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L736c LINCK, José Antônio G.

Caderno de Criminologia Dom Alberto / José Antônio G. Linck. –
Santa Cruz do Sul: Faculdade Dom Alberto, 2010.
Inclui bibliografia.

1. Direito – Teoria 2. Criminologia – Teoria I. LINCK, José Antônio G. II.
Faculdade Dom Alberto III. Coordenação de Direito IV. Título

CDU 340.12(072)


Catalogação na publicação: Roberto Carlos Cardoso – Bibliotecário CRB10 010/10

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APRESENTAÇÃO

O Curso de Direito da Faculdade Dom Alberto teve sua semente
lançada no ano de 2002. Iniciamos nossa caminhada acadêmica em 2006,
após a construção de um projeto sustentado nos valores da qualidade,
seriedade e acessibilidade. E são estes valores, que prezam pelo acesso livre
a todos os cidadãos, tratam com seriedade todos processos, atividades e
ações que envolvem o serviço educacional e viabilizam a qualidade acadêmica
e pedagógica que geram efetivo aprendizado que permitem consolidar um
projeto de curso de Direito.
Cinco anos se passaram e um ciclo se encerra. A fase de
crescimento, de amadurecimento e de consolidação alcança seu ápice com a
formatura de nossa primeira turma, com a conclusão do primeiro movimento
completo do projeto pedagógico.
Entendemos ser este o momento de não apenas celebrar, mas de
devolver, sob a forma de publicação, o produto do trabalho intelectual,
pedagógico e instrutivo desenvolvido por nossos professores durante este
período. Este material servirá de guia e de apoio para o estudo atento e sério,
para a organização da pesquisa e para o contato inicial de qualidade com as
disciplinas que estruturam o curso de Direito.
Felicitamos a todos os nossos professores que com competência
nos brindam com os Cadernos Dom Alberto, veículo de publicação oficial da
produção didático-pedagógica do corpo docente da Faculdade Dom Alberto.

Lucas Aurélio Jost Assis
Diretor Geral

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PREFÁCIO

Toda ação humana está condicionada a uma estrutura própria, a
uma natureza específica que a descreve, a explica e ao mesmo tempo a
constitui. Mais ainda, toda ação humana é aquela praticada por um indivíduo,
no limite de sua identidade e, preponderantemente, no exercício de sua
consciência. Outra característica da ação humana é sua estrutura formal
permanente. Existe um agente titular da ação (aquele que inicia, que executa a
ação), um caminho (a ação propriamente dita), um resultado (a finalidade da
ação praticada) e um destinatário (aquele que recebe os efeitos da ação
praticada). Existem ações humanas que, ao serem executadas, geram um
resultado e este resultado é observado exclusivamente na esfera do próprio
indivíduo que agiu. Ou seja, nas ações internas, titular e destinatário da ação
são a mesma pessoa. O conhecimento, por excelência, é uma ação interna.
Como bem descreve Olavo de Carvalho, somente a consciência individual do
agente dá testemunho dos atos sem testemunha, e não há ato mais desprovido
de testemunha externa que o ato de conhecer. Por outro lado, existem ações
humanas que, uma vez executadas, atingem potencialmente a esfera de
outrem, isto é, os resultados serão observados em pessoas distintas daquele
que agiu. Titular e destinatário da ação são distintos.
Qualquer ação, desde o ato de estudar, de conhecer, de sentir medo
ou alegria, temor ou abandono, satisfação ou decepção, até os atos de
trabalhar, comprar, vender, rezar ou votar são sempre ações humanas e com
tal estão sujeitas à estrutura acima identificada. Não é acidental que a
linguagem humana, e toda a sua gramática, destinem aos verbos a função de
indicar a ação. Sempre que existir uma ação, teremos como identificar seu
titular, sua natureza, seus fins e seus destinatários.
Consciente disto, o médico e psicólogo Viktor E. Frankl, que no
curso de uma carreira brilhante (trocava correspondências com o Dr. Freud
desde os seus dezessete anos e deste recebia elogios em diversas
publicações) desenvolvia técnicas de compreensão da ação humana e,
consequentemente, mecanismos e instrumentos de diagnóstico e cura para os
eventuais problemas detectados, destacou-se como um dos principais
estudiosos da sanidade humana, do equilíbrio físico-mental e da medicina
como ciência do homem em sua dimensão integral, não apenas físico-corporal.
Com o advento da Segunda Grande Guerra, Viktor Frankl e toda a sua família
foram capturados e aprisionados em campos de concentração do regime
nacional-socialista de Hitler. Durante anos sofreu todos os flagelos que eram
ininterruptamente aplicados em campos de concentração espalhados por todo
território ocupado. Foi neste ambiente, sob estas circunstâncias, em que a vida
sente sua fragilidade extrema e enxerga seus limites com uma claridade única,
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que Frankl consegue, ao olhar seu semelhante, identificar aquilo que nos faz
diferentes, que nos faz livres.
Durante todo o período de confinamento em campos de
concentração (inclusive Auschwitz) Frankl observou que os indivíduos
confinados respondiam aos castigos, às privações, de forma distinta. Alguns,
perante a menor restrição, desmoronavam interiormente, perdiam o controle,
sucumbiam frente à dura realidade e não conseguiam suportar a dificuldade da
vida. Outros, porém, experimentando a mesma realidade externa dos castigos
e das privações, reagiam de forma absolutamente contrária. Mantinham-se
íntegros em sua estrutura interna, entregavam-se como que em sacrifício,
esperavam e precisavam viver, resistiam e mantinham a vida.
Observando isto, Frankl percebe que a diferença entre o primeiro
tipo de indivíduo, aquele que não suporta a dureza de seu ambiente, e o
segundo tipo, que se mantém interiormente forte, que supera a dureza do
ambiente, está no fato de que os primeiros já não têm razão para viver, nada
os toca, desistiram. Ou segundos, por sua vez, trazem consigo uma vontade de
viver que os mantêm acima do sofrimento, trazem consigo um sentido para sua
vida. Ao atribuir um sentido para sua vida, o indivíduo supera-se a si mesmo,
transcende sua própria existência, conquista sua autonomia, torna-se livre.
Ao sair do campo de concentração, com o fim do regime nacional-
socialista, Frankl, imediatamente e sob a forma de reconstrução narrativa de
sua experiência, publica um livreto com o título Em busca de sentido: um
psicólogo no campo de concentração, descrevendo sua vida e a de seus
companheiros, identificando uma constante que permitiu que não apenas ele,
mas muitos outros, suportassem o terror dos campos de concentração sem
sucumbir ou desistir, todos eles tinham um sentido para a vida.
Neste mesmo momento, Frankl apresenta os fundamentos daquilo
que viria a se tornar a terceira escola de Viena, a Análise Existencial, a
psicologia clínica de maior êxito até hoje aplicada. Nenhum método ou teoria foi
capaz de conseguir o número de resultados positivos atingidos pela psicologia
de Frankl, pela análise que apresenta ao indivíduo a estrutura própria de sua
ação e que consegue com isto explicitar a necessidade constitutiva do sentido
(da finalidade) para toda e qualquer ação humana.
Sentido de vida é aquilo que somente o indivíduo pode fazer e
ninguém mais. Aquilo que se não for feito pelo indivíduo não será feito sob
hipótese alguma. Aquilo que somente a consciência de cada indivíduo
conhece. Aquilo que a realidade de cada um apresenta e exige uma tomada de
decisão.

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Não existe nenhuma educação se não for para ensinar a superar-se
a si mesmo, a transcender-se, a descobrir o sentido da vida. Tudo o mais é
morno, é sem luz, é, literalmente, desumano.
Educar é, pois, descobrir o sentido, vivê-lo, aceitá-lo, executá-lo.
Educar não é treinar habilidades, não é condicionar comportamentos, não é
alcançar técnicas, não é impor uma profissão. Educar é ensinar a viver, a não
desistir, a descobrir o sentido e, descobrindo-o, realizá-lo. Numa palavra,
educar é ensinar a ser livre.
O Direito é um dos caminhos que o ser humano desenvolve para
garantir esta liberdade. Que os Cadernos Dom Alberto sejam veículos de
expressão desta prática diária do corpo docente, que fazem da vida um
exemplo e do exemplo sua maior lição.
Felicitações são devidas a Faculdade Dom Alberto, pelo apoio na
publicação e pela adoção desta metodologia séria e de qualidade.
Cumprimentos festivos aos professores, autores deste belo trabalho.
Homenagens aos leitores, estudantes desta arte da Justiça, o Direito.
.

Luiz Vergilio Dalla-Rosa
Coordenador Titular do Curso de Direito

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Sumário

Apresentação.......................................................................................................

Prefácio................................................................................................................

Plano de Ensino...................................................................................................

Aula 1
Hipóteses – Pressupostos quanto ás Criminologias...........................................

Aula 2
Revista Brasileira Ciências Criminais.................................................................
Uso de Drogas, desvio e Controle Penal: Um Estudo sobre práticas Tóxicas na
cidade de Porto Alegre........................................................................................

Aula 3
Novos processos sociais globais e violência.....................................................

Aula 4
Por que a criminologia (e qual criminologia) é importante no Ensino Jurídico?

Aula 5
Congresso Latino-Americano de Direitos Humanos e Pluralismo Jurídico........
Criminologia e Narratividade: Fazendo ecoar a alteridade.................................

Aula 6
História da Criminologia......................................................................................
Teoria da Anomia Durkheim...............................................................................

Aula 7
Labelling Approach.............................................................................................
Teoria da Associação Diferencial.......................................................................

Aula 8
Criminologia Radical ou Crítica...........................................................................




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Missão: "Oferecer oportunidades de educação, contribuindo para a formação de profissionais conscientes e competentes,
comprometidos com o comportamento ético e visando ao desenvolvimento regional”.
Centro de Ensino Superior Dom Alberto

Plano de Ensino

Identificação
Curso: Direito Disciplina: Criminologia
Carga Horária (horas): 60 Créditos: 4 Semestre: 1º

Ementa
Conceito. Método. Função. Objeto: delito, delinqüente, vítima e controle social. Escolas Penais.Histórico do
pensamento criminológico. Etapa "pré-científica": criminologia clássica e empírica. Etapa científica: escola
positiva e escolas intermediárias e teoria ambientais. A moderna criminologia científica e os diversos
modelos teóricos. Modelos biológico, psicológico e sociológico. Teoria do etiquetamento: labeling approach.
Movimentos radicais da criminologia. Movimento abolicionista. Prevenção do delito no Estado Democrático
de Direito. Modelos e sistemas da reação ao delito. Penalogia: teoria da pena. Penitenciarismo. Política
criminal. A construção de uma criminologia Latino-Americana.

Objetivos
Geral: Analisar a Criminologia enquanto ciência empírica e interdisciplinar, em um contexto de profundas
transformações no cenário nacional e internacional; Estabelecer as relações entre os Direitos Humanos,
Estado, Democracia, Cidadania, Cultura da Paz e Criminologia; Estudar a questão do delito, da pessoa do
infrator, da vítima e o controle social; Estudar as teorias sociológicas da criminalidade; Construir uma base
epistemológica capaz de nortear o entendimento, em especial no que tange a questão da Criminologia e
suas relações com o Direito; Delimitar e desenvolver temáticas específicas que envolvam as problemáticas
propostas; Refletir, propor e consolidar categorias jurídicas que permitam qualificar a intervenção dos
graduandos em sua realidade prática acerca das temáticas desenvolvidas.

Específicos: A disciplina de criminologia encontra relevância na temática social que encerra, possibilitando
o despertar de percepções acerca da criminalidade, democracia, direitos humanos e controle social na
contemporaneidade.

Inter-relação da Disciplina
Horizontal: Sociologia Aplicada ao Direito, Filosofia do Direito.

Vertical: Direito Penal I, II, III e IV; Processo Penal.

Competências Gerais
Compreensão dos conceitos, métodos, objeto e função da criminologia enquanto ramo do conhecimento
necessário para a compreensão do fenômeno criminal e consequente aplicação de normas jurídico-penais.

Competências Específicas
Leitura e elaboração de textos reflexos acerca da delinquência, correlacionando os temas da democracia,
estado, direitos humanos e cultura, com o fenômeno da delinquência, propiciando um entendimento
interdisciplinar sobre os conceitos de crime e criminoso, mediante raciocínio crítico.

Habilidades Gerais
Ler e debater sociológicos, antropológicos e jurídicos; Estabelecer entre esse âmbitos do conhecimento,
desenvolvendo um sabor complexo e multiplicado, que permita a pesquisa do fenômeno da delinquência,
enquanto realidade social.

Habilidades Específicas
Discernir na utilização do sistema normativo, com a devida compreensão dos fenômenos sociais,
propiciando uma intervenção crítica na interpretação e aplicação de normas penais, bem como a habilidade
de apresentar propostas em termos de críticas criminal, na qualidade de operador jurídico.

Conteúdo Programático
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Missão: "Oferecer oportunidades de educação, contribuindo para a formação de profissionais conscientes e competentes,
comprometidos com o comportamento ético e visando ao desenvolvimento regional”.
Programa:

1. Conceito. Método. Função. Objeto: delito, delinqüente, vítima e controle social.

2. Escolas Penais.Histórico do pensamento criminológico. Etapa "pré-científica": criminologia clássica e
empírica. Etapa científica: escola positiva e escolas intermediárias e teoria ambientais.

3. A moderna criminologia científica e os diversos modelos teóricos. Modelos biológico, psicológico e
sociológico.

4. Teoria do etiquetamento: labeling approach.

5. Movimentos radicais da criminologia. Movimento abolicionista. Prevenção do delito no Estado
Democrático de Direito. Modelos e sistemas da reação ao delito.

5. Penalogia: teoria da pena.

6. Penitenciarismo. Política criminal.

7. A construção de uma criminologia Latino-Americana.

Estratégias de Ensino e Aprendizagem (metodologias de sala de aula)
Aulas expositivas dialógico-dialéticas. Trabalhos individuais e em grupo e preparação de seminários.
Leituras e fichamentos dirigidos. Elaboração de dissertações, resenhas e notas de síntese. Utilização de
recurso Áudio-Visual.

Avaliação do Processo de Ensino e Aprendizagem
A avaliação do processo de ensino e aprendizagem deve ser realizada de forma contínua, cumulativa e
sistemática com o objetivo de diagnosticar a situação da aprendizagem de cada aluno, em relação à
programação curricular. Funções básicas: informar sobre o domínio da aprendizagem, indicar os efeitos da
metodologia utilizada, revelar conseqüências da atuação docente, informar sobre a adequabilidade de
currículos e programas, realizar feedback dos objetivos e planejamentos elaborados, etc.

Para cada avaliação o professor determinará a(s) formas de avaliação podendo ser de duas formas:

1ª Avaliação – Peso 8,0 (oito): Prova; Peso 2,0 (dois): Trabalho.
2ª Avaliação: Peso 8,0 (oito): Prova; Peso 2,0 (dois): referente ao Sistema de Provas Eletrônicas – SPE
(média ponderada das três provas do SPE)


Avaliação Somativa
A aferição do rendimento escolar de cada disciplina é feita através de notas inteiras de zero a dez,
permitindo-se a fração de 5 décimos.
O aproveitamento escolar é avaliado pelo acompanhamento contínuo do aluno e dos resultados por ele
obtidos nas provas, trabalhos, exercícios escolares e outros, e caso necessário, nas provas substitutivas.
Dentre os trabalhos escolares de aplicação, há pelo menos uma avaliação escrita em cada disciplina no
bimestre.

O professor pode submeter os alunos a diversas formas de avaliações, tais como: projetos, seminários,
pesquisas bibliográficas e de campo, relatórios, cujos resultados podem culminar com atribuição de uma
nota representativa de cada avaliação bimestral.
Em qualquer disciplina, os alunos que obtiverem média semestral de aprovação igual ou superior a sete
(7,0) e freqüência igual ou superior a setenta e cinco por cento (75%) são considerados aprovados.
Após cada semestre, e nos termos do calendário escolar, o aluno poderá requerer junto à Secretaria-Geral,
no prazo fixado e a título de recuperação, a realização de uma prova substitutiva, por disciplina, a fim de
substituir uma das médias mensais anteriores, ou a que não tenha sido avaliado, e no qual obtiverem como
média final de aprovação igual ou superior a cinco (5,0).

Sistema de Acompanhamento para a Recuperação da Aprendizagem
Serão utilizados como Sistema de Acompanhamento e Nivelamento da turma os Plantões Tira-Dúvidas que
são realizados sempre antes de iniciar a disciplina, das 18h00min às 18h50min, na sala de aula.

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Missão: "Oferecer oportunidades de educação, contribuindo para a formação de profissionais conscientes e competentes,
comprometidos com o comportamento ético e visando ao desenvolvimento regional”.
Recursos Necessários
Humanos
Professor.
Físicos
Laboratórios, visitas técnicas, etc.
Materiais
Recursos Multimídia.

Bibliografia
Básica

ANDRADE, Vera Regina Pereira de. A Ilusão de Segurança Jurídica. Livraria do Advogado, 2003.
BARATTA, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal. Revan, 2002.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1987.
ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Em Busca das Penas Perdidas. Revan, 2001.
SHECAIRA, Sérgio Salomão. Criminologia. Revista dos Tribunais, 2004.
Complementar

BECCARIA, Cezar. Dos Delitos e Das Penas. Edipro, 2003.
GOMES, Luis Flávio; MOLINA, Antonio Garcia Pablos de. Criminologia. São Paulo: RT, 2002.
WACQUANT, Loïc. As Prisões da Miséria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
YOUNG, Taylor Walton. Criminologia Crítica. Rio de Janeiro: Graal, 1980.
CONDE, Francisco Muñoz; HASSEMER, Winfried. Introdução à criminologia. Rio de Janeiro: Lumen Juris,
2008.
Periódicos
Instituto Transdisciplinar de Estudos Criminais.
Revista Brasileira de Ciências Criminais (Ibccrim).
Sites para Consulta
criminais.zip.net
www.inecip.org
cirino.com.br
www.criminologiacritica.org
www.itecrs.org
www.ibccrim.org.br
www.tj.rs.gov.br
www.trf4.gov.br
www.senado.gov.br
www.stf.gov.br
www.stj.gov.br
www.ihj.org.br
www.oab-rs.org.br
Outras Informações
Endereço eletrônico de acesso à página do PHL para consulta ao acervo da biblioteca:
http://192.168.1.201/cgi-bin/wxis.exe?IsisScript=phl.xis&cipar=phl8.cip&lang=por

Cronograma de Atividades
Aula Consolidação Avaliação Conteúdo Procedimentos Recursos





















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Missão: "Oferecer oportunidades de educação, contribuindo para a formação de profissionais conscientes e competentes,
comprometidos com o comportamento ético e visando ao desenvolvimento regional”.
1


1








10ª


11ª


12ª


13ª


2


2


3



Legenda
Código Descrição Código Descrição Código Descrição
AE Aula expositiva QG Quadro verde e giz LB Laboratório de informática
TG Trabalho em grupo RE Retroprojetor PS Projetor de slides
TI Trabalho individual VI Videocassete AP Apostila
SE Seminário DS Data Show OU Outros
PA Palestra FC Flipchart

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HIPÓTESES-PRESSUPOSTOS QUANTO ÀS CRIMINOLOGIAS


Carla Marrone Alimena
1




Inconscientemente buscamos os princípios e as teorias adequados ao
nosso temperamento, de modo que afinal parece que esses princípios e
teorias criaram o nosso caráter, deram-lhe firmeza e segurança: quando
aconteceu justamente o contrário. O nosso pensamento e julgamento,
assim parece, é transformado posteriormente em causa do nosso ser: mas
na realidade é nosso ser a causa de pensarmos e julgarmos desse ou
daquele modo. - E o que nos induz a essa comédia quase inconsciente? A
indolência e a comodidade, e também o desejo vaidoso de ser considerado
inteiramente consistente, uniforme no ser e no pensar: pois isso conquista
respeito, empresta confiança e poder. (Friedrich Nietzsche, Humano,
demasiado humano).


Antes que se passe a discorrer acerca dos (des)encontros entre feminismos e
pensamento criminológico, importante explicitar, em consonância com raciocínios já
desenvolvidos, que se parte, seguindo Salo de Carvalho e Eugenio Raúl Zaffaroni,
das seguintes hipóteses-pressupostos quanto à criminologia: a) os discursos
criminológicos não se superam no tempo; b) não é possível apreender uma origem
dos fundamentos filosóficos
2
, bem como um conceito da ciência criminológica.
No que se refere a primeira hipótese-pressuposto, uma observação do
pensamento criminológico, considerando sua existência num tempo não linear,
permite visualizar sua multiplicidade de discursos sem os inserir numa ordem
(crono)lógica de ruptura-superação. Nas palavras de Salo de Carvalho, os modelos
científicos históricos voltados à investigação do crime e da criminalidade de modo
geral, em especial o saber criminológico, não são substituídos por outros
paradigmas mais sofisticados a partir de cisões e rupturas
3
.
Na mesma perspectiva, explica Eugenio Raúl Zaffaroni que, por volta do
século XVIII, com o desenvolvimento dos estados europeus modernos como

1
Graduada, especialista e Mestranda em Direito – UFRGS. Mestre em Ciências Criminais – PUCRS.
Conselheira do Instituto de Criminologia e Alteridade - ICA.
2
CARVALHO, 2006, p. 61-85.
3
CARVALHO, Salo de. Criminologia Cultural, Complexidade e as Fronteiras de Pesquisa nas
Ciências Criminais. Revista Brasileira de Ciências Criminais, São Paulo, v. 81, 2009. [prelo].
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administradores da vida
4
nas sociedades em complexificação, foi se fazendo
necessária a distribuição de funções estatais entre agências especializadas. Tal
deslocamento de poder público se deu, por exemplo, na criação de serviços
burocráticos, prestados por instituições especializadas em tarefas determinadas,
que foram se autonomizando e organizando seus saberes. Estas diferentes
burocracias passaram a competir entre si (lutas de escolas) para hegemozinar o
poder do estado ou para obter privilégios, sendo o campo vinculado a criminalidade
um território muito disputado. Seus membros foram organizando-se
discursivamente e agrupando-se de forma corporativa (institucionalizada e
hierárquica), disputando espaços da realidade
5
, isto é, da inclusão de uma série de
áreas em sua esfera epistemológica (de poder). Importa dizer que tais querelas se
dão de forma sempre renovada, mas carregando sua memória ao mesmo tempo.

Desde o século XVIII, quando o poder e autonomia das corporações, com
suas conseqüentes lutas hegemônicas, tornaram-se mais acentuados, a
questão criminal passou a ser um campo muito disputado. Sucederam-se
discursos e corporações hegemônicas, ao compasso da maior
funcionalidade para o poder político e econômico, sem que a perda da
hegemonia significasse o desaparecimento da corporação deslocada, que
sempre se adequou a nova situação e continuou elaborando discursos.
Como nenhuma corporação abandona o campo de batalha, seus
renovados discursos continuam vivos. Por isso, não se deve confundir esse
curso histórico com a história de uma disciplina. A história implica o registro
de fatos passados que projetam em suas conseqüências no presente, mas
esse trajeto se refere a fatos do passado que continuam diretamente
presentes
6
.


Por conseguinte, mesmo que os discursos criminológicos sejam vinculados a
determinadas épocas, caracterizados como predominantes e após um período de
tempo, como decadentes, eles não desaparecem, apenas deslocam-se, sendo
modificados nesta movimentação. Analogicamente, pode-se pensar mais uma vez,
na figura das bacias semânticas para vislumbrar a renovação (re-injeção) sempre
em espiral de elementos antigos que figuram em novos discursos criminológicos.
Nesta esteira, pode-se dizer, por exemplo, que a superação do paradigma positivista
em criminologia não é algo que se possa afirmar como dado objetivo, pelo contrário.
A permanência de investigações microcriminológicas, revigoradas na atualidade

4
ZAFFARONI, Eugenio Raul; BATISTA, Nilo; ALAGIA, Alejandro; SLOKAR, Alejandro. Direito
Penal Brasileiro: Teoria Geral do Direito Penal. 2.ed. Rio de Janeiro: Revan, 2003. p. 278.
5
Ibid., p. 278-279.
6
Ibid., p. 278-279.
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pelas neurocriminologias, não permite constatar o esvaziamento da perspectiva
causal-determinista
7
.

A trajetória da criminologia não se desloca pelas salas de um museu de
teorias mortas, mas sim se adentra em uma selva de discursos vivos e em
constante renovação, produzidos por corporações que lutam entre si para
dar-se hegemonia, em negociação com poderes sociais mais amplos. Nem
sequer a idade média terminou em criminologia; seu discurso continua
mais vigente do que nunca, só que é necessário conhecer os verdadeiros
troncos discursivos e não se deixar impressionar pela cor da folhagem
8
.
Aqui não se trata do erro de perder de vista a floresta à força de olhar as
árvores, mas sim do erro causado por olhar desatentamente as árvores e
pensar que elas sejam diferentes. Não é simples aprender a percorrer uma
floresta onde as árvores se mimetizam. Acompanham essa característica
as intermináveis discussões epistemológicas e metodológicas no âmbito
criminológico
9
.


Assim, por esta perspectiva, caso se pretenda deixar de lado a impressão
causada pela cor da folhagem, buscando conhecer os troncos discursivos, será
preciso deixar de lado a busca por uma raiz filosófica primogênita dos discursos, isto
é, por uma origem embrionária única da ciência criminológica. Caso se tentasse
apreender um marco inicial, isto demonstraria a impossibilidade de encontro de uma
resposta uniforme, bem como a necessidade de arbitramento de um momento
histórico para que exista uma resposta.
Por exemplo, para Rosa del Olmo, chamam atenção as divergências acerca
da época de início da criminologia, uma vez que há opiniões no sentido de que seu
marco inicial surgiria em conjunto com o desenvolvimento das ciências no começo
do século XIX, enquanto outras fixam a obra de Cesare Lombroso, “L’uomo
delinquente”, publicada em 1876, como a pioneira. Apesar da falta de consenso, a
autora, conclui que a criminologia como ciência
10
, origina-se com a escola positiva,
do mesmo modo que entende Alessandro Baratta:


7
CARVALHO, 2009.
8
ZAFFARONI; BATISTA; ALAGIA; SLOKAR, 2003, p. 278-279.
9
Ibid., p. 279-280.
10
OLMO, Rosa del. A América Latina e sua criminologia. Rio de Janeiro: Revan, 2004. p. 34-45.
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Em sua origem, pois, a criminologia, tem como específica função
cognoscitiva e prática, individualizar as causas desta diversidade, os
fatores que determinam o comportamento criminoso, para combatê-los com
uma série de práticas que tendem, sobretudo, a modificar o delinqüente. A
concepção positivista da ciência como estudo das causas batizou a
criminologia
11
.


Na mesma direção, Carlos Alberto Elbert considera que por haver relações
conflitivas entre os seres humanos desde o princípio dos tempos
12
, é preciso, por
razões didáticas, fixar os marcos relevantes na construção do conhecimento que
acabou por se tornar a ciência criminológica. O autor inicia explicitando que há uma
pré-história
13
da criminologia, partindo do código de Hamurabi, marcando,
seqüencialmente, pontos considerados importantes na história ocidental até chegar
no Iluminsmo. Por fim, fixa a origem da criminologia como ciência no advento da
escola positiva, pois naquele momento, teriam-se reunido as condições
indispensáveis para sua caracterização como tal.
Por outro lado, Ian Taylor, Paul Walton e Jock Young
14
sugerem que a
criminologia nasce com a filosofia Iluminista, sendo a escola clássica seu ponto de
partida. Para eles, a ciência criminológica surge concentrada em questões relativas
ao ordenamento legal, atenta a problemas da administração do controle social. É
Cesare Beccaria quem primeiro formula os princípios da criminologia clássica
15
, em
“Dei delitti e delle pene” de 1764, baseado nas teorias do contrato social de Hobbes,
Montesquieu e Rousseau.
Ainda, por outro viés, Eugenio Raúl Zaffaroni, entende que as disscusões
acerca da origem do pensamento criminológico resultam estéreis. Para ele, a
criminologia nasce muito antes do que geralmente se afirma, pois teria seguido
sempre a existência de um poder punitivo.


11
BARATTA, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal. Rio de Janeiro: Revan,
2002. p. 30.
12
ELBERT, Carlos Alberto. Novo manual básico de criminologia. Tradução de Ney Fayet Júnior.
Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009. p. 50.
13
Ibid., p. 50-65.
14
TAYLOR, I; WALTON, P; YOUNG, J. La nueva criminología: contribución a una teoría social de la
conducta desviada. Buenos Aires: Amorrotu, 1990. p. 19-23.
15
Ibid., p. 19.
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As discussões sobre a origem da criminologia são estéreis. Os criminólogos
etiológicos situam-na em 1876, ao passo que os da reação social (críticos
liberais e radicais) localizam-na no Iluminismo, com as discussões acerca
da legitimidade do poder punitivo. A criminologia, no entanto, nasceu muito
antes, já que sempre acompanhou o direito penal, pois a partir da existência
do poder punitivo (confisco da vítima) houve questão criminal e alguém
exerceu o poder do discurso sobre ela
16
.


Para o autor, a obra que apresenta as características mais próximas aos
requisitos identificados posteriormente como científicos data da Idade Média. O
Mallus Maleficaram, manual da Inquisição para conter e eliminar a bruxaria, é que
teria sido o primeiro grande produto teórico do poder punitivo, consistindo no modelo
teórico fundamental da criminologia moderna, integrando em um único saber ou
discurso, a criminologia etiológica, o direito penal e processual penal e a
criminalístca
17
.
Da mesma forma que não há uniformidade de opiniões quanto a definição de
uma origem, também, verifica-se haver ausência de consenso no que se refere a
uma definição uniforme do objeto da ciência criminológica. Tal dificuldade permite
supor a impossibilidade de apreensão de um conceito de Criminologia. Como explica
Salo de Carvalho, a criminologia, ao longo do século passado, alterou
constantemente seu objeto, agregando inúmeros fenômenos, motivo pelo qual se
constata a impossibilidade de qualquer tarefa conceitualizadora
18
.

A pretensão conceitual carrega consigo desdobramentos lógicos de
adequação metodológica e de enumeração de princípios rígidos reitores
para formação do sistema teórico. No campo criminológico contemporâneo,
esta ambição é limitada ou errônea, sobretudo após a viragem criminológica
(criminological turn) operada pelo paradigma do etiquetamento (labeling
approach)
19
.


Precisar o objeto criminológico, para Carlos Alberto Elbert, não é tarefa fácil,
pois é variado e contraditório o catálogo de temas que já se atribuíram à disciplina,
tanto pela sua concepção positivista e tradicional, quanto pelo enfoque dado pela

16
ZAFFARONI; BATISTA; ALAGIA; SLOKAR, 2003, p. 277.
17
Ibid., p. 276.
18
CARVALHO, 2009.
19
Ibid., 2009.
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criminologia de raiz sociológica. Numera quatorze
20
objetos de estudo, não
exaustivos, propostos desde a escola clássica, passando pela viragem
criminológica, até o enfoque sociológico. Conclui que é preciso fixar um objeto único
que permita enfoques diversos e variantes infinitas de comportamento, optando pelo
Direito Penal, pois este variará no tempo e nas sociedades, devido ao caráter
político dos sistemas de controle formal
21
.
Na perspectiva de Elena Larrauri, apesar de legítimas, as questões relativas
às causas de comportamentos criminalizados não são o objeto de estudo da
criminologia. Para a autora, lo que debe estudiar la criminología son que actos,
como se atribuyen a los tipos penales, qué consecuencias tiene esta atribuición, en
síntesis, el proceso por el cual el primer comportamiento deviene criminalizado, no
las causas de por qué ha actuado asi
22
.
Ampliando as possibilidades, Lola Aniyar de Castro afirma que há duas
posições contraditórias quanto ao objeto da criminologia, uma que o define como o
estudo do comportamento delitivo (normas penais); e outra que o situa na área da
conduta delitiva e, também, no comportamento desviante, abrangendo tudo que for
considerado como anti-social, não somente pelos parâmetros legais, como por
exemplo, a homossexualidade e a prostituição
23
. A autora opta pela opção de maior
amplitude:

Se a um cientista social determinam que deve estudar somente, no terreno
social, o que a lei diz que é delito (quando a lei aqui diz hoje que é delito
alguma coisa que outro país diz que é outra, ou algo que há 10 anos não
era delito e possivelmente dentro de 40 anos não será delito), estão
desqualificando a sua liberdade de investigação e lhe impondo um objeto
de estudo que não significa nada para ela como cientista. Por isso nós
temos optado por considerar que a Criminologia deve também estudar o
comportamento desviante e penetrar nos processos de formação das
normas, não somente penais, mas também sociais, sem esquecer que
estas normas podem também influir de algum modo na criação de normas
legais
24
.

20
“1. o delito, 2. o delinqüente, 3. as causas do delito, 4. as causas e os tratamentos destinados à cura
e a prevenção da conduta delinqüente, 5. a reação social (abarcando a definição e o controle), 6. a
construção de uma teoria crítica do desvio, 7. o poder e o controle social, 8. a redefinição do delito
(abarcando a criminalidade do poder e os bens jurídico-sociais), 9. o controle social e as ciências
penais, 10. a lei, a história, a econômia política do direito, 11. o Direito Penal como sistema, 12. os
processos de criminalização, 13. as realidades sociais concretas, em sua referência à criminalidade-
criminalização, mediante um processo de análise empírico, teórico e histórico, 14. a análise histórico-
filosófica dirigida a desentranhar a realidade socio-política do crime.” In: ELBERT, 2009, p. 255.
21
ELBERT, 2009, p. 263-269.
22
LARRAURI, Elena. La Herencia de la Criminologia Crítica. Madri: Siglo XXI, 2000. p. 209.
23
ANIYAR DE CASTRO, Lola. Criminologia da Reação Social. Rio de Janeiro: Forense, 1983. p. 54.
24
Ibid., p. 57.
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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL
FACULDADE DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E SOCIAIS




MARCELO MAYORA ALVES






USO DE DROGAS, DESVIO E CONTROLE PENAL: UM ESTUDO SOBRE
PRÁTICAS TÓXICAS NA CIDADE DE PORTO ALEGRE













Porto Alegre
2009
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2

MARCELO MAYORA ALVES






USO DE DROGAS, DESVIO E CONTROLE PENAL: UM ESTUDO
SOBRE PRÁTICAS TÓXICAS NA CIDADE DE PORTO ALEGRE







Dissertação apresentada como requisito para
obtenção do título de Mestre pelo Programa de
Pós-Graduação em Ciências Criminais da
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul.


Orientador: Dr. Salo de Carvalho







Porto Alegre
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3
2009
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4

MARCELO MAYORA ALVES




USO DE DROGAS, DESVIO E CONTROLE PENAL: UM ESTUDO
SOBRE PRÁTICAS TÓXICAS NA CIDADE DE PORTO ALEGRE



Dissertação apresentada como requisito para
obtenção do título de Mestre pelo Programa de
Pós-Graduação em Ciências Criminais da
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul.


Aprovada em ____, de ____________________, de _______.


BANCA EXAMINADORA:

Prof. Dr. Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo – PUCRS

_____________________________________________

Profa. Dra. Vera Regina Pereira Andrade - UFSC

_____________________________________________


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5




























À minha mãe, Dirce Mayora, heroína do cotidiano.




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6
AGRADECIMENTOS

Aos meus pais, Fernando Alves e Dirce Mayora, pela educação anti-autoritária e
libertária, ou seja, sábia. E pelo amor. Ao Maurício, irmão querido, companheiro de
rebeldia e rock and roll. Aos meus avós, Martin e Veneza, Nélio e Maria Augusta, pelo
cuidado e pela infância encantada. A Tia Veva, acadêmica da família, pela ajuda em
relação à pesquisa de campo.

A Mariana Garcia, princesa do castelo. Alucinógena, lisérgica e estimulante:
“vamos ter cinco lindos cachorrinhos”. A tese será dedicada a ela. Ao sogro e à sogra,
Telmo e Maria, pela compreensão da ausência.

Ao Daniel Gerber e ao Zé Salim, irmãos mais velhos. Toda a minha admiração e
agradecimento: sigamos a crer no caos! A Raffaela, companheira nas insatisfações, nas
ironias e no sarcasmo. A Thais e Lella, por terem suportado os diálogos angustiados no
dia-a-dia do escritório. A Lorena, pelos cuidados e pelo carinho.

Ao orientador Salo de Carvalho, sobretudo um amigo. Instigador das
inquietações, criminólogo de vanguarda. Agradeço profundamente, por demonstrar, no
dia-a-dia, que é possível conciliar advocacia e academia sem fazer demasiadas
concessões. Caso tivesse a oportunidade de escolher qualquer dos criminólogos do
mundo para ser meu orientador, teria escolhido o Salo. Valeu chefe. Ao parceiro
Alexandre Wunderlich, que acreditou num moleque de 18 anos, e deu a chance de eu ter
me tornando o que sou, seja lá quem eu seja. Peço que, a partir de agora, saibam que os
agradecimentos à dupla AWSC estão pressupostos em qualquer conquista deste aluno.

Ao professor Ricardo Timm de Souza, pelas lições de vida contidas em cada
palavra e em cada gesto. Ao Rodrigo de Azevedo, um dos melhores professores que já
tive, pelo enriquecimento acadêmico e pessoal.

Ao Nereu Lima Filho, Nereuzinho: meu irmão.

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7
Ao amigo Lucas Menegon, que foi embora para sempre e deixou uma saudade
insuportável. Ao amigo Samir, que suporta junto comigo, num silêncio cúmplice, a
saudade insuportável.

Ao amigo Zé Linck, pensador nervoso, sujeito tranqüilo. Ao amigo Alex Pan,
toda a admiração de quem o viu crescer e enlouquecer. Ao amigo Marcelo Luchese, que
prefere ser uma metamorfose ambulante. Amigos que estiveram juntos nas primeiras
leituras criminológicas, nas madrugadas insones de tempos já remotos... Não são menos
que coautores da dissertação.

Aos parceiros do Instituto de Criminologia e Alteridade, Moysés, Divan, Carla,
Achutti, Beto Rodrigues, Mari Weigert, Jan, Vinicius, Gregs.

Aos amigos: Augusto, Nuevas, Ju, Marília, Tati, Monique, Raoni, Elise, Isabel;
André Ortiz, Marcelo Coelho, Maurício Gazen, Daniel Skina, Betina Adami, Vilma e
Maria Eduarda.

A teacher Monica, pelo auxílio nos textos em inglês e nas traduções.



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8
































Laerte
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9

RESUMO

A presente dissertação, realizada junto à linha de pesquisa Criminologia e
Controle Social, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Criminais da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul, pretendeu analisar as práticas tóxicas, a
constituição dos desvios relacionados a tais práticas e o controle penal dos usos de
drogas. Tendo como referencial teórico a teoria interacionista do desvio, sobretudo a
obra de Howard Becker, o trabalho buscou reaproximar a criminologia das análises
micro, bem como dos estudos culturais, para situar cada prática tóxica e cada discurso
sobre tal prática no contexto em que emergem. O objetivo foi encontrar os significados
atribuídos aos diferentes usos de drogas, bem como os espaços simbólicos que ocupam,
individual e coletivamente, à luz das características da contemporaneidade. Para tanto,
tomou-se como campo a cidade de Porto Alegre e alguns contextos nos quais ocorre o
uso de drogas. Além disso, considerando que algumas substâncias com potencial de
gerar estados alterados de consciência submetem-se ao regime proibicionista, realizou-
se pesquisa de campo nos Juizados nos quais os casos de posse de drogas para consumo
são julgados, de maneira a diagnosticar e a criticar as respostas penais atualmente
adotadas e seus efeitos sociais.

Palavras-chave: Drogas – Desvio – Controle Penal
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10
ABSTRACT

The present dissertation carried out in the line of research of Criminology and
Social Control of the Post-Graduation Program in Criminal Sciences of Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul, intended to analyze the toxic practices, the
constitution of deviances related to those practices and the penal control of drug usage.
Having as a reference the deviance interactionist theory, this paper tried to reapproach
the microcriminology, as well as the cultural studies, to situate each toxic practice and
each discourse about that practice in the context in which they emerge. The objective
was to find meanings given to different drug usages, as well as the symbolic spaces that
they occupy both individually and collectively, inserted within the contemporary
characteristics. For that, the city of Porto Alegre was taken as research field with some
contexts where the use of drugs takes place. Furthermore, regarding to the fact that
some substances with a potential to generate altered states of consciousness submit
themselves to the prohibitionist regime, a research was also carried out in the Drug
Courts, in order to diagnose and criticize the punishment currently adopted and its
social effects.

Key-words: Drugs – Deviance – Penal Control
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11
SUMÁRIO


RESUMO 9

ABSTRACT 10

INTRODUÇÃO 13

CAPÍTULO I – UMA CRIMINOLOGIA DAS DROGAS PARA A
CONTEMPORANEIDADE

16

1.1 A fragmentação das criminologias no Brasil
1.1.1 A criminologia médico-psiquiátrica das drogas
1.1.2 A criminologia jurídica das drogas – crítica do Direito Penal
1.1.3 A criminologia sociológica e antropológica das drogas

16
18
21
28

1.2 A criminologia de cajado e suspensório – empreendedores morais, pânico
moral e conservadorismo
1.3 Revisita à teoria interacionista do desvio
1.4 Em busca de uma criminologia (contra) cultural

CAPÍTULO 2 – REPENSANDO AS RELAÇÕES ENTRE USO DE DROGAS E
DESVIO

2.1 Considerações iniciais sobre as drogas
2.2 As drogas e o estado – a emergência do proibicionismo e da regulação
2.3 Uso de drogas, desvio e cultura
2.3.1 O uso de drogas como manifestação contracultural
2.3.2 O gosto amargo na boca
2.3.3 Desvio e uso de drogas na contemporaneidade


CAPÍTULO 3 – O USO E O CONTROLE PENAL DAS DROGAS NA CIDADE
DE PORTO ALEGRE

3.1 Exposição da pesquisa
3.2 As drogas e os territórios de consumo – a repressão seletiva
3.2.1 As zonas livres de interferência
3.2.1.1 O cárcere
3.2.1.2 Estádios de futebol
3.3 O perfil dos selecionados
3.4 Panorama das respostas penais para os casos de porte de drogas para
consumo
3.4.1 As audiências e as “audiências coletivas”
3.4.2 A pobreza terapêutica
3.5 Overdose de ilegalidades - a parca limitação jurídica ao controle penal do uso
de drogas

33
37
42


53

53
58
64
69
73
77



92

92
101
116
116
122
125

131
141
146

149
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12
3.5.1 A exceção

Considerações Finais

Referências

Anexo
153

155

160

167






























Página 53 / 477
13
INTRODUÇÃO


“Poucas vezes nos lembramos de que competições e disputas acadêmicas são apenas
cortinas de fumaça a ocultar o óbvio: nosso pânico ante a precariedade dos
fundamentos em que se sustentam nossas convicções”.
1


A ligação entre criminologia e drogas é acidental, desde que em certo
momento, recentíssimo, em termos históricos (o proibicionismo tem menos de 100 anos
e a história das drogas é milenar) inúmeros países decidiram proibir alguns tipos de
substâncias entorpecentes, criando, deste modo, crimes e desvios, e dando início a
trágica guerra contra as drogas. Considerando que seria inócuo apenas repetir tudo o que
a criminologia já legou sobre a irracionalidade da atual política de drogas, o trabalho
procura apresentar um outro olhar. É que a produção acadêmica existente sobre o
assunto centrou seu foco em aspectos problemáticos da questão das drogas. Por um
lado, nos usos problemáticos, nos efeitos perversos do uso descontrolado de certas
substâncias e, por outro, na crítica aos efeitos nefastos da política criminal de guerra às
drogas. Aqui, o objeto é o uso de drogas em si mesmo; ao se falar deste tema, deve se
ter bem claro que não se está falando, automaticamente, de um problema. Daí porque
utilizarei a idéia de práticas tóxicas como práticas culturais, tendo como objetivo
superar as visões maniqueístas que fundamentam as políticas repressivas. Levando em
conta as representações sociais sobre o tema, que acabam por oferecer significado
contextual aos usos de drogas, procurarei opor controles culturais, horizontais ou
anárquicos à cultura do controle proibicionista, analisando a imbricação e os efeitos da
proibição nos contextos dos usos de drogas.

Atualmente, existem diferentes regimes de circulação de substâncias. Meu
objetivo não é buscar uma impossível coerência nas escolhas estatais, que variam no
tempo e no espaço, mas adentrar nesse universo de contradições, atentando para as
diferentes relações que se estabelecem entre as pessoas, a sociedade e as substâncias,
que são influenciadas pelos regimes legais aos quais as últimas se submetem. Isso
porque, como sabemos, a proibição dos usos de algumas drogas não elimina tais usos.
Não obstante, os transforma, gera determinados tipos de efeitos, certos arranjos,

1
SOARES, Luis Eduardo. In Prefácio de SILVA, Hélio. Travestis. O espelho e a rua. RJ: Rocco, 2007, p.
16.
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14
(des)organizações, práticas, hábitos, grupos, ideologias..., e é nesse universo que
cumpre penetrar.

A partir daí, utilizarei algumas categorias criminológicas consagradas. A
intenção é usá-las como instrumentos para o diálogo com as questões da
contemporaneidade e, para ser mais específico, para dialogar com os temas com os
quais me deparo no cotidiano. Por outro lado, tal cuidado é importante para que a
própria categoria não reste congelada no tempo e possa ser repensada à luz da
contemporaneidade, e também para que seja possível construir minhas próprias
categorias de análise, na esteira do que adverte BECKER:

Sociólogos noviços com frequencia têm muita dificuldade em fazer pesquisa
de campo porque não reconhecem a sociologia, tal como a leram, na
atividade humana que vêm por toda a parte. Passam oito horas observando
uma fábrica ou uma escola, e retornam com duas páginas de anotações e a
explicação de que “não aconteceu nada de importante”. Querem dizer que
não observaram nenhum caso de anomia, estratificação, burocracia ou
qualquer outro dos demais tópicos sociológicos convencionais. Não vêem
que inventamos esses termos para lidar de forma conveniente com vários
casos de pessoas fazendo coisas juntas que concluímos serem
suficientemente semelhantes de maneiras específicas para que os tratemos
como iguais para fins de análise. Desdenhando o senso comum, os noviços
ignoram o que acontece à sua volta. Deixando de registrar os detalhes da
vida cotidiana em suas anotações, não os podem usar para estudar abstrações
como anomia, ou outras próprias que eles poderiam construir.
2


A dissertação está estruturada em três capítulos. No primeiro, procuro uma
criminologia das drogas para a contemporaneidade. Da constatação que a criminologia,
sobretudo a criminologia crítica, já desconstruiu irreversivelmente a política criminal de
guerra às drogas, torna-se necessário buscar outros caminhos para a pesquisa. O
caminho apontado é um retorno à microcriminologia, sem olvidar dos aspectos macro, é
claro. A intenção é voltar a ouvir aqueles que acabam etiquetados e, por isso,
silenciados. A criminologia cultural é apresentada como opção, como um local de
escuta, que permitirá reaproximar a criminologia do cotidiano, de maneira a fazer
reverberar ecos libertários das multifacetadas e ambíguas configurações sociais
contemporâneas.


2
BECKER, Howard. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Tradução de Maria Luiza de Borges. RJ:
Jorge Zahar, 2008, p. 191.
Página 55 / 477
15
No segundo capítulo, após algumas considerações sobre os diversos tipos de
consumos de drogas, bem como sobre a emergência da regulação e da proibição,
aproximo definitivamente as práticas tóxicas dos contextos que lhe emprestam os
sentidos que são construídos em permanente interação. Desde uma análise das
representações sociais que surgiram em cada época a respeito dos usos de drogas,
procuro relacionar as buscas por estados alterados de consciência ao discurso que lhe
fundamentou, de maneira a observar seus aspectos positivos e negativos, do ponto de
vista da potência do controle cultural responsável por manter os consumos socialmente
regulados.

No capítulo derradeiro, apresento a pesquisa de campo: o roteiro, a caminhada,
os desvios, os tropeços e os resultados.

Quero advertir que não tenho qualquer pretensão de neutralidade. O estudo
será construído a partir da identificação de um discurso dominante - com o qual não
concordo - e de uma profanação deste, desde a escuta de outras vozes, mais ou menos
silenciadas ao longo do tempo e hoje em dia. Por isso, não há nenhuma crença no fato
de que a pesquisa empírica que será apresentada “falará por si mesmo”. O marco teórico
escolhido, a teoria interacionista do desvio, certamente implicará nas opções do
pesquisador, influenciando tanto a seleção dos dados que serão colhidos, quanto o olhar
a partir da qual estes dados serão analisados. Vale informar, outrossim, que a tentativa
obsessiva é de escapar da socialização institucional (acadêmica) e ouvir com atenção a
experiência que adquiri até hoje no laboratório criminológico que é a vida.
3





3
Aqui, estou apenas ouvindo Nils Christie: “La ciencia social tiene que ver con interacción. Nosotros
hemos estado en el medio de ella desde que nacimos. Si no fuera asi, no habriamos sobrevivido. Y hemos
recibido calor y frio, amor y ódio – y lo mesmo hemos devuello -. Hemos pecado y han pecado contra
nosotros, hemos actuado como infractores de la ley, como policias, como fiscales, como defensores,
como jueces, como guardiacárceles. Cualquier família es una arena, algunas más facilmente legibles que
otras, pero todas con material para al menos una rica novela. Todos hemos usado el alcohol, hemos
abusado de el o no lo hemos usado en absoluto y por esa misma razón hemos tenido nuestras luchas.
Hemos comido y hemos devorado tal vez a lo justo opuesto. Nos hemos esforzado para controlarnos a
nosotros mismos o a otros o para protegernos a nosotros mismos o a otros de los intentos de otras
personas de controlarnos. Todos estamos continuamente desgarrados entre el deseo y las lealtades,
enfrentando a dilemas, terminando – frecuentemente – arrependidos por nuestros fracasos. Existe poco
en campo de la criminologia que no hayamos experimentado aún”. (CHRISTIE, Nils. Cuatro obstaculos
contra la intuición. Notas sobre la sobressocialización de los criminólogos. In SOZZO [org.].
Reconstruyendo las criminologias criticas. Buenos Aires: ad hoc, 2006, p. 341)
Página 56 / 477
16


CAPÍTULO 1 – UMA CRIMINOLOGIA DAS DROGAS PARA A
CONTEMPORANEIDADE

1.1. A FRAGMENTAÇÃO DAS CRIMINOLOGIAS NO BRASIL

A fragmentação é inerente à criminologia. É que, desde sua irrupção, a
criminologia sempre foi um campo para o qual convergiram saberes provenientes de
diversas áreas do conhecimento. Não por outro motivo é que falamos em antropologia
criminal, em sociologia criminal, em sociologia do desvio, em sociologia do direito
penal, em sociologia da administração da justiça criminal, etc. Algumas das obras mais
importantes para a criminologia não foram escritas por autores que se auto-intitulavam
criminólogos, mas por autores que, desde seus horizontes teóricos, analisaram questões
relativas aos delitos e à reação social. E não se trata de afirmar que a fragmentação é
sintoma de crise paradigmática, sobretudo porque, conforme ERICSON e CARRIERE,
a fragmentação da criminologia é condição crônica:

(…) la fragmentación de la literatura criminologica y el desdibujamiento de las
fronteras disciplinarias no pueden pensarse como representando una fase aguda que
durara hasta tanto el campo pueda ser adecuadamente diagnosticado y corrigido.
Mas bien, la fragmentación de la criminologia es uma condición crônica. En tanto
el crecimiento de la academia y de su miriada de discursos y de medios de
comunicación implica que la criminologia se ha vuelto más fragmentada, esto
solamente representa una acentuación de lo que siempre ha sido así.
4


Não se trata, portanto, de lamentar a fragmentação, e de uma buscar algum
tipo de unificação ou de reconstrução. A fragmentação da criminologia pode ser vista
como sintoma do colapso das ortodoxias conservadoras que previamente foram exitosas
e impuseram uma ordem relativamente monolítica no campo, fenômeno que se
manifesta em diversos campos de saber. Como bem referem ERICSON e CARRIERE,
“el único problema con la fragmentación de la criminología son los criminologos que

4
ERICSON; CARRIERE. La fragmentación de la criminologia. In: SOZZO, Maximo (org.).
Reconstruyendo las criminologias criticas. Buenos Aires: ad hoc, 2006, pp. 168/169.
(...) A fragmentação da literatura criminológica e o derretimento das fronteiras disciplinares não podem
ser pensadas como representando uma fase aguda que durou até quando o campo pode ser adequadamente
diagnosticado e corrigido. Melhor dizendo, a fragmentação da criminologia é uma condição crônica. Ao
passo que o crescimento da academia e de sua miríade de discursos e de meios de comunicação implica
que a criminologia se tornou mais fragmentada, tal somente representa uma acentuação do que sempre
foi. (tradução livre).
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17
se incomodan frente a ella”
5
. Neste trabalho, ao contrário, procurarei desfrutar da
utilização dos fragmentos, de maneira a criar mosaicos de sentido.
6


A fragmentação também decorre da relação íntima que a criminologia
mantém com o poder. É certo que a dimensão do poder é constitutiva das teorias
científicas de qualquer área do conhecimento, que “o conhecimento não é uma coisa
pura, independente de seus instrumentos, e não só de suas ferramentas materiais, mas
também de seus instrumentos mentais que são os conceitos”.
7
Contudo, a dimensão do
poder é acentuada na criminologia, porque ela é produzida diretamente no seio dos
embates das diversas corporações que possuem algum interesse na questão criminal, e
que, por óbvio, necessitam manter seus próprios espaços discursivos e práticos dentro
dos quais exercem poder. Conforme Zaffaroni, ao analisarmos genealogicamente a
história dos discursos criminológicos, notaremos o seguinte:

(...) que uno fue elaborado em cierto momento por médicos, otros por
juristas, otros por policías, otros por políticos, otros por sociólogos y otros
por academicos. No tardara em darse cuenta de que los médicos, juristas,
policías, políticos, sociólogos y academicos, son personas especialmente
entrenadas, que formam agrupaciones separadas, jerarquizadas y
verticalizadas, que ejercen cierto poder y que, por lo general, se comportan
conforme a intereses que corresponden a esse poder: son las corporaciones
profesionales. Los discursos contradictorios provienen, pues, de
corporaciones profesionales que compiten entre ellas, pero que también
tienen luchas por el poder en su proprio seno y todas esas pugnas se
traducen en discursos competitivos y contrapuestos. Todos los discursos
contradictorios fueron producidos por miembros de corporaciones poderosas
en algún momento, para oponerlos a otras corporaciones o para discutirle la
hegemonia a la cúpula de la propia corporación”.
8


A partir daí é possível compreender que não há superação de um discurso pelo
outro, mas mera acumulação. Ainda que, em dado momento, uma corporação, que

5
ERICSON; CARRIERE. La fragmentación de la criminologia, p. 166.
6
ERICSON; CARRIERE. La fragmentación de la criminologia, p. 170.
7
MORIN, Edgar. Ciência com Consciência. Tradução de Maria Alexandre e Maria Alice Sampaio Dória.
RJ: Bertrand Russel, 2005, p. 43.
8
ZAFFARONI, Eugenio Raul. La criminologia como curso. In: Em torno de la cuestión penal. Buenos
Aires: B de F, 2005, p. 9.
(...) que um foi elaborado em dado momento por médicos, outros por juristas, outros pela polícia, outros
por políticos, outros por sociólogos e outros por acadêmicos. Não levou muito tempo para que
percebêssemos que os médicos, juristas, policiais, políticos, sociólogos e acadêmicos são pessoas
especialmente treinadas, que formam grupos separados, hierarquizados e verticalizados, que exercem
certo poder e, que geralmente, se comportam conforme os interesses que correspondem a esse poder: são
as corporações profissionais. Os discursos contraditórios provêm, pois, de corporações profissionais que
competem entre elas, mas que também lutam pelo poder em seu próprio seio e todas essas lutas se
traduzem em discursos competitivos e contrapostos. Todos os discursos contraditórios foram produzidos
por membros de corporações poderosas em algum momento, para se oporem a outras corporações ou para
discutir a hegemonia da cúpula da própria corporação. (tradução livre).
Página 58 / 477
18
possui uma lógica própria e da qual emana um saber específico, esteja desfrutando de
certa hegemonia - na academia, na mídia, no senso comum, na prática judicial, etc - as
demais corporações seguem exercendo resistência, que é entendida aqui como
constitutiva das relações de poder, como “um elemento das relações estratégicas nas
quais se constitui o poder”.
9
Tal constatação deve ser tomada apenas como uma
advertência para a complexidade posta na tentativa de pensar a respeito do tema.
Entretanto, é justamente tal abertura epistemológica, a assunção desta carência, deste
limite, desta falta
10
, que torna a criminologia um campo privilegiado para pensarmos as
violências a partir do pensamento complexo que a contemporaneidade exige,
escolhendo, caso a caso, qual a melhor lente, ou qual a melhor combinação de lentes,
para uma análise mais pertinente de diferentes fenômenos.

Abdicando, portanto, da tentativa de encontrar qualquer origem para a
disciplina, por acreditar que não há uma espécie “ponto zero” a partir do qual a
criminologia surgiu, e considerando o perene embate discursivo entre as corporações e
os saberes delas derivados, podemos notar que, no Brasil, após a consolidação
acadêmica do saber, a criminologia dividiu-se em campos relativamente estanques. Para
efeitos didáticos, podemos dividi-los em médico-psiquátrico, jurídico e sociológico.

1.1.1 – A CRIMINOLOGIA MÉDICO-PSIQUIÁTRICA DAS DROGAS

A criminologia médica, mormente psiquiátrica, mas também neurocientífica,
certamente refinou as pesquisas etiológicas do positivismo criminológico do século
XIX, mas não abandonou a sua busca fascinada pelas causas dos delitos, baseada na
“promessa narcísica de harmonização da sociedade, eliminando o delito através da
técnica”.
11



9
FOUCAULT, Michel. Michel Foucault, Uma entrevista: Sexo, poder e políticas de identidade.
Disponível em http://www.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/sexpodident.html> e acessado em 13/06/09, às
14h.
10
CARVALHO, Salo de. Criminologia e Transdisciplinaridade. In GAUER, Ruth (org.) Sistema Penal e
Violência. RJ: Lumen Juris, 2006, p. 37.
11
CARVALHO. Criminologia e Transdisciplinaridade, p. 36.
Página 59 / 477
19
Em relação às pesquisas sobre drogas, “a criminologia psiquiátrica” tende a
centrar seus estudos na ponta problemática do uso, a dependência química.
12
Com a
recente propagação dos problemas relacionados ao crack, o saber psiquiátrico tem
tentado recuperar a hegemonia que perdera após as críticas provenientes da
antipsiquiatria no campo da saúde mental. A difusão midiática de campanhas contra o
crack encontra seu sustentáculo teórico no saber psiquiátrico, sendo que alguns
psiquiatras têm liderado a cruzada em andamento em solo gaúcho, cujo lema é “Crack,
nem pensar”.
13
O saber psiquiátrico parece estar aproveitando o contexto de pânico para
demonstrar que “estava certo” quando se opôs ao movimento anti-manicomial,
atribuindo a este a responsabilidade pelas dificuldades no tratamento da dependência em
crack, sobretudo em razão da falta de leitos psiquiátricos. Conforme PECHANSKI,
“infelizmente, no Brasil, a escalada do crack coincidiu com a política de fechamento de
leitos psiquiátricos, e a rede pública não tem tido capacidade de absorver toda a
demanda”.
14


Está em andamento, no Rio Grande do Sul, pesquisa que pretende estudar o
perfil dos usuários e as conseqüências do uso de ecstasy, coordenada pela psicóloga
Lysa Silveira Remy e pelo psiquiatra Flávio Pechanski, ambos da UFRGS. A pesquisa
pretende entrevistar usuários voluntários, selecionando-os por meio do “Orkut” e
distribuindo folhetos em festas “rave”. Na página do “Orkut” do projeto constam
algumas informações sobre a pesquisa
15
, bem como as pessoas que fazem parte da rede
de relacionamento. Já são 167 associados.

12
São incontáveis os artigos psiquiátricos publicados a respeito de drogas e dependência química. Para o
objetivo desta parte do trabalho, destaco os artigos de Flávio Pechanski e de Sérgio de Paula Ramos, por
considerá-los os maiores expoentes do tema no Rio Grande do Sul, sobretudo porque são aqueles
constantemente ouvidos pelos meios de comunicação, fornecendo, deste modo, a legitimação científica
das notícias publicadas. Tais notícias têm enorme importância por contribuírem decisivamente para a
construção da visão dominante sobre o assunto. Exemplificativamente, conferir, PECHANSKI e
KESSLER. Uma visão psiquiátrica sobre o fenômeno do crack na atualidade. Revista Psiquiátrica do Rio
Grande do Sul. 2008, n.º 30. RAMOS, Sérgio de Paula, et al. Psicodinânica do adolescente envolvido
com drogas. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. 2003, n.º 25. RAMOS, Sérgio de Paula, et al.
Da cervejinha com os amigos à dependência de álcool: uma síntese do que sabemos sobre esse percurso.
Revista Brasileira de Psiquiatria. 2004, n.º 24.
13
Campanha promovida pelo Grupo RBS. Disponível em www.cracknempensar.com.br.
14
PECHANSKI; KESSLER. Uma visão psiquiátrica sobre o fenômeno do crack na atualidade, p. 98.
15
Transcrevo aqui, o texto utilizado para chamada de voluntários: “Você gosta de festas?
Queremos saber sobre suas experiências.
Se você frequenta baladas eletrônicas, festas rave, trance, house e psytronic venha falar com a gente.
Se você frequenta o república de madras, kimik, beco, club dusk, club neo, chairs, quartiers latin e
festivais de musica eletrônica, venha fazer parte deste projeto.
Somos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e estamos desenvolvendo um projeto de
pesquisa que busca compreender a cultura das festas rave e de música eletrônica. Queremos conhecer
Página 60 / 477
20

Paralelamente às pesquisas sobre o uso problemático de drogas, a psiquiatria
oficial defende o uso estritamente médico de substancias psicoativas. Assim, precisou
criar algumas entidades nosológicas, tal qual a doença da depressão, para, no mesmo
processo, poder oferecer o psicofármaco adequado. É claro que, quando se fala que a
psiquiatria “cria” a doença da depressão, não se está a dizer que certas pessoas não
passam por momentos de tristeza profunda, tampouco que tais sentimentos sejam
irreais. O intuito é apenas salientar que a doença não existe anteriormente à definição,
ou seja, que a doença da depressão nada mais é que uma categoria médica que unifica
em um conceito existências absolutamente diferentes, que possuem algo em comum.
Neste sentido, vale citar BEZERRA JUNIOR:

“Na psiquiatria não dispomos de nada parecido, já que não existe, para a
maioria absoluta das condições tratadas pelos psiquiatras, nenhum agente
etiológico claramente definido ou um marcador biológico preciso. Apesar
disto, a indústria farmacêutica logo compreendeu a importância de uma
estratégica mercadológica fundada na noção de especificidade da indicação
de seus produtos, e rapidamente a adotou. Drogas como cloropromazina a a
butirofenona, apresentadas como neurolépticos (uma definição que alude a
seu efeito psicofarmacológico) passaram a ser chamados de antipsicóticos
(uma nomeação que aponta para uma entidade anátomo-clínica subjacente
aos sintomas, e que seria supostamente seu alvo preciso). Esta pequena
mudança de nome levou consigo uma mudança na atitude do médico em
relação à droga. Hoje, essas drogas são prescritas a pacientes simplesmente
porque eles têm uma psicose, e não para alcançar um objetivo preciso no
tratamento. Na ausência dos marcadores biológicos, é o próprio
medicamento que é muitas vezes convocado a cumprir esta função. A
resposta ao medicamento funciona como confirmação do diagnóstico. Se
alguma condição responde a um antidepressivo, conclui-se que se trata de
uma depressão , ainda que não se possa indicar qualquer hipótese etiológica
ou psicodinâmica”.
16


Ao olhar para as drogas, simultaneamente, desde as perspectivas da doença
(dependência química) e da cura (medicalização dos sofrimentos) a criminologia
psiquiátrica trilha dois caminhos diferentes que, entretanto, se encontram na chegada.
Por um lado, já parte de uma etiqueta negativa em relação a consumos outros que não os
terapêuticos de drogas lícitas, pois consideram que aqueles carregam a ameaça
constante de transformarem-se em dependência química. Por outro, reforça o próprio

suas vivências nas festas eletrônicas. Se você faz parte deste universo, venha conversar conosco. Todas as
informações são para pesquisa - portanto sigilosas.” In
http://www.orkut.com.br/Main#Profile.aspx?uid=16675089220226347885, acesso em 22 de junho de
2009, às 2h54min.
16
BEZERRA JUNIOR, Benilton. Da contracultura à sociedade neuroquímica: psiquiatria e sociedade na
virado do século. In: ALMEIDA, Maria Isabel Mendes de; CAMBRAIA, Santuza (orgs). Por que não?
Rupturas e continuidades da contracultura. RJ: 7 letras, 2007, p. 149.
Página 61 / 477
21
monopólio do direito de prescrever medicamentos que geram estados alterados de
consciência, retirando do sujeito a possibilidade de gerir a si mesmo.

Ambas as perspectivas são insuficientes. A primeira, porque desconsidera todo
o universo de consumos não problemáticos de drogas, que existem e exercem funções
positivas na sociedade, no sentido de que criam saberes, interações e sentidos. É que,
“se o consumo de drogas pode potencializar comportamentos compulsivos, deve-se
lembrar que pode ocorre também dentro de relações sociais estáveis, não prejudiciais e
integradas em múltiplas dimensões da vida do sujeito.”
17
A segunda, porque não
problematiza a si mesma. Encerrada no feudo disciplinar que lhe garante segurança e
hegemonia, a psiquiatria deixa de refletir sobre as características da contemporaneidade
das quais deriva a demanda pela medicalização da existência, respondendo
acriticamente ao imperativo da sociedade de performance, abrigada sob o álibi
terapêutico. A partir de ambos os movimentos, a “criminologia psiquiátrica” atua em
cooperação com o establishment proibicionista, pois reforça a diferenciação entre as
drogas lícitas e ilícitas, e desconsidera um dos pressupostos do antiproibicionismo, que
é a aposta na autogestão no consumo de drogas. A guerra às drogas não sobreviveria
não fosse sua caridosa face sanitarista.
18


1.1.2 – A CRIMINOLOGIA JURÍDICA DAS DROGAS – CRÍTICA DO
DIREITO PENAL

A criminologia crítica produzida no Brasil, e também na América Latina,
desenvolveu-se sob grande influencia de Alessandro Baratta. A obra seminal deste autor
analisa detidamente as mais diversas teorias criminológicas, e delas retira o fundamento
que deslegitima os princípios sob os quais, segundo ele, fundam-se o direito penal.
Todas as teorias trabalhadas são consideradas como representantes da “criminologia
liberal contemporânea, etiqueta sob a qual se reúnem diversas teorias não integráveis

17
LABATE, et. al. Drogas e cultura: novas perspectivas. Salvador: EDUFBA, 2008, p. 28.
18
A perspectiva apresentada é aquela, de algum modo, estabelecida, que ultrapassa os muros da academia
e encontra o senso comum, fundamentando a visão dominante sobre o tema. Entretanto, também neste
campo é possível encontrarmos perspectivas críticas, cuja matriz é a antipsiquiatria, “de forte inspiração
sociológica e filosófica, que tensionam as relações institucionais e de poder que a atuação dos técnicos
(psicólogos e psiquiatras) no controle do comportamento delitivo”. Além disso, tais perspectivas, a partir
dos diálogos com a psicanálise, contribuem com importantes análises sobre a violência como sintoma
social contemporâneo. (CARVALHO, Salo de. Criminologia Cultural, Complexidade e as Fronteiras de
Pesquisa nas Ciências Criminais. In: Revista Brasileira de Ciências Criminais, n.º 79. SP: RT, 2009,
prelo).
Página 62 / 477
22
em sistema, cada uma das quais, tomada em si mesma, representa uma alternativa
parcial à ideologia da defesa social”.
19
O projeto de Baratta seria, então, a superação
das criminologias liberais contemporâneas pela maturação de uma criminologia crítica,
que agregaria às análises microssociológicas, uma análise macrossociológica da questão
criminal, mormente baseada no materialismo histórico. A partir daí, propõe um novo
modelo integrado de ciência penal, no qual a “relação entre ciência social e discurso
dos juristas não é mais uma relação entre duas ciências, mas uma relação entre ciência
e técnica.
20
” Assim, a técnica jurídica seria responsável por preparar os instrumentos
legislativos, interpretativos e dogmáticos aptos a acolher as finalidades políticos
criminais que derivariam de uma ciência social comprometida com a transformação do
próprio objeto.
21
Conforme BARATTA,

Na atual fase de desenvolvimento da sociedade capitalista, o interesse das
classes subalternas é o ponto de vista a partir do qual se coloca uma teoria
social comprometida, não na conservação, mas na transformação positiva,
ou seja, emancipadora, da realidade social. O interesse das classes
subalternas e a força que elas são capazes de desenvolver são, de fato, o
momento dinâmico material do movimento da realidade.
22


A criminologia crítica proposta por Baratta centra sua atenção na crítica do
direito penal, o que consta no próprio título do livro. Ainda que se inverta a relação de
auxiliaridade, pois agora é a técnica jurídica que está subordinada à sociologia do direito
penal, ainda se mantém a imbricação entre ambos. Ou seja, a criminologia crítica só é
criminologia na medida em que estiver desvelando a atuação do direito penal, mormente
as funções ocultas, latentes ou subterrâneas que este exerce na atual fase do capitalismo,
e, a partir daí, propondo políticas criminais alternativas.

A “criminologia crítica das drogas” brasileira desenvolveu-se, então, neste
horizonte. Foi desconstruída a fundamentação teórica do proibicionismo, a partir da
principiologia constitucional; foram demonstradas as funções ocultas escondidas na
repressão policial aos territórios onde a venda varejista de drogas se organiza – favelas;
foi denunciada a seletividade do poder punitivo, que atua violentamente na ponta mais

19
BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e crítica do direito penal. Introdução à sociologia do
direito penal. Tradução de Juarez Cirino dos Santos. RJ: Revan, 2002.
20
BARATTA. Criminologia crítica e crítica do direito penal. Introdução à sociologia do direito penal, p.
156.
21
BARATTA. Criminologia crítica e crítica do direito penal. Introdução à sociologia do direito penal. p.
157.
22
BARATTA. Criminologia crítica e crítica do direito penal. Introdução à sociologia do direito penal., p.
158.
Página 63 / 477
23
vulnerável do comércio, ao passo que oferece “tratamento” aos filhos da classe média e
alta envolvidos com drogas; foram demonstrados os objetivos não-declarados da
política internacional de guerra às drogas, chefiada pelos Estados Unidos; as bases
ideológicas da política criminal brasileira de guerra às drogas (defesa social, segurança
nacional, lei e ordem e direito penal do inimigo).

Rosa del Olmo, criminóloga venezuelana que tem forte influencia na
criminologia crítica brasileira, levou a cabo espécie de geopolítica das drogas e da
proibição. Demonstrou como ocorre a diferenciação entre países produtores e
consumidores. Que tal diferenciação serve a objetivos outros que têm a ver com
necessidades imperialistas do pivô do proibicionismo em nível mundial, os Estados
Unidos,
23
e que a América Latina resta novamente colonizada sob a justificação retórica
da “bem intencionada” war on drugs.

Roberto Lyra Filho, no discurso de síntese do Simpósio Internacional de
Criminologia, ocorrido em 1976, em São Paulo, já sustentava a ilegitimidade da
proibição do uso de drogas:

Não se segue, é claro, que todas as forma de reprovação moral, religiosa ou
médica, se tornem assim, ilegítimas. Segue-se, entretanto, que gradualmente
chegamos à conclusão de que a retirada da sanção penal abre espaço para
outros tipos de pressão não coativa. Digo não-coativa com o tipo de sanção
social organizada que as leis fornecem. O suicídio, por exemplo, aparece
agora raramente no direito comparado, exceto como relíquia obsoleta. A
prostituição vai pelo mesmo caminho, junto com o homossexualismo e
outras formas de comportamento aberrante, que os grupos sociais
estabeleceram, segundo suas convicções morais subjacentes. (...) A
toxicomania, como assim chamado “crime sem vítima”, é um perfeito
exemplo de autodestruição, e a questão é saber se não deveríamos
desincriminar esses tipos de condutas, e relegá-los à esfera da moral, da
religião e da desaprovação médica, sem repercussões jurídicas.
24


O autor segue apresentando argumentos que estão presentes nas mais atuais
análises sobre o assunto, a toxicomania como sintoma da sociedade do consumo, a
inserção das drogas nos contextos culturais de onde deriva o significado do uso, a
proibição como incentivo ao consumo, a necessidade de distinção entre os diferentes

23
Ver: OLMO, Rosa Del. Las relaciones internacionales de la cocaína. In Revista Nueva Sociedad, n.º
130. 1994; OLMO. Drogas: distorsiones y realidades. Revista Nueva Sociedad n.º 102. 1989. Ver
também OLMO. A face oculta da droga. RJ: Revan, 1990.
24
LYRA FILHO. Roberto. Drogas e criminalidade. Revista de Direito Penal, n.º 21/22. 1976, pp. 33/34.
Página 64 / 477
24
tipos de drogas, até concluir com uma crítica aos juristas por superestimarem o poder de
intimidação atribuído às sanções penais.
25


Maria Lucia Karam denuncia a artificialidade da diferenciação entre as drogas
lícitas e as drogas ilícitas e o encobrimento das razões históricas, econômicas e políticas
de tal diferenciação, que em nada está relacionada com a saúde publica. Demonstra que
o resultado de tal escolha arbitrária reflete-se em uma perda de credibilidade dos
discursos pedagógicos sobre as drogas, pois o “pai que se aterroriza com um cigarro de
maconha entre os pertences do filho é capaz de tomar várias doses de uísque na frente
do mesmo”.
26
A autora não deixa de frisar a existência de consumos não problemáticos
de drogas, referindo que não há negatividade intrínseca nas substâncias, pois o
significado (positivo ou negativo) atribuído ao uso dependerá de outros fatores, tais
como a dose, o contexto e a freqüência do consumo. Segue pensando a respeito dos
aspectos históricos, políticos e econômicos das drogas na sociedade, pontuando que,
muitas vezes, o consumo de substâncias decorre de exigências sociais: de rendimento,
como no caso dos trabalhadores das fábricas; de ideais estéticos, dos quais decorre o uso
de moderadores de apetites; de sobrevivência ante às agruras de uma existência
precária, tal qual o uso de cola por parte de moradores de rua para iludir a fome.

Após traçar histórico dos usos e das proibições das drogas, e de comentar a
política mundial de guerra às drogas, a autora faz diagnóstico dos custos sociais da
criminalização: do ponto de vista da oferta e da demanda, conclui que a proibição não
teve nenhum sucesso; do ponto de vista do uso, enumera diversos efeitos colaterais do
proibicionismo, tais quais a ausência de controle de qualidade das substâncias; a
ausência de higiene nos consumos em razão da clandestinidade, do que resulta a
disseminação de doenças sexualmente transmissíveis; a estigmatização do usuário, da
qual decorre dificuldades na busca de tratamento; etc. Conclui, então, pelo necessário
rompimento com a “fantasia da solução penal”, e propõe “alternativas para o controle
do aspecto problemático das drogas.” O pressuposto das alternativas é a
descriminalização, que não significa liberação, pois, a partir daí, seria possível controlar
a qualidade dos produtos e a organização empresarial da produção e do comércio,

25
LYRA FILHO. Drogas e criminalidade, p. 36.
26
KARAM, Maria Lúcia. De crimes, penas e fantasias. RJ: Luam, 1991, p. 27/28. Ver também KARAM.
Políticas de drogas. Alternativas à repressão penal. In: Revista Brasileira de Ciências Criminais n.º 47.
SP: RT, 2004, pp. 360/375.
Página 65 / 477
25
limitar os locais aptos para os usos, informar corretamente a população sobre os efeitos
das substâncias e indicar lugares adequados para tratamento voluntário à dependência.
27

Maria Lúcia Karam também contribuiu na deslegitimação jurídica do proibicionismo,
ao criticar a estrutura legal do direito penal das drogas, que viola os princípios básicos
do direito penal moderno.
28


Vera Malaguti Batista escreveu sobre os “difíceis ganhos fáceis” da juventude
pobre envolvida com drogas no Rio de Janeiro. Em dissertação de mestrado, realizou
pesquisa empírica centrada na análise dos processos da 2º Vara de Menores do Rio de
Janeiro, a partir de um recorte temporal de 20 anos, 1968 a 1988. Tendo como
referencial teórico a criminologia crítica, e a partir da idéia de cidadania negativa, pode
identificar, sobretudo, a seletividade da atuação das agências punitivas – estereótipo
criminal para a juventude pobre, estereótipo médico para a classe média - bem como a
violência camuflada pela técnica dos laudos periciais elaborados pelos “especialistas”
que atuam nos processos. Os resultados da análise qualitativa dos dados dos processos
serão bastante úteis, pois demonstram semelhanças e diferenças com os encontrados na
pesquisa empírica realizada no presente trabalho, que será exposta detalhadamente no 3º
capítulo. Nos dois casos, mesmo considerando que estamos a falar de um outro contexto
– de outra cidade e de outra década – algumas regularidades lá encontradas certamente
servirão de importantes parâmetros comparativos. A conclusão de Malaguti Batista,
referenciada por sua pesquisa empírica, vai ao encontro da perspectiva do realismo
marginal, no sentido da denúncia da violência genocida e do poder configurador - que
recaem principalmente sobre os setores pobres da população - que estão por traz da
função oficial atribuída à “guerra às drogas”.
29


O estudo sistemático, criminológico e dogmático, sobre a “política criminal de
drogas no Brasil”, foi realizado por Salo de Carvalho.
30
Conforme Vera Regina Pereira
Andrade, a hipótese que serviu de fio condutor à obra rompeu com a idéia de que o

27
KARAM. De crimes, penas e fantasias.
28
KARAM, Maria Lúcia. A Lei 11.343/06 e o repetidos danos do proibicionismo. In: LABATE et al.
Drogas e Cultura. Novas Perspectivas. Salvador: EDUFBA, 2008.
29
BATISTA, Vera Malaguti. Difíceis ganhos fáceis. Drogas e Juventude Pobre no Rio de Janeiro. RJ:
Revan, 2003.
30
CARVALHO. Salo de. A política criminal de drogas no Brasil (estudo Criminológico e Dogmático).
RJ: Lumen Juris, 2007.
Página 66 / 477
26
combate ao uso e ao tráfico de entorpecentes é ineficaz no Brasil em razão da ausência
de uma política criminal:

A hipótese aqui desenvolvida e fundamentada rompe com este senso comum
precisamente ao afirmar que tal política “existe” e tem uma coerência
interna. Trata-se de uma Política de guerra, combate ou beligerância
(genocida) que, inserida num processo de transnacionalização ou
globalização do controle social – é potencializada no Brasil por uma tríplice
base ideológica: a ideologia da defesa social (em nível dogmático)
complementada pela ideologia da segurança nacional (em nível de
Segurança Pública), ambas ideologias em sentido negativo
instrumentalizadas (no nível legislativo) pelos Movimentos de Lei e Ordem
(com sua ideologia em sentido positivo).
31


A partir de uma abertura transdisciplinar da temática, o que se dá por meio da
criminologia, o trabalho de Salo de Carvalho pretende configurar-se em “instrumento
de diagnóstico e prognóstico das políticas criminais no campo das toxicomanias, ou
seja, das ações repressivas e/ou preventivas realizadas pelas agências formais de
controle”.
32
A criminologia crítica - que substitui a pergunta de “por que as pessoas
usam drogas”, pelo questionamento a respeito de “por que determinadas substâncias
que produzem dependência física ou psíquica são consideradas lícitas e outras ilícitas”
– serve de lupa criminológica, com o objetivo de “redimensionar a relação entre as
esferas criminais (dogmática penal, dogmática processual penal e política criminal),
gestando discursos de integração entre os ramos penais e destes saberes com as demais
ciências.”
33
Acompanhando o próprio movimento da criminologia crítica, que, segundo
o autor, transformou-se em políticas criminais alternativas (criminologia da práxis),
Salo busca critérios para o programa político-criminal descriminalizador, e os encontra
no abolicionismo penal, no direito penal mínimo e no garantismo penal. Ao fim, o autor
não se abstém de realizar a necessária crítica dogmática ao direito penal das drogas,
mudando definitivamente a perspectiva: da crítica criminológica e político-criminal, à
instrumentalidade garantista.

Certamente diversos outros autores escreveram sobre o tema. Contudo, o
objetivo deste tópico não é realizar uma revisão bibliográfica da matéria, mas mostrar
que a “criminologia crítica das drogas” produzida no Brasil, centrou sua análise na
“crítica da política criminal, com a proposição de novos rumos criminalizadores e

31
ANDRADE, Vera Regina Pereira. In prefácio de CARVALHO. A política criminal de drogas no Brasil
(estudo Criminológico e Dogmático). p. xxii.
32
CARVALHO. A política criminal de drogas no Brasil, p. 02.
33
CARVALHO. A política criminal de drogas no Brasil, p. 02.
Página 67 / 477
27
descriminalizadores; crítica aos fundamentos do direito penal (crítica à dogmática);
crítica a aplicação do direito penal pelos operadores do direito (dogmática crítica).”
34

Daí, a questão que surge é a seguinte:

A indagação versa sobre o refúgio criminológico na crítica da dogmática
penal e o eventual esvaziamento da criminologia que, confundida com o
direito penal crítico, é impedida de pensar criminologicamente problemas
criminológicos. Em outros termos, o interrogante direciona-se à
problematização de se não é competência (exclusiva) da ciência dogmática
assumir e realizar sua autocrítica.
35


Não se pretende responder a indagação. Basta dizer, por enquanto, que a
crítica à política criminal de drogas e ao direito penal das drogas já está feita, e bem
feita.
36
E que, por óbvio, este trabalho não pretende repeti-las.

A criminologia crítica partiu de uma análise macrossociológica a respeito das
condições estruturais do capitalismo tardio, considerando o sistema penal como
elemento da superestrutura, instrumento classista que contribui para a manutenção da
ordem social injusta. Tal análise foi plenamente êxitosa e este trabalho pressupõe as
suas conclusões. Contudo, ao centrar a análise nas estruturas, talvez a criminologia
crítica tenha menosprezado a questão cultural, os embates discursivos entre as diversas
visões de mundo que não derivam necessariamente da posição ocupada pelo sujeito na
estrutura social. Assim, ainda que seja correto pensar que o proibicionismo decorre da
macroestrutura do capitalismo, das relações internacionais imperalistas que o sustentam,
da necessidade de controlar e vigiar permanentemente certos grupos sociais, de
encarcerar massivamente os “refugos da sociedade do consumo”, etc, é necessário ir
além (ou aquém?). É que, para além das estruturas, a legitimação da proibição das
drogas se dá no dia-a-dia, nas ações dos empreendedores morais que etiquetam certas
substâncias, positivamente ou negativamente, que optam por um modelo de sociedade,
por um tipo de ordem. Optam pelo tipo de drogadição aceitável, por aquilo que pode ser
consumido na mesa de jantar e por aquilo que não pode. Por aquilo que desperta pânico,

34
CARVALHO. Criminologia Cultural, Complexidade e as Fronteiras de Pesquisa nas Ciências
Criminais, prelo.
35
CARVALHO. Criminologia Cultural Complexidade e as Fronteiras de Pesquisa nas Ciências
Criminais, prelo.
36
Vale ressaltar que as mais recentes decisões que consideram inconstitucional o delito de porte de
drogas para consumo utilizam como fundamentação teórica as idéias trabalhadas pelos autores citados
neste tópico. Neste sentido, conferir Apelação Criminal n.º 01113563-3/0-0000-000, TJSP, Relator José
Henrique Rodrigues Torres. Também conferir, nos anexos, o parecer do Ministério Público, acatado pelo
juízo, em todos os processos do Foro Regional do Quarto Distrito de Porto Alegre, nos casos de 76 a 90.
Página 68 / 477
28
e por aquilo que não desperta. É dessa miríade de culturas e contraculturas que talvez a
criminologia crítica tenha se descuidado.

1.1.3. A CRIMINOLOGIA SOCIOLÓGICA E ANTROPOLÓGICA DAS
DROGAS

Historicamente as abordagens científicas e políticas produzidas no Brasil
consideraram a questão das drogas como um problema de saúde pública, e tiveram
como ponto de partida a representação das drogas e de seus usos como um “problema
em si”. Daí decorreu o predomínio das visões sobre o tema das ciências biomédicas,
tanto na academia, quanto na orientação governamental das políticas públicas. Por
outro lado, a interminável discussão a respeito do regime jurídico de controle das
substâncias, evocaram o jurista a manifestar-se sobre a matéria, e o chamado foi
atendido prontamente. Pululam análises jurídicas, ora frisando a ilegitimidade da
criminalização do consumo, ora salientando a legitimidade da criminalização,
fundamentada no direito à saúde e à segurança pública.

Contudo, diante da notória constituição dos usos, dos regimes de comércio e
do controle penal do comércio de drogas, como um fato social da maior importância,
também as ciências sociais debruçaram-se sob a temática. Sobretudo a partir de
pesquisas etnográficas, mais ou menos relativistas, conforme as orientações teóricas dos
pesquisadores, as ciências sociais penetraram nos diversos mundos que constituem a
questão das drogas no Brasil, da cultura dos usos da classe média urbana à cultura dos
territórios nos quais se organiza a venda varejista das substâncias. A maioria das
pesquisas resulta da produção acadêmica carioca, o que é explicável pela agudização e
pela visibilidade dos conflitos relacionados ao tráfico de drogas na cidade do Rio de
Janeiro.

Alba Zaluar é pioneira nos estudos etnográficos sobre violência urbana,
pobreza e tráfico de drogas. Em 1986, deu início à pesquisa de campo num bairro
popular do Rio de Janeiro, com o objetivo de “conhecer as idéias sobre o crime, as
instituições estatais encarregadas de combatê-lo e a sociedade.” Em tal pesquisa,

(...) foram entrevistados cerca de setenta jovens, principalmente do sexo
masculino, que pertenciam a quadrilhas de assaltantes ou traficantes, assim
Página 69 / 477
29
como os que tinham participação periférica e eventual nas atividades
criminosas. Ela foi realizada do final de 1986 até meados de 1991,
utilizando técnicas de história de vida, entrevistas e, por intermédio de um
dos assistentes de pesquisa, da observação participante.
37


A autora parte de uma concepção crítica ao relativismo cultural, ao mesmo
tempo em que reafirma os direitos universais de cidadania. Toma a questão da violência
urbana e, fundamentalmente, dos homicídios entre os jovens pobres das periferias,
vinculados à guerra do tráfico, com um problema autônomo, criticando a tradição
marxista da sociologia brasileira, que considerava a violência como um epifenômeno
determinado pela estrutura econômica do capitalismo. Isso porque, o surgimento de
“múltiplos conflitos envolvendo relações de gênero, geração, estilos e etos, inclusive no
interior da mesma classe social, tornaram os modelos de sociedade mais complexos.
38

Ou seja, Alba Zaluar considera que posturas que, ou desconsideram a violência e a
segurança urbana como um problema autônomo, ou enxergam positividade em certos
tipos de violência física – exercidas por pobres contra ricos, tal qual a representação de
Robin Hood – e negatividade em todo e qualquer tipo de política de segurança pública
estatal, acabam por cerrar os olhos para o fato de que a população pobre é a maior
vítima da violência urbana. Defende, então, a necessidade de uma política de segurança
pública democrática.

A autora sustenta a hipótese de que o incrível aumento no número de
homicídios entre jovens está ligado diretamente ao tráfico de drogas ilícitas, à
organização criminosa montada em territórios – favelas – para a venda varejista, a
interação indevida entre a organização do tráfico e a polícia (corrupção policial) e a
cultura de violência na qual vivem tais grupos:

Contudo, não há menor dúvida, pelo material etnográfico recolhido nas
pesquisas por mim coordenadas, de que vigora uma forte relação entre
aquilo que chamei inicialmente de etos de virilidade (Zaluar, 1988, 1993b),
e posteriormente de etos guerreiro (Zaluar, 1997a, 1998), e a nova
criminalidade do tráfico de drogas. Um novo estilo viril, o etos guerreiro
está germinando em alguns locais e grupos do Brasil, associado tanto ao uso
instrumental quanto ao uso expressivo da violência. Instrumental porque a
violência é um recurso utilizado para obter ganhos, especialmente ganhos
comerciais no tráfico de drogas, no contrabando de armas e em outras
atividades ilegais praticadas no chamado “crime negócio”, que envolve
várias redes de relações interpessoais. E expressivas porque, nas relações

37
ZALUAR, Alba. A criminalização das drogas e o reencantamento do mal. In: ZALUAR (org.). Drogas
e Cidadania. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 97.
38
ZALUAR. Um debate disperso: violência e crime no Brasil da redemocratização. São Paulo em
perspectiva: n.º 13, 1999.
Página 70 / 477
30
entre homens, as respostas a cada desafio vão criando um círculo vicioso, ou
seja, a necessidade de intensificar as respostas a fim de afirmar a vitória de
um homem sobre outro, de um grupo de homens sobre outro grupo de
homens. Essa lógica guerreira do confronto leva finalmente à guerra, mesmo
que encapsulada em certas áreas da cidade.
39


O sociólogo Michel Misse também contribuiu para a compreensão da
temática, sobretudo analisando as “ligações perigosas” entre o mercado informal ilegal,
o narcotráfico e a violência no Rio de Janeiro.
40
O autor criou a categoria de
“mercadoria política”
41
, para dar conta das diversas relações informais que são travadas
e se mantém ao longo do tempo – passando do jogo do bicho ao tráfico de drogas - entre
autoridades públicas e agentes do mercado informal. Também contribuiu para a
elucidação do “organograma” das redes de tráfico, bem como da história e da transição
das “bocas de fumo” para o “movimento”, baseado no comércio de cocaína e
inicialmente dominado pelo Comando Vermelho.
42


Um dos pesquisadores da equipe de Alba Zaluar, responsável pela observação
participante na pesquisa já referida, era Paulo Lins. O autor, nascido e criado na Cidade
de Deus, que é um dos territórios mais violentos do Rio de Janeiro, escreveu o livro
“Cidade de Deus”
43
, contando as transformações ocorridas no bairro, os primórdios do

39
ZALUAR. Integração Perversa: Pobreza e Tráfico de Drogas. Rio de Janeiro: FVG, 2004, p. 387.
Ainda, conforme a autora, “a repetição de certos arranjos e associações simbólicas relacionando o uso
da arma de fogo, o dinheiro no bolso, a conquista das mulheres, o enfrentamento da morte e a concepção
de um indivíduo completamente autônomo e livre adquiriam uma forma que permitia vincular a violência
a um etos de masculinidade que, posteriormente, consideramos um etos guerreiro, tal como exposto por
N. Elias. Nesse etos, era central a idéia de chefe, ou de um indivíduo absolutamente livre, que se guiava
apenas “por sua cabeça”. (...) Junto a outras crianças e adolescentes morrem numa “guerra” pelo
controle do ponto de venda, mas também por quaisquer motivos que ameacem o status ou o orgulho
masculino dos jovens em busca de virilidade – do “sujeito homem” como afirmam.” (Um debate
disperso. Violência e crime no Brasil da redemocratização. In São Paulo em Perspectiva n.º 13, 1999, p.
12) Para a compreensão da estética do “etos guerreiro”, indico alguns links do youtube, no qual é
possível ouvir e assistir os videoclipes dos chamados “funks proibidos”, que são importantes
manifestações artísticas produzidas a partir do caldo cultural dos contextos pesquisados pela equipe de
AlbaZaluar. Indico apenas um, e a partir desse é possível encontrar várias manifestações semelhantes :
http://www.youtube.com/watch?v=T2FV547J0EA&feature=related;, acesso em 01 de julho de 2009.

40
MISSE, Michel. As Ligações Perigosas: Mercado Informal Ilegal, Narcotráfico e Violência no Rio. In
Crime e Violência no Brasil Contemporâneo. Estudos de Sociologia do Crime e da Violência Urbana. Rio
de Janeiro: Lumen Juris, 2006.
41
O autor conceitua “mercadoria política” da seguinte forma: “conjunto de diferentes bens ou serviços
compostos por recursos políticos (não necessariamente bens ou serviços políticos públicos ou de base
estatal) que podem ser constituídos como objeto privado de apropriação para troca (livre ou
compulsória, legal ou ilegal, criminal ou não) por outras mercadorias, utilidades ou dinheiro.” (Ibidem,
p. 180).

42
MISSE. As Ligações Perigosas: Mercado Informal Ilegal, Narcotráfico e Violência no Rio, p. 189.
43
LINS, Paulo. Cidade de Deus. SP: Companhia das Letras, 2007.
Página 71 / 477
31
tráfico de drogas e o início da guerra. O livro acabou virando o filme com o mesmo
nome, produzido e dirigido por Fernando Meireles. O filme fez enorme sucesso, foi
indicado ao Oscar e contribuiu para a disseminação das informações a respeito das
favelas cariocas e das violências relacionadas ao tráfico de drogas. Aliás, o cinema
nacional é importante meio de divulgação das descobertas das pesquisas etnográficas.
Exemplificativamente, basta citar os filmes Notícias de uma Guerra Particular e Tropa
de Elite. O primeiro é um documentário dirigido por João Moreira Salles e Kátia Lund,
no qual são entrevistados diversos participantes do “movimento” do tráfico de drogas,
além de moradores do Morro Dona Marta, o próprio Paulo Lins e profissionais dos
órgãos de segurança pública do Rio de Janeiro. Tropa de Elite virou sucesso nacional,
foi criticado por todos os lados, e teve o mérito de demonstrar a guerra do tráfico vista
pelo ângulo de um policial do Batalhão de Operações Especiais do Rio de Janeiro
(BOPE). Em realidade, o roteiro do filme também se inspirou em livro, Elite da Tropa,
escrito por André Batista e Rodrigo Pimentel, que foram policiais do BOPE, e por Luis
Eduardo Soares.
44


Luis Eduardo Soares também escreveu, juntamente com MV Bill e Celso
Athaíde, o livro Cabeça de Porco:

Cabeça de Porco tem uma dupla origem; é uma espécie de estuário de duas
fontes: uma longa pesquisa realizada em diversos estados brasileiros por
Celso Athaíde e MV Bill, sobre os jovens na vida do crime e suas razões,
sobre a dimensão humana destes jovens; e um conjunto de pesquisas e
registros etnográficos conduzidos por Luis Eduardo Soares, nos últimos sete
anos, sobre juventude, violência e polícia.
45


Trata-se da pesquisa mais completa realizada no Brasil sobre os jovens
envolvidos com o tráfico de drogas, pois os autores, que possuem forte identificação
com os sujeitos da pesquisa (MV Bill é famoso cantor de RAP e Celso Athaíde na
época era líder da Central Única das Favelas – CUFA) visitaram as periferias de todo o
país, identificando especificidades de cada região, semelhanças e diferenças da cultura
em sentido amplo e da cultura de violência nas quais estes jovens estão imersos. De tal

44
SOARES, Luis Eduardo; BATISTA, André; PIMENTEL, Rodrigo. Elite da Tropa. Rio de Janeiro:
Objetiva, 2006.
45
SOARES, Luis Eduardo; BILL, MV; ATHAÍDE, Celso. Cabeça de Porco. Rio de Janeiro: Objetiva,
2005, p. 13.
Página 72 / 477
32
pesquisa, surgiu o livro Falcão: meninos do tráfico, que também deu origem a um
documentário.
46


Como já foi dito, não se pretende realizar uma revisão bibliográfica exaustiva
sobre o tema, mas apenas indicar alguns rumos das pesquisas produzidas no Brasil.
Todas as obras até agora referidas neste tópico analisam a problemática produzida pela
violência em torno do mercado ilícito de drogas. Os usos de drogas são objetos
secundários, pois vinculados ao problema maior, que se refere à situação de risco na
qual vive parcela considerável dos jovens pobres brasileiros, seja participando
ativamente do “movimento”, seja vivendo em meio à guerra entre grupos rivais e contra
a polícia. Ou seja, não se toma como objeto os usos não problemáticos de drogas,
sobretudo porque em um contexto de extrema miséria e violência, tais fenômenos, caso
ocorram, são de difícil observação, pois distorcidos pela dureza da realidade que os
cerca.

Mas também há crescente produção acadêmica que aborda frontalmente os
diferentes tipos de usos de substâncias psicoativa em seus contextos culturais.
Exemplificativamente, basta citar o pioneiro trabalho de Gilberto Velho. Em tese de
doutorado defendida na USP, em 1978, intitulada “Nobres e Anjos: um estudo sobre
tóxicos e hierarquias”
47
, o autor fez importante estudo etnográfico sobre os usos de
drogas nas camadas médias urbanas cariocas. Os estudos contemporâneos mais
significativos situam-se no âmbito da antropologia cultural, e recentemente foram
compilados em livro chamado Drogas e Cultura: novas perspectivas.
48
Tal obra foi
resultado do Simpósio “Drogas: controvérsias e perspectivas”, realizado na USP, em
2005. Por aproximaram-se, tanto teórica quanto metodologicamente dos objetivos do
presente estudo, neste tópico contentar-me-ei em apenas elencá-los, pois tais trabalhos
serão analisados detidamente na sequencia da dissertação, auxiliando-me na tentativa de
atacar o objeto escolhido. Antes, porém, precisarei pensar de maneira mais ampla sobre
a criminologia.


46
BILL; ATHAYDE. Falcão: meninos do tráfico. RJ: Objetiva, 2006
47
VELHO, Gilberto. Nobres e Anjos: um estudo de tóxicos e hierarquias. RJ: Fundação Getúlio Vargas,
1998.
48
LABATE et. al. (org.). Drogas e Cultura: novas perspectivas. Salvador: EDUFBA, 2008.
Página 73 / 477
33
1.2. A CRIMINOLOGIA DE CAJADO E SUSPENSÓRIO –
EMPREENDEDORES MORAIS, PÂNICO MORAL E CONSERVADORISMO

A categoria de empreendedores morais está presente na criminologia desde o
advento da teoria interacionista do desvio.
49
Empreendedores morais são aquelas
pessoas que, em dado contexto, ocupam posição desde as quais podem definir aquelas
condutas que são ou não são aceitas em uma sociedade. São empreendedores morais
tanto aqueles que se preocupam com o conteúdo e com a criação das regras, quanto
àqueles encarregados de aplicá-las.
50
As ações ou omissões dos empreendedores morais
são, portanto, constitutivas do desvio.

Após as discussões epistemológicas a respeito de se houve uma “revolução de
paradigma” em criminologia, mormente, mas não só, após a obra de Howard Becker,
creio que o que restou de mais importante foi a ampliação do objeto do estudo
criminológico em direção a todos os atores do ato desviante, o que teve como premissa
a compreensão do desvio como ação coletiva. A partir daí – e por isso a radicalidade e o
potencial desestabilizador ao establishment que a teoria interacionista do desvio carrega
até hoje – foi possível apontar as lentes para aqueles que criam as regras cujo
descumprimento constitui o desvio. Foi possível, portanto, questionar os
empreendedores morais e todas as suas certezas. Assim, a autoridade e a moralidade
convencional já não estavam protegidas em sua legitimidade tautológica, e agora
estavam nuas na arena dos discursos.

(...) o verdadeiro ataque à ordem social é insistir em que todos os
participantes são objetos apropriados de estudo. A definição anterior do
campo do desvio como estudo das pessoas que supostamente violaram as
regras respeitava essa ordem, isentando de estudo os criadores e os
impositores de regras. Se alguém é isento de estudo, isso significa que suas
pretensões, teorias e afirmações de fato não estão sujeitas a escrutínio
crítico.
51


A idéia de pânico moral surge no mesmo contexto social e teórico. Foi
difundida após a obra de Stanley Cohen, “Folk Devils and Moral Panics: The Creation

49
Utilizo este termo para respeitar a opção de Howard Becker, que, insatisfeito com a rotulação de seus
estudos como “teoria da rotulação”, sugere um outro rótulo, no artigo escrito em 1973, chamado “A teoria
da rotulação reconsiderada”, anexado à recente edição de “Outsiders” lançada no Brasil. BECKER,
Howard. Outsiders. Estudos de sociologia do desvio. Tradução de Maria Luiza X. de Borges. RJ: Jorge
Zahar, 2008.
50
BECKER. Outsiders, p. 153.
51
BECKER. Outsiders, p. 197.
Página 74 / 477
34
of the Mods and Rockers”, publicada no Reino Unido em 1972. Nachman Ben-Yehuda,
na introdução à edição comemorativa dos 36 anos do surgimento da categoria, do
British Journal of Criminology, define pânico moral nos seguintes termos:

The concept broadly refers to the creation of situation in which exaggerated
fear is manufactured about topics that are seen (or claimed) to have a moral
component. Moral panics have to create, focus and sustain powerfully
persuasive images of folk devils that can serve as the heart of moral fears.
(…) moral panics are about representations, images and coercion: about
which of sector of a society has the power to represent and impose its
images, world views and interests onto others as being both legitimate and
valid. In other words, moral panics are about struggles for moral hegemony
over interpretations of the legitimacy (or not) of prevailing social
arrangements and material interests.
52


A disputa por sentidos, por representações, por imagens, por visões de mundo,
nunca deixou e nunca deixará – até o sol explodir - de existir. Empreendedores morais
sempre marcharão nas suas cruzadas. Por outro lado, a contracultura é uma dimensão da
vida social, e as forças contraculturais nunca deixaram e nunca deixarão de produzir
suas pequenas rupturas, auxiliando as diferenças a nadar no mar da mesmice
conservadora. Onde há cultura, há contracultura. Ao mesmo tempo em que
empreendedores morais difundem suas preces, desviantes criam os seus próprios
sentidos.

A questão das visões sobre o desvio que adquirem maior ou menor
supremacia discursiva deve ser situada no marco da ordem social em que são
produzidas e reproduzidas.
53
Os estudos de Howard Becker e de Stanley Cohen, bem
como os demais estudos interacionistas sobre o desvio, retomaram a premissa de que o
conflito constitui a vida social, abandonando a idéia consensual que sustentava as visões
sobre a delinqüência no período no qual “sonho americano” estava prestes a se tornar
realidade, e no qual o desviante só o era em razão de algum tipo de falta, que poderia ser

52
BEN-YEHUDA, Nachman. British Journal of Criminology, n.º 49, 2008.
O conceito refere-se amplamente à criação de situações nas quais um medo exagerado é fabricado sobre
tópicos que são vistos (afirmados) como tendo um componente moral. Pânicos morais devem criar, focar
e sustentar poderosamente imagens persuasivas de monstros urbanos, que podem servir como o coração
dos medos morais.
(...) pânicos morais dizem sobre representações, imagens e coerção: sobre qual dos setores de uma
sociedade tem o poder para representar e impor suas imagens, visões de mundo e interesses sobre outros
como sendo legítimas e válidas. Em outras palavras, pânicos morais são sobre lutas pela hegemonia
moral, sobre interpretações da legitimidade (ou não) dos arranjos sociais prevalecentes e interesses
materiais. (tradução livre).

53
MELOSSI, Dario. Teoria social y cambios en las representaciones del delito. In: SOZZO (org.).
Reconstruyendo las criminologias criticas. Buenos Aires: ad hoc, 2006.
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35
suprida pela ação do Estado Intervencionista. Daí porque a teoria interacionista do
desvio desenvolveu-se fornecendo sustentação teórica para forças contraculturais que
estavam produzindo novos sentidos naquele momento, questionando os valores outrora
consensuais. Ao mesmo tempo, é claro, estava sendo sustentada por essas forças. A
atitude de acolhimento do desvio, inerente aos estudos interacionistas, tiveram enorme
importância nas trincheiras dos debates a respeito das transformações comportamentais
cujo estopim deu-se naquele período.
54


A criminologia - enquanto campo no qual duelam diversos tipos de discursos –
pode racionalizar e legitimar “cientificamente” as opções dos empreendedores morais,
reverberando, deste modo, tais opções, e os auxiliando na criação de pânicos morais. É
o que fez a criminologia chamada por Dario Melossi de “criminologia da revanche”.
Após o questionamento (contracultural) realizado pelos teóricos do etiquetamento da
hegemonia dos valores conservadores que fundamentavam a “sociedade das 9 às 5” dos
“anos dourados”, observou-se a retomada de uma “criminologia do consenso”. Para
Melossi, a questão central da “criminologia da revanche” era “combatir la “mala”
moralidad de los años 1960 por medio de una nueva moralidad “buena.”
55
:

“Es en este sentido que quisiera hablar de una criminologia de la “revancha”
esto es, una criminologia que toma para si, ya no la tarea de la critica y la
inovacción, como habia sucedido en los años 1960, sino la tarea opuesta:
restablecer y apuntalar; contribuir a la solidificación, legitimación y
complacência de una comunidad de gente honesta, que necesita consejo y
orientación luego de un período de cambios profundos y tumultuosos”.
56


Talvez pelo direcionamento operado pela criminologia crítica na América
Latina - que acabou por tratar a teoria interacionista do desvio como uma etapa que o
pensamento criminológico teve de percorrer até chegar ao “fim da história”, numa

54
CALIGARIS, recentemente escreveu crônica sobre a contracultura dos anos 60/70, dizendo o seguinte:
Um amigo me disse recentemente que eu dou uma importância excessiva à contracultura dos anos 60/70.
Acho, de fato, que ela foi a única revolução do século 20 que deu certo e, ao dar certo, melhorou a vida
concreta de muitos, se não de todos. E completa: o mundo é, hoje, um lugar mais habitável do que 50
anos atrás (CALIGARIS, Contardo. Milk, o preço da liberdade, Folha de São Paulo, 26 de fevereiro de
2009).
55
MELOSSI. Teoria social y cambios en las representaciones del delito, p. 140.
É nesse sentido que quis falar de uma criminologia da” revanche”, isto é, uma criminologia que toma para
si já não a tarefa da crítica e da inovação como havia sucedido nos anos 60, senão a tarefa oposta:
restabelecer e apontar, contribuir para a solidificação, legitimação e complacência de uma comunidade de
gente honesta, que necessita conselho e orientação logo após um período de câmbios profundos e
tumultuados. (tradução livre).

56
MELOSSI, Teoria social y cambios en las representaciones del delito, p. 137.
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36
espécie de sucção na qual o discurso crítico toma para si os aspectos das demais teorias
que lhe são úteis para a crítica total ao direito penal - olvidamos de olhar para o campo
da cultura, e para os ringues nos quais os discursos a respeito do desvio engalfinham-se
diariamente. Enquanto a criminologia crítica estava preocupada em explicar, a partir de
variáveis econômicas, os crimes e as lógicas das agências punitivas, efetuando preciso
diagnóstico a respeito do direito penal, transmutando-se em política criminal alternativa
e encontrando seu espaço epistemológico na dogmática penal crítica, o conservadorismo
e seus corolários comportamentais, que não tem vinculação necessária à determinada
classe social, e que tampouco está preocupado com os princípios que fundam o direito
penal, recuperava sua hegemonia.

Sob a constante produção de pânicos morais, empreendedores morais obtêm
grande sucesso em suas cruzadas, identificando as “causas da delinqüência” nas
transformações sociais da contemporaneidade no que tange aos mais variados aspectos
de gerenciamento da existência, numa atitude que pode ser resumida como “fobia do
novo”. O (contra) ataque conservador logrou tanto êxito que acabou por constituir-se
em opinião hegemônica, que fez com que inclusive os partidos de “esquerda”
construíssem suas visões sobre o delito, a ordem e a segurança já partindo deste
consenso.

É certo que tal sucesso da empreitada conservadora desenvolve-se em um
contexto de angústia e desamparo, de um sujeito que não possui mais referências pré-
estabelecidas. Uma das opções do “homem sem gravidade” é, certamente, clamar pelo
retorno do cajado:

Esse tipo de situação sempre conduziu ao retorno do cajado, um retorno da
autoridade, na maioria das vezes sob uma forma despótica. Seria ainda o
caso? Podemos pensar assim, pois a situação atual não é sustentável. E se
pode temer, como uma evolução natural, a emergência do que eu chamaria
um fascismo voluntário, não um fascismo imposto por um líder e uma
doutrina, mas uma aspiração coletiva ao estabelecimento de uma autoridade
que aliviaria da angústia, que viria enfim dizer novamente o que se deve e o
que não se deve fazer, o que é bom e o que não é, enquanto hoje estamos na
confusão.
57



57
MELMMAN, Charles. O homem sem gravidade. Gozar a qualquer preço. Tradução de Sandra Regina
Felgueiras. RJ: Companhia de Freud, 2003, p. 38.
Página 77 / 477
37
O presente trabalho pretende oferecer uma opção ao cajado. Pretende retomar
o potencial contracultural da criminologia. Ouvir aqueles que acabam etiquetados como
desviantes por não seguirem a “cartilha de boas maneiras” da sociedade, de forma
compreensiva e acolhedora. Quer dar voz ao desvio, fazer “ecoar a alteridade”
58
; aliás,
quer mais: quer explicar as condutas hoje etiquetadas como desviantes, relativizando-as,
de modo a torná-las menos exóticas, menos assustadoras. Em outras palavras, quer
explicar o nosso tempo para nossos avós. Ao mesmo tempo, seguindo a tradição da
teoria do etiquetamento, a pesquisa de campo apresentará uma análise a respeito da
reação social e legal ao desvio aqui abordado, demonstrando suas contribuições para a
constituição deste. É esse o caminho teórico que foi trilhado por diversos grupos sociais
que hoje se sentem mais a vontade em viver a própria vida do jeito que bem entendem, e
é por esse rumo que o trabalho pretende seguir.

1.3. REVISITA À TEORIA INTERACIONISTA DO DESVIO

Em uma sociedade que pode ser caracterizada pela metáfora do
“hipermercado dos estilos de vida”
59
, certamente a ação dos empreendedores morais na
constituição dos desvios e na criação dos pânicos morais deve ser repensada. A liquidez
dos laços sociais, a leveza das identidades, os inúmeros papéis que um sujeito pode
desempenhar dependendo do contexto no qual se encontra, entre outras diversas
características da “Era do Vazio”
60
, fulminam qualquer tentativa de pensarmos
dicotomicamente.

O que observamos é um permanente embate micro-político, uma disputa de
idéias incessante, cuja condição de possibilidade foi a democratização do acesso e da
produção da informação. Não é mais possível identificar, claramente, um centro desde o
qual emanam discursos inquestionáveis, desde o qual empreendedores morais impõe
suas etiquetas em desviantes que a internalizam passivamente. Os desviantes do passado
já “saíram do armário”, e defendem seus pontos de vista abertamente, em manifestações
políticas no espaço urbano e virtual. Becker, ao contar a “história da natural” da criação
da Lei de Tributação da Maconha, nos Estados Unidos, refere que “o projeto transitou

58
PANDOLFO, Alexandre; PINTO NETO, Moysés da Fontoura. Criminologia e Narratividade. Fazendo
ecoar a alteridade. In Revista Novatio Iuris, ano II, n.º 3, julho de 2009.
59
LIPOVESTKI, Gilles. A era do vazio. Ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Tradução de
Maria Therezinha Monteiro Deutsch. SP: Manole, 2005, p. 175.
60
LIPOVETSKI. A era do vazio.
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38
facilmente. Os fumantes de maconha, impotentes, desorganizados e sem motivos
publicamente legítimos para o ataque, não enviaram representantes às audiências e seu
ponto de vista não teve registro nos anais”
61
. Transcorridos mais de 40 anos,
certamente vivemos um momento de maior complexidade, no qual as relações sociais
tornaram-se menos verticais e mais negociadas. Para exemplificar, basta mencionar a
“Parada do Orgulho Gay” e a “Marcha da Maconha”, que reúnem anualmente milhares
de pessoas, em cidades do mundo inteiro, com o objetivo de afirmar seus projetos
políticos e suas identidades. Os empreendimentos a partir dos quais as regras e os
desvios são criados, hoje encontram maior resistência, maiores diques, justamente
porque mais atores sociais têm voz.

Da mesma forma, a incorporação das atitudes desviantes de outrora no
cotidiano da contemporaneidade, e a conseqüente aceitação de (praticamente) todos os
estilos de vida – o desvio é a atitude preconceituosa?
62
– indicam a necessidade de situar
a discussão nos parâmetros contemporâneos. Ou seja, não será na crítica ao casamento
burguês, à religião, ao nacionalismo, à beligerância, tampouco não será no uso não
problemático de drogas, que encontraremos desvios. Por óbvio que tal afirmação não é
absoluta, e que certamente encontraremos visões de mundo intolerantes a respeito de
“existências alternativas”. Mas parece que tais “existências” são cada vez menos
“alternativas”, e que há certo movimento em direção a multiplicação das opções
socialmente possíveis de vida. Mesmo a adesão maciça a alguns valores, tal qual o
casamento, por parte dos jovens, é menos sinal de uma espécie de regressão
comportamental, do que do fato de que inclusive o conservadorismo é compreendido.
Juremir Machado diz o seguinte:

Séculos de cartesianismo continuam a ruir. Era fácil escolher entre ser
contra ou a favor. A esquerda representava o bem, a direita era o mal, a
família era a célula incontornável. Depois, com o terremoto de 1968, quase
tudo pareceu inverter-se: a família passou a ser o alvo de todas as críticas e a
matriz de todos os males; a monogamia foi bombardeada; o homem casado
passou a ser visto como um castrado. Também isso passou. Estamos agora
na época da negociação, das escolhas, da busca da fórmula de bem-estar

61
BECKER. Outsiders, p. 151.
62
Hélio Silva, ao abordar um dos desvios mais intensos de nossa sociedade, que é o desvio do travesti,
percebe esse tipo de mudança que estou a frisar. Refere que “vivemos, portanto, um momento histórico de
transição, um processo de incorporação social do travesti, no qual os desviantes já são os que não os
aceitam”. (SILVA, Hélio. Travestis. Entre o Espelho e a Rua. RJ: Rocco, 2007, p. 158).
Página 79 / 477
39
mais adequada a cada um. Está feliz na monogamia? Então, prossiga. Quer
um casamento aberto? Tente. Aprecia trocas de casal? Vá ao lugar certo.
63


Por outro lado, “em assuntos culturais, é difícil não ver a realidade com olho
de ciclope”.
64
Jurandir Freire Costa analisa a constituição de novos parâmetros de
normalidade e de desvio a partir das características da “cultura somática”
contemporânea, resultado, sobretudo, do narcisismo e do culto ao corpo, características
marcantes de nosso tempo. O autor analisa a passagem da construção das identidades
que derivava da educação sentimental burguesa - quando a identidade era considerada
sinônimo de vida íntima - para a construção contemporânea das bioidentidades:

O cuidado de si, antes voltado para o desenvolvimento da alma, dos
sentimentos ou das qualidade morais, dirige-se agora para a longevidade, a
saúde, a beleza e a boa forma. Inventou-se um novo modelo de identidade, a
biodentidade, e uma nova de preocupação consigo, a bioascese, nos quais o
fitness é a suprema virtude. Ser jovem, saudável, longevo e atento à forma
física tornou-se a regra científica que aprova ou condena as aspirações à
felicidade.
65


Por certo que, com advento da “cultura somática” na qual os sujeitos estão
inseridos, e, consequentemente, com a adoção de novos parâmetros de normalidade, de
novas características que identificam o “sucesso” e o “fracasso” no gerenciamento da
existência, ocorrem transformações nas constituições dos desvios. É que o desvio está
sempre referenciado em ideais de normalidade. Por este motivo, para pensarmos sobre
os desvios atuais, é fundamental identificar os principais traços da cultura
contemporânea, os ideais e as aspirações do sujeito pós-moderno.

Há quase 40 anos atrás, Becker afirmava o seguinte:

Não pretendi tampouco, na discussão anterior, sugerir que a vida social
consiste apenas em encontros face a face entre indivíduos. As pessoas
podem se envolver em interação intensa e persistente ainda que nunca
tenham se encontrado face a face: a interação de colecionadores de selos tem
lugar em grande parte pelo correio.
66



63
SILVA, Juremir Machado da. Apresentação da obra de LIPOVETSKI, Gilles. A sociedade pós-
moralista. O crepúsculo do dever e a ética indolor dos novos tempos democráticos. Tradução de Armando
Braio. SP: Manole, 2005, p. xxiv.

64
COSTA, Jurandir Freire. O vestígio e a aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo. RJ:
Garamond, 2005, p. 226.
65
COSTA. O vestígio e a aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo, p. 190.
66
BECKER. Outsiders, p. 183.
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40
O exemplo, que nos remete a um tempo no qual carteiros não entregavam
apenas contas nas caixas de correspondência, apenas corrobora a necessidade de
repensar a interação social e a produção do desvio na contemporaneidade. No tempo da
“blogosfera”, do “msn”, do “orkut”, do “twitter”, do “skype”..., as dinâmicas de
interação transformam-se a cada segundo. A multiplicação das vozes descentraliza cada
vez mais a produção dos discursos, em um processo que parece recém estar começando.

Não obstante, a teoria interacionista é um dos caminhos para retornar ao
estudo cultural do desvio, de modo que seja possível retomar a compreensão do crime e
do controle social como construções culturais, e a partir daí observar atentamente a
complexa produção de sentidos que resulta dos mutantes significados atribuídos às
regras e à transgressão. Além disso, desde esta perspectiva, podemos (re)começar o
diálogo e as interfaces com estudos da antropologia urbana, da filosofia, do pós-
modernismo crítico, da geografia cultural e humana, bem como com a arte, com a mídia
e com os próprios atores da ação coletiva.
67


É que os objetivos da teoria interacionista do desvio são micro-criminológicos.
Por isso, creio que a crítica de BARATTA, no sentido de que a teoria do etiquetamento
é meramente uma teoria de “médio alcance”, que nos elucida apenas a dimensão da
“definição” e não apresenta uma explicação para a “dimensão do poder”
68
, no que tange
ao desvio e ao controle social, talvez fosse pertinente no período em que foi escrita – no
qual ainda se acreditava nas grande narrativas
69
, mas hoje não parece útil. É que não há
nenhum problema no fato de uma teoria ser de “médio alcance”. Aliás, pelo contrário.
Há que se desconfiar das teorias de “longo alcance”, pois estas, na maioria das vezes,
oferecem uma explicação “total” para os fenômenos, e, nesse intuito, esquecem de
submetê-las à pesquisa empírica – blindam as suas conclusões das pesquisas empíricas.


67
HAYARD, Keith; YOUNG, Jock. Cultural Criminology. In The Oxford Handbook of Criminology. :
Oxford: Oxford University Press, 2007, p. 102.
68
BARATTA. Criminologia crítica e crítica do direito penal, p. 92.
69
Conforme CARVALHO, “perceptível que a denominada criminologia pós-moderna constitui a
especificação, na ciência criminológica, do pensamento crítico pós-moderno. Duas características
centrais, podem, portanto, seguindo a crítica geral, ser ressaltadas: o reconhecimento do fim das
grandes narrativas e a impossibilidade de aceitação de qualquer tipo de verdade universal.”
(CARVALHO, Salo de. Criminologia Cultural, Complexidade e as Fronteiras de Pesquisa nas Ciências
Criminais, prelo).
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41
Também penso que não procede a crítica no que tange à ausência de
explicação para a “dimensão do poder”. É que a “dimensão do poder” perpassa toda a
obra de Becker, o que se depreende, de maneira exemplificativa, deste trecho:

“Diferenças na capacidade de fazer regras e aplicá-las a outras pessoas são
essencialmente diferenciais de poder (seja legal ou extralegal). Aqueles
grupos cuja posição social lhes dá armas e poder são mais capazes de impor
suas regras. Distinções de idade, sexo, etnicidade e classe estão todas
relacionadas a diferenças em poder, o que explica diferenças no grau em que
grupos assim distinguidos podem fazer regras para outros”
70


CITAR LARRAURI, LA HERENCIA, P. 138.

O que não há, em realidade, é uma explicação estática sobre o poder. A teoria
interacionista do desvio, antes mesmo de Foucault, já trabalhava com uma idéia de
micropoderes, exercidos por todos os participantes da relação (interação) social, ainda
que de maneira desigual. Mesmo que seja uma teoria de “médio alcance”, as lentes do
labelling são bastante úteis para pensar sobre as questões da contemporaneidade:

(...) si uno reexamina la teoria del etiquetamiento y su critica de la
criminologia tradicional, puede encontrar la mayoria de los temas de la
posmodernidad. El concepto de la construción social de la etiqueta fue el
precursor del “desconstruccionismo”, la noción de que una pluralidad de
voces definen la realidad estaba presente en su turbulenta concepción del
ordem social, así como la idea de uma “jerarquia de credibilidad”, donde los
definidores de la realidad varones, blancos, de más edad y clase alta,
ejercián su dominación. El lenguaje de la etiqueta y su poder idealista en la
construcción social fue ampliamente explorada, y de echo fue el progenitor
intelectual de la criminologia “politicamente correcta” actual. Una teoria del
conflicto reacia a vincularse a una dinamica de clase o a una narrativa más
amplia y abarcadora del control se contentaba com emplazar al poder dentro
de la micropolitica cotidiana de la intervención humana.
71


A opção por revisitar o labelling aproach – em busca de uma criminologia
adequada para pensar a questão das drogas na contemporaneidade - deriva da
necessidade de devolver à criminologia a capacidade de escuta. Para tanto, é

70
BECKER. Ob. Cit., p. 30.
71
YOUNG, Jock. Escribiendo en la cúspide del cambio: Una nueva criminologia para una modernidad
tardia. In: SOZZO (org.). Reconstruyendo las criminologias criticas. Buenos Aires: ad hoc., 2006, p. 80.
(...) se alguém reexamina a teoria do etiquetamento e sua crítica da criminologia tradicional pode
encontrar a maioria dos temas da pós-modernidade. O conceito de construção social da etiqueta foi o
precursor do desconstrucionismo, a noção de que a pluralidade de vozes define a realidade estava
presente em sua turbulenta concepção de ordem social, assim como a idéia de uma hierarquia de
credibilidade, onde os definidores da realidade, varões, brancos, os mais velhos e de classe alta exercem
sua dominação. A linguagem da etiqueta e seu poder idealista na construção social foi amplamente
explorada e, de fato, foi o progenitor intelectual da criminologia politicamente correta atual. Uma teoria
do conflito negava-se a vincular-se a uma dinâmica de classe ou a uma narrativa mais ampla e abarcadora
do controle, se contentava em colocar o poder dentro da micropolítica cotidiana da intervenção humana.
(tradução livre).
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42
fundamental recuperar a tradição empírica, mormente das pesquisas etnográficas.
Retornar ao plano micro, sem, entretanto, olvidar do macro, no sentido proposto por
MELOSSI, “en la que la observación de la actividad social de etiquetamiento deberia
estar conectada con la observación de más tradicionales aspectos estruturales”.
72


1.4. EM BUSCA DE UMA CRIMINOLOGIA (CONTRA) CULTURAL

Uma das críticas que a criminologia crítica recebeu foi a de ter mistificado o
desviante, transformando-o, ou em herói, em “Robin Hood”, ou em vítima.
73
. Algumas
leituras “advindas de linha obsoleta da própria criminologia crítica ainda fundada em
causalismos sociais ou econômicos”
74
, acabaram por considerar o delinqüente, ou um
herói que se opõe às injustiças da estrutura sócio-econômica do capitalismo, ou uma
vítima desta mesma estrutura. A característica comum a ambas as hipóteses é o
silenciamento do outro, que acabou tornando-se – novamente - mero objeto da
investigação criminológica. Conforme PINTO NETO,

O antigo “bad actor”, tratado como objeto de um discurso causalista, foi
jogado ao silêncio, pois aparentemente – apesar de todos os esforços do
labelling approach – ainda existe uma parcela de dogmatismo: ainda não se
pode ouvir quem descumpre a lei. Ainda se procura justificativa. Ainda se
está preso ao esquema jurídico legal de que quem descumpre a lei não pode
falar, senão como forma de 1) confessar que descumpriu a lei ou 2)
apresentar as “desculpas” por esse descumprimento. Um princípio jurídico-
moral ainda está preso no discurso criminológico: não é possível ouvirmos
um discurso que ofenda a ordem jurídica. É preciso que esse discurso se
converta em desculpas.
75


O silenciamento talvez tenha ocorrido pelo fato de grande parte da produção
criminológica brasileira ter centrado suas análises nas críticas à estrutura do sistema
penal, ao direito penal, ao processo penal e à política criminal. O expansionismo penal,
o populismo punitivo, a produção legislativa de emergência, o aumento das penas, a
questão carcerária, o sistema processual inquisitório e as demais questões de processo
penal que podem ser resumidas no debate tumultuado entre eficiência persecutória e
garantias individuais, as decisões judiciais, a atuação seletiva da polícia, as alternativas
à punição e ao processo penal, entre diversos outros temas situados neste horizonte,

72
MELOSSI. Teoria social y cambios en las representaciones del delito, p. 146.
73
LARRAURI, Elena. La herencia de la criminología crítica. Madrid: Siglo Ventiuno, 2000, p. 176.
74
CARVALHO, Salo de. Antimanual de Crimonologia. RJ: Lumen Juris, 2008, p. 154.
75
PINTO NETO, Moyses da Fontoura. O caso Pierre Riviere revisitado por uma criminologia da
alteridade. In: Revista Transdisciplinar de Estudos Criminais, n.º 30. Sapucaia do Sul: Nota Dez, 2008, p.
63.
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43
dominaram o debate criminológico das últimas décadas. A mirada centrada na atuação
e, consequentemente, na crítica ao sistema penal (importantíssima, diga-se de
passagem), apresentam-se efetivamente como um problema, acabou por restringir o
alcance da investigação criminológica. Contentando-se com metodologias que
sucumbem aos “arquivos irresistíveis”
76
, ou seja, aos arquivos do Estado, que
atualmente disponibiliza grande parte de seus dados (tais como decisões judiciais) na
internet, as investigações já partiram das categorias estatais. Dessa maneira, os
resultados obtidos indicam, tão somente, o funcionamento do sistema e não
propriamente os atos desviantes em seus contextos. É o que diagnostica CHRISTIE:

Al tomar como nuestro ponto de partida las categorias estatales, quedamos
atrapados por los significados dados por el sistema de registración oficial.
Estamos, por lo tanto, em peligro de perder la miriada de significados
alternativos posibles. (...) No surpreende que los estudios basados en las
necesidades y los archivos estatales frecuentemente arriben a resultados
triviales. Están basados em datos ya procesados. Empizan en un punto en el
que a los datos ya les ha sido dado su significado designado oficialmente.
No nos encontramos los actores, las interpretaciones conflictivas acerca de
lo que realmente pasó, el significado original dado por los actores en el
medio del drama – o el significado que nosotros, como observadores
directos y comprometidos emocionalmente, podríamos dar a los actos. Para
captar y transmitir ese significado debemos estar ahi, participando,
observando.
77


O criminológo crítico brasileiro, ao deparar-se com um sistema penal
deslegitimado
78
, pensou que a tarefa da criminologia já fora cumprida. Que estava na
hora de passar à ação, às estratégias de contração do poder punitivo. Além disso, após o
criminological turn, qualquer estudo a respeito de atitudes desviantes parecia uma
tentativa positivista, inaceitável ao crítico, de buscar causas para as ações. Assim, tanto
os atos desviantes quanto os empreendimentos morais que os criam e influenciam
decisivamente a que tipo de controle social certo desvio submeter-se-á (informal,

76
CHRISTIE, Nils. Cuatro obstaculos contra la intuición. Notas sobre la sobressocialización de los
criminólogos. In: SOZZO (org.). Reconstruyendo las criminologias criticas. Buenos Aires: ad hoc, 2006,
p. 348.
Ao tomar como nosso ponto de partida as categorias estatais, ficamos aprisionados pelos significados
dados pelo sistema de registro oficial. Estamos, portanto, a perigo de perder a miríade de significados
alternativos possíveis. (...) Não surpreende que os estudos baseados nas necessidades e nos arquivos
estatais frequentemente cheguem a resultados triviais. Estão baseados em dados já processados. Iniciam
em um ponto onde os significados designados oficialmente já estão dados. Não encontramos os atores, as
interpretações conflitantes sobre o que realmente aconteceu, o significado original dado pelos atores em
meio ao drama – ou o significado que nós, como observadores diretos e comprometidos emocionalmente
poderíamos dar aos atos. Para captar e transmitir este significado devemos estar aí, participando,
observando. (tradução livre).
77
CHRISTIE, Cuatro obstáculos contra la intuición, pp. 348/349.
78
ZAFFARONI, Eugenio Raul. Em busca das penas perdidas: a perda de legitimidade do sistema penal.
Tradução de Vânia Romano Pedrosa e Amir Conceição. RJ: Revan, 1991.
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44
controle administrativo, controle penal), acabaram sendo pouco estudados, sobretudo
nos contextos culturais em que ocorrem e nos quais adquirem significado.

Contudo, após a crise e a (auto) crítica, há que retornar ao trabalho. Voltar à
pesquisar, à observar, à ouvir. À procurar sentidos. Como já explicitado, creio que uma
revisita à teoria interacionista do desvio pode ser bastante útil para a abordagem do
objeto desta dissertação. Se no tópico anterior procurei demonstrar que o labelling e as
suas conseqüências devem ser pensados à luz das características da contemporaneidade,
neste será necessário apresentar a perspectiva teórica que deu seguimento e radicalizou
as propostas da teoria do etiquetamento: a criminologia cultural.

Não fosse a surreal situação do sistema penal latino-americano (genocídio em
ato), e do imperativo ético
79
que impele o pesquisador da área a criticá-lo
diuturnamente, de maneira a (tentar) reduzir os danos por ele causados, seria ainda mais
estranho o fato de a criminologia, saber que se propõe a estudar as diversas espécies de
violência, ter se afastado dos estudos culturais. É que é inimaginável qualquer estudo
comportamental sobre pessoas que interagem senão no contexto cultural no qual a
interação ocorre. Conforme GEERTZ, “a cultura (...) não é apenas um ornamento da
existência humana, mas uma condição para ela – a principal base de sua
especificidade”.
80


GEERTZ, defende o seguinte conceito de cultura:

O conceito de cultura que eu defendo, e cuja utilidade os ensaios abaixo tentam
demonstrar, é essencialmente semiótico. Acreditando, como Max Weber, que o
homem é um animal amarrado em teias de significado que ele mesmo teceu,
assumo a cultura como sendo essas teias e a sua análise; portanto, não como uma
ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à
procura do significado.
81


Como sistemas entrelaçados de signos interpretáveis (o que eu poderia chamar de
símbolos, ignorando as utilizações provinciais), a cultura não é um poder, algo ao
qual podem ser atribuídos casualmente os acontecimentos sociais, os
comportamentos, as instituições ou os processos; ela é um contexto, algo dentro do
qual eles podem ser descritos de forma inteligível – isto é, descritos com
densidade.
82



79
ZAFFARONI, Em busca das penas perdidas, p. 153.
80
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. RJ: LTC, 2008, p. 33.
81
GEERTZ. A interpretação das culturas, p. 04.
82
GEERTZ. A interpretação das culturas, p. 10.
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45
Temos aí pressupostos a partir dos quais devem partir as análises da
criminologia cultural. A construção das noções de desvio e controle social dá-se nas
teias de significado que o próprio homem teceu, e é nesse contexto que tais construções
sociais podem ser descritas com densidade. A perspectiva parece estar adequada aos
objetivos de uma criminologia que, em primeiro lugar, não considera a cultura uma
variável dependente da estrutura econômica, e, em segundo, que não a considera
estática. HAYARD e YOUNG, ao apresentarem a criminologia cultural, identificam
dois discursos sobre a cultura, e filiam-se ao primeiro. O primeiro, a considera o lugar
da criatividade, da invenção, da crítica e da autocrítica. O segundo, a compreende em
termos de ordem social, de estabilidade e continuidade:

Culture of the second sort is the province of the orthodox social anthropology, of
Parsonian Funcionalism, of post-Parsonian cultural sociology, Culture is the stuff
of cohesion, the glue of society, the preservative of predicatability, the soi-distant
support of social structure. Culture of the first sort fits much more readily within
the subcultural tradition; it is culture as a praxis, the culture of transgression of
resistance, of human creativity. And in for this first discourse, transgression signals
creativity, with culture of the second sort, transgression signifies the very opposite:
the absence of culture.
83


Trata-se, portanto, de observar ações sociais no contexto cultural, descrevê-las
com densidade e procurar significados. Encontramos tais significados nos discursos, e
não apenas naquilo que é falado ou escrito, mas em todas as manifestações de estilo que
simbolizem algo. Aqui, há uma ponte entre a antropologia cultural e uma possibilidade
de criminologia pós-moderna – se é que é necessário nomear e separar tais saberes –
que identifica o foco do conflito na disputa pelo “controle da realidade”:

“What is at stake is neither money, status, nor power. Instead, postmodern
criminology identifies the conflict to be waged over how a person’s very existence
is defined and lived trough language and prevailing discourses. In that sense, the
goal of the conflict is control of reality.
84



83
HAYARD; YOUNG. Cultural Criminology, p. 104.
Para o segundo tipo, cultura é a província da antropologia social ortodoxa, do Funcionalismo Parsoniano,
da sociologia cultural pós-Parsoniano. Cultura é o objeto da coesão, a cola da sociedade, o preservativo da
previsibilidade, o pretenso suporte da estrutura social. Para o primeiro tipo, cultura se ajusta muito mais
prontamente dentro da tradição subcultural: é cultura como prática, a cultura da transgressão da
resistência, da criatividade humana. E, se para o primeiro discurso transgressão sinaliza criatividade, para
o segundo tipo significa o oposto: a ausência de cultura. (tradução livre).
84
ARRIGO, Bruce; BERNARD, Thomas. Postmodern criminology in relation to radical and conflict
criminology. In: Critical Criminology, vol. 8, n.º 2, 1997, p. 44.
O que importa não é dinheiro, status, nem poder. Ao invés disso, a criminologia pós-moderna identifica o
conflito que ocorre sobre como a existência de uma pessoa é definida e vivida através da linguagem e dos
discursos prevalecentes. Neste sentido, o objetivo do conflito é o controle da realidade. (Tradução livre).
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46
É no campo da cultura – em permanente mutação – que encontramos as
disputas pelas construções dos sentidos das definições de crime, desvio e controle
social. A criminalização primária e secundária, a constituição de desvios -
criminalizados ou não - a estigmatização e as próprias visões sobre controle social –
idealizações sobre policiais cinematográficos, por exemplo – são fenômenos
diretamente relacionados ao embate pelo controle da realidade. Tal disputa apresenta
um processo multifacetado, no qual é sempre possível verificar a produção de pânicos
morais, materializados em pessoas ou ações sobre os quais recaem diuturnamente
campanhas difamatórias – folk devils - e o silenciamento dessas mesmas pessoas. A
preponderância em termos discursivos dá-se pelo maior ou menor acesso aos espaços
culturais de difusão de idéias, bem como, por óbvio, pela relativa pertinência de tais
idéias.

Em relação ao uso de drogas, crime e desvio puramente moral, que não
prejudica ninguém, senão, em alguns casos, àquele que o pratica, torna-se ainda mais
claro o processo de disputa pela produção dos sentidos no contexto da cultura. A
produção dos pânicos sustentados nas narrativas midiáticas sobre os usos problemáticos,
os usos cotidianos – observados ou praticados constantemente pelo sujeito urbano - dos
mais diversos tipos de substâncias com potencial de gerar estados alterados de
consciência, os diferentes significados atribuídos às diferentes substâncias pelas
diferentes pessoas que as usam (a repetição dos diferentes não é um equívoco, mas
recurso utilizado como forma de evidenciar a impossibilidade, ou, no mínimo, a parca
utilidade teórica, de generalizações sobre o tema), as manifestações sobre o assunto que
encontramos no cinema, nas novelas, na música, na moda, nos comerciais, etc, indicam
a omnipresença do tema na cultura e impossibilidade de pensá-lo fora dela.

Como já foi dito, a democratização do acesso e da produção da informação
está contribuindo decisivamente para uma equalização dos poderes de definição, ou
seja, é cada vez mais difícil silenciar os ecos das múltiplas existências. Contudo, a
proibição dos usos de drogas, e a sua definição como crime, segue, de alguma forma,
silenciando as pessoas que as usam. Disso deriva a construção de arquétipos de pessoas
que usam drogas, seja no sentido da demonização, seja no sentido da glamourização.
Nesse contexto, a tarefa da criminologia cultural seria observar o fenômeno, “fixá-lo
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47
numa forma inspecionável”
85
e “incluí-lo nos registros sobre o que o homem falou”
86
,
de modo a desconstruir os arquétipos e substituí-los pela interpretação do observador.

Sequer os próprios autores que retomaram o estudo cultural do desvio e
nomearam tal estudo de criminologia cultural, pretendem uma definição rígida de tal
proposta teórica, pois a consideram na infância e pensam que o futuro está a ser escrito:
“(...) cultural criminology constitutes less a closed analytic system than an open road
into the study or cultural, crime, and their interconnections”.
87
De qualquer forma,
aqui temos uma definição possível:

(…) it is the placing of crime and its control in the context of culture; that is,
viewing both crime and the agencies of control as cultural products – as creative
constructs. As such they must read in terms of the meaning they carry.
Furthermore, cultural criminology seeks to highlight the interaction between
constructions upwards and constructions downwards. Its focus is always upon the
continues generation of meaning around interaction; rules created, rules broken, a
constant interplay of moral entrepreneurship, moral innovation, and transgression.
88


Situar os objetos da investigação criminológica no campo da cultura significa
olhar com atenção para a complexa teia de significados nas quais as visões sobre tal
objeto estão emaranhadas. Considerar, por exemplo, o controle social um produto
cultural, significa admitir que as políticas estatais de controle do delito necessitam
inevitavelmente lidar com a percepção das pessoas a seu respeito. Necessitam se
apresentar como úteis e, para tanto, precisam de uma estratégia de marketing. Da
mesma forma, para pensarmos sobre alguns tipos de atitudes desviantes - tais quais o
uso de drogas, o vandalismo e as pichações – há que ir além tanto da premissa do
cálculo racional, quanto das teorias da privação. É que tais condutas não geram ganho
material. Ao contrário, quem as pratica gasta dinheiro na atividade. Conforme FERREL
E SANDERS, “what is gained by these criminal and non criminal activities alike is not

85
GEERTZ. A interpretação das culturas, p. 13.
86
GEERTZ, A interpretação das culturas, p. 21.
87
FERREL, Jeff; SANDERS, Clinton. Toward a Cultural Criminology. In: Cultural Criminology.
Boston: Northeastern University Press, 1995, p. 297.
(…) criminologia cultural constitui-se menos em um sistema analítico fechado do que numa via aberta
dentro do estudo da cultura, do crime, e de suas interconexões (tradução livre).
88
HAYARD; YOUNG. Ob. Cit., p. ver...
(...) situar o crime e o seu controle no contexto da cultura; isto é, visualizar tanto o crime quanto as
agências de controle como produtos culturais – como construções criativas. Como tais eles devem ser
lidos nos termos do significado que carregam. Conseqüentemente, a criminologia cultural procura
iluminar a interação entre construções dominantes e dominadas. O foco está sempre sob a geração
continuada de sentidos em torno da interação; regras criadas, regras quebradas, uma reciprocidade
constante entre empreendedorismo moral, inovação moral e transgressão. (tradução livre)

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48
necessarily material wealth or physical advantage, but a wealth of pleasure and
excitement.”
89


To make sense of these types of criminal events, then, we need a criminology that
incorporates understanding of humor and pleasure, excitement and desire,
entertainment and emotion, and the entanglement of these human experiences
around the sensuality of the human body. That is, we need a cultural criminology
that accounts for crime in terms not only of its social and legal consequences but
also its entertainment value – its construction as pleasure and fun – for those
involved in it.
90


Significa dizer que os sentidos devem ser buscados em outros lugares, a menos
que caiamos nas fáceis análises que identificam em tais condutas a ausência de
sentido.
91
O imaginário toma importância essencial, pois é nele que encontramos as
representações culturais dos diversos grupos sobre violência, desvio e controle social.

A contribuição central de tal perspectiva foi lembrar o criminólogo de uma
tarefa que parecia ter sido esquecida: observar os desvios e o controle social no âmbito
da cultura em que são construídos. E observá-los não apenas pelo viés deturpado da
informação já processada pela reação formal, mas de maneira frontal, ou seja, encará-
los diretamente. Daí porque a prática etnográfica naturalmente ressurge:

“What remains when we abandon myths of objectivily abstract knowledge and
scientific truth about culture and crime – when we desmystify old methodologies
and realize we are only giving up what we never had? What remains is the
ethnographic case study.
92



89
FERREL; SANDERS. Toward a Cultural Criminology, p. 312.
(...) o que é ganho por essas atividades tanto criminais como não criminais não é necessariamente riqueza
material ou vantagem física, mas uma riqueza de prazeres e êxtase (tradução livre).
90
FERREL; SANDERS. Toward a Cultural Criminology, p. 312.
Para dar sentido a esses tipos de eventos criminais, nós precisamos de uma criminologia que incorpore a
compreensão do humor e do prazer, do êxtase e do desejo, do entretenimento e da emoção, e do
emaranhado destas experiências em torno da sensualidade do corpo humano. Isto é, nós precisamos de
uma criminologia cultural que explique o crime em termos não apenas de suas conseqüências sociais e
legais, mas também de seu valor de entretenimento – de sua construção como prazer e diversão – para
aqueles envolvidos no ato. (tradução livre)
91
Conforme LINCK, “nesse sentido, necessário problematizar que o etiquetamento dos desvios
contemporâneos, como desprovidos de sentido, pode provocar o que os teóricos do desvio denominaram
profecia-que-se-auto-cumpre, ou seja, a interiorização do rótulo por parte dos grupos, o que dificultaria
tanto a compreensão acadêmica como o próprio reconhecimento, por parte deles, de possíveis objetivos
em comum, impossibilitando a integração.” (LINCK, José. A criminologia nos entre-lugares: diálogos
entre inclusão violenta, exclusão e subversão contemporânea. Dissertação apresentada junto ao programa
de pós-graduação em ciências criminais da PUCRS, p. 166).
92
FERREL; SANDERS. Toward a Cultural Criminology, p. 302.
O que permanece quando nós abandonamos os mitos do conhecimento abstrato objetivo e da verdade
científica sobre cultura e crime – quando nós desmistificamos velhas metodologias e percebemos que
estamos apenas desistindo do que nunca tivemos? O que permanece é o estudo de caso etnográfico.
(tradução livre).
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49
A fluidez do objeto com os quais os estudiosos da cultura deparam-se, objetos
mutantes, que os confundem constantemente, bem como o fato de que as pesquisas
realizam-se em meio urbano, dificultando o distanciamento tão caro às etnografias
clássicas, não deixam alternativa – a menos que se esteja buscando “cristais simétricos
de significado, purificados da complexidade material nos quais foram localizados”
93

senão a combinação de métodos de pesquisa: utilização de métodos ad hoc, abertura
metodológica para as experiências de vida, para a arte, a observação atenta das teorias
do dia-a-dia, a aceitação da parcialidade, a consciência da impossibilidade da
objetividade e a busca pela objetividade possível.
94
O que pode ser resumido no
anarquismo metodológico de Feyarabend: tudo vale.
95


“In the same way that these methods put richness and texture ahead of abstraction
and generalizability, they also embody Feyerabend’s notion that “anything goes”,
for the case study in cultural criminology is designed to cover a broad sweep of
criminological ground rather than to conform one standard. Detailed ethnographic
studies can serve as “notes from underground” – that is, as reports on the otherwise
inaccessible cultural dynamics of criminal subcultures or criminal events. But these
techniques can also be used to explore specific instances of moral entrepreneurship
and mediated criminalization and to make sense of the particular meanings that
these mediated events take on in the lives of criminals and non-criminals alike”.
96


Mais do que pensar “sobre a criminologia cultural”, cabe pensar o objeto do
presente trabalho “com a criminologia cultural”. E se a busca é por uma criminologia
“contracultural”, é porque pretendo contrapor as “notas do underground” ouvidas na
pesquisa empírica ao discurso dos empreendedores morais. Criminologia
“contracultural” na medida em que se propõe ser “corrosiva aos modos convencionais
de pensamento e das instituições estabelecidas”
97
, a colidir “com a estética das
autoridades políticas e econômicas que atuam como empreendedores morais”.
98

“Contracultural” por propor-se a investigar o desvio e o controle social informado

93
GEERTZ. A interpretação das culturas, p. 14.
94
BECKER. Métodos de pesquisa em ciências sociais. Tradução de Marco Estevão e Renato Aguiar. SP:
Hucitec, 1994, p. 14.
95
FEYERABEND, Paul. Contra o método. Tradução de Cézar Augusto Mortari. SP: Unesp, 2007, p. 43.
96
FERREL; SANDERS. Toward a Cultural Criminology, p. 306.
Da mesma maneira que estes métodos enriquecem e colocam textura a frente da abstração e
generalização, eles também incorporam a noção de Feyerabend de que “tudo vale”, para o estudo de caso
na criminologia cultural é projetada a cobrir uma ampla gama de assuntos criminológicos, mais do que
conformar um padrão. Estudos etnográficos detalhados podem servir como “notas do underground” – a
dizer, como relatórios sobre, as de outro modo, inacessíveis dinâmicas culturais das subculturas criminais
ou eventos criminais. Mas estas técnicas também podem ser usadas para explorar instâncias específicas de
empreendimentos morais e criminalização midiática e entender os significados particulares que estes
eventos carregam nas vidas de criminosos e não-criminosos. (tradução livre)
97
BECKER. Outsiders, p. 198.
98
FERREL, apud CARVALHO. Criminologia Cultural e as Fronteiras da Pesquisa, prelo, p. 30.
Página 90 / 477
50
“pela perspectiva anarquista de ruptura com a autoridade – sobretudo com a
inscrustação da autoridade nas relações humanas”.
99


Não desconheço as dificuldades de trabalhar com a idéia de “contracultura” na
contemporaneidade. Por um lado, nos deparamos com a crise do último movimento
considerado quase à unanimidade contracultural: o sonho acabou, “a contracultura
chegou ao Ministério da Cultura”, a indústria cultural apropriou-se dos símbolos de
transgressão... Creio estéril tal visão nostálgica. Estamos, de alguma forma, recuperados
da grande ressaca que resultou nos “morangos mofados”
100
, e aptos a buscar pequenas
rupturas contraculturais sem a necessidade uma grande narrativa que as fundamente.

Em termos criminológicos, tais rupturas só poderão ocorrer caso estejamos
atentos às dinâmicas dos grupos sociais contemporâneos, organizados e misturados
caoticamente em torno dos mais diversos elementos simbólicos de integração. Alguns
deles, ao contrário dos grupos desviantes de outrora, que encontravam sustentação no
establishment acadêmico de sua época, hoje são etiquetados negativamente pelas
próprias leituras acadêmicas saudosas de uma espécie de “autenticidade contracultural”.
Janine Ribeiro nos alerta que “podemos ser severos com os tempos presentes, ou com
quaisquer outros, mas devemos pelo menos entendê-los”.
101
Assim, resta a uma
criminologia que se pretende contracultural afastar-se “da atmosfera do mal-estar e do
“pânico moral”, geralmente implícita nas análises que vêm mapeando a pós-
modernidade e seu impacto sobre o inevitável desamparo e a perda da condição crítica
do sujeito.”
102
, e “deixar de lado o “arsenal profilático” de cautelas para se lidar com
os “fantasmas morais” que assolam a subjetividade contemporânea”
103
, tais quais o
narcisismo, a cultura do espetáculo, a estetização da existência, etc, de modo que seja
possível “operar em terreno “descampado”, procurando perseguir a positividade do
que hoje se manifesta em tornos dos novos desenhos e produções de sentido no campo
da subjetividade e das formas de expressão da cultura jovem nas grandes

99
FERREL, apud CARVALHO. Criminologia Cultural e as Fronteiras da Pesquisa, prelo p. 31.
100
ABREU, Caio Fernando. Morangos Mofados. RJ: Agir, 2005.
101
JANINE RIBEIRO, Renato. Prefácio ao livro Noites Nômades: espaço e subjetividade nas culturas
jovens contemporâneas. ALMEIDA, Maria Isabel Mendes; TRACY, Kátia Maria de Almeida. RJ: Rocco,
2003, p. 14.
102
ALMEIDA, Maria Isabel Mendes; TRACY, Kátia Maria de Almeida. Noites Nômades: espaço e
subjetividade nas culturas jovens contemporâneas. RJ: Rocco, 2003, p. 23.
103
ALMEIDA;TRACY. Noites Nômades, p. 23.
Página 91 / 477
51
metrópoles”.
104
É claro que é possível que as conclusões das pesquisas apontem para a
concreta existência dos sintomas sociais elencados. O que não se pode é partir de uma
prévia condenação das existências contemporâneas, pois, conforme LINCK,

Se é possível perceber novas configurações sociais e manifestações de liberdade
através da multiplicidade de referências (não parece plausível falarmos em
desaparecimento destas, a complexidade é antes sua multiplicação), provocando
sentimento de insegurança e perplexidade que pode estimular o ressurgimento de
novos autoritarismos, é possível sustentar, concomitantemente, a perspectiva
libertária deste processo.
105


Por outro lado, a noção de contracultura também parece sugerir uma visão
monolítica da própria cultura, como se fosse possível identificar no âmbito de uma
sociedade dois pólos regidos por valores nitidamente contrários uns aos outros.
Conforme Velho,

Há uma tentativa de congelar ou cristalizar certos comportamentos em torno de
variáveis específicas, estabelecendo fronteiras absolutas. Não se trata de negar a
existência de descontinuidades, mas de percebê-las dinamicamente. (...) ao
enfatizar as diferenças dentro de uma sociedade, corre o risco de não perceber
como se dá a comunicação material e simbólica entre os grupos que, mesmo tendo
“campos de comunicação e interação” com um certo grau de especificidade,
partilham símbolos e valores comuns, interagindo, trocando elementos num
processo dinâmico ininterrupto.
106


Por óbvio que aqui a tentativa é a de trabalhar com uma perspectiva complexa
de cultura, formada por diversas teias de significado que se entrecruzam nas interações e
comunicações cotidianas. Contudo, tomando tais precauções, é possível e fértil trabalhar
com a hipótese de uma criminologia contracultural. Basta perceber que a contracultura é
uma dimensão da vida social
107
e está ligada a permanente possibilidade de mudança, de
inovação, de inconformismo, de oposição a visões de mundo dominantes em dado
contexto. Nesse sentido, ela é um fenômeno histórico perene, cujas manifestações de
ruptura e inovação podem ser encontradas na arte, na ciência, na filosofia, nos estilos de
vida, etc, e que, dependendo do contexto, está mais ou menos visível no mainstream.


104
ALMEIDA;TRACY. Noites Nômades, p. 23.
105
LINCK. A criminologia nos entre-lugares: diálogos entre inclusão violenta, exclusão e subversão
contemporânea. p. 176.
106
VELHO, Gilberto. Nobres e Anjos: um estudo de tóxicos e hierarquias, p. 18.
107
VELHO, Gilberto. Mudança social, universidade e contracultura. In: ALMEIDA, Maria Isabel
Mendes de; NAVES, Santuza Cambraia. “Por que não!” Rupturas e continuidades da contracultura. RJ:
7letras, 2007, p. 203.
Página 92 / 477
52
Uma criminologia contracultural deve, em resumo, seguir no rastro das
perspectivas libertárias das multifacetadas e ambíguas configurações sociais
contemporâneas, de modo a reverberá-las, contrapondo-as às perspectivas ascéticas que
amordaçam o potencial contestador e anti-autoritário de certos arranjos, e que são os
alicerces das políticas criminais moralistas.




























Página 93 / 477
53
CAPÍTULO 2 – REPENSANDO AS RELAÇÕES ENTRE USO DE DROGAS E
DESVIO

2.1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE AS DROGAS

Inúmeras dificuldades surgem no caminho de quem se propõe a abordar de
algum modo a questão das drogas. Se, por um lado, estamos a tratar de uma substância
química que a partir das condições ideais de um laboratório gera certo tipo de efeito
descritível e classificável no sujeito que a consome, por outro, estamos a falar de um
produto cultural, cujo uso pode ser considerado universal, pois presente em todas as
culturas até hoje conhecidas.
108
Trata-se de uma invariante histórica, que ocupou
inúmeros tipos de significados sócio-culturais na vida das pessoas. As drogas foram
utilizadas como instrumentos religiosos, místicos, mágicos, como medicamentos, como
facilitadores da interação e da comunicação, como instrumentos recreativos, de escape
da realidade, como auxílio no intuito de aumentar a produtividade no trabalho, etc.

Ao considerar as drogas um produto cultural, estou a dizer que as
representações sociais que se desenvolvem em torno dos produtos têm a maior
importância para a análise. Tais representações moldam-se nos contextos nos quais o
uso ocorre, em permanente interação com a reação social, ou seja, com a visão que a
sociedade devolve à prática. Ao longo da história dos usos foram surgindo inúmeras
visões sobre a questão, que acabaram por forjar uma ideologia própria de cada droga.
Portanto, o sujeito que consome dada substância não consome, apenas, um dado arranjo
químico, mas um produto cultural, que carrega consigo toda uma carga de valores que
lhe são próprios. ESCOHOTADO refere o seguinte:

Por consiguiente, junto a la química está el ceremonial, y junto al ceremonial las
circunstancias que caracterizan a cada territorio en cada momento de su historia. El
uso de drogas depende de lo que química y biológicamente ofrecen, y también de
lo que representan como pretextos para minorías y mayorías. Son sustancias
determinadas, pero las pautas de administración dependen enormemente de lo que
piensa sobre ellas cada tiempo y lugar. En concreto, las condiciones de acceso a su
consumo son al menos tan decisivas como lo consumido.
109



108
GAUER, Ruth. Uma leitura Antropológica do uso de drogas. In: Drogas: abordagem interdisciplinar.
Fascículos de Ciências Penais. Porto Alegre: Fabris, 1990.
109
ESCOHOTADO, Antonio. Aprendiendo de las drogas. Usos y abusos, prejuicios y desafíos.
Barcelona: Editorial Anagrama, 2006, p. 25.
Página 94 / 477
54
Situando os significados dos usos no tempo e no espaço, notaremos que tais se
encontram em permanente mutação. Daí porque abdicarei de buscar uma delimitação
rígida entre os efeitos gerados pelas substâncias consumidas. Conforme XIBERRAS,
“uma espécie de irredutibilidade das predisposições dos indivíduos tende a impedir
qualquer tentativa de elaboração de leis gerais sobre os efeitos das drogas”.
110


No que tange à própria droga, contento-me com a clássica definição grega de
Pharmakón, que compreende ao mesmo tempo o remédio e o veneno, sendo que a dose
define qual o sentido final. De fato, qualquer droga pode constituir-se em remédio ou
veneno, e o fato de ser nociva ou benéfica vai sempre depender, além da dose, do
contexto em que ocorre o uso.
111
E contento-me com tal definição não pela sua
capacidade de fechar de algum modo o sentido, mas justamente pelo contrário, pelo fato
de que, com ela, resta aberto o caminho para as inúmeras possíveis definições
portadoras de infinitos sentidos que surgirão da observação e da descrição do uso de
drogas como prática cultural. Em verdade, as drogas devem ser consideradas uma
categoria complexa e polissêmica. São “objetos sócio-técnicos” que, “embora possam
ser distinguidos conforme as modalidades de uso (matar, tratar, alimentar, por
exemplo), não comportam diferenças intrínsecas absolutas ou essenciais, mas sempre e
somente diferenças relacionais”.
112
Consoante VARGAS, (...)

(...) sucede às drogas (e aos medicamentos e alimentos) o mesmo que às armas (e
às ferramentas): tais objetos sócio-técnicos permanecem integralmente
indeterminados até que sejam reportados aos agenciamentos que os constituem
enquanto tais. Desta perspectiva, as drogas não dizem respeito apenas àquelas
substâncias que produzem algum tipo de alteração psíquica ou corporal e cujo uso,
em sociedades como a nossa, é objeto de controle ou de repressão por parte do
Estado, mas também àquelas que Mintz chamara de “alimentos-droga – como o
açúcar, o café, o chá e o chocolate, por exemplo – bem como àqueles que
correntemente nomeamos medicamentos ou fármacos. Esta perspectiva se
contrapõe àquela outra, mais restritiva e assimétrica, além de historicamente
posterior, que toma como dada ou estabilizada a partilha moral (médico-legal)
entre usos lícitos e ilícitos de drogas (ou tóxicos, ou entorpecentes, ou venenos...) e
medicamentos, alimentos, condimentos, cosméticos, etc ”
113



110
XIBERRAS, Martine. A sociedade intoxicada. Tradução de Alexandre Correia. Lisboa: Piaget, 1989,
p. 24.
111
ESCOHOTADO. Aprendiendo de las drogas, p. 30.
112
VARGAS, Eduardo Viana. Fármacos e outros objetos sócio-técnicos: notas para uma genealogia das
drogas. In: LABATE, GOULART, MACRAE e CARNEIRO (orgs.) Drogas e Cultura: novas
perspectivas. Salvador: Edufba, 2008, p. 41.
113
VARGAS. Fármacos e outros objetos sócio-técnicos: notas para uma genealogia das drogas. In:
Drogas e Cultura: novas perspectivas, p. 41.
Página 95 / 477
55
Tampouco me preocupa o fato de utilizar a palavra “droga”, que, como se
sabe, carrega um sentido pejorativo desde que nos tempos recentes, em termos
históricos, sociedades decidiram proibir o uso de algumas substâncias. Em verdade, tal
questão preocupou-me inicialmente, mas decidi que nenhum termo carregaria uma
espécie de “neutralidade” que me proporcionaria algum ganho teórico. Melhor, então,
utilizar todos os termos, não apenas drogas, tóxicos, substâncias psicoativas,
psicotrópicos, mas também aqueles utilizados pelas pessoas que as usam: baura, pó,
pedra, doce, bala...

Da mesma forma, não pretendo trabalhar com o conceito médico-psiquiátrico
de dependência química. Procurarei evitar tal entidade, que até pode servir para fins
terapêuticos, mas que decididamente não se presta ao fim dos estudos culturais, pois
unifica em uma categoria nosológica existências absolutamente distintas, que possuem
em comum uma relação problemática com algum tipo de droga, e para quem geralmente
são prescritos os mesmos tratamentos. Creio mais fértil trabalhar com conceitos mais
amplos, pois observando atentamente a questão na contemporaneidade “é bem possível
que o modelo acabe por abranger uma maioria silenciosa”
114
, ou seja, que haja uma
regularidade nos consumos que elimine a possibilidade de tratá-los em termos de
patologia. Desta forma, dividirei os usos em “problemáticos” e “não problemáticos”. Os
primeiros são aqueles controlados culturalmente, que encontram metáforas sociais que
lhes conferem um mero espaço no âmbito das demais preocupações afetivas do sujeito,
mas que não se tornam os protagonistas da sua existência. Os segundos são aqueles que
acabam por gerar o rompimento dos laços do consumidor com sua rede interpessoal e
desintegrar os seus laços afetivos.
115
Entre os usos problemáticos e não-problemáticos
está a “vida”, as práticas dos sujeitos que se deparam com substâncias com potencial de
alterar a consciência. Tal divisão, portanto, também é relativa e precária, pois há
infinitas variáveis entre os pólos, que surgem ao acaso, e cuja pessoa mais apta a
examiná-las é aquele que as vivencia. Ademais, sequer internamente a idéia de
dependência química se sustenta, pois deixa em aberto a seguinte explicação:

Este modelo explicativo, apoyado em la ciencia experimental, adolece sin embargo
de una grave falla, pues no permite entender porque sólo un pequeño porcentaje de
las personas que consume SPA terminan exhibiendo comportamientos

114
XIBERRAS. A sociedade intoxicada, p. 20
115
RESTREPO, Luis Carlos. La fruta prohibida. La droga como espejo de la cultura. Madrid: Ediciones
Libertarias, 2004, p. 44.
Página 96 / 477
56
compulsivos, si en todos los usuarios se estimulan las áreas identificadas con las
conductas problemáticas.
116


Não se trata de desconsiderar completamente o componente químico,
tampouco os saberes médicos, pois “la problemática inherente al consumo de drogas
no puede ser abordada desde un biologismo cerrado, como tampoco desde un
culturalismo gaseoso que niegue el efecto de estas sustancias sobre la electroquímica
cerebral”.
117
Além disso, seria equivocado desconsiderar as visões dos saberes
médicos, pois tais já fazem parte das próprias construções sociais a respeito das drogas,
quer dizer, já fazem parte da identidade das drogas. Trata-se, em verdade, de situá-las
como mais um saber que trata das drogas, retirando-as do posto de “o saber”, aquele que
teria a legitimidade científica para tratar do assunto. As teorias médicas sobre os efeitos
do uso de substâncias assentam-se na “noção de efeito principal, que por sua vez se
apoia numa análise estatística destes mesmos efeitos, tomando por base dosagens
médias e um indivíduo-tipo”.
118
No próprio método, que os impele a trabalhar com
dosagens médias e indivíduos-tipo, está a limitação de seu alcance explicativo.

Quase que intuitivamente, a partir da observação do cotidiano, percebi que,
para os fins aqui propostos, seria mais útil partir dos usos não-problemáticos, que creio
serem regra. A hipótese inicial era de que inclusive os casos com os quais o sistema
penal lida após a seleção criminalizadora seriam de usos não-problemáticos. Conforme
exporei na seqüência do trabalho, tal hipótese foi confirmada, sobretudo considerando
que mais de 70% dos casos penais relativo a uso de drogas derivam de flagrantes por
uso de maconha, droga mais suave dentre as encontradas em nossa sociedade. Trata-se
de não considerar o uso de drogas um problema em si, de modo que as lentes da análise
não percam o foco pelo efeito dos preconceitos da visão demonizadora forjada por anos
de proibição e de campanhas difamatórias. Visão demonizadora que nem sempre se
apresenta sob a face simplista de um puritanismo comportamental, mas que na maioria
das vezes surge amparado por “bem intencionadas” e “humanistas” políticas de saúde,
cuja premissa é a completa abstinência. RESTREPO diz o seguinte:

“Es dificil aceptar que la “droga” nos es solo um “tóxico” capaz de perjudicar la
salud de los indivíduos, sino tambien un produto cultural capaz de modificar la

116
RESTREPO. La fruta prohibida. La droga como espejo de la cultura, p. 212.
117
RESTREPO. La fruta prohibida. La droga como espejo de la cultura, p. 220.
118
XIBERRAS. A sociedade intoxicada, p. 42.
Página 97 / 477
57
sensibilidad y la imaginación de las comunidades, generando cambios afectivos
significativos en el campo perceptual y en los afectos del usuario.
119


Vale dizer, finalmente, que não pretendo dar conta de uma história das drogas,
pois tal intento demandaria um trabalho próprio. O importante é apenas relativizar desde
a história, para que seja possível perceber que a atual política adotada não é de modo
algum natural, mas conjuntural, condicionada por inúmeros fatores. Que é, portanto,
plenamente mutável, conforme as opções culturais de dada sociedade. Fiquemos com o
exemplo do chimarrão:

En el Peru de los incas, las hojas de coca eran un símbolo del Inca, reservado
exclusivamente a la corte, que podia otogarse como premio al siervo digno por
alguna razón. En la Roma preimperial el libre uso del vino estaba reservado a los
varones mayores de treinta años, y la constumbre admitia ejecutar a cualquier
mujer u hombre joven descubierto en las proximidades de una bodega. En Rússia
beber café fue durante medio siglo un crimen castigado con tortura y mutilación de
las orejas. Fumar tabaco se condeno con excomunión entre los católicos, y con
desmembramento em Turquia y Pérsia. Hasta la hierba mate que hoy beben en
infusión los gaúchos de la Pampa fue considerada brebaje diabólico, y solo las
misiones jesuítas del Paraguay – dedicadas al cultivo comercial de estos árboles –
lograran convencer al mundo cristiano de que sus semillas no habían sido llevadas
a América por Satán sino por santo Tomás, el más desconfiado de los primeros
Apósteles.
120


Cumpre notar que outras conexões societárias que não as que encontramos
atualmente já se estabeleceram em torno dos usos de substâncias entorpecentes.
Sobretudo para perceber que relações mais saudáveis foram travadas com as drogas, que
controles culturais horizontais foram aptos a manter as práticas de intoxicação
socialmente reguladas, e que as atuais políticas proibicionistas, universais porque
engendradas verticalmente a partir de convenções internacionais sobre o assunto,
acabam por desperdiçar toda a experiência secular adquirida pelos povos que fizeram e
ainda fazem uso de entorpecentes, obstaculizando a busca por controles baseados nas
especificidades de cada contexto. Que, em síntese, não devemos continuar desprezando
este patrimônio cultural:

Al lado de la producción de buena parte de la cocaína que se consume en el mundo,
subsisten en el Putumayo colombiano grupos indígenas reconocidos en todo el
continente por su sabiduría alcanzada con la vivencia embriagada. Allí, uno al lado
del otro, se encuentran el remedio y la enfermedad, pues ellos nos muestran como
el control cultural y el consumo socializado de SPA son una alternativa más sensata
que el control penal y militar, que termina haciendo de la droga expresión de
nuestra miseria cuando un día fue mensajera de sabiduría.
121


119
RESTREPO. La fruta prohibida. La droga como espejo de la cultura, p. 126.
120
ESCOHOTADO. Aprendiendo de las drogas, p. 23.
121
RESTREPO, La fruta prohibida. La droga como espejo de la cultura, p. 30.
Página 98 / 477
58
2.2. AS DROGAS E O ESTADO – A EMERGÊNCIA DO PROIBICIONISMO E
DA REGULAÇÃO

Não é o objetivo deste trabalho realizar uma crítica ao proibicionismo a partir
da lógica do Estado Moderno, desde sua base contratualista efetivada em constituições
garantidoras dos espaços de liberdade dos sujeitos de direito. Creio que a discussão a
respeito do direito ao uso de drogas em conflito com as políticas estatais proibicionistas
é uma discussão de filosofia política, mais especificamente da bioética, e, ao cabo, uma
discussão jurídico-constitucional. A partir de tal lógica, entendo que a proibição não se
sustenta, e penso que não cabe aqui retornar à Stuart Mill
122
e aos argumentos liberais
de séculos passados para requentar as críticas. O autor contemporâneo que trabalha o
tema de maneira mais radical é Thomas Szasz. Em sua obra chamada “Our Right to
Drugs: The Case for a Free Market”, defende um livre mercado de drogas, sendo
contrário a qualquer tipo de estatismo químico, ou seja, a qualquer tipo de controle
estatal sobre a livre circulação das drogas. Dado que chamamos de socialismo, ou
comunismo, o controle estatal sobre a produção e a distribuição de bens e serviços, o
autor sugere que nomeemos o controle estatal sobre a produção e distribuição de drogas
de socialismo ou comunismo químico. Szasz trabalha com a idéia do direito às drogas
como um direito de propriedade, direito absoluto de dispor do próprio corpo, esfera
íntima não disponível às ambições regulatórias do Estado.
123
Dessa maneira, sequer
aceita à idéia de legalização, pois o Estado não pode outorgar o direito ao uso de drogas,
tendo em vista que este direito não é de sua titularidade:

Como todos los gobiernos, el de Estados Unidos siempre ha contado con amplios
poderes para prohibir determinadas conductas. Sin embargo, al menos en principio,
la legitimidad para hacerlo era, y aún lo es, sólo limitada. Así sucede porque se da
por supuesto que el gobierno de Estados Unidos es nuestro sirviente, no nuestro
amo; porque se espera de él que nos trate como agentes morales adultos, no como
niños irresponsables o pacientes mentales incapacitados; y porque poseemos
nuestros derechos inalienables en tanto que personas, no en tanto que beneficiarios
de un estado magnánimo. Como el estado no posse derechos, no puedo
otorgárnoslos, ni “legalizar” cualesquiera actos, bien fuere el de practicar una
religión errónea o el de utilizar una droga peligrosa. En otras palabras, los
legisladores americanos nos pueden dictar prohibiciones (“ilegalizar”) y pueden
revocar prohibiciones, pero no pueden legislar permisos (“legalizar”).
124



122
MILL. Sobre a liberdade. Petrópolis: Vozes, 1991.
123
SZASZ, Thomas. Nuestro derecho a las drogas. En defensa de un mercado libre. Traducão de Antonio
Escohotado. Barcelona: Editorial Anagrama, 2001, p. 31.
124
SZASZ, Thomas. Nuestro derecho a las drogas. En defensa de un mercado libre, p. 147.
Página 99 / 477
59
Apesar de concordar com as críticas a respeito da inconstitucionalidade da
proibição da circulação das drogas, bem como, de maneira mais ampla, da ilegitimidade
externa da proibição a partir da lógica dos direitos humanos, creio necessário ir além. É
que o indivíduo atomizado que serve de base às construções liberais é uma ficção, que
serve aos propósitos de uma tecnologia inventada para garantir espaços de liberdade
frente ao Estado. O sujeito que usa drogas não é o sujeito artificial, racional e
calculador, que contratou e cedeu parte de sua liberdade ao Estado em troca de
segurança. Alguns tipos de consumos de drogas e a busca por estados alterados de
consciência questionam, inclusive, a própria idéia de sujeito da consciência da
modernidade, base de toda a construção do Estado Moderno.

O problema de uma criminologia que se pretende cultural não é, por certo, o
mesmo de uma dogmática penal crítica. Esta sim, deve seguir criticando a partir da
leitura constitucional as políticas de drogas adotadas, sobretudo desde o ponto de vista
da concreta atuação das agências punitivas. Desde a perspectiva da criminologia, há que
perceber os efeitos gerados pelo proibicionismo na cultura dos usos de drogas. É um
tanto quanto estéril, desde tal ponto de vista, ser “contra” ou “a favor” de seja lá o que
for. “Num momento em que os intelectuais consideram de bom tom darem-nos lições de
moral”
125
, MAFESSOLI vem nos lembrar que “nossa missão fundamental é dizer o que
é, e não o que deve ser”
126
. Como sabemos, a proibição dos usos de algumas drogas não
elimina tais usos. Não obstante, os transforma, gera determinados tipos de efeitos,
certos arranjos, (des)organizações, práticas, hábitos, grupos, ideologias..., e é nesse
universo que cumpre penetrar.

Mas a ambigüidade com a qual a questão é tratada oficialmente complexifica a
análise. É que estou a operar com um conceito amplo de droga, que não aceita a divisão
artificial entre lícito e ilícito. Desta forma, deparo-me não apenas com o regime jurídico
proibicionista, mas também um regime jurídico de regulação, ao qual se submetem
principalmente os psicofármacos. Se em relação a algumas substâncias o Estado impõe
a completa abstinência, em relação a outras nomeia um especialista – o médico – que se
torna a única pessoa apta a prescrever o uso. Antes de procurar alguma lógica que
explique os critérios utilizados na seleção daquilo que pode ser prescrito por médicos e

125
MAFESSOLI, Michel. In prefácio de XIBERRAS. A sociedade intoxicada, p. 7.
126
MAFESSOLI, Michel. In prefácio de XIBERRAS. A sociedade intoxicada, p. 7.
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60
daquilo que é remetido à clandestinidade, é interessante notar que, em ambos os casos, o
direito da pessoa de gerir a si mesmo foi seqüestrado pelo Estado. No primeiro caso,
totalmente. No segundo, foi nomeado um “zelador”, o médico, especialista detentor da
prerrogativa de alterar as consciências de seus pacientes. Vale citar CARNEIRO:

Há milhares de moléculas psicoativas já sintetizadas ou ainda por se inventar. Esse
repertório deve ser tratado como o das substâncias de origem vegetal, mineral ou
animal: preciosos tesouros que podem alimentar, curar, levar ao êxtase ou matar.
Gerir o seu uso não pode ser atributo exclusivo de especialistas, mas deve ser
facultada a consumidores responsáveis e bem informados. Como outras tarefas na
sociedade (por exemplo, dirigir automóveis), consumir certas drogas exige regras e
normas (não se deve fazer as duas coisas juntas, por exemplo). Não se deve
consumir de forma que outros sejam obrigados a participar involuntariamente (por
exemplo, não fumar em locais públicos fechados). Mas a esfera última de decisão
sobre o uso de drogas na gestão da felicidade e da tristeza faz parte do núcleo mais
íntimo da liberdade de escolha, de expressão e de gestão de si.
127


Com regulamentações ainda mais brandas, relativas apenas à idade do
consumidor, à publicidade e a locais de consumo, bem como a preocupações óbvias no
que tange a tarefas que exigem habilidade especial (como dirigir, por exemplo),
encontramos o álcool, substância incrivelmente potente, o que apenas demonstra que a
decisão a respeito do marco regulatório a que se submeterá a substância pouco tem a ver
com preocupações públicas fundamentadas. O cigarro poderia ser outro exemplo.

As razões para a diferenciação entre o lícito e o ílicito teriam de ser procuradas
a partir de uma genealogia das proibições, pois decisão a respeito do destino legal de
cada substância passa por um processo complexo, no qual inúmeras variáveis atuam.
Como já foi dito, as drogas são objetos sócio-técnicos que permanecem inteiramente
indeterminados até que sejam remetidos aos agenciamentos que os constituem, de
maneira que a emergência de cada proibição demandaria uma genealogia própria, que
deveria levar em consideração todas as condicionantes que atuaram no empreendimento
do qual derivou o seu status legal. Antes de cada proibição, é possível perceber, sempre,
uma disputa de poder. Fiquemos com a “história natural” da proibição do ecstasy, para
exemplificar:

“Cuando varios psiquiatras y psicólogos norteamericanos llevaban casi una decada
usando esta sustancia, en 1985, la policía anti-narcóticos americana (DEA) decretó
que carecía de “uso médico”. Siguió una polemica en la prensa – tanto
especializada como no especializada -, pues por entonces no se conocía un solo

127
CARNEIRO, Henrique. Autonomia e Heteronomia nos estados alterados de consciência. In Drogas e
Cultura: novas perspectivas, p. 80.
Página 101 / 477
61
usuario que hubiese requerido atención por sobredosis, ni otras señales de abuso o
delincuencia. (...) Incapaces de modificar la decisión de la DEA, esos psiquiatras y
psicólogos – apoyados por un grupo más amplio de profesionales -, trataron de
lograr que la OMS no ratificara a nivel internacional la prohibición; lejos de pedir
que fuese una droga vendida libremente en farmacias, solicitaban que fuese
incluida en el mismo regimén que otros psicofármacos (receta médica, control de
fabricación, etc). Pero la OMS resolvió incluir la MDMA en la lista I (fármacos sin
virtudes terapéuticas, solo admisibles en experimentos con animales), al mismo
tiempo en que instaba “a las naciones a facilitar la investigación sobre esta
interesante sustancia”. Naturalmente, cualquier investigación sobre la “interesante”
sustancia quedaba abortada de la raíz incluyéndola en la lista I.”
128


Até o final do século XIX não havia qualquer tipo de regulação jurídica no
mercado de substâncias psicoativas. A primeira manifestação proibicionista surge por
ocasião da Guerra do Ópio. Cinco décadas após vencer a guerra e impor à China a
abertura dos portos, a legalização da importação do ópio e a isenção de taxas na
circulação de mercadorias, as potências européias voltam à China, para discutir
limitações ao comércio do ópio, na denominada Conferência de Xangai. Nesse
momento, os Estados Unidos já é um país importante do ponto de vista geopolítico, e já
defende uma postura marcadamente restritiva no que tange às drogas, não obstante
ainda não possuir nenhuma lei proibicionista em seu território. Apesar de não ter havido
nenhuma imposição ao final da conferência, sinais proibicionistas podem ser
encontrados, sobretudo uma das principais características de seu início, qual seja “a
defesa do uso legal sob estrito controle para uso médico, e a ilegalidade para qualquer
outra forma de uso (recreativos, hedonistas, etc.).
129


No início do século XX, o objetivo declarado é plasmado em convenções
internacionais, das quais derivam leis internas, que “tencionam abolir uma droga e
todos os hábitos a ela relacionados.”
130
Atualmente, a normatividade internacional
sobre drogas é formada por três convenções das Nações Unidas, adotadas em 1961,
1971 e 1988. Conforme THOUMI,

Estas han impuesto un enfoque prohibicionista que estipula que las drogas
reguladas por las Convenciones solamente pueden tener usos médicos y de
investigación científica. La UNGASS-1998 reafirmó este enfoque que implica que
no haya diferencias entre drogas “blandas” y “duras” y que cualquier uso diferente
a los médicos y investigativos sea un “abuso”. Esto hace que las políticas no
puedan diferenciar entre adictos y usuarios ocasionales: todos son “abusadores”. Y

128
ESCOHOTADO. Aprendiendo de las drogas, p. 168.
129
RODRIGUES, Thiago. Tráfico, Guerra, Proibição. In Drogas e Cultura: novas perspectivas, pp. 92/93.
130
RODRIGUES. Tráfico. Guerra, Proibição. In Drogas e Cultura: novas perspectivas, pp. 92.
Página 102 / 477
62
además las Convenciones no dejan espacios para usos recreativos, religiosos o
experimentales.
131


Em 1998 ocorreu a Assembléia Geral Especial sobre Drogas das Nações
Unidas (UNGASS), como forma de avaliar os resultados dos planos traçados na
Convenção de 1988. Em março de 2009, aconteceu nova reunião da Comissão de
Estupefacientes das Nações Unidas, em Viena, para novamente avaliar os resultados da
atual política mundial de drogas. A ONU decidiu manter o mesmo enfoque
proibicionista, de maneira a “fomentar ativamente uma sociedade livre do uso indevido
de drogas”, reafirmando a Declaração Política de 1998. De alteração, apenas um tímido
reconhecimento, em razão da forte pressão da União Européia, das políticas de redução
de danos. Tímido, porque as políticas de redução de danos foram reconhecidas apenas
como políticas paliativas, e não como outra forma de pensar a questão do uso de drogas,
sobretudo no que se refere à substituição do ideal de abstinência pelo de uma relação
saudável entre as pessoas e as substâncias. Para o diretor da Oficina das Nações Unidas
contra as Drogas e o Delito (ONUDD), Antonio María Costa, “tudo o que fazemos na
ONUDD busca reduzir o dano”
132
. Temos, então, na normatividade internacional sobre
drogas, nas convenções subscritas pela ampla maioria dos países, o marco regulatório a
partir do qual a questão é tratada mundialmente. Tais normas internacionais funcionam
como “camisa de força” à normatividade interna dos países, conferindo uma ínfima
margem de manobra na escolha das políticas estatais.
133


Mas há que ir além dos objetivos declarados, para perceber que, desde o
início, as batalhas antidrogas não eram apenas contra as drogas, mas cruzadas puritanas
contra estilos de vida a ela relacionados, bem como contra entre determinados grupos
sociais. É o que ressalta RODRIGUES:


131
THOUMI, Francisco. ¡Bienvenidos al pasado! La actual politica contra la droga se mantendrá por
otros diez años. In www.razonpublica.org.co, acesso em 22 de setembro de 2009, 22h02min.
Estas impuseram um enfoque proibicionista que estipula que as drogas reguladas pelas Convenções
somente podem ter usos médicos e de investigação científica. A UNGASS-1998 reafirmou este enfoque
que implica que não existam diferenças entre drogas branda e duras e que qualquer uso diferente dos
médicos e investigativos seja um abuso. Isto faz com que as políticas não possam diferenciar os adictos
dos usuários ocasionais: todos são abusadores. E ademais as Convenções não deixam espaços para usos
recreativos, religiosos ou experimentais (tradução livre).
132
THOUMI, Francisco. ¡Bienvenidos al pasado! La actual politica contra la droga se mantendrá por
otros diez años
133
Sobre o tema, ver THOUMI, Francisco. La normatividad internacional sobre drogas como camisa de
fuerza. In Revista Nueva Sociedad, n.º 222, julho-agosto de 2009, pp. 42/59.
Página 103 / 477
63
As discussões, no entanto, não eram originárias nem restritas ao ambiente
diplomático ou legislativo. Ao contrário, elas reverberavam posturas provenientes
de grupos sociais mais ou menos organizados em ligas ou redes que se espraiavam
pelos Estados Unidos, brandindo palavras de ordem contra a ameaça que a
“imoralidade” e os “vícios” traziam para a sociedade. Agremiações como a Liga
Anti-Saloon, fundada em 1893, defendiam a moralização do país por meio de
medidas legais que pusessem em marcha políticas de repressão às práticas tidas
como imorais ou corruptoras das virtudes puritanas (comedimento, castidade,
sobriedade, religiosidade). (...) O moralismo dos movimentos puritanos, descritos
acima, não se restringia ao ataque às substâncias consideradas vis ou indutoras de
comportamentos desviantes. Vincularam de forma explícita o uso de “substâncias
venenosas” a grupos sociais tidos como “perigosos”, “ameaçadores”, “virulentos”.
As assustadoras hordas de probres, imigrantes e negros faziam, supostamente, uso
imoderado de drogas psicoativas, o que revelava sua degenerescência moral e
física, e aumentava o perigo que representavam. Desse modo, era recorrente, nas
primeiras décadas do século XX, entre grupos proibicionistas, na mídia e nos
discursos governamentais nos Estados Unidos, a associação direta dos negros à
cocaína, hispânicos à maconha, irlandeses ao álcool, chineses ao ópio. O despontar
de associações moralistas contra psicoativos e da vinculação entre minorias e
drogas não foi exclusividade dos estudunidenses, sendo localizável entre outros
países das Américas e da Europa.
134


A conformação de um problema relacionado ao uso e ao comércio de drogas,
e à vinculação de tal problema à parcela da população “perigosa” sobre a qual deve
recair de maneira intensa o controle penal, serviu aos interesses estatais na emergência
do proibicionismo, na medida em que possibilitou o acesso à esfera íntima de tal
população, sob o álibi da moral e da saúde pública, e segue servindo até hoje. Mesmo
após a constatação de que o objetivo de abstinência proibicionista é inalcançável, a
possibilidade de observar de perto e de vigiar permanentemente as populações que
residem nos territórios onde ocorre a venda varejista das drogas, é função oculta, que
surge da habilitação de poder policial gerado pela proibição, à qual os governantes não
parecem dispostos a abdicar. Além disso, do ponto de vista da política mundial, a
“guerra às drogas” e os objetivos da “segurança nacional” serviram de pretexto para a
penetração estratégica dos Estados Unidos em “narco-países”, virtualmente perigosos,
de acordo com a lógica dos interesses norte-americanos, é claro.

O fato é que, atualmente, existem diferentes regimes de circulação de
substâncias. Meu objetivo não é procurar uma impossível coerência nas escolhas
estatais, que variam no tempo e no espaço, mas adentrar nesse universo de contradições,
atentando para as diferentes relações que se estabelecem entre as pessoas, a sociedade e
as substâncias, que são influenciadas pelos regimes legais aos quais as últimas se
submetem.

134
RODRIGUES. Tráfico. Guerra, Proibição. In Drogas e Cultura: novas perspectivas, p. 95.
Página 104 / 477
64
2.3. USO DE DROGAS, DESVIO E CULTURA

BAUDELAIRE, ao refletir sobre o vinho, conclui que a explicação técnica a
seu respeito, que se trata de um licor que se faz com um fruto da vinha, é absurdamente
pobre, e não contentaria um suposto habitante da lua ou de qualquer outro planeta que
observasse e participasse das práticas que envolvem o consumo da bebida
135
. A
metáfora é fértil para demonstrar que não há outro caminho para pensarmos sobre as
práticas de intoxicação senão a partir de uma análise das representações sociais que
surgiram em cada época a seu respeito. MAFESSOLI ressalta que, desde que Becker
nos lembrou que começamos a ser desviantes no espírito do outro, “tudo o que se diz,
conjectura e fantasia a propósito da droga, é parte importante dessa realidade”.
136
Isso
quer dizer que a tarefa consiste em situar cada prática e cada discurso sobre tal prática
no contexto em que emergem. Trata-se de encontrar os significados atribuídos aos
diferentes usos de drogas, bem como os espaços simbólicos que ocupam, individual e
coletivamente, a partir da imagem, da cara, do conteúdo e dos sonhos de dada época.
137

Ethos e visão de mundo, estilo de vida aprovado e estrutura da realidade adotada,
conforme dispõe GEERTZ, podem servir de categorias amplas de análise:

O ethos de um povo é o tom, o caráter e a qualidade de sua vida, seu estilo moral e
estético, e sua disposição é a atitude subjacente em relação a ele mesmo e ao seu
mundo que a vida reflete. A visão de mundo que esse povo tem é o quadro que
elabora das coisas como elas são na simples realidade, seu conceito de natureza, de
si mesmo, da sociedade.
138


Da mesma forma, as idéias de utopia, entendida como o “projeto político
derivado de um imaginário social, (...) uma orientação com relação à forma
considerada ideal de viver, (...) uma espécie de proposta de organização do
cotidiano,”
139
e de imaginário social, entendido como o “repertório de mitos,
ideologias, fábulas, lendas, posturas políticas e conhecimentos à disposição de um
indivíduo ou grupo de acordo com a produção histórica realizada”
140
, podem ser úteis
à pesquisa. Tais categorias servem à análise das práticas sociais, e, especificamente, às

135
BAUDELAIRE, Charles. Os Paraísos Artificiais. Tradução de José Saramago. RJ: Ediouro, 2005, p.
164.
136
MAFESSOLI. In: prefácio de XIBERRAS. A sociedade intoxicada, p. 8.
137
MACHADO, Juremir. A Miséria do Cotidiano. Energias utópicas em um território urbano moderno e
pós-moderno. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1991, p. 22.
138
GEERTZ. A interpretação das culturas, p. 93.
139
MACHADO. A miséria do cotidiano, p. 26.
140
MACHADO. A miséria do cotidiano, p. 26.
Página 105 / 477
65
práticas de usos de drogas. Os sentidos podem ser descritos a partir destes contextos, e
para encontrá-los há que se observar e descrever aquilo que acontece na “miséria do
cotidiano”, “estar à altura do cotidiano”
141
, de modo a encontrar “palavras que sejam
as menos erradas possíveis para dizer aquilo que é”.
142


BECKER, com a construção teórica que revolucionou a criminologia,
resumida na frase cuja citação é imprescindível, “que grupos sociais criam o desvio ao
fazer as regras cuja infração constitui o desvio, e ao aplicar essas regras a pessoas
particulares e rotulá-las como Outsiders”
143
, trouxe como principal contribuição o
caráter inexoravelmente relativo do desvio, que sempre resultará de conflitos culturais,
de processos complexos e multifacetados, nos quais grupos mais empoderados que
outros imporão estilos de vida majoritariamente aprovados. Vale lembrar que a análise
dos diferenciais de poder não pode centrar-se apenas nos aspectos materiais ou
econômicos. ELIAS e SCOTSON, ao realizarem pesquisa empírica em uma
comunidade na Inglaterra a respeito das relações sociais entre estabelecidos e outsiders
salientam esse ponto:

Ao mesmo tempo, ali se podiam ver as limitações de qualquer teoria que explique
os diferenciais de poder tão-somente em termos de posse monopolista de objetos
não-humanos, tais como armas ou meios de produção, e que desconsidere os
aspectos figuracionais dos diferenciais de poder que se devem puramente a
diferenças no grau de organização dos seres humanos implicados.
144


Os processos de produção dos desvios são sempre ambivalentes, pois em
permanente interação: grupos desviantes forjam suas identidades no espelho do
establishment, ao passo que influenciam permanentemente a cultura dominante. O
exemplo dos desvios relativos aos fumantes de maconha e aos músicos de jazz foram os
objetos que BECKER se propôs a analisar naquele momento histórico para fundamentar
sua tese, mas o que fica de contribuição central para os estudos criminológicos e
culturais é uma moldura analítica, relativística porque interacionista, que não mais
permite que analisemos desvios senão no contexto da cultura ampla da qual derivam os
empreendimentos que os criam, bem como no contexto interno dos grupos desviantes

141
MAFESSOLI. O retorno das emoções sociais. In: SCHULER, Fernando; MACHADO, Juremir.
Metamorfoses da Cultura Contemporânea. Porto Alegre: Sulina, 2006, p. 28.
142
MAFESSOLI. O retorno das emoções sociais, p. 28.
143
BECKER; Outsiders, pp. 21-22.
144
ELIAS, Norbert; SCOTSON, John. Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a
partir de uma pequena comunidade. Tradução de Vera Ribeiro. RJ: Jorge Zahar, 2000, p. 21.
Página 106 / 477
66
que se regem por lógicas próprias. Além disso, insere na análise a variável
temporalidade, em oposição à fixidez do conceito positivista.
145


Ao longo do século XX, alguns tipos de usos de drogas foram sendo
criminalizados, ao mesmo tempo em que outros permaneceram permitidos.
Empreendimentos morais criadores de desvios estiveram sempre por trás das proibições
dos usos de drogas, e as proibições só podem manter-se enquanto o substrato cultural
que o legitima permanece suficientemente forte, de modo que grupos sociais e agentes
estatais sigam mantendo-as vivas por meio de tentativas de imposição.
146
Nesses casos,
as práticas tóxicas proibidas são consideradas atitudes desviantes e geram estereótipos
negativos, sendo remetidas à clandestinidade, à esfera íntima ou a determinados
territórios freqüentados por certos grupos de postura acolhedora à prática desviante. Não
obstante, é de se lembrar que, dependendo dos rumos do embate cultural, mesmo um
desvio derivado de uma norma proibitiva pode tornar-se cada vez mais fraco, a ponto de
deixar de ser considerado desvio, podendo inclusive deixar de ser considerado crime,
fenômeno que os penalistas logo inserem na fórmula do crime e nomeiam,
pomposamente, de excludente de tipicidade, que decorre da aplicação do princípio da
adequação social.

Os usos de drogas permitidas, a priori, não são considerados atitudes
desviantes. São protegidos por uma cultura que os têm como costume, que os confere
um lugar cativo nos rituais do cotidiano que simbolizam um patrimônio comum, e é por
isso que em um jantar familiar regado à cerveja é inimaginável, na maioria das famílias,
propor o uso de um cigarro de maconha após a refeição.
147
O desvio relativo ao uso de
drogas permitidas aparece ao mesmo tempo em que o uso torna-se problemático,
enquanto qualquer tipo de uso de substância proibida é considerado em si mesmo
desviante. De qualquer modo, todo esse processo é relativo ao contexto no qual está

145
PANDOLFO, Alexandre. Criminologia e Estética: Representação e Violência do Pensamento
Criminológico. Projeto de dissertação apresentado no Curso de Pós-Graduação em Ciências Criminais da
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: 2008, pp. 12/20.
146
BECKER, Outsiders, p. 33.
147
Enquanto escrevia tal ponto do trabalho, deparei-me com notícia que tinha como título “Respeitem a
cerveja”, publicada no jornal Zero Hora do dia 19 de setembro de 2009. O jornalista Alexandre Elmi,
referenciado na linha editorial do veículo midiático, narrava a atuação da polícia na repressão à
falsificação da cerveja, e para tanto salientava a sacralidade da bebida. Dizia o seguinte: “Nem a sagrada
cerveja é respeitada pelos espertinhos”. Creio que a partir daí fica claro o exposto sobre a questão.
(Jornal Zero Hora, 19 de setembro de 2009, p. 03).
Página 107 / 477
67
inserido, de acordo com os padrões de ordem e de pureza de certa época e de certa
cultura, o que pode ser ilustrado com a metáfora de BAUMAN:

Sapatos magnificamente lustrados e brilhantes tornam-se sujos quando colocados
na mesa de refeições. Restituídos ao monte dos sapatos, eles recuperam a prístina
pureza. Uma omelete, uma obra de arte culinária que dá água na boca quando no
prato de jantar, torna-se uma mancha nojenta quando derramada sobre o
travesseiro.
148


Estudar o uso de drogas ilícitas é estudar um desvio. Desvio criado por
empreendimentos morais que obtiveram sucesso e transformaram-se até mesmo em
convenção das Nações Unidas. Desvio permanentemente reforçado tanto pela atuação
das agências do sistema penal quanto pela reação social informal, sobretudo midiática,
que engendra o pânico moral que está a reger a visão dominante sobre o tema. O
processo de produção de etiquetas continua a ocorrer, novos e velhos estereótipos
seguem a povoar o imaginário a respeito do assunto. O processo de etiquetamento
continua a produzir as profecias que se auto-cumprem, e pessoas que aderem a etiqueta
e se tornam estigmatizadas encontram enorme dificuldade para fugir das expectativas
sociais neles cristalizadas.
149
Conforme XIBERRAS,

A estigmatização de que os toxicómanos são actualmente alvo só pode levá-los a
radicalizar ainda mais suas práticas de intoxicação. A sociedade transforma-os em
bodes expiatórios e eles acabam por aceitar, ou até reivindicar esse estatuto de
imolação. A prática dura continua a constituir o protótipo de um comportamento
que se viu forçado a integrar esta imagem de inadaptação à sociedade.

Mas a questão é deveras complexa, as interações são permanentes e as trocas
culturais são mútuas. As transformações nos significados dos usos de drogas que
derivam do proibicionismo não são apenas de cunho negativo. A aura transgressiva
inerente à atividade é sedutora. O desvio é alçado à condição de ideal existencial,
estandarte de utopias, e o desviante torna-se herói de uma geração. As drogas e os
estilos de vida a ela relacionados penetram no establishment, o cinema e a música
tornam-se seus principais veículos de difusão. Arquétipos vinculados ao uso de drogas
são explorados pela indústria cultural, e invadem o imaginário do nosso tempo.


148
BAUMAN, Zigmunt. Mal-estar na pós-modernidade. Tradução de Mauro Gama e Claudia Martinelli
Gama. RJ: Jorge Zahar, 1998, p. 14.
149
GOFFMAN, Erving. Estigma. Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Tradução de
Marcia Bandeira de Mello Leite Nunes. RJ: LTC, 1988, p. 12.
Página 108 / 477
68
Em 1953, BECKER publica artigo no “American Journal of Sociology”,
chamado “Becoming a Marihuana User”, apresentando a pesquisa que recém realizara
com pessoas que usavam maconha.
150
Já nesta ocasião, dez anos antes de lançar
“Outsiders”, o autor salientava a necessidade de trabalhar o uso de drogas como uma
prática cultural. Analisando as entrevistas, BECKER concluiu que o sujeito se torna um
usuário de maconha após passar por um aprendizado sócio-cultural, que compreende
três fases logicamente dependentes: aprender a fumar a droga de modo que ela produza
seus efeitos reais, aprender a reconhecer os efeitos e associá-los ao uso da droga e
aprender a gostar das sensações que percebe.

As sensações produzidas pela maconha não são automática ou necessariamente
agradáveis. O gosto por tal experiência é socialmente adquirido, de gênero não
diferente do gosto adquirido por ostras ou dry martini. O usuário sente-se tonto,
sedento; seu couro cabeludo formiga; ele avalia mal o tempo e as distâncias. Essas
coisas são agradáveis? Ele não tem certeza. Para que continue a usar a maconha,
deve concluir que são.
151


Em todas as fases há um processo de aprendizado derivado da interação com
praticantes mais experientes, que vão fornecendo os saberes necessários para o
desenvolvimento da prática. Percebe-se, então, que os próprios efeitos que decorrem das
drogas são construção culturais. É claro que não estou a dizer que nenhum efeito
químico é gerado no cérebro pelo uso da maconha ou de qualquer outra substância
entorpecente, mas apenas que, provavelmente, Robinson Crusoé não teria acessos de
riso e não se sentiria mais criativo caso encontrasse na ilha uma plantação de maconha e
resolvesse fumá-la, pois tais estados mentais são efeitos-estereótipo que as pessoas de
certa cultura esperam sentir por meio da prática e, não por acaso, na maioria das vezes,
sentem: “Não sei qual foi efeito do LSD sobre mim. Poderíamos estar bebendo suco ou
chá: a aventura seria incrível da mesma maneira.”
152
A partir daí é possível entender,
aliás, que mesmo substâncias enormemente adulteradas, com ínfimo grau de toxicidade
- tais quais a maioria das consumidas atualmente - são capazes de cumprir a função que
dela espera aquele que a consome com um símbolo.

O que deve ficar claro, nesse momento, é que desvio e uso de drogas só podem
ser descritos no contexto cultural que os abrange, e que desvio, práticas tóxicas e cultura

150
BECKER. Becoming a Marihuana User. In: The American Journal of Sociology, vol. 59, nº 03,
Novembro, 1953.
151
BECKER. Outsiders, pp. 61/62.
152
Frase dita por Bob Weir, guitarrista da banda Grateful Dead, em entrevista prestada à Revista Rolling
Stone, n.º 12, edição de setembro de 2007.
Página 109 / 477
69
estão permanentemente em mutação. Este trabalho propõe-se a pensar sobre estes temas
na atualidade, e, para tanto, fundamental identificar características representativas de
nosso período histórico. Antes, porém, necessito retroceder um pouco no tempo,
tomando alguns acontecimentos importantes como eixo histórico e horizonte
analítico.
153


2.3.1. O USO DE DROGAS COMO MANIFESTAÇÃO CONTRACULTURAL

MARTINE XIBERRAS identifica duas etapas de penetração das drogas no
Ocidente. A primeira refere-se à invasão de produtos naturais, tais quais o ópio e seus
derivados e a cannabis, além da cocaína, um pouco mais tarde.
154
A intensificação das
trocas comerciais entre a Europa, o Oriente e as Américas propiciou a condição básica
para a difusão do consumo da substância, que é a possibilidade de acesso. As máquinas
do capitalismo industrial estavam a todo o vapor. Ao passo que o proletariado miserável
encontrava força para trabalhar no consumo de substâncias estimulantes (sobretudo
bebidas quentes, como o chá, café e chocolates adoçados)
155
e anestesia para suportar às
agruras da existência no consumo de opiáceos, os meios intelectuais “reconhecem-lhes
virtudes que se adaptam perfeitamente à sua sensibilidade”, de modo que “buscam
nelas um manancial de imaginação cujo registro mórbido se integra perfeitamente num
movimento que denuncia a desagregação do mundo em que se vive.”
156


Em 1905, na Paris Boêmia, já existiam mais de duzentas casas de ópio, onde
se reuniam vanguardistas de todos os tipos. Artistas e intelectuais tornam-se os
principais difusores dos usos de drogas. Baudelaire traduz para o francês o relato de
Thomas de Quincey sobre sua relação com o ópio
157
, e dedica-se pessoalmente a
experimentar os paraísos artificiais aos quais o haxixe lhe conduziu;
158
Freud adere à
cocaína e escreve diversos artigos elogiando as suas propriedades estimulantes,

153
MACHADO. A miséria do cotidiano, p. 32.
154
O álcool possui uma tradição muito mais sólida, seu consumo foi se afirmando ao longo de vários
séculos, primeiro inserido nos rituais religiosos e depois nos rituais laicos. A aceitação social de que
sempre gozou não permite que seja incluído no mesmo horizonte analítico das demais substâncias.
155
VARGAS, Fármacos e outros objetos sócio-técnicos: notas para uma genealogia das drogas. In:
Drogas e Cultura, p. 48.
156
XIBERRAS. A sociedade intoxicada, p. 105.
157
QUINCEY, Thomas. As confissões de um comedor de ópio. Tradução de Luis Roberto Mendes
Gonçalves. RJ: Ediouro: 2005.
158
BAUDELAIRE, Os paraísos artificiais.
Página 110 / 477
70
enquanto Conan Doyle, médico oftalmologista e consumidor de cocaína, “relata as
aventuras de Sherlock Holmes e descreve a sua paixão pela substância através das
características que empresta ao seu herói”
159
. No Brasil, o flaneur João do Rio já
contava “histórias de gente alegre”, retratando “às vidas vazias da Belle Époque do Rio
de Janeiro, que por sua vez de belle só tinha o arremedo da referência parisiense”
160
,
época em que se consumia ópio, morfina, éter e haxixe. Em suma, nas angústias do Fin
de Siecle, as práticas de intoxicação encontraram fendas por onde penetrar:

O safismo, o incesto e a homossexualidade invadem a literatura. O niilismo, o
pessimismo e o snobismo são atitudes que encontram no consumo da morfina uma
sensibilidade que se identifica com seu descompromisso perante a sociedade civil e
o seu desencantamento com o mundo.
161


Na segunda etapa, o uso de drogas é um dos pilares da utopia libertária que
floresceu nos anos sessenta. Na viagem experimental do movimento que ficou
conhecido como hippie, as drogas eram combustíveis e símbolos de uma revolução
comportamental que estava a questionar os fundamentos da organização social.

Questionar as certezas do conservadorismo estabelecido, desafinar o coro dos
contentes, mediante uma ruptura com os valores vigentes, no que se refere à família,
casamento, religião, trabalho, sexualidade, etc., eram os objetivos de uma geração que
não aceitou submeter-se ao destino imaginado por seus pais, e, na vanguarda, inaugurou
um estilo de vida. A geração de Maio de 68 e de Woodstock buscava transformar o
mundo ao transformar a si mesmo. Tratava-se de uma cruzada íntima, cuja arena central
foi o cotidiano, pois o objetivo era libertar-se da rede de poderes que “se espalhava
pelas salas de aula, os teatros, os meios de comunicação, as famílias e, enfim, todas as
instâncias da sociedade civil”
162
. De maneira ambígua e, por vezes, desajeitada,
experimentaram o novo, legando ao nosso tempo os avanços relativos à libertação
sexual, homossexual, feminina, racial, etc. ZUENIR VENTURA dá o tom:

Na verdade, a aventura dessa geração não é um folhetim de capa-e-espada, mas um
romance sem ficção. O melhor do seu legado não está no gesto – muitas vezes
desesperado; outras autoritário -, mas na paixão com que foi à luta, dando a
impressão de que estava disposta a entregar a vida para não morrer de tédio. Poucas
– certamente nenhuma depois dela – lutaram tão radicalmente por seu projeto, ou

159
XIBERRAS. A sociedade intoxicada, p. 104.
160
COSTA, Flávio Moreira da (org.). Os melhores contos de loucura. RJ: Ediouro, 2007, p. 148.
161
XIBERRAS. A sociedade intoxicada, p. 104.
162
MACHADO. A miséria do cotidiano, p. 68.
Página 111 / 477
71
por sua utopia. Ela experimentou os limites de todos os horizontes: políticos,
sexuais, comportamentais, existenciais, sonhando em aproximá-los todos.
163


Ao som do rock psicodélico e pregando paz e amor, a contracultura flower
power encontrava no uso de drogas, sobretudo LSD e maconha, instrumentos de
libertação. “Viajar de ácido era um requisito quase obrigatório para que se abrissem,
as portas da percepção do admirável mundo novo da juventude flower power.”
164
Em
1962, Timothy Leary torna-se ex-professor de psicologia de Harvard. É demitido por
pressão da CIA, após dois anos de pesquisa com cogumelos psilocibinos, alucinógeno
que foi testado em diferentes ocasiões por diversos voluntários, entre eles Alen
Ginsberg. Ken Kesey, que recém escrevera “Um estranho no ninho”, viajava pelos
Estados Unidos, num ônibus cheio de amigos e LSD. Promoviam happenings
psicodélicos, distribuindo LSD gratuitamente em intermináveis festas lisérgicas. Leary
ainda foi o responsável por enviar exemplares de ácido para a Inglaterra, influenciando
decisivamente a história do rock mundial.
165
Enquanto isso, no Brasil, Belchior
implodia o poder: “a única forma que pode ser norma é nenhuma regra ter, é nunca
fazer nada que o mestre mandar, sempre desobedecer, nunca reverenciar.” Os
“Mutantes” rugiam contra o tédio: eu quis cantar minha canção iluminada de sol, soltei
os panos sobre os mastros no ar, soltei os tigres e os leões no quintal, mas as pessoas
na sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer.” Os “Novos Baianos”
experimentavam juntos em uma comunidade alternativa rural e encontravam paz:
“acabou chorare, ficou tudo lindo, de manhã cedinho...” Zé Ramalho trazia à
psicodelia para o sertão e o sertão para a psicodelia, “apenas apanhei na beira mar, um
táxi pra estação lunar”, e Caetano caminhava “contra o vento sem lenço nem
documento”.

O uso de substâncias entorpecentes estava inserido em um campo simbólico de
negação da ordem posta e da busca por um mundo novo, através das possibilidades de
sensibilidade e percepção da realidade proporcionada pelas drogas. O desejo de um
mundo novo se articulava com a demanda de transformação e de auto-conhecimento. A
construção simbólica se imbricava, pois, com o metabolismo mágico das drogas,

163
VENTURA, Zuenir. 1968: o ano que não terminou. SP: Editora Planeta do Brasil, 2008, p. 18.
164
CARELLI, Wagner, apud MACHADO, A miséria do cotidiano, p. 73.
165
GOFFMAN, Ken. Contracultura através dos tempos: do mito de prometeu à cultura digital. Tradução
de Alexandre Martins. RJ: Ediouro, 2007, pp. 288-291.
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72
oferecendo um chão seguro onde as individualidades pudessem fincar seus pés no
real.
166
Conforme ALMEIDA e EUGENIO

(...) o recurso às drogas revestia-se aí de uma aura trangressiva, fazia-se ato de
resistência, era ingrediente de uma cruzada íntima para produzir “A Mudança” –
mudança no singular, que uma vez alcançada conduziria o sujeito a um outro
patamar de existência, marcado pelo rompimento com os valores familiares, com
visões de mundo e com comportamentos que se acreditava desgastados. As
“drogas” eram, pois, recrutadas como agentes transformadores do eu, muitas vezes
aliada à psicanálise, para fazer face à família, ao Estado e à escola, que por sua vez
operavam como agentes de verificação e marcação explícita do que vinha a ser
considerado transgressão.
167


ALEXIS ACAUAN realizou dissertação de mestrado defendida no programa de
Antropologia Social da UFRGS, em 1986, no qual recolheu fragmentos etnográficos da
experiência vivida em uma comunidade hippie, “organizada” num apartamento do
Bairro Bonfim, em Porto Alegre. Creio interessante mencionar o trabalho, para que
fique claro que o fenômeno da contracultura em análise e do uso de drogas a ele
relacionado alcançou também a província gaúcha, e que tal não consistiu em mera
reprodução de ícones primeiro-mundistas, mas adquiriu ares regionais mediante um
sincretismo cultural. Transcrevo seu bonito relato:

Através dos meios de comunicação sabíamos que grandes mudanças
comportamentais estavam ocorrendo no primeiro mundo. As novidades chegavam
fragmentadas e estigmatizadas. Sabíamos, no verão de 1968/69, dos cabelos
compridos, das drogas, do pacifismo, da liberdade sexual, e da vida em
comunidade, e tentávamos realizar nos fatos esta realidade que nos chegava aos
pedaços, mas com característica de prática revolucionária de costumes, coisa que
não havia sido encontrada na militância política da esquerda. Essa situação pode
ser comentada pela piada da pessoa que ouviu o galo cantar, mas não sabe onde.
Assim, o que fazíamos basicamente era nos unir, ouvir Caetano Veloso, Gal Costa,
Gilberto Gil, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Bob Dylan, e outros artistas da
contracultura, deixar o cabelo crescer, usar roupas velhas e coloridas, enfeites,
colares de contas (desenvolvendo um por assim dizer uniforme, no sentido de uma
aparência característica e caracterizadora), ter relações com parceiros não estáveis e
eventualmente do mesmo sexo, e usar drogas (maconha e anfetamina).
168


A partir daí, pode-se notar que esses grupos encontravam um “discurso
suficientemente coerente para justificar o seu modo de vida sob o efeito de

166
BIRMAN, Joel. Mal-estar na atualidade. A psicanálise e as novas formas de subjetivação. RJ:
Civilização Brasileira, 2000, p. 239.
167
ALMEIDA, Maria Isabel Mendes de; EUGENIO, Fernanda. Paisagens existenciais e alquimias
pragmáticas: uma reflexão comparativa do recurso às ‘drogas’ no contexto da contracultura e nas cenas
eletrônicas contemporâneas. In: ALMEIDA; NEVES. “Por que não?” Rupturas e continuidades da
contracultura. RJ: 7letras, 2007, p. 163.
168
ACAUAN, Aléxis. Malucos: A Contracultura e o Comportamento Desviante. Porto Alegre,
1969/1972. Dissertação defendida junto ao mestrado em antropologia social da UFRGS, 1986, p. 119-
120.
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73
psicotrópicos”
169
. As práticas tóxicas estavam inseridas em rituais específicos que, ao
remeterem cada tipo de uso a um determinando agenciamento dentro da comunidade
que o acolhia, controlavam e conferiam positividade à prática. Eram experiências
profundas, inseridas em um projeto existencial abrangente, no qual VICTOR TURNER
identificou inclusive as características anti-estruturais de uma communitas espontânea:

Os “beats” e os “hippies”, mediante a utilização de símbolos ecléticos e sincréticos
e ações litúrgicas extraídas do repertório de muitas religiões, de drogas empregadas
para a “expansão do pensamento”, de música “rock” e de luzes faiscantes, tentam
estabelecer a “total” comunhão de uns com os outros. Esperam e acreditam que isto
os torne capazes de atingir uns aos outros pelo déreglement ordonné de tous les
sens, numa reciprocidade terna, silenciosa, cognoscitiva e numa completa
concretidade. O tipo de “communitas” desejado pelos homens tribais nos seus ritos
e pelos “hippies” nos seus “happenings” não é a camaradagem aprazível e sem
esforço, que pode surgir entre amigos, colaboradores e colegas de profissão. O que
buscam é uma experiência transformadora, que vai até as raízes do ser de cada
pessoa, e encontra nessas raízes algo profundamente comunal e compartilhado.
170



Não obstante as especificidades de cada uma das etapas de práticas tóxicas
aqui expostas, é certo que elas possuem uma característica em comum, pois ambas são
propaladas por movimentos estéticos ou políticos que se insurgem contra as
conseqüências da modernidade: “Por duas vezes as práticas tóxicas ocidentais
desenvolvem-se e insurgem-se contra os valores fundamentais da sociedade capitalista,
a ponto de algumas análises as chegarem a considerar como uma contra-cultura.
171
Em
ambos os casos, os usos de drogas estavam inseridos em projetos existenciais, em
utopias, em projetos políticos derivados de um imaginário social. Dessa maneira, o
desvio em relação ao ethos de cada uma das épocas abordadas pode ser considerado
uma arma libertadora, que pretendia combater as limitações existenciais que decorriam
dos mais variados ascetismos e preconceitos da visão de mundo hegemônica.

2.3.2. O GOSTO AMARGO NA BOCA

Caio Fernando Abreu, no conto chamado “Os Sobreviventes”, que faz parte do
livro “Morangos Mofados”, sintetiza de uma maneira muito bonita a crise do projeto
existencial e político da contracultura:


169
XIBERRAS. A sociedade intoxicada, p. 106.
170
TURNER, Victor. O Processo Ritual. Estrutura e Anti-estrutura. Tradução de Nancy Campi de Castro.
Petrópolis: Vozes, 1974, pp. 168/169.
171
XIBERRAS. A sociedade intoxicada, p. 169.
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74
(...) ai que gracinha nossos livrinhos de Marx, depois Marcuse, depois Reich,
depois Castañeda, depois Laing embaixo do braço, aqueles sonhos tolos
colonizados nas cabecinhas idiotas, bolsas na Sorbbone, chás com Simone e
Jean Paul nos 50 em Paris, 60 em Londres ouvindo here comes the sun here
comes the sun little darling, 70 em Nova York dançando disco-music no
Studio 54, 80 a gente aqui, mastigando essa coisa porca sem conseguir
engolir nem cuspir nem esquecer esse azedo na boca. Já li tudo, cara, já tentei
macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação
cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só
esse nó no peito, agora faço o que?
172


O nó no peito e o gosto amargo na boca simbolizavam a ressaca que derivou
do aparente fracasso das micro-revoluções existenciais experimentadas. “O sonho
acabou”, a utopia libertária acabou sufocada por todos os lados, pela necessária
sobrevivência dos protagonistas, pelos eventuais excessos cometidos ou pela intolerante
reação conservadora. MACHADO nos fornece uma explicação teórica:

A revolução, no entanto, não ocorreu. As comunidades rurais, a vida alternativa, o
misticismo oriental, a fé inabalável no poder do indivíduo rebelado e a paixão
contracultural, arrefeceram. As explicações para isso vão desde a afirmação
tradicional de que terminou a moda, de que ‘as idéias estavam fora do lugar’,
passando pela teoria da incorporação pelo sistema dos valores contestatórios para
domesticar os desviantes, até as acusações de que houve puro e simples
aburguesamento das lideranças, a cooptação através dos meios de comunicação de
massa e, por fim, segundo uma espécie de psicologismo, a ponderação de que finda
uma fase ‘natural’ de inconformismo, expressando de forma quase ritual, mas
transitória, como deve ser uma etapa, deu-se o necessário e inevitável
‘amadurecimento. Da divergência, à integração.
173


Hoje sabemos que o fracasso foi apenas aparente, pois a “geração do
desbunde” de fato revolucionou o mundo, transformando-o num lugar mais habitável: é
inegável que após e revolução contracultural o mundo aprendeu a conviver melhor com
as diferenças. De qualquer forma, para quem “dormiu no sleeping-bag” e, portanto,
“sonhou”, utilizando aqui da letra de Gilberto Gil, “alguma coisa explodiu, partida em
cacos. A partir de então, tudo ficou ainda mais complicado. E mais real.”
174
Diversas
opções existenciais foram adotadas diante da crise, tal qual a da personagem de Caio:

(...) claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira,
a única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor
deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodca, me
passa o cigarro, não, não estou desesperada, não mais do que sempre estive,
nothing special, baby, não estou louca nem bêbada, estou é lúcida pra caralho e sei
claramente que não tenho nenhuma saída, ah não se preocupe, meu bem, depois
que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e

172
ABREU. Caio Fernando. Morangos Mofados. RJ: Agir, 2005, p. 27.
173
MACHADO. A miséria do cotidiano, p. 24.
174
ABREU. Morangos Mofados, p. 78.
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75
lexotan, depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a bancha e
arroz integral, absolutamente santa, absolutamente pura, absolutamente limpa,
depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina (...) mas
não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem
coisa mais autodestrutiva que insistir sem fé nenhuma?
175


O discurso desesperado é sintoma de uma nova relação entre as pessoas e as
práticas tóxicas. A ratoeira da qual a personagem sabe-se incapaz de escapar fornece a
justificativa para que ela chafurde na própria dor. A certeza da ausência de saída, da
prisão perpétua num mundo sem sentido, remete o uso de drogas à práticas
autodestrutivas, porém lúcidas. Não se trata mais de abrir as portas da percepção e de
procurar por encantamentos coloridos variados, mas de suportar a existência, ou de
aniquilá-la, no mundo que novamente está cinza.

O antigo hippie tornara-se uma figura mítica, estereotipada, que não mais
fornecia um arquétipo identitário a ser seguido. Tornara-se freak, saudosista do passado
encantado. Se, por um lado, surge a figura do Yuppie, aqueles sujeitos adaptados à
sociedade do consumo e da competição, que abandonaram o “passado contestatório e
decidiram administrar os bens da famíla”
176
, e para quem o uso da cocaína adapta-se
perfeitamente aos “personagens competitivos, eternamente sorridentes e capazes de
trabalhar durante muitas horas”
177
que encarnavam, por outro, surge a figura do
Junkie, que povoará o imaginário sobre os usos de drogas. O junkie urbano substitui o
hippie bucólico.

A intensificação da reação social aos usos de drogas acaba por produzir
resultados. O junkie assume a face da morte atribuída à droga pela sociedade, e leva a
sua aventura até as últimas conseqüências. Sob o nome “underground” designa-se um
movimento que de modo algum é um movimento, mas “um núcleo de sensibilidades
afins que escolheu um novo modo de expressão, embora prefira avançar com o rosto
coberto”
178
. Consoante XIBERRAS,

O movimento underground explana-se num campo diametralmente oposto ao do
movimento hippy. Tanto os psicotrópicos a que dá preferência como a atitude que
adopta perante o mundo demonstram claramente que a nova geração decidiu vingar
com a própria morte o sonho absurdo e abortado de seus predecessores. Com
efeito, enquanto o movimento psicadélico pretendia afirmar-se como um futuro

175
ABREU. Morangos Mofados, p. 28.
176
MACHADO. A miséria do cotidiano, p. 52.
177
RESTREPO. La fruta prohibida, p. 195.
178
XIBERRAS. A sociedade intoxicada, p. 114.
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76
risonho para o mundo ocidental, os anos do pó preludiam um regresso ao universo
mais sombrio que marca este trágico histórico do historial da droga.
179


O junkie decidiu adotar a imagem de detrito, de lixo social, que lhe foi
atribuída pela cultura ocidental, e escondeu-se nos não-lugares das urbes acinzentadas.
Não pretende mudar o mundo com as atitudes estilo de vida associado à prática tóxica,
mas desprezá-lo. Adota postura niilista e suicida. Desviante, por suposto. Recusa-se a
viver no mundo que, não só parece não lhe oferecer nenhum refúgio, como não lhe
oferece mesmo. O junkie não pretende construir nenhum saber sobre o uso de drogas
que possa lhe oferecer consumo seguro, pois deseja a destruição, deseja compor a
“filosofia da morte libertadora.”
180
Adere, por isso, à práticas duras, descontroladas e
solitárias. Nenhum ritual acompanha a prática tóxica, senão o ritual de contínuo
isolamento e de morte. Ouçamos Lou Reed e sua canção chamada Heroin:

Heroin, be the death of me
Heroin, it’s my wife and it’s my life
Because a mainline in my vain leads to a center in may head
And then I’m better of than dead
Because when the smack begins to flow
I really don’t care anymore
About all the Jim-Jims in this town
And all the politicians making crazy sounds
And everybody putting everybody else down
And all the dead bodies pilled up in mounds
cause when the smack begins to flow
And I really don’t care anymore
Ah, when that heroin’s is in my blood
And the blood is in my head
Then I thank good that I’m as good as dead
And thank your good that I’m not aware
And thank your God that I’m not aware
And tank God that I just don’t care
And I guess that I just don’t know
Oh, and I guess that I just don’t know

Na Europa e nos Estados Unidos, a heroína é a droga adotada. No Brasil e no
Rio Grande do Sul, não se encontra em nenhuma obra, tampouco em diálogos com
pessoas que viveram em tal período, a referência ao consumo de heroína. Contudo, a
caracterização de um consumo problemático pouco depende da substância que é
consumida, mas da maneira em que o uso ocorre. Desta forma, as poli-intoxicações, o
consumo exagerado de álcool, de cocaína e de psicofármacos, foram suficientes para
gerar identidades junkie marginais.

179
XIBERRAS. A sociedade intoxicada, p. 113.
180
XIBERRAS. A sociedade intoxicada, p. 115.
Página 117 / 477
77

Notamos, então, que, com a crise da contracultura, há uma transformação nas
práticas tóxicas. Na depressão posterior ao fim do sonho, surge outra face da droga, bem
menos lúdica do que àquele que representava o acesso às viagens experimentais aos
universos paralelos. De qualquer modo, apenas um sonho havia acabado, e sonharam-se
outros sonhos. O tempo continuou a corroer. É claro que é impossível enquadrar
rigidamente os usos de drogas nos parâmetros dos períodos históricos representados.
Em ambos, certamente aconteciam infinitos tipos de consumo. Não obstante, o
imaginário sobre as substâncias que fora construído nos períodos abordados, de algum
modo referencia os usos atuais, e daí a importância da análise.

2.3.3. DESVIO E USO DE DROGAS NA CONTEMPORANEIDADE

Como já vimos, os desvios o são sempre em relação a determinados parâmetros
contextuais de normalidade de certa cultura, ao ethos de uma cultura. De modo que,
para pensar sobre uso de drogas e desvio na contemporaneidade, será inevitável
encontrar características marcantes de nosso tempo.

Diversas são as leituras possíveis sobre a pós-modernidade, e creio que não há
porque opor umas as outras. Mesmo em leituras bastante distintas, é possível encontrar
pontos de encontro. Vazio, liquidez, ausência de gravidade
181
, são expressões utilizadas
para designar a condição do sujeito pós-moderno. Sujeito que não mais encontra
referenciais absolutos, que não mais acredita em grandes ideais e em projetos
redentores. Que se desvencilhou da coerção dos imperativos que serviam de guias à
existência - igreja, família, pátria, ideologia – e que, portanto, está apto a “viver sem
sentido, ou seja, de não crer na existência de um único e categórico sentido, mas de
apostar na construção permanente de sentidos múltiplos, provisórios, individuais,
grupais, ou, simplesmente, fictícios”.
182
O diagnóstico é de LIPOVETSKI:

A oposição entre o sentido e a ausência de sentido já não é dilacerante e perde seu
radicalismo diante da frivolidade da moda, dos lazeres, da publicidade. Na era do
espetacular, as antinomias duras, o verdadeiro e o falso, o belo e o feio, o real e o
ilusório, o sentido e o não-sentido esmaecem, os antagonismos se tornam
“flutuantes” e começamos a compreender, sem ofender nossos metafísicos e

181
Termos usados por LIPOVETSKI, BAUMAN E MELLMAN, respectivamente, para representar a
contemporaneidade.
182
MACHADO. In: prefácio de LIPOVETSKI, A era do vazio, p. xii.
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78
antimetafísicos, que hoje em dia é possível viver sem finalidade e sem sentido, em
sequências instantâneas, e isso é uma novidade. “Qualquer sentido é melhor do que
nenhum sentido”, dizia Nietszche, e nem mesmo isto ainda é verdade hoje em dia,
uma vez que a necessidade do sentido em si mesmo foi varrida e a existência
indiferente ao sentido pode desdobrar sem tragédia ou abismo, sem aspiração a
novas escalas de valores; melhor assim: novas questões surgem, liberadas de
sonhos nostálgicos, e espera-se que pelo menos a apatia new look tenha a virtude de
desencorajar as loucuras mortíferas dos grandes pregadores do deserto.
183


Estamos numa era pós-moralista. A era do pós-dever, da ética indolor.
184
Não
porque não existam mais valores, mas porque todos os valores estão na mesa, são
negociáveis, não são universais nem transcendentes. As instituições, as finalidades e os
valores nos quais se fundaram as épocas anteriores não foram abolidos, mas
desativados, esvaziados em sua substância, desalojados em sua megalomania redentora:
“o loft, em vez de ser esta moda de morar em entrepostos poderia muito bem ser a lei
geral que rege nosso dia-a-dia, a saber, a vida nos espaços desativados”.
185
O que se
percebe não é a completa ausência de prescrições, mas uma outra forma de transmiti-
las. Não se trata mais de impô-las por meio de uma moral rigorosa, por meio de deveres
absolutos, mas de convencer, de seduzir, demonstrando a sua utilidade em prol do bem-
estar. O slogan “é proibido proibir” cumpriu sua função libertadora, mas a “desordem
organizadora” da sociedade contemporânea reconfigura os próprios limites. É permitido
proibir, mas também é possível negociar as proibições, violá-las inclusive, caso a
proibição exija sacrifício demasiado. LIPOVETSKI, novamente:

Cultura pós-moralista não equivale a dizer pós-moral. Precisamente quando o
sacerdócio do dever e as restrições da era vitoriana ficaram para trás, novas
regulamentações sociais surgem, proibições são renovadas, readmitem-se novos
valores, manifestando-se aspectos bem diversos dos que foram narrados pelos
contemporâneos da “permissividade generalizada”. Na verdade, o ritual do dever
perdeu o direito de cidadania visível na sociedade, muito embora os costumes não
tenham mergulhado na anarquia. O bem-estar e os prazeres são exaltados, mas a
sociedade civil anseia por ordem e moderação: os direitos subjetivos dominam
nossa cultura, mas “nem tudo é permitido. Há um processo de reconstituição das
apetências sensitivas, mas que passa ao largo da repressão e sublimação dos
valores. Que fique bem claro: a dissolução do sistema moralista não conduz à
devassidão total ou ao “extravasamento completo” da libido... O neo-individualista
é simultaneamente hedonista e regulamentado, sedento de autonomia e avesso aos
excessos, hostil aos mandamentos sublimes e também ao caos e às trangressões da
libertinagem pura e simples. Representar a cultura individualista atual como
catastrófica constitui uma caricatura.
186



183
LIPOVETSKI. A era do vazio, p. 21.
184
LIPOVETSKI. A sociedade pós-moralista.
185
LIPOVETSKI. A era do vazio, p. 19.
186
LIPOVETSKI. A sociedade pós-moralista, p. 28.
Página 119 / 477
79
A identidade do sujeito contemporâneo é leve, moldável, plástica, pois ele não
precisa comprometer-se com ideais existenciais. Não há que ancorar-se em qualquer
papel definitivo. Somos mais livres que nossos pais:

Na era do vazio, estamos menos carregados e mais livres, mais lúcidos e menos
dependentes, mais exigentes e menos submissos, mais flexíveis e menos
engessados em engrenagens de poder em nome de verdades que se apresentavam
como transcedentais ou universais, embora não passassem de formas locais de
controle. Em termos de moral, menos é mais. O moralismo caracteriza-se pelo
excesso de valores que não podem ser discutidos. A ética numa sociedade liberada
do sacrifício faz-se do mínimo indispensável à coesão social e ao respeito ao outro.
O vazio salva do excessivo.
Menos de 40 anos atrás tudo isso ainda era um utopia. A moral rigorista fazia do
homem o chefe da família, a autoridade paterna, a voz incontestável, o esteio da
sociedade no microcosmo do lar. A mulher vivia em situação secundária,
praticamente sem direito ao prazer, ao orgasmo, à liberdade sexual e à vida
profissional. Não se estava numa sociedade da escolha, mas numa teia coercitiva .
Família, Igreja, Pátria, Partido, Ideologia dominavam a cena social e serviam de
pastores e de sentido para a existência, obrigando a conformar-se, a entrar numa
forma, a tomar a forma de um mundo moralmente determinado, sexista e
produtivista. No fundo, a mulher devia sacrificar-se pelo marido e pelos filhos. Já o
homem devia sacrificar-se pela família, pela pátria e pelo trabalho. A felicidade
pessoal não passava de uma conseqüência. Ser feliz devia significar a aceitação de
um sentido presente na tábua de valores fixada desde antes o nascimento de
alguém.
187


É claro que a ausência de referências e as infinitas possibilidades de escolha
geram novas angústias. O mal-estar na civilização - diagnosticado por Freud no início
do século, que provinha de uma limitação exagerada do gozo em nome da segurança,
gerando sentimento de culpa - atualmente possui características diferentes, o que faz
com que autores da psicanálise como MELMMAN falem em uma ‘nova economia
psíquica’, que não se baseia mais no recalcamento dos desejos, mas, ao contrário, na
obrigação de satisfazê-los. Conforme o autor:

Estamos no exato ponto de abandono de uma cultura, ligada à religião, que
obriga os sujeitos ao recalque dos desejos e à neurose, para nos dirigir a uma
outra em que se propagandeia o direito à expressão livre de todos os desejos
e a plena satisfação deles.
188


No mesmo sentido, refere BAUMAN:

Os mal-estares da modernidade provinham de uma espécie de segurança que
tolerava uma liberdade pequena demais na busca pela felicidade individual.
Os mal-estares da pós-modernidade provêm de uma espécie de liberdade de
procura do prazer que tolera uma segurança individual pequena demais.
189


187
MACHADO. In: prefácio de LIPOVETSKI, A era do vazio, p. x/xi.
188
MELMAN. O Homem sem gravidade, p. 107.
189
BAUMAN. Mal-estar na pós-modernidade, p. 10.
Página 120 / 477
80

O sujeito contemporâneo experimenta uma liberdade inédita, pois desprovido
de caminhos únicos a seguir e portador de infinitas possibilidades de escolha. Daí
decorre um efeito negativo, pois a ausência de limites leva à frustração. O próprio
LIPOVETSKI percebe isso, referindo que “a sociedade hipermoderna é propriamente
aquela que multiplica ao infinito as ocasiões de experiência frustrante, ao mesmo
tempo em que deixa de proporcionar os antigos dispositivos institucionalizados para
debelar esse mesmo mal”
190
. MELLMAN também reflete sobre os preços da liberdade:

Como saber que se está na realidade? Quando despertamos pela manhã, como
sabemos que o sonho parou? Sem dúvida é porque tomamos contato com uma
forma de decepção que organiza nossa realidade. Ora, se esse tipo de decepção vem
a faltar, se não é mais o suporte da realidade que é a nossa, de sua validade, então
evidentemente surge a pergunta: será que não estamos sempre sonhando, será que
não estamos sempre no campo em que tudo é possível?
191


Além disso, para alguns analistas a liberdade não é tão ilimitada assim, pois
imperativos sociais continuam a alienar os sujeitos da “sociedade do espetáculo”. Ideais
de performance e competição, bem como modelos identitários cristalizados em
celebridades, funcionariam como novos padrões éticos e estéticos, instrumentos de
controle social que reconfiguram dispositivo alienante, impondo aos sujeitos
contemporâneos novos parâmetros de normalidade. A liberdade de gozo obtida com a
revolução comportamental transformou-se em imperativo de gozo. Novas amarras
recaem sobre o sujeito que pensou que tinha se libertado: maiores possibilidades de
prazer sexual não podem ser aproveitadas em toda sua extensão pela obrigatoriedade da
performance, pelo medo de falhar, e os corpos não precisam mais ser escondidos
embaixo dos panos, mas a contrapartida é que devem ser moldados segundo os padrões
de beleza fitness. KEHL diz o seguinte:

Os corpos pós-modernos têm que dar provas contínuas de que estão vivos,
saudáveis, gozantes. Ao trabalho moçada! A quietude não tem nenhum prestígio na
era da publicidade, das raves embaladas à ecstasy, dos filmes de ação. Estamos
liberados para usufruir todas as sensações corporais, mas para isso o corpo deve
trabalhar como um escravo, como um remador fenício, como um condenado a
trabalhos forçados. Anorexias, bulimias, seqüelas causadas pelo uso de
anabolizantes e de moderadores de apetite sinalizam a permanente briga contra as


190
LIPOVETSKI, Gilles. A sociedade da decepção. Tradução de Armando Braio. SP: Manole, 2007, p.
14.
191
MELLMAN. O homem sem gravidade, p. 28.
Página 121 / 477
81
tendências do corpo a que se entregam, sobretudo, os jovens, numa sanha
disciplinar de fazer inveja ao pobre Santo Antônio.
192


Creio que ambas as visões expostas evidenciam aspectos da contemporaneidade.
O importante é, apenas, não cair em espécie de nostalgia de um tempo que nunca
existiu, para não resvalar nas leituras apocalípticas que enxergam na atualidade o pior
dos mundos. Se o fim das grandes narrativas significa, de algum modo, no que tange à
subjetividade, a crise da figura paterna, que está a explicar o aumento das múltiplas
espécies de violência, é preciso lembrar que o passado tampouco era maravilhoso, que o
declínio da figura paterna tem lugar após superarmos a tirania do pai, e que talvez
estejamos vivendo em um tempo “menos pior”: “o mundo pós-moderno pode-se gabar
de não ter produzido duas guerras mundiais e de ter provocado a crise do
autoritarismo moderno baseado na lei do sacrifício pessoal em nome da pátria, da
religião, da moral, da tradição e da ordem.
193
” O importante é não etiquetar
previamente as efervescências da contemporaneidade, afastar-se do “arsenal profilático
de cautelas para se lidar com os “fantasmas morais” que assolam a subjetividade
contemporânea”, a cultura do espetáculo, o narcisismo, o vazio, a nefasta influência dos
meios de comunicação, a decomposição dos valores, etc. E tal cuidado é decorrência do
próprio referencial teórico adotado, pois

Se o interacionismo simbólico trabalha sobre o desvio sem nunca abordar o
conceito de anomia é porque, para esta corrente de pensamento, a exclusão não é o
vazio, nem nas representações, nem no laço social que liga os excluído em
conjunto. Se há vazio ou, mais exactamente, símbolos de ordem negativa, estes são
somente uma imagem, ou uma etiqueta negativa, que a sociedade prende ao
estigma.
194


Sob certo aspecto, é possível constatar que há uma tendência de aceitação de
todos os estilos de vida, no sentido de que está superada a monotonia do sujeito ideal -
pai de família, branco, casado, heterosexual, empregado... Tal constatação impõe um
questionamento: que resta do desvio? Existe algum parâmetro de normalidade forte o
suficiente a ponto de fundar a produção de desviantes por meio de empreendimentos
morais e de etiquetamentos?


192
KEHL, Maria Rita. A fratria órfã: conversas sobre a juventude. SP: Olho d’água, 2008, p. 14.
193
MACHADO, Juremir. In: Jornal Correio do Povo, 02 de outubro de 2009, p. 10.
194
XIBERRAS, Martine. As teorias da exclusão, para uma construção do imaginário do desvio. Tradução
de José Gabriel Rego. Lisboa: Piaget, 1993, pp. 143/144.
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82
FREIRE-COSTA consegue identificar duas características marcantes de nosso
tempo, que configurariam a cultura somática: culto ao corpo e consumismo. Do
afastamento dos parâmetros de normalidade no que tange à moderação no consumo e à
bioidentidade aprovada, decorreriam os desvios da atualidade:

“Hoje a figura do desvio é a estultícia. Criamos um código axiológico no qual os
“normais” são os que dão mostra de vontade forte. No pólo oposto, estão os fracos,
os piores, os estultos. Estultícia é a inépcia, a incompetência para exercer a vontade
no domínio do corpo de da mente, segundo os preceitos da qualidade de vida. O
louco de outrora ameaçava a cultura por ser um contra-exemplo vivo da idéia de
homem como ser racional. O perverso, por exibir a potência dos instintos
desregrados, excessivos, regredidos, incontroláveis pela razão. O estulto ameaça
pelo mau exemplo da fraqueza de vontade.
Em oposição à personalidade neurótica de Karen Horney ou à personalidade
narcísica de Lasch, a personalidade somática tem na imagem social do corpo o
suporte, por excelência, do caráter ou da identidade. Os diversos tipos de estultos
começam, por isso, a proliferar como um efeito imprevisto do hiperinvestimento
afetivo na imagem corporal, e a serem mostrados como a antinomia da
bioidentidade aprovada. A estultícia é a contrapartida desviante da personalidade
somática de nosso tempo.
Os estultos são, então, tipificados segundo o grau ou a natureza do desvio em: a)
dependentes ou adictos, isto é, os que não controlam a necessidade de drogas lícitas
e ilícitas; de sexo; de amor; de consumo; de exercícios físicos; de jogos de azar; de
jogos eletrônicos, etc. b) desregulados, isto é, os que não podem moderar o ritmo
ou a intensidade das carências físicas (bulímicos, anoréxicos) ou mentais
(portadores de síndrome de pânico, fobias sociais); c) inibidos, isto é, os que se
intimidam com o mundo e não expandem a força de vontade, como os distímicos,
os apáticos, os não assertivos, os “não assumidos”; d) estressados, isto é, os que
não sabem priorizar os investimentos afetivos e desperdiçam energia, tornando-se
perdulários da vontade; e) deformados, isto é, os que ficam para trás na maratona
do fitness: obesos; manchados de pele; sedentários; envelhecidos precocemente;
tabagistas; não-siliconados; não-lipoaspirados, etc.”
195


Essa é uma importante chave de leitura para pensar sobre os desvios relativos
aos usos de drogas na contemporaneidade. O desinvestimento dos sentidos
contraculturais relativos ao uso de substâncias redundou no fato de que as buscas por
estados alterados de consciência foram incorporados aos modos socialmente aceitos de
se viver. Desse modo, o desvio não se refere mais ao uso de drogas em si mesmo, mas
ao uso descontrolado, desregulado, que impede a manutenção das obrigações diárias.

Atualmente, as substancias químicas funcionam como pílulas mágicas, que
auxiliam o sujeito a estar à altura de suas mais diversas obrigações. Os mal-estares
psíquicos foram alçados à categoria de doença, e da interação entre psiquiatria e
indústria farmacêutica resultaram as magic bullets, destinadas à tratar qualquer tipo de
desconforto psíquico. Aliás, sequer é necessário existir qualquer problema aparente,

195
FREIRE-COSTA. O vestígio e a aura, corpo e consumismo na moral do espetáculo, pp. 195/196.
Página 123 / 477
83
pois se trata de potencializar as próprias capacidades cognitivas, de encontrar muletas
para trabalhar até mais tarde, para escrever uma dissertação de mestrado, para conseguir
relaxar, para dormir, para corresponder ao imperativo do “sexo de resultado”. Além
disso, o incrível incremento da oferta de psicofármacos gerou uma nova forma de o
Ocidente se relacionar com a dor. Consome-se substâncias para suportar as agruras da
existência, a dor de um uma perda, um luto. Para lidar com a miséria psíquica, de modo
que sejamos poupados, de alguma forma, do sofrimento inerente ao viver. Para que não
seja necessário sentir. Conforme MELMANN,

Os médicos, e em particular os psiquiatras, infelizmente se tornaram
servidores do poder. (...) Mas entre nós, os médicos, antes de estarem a
serviço do doente, estão hoje a serviço do imperativo social. O qual,
retomemos nosso exemplo, diz que o paciente não tem nem o tempo, nem o
direito, nem a possibilidade de fazer um luto: é preciso que ele esteja no seu
posto de trabalho. E, se não está, é porque está doente, então lhe damos
drogas. Drogas que o impedem de fazer seu luto, que o mumificam. (...) O
que o poder quer doravante obter dos médicos é isso. (...) Não é necessário
que a ordem seja explicita. É próprio doente que formula espontaneamente
uma tal demanda, que lhe é inspirada por todo um sistema que faz pressão
sobre ele. A mãe de família vem ver o psiquiatra e ele diz: ‘Mas é preciso
que eu cuide dos meus filhos. É preciso que eu cuide do meu marido, senão
ele vai me deixar! E tenho minha mãe que está doente...’ E respondemos sua
demanda.
196


Se num contexto de contracultura, o uso de drogas representava a tentativa de
transcendência, de busca por outros mundos, aqui o uso de drogas busca a imanência,
inserir-se, estar mais aqui do que nunca. O uso de psicotrópicos é mais um dos
instrumentos à disposição do sujeito contemporâneo na moldagem de seu personagem.
O ciborgue pós-moderno, crente em sua onipotência perante o mundo, lança mão da
gestão farmacológica dos problemas existenciais, da produção farmacológica de si. É o
que diz LE BRETON:


196
MELMMAN, O homem sem gravidade, pp. 101/102. No mesmo sentido, refere Birman: “Nesse
contexto, a psicofarmacologia fornece os instrumentos básicos para que essas individualidades possam
se inscrever nos trâmites brilhosos da cultura do narcisismo. Os psicofármacos, pelo enorme efeito
antidepressivo e tranqüilizante, visam a transformar esses miseráveis e sofredores em seres efetivos da
sociedade do espetáculo. Com isso, silenciam-se as cavilações pesadas e as ruminações ‘excessivamente
interiorizadas’ dos deprimidos, e eles são transformados em seres ‘legais’ do universo espetacular.”
(BIRMAN. Mal-estar na atualidade, p. 247). Ainda que a arte muitas vezes transgrida o “clima” de uma
época, em outras traduz poeticamente aquilo o que em determinada temporalidade as pessoas estão
vivenciando e sobre o que os intelectuais estão teorizando. Neste sentido, o “pedido de socorro” de
Arnaldo Antunes parece refletir bem essa mumificação da existência contemporânea: “Socorro não estou
sentindo nada, nem medo, nem calor, nem fogo, nem vontade de chorar, nem de rir. (...) Socorro alguém
me dê um coração, que este já não bate nem apanha, por favor, alguma emoção pequena, qualquer coisa,
qualquer coisa que se sinta, têm tantos sentimentos deve ter algum que sirva.”
Página 124 / 477
84
Muitas técnicas da vida cotidiana concorrem para o uso de si, visam a uma
transformação deliberada do foro íntimo tendo em vista uma finalidade precisa:
melhorar seu poderio sobre o mundo, aguçar suas capacidades de percepção
sensorial, modificar seu estado de vigilância, superar o cansaço, proporcionar
meios para um esforço prolongado, escapar do sono, ou, ao contrário, conseguir
finalmente adormecer, etc. Nossas sociedades contemporâneas fornecem uma
formidável extensão a essas técnicas de gestão do humor e da vigilância. Favorece
a esse respeito o desenvolvimento de um imaginário da onipotência sobre si
amplamente empregada pelos indivíduos. Abandonar-se a seu humor “natural” do
dia seria privar-se de recursos preciosos ou se tornar menos competitivo no plano
do trabalho ou da vida cotidiana. Se a anatomia não é mais um destino, a
afetividade tampouco, quando um vasto leque de meios farmacológicos propõe
seus serviços. A chave da relação com o mundo reside na vontade que decide sobre
a molécula apropriada para retificar um corpo mal ajustado, modificando o humor.
Melhor traçar um caminho bioquímico em si do que enfrentar sem defesa a
provação do mundo.
197


Diante da omnipresença das práticas tóxicas, é, no mínimo, questionável, tratá-
las em termos de desvio. É claro que ainda recaem tabus, sobretudo sobre substâncias
proibidas, mas o tabu parece adquirir ares de conflito de geração. Ainda não são
permitidos consumos familiares, conversas francas com desconhecidos ou consumos
públicos de substâncias ilícitas, mas há inegavelmente o esvaziamento do desvio. O uso
controlado de drogas ilícitas é manejado entre usuários e “caretas” a partir de um
silêncio complacente: é comum pais fazerem vista grossa a consumos regulados de seus
filhos, enquanto as demais obrigações estiverem sendo satisfeitas. No que toca à visão
dos jovens da contemporaneidade, pouco resta de transgressão no uso de drogas.

É claro que também é possível notar a emergência de um neoconservadorismo,
que está a promover intensas campanhas do tipo “diga não às drogas”. Mas tal é muito
mais a reação mais fácil, aquela que está mais a mão, que exige menos esforço
intelectual, de uma sociedade que convive diariamente que com variados tipos de
demandas por estados alterados de consciência. É um processo parecido com o
conservadorismo dos adolescentes homens, que ainda não aprenderam a lidar com a
nova ordem sexual, que desejam relacionar-se sexualmente com o máximo de parceiras
possíveis, mas não admitem o mesmo direito às parceiras, e imputam àquelas que levam
a cabo o sexo livre os mesmos rótulos de outrora. É claro, é mais fácil seguir ancorando-
se nessas certezas, do que aprender a conviver com o novo. As campanhas do tipo “diga
não às drogas” representam a resposta desesperada de uma sociedade que deseja

197
LE BRETON, David. Adeus ao corpo. Tradução de Marina Appenzeller. SP: Papirus, 1999, pp.
56/57.
Página 125 / 477
85
vorazmente consumi-las, e que não encontra outro caminho para lidar com esse tipo de
desejo senão o caminho de volta à repressão autoritária.

Por um lado, a desativação da potência contracultural dos usos de droga de
outrora pode ser uma explicação para as toxicomanias pós-modernas. É possível
perceber consumos que perderam seu controle cultural, em razão da ausência de rituais
que os ultrapassam e que por isso os organizam psíquica e socialmente, e acabam por
adquirir um fim em si mesmo. Desse modo, os consumos não encontram metáforas
sociais que os justifiquem, o que acaba por gerar o rompimento dos laços do
consumidor com sua rede interpessoal e desintegrar os seus laços afetivos. Perde-se o
respeito pela substância, a necessidade de situá-la em um contexto maior que o
fundamente, e assim qualquer ocasião é propícia ao uso. Além disso, surgem as poli-
intoxicações, os consumidores deixam de ser fiéis a apenas uma substância, e passam a
consumir as mais variadas combinações químicas. A letra do manguebeat chamado
Pastilhas Coloridas, de Fredi 04, do Mundo Livre S/A, ilustra bem o afirmado:

“Os sonhos murcham feito maracujá velho"
Quando eu vim morar na Ilha Grande
Meu prédio era o only one da rua
Mas uns moleques já brincavam de trocar
Pastilhas coloridas
Nossos campos de pelada de repente sumindo
E as mesadas diminuindo
Nossos pais na pressão
Desemprego em massa
A vizinhança gravando direto
E a marcação cerrada
Dos prestativos
Mas nem sempre gentis homens da lei
Amigos nas farmácias
E quando a erva faltava
Qualquer droga era boa
As verdes valem dez
As amarelas oito
As brancas valem cinco
Mas se dá bem quem tem azul
(quem azul tem tudo)
Os ratos engordando dia-a-dia
Com os nossos sonhos podres
E a gente inventando regras
Para sobreviver na Ilha Grande
Pois o continente parecia muito longe
E talvez não houvesse lugar para nós
No mundo livre
Amigos nas farmácias
E quando a erva faltava
Qualquer droga era boa

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86
A citação de MARTINE XIBERRAS arremata:

É, sobretudo, a toxicomania dos anos oitenta que procura impor um novo modelo
de relacionamento com os produtos psicotrópicos. Sendo assim, o termo poli-
intoxicação tende a impor-se pelo fato de designar com maior exactidão a realidade
actual da intoxicação voluntária. Todos os produtos psicotrópicos, sejam eles
vendidos de forma legal ou ilegal, são mencionados pelos toxicômanos
contemporâneos nas breves histórias de suas vidas. Dos solventes mais correntes
(cola ou tricloretileno), às drogas leves (canabbis), passando pelas drogas duras
(heroína, cocaína) e pelos medicamentos dos quais se faz uma utilização indevida,
a nova geração parece interessar-se por todo o tipo de associações.
198



Por outro lado, na desativação da potência contracultural é possível encontrar
também o surgimento de novas dinâmicas, que não conduzem necessariamente aos
consumos problemáticos. Penso que outro caminho para o questionamento das políticas
proibicionistas, além da crítica aos efeitos da proibição, é procurar, nas dinâmicas dos
grupos nos quais o uso ocorre, consumos socialmente regulados, de maneira que a
crítica antiproibicionista reste fundamentada em exemplos viáveis no que tange ao
controle anárquico do uso de drogas. Nesse sentido, XIBERRAS afirma que “temos de
nos consciencializar de que a actual comunidade virtual contém em si mesma forças e
esquemas de protecção ancestrais. Só uma aposta neste potencial e um estímulo ao seu
desenvolvimento pode configurar uma solução viável para o problema.”
199


MENDES DE ALMEIDA E EUGÊNIO, antropólogas da PUC/RJ, dedicam-se
atualmente a estudar as chamadas Festas Rave. Para tanto, realizaram pesquisa de
campo sobre o assunto, mediante observação participante e entrevistas com
freqüentadores. Em um dos artigos que escreveram, analisaram as transformações dos
significados atribuídos aos usos de drogas e das práticas tóxicas, do contexto
contracultural para o contexto contemporâneo. Notaram que há, de fato, um
esvaziamento do caráter reativo outrora apegado ao uso de drogas: o uso não é mais
bandeira de nada. Contudo, isso não significa que as cenas que podem ser observadas
nesse tipo de festa, milhares de pessoas dançando hipnotizadas pelas batidas aceleradas
e ritmadas da música eletrônica, sejam o retrato de “um exército de zumbis
alucinados,”
200
desorientados em um tempo de desencanto. É necessário desatrelar-se
“de uma bagagem nostálgica para se pensar o repertório tão polifônico de novos

198
XIBERRAS. A sociedade intoxicada, p. 39.
199
XIBERRAS. A sociedade intoxicada, p. 204/205.
200
LINCK. A criminologia nos entre-lugares, p. 140.
Página 127 / 477
87
agenciamentos e práticas discursivas e comunicacionais”
201
, para que possamos
compreender nosso tempo.

“A diferença disso aqui para Woodstock é que segunda-feira eu estou lá
engomadinho no trabalho”. A frase, dita por um dos entrevistados de ALMEIDA E
EUGÊNIO, simboliza uma das grandes transformações do uso de drogas e do desvio, da
contracultura para a contemporaneidade. Significa dizer que, para aderir ao uso de
drogas, não é mais necessário aderir, ao mesmo tempo, a um estilo de vida que lhe é
próprio. Não é preciso comprar todo o kit. Se no contexto da contracultura o uso de
drogas simbolizava o rompimento com a ordem social, na contemporaneidade
verificamos um uso pragmático, programado, que tem vez naqueles momentos de
simples pausa na vida ordinária. A cultura somática, ao mesmo tempo em que valoriza
as sensações, impõe pesada disciplina corporal, em nome do ideal fitness. Além disso,
impõe a necessidade do sucesso. E da aparência do sucesso. Desse modo, configura-se
um “hedonismo calculado”, de sujeitos que não pretendem afastar-se de seu projeto
pessoal. O limite não é mais dado por qualquer tipo de autoridade, mas pelo olhar dos
semelhantes, espelho no qual o sujeito julga a si mesmo. É permitido “se jogar”, mas de
forma matemática, calculada: é preciso ter noção. O desvio somente será produzido
quando o sujeito estiver prestes a tornar-se um “perdedor”, por ter se descuidado da
assepsia das experiências e da aparência pessoal: quando estiver apresentando vestígios
de degradação.
202
É o que referem ALMEIDA e EUGENIO:

Quando aquela “ilha de intensidade” parece querer expandir-se para além do lugar
que lhe foi pragmaticamente conferido em uma vida de múltiplas frentes de
investimento, cabe aos próprios sujeitos conter-se, remediar-se, investir em ações
que “puxem para outro lado”, como psicanálise, malhação, alimentação saudável,
etc. É claro que nem sempre isso acontece, e entre os amigos aquele que se julga
estar “pegando pesado” sofrem restrições, reprimendas, no limite chegam a ser
evitados. Ele será um “desviante” muito mais porque caminha a passos largos para
se tornar um looser. Descuidando dos outros aspectos considerados cruciais da
vida, do que propriamente por ser um viciado.
203


A festa Rave pode ser considerada um laboratório das “alquimias pragmáticas”
representadas por algumas formas de práticas tóxicas da juventude da atualidade. Trata-
se de um consumo destinado a montar um corpo-perito, “a fim de proporcionar a cada

201
ALMEIDA; TRACY. Noites Nômades, p. 115.
202
ALMEIDA; EUGENIO, Alquimias pragmáticas, p. 172.
203
ALMEIDA; EUGENIO, Alquimias pragmáticas, p. 173.
Página 128 / 477
88
sujeito a produção sistemática de um eu competente,”
204
plenamente inserido no
contexto festivo, para que “esteja ali como nunca esteve”, para estar “melhor que bem”.
O ecstasy é a substância “emblema”, assim como o LSD fora no passado, mas todas as
substâncias podem ser consumidas, o próprio LSD, maconha, cocaína, álcool, remédios,
energéticos, cigarro, lança perfume. Entretanto, ao contrário do que poderia parecer, não
há um absoluto descontrole. As substâncias são atravessadas por uma técnica de uso,
que direcionam a prática a um mesmo objetivo, a produção farmacológica de si. Cada
consumidor deve conhecer o efeito das drogas sobre si, de modo que possa construir seu
próprio receituário. Deve saber que tipo de combinações pode ou não fazer, que horário
deve ingerir a substância para que o auge dos efeitos ocorra no momento certo da festa,
e para que no momento de ir embora já esteja planamente apto. Deve conhecer os riscos
que envolvem o consumo das substâncias, para que possa gerenciá-los. Trata-se de um
plano de auto-gestão, cujo bom funcionamento garante o equilíbrio entre as buscas por
intensidades e o projeto de vida. Novamente ALMEIDA e EUGENIO:

Cabe ao sujeito governar-se de modo adequado, assim como cabe a ele estabelecer
os próprios limites; não haverá, tampouco, ninguém mais a culpar além de si
mesmo caso este projeto de auto-gestão falhe, e seja rompido o adequado equilíbrio
entre estas “ilhas de intensidade” e um projeto extensivo da vida, orientado pelos
ideais de sucesso profissional, juventude e longevidade, que para ser cumprido
exige um investimento simultâneo e competente no trabalho e no lazer. Ser um
looser, um não-enquadrado, é este o “desvio”.

Tal plano de auto-gestão estende-se aos demais aspectos da existência. A
competência será medida pela capacidade de produzir a performance corporal adequada
a cada contexto: “na academia podem funcionar como atalho os anabolizantes; na
mesa de bar, o álcool, nas raves, o ecstasy; para dormir, um Lexotan ou maconha; para
render no trabalho, um café ou eventualmente cocaína.”
205
Desse modo, é no excesso,
na incapacidade de controlar a vontade, no fracasso em manter o equilíbrio entre as
intensidades químicas e os imperativos da bioidentidade, que se constituem os desvios.

Isso não significa que o uso de drogas esteja despido de seu aspecto lúdico. O
que foi desativado foi o caráter reativo, contestador, mas não a busca eterna por estados
alterados de consciência, por universos paralelos. Não há projeção do paraíso. O paraíso
é buscado no instante, sabe-se que a “festa vai acabar”, e por isso mesmo cumpre

204
ALMEIDA; EUGENIO. Alquimias pragmáticas, p. 160.
205
ALMEIDA; EUGENIO. Alquimias pragmáticas, p. 166.
Página 129 / 477
89
aproveitar intensamente aquele momento de suspensão do tempo, no qual a realidade
está sendo regida por outra lógica. Os valores hippies, por exemplo, de paz, amor, de
convivência equilibrada com o cosmos, de relações humanas baseadas no respeito,
continuam presentes. Não por outro motivo, o lema da cultura psy trance é P.L.U.R, que
significa Peace, Love, Union and Respect. O acesso a tal universo não é dado apenas
pelo o uso de drogas, mas por todos os elementos do ritual, que contribuem para criar
uma atmosfera lúdica: a música, a decoração, as imagens, as roupas dos ravers e a
própria cumplicidade empática entre os participantes.

Com a crise da contracultura, o uso de drogas deixou de referenciar-se àquele
arsenal simbólico contestatório, bem como aos rituais que lhe acompanhavam. Mas os
espaços vazios tendem a ser preenchidos, e é certo que outros rituais e outros
referenciais simbólicos estão colados aos consumos contemporâneos. A negação da
ordem posta e a busca por um mundo novo se imbricavam com as práticas tóxicas, de
modo que lhe forneciam um amparo cultural. Contudo, também é verdade que tal
amparo não era tão seguro assim, e muitos acabaram por ir longe demais na aventura.
Hoje, também contamos com controles culturais. Frágeis, por óbvio, e não cabe medir a
porosidade de cada um dos referenciais aqui apresentados. Mas, talvez, atualmente, a
inexistência de um projeto coletivo redentor fundamente a iniqüidade de se “ir até o
fim”, de viciar-se, de emburacar-se: recusa-se o desfecho sombrio, justamente porque
nada resta de glamour rebelde no final trágico. Um desejo de conciliação substituiu o
desejo de ruptura.
206


Em verdade, há uma impossibilidade de esgotar o tema do uso de drogas, de
modo que a análise será sempre incompleta. Convivemos com inúmeras visões sobre o
tema. As pessoas tratam-no com dubiedade, com dissimulação, e até mesmo com
hipocrisia, o que dificulta a compreensão.

A contemporaneidade é herdeira dos diversos sentidos atribuídos aos usos ao
longo da história, mas todos estão misturados, transformados, escondidos nas camadas
de sentido. No relato abaixo, isto fica bastante claro. O uso da maconha é racionalizado
a partir de algumas idéias de bem-estar, ao mesmo tempo em que a droga, como

206
ALMEIDA; EUGENIO. Alquimias pragmáticas, p. 172.
Página 130 / 477
90
símbolo, acaba por referenciar um consumo que remete ao tempo mítico da juventude
encantada. Vejamos:

Bom, fumo até hoje, e a maconha é a única droga que utilizo. Já tomei meus porres,
tomei muito ácido também, fiz festa pra caralho, muita mesmo, mas nada substitui a
paz da chapadeira, a graça em olhar o mundo com um sentimento de calma e
esperança, por mais desesperados que estejam em nossa volta. Nada supera a
sensação de não ser “mais um”, de carregar consigo uma “arma secreta” contra toda
essa merda que chamam de vida, mas que Zé Ramalho chama de admirável gado
novo. Sei lá, acalma, e isso é biológico (ou seja: eu sou um tipo de obsessivo para
quem a maconha baixa um pouco a rotação – se não entendeu, vá debater com meu
psiquiatra), mas é mais do que isso: é uma espécie de volta a um mundo de crença,
típico da adolescência, e que faz com que tudo valha a pena. É um resgate daquilo
que um dia todos nós fomos, malucos sonhadores, inocentes revolucionários, e que
se perdeu pelo caminho. (AG, em entrevista livre)

Não se trata, portanto, de ausência de sentidos, mas antes de sua multiplicação:
“a era do vazio é cheia de novos significados”.
207


Necessário, ainda, falar sobre o aspecto mais problemático do uso de drogas
no Brasil atualmente: o consumo de crack por grupos que vivem em situação de risco
social. As especificidades da questão, sobretudo no contexto gaúcho, serão abordadas
detidamente no próximo capítulo. Aqui, novamente, é preciso fugir das visões
simplificadoras, que identificam na própria substância a causa do problema. É claro que
estamos diante de um produto que possui alto potencial entorpecente. Não obstante,
cumpre compreender que o próprio surgimento da substância é um efeito do
proibicionismo, pois o crack surgiu diante da necessidade que o mercado das drogas
teve de procurar estratégias diante do aumento da repressão aos insumos necessários
para o refinamento de cocaína. Desse modo, os países produtores deixaram de exportar
cocaína já refinada, e passaram a exportar apenas a pasta-base, que também é matéria
prima do crack. O fenômeno não é novo, e certamente não pode ser explicado a partir
da hipótese fantasiosa de que a substância é diabólica, capaz de aniquilar imediatamente
àquele que toma contato com ela. Como já está bem claro, o problema não está na
substância, e sim no contexto em que ocorre o consumo. O consumo problemático de
crack tem lugar nos mesmos contextos em que sempre ocorreram outros consumos
problemáticos, de cachaça, inalantes (loló, cola), cocaína, etc. Moradores de rua,
encarcerados, jovens sem esperança, miseráveis de todos os tipos, àqueles que estão nas
sinaleiras da cidade que não para, encontram no consumo uma anestesia, uma caminho

207
MACHADO. In: prefácio de LIPOVETSKI, A era do vazio, p. xiv.
Página 131 / 477
91
para a evasão absoluta de em uma sociedade que os considera excessivos, descartáveis.
É difícil encontrar qualquer tipo de cultura dos usos de crack, pois tais ocorrem na
clandestinidade e na solidão, e, não raro, conduzem rapidamente à morte, real ou
metafórica. Além disso, aquelas pessoas que as usam são os que têm menos voz, e,
apesar de toda gama de “especialistas” no assunto falarem sobre eles, eles nunca falam.
O crack, é uma droga-lixo, excrescência derivada de anos de proibicionismo. Lixos-
sociais, monstros urbanos, seres malévolos que amedrontam o imaginário
contemporâneo, consomem uma droga-lixo, lado negro do brilho cocaínico, e de tal
união não poderia surgir outra coisa, senão violência, desespero e morte.

Nos contextos de extrema miséria, alguns tipos de uso de drogas estão
conectados ao genocídio em andamento contra a juventude pobre de nosso país. É que
os recrutas do negócio varejista da venda de drogas são jovens que usam drogas, e que
muitas vezes as vendem justamente para sustentar o vício.
208
Desse modo, os jovens,
usuários de drogas e microtraficantes, são àqueles assassinados pela polícia na “guerra
contra às drogas”, bem como constituem a massa daquelas pessoas que são presas
acusadas por tráfico.
209
Em tais territórios, o consumo de um cigarro de maconha ou de
uma carreira de cocaína pode custar muito mais caro do que a mesma conduta praticada
no contexto das camadas médias: seletividade, como sabemos. Nesses casos, o lúdico
será desastrosamente obscurecido pela realidade áspera, seja da guerra, seja do cárcere.












208
É claro que não é apenas esse o motivo que seduz o jovem das periferias a se tornar vendedor de
drogas, o que já foi explicado no capítulo I, no tópico sobre “A criminologia sociológica e antropológica
das drogas”.
209
Para conferir dados sobre o afirmado, conferir: BOITEAUX et. al. Relatório final do projeto de
pesquisa da Série Pensando o Direito. Tráfico de Drogas e Constituição.
Página 132 / 477
92
CAPÍTULO 3 – O USO E O CONTROLE PENAL DAS DROGAS NA CIDADE
DE PORTO ALEGRE

3.1. EXPOSIÇÃO DA PESQUISA

Portanto, não basta confiar no cinto de utilidades do pesquisador, aquele presente
que ele ganha dos avós na formatura escolar. A bússola enlouquece pouco depois
que o neófito deixa o perímetro da universidade. Face ao turbilhão e à angustia
em que mergulha o pesquisador, a tendência predominante é defensiva: por
exemplo, adotar o tom blasé de que falava Simmel, e agarrar-se ao repertório da
província intelectual em que iniciou sua jornada. O profissional recua e repete o
que aprendeu, refazendo o percurso dos mestres, salpicando aqui e ali algum
ingrediente original. A tendência é a estagnação. E o culto ao passado. A
reverencia ao instituído. A negligencia ao desvio – independentemente de sua
qualidade. A cobrança escolástica pelo pensamento domesticado, inseparável da
forma domesticada. Itinerário profissional como neurose de repetição: todo poder
ao establishment para conjurar a insegurança e a incerteza.
210


A idéia de realizar uma pesquisa de campo sobre o tratamento penal do porte
de drogas ilícitas surgiu da constatação que a crítica teórica ao controle penal das drogas
já estava feita, e que era importante reaproximar a criminologia das análises empíricas.
Tomei a tarefa como um desafio, pois, no primeiro momento, me sentia inapto. Minha
formação é jurídica, e as pesquisas jurídicas não possuem nenhuma tradição empírica.
Na faculdade, sequer ouvi falar das inúmeras discussões metodológicas a respeito do
trabalho de campo. No entanto, as leituras do curso de Mestrado, sobretudo da obra de
HOWARD BECKER, aliadas à proposta de anarquismo metodológico de
FEYARABEND, proporcionaram-me certo grau de segurança, sobretudo a partir da
crítica que ambos fazem ao rigorismo do metodólogos, ao mesmo tempo em que
elogiam a criatividade do pesquisador. De modo que, desde o início da pesquisa,
procurei não amarrá-la ao método, e apostar na improvisação, na combinação de
métodos, na utilização de métodos ad hoc, que em verdade são soluções improvisadas
para as dificuldades que o pesquisador encontra ao iniciar o trabalho. Vejamos o que diz
BECKER:

Posso ser antiquado, mas prefiro um modelo artesanal de ciência, no qual cada
trabalhador produz as teorias e os métodos necessários para o trabalho que está
sendo feito. Esta maneira de trabalhar sacrifica, é claro, as supostas vantagens da
especialização. Mas tem suas próprias vantagens alternativas. Em vez de tentar
colocar suas observações sobre o mundo numa camisa-de-força de idéias
desenvolvidas em outro lugar, há muitos anos atrás, para explicar fenômenos
peculiares a este tempo e a este lugar, os sociólogos podem desenvolver as idéias
mais relevantes para os fenômenos que eles próprios revelaram.
211



210
SOARES, Luis Eduardo. In: Prefácio de SILVA, Hélio. Travestis, p. 16.
211
BECKER. Métodos de pesquisa em ciências sociais, p. 12.
Página 133 / 477
93
Inicialmente, pretendia centrar a pesquisa apenas na análise de casos penais
relativos à posse para consumo de drogas, a partir de pesquisa documental nos
processos que derivam dos termos circunstanciados firmados quando ocorrem os
flagrantes, e de pesquisa etnográfica nos rituais judiciais – audiências. Almejava realizar
uma análise do discurso dos envolvidos no caso penal (autor do fato, policiais,
promotores de justiça, advogados, juízes, peritos). A hipótese é que o discurso seria
fundamentalmente moral, ancorado em perspectiva moralizadora e normalizadora,
alicerce do proibicionismo. Contudo, ao levar a cabo o piloto da pesquisa, nos Juizados
Especiais Criminais do Foro Central de Porto Alegre, deparei-me com uma enorme
pobreza de dados. Ao procurar a fala dos atores do processo, encontrei o silêncio:
processos penais incrivelmente mecânicos. Na observação das audiências foi possível
encontrar certo tipo de discurso. Entretanto, eram sempre resumidos, e após observar
algumas audiências, notei que as falas eram sempre as mesmas, tal qual um sermão
milenar, que nunca consideravam as especificidades do caso. No piloto, também
descobri que a resposta principal adotada era o oferecimento de transação penal
consistente em medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.
Na prática, significava que o autor do fato deveria comparecer a algumas sessões de
grupos de Narcóticos Anônimos, e comprovar a presença. Desta forma, ante a pobreza
dos dados, pareceu uma saída para ampliar a pesquisa, que não se sustentaria com os
parcos dados processuais, observar reuniões de Narcóticos Anônimos, de maneira a
analisar a dinâmica, sobretudo a inserção daquelas pessoas que foram obrigadas a
comparecer nas reuniões em virtude de transação penal. Não obstante, após inúmeras
discussões sobre a ética na pesquisa, sobre as implicações de observar tal grupo de
pessoas, de alguma maneira vulneráveis, também abandonei tal idéia. Não pelas
implicações éticas, creio que isso seria superado pela correta condução da observação e
do processo de análise, mas porque, ao iniciar a pesquisa nos demais Juizados da cidade
de Porto Alegre, descobri que o comparecimento aos Narcóticos Anônimos era apenas
uma das respostas adotadas, e que havia diversas outras. Desta forma, não havia motivo
para centrar a pesquisa na observação dos Narcóticos Anônimos.

Além disso, ao freqüentar como aluno-ouvinte a disciplina ministrada por Salo
de Carvalho no Doutorado em Ciências Criminais da PUCRS, fui apresentado a textos
da “Criminologia Cultural”, que foram abordados no primeiro capítulo. Tais textos,
apenas reforçaram a iniqüidade de se pensar o tema deste trabalho apenas a partir dos
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94
dados estatais, já processados pela reação formal. A Criminologia Cultural forneceu
espécie de álibi teórico para que desvio e uso de drogas fossem abordados de maneira
frontal, no contexto cultural onde podem ser descritos, levando em consideração tudo o
que se diz, conjectura e fantasia a propósito da droga. A partir daí, não restou alternativa
senão ampliar o universo da pesquisa, o que por certo aumentou os riscos. Assumo-os.

Deste modo, mediante a combinação de métodos – análise documental,
etnografia (observação participante e não-participante) e análise de discursos – procurei
traçar um panorama das relações entre uso de drogas, desvio e reação social formal e
informal. BECKER refere que “pesquisas qualitativas são de natureza tal que têm
menos probabilidade do que suas colegas quantitativas de serem explícitas sobre seus
métodos.” De qualquer forma, tentarei explicitá-los. Além disso, admito expressamente
que tenho muitas biases a respeito do assunto: assim como FOOTE WHITE, devo
confessar que “por razões nada científicas, sempre achei que política, organizações
mafiosas e gangues são temas muito mais interessantes que a unidade básica da
sociedade humana”.
212
Não busco o (impossível) distanciamento, a falaciosa
neutralidade: “ao invés de insistir em procedimentos mecânicos que minimizam o
julgamento humano, podemos tentar tornar as bases tão explícitas quanto possível, de
modo que outros possam chegar a suas próprias conclusões.”
213
No mesmo sentido,
FOOTE WHITE:

Refletindo sobre a etnologia pós-fundacional, acabei chegando a conclusão de que
a distinção objetivo-subjetivo não é tão clara como havia imaginado. Considere-se
por exemplo meu estudo sobre a estrutura social das gangues de esquina. Ele foi
baseado principalmente em observação direta, mas os pesquisadores não podem
observar tudo; se tentássemos, terminaríamos com uma miscelânea de dados que
não nos conduziriam a qualquer padrão inteligível. Buscamos observar
comportamentos que sejam significativos para os propósitos da nossa pesquisa. A
seleção, portanto, depende de alguma teoria explícita ou implícita – um processo
que, em grande medida, é subjetivo. Mas a escolha não é aleatória: se
especificamos nossas premissas teóricas e os nossos métodos de pesquisa que
usamos, outros podem utilizar as mesmas premissas e o mesmo método para
verificar ou questionar nossas conclusões.
214


Realizei sete entrevistas com pessoas selecionadas pelo sistema penal em
razão de posse de drogas. Das sete, quatro haviam aceitado a proposta de transação

212
FOOTE WHITE, William. Sociedade de esquina. Tradução de Maria Lucia Oliveira. RJ: Jorge Zahar,
2005, p. 321.
213
BECKER. Métodos de pesquisa em ciências sociais, p. 20.
214
FOOTE WHITE. Sociedade de esquina, p. 357.
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95
penal consistente em medida educativa, na prática, comparecimento a reuniões de
Narcóticos Anônimos. Todos cumpriram a transação penal e tiveram a punibilidade
extinta. Dos outros três, uma menina sequer sabia direito o que acontecera com seu
caso, disse que o advogado pediu adiamento da audiência, pois não poderia comparecer
no dia previamente agendado, e que depois nunca mais foi intimada. Um garoto sofreu
advertência sobre os efeitos da droga, em audiência, e o outro garoto pagou multa, como
transação penal, no projeto de justiça instantânea que funciona nos estádios de futebol.
Também realizei entrevistas com pessoas que usam drogas e que nunca foram
selecionadas pelo sistema penal. Nesses casos, a etnografia teve lugar em minha própria
rotina, não raro colhi dados interessantes em ocasiões de lazer. Também por conta da
minha atuação profissional, pude conversar com um sujeito que esteve por mais de um
ano no Presídio Central, usuário de drogas, que forneceu interessantes dados sobre a
questão do uso de drogas no cárcere, especificamente no Presídio Central. Ao analisar
as entrevistas, usarei nomes fictícios, como forma de preservar o anonimato. Todas as
entrevistas foram consentidas, por meio de assinatura em termo de consentimento
informado.

A pesquisa etnográfica foi realizada mediante observação atenta de situações
vividas por mim, ou relatadas por informantes, a respeito do tema do trabalho. Alguns
relatos foram enviados por escrito, outros surgiram de conversas. Algumas entrevistas
foram estruturadas, outras semi-estruturadas, mas a maioria sequer precisariam ser
chamadas de entrevistas, pois foram apenas diálogos. Além disso, durante todo o
período da pesquisa, estive atento ao material midiático produzido sobre o assunto.
Penso que nos discursos sobre o tema, encontramos as visões, as práticas, as teorias e os
preconceitos que diuturnamente duelam entre si, e, nessa complexidade está aquilo que
de algum modo deve ser compreendido.

Propus-me a observar o familiar, ou seja, o “campo” é o cotidiano da cidade
onde vivo há mais de 15 anos, desde os 10 de idade. Isto certamente traz dificuldades,
principalmente no que toca ao necessário estranhamento com relação ao objeto. Tentei
superar tais dificuldades a partir do constante exercício relativizador, de transformar o
exótico em particular, e o particular em exótico. Também li inúmeras etnografias, e
percebi que este é um problema de qualquer pesquisa urbana, e que isso não pode
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96
paralisar toda e qualquer tentativa de análise sobre a vida na cidade, cuja tradição
acadêmica já está bastante sedimentada. Cito MACHADO E VELHO:

Estudar o familiar é sabidamente difícil. A antropologia tem perfeito conhecimento
deste fato. A produção deste estranhamento, essa capacidade de afastamento para
aguçar o olhar e enxergar o véu da opacidade, da rotina e do aparentemente
transparente é um exercício que de algum modo lembra o filósofo a perguntar
cartesianamente: “Mesa, você existe?”.
215


Foi importante e crucial o movimento de estranhar o familiar – tarefa nada trivial e,
com certeza, nem sempre bem sucedida. Felizmente, creio que nunca idéias
onipotentes e equivocadas de estudar amigos e conhecidos como se fossem
formigas. Havia uma consciência da dificuldade de desnaturalizar noções,
impressões, categorias, classificações que constituíam minha visão de mundo.
216


Ao longo do trabalho, cotidianamente, passeei pela cidade, como um flaneur,
“o passante que espia as vitrinas, os outros homens, as práticas, os carros e, a um só
tempo, mantém-se afastado, surpreso e apaixonado”.
217
Estabeleci, sobretudo, uma
nova relação com espaço urbano, tomando-o como o palco no qual a vida na cidade
acontece, no qual o cotidiano e as vivências repetidas tomam certa forma, de algum
modo analisável por quem a observa com atenção.

Vale salientar que a pesquisa etnográfica certamente deve apresentar defeitos,
e tais decorrem, além da minha inabilidade, da escassez de tempo, conseqüência do
modelo quantitativo de avaliação ao qual se submetem os cursos de pós-graduação, que
precisam formar seus mestres em apenas dois anos, o que é grande entrave para
pesquisas de campo. Nesse sentido, CHRISTIE refere:

¡Nos brinda muy poco espacio para derrumbar lo que construimos! Buena parte de
la relación con el campo de la investigación se desarrolla en etapas. Existe una luna
de miel en la cual los investigadores frecuentemente se hacen nativos, existe una
etapa más crítica y con suerte, existe una etapa madura en la cual el entusiasmo y la
crítica se funden. Los antiguos antropólogos sociales regresaban a casa en lentos
vapores con tiempo para reflexionar, tiempo para pensar todo una vez más antes de
presentarlo a la comunidad académica.
218



215
MACHADO, As misérias do cotidiano, p. 39.
216
VELHO. Pesquisas Urbanas. Desafios do trabalho antropológico, p. 15.
217
MACHADO. A miséria do cotidiano, p. 39.
218
CHRISTIE. Cuatro Obstáculos contra la intuición, p. 347.
Nos brindam muito pouco espaço para derrubar o que construímos. Boa parte da relação com o campo de
investigação de desenvolve em etapas. Existe uma lua de mel na qual os investigadores frequentemente se
fazem nativos, existe uma etapa mais crítica e com sorte, existe uma etapa madura na qual o entusiasmo e
a crítica se fundem. Os antigos antropólogos sociais regressavam para casa em lentos vapores com tempo
para refletir, tempo para pensar todo mais uma vez antes de apresentar o trabalho à comunidade
acadêmica (tradução livre).

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97
Por certo que a pesquisa apresenta problemas no que tange à amostragem, pois
a amostra não é obtida de maneira aleatória. Contudo, tais problemas são irredutíveis
nesse tipo de estudo, porquanto o universo do qual a amostra deveria ser extraída é
desconhecido. É BECKER quem justifica:

Não existe nenhuma lista completa deste tipo que enumere participantes de
qualquer ato desviante. Suponho que, de certa forma, não poderia existir nenhuma,
uma vez que estes atos não têm chancela oficial. Assim, o pesquisador tem que
extrair sua amostra de um universo cujos limites, unidades e locais são
fragmentariamente conhecidos por ele.
219


O acesso aos sujeitos com que dialoguei sobre o assunto foi obtido por
diferentes formas. A primeira decorreu do fato de que em minha vida privada tenho
acesso aos círculos nos quais a atividade ocorre. Os entrevistados foram surgindo
aleatoriamente, eram amigos, amigos de amigos, conhecidos, conhecidos de
conhecidos... É claro que daí decorre certa homogeneidade nas visões de mundo dos
entrevistados, pois todos pertencem à mesma camada social, fazem parte da rede de
relações que um sujeito de classe média geralmente mantém, em uma sociedade
estratificada como a nossa, e aí está uma limitação da pesquisa. Também obtive acesso a
outros entrevistados em razão da minha profissão. Dois deles foram meus clientes, um
na própria audiência no Juizado Especial Criminal em razão de flagrante de posse de
drogas para consumo, e outro para quem advoguei voluntariamente, um daqueles
clientes preferenciais do sistema penal.

Como já foi dito, também realizei pesquisa documental em processos relativos
à posse de drogas para consumo que tramitam nos Juizados Especiais Criminais da
cidade de Porto Alegre. Iniciei a pesquisa a partir de um piloto, que serviu para a
elaboração do instrumento de análise e para a verificação das dificuldades logísticas e
burocráticas. O instrumento de análise foi elaborado após leitura dos processos, quando
pude perceber quais os dados que deles poderia extrair, ou seja, o método foi sendo
desenvolvido ao longo da pesquisa de campo. Não houve regra a respeito da concessão
do acesso aos processos pelos cartórios judiciais. Eu portava um ofício da direção do
Mestrado, com a informação sobre a pesquisa e, ao chegar ao balcão, explicava o que
queria. Em alguns cartórios, os funcionários não faziam maiores questionamentos, e
logo me entregavam os autos. Em outros, houve maiores complicações. Tive que

219
BECKER. Métodos de pesquisa em ciências sociais, p. 154.
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98
conversar com escrivãos, com secretários dos juízes, com juízes... Tive ainda, em certos
Juizados, que peticionar e aguardar uma decisão sobre a permissão para a pesquisa.
Apesar das dificuldades, consegui analisar processos de todos os Juizados da capital. O
fato de ser advogado certamente foi um facilitador da pesquisa. Em vários momentos,
consegui acesso aos processos mediante simples apresentação de minha carteira da
OAB. Além das dificuldades de acesso, encontrei, frequentemente, dificuldades
operacionais. Em certos Juizados, não contei com nenhuma cooperação dos
funcionários públicos, que não me forneciam tomada para o notebook e nem lugar para
sentar. Nesses casos, tive que superar as dificuldades, suportando calmamente a
hostilidade, e levando a cabo a análise documental de maneira manual. Mas, para não
ser injusto, saliento que na maioria dos cartórios fui tratado com respeito e compreensão
pelos serventuários.

Quando já havia analisado os processos dos três Juizados do Foro Central de
Porto Alegre, descobri, em reunião de orientação, que nas fichas de análise deveria
constar o número do processo pesquisado, como forma de validar o documento. Como
não tinha feito isso, foi necessário reiniciar a pesquisa. Decidi, então, que seria mais
adequado analisar menos processos por Juizado, e, em contrapartida, analisar processos
em todos os Juizados da capital. É que daí seria possível verificar as especificidades da
resposta penal ao uso de drogas em cada região da cidade, que apresentam inúmeras
diferenças entre si, sobretudo sociais e econômicas. Pesquisei, então, 15 processos por
Juizado. Porto Alegre conta com nove Juizados Especiais Criminais:

a) 1º Juizado Especial Criminal do Foro Central de Porto Alegre;
b) 2º Juizado Especial Criminal do Foro Central de Porto Alegre;
c) 3º Juizado Especial Criminal do Foro Central de Porto Alegre;
d) Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Partenon;
e) Juizado Especial Criminal do Foro Regional da Restinga;
f) Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Alto Petrópolis;
g) Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Sarandi;
h) Juizado Especial Criminal do Foro Regional do 4º Distrito;
i) Juizado Especial Criminal do Foro Regional da Tristeza.
220


Não foi possível descobrir o universo total de processos de cada Juizado, dado
a partir do qual seria possível montar a amostra proporcionalmente. Tais dados não

220
Conferir a delimitação territorial dos Foros Regionais de Porto Alegre em
http://www.tjrs.jus.br/institu/comarcas/foros_regionais.php, acesso em 10 de novembro de 2009, às 2h53.
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99
existem, os cartórios não fazem tal controle, não sabem quantos processos por posse de
drogas julgam num certo período. Também tentei obter tais dados na Corregedoria-
Geral de Justiça. Entretanto, as tentativas restaram infrutíferas, tampouco na
Corregedoria obtive os dados. Por este motivo, como forma de conferir mínima
proporcionalidade, trabalhei apenas com um dos Juizados do Foro Central, o primeiro,
excluindo o segundo e o terceiro, de modo que, ao menos, a zona central da cidade não
ficasse super-representada. Deste modo, foram analisados 15 processos em sete
Juizados, totalizando 105 processos, distribuídos da seguinte forma:

a) 1º Juizado Especial Criminal do Foro Central de Porto Alegre – casos 1 a 15;
b) Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Partenon – casos 16 a 30;
c) Juizado Especial Criminal do Foro Regional da Tristeza – casos 31 a 45;
d) Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Sarandi – casos 46 a 60;
e) Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Alto Petrópolis – casos 61 a 75;
f) Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Quarto Distrito – casos 76 a 90;
g) Juizado Especial Criminal do Foro Regional da Restinga – casos 91 a 105.

Creio que o número de casos analisados é relativamente significativo,
sobretudo considerando que, em regra, cada Juizado possui uma resposta penal padrão,
que abarca qualquer tipo de caso, de maneira que os processos são incrivelmente
semelhantes.

Ao chegar aos Juizados, pedia os processos que recém haviam sido
finalizados, que ainda estavam no cartório, apenas aguardando para serem remetidos ao
arquivo judicial. Deste modo, não foi feito um recorte temporal, a análise era feita nos
processos finalizados no mês anterior à minha ida ao Juizado. Como a pesquisa foi feita
entre os meses de fevereiro a setembro de 2009, foram pesquisados processos
finalizados de janeiro a agosto de 2009.

A partir dos dados coletados, realizei análise quantitativa e qualitativa. Na
quantitativa verifiquei alguns padrões no que tange aos selecionados, tal qual o sexo, a
idade e os registros policiais. Não foi possível coletar dados mais elucidativos sobre as
condições sócio-econômicas dos flagrados, bem como suas características pessoais, que
pudessem evidenciar a seletividade, pois da análise do processo não é possível extraí-
los. Contudo, tanto pela observação das audiências, quanto pelos demais dados – tal
qual a quase nula presença de advogado privado acompanhando os selecionados - fica
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100
bem claro que os criminalizados por posse de drogas possuem as mesmas etiquetas
negativas daqueles que estão a povoar os cárceres. Com relação aos flagrantes, pude
perceber os territórios onde ocorreram e qual medida adotada pela polícia – termo
circunstanciado no local, termo circunstanciado nos postos da Brigada Militar ou nas
Delegacias de Polícia Civil, ou prisão em flagrante. No que tange à droga, foi possível
notar qual a substância que apareceu com mais freqüência, bem como a quantidade
geralmente apreendida. Ainda, pude saber que tipo de resposta penal vem sendo adotada
e que tipo de conduta o autor do fato vem tomando (aceita ou não a transação, cumpre
ou não a transação, etc). Na qualitativa penetrei nos flagrantes policiais e nas respostas
penais de cada um dos Juizados da Capital, verificando detalhadamente as sutilezas de
cada caso penal analisado.

A observação das audiências foi feita apenas nos Juizados do Foro Central da
capital. Durante os meses de abril e maio observei algumas audiências. Não usei
gravador, tendo apenas elaborado diário de campo após cada ato que assistia. Nas
primeiras, me identifiquei como pesquisador, ao solicitar autorização para o magistrado
para assistir à audiência. Depois que me tornei conhecido do juiz, deixei de me
identificar, e não notei qualquer diferença na dinâmica do ato. Não utilizarei nomes,
nem dos funcionários públicos (juiz e serventuários), nem dos clientes do sistema penal,
que estavam a participar da audiência.

As cifras ocultas do crime de posse de drogas para consumo são enormes.
Aqueles casos que chegam ao sistema penal são os que ZAFFARONI chama de “obras
toscas”, praticadas por sujeitos que se acham em “certo estado de vulnerabilidade em
relação ao poder punitivo, que depende de sua correspondência com um estereótipo
criminal”, e que só são criminalizados porque se colocam “em posição concreta de
risco criminalizante”, ou seja, “em situação de vulnerabilidade.”
221
Deste modo, os
dados processuais coletados não são indicadores do delito, mas apenas indicadores do
funcionamento do sistema. São dados processados pela reação formal, que já são
tratados a partir das categorias estatais e que, portanto, já estão recortados da
temporalidade e congelados no tempo do processo. Assim como as estatísticas policiais
nos dizem mais sobre a polícia do que sobre as condutas delituosas, a análise processual

221
ZAFFARONI; BATISTA; ALAGIA; SLOKAR. Direito Penal Brasileiro. RJ: Revan, 2003, p. 49.
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101
nos esclarece sobre mais sobre a reação formal ao delito do que sobre o delito em si.
Além disso, ressalto que são apenas indicadores, e nada mais que indicadores, sobre o
funcionamento do sistema, e não tenho nenhuma pretensão que sejam mais do que isso.

3.2. AS DROGAS E OS TERRITÓRIOS DE CONSUMO – A REPRESSÃO
SELETIVA

O primeiro dado significativo, que parece ser um forte indicador a respeito das
características da repressão ao uso de drogas na cidade de Porto Alegre, diz respeito à
marcada seletividade. Não apenas a conhecida seletividade pela vulnerabilidade do
agente, mas, principalmente, a seletividade em razão da droga que está a ser consumida.
De plano, é possível dizer que a repressão policial ao uso de drogas em Porto Alegre é a
repressão ao uso da maconha, do crack e da cocaína. Tais foram as únicas drogas que
apareceram nos processos pesquisados.

A ausência completa de flagrantes por posse de LSD e Ecstasy pode ser
explicada pelos mesmos motivos que explicam o fato de que a maconha é, longe das
outras, a droga mais reprimida de todas. É que, tanto LSD quanto Ecstasy, são
substâncias consumidas em rituais próprios, em momentos especialmente dedicados à
tal prática, e em locais afastados da cidade, tais quais festas Rave, em clubs de música
eletrônica ou mesmo encontro de amigos em sítios ou no litoral.
222
Além disso, são
substâncias que não possuem odor e que podem ser facilmente acondicionadas, o que
facilita o manejo seguro, no intuito de manter a clandestinidade da prática tóxica.
Contribui também para a inexistência de flagrantes em razão de tais drogas o fato de
que os consumidores fazem parte das camadas médias da sociedade, e são pouco
vulneráveis à ação do poder punitivo. Inclusive a aquisição de tais substâncias ocorre
entre iguais, o vendedor geralmente é um amigo, o que evita a necessidade de se
deslocar até os pontos conhecidos de venda das demais drogas, nas vilas da cidade,
locais nos quais, por vezes, a repressão policial atua. A circulação dessas drogas
obedece à outra lógica, que não a mesma da maconha, da cocaína e seus derivados. São
trazidas geralmente da Europa, por pessoas das camadas médias, que geralmente

222
Sobre o uso de drogas na “cena eletrônica” de Porto Alegre, conferir: FONTANARI, Ivan Paolo de
Paris. Rave à margem do Guaíba: música e identidade jovem na cena eletrônica de Porto Alegre.
Dissertação de Mestrado defendida junto ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da
UFRGS. 2003.
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102
também são consumidores. Aliás, nas periferias sequer há um saber ou uma tradição no
que tange a tais substâncias, ou seja, não raro os usuários de crack, por exemplo, nunca
ouviram falar de LSD e Ecstasy. Tais drogas são, de fato, drogas da elite. É claro que a
proibição também atua sobre essas substâncias, sobretudo diminuindo sua qualidade,
ou, até mesmo, gerando a completa incerteza sobre sua verdadeira composição química.
Em verdade, as cartelas de LSD e os comprimidos de Ecstasy consumidos atualmente
são uma completa incógnita aos usuários, o que certamente aumenta os riscos do
consumo. Não por outro motivo, grandes festivais de música eletrônica disponibilizam o
chamado “ez test”
223
, a partir do qual é possível verificar se há, nos Ecstasys
comercializados, o princípio ativo da droga (MDMA).
224


Dos processos pesquisados, 74% derivaram de flagrantes por posse de
maconha, 15% por posse de crack e 10% por posse de cocaína. O caso no qual nenhuma
droga foi encontrada refere-se à termo circunstanciado lavrado a partir da apreensão de
um instrumento de consumo de droga, qual seja um cachimbo para uso de crack. Eis o
gráfico:


É claro que, talvez, a maconha seja a droga mais consumida entre as ilícitas, o
que poderia explicar tal número. Contudo, são as condições em que ocorre o uso que

223
www.eztest.com, acesso em 28 de setembro de 2009, 3h21min.
224
DUPLAT; ANDRADE; MACRAE, MALHEIRO, VARGENS. Aspectos clínicos de cuidado e
acompanhamento terapêutico (AT) de urgência em ações de Redução de Danos (RD) em festas e festivais
de música eletrônica. Disponível em http://abordabrasil.org .
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103
elucidam o expressivo número de flagrantes por posse de maconha. É que, apesar de
tratar-se de uma planta, que pode ser cultivada em casa, poucos usuários cultivam-na,
seja em razão dos riscos da prática ilegal, da ausência de possibilidade (usuários
secretos, que escondem o uso dos pais, por exemplo) ou da própria dificuldade no
cultivo, pois se trata de planta que exige condições bastante específicas para
desenvolver-se. Deste modo, os riscos ao usuário já começam no momento da
aquisição, pois devem deslocar-se aos pontos de venda. Como se sabe, caso pretenda
comprar quantidade que dure algum tempo, e evite que ele tenha que voltar brevemente
ao ponto de venda, terá dificuldade em escondê-la da forma adequada, pois estará
carregando um “tijolo”. É claro que nem todos os usuários compram a droga nos pontos
de venda, o que geraria um movimento ainda maior em tais lugares. É mais que comum
que, entre amigos, um seja designado para efetuar a compra. Tal sujeito geralmente
cobrará apenas o que gastou, e, não raro, já terá levado o dinheiro que recolheu
previamente. A atividade, ao passo que lhe gerará algum tipo de reconhecimento entre o
grupo de amigos, ou até mesmo adrenalina no momento da compra, poderá lhe gerar
incríveis riscos, inclusive o de uma prisão em flagrante e uma imputação por tráfico,
diante da teratológica lei de drogas brasileira. Maiores riscos correrá, ainda, o
“maconheiro” que reside nas periferias onde ocorre o varejo da venda de drogas, pois
poderá ser, facilmente, preso em flagrante por tráfico de drogas, já que o fato de estar
em um conhecido local de tráfico constantemente implica na presunção judicial de que
o contexto em que ocorreu o flagrante caracteriza a mercancia.

Os riscos continuam no momento do consumo, pois a maconha é substância
que é consumida, na grande maioria das vezes, na forma de cigarros (“baseados”), e
exala um cheiro bastante peculiar – marofa. Além disso, no imaginário sobre o consumo
de maconha, há uma forte ligação com a natureza, do que acaba decorrendo consumos
ao ar livre. Um maconheiro nos explica:

Um dia, me disseram: pára de fumar. Eu disse: porra, se parar, que graça vai ter ficar
sentado vendo o pôr do sol? Me responderam: ver pôr do sol é coisa de maconheiro,
tu não vais sentir falta. Respondi: Isso é vantagem? Prefiro não fazer parte. (AG, em
entrevista).

No espaço urbano, os consumos ocorrem, sobretudo, em parques, em
momentos de lazer, o que também ficou bastante claro na pesquisa, pois 21,79% dos
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104
flagrantes por posse de maconha aconteceram nos diversos parques e praças da capital,
como mostra o gráfico:

O portoalegrense, para seu desgosto, não possui praias em sua cidade. Na urbe
há apenas um rio, talvez seja um lago, mas que, sendo rio ou lago, é poluído, impróprio
para banho. Apesar disso, muitas das opções de lazer do morador de Porto Alegre são
vinculadas ao lago Guaíba, sobretudo a contemplação daquele que o portoalegrense
imagina ser o “pôr-do-sol mais bonito do mundo”. Outros parques e praças também
servem de “praias artificiais”, e constituem-se em espaços de convivência, onde o
gaúcho pratica esportes, conversa com os amigos, paquera, toma chimarrão e fuma
maconha. Seria impossível falar sobre todos os parques da capital, motivo pelo qual
centro a análise nos dois maiores, o Parque Farroupilha, também conhecido como
Redenção, e o Parque Marinha do Brasil.

A Redenção fica no coração do Bairro Bom Fim, um dos bairros mais
conhecidos da cidade, por seu caráter cosmopolita e por sua boêmia contracultural.
Trata-se de um parque extenso e arborizado, que ocupa uma imensa área entre as
Avenidas João Pessoa e Osvaldo Aranha. Sempre foi território democrático, por onde
transitam as mais diversas tribos. Frank Jorge, poeta, rockeiro e professor universitário,
imortalizou o parque, naquela que talvez seja a canção mais importante do rock gaúcho:
“amigo punk, escute este meu desabafo, que esta altura da manhã já não importa o
nosso bafo. Pega a chinoca, monta no cavalo e desbrava esta coxilha, atravessa a
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105
Osvaldo Aranha, entra no Parque Farroupilha...” A Redenção é, sobretudo, um
território plural, no qual as diferenças são diariamente homenageadas, ao conviverem
pacificamente.
225


O chamado “brique da redenção” é considerado um patrimônio da cidade,
reverenciado por canções que embalam o sonho de uma Porto Alegre nórdica, suíça -
inexistente. A “primeira dama” Isabela Fogaça, canta, com voz estridente, a música que
é vendida pelas mensagens publicitárias como ilustração da qualidade de vida do povo
gaúcho: “Porto Alegre, é que tem, um jeito legal, é lá que as gurias, etc. e tal, nas
manhã de domingo, esperando o grenal, passear pelo brique, num alto astral...”
Juremir Machado nos dá uma visão menos idealizada:

O Brique é o contraponto da vida noturna no Bom Fim. Reúne diversos públicos.
Boa parte dos boêmios aparece para o chimarrão, a cerveja de domingo, os passeios
ao sol. O colorido é intenso. As famílias trazem filhos com bicicletas, cachorros e
velhas senhoras enrugadas. Os políticos fazem discursos, cabos-eleitorais
distribuem panfletos, artistas alternativos exibem-se gratuitamente. Comprar não é
o fator principal. Há quem nem veja os objetos expostos. O encontro é a razão
fundamental. Namora-se, negócios são combinados, sobram abraços para velhos
amigos. Elegantes casais das camadas dominantes de Porto Alegre mostram roupas
impecáveis, casacos vistosos, carros caros que se enfileiram nas proximidades. O
Brique tornou-se patrimônio. Notívagos de olhos inchados escondem-se atrás dos
óculos escuros, mas poucos querem perder a festa dominical.
226


Perto do Brique, e não apenas aos domingos, é comum observar grupos de
amigos consumindo maconha na Redenção, com relativa tranqüilidade. São pessoas de
todos os tipos, jovens e senhores, estudantes universitários e seus professores, casais de
namorados... Em verdade, é impossível realizar qualquer tipo de classificação, pois
neotribalismo contemporâneo é caracterizado pela leveza das identidades, pela fluidez,
pelas reuniões pontuais e pela dispersão.
227
Sentam-se no chão, e na roda circulam o
chimarrão e o baseado. Não há qualquer tipo de estranhamento por parte dos demais
freqüentadores que não são consumidores, o uso da maconha já se tornou banal no
parque. Na antítese da canção de Isabela Fogaça, o cantor Elojac compôs o “Reggae do
Bonfa”, com uma letra um tanto nonsense, que mistura trechos em inglês e português,
mas que fala, também, sobre o consumo de maconha na Redenção: “get a Baura with a

225
Ver ROCHA, Ana Luiza Carvalho; ROSA, Elenir Sandra Tartas. Da várzea ao parque: estudo
antropológico das diferentes formas de sociabilidade no espaço do parque da redenção. Revista
Iluminuras, volume 5, n.º 10, 2004.
226
MACHADO. A miséria do cotidiano, p. 41/42.
227
MAFESSOLI, Michel. O tempo das tribos. O declínio do individualismo nas sociedades de massa.
Tradução de Maria de Lourdes Menezes. RJ: Forense Universitária, 1998.
Página 146 / 477
106
guy and goes to Redenção”... “and crazy guys on the right, Police on the left...”
228

Baura, é uma gíria gaucha que significa maconha, e a música narra um trecho do
cotidiano no Bom Fim. A polícia militar, que se contrapõe aos “crazy guys”, possui um
posto no pé do parque e, por vezes, efetua alguns flagrantes nos maconheiros. Juninho,
18 anos, saíra da Faculdade de Arquitetura do campus universitário que fica ao lado da
Redenção, com um amigo, e resolveu passar no parque para fumar um baseado antes de
ir para a casa. Acabou flagrado pela polícia. Ele nos conta:

Tava eu e um parceiro sentados num banco, os policiais chegaram numa viatura
por trás silenciosamente e ficaram observando, dai eu percebi eles e joguei o
baseado no chão. Nisso eles se aproximaram (eram 3) desceram da viatura,
pegaram o baseado colocaram num saquinho, e revistaram nossas mochilas e
nossas roupas, só esqueceram da minha cueca que tinha mais uns 5 gramas. Me
colocaram na viatura, no banco de trás, ficaram tirando com a minha cara e me
levaram pro postinho na esquina da oswaldo com a rua do brick da redenção.
Fiquei sentado numa cadeira, eles fizeram o boletim de ocorrência, eu assinei e me
liberaram.

Temos aí um típico exemplo de repressão à prática tóxica recreativa, um
exemplo de repressão ao lazer. Juninho voltava a pé para casa, num dia bonito, e
resolveu fumar um baseado com um amigo, aproveitando os bons ares do Parque da
Redenção. Acabou sofrendo a violência de um flagrante policial. Viveu momentos de
terror, andou no banco de trás de uma viatura policial, foi ridicularizado por homens de
farda. Trata-se de caso significativo, pois nele está contida a irracionalidade da política
criminal de drogas. O abuso de tal política.

De fato, tanto por ocasião do piloto - quando analisei 60 processos do Foro
Central da capital, para onde vão os flagrantes feitos na região central da cidade -
quanto na análise dos processos que acabaram por constar na análise quantitativa, foi
possível perceber que ocorrem muito mais flagrantes por posse de drogas no Parque da
Redenção, do que no Parque Marinha do Brasil. Nos casos 4, 5 e 8, por exemplo, foram
realizados flagrantes por posse de maconha no Parque da Redenção. No caso 5, o autor
e a namorada foram flagrados, enquanto, provavelmente, pretendiam alterar as
consciências conjuntamente. Uma explicação para a disparidade entre flagrantes

228
Ver em http://www.youtube.com/watch?v=m1E_pKYM_Mg&feature=player_embedded#.


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107
ocorridos no Parque da Redenção e no Parque Marinha do Brasil pode ser encontrada
nas características dos parques, e dos respectivos consumos que neles ocorrem.

O Parque Marinha do Brasil localiza-se bairro Menino Deus, entre a Avenida
Borges de Medeiros e o Rio Guaíba. Em toda a sua extensão, oferece vista privilegiada
para o pôr-do-sol do Guaíba. O consumo massivo de maconha ocorre nos arredores da
pista de Skate. O local é uma espécie de “Posto 9” portoalegrense. O público é bastante
variado, mas é possível dizer que existe uma aura praiana. Meninas com um look
neohippie, garotos surfistas e skatistas, adeptos do reggae, da música eletrônica, da
cultura alternativa, sobretudo jovens pertencentes a tribos que de algum modo celebram
a luz do dia, se encontram nos finais de tarde do Marinha. Nesses momentos, as pessoas
fumam maconha com bastante tranqüilidade. Rodas de amigos compartilham o
chimarrão e o baseado, novos arranjos se formam, pessoas se conhecem. Jogos de
futebol são rapidamente organizados, artistas amadores fazem malabarismos, amigos
cantam em rodas de violão. Aplaude-se o pôr-do-sol.

Vejamos o que diz Peter, freqüentador do parque:

Como costuma acontecer nos sábados ou domingos ensolarados, saio com meu
irmão para algum parque da cidade. Mas não saímos desacompanhados de três
coisas: uma bola de futebol, os apetrechos para o chimarrão e um cigarro de
maconha. Bom, resolvemos ir no Parque da Marinha do Brasil, pois há uma vista
privilegiada para o lago Guaíba. Isso era pelas 15h, 16h da tarde. E nunca pode ser
esquecido que o Pôr-do-Sol visto ao Lago é muito bonito – o que traz mais
vantagens para quem deseja uma tarde alegre e divertida. Escolhemos um lugar
perfeito para isso. É uma parte do Parque que está entre as canchas de futebol e o
Lago, perto das famosas rampas de skate – local que é privilegiado por um
gramado extenso, por bonitas árvores e por pessoas as mais diversas. Ao
chegarmos decidimos como seria o nosso programa de tarde, isto é, o que faríamos
primeiro, pois entre chimarrão, futebol e maconha a ordem nem sempre pode ser
estabelecida com muito tempo de antecedência. Resolvemos fumar primeiro e
depois intercalar umas rodadas de mate quente e amargo com um futebolzinho.
Sentamos perto de umas árvores, onde alguns grupos de pessoas também se
espalhavam e faziam, fizeram ou iriam fazer o mesmo que nós.

A atuação da polícia para coibir o uso de maconha no parque é bastante
dificultada pelas condições geográficas. É que, no ponto em que se consome maconha,
há visão panorâmica, de modo que a aproximação de policiais é avistada de longe,
possibilitando que eventual substância ilícita que estiver sendo consumida, ou mesmo
portada, seja devidamente alocada em local que não possibilite a vinculação do sujeito
com a droga. Além disso, há solidariedade entre os freqüentadores, solidariedade
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108
canábica, pois a aproximação dos policiais é devidamente anunciada: tal qual o apito
adotado pelos freqüentadores do “Posto 9”, naquele que ficou conhecido como o “verão
do apito”, no Rio de Janeiro, também há no Parque Marinha um código para anunciar
que “sujou”: olha a chuva! Todos sabem que a materialidade é condição para o
flagrante. Leram nos livros, foram informados por amigos, ou ouviram Bezerra da
Silva: “não tem flagrante porque a fumaça já subiu pra cuca... Já era amizade, quem
apertou queimou já está feito, se não tiver a prova do flagrante, nos autos do inquérito
fica sem efeito...” Desse modo, na maior parte do tempo, há ínfima preocupação dos
fumantes no que tange à ilegalidade da prática. Arriscando um pouco, é possível afirmar
que se trata de espaço onde tacitamente o uso da maconha é permitido, inclusive pelas
autoridades policiais, não obstante ser território bastante visível, sobretudo pelos
automóveis que passam pela Avenida Beira Rio. Não por outro motivo, na análise dos
casos penais, não encontrei nenhum flagrante ocorrido no Marinha. É o freqüentador
Peter quem continua a análise:

Quase na hora de levantarmos outro vôo – aquele para casa – eu e meu irmão
percebemos dois motobrigadianos desfilando com toda sua pompa pelo meio das
pessoas no Parque. Foi algo muito engraçado, para não dizer ridículo. Antes de
tudo, eles cometiam um ato desprovido de compromisso ambiental e, por isso,
desprovido de compromisso social: andar de moto pelo Parque. A primeira
observação que fiz com meu irmão foi que eles deveriam estar ali também para
coibir o uso de drogas ou coisa do gênero. Enquanto isso a bola ia de mim para ele
e voltava dele para mim. Teve um momento que ficamos uns onze minutos sem
deixar a bola cair – o que certamente é um recorde. O cheiro perpetuava e os
policiais rodavam. Não coibiram nada, ao contrário do que eu esperava. Desfilaram
por ali algumas vezes – tipo modelos que acham que são mais bonitas do que
realmente são e a platéia fica na torcida para que caiam do palco.

Além das questões relacionadas aos territórios de consumo, o enorme número
de flagrantes de maconha também é explicado pelo fato de que se trata de prática tóxica
leve, com um baixo poderio alterador de consciência, motivo pelo qual os usos ocorrem
no dia-a-dia. Não se trata de consumo que necessite um ambiente próprio, um tempo
disponível, um álibi. Não obstante as tentativas de produção de pânico moral em torno
do consumo de maconha, o fato é que o saber profano sobre tal prática, de algum modo,
prepondera, e as visões terroríficas, sobretudo da mídia dominante e de parcela da
medicina, sobre o uso da droga, são bastante relativizadas por aqueles que possuem um
mínimo conhecimento sobre o assunto. O personagem do livro de DANIEL GALERA,
“dá uns pegas numa chaura descomunal” apenas para acompanhar o casal de amigos e
a namorada, embora a maconha só lhe gere sono:
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109

Assim que terminamos de comer, o Lárcio foi ao quarto e voltou com uma chaura
descomunal entre os dedos. Nem perguntou se a gente tava afim, se curtia um
fumo, nada disso. Sem demora, tocou fogo na ponta daquele camarão e foi
tragando como se fosse mais um de seus cigarros, enchendo o pequeno
apartamento de fumaça leitosa. A Ana e a Marcela deram seus pegas com igual
desenvoltura, e eu, não conseguindo pensar em nenhuma razão pra não imitar os
outros, fumei também, ainda que a maconha só me dê sono.
229


Trata-se de consumo que, em princípio, não impossibilita a execução de
demais tarefas, e que inclusive acaba por ser relacionado a certos tipos de rotinas
diárias. O caso 52 refere-se a um processo de um açougueiro que foi até a praça
próxima ao supermercado onde trabalha, para fumar um beck no horário de almoço, e,
no caso 39, um pedreiro resolveu fazer o mesmo: foi flagrado em frente a obra na qual
estava trabalhando. Há, no imaginário, a idéia de que o uso da maconha ajuda a
“relaxar”. No caso 50, o flagrado referiu expressamente: “estava fechando o baseado
para relaxar.”

Os demais flagrantes por posse de maconha ocorreram na rua (55,12%), em
blitzes (7,69%), em domicílios (6.41%), em pontos de venda (3,94%), nos
estabelecimentos prisionais (3,84%) e em estádios de futebol (1,28%). O expressivo
número de flagrantes ocorridos na “rua” deve ser relativizado, pois a “rua” foi a
categoria ampla na qual inseri todos os casos que, diante dos dados constantes no
processo, não foi possível perceber que tal se ajustava a alguma das demais categorias.

Os flagrantes ocorridos em blitzes representam reflexo da política de
segurança pública adotada pelo governo gaúcho na era Yeda Crusius, que contou
sempre com secretários populistas, que buscavam agradar a população com discursos
fáceis de “combate à criminalidade”. As operações de blitzes foram vendidas e
compradas como importantíssimas na “luta contra o crime”, não obstante a sua evidente
fragilidade estratégica, além de sua ilegitimidade jurídica, do ponto de vista das
liberdades individuais. Utilizando um método que deveria envergonhar o chefe da
inteligência policial, de desconfiar, basicamente, de todos os cidadãos, mas certamente
guiando-se pelas metarregras que regem a atuação policialesca, a polícia procurava
encontrar, a partir das blitzes, veículos furtados ou roubados, armas, fugitivos do regime
semi-aberto e aberto, além de pequenas ilegalidades, como irregularidades no registro

229
GALERA, Daniel. Até o dia em que o cão morreu. SP: Cia das Letras, 2007, p. 55/56.
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110
dos veículos (inadimplência no imposto, multas, etc.). Por vezes, encontravam
pequenas quantidades de droga, principalmente de maconha. Não foi possível verificar
os carros dos flagrados nas blitzes, o que poderia evidenciar seletividade, pois no
processo não havia tal dado. Entretanto, é interessante notar que todos os casos de
flagrantes por posse de drogas em barreiras policiais ocorreram na região norte da
cidade, principalmente nas saídas para as cidades de Alvorada e Cachoeirinha, tais quais
os casos 47, 51, 59 e 70. É que ambas as cidades são pobres, possuem grandes índices
de violência e são consideradas redutos do crime. Outro flagrante ocorreu na Avenida
Farrapos (caso 79), conhecido local da baixa prostituição, rua onde prostitutas e
travestis miseráveis oferecem serviço sexual para motoristas que por lá transitam.
Também encontrei um flagrante na FREEWAY, rodovia que conduz à região
metropolitana e ao litoral (caso 84). O sujeito estava parado no acostamento, fechando
um baseado, quando foi abordado pela polícia.

Alguns flagrantes ocorreram em domicílios, e aqui saliento que considerei
ocorridos em domicílios também as abordagens realizadas na mesma rua em que mora o
autor do fato. Isso porque as incursões da polícia a residências só podem ser realizadas
com ordem de busca e apreensão, ou de prisão, decretadas por juiz, e, nesses casos,
geralmente trata-se de casos de tráfico de drogas. No caso 66 foi realizado um flagrante
por posse de drogas a partir de busca e apreensão realizada em residência, no Morro
Santana. Contudo, é provável que a busca e apreensão tenha sido autorizada a partir de
indícios de tráfico, e a prisão não tenha se concretizado em razão da pouca quantidade
de droga que fora encontrada. No caso 33, a Brigada Militar ingressou na residência
mediante autorização da mãe de um toxicômano. Ao ajudar a mãe a conduzir o filho,
que possui relação problemática com as drogas, até o Posto de Saúde da Vila Cruzeiro,
a polícia criminalizou-o: termo circunstanciado por posse de maconha. Ao invés de
colaborar com a saúde do sujeito, a polícia criminaliza-o. Eis o que foi escrito no termo
circunstanciado:

(...) que o acusado encontrava-se no interior de sua residência e sua mãe solicitou a
Brigada Militar dizendo que ele tinha problemas psiquiátricos e já estava baixado
no Hospital Espírita e queria apoio para conduzi-lo até o postão da Cruzeiro. Sr
Carlos Eduardo: que na semana passada adquiriu a porção de maconha no Morro
da Cruz por R$ 1,00, que ele tirou do bolso do abrigo o pacotinho com cheiro de
maconha, em torno de uma grama da substancia e disse que as vezes faz uso da
droga.

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111
Já no caso 41, os policiais militares ingressaram na residência de um sujeito
que estava alcoolizado nas proximidades de sua casa, que fica perto de um ponto de
venda de drogas. Ao recusar-se a submeter-se à revista policial, fugiu para dentro de sua
morada, onde acabou detido. Algemado, alcoolizado e criminalizado por posse de
drogas. Vejamos a narrativa policial:

Em policiamento em local de tráfico, a guarnição resolveu efetuar abordagem no
senhor JP, o qual se recusou a revista. Foi solicitado uma viatura ostensiva para
apoiar a abordagem. O senhor JP estava alcoolizado e com a chegada das viaturas o
mesmo fugiu para o interior onde foi detido. O acusado estava muito agressivo e
foi usado dos meios moderados para algemá-lo, acabando ferido na testa. Foi
localizado ao lado de uma geladeira um coldre auxiliar para revolver, uma
niqueleira, três porções de maconha e um papel colomy. Acusado: O senhor JP
confirma a versão do policial. Reitera que se recuou a abordagem e que tentou
impedir que a guarnição entrasse dentro da casa.

É claro que abusos cometidos pela polícia não seriam expostos nos autos do
processo, motivo pelo qual o leitor não deve acreditar inadvertidamente nas palavras
oficiais. Aliás, é sintomático que não tenha havido nenhum flagrante em domicílios da
região central da cidade. Todos ocorreram nas periferias. Além dos casos expostos, o de
número 21 ocorreu no Campo da Tuca, o 64 na Rubem Berta e o 94 e 99 na Restinga.
Todos bairros extremamente pobres da capital. A intimidade na qual ocorrem práticas
tóxicas das camadas dominantes na sociedade é certamente um dos fatores que
contribuem para a parca vulnerabilidade ao poder punitivo.

A pequena quantidade de flagrantes nos pontos de tráfico explica-se pelo fato
de que em tais lugares, quando ocorrem criminalizações, há imputação de tráfico. Como
minha pesquisa foi feita em processos de posse de drogas para consumo, só tive acessos
a casos desse tipo em casos de desclassificação de tráfico para posse, ou, mesmo,
quando, na própria Delegacia, o Delegado decidiu efetuar apenas Termo
Circunstanciado, em não a prisão em flagrante. No caso 6, um cabelereiro, nascido em
1987, estava a adquirir, onze horas da noite, cocaína, em conhecido ponto de tráfico da
capital, onde volta e meia a polícia diz ter “desestruturado” o negócio da venda varejista
de drogas. Esse foi um dos poucos flagrantes efetivados pela Polícia Civil. Segundo
consta no processo, “os policiais estavam combatendo o tráfico na Vila Conceição, e
abordaram o autor, que estava com uma bucha de cocaína no bolso.” Após ter sido
levado à Delegacia, foi efetuado apenas Termo Circunstanciado. O sujeito do caso 24
não teve a mesma sorte: acabou preso e levado ao Presídio Central. Foi flagrado em
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abordagem realizada na Vila Esmeralda, na Lomba do Pinheiro. Jovem, nascido em
1989, acabou sendo preso no bairro onde mora, quando estava com duas petecas de
crack e cinco buchas de cocaína. A polícia diz que estava vendendo, ele diz que estava
comprando:

Declara o condutor, que na hora e data do fato, estava de serviço ostensivo, quando
foi realizada uma abordagem de rotina, num local conhecido como ponto de venda
de drogas, sendo que quando o individuo avistou a viatura tentou disfarçar e sair
caminhando. Com o individuo abordado foi encontrado duas petecas de crack e
cinco petecas com um pó branco semelhante a cocaína, além de setenta reais em
dinheiro.Que foi dada voz de prisão e o individuo disse que não estava vendendo,
apenas estava comprando a droga para seu cunhado, o qual havia lhe dado 70 reais
para fazer este serviço.

Nesse caso, o sujeito foi preso em flagrante. Foi solto após o pedido de
relaxamento da prisão em flagrante ter sido acolhido pela juíza plantonista, que acabou
por conceder a liberdade provisória. Posteriormente, o Ministério Público entendeu não
tratar-se de caso de tráfico de drogas, e requereu a desclassificação. Então, o caso foi
remetido ao Juizado Especial Criminal. Com um pouco mais de azar, certamente o
menino poderia ter ficado muito tempo preso, tal qual milhares de prisioneiros da guerra
contra as drogas que estão a povoar os cárceres em razão de dramas bem semelhantes.
Já no caso 56, temos um típico exemplo da atuação seletiva da agência policial. Três
“indivíduos de cor escura” e uma loira, em um veículo, entrando numa vila – “atitude
suspeita”, por óbvio:

COMUNICANTE: estava em patrulhamento juntamente com seu colega quando
foi solicitado via ciosp para dar apoio a uma viatura que entraria na Vila Nazareth
afim de procurar uma variant que estava em atitude suspeita na entrada da vila com
uma loira e três indivíduos de cor escura e que tal denúncia foi feita via 190.
Que no interior da vila avistaram o veículo pálio com 4 indivíduos, uma loira e três
homens de cor escura), e em atitude suspeita passaram a seguir o veículo.

Todos foram presos em flagrante, pois estavam portando maconha e crack.
Foram homologados os flagrantes dos três homens, mas não foi homologado o flagrante
da mulher. Posteriormente, o próprio Ministério Público apresentou promoção de
desclassificação de tráfico para posse de entorpecentes, e requereu a liberdade
provisória. A juíza acolheu o pedido, remeteu o processo ao Juizado Especial Criminal e
concedeu liberdade provisória aos “indivíduos de cor escura”. Há, por certo, um risco
muito maior em ser flagrado portando drogas num ponto de venda, do que num parque,
por exemplo, sobretudo se o flagrado encaixar-se no estereótipo plasmado no second-
code que rege a atuação das agências punitivas.
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Como já foi dito, 15% dos flagrantes pesquisados decorreram de posse de
crack. Para os casos de crack, criei uma categoria para abarcar os flagrantes ocorridos
em pontos conhecidos de consumo, principalmente porque, nos processos da região
central da cidade, apareciam com muita freqüência os flagrantes na região que ficou
conhecida como crackolândia. Contudo, a categoria acabou servindo apenas aos
processos do centro da cidade, pois, no que toca às demais regiões, não pude saber onde
ocorrem normalmente os consumos. De qualquer modo, o próprio perfil dos usuários
faz com que os consumos aconteçam em regiões degradadas, embaixo de viadutos, das
marquises, nas ruas escuras da metrópole, nos barracos da periferia. Nos casos 1 e 2, os
flagrantes foram efetivados na Praça XV, na crackolândia. No caso 7, na Rua
Voluntários da Pátria, nas proximidades da Vila dos Papeleiros, outro ponto conhecido
de consumo. A análise quantitativa aqui tem pouca importância, dada a pequena
quantidade de casos. De qualquer modo, os flagrantes por posse de crack foram
distribuídos da seguinte forma:

Não obstante a intensa “cruzada contra o crack” iniciada em meados desse
ano, o fato é que a repressão ao uso do crack é subsidiária em relação à maconha.
Talvez porque sejam consumos que ocorrem nos “não-lugares” da cidade, naqueles
territórios onde ninguém quer passar, aqueles locais que fingimos não existir. O
controle penal ao uso e ao usuário do crack é o mesmo que recai sobre as populações
marginalizadas da urbe, os moradores de rua, os miseráveis. Poder configurador, que os
vigia para mantê-los distantes dos “cidadãos de bem”.
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Ainda, em 10% dos casos, os flagrantes foram por posse de cocaína. 50% na
Rua, 20% em domicílios, 20% em pontos de venda, 10 % em Parques. A análise
quantitativa não detém grande importância. A riqueza está nas especificidades dos
casos. A cocaína é droga que é snifada, consumida por via nasal. Trata-se de consumo
que pode ser facilmente praticado sem despertar atenção dos demais. Daí porque, nos
casos 38 e 54, os sujeitos foram flagrados com cocaína apenas porque estavam a
consumir maconha ao mesmo tempo. Quando os policiais foram reprimir o uso da
maconha, encontraram também a cocaína que portavam. Além disso, os flagrantes
podem ocorrer no momento da compra, tais quais os casos 6 e 48. No mais, deve haver
algum tipo de preconceito por parte dos policiais, do qual deriva a “atitude suspeita”,
que resultou no flagrante do caso 73. Destaque para o caso 90, no qual a mãe, ao
encontrar cocaína nos pertences do filho, foi à Delegacia registrar ocorrência.

A cocaína vendida e consumida atualmente é, na verdade, uma mistura de
substâncias, na qual pouco há de cocaína, realmente. A substância é bastante impura.
Não obstante, a pessoas a usam, principalmente, em contextos festivos. No caso 72, foi
realizada abordagem no ensaio da Escola de Samba Dona Leopoldina, quando o sujeito
provavelmente pretendia alterar a consciência e ouvir soar a bateria. A juventude das
camadas médias consome maciçamente cocaína, sobretudo na “balada”. Nas festas do
underground e do mainstrean, é comum observar enormes filas para o “banheiro
privativo”, onde ávidos consumidores aguardam a vez de consumir a droga. Uma das
baladas mais conhecidas da cidade chama-se Fuck Rehab, e é uma expressa referência à
música da diva Junkie contemporânea, Amy Winehouse, que canta: “they tried to make
me go to rehab and I say no no no...” Na festa, a estética Junkie-Amy Winehouse
predomina, a bebida é liberada, e a cocaína dá o tom.

Em termos gerais, a distribuição dos locais flagrantes foi a seguinte:
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Na maioria dos casos, foi apreendida ínfima quantidade de droga, conforme o
gráfico abaixo:

Vale salientar ainda, que em 6% dos casos, foi apreendida mais de uma droga
com o flagrado, expressão das poli-intoxicações contemporâneas.

Notamos, portanto, que o sistema penal lida, geralmente, com casos de usos
não problemáticos de drogas. Isso porque a repressão recai, sobretudo, sobre o uso da
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maconha, droga mais leve dentre as consumidas atualmente. Além disso, recai sobre o
uso da maconha em contextos de lazer, nos quais o consumo da substância é regulado
culturalmente pelos rituais do cotidiano, que oferecem à prática tóxica um mero espaço
no âmbito das demais preocupações do sujeito. Em relação aos casos de consumos
problemáticos de crack ou de cocaína, o sistema penal nada tem a oferecer, senão a
lavratura de um termo circunstanciado e a designação de uma audiência para meses
depois do flagrante. Parece claro, assim, que o medo de que a descriminalização das
drogas gere consumos desregulados, em todos os lugares e a toda hora, é injustificado.
A atuação do sistema penal sobre os consumos de drogas ocupa menos espaço do que se
imagina. É o controle cultural, aquele que vem do olhar do outro e da própria autocrítica
do usuário, que age majoritariamente. A descriminalização, por um lado evitaria que a
repressão penal recaísse, de maneira violenta e absurda, sobre usos não problemáticos,
que não dizem respeito a ninguém, senão à pessoa que está usando; por outro
possibilitaria que os usos problemáticos fossem remetidos à devida esfera, qual seja a
atuação dos agentes de saúde, conforme as especificidades de cada tipo de consumo
problemático. Além de evitar qualquer tipo de conseqüência penal à prática tóxica, o
importante é desabilitar o poder das agências policiais, de modo que não haja mais
qualquer tipo de relação entre as pessoas que estão usando drogas e a polícia. A
vinculação entre uso de drogas e repressão penal é recente, temporalmente delimitada e
artificial: pode ser radicalmente modificada, pois.

3.2.1 AS ZONAS LIVRES DE INTERFERÊNCIA

3.2.1.1. O CÁRCERE

Recentemente, num desses programas de televisão de debates entre doutos,
discutia-se ainda se deveríamos retomar a solução carcerária para os casos de posse de
drogas para consumo. Não é o caso de ingressar em tal debate, anacrônico, há muito
superado. O interessante, no entanto, é notar o grau de autismo dos juristas. Não sabem
eles, que o uso de drogas no cárcere é permitido, faticamente? Não sabem eles que as
pessoas consomem drogas diariamente, no Presídio Central de Porto Alegre, e nos
demais estabelecimentos prisionais do Rio Grande do Sul? O assunto é, por certo,
tratado de forma velada. Justamente por este motivo, aqui, não há porque abordá-lo com
meias palavras.
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O fato é que existe um consumo massivo de drogas no Presídio Central de
Porto Alegre, e tal consumo ocorre com a conivência do poder público. A Brigada
Militar, que controla o Presídio Central, sabe que as pessoas consomem drogas nas
galerias fétidas do maior cárcere da América Latina, e tolera as práticas tóxicas como
estratégia de manutenção da ordem carcerária. Da mesma forma, os membros do
Ministério Público e os juízes das varas de execução criminal sabem de tal fato, mesmo
que, em alguns casos, finjam não saber. Daí porque o Presídio Central pode ser
considerado uma zona livre de interferência: trata-se de território no qual o consumo de
substâncias psicoativas é tacitamente legalizado. Não que, por vezes, não haja
repressão, como as revistas esporádicas ou a notícia de alguém que foi preso ao tentar
entrar com droga no cárcere. Mas trata-se de um simulacro, que serve apenas para
agradar a opinião pública, e conferir a aparência de que tudo está “sob controle”. A
liberação do consumo de drogas no cárcere pode ser considerada uma das principais
estratégias de política carcerária adotadas atualmente. Não encontrei nenhuma pesquisa
“acadêmica” de campo que abordasse a questão do uso de drogas no cárcere. No
entanto, algumas obras não-acadêmicas narram práticas tóxicas em contextos
carcerários, com grande riqueza de detalhes, e, como espero já estar claro, a divisão
entre ciência e não-ciência não é importante. DRÁUZIO VARELA, no livro ESTAÇÃO
CARANDIRU, nos conta um pouco sobre o uso de drogas no cárcere:

A harmonia, entretanto, foi abalada quando Mané de Baixo conheceu o crack. De
nada adiantaram os conselhos do amigo, tudo o que Mané conseguia evaporava na
fumaça das pedras.
Na noite da tragédia, apareceu Fuinha no guichê da cela:
- Mané, trouxe umas pedras da melhor para nós fumar.
230


O Presídio Central ainda não foi palco de uma tragédia épica, de um
genocídio, como o que deu origem ao livro de Dráuzio Varela. Contudo, é, atualmente,
o maior presídio da América Latina, tendo ultrapassado recentemente a marca dos 5.000
presos. A única maneira que tive, para, de algum modo, saber um pouco sobre o uso de
drogas no Presídio Central, foi entrevistando alguém que esteve lá. Após fazer as
entrevistas, discuti exaustivamente com o orientador e com os colegas das aulas do
doutorado que assisti como aluno-ouvinte, a forma de utilização dos dados, mormente
do ponto de vista da ética na pesquisa. Considero que ter obtido acesso ao entrevistado a

230
VARELLA, Dráuzio. Estação Carandiru. SP: Cia. Das letras, 1999, p. 200.
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118
partir de minha profissão não é algo antiético, sobretudo porque advogaria
voluntariamente para o informante mesmo se não estivesse fazendo nenhuma pesquisa
de mestrado. Em verdade, sequer é necessário chamar as conversas que tive com o
informante de entrevistas, pois não foram entrevistas, foram conversas. Em nenhum
momento tomei-o por objeto da pesquisa, e sim como um companheiro na busca pela
compreensão do tema, como, até mesmo, coautor da dissertação. Decidi, então, apenas
omitir dados que pudessem identificá-lo, para preservar a confidencialidade. Troquei o
seu apelido por outro semelhante, pois no apelido verdadeiro constava uma metáfora
interessante, e não nomeei territórios, tampouco as galerias do Presídio onde ele esteve
por algum tempo. Não pretendo que o relato do informante seja tomado como verdade
absoluta. É apenas uma versão, a representação que ele transmitiu sobre o que viveu lá
dentro, e que por mim foi transformada em narrativa.

Maizena é um sujeito que me foi apresentado por um amigo que é político e
mantém projetos sociais junto a uma Vila de Porto Alegre, em uma das regiões mais
pobres da cidade. Ele estava respondendo a diversos processos criminais, todos por
roubo, e meu amigo pediu que eu o ajudasse. Como ele ficou 3 meses no Presídio
Central de Porto Alegre, na última vez em que esteve preso; e já havia ficado quase 2
anos em outro momento, achei que ele tinha muito a falar, sobretudo em relação a
questão das drogas no cárcere, então me dispus a ouvi-lo.

Combinamos de nos encontrar na entrada da PUCRS, ao meio-dia. Muitos
estudantes transitando, e Maizena – etiquetado – estava lá, esperando. Então, a primeira
frase que disse foi que os seguranças estavam olhando para ele, “me tirando pra
ladrão”. Como caminhamos por todo o Campus, pude notar que, de fato, Maizena era
exótico ao local, olhado de forma preconceituosa por todos. Na entrada do prédio 11, o
prédio do direito, espaço cheio de gravatas e sorrisos, local onde advogados
conceituados, juristas renomados e graciosas moças de produção impecável, debatem
incansavelmente – com vasto conhecimento do latim e do alemão – a eficácia preclusiva
da coisa julgada, a enfiteuse, os títulos de crédito e as gerações dos direitos humanos...,
Maizena só conseguiu livre acesso por estar me acompanhando – eu, de terno e gravata
– também etiquetado.

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119
Subimos até a sala de meu orientador, no 10° andar, expliquei para Maizena a
pesquisa. Creio que ele ficou à vontade. Disse que ele não gosta muito de falar sobre
alguns assuntos, mas que “para ele é bom, pois a realidade tem que ser dita.” Começou
dizendo que a última vez em que esteve no Presídio Central ficou 3 meses, em razão de
uma regressão de regime. Ficou na galeria X do Y, onde ficam os abertos, ou seja,
aquelas galerias que são controladas pelos presos. Essa galeria é dominada pelos
“Manos”, uma das facções dos presídios gaúchos. As celas ficam o dia inteiro abertas, e
só são fechados por ocasião da distribuição das refeições, quando as refeições são
“pagas”. Café da manhã às 5h, um quick e dois pães; almoço às 10h30. “Comer aquela
comida, deus o livre, tem de tudo, até pedaço de rato.” Então, Maizena conta que eles
“reviram” a comida, acrescentando temperos e requentando, na própria cela. “Não fica
igual a comida de sal da rua, mas dá para comer”. Às 22h, “cai o silêncio”, e os
presos devem parar com a zoeira. Alguns continuam de zoeira, e geralmente são
advertidos pelo Plantão, que é o chefe da galeria. Os presos podem ficar no pátio o dia
inteiro do dia de visitas, e aqueles que não recebem visitas têm de ficar perambulando,
para respeitar os visitantes, para não ficar olhando para ninguém. Além desse dia,
descem apenas mais um dia da semana para o pátio, e ficam só 1h. Jogam futebol,
conversam, fumam maconha... Na galeria, vão de uma cela a outra, conversam com os
parceiros, assistem televisão e fumam maconha.

E as drogas, pergunto: “direto”... Maconha, pedra, cocaína. Cocaína só
cheirada, pois seringa não entra, nunca viu nenhuma seringa. O consumo de maconha
ocorre o dia inteiro, antes da refeição, para abrir o apetite, pois a comida “deus o livre”,
e durante o resto do dia, para dar sono. Para pagar a cadeia, para passar a cadeia...
Fuma-se maconha como na rua, com os amigos, em rodas, “um bota um”, “no outro
dia outro bota”. Compra-se 1 baseado por 1 real, mas um “fino”. Com o 1 real de
maconha da rua, faz-se 10 reais dentro do cárcere. Crack custa o mesmo preço da rua,
tem de 5 e de 10, com cinco reais fuma-se uma vez e o “teto” dura 20min. Cocaína,
também, o mesmo preço da rua, 10 reais, 1 grama. Diz que a droga não entra pelas
visitas, e sim pelos policiais corruptos. Que também entra pelas visitas, é claro, mas o
grosso mesmo é pela polícia. Quando uma visita leva droga, é uma visitante
previamente contratada, geralmente uma prostituta, chamada de “trem”, que leva até
50g na “perereca”. Quem comanda a venda é o Plantão da galeria, o chefe da galeria,
que conta com aviõezinhos, seus funcionários. Maizena os chama de cabeça de lata,
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120
pois são “robozeados”, só fazem o que o chefe manda. O cabeça de lata é também
segurança do plantão, braço direito do plantão. O plantão é o chefe e o porta-voz da
galeria, é quem negocia e faz os acertos com os policiais. Maizena diz que não
acontecem mortes por causa de dívidas de drogas. Quando alguém fica devendo,
aguarda-se o dia da próxima visita, e quando o devedor não consegue dinheiro, é apenas
expulso da galeria, “desce a galeria”. Apesar disso, diz que nas galerias dos “Brasa”,
outra facção dos presídios gaúchos, não é assim, que lá o “bixo pega”.

Pergunto qual a média de pessoas que fumam maconha e que não fumam, e
Maizena diz que “todo mundo fuma um”. Fumam para ter sono e dormir, para ter
apetite e comer aquela comida horrível. Que a maconha deixa a cadeia calma. Fuma-se
na frente dos policiais – que só entram na galeria com permissão do Plantão – bem
como no pátio, observados pelos policiais. Inclusive em dia de visita, pode-se fumar
com as visitas. Que crack não, crack o pessoal fuma quieto na cela, e não é permitido
fumar no pátio, a não ser “embaixo da marquise, onde as visitas não possam ver, e tem
que fumar de costas”. Na galeria em que esteve, ao menos, não ocorriam problemas
coletivos em razão do crack. O dia em que há mais consumo de drogas é o dia da visita,
seja por aqueles que não recebem visitas, seja por aqueles que recebem, e que usam para
esquecer, pois ficam deprimidos quando os visitantes vão embora.

De vez em quando, os policiais fazem revistas, mas nunca encontram droga,
não “acham os mocós”. Policiais corruptos avisam com antecedência o dia da revista, e
outros policiais corruptos inclusive “guardam as drogas da galera”, quando vai haver
revista. Maizena diz que escondia a sua droga num mocó embaixo da cama, e que nunca
os policiais encontraram. Pergunto se, por vezes, não há escassez, se não diminui a
oferta, e Maizena diz que sim, e que daí é perigoso, que a cadeia fica agitada. Há
escassez “quando a polícia fica espiada de entrar”. Mas que há comunicação entre as
galerias, então o plantão da galeria X do Y liga para o da Z do V, por exemplo, e pede
drogas, “manda o laranjinha trazer droga aí”, e essa é uma outra forma de
abastecimento. Laranjinha são aqueles presos designados para fechar e abrir as portas
do cárcere (quem conhece o parlatório do Presídio Central, já os viu). Nesse ponto, os
dados processuais podem complementar a análise. É que o caso 28 é um processo
derivado de um flagrante ocorrido dentro do Presídio Central, no qual o flagrado diz ter
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121
recebido a droga que estava portando das mãos do laranjinha, também conhecido como
jaleco, corroborando o relato de Maizena. Eis o texto do Termo Circunstanciado:

Comparece neste plantão o participante comunicante 01, apresentando o
participante 02, com o qual foi apreendido no corredor do pavilhão C, no presídio
central, durante revista pessoal, uma peteca de maconha pesando aproximadamente
0,4g, com embalagem. O conduzido afirmou que recebeu a maconha de um preso
responsável por abrir as galerias (JALECO). Versão do Autor: Que recebeu a droga
do jaleco, indivíduo que trabalha nas galerias, abrindo e fechando, ajudando a
conduzir os presos O tal jaleco pertence a 2ª galeria do C. O mesmo lhe alcançou
droga dizendo que era dele. O declarante pegou e guardou. Que quando foi ver a
brigada já o estava abordando e revistando achando droga. Afirma que é usuário de
maconha desde os doze anos. Já iniciou tratamento para parar porem nunca
terminou. Nunca foi preso com drogas. Que atualmente cumpre pena por assalto. O
dinheiro encontrado, cerca de sete reais, afirma lhe pertencer, fruto da venda de
uma manta sua. Nada mais

Maizena diz que fumava maconha o dia inteiro, no cárcere. Fumava, comia e
dormia. Fumava para comer. Fumava para dormir. Fumava um antes do café, tomando a
cuia (chimarrão), tomava café, fumava antes do almoço, depois do almoço. À noite,
fumava para assistir televisão, assistiam o Jornal Nacional, mas o programa preferido
era “PampaCats”. Ele dizia, “pô, tá dando um filme bom, e os caras diziam, não, bota
na Pampacats”. Pergunto sobre o crack, responde que não usou crack na cadeia.
Pergunto, nunca mesmo? Apenas uma vez. Questiono, e esse apelido, Maizena, de onde
surgiu? “Ah, eu tinha caspa no colégio, eu esfregava a cabeça e caía um pozinho
branco, então meu irmão me colocou esse apelido.”

Pelo relato de Maizena, é possível perceber que a maconha exerce efeitos nos
encarcerados que vão ao encontro das necessidades disciplinares das políticas
carcerárias, e daí porque o poder público tolera a prática. A maconha acalma a cadeia,
auxilia o sono e aumenta o apetite, ajudando os presos a dormirem nas condições
adversas da superlotação carcerária e a suportarem as péssimas refeições que lhe são
servidas. A cocaína, por seu turno, é pouco mencionada, e é possível que o consumo de
cocaína tenha sido substituído pelo de crack. O fato é importante, tendo em vista que o
compartilhamento de seringas para consumo de cocaína injetada já foi um dos principais
problemas enfrentados pela saúde pública dos cárceres, e mobilizou o início dos
programas de redução de danos baseados no fornecimento de seringas. Quanto ao
consumo de crack, parece haver um controle do uso pela cultura do cárcere, que impede
que os usos tornem-se desregulados e abalem o complexo equilíbrio que os presos
precisam manter para manter a ordem nas galerias, o que é fundamental para a
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122
manutenção de suas próprias vidas: a pedra é fumada dentro das celas, “embaixo da
marquise”, de costas para os demais, etc.

Além disso, a denúncia de Maizena de que as drogas entram no cárcere por
intermédio dos policiais corruptos é bastante verossímil, pois é inimaginável que
quantidade tão grande de substâncias entre no Presídio nas genitais das “mulheres de
Atenas”, sobretudo considerando que a perversa revista íntima foi novamente instaurada
nos cárceres gaúchos.

Renato, agente redutor de danos do programa oficial da Prefeitura de Porto
Alegre, entrevistado por mim, contou que, quando um companheiro seu foi ao Presídio
Central oferecer o serviço de redução de danos, o diretor da casa prisional lhe deu a
seguinte resposta: “não precisamos desse serviço, pois aqui não há consumo de
drogas.”

3.2.1.2. ESTÁDIOS DE FUTEBOL

Em uma espécie de Grenal paralelo, o resultado parcial é Grêmio 157 x 151
Inter. Tratam-se dos casos de posse de drogas nos estádios de futebol da Porto Alegre,
que são julgados “instantaneamente” nos Juizados Especiais Criminais instalados nas
próprias dependências dos estádios. Desde abril de 2008, já aconteceram 308 em
flagrantes, a esmagadora maioria por posse de maconha.
231


Enquanto isso, em certos territórios dos estádios, o consumo de drogas,
sobretudo de maconha, é praticado sem qualquer preocupação. O uso de maconha, e do
álcool, antes da vedação da comercialização de bebida alcoólica, está intimamente
ligado com os furores coletivos que acontecem semanalmente nos estádios de futebol.
Além de consumir maconha, os torcedores entoam cânticos sobre as drogas, como
forma de expressar algum tipo de subversão, ainda pouco compreendida. No estádio,
milhares de pessoas cantam, “ô tricolor, amo você, tomo cerveja, cocaína, LSD...”, ou
“vou me entorpecer bebendo vinho...” No estádio do arqui-rival, não é diferente:
“sempre louco atrás do gol, acendendo um do bom”. Na torcida tricolor, manifestos

231
http://www.tjrs.jus.br/site_php/noticias/mostranoticia.php?assunto=1&categoria=1&item=90022,
acesso em 12 de outubro de 2009.
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123
antiproibicionistas, em portunhol medonho: “quero que legalize la marijuana, para
fumar um pouco por la mañana...” Existem diversos outros cânticos parecidos, mas o
importante é notar que a proibição do uso de drogas acaba por oferecer uma aura
trangressiva à prática, que é naturalmente incorporada aos mais variados tipos de
manifestações contraculturais. Os enormes aparatos de segurança montados atualmente
nos eventos futebolísticos retroalimentam-se com a esperada transgressão da juventude.
Se toda essa mobilização policial serve para controlar-nos, que então nos
descontrolemos, pensam os jovens. Ao cantar músicas sobre drogas, os torcedores
brincam com as forças policiais, pois sabem que cantar ainda é permitido.

Os referidos flagrantes ocorrem, em sua grande maioria, na entrada do estádio,
na revista policial, tal qual o narrado no caso 9. Entretanto, apenas aqueles que praticam
“obras toscas” são selecionados pela agência policial. 308 pessoas flagradas é um
número incrivelmente pequeno, considerando o volume de drogas que é consumido nos
estádios. Carlos, colorado, foi passar pela revista em um Grenal, no estádio Olímpico, e
decidiu esconder a maconha no casaco que segurava. Ele mesmo nos conta a “obra
tosca”:

Eu estava guardando a droga em um cinzeirinho pequeno que tinha ganhado da
minha namorada de uma viagem que ela fez à Holanda. Durante toda a escolta, ele
estava no meu tênis e passei por duas ou três revistas sem problemas. Durante a
escolta, reparei que os porcos nem davam bola para o meu casaco que tava na
minha mão. Como aquilo já tava me incomodando no meu tênis (muito tempo de
caminhada) resolvi esconder o cinzeiro no meu casaco. O cara viu o cinzeiro, que
tinha uma folha de maconha na frente, e perguntou o que tinha dentro. Falei que
tinha maconha e nem precisei abrir.

Carlos ainda foi flagrado mais uma vez, agora no Beira-Rio, e nesse caso ele
mesmo concluiu que foi selecionado por estar em situação de vulnerabilidade no
momento da ocorrência, pois encaixava-se perfeitamente no estereótipo do
“maconheiro”. Estava “meio chinelo”, com roupas largadas e dreadlock nos cabelos:

Dessa vez não foi ratiada minha. A gente resolveu entrar no portão 6 porque tinha
gente junto com ingresso dizendo que só podia entrar no 6. Bom, na época eu ainda
tinha dread e fui pro jogo meio chinelo, com uma calça de moleton, uma camiseta
vermelha chinela que nem do inter era e o casaco do inter na mão. Bom, daí o cara
me revistou de um jeito que eu nunca tinha visto. Tava na cara que eu tinha alguma
coisa, era só questão de tempo e paciência para achar. Ele revistou meu casaco,
tirou tudo dos meus bolsos, levantou a minha calça e botou a mão nas minhas
meias. Aí ele sentiu o volume do negócio dentro da meia. Ele nem viu, ele sentiu!
Acho que se não achasse nada na meia o filho da puta ia me fazer tirar o tênis. (...)
Vacilo meu por ir chinelo e com dread pro jogo. Mas foi preconceito puro. Dois
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124
jogos atrás eu fui com o meu pai de superior com os amigos dele, com camiseta do
inter, calça jeans e sem dread e o porco só deu um tapinha nos rins pra eu passar.

É claro que nem todos os espaços do estádio são zonas livre de interferência.
As zonas livres de interferência são apenas certos territórios que, coincidentemente,
recebem aqueles que pretendem consumir maconha no estádio. Nesses territórios, a
polícia, a Brigada Militar, no caso dos estádios gaúchos, não ingressa, e a fumaça toma
conta do ambiente.

Os eventos esportivos que ocorrem nos estádios de futebol são ajuntamentos
que servem de espécie de pequena pausa na dureza do cotidiano, onde uma paixão
plasmada em um símbolo, uma camiseta, é celebrada coletivamente, de maneira intensa,
momentos nos quais “uma multidão delirante investe-se de papéis capazes de
representar, inclusive, para muitos casos, a antítese de seus cotidianos”.
232
Em tal
fenômeno, confluem, além das práticas tóxicas, os cânticos, as bandeiras, os foguetes, as
luzes, enfim, tudo aquilo que crie uma atmosfera de encantamento, no intuito de festejar
algo pouco ou nada compreensível, mas certamente de enorme importância para as
subjetividades. Para além das visões atuariais, que pensam em estratégias para diminuir
os riscos nos eventos nos quais pessoas amontoam-se em certo espaço, o importante é
perceber que o “Homo Ludens”
233
recorre inexoravelmente a momentos de transe,
transes delimitados, calculados, é certo, momentos de transe pelo qual se paga
mensalidade. Cumpre questionar até que ponto tais momentos servem de canalização
positiva à violência inerente ao ser humano, e daí pensar se a tentativa obsessiva de
disciplinamento das pequenas indisciplinas contemporâneas não pode, também, gerar
efeitos negativos, por meio do fechamento das vias de canalização dos instintos
agressivos que nos constituem.

O importante é notar que as zonas livres de interferência organizam-se
naturalmente, de maneira anárquica. Os conflitos, como brigas, por exemplo, que
podem ocorrer, são rapidamente solucionados por meio da intervenção do grupo. Em
verdade, os conflitos tornam-se problemáticos apenas quando há a atuação da Brigada
Militar, não raramente violenta. Sabiamente, a Brigada Militar tem permitido a

232
MACHADO. A miséria do cotidiano, p. 42.
233
HUIZINGA, Joahan. Homo Ludens. Tradução de João Paulo Monteiro. SP: Perspectiva, 2008.
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125
existência das zonas livres de interferência, talvez por reconhecer que, sua presença em
tais lugares não só não é bem vinda, como também não é recomendada.

3.3. O PERFIL DOS SELECIONADOS

(...) eu me formei suspeito profissional
bacharel pós-graduado em tomar geral
eu tenho um manual com os lugares horários
de como dar perdido, ai caralho...
prefixo da placa é m y sentido jaçanã jardim ebrom
quem é preto como eu já tá ligado qual
é nota fiscal rg polícia no pé.
234


A seletividade é estrutural e, portanto, presente em qualquer âmbito de atuação
do poder punitivo. O delito de porte de drogas para consumo provavelmente é um dos
que apresenta as maiores cifras ocultas, e a repressão a tal prática só pode ocorrer de
maneira seletiva, pois, do contrário, a sociedade e, sobretudo, aqueles que têm o
controle sobre as definições, não concordariam com a manutenção de tal prática como
delito. Em outras palavras, caso houvesse repressão constante às festas dos filhos e dos
pais da classe média, talvez o objetivo antiproibicionista já tivesse sido alcançado.
ZAFFARONI, para não restar dúvida:

Os atos mais grosseiros cometidos por pessoas sem acesso positivo à comunicação
social acabam sendo divulgados por esta como os únicos delitos e tais pessoas
como os únicos delinqüentes. A estes últimos é proporcionado um acesso negativo
à comunicação social que contribui para criar um estereótipo no imaginário
coletivo. Por tratar-se de pessoas desvaloradas, é possível associar-lhes todas as
cargas negativas existentes na sociedade sob a forma de preconceitos, o que resulta
em fixar uma imagem pública do delinqüente com componentes de classe social,
étnico, etários, de gênero, estéticos. O estereótipo acaba sendo o principal critério
seletivo de criminalização secundária; daí a existência de certas uniformidades da
população penitenciária associadas a desvalores estéticos (pessoas feias), que o
biologismo criminológico considerou causas do delito quando, na realidade, eram
causas da criminalização, embora possam vir a tornarem-se causas do delito
quando a pessoa acabe assumindo o papel vinculado ao estereótipo (é o chamado
efeito reprodutor da criminalização ou desvio secundário). (...) Em suma, as
agências acabam selecionando aqueles que circulam pelos espaços públicos com o
figurino social dos delinqüentes, prestando-se à criminalização – mediante suas
obras toscas – como seu inesgotável combustível.
235


MALAGUTI BATISTA, ao refletir sobre as drogas e a juventude pobre no
Rio de Janeiro, já percebia o vocábulo “atitude suspeita” como uma expressão-

234
RACIONAIS MC’S, Sobrevivendo no Inferno, música 9, Em qual mentira vou acreditar?
235
ZAFFARONI. Direito Penal Brasileiro, pp. 46/47.
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126
standard, utilizada pelos policiais para enquadrar os casos nos quais o second code foi o
reitor de sua atuação. Conforme a autora,

Analisando a fala dos policiais o que se vê é que a “atitude suspeita” não se
relaciona a nenhum ato suspeito, não é atributo do “fazer algo suspeito” mas sim de
ser, pertencer a um determinado grupo social; é isso que desperta suspeitas
automáticas. Jovens pobres pardos ou negros estão em atitude suspeita andando na
rua, passando num táxi, sentados na grama do Aterro, na Pedra do Leme ou
reunidos num campo de futebol.
236


Os processos analisados pela pesquisadora eram dos anos de 1968 a 1988.
Passados muitos anos, percebi que a “atitude suspeita” ainda serve de álibi à atuação
preconceituosa da polícia. Além disso, em muitos casos utilizou-se também a expressão
“abordagem de rotina”, que de algum modo suaviza a idéia de “atitude suspeita”, mas
difere pouco no que toca à forma pela qual a expressão aberta é preenchida pelo
intérprete. Nos casos 21, 46, 48, 56, 64 e 73, a expressão “atitude suspeita” foi utilizada
diretamente pelos policiais que efetuaram o termo circunstanciado. No caso 21, dois
homens em “atitude suspeita” foram flagrados no Campo da Tuca, uma das vilas mais
pobres da capital. O caso 46 pode ser considerado um exemplo do raciocínio
policialesco: pelo fato do sujeito ter descumprido a transação penal, o processo acabou
sendo instruído. Então, o policial militar foi ouvido como testemunha na audiência de
instrução, e nos explica um pouco do que se trata a “atitude suspeita”:

Juiz: Lembra por que ele foi abordado?
Testemunha: Suspeito. Ali é cheio de viela.
Juiz: O que chamou a atenção?
Testemunha: As vestes, o aspecto físico. Ele era suspeito porque todo mundo
estava passando e ele estava ali parado na esquina.

A abordagem ocorreu na Rua Recife, na divisa entre Porto Alegre e Alvorada. Já no
caso 48, o flagrado estava em atitude suspeita, pois a caminhar por “local conhecido
como ponto de tráfico de drogas”. Como podemos notar, o morador dos vários
“conhecidos pontos de tráfico de drogas” existentes nas periferias de Porto Alegre vive
em atitude suspeita. Estar em atitude suspeita é sua rotina, a atitude suspeita é inerente à
sua existência. No caso 56, mais do mesmo, uma loira andando junto com “três
indivíduos de cor escura”, em uma vila, é o bastante para caracterizar a suspeita
policial. Nos casos 64 e 73, nada diferente, mais exemplos do second code que rege a
atuação policialesca na “via crucis da autolesão criminalizada”.
237


236
BATISTA. Difíceis ganhos fáceis, p. 103.
237
BATISTA. Difíceis ganhos fáceis, p. 104.
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127

Os processos analisados na presente pesquisa eram bastante pobres em termos
de dados, motivo pelo qual não foi possível contar com diversos indicadores sobre a
seletividade. Os autos quase nunca ultrapassavam a marca de quarenta páginas, sendo
que a maioria delas eram de folhas protocolares responsáveis pelo movimento do
procedimento. De conteúdo, muito pouco. Não havia como extrair do que constava nos
autos a etnia dos selecionados, tampouco o grau de escolaridade, por exemplo,
importantes elementos para auferir a adequação ou não ao estereótipo do delinqüente.
Entretanto, algumas outras informações presentes nos autos indicam claramente a
seletividade do controle penal do uso de drogas. Além disso, nas audiências que
acompanhei, foi possível perceber claramente que a clientela da justiça penal do uso de
drogas é a mesma de todo o sistema penal. Aliás, uma das questões que pude perceber
apenas em audiência, pois na análise dos autos é impossível saber se o defensor que
esteve presente na audiência era público ou privado, é o fato de que é a defensoria
pública quem atua em quase todos os casos, sendo quase inexistente a presença de
defensor privado. Tal fato é sintoma de que os flagrados são aqueles que não possuem
condições de arcar com os custos da advocacia privada.

Os selecionados são homens e jovens, tal qual a clientela majoritária do
sistema penal, conforme os gráficos:


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128



Nas ocorrências que derivam dos termos circunstanciados, há espaço para
designar a profissão do autor do fato. Em muitos casos, tal constava, e em outros, o item
ficava em branco. Nos casos em que ficava em branco, não é possível saber se isso
denota a ausência de profissão, o desemprego ou apenas um lapso de quem preencheu a
ocorrência. De qualquer modo, foram informadas profissões em 49% dos casos.
Interessante expor todas as profissões dos flagrados, como forma de perceber que a
maioria são profissões das camadas baixas da sociedade:

CASO PROFISSÃO CASO PROFISSÃO
02 Autônoma 57 Auxiliar de
Serviços
06 Cabelereiro 59 Motorista
11 Autônomo 60 Taxista
15 Vitrinista 61 Técnico em Ar-
Condicionado
18 Servente 62 Funcionário
Público
20 Comerciante 63 Corretor de Seguros
23 Servente 64 Carpinteiro
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129
27 Servente 65 Mecânico
30 Garçom 66 Autônoma
31 Motoboy 67 Instalador de Som
32 Estagiário 68 Comerciante
33 Mecânico 72 Auxiliar de Vendas
35 “Trabalha na
empresa X”
74 Vendedor
Ambulante
37 Motorista 77 “Trabalha numa
empresa de Ar
Condicionado”
39 Pedreiro 79 Servente
40 Carroceiro 80 Motorista
41 Pedreiro 82 Comerciante
46 Técnico em
Informática
83 Caixa do Mc’
Donalds
49 Eletrotécnico 84 “Trabalha na
empresa X”
50 Funileiro 86 Mecânico
51 Comerciante 87 “Trabalha na
empresa X”
52 Açougueiro 90 Comerciante
53 Auxiliar de
Segurança
94 “Trabalha na
empresa X”
54 Cabelereiro 97 “Trabalha na
empresa X”
55 Servente de Obras 102 Servente de
Pedreiro
56 Autônomo

Os dados demonstram muito mais do que o fato de que os consumos de drogas
não transformam automaticamente os sujeitos em zumbis alucinados, e de que é
possível - tal como faz a maioria dos consumidores - conciliar a prática tóxica com as
demais obrigações do cotidiano. Demonstram, sobretudo, que são criminalizados, ou
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130
aquelas pessoas que sequer se enquadram em alguma profissão, que estão
completamente fora do mercado de trabalho e que, por isso, estão em excesso na
sociedade - os descartáveis -, ou pessoas que possuem profissões que não são aptas à
tirá-los da situação de vulnerabilidade frente ao poder punitivo, aqueles que não
conseguiram “estar a cima do biótipo suspeito mesmo que seja dentro de um carro
importado”, nas certeiras palavras de Marcelo Yuka, da banda O Rappa.

É gritante a ausência de flagrantes das práticas tóxicas das elites. É claro, tais
práticas são protegidas das inseguranças urbanas, ocorrem nos interiores dos
condomínios da exclusão, nos carros com vidro preto ou nos clubes que poucos aceitam.
E a imunidade é também simbólica, pois os policiais não desconfiariam que um
advogado engravatado está a andar pela cidade, na caminhonete do ano, consumindo
maconha despreocupadamente, enquanto fecha importantíssimos negócios pelo celular.
A interação social produz etiquetas sem parar, e o status negativo derivado do
estereótipo criminal é o contrário do estereótipo do “cidadão de bem”, que está no
imaginário e que imuniza seus portadores das abordagens policiais.

Ainda, constava nos autos informações sobre os “antecedentes” dos flagrados.
Entretanto, é melhor usar o termo mais amplo “registros políciais”, pois tecnicamente
algumas das ocorrências constantes não caracterizam propriamente antecedentes, e não
é o caso de ingressar em tal discussão puramente teórica. Eis o gráfico:

Apesar da maioria dos selecionados não possuir passagens pela polícia, 35,2%
de flagrados com registros policiais é um número bastante expressivo, considerando o
Página 171 / 477
131
universo de pessoas que usam drogas e que nunca tiveram qualquer problema policial, o
que, mais uma vez, denota a seletividade da repressão ao uso de drogas.

3.4. PANORAMA DAS RESPOSTAS PENAIS PARA OS CASOS DE PORTE DE
DROGAS PARA CONSUMO

Os Juizados Especiais Criminais possuem uma resposta padrão para os
processos de posse de drogas para consumo, e aplicam-na na maioria dos casos, com
raras exceções.
238
Tal resposta padrão surge, e esta é uma forte impressão que derivou
do campo, de um acordo existente entre Ministério Público e juízo. Por motivos de
conveniência, ambos acordaram a resposta penal que será utilizada pelo juizado, e
aplicam-na para todo e qualquer tipo de caso. Não obstante, entre os juizados existem
diferenças nas respostas penais adotadas: invenções político-criminais – tal a qual a
“justiça terapêutica” aplicada em sede de pré-transação penal” - aplicação de princípios
descriminalizadores (princípio da insignificância), diferentes conseqüências derivadas
do não-comparecimento à audiência ou do não-cumprimento da pena, bem como a
aplicação de penas que não existem, são situações que complexificam a análise. Se a
segurança jurídica não fosse uma ilusão, como já demonstrou Vera Regina Pereira
Andrade, diria que há enorme insegurança jurídica no direito penal do uso de drogas.

No 1º Juizado Especial Criminal do Foro Central, a pena de advertência era
aplicada, antecipadamente, na forma de transação penal, conforme autoriza o §5º, do art.
48 da Lei de Drogas. Em apenas um dos casos, no caso 1, a transação consistiu em
medida terapêutica de comparecimento a programa ou curso educativo, na prática,
comparecimento a sessões dos Narcóticos Anônimos. Não é possível encontrar qualquer
lógica para essa diferenciação, ou seja, para a aplicação de uma pena de medida
terapêutica, ao invés de advertência, praxe no juizado. A quantidade de droga não
destoa dos demais, e o fato da droga ser crack também não é explicação, pois no caso 7,
no qual também foi encontrado crack com o sujeito, a pena foi a de advertência. Os
casos nos quais o autor do fato não compareceu na primeira audiência foram
arquivados, pois tal ausência “evidencia o desinteresse na realização de algum
tratamento para a drogadição, além do que a pequena quantidade de droga apreendida

238
Sobre o estatuto jurídico da resposta penal ao uso de entorpecentes no Brasil, ver: CARVALHO. A
política criminal de drogas no Brasil, pp. 267 e ss.
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132
em seu poder configura crime de bagatela.” Exemplificando, a ata de audiência do caso
2.

Ausente a autora do fato. (...) pela Dra. Juíza foi dito que considerando a finalidade
terapêutica da Lei 11343/06, que visa a recuperação do drogadito, a ausência da
autora, apesar de devidamente intimada, evidencia seu desinteresse na realização
de algum tratamento para a drogadição, além do que a pequena quantidade de
droga apreendida em seu poder configura o crime de bagatela, razão pela qual pelo
Ministério Público foi requerido o arquivamento do termo circunstanciado. A
seguir, pela Dra. Juíza foi dito que, acolhendo a promoção do Ministério Público,
determinava o arquivamento e a baixa do processo. (Caso 2, p. 14).

Ambos os argumentos utilizados para fundamentar o arquivamento são, em verdade,
pretextos para não dar prosseguimento a tais casos, por motivos de conveniência, como,
por exemplo, o gasto que o judiciário teria para efetuar nova intimação. Isso porque a
manifestação em audiência de desinteresse na realização do tratamento não redunda em
arquivamento do caso e, além disso, em casos nos quais foi apreendida menor
quantidade de droga com o flagrado, não houve aplicação do princípio da
insignificância.

No Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Partenon, aplica-se uma
invenção político-criminal, a pré-transação penal. O próprio promotor do juizado, em
artigo publicado, explica a prática:

Posição coerente com o entendimento da descriminalização do isso de drogas, por
se tratar de fato relacionado com a própria saúde do agente, é a adotada pelo
JECrim do Foro Regional do Partenon, na Comarca de Porto Alegre, onde é
oferecido ao autor do fato, incondicionalmente, a possibilidade de conhecer o
trabalho realizado pelos profissionais do CIARB, intermediando um contato com o
referido órgão, onde serão apresentadas as possibilidades de tratamento
disponíveis, ficando o autor do fato livre para aderir ou não ao que lhe foi
proporcionado.
239


Para aqueles que estão interessados no tratamento para drogadição, oferece-se
um encaminhamento ao Centro Interdisciplinar de Apoio para Encaminhamento à Rede
de Tratamento Biopsicossocial (CIARB), órgão vinculado ao projeto da Justiça
Terapêutica, instaurado no Rio Grande do Sul pela Corregedoria-Geral de Justiça.
Enquanto o tratamento está sendo feito, o processo fica suspenso. Comprovado o

239
CONTI. Justiça Terapêutica: nova alternativa à pré-transação penal. In: AZEVEDO, Rodrigo
Ghiringhelli; CARVALHO, Salo de (orgs.). A crise do processo penal e as novas formas de
administração da justiça criminal. Sapucaia do Sul: Notadez, 2006, p. 213.
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133
tratamento, o caso é arquivado, por “ausência de justa causa” e “pela perda do objeto”.
A audiência ocorre da seguinte forma:

“aos 3 dias de mês de março do ano de 2009, às 14h10min, na sala de audiências
do Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Partenon, à hora aprazada, sob a
presidência do Exmo. Sr. Dr. XXX, Juiz de Direito em substituição, comigo Oficial
Escrevente Auxiliar do juiz, no fim assinados, feito o pregão de estilo,
compareceram: o Ministério Público, Dr. YYY, o Autor do fato e a defensora
pública Dra. ZZZ. Pelo juiz foi dito que ouvido o autor do fato, este confirma o uso
de drogas e mostra-se interessado em tratamento de drogadição. Pelo juiz foi dito
que: acolhendo a manifestação do Ministério público, suspendia o feito,
encaminhando o autor do fato para acompanhamento e tratamento de drogadição,
se necessário, Junto á rede pública, através do CIARB – Justiça Terapêutica, pelo
prazo a ser determinado pela equipe da Justiça Terapêutica, não superior a seis
meses, salvo com concordância do autor do fato. Cumprindo o prazo fixado, o feito
será extinto sem julgamento do mérito, por falta de justa causa e pela perda do
objeto. Fica designado para o dia ....., ás ....., para comparecimento do autor do fato
junto ao CIARB. Presente intimados. Oficie-se o CIARB. Diligencias. Após o
prazo transcorrido, voltem conclusos. Nada mais.” (Caso 16, p .23)

Na prática, a única diferença desse encaminhamento ao tratamento para o derivado da
transação penal, é que tal é aplicado como “pré-transação penal”, de modo que o direito
de transacionar em eventual novo problema resta preservado. Não obstante as boas
intenções da proposta, penso que tal é insuficiente, principalmente pelo fato de que não
evita o contato do flagrado com o sistema penal, sempre danoso. Além disso, a idéia de
opção pelo tratamento resta bastante relativizada. No universo opressivo de uma sala de
audiências, sendo cobrado pelo Estado Punitivo em razão de algum tipo de falta, e com
completo desconhecimento sobre a lei, o sujeito considera uma bela opção submeter-se
a um “tratamento voluntário”. Em verdade, pouco há de escolha, e o fato de que em
nenhum dos casos verifiquei uma negativa do autor do fato sobre tal proposta, parece
ser um indício do afirmado. Não por outro motivo, conforme WEIGERT, “refere o
promotor [do JECrim do Partenon] que em 99% dos casos os réus aceitam o
encaminhamento e, depois de cumpridas as condições do CIARB, o feito é
arquivado.”
240


No Foro Regional da Tristeza há uma maior dureza na resposta penal adotada.
Em tal juizado, nos casos em que o autor do fato já fora beneficiado com transação
penal, o Ministério Público oferece suspensão condicional do processo, com condições
bastante gravosas. Condições, aliás, mais gravosas que todas as penas previstas para a
posse de drogas aplicadas conjuntamente, o que por certo é uma ilegalidade. Nos

240
WEIGERT. Uso de drogas e Sistema Penal: Entre o Proibicionismo e a Redução de Danos. RJ: Lumen
Juris, 2009, p. 157.
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134
processos nos quais foi ofertada transação penal, tal consistiu em medida terapêutica,
por meio do CIARB, pelo prazo mínimo de 4 meses. Ademais, no Juizado Especial
Criminal da Tristeza não há conivência com o descumprimento dos acordos judiciais.

No Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Sarandi, nos casos de
transação penal, foi oferecida a medida de comparecimento a programa ou curso
educativo, em realidade, encaminhamento ao CIARB. Entretanto, nos casos de
descumprimento da medida, ou era aplicada a pena de multa, ou o juízo sentenciava,
condenando os sujeitos às penas cominadas no art. 28 da Lei de Drogas. Eis um
exemplo de uma pena de advertência aplicada em sede de sentença:

Isto posto, julgo PROCEDENTE a presente ação penal para condenar WAL por
incurso nas sanções do artigo 28 da Lei 11.343/2006. No presente caso as penas de
prestações de serviços à comunidade e medida sócioeducativas se mostram
inviáveis, pois o réu se encontra recolhido ao Presídio central e, portanto
impossibilitado de cumprir estas reprimendas. Assim fixo a pena de advertência
prevista no inciso I do art. 28 da Lei 11.343/2006.

No Foro Regional do Alto Petrópolis, uma situação interessante. Nos casos 63,
64 e 65, houve absolvição por atipicidade da conduta, ainda na época da Lei 6368/76. O
Magistrado diz que,

(...) o fato de portar entorpecente para uso pessoal é prática que diz respeito à
faculdade de cada um de se decidir ou agir segundo sua própria determinação,
estado inerente ao homem livre que assume as eventuais conseqüências em seu
ambiente privado, não interferindo no de seu semelhante. (Caso 63, p. 29)

O Ministério Público recorreu de tal decisão e na segunda instância, mesmo com
parecer do Promotor de Justiça pelo improvimento da apelação, a Turma Recursal
julgou procedente o recurso. A absolvição foi reformada e o processo voltou a tramitar.
Em razão disso, em alguns dos casos do Alto Petrópolis, houve prescrição da pretensão
punitiva. No mais, neste juizado verifiquei uma maior variação das respostas, pois era
aplicada transação penal consistente em prestação de serviços à comunidade ou medida
terapêutica, bem como uma “suspensão extra-legal do feito pelo prazo de 6 meses,
como medida terapêutica, período no qual a autora do fato se submeterá a uma
avaliação e atendimento específico na área, a ser coordenado pelo CIARB.” (Caso 66,
p. 31), a mesma pré-transação penal aplicada no Juizado do Partenon.

No Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Quarto Distrito, o
Ministério Público manifestou-se, em todos os casos, pelo arquivamento do feito, em
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135
parecer fundamentado na dogmática crítica. Tal pedido de arquivamento foi sempre
acolhido pelo juízo. De modo que, em tal juizado, sequer era marcada audiência, pois os
casos eram arquivados de plano.

Por fim, no Foro Regional da Restinga, foi possível perceber uma maior
atuação da Defensoria Pública. Em tal juizado ocorreram os únicos casos de negativa
em aceitar a proposta de transação penal consistente em medida terapêutica. O Defensor
Público manifestava-se no sentido que as penas cominadas são sucessivas, de modo que
a pena de advertência é que deve ser aplicada primeiramente. Nesses casos, o próprio
Ministério Público concordava com o argumento da Defensoria Pública, e prontamente
oferecia a advertência como transação. Vejamos um exemplo:

(...) pelo Dr. Juiz foi dito que o autor do fato não aceitou a proposta, sob o
fundamento de que a defesa entende que as medidas previstas no art. 28 da Lei de
Tóxicos são progressivas e sucessivas, devendo necessariamente no caso do autor
do fato primário e sem antecedentes, ser aplicada inicialmente a advertência, e
assim sucessivamente, na ordem prevista no referido dispositivo legal. (Caso 96, p.
14).

No mais, em alguns casos a transação penal consistente em medida terapêutica –
comparecimento ao CIARB – restou aceita; em outros, foi oferecida diretamente a
advertência como transação; ainda, era oferecida diretamente transação na forma de
multa, mesmo inexistindo previsão legal neste sentido. Nos casos de descumprimento
dos acordos, ou de não comparecimento do autor do fato na audiência aprazada, o
Ministério Público requeria o arquivamento do feito, pela aplicação do princípio da
insignificância (Caso 94, por exemplo).

A análise mais global demonstra a variabilidade das respostas adotadas. Um
primeiro dado interessante é o fato de que, dos casos em que houve intimação para
audiência, e de tais se excluem aqueles no qual houve absolvição e, consequentemente,
arquivamento, antes mesmo da designação da audiência, 85,4% compareceram ao ato, e
14,6% não compareceram. Os que não compareceram, ou não foram encontrados no
endereço fornecido para intimação, ou não foram à audiência embora tenham sido
intimados.

O próximo gráfico demonstra a freqüência das respostas penais adotadas.
Vejamos:
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136


Os casos de “arquivamento” referem-se aos arquivamentos derivados de
decisões fundamentadas na dogmática critica (princípio da insignificância ou
atipicidade do delito de posse de drogas para consumo em razão de sua
inconstitucionalidade), bem como aos arquivamentos que eram adotados por motivos de
conveniência do juizado, nos casos de não-comparecimento dos flagrados aos atos do
processo.

Anita foi flagrada fumando um baseado, e o seu processo foi arquivado após
mero pedido de adiamento da audiência realizado por seu advogado. Vejamos o que ela
diz:

Não me lembro se pediram, mais começaram a revistar as nossas bolsas carteira
assopravam cada bolsinho da carteira, até que em um certo momento a brigadiana
encontrou na minha mochila um punhadinho de farelos de briff. Chamou uma
viatura pois ia nos fichar, disse q não precisariamos ir até a delegacia pois a poucos
tinha uma entrado uma lei q podiam fichar no local mesmo. Chegou a viatura nos
ficharam fizeram agente assinar uma papelada e apesar de nós duas falarmos q
compramos aquele punhado juntas eles fizeram questão de me colocar como
culpada do caso e a minha amiga como testemunha. Quiseram saber quem tinha
nos vendido, pra não dedurar o cara e dar um problema ainda maior mentimos
dizendo q ele não estava mais lá, e de alguma forma não me lembro agora como
nos fizeram terrorismo por não ter dito quem nos vendeu, como se aquilo
aumentasse a nossa pena...então disseram q dentro de 3 meses ia chega uma carta
na minha casa me intimando a comparecer ao tribunal. A carta chegou então falei
com o pai do Nivaldo e ele me encaminhou a um amigo dele q trabalho no
escritório com ele, o Murilo, só q no dia da audiência o Murilo não podia pois tinha
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137
outra marcada em cachoeira do sul, então ele mandou uma carta, email sei la oq
remarcando essa audiência então não remarcaram e resolveram arquivar o caso por
insignificância, 2 gramas.

Nas suas palavras é interessante perceber as representações, de uma pessoa
bem informada, que possui curso superior, sobre a justiça penal. Anita assinou uma
“papelada”, onde constou que ela era “culpada”. Foi intimada a comparecer no
“tribunal”, e achou que seu advogado mandou uma “carta” ou um “email”, requerendo o
adiamento da audiência. Melinda, tanto quanto Joseph K., personagem kafkiano, pouco
sabia sobre o “processo” que estava tendo início naquele momento: “Que tipo de
pessoas eram aquelas? Do que elas falavam? A que autoridade pertenciam?
241
,
pergunta-se K., quando está sendo detido pelos guardas.

Por outro lado, nomeei “Justiça Terapêutica” a categoria que abrange os casos
de oferecimento extra-legal de tratamento (pré-transação penal). A categoria “processo
penal” abarca os casos nos quais as medidas alternativas ao processo não foram
efetivadas. Em nenhum deles, o processo penal foi instruído em razão da negativa do
flagrado em aceitar as medidas substitutivas. No caso 56, por exemplo, o autor do fato
não compareceu ao CIARB, pois estava segregado no Presídio Central. Por tal motivo,
o processo foi instruído, e o autor do fato condenado. Quando houve recusa, por parte
do flagrado e da defesa, da transação penal, como no caso 96, o Ministério Público
propôs nova transação penal, menos gravosa, de maneira que a segunda proposta foi
aceita, não tendo havido instrução processual. Há, por certo, grande quantidade de
arquivamentos, e tais derivam, com algumas exceções, da visão dos operadores
jurídicos de que não vale a pena instruir processos cujo resultado será a imposição de
penas tão brandas.

Creio que o dado mais relevante é o fato de que a resposta mais adotada é a
“Justiça Terapêutica extra-legal”, sobretudo porque, para além dos argumentos bem
intencionados sobre sua proposta terapêutica, trata-se de restrição extra-legal de direitos,
o que não deve ser admissível, sob hipótese alguma, no âmbito da justiça penal. No caso
do Juizado Especial Criminal do Partenon, especificamente, no qual o promotor de
justiça considera inconstitucional o delito de posse de drogas para consumo
242
, parece
faltar um pequeno passo para que se adote a decisão lógica para quem considera uma

241
KAFKA, Franz. O processo. Tradução de Modesto Carone. SP: Companhia das Letras, 2005, p. 10.
242
WEIGERT. Uso de drogas e Sistema Penal, p. 155.
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138
criminalização inconstitucional, que é a de requerer o arquivamento imediato. Se o tipo
incriminador é inconstitucional, porque razão submeter o sujeito às agruras da
cerimônia degradante que é uma audiência de um caso penal? Se 99% dos sujeitos
aceitaram submeter-se ao tratamento, isso não significa que muitos casos de consumos
não-problemáticos, que não necessitariam de tratamento, aceitaram-no apenas por temer
os agentes estatais presentes no ato?

Ainda, em alguns casos, foi proposta suspensão condicional do processo, que
previam condições bem mais gravosas do que eventual pena que viesse ser aplicada em
caso de condenação. Todas as propostas de suspensão condicional do processo foram
aceitas.

Nos casos em que houve transação penal, foram aplicadas as seguintes penas:


A mera necessidade de criação da categoria “Outros” já é um péssimo
indicativo. A categoria “Outros” abarca a imposição de termos ilegítimos no acordo
penal, justamente em razão da ausência de previsão legal. As medidas educativas, em
verdade, significam medidas terapêuticas, que, na prática, redundam encaminhamento
aos grupos de Narcóticos Anônimos, diretamente, ou através do CIARB. Somadas as
medidas terapêuticas derivadas da transação penal, e as medidas terapêuticas extra-
legais, possível notar uma preponderância da resposta terapêutica.

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139
Nos casos em que houve instrução processual e decisão sobre o caso penal, a
situação foi a seguinte:



Como se percebe, nenhuma absolvição. As prescrições ocorreram naqueles
casos já expostos, nos quais houve reforma da decisão absolutória por ocasião do
julgamento da Turma Recursal da apelação interposta pelo Ministério Público.

Abaixo, as penas aplicadas:


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140
Na aplicação da pena de advertência, ao menos no que ficava registrado no
papel, não havia discurso fundamentado sobre os males causados pelas drogas. Apenas
advertia-se o réu das “conseqüências negativas da dependência química pelo uso de
entorpecentes”. Vejamos um exemplo:

Ante ao exposto, julgo PROCEDENTE, a denúncia para APLICAR ao réu JRSS,
com fulcro no art. 28 da Lei 11.343/06, a pena de advertência.

Dosimetria da pena:
Antecedentes não são bons, havendo registro de condenação. O réu tinha
consciência da ilicitude dos atos praticados e poderia conduzir-se de acordo com
esse entendimento; conduta desajustada; personalidade não há registro nos autos.
Motivação, circunstâncias e conseqüências normais às espécie, o que leva a
conclusão de que a pena de advertência é o mais adequado por seu aspecto menos
gravoso ao acusado.

Transitada em julgado, procedam-se às anotações e as comunicações devidas.
Expeça-se mandado para intimação do réu da pena ora imposta, advertindo-o das
conseqüências negativas da dependência química pelo uso de entorpecentes e
reincidência lhe imporá as sanções previstas na Lei 11.343/2006. (Caso 61, p. 47)

Se, por um lado, a pena de advertência deve deixar aqueles que não crêem na
solução punitiva, de algum modo, satisfeitos, pois extremamente branda, por outro,
resta a conclusão de que, ao elaborar a nova lei de drogas, faltou muito pouco para o
legislador adotar a medida que realmente deveria ter sido adotada, ou seja, a
descriminalização. Isso porque, além de dar cabo a esse universo um tanto quanto
bizarro do direito penal do uso de drogas, o importante é desabilitar o poder das
agências policiais, de modo a divorciar completamente as drogas do sistema penal. Não
obstante, é fundamental lembrar que a pena de advertência possui forte caráter
moralizador, o que viola frontalmente os direitos fundamentais. É o que refere
CARVALHO:

O caráter moralista e normalizador da sanção de advertência – seja como pena
restritiva de direito (art. 28, I), como alerta à recusa injustificada à prestação de
serviços comunitários ou como advertência ao não comparecimento ao programa
ou curso educativo (art. 28, §6º) – ofende o núcleo rígido dos direitos fundamentais
constitucionalmente previstos. A admoestação prevista na Lei de Tóxicos adquire
como objeto único e exclusivo a reprovação da opção pelo consumo de
determinadas substâncias, fruto do livre exercício da autonomia da vontade do
usuário. Não por outro motivo é possível identificar nesta estrutura de incriminação
e na resposta penal ao desvio punível do consumo de drogas fortes aproximações
aos modelos penais de autor.
243



243
CARVALHO. A política criminal de drogas no Brasil, p. 282.
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141
Nesse ponto, a análise centrou-se na leitura do que restava escrito nos
documentos oficiais. Passo agora às impressões derivadas da observação das audiências.

3.4.1. AS AUDIÊNCIAS E AS “AUDIÊNCIAS COLETIVAS”

Uma estudante de doutorado chamada Melinda foi flagrada juntamente com
seu namorado, enquanto queimava um num parque da capital. Diante do
desconhecimento da lei e das possíveis conseqüências que podem decorrer do “crime”
pelo qual teve de submeter-se à abordagem policial, liga imediatamente para seu amigo,
advogado criminalista. O advogado a tranqüilizou, disse que em breve ela seria
intimada para uma audiência, e o máximo que aconteceria é ela ter que comparecer a
algumas sessões de grupos de Narcóticos Anônimos. Que, ela, artista, anarquista e
intelectual, acharia o ato um tanto quanto bizarro, mas que valeria a pena, pois poderia
encarar toda a cerimônia do ponto de vista de uma observação participante, como se
estivesse a observar um fenômeno social. Diz, sobretudo, que, de maneira nenhuma, sua
viagem ao Canadá, para a conclusão da pesquisa de doutorado, seria afetada por tal
questão penal.

Sua audiência foi marcada por um dos Juizados do Foro Central que não faz
“audiência coletiva”, e que oferece, geralmente, transação penal na forma
comparecimento a programa ou curso educativo. Na prática, fornece uma ficha na qual
os comparecimentos aos Narcóticos Anônimos devem ser carimbados. Ao final, a ficha
cheia de carimbos deve ser entregue no Juizado. Em audiência, a juíza ofereceu à
estudante a proposta padrão que estava sendo adotada naquele momento:
comparecimento a doze sessões de Narcóticos Anônimos. O advogado tentou fazer uma
contraproposta, dizendo que Melinda estava envolvida com sua pesquisa de doutorado,
o que lhe estava tomando muito tempo, e que, além disso, viajaria ao Canadá em menos
de dois meses. Por isso, requereu que fosse aplicada a advertência como transação, ou
que, ao menos, se reduzisse pela metade o número de comparecimentos às sessões dos
Narcóticos Anônimos. O promotor de justiça, disse, então, que justamente por ser uma
estudante de doutorado é que a “drogadita” deveria ter conhecimento sobre os males
causados pelo uso de drogas. Argumentou que é possível assistir a mais de uma sessão
por dia, e que assistindo a duas sessões por dia, em uma semana obteria os doze
carimbos. O juiz concordou com tal argumento, disse que tal serviria para que Melinda
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142
pensasse sobre seu “vício”. Melinda, então, aceitou a proposta. Todos lhe desejaram boa
sorte no doutorado.

A pequena história serve para ilustrar o principal aspecto das audiências:
qualquer tipo de relação entre as pessoas e as substâncias é tratado da mesma forma. O
uso de drogas é sempre uso problemático, vício, dependência química, e todas as
pessoas que usam drogas necessitam de tratamento, ou, no mínimo, precisam ser
advertidas sobre os malefícios causados pelas drogas. Isto acaba por gerar um
insuperável distanciamento entre o discurso das autoridades e o sujeito que está sendo
julgado no ato ritual da audiência. Há um completo silenciamento daquele que é o
protagonista da audiência. Literalmente, ele pouco fala, não raro não fala nada,
concordando com os termos da transação penal com um mero acenar de cabeça. Quando
fala, geralmente é para mentir, para explicar-se, dizer que está tentando largar o “vício”,
que faz tratamento psiquiátrico, que não usa drogas desde que foi flagrado pela polícia,
que estava em “más companhias”, etc. Não observei nenhum caso no qual o sujeito
tivesse dito, por exemplo, que é um usuário convicto, que mantém uma relação saudável
com a substância que consome, e que acha absurdamente ilegítimo aquele procedimento
ao qual está a se submeter.

A unificação imprópria das relações absolutamente díspares entre as pessoas e
as substâncias se dá por meio das categorias médicas, sobretudo da idéia de dependência
química. Todo o uso de drogas representa dependência química, no mínimo,
potencialmente. Somado a isso, o discurso das autoridades é o discurso do senso
comum, das teorias do dia-a-dia. A impropriedade de tratar pessoas que mantém
diferentes tipos de consumos, e de distintas substâncias, da mesma forma, fica bastante
exposta nas chamadas “audiências coletivas”.

As “audiências coletivas” foram criadas por motivos de economia processual,
para dar conta do grande número de audiências que devem ser realizadas nos casos de
porte de drogas para consumo. Consiste em unificar no mesmo ato a audiência
preliminar referente a dez termos circunstanciados. Não há qualquer tipo de divisão
dirigida, a partir da droga, por exemplo, todo o tipo de caso é misturado. O juiz emite
um discurso sobre a resposta penal ao uso de drogas, explicando que, como foi a
primeira vez em que foram flagrados, bem como em razão da pequena quantidade de
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143
droga apreendida, haverá apenas uma audiência pedagógica, sem qualquer outro efeito:
a já conhecida pré-transação penal. Abaixo, um exemplo de ata de uma audiência
coletiva. Trata-se de ata do 2º Juizado Especial Criminal, que não está inserida nos
dados utilizados para a análise quantitativa, conforme já expliquei:

“TC n.º 20800651325. Presente PRS, 34 anos, 3º grau incompleto, curso de
biologia, trabalha em um hospital, é usuário de maconha desde 2002. Nunca se
submeteu a um tratamento, refere que não está dependente e que está superando o
vício sem auxílio externo. Presente ao ato também a representante do Ministério
Público, Dra. XXX e da Defensoria Pública, Dra. YYY. TC n.º 20800651597.
Presente MKP, acompanhado do doutor RSP. Presente também o pai de MKP, o
Sr. DMS. MKP está com 19 anos de idade, terminou o ensino médio e está prestes
a prestar o vestibular para direito na PUC. Refere que nunca usou entorpecentes,
que estava apenas em más companhias por ocasião do fato. Aduziu, outrossim, que
durante a abordagem policial era o único que não registrava antecedentes, que
estranhamente a Brigada imputou-lhe a responsabilidade por esta posse de
entorpecente. Trouxe exame laboratorial atestando que não há resquícios de drogas
em amostra de urina coletadas em 28 de novembro último. TC n.º 20800690770.
Presente WOL, de 18 anos de idade, 2º grau completo, trabalha como auxiliar
administrativo e cursa mecânica industrial na CETEMP em São Leopoldo. É
usuário de maconha há 2 anos, desde o fato que determinou a instalação deste TC,
não mais usou drogas. Refere que vai ser pai em breve, e que isso o fez repensar a
questão da drogadição. TC n.º 20800699034. Presente PRS, 26 anos, trabalha como
servente de obra. É usuário de maconha há 12 anos. Nunca se submeteu a
tratamento, refere dependência e, inicialmente, não demonstrou interesse em buscar
auxílio para a superação do problema da drogadição. TC n.º 2080699514. Ausente
APL, presente seu pai, Sr. EVL, trazendo atestados de freqüência e trabalho de seu
filho no estado de SC, cujas cópias são determinadas juntadas aos autos, bem como
informações complementares ao TC de fls. 24 e 55, que referem a comunicação de
falsa identidade por parte de seu outro filho, MROL, que registra seis condenações
criminais por delitos contra o patrimônio, sendo que ele tão logo obteve liberdade
nesses processos em razão da progressão da pena, sumiu, e nos feitos em que é
abordado pela autoridade policial, para evitar novo recolhimento ao presídio, acaba
dando o nome de seu irmão. O juízo, após explicar o caráter pedagógico e
orientador desta audiência preliminar, entendeu em deliberar em relação a PRS e
WOL e, ainda, MKP, a determinação de baixa e arquivamento. Após as orientações
sobre os malefícios que a droga pode causar ao organismo humano, tem como
conseqüências jurídicas e praticas para a vida, com relação a manutenção deste tipo
de comportamento, consignando, outrossim, a negativa de MKP, com relação ao
delito que deu origem ao presente TC. No entanto, em razão da ínfima quantidade
de droga apreendida, no entender do MP, conhecimento deste juízo já de longa
data, a não justificar justa causa para o prosseguimento da tramitação do feito,
considerando atípica esta conduta, ainda mais, praticada em grupo, impõe-se o
arquivamento por estas razões de natureza técnica. Com relação a PRS, tendo em
conta a passagem anterior pelo mesmo delito, em sede de utilização de justiça
terapêutica, foi ele encaminhado ao CIARB, rede de tratamento biopsicosocial,
com obrigação de freqüência de 12 sessões de grupo de tratamento de drogadição,
tipo auto-ajuda ou similares, ficando ele ciente de que deverá comparecer naquele
centro, no dia 06/01/09, às 10h, ficando este feito suspenso por 4 meses,
aguardando os comprovantes. E, por fim, em relação a APL, tendo em conta a farta
documentação trazida pela pai de A., atestando a utilização indevida do nome de
seu filho pelo irmão, entendia em determinar também a baixa e o arquivamento do
TC em exame, porém com exclusão do nome de A. dos registros do presente TC.
(Processo n.º 20800651597, p. 43).

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Do ponto de vista deste trabalho, há completa discordância sobre o que
geralmente era afirmado em audiência, mas isso não impede que seja dito que o
Magistrado sempre conduzia o ato com bastante respeito. Após explicar as
conseqüências penais da conduta, e as que seriam adotadas especificamente pelo juizado
que preside, o juiz seguia com o discurso. Referia que a opção pela pré-transação penal
era como um voto de confiança, e que tomava tal atitude para que os sujeitos não mais
voltassem ao juizado, em razão de eventual reincidência. Que as drogas fazem mal à
saúde, mesmo as lícitas, mas que, se o legislador optou por proibir apenas certas drogas,
isso significa que as proibidas são ainda mais danosas à saúde. Segue afirmando que,
assim como o promotor de justiça (que está ao lado, observando e concordando com o
que está sendo dito), entende que o uso de drogas é um problema de saúde, pois causa
dependência, e o vício faz com que as pessoas percam o controle sobre os seus atos.
Ressalta que, não obstante a brandura das respostas penais, o principal problema de ser
condenado é perder a primariedade, pois isso influiria na busca por emprego, ou, disso,
poderia decorrer até o fim de um namoro: “imaginem se a namorada ou o namorado de
descobrem que vocês foram condenados criminalmente”? E que, além disso, aqueles
que já foram fichados criminalmente serão tratados de maneira “diferente” pela polícia,
em eventual abordagem policial.

Após tal intróito, o juiz passa a indagar os presentes na audiência. Faz as
seguintes perguntas: Qual droga usa? Há quanto tempo? Idade? O que faz da vida? Está
tentando parar? Em uma das audiências observadas, dez pessoas foram devidamente
intimadas, mas apenas quatro compareceram. A primeira a ser indagada foi uma
menina, de vinte anos de idade, a única que estava acompanhada por advogado. Disse
que trabalhava como atendente de uma lan house, e que consumia maconha desde os 17
anos. Que estava tentando parar de fumar maconha, inclusive estava fazendo tratamento
psiquiátrico, por meio de psicofármacos. Então, seu advogado apresentou atestado do
psiquiatra. A segunda questionada foi outra mulher, bastante humilde, de 33 anos.
Camelô, moradora da cidade de Viamão, na região Metropolitana. Explicou que era
viciada em crack, que estava tentando parar, sem qualquer ajuda profissional, apenas
com auxílio dos familiares, mas que não estava tendo êxito. O terceiro, um homem, de
39 anos. Disse que não era consumidor de drogas, que a cocaína referente ao caso tinha
sido encontrada com seu irmão, que dava o seu nome para fugir da responsabilidade
penal. O último foi um garoto de 18 anos. Estudante do terceiro ano do ensino médio,
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de uma escola tradicional da capital, flagrado com maconha. Disse, também, que estava
fazendo tratamento para largar o “vício”. Questionado, disse que faria vestibular para
fisioterapia. Nesse momento, o promotor de justiça referiu que a forma com a qual
estava vestido, de boné e camiseta regata, bem como seu linguajar, eram condutas que
não “combinam com a de um fisioterapeuta”. Após, todos foram apenas advertidos, na
forma da “pré-transação penal”, exceto aquele que alegou a “negativa de autoria”, que
foi imediatamente acatada pelo juízo, mesmo sem qualquer tipo de comprovação.

As audiências coletivas são todas semelhantes a essa. Entretanto, as respostas
variavam, e não foi possível encontrar qualquer lógica para explicar a opção sobre a
medida que era adotada no oferecimento da transação penal. Numa audiência parecida
com a narrada, a única diferença foi que a transação oferecida foi a de comparecimento
a doze sessões de Narcóticos Anônimos, o que foi aceito por todos. Apenas um dos
sujeitos, disse que morava em cidade do interior, onde não havia grupo de Narcóticos
Anônimos. Então o promotor de justiça respondeu: “não há problema, pode ser também
nos Alcoólicos Anônimos...” Em outro ato, de oito réus intimados, cinco compareceram.
Quatro flagrados com maconha, um com crack. O juiz passou a advertir os
“maconheiros” usando o sujeito flagrado com crack como exemplo, referindo que era
naquele estágio que eles poderiam chegar, caso continuassem com a prática tóxica.
Bastante sensibilidade para tratar do assunto, como podemos notar.

O que mais impressiona, além do fato de que os discursos sobre o uso de
drogas em nada se diferenciam do mais ralo senso comum, são as aproximações
indevidas que são realizadas, sobretudo nas audiências coletivas. Entende-se possível
tratar da mesma forma, no mesmo ato e adotando as mesmas respostas, usos de drogas
que em nada se relacionam uns aos outros. A completa incapacidade do direito penal
para lidar com questões complexas resta exposta em toda a sua ineficácia. Além disso,
por mais que se fale, em termos teóricos, das possibilidades terapêuticas que poderiam
ser adotadas por meio do sistema penal – do que este trabalho discorda antes mesmo da
análise utilitária – o fato é que há uma enorme pobreza terapêutica no âmbito da justiça
penal do uso de drogas, como veremos no próximo tópico,




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3.4.2. A POBREZA TERAPÊUTICA

Eu deveria parar de beber
Porque não estou fazendo bem a quem me ama
Devia me converter ao induismo
Comida vegetariana, mantras e Krishna
(...)Aleluia, Hare Krishna
Krishna Krishna aleluia...
(Jupiter Maça)

Conforme já vimos, a reposta terapêutica é a que predomina nos juizados da
capital. O encaminhamento à chamada “Justiça Terapêutica” ocorre pelas mais diversas
formas, tais quais: a) pré-transação penal; b) transação penal na forma de
comparecimento a programas ou cursos educativos; c) requisito da suspensão
condicional do processo; d) aplicação de pena. As “terapias”, na prática, consistem em
comparecimento a grupos de Narcóticos Anônimos, e tal pode ocorrer a partir da
mediação do CIARB, ou de maneira direta, quando o próprio autor do fato comprova,
junto ao cartório, o comparecimento a sessões de Narcóticos Anônimos. Existiria ainda
a hipótese de terapias privadas, para aquelas pessoas de melhor nível sócio-econômico,
sendo que “nessas situações a pessoa deverá comprovar no cartório do JECrim que
cumpriu com seu terapeuta particular o tratamento imposto pelo juiz”.
244
Tal hipótese
não foi encontrada na análise processual, mas certamente é possível que ocorra, tendo
em vista que qualquer tipo de terapia acaba sendo aceita. É preciso falar que o rótulo
“Justiça Terapêutica” é uma mera idéia, a abarcar a pobreza das práticas terapêuticas
adotadas pelos juizados da capital.

As duas críticas mais contundentes à idéia da Justiça Terapêutica acabaram
confirmando-se: o tratamento compulsório e a ausência de estabelecimento de
distinções entre usuários e dependentes. Conforme CARVALHO,

O principal marco do projeto é o da substituição de penas pelo de tratamento
(medidas), reduzindo as taxas de prisionalização de pessoas envolvidas com
substâncias entorpecentes. Segundo os idealizadores, a legislação brasileira, em
distintos institutos (penas restritivas de direitos, suspensão condicional da pena,
transação penal, suspensão condicional do processo e medidas socioeducativas),
autorizaria, quando o delito praticado envolvesse o consumo de drogas ilícitas, a
adoção do tratamento compulsório.

244
WEIGERT. Uso de drogas e sistema penal, p. 150.
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147
Nota-se, ao avaliar a estrutura ideológica e as funções não declaradas do programa,
que o projeto Justiça Terapêutica não apenas retoma os modelos defensivistas que
substituem penas por medidas de segurança, como reedita perspectiva sanitarista na
qual o usuário de drogas é visto invariavelmente como doente crônico, dotado do
atributo periculosidade. Não obstante, ao vincular na mesma categoria usuários e
dependentes, não estabelecendo as necessárias distinções, o programa estabelece
pautas moralizadoras e normalizadoras próprias de modelos penais autoritários
fundados no periculosismo. Em realidade, sob o declarado fim de auxiliar, via
tratamento, o indivíduo envolvido com droga, o projeto lhe retira a qualidade de
sujeito, negando-lhe a possibilidade de fala e interação.
245


Com exceção do Juizado Especial Criminal do Partenon, onde não há
obrigatoriedade, o tratamento imposto via direito penal do uso de drogas, em Porto
Alegre, é compulsório. Ademais, não há qualquer tipo de diferenciação entre as práticas
tóxicas. Mesmo que se procure com atenção, não é possível encontrar lógica para
entender em que tipo de caso o tratamento é adotado como pena. Não é realizada
nenhuma triagem entre os usos, sequer relacionado à droga que foi apreendida, por
exemplo. Aliás, mesmo se pretendesse realizar algum tipo de triagem, os operadores do
direito que estão a lidar com a questão não teriam capacidade para tanto. O que se
verifica, é uma escolha aleatória, de maneira que casos de usos não problemáticos são
remetidos constantemente a tratamento, ao passo que usos problemáticos não são.

Em realidade, há uma enorme pobreza terapêutica. Não existe nenhum tipo de
saber sobre os usos problemáticos de drogas a fundamentar os encaminhamentos ao
programa. A Justiça Terapêutica consiste, na prática, num emaranhado de soluções
improvisadas. Como já narrado no tópico anterior, o promotor de justiça de um dos
juizados entende plenamente possível que um sujeito “viciado em maconha”, cumpra
seu tratamento em um grupo de Alcoólicos Anônimos, ante a inexistência de grupo de
Narcóticos Anônimos em sua cidade, e tal situação patética serve para ilustrar a pobreza
terapêutica.

Se é necessário tomar a sério os casos de usos problemáticos de drogas, então
é imprescindível que se adotem outras soluções estatais que não a atual. Cumpre afastar
definitivamente os casos de posse de drogas do sistema penal. Desse modo, os casos de
consumos problemáticos podem ser tratados pelo sistema de saúde, sobretudo pela
atuação dos agentes redutores de danos. Se a idéia estatal é utilizar as estruturas dos
grupos de Narcóticos Anônimos para lidar com os consumos problemáticos, então é

245
CARVALHO, A política criminal de drogas, pp. 289/290.
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148
absolutamente desnecessária a atuação das agências punitivas. Bastaria capacitar mais
agentes de redução de danos, que poderiam informar os consumidores sobre os locais
onde ocorrem as reuniões. Provavelmente isso aconteceria muito antes do que está a
acontecer atualmente, apenas após o indivíduo ser selecionado pelo sistema penal.

Não se trata de desconsiderar e de diminuir a importância dos danos
individuais e sociais que podem decorrer do uso problemático de drogas. Trata-se, ao
contrário, de considerá-los em toda a sua complexidade, e justamente por isso, não
seguir acreditando que a solução pré-fabricada do direito penal possua qualquer tipo de
eficácia.

Além disso, é necessário superar a própria idéia de que o uso de drogas não é
uma questão penal, mas uma questão de saúde pública. Isso porque a maioria das
práticas tóxicas não são problemas de saúde publica, pela simples razão de que não são
sequer problemas; ou seja, não se pode considerar o uso de drogas um problema em si
mesmo. As práticas tóxicas inseridas nos rituais do cotidiano acabam por ocupar
diversos espaços no âmbito das existências, e não são inerentemente negativas.
Significa dizer que os usos não problemáticos de drogas não dizem respeito, nem aos
profissionais da saúde, nem aos profissionais do direito. O que diz respeito aos
profissionais da saúde, são apenas os consumos problemáticos, tanto quanto as demais
patologias do consumo. Em suma, nem todos os usos de drogas demandam terapias; aos
que demandam, o sistema penal, especificamente os juizados especiais criminais de
Porto Alegre, pouco têm a oferecer.

3.5. OVERDOSE DE ILEGALIDDES - A PARCA LIMITAÇÃO JURÍDICA AO
CONTROLE PENAL DO USO DE DROGAS

ZAFFARONI, ao analisar a dinâmica de atuação do sistema penal e das
agências punitivas, busca despertar os juristas de seu delírio narcísico, ao denunciar o
parco poder que exercem no âmbito do sistema penal:

O poder direto dos juristas dentro do sistema penal limita-se aos raros casos que as
agências executivas selecionam, abarcando o processo de criminalização
secundária, e restringe-se à decisão de interromper ou habilitar a continuação desse
exercício.
246



246
ZAFFARONI. Direito Penal Brasileiro, p. 64.
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149
É que o autor argentino tem como pressuposto uma concepção dinâmica de
Estado de Direito, que considera que tal é um projeto inacabado, que deve ser
constantemente afirmado, como forma de conter o Estado de Polícia (poder punitivo)
que, por sua vez, está permanentemente tentando expandir-se. A partir daí,
ZAFFARONI busca construir um sistema que já parte da deslegitimação do poder
punitivo, mas que o admite enquanto fato de poder, e por isso tal sistema é construído
sob os alicerces de uma decisão pré-sistemática: o objetivo do direito penal é conter o
poder punitivo. Nas palavras do autor,

O direito penal deve programar o exercício do poder jurídico como um dique que
contenha o estado de polícia, impedindo que afogue o estado de direito. Entretanto,
as águas do estado de polícia se encontram sempre em um nível superior, de modo
que ele tende a ultrapassar o dique por transbordamento. Para evitar isso, deve o
dique dar passagem a uma quantidade controlada pelo poder punitivo, fazendo-o de
modo seletivo, filtrando apenas a torrente menos irracional e reduzindo sua
turbulência, mediante um complicado sistema de comportas que impeça a ruptura
de qualquer uma delas e que, caso isto ocorra, disponha de outras que assegura a
contenção. O direito penal deve opor ao poder punitivo uma seletividade de sinal
trocado, configurando perante ele uma contra-seletividade. A proposta de uma
constante contrapulsão jurídica ao poder punitivo do estado policial, como um
unfinished, importa atribuir ao juiz penal a função de um personagem trágico, cujas
decisões nunca aparecerão como completamente satisfatórias, porque deve opor
toda sua resistência ao poder punitivo.
247


No caso do controle penal do uso de drogas em Porto Alegre, encontrei as
mais diversas ilegalidades, e quase nenhuma limitação jurídica. Em verdade, a atuação
judicial é praticamente inexistente, limitando-se a referendar o termo circunstanciado
firmado pela polícia e a proposta de transação escolhida mecanicamente pelo promotor
de justiça. Na maioria dos casos, utiliza-se um modelo já previamente salvo no
computador, e se altera apenas os dados dos réus. Uma receita, pré-fabricada, para todos
os tipos de caso. É claro, estamos no âmbito da justiça negociada, que admite uma
maior relativização das garantias. A idéia aqui não é repetir a crítica garantista à atuação
dos juizados especiais criminais, não obstante o fato de concordar com a maioria
delas.
248



247
ZAFFARONI. Direito Penal Brasileiro, p. 156/157.
248
Sobre o assunto, ver CARVALHO, Salo de. Cinco teses sobre a desjudicialização do processo penal
brasileiro. In Novos diálogos sobre os Juizados Especiais Criminais. RJ: Lumen Juris, 2005. Conferir
visão mais ampla sobre a atuação dos Juizados Especiais Criminais em Porto Alegre em: AZEVEDO,
Rodrigo Ghiringhelli de. Informalização da Justiça e Controle Social. SP: IBCCRIM, 2000.
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150
As ilegalidades já começam no momento do flagrante e da efetivação do
Termo Circunstanciado. O gráfico abaixo mostra o local no qual o termo
circunstanciado foi firmado:


O art. 48, § 3º, da Lei 11343/06, é expresso, e de fácil compreensão, no sentido
de exigir que o Termo Circunstanciado seja lavrado “no local em que se encontrar,
vedada a detenção do agente”.
249
Entretanto, tal disposição legal foi violada em 10%
dos casos, nos quais o Termo Circunstanciado foi lavrado nas Delegacias da Polícia
Civil, ou nos postos da Brigada Militar. Exemplificativamente, vale referir os casos 5 e
8, no qual os sujeitos flagrados, na Redenção, foram levados ao Posto da Brigada
Militar que fica numa das extremidades do parque. O próprio Juninho, em entrevista,
narrou a arbitrariedade de que foi vítima:

Me colocaram na viatura, no banco de trás, ficaram tirando com a minha cara e me
levaram pro postinho na esquina da Oswaldo com a rua do Brick da redenção.
Fiquei sentado numa cadeira, eles fizeram o boletim de ocorrência, eu assinei e me
liberaram.


Ainda, em 5% dos casos foi efetuada prisão em flagrante. Porém, nestes, a
ilegalidade do ato foi auferida após a análise judicial da situação, e decorreu de um erro
de interpretação do policial no momento em que se deparou com o ato delituoso. Já os
Termos Circunstanciados efetivados em Delegacias, violam frontalmente disposição

249
Art. 48, §3º: Se ausente a autoridade judicial, as providências previstas no §2º deste artigo serão
tomadas de imediato pela autoridade policial, no local em que se encontrar, vedada a detenção do agente.
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legal, de maneira absurdamente ilegítima, e nenhuma explicação pode ser encontrada
para tamanha arbitrariedade.

As próprias transações-pena oferecidas constituem, em si mesmo, ilegalidades,
no sentido analisado por CARVALHO:

A questão é que no procedimento pré-processual estabelecido pela Lei 9099/95 e
incorporando pela Lei 11343/06, inexiste contraditório e ampla defesa,
notadamente pelo fato de não ser o momento (cognitivo) adequado para a discussão
do mérito da causa penal – materialidade e autoria; elementos do crime (tipicidade,
ilicitude e culpabilidade); condições de punibilidade. Neste caso, em sendo
admitida homologação judicial da transação penal que determine ao imputado
submissão a condições cuja natureza sejam análogas às penas ou às medidas
cominadas em lei, restarão violados os princípios de tutela dos direitos
fundamentais previstos na Constituição, constituindo-se o ato em aplicação de
sanção penal (pena ou medida) sem processo. (...) o art. 48, § 5º, vinculou a
proposta de transação penal às modalidades de pena e de medidas cominadas nos
incisos do art. 28, configurando explícita violação ao princípio nulla poena sine
iudicio.

Arbitrárias, também, as propostas de suspensão condicional do processo,
oferecidas e aceitas nos Juizados Especiais Criminais da Tristeza e do Sarandi (em
13,3% dos casos, no total). Isso porque, prevêem condições muito mais gravosas que a
mais grave das penas que poderia ser aplicada em caso de condenação (casos 31, 32, 33,
34, 35, 36, 38, 40, 41, 42, 43, 44, 48, 54). Vejamos um exemplo:

Pelo Doutor Juiz de Direito foi dito que fica registrado que o Ministério Publico
não ofertou a transação penal tendo em vista que o acusado já registra o
recebimento anterior por duas vezes mesmo beneficio. A seguir o Ministério
Publico ofertou a suspensão condicional do processo por dois anos, o que foi aceito
pelo acusado mediante as seguintes condições: 1 Comparecimento mensal a juízo
para justificar suas atividades; 2 não afastar-se da comarca por período superior a
30 dias sem prévia comunicação ao juízo; 3 obrigação de freqüentar pelo período
mínimo de seis meses reuniões dos narcóticos anônimos, qual seja o grupo “Juntos
podemos”, situado na Wenceslau Escobar, 2380, que é a igreja Nossa Senhora das
Graças, sendo que deverá comprovar o comparecimento a quatro reuniões fechadas
a cada mês perante o cartório, o que será feito nas mesmas datas das apresentações.
O acusado declara aceitar as condições agora referidas e pelo Juiz foi dito que no
prosseguimento recebia a denúncia e concedia a suspensão condicional do processo
pelo prazo de dois anos frente as condições supramencionadas. (Caso 31, p. 36)

No caso, o fato de ter que comparecer mensalmente ao juizado, por dois anos,
desconsidera completamente os limites máximos para cumprimento das penas, de cinco
meses para réus primários e dez meses para reincidentes, previstos nos § 3º e 4º, do art.
28, da Lei 11343/06. Ademais, a proibição de ausentar-se da comarca é medida
absolutamente ilegítima, pois muito mais grave dos que as penas previstas para o delito.
Somado a tudo isso, de maneira cumulativa, impôs-se, ainda, a obrigação de freqüentar
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reuniões de Narcóticos Anônimos. A suspensão é oferecida diante da impossibilidade
de nova transação penal, nos casos em que o autor do fato já utilizou seu direito.
Entretanto, parece óbvio que deve haver uma mínima proporcionalidade entre o acordo
judicial e a pena abstrata prevista para o delito. Não é aceitável, sob nenhuma hipótese,
que a medida de diversificação penal preveja condições mais gravosas que a pena que
poderia ser supostamente aplicada.

Por fim, a violação mais clara, quase inacreditável, pois violadora do princípio
mais básico do direito penal. Qualquer crítica, aqui, seria desnecessária. O absurdo da
situação é evidente. Basta dizer que, na análise das respostas penais, tornou-se
necessário criar a categoria “Outros”. Em audiência, realizada no Juizado Especial
Criminal que funciona em dias de jogos no Estádio Olímpico, promotor de justiça e juiz
cometem conduta muito mais danosa à sociedade do que a daquele que estava sendo
julgado: fulminam o princípio da legalidade, em sua forma mais elementar, e aplicam
penas que não estão previstas para o crime em questão:

(...) concedida a palavra ao MP, oferece proposta de transação, aceita pelo autor do
fato e defensor, nos seguintes termos: depósito de R$200,00, no prazo de 60 dias,
na conta do Lar Santo Antônio dos Excepcionais, bem como não poderá
comparecer nos próximos três jogos no estádio Olímpico.

A multa, como sabe qualquer estudante que está a iniciar o estudo do direito
penal, não pode ser aplicada diretamente para os casos de posse de drogas, mas apenas
para a garantia do cumprimento das medidas, conforme é fácil perceber da análise
superficial da Lei de Drogas, especificamente do art. 28, §6º. E a proibição de
comparecer a jogos? Pouco a dizer: onipotência, desprezo pelos princípios democráticos
mais básicos, narcisismo, irracionalidade...

Ilegalidades são cometidas por todos os agentes do sistema penal, e, no
momento judicial, no qual o direito penal deveria executar sua tarefa de limitação do
poder punitivo, a limitação é quase nula. A repressão penal funciona, na maioria dos
casos do direito penal do uso de drogas, no modo “piloto automático”.







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3.5.1. A EXCEÇÃO

No panorama sobre as respostas penais para os casos de posse de drogas
adotadas nos juizados de Porto Alegre foram expostas algumas práticas efetivas de
descriminalização judicial, sobretudo o arquivamento de processos em razão da
aplicação do princípio da insignificância. Além disso, também foram analisadas as
“invenções político-criminais”, principalmente a pré-transação penal, medida que, de
algum modo, beneficia o autor do fato. Entretanto, a aplicação do princípio da
insignificância ocorria por motivos de conveniência do juizado, quando o autor do fato
não era encontrado no endereço fornecido na ocasião do Termo Circunstanciado, ou
quando, mesmo intimado, não comparecia à audiência. Da mesma forma, a “pré-
transação penal”, mormente a adotada no Juizado do Partenon, pareceu medida tímida,
pois, se os operadores que atuam em tal juizado consideram o tipo incriminador
inconstitucional, não há motivos para chamá-los para a audiência preliminar, mesmo
que sob um álibi bem intencionado.

A descriminalização mais radical, que aqui é tomada como parâmetro de
atuação judicial comprometida com a efetivação da Constituição, ocorria no Juizado
Especial Criminal do Quarto Distrito. Neste juizado, a promotora de justiça, com
promoção fundamentada na dogmática crítica, e citando decisões jurisprudenciais de
vanguarda, tal qual a da Corte Suprema Argentina, e a do Tribunal de Justiça do Rio
Grande do Sul, do Desembargador Milton dos Santos Martins, requeria o arquivamento
imediato de todo e qualquer processo de posse de droga para consumo. A promoção era
acolhida pelo juiz, em todos os casos. A íntegra da promoção está nos anexos, mas
transcrevo um trecho:

(...) É indispensável ao operador do Direito a lucidez de reconhecer que o poder
punitivo do Estado deve incriminar condutas tão só na faixa dos parâmetros fixados
pela Constituição Federal. Ademais que a aplicação do Direito Penal, em nossa
realidade, obriga observar prioridades na Política Criminal.
(...) A figura do porte de substância entorpecente para uso próprio deixa de
encontrar enquadramento seja como crime, seja como contravenção. Resulta,
quando muito, num ilícito de natureza não penal, cujas sanções têm corte
marcadamente administrativo e remetem ao reconhecimento de que a questão
traduz um problema de saúde pública que deve ser enfrentado inicialmente com
medidas de prevenção, respeitada a individualidade e privacidade do indivíduo.

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154
O fechamento deste capítulo expõe a sábia atuação dos operadores do Juizado
Especial Criminal do Quarto Distrito, na esperança que esta sirva como exemplo aos
demais juizados.































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155
CONSIDERAÇÕES FINAIS - ENTRE A CULTURA DO CONTROLE E O
CONTROLE CULTURAL


(...) they don’t speak for us.
(Tom Yorque)

A opção por realizar esta abordagem sobre uso de drogas, desvio e controle
penal, derivou da tentativa de apresentar outro olhar sobre o tema. É que, diante da vasta
produção criminológica existente a respeito do assunto, não havia sentido em repetir as
críticas aos danos colaterais do proibicionismo e da política de guerra às drogas. Desde
o início do trabalho, tomei a ausência de legitimidade da política criminal de drogas,
assim como do próprio sistema penal latino-americano, como um pressuposto.
Pressupus, da mesma forma, a ilegitimidade jurídica da proibição ao uso de drogas,
desde uma perspectiva constitucional.

Se, ao leitor, isto ainda não estiver bem claro, reafirmo que a perspectiva
adotada é radicalmente antiproibicionista, no sentido que defende o completo divórcio
entre sistema penal e controle das drogas. Tal perspectiva é fortemente ancorada no
desvelamento das reais conseqüências da política criminal de drogas, ou seja, cumpre
afastar o sistema penal do controle das drogas para fazer cessar, imediatamente, o
genocídio que é resultado das políticas de repressão ao tráfico de drogas. Entretanto,
procurei encontrar um antiproibicionismo não apenas ancorado nas nefastas
conseqüências da guerra às drogas, mas também, por um lado, nos efeitos perversos que
a proibição gera nos consumos, e, por outro, na exposição de controles horizontais-
anárquicos-culturais, que são aptos a manter os consumos socialmente regulados.

A proibição não elimina os usos de drogas. Entretanto, gera certos tipos de
efeitos, transforma-os. Os principais efeitos que decorrem da proibição, do ponto de
vista dos usos, são a desinformação e a glamourização. Ambos, ao seu modo, são
derivados do tabu que paira sobre o tema, de uma espécie de bloqueio lingüístico, das
dificuldades de se falar abertamente sobre o assunto.

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Convivemos diariamente com um ambíguo embate cultural sobre o assunto.
Nos mais diversos âmbitos da vida social, somos expostos a discursos sobre o uso de
drogas. Nos meios de comunicação, constantes cruzadas “contra as drogas”, que
reproduzem pânico moral, imagens estigmatizantes e visões distorcidas. Campanhas que
mobilizam todas as “entidades” da sociedade civil, tal qual a mais famosa, lançada pelo
Grupo RBS, chamada “Crack: nem pensar”. Promovem-se eventos, ouve-se
“especialistas”. Celebridades vendem à imagem da saúde, os professores e os alunos
aderem à campanha, todas as classes são contempladas, rappers cantam e grafiteiros
desenham o slogan publicitário. A campanha não descuida de nenhum aspecto, contrata
modelos e os maquia, transformando-os em caricaturas decrépitas, que representariam o
destino do toxicômano. Para o observador apressado, parece que a sociedade inteira está
engajada na luta contra o uso de drogas. No entanto, no mesmo jornal transmitido no
horário do almoço, logo após a reportagem da cruzada anti-drogas, apresenta-se aquele
que irá lançar, novamente, a canção que será o insuportável hit do verão. Armandinho,
então, canta: “fuma fuma fuma, folha de bananeira, fuma na boa, só de brincadeira...
enquanto isso vou descendo a minha lomba, andando de skate estourando a minha
bomba”. O mesmo veículo de comunicação, promove uma campanha que imagina
utopicamente “o consumo de drogas reduzido a zero no RS”, ao passo que estimula o
uso de psicofármacos nos anúncios publicitários do caderno que, paradoxalmente,
chama-se “Vida”. Esta ambigüidade apenas demonstra que desinformação e
glamourização são os dois lados da moeda de uma relação corrompida entre as pessoas
e as substâncias.

Anos de proibição – e de tabu – acabaram por gerar consumidores
infantilizados. Por um lado, há enorme desinformação sobre as drogas, sobre os
métodos seguros de uso e sobre a própria substância que está sendo consumida. A
maioria dos psicoativos consumidos atualmente não possui qualquer indicativo que
assegure a pureza e a qualidade da substância. Mas, na maioria dos casos, tal não
importa, sobretudo porque a droga será consumida como um símbolo. Não raro, em
certos contextos, o conhecimento ou a possibilidade de acesso ao produto, acaba
tornando-se símbolo de status: glamourização e desinformação.

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157
“Se vitamina C fosse proibida, nós tomaríamos”, diz Mark Renton,
personagem do filme Trainspotting, de Danny Boyle. Significa afirmar que a proibição
pode também estimular o uso de drogas. RESTREPO refere o seguinte:

Resulta en verdad inadmisible la actitud casi pueril dos los promotores de la
prohibición, que por desconocer los fenómenos de la psicología colectiva terminan
induciendo en los jóvenes una actitud contraria a la que predican. La censura, lejos
de disminuir el deseo de lo consumidor, lo aumenta. Pues sucede en las sociedades
abiertas que los argumentos de autoridad provocan un cambio no deseado en el
comportamiento del público, poniéndose en marcha un mecanismo de denegación
que lleva a reforzar precisamente aquella opción que la censura oficial coloca bajo
sospecha. De allí que prohibir el uso de drogas y penalizarlo sea un mecanismo
eficaz para extender las conductas de abuso y reforzar la dinámica de la
compulsión.

O que acabou ocorrendo, após anos de animosidade infantil “anti-certas-
drogas”, foi uma aculturação dos consumos, uma perda do lastro cultural que
assegurava consumos seguros, pois ritualizados. É que diz XIBERRAS:

Face ao conjunto destas imagens estigmatizantes, a uma exclusão de ordem
simbólica e social, desenvolvidas pelas sociedades de acolhimento, o fenômeno da
droga construiu-se, efectivamente, no seio destas sociedades, como uma pratica
negativa, portadora de morte. A toxicomania perdeu, desta maneira, o principal
sistema de protecção individual e social que detém nos outros contextos de
consumo: um enraizamento cultural, um lote de técnicas e de usos que permitem
utilizar as substancias em vez de deixar que elas utilizam os actores sociais.
250


Se desejarmos averiguar quais as causas desta aculturação somos forçados a
constatar que a incompreensão e a animosidade demonstradas pelas sociedades
perante as comunidades de toxicômanos desempenham um papel extremamente
importante em todo este processo.
251


Além disso, o ataque criminológico ao direito penal do uso de drogas inverteu
a premissa donde partem a maioria das análises. É que, não se trata de pensar em qual a
melhor alternativa para o tratamento de pessoas que usam drogas de maneira
problemática, e sim de afirmar que a maioria dos sujeitos selecionados pelo sistema
penal não necessitam de nenhum tratamento. Desta forma, ao se falar de uso de drogas,
deve ser ter bem claro que não se está falando, automaticamente, de um problema. É
necessário dizer que uma infinidade de práticas tóxicas do cotidiano são socialmente
reguladas pela autogestão, ou seja, pela competência das pessoas em gerenciar a própria
existência. Para os casos de consumos problemáticos, ficou bem claro que o sistema
penal nada tem a oferecer, senão um simulacro terapêutico.


250
XIBERRAS. A sociedade intoxicada, p. 231.
251
XIBERRAS. A sociedade intoxicada, p. 153.
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158
A pesquisa nos processos por posse de drogas evidenciou que o sistema penal
não possui nenhuma capacidade de lidar com o fenômeno, senão desde uma
simplificação extrema. Igualam-se bizarramente acontecimentos que nada possuem em
comum. Não há qualquer tipo de diferenciação entre as drogas, entre as práticas tóxicas
ou entre os sujeitos flagrados portando drogas. Em todos os casos, oferece-se a mesma
receita, o mesmo molde: tênis número 38 para todos, inclusive para aqueles que calçam
42. A máquina funciona no modo piloto automático; no modo simulação; e no modo
shuflle, na medida em que há qualquer lógica na escolha das conseqüências penais.
Apesar de não haver possibilidade de pena de prisão, bem como diante das respostas
brandas, se comparadas com o que pode acontecer caso um sujeito seja seqüestrado pelo
sistema penal brasileiro, o fato é que, ao seguir apostando na fantasia da solução penal,
estamos perdendo tempo, estamos perdendo a chance de ajudar aquelas pessoas que
realmente necessitam, aquelas que fracassaram no projeto de autogestão e que, por isso,
possuem relações problemáticas com as drogas. Ao mesmo tempo em que o sistema
penal seleciona consumidores conscientes, impede que as verdadeiras políticas públicas,
as políticas de acolhimento, sejam adotadas em prol do consumidor problemático. Além
disso, não obstante serem brandas as respostas penais previstas para o uso, o grande
problema é que habilitam o poder policial, donde surgem as incontáveis prisões em
flagrante por tráfico de drogas. De forma imediata (pois também a venda deve ser
descriminalizada), a descriminalização da posse, ao menos, impeliria as autoridades
policiais a refinarem suas investigações, de modo a comprovarem, efetivamente, a
mercancia e, sobretudo, o responsável pelo negócio, deixando de encarcerar a massa de
jovens vendedores varejistas - prisioneiros de guerra - que estão atualmente a povoar as
masmorras fétidas do ilegítimo sistema penal brasileiro.

Em termos teóricos a política criminal de guerra às drogas não encontra
qualquer tipo de legitimação, sobretudo graças ao desvelamento operado pela
criminologia crítica a respeito dos efeitos nefastos de tal política. Entretanto, esta se
mantém legitimada em razão da inércia das pessoas em pensar mais detidamente sobre a
questão, pois é mais fácil seguir reproduzindo preconceitos forjados por anos de
proibicionismo e campanhas difamatórias. Daí porque o presente trabalhou no âmbito
das representações sociais sobre as drogas, pois é na ação dos empreendedores morais
que encontramos um dos maiores obstáculos à revisão completa do método de
regulação atualmente adotado.
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159

Desta forma, procurei estar atento ao tabu, ao bloqueio lingüístico, de modo a
profaná-lo, a subvertê-lo, a ultrapassá-lo. Para tanto, tentei desmistificar os usos,
restituindo a voz às pessoas que usam drogas. O objetivo foi tornar as práticas tóxicas
menos exóticas, relativizando-as, explicando-as, aproximando-as aos rituais do
cotidiano, de maneira a desestabilizar as certezas dos silenciosos empreendedores
morais que sustentam os preconceitos que regem os debates sobre o tema. Para
encontrar relações mais saudáveis entre as pessoas e as substâncias, nada melhor que
demonstrar que tais relações existem e são praticadas por uma multidão silenciosa.
Trata-se, em verdade, de evitar o desperdício da experiência e a destruição do saber que
pode ser apto a manter os consumos socialmente regulados.

























Página 200 / 477
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167















ANEXO








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COLETA DE DADOS PROCESSUAIS


CASO 1

Número do processo: 001/2.08.0070774-6
Juizado: 1º Juizado Especial Criminal
Autor: MMO - homem
Nascimento: 1963
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Vila Maria, Alvorada.
Local do Flagrante: Praça XV de Novembro, Bar Center
Data/horário: 23/05/08, 13h50
Droga: crack
Quantidade: 0,4g
Processo finalizado: 04/05/09
Antecedentes: sim, estelionato
TC/IP: -

Processo: Audiência: “dada a palavra ao Ministério Público: propõe como transação
penal o comparecimento a doze reuniões ao grupo de apoio para dependentes químicos,
devendo juntar o comprovante até o dia 25 de abril de 2009. Na hipótese de
descumprimento, será substituída por multa no valor de R$ 4.150,00. A proposta foi
aceita pelo autor do fato”. (p. 14)
Autor comprovou o comparecimento às reuniões do Narcóticos Anônimos (NA).
“Cumprida a transação penal aplicada, declaro extinta a punibilidade do autor do fato,
nos termos do art. 84, § único, da Lei 9099/95. Arquive-se com baixa”. (p. 18)

Observações: -














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169
CASO 2

Número do processo: 001/2.09.0006892-3
Juizado: 1º Juizado Especial Criminal
Autor: TGM - Mulher
Nascimento: 1977
Profissão: autônoma
Bairro/cidade em que mora: Bairro Natal, Sapucaia do Sul
Local do Flagrante: Praça XV
Data/horário: 18/08/08, 21h20
Droga: crack
Quantidade: 0,5g – 5 pedrinhas
Processo finalizado: 06/05/09
Antecedentes: não
TC/IP: -

Processo: Audiência: “Ausente a autora do fato. (...) pela Dra. Juíza foi dito que
considerando a finalidade terapêutica da Lei 11343/06, que visa a recuperação do
drogadito, a ausência da autora, apesar de devidamente intimada, evidencia seu
desinteresse na realização de algum tratamento para a drogadição, além do que a
pequena quantidade de droga apreendida em seu poder configura o crime de bagatela,
razão pela qual pelo Ministério Público foi requerido o arquivamento do termo
circunstanciado. A seguir, pela Dra. Juíza foi dito que, acolhendo a promoção do
Ministério Público, determinava o arquivamento e a baixa do processo.” (p. 14)

Observações: -


















Página 210 / 477
170
CASO 3

Número do processo: 001/2.09.0007641-5
Juizado: 1º Juizado Especial Criminal
Autor: DC – homem
Nascimento: 1980
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Guaíba
Local do Flagrante: Av. Presidente João Goulart – Usina do Gasômetro
Data/horário: 21/10/08, 16h10
Droga: maconha
Quantidade: 0,3g
Processo finalizado: 12/05/09
Antecedentes: não
TC/IP: -

Processo: Audiência: “Ausente a autora do fato. (...) pela Dra. Juíza foi dito que
considerando a finalidade terapêutica da Lei 11343/06, que visa a recuperação do
drogadito, a ausência da autora, apesar de devidamente intimada, evidencia seu
desinteresse na realização de algum tratamento para a drogadição, além do que a
pequena quantidade de droga apreendida em seu poder configura o crime de bagatela,
razão pela qual pelo Ministério Público foi requerido o arquivamento do termo
circunstanciado. A seguir, pela Dra. Juíza foi dito que, acolhendo a promoção do
Ministério Público, determinava o arquivamento e a baixa do processo.” (p. 15)

Observações: -

















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171
CASO 4

Número do processo: 001/20900124823
Juizado: 1º Juizado Especial Criminal
Autor: RFQ - homem
Nascimento: 1984
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Floresta
Local do Flagrante: Parque da Redenção
Data/horário: 22/10/08, 12h30
Droga: maconha
Quantidade: 3g
Processo finalizado: 11/05/09
Antecedentes: não
TC/IP: -

Processo: Audiência: “Presentes o autor do fato. (...) Aberta a audiência, pelo MP foi
apresentada proposta de transação penal consistente na advertência sob os efeitos da
droga, nos moldes da lei 11343/06. A seguir, diante da aceitação do autor do fato e da
defesa, homologava a transação penal”. (p. 21)

Observações: -
























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172
CASO 5

Número do processo: 001/2.09.0006343-3
Juizado: 1º Juizado Especial Criminal
Autor: VR - homem
Nascimento: 1986
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Mont Serrat
Local do Flagrante: Parque da Redenção
Data/horário: 03/09/08, 17h30
Droga: maconha
Quantidade: 1g
Processo finalizado: 11/05/09
Antecedentes: não
TC/IP: -

Processo: Audiência: “Presentes o autor do fato. (...) Aberta a audiência, pelo MP foi
apresentada proposta de transação penal consistente na advertência sob os efeitos da
droga, nos moldes da lei 11343/06. A seguir, diante da aceitação do autor do fato e da
defesa, homologava a transação penal”. (p. 21)

Observações: Autor relata que comprou a maconha na Vila Paulina. (p. 03).
Autor e a namorada foram levados ao posto de policia da Redenção.























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CASO 6

Número do processo: 001/2.09.0010511-0
Juizado: 1º Juizado Especial Criminal
Autor: ERA - homem
Nascimento: 1987
Profissão: cabeleireiro
Bairro/cidade em que mora: Viamão
Local do Flagrante: Rua Paulino Azurenha, Partenon.
Data/horário: 13/02/09, 23h
Droga: cocaína
Quantidade: 0,6g
Processo finalizado: 11/05/09
Antecedentes: não
TC/IP: policiais estavam “combatendo o tráfico na Vila Conceição”, e abordaram o
autor, que estava com uma bucha de cocaína no bolso. (p. 02)
Flagrante efetivado pela Polícia Civil.
Laudo de exame para a verificação de tóxicos. Descrição: “Periciado com as vestes
compostas, atitude atenta, discurso coerente, fluente, orientado no tempo e no espaço,
face de coloração normal, lúcido, conjuntiva hiperemiadas, hálito atípico, marcha
atípica, reflexo fotomotor lento. Foi coletada urina para pesquisa de substancias
psicotrópicas, cujo resultado foi positivo para metabólito do THC, conforme laudo
laboratorial em anexo”. (p. 20)

Processo: Audiência: “Ausente a autora do fato. (...) pela Dra. Juíza foi dito que
considerando a finalidade terapêutica da Lei 11343/06, que visa a recuperação do
drogadito, a ausência da autora, apesar de devidamente intimada, evidencia seu
desinteresse na realização de algum tratamento para a drogadição, além do que a
pequena quantidade de droga apreendida em seu poder configura o crime de bagatela,
razão pela qual pelo Ministério Público foi requerido o arquivamento do termo
circunstanciado. A seguir, pela Dra. Juíza foi dito que, acolhendo a promoção do
Ministério Público, determinava o arquivamento e a baixa do processo.” (p. 22)

Observações: -





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CASO 7

Número do processo: 001/2.09.0011728-2
Juizado: 1º Juizado Especial Criminal
Autor: JCI - mulher
Nascimento: 1988
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Jardim Carvalho
Local do Flagrante: Voluntários da Pátria
Data/horário: 02/09/08, 03h50
Droga: crack
Quantidade: 0,4g
Processo finalizado: 12/05/09
Antecedentes: sim, tráfico, crime contra a propriedade material, posse de drogas.
TC/IP: -

Processo: Audiência: “Presentes a autora do fato. (...) Aberta a audiência, pelo MP foi
apresentada proposta de transação penal consistente na advertência sob os efeitos da
droga, nos moldes da lei 11343/06. A seguir, diante da aceitação do autor do fato e da
defesa, homologava a transação penal”. (p. 21)

Observações: -
























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CASO 8

Número do processo: 001/2.09.0011691-0
Juizado: 1º Juizado Especial Criminal
Autor: JLS - homem
Nascimento: 1965
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Viamão
Local do Flagrante: Parque da Redenção
Data/horário: 03/09/09, 17h
Droga: maconha
Quantidade: 0,3g
Processo finalizado: 12/05/09
Antecedentes: sim, furto.
TC/IP: -

Processo: “Presentes o autor do fato. (...) Aberta a audiência, pelo MP foi apresentada
proposta de transação penal consistente na advertência sob os efeitos da droga, nos
moldes da lei 11343/06. A seguir, diante da aceitação do autor do fato e da defesa,
homologava a transação penal”. (p. 15)

Observações: foi conduzido ao posto da BM da Redenção.























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CASO 9

Número do processo: 001/2.09.0010041-0
Juizado: 1º Juizado Especial Criminal
Autor: NJR - homem
Nascimento: 1988
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Eudoro Berlink, Auxiliadora
Local do Flagrante: Largo dos Campeões – Portão 10. Jogo Grêmio x Universidad
Católica.
Data/horário: 21h50
Droga: maconha
Quantidade: 2g
Processo finalizado: 11/05/09
Antecedentes: não
TC/IP: tentava entrar no portão 10 com 2 cigarros de maconha em uma carteira de
cigarros.

Processo: Audiência (realizada no estádio Olímpico): “concedida a palavra ao MP,
oferece proposta de transação, aceita pelo autor do fato e defensor, nos seguintes
termos: depósito de R$200,00, no prazo de 60 dias, na conta do Lar Santo Antônio dos
Excepcionais, bem como não poderá comparecer nos próximos três jogos no estádio
Olímpico”. (p. 10)
- Autor do fato comprova o pagamento. (p. 13)
- Declarada extinta a punibilidade. (p. 15)

Observações: -
















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CASO 10

Número do processo: 001/2.09.0011620-0
Juizado: 1º Juizado Especial Criminal
Autor: MGR - homem
Nascimento: 1986
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Chácara das Pedras
Local do Flagrante: Parque da Redenção
Data/horário: 03/09/09, 15h10
Droga: cocaína
Quantidade: 0,4g
Processo finalizado: 11/05/09
Antecedentes: não
TC/IP: -

Processo: Audiência: “Presentes o autor do fato e o defensor privado. (...) Aberta a
audiência, pelo MP foi apresentada proposta de transação penal consistente na
advertência sob os efeitos da droga, nos moldes da lei 11343/06. A seguir, diante da
aceitação do autor do fato e da defesa, homologava a transação penal”. (p. 15)

Observações: -























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CASO 11

Número do processo: 001/2.09.0011603-0
Juizado: 1º Juizado Especial Criminal
Autor: LMM - homem
Nascimento: 1974
Profissão: autônomo
Bairro/cidade em que mora: Rubem Berta
Local do Flagrante: Avenida Castelo Branco
Data/horário: 10/09/09, 11h
Droga: maconha
Quantidade: 0,6g
Processo finalizado: 11/05/09
Antecedentes: não
TC/IP: -

Processo: Audiência: “Ausente a autora do fato. (...) pela Dra. Juíza foi dito que
considerando a finalidade terapêutica da Lei 11343/06, que visa a recuperação do
drogadito, a ausência da autora, apesar de devidamente intimada, evidencia seu
desinteresse na realização de algum tratamento para a drogadição, além do que a
pequena quantidade de droga apreendida em seu poder configura o crime de bagatela,
razão pela qual pelo Ministério Público foi requerido o arquivamento do termo
circunstanciado. A seguir, pela Dra. Juíza foi dito que, acolhendo a promoção do
Ministério Público, determinava o arquivamento e a baixa do processo.” (p. 16)

Observações: -

















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CASO 12

Número do processo: 001/2.08.0034156-3
Juizado: 1º Juizado Especial Criminal
Autor: AJP - homem
Nascimento: 1986
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Lomba do Pinheiro
Local do Flagrante: José Bonifácio
Data/horário: 22/01/08, 14h10
Droga: maconha
Quantidade: 3g
Processo finalizado: 12/05/09
Antecedentes: não
TC/IP: -

Processo:
- Autor intimado, não comparece à primeira audiência. (p. 15)
- MP requer busca nos órgãos de praxe. (p. 23)
Audiência: “Ausente a autora do fato. (...) pela Dra. Juíza foi dito que considerando a
finalidade terapêutica da Lei 11343/06, que visa a recuperação do drogadito, a ausência
da autora, apesar de devidamente intimada, evidencia seu desinteresse na realização de
algum tratamento para a drogadição, além do que a pequena quantidade de droga
apreendida em seu poder configura o crime de bagatela, razão pela qual pelo Ministério
Público foi requerido o arquivamento do termo circunstanciado. A seguir, pela Dra.
Juíza foi dito que, acolhendo a promoção do Ministério Público, determinava o
arquivamento e a baixa do processo.” (p. 42)

Observações: -














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CASO 13

Número do processo: 001/2.09.0014877-3
Juizado: 1º Juizado Especial Criminal
Autor: GFS - mulher
Nascimento: 04/11/58
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Parque dos Maias, Poa
Local do Flagrante: Av. Mauá, Cais do Porto
Data/horário: 03/10/08, 20h30
Droga: maconha
Quantidade: 0,3g
Processo finalizado: 30/06/09
Antecedentes: não
TC/IP: -

Processo:
- Designada audiência
- Audiência: “Presentes a autora do fato e Defensor Público. Presente o Ministério
Público. Aberta a audiência, pela Dra. Juíza foi dito que pelo Ministério Público foi
apresentada proposta de transação consistente na advertência sob os efeitos da droga,
nos moldes da Lei 11343/06. A seguir, diante da aceitação pelo autor do fato e da
defesa, HOMOLOGAVA TRANSAÇÃO PENAL. Registre-se a sentença para fins do
art. 76, §6º da Lei 9099/95. Pertinente à droga apreendida, determino o cumprimento da
Resolução n.º 202/96 do Conselho da Magistratura, oficiando-se à Autoridade Policial
para que possa ser dado o devido encaminhamento à droga apreendida. Aplicada e
cumprida a transação, julgo extinta a punibilidade da autora do fato. Arquive-se com
baixa. Transitada em julgado esta decisão, expeça-se certidão narratória para baixa do
DINP, caso postulada pela parte interessada. Intimados os presentes. Nada mais. (p. 15)

Observações: -










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CASO 14

Número do processo: 001/2.09.0013620-1
Juizado: 1º Juizado especial Criminal
Autor: CTP - homem
Nascimento: 1976
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: -
Local do Flagrante: Voluntários da Pátria, 595
Data/horário: 15/10/08, 9h45
Droga: maconha
Quantidade: 0,6g
Processo finalizado: 30/06/09
Antecedentes: não
TC/IP: apreensão de “um papel de cigarro marca Pure Hemp”. (p. 07)

Processo:
- Designada audiência
- Audiência: “Presentes a autora do fato e Defensor Público. Presente o Ministério
Público. Aberta a audiência, pela Dra. Juíza foi dito que pelo Ministério Público foi
apresentada proposta de transação consistente na advertência sob os efeitos da droga,
nos moldes da Lei 11343/06. A seguir, diante da aceitação pelo autor do fato e da
defesa, HOMOLOGAVA TRANSAÇÃO PENAL. Registre-se a sentença para fins do
art. 76, §6º da Lei 9099/95. Pertinente à droga apreendida, determino o cumprimento da
Resolução n.º 202/96 do Conselho da Magistratura, oficiando-se à Autoridade Policial
para que possa ser dado o devido encaminhamento à droga apreendida. Aplicada e
cumprida a transação, julgo extinta a punibilidade da autora do fato. Arquive-se com
baixa. Transitada em julgado esta decisão, expeça-se certidão narratória para baixa do
DINP, caso postulada pela parte interessada. Intimados os presentes. Nada mais. (p. 19)

Observações: -










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CASO 15

Número do processo: 001/2.09.0014381-0
Juizado: 1º Juizado Especial Criminal
Autor: ELS - homem
Nascimento: 1968
Profissão: Vitrinista
Bairro/cidade em que mora: Floresta, Poa
Local do Flagrante: Rua Cons. Travassos, 400
Data/horário: 13/09/08, 18h
Droga: crack
Quantidade: apenas um cachimbo de crack
Processo finalizado: 30/06/09
Antecedentes: não
TC/IP: -

Processo:
- Laudo do IGP: “aos peritos foi apresentado um cachimbo artesanal, confeccionado em
metal, plástico branco e papel alumínio, contendo resquícios de material escuro.”
Conclui pela presença de cocaína (p. 07).
- Audiência: “ausente o autor do fato. Presente o Defensor Público. Presente o
Ministério Público. Aberta a audiência, pela Dra. Juíza foi dito que, considerando a
finalidade terapêutica da Lei 11343/06, que visa a recuperação do drogadito, a ausência
da autora, apesar de devidamente intimado, evidencia seu desinteresse na realização de
algum tratamento para drogadição, além do que a pequena quantidade de droga
apreendida em seu poder configura o crime de bagatela, razão pela qual, pelo Ministério
Público foi requerido o arquivamento e a baixa do processo. Pertinente à droga
apreendida, determino o cumprimento da Resolução n.º 202/96 do Conselho da
Magistratura, oficiando-se à Autoridade Policial para que possa ser dado o devido
encaminhamento à droga apreendida. (p. 13)”

Observações: -








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Caso 16

Número do processo: 001/2.08.0084742-4
Juizado: Juizado Especial Criminal do Partenon
Autor: J O S S - homem
Nascimento: 1987
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Travessa A24, Aparício Borges
Local do Flagrante: Rua Cabo Noé
Data/horário: 15/10/08, 13h15
Droga: maconha
Quantidade: 1,1g – estava consumindo
Processo finalizado: 23/04/09
Antecedentes: não

TC/IP: “quando em patrulhamento foi abordado em via pública na rua Cabo Noé, um
individuo que encontrava-se com um cigarro parcialmente consumido na mão direita,
cigarro com substância semelhante a maconha. Encontrado durante revista pessoal no
bolso direito do abrigo um papel colomim usado para confecção de cigarros artesanais.”
(p. 2)
Processo:
- Designada audiência preliminar.
“Aos 3 dias de mês de março do ano de 2009. às 14h,10min, na sala de audiências do
juizado especial criminal do Foro Regional do Partenon, à hora aprazada, sob a
presidência do Exmo. Sr. Dr. José Ricardo Coutinho Silva, Juiz de Direito em
substituição, comigo Oficial Escrevente Auxiliar do juiz, no fim assinados, feito o
pregão de estilo, compareceram: o Ministério Público, Dr. Francesco Conti, o Autor do
fato e a defensora pública Dra. Suzana loureiro chaves. Pelo juiz foi dito que ouvido o
autor do fato, este confirma o uso de drogas e mostra-se interessado em tratamento de
drogadição. Pelo juiz foi dito que: acolhendo a manifestação do Ministério público,
suspendia o feito, encaminhando o autor do fato para acompanhamento e tratamento de
drogadição, se necessário, Junto á rede pública, através do CIARB – Justiça
Terapêutica, pelo prazo a ser determinado pela equipe da Justiça Terapêutica, não
superior a seis meses, salvo com concordância do autor do fato. Cumprindo o prazo
fixado, o feito será extinto sem julgamento do mérito, por falta de justa causa e pela
perda do objeto. Fica designado para o dia ....., ás ....., para comparecimento do autor do
fato junto ao CIARB. Presente intimados. Oficie-se o CIARB. Diligencias. Após o
prazo transcorrido, voltem conclusos. Nada mais.” (p .23)
- Autor comprova o comparecimento a 12 reuniões do NA.
- MP requer que seja declarada extinta a punibilidade.
- Juiz acolhe

Observações: -

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184
Caso 17

Número do processo: 001/2.09.0003107-8
Juizado: Juizado Especial Criminal do Partenon
Autor: M G V - homem
Nascimento: 5/09/1988
Profissão: desempregado
Bairro/cidade em que mora: Rua H, Vila São Judas Tadeu
Local do Flagrante: Rua Nelson Luis Duarte, Vila São Judas Tadeu
Data/horário: 16/12/09 16h40
Droga: Maconha
Quantidade: 0,7g
Processo finalizado: 19/05/09
Antecedentes: -

TC/IP: “Patrulhamento de rotina. Foi deslocado até o 19º BPM para ser confeccionado
o documento, visto populares tentando dificultar o trabalho da BM” (p. 2)

Processo:
- MP requer designação de audiência preliminar.
- Autor é encaminhado ao CIARB
- Autor não é encontrado (mudou de endereço).
“Ocorre que, diante da impossibilidade de localização do autor do fato não há previsão
legal de rescisão do avençado em audiência e o prosseguimento da persecução penal. Há
de se mencionar que mesmo localizado o agente, não é cabida a condução coercitiva
para aplicação do tratamento. Saliente-se que conforme o art 5º , inciso 2, da
constituição, ademais, não há no presente TC transação penal condicionada ao
cumprimento do pactuado, sob pena de revogação do beneficio e prosseguimento nos
seus ulteriores termos. Diante do exposto, o MP requer o arquivamento.” (p. 19)
- Juiz acolhe
Observações: -














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CASO 18

Número do processo: 001/2.08.004729-6
Juizado: Juizado Especial Criminal do Partenon
Autor: E M P S - homem
Nascimento: 1988
Profissão: servente
Bairro/cidade em que mora: Partenon
Local do Flagrante: Rua Tenente Camargo
Data/horário: 08/06/08, 04h15
Droga: Maconha
Quantidade: 1,3 g
Processo finalizado: 05/05/09
Antecedentes: não

TC/IP: Abordagem de rotina

Processo:
- MP requer designação de audiência preliminar.
- Autor mostrou interesse no tratamento de drogadição.
- Juiz manda o autor para tratamento no CIARB no prazo de 6 meses.
CIARB determinou que o autor deveria comparecer em 12 reuniões do NA.
- Autor compareceu a 4 reuniões do grupo de auto ajuda.
- Não foi mais possível localizar o autor, sua mãe dele disse que estava trabalhando fora
de Porto Alegre.
- MP entende que foi alcançado o objetivo da medida terapêutica e requer extinta a
punibilidade.
- Juiz acolhe.

Observações: -
















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186
Caso 19

Número do processo: 001/2.08.0046278-4
Juizado: Juizado Especial Criminal do Partenon
Autor: F M C - homem
Nascimento: 1985
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Vila São Judas Tadeu
Local do Flagrante: Campo da Tuca
Data/horário: 05/10/08, 22h15
Droga: Maconha
Quantidade: 10g
Processo finalizado: 22/04/09
Antecedentes: não
TC/IP: Estava saindo de conhecido ponto de venda de drogas.

Processo:
- Designada audiência preliminar (mesmo teor do caso 16).
- Encaminhado ao CIARB.
- Autor comprova o comparecimento a 12 reuniões do NA.
- MP requer que seja declarada extinta a punibilidade.
- Juiz acolhe.
Observações: -
























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CASO 20

Número do processo: 001/2.08.0005384-2
Juizado: Juizado Especial Criminal do Partenon
Autor: P L V - homem
Nascimento: 1979
Profissão: Comerciante
Bairro/cidade em que mora: Navegantes
Local do Flagrante: Terminal de ônibus da Salvador França
Data/horário: 03/11/09, 01h30
Droga: Maconha
Quantidade: 0,4g
Processo finalizado: 05/05/09
Antecedentes: não
TC/IP: -

Processo:
- Autor não é encontrado no endereço fornecido.
- MP requer arquivamento (mesmo teor do caso 17).
- Juiz acolhe.

Observações: estava consumindo.























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CASO 21

Número do processo: 001/2.08.0038999-0
Juizado: Juizado Especial Criminal do Partenon
Autor: MAPP e CFS - homens
Nascimento: 02/03/1974 e 27/04/1969
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Partenon, rua D, Campo da Tuca
Local do Flagrante: Rua D, Campo da Tuca
Data/horário: 30/04/08, 16h45
Droga: Maconha e cocaína
Quantidade: 4 g de maconha e 0,3 de cocaína
Antecedentes: não
TC/IP: “atitude suspeita”

Processo:
- MP requer audiência preliminar.
- Autor do fato aceita encaminhamento ao CIARB.
- MAPP apresenta as 12 comprovações de freqüência em reuniões do NA.
- MP requer a extinção da punibilidade e o arquivamento do feito.
- Juiz acolhe.
- CFS apresenta 6 comprovações de freqüência em reuniões do NA.
- MP requer arquivamento.
- Juiz acolhe.

Observações: -




















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Caso 22

Número do processo: 001/2.08.0004946-7
Juizado: Juizado Especial Criminal do Partenon
Autor: B N M – homem
Nascimento: 1987
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Assunção
Local do flagrante: Avenida Bento Gonçalves
Data/horário: 17/11/08, 00h30
Droga: Maconha
Quantidade: 2,4g
Processo finalizado: 19/05/09
Antecedentes: não
TC/IP: Foi parado em uma blitz

Processo:
- Designada audiência preliminar.
- Autor do fato aceita encaminhamento ao CIARB.
- Autor comprova o comparecimento a 12 reuniões do NA.
- MP requer que seja extinta a punibilidade.
- Juiz acolhe.
Observações: -
























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CASO 23

Número do processo: 001/2.09.0002978-2
Juizado: Juizado Especial Criminal do Partenon
Autor: JPFR - homem
Nascimento: 05/05/1990
Profissão: Servente
Bairro/cidade em que mora: Travessa Lubisco - Viamão
Local do Flagrante: Estrada Afonso Lourenço Mariante
Data/horário: 14/08/08, 22h30
Droga: maconha
Quantidade: 21g
Processo finalizado: 19/05/09
Antecedentes: não
TC/IP: “Em patrulhamento de rotina foi abordado o Sr. JPFR que ao avistar a outra
policial arremessou no chão um pequeno pacote que continha cerca de 18 trouxinhas de
maconha e próximo ao local onde o mesmo foi abordado foi localizado uma balança de
precisão.Feito contato na 3ª DPPA com a Delegada X informando a negativa da
lavratura do flagrante delito” (p. 2).

Processo:
- MP requer audiência preliminar.
- Autor do fato aceita encaminhamento ao CIARB.
- Autor não comparece e o endereço que consta nos autos não possui CEP.
- MP requer arquivamento.
- Juiz acolhe.

Observações: -


















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CASO 24

Número do processo: 001/2.08.0044930-5
Juizado: Juizado Especial Criminal do Partenon
Autor: NFM - homem
Nascimento: 05/10/1989
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Rua Arroio dos Ratos, 592, Lomba do Pinheiro
Local do Flagrante: Vila Esmeralda, Lomba do Pinheiro
Data/horário: 12/07/08, 17h40
Droga: crack e cocaína
Quantidade: 3g de cocaína e 0,3 de crack
Processo finalizado: 18/05/09
Antecedentes: não
TC/IP: “Declara o condutor, que na hora e data do fato, estava de serviço ostensivo,
quando foi realizada uma abordagem de rotina, num local conhecido como ponto de
venda de drogas, sendo que quando o individuo avistou a viatura tentou disfarçar e sair
caminhando. Com o individuo abordado foi encontrado duas petecas de crack e cinco
petecas com um pó branco semelhante a cocaína, além de setenta reais em dinheiro.Que
foi dada voz de prisão e o indivíduo disse que não estava vendendo, apenas estava
comprando a droga para seu cunhado, o qual havia lhe dado 70 reais para fazer este
serviço” (p. 2).

Processo:
- O autor estava preso no Presídio Central de Porto Alegre.
- Advogada pede relaxamento da prisão e desqualificação da conduta para consumo.
- Juiz plantonista concede a liberdade provisória.
- MP diz que a quantidade droga não é suficiente para oferecimento da denúncia
com base no art. 33 e requer a remessa dos autos para o JEC por prática do delito de art.
28.
- Juiz acolhe.
- MP requer audiência preliminar
- Autor do fato aceita encaminhamento ao CIARB.
- Autor assiste as 12 sessões do NA.
- MP requer extinção da punibilidade e arquivamento do feito.
- Juiz acolhe.

Observações: -







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CASO 25


Número do processo: 001/2.09.002934-0
Juizado: Juizado Especial Criminal do Partenon
Autor: LFFA - Homem
Nascimento: 1981
Profissão: desempregado
Bairro/cidade em que mora: rua N, 06, São Judas Tadeu
Local do Flagrante: Rua N
Data/horário: 09/08/08, 17h10
Droga: crack
Quantidade: 0,2g
Processo finalizado: 22/04/09
Antecedentes: não
TC/IP: -
Processo:
- Não foi encontrado o autor para audiência preliminar.
- MP requer arquivamento: “considerando-se que o autor do fato não foi encontrado e é
desconhecido no local, resta prejudicado o prosseguimento do feito. Dessa forma, o
ministério público requer o arquivamento do presente termo circunstanciado.” (p. 19)
- Juiz acolhe.

Observações: -






















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CASO 26

Número do processo: 001/2.09.0003036-5
Juizado: Juizado Especial Criminal do Partenon
Autor: FRA - homem
Nascimento: 1989
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Rua I, 69, Partenon
Local do Flagrante: Rua K, Campo da Tuca
Data/horário: 2/12/08, 20h00
Droga: maconha
Quantidade: 0,8g
Processo finalizado: 22/04/09
Antecedentes: não
TC/IP: -

Processo:
- Autor não é encontrado para audiência preliminar.
- MP requer arquivamento (igual ao caso 17).
- Juiz acolhe.

Observações: -

























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CASO 27

Número do processo: 001/2.09.0003112-4
Juizado: Juizado Especial Criminal do Partenon
Autor: APD - homem
Nascimento: 1976
Profissão: servente
Bairro/cidade em que mora: São João
Local do Flagrante: Rua da Tuca
Data/horário: 13/11/08, 20h10
Droga: maconha
Quantidade: 10g
Processo finalizado: 22/04/09
Antecedentes: não
TC/IP: -

Processo:
- Autor não é encontrado para citação para audiência preliminar.
- MP requer arquivamento (igual ao caso 17).
- Juiz acolhe.

Observações: -

























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195
CASO 28

Número do processo: 001/2.09.0020730-3
Juizado: Juizado Especial Criminal do Partenon
Autor: JML - homem
Nascimento: 1988
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: -
Local do Flagrante: Presídio Central
Data/horário: 13/12/08, 23h30
Droga: maconha
Quantidade: 0,4g
Processo finalizado: 05/05/09
Antecedentes: não
TC/IP: “Comparece neste plantão o participante comunicante 01 apresentado o
participante 02 com o qual foi apreendido no corredor do pavilhão C no presídio central
durante revista pessoal uma peteca de maconha pesando aproximadamente 0,4g, com
embalagem. O conduzido afirmou que recebeu a maconha de um preso responsável por
abrir as galerias (JALECO).Versão do Autor: Que recebeu a droga do jaleco, individuo
que trabalha nas galerias, abrindo e fechando, ajudando a conduzir os presos O tal jaleco
pertence a 2ª galeria do C. O mesmo lhe alcançou droga dizendo que era dele. O
declarante pegou e guardou. Que quando foi ver a brigada já o estava abordando e
revistando achando droga. Afirma que é usuário de maconha desde os doze anos. Já
iniciou tratamento para parar porem nunca terminou. Nunca foi preso com drogas. Que
atualmente cumpre pena por assalto. O dinheiro encontrado, cerca de sete reais, afirma
lhe pertencer, fruto da venda de uma manta sua. Nada mais.” (p. 4)

Processo:
Promoção do MP: “considerando-se que o agente infrator JML, encontra-se recolhido, o
Ministério Público requer seja oficiada à SUSEPE – departamento de tratamento penal,
requisitando seja o autor do fato incluindo no programa de tratamento de dependência
toxicológica existente no sistema prisional.” (p. 15).
- Juiz acolhe a promoção.

Observações: -










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Caso 29

Número do processo: 001/2.09.00256337-8
Juizado: Juizado Especial Criminal do Partenon
Autor: GTC - homem
Nascimento: 1987
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Lomba do Pinheiro
Local do Flagrante: Vila Esmeralda
Data/horário: 30/11/08, 17h30
Droga: Crack
Quantidade: 0,4g
Processo finalizado: 05/05/09
Antecedentes: não
TC/IP: “abordagem de rotina”.

Processo:
- Designada audiência preliminar (mesmo teor do caso 16).
- Autor do fato aceita encaminhamento ao CIARB.
- Autor comprova o comparecimento a 12 reuniões do NA.
- MP requer que seja extinta a punibilidade e o arquivamento do feito.
- Juiz acolhe.

Observações: -






















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Caso 30

Número do processo: 001/2.09.00237438-5
Juizado: Juizado Especial Criminal do Partenon
Autor: PS - homem
Nascimento: 1981
Profissão: Garçom
Bairro/cidade em que mora: Partenon
Local do Flagrante: Rua Tobias Barreto, Praça Esperanto
Data/horário: 03/12/08, 15h00
Droga: Maconha
Quantidade: 0,3g
Processo finalizado: 18/05/09
Antecedentes: não
TC/IP: -

Processo:
- Designada audiência preliminar (mesmo teor do caso 16).
- Autor do fato aceita encaminhamento ao CIARB.
- Autor comprova o comparecimento a 12 reuniões do NA.
- MP requer que seja extinta a punibilidade e o arquivamento do feito.
- Juiz acolhe.

Observações: Autor do fato estava consumindo no momento do flagrante.





















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Caso 31

Número do processo: 001/2.07.0004231-9
Juizado: Juizado Especial Criminal da Tristeza
Autor: JHPR - homem
Nascimento: 1986
Profissão: moto boy
Bairro/cidade em que mora: Vila Nova
Local do Flagrante: Av. Osvaldo cruz – Cia do Xis
Data/horário: 31/10/06, 21h30
Droga: maconha
Quantidade: 4g
Processo finalizado: 18/06/09
Antecedentes: sim, posse de drogas
TC/IP: -
Processo:
- Denúncia do MP: “no dia 31 de outubro de 2006, por volta das 11h10min, na Av.
Osvaldo Gonçalves Cruz, próximo ao nº 555/Cia do Xis, em via publica, nesta cidade, o
denunciado trazia consigo, para uso próprio, um cigarro artesanal e uma buchinha,
totalizando 2,059 gramas de “Canabis Sativa”, substância conhecida como
“maconha”conforme auto de apreensão de fl. 05 e laudo definitivo de fl. 08 do Termo
circunstanciado, sem autorização e em desacordo com determinação legal. A droga
apreendida contém tetrahidrocanabinol, que causa dependência psíquica, conforme
laudo da fl 08. Na oportunidade, o policial militar abordou o denunciado que se
encontrava no local acima mencionado, “fechando” um cigarro de maconha. Após
revista pessoal, foi encontrada, dentro do bolso direito da calça do denunciado, o
restante da droga retro descrita. Assim agindo, incidiu o denunciado nas sanções do art
28, caput, da lei 11343/06, motivo pelo qual o ministério publico oferece a presente
denúncia, para que, recebida e autuada, seja o denunciado citado para interrogatório e
demais atos processuais, bem como seja notificada a testemunha, a seguir arrolada,
preenchidas as demais formalidades legais, até final julgamento e condenação.” (p. 3).

- Audiência: “Pelo doutor juiz de direito foi dito que fica registrado que o Ministério
Público não ofertou a transação penal tendo em vista que o acusado já registra o
recebimento anterior por duas vezes mesmo beneficio. A seguir o Ministério Público
ofertou a suspensão condicional do processo por dois anos, o que foi aceito pelo
acusado mediante as seguintes condições: 1) comparecimento mensal a juízo para
justificar suas atividades; 2) não afastar-se da comarca por período superior a 30 dias
sem prévia comunicação ao juízo; 3) obrigação de freqüentar pelo período mínimo de
seis meses reuniões dos narcóticos anônimos, qual seja o grupo “Juntos podemos”,
situado na Wenceslau Escobar, 2,380, que é a igreja Nossa Senhora das Graças, sendo
eu deverá comprovar o comparecimento a quatro reuniões fechadas a cada mês perante
o cartório, o que será feito nas mesmas datas das apresentações. O acusado declara
aceitar as condições agora referidas e pelo Juiz foi dito que no prosseguimento recebia a
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denúncia e concedia a suspensão condicional do processo pelo prazo de dois anos frente
as condições supramencionadas. Encaminha-se o acusado a cartório onde receberá os
endereços onde deverá comparecer. Presentes intimados.Diligencias legais. Nada mais.”
(p. 36)
- Autor cumpre o determinado.
- MP: “MM Juiz, cumpridas as condições da SCP, requer a signatária seja declarada a
extinção de punibilidade do autor” (p. 64).
- Juiz: “Tendo em vista que o acusado TTM cumpriu as condições para a suspensão
Condicional do Processo, estabelecida ás fl. 36, acolho a promoção do Ministério
Público e declaro extinta a sua punibilidade, com base no art. 89, parágrafo 5º, da lei
9099/95.” (p.66)

Observações: -
























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200
CASO 32

Número do processo: 001/2.08.00200187-7
Juizado: Juizado Especial Criminal da Tristeza
Autor: LRF - homem
Nascimento: 1987
Profissão: Estagiário em órgão público municipal
Bairro/cidade em que mora: Cavalhada
Local do Flagrante: Ênio da Rocha
Data/horário: 2/09/07, 10h40
Droga: Maconha
Quantidade: 0,8g
Processo finalizado: 11/03/09
Antecedentes: sim, posse de drogas
TC/IP: -
Processo:
- Denúncia do MP” No dia 02 de setembro de 2007, por volta das 10 horas e 40
minutos, na Rua Enio da Rocha, à altura do no 300 em via pública, nesta cidade o
denunciado trazia consigo para uso próprio, um cigarro artesanal, totalizando 08 gramas
de “Cannabis Sativa”, conhecida como “maconha”, conforme auto de apreensão (p. 04)
e laudo definitivo (p. 08), sem autorização e em desacordo com determinação legal.
A substância entorpecente contém tetrahidrocanabinol, que causa dependência
psíquica, conforme laudo da p.08. Na oportunidade, a guarnição da brigada militar
realizava patrulhamento de rotina na área do endereço supracitado, quando abordou o
denunciado carregando um cigarro na droga retro descrita em sua mão. Assim agindo,
incidiu o denunciado nas sanções do art. 28, caput, da Lei 11343/06, motivo pelo qual o
Ministério Público oferece a presente denúncia, para que, recebida e autuada, seja o
denunciado citado para interrogatório e demais atos processuais, bem como seja
notificada a testemunha, a seguir arrolada, preenchidas as demais formalidades legais,
até final julgamento e condenação.” (p. 03).

- Audiência igual ao caso 31(mesmas condições).
- Autor cumpre o determinado.
- Juiz declara extinta a punibilidade.

Observações: -






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Caso 33

Número do Processo: 001/2.08.0020490-6
Juizado: Juizado Especial Criminal da Tristeza
Autor: CELC - homem
Nascimento: 1979
Profissão: mecânico
Bairro/cidade em que mora: Bairro Camaquã
Local do Flagrante: Camaquã (residência)
Data/horário: 28/10/08, 10h
Droga: Maconha
Quantidade: 1 g
Processo finalizado: 10/03/09
Antecedentes: sim, posse de drogas
TC/IP: “que o acusado encontrava-se no interior de sua residência e sua mãe solicitou a
Brigada Militar dizendo que ele tinha problemas psiquiátricos e já estava baixado no
Hospital Espírita e queria apoio para conduzi-lo até o Postão da Cruzeiro. Sr. CELC:
que na semana passada adquiriu a porção de maconha no morro da cruz por R$ 1,00,
que ele tirou do bolso do abrigo o pacotinho com cheiro de maconha em torno de uma
grama da substancia e efetuou a entrega aproximadamente e disse que as vezes faz uso
da droga.” (p. l0)

Processo:
- Denúncia MP: “O Ministério Público propõe ao denunciado, pelo prazo de um ano, a
suspensão condicional do processo, mediante as seguintes condições: a)
Comparecimento obrigatório em juízo, trimestralmente, para informar e justificar suas
atividades; b) comunicação de qualquer alteração de endereço; c) proibição de ausenta-
se da comarca onde reside, por mais de trinta dias, sem autorização judicial; d) doação
para entidade a ser designada e em quantidade e prazo a serem definidos em audiência,
sob pena de prosseguimento do feito, devendo apresentar recibo devidamente
identificado e firmado por representante da entidade indicada, e) comprovar,
mensalmente, estar-se submetendo tratamento para dependência química, pelo período
de 01 ano, em entidade a ser indicada pelo juízo. (p. 4)

- Audiência: “Aberta a audiência pelo MM Juiz de Direito foi dito que apregoadas as
partes, ausente o acusado CELC. A seguir pelo juiz foi dito que o acusado foi intimado
e não compareceu. Assim, dê-se vista ao MP para exame quanto a formulação de
denúncia ou não. Presentes intimados. Nada mais.” (p. 29).
A defensora publica apresenta uma petição informando que o a mãe do acusado
compareceu na defensoria publica explicando que o filho é bipolar e que está internado
e interditado sendo ela sua curadora.
- O MP requer o prosseguimento do feito, com designação de audiência de instrução:
“Aberta a audiência pelo Juiz de Direito foi dito que apregoadas as partes, ausente o
acusado, presente sua mãe, informando que o acusado é interditado, apresentado
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202
documentos. Presente a Defensora Pública. A seguir pelo juiz foi dito que com a
concordância do Ministério Publico ficava suspenso o processo pelo período de 1 ano,
ficando a Mãe do acusado responsável para comprovar a manutenção do tratamento que
o acusado realiza no Hospital Espírita ou em ambulatório no Posto de saúde Municipal,
devendo trazer atestado médico trimestralmente para juntar os autos. Pelo dr Juiz foi
dito que recebia a denúncia, determinando a suspensão condicional do processo, nos
termos supra.” (p. 45).
- A mãe do acusado cumpre com as obrigações e juiz determinada extinta a
punibilidade.

Observações: -

























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Caso 34

Número do processo: 001/2.08.0048968-4
Juizado: Juizado Especial Criminal da Tristeza
Autor: JPC - homem
Nascimento: 1985
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Vila Nova
Local do Flagrante: Av. Cidreira, n 2295 - Cidreira
Data/horário: 22/12/06, 10h25
Droga: maconha
Quantidade: 1,6g
Processo finalizado: ainda não – cumprimento de SCP
Antecedentes: não
TC/IP: -

Processo:
- MP requer seja designada audiência preliminar: “Aberta a audiência pelo MM Juiz de
Direito foi dito que nomeio a Defensora Pública, aqui presente, como defensora do réu
para que apresente defesa preliminar: MM. Juiz que o réu é inocente porque será
comprovado no transcurso do processo. Pede absolvição. Pelo Dr. Juiz foi dito que
recebo a denúncia de fl. 02. E face aos bons antecedentes do réu foi proposta e aceita
pelo mesmo a suspensão condicional do processo pelo prazo de dois anos, mediante as
seguintes condições: A)o réu comparecerá em juízo mês em mês para comprovar que
está estudando e/ou trabalhando, ou justificar a ausência do estudo ou trabalho; B) o réu
não se ausentará da comarca por mais de 30 dias e não mudará de endereço sem prévia
comunicação ao juízo. C) O autor pagará R$ 50,00 ao CONSEPRO de Imbé no prazo de
trinta dias, apresentando o comprovante nesta comarca. Fica o réu desde já advertido
que o não cumprimento de qualquer uma das cláusulas acima, a suspensão supra será
revogada e o processo reiniciado. Isto posto, homologo a suspensão supra para que
produza seus jurídicos e legais efeitos, passando a mesma a vigorar a partir do dia de
hoje. Caso o réu não resida nesta comarca, depreque-se a fiscalização da mesma.
Presentes intimados. Nada mais” (p. 5).

- Termo de apresentação de suspensão do processo: “ Aos 19/08/08, neste juízo, perante
mim, Escrivão abaixo assinado, às 16:25 horas, compareceu o acima nominado, já
qualificado, declarando estar cumprindo as condições e de que esta residindo na Rua
Carlos Superti, 35 atualmente trabalhando como autônomo na venda de empréstimos.
Fica ciente de que deverá comparecer novamente, neste cartório, no próximo mês de
setembro. Nada mais.” (p.8).
- Ultima apresentação marcada para 10/08/09.

Observações: -

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Caso 35

Número do processo: 001/2.07.0010951-0
Juizado: Juizado Especial Criminal da Tristeza
Autor: TTM - homem
Nascimento: 1984
Profissão: Trabalha no SESC
Bairro/cidade em que mora: Avenida Nonoai
Local do Flagrante: Av Otto Niemayer
Data/horário: 25/06/06, 24h00
Droga: maconha
Quantidade: 1,1g
Processo finalizado: 27/05/09
Antecedentes: sim, posse de drogas
TC/IP: -

Processo:
- MP oferece a denúncia requerendo a audiência preliminar.
- Na audiência o MP oferta a suspensão condicional do processo mediante as seguintes
condições: 1) comparecimento mensal a juízo para justificar suas atividades mantendo o
endereço sempre atualizado perante o Foro, 2) não se afastar por mais de 30 dias da
Comarca de Porto Alegre sem prévia autorização do Juízo; 3) comprovar
comparecimento nas reuniões do NA pelo período mínimo de seis meses, sendo uma
reunião por semana, sendo essas reuniões fechadas, ficando em princípio designado o
grupo “Juntos Podemos”. (p. 32).
- Termo de apresentação de suspensão do processo: “Aos 06/06/07, neste juízo, perante
mim, Escrivão abaixo assinado, às 17 horas, compareceu o acima nominado, já
qualificado, declarando estar cumprindo as condições e de que esta residindo na Rua
Otto Niemayer, 1964/303, trabalhando na firma Academia do SESC- estágio, na Av
João Pessoa. Fica ciente que deverá comparecer novamente neste cartório, no próximo
mês. Nada mais. Obs: O acusado fez entrega do comprovante de comparecimento ao
NA.” (p. 35).
- MP: “MM Juiz, cumpridas as condições da SCP, requer a signatária seja declarada a
extinção de punibilidade do autor” (p. 74).
- Juiz: “Tendo em vista que o acusado TTM cumpriu as condições para a suspensão
Condicional do Processo, estabelecida ás fl. 32, acolho a promoção do Ministério
Público e declaro extinta a sua punibilidade, com base no art 89, parágrafo 5º, da Lei
9099/95.” (p. 77).

Observações: -



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205
Caso 36

Número do processo: 001/2.07.0013784-5
Juizado: Juizado Especial Criminal da Tristeza
Autor: SAS - homem
Nascimento: 1986
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Assunção
Local do Flagrante: Rua Liberal – Praça Irene Stricher
Data/horário: 15/10/06, 15h50
Droga: Maconha
Quantidade: 2,3g
Processo finalizado: 10/03/09
Antecedentes: sim, posse de drogas
TC/IP: -
Processo:
- MP oferece a denúncia requerendo a audiência preliminar.
- Na audiência o MP oferta a suspensão condicional do processo mediante as seguintes
condições (as mesmas do caso 35).
- MP: “MM Juiz, cumpridas as condições da SCP, requer a signatária seja declarada a
extinção de punibilidade do autor” (p. 57).
- Juiz acolhe.

- Observações: -

















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Caso 37

Número do processo: 001/2.08.0080334-6
Juizado: Juizado Especial Criminal da Tristeza
Autor: ALC - homem
Nascimento: 1975
Profissão: Motorista de uma empresa prestadora de serviço para o município
Bairro/cidade em que mora: Juca Batista
Local do Flagrante: Rua nova Ipanema, Hípica
Data/horário: 25/10/08, 03h00
Droga: maconha
Quantidade: 56g
Processo finalizado: 25/06/09
Antecedentes: não
TC/IP: -

Processo:
- MP “Diante do aduzido, quer o MP seja designada audiência preliminar, na forma do
art. 72 da Lei 9099/95, ofertando-se ao autor o benefício da transação criminal, desde já,
em havendo a continuidade do processo, conforme sistemática já assentada nesse
JECRIm.” (p. 16).
- “Aberta a audiência pelo MM . Juiz de Direito foi dito que apregoadas as partes,
presente o acusado, bem como a Dra Defensora Pública. A seguir pelo juiz foi dito que,
o acusado admite que é usuário de drogas e está disposto a fazer um tratamento.
Proposta a transação penal a mesma foi aceita. Assim aplico ao acusado como Medida
Social alternativa (transação criminal), na efetivação de tratamento pelo acusado, pelo
prazo mínimo de quatro meses, junto ao CIARB, localizado no prédio do IPERGS,
avenida Borges de Medeiros, no 1945, 8º andar, sala 182. Fica desde já transacionado
que, caso não ocorra o cumprimento do ajustado, o acusado pagará multa de 10 salários
mínimos em favor do Estado. Encaminhe-se o acusado ao cartório, onde ficará intimado
da data que deverá comparecer ao CIARB, anotando-se aos autos. Oficie-se ao CIARB.
Presentes intimados. Nada mais.” (p. 26).
- CIARB “ Srs. Em atenção ao seu encaminhamento, ofício no 91/2009, processo no
20800803346, jurisdicionando ALC, temos a informar que o mesmo compareceu na
data de hoje em nosso Centro, oportunidade em que apresentou comprovação de
freqüência em reuniões de grupo de Auto Ajuda, concluindo o que lhe foi determinado,
nas datas 17/03, 20/03, 14/04, 17/04, 22/04/,29/04, 06/05, 08/05, 13/05, 16/05, 20/05,
05/06. Em sendo assim, nossa intervenção está sendo encerrada e o presente enviado ao
nosso arquivo de casos findos com conclusão positiva.” (p. 30).
- MP requer seja declarada extinta a punibilidade.
- Juiz acolhe.

Observações: -

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Caso 38

Processo: 001/2.08.0020178-8
Juizado: Juizado Especial Criminal da Tristeza
Autor: RDD - homem
Nascimento: 1987
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Cavalhada
Local do Flagrante: Rua Evangelista F. Silva
Data/horário: 20/10/07, 09:55
Droga: cocaína
Quantidade: 2g
Processo finalizado: 08/06/09
Antecedentes: sim, posse de drogas e contravenção penal.
TC/IP: “ Foi abordado o rapaz RDD juntamente com quatro amigos, pois os mesmo
encontravam-se fumando maconha e ao serem abordados foi encontrado com RDD uma
bucha contendo um pó branco semelhante a cocaína. O mesmo assumiu que era dele a
bucha.” (p. 9).

Processo:
- MP requer seja designada audiência preliminar.
- Audiência: O MP não ofereceu a transação criminal porque o acusado registra
antecedentes e já recebeu o benefício anteriormente. Foi ofertada a suspensão
condicional do processo mediante as seguintes condições: a) comparecimento pessoal e
obrigatório em juízo, trimestralmente, para justificar suas atividades; b) comunicação de
qualquer alteração de endereço; c) proibição de ausentar-se da comarca onde reside, por
mais de 30 dias, sem autorização judicial; d) comprovar que está se submetendo a
tratamento para dependência química, em entidade a ser indicada pelo CIARB. (p. 29).
- Ofício do CIARB (igual ao caso 37) comunicando que a intervenção do órgão foi
encerrada positivamente.
- Autor faz sua ultima apresentação em juízo no mês de junho.
- MP requer extinta a punibilidade.
- Juiz acolhe.

Observações: -







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Caso 39

Número do processo: 001/2.08.0057594-5
Juizado: Juizado Especial Criminal da Tristeza
Autor: GTR - homem
Nascimento: 1978
Profissão: pedreiro
Bairro/cidade em que mora: -
Local do Flagrante: Av Otto Niemayer
Data/horário: 23/11/07, 12h50
Droga: Maconha
Quantidade: 0,6g
Processo finalizado: 09/06/09
Antecedentes: não
TC/IP: -

Processo:
- Designada audiência preliminar.
- MP oferece o beneficio da transação penal.
- Condições iguais ao do caso 37.
- CIARB encaminha ofício informando que foi positivo o tratamento (teor igual ao do
caso 37).
- MP requer extinção a punibilidade.
- Juiz acolhe.

Observações: autor do fato fumava em frente a obra que trabalha no horário do almoço.














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Caso 40

Número do processo: 001/2.08.0066992-5
Juizado: Juizado Especial Criminal da Tristeza
Autor: LAE - homem
Nascimento: 1973
Profissão: carroceiro
Bairro/cidade em que mora: Rua Begônia, Cavalhada
Local do Flagrante: Rua Begônia
Data/horário: 29/08/08, 9h20
Droga: maconha
Quantidade: 1,3g
Processo finalizado: ainda não, cumprimento de SCP
Antecedentes: sim, tráfico e receptação
TC/IP: -

Processo:
- MP requer seja designada audiência preliminar.
- Audiência: O MP não ofertou a transação criminal, em face de seus maus
antecedentes. Foi ofertada a possibilidade de suspensão condicional do processo, o que
foi aceito pelo acusado. Assim foi concedida a suspensão condicional do processo pelo
período de 2 anos, mediante as seguintes condições: a) comparecimento pessoal e
obrigatório em juízo, trimestralmente para justificar suas atividades; b) comunicação de
qualquer alteração de endereço; c) proibição de ausentar-se da comarca onde reside, por
mais de 30 dias, sem autorização judicial; d) comprovar que está se submetendo a
tratamento para dependência, e) comparecendo em 12 reuniões dos Narcóticos
Anônimos, pelo período de 4 meses, comprovando mensalmente. Juiz recebeu a
denúncia e concedia a suspensão condicional do processo. (p. 36).
- Autor comprova o comparecimento a 12 reuniões do NA.
Apresentou em juízo 3 vezes desde então sendo que a data para sua ultima apresentação
é 17/06/2010.

Observações: -









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Caso 41

Número do processo: 001/2.07.0019577-1
Juizado: Juizado Especial Criminal da Tristeza
Autor: JPVR - homem
Nascimento: 1963
Profissão: pedreiro
Bairro/cidade em que mora: Rua Ipê Amarelo, Cavalhada
Local do Flagrante: em sua residência
Data/horário: 08/06/06, 00:10
Droga: maconha
Quantidade: 1,7g
Processo finalizado: 26/06/09
Antecedentes: sim, posse e tráfico de drogas
TC/IP: “Em policiamento em local de tráfico a guarnição resolveu efetuar abordagem
no senhor JP o qual se recusou a revista. Foi solicitado uma viatura ostensiva para
apoiar a abordagem. O senhor JP estava alcoolizado e com a chegada das viaturas o
mesmo fugiu para o interior onde foi detido. O acusado estava muito agressivo e foi
usado dos meios moderados para algemá-lo acabando ferido na testa. Foi localizado ao
lado de uma geladeira um coldre auxiliar para revolver, uma niqueleira, três porções de
maconha e um papel colomy. Acusado: O senhor JP confirma a versão do policial.
Reitera que se recuou a abordagem e que tentou impedir que a guarnição entrasse dentro
da casa.” (p. 10).

Processo:
- MP requer seja designada audiência preliminar.
- Audiência “Aberta a audiência pelo MM Juiz de Direito foi dito que apregoadas as
partes, presente o acusado JP, bem como sua advogada. A seguir pelo Juiz foi dito que,
o Ministério Público ofertou a possibilidade de suspensão condicional do processo, o
que foi aceito pelo acusado. Assim, pelo MM Juiz foi dito que concedia a suspensão
condicional do processo, pelo período de 02 anos, mediante as seguintes condições: 1)
comparecimento pessoal e obrigatório em juízo, trimestralmente para justificar suas
atividades; 2) comunicação de qualquer alteração de endereço; 3) proibição de ausentar-
se da comarca onde reside, por mais de 30 dias, sem autorização judicial; 4) o acusado,
aceita como medida social alternativa (transação criminal), na efetivação de tratamento
pelo acusado, sendo 12 reuniões no NA pelo prazo de quatro meses, junto ao CIARB,
localizado no prédio do IPERGS. Pelo dr Juiz foi dito que recebia a denúncia e concedia
a suspensão condicional do processo, nos termos supra. Encaminhe-se à cartório para
diligências. Oficie-se ao CIARB. Presentes intimados. Nada mais. (p.31).
- Autor comprova o comparecimento a 12 reuniões do NA.
- Última apresentação em juízo foi em 24/06/09.
- MP requer extinção a punibilidade.
- Juiz acolhe
Observações: -
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211
Caso 42

Número do processo: 001/2.07.0070457-5
Juizado: Juizado Especial Criminal da Tristeza
Autor: FLC - homem
Nascimento: 1971
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Tristeza
Local do Flagrante: Rua Mal. Hermes
Data/horário: 28/04/07, 23:00
Droga: crack
Quantidade: 0,4g
Processo finalizado: 12/06/09
Antecedentes: sim, homicídio culposo (pena 2 anos de detenção, substituída por
serviço à comunidade e 12 salários mínimos à família de vítima) e posse de drogas
TC/IP: “Abordagem de rotina”.
Processo:
- MP requer audiência preliminar.
- Audiência: não foi ofertada a transação criminal, pois apresenta antecedentes. Foi
ofertada a possibilidade de suspensão condicional do processo, o que foi aceito pelo
acusado, pelo período de dois anos, mediante as seguintes condições (iguais dos casos
anteriores).
- CIARB: “Estamos encaminhando informação referente ao processo 20700704575,
jurisdicionando FLC. Foi encaminhado ao grupo de narcóticos anônimos em 18/12/08.
Desde então comprovou participação em 09 reuniões de grupo NA. Hoje a família nos
informou e trouxe declaração de este prossegue com o tratamento, agora intensivo, no
centro terapêutico RECREO (na cidade de Montenegro).” (p. 54).
- A defensora pública informa que o réu está em tratamento no grupo RECREO,
justificando assim sua ausência na comarca requerendo a continuidade da suspensão do
processo.
- MP: “Tendo em vista as informações de fls 55/57, requer o Ministério Público o
prosseguimento da suspensão condicional do processo e que em três meses seja dada
vista para exame quanto à regularidade do referido beneficio.” (p. 59).
- Juiz acolhe o parecer.
- O réu comparece em juízo, informa seu endereço e que atualmente está trabalhando
como professor de música.
- CIARB informa que FLC compareceu a 9 reuniões e solicitam informações quanto ao
tratamento.
- Autor comprova seu comparecimento a 96 reuniões em grupos de auto-ajuda enquanto
estava internado na comunidade terapêutica RECREO.
- Último comparecimento em juízo foi 09/06/09.
- MP requer extinção da punibilidade.
- Juiz acolhe.
Observações: -
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212
Caso 43

Número do processo: 001/2.07.0070452-4
Juizado: Juizado Especial Criminal da Tristeza
Autor: CCO - mulher
Nascimento: 1985
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Bairro Camaquã
Local do Flagrante: Rua Prof. João Pitta Pinheiro Filho
Data/horário: 23/04/07, 23h
Droga: maconha
Quantidade: 2,2g
Processo finalizado: 22/04/09
Antecedentes: sim, posse de drogas
TC/IP: “foi apreendido junto com a maconha um esmurrugador e uma colomy. (p. 09).

Processo:
- MP requer audiência preliminar.
- Audiência: “Aberta a audiência pelo MM Juiz de direito foi dito que apregoadas as
partes, presente a acusada CCO, bem como o defensor dativo, nomeado para o ato, que
gentilmente aceitou o encargo. A seguir foi dito pelo Juiz que a transação criminal não
ofertada pelo Ministério Público, visto que já recebeu o benefício anteriormente. Fica
consignado que o Ministério Público ofertou a possibilidade de suspensão condicional
do processo, o que foi aceito pela acusada, mediante as seguintes condições: 1)
comparecimento pessoal e obrigatório em juízo, bimensalmente, para justificar suas
atividades. 2) comunicação de qualquer alteração de seu endereço. 3) Proibição de
ausentar-se da comarca onde reside, por mais de 30 dias, sem autorização judicial. 4)
comprovar que está se submetendo a acompanhamento para sustar o uso de drogas junto
ao CIARB, por pelo menos três meses de prazo. Pelo MM Juiz foi dado seguimento,
dando a palavra ao Dr. Defensor para responder a acusação e por ele foi dito que não é
verdadeira acusação como ficará provado ao final. Pelo Dr Juiz foi dito que recebia a
denúncia, concedendo a suspensão condicional do processo, pelo prazo de dois anos,
nos termos supra. Presentes intimados. Nada mais.” (p. 28/29).
- CIARB informa que a intervenção será encerrada o presente processo enviado ao
arquivo dos casos findos com conclusão positiva. (p.34).
- Último comparecimento em juízo no dia 20/04/08.
- MP requer extinção a punibilidade.
- Juiz acolhe.

Observações: -




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213
Caso 44

Número do processo: 001/2.07.0018998-0
Juizado: Juizado Especial Criminal da Tristeza
Autor: DIR - homem
Nascimento: 1976
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Cavalhada
Local do Flagrante: Rua Ângelo Barbosa, Cavalhada
Data/horário: 09/04/06
Droga: maconha
Quantidade: 16g
Processo finalizado: 03/07/09
Antecedentes: sim, posse de drogas e lesão corporal leve
TC/IP: -

Processo:
- MP: “diante do aduzido, requer o ministério público seja designada audiência
preliminar, na forma do art. 72 da Lei 9099/95, ofertando-se ao autor o benefício da
transação criminal desde já, em havendo continuidade do processo, conforme
sistemática já assentada nesse JECrim.” (p. 44).
- Audiência: “aberta a audiência pelo MM Juiz de direito foi que apregoadas as partes,
presente o acusado D, bem com a Defensora Pública. A seguir pelo Juiz foi dito que o
acusado não aceita a transação penal. Assim, dê-se vista ao Ministério Público para
exame quanto á formulação de denúncia ou não. Presentes intimados. Nada mais.”(p.
50).
- Audiência de instrução e julgamento: mesmas condições do caso 37 que foram aceitas
pelo acusado. (p. 60/61)
- Autor comprova o comparecimento a 12 reuniões do NA.
- Última apresentação em juízo foi no dia 31/06/08.
- MP requer extinção da punibilidade.
- Juiz acolhe.

Observações: -










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CASO 46

Número do processo: 001/2.07.0043536-1
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Sarandi
Autor: MAT - homem
Nascimento: 1977
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Acesso 3, nº105 DMAE – Rubem Berta
Local do Flagrante: Rua Recife, 51, (próximo ao Bar América)
Data/horário: 19/06/2007, 16h20.
Droga: crack
Quantidade: 0,178g
Processo finalizado: 16/04/2009
Antecedentes: não
TC/IP: “foi avistado em atitude suspeita”; “foi perguntado onde adquiriu”
Processo:
- Autor do fato não foi encontrado.
- MP requereu endereço aos órgãos de praxe.
- Expedido mandado de intimação de audiência três vezes.
- Audiência preliminar: MP: “diante das declarações do autor do fato, admitindo
envolvimento com a droga e mostrando interesse em tratamento de drogadição, requer
seja o autor encaminhado para tratamento de drogadição.”
- Autor do fato aceita encaminhamento ao CIARB.
- CIARB envia e-mail informando que o autor nunca compareceu ao órgão. (arquivado
por abandono).
- MP requereu nova audiência. Autor mesmo intimado não compareceu.
- MP requereu novamente audiência e o autor devidamente intimado não compareceu.
- Foi marcada nova audiência onde foram ouvidos como testemunhas os dois PM’s que
realizaram a abordgem:
“J: Lembra porque ele foi abordado? T: Suspeito. Ali é cheio de viela.”
“J: Suspeito como? T: Pelo local. O local tem bastante ocorrência de tráfico, pegamos
usuário de drogas ali. E a gente também quando abordou e ele não soube dizer aonde ia
e o que estava fazendo.
“O senhor lembra do réu? Da fisionomia dele, não.”
(...)
“J: O que chamou atenção? T: As vestes, aspecto físico. Ele era suspeito porque todo
mundo estava passando e ele estava ali parado na esquina.”
“J: Lembra o que ele alegou na hora? T: Não lembro faz tempo.”

- Foi proferida sentença em audiência condenando o réu a PSC pelo prazo de dois meses
já que não compareceu a medida terapêutica ofertada anteriormente.
- Foi intimado da sentença por edital. Encaminhado ofício ao TRE e expedido o PEC.
Observações: -

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CASO 47
Número do processo: 001/2.08.0038889-6
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Sarandi
Autor: NMR – homem e JAP - homem
Nascimento: 1982 e 1981
Profissão: técnico em informática e não consta
Bairro/cidade em que mora: Jardim Algarve/Alvorada e Elizabeth
Local do Flagrante: Av. Assis Brasil, 8787, próximo a fábrica da Vonpar, Coca-- cola
Data/horário: 27/03/2008, 21h53.
Droga: maconha
Quantidade: 2,082g
Processo finalizado: 06/04/2009
Antecedentes: não
TC/IP: “abordagem em barreira de trânsito, foi encontrado no porta-luvas do carro 4
pedrinhas de erva-esverdeada.”

Processo:
- Foi designada audiência preliminar onde os autores foram encaminhados ao CIARB
para tratamento de drogadição.
- Ambos somente compareceram uma vez ao CIARB onde foram orientados a
frequentarem o NA e que as presenças deveriam ser comprovadas.
- CIARB enviou e-mail informando que os jurisdicionados não comprovaram a
frequência ao NA
- Foi realizada nova audiência e os dois autores compareceram. MP ofereceu transação
de pagamento de R$ 150,00 em duas parcelas de R$ 75,00 para cada um dos autores a
serem depositados na conta da instituição Ancopar e Santa Catarina.
- Efetuaram o depósito e o processo foi arquivado.
“Aberta a audiência pela MM. Juíza de Direito foi dito que concedia a palavra ao
Ministério Público, que oferece proposta de TRANSAÇÃO, ficando os autores do fato
ciente dos efeitos da transação, e que se trata de um instituto prévio a ação penal, bem
como, de que não implica a assunção de culpabilidade, aceita pelos autores do fato e
Defensor, nos seguintes termos: pagamento de R$ 150,00 para cada um dos autores,
parcelado em 2 parcelas de R$ 75,00 , a serem depositadas na conta da instituição
Acompar e Santa catarina , cadastrada neste Cartório. A primeira parcela deverá ser
depositada até o dia 15 / 02 /2009 , a segunda até o dia 15 / 03 /2009 , devendo os
autores apresentarem , em Cartório, a comprovação do depósito, pois entregue neste ato
DOC(s) para pagamento. Pela MM. Juíza foi dito que, diante da aceitação expressa dos
autores do fato, homologo a transação penal. Em caso do não cumprimento será
convertida em PSC por mês, horas semanais. Presentes intimados. Nada mais.”
Observações: -



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216
CASO 48

Número do processo: 001/2.06.0034644-8
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Sarandi
Autor: DSD - homem
Nascimento: 1984
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Sarandi
Local do Flagrante: Av. Maria Josefa da Fontoura, 200, Sarandi
Data/horário: 20/04/2006, 21h45
Droga: cocaína
Quantidade: 0,498g
Processo finalizado: 07/11/2008
Antecedentes: sim, 2 posse de drogas (um cumpriu a medida no CIARB e o outro não
compareceu à audiência pois estava internado no programa “Desafio Jovem Luz no
Vale”)
TC/IP: “atitude suspeita em local conhecido como ponto de tráfico de drogas, motivo
pelo qual foi abordado.” “O autor não forceceu identificação civil na hora do flagrante.”
Foi encaminhado à DP. DENARC.
Processo:
- Foi designada audiência preliminar onde o autor não compareceu. Não foi intimado.
Sra. Que reside no local há 20 anos disse nunca ter ouvido falar no nome do autor.
- Foi requerida a intimação do réu nos endereços constantes nos processos antigos. Esta
restou exitosa mediante seu pai que comprometeu-se a entregar o mandado ao filho que
estava morando em Eldorado do Sul.
- Realizada audiência, réu presente foi determinada a suspensão do processo pelo prazo
de dois anos mediante as seguintes condições: 1) o réu deverá se apresentar
trimestramelnte neste juízo; 2) não mudar de endereço e número de telefone residencial
e profissional sem avisar este juízo; 3) não se afastar da Comarca sem avisar o Juízo.
- Réu aceitou as condições.
- Apresentou-se em cartório por duas vezes. Não compareceu mais e foi expedido
mandado de intimação para comparecer em cartório. Endereço não foi encontrado.
- MP aprsentou endereço para intimação. E cópia de uma sentença da 1ª vara Criminal
do Foror Regional do Sarandi onde o réu foi condenado (Art. 157 – processo nº
207004485579). Diante disso MP requereu revogação da suspensão do processo.
- Juiz acolheu a promoção e revogou o benefíco marcando data para audiência de
instrução e julgamento.
- Acusado compareceu e afirmou ser usuário a mais de 6 anos.
“J: Na verdade o processo estava suspenso e você foi condenado por roubo, você tem
praticado outros delitos para conseguir a droga? I: Não, foi a única vez, agora estou
trabalhando.”
Sentença em audiência:
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217
“Considerando que o tratamento de drogadição restou infrutífero, tenho como
necessário para reprimenda do crime a pena prevista no inciso II do artigo 28 da Lei
11.343/06.”
- Foi condenado a PSC de dois meses em instituição a ser oportunamente fixada.
Não foi intimado da sentença. Foi determinado formação de PEC para encaminhamento
a VEMPA.

Observações: -




































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218
CASO 49

Número do processo: 001/2.08.0031887-1
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Sarandi
Autor: TSG - homem
Nascimento: 1987
Profissão: Eletrotécnico
Bairro/cidade em que mora: Jardim Pôr do Sol/ Porto Alegre (Av. Bernardino Silveira
Amorim)
Local do Flagrante: Av. Gamal Abdel, 345
Data/horário: 29/02/2008, 20h15
Droga: maconha
Quantidade: 2,467g
Processo finalizado: 18/11/2008
Antecedentes: não
TC: “Ao abordar o autor foi encontrado em seu poder pequeno tijolo de substância
esverdeada semelhante a maconha.

Processo:
- Foi designada audiência preliminar onde o autor compareceu e foi encaminhado ao
CIARB para tratamento de drogadição: “Aberta a audiência pela MM. Juíza de Direito
foi dito que dada a palavra ao Ministério Público, diante das declarações do Autor(a) do
Fato, admitindo o envolvimento com a droga e mostrando interesse em tratamento de
drogadição, requer seja o autor encaminhado para tratamento de drogadição. Pela MM.
Juíza foi dito que acolhia a manifestação do Ministério Público e da Defesa,
encaminhando o autor do fato para tratamento de drogadição pelo período que fica a
critério do CIARB, pela rede de saúde credenciada, para a qual será encaminhada pelo
CIARB – Centro Interdisciplinar de Apoio Rede Biopsicossocial, mediante
comparecimento ao Foro Central, sala 526 (5º andar), no CIARB, no dia
____/____/2008 , às ____ h ____ min, ficando desde já intimado. Pela MM. Juíza foi
dito que, comprovado o tratamento, determinava voltassem concluso para homologação.
Fica o autor ciente de que o não cumprimento do tratamento implicará no
prosseguimento do feito. Intimados os presentes. Nada mais.”
- CIARB enviou e-mail dizendo que o autor compareceu ao tratamento.
- Foi extinta a punibilidade.

Observações:







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CASO 50

Númerodo processo: 001/2.06.0093208-8
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Sarandi
Autor: DMF - homem
Nascimento: 1982
Profissão: funileiro
Bairro/cidade em que mora: Rubem Berta – Sta Rosa
Local do Flagrante: Rua, Tricolor, 09, Bairro Guapuruvú
Data/horário: 26/10/2006, 14h15
Droga: maconha
Quantidade: 0,754g
Processo finalizado: 18/11/2008
Antecedentes: não
TC/IP: “POLICIAL: Trata-se de entorpecente. Posse. AUTOR DO FATO: Informa
que é usuário e que estava fechando o baseado para relaxar.”

Processo:
- Foi designada audiência. Autor compareceu e foi encaminhado ao CIARB para
tratamento: “Aberta a audiência pela MM. Juíza de Direito foi dito que concedia a
palavra ao Ministério Público, que oferece proposta de TRANSAÇÃO, ficando o autor
do fato ciente dos efeitos da transação, e que se trata de um instituto prévio a ação
penal, bem como, de que não implica a assunção de culpabilidade, aceita pelo autor do
fato e Defensor, nos seguintes termos: pagamento de R$ 100,00 , parcelado em duas
parcelas de R$ 50,00 , a serem depositadas na conta da instituição SPAAN, cadastrada
neste Cartório. A primeira parcela deverá ser depositada até o dia 09 / 08 /2008 , a
segunda até o dia 09 / 09 /2008 , devendo o autor apresentar, em Cartório, a
comprovação do depósito, pois entregue neste ato DOC(s) para pagamento. Pela MM.
Juíza foi dito que, comprovado o depósito, determinava voltassem conclusos para
homologação. Fica o autor ciente de que o não cumprimento da presente transação
implicará o prosseguimento do feito. Presentes intimados. Nada mais.”
- Não compareceu ao CIARB (informação por e-mail).
- MP requereu nova audiência. O autor não compareceu à audiência pois oficial de
justiça não conseguiu intimá-lo. Juiz determinou busca de endereço.
- Realizada nova audiêcia sem comparecimento do autor.
- MP requereu nova intimação e designação de nova audiência.
- Autor foi intimado, mas não compareceu à audiência.
- Foi intimado novamente e dessa vez compareceu e aceitou transação para depositar R$
100,00 em duas parcelas de R$ 50,00 na conta da SPAAN.
- Autor não efetou os depósitos.
- Foi decretada extinta a punibilidade por prescrição (art. 107, IV).

Observações: -

Página 260 / 477
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CASO 51

Número do processo: 001/2.08.0038344-4
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Sarandi
Autor: GZN - homem
Nascimento: 1980
Profissão: comerciante
Bairro/cidade em que mora: Sarandi
Local do Flagrante: Av. Assis Brasil, 4600
Data/horário: 08/05/2008, 12h
Droga: maconha
Quantidade: 2,867g
Processo finalizado: 20/10/2008
Antecedentes: não
TC/IP: “Ao realizar barreira policial foi abordado veículo conduzido pelo autor o qual
foi efetuada busca pessoal.”

Processo:
- Designada audiência, o autor compareceu e foi encaminhado para tratamento no
CIARB: “Aberta a audiência pela MM. Juíza de Direito foi dito que dada a palavra ao
Ministério Público, diante das declarações do Autor(a) do Fato, admitindo o
envolvimento com a droga e mostrando interesse em tratamento de drogadição, requer
seja o autor encaminhado para tratamento de drogadição. Pela MM. Juíza foi dito que
acolhia a manifestação do Ministério Público , encaminhando o autor do fato para
tratamento de drogadição pelo período que fica a critério do CIARB, pela rede de saúde
credenciada, para a qual será encaminhada pelo CIARB – Centro Interdisciplinar de
Apoio Rede Biopsicossocial, mediante comparecimento ao Foro Central, sala 526 (5º
andar), no CIARB, no dia ____/____/2008 , às ____ h ____ min, ficando desde já
intimado. Pela MM. Juíza foi dito que, comprovado o tratamento, determinava
voltassem concluso para homologação. Fica o autor ciente de que o não cumprimento
do tratamento implicará no prosseguimento do feito. Intimados os presentes. Nada
mais.”
- CIARB informou que o jurisdicionado comprovou compareceimento as reuniões do
NA.
- Extinta punibilidade pelo cumprimento da medida.

Observações: -







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CASO 52

Número do processo: 001/2.08.0033588-1
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Sarandi
Autor: ISL - homem
Nascimento: 1984
Profissão: açogueiro
Bairro/cidade em que mora: Sarandi
Local do Flagrante: Rua Bogotá, Praça Panain
Data/horário: 06/05/2008, 17h25
Droga: maconha
Quantidade: 0,4g
Processo finalizado: 21/10/2008
Antecedentes: não
TC/IP: “Que durante policiamento ostensivo, abordaram o autor e na busca pessoal foi
encontrado cigarro de erva verde semelhante a maconha.
Autor: que foi à praça fumar um cigarro de maconha. Informa, ainda que é usuário.”

Processo:
- Realizada audiência, autor compareceu e foi encamnhado ao CIARB para tratamento:
“Aberta a audiência pela MM. Juíza de Direito foi dito que dada a palavra ao Ministério
Público, diante das declarações do Autor(a) do Fato, admitindo o envolvimento com a
droga e mostrando interesse em tratamento de drogadição, requer seja o autor
encaminhado para tratamento de drogadição. Pela MM. Juíza foi dito que acolhia a
manifestação do Ministério Público , encaminhando o autor do fato para tratamento de
drogadição pelo período que fica a critério do CIARB, pela rede de saúde credenciada,
para a qual será encaminhada pelo CIARB – Centro Interdisciplinar de Apoio Rede
Biopsicossocial, mediante comparecimento ao Foro Central, sala 526 (5º andar), no
CIARB, no dia ____/____/2008 , às ____ h ____ min, ficando desde já intimado. Pela
MM. Juíza foi dito que, comprovado o tratamento, determinava voltassem concluso
para homologação. Fica o autor ciente de que o não cumprimento do tratamento
implicará no prosseguimento do feito. Intimados os presentes.. Nada mais.”
- Autor do fato comprovou comparecimento ao tratamento inicado pelo CIARB.
- Extinta a punibilidade pelo cumprimento da medida.

Observações: O autor disse ser açougueiro do supermercado que fica a uma quadra da
praça em que estava fumando.







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CASO 53

Número do processo: 001/2.08.0038891-8
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Sarandi
Autor: LEG - homem
Nascimento: 1984
Profissão: auxiliar de segurança privada
Bairro/cidade em que mora: Rubem Berta (rua argentina)
Local do Flagrante: Rua Bernardino Oliveira Paim, 154
Data/horário: 08/05/2008, 11h50.
Droga: maconha
Quantidade: 0,521g
Processo finalizado: 23/01/2009
Antecedentes: não
TC/IP: “Encontrava-se fumando um cigarro de maconha encostado no veículo e ao
avistar a guarnição do POE jogou o cigarro nos seus pés.”

Processo:
- Realizada audiência, autor compareceu e foi encamnhado ao CIARB para tratamento:
“Aberta a audiência pela MM. Juíza de Direito foi dito que dada a palavra ao Ministério
Público, diante das declarações do Autor(a) do Fato, admitindo o envolvimento com a
droga e mostrando interesse em tratamento de drogadição, requer seja o autor
encaminhado para tratamento de drogadição. Pela MM. Juíza foi dito que acolhia a
manifestação do Ministério Público e da Defesa, encaminhando o autor do fato para
tratamento de drogadição pelo período que fica a critério do CIARB, pela rede de saúde
credenciada, para a qual será encaminhada pelo CIARB – Centro Interdisciplinar de
Apoio Rede Biopsicossocial, mediante comparecimento ao Foro Central, sala 526 (5º
andar), no CIARB, no dia ____/____/2008 , às ____ h ____ min, ficando desde já
intimado. Pela MM. Juíza foi dito que, comprovado o tratamento, determinava
voltassem concluso para homologação. Fica o autor ciente de que o não cumprimento
do tratamento implicará no prosseguimento do feito. Intimados os presentes. Nada
mais.”
- Autor do fato comprovou comparecimento ao tratamento inicado pelo CIARB.
- Extinta a punibilidade pelo cumprimento da medida.

Observações: -








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CASO 54

Número do Processo: 001/2.06.0064046-0
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Sarandi
Autor: MS - homem
Nascimento: 1978
Profissão: cabelereiro
Bairro/cidade em que mora: Parque dos Maias (Tarcila Moraes Dutra, 465)
Local do Flagrante: Rua Tarcila Moraes Dutra, 480
Data/horário: 24/04/2006, 14h32
Droga: maconha
Quantidade: 2,359g e 0,388
Processo finalizado: 13/01/2009
Antecedentes: não
TC/IP: “Autor: Alega que estava fumando porque é viciado.”

Processo:
- Realizada a audiência preliminar, devidamente intimado o autor do fato não
compareceu: “Aberta a audiência pelo(a) MM. Juiz(a) de Direito foi dito que pelo
Ministério Público foi oferecida denúncia e proposta a suspensão do processo, pelo
prazo de dois anos, mediante as seguintes condições: 1) deverá o réu se apresentar
trimestralmente em Juízo; 2) não mudar de endereço e número de telefone residencial e
profissional sem avisar o Juízo; 3) não se afastar da Comarca sem avisar o Juízo. Pelo
réu foi dito que aceitava as condições. Pela MM. Juíza foi dito que RECEBIA A
DENÚNCIA e DECLARAVA SUSPENSO O PROCESSO, e o prazo prescricional, por
dois anos. Decorrido o prazo, e cumpridas as condições, declarava extinta a
punibilidade do autor nos termos do art. 89 e seguintes da Lei n.º 9.099/95. Intimados
os presentes. Nada mais. Oficial Escrevente.”
- Em segunda audiência foi propsota a suspensção do processo pelo prazo de dois anos.
(mesmas condições do caso 48.
- O autor compareceu 6 vezes ao cartório. Defensoria pública peticionou requerendo a
permissão para se ausentar da comarca suspendendo a obrigação de apresentar-se ao
juízo.
- Acolhendo a promoção do MP o juiz indeferiu alegando que não há amparo legal para
o requerido, necessário, primeiramente cumprir o perídodo de suspensão condicional do
processo para desenvolver atividade fora da jurisdição.
- Foi intimado da decisão por oficial de justiça e compareceu mais 2 vezes ao juízo.
- Extinta a punibilidade.

Observações: foi flagrado na rua onde mora.




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CASO 55

Número do processo: 001/20507656319
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Sarandi
Autor: JF - homem
Nascimento: 1986
Profissão: servente de obras
Bairro/cidade em que mora: Vila Nazareth/POA
Local do Flagrante: Rua Tibagi, 25, POA (Pça Jorge Bastane)
Data/horário: 18/09/2005, 14h20.
Droga: maconha
Quantidade: 4,475g
Processo finalizado: 22/12/2008
Antecedentes: não
TC/IP: “COMUNICANTE: Durante o patrulhamento, abordamos o Sr. Jefferson
Ferreira, que se encontrava sentado no banco da praça Jorge Bastane e ao fazermos a
revista pessoal, localizamos dentro do bolso tipo canguru de seu moleton, seis gramas
de uma erva esverdeada em forma de torrão, com cheiro caracterísco de maconha.
AUTOR: Relata que ao sair da Vila Nazareth, achou a erva na pista da Av. Sertório, e
que pegou porque é usuário de maconha.”
- PROCESSO:
Designada audiência. Autor compareceu e foi encaminhado ao CIARB. Jurisdicionado
nunca compareceu ao CIARB.
Foi expedida intimação para nova audiência. Autor não compareceu e foi determinado
pelo juiz busca do atual endereço (INSS e TRE).
Realizada nova audiência foi oferecida suspensão condicional do processo pelo MP com
as mesmas condições do caso 48.
Compareceu em cartório 6 vezes.

“Aberta a audiência pelo(a) MM. Juiz(a) de Direito foi dito que o autor do fato informa
que recebeu a cópia da denúncia e está ciente da acusação. Pelo Ministério Público foi
oferecida denúncia e proposta a suspensão do processo, pelo prazo de dois anos,
mediante as seguintes condições: 1) deverá o réu se apresentar trimestralmente em
Juízo; 2) não mudar de endereço e número de telefone residencial e profissional sem
avisar o Juízo; 3) não se afastar da Comarca sem avisar o Juízo pelo período superior a
trinta dias. . Pelo réu foi dito que aceitava as condições. Pela MM. Juíza foi dito que
RECEBIA A DENÚNCIA e DECLARAVA SUSPENSO O PROCESSO, e o prazo
prescricional, por dois anos. Decorrido o prazo, e cumpridas as condições, declarava
extinta a punibilidade do autor nos termos do art. 89 e seguintes da Lei n.º 9.099/95.
Intimados os presentes. O autor do fato informará o endereço por telefone. Nada mais.”
MP requer:
“Considerando que a pena em abstrato prevista ao tipo penal não é superior a 1 ano, o
lapso prescriocional a incidir é de 2 anos.
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Considerando que o autor do fato era menor à época da prática delitiva o lapso
prescricional é reduzido pela matade, ou seja 1 ano.
Ainda que beneficiado com a suspensão condicional em 21.12.2006, o processo já se
encontrava prescrito quando concedido o benefício.
- Foi reconhecida prescrição punitiva do estado. Extinta a punibilidade (at. 107, V).

- Observações:





































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CASO 56

- Número do processo: 001/20800139900
- Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Sarandi
- Autor: WAL – homem e TCR - mulher
- Nascimento: 1989 e 1983
- Profissão: ele (autônomo) ela (Bacharel em direito, como consta no IP)
- Bairro/cidade em que mora: Vila Nazareth/POA - Parque São Sebastião/POA
- Local do Flagrante: Rua Lasar Seggal, Parque São Sebastião, POA
- Data/horário: 15/03/2008, 08h00.
- Droga: maconha e crack
- Quantidade: 5,450g e 0,980g e 0,271 (os dois últimos crack)
- Processo finalizado: 19/02/2009
- Antecedentes: SIM, ele furto. Ela não.
-TC/IP:
Prisão em flagrante
Indiciado por tráfico
“COMUNICANTE: estava em patrulhamento juntamente com seu colega quando foi
solicitado via ciosp para dar apoio a uma viatura que entraria na Vila Nazareth afim de
procurar uma variant que estava em atitude suspeita na entrada da vila com uma loira e
três indivíduos de cor escura e que tal denúncia foi feita via 190.
Que no interior da vila avistaram o veículo pálio com 4 indivíduos, uma loira e três
homens de cor escura), e em atitude suspeita passaram a seguir o veículo.”
Flagrante homologado. Foram mantidos presos. (menos a mulher)
- Processo:
MP apresentou promoção pela desclassificação de tráfico para posse de entorpecentes.
Requereu a liberdade provisória dos flagrados.
Juiz acolheu e concedeu liberdade provisória aos três réus.
Processo encaminhado ao JEC.
Na audiência foi dito que em relação ao autor WAL determinava a busca do atual
endereço. Com relação a autora Thais Cipra Rey, diante das declarações de autora do
fato, admitindo envolvimento com droga e mostrando interesse em tratamento de
drogadição, requer seja o autor encaminhado para tratatamento de drogadição. Pela MM
Juíza foi dita que acolhia a manifestação do MP e da Defesa encaminhando o autor do
fato para tratamento de drogadição pelo período que a critério do CIARB..”
A autora Thais cumpriu o medida de tratamento e em relação à ela foi determinado o
arquivamento.
Expedido ofício aos órgãos de praxe. MP requereu fosse o autor intimado na Vila
Nazareth onde mora. Não foi encontrado.
Foi expedido ofício para SUSEP.
Réu foi citado no Presídio Central.
Realizada a audiência, apenas o réu foi interrogado. Estavam presentes ao PMS que
fizeram a abordagem como testemunhas.
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“Isto posto, julgo PROCEDENTE a presente ação penal para condenar Wagner Almeida
Leal, por incurso nas sanções do artigo 28 da Lei 11.343/2006. No presente caso as
penas de prestações de serviços à comunidade e medida sócioeducativas se mostram
inviáveis, pois o réu se encontra recolhido ao Presídio central e, portanto
impossibilitado de cumprir estas reprimendas. Assim fixo a pena de advertência prevista
no inciso I do art. 28 da Lei 11.343/2006...”

Objetos apreendidos, R$ 156,55, uma carteira de couro e um tubo plástico.
“O valor pecuniário para doação para o Clube de Mães da Vila União, instituição
cadastrada nesse juízado. Os demais objetos para inutilização.”

- Observações:
MP pediu exclusão dos demais. Eram quatro que foram indiciados por tráfico.































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CASO 57

- Número do Processo: 001/2.08.0033565-2
- Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Sarandi
- Autor: DQS - homem
- Nascimento: 1986
- Profissão: auxiliar de serviços gerais
- Bairro/cidade em que mora: Jardim Lindóia – Parque são Sebastião/POA
- Local do Flagrante: Rua Bom Retiro do Sul, 91, POA – Praça Ivo Correia Meier,
Bairro Sarandi
- Data/horário: 10/04/2008, 22h30.
- Droga: maconha
- Quantidade: 8,387g
- Processo finalizado: 16/03/2009
- Antecedentes: SIM (posse de drogas, porte de arma, art. 16, paragrafo único, inciso
IV da lei 10.826/03)
- TC/IP:
“durante patrulhamento abordou revistou o sr. D, numa praça.”
AUTOR: Declara somente manifestar-se em juízo.”
PROCESSO:
Realizada audiência mas o autor não foi intimado. Não foi encontrado pelo ofícial de
justiça.
Realizada segunda audiência. Autor não compareceu mesmo dvidamente intimado.
MP instrui o TC, pede envio de laudos ao BPM.
Foram expedidos ofícios à SUSEP. Autor do fato foi intimado no Presídio Central.
Em audiência de instução foi interrogado o acusado.
“J: É verdadeira a acusação? I: Sim, eu estava no local no dia, mas a droga não foi
encontrada no meu bolso esquerdo, a droga foi encontrada bem longe de mim. Estava eu
e mais nove pessoas, eles viram a minha ficha e como eu tinha já processo de uso, eles
falaram que era meu, o que eu poderia fazer, era tarde da noite, eles falaram que era
meu e era meu e deu. Deixaram nós de joelho por uma hora e meia, os dez ajoelhados, e
falaram que era meu e eu disse: tudo bem, estão dizendo que é meu, eu assinei e e me
liberaram na hora e eles foram embora, mas não foi encontrado comigo, Tanto que nem
se lembravam direito de mim.”
Os dois policiais (testemunhas) afirmaram não se lembrar da fisionomia do acusado
pois fazia muito tempo que a abordagem ocorrera.
Foi aplicada pena de tratamento de drogadição. Devendo ser encaminhado ao CIARB
Nunca compareceu. Foi instruído PEC.






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CASO 58

- Número do Processo: 001/20600225233
- Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Sarandi
- Autor: DQS - homem
- Nascimento: 1986
- Profissão: “desempregado”
- Bairro/cidade em que mora: Rubem Berta/POA
- Local do Flagrante: Av. Plínio Kroeff,s/n, POA – Sambódromo Porto Seco
- Data/horário: 27/02/2006, 02h00.
- Droga: maconha
- Quantidade: 0,874g
- Processo finalizado: 16/03/2009
- Antecedentes: SIM (posse de drogas)
- TC/IP:
- PROCESSO:
Realizada audiência o autor compareceu. Oferecida transação para cumprimento de PSC
por 64 horas de oito horas por semana.
Autor não compareceu a VEPMA e o processo foi encaminhado à origem para medidas.
Realizada nova audiência foi oferecido a suspensão condicional do processo com as
mesmas condições do caso 48 .
Autor aceitou a suspensão. Compareceu em juízo 5 vezes.
MP instruiu o TC e informou que o acusado estava recolhido no presídio central por
tráfico (juntou consulta de detento).
Realizada audiência de instrução o réu foi interrogado
Afirmou que estava fumando. Que está preso porque foi pego fumando na praça. Deram
uma batida na praça e me pegaram fumando e me levaram.
J: Mas que processo você responde? I: Este que me pegaram colocaram tráfico de
drogas.
J: Você era traficante? I: Não
Juiz julgou procedente a denúncia para condenar o réu a pena de tratamento de para
drogadição junto ao CIARB.
Diante no não comparecimento ao CIARB foi formado o PEC











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CASO 59

- Número do processo: 001/2.07.0007846-1
- Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Sarandi
- Autor: JMR - homem
- Nascimento: 1977
- Profissão: motorista vendedor
- Bairro/cidade em que mora: Vila Quitandinha – Cachoeirinha
- Local do Flagrante: Av. Bernardino Silveira Amorim, 18h40, Supermercado ASSUN
- Data/horário: 16/01/2006, 19:50h.
- Droga: maconha
- Quantidade: 3,282g
- Processo finalizado: 20/02/2009
- Antecedentes: NÃO
- TC/IP:
Abordado em barreira policial.
Droga foi encontrada por cachorro farejador
PROCESSO:
Realizada audiência, autor compareceu e foi encaminhado ao CIARB para tratamento
de drogadição.
Autor nunca compareceu ao CIARB
Foi extinto o processo por prescrição.
“Aberta a audiência pela MM. Juíza de Direito foi dito que foi dada a palavra ao
Ministério Público, diante das declarações do(a) autor(a) do fato, admitindo
envolvimento com a droga e mostrando interesse em tratamento de drogadição, requer
seja o(a) autor(a) do fato encaminhado para tratamento de drogadição. Pela MM Juíza
foi dito que acolhia a manifestação do Ministério Público e da defesa, encaminhando o
autor do fato para tratamento de drogadição, pelo período que fica a critério do CIARB,
pela rede de saúde credenciada, para a qual será encaminhado pelo CIARB – Centro
Interdisciplinar de Apoio Rede Biopsicossocial, mediante comparecimento ao Foro
Central, sala 1010, no CIARB, no dia 02/agosto/2007, às 17h 30min, ficando desde já
intimado. Pela MM. Juíza foi dito que, comprovado o tratamento, determinava
voltassem conclusos para homologação. Fica o autor ciente de que o não cumprimento
do tratamento implicará no prosseguimento do feito. Intimados os presentes.. Nada
mais.”
- Observações








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CASO 60

- Número do processo: 001/20800621264
- Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Sarandi
- Autor: EF - homem
- Nascimento: 1975
- Profissão: taxista
- Bairro/cidade em que mora: Jardim Floresta
- Local do Flagrante: Rua 11 de maio, 22, POA
- Data/horário: 21/08/2008, 18h00.
- Droga: maconha
- Quantidade: 3g
- Processo finalizado: 05/12/2008
- Antecedentes: não
- TC/IP: -
- Processo:
Realizada audiência, o autor compareceu. MP ofereceu transação de pagamento de R$
150,00 a ser depositada na conta da instituição Santa Catarina.
Autor efetuou o depósito.
Extinta a punibilidade
“Aberta a audiência pela MM. Juíza de Direito foi dito que concedia a palavra ao
Ministério Público, que oferece proposta de TRANSAÇÃO, ficando o autor do fato
ciente dos efeitos da transação, e que se trata de um instituto prévio a ação penal, bem
como, de que não implica a assunção de culpabilidade, aceita pelo autor do fato, nos
seguintes termos: pagamento de R$ 150,00 , a ser depositado na conta da instituição
Centro Santa Catarina, cadastrada neste Cartório. A parcela única deverá ser depositada
até o dia 20 / 11 /2008 , devendo o autor apresentar, em Cartório, a comprovação do
depósito, pois entregue neste ato DOC(s) para pagamento. Pela MM. Juíza foi dito que,
homologava a transação penal. Em caso de não cumprimento da transação, será
convertido em PSC, por um mês, oito horas semanais. Presentes intimados.. Nada
mais.”














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CASO 61

Processo: 001/20600575323
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Alto Petrópolis
Autor: JRS - homem
Nascimento: 1977
Profissão: técnico de ar condicionado
Bairro/cidade em que mora: Jardim Leopoldina
Local do Flagrante: Rua Golda Meier, 140/408, Jardim Leopoldina
Data/horário: 10/07/2006, 7h
Droga: maconha
Quantidade: 6g
Processo finalizado: 19/01/2009
Antecedentes: sim
TC/IP: -
- Flagrante efetuado em cumprimento de mandado de busca.
- Foram presos e enviados à delegacia. Havia três pessoas no apartamento.

Processo

SENTENÇA
“Vistos, etc.

I – PARA ENTENDER O CASO (Relatório)
1. FATO DELITUOSO: posse de substância entorpecente
2. RÉU: JOSÉ RAFAEL SOARES DOS SANTOS, brasileiro, divorciado, natural de
Alvorada – RS, com 28 anos de idade, filho de José Ari Silveira dos Santos e Marlene
Soares dos Santos, com endereços na Rua Golda Meieir, 140/apto. 408, Jardim
Leopoldina e na Rua Ramiro Barcelos, nº 910, nesta capital.
3. DATA, HORÁRIO E LOCAL DO FATO: No dia 16 de julho de 2006, por volta
das 07h:15min, na Rua Golda Meier, nº 140, AP. 408, Jardim Leopoldina, nesta capital.
4. CIRCUNSTÂNCIAS DO FATO: No endereço ante mencionado. O réu, teria em
depósito seis gramas (6g) de cannabis sativa, vulgarmente como maconha, substância
entorpecente que causa que causa dependência física e psíquica.
5. CLASSIFICAÇÃO DO FATO (TIPICIDADE): Artigo 28 da Lei 11.343/06.
6. DENÚNCIA: Recebido em 17/03/2008. (fl.156)
7.CITAÇÃO: fl. 148
8. MEDIDAS DESPENELIZADORAS (Lei 9.099/95): As medidas despenalizadoras
não foram ofertadas em razão dos antecedentes do réu (fl. 04 e 110/111).
9. AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO E JULGAMENTO: Defesa preliminar e
recebimento da denúncia (fl.156). Ouvida três testemunhas da acusação (fl. 156/159 e
174/175). Interrogatório (fl. 175/179). Debates Orais (fl. 179/180).

II – ASPECTOS A CONSIDERAR (Fundamentação)
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1. DA AUTORIA E MATERIALIDADE: O crime de posse ilegal de entorpecentes
se constitui, segundo dispõe o art. 28 da Lei 11.343/06, quem adquirir, guardar,
tiver, transportar, ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem
autorização ou desacordo com a determinação legal ou regulamentar.
2. A Tutela penal é a prevenção ao uso de drogas e o objeto jurídico é a proteção da
saúde pública.
3. A autoria vem comprovada pela prova oral produzida. As testemunhas ouvidas
foram categóricas em afirmar que a droga foi encontrada na residência do réu e,
no dia do fato teria ele assumido a autoria dizendo-se usuário de entorpecentes e
a substância que lá se encontrava era para consumo próprio
4. A materialidade vem afirmada no laudo de exame toxicológico de fls. 18 e 47.
5. Em sede de debate oral, o MP dizendo certa a autoria, postulou a condenação do
réu. A defesa alegando que o porte de droga para o uso próprio não configura
conduta típica, postula a aplicação de pena de advertência ou medida para
tratamento clínico
6. Em razão dos antecedentes criminais do acusado, as medidas despenalizadoras
não foram ofertadas e, em conseqüência, a peça acusatória foi apresentada em 30
de agosto de 2007, todavia, não recebida e julgado extinto o feito por atipicidade
da conduta. O MP, insurgindo-se contra a decisão, interpôs apelação. A Turma
Recursal acolheu o recurso, desconstituindo a sentença, determinando o
prosseguimento. Então, retomado o prosseguimento da ação penal, foi designada
audiência e instruído o feito.
7. Prospera a denúncia. A prova coligida tem o condão de demonstrar que,
efetivamente, o acusado guardava em sua residência a droga apreendida e, pela
quantidade, seria para uso próprio, está, inclusive, foi a versão por ele dada
perante a autoridade policial, embora tenha negado ao tempo do interrogatório,
todavia, a prova oral produzida robora os termos da peça acusatória.
8. A conduta é típica e constitui-se em ilícito penal previsto no art. 28 da lei
11.343/06, tendo como reprimenda as sanções previstas no tipo penal.
9. O novo diploma legal afasta pena privativa de liberdade e inova com cominação
de outras medida, não subtraindo, com isso, o caráter ilícito da conduta.
10. A descriminalização que tem sido objeto de muitas teses, encontra-se afastada
diante do cunho penal que reveste a tipicidade da ação do agente, prevista na Lei
Antidrogas que é incriminadora, embora com repercussões menos agravantes e
fins sociais que visam a preservação da saúde pública e a recuperação do
dependente químico, todavia, não retira a natureza penal da infração
11. Assim, típica a conduta, a decisão que se impõe é a procedência da ação penal.

III- CONCLUSÃO FINAL (Dispositivo)

Ante ao exposto, julgo PROCEDENTE, a denúncia para APLICAR ao réu JOSÉ
RAFAEL SOARES DOS SANTOS, com fulcro no art. 28 da Lei 11.343/06, a pena
de advertência.

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Dosimetria da pena:
Antecedentes não são bons, havendo registro de condenação. O réu tinha
consciência da ilicitude dos atos praticados e poderia conduzir-se de acordo com
esse entendimento; conduta desajustada; personalidade não há registro nos autos.
Motivação, circunstâncias e conseqüências normais às espécie, o que leva a
conclusão de que a pena de advertência é o mais adequado por seu aspecto menos
gravoso ao acusado.

Transitada em julgado, procedam-se às anotações e as comunicações devidas.
Expeça-se mandado para intimação do réu da pena ora imposta, advertindo-o das
conseqüências negativas da dependência química pelo uso de entorpecentes e
reincidência lhe imporá as sanções previstas na Lei 11.343/2006.


OBS:
Foram expedidos 4 (quatro) mandados de intimação da sentença criminal. Inclusive
precatórias para Viamão e Alvorada. No quarto foi intimado da sentença.
Prisão temporária

Auto de Apreensão

- um esmurrugador de erva, marca tritubarão, de cor vermelha
- uma porção de erva esverdeada e uma ponta de cigarro artesanal da mesma substância,
peso total 6,00 gramas.

“Considerando o desvalor econômico dos bens apreendidos, confisco-os em favor do
Estado.
Diligências legais.

Em 06/11/2008.”














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CASO 62

Processo: 001/20800129246
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Alto Petrópolis
Autor: EDC- homem
Nascimento: 1959
Profissão: FUNCIONÁRIO PÚBLICO MUNICIPAL
Bairro/cidade em que mora: Partenon- POA
Local do Flagrante: Av. Bento Gonçalves, nº 7712, (INSTITUTO MIGUEL DARIO)
Data/horário: 24/01/08 às 17h00minh.
Droga: maconha
Quantidade: 6,925g
Processo finalizado: 26/01/2009.
Antecedentes: sim

Observações:

TC/IP:
“O ACUSADO HAVIA SIDO CHAMADO PARA FAZER CONTATO COM O
CHEFE DA SEGURANÇA DO INSTITUTO PENAL MIGUEL DARIO E COMO
NÃO COMPARECEU A INSPETORIA O COMUNICANTE FOI À SUA PROCURA
E NO MOMENTO QUE ENCONTROU ELE ESTAVA TOMANDO BANHO E SUA
BERMUDA ESTAVA PENDURADA COM A DROGA SEMELHANTE E COM
ODOR DE MACONHA NUM DOS BOLSOS.
RELATOU QUE A DROGA NÃO ERA SUA QUE ACHOU A DROGA E RETEVE
CONSIGO PARA POSTERIORMENTE INFORMAR AOS AGENTES, VISTO QUE
ANTES FOI TOMAR BANHO.” (p. 2)

Processo:
- não foi encontrado no endereço fornecido; o número fornecido não existia.
- foi enviada carta de intimação de audiência para o endereço que constava no TC
foi expedido ofício para a Prefeitura Municipal de Porto Alegre pois no TC consta que
ele é funcionário público. Enviado por fax.
- designada audiência.
- processo suspenso pois o autor compromete-se a comparecer no CIARB (Foro Central,
5º andar, sala 526). Grupos de auto-ajuda. Não sendo cumprido o acordo fica ciente que
o processo voltará a tramitar.
- Um assessor jurídico do prefeito responde ao ofício informando que o autor do fato foi
notificado em relação à audiência. “Porém, ressalta-se que há um processo de
exoneração do servidor em tramitação.”
- e-mail do Centro Interdisciplinar de Apoio para Encaminhamento a Rede de
Tratamento Biopsicosocial (CIARB)
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“Em atenção ao seu encaminhamento, Ofício nº 542/2008, processo nº 20800129246,
jurisdicionado ERNANE DIAS CHAVES FILHO, temos a informar que o mesmo
compareceu em nosso centro na data de hoje apresentando comprovação de freqüência
em reuniões de Grupo de Auto-Ajuda conforme o determinado.
Em sendo assim, nossa intervenção está sendo encerrada e o presente enviado ao nosso
fichário de casos findos com conclusão positiva.”
Observações:
- diante das informações do CIARB, MP requer o arquivamento.




































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CASO 63
Processo: 001/20700100858
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Alto Petrópolis
Autor: JTR- homem
Nascimento: 1977
Profissão: Corretor de seguros
Bairro/cidade em que mora: Passo das Pedras
Local do Flagrante: Rua Manoel Ferrador
Data/horário: 26/01/07 às 22h10minh.
Droga: crack
Quantidade: 0,115g de uma porção de pó branco empedrado na forma de uma pedrinha
Processo finalizado: 21/01/2009.
Antecedentes: não

TC/IP
Processo:
“É inconteste que o artigo 16 da lei Antidrogas atinge a esfera individual dos cidadãos,
cuja inviolabilidade a Constituição Federal garante. Não é recente este entendimento, o
qual já foi, com propriedade, esposado no voto ...
“O fato de portar entorpecente para uso pessoal é prática que diz respeito à faculdade de
cada um de se decidir ou agir segundo sua própria determinação, estado inerente ao
homem livre que assume as eventuais conseqüências em seu ambiente privado, não
interferindo no de seu semelhante.”
- MP apela requerendo o prosseguimento do feito
- Nas Turmas Recursais parecer do MP pelo desprovimento do recurso.
- Deram provimento ao Recurso.
- realizada audiência. MP oferta PSC ou comparecimento no CIARB. Autor do fato
opta pelo comparecimento em grupo de auto-ajuda.
- CIARB envia ofício informando que o “jurisdicionado” nunca compareceu ao
programa. Que tentaram chamá-lo por carta e por mandado de intimação.
- MP requer a formação e remessa do PEC à Vara de Execuções de Medidas e Penas
Alternativas (VEPMA) para cumprimento da PSC.
Compareceu a entrevista do serviço social e solicitou a possibilidade de comparecer a
grupo de auto-ajuda.
- MP opina pela conversão da PSC em comparecimento ao CIARB (4 meses)
CIARB um mês depois manda e-mail para o JEC informando que o jurisdicionado
compareceu ao grupo de apoio junto com seu irmão que comprometeu-se a levá-lo ao
NA de Florianópolis porque estariam se mudando para lá. “Foi feito contato telefônico
com a esposa do jurisdicionado residente em Porto Alegre. Esta informa-nos que Josué
não foi para Florianópolis. Compromete-se a alertar Josué que de imediato compareça
ao CIARB. O jurisdicionado não compareceu até a data de hoje, demonstrando em
definitivo que não está disponível para a nossa intervenção. Caso findo por abandono”
- MP requereu designação de audiência para advertência.
- Não compareceu à audiência. Foi aprazada nova data.
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- Foi intimada da nova data e não compareceu à audiência.
- Juiz da VEPMA devolveu os autos à origem já que a execução restou impossibilitada.
Prescrição projetada.
Pauta da audiência lotada para os próximos meses.
- Processo arquivado.
“Aberta a audiência, pela MM. Juíza de Direito foi dito que o Ministério Público
ofertou transação penal consistente em prestação de serviços à comunidade por 04
meses, 08 horas semanais, em entidade a ser fixada pela VEPMA, ou participação em
grupos de auto-ajuda pelo mesmo prazo, período no qual o autor do fato se submeterá a
uma avaliação e atendimento específico na área, a ser coordenado pelo CIARB. Tendo o
autor do fato optado pela participação em grupo de auto-ajuda, fica ciente de que deverá
comparecer junto ao CIARB (Foro Central, 5º andar, sala 526), no dia 25.10.2007, às
10h. Fica ciente, outrossim, de que, não sendo cumprido o acordo, prosseguirá o
processo, com a extração das peças necessárias e encaminhamento à VEPMA para a
execução da pena restritiva de direito. Por fim, fica igualmente ciente de que a aceitação
impede novo benefício nas mesmas condições pelo prazo de 05(cinco) anos e que,
descumprida a transação penal, o processo retornará ao estado anterior, a fim de
possibilitar ao Ministério Público a propositura da ação penal e ao Juízo o recebimento
da peça acusatória, tudo conforme entendimento do STF (HC 88785/06/SP e
84976/05/SP). A transação na forma de participação em grupos de auto-ajuda é aceita
pelo acusado e pela defesa nos termos avençados. Pela Juíza foi dito que homologava o
presente acordo e declarava extinta a punibilidade, com fulcro no art. 76 da Lei
9.099/95. Cumprido, arquive-se com baixa. Intimados os presentes. Nada mais.”




















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CASO 64
Processo: 001/20600678220
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Alto Petrópolis
Autor: NMS - homem
Nascimento: 1982
Profissão: carpinteiro
Bairro/cidade em que mora: Rua Domenico Fioli, Rubem Berta
Local do Flagrante: Rua Domenico Fioli, Rubem Berta
Data/horário: 01/08/2006, 15h:30min
Droga: maconha e crack
Quantidade: 0,87g. o.449 e 0,119g
Processo finalizado: 05/12/2008
Antecedentes: não

TC:
- “atitude suspeita”; foi conduzido à DPA - DNARC.

Processo:
- autor compareceu à audiência. Foi encaminhado ao CIARB. Processo suspenso.

“Aberta a audiência pelo(a) MM. Juiz(a) de Direito foi dito que o autor declara que
faz uso de substâncias químicas, demonstrando interesse de parar, mas não teve
oportunidade. Entende conveniente submeter-se a um atendimento específico para tal
fim. Assim, o MP propõe uma suspensão extralegal, pelo prazo inicial de 06 meses,
período em que será encaminhado ao CIARB e se submeterá ao atendimento que for
entendido conveniente. Atendimento agendado para o dia 21/12/2006, às 17h30min
Extraiam-se cópias das principais peças do processo enviando-se ao CIARB. O feito
fica suspenso por 06 meses. Nada mais. Oficial Escrevente”

- autor compareceu uma vez ao CIARB.
- deixou de comparecer
- MP requereu o prosseguimento do feito e a juíza sentenciou extinguindo o processo
por atipicidade da conduta.
- MP apelou. (parecer do Promotor das Turmas Recursais foi o mesmo)
- Dado provimento à apelação.
21/11/2007 , “tendo em vista o entendimento desta magistrada quanto à atipicidade da
conduta, designava o dia 05/03/2008 para nova audiência”.
- Compareceu e foi encaminhado ao CIARB. Feito suspenso por seis meses.
“Aberta a audiência, pela MM. Juíza de Direito foi dito que, considerando a ausência da
Dra. Rosa Helena B. Westphalen, Defensora Pública com atuação na Vara, em
decorrência da paralisação dos serviços daquela Instituição por tempo indeterminado a
contar desta data, nomeava para o ato a Dra. Martha Rosa, OAB 53.908, Defensora
Dativa. O autor do fato declara que faz uso de substâncias entorpecentes, demonstrando
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interesse de parar. Aceita proposta efetuada pelo Ministério Público de voltar a
frequentar 04(quatro) sessões em grupo de auto-ajuda, em continuidade ao
tratamento interrompido desde a última audiência. Fica ciente de que deverá comparecer
junto ao CIARB (Foro Central, 5º andar, sala 526), no dia 13.03.2008, às 10h.
Extraiam-se cópias das principais peças do processo enviando-as ao CIARB. O feito
ficará suspenso por 60 dias. Com a informação do cumprimento das sessões, voltem
conclusos para extinção da punibilidade. Intimados os presentes. Nada mais.

Encaminhado ao NA. Nunca mais voltou. Caso findo por motivo de abandono.

Extinta a punibilidade por prescrição.

Devolvido os bens (R$ 194,00, 3 celulares e rádios tranceptor ) mediante alvará retirado
em cartório pelo autor do fato






























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CASO 65

Processo: 001/20700157825
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Alto Petrópolis
Autor: GSM - homem
Nascimento: 1984
Profissão: mecânico
Bairro/cidade em que mora: Rua Cristovão Pereira, Passo D’Areia
Local do Flagrante: Av. Beno Mentz, 897 (Assis Brasil)
Data/horário: 19/01/2007, 21h:39min
Droga: maconha
Quantidade: 0,327 e 4,825g
Processo finalizado: 26/01/2009
Antecedentes: não

TC: “abordagem de rotina”

Processo
- Oferecida denúncia pelo MP. Juíza sentenciou julgando improcedente por atipicidade
do fato. MP apelou. Igual ao outros casos.
- NÃO FOI ENCONTRADO NOS ENDEREÇOS INFORMADOS PELO MP.
“Aberta a audiência, pela MM. Juíza de Direito foi dito que o autor do fato não
compareceu, não tendo sido encontrado para intimação nos endereços constantes dos
autos, conforme certidão do Sr. Oficial de Justiça. Desse modo, determinava vista ao
Ministério Público para manifestação. Intimados os presentes. Nada mais.”

MP solicitou aos órgãos de praxe o endereço. TRE.
Foi encontrado.
- autor compareceu à audiência. Encaminhado ao CIARB.
“Aberta a audiência, pela MM. Juíza de Direito foi dito que, ante a ausência da Dra.
Rosa Helena Westphalen, Defensora Pública com atuação na Vara, em decorrência da
paralisação dos serviços daquela Instituição por tempo indeterminado, nomeava para o
ato a Dra. Clarice Galeazzi Zanini, OAB 59.621, Defensora Dativa. Pela Juíza foi dito
que o Ministério Público propôs ao autor do fato participação semanal em grupos de
auto-ajuda pelo prazo de 04(quatro) meses, período no qual processo permanecerá
suspenso e o autor do fato se submeterá a uma avaliação e atendimento específico na
área de drogadição a ser coordenado pelo CIARB. A proposta de participação em
grupos de auto-ajuda é aceita pelo acusado e pela defesa nos termos avençados. Fica o
autor ciente de que deverá comparecer junto ao CIARB (Foro Central, 5º andar, sala
526), no dia 26.03.2008, às 10h. Fica ciente, outrossim, de que, não sendo cumprido o
acordo, o processo voltará a tramitar. A seguir foi dito que os autos permanecerão
aguardando em cartório pelo prazo acordado a comunicação de freqüência pelo CIARB.
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Cumprido, voltem conclusos para extinção da punibilidade. Intimados os presentes.
Nada mais.” (p. 43).


- E-mail do CIARB informando que o autor só compareceu uma vez e foi encaminhado
ao NA. Arquivado por motivo de abandono.
- MP requereu designação de nova audiência e o autor compareceu. Foi encaminhado ao
CIARB, novamente, não compareceu.
“Aberta a audiência, pela MM. Juíza de Direito foi dito que o Ministério Público
renovou ao autor do fato a participação semanal em grupos de auto-ajuda pelo prazo de
03(três) meses, período no qual processo permanecerá suspenso e o autor do fato se
submeterá a uma avaliação e atendimento específico na área de drogadição a ser
coordenado pelo CIARB. A proposta de participação em grupos de auto-ajuda é aceita
pelo acusado e pela defesa nos termos avençados. Fica o autor ciente de que deverá
comparecer junto ao CIARB (Foro Central, 5º andar, sala 526), no dia 05 de novembro
de 2008, às 09h. Fica ciente, outrossim, de que, não sendo cumprido o acordo, o
processo voltará a tramitar. A seguir foi dito que os autos permanecerão aguardando em
cartório pelo prazo acordado a comunicação de freqüência pelo CIARB. Cumprido,
voltem conclusos para extinção da punibilidade. Intimados os presentes. Nada mais.” (p.
56)

- MP opinou pela declaração de prescrição em abstrato.
- extinta a punibilidade




















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CASO 66

Processo: 001/20700406000
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Alto Petrópolis
Autor: AGS - mulher
Nascimento: 1980
Profissão: autônoma (manicure e faxineira)
Bairro/cidade em que mora: Rua Girassol, 374, Morro Santana
Local do Flagrante: Rua Girassol, 374, Morro Santana, cumprindo mandado de
busca e apreensão expedido elo serviço de plantão
Data/horário: 15/06/2007, 10h00minh
Droga: maconha
Quantidade: 5,230g
Processo finalizado: 26/01/2009
Antecedentes: não

TC/IP: Foi encaminhada à delegacia. Foi presa pois havia mandado de busca contra seu
companheiro

Processo:
- a autora compareceu à audiência e foi encaminhada ao CIARB.
“Aberta a audiência, pela Dra. Juíza foi dito que a autora do fato reconhece seu
envolvimento com substâncias entorpecentes e que não está conseguindo lidar com o
problema, aceitando ser encaminhado para um tratamento contra a dependência
química. Diante disso, o Ministério Público propõe uma suspensão extralegal do feito
pelo prazo de 6(seis) meses como medida terapêutica, período no qual a autora do fato
se submeterá a uma avaliação e atendimento específico na área, a ser coordenado pelo
CIARB. Pela Juíza foi dito que deferia a suspensão do feito pelo prazo referido.
Extraiam-se e remetam-se cópias das principais peças do processo. Fica a autora
intimada a comparecer no CIARB, no 5º andar, sala 526, do Foro Central, no dia
14.08.2007, às 10horas. Presentes intimados. Nada mais.”

- foi encaminhado ofício informando que a jurisdicionada só compareceu às primeiras
sessões do NA.
- MP requereu a realização de nova audiência. A autora não compareceu pois não foi
intimada pois o oficial de justiça não achou endereço.
“Aberta a audiência, pela MM. Juíza de Direito foi dito que não compareceu a autora do
fato, a qual não foi localizada pelo oficial de justiça. Pelo Ministério Público foi dito
que: “requeria a designação de nova audiência preliminar com a expedição de novo
mandado, eis que a informação constante na certidão de fl.43 não se justifica, na medida
em que o endereço existe (tanto assim que foi cumprido mandado de busca e apreensão
no local), solicitando ao Sr. Oficial de Justiça, se for o caso, informações adicionais ao
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órgão policial de origem (DENARC)”. A seguir foi dito que designava nova audiência
para o dia 23.04.2008, às 14horas, devendo ser expedido mandado de intimação com as
ressalvas requeridas pelo Ministério Público. Intimados os presentes. Nada mais.”


-Oficial de justiça não encontrou a autora, mas deixou aviso para comparecimento no
Foro Central. A autora foi até lá e deu-se por intimada.
- compareceu na audiência e aceitou doar 02 saquinhos de vales-transportes com 50
fichas cada um para serem utilizados no encaminhamento dos dependentes químicos do
CIARB e/ou pessoas necessitadas a entidades assistenciais). A outra proposta foi PSC
por 4 meses de 8 horas.
A autora aceitou a doação.
“Aberta a audiência pelo(a) MM. Juiz(a) de Direito foi dito que, Aberta a audiência,
pela MM. Juíza de Direito foi dito que, proposta a conciliação, resultou inexitosa. Pelo
Ministério Público foi proposta a transação penal consistente em prestação de serviços à
comunidade por 04 meses, 08 horas semanais, em entidade a ser fixada pela VEPMA,
ou doação de 02 saquinho(s) de vales-transporte com 50 fichas cada um (utilizadas no
encaminhamento de dependentes químicos ao CIARB e/ou pessoas necessitadas a
entidades assistenciais), a serem entregues em cartório, até o dia 09 de maio de 2008.
Nos termos do art. 85 da Lei 9.099/95, admitem o autor do fato e a defesa que, em caso
de não-cumprimento da transação, opere-se a conversão em pena restritiva consistente
em prestação de serviço à comunidade, na forma e condições antes especificadas pelo
Ministério Público. O autor do fato fica ciente de que, não sendo cumprido o acordo,
serão extraídas do processo as peças necessárias e encaminhadas à VEPMA para a
execução da pena restritiva de direito. Por fim, fica igualmente ciente de que a aceitação
impede novo benefício nas mesmas condições pelo prazo de 05(cinco) anos e que,
descumprida a transação penal, o processo retornará ao estado anterior, a fim de
possibilitar ao Ministério Público a propositura da ação penal e ao Juízo o recebimento
da peça acusatória, tudo conforme entendimento do STF (HC 88785/06/SP e
84976/05/SP). A transação na forma de doação é aceita pela acusado e pela defesa nos
termos avençados. Pela Juíza foi dito que após o cumprimento, voltem conclusos para a
extinção da punibilidade. Intimados os presentes. Nada mais. “

Entregou em cartório os dois sacos de vale transporte.
- Cumprida a transação, foi extinta a punibilidade.

Mesmo intimada não compareceu em cartório para buscar o aparelho da NET
apreendido.





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CASO 67

Processo: 001/20800382219
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Alto Petrópolis
Autor: GMG- homem
Nascimento: 1984
Profissão: instalador de som
Bairro/cidade em que mora: Travessa Chateaubriand, 43, Porto Alegre
Local do Flagrante: Av. Profa. Paula Soares, 74, Paróquia São Vicente
Data/horário: 13/05/2008, 22h52minh
Droga: maconha
Quantidade: 0,464g
Processo finalizado: 22/04/2009
Antecedentes: não

TC/IP:
FOI ABORDADO NO SEU CARRO EM BARREIRA POLICIAL.

Processo:
- Designada audiência preliminar. Autor compareceu e aceitou comparecer ao CIARB.
“Aberta a audiência, pela MM. Juíza de Direito foi dito que o Ministério Público propôs
ao autor do fato participação semanal em grupos de auto-ajuda pelo prazo de 03(quatro)
meses, período no qual processo permanecerá suspenso e o autor do fato se submeterá a
uma avaliação e atendimento específico na área de drogadição a ser coordenado pelo
CIARB. A proposta de participação em grupos de auto-ajuda é aceita pelo acusado e
pela defesa nos termos avençados. Fica o autor ciente de que deverá comparecer junto
ao CIARB (Av. Borges de Medeiros, 945, sala 812, 8º andasr), no dia 02 de dezembro
de 2008, às 10h. Fica ciente, outrossim, de que, não sendo cumprido o acordo, o
processo voltará a tramitar. A seguir foi dito que os autos permanecerão aguardando em
cartório pelo prazo acordado a comunicação de freqüência pelo CIARB. Cumprido,
voltem conclusos para extinção da punibilidade. Intimados os presentes. Nada mais.”

Foram enviados e-mails informando que o autor compareceu à reuniões.
Extinta a punibilidade por cumprimento das condições.


Informativo do CIARB:
“O senhor cumpriu compromisso assumido de freqüentar um grupo de auto-ajuda.
Agora, o compromisso é com sua saúde e com sua própria vida. Seguir com o apoio do
Grupo lhe ajudará a manter uma melhor qualidade de vida para si e para sua família.
PENSE NISTO.
Informamos que agora, se o Sr desejar retirar seu nome junto à polícia, deverá aguardar
trinta dias e comparecer no cartório onde ocorreu à audiência e solicitar uma certidão de
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baixa Faça uma cópia deste documento para guardar consigo, e compareça no DINP
apresentando a certidão para proceder a baixa do registro da ocorrência policial.”










































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CASO 68

Processo: 001/20800641486
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Alto Petrópolis
Autor: HNB - homem
Nascimento: 1954
Profissão: comerciante
Bairro/cidade em que mora: Chácara das Pedras/POA
Local do Flagrante: Rua Tem. Ary Tarragô, 1402, Jardim Itu Sabará
Data/horário: 23/09/2008, às 16h10minh
Droga: crack
Quantidade: 0,986g
Processo finalizado: 23/04/2009
Antecedentes: sim, lesões corporais
Observações:
TC/IP:
“Condutor efetuava patrulhamento ostensivo motorizado, quando visualizou um veículo
de cor vermelha saindo da rua Lindomar dos Reis, bairro Jardim Itu/Sabará, considerada
ponto de tráfico e prostituição infantil. O veículo ao notar a aproximação da viatura
policial, acelerou em fuga em direção a Av. Protásio Alves. O veículo suspeito adentrou
no pátio do Motel Blue, situado na Rua Tem. Ary Tarragô, 1402 e, ato contínuo, o
condutor e o patrulheiro ao tentarem realizar a abordagem do suspeito na entrada do
referido motel, o mesmo fugou novamente com o veículo, entrando num Box daquele
estabelecimento, mas foi detido pelos policiais militares. Durante a abordagem, o
suspeito identificado como sendo Henrique Natalino Boldrin, estava sem cueca e com a
acalca arriada. Enquanto o Sd. Candioto realizava segurança junto ao ora conduzido, o
condutor, ao tentar revistar o veículo, viu quando o conduzido jogou um objeto no chão,
que estava em sua mão esquerda. Ao recolher o objeto verificou tratar-se de uma bucha
contendo quatro pedrinhas de substância semelhante a cocaína processada na forma de
crack, com peso aproximado de 3,70 gramas, conforme auto de apreensão. Após ser-lhe
dada voz de prisão, encaminhar-se a esta 3ª DPPA para das devidas providências.” (p.
02)

Foi preso em flagrante, mas liberado pelo juiz plantonista (“a prisão não é mantida, eis
que ausentes motivos ensejadores da prisão preventiva.”)

Foi indiciado por tráfico (art. 33 da Lei 11.343/2006)
Inquérito encaminhado ao MP: “Analisando o presente inquérito policial, verifica-se
que, pelas circunstâncias em que se sucedeu o flagrante, não se trata do delito de tráfico
ilícito de drogas (art. 33 da Lei 11.343/2006), mas sim do delito de porte de drogas (art.
28 da Lei 11.343/2006). Diante disso, requer o Ministério Público seja determinada a
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remessa do presente feito ao Juizado Especial Criminal para análise de sua
competência.”fls. 81/82
MP requereu a designação de audiência preliminar
Advogado fez pedido de restituição do veículo que foi apreendido no dia do flagrante.
Promoção MP: “Ciente do formulado às fls. 88/91, o qual postula restituição do
automóvel Renault Megane RT 1.6, placas JMD 1628. Em que pese o teor dos
documentos juntados ao feito, os quais comprovam a propriedade do veículo, tendo em
vista que a perícia solicitada pelo ofício nº 9746/2008 da 3ª Delegacia de Pronto
Atendimento à fl. 35 relativa ao referido automóvel ainda não concluída, com fulcro no
artigo 118 do Código de Processo Penal, manifesta-se o Ministério Publico, por ora,
pelo indeferimento do pedido de restituição ora analisado. Opina-se para fins de
agilização, seja oficiado ao Departamento de Criminalística solicitando-se urgência na
remessa do laudo.
Juiz: “Acolho o parecer do MP e indefiro, por ora, o pedido de restituição do bem.
Oficie-se como postulado.”
MP: opinou pela restituição do veículo. Juiz acolheu. Foi expedido alvará.
Realizada audiência em 19/03/2009.
“Aberta a audiência, pela MM. Juíza de Direito foi dito que, proposta a conciliação,
resultou inexitosa. Pelo Ministério Público foi proposta a transação penal consistente
em prestação de serviços à comunidade por 04 meses, 08 horas semanais, em entidade a
ser fixada pela VEPMA ou doação do valor de R$ 400,00 em gêneros alimentícios em
favor da SOCIEDADE CIVIL LAR DOM GUANELLA, a ser efetivada até o dia
30/03/2009. O autor fica ciente que deverá comprovar em cartório a aquisição por meio
de Nota Fiscal e a entrega mediante recibo da entidade no prazo referido. Nos termos do
art. 85 da Lei 9.099/95, admitem o autor do fato e a defesa que, em caso de não-
pagamento da doação, opere-se a conversão e pena restritiva consistente em prestação
de serviço à comunidade, na forma e condições antes especificadas pelo Ministério
Público. O autor do fato fica ciente de que, não sendo cumprido o acordo serão
extraídas do processo as peças necessárias e encaminhadas à VEPMA para execução da
pena restritiva de direito. Por fim, fica igualmente ciente de que a aceitação impede
novo benefício nas mesmas condições pelo prazo de 05 (cinco) anos e que, descumprida
a transação penal, o processo retornará ao estado anterior, a fim de possibilitar ao
Ministério público a propositura da ação penal e ao Juízo o recebimento da peça
acusatória, tudo conforme entendimento do STF (HC 88785/06/SP e 84976/05/SP).”
Autor comprovou a compra e a entrega dos alimentos e a punibilidade foi extinta
determinado o arquivamento e baixa.

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CASO 69

Processo: 001/20800336497
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Alto Petrópolis
Autor: TSS - homem
Nascimento: 1988
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Jardim Leopoldina
Local do Flagrante: Rua Adelino Ferreira Jardim, 76, Jardim Itu Leopoldina
Data/horário: 24/04/2008, às 17h38minh
Droga: cocaína
Quantidade: 0,387g
Processo finalizado: 15/04/2009
Antecedentes: não

Observações:
TC/IP:
Abordagem policial, foi revistado. “Foi encontrado dentro de sua carteira, a qual estava
em seu bolso, um papelote de uma substância semelhante a cocaína, então foi
confeccionado o termo circunstanciado. AUTOR: relata o Sr. Tiago que a substância
apreendida é cocaína, seus familiares sabem que é usuário e quem a droga foi seu tio,
que reside em Canoas.”

Processo:
- Realizada audiência: “Aberta a audiência, pela MM. Juíza de Direito foi dito que o
Ministério Público propôs ao autor do fato participação semanal em grupos de auto-
ajuda pelo prazo de 03 meses, período no qual o processo permanecerá suspenso e o
autor do fato se submeterá a uma avaliação e atendimento específico na área de
drogadição a ser coordenado pelo CIARB. A proposta de participação em grupos de
auto-ajuda é aceita pelo acusado e pela defesa nos termos avençados. Fica o autor ciente
que deve comparecer ao CIARB (Av. Borges de Medeiro, 945, sala 812, 8º andar), no
dia 03 de dezembro de 2008,às 10h. Fica ciente, outrossim, de que, não sendo cumprido
o acordo, o processo voltará a tramitar. A seguir foi dito que os autos permanecerão
aguardando em cartório pelo prazo acordado a comunicação de freqüência pelo CIARB.
Cumprido, voltem conclusos para extinção da punibilidade. Deixo consignado que o
atual endereço do autor do fato é Rua Esperança, setor 05, casa 02, Guajuviras, Canoas-
RS.”
CIARB encaminhou e-mail informando que o autor comprovou freqüência no NA.
“Cumpridas integralmente as condições do acordo realizado à fl. 21, declaro extinta a
punibilidade do autor do fato e determino o arquivamento com baixa.”

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CASO 70

Processo: 001/20800466617
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Alto Petrópolis
Autor: IRO – mulher
Nascimento: 1984
Profissão: estudante
Bairro/cidade em que mora: Santa-Fé/Gravataí
Local do Flagrante: Av. Manoel Elias, 2128, FAPA
Data/horário: 02/07/2008, às 10h30minh
Droga: maconha e crack
Quantidade: 0,610g (acondicionada em papel branco, na forma solta, como um cigarro
artesanal parcialmente consumido) e 0,177g (acondicionado em saco plástico como uma
trouxinha)
Processo finalizado: 30/03/2009
Antecedentes: não

TC/IP:
“Trata-se de posse de entorpecente: POLICIAL: Ao abordar o veículo FIAT UNO placa
BVV 9462, na revista pessoal, foi encontrado no bolso do casaco do lado direito uma
caixinha de fósforo contendo 01 cigarro de maconha, 01 pedra esfareleda de crack, 01
pacote de colomi. ACUSADO: a mesma informa que comprou a droga na vila Jardim e
pagou R$ 5,00.”
Processo:
Foi designada audiência preliminar. A autora compareceu.
“Aberta a audiência, pela MM. Juíza de Direito foi dito que o Ministério Público propôs
ao autor do fato participação semanal em grupos de auto-ajuda pelo prazo de 02 meses,
período no qual o processo permanecerá suspenso e o autor do fato se submeterá a uma
avaliação e atendimento específico na área de drogadição a ser coordenado pelo
CIARB. A proposta de participação em grupos de auto-ajuda é aceita pelo acusado e
pela defesa nos termos avençados. Fica o autor ciente que deve comparecer ao CIARB
(Av. Borges de Medeiro, 945, sala 812, 8º andar), no dia 03 de dezembro de 2008,às
10h. Fica ciente, outrossim, de que, não sendo cumprido o acordo, o processo voltará a
tramitar. A participação das reuniões deverá se dar mediante cumprimento das normas
da entidade, mantendo tratamento de urbanidade e respeito com os coordenadores,
funcionários e palestrantes, evitando atitudes pertubardoras no local e nas proximidades.
A seguir foi dito que os autos permanecerão aguardando em cartório pelo prazo
acordado a comunicação de freqüência pelo CIARB. Cumprido, voltem conclusos para
extinção da punibilidade. Intimados os presentes. Nada mais .”
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CIARB encaminhou e-mail informando que o autor comprovou freqüência no Grupo de
Auto-Ajuda.
“Cumpridas integralmente as condições do acordo realizado à fl. 22, declaro extinta a
punibilidade do autor do fato e determino o arquivamento com baixa.”





















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CASO 71

Processo: 001/20800389655
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Alto Petrópolis
Autor: WAS - homem
Nascimento: 1985
Profissão: desempregado
Bairro/cidade em que mora: Rubem Berta/POA
Local do Flagrante: Av. Cais Cais, s/n, Garagem Nortran
Data/horário: 27/03/2008, às 01h35minh
Droga: maconha
Quantidade: 2,477g
Processo finalizado: 17/04/2009
Antecedentes: sim, roubo e extorsão (2)
Observações:
TC/IP:
“Relata que o autor, Sr. William, antes de ser abordado, jogou no chão 05 trouxinhas
contendo erva verde semelhante a maconha. AUTOR: Declara manifestar-se somente
em juízo.”
Processo:
Designada audiência o autor compareceu.“Aberta a audiência, pela MM. Juíza de
Direito foi dito que o Ministério Público propôs ao autor do fato participação semanal
em grupos de auto-ajuda pelo prazo de 03 meses, período no qual o processo
permanecerá suspenso e o autor do fato se submeterá a uma avaliação e atendimento
específico na área de drogadição a ser coordenado pelo CIARB. A proposta de
participação em grupos de auto-ajuda é aceita pelo acusado e pela defesa nos termos
avençados. Fica o autor ciente que deve comparecer ao CIARB (Av. Borges de
Medeiro, 945, sala 812, 8º andar), no dia 03 de dezembro de 2008,às 10h. Fica ciente,
outrossim, de que, não sendo cumprido o acordo, o processo voltará a tramitar. A
participação das reuniões deverá se dar mediante cumprimento das normas da entidade,
mantendo tratamento de urbanidade e respeito com os coordenadores, funcionários e
palestrantes, evitando atitudes pertubardoras no local e nas proximidades. A seguir foi
dito que os autos permanecerão aguardando em cartório pelo prazo acordado a
comunicação de freqüência pelo CIARB. Cumprido, voltem conclusos para extinção da
punibilidade. Intimados os presentes. Nada mais.”
CIARB encaminhou e-mail informando que o autor comprovou freqüência no Grupo de
Auto-Ajuda.“Cumpridas integralmente as condições do acordo realizado à fl. 22,
declaro extinta a punibilidade do autor do fato e determino o arquivamento com baixa.”
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CASO 72

Processo: 001/20800389655
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Alto Petrópolis
Autor: PEAC - homem
Nascimento: 1988
Profissão: auxiliar de vendas
Bairro/cidade em que mora: Floresta/POA
Local do Flagrante: Estrada Martim Felix Berta, 407, Escola de Samba Dna.
Leopoldina
Data/horário: 12/11/2007, às 21h40minh
Droga: maconha e cocaína
Quantidade: 0,168g e 0,212g e 0,083
Processo finalizado: 17/04/2009
Antecedentes: não
TC/IP:
“Relata que abordar o autor, encontrou no bolso 03 petecas com pó branco semelhante a
cocaína e 01 cigarro de uma erva semelhante a maconha. AUTOR: Relata que assume
ter comprado as substâncias entorpecentes encontradas consigo, pois informa ser
usuário.”
Processo:
Designada audiência. Restou prejudicada pela ausência do autor que não foi encontrado.
MP requereu expedição de ofício para o TRE.
“Aberta a audiência, pela MM. Juíza de Direito foi dito que o Ministério Público propôs
ao autor do fato participação semanal em grupos de auto-ajuda pelo prazo de 04 meses,
período no qual o processo permanecerá suspenso e o autor do fato se submeterá a uma
avaliação e atendimento específico na área de drogadição a ser coordenado pelo
CIARB. A proposta de participação em grupos de auto-ajuda é aceita pelo acusado e
pela defesa nos termos avençados. Fica o autor ciente que deve comparecer ao CIARB
(Foro Central, 5º andar, sala 526), no dia 22 de setembro de 2008, às 09h. Fica ciente,
outrossim, de que, não sendo cumprido o acordo, o processo voltará a tramitar.. A
seguir foi dito que os autos permanecerão aguardando em cartório pelo prazo acordado
a comunicação de freqüência pelo CIARB. Cumprido, voltem conclusos para extinção
da punibilidade. Intimados os presentes. Nada mais .”
CIARB encaminhou e-mail informando que o autor comprovou freqüência no Grupo de
Auto-Ajuda.
“Cumpridas integralmente as condições do acordo realizado à fl. 36, declaro extinta a
punibilidade do autor do fato e determino o arquivamento com baixa.”
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254
CASO 73

Processo: 001/20800389078
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Alto Petrópolis
Autor: EBG- homem
Nascimento: 1984
Profissão: “desempregado”
Bairro/cidade em que mora: Vila Jardim/POA
Local do Flagrante: Rua Ala, 309
Data/horário: 22/02/2008, às 20h10minh
Droga: cocaína
Quantidade: 0,547g
Processo finalizado: 17/04/2009
Antecedentes: não
TC:
“avistado parado na via pública em atitude suspeita”.
PROCESSO:
“Aberta a audiência, pela MM. Juíza de Direito foi dito que o Ministério Público propôs
ao autor do fato participação semanal em grupos de auto-ajuda pelo prazo de 03 meses,
período no qual o processo permanecerá suspenso e o autor do fato se submeterá a uma
avaliação e atendimento específico na área de drogadição a ser coordenado pelo
CIARB. A proposta de participação em grupos de auto-ajuda é aceita pelo acusado e
pela defesa nos termos avençados. Fica o autor ciente que deve comparecer ao CIARB
(Foro Central, 5º andar, sala 526), no dia 06 de outubro de 2008, às 09h. Fica ciente,
outrossim, de que, não sendo cumprido o acordo, o processo voltará a tramitar.. A
seguir foi dito que os autos permanecerão aguardando em cartório pelo prazo acordado
a comunicação de freqüência pelo CIARB. Cumprido, voltem conclusos para extinção
da punibilidade. Intimados os presentes. Nada mais .”
CIARB encaminhou e-mail informando que o autor comprovou freqüência no Grupo de
Auto-Ajuda.
“Cumpridas integralmente as condições do acordo realizado à fl. 22, declaro extinta a
punibilidade do autor do fato e determino o arquivamento com baixa.”




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CASO 74

Processo: 001/20800553528
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Alto Petrópolis
Autor: JLOC - homem
Nascimento: 1961
Profissão: vendedor ambulante
Bairro/cidade em que mora: Sarandi/POA
Local do Flagrante: Rua Derli Monteiro, 310, Jardim Planalto
Data/horário: 04/08/08, às 19:15
Droga: maconha
Quantidade: 7,635g
Processo finalizado: 28/04/2009
Antecedentes: SIM, dano (2 processos)

TC/IP: lavrado na 3ª DPPA
“COMUNICANTE: Em atendimento a ocorrência via rádio, dando conta de que um
grupo de transeuntes estariam consumindo drogas em uma praça no bairro Jardim
Planalto, conhecido ponto de uso de drogas, dirigiu-se até o local dos fatos com a
viatura de prefixo 2947, juntamente com o Sd. ROCHA. No endereço indigitado, o
comunicante visualizou um grupo de indivíduos em atitude suspeita, e submeteu-os a
uma revista pessoal. Dentre os suspeitos revistados, apreendeu duas lascas de uma erva
prensada semelhante a maconha com peso aproximado de 45,30 gramas em poder de
JLOC, as quais estavam dentro do bolso de sua calça, conforme auto de apreensão
encaminharam-se a esta 3º DPPA para as devidas providências.”

AUTOR: admite a propriedade da droga apreendida, tendo pago o valor de R$ 30,00 de
um homem bronzeado, magro com altura aproximada de 1,80m, com idade de 40 anos,
cabelos escuros e curtos, com uma tatuagem de um coração atravessado por uma faca
no braço esquerdo, no horário próximo das 18h, na praça onde foi abordado, o qual
conhece pelo nome de MAGRÃO. Que é usuário de maconha desde os treze anos de
idade. Após ser submetidos a exames de lesão corporal e toxicológico, assinatura do
termo de compromisso, foi liberado. Nada mais.

FOI REALIZADA CONSULTA DE INDIVÍDUO (foto e digitais)

“Aberta a audiência, pela MM. Juíza de Direito foi dito que o Ministério Público propôs
ao autor do fato participação semanal em grupos de auto-ajuda pelo prazo de 04(quatro)
meses, período no qual processo permanecerá suspenso e o autor do fato se submeterá a
uma avaliação e atendimento específico na área de drogadição a ser coordenado pelo
CIARB. A proposta de participação em grupos de auto-ajuda é aceita pelo acusado e
pela defesa nos termos avençados. Fica o autor ciente de que deverá comparecer junto
ao CIARB (Av. Borges de Medeiros, 1.945, sala 812, 8º andar), no dia 09 de dezembro
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256
de 2008, às 09h. Fica ciente, outrossim, de que, não sendo cumprido o acordo, o
processo voltará a tramitar. A participação das reuniões deverá se dar mediante o
cumprimento das normas da entidade, mantendo tratamento de urbanidade e respeito
com coordenadores, funcionários e palestrantes, evitando atitudes perturbadoras no
local e nas proximidades. A seguir foi dito que os autos permanecerão aguardando em
cartório pelo prazo acordado a comunicação de freqüência pelo CIARB. Cumprido,
voltem conclusos para extinção da punibilidade. Intimados os presentes. Nada mais.”

CIARB encaminhou e-mail informando que o autor comprovou freqüência no Grupo de
Auto-Ajuda.
“Cumpridas integralmente as condições do acordo realizado à fl. 39, declaro extinta a
punibilidade do autor do fato e determino o arquivamento com baixa.”



























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257
CASO 75

Processo: 001/208.0036315-0
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro Regional do Alto Petrópolis
Autor: LAPA - homem
Nascimento: 1965
Profissão:
Bairro/cidade em que mora: Vila Americana/ Alvorada - RS
Local do Flagrante: Av. bento Gonçalves, 7712, Agronomia (INSTITUTO MIGUEL
DARIO)
Data/horário: 29/05/2008, às 18:40
Droga: maconha
Quantidade: 2,116g
Processo finalizado: 04/05/2009
Antecedentes: SIM, tentativa de homicídio

Encaminhado à 3ª DPPA

TC/IP:
“Apresenta-se nesta 3ª DPPA, o preso do regime semi-aberto do albergue Miguel Dario,
LUIZ APA, o qual nesta tarde, às 18:40h, se apresentou após eu horário de trabalho,
sendo que ao ser efetuada a revista pessoal, foi encontrado dentro da cueca o material
constante abaixo no objeto. Posterior foi apresentado a autoridade policial. Nada mais.”

AUTO DE APREENSÃO: “um tijolinho de erva-esverdeada pensada, com
característica e odor de maconha, pesando aproximadamente 9,9 gramas.
- parte de um embalagem de creme dental sorriso, onde a substância estava
acondicionada.”

PROMOÇÃO MP (fl. 29)
“Considerando a informação hoje obtida, via telefone, de que o autor do fato encontra-
se cumprindo pena no IPEP (instituto Penal Escola Profissionalizante) no regime semi-
aberto, o que impede sua movimentação sem escolta, resta inviável o pretendido
encaminhamento do mesmo a atendimento terapêutico, mediante comparecimento a
grupo de auxílio contra dependência química, e conseqüentemente a expedição de
precatória.
Assim, para fins de oferecimento de denúncia em razão dos antecedentes judiciais de fl.
14/15 – segue, em anexo, pedido de diligência, requerendo o Ministério Público
aguardem os autos em cartório o decurso do prazo estipulado. Findo tal prazo, com ou
sem cumprimento das diligências solicitadas, requer seja dada nova vista ao MP.”

Foi realizada audiência em 17/11/2008

Testemunhas:
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258
(...) a revista é aleatória

Acusado:
J: O Sr. Tem filhos?
R: sim, quatro.
(...) todo mundo é ressabiado em vender droga lá dentro. Por isso, que eu trazia a
substância para mim usar , porque eu fumo há muito tempo.
J: O senhor é usuário há muito tempo? É dependente dessa substância?
R: Sim.
J: Desde quando o senhor usa?
R: Ah, eu uso desde 77, quando eu tinha doze anos e eu não tenho nenhum inquérito
pelo art. 12 né, que agora é o 33. Eu sei que isso poderia me atrapalhar bastante.
J: E depois disso, que o senhor teve uma alteração no regime, o senhor atualmente
voltou ao semi-aberto?
R: Não, não senhora. Eu tive um parque e dez dias fechado, no regime fechado, e mudei
de semi-aberto. Agora eu to lá em Charqueadas, porque é o castigo que eles dão
geralmente para esse tipo de falta.
(...)

J: E antes do envolvimento com esses quatro criminosos o senhor trabalhava
regularmente? Como era sua atividade?
R: Eu trabalhei na firma do meu irmão pouco tempo, mas eu trabalhei muito mais
autônomo, assim, pintando quadro, fazendo escultura em pedra sabão e procurando
galerias para botar os trabalhos. Sou cadastrado na Fundação Gaúcha de Escultor.

MP requereu a procedência da ação para condenar o réu.
Defesa “requereu medida terapêutica da nova lei de drogas que trata o cidadão como
doente que necessita de tratamento e não como um criminoso que mereça punição, ou,
absolvição pelo princípio da insignificância.”

Autos conclusos para sentença.

SENTENÇA
“Vistos, etc.

I – PARA ENTENDER O CASO (Relatório)
1. FATO DELITUOSO: posse de substância entorpecente
2. RÉU: (..)
3. DATA, HORÁRIO E LOCAL DO FATO: No dia 04 de maio de 2009, por volta das
18h e 40min, na Av. Bento Gonçalves, 7712, Agronomia, nesta capital.
4. CISRCUNSTÂNCIAS DO FATO: No endereço ante mencionado. O réu, teria em
depósito duas gramas (2g) de cannabis sativa, vulgarmente como maconha, substância
entorpecente que causa que causa dependência física e psíquica.
5. CLASSIFICAÇÃO DO FATO (TIPICIDADE): Artigo 28 da Lei 11.343/06.
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259
6. DENÚNCIA:
7.CITAÇÃO:
8. MEDIDAS DESPENELIZADORAS (Lei 9.099/95): As medidas despenalizadoras
não foram ofertadas em razão dos antecedentes do réu (fl. 04 e 110/111).
9. AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO E JULGAMENTO: Defesa preliminar e
recebimento da denúncia (fl.. Ouvida três testemunhas da acusação (fl. ). Interrogatório
(fl. ). Debates Orais (fl. ).

II – ASPECTOS A CONSIDERAR (Fundamentação)
12. DA AUTORIA E MATERIALIDADE: O crime de posse ilegal de entorpecentes
se constitui, segundo dispõe o art. 28 da Lei 11.343/06, quem adquirir, guardar,
tiver, transportar, ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem
autorização ou desacordo com a determinação legal ou regulamentar.
13. A Tutela penal é a prevenção ao uso de drogas e o objeto jurídico é a proteção da
saúde pública.
14. A autoria vem comprovada pela prova oral produzida. As testemunhas ouvidas
foram categóricas em afirmar que a droga foi encontrada na residência do réu e
seu relato ao tempo do interrogatório robora a tese acusatória.
15. A materialidade vem afirmada no laudo de exame toxicológico de fls. 35/36.
16. Em sede de debate oral, o MP dizendo certa a autoria, postulou a condenação do
réu. A defesa alegando que o réu é usuário de droga e por ter confessado a posse
para uso próprio e não ter oferecido qualquer resistência, postula seja ele
encaminhado para tratamento e, pelos princípios da insignificância e bagatela a
absolvição do acusado.
17. Em razão dos antecedentes criminais do acusado, as medidas despenalizadoras
não foram ofertadas.
18. A denúncia, no momento oportuno, não foi recebida, tampouco a defesa Quanto
à denúncia, tenho que a instrução do feito gera o recebimento tácito da peça
acusatória, amparo que encontro nos princípios norteadores da Lei 9.099/95. No
pertinente a defesa preliminar, ainda não oportunizada, sua ausência poderia
gerar nulidade da ação penal, determinando a anulação a partir daquele ato,
porém, exigiria da defesa demonstrar eventual prejuízo suportado pelo acusado,
o que não o fez e, em face disso, tenho que resta regular o feito.
19. A súmula 523 do STF esclarece a matéria dizendo: “No processo penal, a falta
de defesa constitui nulidade absoluta, mas sua deficiência só o anulará se houver
se houver prova de prejuízo para o réu.”
20. Prospera a denúncia. A prova coligida e a confissão do acusado têm o condão e
corroboram com os termos da peça acusatória.
21. A conduta é típica e constitui-se em ilícito penal previsto no art. 28 da lei
11.343/06, tendo como reprimenda as sanções previstas no tipo penal específico.
22. O novo diploma legal afasta pena privativa de liberdade e inova com cominação
de outras medidas, não subtraindo, com isso, o caráter ilícito da conduta.
23. A descriminalização que tem sido objeto de muitas teses, encontra-se afastada
diante do cunho penal que reveste a tipicidade da ação do agente, prevista na Lei
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Antidrogas que é incriminadora, embora com repercussões menos agravantes e
fins sociais que visam a preservação da saúde pública e a recuperação do
dependente químico, todavia, não retira a natureza penal da infração
24. Assim, típica a conduta, a decisão que se impõe é a procedência da ação penal.

III- CONCLUSÃO FINAL (Dispositivo)

Ante ao exposto, julgo PROCEDENTE, a denúncia para APLICAR ao réu
LAPA, com fulcro no art. 28 da Lei 11.343/06, a pena de advertência.

Dosimetria da pena:
Antecedentes não são bons, havendo registro de condenação. O réu tinha
consciência da ilicitude dos atos praticados e poderia conduzir-se de acordo com
esse entendimento; conduta desajustada; personalidade não há registro nos autos.
Motivação, circunstâncias e conseqüências normais às espécie, o que leva a
conclusão de que a pena de advertência é o mais adequado por seu aspecto menos
gravoso ao acusado.

Transitada em julgado, procedam-se às anotações e as comunicações devidas.
Expeça-se mandado para intimação do réu da pena ora imposta, advertindo-o das
conseqüências negativas da dependência química pelo uso de entorpecentes e
reincidência lhe imporá as sanções previstas na Lei 11.343/2006.






















CASO 76

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261
Processo: 001/2.09.0030824-0
Juizado: Juizado Especial Criminal do Quarto Distrito
Autor: ISP - homem
Nascimento: 1982
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Restinga
Local do Flagrante: Rua Dom Pedro II
Data/horário: 17/03/09, 17:40
Droga: maconha
Quantidade: 1,7g
Processo finalizado: 08/5/09
Antecedentes: -
Processo:
- MP requer arquivamento
- Juiz acolhe
Observações:


























CASO 77

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262
Processo: 001/2.09.0030851-7
Juizado: Juizado Especial Criminal do Quarto Distrito
Autor: DLD - homem
Nascimento: 11/05/85
Profissão: trabalha na empresa XXX Ar-condicionados
Bairro/cidade em que mora: Higienópolis
Local do Flagrante: Av Polônia – Praça São Geraldo
Data/horário: 23/01/09 – 17:40
Droga: Maconha
Quantidade: 2g
Processo finalizado: 08/05/09
Antecedentes: sim, tentativa de homicídio.
TC: patrulhamento de rotina
Processo:
- MP requer arquivamento, juiz acolhe
Observações: -


























CASO 78

Página 303 / 477
263
Processo: 001/2.09.0017804-4
Juizado: Juizado Especial Criminal do Quarto Distrito
Autor: RMS - homem
Nascimento: 1969
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Floresta
Local do Flagrante: Av. Pátria – Praça Pinheiro Machado
Data/horário: 15/02/09 – 14:00
Droga: maconha
Quantidade: 2,6g
Processo finalizado: 08/05/09
Antecedentes: Sim, posse de droga.
TC: Abordagem de rotina
- Processo:
- Juiz manda redistribuir para o Foro do 4º distrito
- MP requer arquivamento, juiz acolhe
Observações:

























CASO 79

Página 304 / 477
264
Processo: 001/2.09.0030846-0
Juizado: Juizado Especial Criminal do Quarto Distrito
Autor: RMS - Homem
Nascimento: 1982
Profissão: Servente
Bairro/cidade em que mora: Vicente da Fontoura, Centro – Gravataí
Local do Flagrante: Av. AJ Renner
Data/horário: 28/02/09 – 4:00
Droga: maconha
Quantidade: 3,5g
Processo finalizado: 08/05/09
Antecedentes: Sim, furto

TC/IP: Foi parada em uma barreira policial, não tinha habilitação, seu carro foi
revistado e acharam a droga dentro de uma carteira de cigarro.
Processo:
- MP requer arquivamento, juiz acolhe
Observações:
























CASO 80

Página 305 / 477
265
Processo: 001/2.09.0018090-1
Juizado: Juizado Especial Criminal do Quarto Distrito
Autor: LASA - homem
Nascimento: 1982
Profissão: Motorista
Bairro/cidade em que mora: Rua Florianópolis, Canoas
Local do Flagrante: Av. Missões
Data/horário: 10/12/08, 12:25
Droga: maconha
Quantidade: 1,5g
Processo finalizado: 08/05/09
Antecedentes: Sim, posse de drogas


Processo:
- Juiz ordena redistribuição para o Foro do Quarto Distrito
- MP requer arquivamento, juiz acolhe

Observações:























CASO 81

Página 306 / 477
266
Processo: 001/2.09.0029097-9
Juizado: Juizado Especial Criminal do Quarto Distrito
Autor: ASD – homem
Nascimento: 1980
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Av. Farrapos
Local do Flagrante: Av. Farrapos esquina com a Av. Sertório.
Data/horário: 18/03/09, 17:30.
Droga: maconha
Quantidade: 0,8g
Processo finalizado: 11/05/09
Antecedentes: não

Processo:
- MP requer arquivamento, juiz acolhe

Observações:

























CASO 82

Página 307 / 477
267
Processo: 001/2.09.0029086-3
Juizado: Juizado Especial Criminal do Quarto Distrito
Autor: AGA - homem
Nascimento: 1971
Profissão: Comerciário
Bairro/cidade em que mora: Rua Professor João Souza Ribeiro
Local do Flagrante: Rua Márcia Flor Vieira esquina com Av. Farrapos
Data/horário: 06/04/09, 16:00
Droga: maconha
Quantidade: 20g
Processo finalizado: 08/05/09
Antecedentes: não

TC:
- Denúncia de tráfico no local
- Policiais chegaram quando o autor estava comprando, o “aviãozinho” fugiu.
- Autor do fato disse que estava comprando para o Feriado de Páscoa
Processo:
- MP requer arquivamento, juiz acolhe
Observações:






















CASO 83

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268
Processo: 001/2.09.0019380-9
Juizado: Juizado Especial Criminal do Quarto Distrito
Autor: SAL - Homem
Nascimento: 1988
Profissão: Trabalha num restaurante Fast-Food
Bairro/cidade em que mora: São Geraldo
Local do Flagrante: Av. São Paulo, Navegantes
Data/horário: 13/03/09 – 22:30
Droga: maconha
Quantidade: 3,9g
Processo finalizado: 07/04/09
Antecedentes: não

TC: Patrulhamento de rotina
Processo:
- MP requer arquivamento, juiz acolhe
Observações:

























CASO 84

Página 309 / 477
269
Processo: 001/2.09.0031210-7
Juizado: Juizado Especial Criminal do Quarto Distrito
Autor: ADS - Homem
Nascimento: 1982
Profissão: Trabalha na empresa XXX
Bairro/cidade em que mora: Rua Vera Cruz, Centro - Canoas
Local do Flagrante: Av. Farrapos
Data/horário: 05/04/09 – 15:00
Droga: maconha
Quantidade: 4,2g
Processo finalizado: 08/05/09
Antecedentes: não

TC/IP:
Foi parado numa blitz
Processo:
- MP requer arquivamento, juiz acolhe
Observações:
























CASO 85

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270
Processo: 001/2.09.0016823-5
Juizado: Juizado Especial Criminal do Quarto Distrito
Autor: SRSS - homem
Nascimento: 1974
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Albergue dos Navegantes, Navegantes
Local do Flagrante: Av. Farrapos
Data/horário: 15/01/09 – 17:50
Droga: maconha
Quantidade: 3.4g
Processo finalizado: 07/04/09
Antecedentes: não

TC/IP: “abordagem de rotina”
Processo:
- MP requer arquivamento, juiz acolhe
Observações:
Morador de rua
























CASO 86

Página 311 / 477
271

Processo: 001/2.09.0019394-9
Juizado: Juizado Especial Criminal do Quarto Distrito
Autor: CMFS - homem
Nascimento: 1950
Profissão: Mecânico
Bairro/cidade em que mora: Wenceslau Braz, Marrocos - Gravataí
Local do Flagrante: Estrada BR 290 – Navegantes
Data/horário: 10/03/09 - 15:45
Droga: maconha
Quantidade: 2g
Processo finalizado: 07/04/09
Antecedentes: não

TC/IP: Estava parado no acostamento, fechando um cigarro de maconha. Chegaram os
policiais e efetuaram o flagrante
Processo:
MP requer arquivamento, juiz acolhe
Observações: -























CASO 87

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272
Processo: 001/2.09.0013796-8
Juizado: Juizado Especial Criminal do Quarto Distrito
Autor: PMS, HTS - homens
Nascimento: 1988, 1980
Profissão: Ambos trabalham numa empresa de cerveja
Bairro/cidade em que mora: Av Brasil, Navegantes; Av Manoel Elias – Jardim
Ipiranga
Local do Flagrante: Av. farrapos – Praça Pinheiro Machado
Data/horário: 24/02/09 - 20:25
Droga: maconha
Quantidade: 1,6 g
Processo finalizado: 07/04/09
Antecedentes: não

TC/IP: -
Processo:
Juiz determina a redistribuição para o Foro do Quarto Distrito
MP requer arquivamento, juiz acolhe
Observações:























CASO 88

Página 313 / 477
273
Processo: 001/2.09.0013975-8
Juizado: Juizado Especial Criminal do Foro do Quarto Distrito
Autor: JLS - homem
Nascimento: 1976
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Rua Dois, Vila Santo Antonio, Bairro Humaitá
Local do Flagrante: Av. AJ Renner, Bairro Humaitá
Data/horário: 28/12/08
Droga: crack
Quantidade: 10g
Processo finalizado: 20/03/09
Antecedentes: -
TC/IP: -
Processo:
MP requer arquivamento, juiz acolhe
Observações:


























CASO 89

Página 314 / 477
274
Processo: 001/2.09.0013987-1
Juizado: Juizado Especial Criminal do Quarto Distrito
Autor: AVR - homem
Nascimento: 1985
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Rua Guaíba, Pinheiro
Local do Flagrante: Av. dos Estados – Estação do trem Rodoviária
Data/horário: 12/12/08, 21:30
Droga: maconha
Quantidade: 1,2g
Processo finalizado: 20/03/09
Antecedentes: sim, posse de drogas

TC:
“O suspeito do presente BO invadiu os trilhos do metro na estação aeroporto colocando
em risco a vida dele, bem como podendo ocasionar problemas na linha do metrô. Que
ele foi retirado da linha férrea e após começou a tentar agredir ao comunicante e seus
colegas protagonizando um escândalo no local. Que o mesmo foi agressivo e ameaçador
aos agentes de segurança da Trensurb. Que com o mesmo havia pequena quantidade de
maconha e apresentava sinais de estar drogado. Que em razão disto teve de ser
algemado e conduzido a ser medicado no hospital de Pronto socorro. Que o autor criou
um tumulto na estação e foi subjugado sob força física.” (p. 2)
Processo: MP requer arquivamento, juiz acolhe
Observações: -


















CASO 90

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Processo: 001/2.09.0007813-9
Juizado: Juizado Especial Criminal do Quarto Distrito
Autor: LTS - Mulher
Nascimento: 1963
Profissão: Comerciante
Bairro/cidade em que mora: Humaitá
Local do Flagrante: Humaitá
Data/horário: 12/05/08, 10h20
Droga: cocaína
Quantidade: 0.2g
Processo finalizado: 19/02/09
Antecedentes:

TC:
“Declara que estava limpando o roupeiro do seu marido, porém no quarto do filho,
quando encontrou dois saquinhos contendo uma substância parecida com cocaína. Que
não sabe se seu marido ou seu filho são usuários de drogas.Que também, não sabe se o
produto suspeito consiste em entorpecente, sendo que, por isso foi a delegacia para
registrar o fato.” (p. 2)
Processo:
MP requer arquivamento, juiz acolhe
Observações:















Petição na qual o Ministério Público requer o arquivamento de todos os casos de
posse de drogas analisados no Foro Regional do Quarto Distrito

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276
O Ministério Público, por este agente, à vista do conteúdo destes autos, requer o
arquivamento do presente termo circunstanciado, pelas razões que a seguir passa a
deduzir.

É indispensável ao operador do Direito a lucidez de reconhecer que o poder
punitivo do Estado deve incriminar condutas tão só na faixa dos parâmetros fixados pela
Constituição Federal. Ademais que a aplicação do Direito Penal, em nossa realidade,
obriga observar prioridades na Política Criminal.

O mestre René Ariel Dotti (in” A Proteção Constitucional da Intimidade e o art
16 da Lei de Tóxicos”, Alberto Toron, Fascículos de Ciências Penais, Fabris)
pontificou:

“As ações axiológicas constitucionais devem ser respeitadas pelos texto penais
e orientar sua interpretação”.

Com efeito, é garantia do brasileiro a inviolabilidade da intimidade e da vida
privada. Limite a que se deve curvar o poder legiferante do Estado. Este direito
resguarda uma esfera da existência humana onde se preserva um mínimo de liberdade
do individuo, impenetrável a comandos e proibições – “verdadeira zona de imunidade”.

Neste sentido é lapidar o art. 19 da Constituição Argentina:

“Lãs aciones privadas de los hombres que de ningún modo ofendan al ordem y
la moral pública, ni prejudiquen a un tercero están reservadas a Dios y exentos de La
autoridad de los magistrados”.

Tanto é assim, que o Magistrado da Suprema Corte Argentina Enrique Petrachi
asseverou: “As ações privadas não se transformam em pública pelo fato de que o
Estado decidiu proibi-las.”

È sabido que o art 16 da lei n.6.368/76 não pune o uso, tampouco o vício e diz
respeito á privacidade do individuo (embora acarrete conseqüências de alimentação do
emergente mercado do tráfico), que não fazem parte de sua objetividade. Contudo, as
condutas que o tornam possível (adquirir, guardar e trazer consigo) são tipificadas.
Assim, via obliqua, o “uso” vem a ser punido. Contudo, a punição só subsiste se a
substância entorpecente for apreendida, periciada e tiver sua natureza tóxica
confirmada. Vale dizer, estiver a materialidade assegurada.

Ora, a materialidade resume todo o tratamento penal a uma insólita, questão de
sorte. Esclarecedor é a ponderação citada por Alberto Tóron na obra referida:

“Uns instantes necessários para consumir a droga não podem justificar a
incriminação da “posse exterior” da droga pelo toxicômano ou consumidor (vale dizer,
a posse de droga antes de ser consumida) por um lado, e a impunidade da “posse
interna” (depois que a droga já tenha sido consumida), por outro lado”(a partir de El
Delito de trafico y consumo de Drogas”, Pietro Rodriguez, Barcelona, Bash, 1986,
p.225)

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Ademais, é o caso de indagar-nos: qual o bem jurídico tutelado pelo art 16 da lei
de tóxicos?

Deveria a resposta apontar a incolumidade pública, ou, mais especificamente, a
saúde pública (infração de perigo). Todavia a realidade assinala direção oposta.

Como assegura Maria Lucia Karan (in Estudos Jurídicos, n. 01, 91, p.127), tais
infrações exigem a expansão do perigo real à coletividade. Ora, mas se há de enxergar
que as três condutas encerradas pelo art 16 da lei ungem-se a uma única realidade:
serem destinadas a uso próprio.

Deixemos claro, então as coisas. Ou o legislador assume que o dispositivo legal
visa a proteção individual, ou adota uma postura despenalizadora do art 16.

Feita a opção pela primeira alternativa, automaticamente, o suicídio, o
alcoolismo e a autolesão passarão a ser objeto de punição.

Retroagiremos a um arcaico “Direito Penal de Caráter”, incriminando
comportamentos da vida privada, rasgando a Constituição, e usando a lei para moldar os
indivíduos a um único código moral – o que é, em absoluto, abominável. Punir-se-á,
nesta escala, opções sexuais, religiosas, políticas, etc. Admitir isso é tão tosco quanto
pensar que a lei pune o estelionato para fazer as pessoas confiáveis, pune o furto para
torná-las honestas, pune o estupro para forçá-las a contrair o libido, etc.

O fornecimento de substancia entorpecente a terceiros encontra perfeito
subsunção no art 12 da Lei n. 6.368/76, porque, ineludivelmente, traduz perigo á saúde
pública.

O art 16 da lei de tóxicos, nos exatos termos, não importa ofensa à saúde
pública, “ quando muito traduz a possibilidade de autolesão pelo mal que o consumo
da droga pode acarretar ao usuário...Aberra de nossa sistemática jurídico-penal
castigar alguém porque não tendo, embora produzindo ofensas externas, oferece a
possibilidade de vir a fazê-lo.”(Bernardino Gonzaga, in ”Entorpecentes – Aspectos
criminológicos e jurídicos-penais”. Max limonad, 63/87).

Por fim, demonstrado o absurdo deste dispositivo legal, vale lembrar o histórico
voto do Desembargador Milton Dos Santos Martins na apelação n. 686062340, da 3ª
Câmara criminal do TJRS:

“Se não se quer reconhecer no consumidor de droga uma vítima
e um doente, como viciado, dando-lhe tratamento adequado,
pelo menos há de se reconhecer, então a sua liberdade pessoal
garantida pela Constituição (..). Incrimina-se simples ato da
esfera individual, puramente individual, que respeita á
liberdade pessoal. O Direito, inclusive o penal, é interpessoal, é
norma, transubjetiva, cuida-se das relações pessoais; não se
viola a pessoa, seu pensar seu agir que não interfere com as
outras pessoas”.
Agora, na vigência da nova lei de tóxicos, a detida análise
de seu art 28 afasta qualquer dúvida a respeito da
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descriminalização da posse de droga para uso próprio, não
impondo qualquer tipo de prisão, mas cominando com sanções
como advertência, prestação de serviços á comunidade e
comparecimento a programas educativos o portador. Ademais,
prevê que, em caso de descumprimento, sejam essas sanções
substituídas por admoestação verbal ou multa, Assim o
legislador retira o caráter penal do antigo artigo 16 da lei n.
6.386/76, operando verdadeira “abolitio criminis”.

A figura do porte de substância entorpecente para uso próprio deixa de encontrar
enquadramento seja como crime, seja como contravenção. Resulta, quando muito, num
ilícito de natureza não penal, cujas sanções têm corte marcadamente administrativo e
remetem ao reconhecimento de que a questão traduz um problema de saúde pública que
deve ser enfrentado inicialmente com medidas de prevenção, respeitada a
individualidade e privacidade do indivíduo.

Aline Machado Xavier




















CASO 91

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Processo: 001/2.08.0060039-9
Juizado: Juizado Especial Criminal da Restinga
Autor: JAC - homem
Nascimento: 1983
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Rua Tobago, Restinga Velha.
Local do Flagrante: Rua Milton Pozolo de Oliveira, Restinga.
Data/horário: 23/08/08, 10h20
Droga: maconha
Quantidade: 4g
Processo finalizado: 17/08/09
Antecedentes: não
Processo:
MP: “O MP requer seja designada audiência preliminar, para aplicação do disposto nos
artigos 28 e 48, §5º, da Lei 11343/2006. No tocante ao oferecimento ou não do
benefício da transação penal, fica o mesmo condicionado à apreciação de sua eficácia ao
caso concreto, em audiência, tendo em vista os antecedentes criminais do autor do fato.
Caso o juízo de valor supramencionado revele-se positivo, requer seja proposta ao autor
do fato a transação penal em anexo. (p. 17)
Transação oferecida: medida educativa de comparecimento a programa ou curso
educativo coordenado pelo CIARB, ou, alternativamente, a prestação pecuniária de
favor da Fazenda Novos Rumos, dedicada à recuperação de dependentes químicos, no
valor de meio salário mínimo. Requer ainda, caso não ocorra o cumprimento das
propostas de transação, seja o autor do fato cientificado de que deverá pagar multa no
valor equivalente a 10 salários mínimos, no prazo de 10 diias, em favor do Estado, sob
pena de inscrição em dívida ativa e cobrança pela fazenda pública, além de ficar o
registro desse processo ativo na folha corrida do autor.” (p. 18).
Audiência: autor aceitou a proposta
Autor comprovou o comparecimento a 12 sessões do NA.
Extinta a punibilidade
Observações:

CASO 92

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280
Processo: 001/2.09.0003277-5
Juizado: Juizado Especial Criminal da Restinga
Autor: DC - homem
Nascimento: 1989
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Beco do Schneider, Hipica
Local do Flagrante: Rua Geraldo Tolens Link, Hipica
Data/horário: 13/01/09, 11h30
Droga: maconha
Quantidade: 0,1g
Processo finalizado: 29/07/09
Antecedentes: não.
IP/TC: “Indivíduo sendo medicado no posto de saúde da Hípica por motivo de disparo
de arma de fogo, chegando ao local foi encontrado 01 tijolinho, substância semelhante a
canabis sativa.” (p. 02)
Processo:
MP: requer arquivamento por insignificância: “Considerando as novas disposições
inseridas em nosso sistema penal, através da Lei 11343/06, acerca da posse de drogas
para uso próprio, a qual abandonou o caráter repressivo da conduta do usuário,
voltando-se unicamente à sua recuperação e prevenção, ainda que apenas no campo
legislativo, sem qualquer avanço em relação às políticas de saúde pública, tornando-as
inexequíveis pela absoluta ausência de uma estrutura hospitalar ou ambulatorial,
reduzindo-as a um conteúdo meramente programático, imperiosa se faz uma nova
leitura de tal comportamento. Nesse norte, ante a possibilidade, na hipótese, de
reconhecimento da insignificância, afastada a tipicidade da conduta, requer o MP o
arquivamento do feito”. (p. 24)
Juiz acolhe
Observações:




CASO 93

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Processo: 001/2.09.0006148-1
Juizado: Juizado Especial Criminal da Restinga
Autor: SSQ - mulher
Nascimento: 1972
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Av. Meridional, Restinga
Local do Flagrante: Rua Evangelista, Restinga
Data/horário: 31/01/09, 10h30
Droga: crack
Quantidade: 0,2g
Processo finalizado: 29/07/09
Antecedentes: não
IP/TC: “Reclamação dos moradores pelo local que é dado como ponto de consumo de
drogas”. (p. 02)
Processo:
MP: “O MP propõe, quando da realização da audiência preliminar, a aplicação imediata
da pena de advertência, conforme disposto no art. 28, I, e artigo 48, § 5º, da Lei
11343/2006.” (p. 14)
Audiência: aceita proposta de transação. (p. 40)
Observações:












CASO 94

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Processo: 001/2.09.0002226-5
Juizado: Juizado Especial Criminal da Restinga
Autor: RMR - homem
Nascimento: 1984
Profissão: Empresa XXX
Bairro/cidade em que mora: Rua Evangelista, Restinga Velha
Local do Flagrante: Rua Evangelista, Restinga Velha
Data/horário: 09/01/09, 10h20
Droga: maconha
Quantidade: 0,2g
Processo finalizado: 20/07/09
Antecedentes: não
IP/TC: -
Processo:
MP: “O MP propõe, quando da realização da audiência preliminar, a aplicação imediata
da pena de advertência, conforme disposto no art. 28, I, e artigo 48, § 5º, da Lei
11343/2006.” (p. 14)
Autor não comparece à duas audiências designadas
MP requer o arquivamento, por insignificância (igual ao caso 92). (p. 25)
Juiz acolhe
Observações:











CASO 95

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Processo: 001/2.09.0028570-3
Juizado: Juizado Especial Criminal da Restinga
Autor: AAN - homem
Nascimento: 1982
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Rua Evangelista, Restinga Velha
Local do Flagrante: Estrada João Antônio Silveira
Data/horário: 09/04/09, 20h40
Droga: maconha
Quantidade: 0,6g
Processo finalizado: 20/07/09
Antecedentes: sim, violência doméstica e posse de drogas.
IP/TC:
Processo:
MP: “deixa de oferecer transação penal, tendo em vista a certidão de antecedentes.” (p.
18)
Autor não comparece à audiências designadas
MP requer o arquivamento, por insignificância. (igual ao caso 92). (p. 21)
Juiz acolhe
Observações:












CASO 96

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Processo: 001/2.08.0075108-7
Juizado: Juizado Especial Criminal da Restinga
Autor: ASM - homem
Nascimento: 1990
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Rua Baltimore, Restinga.
Local do Flagrante: Rua Coliseu, Restinga Velha.
Data/horário: 07/11/08, 19h45.
Droga: maconha
Quantidade: 1,3g
Processo finalizado: 18/08/09
Antecedentes:
IP/TC: encaminhado à DP
Processo:
MP: oferece transação (igual ao caso 91). (p. 12).
Audiência: (...) pelo dr. Juiz foi dito que o autor do fato não aceitou a proposta, sob o
fundamento de que a defesa entende que as medidas previstas no art. 28 da Lei de
Tóxicos são progressivas e sucessivas, devendo necessariamente no caso do autor do
fato primário e sem antecedentes, ser aplicada inicialmente a advertência, e assim
sucessivamente, na ordem prevista no referido dispositivo legal”. (p. 14)
MP oferece proposta de transação de advertência. (p. 21)
Audiência: autor do fato aceita. (p. 26)
Observações:










CASO 97
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285

Processo: 001/2.08.0049955-8
Juizado: Juizado Especial Criminal da Restinga
Autor: LJC - homem
Nascimento: 1984
Profissão: Empresa XXX
Bairro/cidade em que mora: Rua Clara Nunes, Restinga Nova.
Local do Flagrante: Rua Coliseu, Restinga Velha.
Data/horário: 12/07/08, 11h30
Droga: maconha
Quantidade: 2,3g
Processo finalizado: 13/07/09
Antecedentes: -
IP/TC: “ao avistar a viatura empreendeu fuga, sendo alcançado e abordado e revistado
foi encontrado cinco buchas de maconha. O mesmo foi conduzido ao batalhão”. (p. 02)
Processo:
MP: oferece transação de advertência. (igual ao caso 93). (p. 21).
Audiência: autor do fato aceita. (p. 24)
Observações:













CASO 98

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286
Processo: 001/2.09.0028567-3
Juizado: Juizado Especial Criminal da Restinga
Autor: RST - homem
Nascimento: 1980
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Rua B Castelo, Restinga
Local do Flagrante: Rua Arno Horn, Restinga Nova
Data/horário: 11/04/08, 11h30
Droga: maconha
Quantidade: 0,5g
Processo finalizado: 10/06/09
Antecedentes: -
IP/TC: encaminhado à 16º DP (p. 02)
Processo:
MP: oferece transação de advertência. (igual ao caso 93). (p. 16).
Audiência: autor do fato aceita. (p. 28)
Observações:















CASO 99

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287
Número do processo: 001/2.09.0003287-2
Juizado: Juizado Especial Criminal da Restinga
Autor: ALS - homem
Nascimento: 1989
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Rua E, Restinga Nova
Local do Flagrante: Rua E, Restinga Nova
Data/horário: 15/01/2009, 19:20
Droga: maconha
Quantidade: 1,4g
Processo finalizado: 17/08/09
Antecedentes: sim, posse de arma.
TC/IP: -
Processo:
Audiência: Na 1ª audiência marcada o réu, apesar de citado não compareceu.
Outra audiência foi realizada: “ Apregoada as partes, compareceu o autor do fato
acompanhada de defensora. Em função das novas disposições acerca do uso de droga
para consumo próprio (artigo 28 da Lei 11.343/2006), foi apresentado ao autor do fato
pelo Ministério Público proposta de transação na forma de advertência sobre efeitos do
uso das drogas (artigo 28, inciso 1, e 48, parágrafo 1º, da Lei 11.343/2006), que foi
aceita pelo mesmo e sua defensora. Assim, homologo transação, ficando extinta a
punibilidade. Intimados os presentes. Nada mais.” (p.24)
- Observações:














CASO 100

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288
Número do processo: 001/2.09.0028574-6
Juizado: Juizado Especial Criminal da Restinga
Autor: LSF - homem
Nascimento: 1986
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Jacques Ives Costeau, Restinga
Local do Flagrante: AC Restinga Nova
Data/horário: 11/04/09, 10h40
Droga: maconha
Quantidade: 4g
Processo finalizado: 28/07/09
Antecedentes: sim, posse de drogas.
TC/IP: -
Processo: Designação de audiência preliminar: “ O ministério Público propõe, tendo
em vista a alva certidão de antecedentes de LSF, quando da realização da audiência
preliminar, a aplicação imediata da pena de advertência, conforme disposto no artigo
28, inciso 1, e artigo 48 parágrafo 5º da Lei 11.343/2006.”(p.15)
Termo de audiência igual ao caso 99.
Observações:



















Caso 101
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289

Número do processo: 001/2.08.0054953-9
Juizado: Juizado Especial Criminal da Restinga
Autor: CXF - homem
Nascimento: 1985
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Domingos José, Restinga Velha
Local do Flagrante: Av. meridional, Restinga Velha
Data/horário: 09/08/08, 8h30
Droga: maconha
Quantidade: 3,1g
Processo finalizado: 12/08/09
Antecedentes: sim, posse de drogas.
TC/IP: -
Processo: “Aberta a audiência preliminar pelo MM. Juiz de Direito foi dito que, tendo
em vista referência pessoal do autor do fasto em audiência de que já aceitara a transação
em processo anterior pelo mesmo delito, mas considerando a certidão de fl. 11 que nada
refere nesse sentido, foi procedida busca no sistema informatizado em audiência, onde
se constatou que efetivamente o réu já respondeu a outros dois processos da Lei de
Tóxicos, num dos quais consta absolvição, e no outro extinção da punibilidade mas sem
qualquer referência à causa extintiva, o que inviabliza o juízo de ter ciência nesta data
sobre a possibilidade de transação ou suspensão neste caso concreto. É determinado que
o Sr. Escrivão certifique a situação dos dois processos baixados notadamente o teor da
sentença extintiva de punibilidade num deles, e depois de-se vista ao Ministério Público
para manifestação. Nada mais.” (p. 26)
Oferecimento de proposta de transação igual ao caso 91
Juiz acolhe a promoção e designa audiência preliminar
Audiência: igual ao caso 91
Autor aceitou a proposta
Comprovou o comparecimento à 12 sessões de NA, no CIARB
Extinta a punibilidade, processo arquivado.
- Observações:

Caso 102
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Número do processo: 001/2.08.0070476-3
Juizado: Juizado Especial Criminal da Restinga
Autor: MRVS - homem
Nascimento: 1986
Profissão: servente de pedreiro
Bairro/cidade em que mora: Juca Batista, Hipica
Local do Flagrante: Hípica
Data/horário: 17/10/08, 23h00
Droga: maconha
Quantidade: 3g
Processo finalizado: 21/07/09
Antecedentes: sim, roubo e extorsão.
TC/IP: -
Processo: Proposta de transação do Ministério Público igual ao do caso 91.
Audiência: “Aberta audiência pelo Dr. Juiz foi dito que pelo Ministério Público, na
forma do artigo 76 da lei 9.099/95 c/c artigo 48, parágrafo 5º da lei 11.343/06, foi
proposta ao autor do fato Medida Educativa de comparecimento à programa ou curso
educativo coordenado pelo CIARB à Rede de Tratamento Biopsicossocial, ou
alternativamente prestação pecuniária em favor da Fazenda Novos Rumos no valor de
meio salário mínimo, no prazo de trinta dias. Caso não ocorra o cumprimento da medida
educativa, seja o autor do fato cientificado que deverá efetuar o pagamento de multa, no
valor equivalente a 10(dez) salários mínimos, no prazo de dez dias, em favor do Estado,
sob pena de inscrição em dívida ativa e cobrança pela Fazenda Pública, além de ficar o
registro desse processo ativo na folha corrida do autor. Pelo Dr.Juiz foi dito que na
presença da Defensora o autor do fato aceita a proposta, razão pela qual lhe é aplicada,
na forma do artigo 28, inciso 3, da Lei 11.343/06, a medida acima
especificada(comparecimento à programa ou curso educativo), ficando advertido
inclusive das conseqüências do descumprimento sendo neste ato encaminhado ao
Cartório para agendamento do início do programa junto ao Ciarb. Presentes
intimados.Nada mais.” (p.19)
Cumpriu o determinado, apresentado a comprovação de 12 frequências no Narcóticos
Anônimos.
É declarada extinta a punibilidade
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291
Observações: -
































Caso 104
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Número do processo: 001/2.08.0076737-4
Juizado: Juizado Especial Criminal da Restinga
Autor: MSL - homem
Nascimento: 1989
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Rua Alameda K, Restinga.
Local do Flagrante: João Onofre da Silveira, Restinga
Data/horário: 12/11/08, 21h00
Droga: maconha
Quantidade: 1,9g
Processo finalizado: 29/06/09
Antecedentes: -
TC/IP: -
Processo: MP oferece transação penal (igual ao caso 91).
Audiência: “Aberta audiência pelo Dr. Juiz foi dito que pelo Ministério Público, na
forma do artigo 76 da lei 9.099/95 c/c artigo 48, parágrafo 5º da lei 11.343/06, foi
proposta ao autor do fato Medida Educativa de comparecimento à programa ou curso
educativo coordenado pelo CIARB à Rede de Tratamento Biopsicossocial, ou
alternativamente prestação pecuniária em favor da Fazenda Novos Rumos no valor de
meio salário mínimo, no prazo de trinta dias. Caso não ocorra o cumprimento da medida
educativa, seja o autor do fato cientificado que deverá efetuar o pagamento de multa, no
valor equivalente a 10(dez) salários mínimos, no prazo de dez dias, em favor do Estado,
sob pena de inscrição em dívida ativa e cobrança pela Fazenda Pública, além de ficar o
registro desse processo ativo na folha corrida do autor. pelo dr. Juiz foi dito que o autor
do fato não aceitou a proposta, sob o fundamento de que a defesa entende que as
medidas previstas no art. 28 da Lei de Tóxicos são progressivas e sucessivas, devendo
necessariamente no caso do autor do fato primário e sem antecedentes, ser aplicada
inicialmente a advertência, e assim sucessivamente, na ordem prevista no referido
dispositivo legal” (p. 17)
MP oferece transação advertência
Autor aceita
Observações: -
Caso 105
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Número do processo: 001/2.08.0070233-7
Juizado: Juizado Especial Criminal da Restinga
Autor: CMJ - homem
Nascimento: 1990
Profissão: -
Bairro/cidade em que mora: Acesso 2, quadra F, Restinga.
Local do Flagrante: Wenceslau Fontoura, Restinga
Data/horário: 03/10/08, 12h05
Droga: maconha
Quantidade: 0,5g
Processo finalizado: 29/06/09
Antecedentes: não
TC/IP: -
Processo: MP oferece transação penal (igual ao caso 91).
Audiência: “Aberta audiência pelo Dr. Juiz foi dito que pelo Ministério Público, na
forma do artigo 76 da lei 9.099/95 c/c artigo 48, parágrafo 5º da lei 11.343/06, foi
proposta ao autor do fato Medida Educativa de comparecimento à programa ou curso
educativo coordenado pelo CIARB à Rede de Tratamento Biopsicossocial, ou
alternativamente prestação pecuniária em favor da Fazenda Novos Rumos no valor de
meio salário mínimo, no prazo de trinta dias. Caso não ocorra o cumprimento da medida
educativa, seja o autor do fato cientificado que deverá efetuar o pagamento de multa, no
valor equivalente a 10(dez) salários mínimos, no prazo de dez dias, em favor do Estado,
sob pena de inscrição em dívida ativa e cobrança pela Fazenda Pública, além de ficar o
registro desse processo ativo na folha corrida do autor. (...) pelo dr. Juiz foi dito que o
autor do fato não aceitou a proposta, sob o fundamento de que a defesa entende que as
medidas previstas no art. 28 da Lei de Tóxicos são progressivas e sucessivas, devendo
necessariamente no caso do autor do fato primário e sem antecedentes, ser aplicada
inicialmente a advertência, e assim sucessivamente, na ordem prevista no referido
dispositivo legal” (p. 17)
Nova Audiência: MP requer arquivamento por insignificância, e juiz acata. (p. 33)



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Novos processos sociais globais e violência
(José Vicente Tavares dos Santos)
• O objetivo deste artigo é analisar os fenômenos da
violência difusa na sociedade contemporânea e discutir
os dilemas do controle social , informal e formal.
Estudaremos as modificações na construção de objetos
sociais, expressos como problemas sociais, construídos
por atores, instituições e discursos: “conflitualidade”,
“violência”, “criminalização”, “controle social”, “violência”, “criminalização”, “controle social”,
tecnologias sociais de poder”, conflitos sociais” e “lutas
sociais contra a violência”. O alvo teórico é continuar o
desenvolvimento de uma sociologia da conflitualidade,
abordagem sociológica que pretende explicar os
processos de conflitualidade social, contraditórios e
conflitivos, salientando a necessidade da discussão
política sobre o controle social.
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• O fenômeno da violência difusa consiste em um
processo social diverso do crime, anterior ao crime ou
ainda não codificado como crime no Código Penal.
Durkheim considera o crime um fenômeno social normal
em toda sociedade, um certo de número de crimes é
cometido e, por conseqüência, se nos referirmos ao que
se passa regularmente, o crime não é um fenômeno se passa regularmente, o crime não é um fenômeno
patológico. Ainda assim, o crime é considerado por
Durkheim uma ruptura com a consciência coletiva, razão
pela qual sofre punição da lei penal. Ao contrário,
afigura-se que a violência difusa nas sociedades do
século XXI é, em larga medida, legitimada pela
consciência coletiva, instituindo-se como norma social,
ainda que controversa e polêmica.
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• Nossa época, desencantada, se desembaraça das
utopias, reafirma o presente, resgata fragmentos do
passado e não possui demasiadas ilusões a respeito do
futuro. As relações de sociabilidade passam por uma
nova mutação, mediante processos simultâneos de
integração comunitária e de fragmentação social, de
massificação e de individualização, de ocidentalização e massificação e de individualização, de ocidentalização e
de desterritorialização. Retoma-se uma inquietação que
estava presente nos primeiros sociólogos, pois: “como
estabelecer ou restaurar os laços sociais em sociedades
fundadas ma soberania do indivíduo? Rompe-se a
consciência coletiva da integração social, com o declínio
dos valores coletivos e crescimento de uma sociedade
extremamente individualista.
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• Martine Xiberras, doutora em antropologia social e cultural, atualmente
ligada à universidade de Paul-Valéry-Montpellier-III:
• na solidariedade mecânica típica das sociedades tradicionais os
indivíduos são intermutáveis porque se assemelham seja no ponto
de vista da sua função no grupo como no da identidade de suas
representações, ou seja, age graças ao princípio de semelhança,
visto que os homens que ela liga são pouco diferentes uns dos visto que os homens que ela liga são pouco diferentes uns dos
outros. Já na solidariedade dita orgânica, específica das sociedades
modernas (onde a divisão do trabalho opera uma diferenciação
cada vez maior das profissões), a solidariedade funciona em
analogia aos organismos vivos, onde os indivíduos não se
assemelham mas tem consciência em participar do bom
funcionamento da totalidade, Émile Durkheim é o autor que na
opinião da antropóloga melhor trabalha este fenômeno.Nas
sociedades tradicionais a consciência coletiva cobre a maior parte
das consciências individuais, que são quase inteiramente
submetidas aos sentimentos e crenças comuns, por isto a
solidariedade exprime-se de maneira espontânea.
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• Um novo espaço social mundial de conflitualidades está
se desenhando nos espaços e nos tempos da
globalização, com a predominância da mercantilização
do social e a destruição das sociabilidades coletivas, ou
seja, o mercado é agora a fundamental força motor das
práticas e discursos sociais e políticos contemporâneos,
com o desenvolvimento de formas de desigualdade com o desenvolvimento de formas de desigualdade
social. As instituições socializadoras vivem um
processo de crise e desinstitucionalização, a família, a
escola, processos de socialização, fábricas, religiões e o
sistema de justiça criminal (polícias, tribunais,
manicômios, judiciários, prisões). Os tipos de relações
de sociabilidade que nela (família) se realizam são
variadas, marcadas originalmente pela afetividade e
pela solidariedade, agora reaparecem como largamente
conflitivas, como o demonstram os fenômenos da
violência doméstica.
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• Jock Young: A dinâmica fundamental de exclusão
resulta de forças de mercado que excluem segmentos
amplos da população do mercado primário de trabalho,
o que contribui para gerar um clima de individualismo.
Tal situação afeta tanto as causas da criminalidade
(através da privação relativa e do individualismo) quanto
às reações contra o crime (pela precariedade econômica às reações contra o crime (pela precariedade econômica
e a insegurança ontológica). As exclusões que ocorrem
na superfície deste processo primário são uma tentativa
de lidar com o problema da criminalidade e da desordem
por ela engendrada. Baseiam-se, freqüentemente, em
uma percepção equivocada, mas são percepções
equivocadas do real e não um problema imaginário. A
própria criminalidade é uma exclusão, como o são as
tentativas de controlá-la através de barreiras,
encarceramento e estigmatização.
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• A disseminação de uma cultura de ganhadores e perdedores
acentua os valores do individualismo competitivo e a criação de
uma cultura popular unidimensional, hedonista e imediatista, induz
as populações a viverem em novos grupos sociais eletivos e auto-
referidos (nos dois extremos).
• Bauman: Parcela considerável da população torna-se • Bauman: Parcela considerável da população torna-se
desnecessária à produção e ao mercado de trabalho,
caracterizando-se como redundantes, refugos, para os quais não
existem alternativas. As cidades constroem barreiras sanitárias de
afastamento destes novos impuros, em uma postura de contenção
dos não-consumidores. Em uma espécie de continuidade nefasta,
seus membros são predominantemente selecionados pelas
instâncias de controle e seqüestrados institucionalmente,
corroborando com a essencialização das classes redundantes
como classes perigosas, estimulando a dinâmica segregacionista
do arranjo estético urbano, que valorizando a desigualdade e a
separação, torna-se espaço público não-democrático.
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• Jock Young refere que a transição da modernidade à modernidade
recente pode ser vista como um movimento que se dá de uma
sociedade inclusiva para uma sociedade excludente - de uma
sociedade cuja tônica estava na assimilação para uma que separa
e exclui - , que envolve processos de desintegração tanto na esfera
da comunidade (aumento do individualismo) como naquela do
trabalho ( transformação do mercado de trabalho). Para o autor, a
economia de mercado que emergiu no pós-fordismo trouxe um salto economia de mercado que emergiu no pós-fordismo trouxe um salto
qualitativo nos níveis de exclusão, redução do mercado de trabalho
primário e criação de uma subclasse de desempregados estruturais.
A frustração da demanda expressiva se torna fonte de tensão do
sistema e juntamente com a privação relativa no mundo material,
uma fonte poderosa de desvio. A exclusão do mercado de trabalho
primário e a percepção da irrelevância da escolaridade para os
trabalhos manuais provoca desilusão por parte da juventude,
semeando o crescimento de subculturas onde a força física e
violência são virtudes primeiras.
[
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Retomamos a definição de violência difusa: as
diferentes formas de violência presentes em da um dos
conjuntos relacionais que estruturam o social podem ser
explicadas se compreendermos a violência como um ato
de excesso, qualitativamente distinto, que se verifica no
exercício de cada relação de poder presente nas exercício de cada relação de poder presente nas
relações sociais de produção do social.
Características de um estado repressivo acompanhando
a crise do Estado-Providência:
• Produção social do sentimento de insegurança
• Programa parcial de “tolerância zero”
• Controles privados
• Encarceramento dos consumidores falhos
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• A análise de várias situações reais pode levar a perceber a
vigência, na sociedade brasileira, de uma representação
social baseada em tecnologias de poder repressivas, mas
também cabe salientar a emergência de ações coletivas e de
trabalhos institucionais enquanto expressões de um
movimento contra a violência. É no âmbito da sociedade civil
mundial, vista como o novo palco da história, que os
indivíduos e as coletividades, as classes e os grupos, os
gêneros e as etnias, as línguas e as religiões adquirem outros
e novos significados, envolvendo movimentos de integração e
fragmentação, acomodação e contradição, reforma e
revolução. revolução.
• Em outras palavras, a emergência de uma noção de
segurança cidadã, na perspectiva da mundialização, supõe a
construção social de controle social democrático, mediante o
qual tanto as instituições de socialização quanto as
organizações do controle social formal reconstruam o objetivo
de uma governamentalidade preocupada com as práticas de
si, emancipatórias, dos conjuntos de cidadãos e cidadãs em
suas vidas cotidianas, em suas trajetórias sociais e em seus
sonhos de sociedade.
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Controle social: notas em torno de uma
noção polêmica
Marcos César Alvarez
Professor da Unesp, campus de Marília,
Pesquisador colaborador junto ao Núcleo
de Estudos da Violência da USP
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• No âmbito da sociologia , a expressão “controle social”
geralmente é caracterizada nos dicionários
circunscrevendo uma temática relativamente autônoma
de pesquisa,voltada para o estudo do conjunto dos
recursos materiais e simbólicos de que uma sociedade
dispõe para assegurar a conformidade do
comportamento de seus membros a um conjunto de
regras e princípios prescritos e sancionados.
• A unidade de análise nas discussões de Durkheim e de
outros autores do século XIX era o conjunto da outros autores do século XIX era o conjunto da
sociedade, e o problema principal consistia, de modo
geral, em como estabelecer um grau necessário de
organização, e de regulação da sociedade de acordo
com determinados princípios morais, mas sem o
emprego excessivo da pura coerção: Para Durkheim, a
pena é a reação coletiva que, embora aparentemente
voltada para o criminoso, visa na realidade reforçar a
solidariedade social entre os demais membros da
sociedade e, consequentemente, garantir a integração
social.
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• Ao invés de pensar a ordem social como regulada pelo
Estado, os pioneiros do tema na sociologia norte-
americana estavam mais interessados em encontrar
própria sociedade as raízes da coesão social. O acento
conservador desta perspectiva – e que também já
estava presente nas idéias de Durkheim – torna-se
evidente: desejava-se entender muito mais as raízes da evidente: desejava-se entender muito mais as raízes da
ordem e da harmonia social do que as condições da
transformação e da mudança social.
• Após a segunda guerra, estudos no campo da sociologia
e da história do crime e do desvio recuperam questões
macrossociológicas (relação Estado x mecanismos de
controle) e passam a compreender a coesão social
como resultado de práticas de dominação Estatais ou da
“classe dominante”.
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• De forma paradoxal, portanto, ao longo das
discussões em torno da noção de controle
social desde o final do século XIX até o final do
século XX, a teoria social parece ter se limitado,
neste aspecto, a simplesmente inverter os pólos neste aspecto, a simplesmente inverter os pólos
de uma mesma equação: a onipresença de uma
integração social que garantiria a ordem social
para além de todos os conflitos da modernidade
foi simplesmente substituída pela onipresença
de uma dominação que submeteria todas as
formas de resistência.
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Segundo Cohen, a noção (controle social) só voltaria a ser útil se fosse
capaz de:
• indicar a que práticas sociais específicas corresponde
• recuperar as diferentes respostas dos agentes submetidos aos
mecanismos de controle
• mostrar que essas práticas podem ser produtivas e não apenas
repressivas, já que podem produzir comportamentos em indivíduos
e grupos sociais e não somente restringir e controlar ações
• evitar a dicotomia Estado\sociedade e pensar as práticas de
controle social constituindo-se na relação entre as diversas controle social constituindo-se na relação entre as diversas
dimensões institucionais da modernidade
• não cair numa visão por demais finalista da racionalidade dos
mecanismos de controle social.
Deve-se ultrapassar uma visão por demais instrumentalista e
funcionalista do controle social como uma misteriosa racionalidade
voltada para a manutenção da ordem social e buscar, em
contrapartida, formas mais multidimensionais de pensar o problema,
capazes de dar conta dos complexos mecanismos que não
propriamente controlam mas sobretudo produzem comportamentos
considerados adequados ou inadequados em relação a
determinadas normas e instituições sociais.
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• Foucault irá desconstruir tanto a concepção liberal, que vê no
nascimento da prisão moderna um avanço em termos de
humanização das práticas penais em relação às formas
brutais de punição da era pré-moderna, quanto à concepção
Marxista, que vê as transformações nas penalidades apenas
como um mero epifenômeno do modo de produção:
Punir tornou-se, dentre todas as novas técnicas de controle e
transformação dos indivíduos, um conjunto de procedimentos
orquestrados para modificar os infratores: O exemplo
aterrorizante dos suplícios ou a exclusão pelo banimento não
orquestrados para modificar os infratores: O exemplo
aterrorizante dos suplícios ou a exclusão pelo banimento não
podiam mais bastar em uma sociedade na qual o exercício do
poder implicava uma tecnologia racional dos indivíduos. As
formas de punição, às quais aderem todos os reformadores
do final do século XVIII e todos os legisladores do início do
século XIX (ou seja, o aprisionamento, o trabalho obrigatório,
a vigilância constante, o isolamento parcial ou total, a reforma
moral) implicam que a punição aja menos sobre o crime do
que sobre o próprio criminoso e seus instintos, motivações e
subjetividade.
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• O novo poder disciplinar será um poder voltado para o
adestramento dos indivíduos. E, para isso, esse poder
utilizará alguns mecanismos simples: o olhar
hierárquico, a sanção normalizadora e o exame. A
vigilância hierárquica induz, através do olhar, efeitos de
poder: o indivíduo adestrado deve se sentir poder: o indivíduo adestrado deve se sentir
permanentemente vigiado. A sanção normalizadora
implica toda uma micropenalidade do tempo, da
atividade, da maneira de ser, do corpo, da sexualidade
visando os comportamentos desviantes. O exame, por
fim, indica uma técnica de controle normalizante que
permite qualificar, classificar, e punir ininterruptamente
os indivíduos que são alvos do poder disciplinar.
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Roberto Machado:
• Embora haja pressuposição recíproca entre a prisão e o Direito
Penal, de forma que estão sempre em contato, insinuando-se um
dentro do outro e arrancando segmentos recíprocos que se
transformam e reiniciam sempre outra cadeia, ainda assim não há
conformidade ou correspondência direta. A prisão e o Direito Penal conformidade ou correspondência direta. A prisão e o Direito Penal
apesar de terem emergido ao mesmo tempo, no século XVIII, não
deixam de ser heterogêneos: enquanto o segundo atravessa certa
evolução que faz com que passe a enunciar os castigos em função
de uma defesa social e não mais uma vingança do soberano, a
primeira é uma maneira de agir sobre os corpos e vem de uma
perspectiva totalmente diferente das perspectivas do Direito Penal.
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• A noção de poder em Foucault não pode ser
reduzida a um simples diagnóstico da
intensificação do controle social ou a uma visão
do poder como unidimensionalmente repressivo,
pois embora o poder produza certamente
controle, ele produz igualmente outras coisas.
Ao enfatizar o poder como rede de relações de
forças, como mecanismo que tanto obriga forças, como mecanismo que tanto obriga
quanto habilita para ação, ao colocar igualmente
a resistência no cerne das práticas de poder, ao
negar que os efeitos do poder sejam
uniformizadores ou unitários, Foucault distancia-
se das teses simplistas acerca da intensificação
crescente do controle social.
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• Anthony Giddens, por exemplo, chama a atenção para os mecanismos de vigilância
como uma das principais dimensões institucionais da modernidade. Para esse autor,
a concentração administrativa que caracteriza os estados modernos em geral
depende do desenvolvimento de condições de vigilância voltadas para a supervisão
das atividades da população súdita, quer por meio da supervisão direta —em
instituições como as prisões, as escolas, os locais de trabalho, etc. —quer por meio
indireto, sobretudo a partir do controle da informação (Giddens, 1991:63).
• Gilles Deleuze, por sua vez, apontava para uma ruptura dos mecanismos de
regulação dos comportamentos na atualidade, ao considerar que as sociedades
contemporâneas não seriam mais "sociedades disciplinares", tal como pensadas por
regulação dos comportamentos na atualidade, ao considerar que as sociedades
contemporâneas não seriam mais "sociedades disciplinares", tal como pensadas por
Foucault, mas sim "sociedades de controle", nas quais os mecanismos de
confinamento estariam sendo substituídos por novas tecnologias eletrônicas e
informacionais de supervisão e controle dos indivíduos e das populações (Deleuze,
1992).
• Giorgio Agamben (2002) busca explicar essas transformações da sociedade
contemporânea a partir de outra noção desenvolvida por Foucault, a noção de
biopoder. Para Agamben, o que caracteriza o poder soberano no Ocidente é a
politização crescente da "vida nua", da vida natural ou biológica tanto do corpo
individual quanto da própria espécie. O poder estatal dirige-se cada vez mais ao
gerenciamento da vida em todos os seus aspectos, intensificando assim seu aspecto
"produtivo", já enfatizado anteriormente por Foucault.
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• A ênfase exagerada no caráter unidirecional das práticas de
controle social impediu que fossem analisadas as formas por meio
das quais aqueles que eram sujeitados por essas práticas resistiam,
negociavam ou mesmo compactuavam com elas. Trabalhos mais
sensíveis a esses problemas metodológicos passam a buscar a
outra face destas transformações, ou seja, as formas como os
diversos grupos assujeitados se posicionam diante dos códigos de
comportamento impostos pelas elites dominantes, como os
trabalhos de Esteves (1989), em que a autora confrontou o discurso
jurídico e o cotidiano das relações amorosas no Rio de Janeiro da
Belle Époque, e o trabalho de Rago (1991), no qual foi estudado o
modo como as prostitutas se constituíram como sujeitos morais
diante dos discursos disciplinadores da Medicina e do Direito na diante dos discursos disciplinadores da Medicina e do Direito na
cidade de São Paulo entre os anos de 1890 e 1930. Ainda
permanece aberto um vasto campo de pesquisa sócio-histórica
envolvendo as complexas relações entre estratégias de controle
social das elites, modos de vida das populações pobres, campos de
saber voltados para o estudo da criminalidade e do desvio, etc.
• Também devem ser destacados os inúmeros estudos realizados no
campo das Ciências Sociais que, voltados para o sistema penal no
Brasil, analisam criticamente seu funcionamento nos mais diversos
âmbitos —polícia, justiça criminal, prisões, políticas de segurança
pública, etc. —o que mostra ser esse um campo igualmente
promissor de pesquisa.
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Vera Regina Pereira de Andrade
POR QUE A CRIMINOLOGIA (E QUAL CRIMINOLOGIA) É IMPORTANTE NO
ENSINO JURÍDICO?
Tendo sido responsável pela criação da disciplina Criminologia nos Cursos de
Graduação e Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina, e
ministrando-as, untamente com outros colegas, !á "uase "uin#e anos, sinto-me $ vontade
para %alar da import&ncia da disciplina nos Cursos 'ur(dicos )rasileiros * precisamente a
import&ncia na "ual apostamos - ra#ão deste escrito $ comunidade ur(dica+ ,mperioso, pois,
registrar "ue, apesar do -nsino 'ur(dico )rasileiro de graduação e, so)retudo, de pós-
graduação, contar com e.celentes e consagradas cátedras de Criminologia, duas evid/ncias
0empiricamente veri%icáveis1 são ainda marcantes2 uma, 3 a da aus/ncia ou do lugar
residual, peri%3rico, "ue a disciplina ocupa na grade curricular, regra geral, optativa+ 4
outra, 3 a de "ue, "uando presente, são as Criminologia cr(ticas "ue ocupam nela um lugar
residual, ca)endo a centralidade $ Criminologia positivista + Tra)al!o, portanto, com uma
dupla !ipótese2 a disciplina Criminologia ocupa pouco espaço no -nsino 'ur(dico e as
Criminologias cr(ticas pouco espaço na Criminologia+ 5 Direito Penal, a contrario sensu,
ensinado $ lu# da Dogmática Penal e, portanto, o Direito Penal dogmático, ocupa um lugar
central e espaçoso 0 ,, ,,, ,,,, ,6, 61+
7as, "ual 3 a relação e.istente entre Direito Penal 0dogmático1 e Criminologia 8 9ual a
import&ncia da Criminologia no -nsino do Direito8 7as, de "ue Criminologia estamos
%alando, se :a; Criminologia no singular não e.iste8
Tais interrogantes, colocados a"ui no in(cio do s3culo <<,, soariam %amiliares na
-uropa de %inais do s3culo <,< e transição para o <<, entre nomes c3le)res como Fran#
6on =is#t, -nrico Ferri, 4rturo >occo, pois %oi precisamente o de)ate so)re as relaç?es
entre Direito Penal e Criminologia e a performance "ue deveriam assumir no marco de um
:modelo integrado de Ci/ncias Penais; a musa da"uele tempo, e cuo modelo, então
consolidado e ainda dominante , nos auda a compreender a"uele estatuto :ausente-
peri%3rico; da Criminologia++ @ "ue no modelo o%icial "ue então se consolidou 0a %avor da
AGesamte Stra%rec!tsBissensc!a%A de =is#t e contra o modelo de Ferri 1, e cuos tr/s
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Vera Regina Pereira de Andrade
pilares, reciprocamente interdependentes, serão o Direito Penal , a Criminologia e a
Pol(tica Criminal, !averá uma divisão metodológica , ca)endo $ Criminologia
desempen!ar uma :%unção au.iliar;, tanto do Direito Penal como da Pol(tica Criminal
o%icial, inteiramente a)rigada no marco da dicotomia dever-serFser+ Com e%eito, en"uanto a
Dogmática do Direito Penal, de%inida como :Ci/ncia; normativa, terá por o)eto as normas
penais e por m3todo o t3cnico-ur(dico, de nature#a lógico-a)strata, interpretando e
sistemati#ando o Direito Penal positivo 0mundo do D-6->-S->1 para instrumentali#ar
sua aplicação com : segurança ur(dica :, a Criminologia, de%inida como Ci/ncia causal-
e.plicativa, terá por o)eto o %enCmeno da criminalidade 0legalmente de%inido e delimitado
pelo Direito Penal1 investigando suas causas segundo o m3todo e.perimental 0mundo do
S->1 e su)ministrando os con!ecimentos antropólogicos e sociológicos necessários para
dar um %undamento :cient(%ico; $ Pol(tica Criminal , a "uem ca)erá, a sua ve#, trans%orma-
los em :opç?es; e :estrat3gias; concretas assimiláveis pelo legislador 0 na própria criação
da lei penal 1 e os poderes pI)licos, para prevenção e repressão do crime +
-strutura-se, neste momento, uma Criminologia de corte positivista, com pretens?es
de cienti%icidade , con%ormadora do c!amado paradigma :etiológico; , e segundo a "ual a
criminalidade 3 o atri)uto de uma minoria de sueitos perigosos na sociedade, "ue, sea pela
incid/ncia de %atores individuais , %(sicos eFou sociais, apresenta um maior potencial de
anti-socia)ilidade e uma maior tend/ncia a delin"Jir ,denti%ica-se, assim, criminalidade
com viol/ncia individual+
5 modelo integrado caracteri#a-se, portanto, por uma divisão metodológica do
tra)al!o, associada a uma unidade %uncional, na luta, então declara-se, cienti%icamente
%undamentada contra a criminalidade Keste modelo, o Direito Penal, pelo seu escopo
prático e pela promessa de segurança, rece)eu a coroa e a %ai.a de rain!a, reinando com
a)soluta so)erania, en"uanto a Criminologia e a Pol(tica Criminal se consolariam, e )em,
com %ai.as de segunda e terceira princesas+ - 3 com este t(tulo "ue a Criminologia
atravessa o s3culo << , "uando um outro concurso vem mudar a sua !istoria2 nele, a
Criminologia não des%ila nem concorre com o Direito Penal dogmático, ela senta-se $ mesa
de urados, mas com nova roupagem, para ulgar o Direito Penal, e sua própria roupagem
anterior+ >e%iro-me $ mudança do paradigma etiológico para o paradigma da reação social ,
processada desde a d3cada de LD do s3culo <<, "ue deu origem a outra tradição
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Vera Regina Pereira de Andrade
criminológica cr(tica 0 Criminologia da reação social, Kova Criminologia, Criminologia
radical, Criminologia cr(tica stricto sensu, Criminologia %eminista1, segundo a "ual a
Criminologia não mais se de%ine como uma ci/ncia "ue investiga as causas da
criminalidade, mas as condiç?es da criminali#ação, ou sea, como o sistema penal,
mecanismo de controle social %ormal 0=egislativo- =ei penal-Pol(cia-7inist3rio PI)lico-
'udiciário- Prisão- ci/ncias criminais-sistema de segurança pI)lica,etc+ 1 constrói a
criminalidade e os criminosos em interação com o controle social in%ormal 0 %am(lia-escola-
universidade-m(dia-religião-moral-mercado de tra)al!o-!ospitais-manicCmios-1,
%ucionalmente relacionados $s estruturas sociais+
4 criminalidade não :3; 0 não e.iste em si e per si1, ela :3; socialmente
constru(da+ Keste movimento, a Criminologia converte o sistema penal como um todo e,
conse"Jentemente, a =ei Penal e as Ci/ncias Criminais, 0dimens?es integrantes dele1, em
seu o)eto, e pro)lemati#a a %unção de controle e dominação por ele e.ercida +
Ko centro desta pro)lemati#ação estão os resultados so)re a secular seletividade
estigmati#ante 0 a criminali#ação da po)re#a e da criminalidade de rua . imuni#ação da
ri"ue#a e da criminalidade de ga)inete1 e a viol/ncia institucional do sistema penal,
so)retudo da prisão, a inversão de suas promessas, a incapacidade de dar respostas
satis%atórias $s v(timas e suas %am(lias, e a própria Criminologia etiológica e o Direito Penal
dogmático são denunciados em sua %unção instrumentali#adora e legitimadora da
seletividade, nascendo da( uma nova pro)lemática para a Pol(tica Criminal2 "uais são as
alternativas $ prisão e ao sistema penal8
Com esta revolução opera-se a passagem de uma Criminologia comportamental e da
viol/ncia individual 0positivista1,"ue nos doutrina a :ver o crime no criminoso; 0 Ferri1,
para uma Criminologia da viol/ncia institucional, "ue nos ensina "ue não se pode
compreender o crime, a criminalidade e os criminosos sem compreender o controle social e
penal "ue os constrói como tais , e esta culmina numa Criminologia da viol/ncia estrutural,
"ue nos ensina a compreend/-los não apenas a partir da mec&nica do controle, mas
%uncionalmente relacionada $s estruturas sociais 0 o capitalismo, o patriarcado, o racismo++1+
4 seletividade do sistema penal 3 revelada, assim, como classista, se.ista e racista, "ue
e.pressa e reprodu# as desigualdades, opress?es e assimetrias sociais+
Desta %orma, a mudança de paradigmas desloca e rede%ine a Criminologia de um
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Vera Regina Pereira de Andrade
sa)er au.iliar do Direito Penal e interno ao modelo integrado 0 "ue o cienti%ici#a1, para um
sa)er cr(tico e e.terno so)re ele 0 "ue o pro)lemati#a e politi#a1 convertido em :o)eto;
criminológico, ao ponto da o)ra de Criminologia mais importante do s3culo <<, de autoria
de 4lessandro Maratta, ter sido denominada : Criminologia Cr(tica e Cr(tica do Direito
Penal2 2 introdução $ Sociologia 'ur(dico-Penal;+
@ a ve# da Criminologia ulgar o Direito Penal e sua própria !istória para concluir "ue a
perda do reinado na"uele concurso ur(dico não e"uivaleu, para a Criminologia etiológica,
$ perda do reinado na !istória do controle penal moderno+
5ra, a !istoricidade da disciplina opera decisivamente a %avor da compreensão do estatuto
ausente-peri%3rico da Criminologia2 a au.iliaridade de ontem se re%lete na residualidade
pedagógica de !oe 0 o mesmo se diga, e com mais ra#ão , em relação $ NO princesa, a
Pol(tica Criminal1 de um -nsino, ademais, centrado na a)stração do normativismo
tecnicista, cuo modelo re%orça a"uele estatuto+ Por outro lado, as Criminologias )aseadas
no paradigma da reação social não apenas não o)edecem a esta lógica , mas a pro)lemati#a+
6/-se, neste rapid(ssimo escorço, "ue as relaç?es entre Criminologia e Direito Penal estão
sueitas, !istoricamente, a 0des1encontros e, dado "ue não e.iste :a; Criminologia no
singular, a resposta $"ueles interrogantes depende do paradigma e da Criminologia "ue
orienta nossa visão e discurso+ 5ra, tanto a inserção 0 se estudar1 e o espaço 0 quanto
estudar1 da Criminologia no -nsino do Direito, "uanto a de%inição do seu conteIdo0 o "ue
estudar 1 , com "ue m3todo e para que, envolve um conunto de de%iniç?es, a um só tempo,
paradigmáticas e pol(ticas, "ue trans%erem suas marcas ao -nsino, "ue t/m impacto na
construção de sueitos 0 su)etividades1, cua palavra e ação tem impacto, a sua ve#, na
vida social+ De%endo, pois, uma inclusão criminológica capa# de romper com am)as as
!ipóteses a"ui alin!avadas, a sa)er, resgatar tanto o espaço da Criminologia no -nsino
'ur(dico, "uanto das Criminologia cr(ticas no -nsino da Criminologia, superando seu
estatuto peri%3rico-ausente, sem a)ortar, por outro lado, a Criminologia tradicional,
resgatando, ao má.imo, a !istoricidade da Criminologia, sem a "ual não se compreende
como se e.erce o poder punitivo 0 como somos dominados1, o discurso o%icial 0 com "ue
seduç?es legitimadoras1 e o senso comum 0 como somos produ#idos e produ#imos o
:outro; 1criminais+ Kão )asta, tampouco, contar a !istória da Criminologia europ3ia, ou
norte-americana, temos "ue mergul!ar na Criminologia latino-americana e )rasileira, em
>evista -letrCnica de Ci/ncias 'ur(dicas+ >-C'+DE+DEFDG
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Vera Regina Pereira de Andrade
)usca de nossa identidade, sem olvidar, em derradeiro, "ue se a Criminologia en"uanto
pretensão disciplinar e cient(%ica parece ser um invento da modernidade ocidental, uma
escavação ar"ueológica 0 Foucault1 nos revela "ue, em )usca de uma discussão so)re crime
e pena, o c3u 3 o limite+
4 Criminologia t/m, portanto, uma import&ncia decisiva para o -nsino do Direito, desde
"ue não redu#ida a uma ru)rica e.cludente "ue, mais do "ue valori#ar a disciplina e au.iliar
na compreensão do poder e do controle social e penal 0 crime, criminalidade, pena,
criminali#ação, vitimação, impunidade, etc1, do poder-espaço dos operadores ur(dicos
nesta mec&nica ,concorra para in%antili#ar o imaginário acad/mico, com a visão positivista
da )oa :ci/ncia; para o com)ate e.itoso da criminalidade+ 4 Criminologia, ao contrário de
todas as suas promessas, não nasceu para isso e não pode %a#/-lo+ -nsinar Criminologias,
nesta perspectiva , 3 concorrer para a %ormação de uma consci/ncia ur(dica cr(tica e
responsável, capa# de transgredir as %ronteiras, sempre generosas, do sono dogmático , da
#ona de con%orto do penalismo adormecido na la)uta t3cnico-ur(dicaP capa# de inventar
novos camin!os para o en%rentamento das viol/ncias 0 individual, institucional e estrutural1
e este talve# sea o mel!or tri)uto "ue possam prestar ao -nsino e $ %ormação pro%issional-
cidadã+
Autora : Vera Re!"a Pere!ra #e A"#ra#e $ %r&a"#ra#e'(ot)a!*+,o)
Pro%essora nos Cursos de Graduação e Pós-Graduação em Direito da Universidade Federal
de Santa Catarina+ -specialista , 7estre e Doutora em Direito + Pós-Doutora em Direito
Penal e Criminologia+ Pes"uisadora do CKP"+
4utora de A ilusão de segurança jurídica2 do controle da viol/ncia $ viol/ncia do controle
penal+ N
a
edição+ Porto 4legre, =ivraria do 4dvogado,NDDQ+ Dogmática Jurídica2 escorço
de sua con%iguração e identidade+ N
a
edição Porto 4legre2 =ivraria do 4dvogado, NDDQ+
Sistema penal Maimo cidadania mínima! Códigos da viol/ncia na era da glo)ali#ação+
Porto 4legre, =ivraria do 4dvogado, NDDQ+ "idadania2 do direito aos direitos !manos+ São
Paulo2 4cad/mica, HRRQ+5rgani#adora da Somenagem a 4lessando Maratta, Verso e
Re#erso do controle penal2 0des1aprisionando a sociedade da cultura punitiva+
Florianópolis, Fundação Moiteu., NDDN+ N volumes+
>evista -letrCnica de Ci/ncias 'ur(dicas+ >-C'+DE+DEFDG
BBB+pg+ma+gov+)rFampemFampemH+asp
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Vera Regina Pereira de Andrade
>evista -letrCnica de Ci/ncias 'ur(dicas+ >-C'+DE+DEFDG
BBB+pg+ma+gov+)rFampemFampemH+asp
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http://www.nepe.ufsc.br/congresso/index.php

O Congresso Latino-Americano de Pluralismo Jurídico e Direitos Humanos será realizado entre os dias
20 e 22 de agosto, na Universidade Federal de Santa Catarina. O evento conta com painéis temáticos,
grupos de trabalho, oficinas e atividades autogestionárias, envolvendo pesquisadores e militantes de
diversas áreas.
Nos painéis serão discutidos, sob diversas perspectivas, os seguintes temas:
▪ Os Desafios para a Concretização dos Direitos Humanos na América Latina;
▪ Práticas Insurgentes e Assessoria Jurídica Popular: Experiências de Resistência na Construção de
Direitos;
▪ Conflitos Ambientais e Acesso à Cidade: Da Luta Social à Efetivação de Direitos;
▪ Experiências de Mediação de Conflitos e Justiça Comunitária;
▪ Poder, Mídia e Comunicação na América Latina;

Organizado pelo Núcleo de Estudos e Práticas Emancipatórias (NEPE), Programa de Extensão
vinculado à Universidade Federal de Santa Catarina, o Congresso tem por objetivo fomentar o debate sobre
alguns aspectos da temática dos direitos insurgentes e das práticas alternativas forjados na América Latina
como parte de um movimento mais amplo de resistência da periferia do capitalismo globalizado neoliberal.



GT 6 – Violências e Controle Social na América Latina

Ementa: Neoliberalismo, violências e controle social. O encarceramento na América Latina.
A ação dos agentes do estado e a proteção dos direitos humanos. A “criminalidade” e a
criminalização urbana. A luta dos movimentos sociais e a violência institucional das agências
do sistema de segurança pública. Tráfico e o tratamento penal das drogas. A luta contra o
terror e movimentos de resistência em defesa dos direitos humanos.





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A Retomada da Temporalidade na Leitura Criminológica: aproximando
Literatura e Criminologia.

Alexandre Costi Pandolfo
*
xandipandolfo@hotmail.com



RESUMO: A criminologia tem como “objeto” as violências produzidas pelo sistema penal – ao
mesmo tempo em que trabalha com a violência, produz violência. Isso ocorre, inclusive, com a criação
de normalidades (Criminologia Positivista) e desvios (Criminologia da Reação Social). A violência se
consubstancia, principalmente, com as formas de representação que sustentam ainda os discursos
criminológicos e que não deixam de ser uma "herança da criminologia crítica" e que, talvez, tenha
sido herdada da criminologia positivista. Há uma espécie de cristalização das respostas que
correspondem a própria negação da temporalidade e, por isso, configura-se como uma pretensão
representacional dos fenômenos criminológicos. A partir disso, desenvolvo a relação criminologia e
literatura, atacando principalmente a forma de pensamento e concepção da criminologia, isto é, sua
epistemologia.

Palavras-chave: Criminologia; Literatura; Temporalidade.


1. Considerações Iniciais

Esteticamente posso pensar que se o fenômeno da criminalização fosse um quadro
poderia ser dito, segundo Merleau-Ponty, que o olhar (fornecido pela criminologia crítica) não
dá conta da realidade do quadro, assim como o próprio quadro está aquém da realidade
criminológica que pretende representar.
1
Diante disso e apesar disso, a criminologia tem sido
colocada como discurso que deve analisar os fenômenos, os impactos e os fatores de risco que
circundam a complexidade da violência. Mas isso implica numa necessidade constante de re-
leitura dos próprios postulados criminológicos, que não podem passar incólumes pelo tempo
que os constitui e corrói. Segundo Máximo Sozzo,
2
porém, a abordagem crítica e
propriamente sociológica atemporalizou os questionamentos criminológicos. Isso dá a
possibilidade de pensar que a herança referida por Elena Larrauri
3
seja, então, não apenas da
criminologia crítica, mas decorrente do próprio paradigma positivista, cuja marca é não só a
ontologização mesma do (seu) problema (o homem criminoso), mas, fundamentalmente, das

*
Mestrando em Ciências Criminais (PUCRS). Bolsista CAPES.
1
MERLAU-PONTY, Maurice. O Olho e o Espírito. In O Olho e o Espírito: seguindo de A Linguagem Indireta
e as Vozes do Silêncio e A Dúvida de Cézanne. Trad. Paulo Neves e Maria Gomes. SP: Cosac & Naify, 2004. p.
19. Nas palavras do autor: “O olho vê o mundo, e o que falta ao mundo para ser quadro, e o que falta ao quadro
para ser ele próprio, e, na paleta, a cor que o quadro espera; e vê, uma vez feito, o quadro que responde a todas
essas faltas, e vê os quadros dos outros, as respostas outras a outras faltas”.
2
SOZZO, Máximo. Presentación. In SOZZO, Máximo (Coord). Reconstruyenda las Criminologías Críticas.
Buenos Aires: Ad Hoc, 2006, p. 11.
3
LARRAURI, Elena. La Herencia de la Criminología Crítica. 3ª ed., Madrid: Siglo Veintiuno, 2000.
Página 364 / 477
suas respostas – numa clara negação da temporalidade. Criminologias crítica e positivista
chegam, assim, num ponto epistemológico em comum – a cristalização das respostas em
nome de qualquer realismo impede novas interrogações a respeito da questão criminal, o que
afeta, propriamente, o adjetivo, crítico de uma criminologia.
Por outro lado, uma releitura da teoria da reação social, desde sua base sociológica,
qual seja, o interacionismo simbólico, permite trabalhar com uma criminologia aberta, cujas
construções e reconstruções de sentidos só podem se dar porque há chance de se penetrar na
temporalidade das respostas, sempre contextualizadas. Com essas premissas, o presente
trabalho tensiona criminologia e literatura desde a fluidez de categorias como loucura e
espera, representadas respectivamente em Machado de Assis e Samuel Beckett. Com
Machado de Assis é possível dizer que se a loucura não existe absolutamente é porque está
localizada espaço-temporalmente, parte também de uma construção social, cuja ferida arde no
discurso positivista. Nessa esteira, a espera trabalhada por Beckett indica que o tempo
constitui e dá sentido de realidade, impossibilitando qualquer resposta universal bem como
qualquer pretensão representacional, cuja ferida é sentida pelo discurso, por vezes, (a)crítico
da criminologia (crítica). Ambas feridas estão marcadas na epistemologia criminológica e
apontam para a possibilidade de repensar a criminologia.

2. A “Cruzada Antipositivista”: a loucura como ferida no discurso positivista e o
contato com a literatura

Supondo que a verdade estivesse sempre encoberta, ou, por assim dizer, escondida
num poço, não seria nenhum absurdo dizer que os sábios que desceram ao fundo nada mais
puderam trazer do que sapos.
4
Estes sábios, na Modernidade, produzem um discurso da
verdade que deve obedecer certas regras (formas) do espaço/território do verdadeiro,
5

assinalando, pelo menos, duas coisas, a necessidade de um método e aquilo que desde
Nietzsche se chama de vontade de verdade.
6
Este modelo é fruto de uma racionalidade

4
Alusão expressa ao capítulo CIX, último parágrafo, do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado
de Assis. Necessário afirmar que aqui, descontextualizada do sentido do livro, serve de crítica à busca original da
Verdade, ou de uma Verdade Original, Absoluta.
5
FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. 13ª ed. Trad. Laura Sampaio. SP: Loyola, 2006. p. 35.
6
Foucault, como não poderia deixar de ser, também trabalha bastante com essa categoria nietzscheana.
Interessante apontar as palavras do autor francês na sua aula inaugural no Collège de France: “as grandes
mutações científicas podem talvez ser lidas, às vezes, como conseqüências de uma descoberta, mas podem
também ser lidas como a aparição de novas formas na vontade de verdade. Há, sem dúvida, uma vontade de
verdade no século XIX que não coincide nem pelas formas que põe em jogo, nem pelos domínios de objeto aos
quais se dirige, nem pelas técnicas sobre as quais de apóia, com a vontade de saber que caracteriza a cultura
clássica”. FOUCAULT. A Ordem do Discurso. p. 16.
Página 365 / 477
esclarecida, que mostra toda sua violência ao assentar-se na onipotência do logos, buscando a
“redução da multiplicidade das coisas à unidade do pensamento”,
7
projetando uma Totalidade.
A epistemologia moderna foi consolidada sob esse Império da Razão Instrumental,
desenvolvido incisivamente a partir da revolução científica do século XVI no domínio das
ciências naturais.
8
Esta racionalidade, que se auto-referenciou “a” Racionalidade, tem como
característica indelével “a postura totalitária mediante a qual o sujeito se porta perante o
mundo, reduzido este a um simples objeto passível de manipulação na busca da verdade”.
9

Ora, esta “confiança epistemológica”
10
representa uma crença na estabilidade, na
ordem e na certeza, bem pautadas pela mecânica newtoniana e pela causalidade/linearidade
11

com que são lidos os acontecimentos. Isso permite que seja possível o conhecimento do Real,
sem que (sujeito e objeto) seja(m) afetado(s) pelas diferenças espaciais e tampouco pela
temporalidade.
12
A possibilidade de conhecer este real por excelência, este Real com “R”
maiúsculo, absoluto, já que não corroído pelo tempo, expõe, antes de qualquer coisa, uma

7
DUARTE, Rodrigo. Adorno/Horkheimer e a Dialética do Esclarecimento. 2º ed. RJ: Jorge Zahar, 2004, p. 27
8
SANTOS, Boaventura de Sousa. Um Discurso sobre as Ciências. Porto: Afrontamento, 13° edição, 2002, p.
10. Para Franklin Baumer o pensamento moderno foi edificado a partir do século XVII a partir da percepção e do
sentido do devir, cujo núcleo expressa o que ele entende por “espírito moderno” e que já germinava nos século
XVI, “na concepção, fomentada pelas descobertas de além-mar e pela scienza nuova, de um campo de
conhecimento sempre em expansão” (p. 38), mas que se consubstanciou fundamentalmente no XVII como “o
primeiro século moderno”, visto que “o próprio pensamento começou de facto a tomar forma sob um aspecto
distinto do ‘medieval’ ou ‘antigo’” (p. 44). Cf. BAUMER, Franklin. O Pensamento Europeu Moderno – Volume
1: Séculos XVII e XVIII. Lisboa: Edições 70, 1977.
9
RICHE, Flávio Elias. A Influência do Paradigma Científico-Natural no Pensamento Político-Social Moderno.
p. 87.
10
SANTOS. Um Discurso sobre as Ciências. p. 12.
11
Segundo Ruth Gauer “A sociedade moderna criou um tipo geral e abstrato de civilização por suas técnicas e
pelo tempo. Essa unidade pode apresentar-se como contínua, porém, é preciso lembrar que a continuidade foi
estruturada através da concepção de tempo linear. A linearidade do tempo apresenta-se como unificadora do
tempo histórico”. Mais adiante continua a autora: “O discurso moderno sobre o tempo contém regras que se
explicitam no modelo histórico implantado durante o processo da modernidade, a qual impõe uma organização
social baseada na maximização da vivência temporal. A duração desse tempo veicula o presente ao passado de
forma indissolúvel. O homem precisa aprender esse tempo, no presente, como se ele contivesse todo o passado”.
Concluindo criticamente Ruth Gauer afirma que “A obsessão moderna, de periodizar a história, legitimada
pelos enciclopedistas, veicula uma diacronia ligada à idéia de início, de revolução, de progresso e de
ultrapassagem, são atos que fazem contar o tempo a partir de um ponto inicial. Esse ato inscreve uma dupla
ilusão: a do fim e a do início”. GAUER, Ruth. Falar em Tempo, Viver o Tempo! in GAUER, Ruth. (coord.);
SILVA, Mozart Linhares da. (Org.). “Tempo/História”, POA: EDIPUCRS, 1998, pp. 17, 21 e 30,
respectivamente.
12
Segundo Ricardo Timm de Souza, a temporalidade constitui e corrói o homem e a própria realidade, de forma
que o “’humano’ é o que, penetrado na temporalidade, não é absolutamente concebível sem ela” (SOUZA, R.
T. Metamorfose e Extinção: sobre Kafka e a patologia do tempo. Caxias do Sul: EDUCS, 2000, p. 12). Isso quer
dizer que “A temporalidade não é, assim, uma qualidade, mas é a existência propriamente dita” (SOUZA, R. T.
Sobre a Construção do Sentido: o pensar e o agir entre a via e a filosofia. SP: Perspectiva, 2004, p. 35), aquilo
que constitui o homem enquanto tal. Ora, é próprio da vida ser corroído pelo tempo; a morte continua sendo uma
possibilidade profundamente humana (SOUZA. Metamorfose e Extinção. p. 16/17) ao contrário do Sagrado, por
exemplo, que, enquanto “espécie de eterno presente mítico” (ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: a
essência das religiões. Trad. Rogério Fernandes, SP: Martins Fontes, 2001, p. 64) encontra-se fora da flecha do
tempo. Note que, se a temporalidade não afeta a produção de conhecimento no paradigma científico moderno é
porque ele se pretende eterno, imutável, inumano enquanto tal.
Página 366 / 477
crença em que este Real exista “em meio a uma estrutura de realidade tão concentrada em si
mesma que transtorna as próprias concepções de realidade que é capaz de conceber e
representar”.
13
Ou melhor: uma crença em que ele é melhor que o irreal, mais belo que a
aparência e mais justo que o imaginário.
O conhecer para este modelo de racionalidade “é formular em termos universais e
unificados uma proposição atinente à essência dos fenômenos observados” que “corresponde
à lei que explica sua necessidade”,
14
produzindo um estado de agregação e uma potência
totalizadora de sentido.
15
Colocadas as coisas dessa forma, as diferenças não são pertinentes
enquanto não expressam a essência permanente: para o paradigma científico Moderno “a
contingência não merece qualquer atenção específica. O acidental, a variação, a
particularidade do modo de existência de um fenômeno são, por definição, impertinentes.
Cabe ao agente do conhecimento descobrir, sob o mutável, o constante”.
16

A produção de conhecimento científico baseada na separação entre sujeito e objeto, e
na idéia de que há “o” real por excelência a ser desvelado, ganha contornos totalitários-
totalizantes, calculada e calcada na mutilação das realidades e na ânsia lógica de dominar a
natureza. Essa totalização, que, baseada no “narcisismo congênito da Razão única”,
17

apresenta uma violência: a redução do complexo, do múltiplo, ao Mesmo, ao simples. Ocorre,
então, mais uma vez, a negação da arte e a absolutização das formas racionalizadoras que
detêm “o monopólio da verificação, portanto da Verdade”
18
. Quer dizer, a arte, relegada ao
posto de não-caminho ao verdadeiro, “toma o estatuto de algo irracional”,
19
que lhe é
imputado pela racionalidade lógica auto-referente e auto-suficiente.
Todo o discurso positivista foi edificado respeitando esse paradigma, e a criminologia
não poderia ter passado incólume por isso. A racionalidade científica, postulando mecanismos

13
SOUZA, Ricardo Timm. Trauma, História e Realidade – o ponto de partida da estética, hoje. p. 5. (cedido
pelo autor).
14
SOARES, Luiz Eduardo. Hermenêutica e Ciências Humanas. In GAUER, Ruth M. Chittó (org). A Qualidade
do Tempo: Para Além das Aparências Históricas. RJ: Lumen Juris, 2004, p. 47.
15
Agregação, aqui, está em oposição a desagregação, trabalhada por Ricardo Timm de Souza. A idéia de
desagregação expõe todo esfacelamento de uma Totalidade de sentido que no século XX encontrou “uma radical
desinstalação epistemológica”, impedindo a possibilidade de trabalho com absolutizações de sentido.
Desagregação é desagregação da Totalidade que marcou a história ocidental até pelo menos o século XIX.
Diante deste sentido de desagregação e do que ele representa nesse contexto, utilizei o termo “agregação” para
simbolizar a pretensão Totalizadora do conhecimento que, negando as diferenças, baseia a busca da Verdade em
leis universais e imutáveis. Cf. SOUZA, Ricardo Timm. Totalidade e Desagregação: sobre as fronteiras do
pensamento e suas alternativas. POA: EDIPUCRS, 1996. (A citação é da p. 11).
16
SOARES, Luiz Eduardo. Hermenêutica e Ciências Humanas. In GAUER, Ruth M. Chittó (org). A
Qualidade do Tempo: Para Além das Aparências Históricas. RJ: Lumen Juris, 2004, p. 47.
17
SOUZA, Ricardo Timm de. Ainda além do Medo: filosofia e antropologia do preconceito. POA: Dacasa,
2002, p. 15.
18
MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento Complexo. Trad. Eliane Lisboa, Porto Alegre: Sulina, 2005, p. 46.
19
FREITAS, Verlaine. Adorno e a Arte Contemporânea. RJ: Jorge Zahar Ed., 2003, p. 29.
Página 367 / 477
capazes de gerar felicidade aos homens, enxergava o “delito como patologia, naturalizando-o,
[para], posteriormente, [poder] controlar esta natureza de forma a regulá-la, (...) operando no
interior de um modelo bio-psico-social sanitarista que identifica na diversidade estético-racial
o objeto de eliminação”.
20
Nas palavras de Alessandro Baratta, a criminologia positivista “tem
por objeto não propriamente o delito, considerado como conceito jurídico, mas o homem
delinqüente, considerado como um indivíduo diferente e, como tal, clinicamente
observável”,
21
de forma que, fruto de uma “epistemologia policialesca”,
22
essa criminologia
não poderia passar ao largo da necessidade da explicação causal. Porém, “Deus te livre, leitor,
de uma idéia fixa” já que a própria origem é fluida; assim como as “reflexões de cérebro
enfermo” sobre a curiosidade a respeito da origem dos séculos para cuja descrição necessitaria
“fixar o relâmpago”.
23
Claro que para Machado de Assis, assim como para toda a literatura,
“o fato em si tem importância menor. O que interessa é a reflexão que esse fato provoca”.
24

Quero dizer, há uma vontade que caracteriza essa verdade e crê que, indo à origem do
problema, irá resolvê-lo com precisão, no fim – uma fé ilusória que está na raiz da própria
ciência Moderna,
25
e que permite dizer que a etiologia é o batismo da própria criminologia
enquanto ciência.
26
Esse paradigma etiológico da criminologia assume como pressuposto que
“a criminalidade é um meio natural de comportamentos e indivíduos (...), [de cuja] realidade
ontológica (...) seria possível descobrir as suas causas e colocar a ciência destas a serviço do
seu combate em defesa da sociedade”.
27
O entendimento do delito como ente natural,
conduzido pela escola positiva a partir de um rígido determinismo biológico, trabalha com a
realidade no plano eminentemente de uma filosofia da consciência, pela qual se acreditava
compreender ontologicamente o criminoso, para, assim, desde postulados maniqueístas de

20
CARVALHO, Salo de. Criminologia e Transdisciplinaridade: autocrítica. In CARVALHO, Salo de.
Antimanual de Criminologia. RJ: Lumen Juris, 2008, p. 147.
21
BARATTA, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal: introdução à sociologia do direito
penal. Trad.: Juarez Cirino dos Santos. 3ª ed. RJ: Revan/ICC, 2002, p. 29.
22
MORIN. Introdução ao Pensamento Complexo. p. 51.
23
ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. POA: L&PM, 1997, pp. 19, 24 e 28,
respectivamente.
24
FARACO, Carlos. Um Mundo que se Mostra por Dentro e se Esconde por Fora. In BAGNO, Marcos
(org). Machado de Assis para principiantes. SP: Ática, 1998, p. 165.
25
GIACOIA JUNIOR, Oswaldo. Nietzsche. SP: Publifolha, 2000, p. 35. Nas palavras do autor, “o homem
teórico busca refúgio na mesma fé ilusória que está na raiz da ciência moderna; isto é, ele se nutre no otimismo
metafísico que está na base da racionalidade dialética: a crença na onipotência do logos científico. O tipo de
homem teórico, encarnado por Sócrates, acredita ser possível, mediante o princípio de causalidade, desvendar os
segredos mais abissais da realidade – não somente conhecê-los, como também corrigi-los. O otimismo teórico
considera a ciência um remédio universal, que cura a ferida eterna do existir, e identifica no erro e na ignorância
a fonte de todo mal”.
26
BARATTA. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal. p. 30.
27
ANDRADE, Vera Regina Pereira de. Sistema Penal Máximo X Cidadania Mínima: códigos da violência na
era da globalização. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2003, p. 35.
Página 368 / 477
defesa da sociedade, poder corrigi-lo na sua outridade. O ponto literalmente nevrálgico, aqui,
é que “a grande questão da criminologia e da penalidade em fins do século XIX foi a
escandalosa noção de periculosidade”, cuja idéia significa que “o indivíduo deve ser
considerado pela sociedade ao nível de suas virtualidades”.
28

Não é à toa a aproximação foucaultiana entre criminoso e louco, no cerne daquela
ânsia lógica que caracteriza a vontade de verdade. Ora, “Desgraçado do tempo em que os
loucos guiam os cegos”, afirmou Shakespeare pela boca de Glaucester, que, cego, não sabia
explicar as causas de sua suposta e estranha queda e, por isso, agarrou-se a uma enganadora
lógica.
29
Parece-me que a impossibilidade da etiologia coloca em xeque o discurso
criminológico positivista, pois alicerçado numa já desacreditada filosofia da consciência.
Falando em colocar em xeque, é interessante notar a consideração de Nils Christie, segundo a
qual “los jugadores de ajedrez, los buenos jugadores de ajedrez, sostienen que algo así como
el 20% del ajedrez se desarolla en el nivel consciente. El resto es soñar”, e o sonho é, aqui,
uma espécie de metáfora para elogiar a intuição e apontar a insuficiência da consciência em
dar conta da realidade.
Se o positivismo criminológico é caracterizado por uma “racionalização [que] consiste
em querer prender a realidade num sistema coerente, e tudo o que, na realidade, contradiz este
sistema coerente é afastado, esquecido, posto de lado, visto como ilusão ou aparência”,
30
está
de frente com a própria negação da metáfora, e por isso da arte, enquanto possibilidade de
acesso ao conhecimento. Diante desse enclausuramento, o giro: “a literatura revela o valor
cognitivo da metáfora, que o espírito científico rejeita com desprezo”, assumindo a
complexidade humana e a força da imagem, desde uma comunicação entre realidades muito
diferentes.
31

Metaforicamente, então, Machado de Assis vai às entranhas do pensamento
criminológico positivista, na sua coluna no periódico A Semana, do dia 31 de maio de 1896.
Ao tratar da fuga dos doidos do Hospício, Machado, além de brincar com a questão da
loucura, questiona a própria realidade: “Agora que fugiram os doudos (sic) do hospício e que
outros tentaram faze-lo (e sabe Deus se a esta hora já o terão conseguido), perdi aquela antiga
confiança que me fazia ouvir tranquilamente discursos e notícias. (...) Uma vez que se foge do
hospício dos alienados (...) onde acharei método para distinguir um louco de um homem de

28
FOUCAULT, Michel. A Verdade e as Formas Jurídicas. Trad. Roberto Machado et. al. RJ: NAU Editora,
2005, p. 85.
29
SHAKESPEARE, William. Rei Lear. Trad. Millôr Fernandes. Porto Alegre: L&PM, 1997, pp. 97 e 110.
30
MORIN. Introdução ao Pensamento Complexo. p. 70.
31
MORIN, Edgar. A Cabeça Bem-Feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Trad. Eloá Jacobina. 11ª
ed, RJ: Bertrand Brasil, 2005, p. 91.
Página 369 / 477
juízo? (...) Não posso deixar de desconfiar de todos. A própria pessoa, - ou para dar mais claro
exemplo, - o próprio leitor deve desconfiar de si. Certo que o tenho em boa conta, sei que é
ilustrado, benévolo e paciente, mas depois dos sucessos dessa semana, quem lhe afirma que
não saiu ontem do Hospício? (...) O cálculo, o raciocínio, a arte com que procederam os
conspiradores da fuga, foram de tal ordem, que diminuiu em grande parte a vantagem de ter
juízo”.
É possível ler de pelo menos três formas a crítica exposta n’A Semana: uma crítica à
(in)eficiência do sistema psiquiátrico, uma crítica à impossibilidade de distinguir loucos e
sãos, e o pedido ao público para que desconfie de tudo e de todos.
32
“A argumentação se
encerra dentro de um universo fechado, esse da loucura, evidenciando ao mesmo tempo –
como n’O Alienista – que o status epistemológico da autoridade com o poder decisório se
torna problemático”.
33
Ora, n’O Alienista, assim como em outras obras de Machado, “os
personagens são marcados por impulsos contraditórios e, por isso, não podem ser
classificados em bons ou maus, [de forma que] no mundo machadiano tudo passa a ser
relativo, variável de acordo com o ponto de vista que se assume diante das coisas”.
34
Parece,
assim, que há para Machado uma espécie de reversibilidade entre razão e loucura, pela qual “a
alienação não seria tanto um fenômeno clínico, sintoma de uma doença mental, mas antes
produto da reificação e do estranhamento no sentido social e humano”, pois não é à toa que
um “cronista anônimo e irônico, assuma a função de encenador soberano do enredo, [e]
manipule os eventos de uma crônica igualmente anônima ou [que] o leitor se encontre na
posição de confidente de um Eu narrador entre exuberante e cínico que, ao contar a sua vida,
encaixa excertos de teorias proferidas por um louco, amigo pessoal (Brás Cubas e Quincas
Borba)”.
35
Assim, para Elias Palti, “em Machado de Assis, a introdução da primeira pessoa no
narrador [ocorre num contexto] de radical indecidibilidade entre verdade e falsidade”
rompendo com o sistema representativo da tradição realista e, por isso, “abalando a própria
lógica na qual e sustentava toda a sua narrativa”.
36


32
FROSCH, Friedrich. O Tenebroso Problema da Patologia Cerebral: algumas considerações acerca d’O
Alienista machadiano. In MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES/GOVERNO FEDERAL. A Obra de
Machado de Assis: ensaios premiados – I Concurso Internacional Machado de Assis. Brasília: Ed. Bandeirante,
2006, p. 286.
33
FROSCH.O Tenebroso Problema da Patologia Cerebral: algumas considerações acerca d’O Alienista
machadiano. p. 286.
34
FARACO. Um Mundo que se Mostra por Dentro e se Esconde por Fora. p. 177.
35
FROSCH.O Tenebroso Problema da Patologia Cerebral: algumas considerações acerca d’O Alienista
machadiano. pp. 283 e 284.
36
PALTI, Elias José. O Espelho Vazio: representação, subjetividade e história em Machado de Assis. In
MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES/GOVERNO FEDERAL. A Obra de Machado de Assis:
ensaios premiados – I Concurso Internacional Machado de Assis. Brasília: Ed. Bandeirante, 2006, p. 340 e 387.
Página 370 / 477
O Alienista, como conto que trabalha incisivamente a questão da loucura, pode ser lido
de forma a fornecer uma crítica dupla “contra as fantasias de onipotência da ciência, ávida de
fatos chamados positivos, e como uma demonstração fatal da cegueira individual causada por
uma idéia fixa”.
37
Nesse sentido, somente depois que a Casa Verde foi construída é que a
loucura foi inventada e consubstanciada como problema social – ou seja, é “a existência do
asilo que provoca a loucura generalizada”,
38
e isso dialoga com a questão mesma da
construção do rótulo de desviante e com toda crítica dirigida ao positivismo criminológico
como legitimador de essências, tais como maldades e feiúras.
O desejo de coesão entre Razão e realidade, presente em qualquer naturalização, só
pode se dar na eliminação das contingências temporais. Essa pretensão de atemporalizar o
sentido do real e de identificar o pensar e a realidade resta, porém, limitada; no mínimo,
definitivamente prejudicada. E com ela a epistemologia que a sustenta. Ora, a relação do
homem com a realidade não define o sentido desta, visto que a alteridade da realidade é muito
mais ampla, espessa, do que o pensar a realidade. Daí toda a complexa importância da
loucura em Machado de Assis para essa problemática. Nas palavras de Emanuel Levinas “Isto
significa dizer que nossa consciência e nosso domínio da realidade pela consciência não
esgotam nossa relação com ela”.
39
Na percepção de Maurice Merleau-Ponty, “a ciência
manipula as coisas e renuncia a habitá-las”.
40


3. A Temporalidade que Constitui: a impossibilidade de cristalizar as respostas

Fica estampado na leitura de Baratta que todas as construções criminológicas
posteriores à criminologia positivista vieram para criticar os postulados que fundaram esta
ciência. Nesse sentido, o autor italiano faz uma história linear da criminologia, traçando a
sobreposição das teorias e escolas como uma evolução, um progresso científico do
conhecimento criminológico, sempre a contrapor os princípios basilares do positivismo. As
teorias sociológicas e psicanalíticas que posteriormente propiciaram a virada paradigmática da
criminologia, com a edificação do labelling approach, foram desmistificando cada alicerce da

37
FROSCH.O Tenebroso Problema da Patologia Cerebral: algumas considerações acerca d’O Alienista
machadiano. p. 291.
38
FROSCH.O Tenebroso Problema da Patologia Cerebral: algumas considerações acerca d’O Alienista
machadiano. p. 292.
39
LEVINAS, Emanuel. Entre Nós: ensaios sobre a alteridade. 2ª ed. Trad. Pergentino Pivatto e outros.
Petrópolis: Vozes, 2005, p. 24.
40
MERLAU-PONTY, Maurice. O Olho e o Espírito. In O Olho e o Espírito: seguindo de A Linguagem Indireta
e as Vozes do Silêncio e A Dúvida de Cézanne. Trad. Paulo Neves e Maria Gomes. SP: Cosac & Naify, 2004. p.
13.
Página 371 / 477
construção positivista. Provenientes de diferentes bases de pensamento acerca da sociedade,
essas teorias assimilavam-se por aquilo que Elena Larrauri chamou de “ar radical” em relação
à objetividade dos fatos apresentados até então.
41
A etnometodologia, a antipsiquiatria e o
marxismo, para a autora catalã, influenciaram na formação de uma “nova teoria do desvio”,
proveniente fundamentalmente de sua ênfase em assinalar que o mundo, assim como o desvio,
eram uma construção social. “Bajo el rótulo de criminología positivista se agrupaba todo
aquello que pretendía rechazarse: el carácter objetivo de los fenómenos sociales, la imagen de
un delincuente determinado, la pretensión de neutralidad de la criminología, el objetivo de
corregir el delincuente”. Nesta “cruzada antipositivista” todas as teorias que questionavam
tais postulados foram cooptadas.
42

Para além das historicização da criminologia, cujo traçado linear é sempre
questionável a despeito da própria impossibilidade histórica da linearidade, Baratta indica que
é apenas com a construção crítica da criminologia que o paradigma etiológico é superado
plenamente. Assim, para ele, toda criminologia anterior à criminologia crítica pode ser
reduzida ao rótulo de criminologia liberal, pois é apenas com o enfoque macrossociológico
proporcionado por uma teoria materialista, ou seja, econômico-política, do desvio, que se
pode fugir à ontologização do criminoso.
43
Claro que esta criminologia não poderia ter
surgido sem as explicações dadas pelo labelling approach. E é somente a partir de uma crítica
à própria teoria do etiquetamento que a criminologia crítica dará seus primeiros passos.
44

Toda uma outra forma de olhar o fenômeno criminal foi sendo construída e, a partir
disso, a sociologia contribuiu para a morte de Lombroso na criminologia.
45
Por outro lado, a
própria criminologia positivista se colocava numa espécie de desconcerto, pois, às antigas
causas biológicas e psicológicas do delito, foram sendo acrescentadas causas sociais –
ocorrendo como que uma extensão/alargamento dos pressupostos positivistas para que
pudessem ser acrescentadas também essas “novas” causas. Isto é, ampliaram-se as margens da
explicação positivista de forma que “a” explicação nunca pudesse sair da moldura causal do
quadro há muito construído. A desinstalação ocorre, então, incisivamente num plano
epistemológico e se reflete violentamente no plano empírico, visto que a absolutização da
causa não consegue mais dar conta da complexidade social.
46


41
LARRAURI. La Herencia de la Criminología Crítica. p. 39.
42
LARRAURI. La Herencia de la Criminología Crítica. pp. 63/4.
43
BARATTA. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal. pp. 159 e ss.
44
LARRAURI. La Herencia de la Criminología Crítica. pp. 101 e ss.
45
LARRAURI. La Herencia de la Criminología Crítica. p. 15.
46
LARRAURI. La Herencia de la Criminología Crítica. p. 01.
Página 372 / 477
Não obstante a influência de outras teorias sociológicas, o interacionismo simbólico
desenvolvido pela Escola de Chicago foi o grande marco para a mudança paradigmática e
conseqüente elaboração do pensamento crítico. O delito não era mais visto como uma
essencial maldade do criminoso, proveniente da sua natureza atávica, mas como uma mera
definição, com todas as implicações político-sociais que daí derivam. “O homem criminoso”,
assim, não é mais o objeto da criminologia. A delinqüência enquanto um processo, uma
construção, impõe ao pensamento criminológico as idéias de desvio e de reação social. Nessa
esteira, “não se pode compreender a criminalidade se não se estuda a ação do sistema penal,
que a define e reage contra ela”.
47
Em conseqüência disso, “el delito no es um ‘hecho’ sino
uma construcción social’ (...) Y el delincuente no es ‘el que delinque’, sino aquel al cual le ha
sido atribuida la etiqueta de delincuente”.
48

Nas palavras de Howard Becker, “los grupos sociales crean la desviación al hacer las
reglas cuya infracción constituye la desviación y al aplicar dichas reglas a ciertas personas en
particular y calificarlas de marginales. Desde este punto de vista, la desviación no es una
cualidad del acto cometido por la persona, sino una consecuencia de la aplicación que los
otros hacen de las reglas y las sanciones para un ‘ofensor’”.
49
Isso significa que os desviantes
não podem ser enquadrados constitutivamente numa categoria homogênea de criminosos,
visto não haver fatores comuns de personalidade ou situação de vida que explique
absolutamente o desvio, de maneira que nem todos os desviantes violam regras e nem todos
os que violam regras são desviantes. Daí dizer que, diante da perspectiva da teoria do
etiquetamento, o desvio se caracteriza menos por circunstâncias pessoais e sociais do
desviante do que pelo processo pelo qual se lhe considera como estrangeiro.
Estudar o desvio, então, é estudar uma construção da realidade (interacionismo), um
processo que só pode se dar no tempo, diferentemente do que ocorria com o determinismo
positivista que cristalizava, essencializava, o pensamento criminológico a partir de categorias
ontológicas. A própria idéia de processo de etiquetamento dá conta dessa temporalidade.
Dessa forma a realidade social seria “constituída por uma infinidade de interações concretas
entre indivíduos, aos quais um processo de tipificação confere um significado que se afasta
das situações concretas e continua a estender-se através da linguagem”.
50
Então, se a interação
constrói um padrão de realidade, a criminologia não pode mais pretender estudar o criminoso

47
BARATTA. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal. p. 86.
48
LARRAURI. La Herencia de la Criminología Crítica. pp. 29/30.
49
BECKER, Howard. Los Extraños: sociología de la desviación. Trad.: Juan Tubert. Buenos Aires: Editorial
Tiempo Contemporáneo, 1971, p. 19/20.
50
BARATTA. Criminologia Crítica e Crítica do Direito Penal. p. 87.
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e as causas de seu comportamento como se essas fossem realidades imutáveis. “Debemos
reconocer que no podemos saber si un cierto acto va a ser catalogado como desviado hasta
que se haya dado la respuesta de los demás. La desviación no es una cualidad presente en la
conducta misma, sino que surge de la interacción entre la persona que comete el acto y
aquellos que reaccionan ante el mismo”.
51
Diante disso é que a virada paradigmática adquire
toda sua representatividade, pois o interessante, doravante, é estudar os órgãos de controle
social que têm por função controlar e reprimir o desvio, na mesma medida em que é a partir
desses órgãos que o desvio vai se constituir enquanto tal.
Dada a irreversibilidade dos resultados apontados pelo paradigma da reação social, a
construção da criminologia crítica decorreu da própria teorização do labelling, mas pretendeu
ir mais além do que esta. A criminologia crítica, então, buscou recuperar a análise das
“condições objetivas, estruturais e funcionais que originam na sociedade capitalista os
fenômenos de desvio, interpretando-os separadamente, conforme se tratem de condutas das
classes subalternas ou condutas das classes dominantes”,
52
atuando também criticamente
acerca das faltas constitutivas do discurso criminológico proposto pela teoria do
etiquetamento, sempre em diálogo com os fatores estruturais da sociedade capitalista e em
relação a um possível desconhecimento das relações de poder presentes nessa sociedade.
53

Desse modo, mesmo que existam varias criminologias críticas e, principalmente, que
nem toda criminologia crítica seja marxista, parece-me que desde a Nova Criminologia há
uma pretensão em que esse campo do conhecimento transforme a sociedade, ou seja, salve-a
de suas mazelas,
54
como se fosse apto para tal. Aliás, não é à toa que Baratta enxerga
“resíduos etiológicos” em qualquer outro pensamento criminológico que não aborde o
problema político-econômico da sociedade. Assim é que há uma espécie de colonização da
criminologia operada desde os discursos sociológicos, dos quais o uso freqüente de termos
como “impactos”, “resultados”, “implicações” dão conta de demonstrar. A necessidade de
oferecer uma explicação teórica, uma alternativa prática às condições sócio-econômicas
indicadas como causa do fenômeno criminal, mesmo que transmutadas pelo engodo dos
agora chamados fatores de risco, apontam para o que tem sido chamado de respostas
cristalizadas, atemporais, dadas pela criminologia crítica.
55
Longe de se colocar no lugar em
que prometeu ficar – oposto ao positivismo criminológico – a própria criminologia crítica

51
BECKER. Los Extraños: sociología de la desviación. p. 24.
52
ANDRADE. Sistema Penal Máximo X Cidadania Mínima. p. 48.
53
Considero dispensável repetir toda a crítica ao labelling approach feita pela Nova Criminologia. Para isso
conferir as já citadas obras de Alessandro Baratta e Elena Larrauri.
54
LARRAURI. La Herencia de la Criminología Crítica. p. 113.
55
SOZZO. Presentación. p. 11.
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ganha feições contrárias às quais sua máscara pretende demonstrar, assumindo o papel de um
artefato congelado de respostas prontas. O que quero assinalar é que a questão da
criminologia tem sido pautada pela necessidade da explicação; mesmo os discursos críticos
que pretendem fugir ao paradigma etiológico, abordando as relações sociais e econômicas,
ainda assim, ou, justamente por isso, desejam saber o porquê da criminalização ou dos
criminosos. Essa necessidade de verdade – dialogando com a categoria nietzscheana de
vontade de verdade – parece ser a “legítima” herança da criminologia crítica, que, ao
destronar a criminologia positivista, herdou este apanágio.
A fuga da concepção naturalista de crime, criminoso e criminalizado atinge as
edificações criminológicas que pretendem superar o positivismo, e escancara o paradoxo
segundo o qual, após severas críticas, “se termina luego por reproponer, en un nivel diferente,
una nueva concepción naturalista de la criminalidad”.
56
Isso indica um problema de fundo dos
discursos criminológicos, fundamentalmente em relação à epistemologia na qual estão
alicerçados, a qual, parece-me, não perece, isto é, não sofreu corrosão desde os postulados
etiológicos do positivismo. É nesse sentido que a temporalidade choca-se aqui com a sua
negação, pois, se a criminologia tem uma “tentação suicida”,
57
ao pretender que no futuro as
sociedades sejam prósperas e sem violência; isso implica na crença de que a realidade sócio-
criminal efetivamente pode ser esgotada, compreendida, o que significa a própria negação da
temporalidade enquanto “constitutivo essencial da realidade”,
58
em permanente construção.
A voracidade da temporalidade devora, assim como aos seus conceitos, o rigor da
tradição filosófica ocidental,
59
da qual inegavelmente colhe frutos o discurso criminológico.
As “demiurgias conceituais” que sustentam a violência da Totalidade, elas mesmas, porém,
não se sustentam mais; a vocação de conceitos e teorias gerais afundam-se na formalidade
“por sua ânsia de chegar à realidade”, na medida em que os “pensamentos que se dirigem ao
conforto dos ninhos conceituais constituem uma indecência intolerável no contraste com a
verdade irrepresentável”, porque “a temporalidade não perdoa a hipocrisia intelectual” e a
“concretude espessa é irredutível ao mero conceito”
60


56
PAVARINI, Massimo. ¿Vale la Pena Salvar a la Criminología? In SOZZO, Máximo (Coord).
Reconstruyenda las Criminologías Críticas. Buenos Aires: Ad Hoc, 2006, p. 18.
57
PAVARINI. ¿Vale la Pena Salvar a la Criminología? p. 27.
58
SOUZA, Ricardo Timm de. Sobre a Construção do Sentido: o pensar e o agir entre a via e a filosofia. SP:
Perspectiva, 2004, p. 77.
59
SOUZA, Ricardo Timm de. Por uma Estética Antropológica desde a Ética da Alteridade: do “estado de
exceção” da violência sem memória ao “estado de exceção” da excepcionalidade do concreto. In Veritas, v. 51,
nº 2, Junho 2006, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2006, p. 131.
60
SOUZA, Ricardo Timm de. Por uma Estética Antropológica desde a Ética da Alteridade: do “estado de
exceção” da violência sem memória ao “estado de exceção” da excepcionalidade do concreto. pp. 136, 135 e
132, respectivamente.
Página 375 / 477
Ora, se o tempo é aquilo que constitui o homem enquanto tal, como não pensar que os
pulmões são, para além de qualquer capitulação encontrada em manuais médicos, “a
expectativa de que o ar os invada”, cuja existência “consiste em esperar tempo suficiente para
que o ar, que ainda não está neles, os penetre”? Esse “pulsar da existência”, nas palavras de
Ricardo Timm de Souza,
61
é o que, parece-me, falta para a crise e a crítica do pensamento
criminológico, cujas teorizações desejam representar a realidade criminal sem atentar ao fato
catastrófico do crime como evento-limite.
62
É o que não falta, porém, para o irlandês Samuel
Beckett, na sua peça “Esperando Godot”,
63
produzida nos anos imediatamente seguintes à
segunda grande guerra, em meados de 1949. Não se trata propriamente de uma tragédia, como
concebida na Grécia antiga e capitulada por Aristóteles na Poética, mas, no mínimo da
possibilidade do trágico na contemporaneidade, pelo qual o sentido do tempo expõe a
fatalidade da incompreensão e o “agora como catástrofe”.
64

A possibilidade do trágico na peça ocorre, principalmente, pelo tempo cíclico e
espiralado. O rompimento com o inicio e o fim apresentado na obra de Beckett pode ser lido
como o abandono de um projeto epistemológico baseado numa promessa narcísica de
harmonização da sociedade: trata-se da assunção da carência, da falta e do limite mesmo. Mas
pode ser interpretado também como o choque radical com a diferença, com o que “não
contém nada de concreto, aponta[ndo] para aquilo que não existe, não foi visto, [que] é
inefável, indizível”.
65
Por sua própria dimensão estética a peça “cumpre participar de um
traumático e intenso reencontro com a multiplicidade do real. Esse encontro, este reencontro,
nada tem de meramente teórico; não reproduz nada, antes produz inquietação de profundidade
extrema, que indica precisamente que algo de espantosamente grave aconteceu”.
66
Esse
trauma, entre estética e psicanálise, “é caracterizado pela incapacidade de recepção de um
evento transbordante”,
67
negando a estabilidade, a segurança e a certeza de leis eternas e
imutáveis para dominar/ explicar a natureza, para representá-la.
A estética, assim, assinala à epistemologia criminológica a necessidade de que se
arrombe cada vez mais a rachadura na formação do pensamento criminológico, ao invés de
tentar fechá-la com peneiras. A racionalidade estética, para além da pretensão
representacional da racionalidade lógica e bem comportada, aponta para o abandono da

61
SOUZA. Sobre a Construção do Sentido: o pensar e o agir entre a via e a filosofia. pp. 34/5.
62
SELIGMANN-SILVA, Márcio. A História como Trauma. In NESTROVSKI, Arthur; SELIGMANN-
SILVA, Márcio (Orgs). Catástrofe e Representação. SP: Escuta, 2000, p. 77.
63
BECKETT, Samuel. Esperando Godot. Trad. Fábio de Souza Andrade. SP: Cosac Naify, 2005.
64
SELIGMANN-SILVA. A História como Trauma. p. 82.
65
FREITAS. Adorno e a Arte Contemporânea. pp. 30/1.
66
SOUZA. Trauma, História e Realidade – o ponto de partida da estética, hoje. p. 01.
67
SELIGMANN-SILVA. A História como Trauma. p. 84.
Página 376 / 477
“tarefa de compreender a estrutura constitutiva”
68
do real, indicando que “não é mais possível
investir na representação do real à antiga – no máximo, na sua traumática apresentação, onde
tudo é novo, no choque com sua consistência, suas idas e vinda, suas surpresas inomináveis
(...) visto que o trauma é o máximo”.
69

Se a catástrofe é irrepresentável, “o potencial crítico da arte extrai sua força
[exatamente] desse poder de choque na relação com o novo”,
70
com o que o próprio tempo
deixa para construir na distância entre o dito e o não-dito, entre o olho e o olhar, pois é
justamente essa “temporalidade, invisível, mas verdadeira, que corrói o real na medida em
que acontece, que se dá – esta temporalidade (que) tem sido sempre o escândalo do
pensamento ocidental”. Ora, há uma violência na identificação entre o conceito e a realidade,
“inclusive o conceito ‘tempo’ não corresponde ao que o tempo realmente seja”, pois,
“conceito não é a realidade, e sim a sua figuração”,
71
o sua representação.
Parece-me, então, que a criminologia não pode passar incólume a esta temporalidade
que arde à espera de Godot. Ou seja, há uma provocação incisiva ao discurso criminológico
para que se desprenda de explicações universalizantes e macrossociológicas, propriamente
atemporais, cujo objetivo tem sido constantemente desenvolver mecanismos narcísicos
capazes de erradicar a barbárie emergente na cultura,
72
e que atente para a sua “vaguedad del
vinculo disciplinar”,
73
pois seu caráter transdisciplinar deve querer indicar alguma coisa.

4. Considerações Finais

A tensão entre literatura e criminologia proporcionada pelo redimensionamento da
temporalidade e pela assunção da realidade como catástrofe gera conseqüências marcantes
para a tradicional concepção de representação. A visão da realidade como catástrofe implica
numa rachadura do/no discurso sobre a verdade, de maneira que, no mínimo, a verdade não se
coaduna mais essencialmente com a beleza ou a bondade. “Com a nova definição da realidade
como catástrofe, a representação, vista na sua forma tradicional, passou ela mesma, aos

68
FREITAS. Adorno e a Arte Contemporânea. p. 33.
69
SOUZA, Ricardo Timm de. Status Quaestionis – Trauma, História e Realidade. In SOUZA, R. T. Em
Torno à Diferença: as aventuras da alteridade na complexidade da cultura contemporânea. RJ: Lumen Juris,
2008, p. 09.
70
FREITAS. Adorno e a Arte Contemporânea. p. 30.
71
SOUZA, Ricardo Timm de. Crise, História e Temporalidade – origens e condições de uma recriação de
referências. In SOUZA, R. T. Em Torno à Diferença: as aventuras da alteridade na complexidade da cultura
contemporânea. RJ: Lumen Juris, 2008, p. 17.
72
CARVALHO, Salo de. Antimanual de Criminologia. RJ: Lumen Juris, 2008, p. 03. Importante ressaltar que a
exposição da relação barbárie-cultura é uma referência explícita ao pensamento de Walter Benjamin.
73
PAVARINI. ¿Vale la Pena Salvar a la Criminología? p. 28
Página 377 / 477
poucos, a ser tratada como impossível; o elemento universal da linguagem é posto em questão
tanto quanto a possibilidade de uma intuição imediata da ‘realidade’”.
74
As conseqüências
para a edificação do discurso criminológico são arrasadoras a nível epistemológico, “pois o
real é tomado como algo impossível – que não se dá no registro de uma consciência
soberana”,
75
e, paradoxalmente, o seu “excesso de realidade” aponta o esfacelamento da
representação e para o discernimento entre o real e o irreal, uma vez que o evento traumático
provoca uma destruição do consciente e, diante disso, o que resta de testemunho aponta para a
falácia do (i)real.
Tal como um som, um cheiro ou um passo, para recriar uma árvore na paisagem “só
temos um detalhe, mas que é suficiente”.
76
Isso porque a realidade mesma é inesgotável e o
existir é sempre mais do que o pensar sobre o existir; daí os vestígios que impõem uma
responsabilidade para além de nossas intenções.
77
Por isso o objetivar, o cristalizar, é sempre
totalizar, é sempre violência. Uma violência representacional, cuja imunidade asséptica é
desnudada pela literatura – como ocorre, por exemplo, com o mundo absurdo de Camus, em
que “um homem sofre e passa por desgraças e mais desgraças”, mas as causas permanecem
quase sempre como racionalizações alucinatórias – então, “que não nos venham contar
histórias. Que não nos venham dizer, sobre o condenado à morte: ‘Vai pagar sua dívida com a
sociedade’, e sim: ‘Vão cortar-lhe o pescoço”.
78
Interessante que este texto de Camus não está
nada distante do choque que o Explorador (personagem do conto Na Colônia Penal, de
Kafka) sofre ao saber do desconhecimento do condenado da sua própria sentença, nem do
sentido da violência da condenação, que irrompe menos como explicação e mais como
imagem de um tempo penoso.
79
Na expressão de Warat, é “a poesia invadindo a ciência para
estabelecer fendas nos conceitos, onde se instale a vida e se transforme o geral e o abstrato em
metáfora” – substituição do universal, do geral, pelo múltiplo, ingeneralizável.
80
A
criminologia, enquanto campo do conhecimento que trabalha incisivamente com as violências
e lugar transdisciplinar por excelência nas ciências criminais, tem muita riqueza para ser
trabalhada e explorada, bem como a literatura e seus personagens dramáticos. Ainda assim,

74
SELIGMANN-SILVA. A História como Trauma. p. 75.
75
SELIGMANN-SILVA. A História como Trauma. p. 86.
76
CAMUS, Albert. O Avesso e o Direito. Trad.: Valerie Rumjanek. 6ª ed. RJ: Record, 2007, p. 58.
77
LEVINAS, Emmanuel. A Ontologia é Fundamental? In LEVINAS, E. Entre Nós: ensaios sobre alteridade.
Trad. Pergentino Pivatto (Coord.). Petrópolis: Vozes, 1997. p. 24.
78
CAMUS. O Avesso e o Direito. pp. 67 e 72, respectivamente.
79
CARONE, Modesto. Duas Novelas de Primeira. (Posfácio). In KAKFA, Franz. O Veredicto e Na Colônia
Penal. Tradução e posfácio Modesto Carone. SP: Cia das Letras, 1998.
80
WARAT. Metáforas para a Ciência, a Arte e a Subjetividade. p.530.
Página 378 / 477
porém, todas as suas teorizações são triviais, devido, talvez, à barreira que a cientifização
edificou para a penetração da arte. Essa também é a crítica de Nils Christie:

“Largos informes sobre lo obvio. Repeticiones. Cálculos elaborados que llevan a
lo que ya sabemos. ¿Cómo puede ser esto? ¿Cómo puede ser que tanta
criminologia sea tan poco interesante, tediosa e intensamente carente de nuevas
intuiciones? Debería ser lo opuesto en una ciencia basada en materiales de las
áreas centrales del drama. Nuestras teorías estan fundadas en situaciones de
conflicto y heroísmo, peligro y catástrofe, abusos y sacrificios – justamente,
aquellas áreas en las que la mayor parte de nuestros héroes literarios encuentran
sus materiales. Y aun así, ¡son tan triviales!”
81


Ora, o olhar científico do Mesmo esconde uma espécie de certidão que os discursos
criminológicos têm aceitado pacificamente. Uma certidão científica para que seja possível
fazer criminologia; uma autolegitimação, por assim dizer. Como acontece com os métodos e
com as metafísicas, “pois métodos implicam metafísicas, e elas traem, à sua revelia, as
conclusões que às vezes pretende não conhecer ainda. Assim as últimas páginas de um livro já
estão nas primeiras. Este nó é inevitável”.
82
E é neste nó que nós nos encontramos. Nós dos
processos de escolarização e padronização de significados, cujos sentidos sofrem de um
déficit de perspectiva, já que as categorias criminológicas, cristalizadas, não passam pela
temporalidade, pretendendo-se eternas. A literatura, para além do rótulo de auxiliaridade que
lhe tentou assinalar a máquina de tortura do positivismo, talvez a mesma máquina presente Na
Colônia Penal, é, enfim, uma possibilidade de retomar a temporalidade na criminologia.

Referências Bibliográficas

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da violência na era da globalização. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2003.

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Lisboa: Edições 70, 1977.

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Aires: Editorial Tiempo Contemporáneo, 1971.

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Aguiar. SP: Editora Hucitec, 1997.

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82
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102 I Moysés da Fontoura Pinto Neto e Alexandre Costi Pandolfo
REVISTA NOVATIO IURIS – ano II – nº 3 – julho de 2009
CRIMINOLOGIA E NARRATIVIDADE:
Fazendo ecoar a alteridade
Moysés da Fontoura Pinto Neto
*

Alexandre Costi Pandolfo
**

Resumo: O artigo argumenta que as raízes da Criminologia, inspiradas por Cesare
Lombroso e Enrico Ferri, estão fixadas na matriz epistemológica positivista, baseada
nas idéias de neutralidade, objetividade e experimentação. Essa metodologia – além
de ter sido útil à criminologia racista latino-americana e aos estados totalitários nas
suas terríveis “experiências” com humanos – perde a toda a compreensão da comple-
xidade humana, irredutível à dimensão da “objetividade”. Sustentamos que a narrativi-
dade, trabalhada a partir do famoso ensaio de Benjamin, é um método com temporali-
dade muito útil para penetrar na riqueza humana, que não pode ser enjaulada na “re-
presentação”. Finalmente, baseado nessas premissas, o paper defende uma nova
aproximação da Criminologia e Literatura.
Palavras-chave: Criminologia. Epistemologia. Alteridade. Narratividade. Literatura.

Abstract: The paper considers that the Criminology roots, inspired by Cesare Lom-
broso and Enrico Ferri, are fixed on the positivist epistemological matrix, based on the
ideas of neutrality, objectivity and experimentation. This methodology – besides had
been useful to the racist Latin-American Criminology and the totalitarian states in their
terrible “experiences” with humans – loses all the comprehension of human complexity,
irreducible to the “objectivity” dimension. We point that the narrativity, derived concept
from the famous essay of Benjamin, is a very useful method with temporality to get in
the human richness, which cannot be imprisoned in the “representation”. Finally, based
on these premises, the paper defends a new approach of Criminology and Literature.
Key words: Criminology. Epistemology. Alterity. Narrativity. Literature.


1 As raízes da criminologia: o discurso cientificista
Situados no topos privilegiado da razão, dizemos que a doença da
ciência é o racionalismo. (Ernildo Stein).
É conhecido “ato de fundação” da Criminologia: no contexto do posi-
tivismo de Augusto Comte e seu otimismo de “progresso” de uma socie-
dade orgânica em direção ao estágio “positivo” ou “científico” (superação

*
Mestre e Especialista em Ciências Criminais (PUCRS). Professor de Criminologia e
Política Criminal da UFRGS. moysespintoneto@yahoo.com.br.
**
Mestrando em Ciências Criminais (PUCRS). Bolsista CAPES.
xandipandolfo@hotmail.com.
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Criminologia e narratividade: fazendo ecoar a alteridade I
REVISTA NOVATIO IURIS – ano II – nº 3 – julho de 2009
dos estágios “místico” ou “teológico” e o “metafísico”
1
), Cesare Lombroso,
médico italiano, publica “O Homem Delinqüente” (1878) e funda
2
essa
disciplina, contrapondo-o ao saber clássico de ordem metafísica, encam-
pado por nomes como Beccaria e Carrara.
3
É o momento do ápice do
darwinismo, da idolatria aos ideais científicos, da apologia ao empirismo e
à “objetividade”. O sonho que sempre esteve no coração da filosofia – o
de desenhar um mapa que seria o espelho representacional do mundo
4

ganha novo vigor, desta vez com o instrumento científico. Porém, nas
palavras de Machado de Assis, “Deus te livre, leitor, de uma idéia fixa” já
que a própria origem é fluida; assim como as “reflexões de cérebro en-
fermo” sobre a curiosidade a respeito da origem dos séculos para cuja
descrição necessitaria “fixar o relâmpago”.
5

É nesse contexto que nasce a Criminologia, empolgada com a evo-
lução da ciência de seu tempo. Preocupado em definir um objeto empíri-
co, Lombroso diretamente se direciona ao “homem criminoso” e o qualifi-
ca, de forma darwinista, como um “atávico” no meio social. Enrico Ferri, o
grande divulgador da Scuola Positiva que se contrapõe aos “clássicos” e
aos “ecléticos”, irá suavizar o conteúdo biológico do delinqüente, acres-
centando a influência decisiva do meio social, mas permanecerá com
uma distinção forte entre o normal e o criminoso.
Lombroso e Ferri tinham uma preocupação em comum: soar “cientí-
ficos”. Seu método teria de ser predominantemente quantitativo e etiológi-
co, o objeto claro e definido, as informações objetivas, tudo contrastante
com a base “metafísica” da “Escola Clássica” (de função importante, mas
baseada em ilusões como o livre-arbítrio). A Scuola Positiva estava preo-
cupada com os fatos. Em termos epistemológicos, portanto, a Criminolo-
gia é edificada nos ideais positivistas clássicos: a separação sujeito-
objeto, o método empírico, a crença na superioridade da ciência, o ideal

1
Conferir a precisa descrição de BAUMER, Franklin. O pensamento moderno europeu.
Lisboa: Edições 70, 1977. v. 2: séculos XIX e XX, p. 13-128.
2
Ao falar em gênese e fundação da Criminologia, aqui, não pretendemos atribuir o ponto
inicial absoluto da origem em que propriamente nasce esse campo de conhecimento.
Talvez, inclusive, isso seja sempre uma ilusão, ou uma invenção. De qualquer modo, pe-
rece-nos que o marco inicial é sempre arbitrário e, para esse texto resolvemos atribuí-lo
aos discursos positivistas. Conferir: FOUCAULT, Michel. Nietzsche: a genealogia e a his-
tória. In: ______. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979, p. 15-37.
3
Por exemplo: BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e crítica do Direito Penal. Rio
de Janeiro: Revan, 2002. p. 29-40.
4
RORTY, Richard. A filosofia e o espelho da natureza. Rio de Janeiro: Relume-Dumará,
1994. p. 20.
5
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. Porto Alegre: L&PM, 1997. p.
19, 24 e 28, respectivamente.
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REVISTA NOVATIO IURIS – ano II – nº 3 – julho de 2009
de progresso, a fé na neutralidade e, principalmente, a necessidade de
dar conta do fenômeno criminal, representando-o.
2 O discurso positivista em xeque
Não foi necessário muito tempo para que esse discurso vivificasse
seus frutos podres. Na América Latina, os ideais positivistas foram apro-
priados pela Medicina Legal, que, capitaneada por Nina Rodrigues no
Brasil, defendia os ideais de pureza da raça e combatia a miscigenação,
tratando-a como motivo de degeneração.
6
O discurso racista, um dos
responsáveis pelo frio extermínio dos judeus em campos de concentração
durante a II Guerra Mundial, desde logo esteve presente no Brasil e ser-
viu como um dos motes da hedionda Criminologia latino-americana.
7

Em pouco tempo viu-se não apenas que a ciência tinha “problemas”
internos (as viradas paradigmáticas de Kuhn) e que não correspondia à
experiência integral do ser humano no mundo (a ontologia fundamental
de Heidegger), mas que, por si só, não era neutra, e sim integrante do
mundo concreto em que vivemos, sendo, como tal, sujeita à ética (como
toda conduta humana é). Nasce com Karl Binding
8
, jurista de importante
papel na dogmática penal, a discussão sobre a “vida indigna de ser vivi-
da”, tratando-se, segundo Giorgio Agamben, de um dos primeiros movi-
mentos que deslocam o limiar entre a vida e a morte politicamente, trans-
formando a política em biopolítica e thanatopolítica, pois é agora o sobe-
rano, o médico, o jurista ou o cientista que irão definir o limiar entre vida e
morte. As pesquisas positivistas inauguram uma nova era eugênica. Essa
gênese da Criminologia e sua importante influência no discurso etiológico
e seu ideal de experimentação, com respectivos perigos e abominações,
jamais deve ser esquecida.
9

Constata-se, com isso, que os experimentos de médicos nazistas ao
longo da Segunda Guerra Mundial não geraram apenas pesquisas “neu-
tras” que buscavam o progresso científico, como o discurso positivista

6
Conferir: RODRIGUES, Raymundo Nina. As raças humanas e a responsabilidade penal
no Brasil. São Paulo: Companhia Editorial Nacional, 1938.
7
Também: OLMO, Rosa del. A América Latina e sua criminologia. Rio de Janeiro: Revan,
2004, p. 171-182; DIVAN, Gabriel Antinolfi. Discurso evolucionista nas origens da crimi-
nologia latino-americana: racismo e hierarquia social em José Ingenieros e Nina Rodri-
gues. Revista de Estudos Criminais, Porto Alegre, Notadez, n. 22, abr./jun. 2006, p. 168;
e CARVALHO, Salo de. Pena e garantias, p. 67.
8
AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer: o poder soberano e a vida nua I. Belo Horizonte:
UFMG, 2004, p. 143 e ss. Ver também o excepcional trabalho de MUÑOZ CONDE,
Francisco. Edmund Mezger e o Direito Penal do seu tempo. Rio de Janeiro: Lumen Juris,
2005.
9
Conferir AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer, p. 161-166.
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Criminologia e narratividade: fazendo ecoar a alteridade I
REVISTA NOVATIO IURIS – ano II – nº 3 – julho de 2009
poderia insinuar, mas terríveis atentados desumanos que objetivavam o
homem até um limite insuportável. A ética passa a ser um limite inultra-
passável das pesquisas científicas, da qual a existência de comitês de
ética é hoje em dia testemunho indiscutível.
Viu-se, então, a partir dos fatos brutos, até onde pode nos levar um
discurso puramente científico, com pretensão de “neutralidade” e “objeti-
vidade”, sem compromisso com nada que não seu próprio “progresso”,
entendido como domínio e controle da natureza (ainda que natureza hu-
mana). E, no entanto, a Criminologia etiológica residual (que tenta sobre-
viver à virada paradigmática do labelling approach), ainda vive dessa
“precisão”.
10
A pesquisa criminológica, por ser “empírica”, deve seguir a
linha da “objetividade”. E mesmo no terreno supostamente oposto ao
paradigma etiológico, é ainda a sede por “objetividade” e “neutralidade”
que alimenta essas pesquisas e eterniza respostas dantes críticas, agora
cristalizadas.
11

3 Possibilidade de retorno à criminologia etiológica
As pesquisas realizadas ao longo da Segunda Guerra Mundial com
cobaias humanas, as implicações político-sociais do discurso eugênico
racista na Europa e na América Latina (aliás, no mundo inteiro), a tecno-
logia administrativa dos campos de concentração, a eclosão de eventos
como a explosão da bomba atômica, a utilização de armas químicas, o
aquecimento global e os problemas do meio ambiente em geral – tudo
leva a questionarmos o discurso do “progresso” científico. É evidente que
a evolução da medicina ou da física parecem fatos notórios, e extrema-
mente úteis para uma vida melhor no planeta. Os eventos alinhados, no
entanto, põem em xeque a idéia de que esse progresso possa ser tido
como absoluto e encaminhado como se fosse uma própria linha natural,
sem que a ação humana decida qual é o destino, as implicações éticas,
sem que julgue o que pode e o que não pode ser feito. A técnica agora
ganha o lugar que deve ganhar: o de uma, e não a, esfera da atividade
humana, que deve ser sopesada com as demais.
12


10
Poderíamos reunir essas tendências sob o rótulo de “neurocriminologia” (CARVALHO,
Salo de. Antimanual de Criminologia. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008, p. 14).
11
onferir SOZZO, Máximo (Coord.) Reconstruyendo las Criminologías Críticas. Buenos
Aires: Ad Hoc, 2006, p. 10-11.
12
Sobre o tema: ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento, p.
28; HEIDEGGER, Martin. Serenidad. Disponível em: <www.heideggeriana.com.ar>.
Acesso em: 17 jul. 2007; DUARTE, André. Heidegger, a essência da técnica e as fábri-
cas da morte: notas sobre uma questão controversa. In: SOUZA, Ricardo Timm de; OLI-
VEIRA, Nythamar (Org.). Fenomenologia hoje. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001, p. 42;
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REVISTA NOVATIO IURIS – ano II – nº 3 – julho de 2009
A fim de escapar desse percurso difícil, a Criminologia fez uma fan-
tástica virada paradigmática e deslocou-se dos “bad actors” para os “po-
werfull reactors”.
13
Com isso, deixamos de ter como objeto de estudo o
“homem criminoso” de Lombroso e Ferri e passamos a estudar apenas os
processos de criminalização (Becker), hoje produzidos dentro de uma
“cultura de controle”, na feliz expressão de David Garland.
14

No entanto, não se tardou a reivindicar, e Larrauri já notava isso ce-
do,
15
uma espécie de retorno ao “micro”, sem prejuízo do “macro”, na
medida em que não nos basta a análise dos processos de criminalização,
mas também uma análise micro da conduta criminal, por mais ubíqua e
universal que seja, por mais que a cifra oculta nos indique que estamos
tratando apenas como uma pequenina e pouco representativa amostra da
criminalidade geral.
Isso, de certa forma, revigora o ideal etiológico. E as formas de re-
presentação que sustentam ainda os discursos criminológicos não deixam
de ser uma herança da Criminologia Crítica e, talvez, até da Criminologia
Positivista, ou mesmo antes dela. Especialmente quando o criminoso se
transforma em “produto do sistema capitalista” (delinqüente Robbin
Hood
16
) e a Criminologia Crítica se transforma em marxismo, a conquista
da Criminologia como investigação empírica parece dar adeus, e agora
temos apenas discursos – não é errado dizer – novamente metafísicos ou
ideológicos. Diante disso, e até com certa razão, o discurso etiológico
ganha força, retomado nas suas formas modernas que combinam psico-
logia comportamental, farmacologia e neurociências. “Desgraçado do
tempo em que os loucos guiam os cegos”, afirmou Shakespeare pela
boca de Glaucester, que, cego, não sabia explicar as causas de sua su-
posta e estranha queda e, por isso, agarrou-se a uma enganadora lógi-
ca.
17


SOUZA, Ricardo Timm de. Totalidade e desagregação: sobre as fronteiras do pensa-
mento e suas alternativas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996.
13
Conforme, por exemplo: FIGUEIREDO DIAS, Jorge de; COSTA ANDRADE, Manuel da.
Criminologia: o homem delinqüente e a sociedade criminógena. Coimbra: Coimbra Edito-
ra, 1992, p. 342 e segs.; ANDRADE, Vera Regina Pereira de. A ilusão de segurança jurí-
dica – do controle da violência à violência do controle penal. Porto Alegre: Livraria do Ad-
vogado, 1997.
14
GARLAND, David. La cultura del control: crimen y orden social en la sociedad contempo-
ránea. Trad. Máximo Sozxo. Barcelona: Gedisa, 2005.
15
LARRAURI, Elena. La herencia de la criminologia crítica. Madrid: Siglo Vienteuno, 2000.
p. 208-209.
16
LARRAURI, Elena. La herencia de la criminologia crítica, p. 176-177.
17
SHAKESPEARE, William. Rei Lear. Trad. Millôr Fernandes. Porto Alegre: L&PM, 1997. p.
97 e 110.
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Se a ciência passa a ser considerada na Modernidade como “campo
privilegiado para a revelação da verdade”,
18
é devido a um postulado me-
tafísico de que o verdadeiro é, em todos os casos, superior ao falso.
19

Este postulado proporcionou a aliança entre método, ordem e progresso,
que vieram anunciar a certeza epistemológica, segundo a qual o verda-
deiro está associado à representação da realidade de um mundo em que
“o racionalismo cartesiano torna cognoscível por via da sua decomposi-
ção nos elementos que o constituem”,
20
desde uma atribuição de causa e
efeito cuja idéia de ordem e estabilidade projetam a certeza das leis uni-
versais.
No entanto, não é mais possível retornar a isso. A herança foi
transmitida e, assim, inicia a tragédia
21
. O legado da Criminologia Crítica
é irreversível. Temos que avançar sobre seus ombros, não retornar a um
ponto anterior, ignorando seus avanços. O tempo trágico irrompe e implo-
de a cristalização, que se apresenta como a própria negação das mudan-
ças, ou antes, o contrário da corrosão temporal.
Constatamos, assim, que a figura do “criminoso” não existe, pois o
crime é fenômeno cultural, não pode ser acoplado à natureza, nada tendo
em comum a sonegação fiscal, a venda de DVD pirata, o tráfico de in-
fluência, o estupro, o aborto e a calúnia. São fatos totalmente heterogê-
neos definidos culturalmente como delitos. Por isso, a associação de
“causas” à criminalidade, como pretendem os investigadores da Crimino-
logia etiológica, não sobrevive a uma discussão epistemológica. Toda
ação humana tem causas, e inclusive causas biológicas, mas daí edificar
teorias generalizantes e, a partir disso, associar causas específicas que
contribuiriam para o delito significa imaginar, nas duas pontas, o delin-
qüente nato, de um lado, e, de outro, o delito natural, como se criminoso e
crime não fossem nomenclaturas que designam fatos contingentes e pes-

18
GAUER, Ruth. Conhecimento e aceleração (mito, verdade e tempo). In: GAUER, Ruth
(Org.). A qualidade do tempo: para além das aparências históricas. Rio de Janeiro: Lu-
men Iuris, 2004. p. 01.
19
MACHADO, Roberto. Nietzsche e a verdade. 2. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2002. p. 78.
20
SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências. 13. ed. Porto: Afronta-
mento, 2002. p. 17.
21
Tanto por um viés acerca da poética da tragédia, basicamente trabalhando com Aristóte-
les, quanto por um olhar desde a filosofia do trágico, abordando com Nietzsche, é neces-
sário para que a peça ocorra o momento do erro trágico. Aquilo que, para além das valo-
rizações e moralizações, permite que a peça exista enquanto tragédia – isto é, um dos
elementos que a caracterizam como trágica. Bom, fizemos, aqui, uma alusão à tragédia
shakespeariana Rei Lear, que só pode se consubstanciar após a transmissão, em vida,
da herança às filhas. Indicando esse ato como o erro trágico e colocando-o em diálogo
com as construções criminológicas, permitimo-nos tensionar as heranças (do Lear e da
Criminologia Crítica), a fim de apontar a crise e a crítica da Criminologia e, talvez, provo-
car um efeito catártico no pensamento criminológico.
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soas totalmente diferentes. Sem refletir devidamente, todas as Criminolo-
gias etiológicas aceitam como se fossem naturais fenômenos que depen-
dem de tempo e espaço, ou seja, da cultura em que estão inseridos.
22

Parece que a impossibilidade da etiologia coloca em xeque a discur-
so criminológico positivista. E já que falamos em xadrez, é interessante
notar a consideração de Nils Christie segundo a qual “los jugadores de
ajedrez, los buenos jugadores de ajedrez, sostienen que algo así como el
20% del ajedrez se desarolla en el nivel consciente. El resto es soñar” e o
sonho é, aqui, uma espécie de metáfora para elogiar a intuição e apontar
a insuficiência da consciência em dar conta da realidade. Ora, se “a ra-
cionalização consiste em querer prender a realidade num sistema coeren-
te, e tudo o que, na realidade, contradiz este sistema coerente é afastado,
esquecido, posto de lado, visto como ilusão ou aparência”,
23
estamos em
frente à própria negação da metáfora enquanto possibilidade de acesso
ao conhecimento. Diante desse enclausuramento, o giro: “a literatura
revela o valor cognitivo da metáfora, que o espírito científico rejeita com
desprezo”, assumindo a complexidade humana e a força da imagem,
desde uma comunicação entre realidades muito diferentes.
24

Metaforicamente, então, Machado de Assis vai às entranhas do
pensamento criminológico positivista, na sua coluna no periódico A Se-
mana, do dia 31 de maio de 1896. Ao tratar da fuga dos doidos do Hospí-
cio, Machado, além de brincar com a questão da loucura, questiona a
própria realidade:
Agora que fugiram os doudos [sic] do hospício e que outros tentaram
faze-lo (e sabe Deus se a esta hora já o terão conseguido), perdi
aquela antiga confiança que me fazia ouvir tranquilamente discursos e
notícias. [...] Uma vez que se foge do hospício dos alienados [...] onde
acharei método para distinguir um louco de um homem de juízo? [...]
Não posso deixar de desconfiar de todos. A própria pessoa, - ou para
dar mais claro exemplo, - o próprio leitor deve desconfiar de si. Certo
que o tenho em boa conta, sei que é ilustrado, benévolo e paciente,
mas depois dos sucessos dessa semana, quem lhe afirma que não
saiu ontem do Hospício? [...] O cálculo, o raciocínio, a arte com que
procederam os conspiradores da fuga, foram de tal ordem, que dimi-
nuiu em grande parte a vantagem de ter juízo.
Talvez não seja à toa que no mesmo final de século Guy de Mau-
passant escreva um surpreendente conto intitulado “Carta de um Louco,”

22
Por exemplo: CARVALHO, Salo de. Antimanual de criminologia, p. 200.
23
MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Trad. Eliane Lisboa. Porto Alegre:
Sulina, 2005. p. 70.
24
MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Trad.
Eloá Jacobina. 11. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005. p. 91.
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Criminologia e narratividade: fazendo ecoar a alteridade I
REVISTA NOVATIO IURIS – ano II – nº 3 – julho de 2009
datado de 1885. É um texto que se apresenta como uma carta destinada
para um médico e/ou psiquiatra, na qual o escritor demonstra o “mal sin-
gular de sua vida”, pedindo, caso fosse necessário, o seu próprio inter-
namento.
25
O inominado escritor afirma que vivia normalmente, “contem-
plando a vida com os olhos abertos e cegos do homem”, sem se espan-
tar, até que um dia percebeu que “tudo é falso”. O mal-estar vai se consti-
tuindo na medida em que percebe o quanto as mensagens sensoriais que
recebe são incertas e aparentes: mesmo os olhos, mesmo os ouvidos,
que são órgãos que nos fornecem informações, não conseguem captar a
extensão que constituí o mundo exterior.
26
A realidade é complexamente
irrepresentável.
4 Um novo percurso: criminologia e ética
O primeiro ponto para recuperarmos a dimensão “micro” na Crimino-
logia é ter em mente a questão ética. É nesse sentido que entendemos a
expressão tão utilizada pelo filósofo Emmanuel Levinas, da “ética como
filosofia primeira”. Quer dizer: precisamos partir da ética, desde o início, na
pesquisa, porque descobrimos – pela cruel experiência dos fatos – que não
existe ciência neutra, ainda mais quando essa ciência investiga o mundo
humano. Enquanto ação humana, a ciência jamais pode ser neutra.
O modelo de ética que nos propõe Levinas é aquele que não procu-
ra entender a “natureza humana” como algo natural ou não, mas preci-
samente “livrar” o ser humano desse mecanismo de tematização. É en-
tender o Outro como alguém com quem dialogo, e não um objeto que
tematizo. É precisamente esse referir a alguém, e não algo, que caracte-
riza o movimento ético. A tematização, ou representação do Outro no
interior da minha consciência, é precisamente o mecanismo que autoriza
a violência. Encarar o Outro como alguém – e esse alguém como Outro,

25
MAUPASSANT, Guy de. Carta de um louco. In: ______ . O Horla e outras histórias.
Tradução e seleção de textos: José Thomaz Brum, Porto Alegre: L&PM, 1986, p. 43-48.
Inicia o texto: “Caro doutor, eu me coloco nas suas mãos. Faça de mim o que o senhor
achar melhor. Vou descrever-lhe, de maneira bem franca, o meu estado de espírito, e o
senhor julgará se não seria melhor que tratassem de mim durante algum tempo em uma
casa de saúde, em vez de me deixar sujeito às alucinações e sofrimentos que me perse-
guem” (p. 43).
26
Idem, p. 43 e 44, respectivamente. Nas palavras de Maupassant: “Ora, não só este ser
exterior nos escapa por suas proporções, sua duração, suas propriedades infinitas e im-
penetráveis, suas origens, seu porvir ou seus fins, suas formas longínquas e suas mani-
festações infinitas, como nossos órgãos só nos fornecem informações incertas e pouco
numerosas sobre a parte dele que nos é acessível” (p. 44).
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quer dizer, como alteridade – é aquilo que nos permite escapar da violên-
cia representacional.
27

Portanto, para retornarmos à dimensão “micro” sem retomarmos a
violência do experimento – violência que os médicos nazistas e os crimi-
nólogos racistas brasileiros nos fizeram encarar – é necessário que as-
sumamos: para chegar ao micro, ao Outro-investigado, ao participante do
evento criminoso, é preciso que nos dirijamos a ele enquanto sujeito, e
não enquanto objeto. Mas a pergunta é: isso é possível?
5 A alteridade falando por si mesma
A Criminologia aproximou-se, e isso foi extremamente positivo, da
Sociologia. Poderíamos dizer que desde a Escola de Chicago
28
a ligação
entre esses campos do conhecimento é algo inevitável para uma análise
criminológica séria. Hoje em dia, criminólogos que fixam matrizes teóricas
para estudos de temas diversos têm o verniz sociológico no seu trabalho.
É preciso, no entanto, uma abertura transdisciplinar na Criminologia.
O que se propõe nesse artigo, como uma das múltiplas alternativas para
tentar compreender (no sentido hermenêutico) o Outro na sua fala, ainda
que essa fala se expresse por meio da violência, é a retomada da narrati-
vidade, em contraposição ao pensamento objetivista, calculador e técnico
da Scuola Positiva e da Criminologia etiológica em geral. A idéia é trans-
formar a segura posição do criminólogo tradicional, que emite um discur-
so representacional baseado em causas para o agir do Outro, em um
local de escuta, na qual ele é obrigado a tratar o Outro como sujeito, ouvir
seu ato, ainda que ilegítimo do ponto de vista da legitimidade jurídico-
política (cabe ao Direito Penal e à Política Criminal, e não à Criminologia,
ponderar e julgar desse ângulo).
29
Porque “cultivamos o hábito de viver
antes de adquirir o de pensar”, afirma Camus,
30
e viver é encontrar outros
(Levinas).
Propõe-se, pois, um exercício que passa por outro filósofo que se
caracteriza pelo desprezo à “representação”, entendida como reflexo
mental de uma realidade exterior, e pela retomada de dimensões não-

27
LEVINAS, Emmanuel. Entre nós: ensaios sobre a alteridade. 2. ed. Petrópolis: Vozes,
2005, passim.
28
Por exemplo: Figueiredo Dias e Costa Andrade, Criminologia, p. 268-288.
29
CARVALHO, Salo de. Antimanual de criminologia, p. 209.
30
CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Trad. Ari Roitman e Paula Watch. 4. ed, São Raulo:
Record, 2007. p. 21.
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representacionais do saber e do agir humano. Esse filósofo não é outro
senão Walter Benjamin, em seu famoso texto “O Narrador”.
31

6 O narrador de Benjamin:
aproximações entre narração e experiência
Walter Benjamin diagnostica que não é estranho que estejamos tão
distantes do que se chamava de narração: estamos “pobres de experiên-
cia”. Tudo estaria no seu nível mais baixo, bastando uma breve leitura de
periódicos para essa conclusão. Assim, no final da Guerra (no caso, Pri-
meira Guerra Mundial), constatou-se que os soldados que retornavam
estavam mais pobres, e não mais ricos, em experiência comunicável. É a
experiência que passa de pessoa a pessoa que constitui o conteúdo da
narração. Temos dois modelos de narrador: o camponês sedentário, que
viveu sua vida no seu país honestamente, e o marinheiro comerciante,
que viajou e “tem muito a contar”
32
. Esses dois modelos de histórias en-
cravadas no tempo, cheias de um sentido moral e de sabedoria prática,
são esmagadas pelas formas modernas de comunicação: o romance, que
se baseia no indivíduo isolado do mundo, desfazendo-se da tradição oral,
e a informação, que é ainda mais estranha à narrativa e ameaça o próprio
romance, pois se baseia na verificação imediata, precisa ser compreensí-
vel em si e por si, esgotando-se em si mesma e só tendo valor enquanto
novidade. A narração, ao contrário, nega-se a esgotar, não se entrega,
procura ser repetida e é na rede de repetição que ela ganha força, onde
tece sua rede. A narração não está interessada em transmitir o “puro em
si” da coisa narrada como a informação, mas “mergulha a coisa na vida
do narrador para em seguida retirá-la dele”, como a mão do oleiro na
argila do vaso. É não uma literatura, mas um trabalho manual.
33

Benjamin retoma, em seguida, a idéia de que as instituições higiêni-
cas burguesas retiraram do homem a circunstância do espetáculo da
morte. Era na morte, antigamente, que o saber do homem, sua experiên-
cia vivida, tornava-se transmissível. Na origem da narração está essa

31
Franz Rosenzweig seguramente foi influência de Benjamin no aspecto. Diz Rosenzweig
que “quien narra no quiere decir cómo ha sido ‘propriamente’ algo, sino cómo ese algo
ha efectivamente acontecido” (ROSENZWEIG, Franz. El Nuevo Pensamiento. Buenos
Aires: Adriana Hidalgo, 2005, p. 28). Sobre as relações entre Rosenzweig e Benjamin,
conferir, p. ex.: ALBERTINI, Francesca Albertini. Historia, Redención y Mesianismo en
Franz Rosenzweig y Walter Benjamin. In: El nuevo pensamiento, cit., p. 129-162. Confe-
rir ainda: SOUZA, Ricardo Timm de. Em torno à diferença: aventuras da alteridade na
complexidade contemporânea. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008.
32
Idem, p. 198-199.
33
Idem, p. 205.
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sabedoria prática, que se torna sua autoridade
34
. Benjamin ainda difere o
“sentido da vida”, que estaria correlato ao romance como a “moral da
história” estaria ligada à narrativa. “Quem escuta uma história está em
companhia do narrador; mesmo quem a lê partilha dessa companhia. Mas
o leitor de um romance é solitário”, diz o filósofo.
35

Dessa forma, essa sabedoria prática, perdida em meio ao conheci-
mento objetivante da ciência, que só se dá com o tempo e no tempo, co-
loca o narrador “entre os mestres e os sábios”.
36

A sede pelo conhecimento técnico nos afastou da sabedoria prática,
daquela que se dá na tensão temporal, não a superando, mas precisa-
mente se inserindo nessa condição. Quer dizer: fazemos exercícios para
“exorcizar o tempo”, quando é o tempo exatamente o mundo concreto em
que vivemos. Nas palavras de Camus, “infelizmente criamos máximas
para preencher as lacunas de nossa própria natureza”.
37
No delírio narci-
sista do conceito, acabamos confundindo o mundo real com a represen-
tação que nutrimos desse mundo, daí a “impressão de que esse mundo,
tal como parece, não existe”.
38
A narração pode ser uma ponte a ser co-
locada entre a realidade do tempo e o discurso científico, que, parado-
xalmente, alimenta-se de um mito formulado narrativamente – o “progres-
so”.
39

Nossa obsessão pela “informação” objetiva e calculista, pela preci-
são positivista, talvez tenha nos levado a um delírio – também parado-
xalmente – metafísico, no sentido dado por Heidegger à palavra. O exor-
cismo do tempo, a necessidade de abstração e da manipulação de jogos
conceituais nos afasta da nossa condição temporal que a narração recu-
pera. É muito mais realista uma narrativa transbordante da representação
do que a redução do rico mundo humano a meras tipologias, ainda que
tipologias ideais.
A historiografia tem constatado, por exemplo, a incapacidade da re-
presentação do fenômeno da catástrofe, exemplificada na Shoah, quando
“o momento de universalização que está na base da representação é
destruído devido à singularidade do evento-limite”.
40
A exigência de

34
Idem, pp. 207-208.
35
Idem, p. 213.
36
Idem, p. 221.
37
CAMUS, Albert. O Avesso e o Direito. Trad. Valerie Rumjanek. 6. ed. Rio de Janeiro:
Record, 2007, p. 22.
38
Idem, p. 27.
39
GAUER, Ruth Maria Chittó. Conhecimento e aceleração (mito, verdade e tempo). In:
______ . (Org.). A qualidade do tempo: para além das aparências históricas. Rio de Ja-
neiro: Lumen Iuris, 2004, p. 11.
40
SELIGMAN-SILVA, Márcio. A história como trauma. In: SILVA, Márcio Seligman; NES-
TROVSKI, Arthur (Org.). Catástrofe e representação. São Paulo: Escuta, 2000. p. 77.
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transparência do conceito não é respondida pelo excesso que habita o
mundo real em que vivemos. Há um “excesso de ser”, expressão de Levi-
nas.
41
Há uma realidade no encontro com a diferença e, diante dela, a
responsabilidade pela sua existência: “são os outros que me parecem
reais”, e diante disso, o encontro é inescapável
42
. Daí a importância de
falarmos em “espaço estético-criativo para as verdades e a experiência”,
diante do “final de uma visão da história, determinista, homogênea, totali-
zante, e do surgimento crescente de um ponto de vista que sustenta a
descontinuidade, a fragmentação, a falta de linearidade e a diferença,
junto com a necessidade dos encontros”.
43

7 Criminologia e literatura: a transdisciplinaridade levada a sério
Que aproximações é possível fazer entre a dimensão da narrativida-
de e a Criminologia? A primeira, sem dúvida, é a de aproximação com
experiências pessoais de criminalizados que evidenciem uma “sabedoria
prática”, entendida no sentido a-jurídico de formação de um “mundo” (no
sentido de Heidegger
44
) enquanto algo que organiza a experiência, e não
apenas como empilhado de objetos. Para tanto, e contanto que justiça – o
fundamento da ética – seja “dar voz ao Outro”, isso significa que a apro-
ximação deve permitir a “narração” do evento enquanto relato de uma
experiência.
45
Nesse caso, está na situação descrita por Lyotard, “onde
aquele que fala o faz do lugar do referente. Como narradora, ela é igual-
mente narrada. E de certa forma ela já é contada, e que ela mesma está
contando não anula o fato de que em alguma outra parte ela seja conta-
da”.
46

Por outro lado, e ainda que Benjamin considere a narrativa como al-
go distinto do romance, parece evidente que o recurso à literatura deve

41
SOUZA, Ricardo Timm de. Status questiones – trauma, história e realidade. In: Em torno
à diferença: aventuras da alteridade na complexidade contemporânea, p. 06.
42
CAMUS. O avesso e o Direito, p. 21 e 27.
43
WARAT, Luis Alberto. Metáforas para a ciência, a arte e a subjetividade. In: WARAT, L.
A. territórios desconhecidos: a procura surrealista pelos lugares do abandono do sentido
e da reconstrução da subjetividade. Florianópolis: Boiteux, 2004. v. 1, p. 529.
44
VATTIMO, Gianni. Introdução a Heidegger. Trad. João Gama. Lisboa: Piaget, 1996. p.
27-32.
45
Formar-se-ia assim a “contra-narrativa” de que fala Homi Bhabha. Vale a citação do
autor, transplantando-se a idéia de “nação” do seu texto para a de “sociedade” em ter-
mos criminológicos: “As contra-narrativas da nação que continuamente evocam e rasu-
ram suas fronteiras totalizadoras – tanto reais quando conceituais – perturbam aquelas
manobras ideológicas através das quais as ‘comunidades imaginadas’ recebem identida-
des essencialistas” (BHABHA, Homi K. O local da cultura. Trad. Myriam Ávila. Belo Hori-
zonte, UFMG, 1998. p. 211).
46
Apud BHABHA, Homi K. O local da cultura, p. 212.
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ser finalmente levado a sério. “No século XIX, enquanto o individual, o
singular, o concreto e o histórico eram ignorados pela ciência, a literatura
e, particularmente, o romance – de Balzac a Dostoievski e a Proust –
restituíram e revelaram a complexidade humana”, principalmente porque
a missão da literatura se apresentava como o inverso da missão científi-
ca. O recurso à metáfora, sempre desprezada pelo discurso científico,
revela a força e a fluidez da imagem rejeitada pela ciência
47
. Apesar de
há bastante tempo constar como aproximação imperativa para o alcance
de uma perspectiva transdisciplinar, pouco se fez para colocar em rede a
literatura com a Criminologia. Nas límpidas palavras de Edgar Morin:
Conclusão: literatura, poesia, arte, música, filosofia são constituintes
da cultura humanista. O desenvolvimento da cultura “santifica” a cultu-
ra especializada, a técnica ameaça e rechaça a cultura humanista;
contudo, a cultura é necessária, é vital também para todos os cientis-
tas, técnicos, políticos, enfim, para todos. Em todas as obras-primas,
eu repito, há um cosmos, há uma riqueza multidimensional de sensibi-
lidade, de conhecimento e, também, de pensamento.
48

Sem as restrições do método científico e chegando próxima a esse
excesso de ser irrepresentável que faz a Criminologia esbarrar na alteri-
dade, pode-se, por analogia, pensar como Bhabha que “a literatura possa
ser uma categoria emergente, prefigurativa, que se ocupa de uma forma
de dissenso e alteridade cultural onde termos não consensuais de afilia-
ção podem ser estabelecidos com base no trauma histórico”
49
. Luiz Edu-
ardo Soares anota, em comentário à recepção do seu livro de narrativas
“Cabeça de Porco”, co-escrito por MV Bill e Celso Athaíde:
Uma pergunta útil para quem se interessa por política e literatura, ci-
nema e teatro, é a seguinte: por que narrar é importante e produz re-
sultados interessantes? Antes de responder, proponho uma reflexão.
Stalin, o famigerado ditador soviético, certa vez declarou que “a morte
de milhões de pessoas é um acidente demográfico; a morte de um in-
divíduo é uma tragédia”. Ele sabia do que estava falando. Por expe-
riência própria. Matou milhões para passar à história como estadista,
em vez de assassino... O fato é que, na opinião pública, as emoções
estão diretamente relacionadas à individualização. Ou seja, só há
empatia com pessoas, não com números. Por isso, o relato de histó-
rias individuais pode ser uma fonte fértil para a extensão de uma rede
de identificação e empatia, que se traduz na difusão do sentimento de
solidariedade. Estabelecer laços de empatia – que não se confunde

47
MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Trad.
Eloá Jacobina. 11. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005, p. 91.
48
MORIN, Edgar. Inclusão: verdade da literatura. In: Edgar Morin: religando fronteiras.
Passo Fundo: UPF, 2004, p. 19.
49
BHABHA, Homi K. O local da cultura, p. 33.
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com piedade – significa humanizar o outro, e a humanização é o pri-
meiro passo para superar preconceitos. Superar preconceitos, por sua
vez, é o primeiro passo na difícil substituição da violência pela comu-
nicação.
50

Assim, realça-se o aspecto fundamental que se quer destacar: a ne-
cessidade de a Criminologia ir além da “informação”, uma vez que o
mundo humano – do qual, afinal, ela se ocupa – é mais rico que simples
objetivações, ainda válidas, desde que se assuma seu caráter aproximati-
vo e jamais esgotante dos fenômenos. Tal como um som, um cheiro ou
um passo, para recriar uma árvore na paisagem “só temos um detalhe,
mas que é suficiente”.
51
Isso porque a realidade mesma é inesgotável e o
existir é sempre mais do que o pensar sobre o existir; daí os vestígios
(Levinas) que impõem uma responsabilidade para além de nossas inten-
ções.
52

Por isso o objetivar, o cristalizar, é sempre totalizar, é sempre uma
espécie de violência. Uma violência representacional, cuja imunidade
asséptica é desnudada pela literatura – como ocorre, por exemplo, com o
mundo absurdo de Camus, em que “um homem sofre e passa por des-
graças e mais desgraças”, mas as causas permanecem quase sempre
como racionalizações alucinatórias – então, “que não nos venham contar
histórias. Que não nos venham dizer, sobre o condenado à morte: ‘Vai
pagar sua dívida com a sociedade’, e sim: ‘Vão cortar-lhe o pescoço”.
53

Interessante que este texto de Camus não está nada distante do choque
que o Explorador (personagem do conto Na Colônia Penal, de Kafka)
sofre ao saber do desconhecimento do condenado da sua própria senten-
ça, nem do sentido da violência da condenação, que irrompe menos co-
mo explicação e mais como imagem de um tempo penoso.
54

Na expressão de Warat, é “a poesia invadindo a ciência para esta-
belecer fendas nos conceitos, onde se instale a vida e se transforme o
geral e o abstrato em metáfora” – substituição do universal, do geral, pelo
múltiplo, ingeneralizável.
55

A criminologia, enquanto campo do conhecimento que trabalha inci-
sivamente com as violências e lugar transdisciplinar por excelência nas

50
SOARES, Luiz Eduardo. Para que serve escrever relatos? (02/01/2002). Disponível em:
<www.luizeduardosoares.com.br>. Acesso em: 13 jul. 2008.
51
CAMUS. O Avesso e o Direito, p. 58.
52
LEVINAS, Emmanuel. A ontologia é fundamental? In: Entre nós: ensaios sobre alterida-
de, p. 24.
53
CAMUS. O avesso e o Direito, p. 67 e 72, respectivamente.
54
CARONE, Modesto. Duas novelas de primeira (Posfácio). In: KAKFA, Franz. O veredicto
e Na colônia penal. Tradução e posfácio Modesto Carone. São Paulo: Cia das Letras,
1998.
55
WARAT. Metáforas para a ciência, a arte e a subjetividade, p. 530.
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ciências criminais, tem muita riqueza para ser trabalhada e explorada,
assim como a literatura e seus personagens dramáticos. Ainda assim,
porém, suas teorizações em regra são triviais, devido, talvez, à barreira
que o cientificismo edificou para a penetração da arte. Essa também é a
crítica de Nils Christie:
Largos informes sobre lo obvio. Repeticiones. Cálculos elaborados
que llevan a lo que ya sabemos. ¿Cómo puede ser esto? ¿Cómo
puede ser que tanta criminologia sea tan poço interesante, tediosa e
intensamente carente de nuevas intuiciones? Debería ser lo opuesto
en una ciencia basada en materiales de las áreas centrales del dra-
ma. Nuestras teorías estan fundadas en situaciones de conflicto y
heroísmo, peligro y catástrofe, abusos y sacrificios – justamente,
aquellas áreas en las que la mayor parte de nuestros héroes literarios
encuentran sus materiales. Y aun así, ¡son tan triviales!
56

Ora, o olhar científico do Mesmo esconde uma espécie de certidão
que os discursos criminológicos têm aceitado pacificamente. Uma certi-
dão científica para que seja possível fazer Criminologia; uma autolegiti-
mação, por assim dizer. Como acontece com os métodos e com as meta-
físicas, “pois métodos implicam metafísicas, e elas traem, à sua revelia,
as conclusões que às vezes pretende não conhecer ainda. Assim as últi-
mas páginas de um livro já estão nas primeiras. Este nó é inevitável”.
57
E
é neste nó que nós nos encontramos. Nós dos processos de escolariza-
ção e padronização de significados, cujos sentidos sofrem de um déficit
de perspectiva, já que as categorias criminológicas, cristalizadas, não
passam pela temporalidade, pretendendo-se eternas.
A Literatura, para além do rótulo de auxiliaridade que lhe tentou as-
sinalar a máquina de tortura do positivismo, talvez a mesma máquina
presente na “Colônia Penal”, é, enfim, uma aproximação do micro em
uma visão qualitativa, que assume a riqueza do mundo e instaura um
processo hermenêutico – investido pela ética – para escapar da violência
que foi própria dos pioneiros discursos criminológicos sobre o tema.
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56
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57
CAMUS. O mito de Sísifo, p. 26.
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História da
Criminologia Criminologia
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1. – Momento pré-científico
Antecedentes próximos
A. Pare (1575) – Livro sobre feridas e
mortes violentas; mortes violentas;
F. Fidelius (1598) – primeiro “Manual
de Medicina Legal”.
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Fisionomistas
Della Porta (1535-1616) – dos dados
fisionômicos de uma pessoa pode-se
deduzir seus caracteres psíquicos. Primeiro deduzir seus caracteres psíquicos. Primeiro
a fazer um “retrato do criminoso” – homem
de pele pálida, cabelo longo, grandes
orelhas e olhos pequenos.
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Fisionomistas
Lavater (1741-1801) – escreve em 1776 “a
arte de estudar a fisionomia” – estuda a
craneometria. Para ele, a beleza ou feiura são
reflexos da bondade ou maldade da pessoa.
Homem delinquente tem maldade natural, Homem delinquente tem maldade natural,
“tem o nariz oblíquo, não tem a barba
pontiaguda, tem a palavra negligente, olhos
grandes e ferozes, sempre iracundos,
brilhantes, as pálpebras abertas, círculos de
um vermelho sombrio a rodear a pupila, uma
lágrima colocada nos ângulos interiores, etc.”
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Fisionomistas
Marques de Moscardi – Juiz napolitano
que cria seu “Edito de Valério” – “quando
se tem dúvida entre dois presumidos
culpados condena-se o mais feio”. A forma culpados condena-se o mais feio”. A forma
processual era a seguinte: “ouvidas as
testemunhas de acusação e de defesa e
visto o rosto e a cabeça do acusado,
condeno-o...”
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Penitenciaristas
John Howard (1726-1790) - “The state of
prisions in England and Wales” de 1777 e prisions in England and Wales” de 1777 e
Bentham (1748-1832), formulam a tese da
reforma do delinquente como fim
prioritário da Administração.
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Frenologistas
Tentam explicar o comportamento humano
pela malformação cerebral. Franz Joseph
Gall (1758-1828) – estuda as
protuberâncias e depressões cranianas e as protuberâncias e depressões cranianas e as
relações com certos atos humanos. Cada
ponto cerebral é causador de um tipo de
crime: homicídio, patrimonial, de sentido
moral, etc.
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Frenologistas
Spurzhein (1776-1832), discípulo de Gall
traça uma carta craneoscópica – imitando as
geográficas.
Benito Morel (1809-1873) escreve um Benito Morel (1809-1873) escreve um
“Tratado da degenerescência física, intelectual
e moral da espécie humana” associando a
criminalidade à degeneração, descrevendo o
tipo “chinês e mongol” como delituosos.
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Pesos Cerebrais
1.400 gramas no homem
1.275 gramas na mulher
Escala do professor Mathiega de Praga:
1.400 trabalhador agrícola 1.400 trabalhador agrícola
1.433 operário artifíce
1.436 zelador de prédio
1.450 mecânico
1.468 funcionário público
1.472 médico
1.500 professor
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Antropologia
Surgem as ideias segundo as quais o
criminoso é uma variedade mórbida da
espécie humana.
Lucas (1805-1885) – enuncia o conceito de Lucas (1805-1885) – enuncia o conceito de
atavismo.
Gaspar Virgílio (1836-1907) e Cuby y Soler
(1801-1875) – em 1874 enunciam o conceito
de criminoso nato.
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Antropologia
Importante, também, Darwin (1809-1882):
é sua a concepção do criminoso como é sua a concepção do criminoso como
espécie atávica, não evolucionada; a
máxima significação concedida à carga ou
legado hereditário.
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Escola Cartográfica
Precursores do positivismo sociológico e do
método estatístico.
Delito é um fenômeno coletivo e fato social –
regular e normal – e regido por leis naturais, regular