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Latusa digital – ano 4 – N° 30 – setembro de 2007




O uso do objeto
*


Marie-Hélène Brousse
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“O uso do objeto”, este título é um duplo convite: para enfatizar a iniciativa do
analisando e, ao mesmo tempo, empenhar o analista a se agarrar na experiência
do tratamento, determinada pelas coordenadas subjetivas do analisando. Ele
propõe ainda uma aproximação original da clínica da transferência, particularizada
pela ênfase dada ao psicanalista funcionando na experiência, e não, na psicanálise
enquanto prática da palavra. Como lembrava Lacan, o discurso analítico, esse laço
social novo, é “criador” de um dispositivo, o qual qualifica de “lingüístico” e
ordenado segundo dois pólos: o dizer e a escrita
1
. É um dispositivo “cujo real toca
o real”. Coloquemos que é através de se servir do psicanalista que o dispositivo
analítico passa da realidade em jogo em todo laço social entre dois parceiros,
singularizado pelas práticas sociais historicamente definidas, para o Real inédito
que surge dessa nova forma de laço.

Curioso objeto...

Servir-se de não quer dizer servir a, expressão que traz consigo tanto a perspectiva

*
Publicado na Revista Quarto n° 85. Bélgica: ECF, 2006. Intervenção no Congresso da NLS, Geneve,
2004.

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Analista Membro da Escola – AME. Membro da École de la Cause Freudienne (ECF), da Escuela de la
Orientación Lacaniana (EOL), da New Lacanian School (NLS) e da Associação Mundial de Psicanálise
(AMP).

1
LACAN, J. “ ... ou pior”. Em: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, pp. 545-547.





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do devotamento cristão da ajuda samaritana, quanto a versão cidadã das Luzes ou,
ainda, as novas formas de ajuda social, mais ou menos obrigatória. Lembramo-nos,
também, de Dora, que abandona Freud, dando-lhe férias do mesmo modo que
agraciamos um doméstico de cujos serviços não estamos mais satisfeitos. Servir-se
de nos envia, antes de tudo, à perspectiva das sociedades da modernidade, tal
como J.-A. Miller a definia no ano passado a partir de estudos sociológicos
americanos, partilhados entre um setor de criação e de invenção e um setor de
serviços que vai do analista àquele que passeia com o cachorro, passando pela
baby-sitter.

Lacan, em O avesso da psicanálise, que é sob todos os aspectos um seminário
sobre a pós-modernidade, ao inventar o neologismo “latusa”, propõe uma categoria
conceitual que define, por meio dos objetos em uso na modernidade, uma nova
maneira de gozo
2
. A emergência do novo modo de gozo contido em “latusa”
conserva a hegemonia do discurso da ciência no domínio da produção e das trocas
que impõem os imperativos de quantificação e de reduplicação. Os objetos assim
propostos ao consumidor mundial pelo discurso capitalista têm por característica
serem idênticos uns aos outros, ready-made, de utilização fácil em função da
indicação de uso “no verso do pacote”. Separados de todo savoir-faire tradicional
que era, antigamente, a condição de uso de um objeto, eles estão ligados a um
modo de emprego definido pelo procedimento estandardizado e servem a uma
satisfação imediata. Eles divertem e contribuem para a extensão do domínio do
dejeto. Ora dejeto ou, ainda, “rebotalho”, esse é o valor concedido por Lacan ao
analista no final do tratamento do analisando
3
. A perspectiva visionária de Lacan,
no último período de seu ensino, o levou a pensar o analista como um precursor
desse tipo de objeto proposto no mercado terapêutico, desvelando uma lógica de
consumo que a evolução das terapias “psi” confirma hoje. Como testemunham as
exigências de quantificação da duração em termos de resultados da modificação
dos comportamentos, a normo praxis dos tratamentos e sua evolução em direção a

2
LACAN, J. O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992,
p. 153.

3
LACAN, J. “Nota italiana”. Em: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 313.


3
procedimentos virtuais... Todas essas exigências fazem do “psi” um objeto corrente
de consumo de massa, intercambiável, modificando, assim, a produção da
transferência.

Aquilo que fora situado pelo estruturalismo lévi-straussiano no domínio da
antropologia a propósito das mulheres, o duplo estatuto de sujeito de troca (no
sentido de ser assujeitado) e de objeto trocado, é generalizado a todo ser humano.
Para dizê-lo em expressões de linguagem corrente, os homens-objetos, as
crianças-objetos se juntaram às mulheres-objetos. Ocorre que Lacan identificou o
analista ao feminino, levando em conta o traço de sua função de objeto no
dispositivo. Convém, porém, diferenciar a mulher como objeto na perspectiva
estruturalista e o objeto na perspectiva pós-estruturalista que prevalece, tal como
demonstrou J.-A. Miller no último ensino de Lacan. Se o objeto, chamemo-lo
estruturalista, é antes de tudo determinado pelo seu lugar numa lógica de troca – e
dessa forma, fica sob o império do significante, do valor que rege e unifica essas
trocas –, o objeto pós-estruturalista, “latusa”, é definido por seu único valor de
gozo: objeto escolhido de troca. É o reinado do kleenex, do descartável.

O psicanalista, como todo “psi”, está destinado a se tornar uma “latusa”?

Dificilmente avaliável, o analista do qual o analisando se serve não é, entretanto,
intercambiável. Não é tampouco duplicável, produzido em série, como
testemunham as questões ligadas à sua formação que escapa à máquina
universitária. Ele é o produto singular de seu próprio tratamento. Há, portanto, no
discurso analítico, como nos outros discursos, uma transformação do sujeito falante
em objeto, mas este se singulariza por não ser redutível às modalidades de sua
utilização ou de seu funcionamento. É a mola da transferência. Não existe manual
de usuário do objeto psicanalista, ainda que esta seja uma demanda muito
freqüente das pessoas que começam uma análise. “Diga-me: como fazer?”

Esse estatuto do objeto diferencia-o também do cientista, o qual Lacan sublinha


4
Idem, 312.

4
que “produz o saber a partir do semblante de se fazer sujeito dele”
4
. É verdade que
a experiência analítica produz saber, mais precisamente, o inconsciente como
saber, contudo, esse saber é apenas produzido na condição de suposição que afeta
o sujeito. Essa suposição de saber repousa sobre a função de objeto realizada pelo
psicanalista no dispositivo. O inconsciente não é um saber semelhante ao saber
científico. Ele é apreendido no gozo da transferência a um Outro como objeto
interno. O psicanalista produz saber na condição de se fazer objeto, implicando
que, contrariamente ao discurso científico que não comanda uma escolha de gozo
específico, o discurso analítico não amarra o saber, senão em torno da colocação
em ato de um dispositivo de gozo ao qual o analista dá suporte.


O valor do objeto psicanalista

Quando um analisando procura um analista está geralmente longe de pensar que
vai se servir dele, de preferência, gostaria de dispensá-lo. Encontramos aqui um
binário fecundo, construído e utilizado por Lacan diversas vezes em contextos
diferentes, notadamente a propósito do nome do pai: a fórmula é “dispensá-lo na
condição de se servir dele”.
5


O analisando procura um analista porque lhe supõe um saber e uma autoridade.
Assim o analista é colocado de início na posição do Outro simbólico, estrutura
descontinuísta de presença-ausência que ele encarna de acordo com as próprias
regras do dispositivo. Desde então existe ordem, da demanda, do amor e da
frustração. Porque não responde a demanda de amor endereçada ao sentido, o
analista reproduz na realidade da transferência a falta que transformou o Outro
simbólico em Outro real. A posição de objeto ocupada pelo analista está, portanto,
ligada ao fato de que ele se recusa a ocupar a posição de pai do dom, de pai
edipiano. O dispositivo analítico produz um corte entre o saber inconsciente, tal
como se desdobra no Outro dos significantes sob a forma da necessidade, que não
cessa de se escrever, e aquilo que, do trabalho do inconsciente, não pode se


5
LACAN, J. O seminário, livro 23: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005, p. 136.

5
escrever: o modo de gozo. Podemos dizer que este corte é ilustrado pela fantasia.

Pensar o uso do psicanalista implica diferenciar a função do Outro decifrável e
necessária, da função de objeto contingente ou impossível. Ora, o psicanalista,
tornando-se um outro real através de sua ausência de resposta no nível do sentido,
se oferece por meio de sua presença real para “completar o lote dos signos em que
se joga o fatum humano”.
6



NP S
1
A
s
A
r
relação (- φ)
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a
A
/ $
analista



Esse objeto faz obstáculo à relação e, portanto, à escrita. Nos Outros Escritos,
Lacan menciona a possibilidade de um “amor mais digno”, um amor que “dispensa
a relação”
7
. Eu proponho, portanto, pensar que se servir do analista é colocar o
objeto no lugar da relação. Lá onde estava o outro parceiro edipiano, vem o objeto
que, no cenário perverso da fantasia, assegura o gozo do sujeito. Servir-se do
analista como objeto permite passar do Outro da necessidade pulsional ao Outro
que não existe, ao gozo. É fazer a prova no dispositivo analítico de que o amor de
qualquer relação não se sustenta, senão do traço de um signo de gozo que marcou
o corpo.

Tradução: Sara Perola Fux


6
LACAN, J. “... ou pior”, op. cit., p. 548.


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7
LACAN, J, “Nota italiana”, op. cit., p. 315.

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