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Filosofia moderna

Marilena Chaui
Universidade de S. Paulo, USP
1. Problemas de cronologia: Quando começa a "filosofia moderna"
Freqüentemente, os historiadores da filosofia designam como filosofia moderna aquele saber
que se desenvolve na Europa durante o século XVII tendo como referências principais o
cartesianismo — isto é, a filosofia de ené !escartes —, a ciência da "ature#a galilaica — isto
é, a mec$nica de %alileu %alilei —, a nova idéia do conhecimento como s&ntese entre
observa'(o, e)perimenta'(o e ra#(o te*rica baconiana — isto é, a filosofia de Francis +acon —
e as elabora',es acerca da origem e das formas da soberania pol&tica a partir das idéias de
direito natural e direito civil hobbesianas — isto é, do fil*sofo -homas .obbes/
"o entanto, a cronologia pode ser um critério ilus*rio, pois o fil*sofo +acon publica seus
Ensaios em 0123, enquanto o fil*sofo 4eibni#, um dos e)poentes da filosofia moderna, publica
a Monadologia e os Princípios da Natureza e da Graça em 0305, de sorte que obras essenciais
da modernidade surgem antes e depois do século XVII/ 6uitos historiadores preferem locali#ar
a filosofia moderna no per&odo designado como Século de Ferro, situado entre 0117 e 0887,
tomando como referência as grandes transforma',es sociais, pol&ticas e econ9micas tra#idas
pela implanta'(o do capitalismo, enquanto outros consideram decisivo o per&odo entre 080: e
085:, isto é, a %uerra dos -rinta ;nos, que delineia a paisagem pol&tica e cultural da Europa
moderna/
Entretanto, essas datas e per&odos podem convidar a um novo equivoco, qual se<a, o de
estabelecer uma rela'(o causal direta entre acontecimentos s*cio=pol&ticos e a constitui'(o dos
conhecimentos filos*ficos, cient&ficos e técnicos, ou a cria'(o art&stica/ ela'(o entre eles, sem
d>vida, e)iste/ 6as n(o é linear nem causal? idéias e cria',es podem estar em avan'o ou em
atraso com rela'(o aos acontecimentos s*cio=pol&ticos e econ9micos, n(o porque pensadores e
artistas se<am criaturas fora do espa'o e do tempo, mas porque tudo depende da maneira
como enfrentam quest,es colocadas por sua época, indo além ou ficando aquém delas/ Em
resumo, a rela'(o entre uma obra e seu tempo n(o é a do mero refle)o intelectual de
realidades sociais dadas/ @m pensador e um artista se dirigem aos seus contempor$neos, mas
isto n(o significa que se<am, em suas idéias e cria',es, contempor$neos de seus destinatArios/
Baptam as quest,es colocadas por sua época, mas isto n(o significa que sua época capte as
respostas por eles encontradas ou criadas/ Cor esses motivos, muitos historiadores das idéias
consideram que pensadores e artistas, afinal, criam seu pr*prio p>blico, as obras produ#em
seus destinatArios, tanto os contempor$neos quanto os p*steros/
; cronologia pode ser enganadora quando pretendemos tra'ar os contornos de uma época de
pensamento/ ;ssim, por e)emplo, a inaugura'(o da idéia moderna da pol&tica como
compreens(o da origem humana e das formas do Coder, como compreens(o do Coder
enquanto solu'(o que uma sociedade dividida internamente oferece a si mesma para criar
simbolicamente uma unidade que, de fato, n(o possui, é uma inaugura'(o bem anterior ao
século XVII, pois foi feita por 6aquiavel/ Cor outro lado, a idéia de que a pol&tica é uma esfera
de a'(o laica ou profana, independente da religi(o e da Igre<a, tema caro aos fil*sofos
modernos, foi desenvolvida no final da Idade 6édia por um <urista como 6ars&lio de CAdua/
-ambém a idéia do valor e da import$ncia da observa'(o e da e)periência para o
conhecimento humano aparece nos fins da Idade 6édia com fil*sofos como oger +acon ou
%uilherme de DcEam/ ; e)trema valori#a'(o da capacidade da ra#(o humana para conhecer e
transformar a realidade — a confian'a numa ciência atia ou prAtica em oposi'(o ao saber
contemplatio — é uma das caracter&sticas principais do chamado !umanismo, desenvolvido
durante a enascen'a/ Em contraposi'(o F perspectiva medieval, que era teocêntrica G!eus
como centro do conhecimento e da pol&ticaH, os humanistas procuram laici#ar o saber, a moral
e a pol&tica, tomando como centro o !omem "irtuoso/
Cara contornar essas dificuldades, muitos historiadores da filosofia se habituaram a designar o
enascimento como um período de transiç#o para a modernidade ou a ruptura inicial face ao
saber medieval que preparou o advento da filosofia moderna/ "esta perspectiva, o
enascimento apresentaria duas caracter&sticas principais? por um lado, seria um momento de
grandes conflitos intelectuais e pol&ticos Gentre plat9nicos e aristotélicos, entre humanistas
ateus e humanistas crist(os, entre Igre<a e Estado, entre academias leigas e universidades
religiosas, entre concep',es geocêntricas e heliocêntricas, etc/H, e, por outro lado, um
momento de indefini'(o te*rica, os renascentistas n(o tendo ainda encontrado modos de
pensar, conceitos e discuss,es que tivessem abandonado definitivamente o terreno das
polêmicas medievais/ D enascimento teria sido época de grande efervescência intelectual e
art&stica, de grande pai)(o pelas novas descobertas quanto F "ature#a e ao .omem, de
redescobertas do saber greco=romano liberado da crosta interpretativa com que o cristianismo
medieval o recobrira, de dese<o de demolir tudo quanto viera do passado, dese<o favorecido
tanto pela chamada $eoç#o Moderna Ga tentativa de reformar a religi(o cat*lica romana sem
romper com a autoridade papalH quanto pela %eforma Protestante e pelas guerras de religi(o,
que abalaram a idéia de unidade européia como unidade pol&tico=religiosa e abriram as portas
para o surgimento dos Estados -erritoriais 6odernos/
;o mesmo tempo, no entanto, a indefini'(o e os conflitos teriam feito da enascen'a um
per&odo de crise/ Em primeiro lugar, crise da consciência, pois a descoberta do universo infinito
por homens como %iordano +runo dei)ava os seres humanos sem referência e sem centroI em
segundo lugar, crise religiosa, pois tanto a !evo'(o 6oderna quanto a eforma Crotestante
criaram infinidade de tendências, seitas, igre<as e interpreta',es da Jagrada Escritura, dos
dogmas e dos sacramentos, de modo que a referência F idéia de Bristandade, central desde
Barlos 6agno, se perderaI em terceiro lugar, crise pol&tica, pois a ruptura do centro c*smico Go
universo é infinitoH, a perda do centro religioso Go papadoH, a perda do centro te*rico
Ggeocentrismo, aristotelismo tomista, mundo hierArquico de seres e de idéiasH foi também a
perda do centro pol&tico Go Jacro Império omano %erm$nico destro'ado pelos reinos
modernos independentes e pelas cidades burguesas do capitalismo em e)pans(oH e de suas
institui',es Gpapa, imperador, !ireito omano, !ireito Ban9nico, rela',es sociais determinadas
pela hierarquia da vassalagem entre os nobres e pela clara divis(o entre senhores e servos,
das rela',es econ9micas definidas pela posse da terra e pela agricultura e pastoreio, com o
artesanato urbano apenas subsidiArio para o pequeno comércio dos burgosH/
D resultado da transi'(o, da indefini'(o e da crise, conforme muitos historiadores, foi o
ceticismo filos&fico, cu<os maiores e)poentes teriam sido 6ontaigne e Erasmo/
J* muito recentemente, os historiadores das idéias e da hist*ria s*cio=pol&tica desfi#eram essa
imagem da transitoriedade e indefini'(o renascentistas, mostrando haver o enascimento
criado um saber pr*prio, com conceitos e categorias novos e sem os quais a filosofia moderna
teria sido imposs&vel/
;ssim, por e)emplo, o historiador das idéias e das institui',es européias, 6ichel Foucault, no
livro 's Palaras e as (oisas G)es Mots et les (hosesH, considera o enascimento um per&odo
em que os conhecimentos s(o regulados por um conceito fundamental? o conceito de
Semelhança, gra'as ao qual s(o pensadas as rela',es entre seres que constituem toda a
realidade, motivo pelo qual ciências como a medicina e a astronomia, disciplinas como a
ret*rica e a hist*ria, teorias sobre a nature#a humana, a sociedade, a pol&tica e a teologia
empregam conceitos como os de simpatia e antipatia Gnas doen'as e nos movimentos dos
astrosH, de imita'(o ou emula'(o Gentre os seres humanos, entre as coisas vivas, entre
humanos e coisas, entre o vis&vel e o invis&vel, como no caso da alquimiaH, conceitos que nada
têm a ver com a KmagiaK como supersti'(o, mas com a magia como forma de revela'(o do
oculto pelos poderes da mente humana, isto é, a Jemelhan'a define um certo tipo de saber e
um certo tipo de poder/ -ambém é central o conceito de amizade, como atra'(o natural e
espont$nea dos iguais Ganimais, humanosH e que serve de referência para pensar=se a figura
do tirano como inimigo do povo e criador de reinos regulados pela inimi#ade rec&proca Gforma
de compreender as divis,es sociais e os conflitos entre poder e sociedadeH/
; "ature#a é pensada como um grande -odo Vivente, internamente articulado e relacionado
pelas formas variadas da Jemelhan'a, indo dos minerais escondidos no fundo da terra ao
brilho dos astros no firmamento, das coisas aos homens, dos homens a !eus/ Essa idéia de
totalidade vivente se e)prime na frase de %iordano +runo? K; "ature#a opera a partir do
BentroK G)a Natura opra dal centroH/ Essa mesma idéia permite distinguir uma hist*ria humana
e uma hist*ria natural no sentido da diferen'a entre a',es humanas, que têm poder de
transforma'(o sobre a realidade, e as a',es que nada podem sobre a "ature#a enquanto obra
divina, idéia que se e)prime na filosofia da hist*ria de Vico/
; idéia de imita'(o aparece na teoria pol&tica quando alguns humanistas Gsobretudo os
humanistas crist(os como Erasmo e -homas 6orusH consideram que as qualidades Gvirtudes
ou v&ciosH dos governantes s(o um espelho para a sociedade inteira, de tal modo que num
regime tir$nico os s>ditos ser(o tiranos também/ Essa idéia de um imenso espelho reaparece
no ensaio de 4a +oétie, $iscurso da Serid#o "olunt*ria, mas com uma grande inova'(o? n(o
é o tirano que cria uma sociedade tir$nica, mas é a sociedade tir$nica Ga sociedade onde
homens dese<am a servid(oH que produ# o tirano, o seu espelho/
; imita'(o também aparece no grande prest&gio da ret*rica que ensina a imita'(o dos grandes
autores e artistas clAssicos da antigüidade, mas n(o como repeti'(o ou reprodu'(o do que eles
pensaram, escreveram ou fi#eram, e sim como recria'(o a partir dos procedimentos antigos/ ;
erudi'(o, uma das principais caracter&sticas dos humanistas, n(o é ac>mulo de informa',es,
mas uma atitude polêmica perante a tradi'(o Grecusar a apropria'(o cat*lica da cultura
antigaH/ Isto aparece com grande clare#a nos historiadores que procuram conhecer fontes
primArias e documentos originais a fim de elaborar uma hist*ria ob<etiva e patri*tica, isto é,
uma hist&ria nacional que se<a, por si mesma, a refuta'(o da legitimidade da domina'(o da
Igre<a omana e do Império omano %erm$nico sobre os Estados "acionais/ ; erudi'(o
também serve, <untamente com a ret*rica, para um tipo muito peculiar de imita'(o dos
antigos? aquela que é feita pelos escritores com a finalidade de criar uma l&ngua nacional culta,
rica, bela e que substitua o imperialismo do latim/ ;ssim, em todas as esferas das atividades
culturais pode=se perceber que a famosa Krenascen'a dos antigosK n(o tem uma finalidade
nostAlgica e sim polêmica e criadora, que di# respeito ao presente e Fs suas quest,es/
!. "lguns as#ec$os do %enascimen$o, da %eforma e da Con$ra&%eforma
!o lado do que denominamos enascimento, encontramos os seguintes elementos definidores
da vida intelectual? 0H surgimento de academias laicas e livres, paralelas Fs universidades
confessionais, nas quais imperavam as vers,es cristiani#adas do pensamento de Clat(o,
;rist*teles, Clotino e dos Est*icos e as discuss,es sobre as rela',es entre fé e ra#(o, formando
clérigos e te*logos encarregados da defesa das idéias eclesiAsticasI as academias redescobrem
outras fontes do pensamento antigo, se interessam pela elabora'(o de conhecimentos sem
v&nculos diretos com a teologia e a religi(o, incentivam as ciências e as artes Gprimeiro, o
classicismo e, depois da Bontra=eforma, o maneirismoHI LH a preferência pelas discuss,es em
torno da clara separa'(o entre fé e ra#(o, nature#a e religi(o, pol&tica e Igre<a/ Bonsidera=se
que os fen9menos naturais podem e devem ser e)plicados por eles mesmos, sem recorrer F
continua interven'(o divina e sem submetê=los aos dogmas crist(os Gcomo, por e)emplo, o
geocentrismo, com a -erra im*vel no centro do universoHI defende=se a idéia de que a
observa'(o, a e)perimenta'(o, as hip*teses l*gico=racionais, os cAlculos matemAticos e os
princ&pios geométricos s(o os instrumentos fundamentais para a compreens(o dos fen9menos
naturais G+runo, Bopérnico, 4eonardo da Vinci sendo os e)poentes dessa posi'(oH/
!esenvolvem=se, assim, tendências que a ortodo)ia religiosa bloqueara durante a Idade 6édia,
isto é, o naturalismo Gcoisas e homens, enquanto seres naturais, operam segundo princ&pios
naturais e n(o por decretos divinos providenciais e secretosHI MH interesse pela ciência ativa ou
prAtica em lugar do saber contemplativo, isto é, cren'a na capacidade do conhecimento
racional para transformar a realidade natural e pol&tica, donde o interesse pelo
desenvolvimento das técnicas Grespondendo a e)igências intelectuais e econ9micas da época,
quando o capitalismo pede instrumentos que se<am aumentadores da capacidade das for'as
produtivasHI 5H altera'(o da perspectiva da fundamentaç#o do saber, isto é, passagem da
vis(o teocêntrica G!eus como centro, principio, meio e fim do realH para a naturalista e para a
humanista/ ;qui, duas grandes linhas se desenvolvem? de um lado, a discuss(o sobre a
essência da alma humana como racional e passional, de sua for'a e de seus limites,
condu#indo Fquilo que, mais tarde, seria conhecido como o Su+eito do (onhecimento ou a
Sub+etiidade, que, no enascimento, ainda se encontra mais pr*)ima de uma Kpsicologia da
almaK e de uma moral, enquanto na filosofia moderna estarA mais voltada pelo que seria
chamado de Epistemologia Gdessa preocupa'(o com o homem, "icolau de Busa, Ficino, Erasmo
e 6ontaigne ser(o os grandes e)poentesHI e, de outro lado, a discuss(o em torno dos
fundamentos naturais e humanos da pol&tica/ "esta, três linhas principais se desenvolvem/ ;
primeira, vinda dos populistas e conciliaristas medievais e da hist*ria patri*tica e republicana
das cidades italianas, encontra seu ponto mais alto e controvertido em 6aquiavel que, além de
desmontar as concep',es clAssicas e crist(s sobre o Kbom governante virtuosoK e de uma
origem divina, ou natural ou racional do poder, funda o poder na divis(o originAria da
sociedade entre os %randes Gque querem oprimir e comandarH e o Covo Gque n(o quer ser
oprimido nem comandadoH, a 4ei sendo a cria'(o simb*lica da unidade social pela a'(o pol&tica
e pela l*gica da a'(o Ge n(o pela for'a, como se costuma suporH/ "a segunda linha, a
discuss(o se volta para a cr&tica do presente pela elabora'(o de uma outra sociedade poss&vel=
imposs&vel, <usta, livre, igualitAria, racional perfeita — a utopia, cu<os e)poentes s(o 6orus e
Bampanella/ ; terceira linha discute a pol&tica a partir dos conceito de direito natural e direito
civil Glinha que irA predominar entre os modernosH, das causas das diferen'as entre os regimes
pol&ticos e as formas da soberania, sendo seus e)poentes Casquier, +odin, %r*cio/ "as três
linhas, encontramos a preocupa'(o com a hist*ria, se<a como prova de que outra sociedade é
poss&vel, se<a como e)ame dos erros cometidos por outros regimes, se<a como e)emplo do que
pode ser imitado ou conservado/
Cor seu turno, a eforma destr*i a cren'a Gconcretamente ilus*ria, pois <amais e)istenteH da
unidade da fé crist(, dos dogmas e cerim9nias, e sobretudo da autoridade religiosa? questiona=
se a autoridade papal e episcopal, questiona=se o privilégio de somente alguns poderem ler e
interpretar os livros Jagrados, questiona=se que !eus tenha investido o papado do direito de
ungir e coroar reis e imperadores, questionam=se dogmas e ritos Gcomo a missa e até mesmo
o batismoH/ D mundo crist(o europeu cinde=se de alto a bai)o em novas ortodo)ias
Gluteranismo, calvinismo, anglicanismo, puritanismoH e em novas heterodo)ias Ganabatistas,
menonitas, quaEers, os Kcrist(os sem igre<aKH/ ;s lutas religiosas n(o ocorrem apenas entre
cat*licos e reformados, mas também entre estes >ltimos e particularmente entre eles e as
pequenas seitas radicais e libertArias que ser(o freqüentemente di#imadas, com violência
descomunal/ 6odifica=se a maneira de ler e interpretar a +&blia, modifica=se a rela'(o entre
religi(o e pol&tica? todos devem ter o direito de ler o 4ivro Janto e nele !eus n(o declarou que
a monarquia é o melhor dos regimes pol&ticos/ !ois resultados culturais decorrem dessa nova
atitude? por um lado, o desenvolvimento de escolas protestantes para alfabeti#a'(o dos fiéis,
para que possam ler a +&blia e escrever sobre suas pr*prias e)periências religiosas, divulgando
a nova e verdadeira fé Ga panfletagem serA uma das marcas caracter&sticas da eforma, que
produ#iu uma popula'(o alfabeti#adaHI por outro lado, na fase inicial do protestantismo Gque
seria suplantada quando algumas seitas triunfassem e se tornassem dominantesH, a defesa da
idéia de comunidade, de rep>blica popular ou aristocrAtica e do direito pol&tico F resistência,
isto é, da desobediência civil face ao papado e aos reis e imperadores cat*licos/
Enfim, a Bontra=eforma, cu<a e)press(o mais alta e mais efica# serA a Bompanhia de Nesus,
define um novo quadro para a vida intelectual? por um lado, para fa#er frente F escolaridade
protestante, os <esu&tas Gmas n(o somente elesH enfati#am a a'(o pedag*gico=educativa Gn(o
nos esque'amos de "*brega e ;nchieta ensinando &ndios a ler e a escreverOH, e, por outro
lado, enfati#am o direito divino dos reis, fortalecendo a tendência dos novos Estados "acionais
F monarquia absoluta de direito divino/ P no quadro da Bontra=eforma, como renova'(o do
catolicismo para combate ao protestantismo, que a Inquisi'(o toma novo impulso e se,
durante a Idade 6édia, os alvos privilegiados do inquisidor eram as feiticeiras e os magos,
além das heterodo)ias tidas como heresias, agora o alvo privilegiado do Janto Dficio ser(o os
sAbios? %iordano +runo é queimado como herege, %alileu é interrogado e censurado pelo
Janto Dficio, as obras dos fil*sofos e cientistas cat*licos do século XVII passam primeiro pelo
Janto Dficio antes de receberem o direito F publica'(o e as obras dos pensadores protestantes
s(o sumariamente colocadas na lista das obras de leitura proibida Go ,nde-H/ ; Bontra=eforma
reali#arA, do lado cat*lico, o mesmo que a eforma triunfante, do lado protestante? o controle
da atividade intelectual que o enascimento liberara e que cultivara como liberdade de
pensamento e de e)press(o/
P no interior desse conte)to polêmico, freqüentemente autoritArio e violento que se desenvolve
a Filosofia 6oderna do século XVII/
'. Carac$er(s$icas gerais do saber no s)culo *+,,
; e)press(o Kfilosofia moderna ou filosofia do século XVIIK é uma abstra'(o, como <A
sugerimos ao mencionar a quest(o da cronologia/ 6as é também uma abstra'(o se
considerarmos as vArias filosofias que polemi#aram entre si nesse per&odo, os fil*sofos
concebendo a metaf&sica, a ciência da "ature#a, as técnicas, a moral e a pol&tica de maneiras
muito diferenciadas/ "o entanto, para quem olha de longe, é imposs&vel n(o reconhecer a
e)istência de um campo de pensamento e de um campo discursio comuns a todos os
pensadores modernos e no interior dos quais suas semelhan'as e diferen'as se configuram/ P
desse campo comum que falaremos aqui/
Bonvém n(o esquecermos que a distin'(o entre filosofia e ciência é muito recente Gconsolidou=
se apenas nos meados do século XIXH, de modo que os pensadores do século XVII s(o
considerados s*bios Ge n(o intelectuais, no'(o que também é muito recenteH e n(o separam
seus trabalhos cient&ficos, técnicos, metaf&sicos, pol&ticos/ Cara eles, tudo isso constitui a
filosofia e cada sAbio costuma ser um pesquisador ou um conhecedor de todas as Areas de
conhecimento, mesmo que se dedique preferencialmente mais a umas do que a outras/ Essa
rela'(o entre as atividades levou o fil*sofo 6erleau=ContQ a designar a filosofia moderna como
a época do Grande %acionalismo para o qual as rela',es entre ciência da "ature#a, metaf&sica,
ética, pol&tica, esp&rito e matéria, alma e corpo, consciência e mundo e)terior estavam
articuladas porque fundadas num mesmo princ&pio que vinculava internamente todas as
dimens,es da realidade? a Jubst$ncia Infinita, isto é, o conceito do Jer Infinito ou !eus/
!as caracter&sticas gerais do campo de pensamento e de discursos da Filosofia 6oderna,
destacaremos os seguintes? o significado da nova ciência da "ature#a, os conceitos de
causalidade e de subst$ncia, a idéia de método ou de mathesis uniersalis, e a idéia de ra#(o,
e)pl&cita ou implicitamente elaborada por tais pensadores/
'.1. " nova Ci-ncia da .a$ure/a ou Filosofia .a$ural
"um n&vel superficial, pode=se di#er que a nova Biência da "ature#a ou Filosofia "atural possui
três caracter&sticas 0H passagem da ciência especulativa para a ativa, na continuidade do
pro<eto renascentista de domina'(o da "ature#a e cu<a f*rmula se encontra em Francis +acon?
KJaber é CoderKI LH passagem da e)plica'(o qualitativa e final&stica dos naturais para a
e)plica'(o quantitativa e mecanicistaI isto é, abandono das concep',es aristotélico=medievais
sobre as diferen'as qualitativas entre as coisas como fonte de e)plica'(o de suas opera',es
Gleve, pesado, natural, artificial, grande, pequeno, locali#ado no bai)o ou no altoH e da idéia de
que os fen9menos naturais ocorrem porque causas finais ou finalidades os provocam a
acontecer/ -ais concep',es s(o substitu&das por rela',es mec$nicas de causa e efeito segundo
leis necessArias e universais, vAlidas para todos os fen9menos independentemente das
qualidades que os diferenciam para nossos cinco sentidos Gpeso, cor, sabor, te)tura, odor,
tamanhoH e sem qualquer finalidade, oculta ou manifestaI MH conserva'(o da e)plica'(o
final&stica apenas no plano da metaf&sica? a liberdade da vontade divina e humana e a
inteligência divina e humana, embora incomensurAveis, se reali#am tendo em vista fins Go
fil*sofo .obbes suprimirA boa parte das finalidades no campo da moral, dando=lhe fisionomia
mecanicista também, e o fil*sofo Espinosa suprimirA a finalidade na metaf&sica e na ética,
criticando=a como supersti'(o e ignor$ncia das verdadeiras causas das a',esH/
-odavia, como salienta o historiador das idéias, ;le)andre RoQré, essas caracter&sticas s(o
apenas efeitos de modifica',es mais profundas na nova Biência da "ature#a e que s(o?
0H a destrui'(o, vinda do enascimento, da idéia greco=romana e crist( de (osmos, isto é, do
mundo como ordem fi)a segundo hierarquias de perfei'(o, dotado de centro e de limites
conhec&veis, c&clico no tempo e limitado no espa'o/ Em seu lugar, surge o .nierso ,nfinito,
aberto no tempo e no espa'o, sem come'o, sem fim, sem limite e que levarA o fil*sofo Cascal
F célebre f*rmula da Kesfera cu<a circunferência estA em toda parte e o centro em nenhumaK/
"(o apenas o heliocentrismo é poss&vel a partir dessa idéia, mas com ela dois novos
fen9menos ocorrem? em primeiro lugar, a perda do centro, que levarA os pensadores a uma
indaga'(o que, de acordo com o historiador da filosofia 6ichel Jerres, é essencial e prévia F
pr*pria possibilidade do conhecimento, qual se<a, indagam se é poss&vel encontrar um outro
centro, ou um ponto fi-o a partir do qual se<a poss&vel pensar e agir Gos fil*sofos falam na
busca do ponto de ;rquimedes para o pensamentoHI em segundo lugar, uma nova elabora'(o
do conceito de ordem e que, segundo 6ichel Foucault, serA a motiva'(o principal na
elabora'(o moderna do método para conhecer Gsem ordem n(o hA conhecimento poss&vel, e a
primeira coisa a ordenar serA a pr*pria faculdade de conhecerHI
LH a geometri#a'(o do espa'o/ Este era, na f&sica aristotélico=tomista, um espa'o topol*gico e
topogrAfico Gisto é, constitu&do por lugares — topoi — que determinavam a forma de um
fen9meno natural, sua import$ncia, seu sentidoH, o mundo estando dividido em hierarquias de
perfei'(o conforme tais lugares/ ;gora, o espa'o se torna neutro, homogêneo, mensurAvel,
calculAvel, sem hierarquias e sem valores, sem qualidades/ P essa a idéia que se e)prime na
famosa frase de %alileu que abre a modernidade cient&fico=filos*fica? K; filosofia estA escrita
neste vasto livro, constantemente aberto diante de nossos olhos Gquero di#er, o universoH e s*
podemos compreendê=lo se primeiro aprendermos a conhecer a l&ngua, os caracteres nos quais
estA escrito/ Dra, ele estA escrito em linguagem matemAtica e seus caracteres s(o o tri$ngulo
e o c&rculo e outras figuras geométricas, sem as quais é imposs&vel compreender uma s*
palavraK/ Du como dirA Espinosa, ao escrever sobre os afetos e as pai),es em sua /tica,
declarando que deles tratarA como se estivesse escrevendo sobre linhas, superf&cies, volumes
e figuras geométricasI
MH a mec$nica como nova ciência da "ature#a, isto é, a idéia de que todos os fen9menos
naturais Gas coisas n(o humanas e humanasH s(o corpos constitu&dos por part&culas dotadas de
grande#a, figura e movimento determinados e que seu conhecimento é o estabelecimento das
leis necessArias do movimento e do repouso que conservam ou modificam a grande#a e a
figura das coisas por n*s percebidas porque conservam ou alteram a grande#a e a figura das
part&culas/ E a idéia de que estas leis s(o mec$nicas, isto é, leis de causa e efeito cu<o modelo
é o movimento local Go contato direto entre part&culasH e o movimento F dist$ncia Gisto é, a
a'(o e a rea'(o dos corpos pela media'(o de outros ou, quest(o controversa que dividirA os
sAbios, pela a'(o do vAcuoH/ Fisiologia, anatomia, medicina, *ptica, pai),es, idéias,
astronomia, f&sica, tudo serA tratado segundo esse novo modelo mec$nico/ E é a perfeita
possibilidade de tudo conhecer por essa via que permite a interven'(o técnica sobre a
nature#a f&sica e humana e a constru'(o dos instrumentos, cu<o ideal é aut9nomo e cu<o
modelo é o rel*gio/
'.!. "s id)ias de subs$0ncia e de causalidade
Enquanto o pensamento greco=romano e o crist(o admitiam a e)istência de uma pluralidade
infinita Gou indefinidaH de subst$ncias, os modernos ir(o simplificar enormemente tal conceito/
Subst0ncia é toda realidade capaz de existir (ou de subsistir) em si e por si mesma. Tudo que precisar de outro ser
para existir será um modo ou um acidente da substância. Na versão tradicional, mineral era uma substância, vegetal
era substância, animal, outra substância, espiritual, uma outra. as não s! isto, dependendo das "iloso"ias, cada
mineral, cada vegetal, cada animal, cada esp#rito, era substância, de tal maneira que $averia tantas substâncias
quantos indiv#duos. %impli"icadamente& a substância podia ser pensada como um g'nero, ou como uma espécie ou até
como um indiv#duo. ( cada qual teria seus modos ou acidentes e suas pr!prias causalidades.
Ds modernos, especialmente ap*s !escartes, admitem que hA apenas três subst$ncias? a
e)tens(o Gque é a matéria dos corpos, regida pelo movimento e pelo repousoH, o pensamento
Gque é a essência das idéias e constitui as almasH e o infinito Gisto é, a subst$ncia divinaH/ Essa
altera'(o significa apenas o seguinte? uma subst$ncia se define pelo seu atributo principal que
constitui sua essência Ga e)tens(o, isto é, a matéria como figura, grande#a, movimento e
repousoI o pensamento, isto é, a idéia como inteligência e vontadeI o infinito, isto é, !eus
como causa infinita e incriadaH/
"a verdade, os modernos n(o concordar(o com a triparti'(o de !escartes/ Ds materialistas1
por e)emplo, dir(o que hA apenas e)tens(o e infinitoI os espiritualistas, que hA apenas
pensamento e infinito/ E, nos dois e)tremos dessa discuss(o, estar(o Espinosa, de um lado, e
4eibni#, de outro/ Cara Espinosa e)iste uma e apenas uma subst$ncia — a infinitamente
infinita, isto é, !eus, com infinitos atributos infinitos dos quais conhecemos dois, o
pensamento e a e)tens(o Gsuprema heresia? Espinosa afirma que !eus é e-tensoH, todo o
restante do universo s(o os modos singulares da >nica subst$ncia/ Cara 4eibni#, e)istem
infinitas subst$ncias, cada uma delas contendo em si mesma um dos dois grandes atributos —
pensamento Ginteligência, vontade, dese<oH ou e)tens(o Gfigura, grande#a, movimento e
repousoH/ Essas subst$ncias se chamam m2nadas Gunidade >ltima e indivis&velH e hA apenas
uma diferen'a entre as m9nadas — isto é, hA a 69nada Infinita, que é !eus, e hA as m9nadas
criadas e finitas, isto é, os seres e)istentes no universo, e que podem ser e)tensas ou
pensantes/
!e qualquer maneira, o essencial na quest(o da Jubst$ncia definida pelo seu atributo principal
é que, de agora em diante, conhecer é conhecer apenas três tipos de essências e suas
opera',es fundamentais? a matéria Ggeometri#adaH, a alma Gintelecto, vontade e apetitesH e o
infinito/
Esse conhecimento se farA pelo conceito de causalidade/ Bonhecer é conhecer a causa da
essência, da e)istência e das a',es e rea',es de um ser/ @m conhecimento serA verdadeiro
apenas e somente quando oferecer essas causas/ Evidentemente, os fil*sofos discordar(o
quanto ao que entendem por causa e causalidade, discordar(o quanto F determina'(o de uma
realidade como sendo causa ou como sendo efeito, discordar(o quanto ao n>mero de causas,
discordar(o quanto aos procedimentos intelectuais que permitem conhecer as causas e,
portanto, discordar(o quanto F defini'(o da pr*pria no'(o de erdade, uma ve# que esta
depende do que se entende por causa e por opera'(o causal/ 6as todos, sem e)ce'(o,
consideram que um conhecimento s* pode aspirar F verdade se for conhecimento das causas,
se<am elas quais forem e se<a como for a maneira como operem/ D importante é notar que
fi#eram a verdade, a inteligibilidade e o pensamento dependerem da e)plica'(o causal e
afastaram a e)plica'(o meramente descritiva ou interpretativa/ ; s&ntese desse ideal encontra=
se em Espinosa e em 4eibni#/ ;firma Espinosa que o conhecimento verdadeiro é aquele que
nos di# como uma realidade foi produ#ida, isto é, o conhecimento verdadeiro é o que alcan'a a
gênese necess*ria de uma realidade/ 4eibni# estabelece o chamado principio da %az#o
Suficiente, segundo o qual nada e)iste que n(o tenha uma causa e que n(o possa ser
conhecida, ou, como ficou conhecido? K"ihil sine rationeK, nada é sem causa/
Bom rela'(o ao conceito de causalidade, é necessArio fa#ermos três observa',es? 0H
diferentemente dos gregos, romanos e medievais Gque admitiam quatro causas — material,
formal, eficiente ou motri# e finalH, os modernos admitem apenas duas? a eficiente Ga
causalidade propriamente dita como rela'(o entre uma causa e seu efeito diretoH e a final,
para os seres dotados de vontade livre, pois esta sempre age tendo em vista fins G!eus e
homensH/ ;penas Espinosa recusa a finalidade, considerando a causa final um produto da
imagina'(o e uma ilus(oI LH a causa eficiente e)ige que causa e efeito se<am de mesma
nature#a Gde mesma subst$nciaI ou de mesmo modo, no caso de EspinosaH, de sorte que
causas corporais n(o podem produ#ir efeitos an&micos e vice=versa/ Dra, os humanos s(o
criaturas mistas Gpossuem corpo e almaH e é preciso e)plicar causalmente as rela',es entre
ambos se se quiser conhecer o homem e sobretudo o que os modernos chamam de a'(o e
pai)(o/ ;s solu',es do problema ser(o variadas/ ;ssim, por e)emplo, !escartes imagina uma
gl$ndula — a gl$ndula pineal, na base do pesco'o — que faria a comunica'(o entre as duas
subst$ncias do composto humanoI Espinosa e 4eibni# consideram a posi'(o cartesiana
absurda, e para ambos a rela'(o entre alma e corpo n(o é KcausalK no sentido de a'(o do
corpo sobre a alma ou vice=versa, mas uma rela'(o de e-press#o, isto é, o que se passa num
deles se e)prime de maneira diferente no outro e vice=versaI os materialistas resolvem o
problema considerando que os efeitos an&micos s(o uma modalidade dos comportamentos
corporais, pois n(o haveria uma subst$ncia espiritual, a n(o ser !eusI os espiritualistas v(o na
dire'(o contrAria Gcomo 6alebrancheH, considerando os corpos e os acontecimentos corporais
como aparência sensíel de realidades puramente espirituaisI MH o conceito de causa possui
três sentidos simult$neos e inseparAveis e n(o apenas umI esses três sentidos simult$neos
constituem a causalidade como princ&pio de plena inteligibilidade do real? aH a causa é algo
real que produ# um efeito real Gcausa e efeito s(o entes, seres, coisasHI bH a causa é a raz#o
que e)plica a essência e a e)istência de alguma coisa, é sua e)plica'(o verdadeira e sua
inteligibilidadeI cH a causa é o ne-o l&gico que articula e vincula necessariamente uma
realidade a uma outra, tornando poss&vel n(o s* sua e)istência, mas também seu
conhecimento/ Bonhecer pela causa é, pois, conhecer entes, ra#,es e v&nculos necessArios/
'.'. " id)ia de m)$odo ou de mathesis universalis
Ds fil*sofos modernos enfrentam três grandes problemas no tocante ao conhecimento
verdadeiro?
0H tendo o Bosmos, sua ordem, sua hierarquia e seu centro desaparecido, o homem, como ser
pensante, n(o encontra imediatamente nas coisas percebidas a verdade, a origem e o sentido
do real, pois as coisas s(o percebidas em suas qualidades sensoriais e o mundo parece ser
finito e ordenado por valores e perfei',es que a nova ciência da "ature#a revelou serem
ilus*riosI
LH o conceito de causalidade fa# uma e)igência te*rica que, se n(o for respeitada, impede que
a verdade se<a conhecida/ Essa e)igência é de que as relaç3es causais s& se estabelecem
entre coisas de mesma subst0ncia Ga e)tens(o, ou a matéria, ou os corpos, dependendo da
terminologia de cada sAbio, s* produ# efeitos e)tensos, materiais, corporaisI o pensamento, a
alma, as idéias, também dependendo da terminologia de cada fil*sofo, s* produ#em efeitos
pensantes, an&micos, ideativosI o finito s* produ# efeitos finitosI o infinito, >nica e)ce'(o,
produ# efeitos finitos e infinitos, mas n(o pode ser produ#ido por uma causa finitaH/ Dra, como
<A o dissemos, os humanos s(o compostos de duas subst0ncias Gou de modos diferentes da
mesma subst$ncia, no caso de EspinosaH que, no plano causal, n(o podem causar=se um ao
outro/ Dra, conhecer é uma atividade da subst$ncia pensante ou do modo pensante, mas o
conhecido pode tanto ser um aspecto do pensante quanto os corpos, as coisas ou os modos
e)tensos/ E, neste caso, a causalidade n(o pode operar, pois o que se passa na e)tens(o n(o
pode causar efeitos no pensamento e vice=versa/ ; solu'(o encontrada por todos os fil*sofos
Gcom variantes, novamente, e com e)ce'(o de EspinosaH consiste em considerar o
conhecimento uma %epresentaç#o, isto é, que a inteligência n(o afeta nem é afetada pelos
corpos, mas pelas idéias deles, havendo assim a homogeneidade e)igida pela causalidadeI
MH mas a representa'(o cria um novo problema? como saber se as idéias representadas
correspondem erdadeiramente Fs coisas representadasS Bomo saber se a idéia é adequada
ao seu ideadoS Cara solucionar esta dificuldade nasce o método/
; no'(o de representa'(o significa que aquele que conhece — o Su+eito do (onhecimento —
estA so#inho, rodeado por coisas cu<a verdade ele n(o pode encontrar imediatamente, pois
percebe coisas, mas deve conhecer 4b+etos do (onhecimento, isto é, as idéias verdadeiras ou
os conceitos dessas coisas percebidas/ Crecisa de um instrumento que lhe permita três
atividades? 0H representar corretamente as coisas, isto é, alcan'ar suas causas sem risco de
erro Gpara os espiritualistas, os erros vir(o dos sentidos ou do corpoI para os materialistas, os
erros vir(o das abstra',es indevidas feitas pela inteligênciaHI LH controlar cada um dos passos
efetuados, pois a perda de controle de uma das opera',es intelectuais pode provocar o erro no
final do percurso, que, por isso, deve ser controlado passo por passoI MH permitir que se possa
dedu#ir ou inferir de algo <A conhecido com certe#a o conhecimento de algo ainda
desconhecido, isto é, o instrumento deve permitir o progresso dos conhecimentos verdadeiros
oferecendo recursos seguros para que se possa passar do conhecido ao desconhecido/ ;
fun'(o do método é de preencher esses três requisitos/ Cor essa ra#(o, nenhum dos fil*sofos
modernos dei)a de escrever um tratado sobre o método/
"o século XVII, a palavra método Gdo grego? caminho certo, correto, seguroH tem um sentido
vago e um sentido preciso/ Jentido vago, porque todos os fil*sofos possuem um método ou o
seu método, havendo tantos métodos quantos fil*sofos/ Jentido preciso, porque o bom
método é aquele que permite conhecer verdadeiramente o maior n>mero de coisas com o
menor n>mero e regras/ Tuanto maiores a generalidades e a simplicidade do método, quanto
mais puder ser aplicado aos mais diferentes setores do conhecimento, melhor serA ele/
D método é sempre considerado matem*tico/ Isto n(o quer di#er que se usa a aritmética, a
Algebra, a geometria para o conhecimento de todas as realidades, e sim que o método procura
o ideal matem*tico, isto é, ser uma mathesis uniersalis/
Isto significa duas coisas? 0H que a matemAtica é tomada no sentido grego da e)press(o ta
mathema, isto é, conhecimento completo, perfeito e inteiramente dominado pela inteligência
Garitmética, geometria, Algebra s(o matemAticas, por isso, isto é, porque dominam completa e
intelectualmente seus ob<etosHI LH que o método possui dois elementos fundamentais de todo
conhecimento matemAtico? a ordem e a medida/
Vimos que, no enascimento, o conhecimento operava com a no'(o de Jemelhan'a, era
descritivo e interpretativo/ ; diferen'a entre os renascentistas e os modernos consiste no fato
de que estes >ltimos criticam a Jemelhan'a, considerando=a causa dos erros e incapa# de
alcan'ar a essência das coisas/ Bonhecer pela causa significa que a inteligência é capa# de
discernir a identidade e a diferença no n&vel da essência invis&vel das coisas/ ; ordem e a
medida têm a fun'(o de produ#ir esse discernimento e por isso s(o o n>cleo do método e da
mathesis/
Bonhecer é relacionar/ elacionar é estabelecer um ne-o causal/ Estabelecer um ne)o causal é
determinar quais as identidades e quais as diferen'as entre os seres Gcoisas, idéias, corpos,
afetos, etc/H/ ; medida oferece o critério para essa identidade e essa diferen'a/ ;ssim, por
e)emplo, a medida permitirA que n(o se estabele'a uma rela'(o causal entre realidades
heterogêneas quanto F subst$ncia/ Ela analisa, isto é, decomp,e um todo em partes e
estabelece qual o elemento que serve de unificador para essas partes Ga Kgrande#aK comum a
todas elasH/ ; ordem é o conhecimento do encadeamento interno e necessArio entre os termos
que foram medidos, isto é, estabelece qual o termo que se relaciona com outro e em qual
seqüência necessAria, de sorte que ela estabelece uma série ordenada, sintetiza o que foi
analisado pela medida e permite passar do conhecido ao desconhecido/
; ordem é essencial ao método por três motivos? 0H porque os modernos consideram que a
primeira verdade de uma série é conhecida por uma intuiç#o eidente, a partir da qual serA
colocada a medida e esta depende da seria'(o dos termos feita pela ordemI LH porque os
conhecimentos de totalidades comple)as s(o conhecimentos de séries diferentes, cu<as
rela',es s* podem ser estabelecidas se cada série estiver corretamente ordenadaI MH porque a
ordem permite a rela'(o entre um primeiro termo e um >ltimo cu<a medida pode n(o ser a
mesma Gs(o heterogêneos ou incomensurAveisH, mas a rela'(o pode ser feita porque a
ordena'(o foi fa#endo aparecer entre um termo e outro uma medida nova que encadeia o
segundo ao terceiro, este ao quarto e assim por diante/
@m e)emplo deste >ltimo e mais importante procedimento/ "a filosofia de !escartes, n(o
haveria como estabelecer rela'(o causal entre a alma finita humana, !eus infinito e o mundo
e)tenso, <A que s(o três subst$ncias diferentes/ ;plicando a medida e a ordem, !escartes
estabelece o que chama de cadeia de raz3es Gne)os causais e l*gicosH do seguinte tipo? a alma
pensa e ao pensar tem uma idéia de que ela pr*pria n(o pode ser a causa, a idéia de !eusI
isto é, a alma finita n(o pode ser causa de uma idéia infinita/ Jendo, porém, !eus uma idéia,
pode perfeitamente estar em nossa alma e pode causA=la em n*s, porque o intelecto divino
age sobre o nosso por meio das idéias verdadeiras/ Dra, a idéia de !eus é a idéia de um Ser
Perfeito, que seria imperfeito se n(o e)istisse, portanto, a idéia presente em nossa
inteligência, causada pela inteligência de !eus, é a idéia de um ser que s* serA !eus se e)istir/
"*s n(o podemos fa#er !eus e)istir, mas a idéia de !eus nos revela que ele e)iste/ Cassamos,
assim, da idéia ao ser/ Dra, esse ser é perfeito, e se nos fa# ter idéias das coisas e)teriores
através de nossos sentidos, é porque nos deu um corpo e criou outros corpos que constituem o
mundo e)tenso/ Cassamos, assim, do ser de !eus F idéia de nosso corpo e Fs idéias dos
corpos e)teriores, o que n(o poderia ser feito sem a ordem, pois sem ela n(o poder&amos
passar de nossa alma a !eus e dele ao nosso corpo nem aos corpos e)teriores/ ; medida é a
idéia e a ordem da seqüência causal dessas idéias até chegar a corpos/
D método, ciência universal da ordem e da medida, pode ser anal&tico ou sintético/ "a anAlise,
vai=se das partes ao todo ou do particular ao universal Gé o método preferido por !escartes e
4ocEeHI na s&ntese, vai=se do todo Fs partes ou do universal ao particular Gé o método
preferido por EspinosaHI ou uma combina'(o de ambos, conforme as necessidades pr*prias do
ob<eto de estudo Gcomo fa# 4eibni#H/ Em qualquer dos casos, reali#a=se pela ordem e pela
medida, mas é considerado dedutio pelos racionalistas intelectualistas Gque partem das idéias
para as sensa',esH e indutio pelos racionalistas empiristas Gque partem das sensa',es para
as idéiasH/ Essa diferen'a repercute no conceito de intuiç#o, que é considerado por todos como
o ponto de partida da cadeia dedutiva ou da cadeia indutiva? no primeiro caso, a intui'(o é
uma vis(o puramente intelectual de uma idéia verdadeiraI no segundo caso, a intui'(o é
sens&vel, isto é, vis(o ou sensa'(o evidente de alguma coisa que levarA F sua idéia/
1. " id)ia moderna da %a/2o
Em seu livro !ist&ria da Filosofia, .egel declara que a filosofia moderna é o nascimento da
Filosofia propriamente dita porque nela, pela primeira ve#, os fil*sofos afirmam?
0H que a filosofia é independente e n(o se submete a nenhuma autoridade que n(o se<a a
pr*pria ra#(o como faculdade plena de conhecimento/ Isto é, os modernos s(o os primeiros a
demonstrar que o conhecimento verdadeiro s* pode nascer do trabalho interior reali#ado pela
ra#(o, gra'as a seu pr*prio esfor'o, sem aceitar dogmas religiosos, preconceitos sociais,
censuras pol&ticas e os dados imediatos fornecidos pelos sentidos/ J* a ra#(o conhece e
somente ela pode <ulgar=se a si mesmaI
LH que a filosofia moderna reali#a a primeira descoberta da Jub<etividade propriamente dita
porque nela o primeiro ato de conhecimento, do qual depender(o todos os outros, é a %efle-#o
ou a (onsciência de Si %efle-ia/ Isto é, os modernos partem da consciência da consciência, da
consciência do ato de ser consciente, da volta da consciência sobre si mesma para reconhecer=
se como su<eito e ob<eto do conhecimento e como condi'(o da verdade/ ; consciência é para si
mesma o primeiro ob<eto do conhecimento, ou o conhecimento de que é capacidade de e para
conhecerI
MH que a filosofia moderna é a primeira a reconhecer que, sendo todos os seres humanos seres
conscientes e racionais, todos têm igualmente o direito ao pensamento e F verdade/ Jegundo
.egel, essa afirma'(o do direito ao pensamento, unida F idéia de liberdade da ra#(o para
<ulgar=se a si mesma, portanto, o igualitarismo intelectual e a recusa de toda censura sobre o
pensamento e a palavra, seria a reali#a'(o filos*fica de um principio nascido com o
protestantismo e que este, enquanto mera religi(o, n(o poderia cumprir precisando da filosofia
para reali#ar=se? o princ&pio da individualidade como sub<etividade livre que se relaciona
livremente com o infinito e com a verdade/
; ra#(o, o pensamento, a capacidade da consciência para conhecer por si mesma a realidade
natural e espiritual, o vis&vel e o invis&vel, os seres humanos, a a'(o moral e pol&tica, chama=se
)uz Natural/ Embora os modernos se diferenciem quanto F 4u# "atural Gpara alguns, por
e)emplo, a ra#(o tra# inatamente n(o s* a possibilidade para o conhecimento verdadeiro, mas
até mesmo as idéias, que seriam inatasI para outros, nossa consciência é como uma folha em
branco na qual tudo serA impresso pelas sensa',es e pela e)periência, nada possuindo de
inatoH, o essencial é que a 4u# "atural significa a capacidade de autoiluminaç#o do
pensamento, uma faculdade inteiramente natural de conhecimento que alcan'a a verdade sem
necessidade da evela'(o ou da 4u# Jobrenatural Gainda que alguns fil*sofos, como Cascal,
4eibni# ou 6alebranche, considerem que certas verdades s* podem ser alcan'adas pela 4u#
"atural se esta for au)iliada pela lu# da %ra'a !ivinaH/
; primeira intui'(o evidente, verdade indubitAvel de onde partirA toda a filosofia moderna,
concentra=se na célebre formula'(o de !escartes? KCenso, logo e)istoK G(ogito1 ergo sumH/ D
pensamento consciente de si como KFor'a "ativaK Ga e)press(o é de EspinosaH, capa# de
oferecer a si mesmo um método e de intervir na realidade natural e pol&tica para modificA=la,
eis o ponto fi)o encontrado pelos modernos/