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Superior Tribunal de Justiça

HABEAS CORPUS Nº 62.417 - SP (2006/0150070-8)

RELATÓRIO
O EXMO. SR. MINISTRO GILSON DIPP (Relator):
Trata-se de habeas corpus , com pedido de liminar, contra acórdão do Tribunal
de Justiça do São Paulo, que desproveu o recurso de apelação interposto em favor de LÚCIA
DANIELA, mantendo a sentença condenatória.
A paciente foi condenada à pena de 02 anos e 11 meses de reclusão, em regime
inicialmente fechado, como incursa nas sanções descritas no art. 155, § 4º, inciso IV, por duas
vezes, c/c art. 70, caput, ambos do Código Penal (fls. 19/25).
Irresignada, a defesa interpôs apelo perante a Corte de origem, pugnando pela
absolvição da ré, em face da atipicidade da conduta a ela atribuída, pois as mercadorias
furtadas teriam valor ínfimo, atraindo o princípio da insignificância.
A Corte de origem desproveu o recurso, por entender que tal princípio somente
seria aplicável ao delitos de furto simples e de estelionato (fls. 66/70).
Daí o presente writ , no qual são reiterados os fundamentos expendidos na
irresignação de origem, pugnando-se pela aplicação do princípio da insignifância à espécie e
pela conseqüente absolvição da ré.
Sustenta-se, para tanto, que os bens que a paciente intentava subtrair não
teriam relevância econômica.
Alega-se, ainda, que fato somente pode ser considerado típico quando presente
não apenas a tipicidade formal, mas igualmente a material, a qual, no delito de furto, é
caracterizada pela capacidade de afetar o patrimônio da vítima.
As informações foram prestadas às fls. 85/86.
A Subprocuradoria-Geral da República manifestou-se pela denegação da
ordem (fls. 102/107).
É o relatório.
Em mesa para julgamento.

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Superior Tribunal de Justiça
HABEAS CORPUS Nº 62.417 - SP (2006/0150070-8)

VOTO
O EXMO. SR. MINISTRO GILSON DIPP (Relator):
Trata-se de habeas corpus , com pedido de liminar, contra acórdão do Tribunal
de Justiça do São Paulo, que desproveu o recurso de apelação interposto em favor de LÚCIA
DANIELA, mantendo a sentença condenatória.
A paciente foi condenada à pena de 02 anos e 11 meses de reclusão, em regime
inicialmente fechado, como incursa nas sanções descritas no art. 155, § 4º, inciso IV, por duas
vezes, c/c art. 70, caput, ambos do Código Penal (fls. 19/25).
Irresignada, a defesa interpôs apelo perante a Corte de origem, pugnando pela
absolvição da ré, em face da atipicidade da conduta a ela atribuída, pois as mercadorias
furtadas teriam valor ínfimo, atraindo o princípio da insignificância.
A Corte de origem desproveu o recurso, por entender que tal princípio somente
seria aplicável ao delitos de furto simples e de estelionato (fls. 66/70).
Daí o presente writ , no qual são reiterados os fundamentos expendidos na
irresignação de origem, pugnando-se pela aplicação do princípio da insignifância à espécie e
pela conseqüente absolvição da ré.
Sustenta-se, para tanto, que os bens que a paciente intentava subtrair não
teriam relevância econômica.
Alega-se, ainda, que fato somente pode ser considerado típico quando presente
não apenas a tipicidade formal, mas igualmente a material, a qual, no delito de furto, é
caracterizada pela capacidade de afetar o patrimônio da vítima.
Passo à análise da irresignação.
O impetrante sustenta que a conduta da ré não se subsume ao tipo do art. 155
do Estatuto Repressor, em face do pequeno valor econômico das mercadorias por ela
subtraídos, devendo ser aplicado, à espécie, o princípio da insignificância.
Eis o teor da exordial acusatória:
"Consta do incluso inquérito policial (IP nº 050.02.033027-8),
que no dia 02 de maio de 2002, por volta das 15:20 horas, dentro do
estabelecimento comercial sito à Avenida Santa Inês, nº 3912, nesta cidade de
comarca, a indiciada LÚCIA DANIELA, em concurso, previamente ajustada e
com unidade de propósitos com a indiciada JOSEMARIA OLIVEIRA, em
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concurso material subtraíram para elas do referido comércio 02 (dois) kilos
de arroz, 01 (um kilo) de feijão e um pacote de fralda descartável e de Maria
de Lourdes Uglar de Lima uma sacola contendo 01 (um) kilos de açúcar, 01
(um) pacote de coco ralado e 01 (um) kilo de laranjas, genericamente
avaliados na folha 21 dos autos.
Segundo se apurou as denunciadas ingressaram no mencionado
estabelecimento comercial simulando-se clientes.
Porém, de um modo clandestino, subtraíram os bens do
referido lugar, acondicionando-os em uma sacola adredemente preparada
para, depois, ganharem fuga.
Na saída do estabelecimento, depararam-se com a sacola
pertencente a vítima Maria de Lourdes no chão, oportunidade em que, ainda
ajustadas, espojaram-na, para, finalmente se colocarem em fuga.
A vítima Maria de Lourdes dando pela falta de seus bens, saiu
a rua e, algo depois, deparou-se com as indiciadas que estavam, ainda, na
posse de seus bens.
Foi acionada a polícia para esclarecer os crimes,
especialmente porque, somente em revistas, descobriu-se o delito antecedente,
motivando a prisão de ambas, em situação de flagrância ainda.
Isto posto, denuncio a esse Juízo com incursas nas penas
previstas noas arts. 155, § 4º, inciso IV, em combinação com o artigo 29,
ambos do Código Penal " (fls. 09/10).
Com efeito, embora a impetração não tenha sido instruída com o referido laudo
de avaliação das mercadorias, verifica-se que mesmo que a paciente tivesse obtido êxito na
tentativa de furtar os bens, tal conduta não teria afetado de forma relevante o patrimônio das
vítimas, atraindo a incidência do princípio da insignificância, excludente da tipicidade.
De fato, a atipicidade da conduta merece ser reconhecida, a fim de impedir que
a paciente sofra os efeitos nocivos do processo penal, assim como em face da inconveniência
de se movimentar o Poder Judiciário para solucionar tal lide.
A corroborar tal entendimento, trago à colação o seguinte julgado desta Corte:
" CRIMINAL. TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. FURTO
SI MPLES. Í NFI MO VALOR DA QUANTI A SUBTRAÍ DA PELO
AGENTE. I NCONVENI ÊNCI A DE MOVI MENTAÇÃO DO PODER
J UDI CI ÁRI O. DELI TO DE BAGATELA. PRI NCÍ PI O DA
I NSI GNI FI CÂNCI A. ORDEM CONCEDI DA.
Faz-se mister a aplicação do princípio da insignificância,
excludente da tipicidade, se evidenciado que a vítima não teria sofrido dano
relevante ao seu patrimônio – pois os valores, em tese, subtraídos pelo
paciente representariam quantia bem inferior ao salário mínimo.
Inconveniência de se movimentar o Poder Judiciário, o que
seria bem mais dispendioso, caracterizada.
Considera-se como delito de bagatela o furto simples
praticado, em tese, para a obtenção de quantia de ínfimo valor monetário,
consistente em apenas R$ 13,00 (treze reais) – hipótese dos autos.
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Deve ser determinado o trancamento da ação penal instaurada
em desfavor do paciente, por ausência de justa causa.
Ordem concedida, nos termos do voto do Relator."
(HC 27. 218/MA,de minha relatoria, DJ de 25/08/2003).
"PRI NCÍ PI O DA I NSI GNI FI CÂNCI A. TRANSGRESSÃO
PENALMENTE I RRELEVANTE. ORDEM CONHECI DA DE OFÍ CI O E
CONCEDI DA.
De acordo com a jurisprudência deste Tribunal, o princípio
da insignificância, envolvendo a ninharia do prejuízo e englobando a
irrelevância da transgressão, impede que se dê vazão aos efeitos nefastos do
procedimento penal.
I n casu, tendo sido a Paciente denunciada por tentativa de
furto, onde a res furtiva restou avaliada em R$ 2,65 (dois reais e sessenta e
cinco centavos), correspondente a produtos de higiene pessoal, mais do que
patente a desnecessidade da aplicação penal, em face do inexpressível ataque
ao bem jurídico tutelado.
Ordem concedida de ofício para o fim de anular a decisão
condenatória e trancar a ação penal por absoluta falta de justa causa".
(HC 28796/SP; Quinta Turma, Rel. Min. JOSÉ ARNALDO
DA FONSECA DJ 28.10.2003).
Ademais, as circunstâncias de caráter pessoal, tais como reincidência e maus
antecedentes, não devem impedir a aplicação do princípio da insignificância, pois este está
diretamente ligado ao bem jurídico tutelado, que na espécie, devido ao seu pequeno valor
econômico, está excluído do campo de incidência do direito penal.
Nesse sentido:
"PENAL. RECURSO ESPECIAL. FURTO SIMPLES
TENTADO. PRI NCÍ PI O DA I NSI GNI FI CÂNCI A.
I - No caso de furto, para efeito da aplicação do princípio da
insignificância é imprescindível a distinção entre ínfimo (ninharia) e pequeno
valor. Este, ex vi legis, implica, eventualmente, em furto privilegiado; aquele,
na atipia conglobante (dada a mínima gravidade).
I I - A interpretação deve considerar o bem jurídico tutelado e
o tipo de injusto.
I I I - No caso concreto, o valor da res furtiva equivale a uma
esmola, configurando, portanto, um delito de bagatela.
I V - Circunstâncias de caráter eminentemente pessoal, tais
como reincidência e maus antecedentes, não interferem no reconhecimento
do princípio da insignificância.
Recurso especial desprovido".
(REsp 827.960/PR,Quinta Turma, Rel. Min. FELIX FISCHER,
DJ 18/12/2006).
Por fim, a res furtiva aqui considerada - alimentos e fraldas descartáveis-,
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caracteriza a hipótese de furto famélico.
Diante do exposto, concedo a ordem para anular a decisão condenatória e
trancar a ação penal por falta de justa causa.
É o voto.
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