You are on page 1of 2

PSICANÁLISE E INDÚSTRIA FARMACÊUTICA

Cláudia Aldigueri

Autismo - novos espectros, novos mercados* é o grito de
alerta e revolta de Agnès Aflalo, psicanalista e psiquiatra
francesa; um posicionamento político em defesa da
psicanálise diante da segunda tentativa de assassinato desta,
nos últimos 10 anos. Aflalo não poupa esforços de pesquisa
para analisar e apresentar a evolução do cenário no qual estão
inseridas psicanálise e psiquiatria, nos últimos 40 anos.

Tudo começa em 1950 quando Henry Merck, então presidente
do grupo Merck nos EUA, alimentava o sonho de vender remédios a todos,
inclusive às pessoas saudáveis. A empresa começou com uma pequena
farmácia na Alemanha no final do século XIX, evoluiu para indústria
farmacêutica e migrou para a América, seu melhor cliente.

Embora a sociedade capitalista, o segmento industrial farmacêutico e o mundo
da publicidade, até então convivessem tímida e recatadamente sob a batuta da
democracia, uma grande virada estava sendo arquitetada pelos líderes da Big
Pharma. O DSM, ferramenta imprescindível para eles desde sua primeira
publicação em 1952, só questionado em sua credibilidade praticamente na
quinta edição, atesta que a psiquiatria vem sendo fabricada na América,
juntamente com as lideranças do segmento farmacêutico, durante os últimos
30 anos.

Um objetivo transparente – o aumento das vendas de medicamentos – leva o
“mercado do mal-estar a tornar-se o eldorado da psiquiatria moderna” (52) e a
menina dos olhos das indústrias farmacêuticas. Com este intuito, frentes de
ataque e investimento são definidas: indústrias farmacêuticas produzem
doenças: transtorno do espectro autístico, TDAH, transtorno da bipolaridade,
fobia social; a recusa do termo "psicose" e a consequente banalização do
autismo; o desenvolvimento de conluio entre a medicina e laboratórios líderes;
os diagnósticos definidos sem descobertas científicas; a ideologia do
eugenismo e do HGM (Humano Geneticamente Modificado); a parceria do
DSM, supostamente a-teórico, com as TCCs e suas técnicas; crianças,
principalmente as de baixa renda, transformadas em presas fáceis de
neurolépticos e psicotrópicos; a influência da escola na medicalização dos
alunos e de seus pais; o reducionismo bio rechaça sintomas psi cujas causas
passam a ser atribuídas à genética; a campanha maciça para denegrir a
psicanálise.

Por estes e inumeráveis outros argumentos levantados por Aflalo, o DSM é
considerado uma fonte perene de divisas “Diagnosis as a Source of Money” um
instrumento fabricado via bússola dos adeptos das TCCs e
do imperativo de lucro da Big Pharma e seguradoras. (41)

E como fica a psicanálise nesse contexto? As ameaças
continuam! Novas estratégias de ataque estruturadas em
quatro eixos distintos: clínico, epistêmico, ético e político. Não obstante, Aflalo
ressalta, o desejo de trabalho decidido dos psicanalistas se faz presente. Do
desejo decidido de todos os psicanalistas depende a existência do discurso
analítico, o único que toca o real dos sujeitos quando tomados um a um. (141)

Só a psicanálise saberá responder aos novos sintomas que surgem do real do
organismo, uma vez que é preciso uma insondável decisão do ser para habitar
seu corpo e compor o real de seu gozo (27). E é por esse viés que a
psicanálise terá futuro de sucesso garantido, enfatiza Aflalo: enquanto o real
biológico do organismo responde a leis científicas que valem de maneira
generalizada para todos, o real da libido é sem lei e singular. (136) Portanto,
porque não temos outra escolha, hoje, do mesmo modo que ontem, nós
venceremos. A psicanálise vencerá! (142)

*Aflalo, A. Autismo - novos espectros, novos mercados. Petrópolis: KBR, 2014.