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UMA CIDADE SEM PASSADO: um exemplo de produção de significados

A análise fílmica implica um exercício interpretativo que considere em seu processo a
multiplicidade de estímulos visuais e sonoros ao qual o espectador está exposto. Como já
mencionamos, na gênese desse tipo de trabalho encontram-se variáveis que vão desde o
contexto sócio-cultural do leitor/espectador e seu “capital cultural” até a capacidade de
interpretação crítica e decodificação dos códigos da linguagem cinematográfica. O trabalho
com filmes de ficção em sala de aula mostra-nos que a capacidade de leitura muitas vezes
esbarra nessas variáveis.

No exemplo que estamos trazendo, as leituras às quais nos referimos foram produzidas por
uma turma de graduação em Pedagogia, com alunos do terceiro período, majoritariamente. O
trabalho realizado com a turma seguia uma seqüência determinada: a) discussão de um ou
mais textos teóricos; b) projeção do filme; c) debate/discussão com o levantamento de
temáticas e demais aspectos relacionados à leitura de textos fílmicos; d) solicitação de um
trabalho com roteiro pré-estabelecido.

Nosso trabalho tem como um de seus pressupostos o de que todo texto fílmico apresenta uma
ou mais temáticas principais. Daí, Uma cidade sem passado nos traz questões que são
detectáveis sem dificuldades. Da leitura/análise dos docentes, destacamos:

* relação entre memória e esquecimento;

* papel das instituições de memória cultural – Biblioteca, Arquivos (NAMER, 1987)

* papel das instituições que guardam as tradições da comunidade – Igreja, Escola

* acesso à informação

* a atuação da mídia


Cabe ressaltar que a leitura/análise produzida por nós docentes é resultado de um trabalho que
envolve várias sessões conjuntas do filme com o grupo de pesquisa; discussões e
levantamento dos caminhos teóricos possíveis para análises; demarcação das relações
temáticas pertinentes. Quando o texto fílmico chega à sala de aula para os alunos, há uma
série de procedimentos já efetuados e textos teóricos sugeridos como leituras complementares
com o objetivo de levar o aluno a construir suas próprias leituras e, ao mesmo tempo, perceber
as potencialidades do trabalho com filme.

Uma cidade sem passado deve ser entendida dentro de um contexto específico que é o da
Alemanha de uma geração posterior àquela que vivenciou a II Guerra Mundial. Desta forma, à
pergunta qual o papel da minha cidade natal durante o III Reich, tema do concurso de redação
do qual a protagonista, Sonya, participa, diferentes respostas surgiram, conforme a geração
que vier a respondê-la. Os questionamentos da personagem principal não estão atrelados à
problemática de uma memória “vergonhosa” (NAMER, 1987) que se pretende esconder: a do
colaboracionismo. Sua busca inicia-se com uma memória já-dada: ao ser questionada sobre o
que iria escrever nesta redação, ela responde: “A verdade! Como Pfilzing resistiu ao nazismo!”
Já existe uma memória sobre os eventos da II Guerra naquela cidade: ela resistiu; os seus
habitantes não compactuaram com os horrores nazistas. No entanto, a busca de Sonya vai
mostrando que havia algo a ser esquecido. Tanto a memória quanto o esquecimento, como
constructos que sustentam as tradições locais, uniformizam os acontecimentos para a
comunidade e organizam os eventos e as figuras a serem comemoradas e homenageadas.
Assim, eles vão costurando, na trajetória daquela cidade, o que fica e o que vale para o seu
passado recente. Nessa perspectiva, esquecimento não é tomada em oposição à memória,
mas sim como elemento dela constitutivo.

"Quando observamos mais de perto a construção do passado, verificamos que o processo tem
muito pouco a ver com o passado e tudo a ver com o presente." Ou seja, nossos
questionamentos originam-se do presente. É do aqui e agora que olhamos para o passado e o
questionamos. Tal afirmação nos leva a pensar em um trabalho manipulativo onde o esforço
revisionista procura relevar alguns eventos e acontecimentos em detrimento de outros,
relegados à “lugares de sombra no qual nada pode ser visto e nenhuma pergunta pode ser
feita" (DOUGLAS, 1999, p.54).

O trabalho de Sonya é justamente esse. Em um momento específico, a Alemanha coloca-se tal
questão. Mas até que ponto ela deseja ouvir a resposta?

Dos 38 trabalhos de alunos lidos, podemos destacar algumas representações que se
construíram em perceptível alinhamento com as questões desenvolvidas na área da educação.
Outras foram desenvolvidas tendo em conta os debates em sala e a condução das discussões
em torno de Instituição, Poder e Memória. Uma, especificamente, emergiu sem que se
houvesse discutido em sala, revelando as reais possibilidades de um trabalho que conduza a
uma certa autonomia nas leituras. Finalmente, uma foi muito ignorada.

Instituições
1) As representações de FAMÍLIA são construídas tendo como referencial o universo dos
próprios discentes, pois ela (a FAMÍLIA) é vista como retrógrada/reacionária/tra






História, Memória e Silêncio no filme “Uma
Cidade Sem Passado”



Categoria: Cinema: Artigos e Críticas
Publicado em Sábado, 27 Fevereiro 2010 00:54
Escrito por Caio César Santos Gomes
Acessos: 21672
Uma cidade sem passado (Das Schreckliche Mädchen) é um filme alemão lançado em 1990 e tem
direção de Michael Verhoven. O filme, baseado em fatos reais conta a história da jovem estudante alemã
Sonia Rosenberger ( Lena Stolze), que após ganhar um concurso de redações recebe uma proposta
para participar de uma nova competição e para isso, deve escolher entre duas temáticas: Liberdade de
expressão na Europa ou minha cidade natal durante o III Reich.
Estimulada pelas histórias que ouvia desde criança, Sonia decide mostrar como a cidade e principalmente
a Igreja se mantiveram íntegras durante o período do III Reich.
Uma das características da produção são os depoimentos dos personagens ao longo do filme. Cada um
comenta sobre a pesquisa desenvolvida por Sonia o que dá ao filme uma característica de filme
documentário. A própria Sonia é a narradora da história. Outra característica importante é o fato da
primeira parte do filme, que mostra a infância e adolescência da protagonista ser em preto e branco e a
segunda parte, o desenvolvimento da trama propriamente dita ser colorida. Essa característica é utilizada
para chamar a atenção do espectador para a parte principal do filme, por isso as duas formas de exibição,
uma um pouco monótona e outra mais chamativa.
A trama começa quando a Sonia dá os primeiros passos em busca de informações sobre o passado,
visitando instituições de pesquisa e ouvindo as versões das pessoas mais próximas sobre os fatos
ocorridos na cidade durante o III Reich. Apesar da dedicação, as informações obtidas além de escassas,
não oferecem os subsídios necessários para o desenvolvimento do projeto. As pessoas envolvidas se
limitam a dar informações que possam contribuir para o desenvolvimento do trabalho, alegando não
lembrar o que acontecia na cidade ou mencionando apenas as histórias que envolvem o prefeito da
época pelo fato deste ser o “único” nazista declarado. Relembrar um passado marcado por situações
traumatizantes é o mesmo que remexer em uma ferida que ainda não cicatrizou completamente. Sendo
assim, o silêncio no filme surge como uma alternativa eficaz para o esquecimento de memórias
desconfortáveis ou comprometedoras.
Até mesmo as primeiras instituições de pesquisa visitadas por Sonia fecharam suas portas para a
estudante. As justificativas para a negação do acesso às fontes eram variadas. Por exemplo, o diretor do
arquivo e biblioteca da Igreja alegou que lá só havia obras teológicas, portanto, de pouco valor informativo
para os interesses da pesquisadora. Já a direção do jornal Pfilzinger Morgen, que havia permitido o
acesso às fontes por um momento, justificou a proibição do acesso ao acervo pelo fato dos documentos
estarem em processo de micro-filmagem. As restrições levavam em consideração o fato de Sonia
demonstrar uma curiosidade aguçada pelo assunto e isso foi visto pelos que tentavam manter as
lembranças do passado na escuridão como uma ameaça à manutenção da memória/história socialmente
construída.
O trabalho desenvolvido por Sonia divide-se em dois momentos: o primeiro corresponde à competição
para a qual a pesquisadora foi convidada a participar e o segundo, já com o prazo do concurso expirado é
quando a protagonista faz da pesquisa uma causa social. Cabe salientar que a princípio, o trabalho não
tinha como foco a memória vergonhosa a qual todos na cidade preferem ocultar. Inicialmente o objetivo
era mostrar “a verdade” e como a cidade resistiu ao nazismo. Entretanto, o desdobramento da pesquisa
revelou que muitos fatos da história da cidade foram ocultados, visto que muitos moradores
demonstravam preocupação ao saber que a pesquisadora pretendia remexer no passado. Neste caso, o
esquecimento é tomado como um elemento constitutivo da memória coletiva, um instrumento eficaz para
apagar a memória vergonhosa, indizível ou proibida.
Além dos moradores da cidade de Pfilzing, algumas instituições sociais mostradas no filme
desempenham papeis importantes para a manutenção do silêncio. O Estado (na figura das autoridades
locais) aparece enquanto instrumento de controle da memória coletiva e para isso tem o apoio da igreja,
da escola e das famílias, corroborando a ideia de que a memória coletiva, além de uma conquista das
sociedades, é também um instrumento que confere poder. Na tentativa de impedir que o passado
vergonhoso venha à tona, os moradores de Pfilzing não compactuam com as ideias da pesquisadora, que
passa a ser hostilizada pelos compatriotas sob acusações de ser espiã, comunista e judia.
Apesar das adversidades Sonia não desiste de dar encaminhamento ao seu trabalho e para isso, em
várias ocasiões precisa processar a própria cidade para ter acesso às fontes que necessitava para a
elaboração da pesquisa. De posse dos documentos Sonia finalmente confirma suas suspeitas de que
algo de ruim havia sido ocultado na cidade. Os motivos que levavam a população e as instituições sociais
a tentar manter o passado na escuridão eram vários, desde a existência de campo de concentração na
cidade a experimentos com seres humanos e até o envolvimento de dois padres (que ainda estavam
vivos) na prisão de um judeu inocente. Após a revelação dos fatos e o reconhecimento da imprensa
internacional pelo trabalho de revisão da história recente, Sonia passa da condição de vilã a heroína por
ter mostrado a população de Pfilzing “a verdade que estava escondida”.
A trama de uma cidade sem passado revela questões inerentes à memória da 2ª Guerra Mundial, uma
vez que, os fatos apresentados na produção referem-se ao período do III Reich. Entretanto, não é
somente os fatos em si o que mais chama atenção no filme, mas também os mecanismos utilizados pelas
instituições sociais da cidade na tentativa de silenciar a memória coletiva, memória esta que não tem
nada de glorioso para se rememorado e comemorado.Pelo que se observa na produção, a construção da
memória tem muito pouco a ver com o passado e tudo a ver com o presente, ou seja, apesar das
informações serem originárias do passado a construção da memória coletiva ocorreu por meio do olhar e
dos interesses do presente.
O trabalho de revisão da história feito pela protagonista mostrou como se dá o processo de construção
da memória coletiva, do esquecimento e do silêncio. Observa-se também que alguns indivíduos (no caso
do filme, Sonia) muitas vezes teimam em rememorar aquilo que os protagonistas da memória coletiva
(sociedade de Pfilzing) em um nível global se esforçam para minimizar ou até mesmo eliminar.
Uma cidade sem passado é um filme que potencializa as discussões atuais em torno das memórias
silenciadas ou esquecidas. Além disso, mostra como a memória sobre o passado consiste em algo para
ser rememorado ou esquecido visto que, na época em que se passa o filme, os alemães viviam um
momento de vergonha pelos acontecimentos provocados pelo regime nazista.

FONTE:
Filme: Uma cidade sem passado.
Diretor:Michael Verhoeven
Ano e local de produção: 1990, Alemanha.
*Sobre o autor: Caio César Santos Gomes é graduado em História pela Universidade Tiradentes (2008) e
Especialista em Ensino de História: novas abordagens pela Faculdade São Luís de França
(2010). caiocsg20@hotmail.com

Existem duas versões para um mesmo acontecimento histórico. Uma
proveniente de documentos escritos e monumentos que são cuidadosamente
analisados através de métodos científicos. É a história oficial aceita pelo
Estado e imposta por ele, por uma classe dominante, ou pela igreja. A outra
constitui-se na memória coletiva que transmite informações de
acontecimentos e culturais através da oralidade. Esta transmissão é uma
tentativa de manter uma cultura viva ou um fato importante como lembrança
à geração atual. É também uma forma de os mortos terem sua última chance
de falar. Porém, o Estado ou uma classe dominante poderosa pode tentar
suprimi-la ou apagar parte dela em detrimento do que eles consideram como
a versão histórica oficial. No filme Uma Cidade sem Passado de Michael
Verhoeven, baseado em fatos reais, a estudante Sonya Rosemberger ao
participar de um concurso de redação, cujo tema era Minha cidade durante o
III Reich depara-se com essa dificuldade quando ela inicia as pesquisas sobre o
tema sem conseguir facilmente acesso aos arquivos municipais do período e
encontrando resistência das pessoas que solicitava depoimentos acerca do
tema.
Chama atenção que a própria personagem principal inicia a narrativa. Isso dá
a impressão de que ela mesma busca recuperar de sua memória o
acontecimento mais importante de sua vida. As cenas do passado são em
preto e branco, enquanto as de sua época atual são coloridas. O diretor pode
ter escolhido esse aspecto de filmagem para situar o espectador em cada
época que a filmagem transcorre ou chamar a atenção.
O filme passa-se na Alemanha de 1970. Ele inicia com a personagem principal
chamada Sonya narrando a história e mostrando os locais em que viveu. É o
período da guerra fria. O país está dividido em dois e um muro corta ao meio
a capital Berlim, separando o lado comunista do capitalista. Ela mora com os
pais na denominada Alemanha Ocidental, numa cidade chamada Pfilzing. Lá,
estuda numa escola tradicional, onde sua mãe leciona Religião e as normas de
comportamento eram extremamente conservadoras. Sua família mora no
mosteiro A garota interessa-se em participar de um concurso de redação após
convite de uma professora. Vence-o e decide participar pela segunda vez. A
temática a qual ela escolheu foi sobre sua cidade durante a Segunda Guerra
Mundial. Inicialmente, a menina começou a sondar parentes e amigos sobre
um padre que havia sido fuzilado por ser contra as leis racistas. Eles
recomendaram que falasse com um de seus professores, mas em vão. O
mesmo resultado a jovem estudante obteve ao procurar por informações na
biblioteca da escola. O curador do local respondeu-lhe que ali só havia obras
teológicas. Sonya tentou o Arquivo Municipal, mas não conseguiu acesso. Sua
avó passou a contar o que sabia sobre sua vivência daquela época e a
aconselhá-la a todo momento. Os depoimentos dela indicavam a possibilidade
de famílias da elite local, dos seus políticos atuais e da igreja terem cometido
atrocidades em favor do nazismo. Graças a isso, a persistência e a
curiosidade, a neta lançou-se para mais tentativas frustrantes de entrevista. A
partir daí, sua busca tornava-se o trabalho acadêmico da sua vida. O tempo
passa. Ela se casou com o seu ex-professor de física, tem filhos e na
universidade continua a procurar por informações que provem o que está
hipotetizando. Procurou por novos dados nos jornais daquele período que
noticiavam padres denunciando judeus. Seu marido descobriu que o ex-
professor de história dela apoiava o nazismo. A jovem agora acadêmica
conseguiu mais oportunidades de entrevistas. As barreiras de acesso a
documentos continuaram. O prefeito era um dos que mais dificultavam o
trabalho. A família de Sônia começou a receber ameaças por telefone devido
aos possíveis resultados dele que ameaçavam a manutenção da ideia de
integridade de várias pessoas da cidade. Sonya processa a cidade para
conseguir acesso aos documentos necessários à pesquisa, porém ela apenas
consegue a liberação quando levou a imprensa televisiva ao local exigindo a
liberação deles. Tempos depois, ela apresentou a conclusão da pesquisa na
universidade da localidade. Houve gente da elite, membros atuais do governo
local e religiosos envolvidos com crimes nazistas. Recebe um prêmio que se
negou a aceitar, pois questionou a quem o dava sobre se tinha medo de que
ela desenterrasse mais coisas obscuras. Estava desesperada naquele evento.
Relembra de sua época de adolescente e busca, com o filho nos braços, um
refúgio na memória: a árvore dos milagres, onde todos faziam pedidos e
orações a Deus. Representava sua sabedoria.
Essa cinematografia demonstrou as principais características à condução de
uma pesquisa historiográfica. Primeiramente, ela teve um motivo que foi o
concurso de redação e depois uma perturbação, devido ao silêncio e as
barreiras, as quais ela se deparou. Durante o transcorrer da narrativa,
percebeu-se que Sonya utilizou métodos denominados convencionais e outros
modernos de exploração histórica. Os primeiros foram os documentos escritos
como os jornais da Segunda Guerra Mundial e os do Arquivo Municipal que
conseguiu com muita dificuldade, mas essa é uma característica de todo o
pesquisador. Marc Bloch diz em Introdução à História que reuni-los é uma das
tarefas mais difíceis que cabem ao historiador. Eles representam os
testemunhos deixados pela elite, pelo Estado e a igreja que cometeram
crimes contra a humanidade na cidade de Pfilzing. Os segundos fazem parte
da chamada história oral. São os depoimentos pessoais de quem vivenciou a
época, porém a fim de torná-los utilizáveis de maneira formal a personagem
usou outro método moderno: a gravação em áudio daquilo que lhe era
narrado. Nessa forma de pesquisar, a estudante sofreu um espancamento,
pois a pessoa a ser entrevistada não desejava que a conversa fosse gravada.
Após realizar a coleta dos mais variados tipos de informações, ela, sempre
auxiliada pela família, começou a analisá-las em busca de fatos que se
contradizem e daqueles que tornaram sua hipótese em teoria. Após isso, o
quebra-cabeças foi montado.
Um dos aspectos mais intrigantes do filme foi o silêncio das pessoas.
Aparentemente, todas estavam conscientes de que falar sobre o período da
Segunda Guerra na cidade poderia colocar suas vidas e a de suas famílias em
risco. A cultura da Alemanha Ocidental pareceu rejeitar a importada dos
Estados Unidos que os jovens adoravam como a música e as gírias. Os pais de
Sonya não toleravam. Esses aspectos remetem à ideia do senso comum, o que
pertence ao cotidiano e não diz respeito à ciência.
Na questão de ética, Sonya foi muito além daquilo que seria considerado
normal para conduzir uma pesquisa. Ela se envolveu extremamente com o
trabalho acadêmico, colocando sua própria vida e a de sua família em risco.
No entanto como futura historiadora, conseguiu reconstituir graças ao
cruzamento de depoimentos orais com os escritos o passado recente da cidade
e dar a oportunidade de se fazer uma revisão sobre ele, pois o que as
instituições (Estado e igreja) consideravam a história oficial contradizia-se
com as descobertas. A jovem acadêmica demonstrou amor à pesquisa, um
forte interesse por descobrir, entender e publicar, mesmo conhecendo os
riscos que corria, pois havia algo maior em jogo: o fato que nenhuma verdade
permanece eterna, pois ela depende da interpretação e de quem controla a
informação, pelo menos antes de a internet existir.
O filme destacou três locais importantes à personagem. A árvore dos milagres
foi o mais memorável. Seu tronco com centenas de imagens fixadas e velas ao
redor, onde se deixava pedidos a Deus pelas adolescentes foi uma
representação simbólica construída pelo diretor para dizer que a personagem
procurava por refúgio na sabedoria. A escola administrada por membros da
igreja demonstrou a conhecida educação tradicional alemã com suas aulas de
latim e sua rigidez imutável quanto às regras, porém também mostrou a falta
de ética dos professores que facilitavam antecipando as respostas das
avaliações a quem mais contribuía financeiramente. Por último, o Arquivo
Municipal é o lugar onde as respostas a toda questão se encontra. Nele, os
documentos de todas as épocas do lugar eram armazenados e liberados
quando permitido aos pesquisadores.
Uma Cidade Sem Passado é interessante para aprender um pouco sobre o
ofício de pesquisar. Foi um filme peculiar que nos remete de volta no tempo e
desperta curiosidade, embora a maioria dele parece monótono. Contudo, ele
serve também para revisar a História Contemporânea: o silêncio que os
alemães fazem sobre a Segunda Guerra. Depois de vê-lo, seria interessante
assistir à Lista de Shindler do Diretor Steven Spielberg, cuja filmografia foi
feita totalmente em preto e branco para transportar o telespectador em uma
viagem ao passado.
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