Que
nos seja suficiente constatar uma vez mais ocaráter construtivo
permanente do socialismo.
Seria preciso ainda citar DomeIa Nieuvenhuis, o apóstolo
holandês Rudolf Rocker, que foi, após a morte de Kropotkin, o
maior valor intelectual do anarquismo internacional. Ele havia
sido um dos fundadores mais ativos da Frei Arbeiter Union
Deutschland, organização sindical de caráter libertá rio da qual
escreveu os estatutos, em que era declarado que em caso de
revolução, os sindicatos operários esuas federações locais assu-
miriam a organização da produção e da distribuição. O movi-
mento desapareceu como triunfo do hitlerismo.
48 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
Foi após a Primeira Guerra Mundial que se constituiu a
corrente anarco-sindicalista. Uns a fazem surgir na Rússia, ou-
tros na Alemanha. Houve, como figuras de proa na Alemanha,
homens como o próprio Rocker, Souchy, Fritz Kater; na Rússia,
Volin e A lexandre S hapiro que, para acentuar o caráter cons-
trutivo das atividades libertárias, davam às atividades sindicais
a prioridade das prioridades".
PI E R R E BE S N A R D
Essa corrente encontrou seu principal teórico na pessoa do
militante francês Pierre Besnard, que se inspirou em Bakunin,
Proudhon, [ames Guillaume, Kropotkin e outros pensadores
libertá rios - a corrente sindicalista não tendo dado pensadores
esociólogos, exceção feita a Pelloutier que, malgrado seu valor,
não aportava o tipo de substância necessária à tarefa que im-
punha o período entre guerras.
Besnard, que se esforçou com seus camaradas para fundar
um movimento sindicalista revolucionário-libertário. sem que
conseguisse lograr êxito, deixou-nos dois livros: Os Sindicatos
Operários e a Revolução sociat: e ONovo Mundo. É impossivel
resumir esses dois livros, ou deles dar, por algumas citações,
uma impressão satisfatória. Alguns viram, na abundância, tal-
vez excessiva, detalhes concernentes à organização geral sindi-
cal, industrial, comunalista eagrária, seu funcionamento esuas
inúmeras engrenagens, uma precisão meticulosa de chefe de
estação ferroviária, profissão exercida por Besnard. Temos às
* Estaobra foi dividida emdois volumes que seriam editados pela Editora
Novos Tempos, sediada emBrasília emmeados dos anos 80. Sóoprimeiro
volume foi publicado, em 1985. (N. do T.)
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO LIBERTÁRIO 49
vezes essa impressão. Mas não podemos negar que esse mili-
tante dotado de um espírito criador, de uma grande experiência
e de um dom de observação pouco comuns, trouxe à corrente
sindicalista revolucionária e libertária uma contribuição sem
igual, e previsões, cujas realizações industriais da Revolução
espanhola bem amiúde mostraram sua pertinência.
Besnard se baseia, de início, nos princípios filosóficos dos
teóricos do anarquismo social: apartir do indivíduo para chegar
à organização internacional de uma nova sociedade. De um
lado, ele vai do produtor: da oficina eda fábrica, depois do sin-
dicato de indústria à federação industrial regional, nacional e
internacional. Por outro lado, prevê a organização local, depois
regional, nacional e internacional, interíndustrial". Paralela-
mente, atribui às comunas, igualmente federadas emescala lo-
cal, regional, nacional einternacional, as funções que não dizem
respeito à produção: trabalhos públicos, habitações, estatísticas
sociais, distribuição, educação elazer, assistência social, higiene,
saúde pública, vias ecomunicações. Tudo isso éajustado emes-
cala local, regional, nacional einternacional, segundo as dimen-
sões de cada problema ou atividade.
Ofícios sindicais estão previstos, nomeados pelos congres-
sos dos sindicatos, e responsáveis perante eles: ofício das ma-
térias-primas, ofício da estatística, ofício das trocas deprodutos
e mercadorias, ofício das invenções, ofício da mão-de-obra.
Tudo isso emescala das uniões regionais, eda organização na-
cional, tão necessária. Omesmo na agricultura. Vemos aparecer
o ofício da pecuária, o ofício dos adubos e dos instrumentos, o
ofício da irrigação eda eletricidade, oofício da estatística, oofí-
cioda mão-de-obra, oofício da cultura. Otodo funcionando sem-
pre segundo as necessidades, emnível local, regional, nacional
e internacional.
Prático tanto quanto teórico, Besnard explica o funciona-
mento dos comitês de oficina, dos conselhos de fábrica, das
50 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
seções técnicas. Convém "dotar cada oficina de um birô de pes-
quisa, de um laboratório de testes para estudar as invenções e
buscar os meios práticos para aplicá-Ias. Esse birô eesse labo-
ratório deverão estar a par dos progressos técnicos realizados
alhures, no conjunto de sua indústria, ecomunicar seus traba-
lhos aseus sindicatos, aos organismos encarregados deconcen-
trar as informações e vulgarizá-Ias pelos melhores meios: jor-
nais, revistas, quadros murais, conferências etc.".
É verdade, os detalhes são, talvez, demasiado numerosos.
Mas talvez que nessa ordem de coisas "abundância debens não
incomoda", e mais vale um excesso de idéias, indicações, pre-
visões - essencialmente fundadas eexatas emseu conjunto -
do que sua ausência total, que geralmente caracterizou os crí-
ticos de cabeça vazia. E uma vez mais, se julgarmos a escola
socialista libertária segundo seus teóricos, pensadores e soció-
logos, como julgamos as outras escolas, não podemos honesta-
mente acusá-Ia de ausência de pensamentos construtivos.
N O VO A PO R T E E S PA N HO L
Essa afirmação, baseada numa documentação indiscutí-
vel, é reforçada pelo que denominamos "o novo aporte espa-
nhol" dos anos 1931-1936. Esse aporte foi inaugurado pelo
autor destas linhas que sempre esteve preocupado com os pro-
blemas construtivos da revolução social, mas que, tendo vivido,
sempre também, emcondições extremamente difíceis, não pôde
empreender o estudo desses problemas na base de um conhe-
cimento sério da economia espanhola.
Quando, em 1931, foi proclamada a república, ele residia
na República Argentina. Sempre ardorosamente centrado na
Espanha, onde havia anteriormente militado durante dez anos,
pelos fatores políticos, econômicos esociais emoposição, chega
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO L1BERTÁRIO
5.1
r
muito rápido àconclusão deque essa república não seria viável,
e terminaria ou pelo triunfo do fascismo, ou pela vitória da
revolução social. Prevendo esta última hipótese, ele quis, de
antemão, contribuir para o sucesso de seus camaradas. As con-
dições de sua existência sendo então mais favoráveis, pôs-se a
estudar - enfim! - a economia espanhola. Ele pensava, de
início, escrever uma cínqüentena de páginas. Escreveu 250.
Ométodo que ele empregou, dizia Luigi Fabbri num prefá-
cio, "completamente novo na literatura anarquista internacio-
nal". Emvez de produzir uma utopia", fez um estudo dos Pro-
blemas econômicos da Revolução espanhola - etal foi o título
de seu livro. Tanto quanto ele se lembra, os capítulos eram os
seguintes: Geografia física eeconômica, População, Agricultura,
Indústria, Matérias-primas, Energia, Meios de transporte, Tro-
cas internacionais, A defesa revolucionária. Sem dúvida havia
um ou dois a mais, que ele não mencíonou".
Distribuição regional das culturas, rendimentos totais e
por hectare, inovações diversas, matérias-primas, têxteis, im-
portância das jazidas dehulha, ferro emetais não-ferrosos, pro-
dutos de substituição, relações inter-regionais, localizações
industriais, redistribuição de certa mão-de-obra, transformação
dos elementos parasitas em produtores, tudo isso apoiado por
estatísticas adequadas; tratava-se de proporcionar conhecimen-
tos indispensáveis para encontrar soluções válidas. Esse livro
foi, portanto - toda modéstia excluída - mais aquele de uni
economista do que de um utopista. A primeira edição logo se
esgotou; foi preciso fazer uma segunda.
Esse exemplo foi seguido. Pouco após, S antillan* publica-
va um outro livro intitulado OOrganismo Econômico da Revolu-
ção, que, como seu nome o indica, visava àreconstrução social
do ponto de vista institucional; mas que, emvez de se manter
* DíegoAbad de Santillan. (N. do T.)
52 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
emconcepções abstratas, tradicionais, baseava-se nas realida-
des econômicas espanholas.
Elefoi seguido por Higinio NojaRuiz, ex-mineiro, escritor
libertário, quetambémcompreendeu queerapreciso conhecer a
matéria comaqual sedesejava trabalhar, equepropunha estru-
turas, modos deorganização baseadas emrealidades da vida
econômica esocial numlivrointitulado, Rumo a uma sociedade
de produtores.
Oespírito construtivo abordava os problemas detransfor-
mação social comummétodo sociológico queinfelizmente não
foi seguido emoutros países.
Todavia, apareceu umensaio sobaformadeuma fortebro-
chura intitulada Ocomunismo libertário cujoautor eraodoutor
Isaac Puente, partidário do ideal libertário há alguns anos, e
que os fascistas fuzilaram no primeiro dia desua sublevação.
Nãoeraobradeumeconomista, epoder-se-iaformular objeções
fundadas.
Não impedequeos esquemas propostos tiveramsua utili-
dade, malgrado seu comunalismo excessivo. Felizmente, os mi-
litantes de base tinham bastante iniciativa para retificar os
erros, atenuar as insuficiências, oucompletar oquedeviasê-lo.
CENTRALIZAÇÃO E LI BE R T A R I S M O
Antes determinar, parece-nos necessário, paramostrar que
ignoramos emdemasia as concepções socialistas libertárias no
que concerne à organização de uma nova sociedade, ressaltar
qual foi opensamento dos maiores teóricos no queserefereao
problema da centralízação".
VimosqueProudhon escrevia:
"Oque colocamos no lugar da centralização política, é a
centralização econômica".
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO LIBERTÁRIO 53
Entretanto, ele também escrevia emcorfissôes de um re-
volucionário:
"épreciso que a centralização efetue-se de baixo para cima, da
circunferência ao centro, e que todas as funções sejam inde-
pendentes e se governem por si mesmas".
Emoutros escritos, nós ovemos defender a centralização
das funções positivas, particularmente emmatéria econômica.
Ofederalismo torna-se o que vimos: a centralização debaixo
para cima, oque implica que há obaixo equehá oalto, ou da
circunferênciaaocentro, oqueimplicaaexistênciadeumcentro.
Bakunín, ele também teórico do federalismo, pronunciou-
sedeummodo talvez mais claro, mais categórico. Porvolta de
1871, quando seencontrava na Suíça, escreveu, sob a assina-
tura de Um cidadão suíço a fimde melhor golpear a opinião
pública, umpanfleto intitulado Os ursos de Berna e o urso de
São Petersburgo=", Tratava-se deprotestar contra aextradição
de Netchaiev (comquem rompera, mas que ele defendia, para
defender, também, odireito deasilo), contra as autoridades cza-
ristas. E, segundo seu hábito, umassunto arrastando umoutro,
ele chegou à estrutura jurídica, política, econômica da Suíça.
Ocupando-se do problema cantonal eda divisão múltipla que
era sua conseqüência, escrevia:
"Todos os progressos realizados desde 1848 no âmbito
federal são progressos da ordem econômica, como aunificação
das moedas, dos pesos e medidas, os grandes trabalhos pú-
blicos, os tratados de comércio etc.
Dlr-se-á que a centralização econômica só pode ser obtida
pela centralização política, que uma implica a outra, que elas
* Este ensaio foi publicado na revista anarquista Novos Tempos ns 2,
Editora Imaginário, emnovembro de 1998. (N. do T.)
54 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
são necessárias ebenfazejas, ambas ao mesmo grau. Absolu-
tamente não. A centralização econômica, condição essencial
dacivilização, criaaliberdade; mas acentralização políticaa
mata, destruindo, emproveito dos governantes edas classes
governantes, a própria vida ea ação espontânea das popu-
lações".
Bakunin, sempre clarividente, continuava:
"ASuíça hojeseencontra numdilema. Não podedesejar
retomar a seu regimepassado, ao regimeda autonomia polí-
ticados cantões, queconstituíam uma Confederação deEsta-
dos politicamente separados eindependentes umdo outro. O
restabelecimento de semelhante Constituição teria por con-
seqüência infalível oempobrecimento daSuíça, deteria clara-
menteosgrandes progressos econômicos quefez, desdequea
novaConstituição centralista derrubou as barreiras quesepa-
ravam e isolavam os cantões. A centralização econômica é
uma das condições essenciais dedesenvolvimento das rique-
zas, eesta centralização teriasidoimpossível senão setivesse
abolido aautonomia política dos cantões.
E elevai, então, até ofimdas conseqüências de sua análise:
"Poroutro lado, aexperiência devinte edois anos prova-
nos que a centralização política é igualmente funesta à
Suíça.[...]
Oque fazer, então? Retomar à autonomia política dos
cantões éalgo impossível. Conservar a centralização política
não é desejável.
Odilema, assimcolocado, sóadmite umaúnica solução: a
abolição de todo Estado político, tanto cantonal quanto fe-
deral, a transformação da federação política emfederação
econômica, nacional eínternacíonal">.
Vimos que sébastien Faure preconizava também, assim
como Pierre Besnard, a organização" debaixo para cima", quer
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO LIBERTÁRlO 55
dizer, quando isso era necessário, uma centralização controlada
emtodos os níveis, efilha de uma escolha livre evoluntária do
conjunto humano constituído. Não é o caso de Kropotkin que
preconizava uma integração econômica regional que considera-
mos incompatível comos dados gerais da economia, amenos de
se contentar comuma simples economia de consumo autárquico
que nos conduziria dois séculos atrás, quanto ao nível devida.
Mas éútil assinalar que ele soube adotar uma posição bem
diferente. Temos a prova disso no capítulo deA Conquista do
Pão, intitulado "Consumo e produção". Talvez seja, sob nosso
ponto de vista, o capítulo mais importante desse livro, e natu-
ralmente aquele que foi o menos lembrado. Pois os pontos de
vista, sensatos e lógicos que ali encontramos, implicam uma
concepção da economia planificada em escala européia, e que,
sendo posta em prática, deveria inelutavelmente resultar numa
coordenação de conjunto implicando uma centralização múl-
tipla - e talvez multiforme.
Desaída, Kropotkin coloca a questão:
"até aqui todos os economistas, deAdam Smith a Marx, estu-
daram aeconomia começando pela produção. Nós, comunistas
anarquistas, procedemos da maneira inversa: estudamos quais
são as necessidades a satisfazer, os problemas do consumo a
resolver. Depois, organizamos a produção para satisfazer essas
necessidades e resolver esses problemas".
Isso, conquanto não se empregasse a expressão em 1885,
era a planificação:
"Entretanto, tão logo a consideramos desse ponto devista,
a economia política muda totalmente de aspecto. Isso cessa de
ser uma simples descrição dos fatos etorna-se uma ciência, da
mesma maneira que a fisiologia: podemos defini-Ia como sendo
o estudo das necessidades da humanidade e dos meios de
56 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
satisfazé-Ias com a menor perda possível dasforças humanas.
Seuverdadeiro nome seriafisiologia da sociedade.
Dizemos: Eis seres humanos, reunidos emsociedade. To-
dos sentemanecessidade dehabitar casas salubres. A cabana
do selvagemnão os satisfaz mais. Eles pedemumabrigo só-
lido, mais oumenos confortável. Trata-se desaber se, levando
emconsideração a produtividade do trabalho humano, eles
poderão ter cada umsua casa, eoque os impediria detê-Ia?
Procedemos, comopodemosver, bemaocontrário dos eco-
nomistas que eternizam as pretensas leis da produção e, fa-
zendo acontadas casas quesãoconstruí das por ano, demons-
tram pela estatística que, não sendo construídas emnúmero
suficiente parasatisfazer todas as demandas, osnovedécimos
dos europeus devem habitar casebres".
Emvez de se ocupar com mais-valia, capital, salário, divi-
são do trabalho, épreciso responder aessa pergunta: "Ohomem
pode ou não, trabalhando, produzir opão que lhe énecessário?"
E se não pode, o que o impede?
"Eis350milhões deeuropeus. Elesnecessitamacadaano
deumtanto depão, carne, vinho, leite, ovosemanteiga. Pre-
cisamdeumtanto demoradias, umtanto deroupas. É o mí-
nimo de suas necessidades. Podemproduzir tudo isso? Seo
podem, restar-lhes-á tempo para buscar oluxo, os objetos de
arte, conhecimento ediversão - numa palavra, tudo o que
não entra nacategoria do estrito necessário?".
Kropotkin multiplica os argumentos quanto aos diferentes
aspectos desse problema. E compreenderemos que, se contem-
plarmos, como élógico fazê-lo, a vida da Europa inteira, como
ele o fez, ecomo o fizeram Bakunin, james Guillaume, Besnard,
em parte Proudhon, é necessária uma certa centralização que
preferimos denominar "coordenação", cujos centros seriam múl-
tiplos. Sobretudo a planificação que supõe a prática da concep-
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO LlBERTÁRIO 57
ção necessidade-produção, a única que pode responder a uma
economiaverdadeiramente socialista, socializada ehumanista.
Masentão o aparelho social perdea rigidez orgânica ine-
rente àestatização, eaeconomia seconfunde comohumanis-
mo, tanto peloconsumo quanto pela produção.
Notas:
1.Elaatenuou fortemente, diante deseu fracasso relativo devido emgran-
departe àsabotagem das outras correntes socialista erevolucionária, suas
ambições realizadoras. A morte de Charles Gidee de Ernest Poísson con-
tribuiu para esse empobrecimento.
2. Oque prova o quanto é falso apresentar Proudhon como o defensor do
artesanato, pequeno-burguês limitado a essa única questão ou a esse
único aspecto dos problemas que compunha oquechamamos deproblema
social.
3. J áfaz 119anos!
4. Não esqueçamos que no Palais du Luxembourg tinham então assento
as grandes personalidades do socialismo autoritário, que queriam instau-
rar suas reformas por meio de legislação. Sabemos como ele fracassou. A
concepção proudhoniana ia muito mais longe. Mas os operários não esta-
vam emcondições de compreendê-Ia.
5. Vemosaqui, depassagem, reafirmada a superioridade do trabalho cole-
tivo, que Proudhon, por primeiro, havia exposto, desde 1840, emOque é a
propriedade?, edo qual Marx falará, por sua vez, emOCapital, publicado
em 1868.
6. A revolução espanhola mostrou-nos o caminho comrelação a esse as-
sunto. No lugar das leis e dos contratos, coloquem as resoluções indus-
triais e incerindustrtais, os acordos dos organismos econômicos indus-
triais eagrícolas, resoluções eacordos modificando-se segundo as necessi-
dades dinâmicas da vida social- eo aparelho legislativo, criação do Es-
tado, torna-se inútil eultrapassado, como o próprio Estado.
58 AUTOGESTÃO E ANARQUlSMO
7. Proudhon nasceu em1809 emorreu em1865. Bakunin nasceu em1814
emorreu em 1876.
8. Emtermos de economia, Bakunin entendia pofcapital o conjunto dos
meios de produção, móveis eimóveis.
9. In Protestation de l'Alliance.
10. Serão, embreve, os sindicatos.
11. Bakunin ocupou-se anteriormente coma instrução integral.
12. Compreender-se-á que não se trata de Parlamento no gênero daquele
do Palais Bourbon!
13. Estatutos da Fraternidade Internacional, que seguiu de perto oCate-
cismo. É preciso levar emconta que os escritos de Bakunin estendem-se
apenas num período de aproximadamente dez anos (1864-1874). Seus
doze anos decativeiro, suas atividades práticas não lhepermitiram traba-
lhar com a regularidade metódica que conheceram outros pensadores
durante uma vida mais calma econfortavelmente centrada emseus estudos.
14. Em seu último livro, Da capacidade política das classes operárias,
Proudhon admitia a produção coletiva para a indústria, e preferia o tra-
balho individual para a agricultura.
15. Bakunin, como Proudhon, rejeitava ocomunismo, que lheaparecia sob
o aspecto do jugo despótico do Estado. Por outro lado, conquanto Kro-
potkin tivesse se tornado o representante mais qualificado do comunismo
anarquista, este tinha sido formulado pelos anarquistas italianos (Caffie-
ro, Covelli, Andrez Costa - fundou mais tarde oPartido Socialista de seu
país - Malatesta eoutros).
16. Os marxistas da social-democracia defendiam então ocoletivismo com
o princípio "Acada um segundo suas obras", e eram os libertários, ou
anarquistas sociais, que defendiam o comunismo.
17. Observemos que nas coletividades da Espanha nunca houve umúnico
indivíduo dirigindo ou mesmo coordenando as atividades.
18. Aqui [ames Guillaume antecipa-se, inclusive, aos anarquistas italia-
nos na adoção do princípio' comunista, do qual, na França, Louís Blanc
tinha sido o propagandista.
19. Bakunin, que repetiu os mesmos elogios dois anos mais tarde, escre-
via: "Entretanto, devo observar que a Espanha, que nos parecia tão atra-
sada, hoje nos apresenta uma das mais magníficas organizações da Asso-
CONCEPÇÕES CONSTRUTIVAS DO SOCIALISMO LIBERTÁRIO 59
ciação Internacional dos Trabalhadores que existem no mundo". (Terceira
Corferência aos operários do Vale de Saint-Imierrs.
* As três corferências foram publicadas num mesmo volume comOPrin-
cipio do Estado, pela Novos Tempos Editora, em1989, ebrevemente com-
porá a coleção Escritos Anarquistas, da Editora Imaginário.
20. Aqui, J osé Prat corrobore. as previsões de Bakunin, e isso de motu
proprio, pois oCatecismo revolucionário era naquele momento desconhe-
cido.
21. Oindividualismo, geralmente antí-socíal, eque tanto contribuiu para
minar edestruir oanarquismo na França, sempre teve pouquíssimo econa
Espanha.
22. Ressaltamos como oanarquismo erageralmente comunista, enquanto
os partidos marxistas, inclusive afacção bolchevique da social-democracia
russa, eram coletivistas. Foram os anarquistas não-individualistas que,
por primeiro epor mais tempo, defenderam os princípios do comunismo.
23. A honestidade nos obriga a reconhecer que os declamadores edema-
gogos prejudicaram o movimento anarquista italiano, impedindo-o de
adquirir a mentalidade construtiva reivindicada por Malatesta. Entre ou-
tros, Luigi Galleani, chantre eloqüente do terrorismo e do ilegalismo,
causou um mal considerável ao movimento anarquista italiano, e sua
escola confundiu econfunde emdemasia a sociologia ea oratória.
24. É o que o distinguia do movimento anarco-cornunista, ou comunista
libertário tradicional. oqual, na prática daluta eglobalmente considerado
- caso precisamente da Itália, eemgrande parte da França - restringia-
seageneralidades, semcondições depôr emperigo asociedade capitalista.
25. Por sinal. épreciso assinalar que essa estrutura era, conforme mostra-
mos emnosso livro, EEspagne Libertaire 36- 39, aquela estabelecida pelo
movimento sindicallibertário espanhol, e realizada, emescala nacional.
na medida emque as circunstâncias da luta - com anos de clandesti-
nidade - o permitiram.
26. Nãoesqueçamos que utopia é, essencialmente, uma "concepção imagi-
nária" não forçosamente irrealizável. Kropotkin qualificava de utopia seu
livroA Conquista do Pão; isso não significava que o que ele preconizava
fosse impossível de realizar!
27. A vida instável (e por causa disso) do autor, e o triunfo de Franco,
fizeram com que não existisse um único exemplar desse livro, nem de
vários outros. Desde então, o autor escreveu duas fortes brochuras de
caráter construtivo, uma intitulada La révolution sociale en Italie eaoutra
60 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
Pratique du socialisme libertaire, na qual a hipótese de transformação
social refere-se à França. Emambos os casos, eguardadas todas as pro-
porções, elebaseou emdados econômicos essenciais avisão estrutural do
novo mundo.
28. Distinguimos a centralização do centralismo. Este último (eo sufixo
ismo oindica claramente) implica umsistema predominante, tanto político
quanto econômico, ummétodo... sistemático aplicado emtodas as circuns-
tâncias. A centralização é um procedimento de modo algum unilateral,
aplicado de maneira pragmática, ao mesmo tempo que outros, dentre os
quais o federalismo.
29. Osursos que seencontravam no fosso do jardim zoológico deBerna, e
aqueles que ainda estão ali, simbolizavam a liberdade nacional. Bakunin
faz aqui umjogo de palavras comparando-os ao czar, urso de São Peters-
burgo.
30. Alguns pretensos "anarquistas", que na ocasião reivindicavam o pen-
samento deBakunin, para, emnome do federalismo, defender umregiona-
lismo, que é apenas um subnacionalismo, bem fariam de meditar sobre
essa demonstração de Bakunin que se opunha, após a proclamação da
unidade italiana, àqueles que conservaram anostalgia das antigas provín-
cias edesejavam retomar a elas.
CO N CE PÇÕE S A N A R CO -S I N DI CA LI S T A S
DA A U T O G E S T ÃO *
R ené Berthier
Os libertá rios foram os primeiros, e durante muito tempo
os únicos, a desenvolver a teoria da autogestão edela fazer um
princípio de ação. Hoje, essa palavra, muito degradada, empre-
gada por quase todo omundo, perdeu muito de sua significação,
na medida emque arealidade que ela implica pode ser extrema-
mente variável segundo aquele que a reivindique.
'Autogestão" é, antes de tudo o meio de pôr emaplicação o
princípio: a emancipação dos trabalhadores será a obra dos
próprios trabalhadores. Isso implica estruturas organizacionais
que permitem aaplicação desse princípio. Essas estruturas são,
de saída, essencialmente organismos de base que permitem a
expressão de todos os trabalhadores, simultaneamente no plano
da empresa e no local de moradia. Vemos, então, já uma prí-
•Este texto foi redigido por ummilitante daAliança sindicalista (organi-
zação anarco-sindicalista esindicalista revolucionária fundada depois de
maio de 1968, eda qual a imprensa falou na ocasião do último congresso
F.O.Seu órgão mensal éSolidarité ouvriêre). Todavia, ele não é assinado
como nome daAliança sindicalista pois só circulou no grupo da região
parisiense.
62 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
meira característica da autogestão segundo os anarco-sindica-
listas; ela é, desde as estruturas elementares da sociedade (em-
presa, localidade), simultaneamente econômica e política.
Oorganismo debase, ofundamento do âmbltoínstítucíonal
no qual se pratica a autogestão, situa-se no plano profissional,
econômico, e no plano local, interprofissional, segundo que o
trabalhador é concernido por problemas específicos à sua em-
presa, sua indústria, ou à sua localidade.
Autogestão significa antes detudo: "gestão direta dos traba-
lhadores no organismo de base". As diferentes modalidades
pelas quais os trabalhadores decidem a organização, a gestão
etc., desse organismo de base, por mais importantes que elas
sejam, não são essenciais. As diferenças específicas de cada
empresa, localidade etc., tornarão necessárias modalidades di-
ferentes deorganização. Uma empresa como aRenault não será
organizada do mesmo modo que um banco, pela simples razão
que as condições objetivas de trabalho são diferentes. Nosso
objetivo não é, portanto, antecipar um "estatuto modelo" de
autogestão.
Aqueles que "descobriram" a autogestão em maio de 68, e
que teorizam sobre oque os anarco-sindícalistas espanhóis pra-
ticaram emgrande escala há trinta* anos, insistem erroneamente
na autogestão da empresa, o que quer dizer que eles permane-
cem no nível da microeconomia.
Exemplos interessantes foram apresentados na revista Au-
togestion, mas até aqui, pouquíssimas coisas foram ditas sobre
a organização geral da sociedade em regime de autogestão.
Oanarco-sindícalismo cuidou, desde oinício, dedefinir essa
organização geral, considerando esta última como tão impor-
tante, senão mais, quanto a autogestão das unidades econômi-
cas e políticas de base, a microautogestão, poder-se-ia dizer.
* Há mais de sessenta anos. (N. do T.)
CONCEPÇÕES ANARCO-SINDICALISTAS DA AUTOGESTÃO 63
Pois éessa organização geral que dará seu verdadeiro caráter à
autogestão.
Que interesse há emque as fábricas sejam "autogeridas" se
suas relações entre si, suas relações com seu ramo industrial e
com a economia em geral, não se fazem segundo os mesmos
princípios?
Que interesse há em que uma localidade seja "autogerida"
se essa localidade não tem relações de autogestão coma região
e com o país inteiro?
Todavia, nos dirão, autogerir todo um país éum absurdo! A
gestão direta de todo um ramo industrial- eainda com maior
razão, de todo um país - éutopia!
É verdade, se considerarmos que a autogestão estendida a
toda a sociedade significa reunir cinqüenta milhões de pessoas
numa praça pública para perguntar-lhes seéoportuno construir
uma estrada em tal lugar ou uma barragem num outro ...
Eminentes "anarquistas", em tal situação, considerando
que éimpossível instituir a "democracia direta" no sentido mais
literal da palavra, nas grandes unidades econômicas epolíticas,
preconizaram fundar comunidades, e que lá se encontrava o
futuro da humanidade ...
Consideramos que tais raciocínios vão na contramão da his-
tória, o que não significa, por sinal, que sejamos hostis à des-
centralização econômica epolítica, muito pelo contrário.
o FE DE R A LI S M O ,
PR I N CÍPI O DA A U T O G E S T ÃO S O CI A L
Como as diversas empresas e localidades de um país po-
dem organizar-se sem que isso descredite o princípio da auto-
gestão? Segundo os anarco-síndícalístas, a organização geral
da sociedade emregime de autogestão só pode se dar pelo fede-
64 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
ralismo. Por essa razão, épreciso que se diga algumas palavras
no que tange à essa noção, ela também amiúde deformada.
Ofederalismo opõe-se ao centralismo no sentido em que o
primeiro funciona debaixo para cima, enquanto o segundo fun-
ciona de cima para baixo, sem consulta prévia. O federalismo
estabelece o interesse geral por meio de consulta de nível em
nível, o centralismo impõe-se dem determíná-lo nem díscuti-lo.
Nosistema federalista, quando o trabalhador transmite ou
delega tudo ou parte de seus direitos amandatários, individuais
ou coletivos, é apenas após discussão e acordo preciso, sob
controle permanente e severo. Ele pode, a todo momento, revo-
gar seu mandatário esubstituí-lo. No sistema centralista, fosse
ele "democrático", a base não tem, definitivamente, nenhum
poder sobre o cume.
Os mandatários aplicam estritamente seu mandato, epres-
tam contas deste àqueles que os mandataram. Estes últimos
têm todo o direito de dizer se sim ou não o mandato foi respei-
tado, de aprovar ou desaprovar o mandatário.
Oobjetivo do federalismo éa representação dos interesses
coletivos dos trabalhadores, exprimidos pelos próprios traba-
lhadores. Funciona comaajuda deduas correntes, uma da base
ao cume, a outra do cume à base. A primeira corrente, é a dis-
cussão e a decisão; a segunda, a ação.
A discussão tem por objetivo eliminá r os interesses parti-
culares e fazer surgir o interesse geral essencial na célula de
base, depois de nível em nível, até o cume. É assim que se cria,
partindo da base para chegar ao cume, uma sucessão de orga-
nismos de deliberação que exprimem opensamento, o interesse
comum, as decisões coletivas.
Se o movimento ascendente permite definir o interesse
geral, os princípios, a tática a seguir, e, emsubstância, as moda-
lidades gerais de organização social, o movimento descendente
permite materíalízã-los pela ação em todos os planos.
CONCEPÇÕES ANARCO-SINDICALISTAS DA AUTOGESTÃO 65
ocume, expressão controlada dos diversos níveis inferio-
res, designa segundo as decisões de Congressos - soberanos
porquanto são a emancipação da base - a fórmula geral de
ação, e a transmite aos níveis imediatamente inferiores, as re-
gíões. As regiões agem do mesmo modo comas localidades que
as compõem e dão a estas o âmbito geral de ação regional, ao
qual vêm acrescentar-se as próprias necessidades das localida-
des. Omesmo processo aplica-se às localidades.
A corrente descendente é, portanto, a execução, por cada
nível emseu âmbito bem definido, das decisões tomadas pelo
conjunto dos trabalhadores ou agrupamentos detrabalhadores.
Isso implica um certo número de coisas. No âmbito sindical:
1- o indivíduo é livre em seu sindicato, ali exprime em
toda ocasião sua posição, dá sua opinião sobre todas as ques-
tões, comaúnica ressalva derespeitar as decisões tomadas pela
Assembléia geral do sindicato, após deliberação.
2 - os sindicatos são livres em suas Uniões locais, Uniões
regionais, Federações de indústria, com a única ressalva de
respeitar eexecutar as decisões dos diversos organismos depois
de ter emitido seu ponto devista.
3- amesma liberdade éconferida às Uniões locais, Uniões
regionais, Federações de indústria, nas mesmas condições, no
seio da Confederação, e na Internacional eventualmente.
Os trabalhadores têm, portanto, coletivamente e em todos
os níveis, opoder de decisão. Eles têm constantemente emsuas
mãos a direção real de suas organizações.
Vemos que, contrariamente ao que dizem os detratores do
anarco-síndícalísmo e do sindicalismo revolucionário, nós nos
posicionamos delonge acima dos problemas categoriais, corpo-
rativos e locais; a autogestão não pode existir, e sobreviver, se
for aplicada no âmbito do sistema capitalista, esenão for gene-
ralizada emtodos os aspectos da vida econômica esocial; ela é
66 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
incompatível com todo sistema econômico e político centra-
lizado, com o Estado.
Mas é preciso também estar conscientes de que a organi-
zação econômica epolítica da sociedade implica uma coordena-
ção das atividades do país, coordenação que pode ser estendida
em nível internacional. É nesse sentido que o federalismo é o
complemento necessário da autogestão.
A S E N G R E N A G E N S
DA A U T O G E S T ÃO FE DE R A LI S T A
Naconcepção anarco-sindicalista, ofederalismo ésimulta-
neamente vertical ehorizontal.
No plano vertical, cada empresa está federada às outras
empresas do ramo de indústria, até o nível nacional, e as dife-
rentes federações de indústrias federadas entre si, constituem
uma Confederação.
No plano horizontal, cada empresa de um ramo de indús-
tria está federada às outras empresas da localidade, consti-
tuindo a União local, as Uniões locais são federadas entre si na
confederação. Assim, quer seja na empresa, no ramo de indús-
tria, na economia em seu conjunto; quer seja na localidade, na
região, em todo o país, todos os aspectos da vida econômica,
política esocial acham-se sob o controle dos trabalhadores ede
sua organização de classe. É nessa organização que se tomam
as decisões, eépor essa organização que são aplicadas as deci-
sões concernentes à atividade econômica, política do país.
Oúltimo número da revistaAutogestíon tratava do proble-
ma da autogestão e dos sindicatos. Oanarco-sindicalismo, e o
sindicalismo revolucionário, consideram que osindicato, sendo
aorganização declasse do proletariado, éaele que cabe o papel
deorganização da sociedade, geralmente atribuído aos partidos
CONCEPÇÕES ANARCO·SINDICALlSTAS DA AUTOGESTÃO 67
políticos. Assim, o anarco-sindicalismo está em oposição total
com o próprio princípio do partido político. Desnecessário dizer
também que esse tipo de sindicalismo não tem grande coisa em
comum comos sindicatos tradicionais existentes.
A autogestão, tal como a concebemos, faz-se no próprio
âmbito do sindicato, e não em oposição a ele. O sindicato é
apenas a estrutura que permite à autogestão ter um alcance
nacional,e mesmo internacional. O sindicato, no limite, éape-
nas a federação dos conselhos operários: a diferença essencial
éque o sindicato já existe na sociedade capitalista, sendo ali um
órgão de defesa dos trabalhadores, e, emseu seio, os trabalha-
dores preparam-se àgestão coletiva, àautogestão. Não há, pois,
nenhuma incompatibilidade entre sindicato e conselho ope-
rário.
o comitê de oficina
Cada oficina, serviço, elege um comitê deoficina àrazão de
um delegado por 20 ou 50 trabalhadores como se faz atual-
mente na Itália, na metalurgia. Os delegados são revogáveis a
qualquer instante; eles são plenamente representativos do sin-
dicato; sua tarefa é analisar as condições de trabalho em sua
oficina, estabelecer suas normas com os trabalhadores, formu-
lar todas as questões levantadas pelos trabalhadores concer-
nentes à organização do trabalho no conselho de fábrica. O
delegado deoficina éresponsável pela aplicação epela proteção
dos direitos dos trabalhadores.
É nessas assembléias gerais de oficina, de fábrica edesín-
dicato que os trabalhadores determinam as condições nas quais
eles estimam dever trabalhar, e determinam a política econô-
mica aseguir, elegendo as seções técnicas encarregadas da ges-
tão das empresas.
68 AUTO GESTÃO E ANARQUlsMO
o comitê de fábrica
Os delegados de oficina, reunidos, formam o conselho de
fábrica. Oconselho de fábrica écomposto dos representantes de
todos os serviços da empresa. O conselho de fábrica é o órgão
essencial do sindicato na empresa; ele deve ser capaz de fazer a
síntese política das diferentes necessidades dos trabalhadores,
religando os interesses de grupos isolados na estratégia do
movimento em seu conjunto. Ele representa os interesses dos
trabalhadores da empresa, etambém é seu órgão de execução.
Oconselho de fábrica tem a tarefa de distribuir o trabalho
às oficinas, assegurar sua execução, prover o abastecimento, o
transporte, segundo as instruções que receber do sindicato de
indústria.
Cabe-lhe estabelecer entre as oficinas as ligações necessá-
rias, organizar o trabalho nas melhores condições possíveis etc.
Nesse ponto, uma questão da mais alta importância se
coloca: qual deve ser a célula debase da produção? Ocomitê de
oficina, o conselho de fábrica, ou o sindicato de indústria? Para
os anarco-sindicalistas, a célula de base da produção éo sindi-
cato de indústria. Sendo formado pelo conjunto dos trabalhado-
res de todas as oficinas e de todas as fábricas de uma mesma
localidade, de uma mesma indústria (exemplo: sindicato dos
transportes de tal cidade), ele éo órgão mais apto a organizar e
a dirigir a produção numa localidade. É ele que representa os
trabalhadores de sua indústria na união local e no conselho
econômico local, seu órgão técnico.
Os conselhos de fábrica eos comitês de oficina, ao contrá-
rio, especializados num ramo de indústria ou numa parte desse
ramo, não estão em medida de organizar toda uma indústria
nem assegurar a ligação necessária entre todas as fábricas de
uma localidade emanando de uma mesma indústria; sua ativi-
dade limita-se forçosamente à sua oficina ou à sua fábrica. É,
CONCEPÇÕES ANARCO-SINDICALISTAS DA AUTOGESTÃO 69
pois, por intermédio dos sindicatos de indústria que se faz a fe-
deração dos conselhos de fábrica.
Alémdas razões deeficácia, os anarco-sindícalistas, consi-
derando o sindicato de indústria como organismo de base da
produção, são motivados pela preocupação de evitar todo cor-
porativismo, e toda tendência que poderia manifestar-se entre
os trabalhadores para se considerar como individualmente pro-
prietários de sua empresa enão mais coletivamente; têm apreo-
cupação de evitar uma rivalidade entre os trabalhadores das
diferentes empresas etc.
O s sindicatos de indústria
É necessário coordenar as atividades das empresas da lo-
calidade: abastecimento emmatérias-primas, estocagem, trans-
portes etc.; a própria situação do sindicato de indústria, sua
constituição, indicam-lhe o papel que ele tem adesempenhar na
organização econômica da localidade. É ele que entrega à união
.local a produção industrial com vistas a uma repartição ou a
uma troca pelos ofícios comunais qualificados.
As U niões locais
São organismos completos da produção, cuja esfera de
atividade determina aextensão da comuna, organismo político;
elas têm por papel dirigir toda a produção da localidade, fazê-Ia
executar segundo oprograma estabelecido pelo conselho econô-
mico do trabalho - organismo confederal cujos membros são
os representantes das federações de indústria, ecujo papel éde
ordem técnica exclusivamente.
As Uniões locais são administradas por umconselho desig-
nado pelos sindicatos reunidos emcongresso. A gestão écontro-
70 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
lada de modo periódico e freqüente por um comitê composto de
delegados diretos dos sindicatos.
Elas asseguram a ligação entre todos os sindicatos locais
e coordena sua atividade. É sobre ela que repousa todo o siste-
ma de organização local.
A s U niões regionais
Elas desempenham, na extensão de sua esfera de ativi-
dade, o mesmo papel que as Uniões locais, mas de um modo
muito mais vasto. Seu comitê, composto por representantes das
uniões locais, tem por tarefa, com o concurso das federações
regionais deindústria, coordenar edirigir toda aorganização da
produção regional, fazê-Ia executar segundo as diretrizes do
Conselho econômico do trabalho.
O s organismos nacionais
As federações de indústria são constituídas por todos os
sindicatos de um mesmo ramo da economia, no plano nacional.
Elas estão, portanto, em condição, cada urna emsua indústria,
de conhecer a capacidade de produção da indústria, o estado
geral dos recursos, a importância das importações necessárias
e aquela das exportações possíveis. Reperesentantes das fede-
rações de indústria formam, reunidos, oConselho econômico do
trabalho, que fornece aos organismos econômicos e sociais to-
das as informações necessárias em todos os planos, em todos
os campos.
De posse de todas as informações concernentes à produ-
ção, ao consumo eà troca, informações que lhe terão sido forne-
cídas por todos os níveis inferiores segundo o processo do fede-
CONCEPÇÕES ANARCO-SINDICALlSTAS DA AUTOGESTÃO 71
ralismo democrático, ele estará em condição, com o concurso
dos diferentes ofícios qualificados, de indicar às regiões por
indústria a produção a efetuar, organizar a alimentação em
matérias-primas, as importações e a exportação.
O conselho econômico do trabalho está sob o controle da
Confederação, única responsável perante os sindicatos. É ele
que informará os conselhos econômicos regionais que, por sua
vez, distribuirão o trabalho aos conselhos locais e estes aos
sindicatos.
A exposição que fizemos não tenciona ser nem imutável,
nem completa. Muitos pontos permanecem na incerteza para
aqueles que querem ir até os mínimos detalhes; inversamente,
aqueles que, segundo a tradição marxista, pensam que não se
deve dar a receita da marmita da revolução, podem pensar que
em nossa exposição há em demasia.
Entretanto, não é uma receita que damos aqui. Estamos
perfeitamente conscientes dos problemas que se colocam no
procedimento que seguimos, mas não pretendemos expor ex
nihilo um sistema que só funciona perfeitamente no papel.
Muito amiúde, esses mesmos intelectuais que fazem hoje
a apologia da autogestão, ignoram totalmente que os anarco-
sindicalistas espanhóis organizaram aindústria eaagricultura
em várias províncias - e com incontestáveis sucessos econô-
micos, levando emconsideração as circunstâncias daguerra. [...]
É fácil, então, quando ignoram - ou fingem ignorar - as
experiências às quais nós nos referimos, acusar-nos de fazer
autogestão no papel, utopia, para dizer tudo. A verdadeira cons-
piração do silêncio que envolve a autogestão revolucionária
espanhola, explica-se em grande parte pelo fato de que essa
experiência éumdesmentido histórico total emtodos os pressu-
postos do marxismo, emais particularmente, do leninismo: em
especial, o fato de que o sindicato não pode encarregar-se da
organização da sociedade.
72 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
Assim, nós nada inventamos: acabamos simplesmente de
descrever o esquema de organização da economia controlada
pelaC.N.T.,organização anarco-sindicalista, forte, naquele mo-
mento, dedois milhões deaderentes.
Nãoeranossa intenção estabelecer umprograma. Nãobus-
camos aplicar hoje na França o que era válido há trinta* anos
na Espanha. Por sinal, não estava no âmbito do assunto expor
umponto devista tático sobre oprocedimento aseguir no âm-
bito da situação políticaeeconômica atual.
Todavia, pensamos que para construir, é preciso ter uma
idéiadoquesequer edificar, fosseessa idéiageral. Quanto mais
os trabalhadores refletiremsobre isso antes da revolução, me-
nos tempo perderão depois, embora grandes modificações de-
vam ser trazidas. Sempreparação para a autogestão, não há
autogestão possível. Só citarei por exemplo uma passagem do
manifesto daAliança sindicalista:
"Apreparação dos trabalhadores manuais eintelectuais
àgestão direta eresponsável das empresas industriais eagrí-
colas edos serviços públicos, segundo as normas adequadas
à sua diversidade eà sua função... necessita do desenvol-
vimento das capacidades gestionárias ouautogestionárias dos
trabalhadores.
E, nesse sentido, uma parte do trabalho daAliança será
desenvolver osconhecimentos sócio-econômicosdeseus mem-
bros edo maior número detrabalhadores possível."
osistema autogestionário quepreconizamos temhojesuas
raízes no movimento operário. Não fazemos senão observar,
analisar sua experiência histórica emmatéria deorganização.
É só apartir disso quepodemos determinar as linhas gerais do
quepoderá ser aautogestão. Asestruturas gerais daautogestão
* Leia-se sessenta epoucos anos. (N. do T.)
CONCEPÇÕES ANARCO·SINDICALISTAS DA AUTOGESTÃO 73
já existem, bem corno seu âmbito organizacional, na experiência
e nas conquistas da classe operária. Buscar alhures a autoges-
tão e o socialismo, isso é que éutopia.
Umdos objetivos essenciais que nós nos fixamos émostrar
aos trabalhadores que as formas gerais da autogestão podem
ser deduzidas de suas formas de ação ede organização atuais.
Oâmbito no qual se pode praticar a autogestão já existe, mas é
corno urna potente máquina que se faz funcionar lentamente, ou
melhor, que forças contrárias ao movimento operário esforçam-
se para fazê-Ia funcionar fracamente.
Opapel dos militantes anarco-sindicalistas esindicalistas
revolucionários é esforçar-se para dar a essa estrutura amplas
prerrogativas, um papel prático e teórico maior, estender seu
campo de aplicação a todos os campos da vida social. É preciso
dar ao sindicato um papel qualitativamente diferente, expor
urna doutrina segundo a qual nada é estranho ao sindicato.
A melhor definição da autogestão operária, tal corno acon-
cebemos, e que vem a ser (involuntariamente) a melhor apelo-
gia,é Lenin quem nos dá, o que prova, por sinal, que ele havia
compreendido muito bem o perigo:
''[...] sindicalizar oEstado, isso equivaleaentregar oaparelho
doConselhoSuperior daEconomiaNacional, aos pedaços, nas
mãos dos sindicatos correspondentes [...]
Osindicalismo confia a gestão dos ramos de indústria
[...] à massa dos operários sempartido, repartidos nas dife-
rentes produções [...]
Seos sindicatos, quer dizer, emseus nove décimos, os
operários sempartido, designam [...] a direção da indústria,
para queserve opartido?" (EmLa crise du parti, 19dejaneiro
de 1921.
E N S I N A M E N T O S
DA A U T O G E S T ÃO E S PA N HO LA
Frank Mintz
oobjetivo de todas as pesquisas de tipo histórico, concer-
nentes a uma questão recente, é desembocar emconclusões de
ordem prática, caso contrário, caímos inevitavelmente emques-
tões sem importância, ou então, contentamo-nos em fazer um
nome, como outros fazem ciclismo ou cinema ... Entretanto,
procurar lições não quer dizer encontrar soluções nem ter pana-
céias. Defato, este artigo só pretende ser uma ordenação provi-
sória a partir de um ponto de vista limitado - porquanto indi-
vidual - e de um contexto preciso - uma parte da Europa
ocidental- dois elementos que já bastam para estremecer toda
veleidade de se tomar por um pensador sério.
Antes de abordar a autogestão espanhola, é essencial co-
nhecer o estado de espírito que a precedeu, quer dizer, as con-
cepções mais generalizadas que formam a ideologia da autoges-
tão. Isso não quer dizer, evidentemente, que toda a propaganda
limitava-se aos problemas que iremos descrever, mas ela estava
principalmente fundada sobre eles.
Se o aspecto insurrecional e secretamente dirigista de Ba-
kunin era conhecido, foi sobretudo Kropotkin, comlivros como
A Conquista do Pão, OApoio Mútuo eCampos, Fábricas e Qfici-
76 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
nas quem deu toda aorientação da autogestão espanhola. Pode-
mos observar que essa escolha corresponde às necessidades
sentidas pelo povo espanhol, encerrado emlimites feudais con-
servados pela inquisição e pela incapacidade do reformismo
espanhol (ver com relação a isso a cronologia de Lambéret e o
mestrado de Brey sobre Casas Vlejas)". Oanarquismo, um certo
aspecto do anarquismo era (ou é) a única resposta teórica às
condições sócio-econômicas espanholas, porque ele encorajava
a insurreição, aação direta, contrariamente às concepções mar-
xistas eburguesas.
O comunismo libertário permanecerá muito pouco expli-
cado até por volta de 1920-1930, mas "o anarquismo não se
limitou à propaganda das utopias sociais edos atos terroristas.
Promoveu ações de massa eobteve sucessos práticos. Após um
desenvolvimento decinqüenta anos, essa tradição do movimento
anarquista transformou-se numa força material, séria, fator do
reforço posterior de sua influência". Essa apreciação deum his-
toriador russo da escola stalínísta- concorda com a opinião de
J oaquim Maurirr'. se o anarquismo não desapareceu, é porque
ele seadaptou perfeitamente às condições da Espanha, eporque
tinha uma massa de militantes mais forte que na Rússia, na
Itália ena Bulgária, onde as condições econômicas eramgrosso
modo similares.
A chegada da república e as conseqüências da crise mun-
dial sobre a Europa (o retorno dos trabalhadores emigrados), e
osentimento de que acrise iaagravar asituação econômica, im-
pulsionaram um desejo profundo dos trabalhadores agrícolas e
industriais para mudar aestrutura econômica. As ocupações de
terras, as greves sangrentas multiplicam-se antes que as orga-
nizações lancem palavras de ordem.
A publicação de brochuras sobre o comunismo libertá rio
multiplica-se. Uma, emparticular, sintetiza todas as outras, El
Comunismo libertario, de Isaac Puente. "Não énecessário ínven-
ENSINAMENTOS DA AUTOGESTÃO ESPANHOLA 77
tar nada, nem criar qualquer novo organismo. Os núcleos de
organização emtorno dos quais se organizará avida econômica
futura já existem na sociedade atual: são o Sindicato ea Comu-
na Livre."
Essa visão pode ser qualificada por qualquer adjetivo, o
fato é que ela consegue reunir milhares de militantes em três
tentativas insurrecionais consecutivas: janeiro de 1932, janeiro
de 1933 e dezembro do mesmo ano. Algumas semanas depois
da última tentativa, um militante de um vílare]o aragonês con-
cluía:
"Muito se escreveu sobre a possibilidade ou a impossibi-
lidade de implantar na Espanha o comunismo libertário. Negar
a possibilidade de instaurar esse regime éabsurdo. Emtodos
os movimentos ocorridos desde o advento da república pe-
queno-burguesa, os vilarejos que tomaram parte de um movi-
mento, implantaram o comunismo libertário. Portanto, só se
precisa de decisão ecoordenação nos movimentos:".
Esse estado de espírito é de tal forma profundo que todos
os militantes asturianos agem do mesmo modo em 1934:
"Odinheiro é abolido, reina um completo comunismo de
guerra". "Combatia-se ecriava-se simultaneamente". "Aordem
revolucionária elabora-se em todos os terrenos. O dinheiro é
suprimido. "5
A identificação organização revolucionária =anarco-sín-
dicalismo é total. As fortes dissensões internas entre faístas
(partidários das tentativas Insurrecíonais), dos trentistas (refor-
mistas) e do partido sindicalista de Pestana (ação política) não
parecem ter abalado a convicção de ninguém. Entretanto, se
Rosa Luxemburgo e suas análises do espontaneísmo não são
desconhecidas, Malatesta e suas reservas em relação ao sindí-
78 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
cato foram publicados, conquanto tenham sido principalmente
suas brochuras (No Cqfé, Entre Camponeses, A Anarquia) que
foram lidas.
Quanto a Diego Abad de Santillán, a realidade é que seu
livro EI organismo econámtco de Ia revoluciân era praticamente
desconhecido. Como escreve um colaborador de Santillán numa
revista que tinha este último por diretor:
"Esse livro, publicado emabril de 1936, teve suas ins-
truções seguidas no momento darevolução? Creioqueos sin-
dicatos não selembraram delequando chegou omomento tão
esperado.....
6
Além do mais, a personalidade de Santillán foi pouco dis-
cutida durante aguerra:
"Umavida demilitante anarquista repleta develeidades
e sua produção sociológica rica de contradições desconcer-
tantes'"
A guerra provocada pelos militares (oque éenfim secundá-
rio, na medida emque todo o mundo estava persuadido da ine-
vitabilidade - e mesmo, da necessidade - do combate) de-
monstrou amplamente o que alguns chamam de discussões pu-
ramente teóricas ebizantinas, que recobriam diferenças de prá-
ticas totais e inconciliáveis.
Conforme já descrevemos, os militantes aguerridos pelas
tentativas de 1932, 1933 e 1934 passaram diretamente àocupa-
ção e à redistribuição da economia, exceto no País Basco, onde
o conjunto da burguesia basca sempre controlou seus bens. Na
Catalunha, a burguesia, sabendo-se incapaz de qualquer luta
armada desde 1934, deixou os anarquistas agirem, e, inclusive,
deixou-se levar, em parte, pelo entusiasmo da coletivização.
ENSINAMENTOS DA AUTOGESTÃO ESPANHOLA 79
Os anarquistas - assim como hoje os marxistas - desde
1923-1930, não queriam dizer mais nada - ou quase - na
Espanha. Ao lado do gigantesco esforço exibido por militantes
anarquistas - geralmente - da base, para organizar a vida
econômica de vários milhões de habitantes na Catalunha, em
Aragão enuma parte deLevante, simultaneamente comatrans-
formação de um grande número de fábricas metalúrgicas em
fábricas de armamentos ede material de guerra, e a formação,
o equipamento e a partida de milhares de voluntários para o
ftont deAragão, tudo isso no espaço de apenas uma semana. Ao
lado disso, militantes conhecidos por sua facúndia e sua habi-
lidade, não davam nenhuma instrução decomunismo libertário,
disseminavam os boatos de uma possível intervenção estran-
geira e proibiam que qualquer medida revolucionária fosse to-
mada emrelação às empresas estrangeiras".
Aproveitando-se do fato de que a maioria dos militantes
conscientes estava absorvida pelas tarefas indispensáveis do
momento, decisões engajando a C.N.T.ea EA.I. conduziram ra-
pidamente essas organizações a participar dos governos deBar-
celona e Madri. A presença desses "anarquistas provocou o
retorno das forças capitalistas pequeno-burguesas eaperda das
importantes quantidades de ouro do banco de Espanha, que
foram parar na U.R.S.S., onde ainda servem, a título de argu-
mentos, nos muitos contatos hispano-soviéticos. A lição da Co-
muna deParis fora desprezada conscíentemente". Oscomprome-
timentos estavam acumulados: aeconomia autogerida era aber-
tamente sabotada pelo Partido Comunista, representante oficial
da pequena burguesia, comabênção deMoscou, que, ao mesmo
tempo, mandava liquidar seus kulaks* (belo exemplo de díalé-
tica); as milícias estavam militarizadas sob pretexto deunidade
de fundamento, portanto, de eficácia, quando, na verdade, tra-
l
* Abastados camponeses na Rússia. (N. do T.)
80 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
tava-se de lançar operações suicidas para dizimar as unidades
anarquistas ou formadas principalmente por estes.
A entrada da C.N.T.-F.A.l. nos governos, com o consenti-
mento teórico deseus filiados, provocou inumeráveis críticas in-
ternas que não surtiram nenhum efeito, senão a exigência, por
parte do Comitê Nacional, da disciplina e da obediência para
transformar-se emexecutivo ao final da guerra. Mais concreta-
mente, ocorreram ações cada vez mais violentas por parte dabase
anarquista contra os ministros cenetistas. Em novembro de
1936, a Coluna de Ferro'? desceu dofront emValência eatacou
os novos policiais "revolucionários". Um manifesto explicava:
"Dizemos a todos os trabalhadores, a todos os revolu-
cionários, atodos os anarquistas: tiofront ou na retaguarda,
ondequer queestejam, lutemcontratodososinimigos desuas
liberdades, destruam o fascismo. Mas impeçam igualmente
que, às custas de seus esforços, instaure-se um regime dita-
torial que seria acontinuação, comtodos os seus vícios ede-
feitos, doestado decoisas quetentamos fazer desaparecer''".
Umdos acontecimentos mais graves da guerra ocorreu em
março de 1937, em Vilanesa (Valêncía). Os coletivistas opuse-
ram-se ao decreto do "camarada ministro" juan López - da
mesma região - que requisitava as exportações para o estran-
geiro, quer dizer, as frutas cítricas cuja exportação passava por
um coletivo C.N.T.-U.G.T.Eclodiu um embrião de insurreição, os
burgos deMoncada, Gandia, Utiel puseram-se emgreve einter-
romperam as estradas. Armas automáticas foram empregadas.
A Coluna de Ferro ameaçou intervir. Houve muitos feridos e 15
mortos (onze policiais). Uma "fórmula ambígua de solução" foi
encontrada'>,
As jornadas de maio de 1937, emBarcelona, e a interven-
ção de Lister emAragão, no momento de uma ofensiva republi-
ENSINAMENTOS DA AUTOGESTÃO ESPANHOLA 81
cana para destruir as coletividades no momento da colheita, são
fatos mais OU menos conhecidos", fatos estes causados pela
presença e pela defesa da autogestão.
Defato, antes edurante a guerra da Espanha, houve duas
concepções e duas práticas bem distintas do anarquismo. Um
grupo reformista compreendendo diferentes correntes discor-
dantes: do partido sindicalista de Pestaiía, aFederica Montseny,
passando por Horacío Prieto e Garcia Oliver, todos de acordo
para controlar as massas, exigir a disciplina a fim de conduzir
obscuras negociatas, quase todos inúteis, tendo emvista ainca-
pacidade política da maioria deles. Gaston Leval, embora sendo
menos severo, escrevia:
"Esses militantes não desempenharam nenhum papel na
obra que descrevi neste livros. Desde o início, eles foram absor-
vidos por tarefas oficiais que aceitaram malgrado sua tradicio-
nal repugnância pelas funções governamentais. A unidade
antifascista sugería-Ihes essa atitude. Era precisafazer calar
os prindpios.fazer concessões transttártas:".
Em oposição, havia inumeráveis militantes que tinham
lido e refletido na propaganda pelo comunismo libertário:
"De todas essas atividades, da luta permanente que exi-
gia homens plenos de vontade de ação, nasceu essa capaci-
dade do povo que permitiu realizar a maravilhosa obra das
coletividades agrárias e das organizações industriais. Capa-
cidade do povo, pois. Quer dizer: inteligência mais vontade, eis
o segredo.':"
o problema do fracasso do anarquismo na Espanha, tão
caro aos stalinistas, aos trotskistas eaos autoritários emgeral,
é, assim, absurdo, pois nenhuma das críticas que fazem é dife-
rente daquelas da base anarquista, comessa diferença que oPar-
,----
82 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO'
tido, as elites pseudo-revolucíonárias, futuras exploradoras, são
negadas erecusadas. Uma posição resumida édada por Chomsky
emA América e seus novos mandarins, enquanto aguardamos
a publicação de Peirats eV.Richards".
Uma das lições da autogestão espanhola é a atitude do
reformismo. Deixaremos delado apolítica do Partido Comunista
vulgarmente semelhante àquela da burguesia. O problema é
saber como uma organização composta de numerosos militan-
tes partidários da autogestão pôde cair numa política total-
mente oposta, parcialmente sustentada ainda hoje.
Conquanto seu autor afirme que foi vítima da censura anar-
quista (sic), parece-nos que abrochura deHoracio Prieto, Anarco-
sindicalismo - Como qfianzaremos la revolución, foi abase ideo-
lógica da posição dos partidários edos membros anarquistas do
governo. Escrita em janeiro de 1932, no próprio momento em
que camaradas lançavam-se na ação para estabelecer o comu-
nismo libertário, este texto tem o mérito de emitir uma opinião
totalmente oposta.
Para Prieto, o dia seguinte revolucionário será assim:
'Assimque o sistema autoritário tiver sido totalmente
liquidado, assim que a greve revolucionária não tiver mais
razão deser, todos os produtores, emgeral, devemreintegrar
seus postos de trabalho eassim reconstituir a situação pré-
revolucionária até que as estatísticas eo exame sereno das
circunstâncias estabeleçam normas aceitáveis (factíveis) para
começar atransformação dos produtores, dos objetos inúteis,
deluxo edecoerção, a fimde íncorporá-los de novo no tra-
balho social". (p. 13).
Nenhum espaço era deixado à iniciativa popular, ainda
menos ao espontaneísmo, embora conhecidos, nem que fosse
(para não falar deBakunin) nos textos deLenin. Uma lógica fria
ENSINAMENTOS DA AUTOGESTÃO ESPANHOLA 83
I
c-
espera canalizar a massa, oque Kropotkin eBakunin já sabiam
ser impossível.
Secompararmos essa posição coma atitude dos dirigentes
das organizações C.N.T.-F.A.I.,no início da guerra, constatamos
um alinhamento geral à idéia do retorno à "situação pré-revo-
lucíonária''. o que justificava os comprometimentos, visto que,
na seqüência - "circunstâncias", "normas aceitáveis" - aauto-
gestão seria aplicada.
Umbom exemplo da atitude de Prieto, durante a guerra, é
um excerto de seus textos:
"Explicaram-me a situação na Catalunha. Esse relato
consternou-me. Eu sabia que Durruti avançava, eu conhecia o
progresso da C.N.T.-F.A.I., mas não podia imaginar as coleti-
vidades sociais, as expropriações em massa etc. [...] Quando
me fizeram um esboço do que era o poder do Movimento na
Catalunha, não pude impedir-me de dízer-lhes. isso me parece
impossível; vocês foram demasiado longe e pagaremos muito
caro por isso; agora estou completamente convencido de que
iremos perder a guerra, porque a intervenção estrangeira se
produzirá." 17
Pierre Besnard, que apresenta esta citação, acrescenta o
seguinte comentário:
" É evidente que os comitês (coletivos) foram enfraqueci-
dos por elementos como Prieto, e que as minorias (revolucio-
nárias) foram soterradas pela avalanche que invadiu os sindi-
catos com a sindicalização obrigatória. "18
Como as decisões da C.N.T.arrastavam a minoria, épermi-
tido perguntar-se se a síndícalização obrigatória não foi propo-
sitadamente solicitada para, em seguida, justificar a colabora-
ção.
84 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
ofuncionamento da autogestão, uma vez admitida, era
visto por Prieto da seguinte maneira:
"[Os trabalhadores] elegerão seus representantes nos
locais de trabalho como o fazemos hoje, e eles terão poder de
controlar o trabalho, impor ohorário, criar comitês defábricas,
impor sanções disciplinares àpreguiça eàsabotagem, àimo-
ralidade, estimular erecompensar a diligência eo estudo; eles
farão a propaganda, organizarão grupos de choque, de ativi-
dade eimpregnarão o ambiente comuma moral sadia." (p. 16).
Essa posição é rapidamente constatada na Espanha como
decreto de coletivização na Catalunha, que colocava sob o con-
trole de cima para baixo, do governo catalão, os coletivos indus-
triais:
"Os acordos adotados pelos Conselhos gerais de Indús-
tria serão executivos, terão força de lei, enenhum conselho de
empresa, ou qualquer empresa privada, poderá negligenciar
sua realização sob nenhum pretexto que não seja plenamente
justificado" (Outubro de 1936).
Em janeiro de 1938, um congresso econômico da C.N.T.
decidia uma centralização da economia, adiferenciação desalá-
rios e o controle da mão-de-obra (ou trabalhadores) pelo carnê
de identidade confederal.
Reencontramos uma vez mais o pensamento de Prieto. Os
membros da autogestão terão um carnê deidentidade deprodu-
tor que lhes permitirá adquirir aquilo deque necessitarem. "Nu-
ma seção especial do carnê, os comitês de fábricas e oficinas
constatarão a capacidade de trabalho do indivíduo, sua moral
etc., a fim de que os operários pratiquem em suas assembléias
e reuniões um regime de críticas mútuas, sadias coerções mo-
rais que situarão aqueles que são reservados (reacíos) no traba-
ENSINAMENTOS DA AUTOGESTÃO ESPANHOLA 85
lho, na condição deprodigalizar seus esforços eevitar avergo-
nha deseremacusados desabotadores" (pp. 34-35).
Se, emjulho de1936, Vazquezescrevia: "Ocarnêprofissio-
nal facilita ocontroledoEstado sobretodos os operários eofe-
rece-lheumfichário abundante para utilizar no momento opor-
tuno, para eliminar do estado social aqueles que o íncorno-
dam.':", umano mais tarde, eleaceitava o contrário. A propa-
ganda da direção da C.N.T.sustentava que "nenhum autêntico
trabalhador podeincomodar-se porque selhe exigemtodas as
informações necessárias para verificar sua adesão à causa do
pOVO."20 Enfim, ocongresso econômicodejaneiro de 1938ado-
tava aidéia: cada aderente teria ocarnê no qual "seus antece-
dentes serão registrados (...) deixando àdiscrição do sindicato
afetado as sanções desuspensão provisória detrabalho, expe-
diente quelheera recomendado emúltima instâncía.'?'
Observemos que essas três características previstas por
Prieto e aplicadas pelos dirigentes - iniciativas recusadas às
massas, sacralização do trabalho e carnê de trabalho - são
essenciais ao capitalismo, ao fascismo eao Partido Comunista
(russo, chinês etrotskista). Entretanto, esses três sistemas ado-
tam cada vez mais abertamente slogans que só pertenciam à
sua oposição: críticas da burocracia, necessidade departicipa-
ção das massas, educação moral, incitação moral superior ao
estímulo material. Masemtodos os casos, as críticas defundo:
direito de greve, limitação dos poderes das polícias secretas,
supressão dos privilégios econômicos (alfacracia de Cuba; os
dirigentes têmdireito aalfa-rorneos) são impiedosamente liqui-
dadas.
Isso nos conduz naturalmente auma outra lição, segundo
aqual oreformismo éincapaz decastrar totalmente a oposição,
que representa os trabalhadores que negam as novas classes
dirigentes exploradoras:
86 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
"Estão falando comuma insistência excessiva - ejusta-
mente esses que não fazem nada disso - do sacrifício detodos
nós, da economia e da intensificação da produção (...) Omes-
mo resultado aparece igualmente naquilo que se poderia cha-
mar em termos técnicos: a epidemia de "comitêcracia", essa
nova burguesia formada graças a essas convulsões." (Línea de
Fuego, órgão da Coluna de Ferro, novembro de 1936).
A fratura dirigentes-dirigidos ésignificativa das organiza-
ções demassas. A questão que secoloca imediatamente éseessa
fratura é inevitável. Fora das respostas apriorísticas inerentes
às teorias (sim, é necessária uma elite de origem burguesa -
Lenin, Oeuvres, rv; p. 392; não, as massas podem organizar-se
comos revolucionários - Bakunin, Lettre àun Françaiss, deve-
mos constatar que as primeiras semanas de autogestão desen-
rolaram-se normalmente, sem estados-maiores. Numerosos in-
divíduos egrupos agiam mais ou menos emligação. Eles conti-
nuaram, sobretudo nos coletivos agrários, até o final da guerra.
A recusa de seguir as determinações do congresso econômico de
1938écaracterístico. Alémdo mais, "Los amigos de Durruti", a
imprensa clandestina anarquista oposta aos dirigentes "anar-
quistas" testemunham uma vitalidade contínua.
Tratava-se de um momento privilegiado, ecada umvia da
melhor maneira possível como ajudar a revolução, comou sem
cultura política. '~ maior parte das coletividades de Castela e
Estremadura foi obra de camponeses católicos e socialistas,
inspiradas ou não pela propaganda de militantes anarquistas
isolados. "22
A realidade mostrou oabsurdo do carnê de identidade con-
federal. EmA1corisa, na região de Aragão, quando das tenta-
tivas de 1933, os camaradas tinham disparado contra onotário
da vila (que ficou manco até sua morte). Em 1936, a vila foi
coletivizada e o notário ingressou na coletividade, pois toda a
ENSINAMENTOS DA AUTOGESTÃO ESPANHOLA 87
vila havia aderido. Um ano mais tarde, com o reforço da bur-
guesia, graças ao Partido Comunista, uma minoria depequenos
camponeses quis sair atraindo os outros. Onotário opôs-se aos
seus argumentos: 'Antes, eu tinha uma propriedade que fazia
tantos hectares. Agora, na coletividade, tudo me pertence, esou
bem mais rico". Esse coletivista foi fuzilado em Barcelona, em
1939.
Umindivíduo notoriamente pequeno-burguês pode tornar-
se um partidário, um mártir da autogestão. Emcontrapartida,
um anarco-sindicalista sincero, um ministro anarquista pode
tornar-se um bom funcionário sindical num regime democrá-
tico-totalitário (J uan López, membro desde seu retorno à Espa-
nha, em 1966). A realidade não se limita às fichas de polícia,
mesmo revolucionárias, e a responsabilidade coletiva (típica
das religiões primitivas) éapenas a negação de uma mudança,
de iniciativas de um grupo ou de uma classe social.
Todavia, aconsciência eavisão dos opositores aos adversá-
rios da autogestão, franquistas e republicanos, não foram sufi-
cientes. Oexemplo espanhol mostra a impossibilidade das alian-
ças políticas. A autogestão não tem como não ser destruída por
aqueles que não a aceitam. Ela deve, pois, vencê-Ios,
Para isso, épreciso dar um único sentido à autogestão. Os
próprios trabalhadores devem elaborar relações que eles domi-
nam em relação ao trabalho, à organização social, a partir de
dois elementos: a revogabilidade permanente e a rotatividade
das tarefas.
Uma definição apartir dagestão que seria deixada emparte
ou totalmente a representantes dos trabalhadores éapenas um
remake da sociedade atual; Duelos no lugar de Pompidou, fari-
nhas do mesmo saco. A Iugoslávia eaArgélia são umbelo exem-
plo de uma estrutura de partido único camuflada de gestão
democrática. Basta ver a natureza das críticas dos trabalhado-
res, em nível da exploração cotidiana, para dar-se conta da na-
88 AUTOGESTÁO E ANARQUISMO
tureza desses regimes. Qualquer outro ponto de vista, como a
acumulação primitiva indispensável realizada pelo Estado popu-
lar, os imensos progressos no campo da educação edo nível de
vida, são apenas argumentos para arrivistas eintelectuais com
dificuldade para justificar suas vantagens, da mesma forma que
há algumas décadas as mesmas razões justificavam os fascis-
mos italiano ealemão, a tcheka de Lenin, os crimes de Stalin ...
A principal lição da revolução espanhola é sem nenhuma
dúvida que a autogestão é uma necessidade que aparece cada
vez mais nos corflitos patrões/trabalhadores. Como explicar que
aautogestão surja emcasos tão dessemelhantes quanto aEspa-
nha de 1936, a França em 1968 e a Polônia em 1970?
As condições sociais eeconômicas são diferentes, da mes-
ma forma os períodos históricos. Entretanto, um fator essencial
écomum: avida dos trabalhadores numa sociedade industrial.
A fábrica e a oficina constituem seu único universo. Os traba-
lhadores sentem necessidade de uma vida mais digna e supor-
tável, sem a canga cotidiana de uma regulamentação absurda e
burocrática no trabalho e no salário, eem todos os aspectos da
vida, restrições das quais estão isentas as classes privilegiadas.
DePequim a Nova Iorque, é metrô, trabalho e cama.
Os trabalhadores, confrontados todos os dias no trabalho,
desejam controlá-lo. Cada momento de crise oferece-lhes uma
possibilidade de materializar suas reivindicações, obscuras, pois
elas mesclam o sonho de uma vida melhor à concretude da
mudança social. Tendo em vista que o trabalho é o primeiro
obstáculo a resolver, naturalmente os trabalhadores encontram
a solução de organizar eles próprios as tarefas, a autogestão.
Ao mesmo tempo, eles buscam apagar a hierarquia que
sabem ser a causa de sua exploração e de seu fracasso, se a
deixarem reínstalar-se. Daí a pergunta: "O que fazer para que
todos os dirigentes não se tornem reis sem coroa?" (um leitor
de Zycie Literaskie, citado por Le Monde, em 25/01/71).
ENSINAMENTOS DA AUTOGESTÃO ESPANHOLA 89
Pergunta járespondida por Bakunin hámais deumséculo:
..... essaminoria [ditadura doproletariado], dizem-nos osmar-
xistas, será composta detrabalhadores. Sim, deex-trabalha-
dores, talvez, mas tão logo se tornem governantes ou repre-
sentantes dopovo, cessarão deser trabalhadores desua altura
estatista. Eles não mais representarão o povo, mas a si mes-
mos eàs suas pretensões de querer governar o povo: quem
duvida disso nada conheceda natureza humana" (Estatismo
eAnarquia, 1873).
Esse espontaneísmo não poderia ocultar os problemas,
numerosos emuito diferentes.
Comochegar àautogestão? Parece-nos quesóuma organi-
zação autogerida possa realmente fazer nascer a autogestão,
como na Espanha, onde o anarco-sindicalismo, malgrado sua
decomposição, foi uma magnífica escola, demonstrando que,
sempreparação minuciosa, aautogestão não podedefender-se
por muito tempo. Nosoutros casos, ela foi assaz rapidamente
recuperada pelo poder, conquanto a maioria dos trabalhadores
não identifique suas aspirações comas fórmulas ocas que se
lhes propõem.
Comoaplicar a autogestão? Osgrandes centros urbanos
atuais são autogeríveis? Não, assegurava Prietopara ocaso de
Novalorque. Será preciso tomar as decisões econômicas apli-
cando alei damaioria? Tantos problemas aprever semesquecer
as adaptações evidentes chegado omomento, poisarealidade é
simultaneamente mais complexa e mais simples do que as vi-
sões futuristas.
A autogestão espanhola continua a ser o caso mais pro-
fundo, queaindaviveemmuitos ex-coletivistas, cujaexperiência
deveser registrada antes quetodos eles morram. Essetrabalho
éumdever tanto para a história social localmente espanhola
quanto para oproblema universal (desejemo-lo) daautogestão.
90 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
Notas:
1. Brey Gérard, Historiay leyenda de Casas Vidas, Bilbao, 1976.
2. Maidanik, lspanski proletariat v natsionalno-revolutsionivoine, Moscou,
1960, p. 35.
3. Revolución y contrarevolución en Espana, Paris, 1966, pp. 243-244
(epílogo escrito em 1964).
4. RoyoMacario, Como implantamos el comunismo libertario en Mas de Ias
Matas, p. 28.
5. Conze, Spain today - revolution and counter-revolution, Londres, 1936,
p. 100. J esus Hernandez, Negroy Rojo - Los anarquistas en Ia revolución
espaiiola, Madri, 1946, p. 127. J oaquim Maurin, op. cit., p. 126.
6. J . Toryho, Timon, 7-1938, p. 208.
7. Azaretto, Las pendientes resbaladizas, Montevidéu, 1939, p. 107.
8. Mintz, Lautogestion dans l'Espagne révolutionnaire, p. 53.
9. Mintz, op. cit., p. 76.
10. Ver o belíssimo capítulo de Bolloten, La revolución espaiiola, México,
1962.
11. Reproduzido emPeirats, La c.s. T. en Ia revolución espanola, r, p. 243.
12. Peirats, op. cit., lI, p. 78.
13. Ver Mintz, op. cit., Cruells "Los hechos de mayo", Barcelona, 1970.
14. Ne Franco ne Stalin, Milão, 1952, traduzido em" L'Autogestíon, l'Etat
et IaRévolution", Noir et Rouge.
15.lbid.
16. Desde então, houve a publicação de J osé Peirats Les anarchistes es-
pagnols, révolution de 1936et lutte de toujours, Toulouse, 1989; Richards
Vernon, Enseignement de Ia révolution espagnole, 10/18, 1975; reedição
Acratíe, 1997.
17. El anarquismo en Ia lucha política, p. 6.
18. Universo, n. 5(traduzido do espanhol).
19. Solidaridad Obrera, 11/07/1936.
ENSINAMENTOS DA AUTOGESTÃO ESPANHOLA
91
20. Nosotros, 14/10/1937, p. 6.
21. Peirats, op. cit., p. 34.
22. Leval, op. cito
RESULTADOS DA COLETIVIZAÇÃO:
CONCLUSÕES E ESTIMATIVAS GERAIS 1
Antes detudo éprecisoressaltar quequase todas as infor-
mações vêmda C.N.T.,embora a V.G.T. tenha tido igualmente
tanto oumais importância emmuitas províncias. Nossos cálcu-
los são, por conseqüência, provisórios emínimos.
Emseguida, devemos observar a grande ausência denú-
meros concernentes aoconjunto daautogestão industrial, nota-
damente aindústria deguerra.
Apesar detudo, podemos ordenar nossos dados:
Andaluzia
Onúmero mínimo decoletividades éde 120, eo máximo
de300, considerando uma média de210 com300 pessoas em
cada uma, teríamos 63.000 pessoas.
Aragão
Onúmero de450 coletividades com300.000 habitantes é
aceitável. Alémdisso, a V.G.T. tinha uma certa força, com31
coletivos emHuesca.
Santander
Osnúmeros citados, ainda quemínimos, podemser consi-
derados: uma centena de coletivos e 13.000 pessoas. Para as
Astúrias, nada temos.
94 AUTOGESTÃO E ANARQUISMO
Catalunha
Houve no mínimo 297 coletividades agrícolas eno máximo
400. Se considerarmos 350 com 200 pessoas em média, temos
70.000 membros. Para a autogestão industrial, tendo emvista
a lei, o conjunto dos operários era concernido, mas o desem-
prego era importante. Considerando 80%dos 700.000 operários
que havia na província, teríamos 560.000 pessoas, isto é, com
a família, no mínimo 1.020.000.
Centro
240 coletivos agrícolas com 22.664 famílias, quer dizer,
um mínimo de 67.992 pessoas; e sem dúvida, o mesmo tanto
de coletivos ugetistas ede membros. Haveria, assim, aproxima-
damente 176.000 pessoas implica das na autogestão agrícola.
Numerosas coletividades industriais existiam na capital e em
certas cidades; um mínimo de 30.000 pessoas parece lógico.
E stremadura
onúmero de 30 coletivos com200 pessoas, ou seja, 6.000,
deve ser o máximo para a C.N.T.e também para a U.G.T.
Levante
Nossa estimativa atual é de 503 coletivos no mínimo na
agricultura, abrangendo 130.000 pessoas. Na indústria, o nú-
mero mínimo e hipotético de 30.000, bem como no Centro, pa-
rece razoável.
T otal
758.000 na agricultura e 1.080.000 na indústria, oque nos
dá, por conseqüência, 1.838.000, número mínimo.
RESULTADOS DA COLETIVIZAÇÃO: CONCLUSÕES E ESTIMATIVAS GERAIS 95
Essa estimativa corrige aquela que publicamos em 1970
(2.440.000 e 3.200.000), e corresponde àquela outra de v. Ri-
chards (1.500.000), mas se opõe radicalmente às de G. Leval,
três milhões (1952) e ultimamente seis, sete, oito milhões. O
método de cálculo empregado é o seguinte: demonstrar a efi-
cácia econômica implica apresentar fatos, resultados; seu im-
pacto imediato concerne às famílias dos assalariados e dos
intervenientes (benévolos ou não). A fim de evitar todo triun-
falismo, escolhi definir a família de cada um como equivalente
aquatro pessoas, daí amultiplicação por três. Uma outra visão,
mais aberta, poderia ampliar a família espanhola dos anos 30
aos filhos, aos ascendentes ealguns agregados, quer dizer, seis
ou sete pessoas, o que emtempo deguerra (penúria, refugiados)
épossível. Talvez seja o que explica avisão de Leval".
1 Excerto deAutogestíon et anarcho-syndicalisme (anaiyses et critiques
sur l'Espagne 1931-1990). Paris, Éditíons C.N.T.Région partsíenne, 1999,
pp.45-46.
2 Leva!, L'Espagne libertaire, Paris, Tête de Feuille, 1972, p. 12.