You are on page 1of 4

1

UNIDADE II - PERSPECTIVAS TEÓRICAS



2.1. Teorias contemporâneas da economia política internacional
Sistema Mundo Moderno (SMM)
Tese fundamental: a história e o fundamento da economia política internacional só
podem ser entendidos em termos do “sistema mundial moderno”, definido por
Wallerstein como “uma unidade com uma única divisão do trabalho e muitos sistemas
culturais”.
Qualquer sistema social deve ser visto como uma totalidade.
O “mundo” é uma unidade estrutural que representa a unidade e o nível de análise
apropriados. O mundo moderno precisa ser compreendido como um “sistema” no qual
todas as várias partes da estrutura se relacionam entre si necessária e funcionalmente e
formam um todo que atua segundo um conjunto de leis econômicas.

Seus proponentes afirmam que a tarefa primordial dos economistas políticos é a análise
das origens, da estrutura e do funcionamento desse sistema.


A teoria do SMM baseia-se na teoria marxista da realidade social. Mas em vários
aspectos se distancia do marxismo clássico.

A teoria aceita o primado da esfera econômica e da luta de classes sobre o conflito
político e de grupos como determinante da conduta humana. Mas o marxismo
tradicional focaliza a estrutura e a luta de classes, enquanto a SMM fala de uma
hierarquia internacional e de uma luta entre os Estados e as classes. Em segundo lugar, a
SMM fala de um capitalismo como fenômeno global.
Entretanto, enquanto o marxismo refere-se a uma economia internacional produzindo
desenvolvimento, ainda que desigual, a SMM assume um sistema mundial já unificado,
2

composto por uma hierarquia de Estados dominados por classes sociais, unidos por
forças econômicas e produzindo subdesenvolvimento em toda periferia dependente.

Por último, a economia mundial é caracterizada por contradições intrínsecas, levando a
crises inevitáveis e sua extinção. O capitalismo, segundo o marxismo clássico, tem uma
missão histórica de desenvolver o mundo, mas os teóricos do SMM argumentam que o
sistema capitalista mundial contribui para o subdesenvolvimento dos países periféricos.
Para o SMM (assim como os marxistas) tanto o Estado nacional dos nacionalistas como
o mercado dos liberais, derivam de forças econômicas mais importantes. Não são atores
independentes: são produtos de uma época particular e estão incrustados em uma
matriz social mais ampla.
Assim, entender a EPI é entender a natureza e a dinâmica desta realidade básica do
SMM.
Apesar das divergências entre seus proponentes, a ideia central é que o mundo
econômico contém um centro dominante e uma periferia dependente que funcionam de
modo integrado. Neste caso, os mesmos mecanismos que promovem desenvolvimento
no centro, provocam subdesenvolvimento econômico e político na periferia.

Os teóricos do SMM pensam no centro e periferia intimamente ligados. Os setores
moderno e tradicional relacionam-se funcionalmente.
A periferia é a fonte da riqueza do centro. O centro expropria o excedente econômico
dos seus satélites.
A economia internacional funciona para distorcer as economias periféricas. A divisão
do trabalho impede o desenvolvimento da periferia.

Quanto maior o progresso da economia mundial mais difícil para periferia se
desenvolver e mais enérgico o esforço revolucionário para sair dessa situação.
De acordo com Wallerstein, os componentes da divisão internacional do trabalho são
três camadas de Estados ordenados hierarquicamente e diferenciados pela posição que
conseguiram obter no mercado: centro, semiperiferia e periferia. O núcleo tende a se
3

especializar na indústria; a periferia produz matéria-prima e a semiperiferia situa-se
entre esses dois extremos. A riqueza vai da periferia ao centro.
A semi-periferia é uma criação deliberada pelo centro (Brewer, 1990, p.177). Joga um
papel importante na establização política do sistema, como serve de escoadouro de
industriais do centro em busca de alternativas mais rentáveis.
A colocação original de um Estado nessa divisão internacional do trabalho determina se
um Estado é hard ou soft. Os primeiro podem resistir às forças externas do mercado; o
segundo, não.
O sistema internacional foi inaugurado nos séculos XVI e XVII, com características que
permaneceram imutáveis ao longo dos séculos.
Uma das contradições do sistema é o problema do subconsumo.
Ainda assim, no longo prazo, o capitalismo será extinto.
Duas críticas são feitas a abordagem do sistema mundo (Cox, 1981, p.206). i) sua
tendência a subestimar o papel do Estado por considerá-lo apenas numa posição
derivada do sistema mundo (estados fortes no centro, estados fracos na periferia). ii)
ainda que não intencional existe um viés de manutenção desse sistema.



Teoria da Estabilidade Hegemônica
Formulada inicialmente por Charles Kindleberger.
Uma economia mundial liberal precisa de uma economia hegemônica para manter a
ordem do sistema internacional.
O enfraquecimento da economia hegemônica também enfraquece o sistema
internacional.
A teoria está relacionada com a existência de uma economia internacional baseada nos
preceitos do livre-mercado. Sem uma economia hegemônica, o sistema não pode
florescer. Porém, a simples existência de um poder hegemônico não basta para garantir
o desenvolvimento de uma economia internacional liberal. É preciso também que a
potência hegemônica tenha um compromisso com os valores do liberalismo.

4

Hegemonia sem um compromisso liberal com a economia de mercado levará,
provavelmente, a um sistema imperial e à imposição de restrições políticas e
econômicas às potências menores.
Outros Estados poderosos devem também ter interesse na ampliação das relações de
mercado. Assim, três pré-requisitos são necessários para emergência e expansão de um
sistema internacional de mercado liberal: hegemonia, ideologia liberal, interesses
comuns.

Segundo Kindleberger, o sistema hegemônico é intrinsecamente instável. Por motivos
internos e externos perde a sua vontade e capacidade de administrar o sistema. Há uma
contradição inerente na economia mundial liberal: o funcionamento do sistema de
mercado transforma a estrutura econômica e promove a difusão do poder, solapando os
seus alicerces políticos.