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A Arábia antes do Islã

A Arábia ou Península Arábica é uma região desértica do Oriente Médio banhada pelo mar Vermelho e pelas águas
do oceano Índico. Do ponto de vista histórico, esta região ficou bastante conhecida como berço de uma das mais
importantes religiões do mundo, o islamismo. Surgida no século VII, esta religião estabeleceu mudanças significativas
nas configurações políticas, econômicas e culturais de todo o mundo árabe.

Antes do Islã, a Península Arábica esteve basicamente dividida entre as regiões litorânea e desértica. Os desertos da
Arábia eram ocupados por uma série de tribos vagantes, que tinham seus integrantes conhecidos como beduínos. Os
beduínos não apresentavam unidade política, eram politeístas e sobreviviam das atividades de pastoreio organizadas
nos oásis que encontravam no interior da Arábia.

Sob o aspecto religioso, prestavam adoração a objetos sagrados, forças da natureza e acreditavam na intervenção
de espíritos maus. Para que pudessem promover as suas crenças e rituais, os beduínos se dirigiam até as cidades
litorâneas que abrigavam vários de seus símbolos e objetos sagrados. Com o passar do tempo, esse deslocamento
regular firmou uma significativa atividade comercial.

Ao se dirigirem até o litoral, os beduínos aproveitavam da oportunidade para realizarem negócios com os
comerciantes das cidades sagradas. Dessa forma, a economia da Península Arábica era fortemente influenciada pelo
calendário que determinava as festividades dedicadas aos vários deuses árabes. Já nessa época, as cidades de
Meca e Yatreb se destacavam como grandes centros comerciais e religiosos.

Pregando uma crença de natureza monoteísta, Maomé, o maior profeta do islamismo, possibilitava mudanças
profundas no mundo árabe. Com a expansão do culto a uma única divindade, as constantes peregrinações religiosas
e os negócios poderiam perder o seu sentido. Não por acaso, vários comerciantes da cidade de Meca se opuseram à
expansão da crença muçulmana em seus primórdios.

Graças à organização militar dos primeiros convertidos, Maomé conseguira vencer a resistência dos comerciantes de
Meca contra o islamismo. Além disso, podemos salientar que a nova religião não abandonou todas as crenças
anteriores ao islamismo e preservou a importância religiosa das cidades comerciais. Dessa forma, o islamismo pôde
conquistar a Península Arábica a partir do século VII.

A Formação do Sacro Império
Dá-se o nome de Sacro Império à união de alguns territórios da Europa Central durante o final da Idade Média e o
início da Idade Moderna.

No ano de 476 d.C. o Império Romano passou por diversos embates que, consequentemente, ocasionaram a sua
derrubada final. Além do declínio econômico motivado pela grande inflação promovida pelos imperadores durante a
crise do terceiro século e o declínio cultural gerado após a naturalização dos bárbaros, Roma ainda foi invadida pelos
hérulos, povos germânicos originários do sul da Escandinávia. O Estado resolveu intervir criando o cesaropapismo,
sistema de relações em que lhe cabia a competência de regular a doutrina, a disciplina e a organização da sociedade
cristã. O fim do Império Romano pôs fim no controle da igreja pelo Estado, no Ocidente, que havia se fortalecido com
o tempo.

Em 919 d.C. a Germânia foi invadida pelos bárbaros húngaros. Os germânicos pediram ajuda aos carolíngios, mas
não obtiveram êxito. Em 936 d. C. Oton I foi nomeado imperador. Junto com os grandes proprietários de terra
conseguiu expulsar os invasores. Sua vitória sobre os húngaros trouxe-lhe enorme prestígio e, em 962, o papa João
XII deu-lhe a sagração imperial. Com o intuito de evitar novas invasões, os germânicos do sul se uniram com os
italianos do norte. Os germânicos do norte invadiram o sul da Germânia e o norte da Itália, formando o Sacro Império
Romano-Germânico. Apesar do nome, a cidade de Roma não foi incluída nas cidades dominadas durante o Império.

A Igreja e o Sacro Império
Durante a Idade Média, o mundo vivia sob as égides do feudalismo. A Europa, soberana, direcionou sua economia
para o campo e a Igreja a acompanhou. Quando se situava na cidade, a Igreja sofria enorme interferência da
monarquia na escolha de cargos. Mas ao se voltar para o campo, a situação mudou.

Além de ser proprietária de uma vasta biblioteca, a Igreja era a instituição mais letrada da época. E, por esse fato,
seus membros, que dominavam a escrita e a leitura, eram os mais preparados para ocupar cargos públicos. No
entanto, a monarquia não estava nem um pouco satisfeita com a situação.

A igreja era dividida em clero secular e clero regular. O clero secular era composto, entre outros, por bispos e pelo
papa. Um de seus membros mais ilustres foi São Bento de Núrsia, que mandou construir o mosteiro de Monte
Cassino, localizado na Itália. Esse mosteiro ficou conhecido pelas ordens que os monges recebiam de obedecer ao
seu chefe supremo, o abade. O clero regular seguia a filosofia do isolamento, era mais espiritualizado e menos
materialista. Pregava a castidade, a simplicidade e a caridade.

Com a união de alguns territórios da Europa Central, no final da Idade Média, formando o Sacro Império, o Estado
iniciou uma política intervencionista nas ações da Igreja. O imperador participava diretamente da escolha de
membros clericais, função exclusiva de monges e presbíteros. Tal intervenção ficou conhecida como cesaropapismo
e não agradava à Igreja. No século X tiveram início os movimentos contra a participação da Monarquia na
administração da Igreja.

A Igreja forma seu Estado
As invasões germânicas causaram ao Império Romano o caos administrativo, econômico e social, e produziu sua
desfragmentação. A Igreja Católica, nesse contexto, conseguiu assegurar sua estrutura religiosa através da difusão
do cristianismo entre os povos bárbaros e, ao mesmo tempo, preservou muitas características da cultura greco-
romana. Nesse período a Igreja forma o seu Estado, contando com seu prestígio religioso passou a exercer funções
sociais em diversos segmentos da vida medieval, servindo como ferramenta de união, diante da pulverização política
da sociedade.

A Instituição era organizada de forma hierárquica, centralizadora e rígida. O Papa era considerado o sucessor de São
Pedro, dominava o poder espiritual e temporal. Os Estados eram chamados de Estados Pontifícios que
correspondiam aos territórios tomados dos lombardos em 756 e doados por Pepino, o Breve. A Igreja enquanto
Estado detinha o poder do saber, ou seja, os seus membros sabiam ler e escrever enquanto os grandes proprietários
de terras e seus servos não.

A paróquia era uma pequena província governada por um sacerdote, geralmente de origem humilde e que vivia
sempre em contato com o povo. Os bispos governavam uma diocese constituída de várias paróquias e
administravam em nome do Estado da Igreja. Os arcebispos tinham ao seu cargo uma diocese particular, ao mesmo
tempo em que fiscalizavam outras que compunham sua província eclesiástica. A Igreja contava com o apoio de seus
Tribunais Eclesiásticos, os tribunais julgavam os membros do clero, mas também conheciam e impunham limites
sobre todos os assuntos vinculados ou não à Igreja.

A Igreja dividia-se em dois cleros: o secular e o regular. Os sacerdotes, arcebispos, bispos e párocos constituíam o
clero secular, assim chamado porque seus membros viviam na sociedade ou no mundo. Os membros do clero
regular viviam em seus mosteiros, que obedeciam as regras de sua ordem religiosa. A ordem Beneditina era a mais
antiga, fundada por São Bento no Monte Cassino em 529. As regras das ordens religiosas eram direcionadas aos
votos de pobreza, castidade, caridade e obediência ao abade. Existiam ordens religiosas dos beneditinos, dos
franciscanos, dos dominicanos, das carmelitas e dos agostinianos. A importância do clero regular foi enorme. Tudo
que temos de mais rico em termos do saber e da cultura clássica chegaram até os nossos dias através dos
manuscritos feitos pelos monges copistas.

O respeito que a Igreja impunha criou ao redor das paróquias e dos mosteiros uma atmosfera de estabilidade, onde
de uma forma geral todos encontravam a confiabilidade na figura temporal e espiritual do Estado Igreja. Podemos
dizer que a Igreja construiu a sociedade feudal.

A Querela das Investiduras
Entende-se por querela, discussão, conflito, queixa. A querela das investiduras foi um movimento no qual a Igreja
protestava contra a nomeação de bispos e papas pelo Imperador. No século X, o poder papal estava enfraquecido. A
situação se encontrava tão embaraçosa que os imperadores germânicos nomearam doze papas e excluíram cinco.
Revoltados, os clérigos da Abadia de Cluny, na França, manifestaram-se exigindo maior autonomia à Igreja, que
queria tomar o poder de escolha de seus membros para si. Durante o reinado de Henrique IV, o conflito entre as
partes chegou ao seu ápice.

Em 1058 foi criado o Colégio dos Cardeais. O papa Nicolau II, seu criador, tinha como prioridade dar aos clérigos o
direito soberano de escolha dos líderes religiosos. Em 1073, Gregório VII, membro da Abadia de Cluny, foi eleito pelo
Colégio dos Cardeais para administrar a Igreja. Sua primeira ação foi reafirmar o voto de castidade entre os clérigos
e proibir a Monarquia de indicar cargos religiosos.

Henrique se desentendeu com o papa Gregório VII e lhe obrigou a depor na dieta de Worms, uma espécie de tribunal
católico. O papa não só depôs como excomungou Henrique e organizou uma oposição ao Imperador. Este, acuado,
voltou atrás e pediu desculpas ao papa, no entanto, assim que foi perdoado, organizou seu exército a fim de derrubar
o pontífice. Gregório, enfraquecido, exilou-se na França. Este conflito durou alguns anos até que em 1122 um pacto
de trégua foi assinado entre as partes. O imperador teria poder de nomear bispos com autoridade secular, mas não
com autoridade sagrada. Ou seja, poderia nomear, mas não realizar a cerimônia religiosa. Seria proibida a prática de
cesaropapismo (união dos poderes imperiais = césar e religiosos = papismo) e de simonia (venda de cargos
eclesiásticos). As práticas religiosas e as nomeações de cargos religiosos, no entanto, eram exclusivamente do papa.
Este episódio ficou conhecido como a Concordata de Worms.

A religiosidade medieval
Comummente reconhecido como a “Idade da Fé”, o período medieval estabelece a consolidação do cristianismo no
interior de toda a Europa. Para que compreendamos esse processo, é necessário que tenhamos primeiramente
conhecimento sobre a notória organização que estabeleceu uma funcionalidade ímpar a essa instituição. Por volta de
325, membros da Igreja Cristã se reuniram na cidade de Niceia para discutir um amplo leque de questões
organizacionais e espirituais.

A partir desse momento, a Igreja passou a ser portadora de uma doutrina oficial que deveria ser disseminada por um
corpo de representantes espalhados em toda a Europa. No século V, a hierarquia clerical seria sustentada pelos
padres, que, por sua vez, seriam subordinados à autoridade dos bispos. Acima destes estavam os arcebispos e, logo
em seguida, os patriarcas das mais importantes cidades europeias. No ano de 455, o bispo de Roma se tornou papa,
passando a controlar a cristandade ocidental.

Historicamente, vários documentos e obras de membros do clero prestigiavam valores de caráter passivo e
subordinativo. Desvalorizando a vida terrena, reforçavam que as penúrias e condições da existência material
deveriam servir de alento para a espera de uma vida espiritual abundante. Com isso, a Igreja defendeu a ordem
social estabelecida argumentando que o mundo feudal refletia, de fato, os desígnios de Deus para com os seus
devotos.

Paralelamente, podemos assinalar que outros dogmas, como o medo da morte, a pecaminosidade do sexo e o medo
do inferno, eram de grande importância para o comportamento do homem medieval. A utilização de imagens
sagradas também serviu como um importante instrumento didático para inculcar os valores de subserviência e temor
ligados ao pensamento cristão. Tais ações sistemáticas foram importantes para que o número de fiéis abnegados
atingisse números expressivos.

A disseminação dos valores cristãos acabou não só interferindo no pensamento religioso medieval, mas também
ampliou o papel da Igreja no momento em que esta passou a controlar terras e influenciar determinadas ações
políticas. Não por acaso, observamos que vários membros da nobreza e outros monarcas dessa época entregaram
parte de suas propriedades como uma prova de abnegação. Com isso, o papel desempenhado pelo clero na Europa
Feudal atingiu os campos político e econômico.

Sem dúvida, toda essa série de práticas, valores e ações foram determinantes na transformação da Igreja em uma
instituição com amplos poderes. Desde sua gênese, percebemos que o cristianismo teve que negociar com os vários
hábitos e crenças das civilizações pagãs, caso quisesse ampliar o seu número de convertidos.

Além disso, devemos mostrar que a hegemonia da Igreja esteve diversas vezes ameaçada pela organização de
seitas e heresias que buscavam valores não abraçados pela doutrina oficial. No século XI, as dissidências com os
líderes da Igreja Oriental culminaram no Cisma do Oriente, fato que deu origem à Igreja Católica e à Igreja Bizantina.
Nos fins da Idade Média, movimentos heréticos fixaram as bases de outras tensões que marcaram a Reforma
Protestante, no século XVI.

A usura e o justo preço
Quando falamos sobre o processo de formação da burguesia, ainda na Idade Média, muitos se tomam pela formação
da classe burguesa que se destaca a partir da Revolução Industrial. Nesse sentido, acabamos por notar o
desenvolvimento de uma confusão que simplesmente liga a burguesia medieval aos conceitos, pressupostos e
valores morais que definem a burguesia contemporânea.
Em poucos termos, muitos acreditam que, já na Idade Média, a burguesia tentava de toda forma enriquecer ao
ampliar as faixas de lucro ligadas à sua atividade econômica. Mesmo sendo empreendedora e ambiciosa, não cabe a
nós dizer que os burgueses sentem, pensam e agem de uma mesma forma por séculos a fio. Nesse sentido,
podemos ver a existência de características que podem marcar uma profunda diferença entre os burgueses da Baixa
Idade Média e dos outros tempos históricos.

Nos primeiros séculos de seu aparecimento, os comerciantes ainda eram tomados por preceitos comerciais bastante
ligados aos valores cristãos. Sob tal influência, vemos que muitas corporações de ofício combatiam a obtenção de
lucros abusivos com a estipulação do chamado “justo preço”. Em suma, esse tipo de preço consistia na soma da
matéria-prima e da mão de obra empregada na obtenção da mercadoria.

Primeiramente, podemos ver que tal prática foi um verdadeiro entrave para que o acúmulo de capital acontecesse
rapidamente entre a burguesia europeia. Contudo, a elevação dos índices populacionais acabou provocando a
dinamização da economia europeia que marca a transição entre o feudalismo e o capitalismo. Ou seja, mesmo com
lucros reduzidos, vemos que a burguesia feudal prosperou e galgou espaços sociais e políticos cada vez mais
importantes.

Em paralelo aos valores morais e religiosos do justo preço, podemos ver que a Igreja também interferiu no
desenvolvimento das atividades financeiras. Em muitos casos, burgueses e artesãos pegavam dinheiro emprestado
para que tivessem meios para atender suas demandas produtivas. Em muitos casos, o credor recebia uma
bonificação extra que consistia no pagamento de juros proporcionais ao valor e ao tempo de empréstimo.

Tal costume, conhecido pelo nome de usura, foi veementemente condenado pelos clérigos católicos. Para tais, a
prática da usura era uma atividade desonesta, pois o credor obtinha ganho sem trabalho e lucrava com o passar do
tempo. Aos olhos da Igreja, o tempo não poderia ser utilizado com finalidades particulares, pois ele só poderia ser
manuseado por Deus. Mais uma vez, os preceitos morais e religiosos limitaram o desenrolar do comércio na Idade
Média.

Apesar da resistência, o crescimento do comércio clamava cada vez mais pelo empréstimo de grandes quantidades
em dinheiro. Sendo assim, a Igreja passou a liberar a prática da usura em situações em que o credor se arriscava
perdendo total ou parte do empréstimo. Nesse contexto, o devedor poderia justificar o não pagamento da usura ao
comprovar que não conseguiu vender toda a riqueza gerada pela quantia emprestada.

Arquitetura Medieval
Na História, muitas de suas fontes não estão codificadas por meio de antigos documentos escritos. Recentemente,
novos estudos procuram compreender as transformações do passado por meio de outros documentos que
estabelecem sua própria narrativa, com o uso de construções, objetos e imagens até pouco tempo compreendidas
como “acessórias” nos estudos historiográficos. Nesse aspecto, podemos perceber tal campo de possibilidades nas
pesquisas que hoje analisam a arquitetura medieval.

Sem dúvida, as construções que surgem entre os séculos V e XV têm uma rica capacidade de expressar e fornecer
sentido à dinâmica experimentada durante este intervalo milenar. Para tanto, realizamos uma útil análise comparativa
que trabalha os traços da arquitetura medieval dividido-a entre os períodos da Alta e Baixa Idade Média. Além disso,
reafirmando a forte cultura religiosa elaborada durante todo esse tempo, privilegiamos a observância das igrejas
construídas nessa época.

Durante a Baixa Idade Média, os edifícios eram compostos por paredes espessas e maciças que refletiam toda
insegurança causada pelas guerras e invasões que ainda tomavam a Europa. As igrejas contavam com uma
ornamentação mínima dominada por linhas de sentido horizontal. Além disso, as construções contavam com poucas
janelas, geralmente produzidas por arcos semicirculares. Usualmente chamado de românico, esse tipo de construção
predominou na Europa até o século XII.

Após esse período, podemos observar que a arquitetura medieval passa a experimentar novas perspectivas,
possíveis somente no contexto do renascimento comercial. O chamado estilo gótico começou a ser formulado nas
igrejas que viriam a ser estabelecidas nos reaquecidos ou recém-formados centros urbanos europeus. A construção
tinha aspecto mais leve com o uso de grandes paredes e janelas cravejadas de vitrais multicoloridos.

A ornamentação e a decoração contavam com um maior número de detalhes que indicavam a presença de novas
descobertas arquitetônicas. A envergadura desses novos prédios era bem maior e contava com um número mais
elevado de torres na mesma construção. Os detalhes ornamentais observados indicavam claramente uma concepção
estética requintada, que não poderia ser imaginada sem os materiais e pedrarias trazidos pelas novas rotas
comerciais que colocavam a Europa em contato com o Oriente.

Em muitas análises, observamos a preocupação em se avaliar estes dois estilos arquitetônicos como signos de
natureza contraposta. Contudo, tanto no estilo românico quanto no estilo gótico, percebemos que fortes valores
religiosos são reafirmados. Seria um grande equívoco simplesmente interpretar as transformações entre a Alta e a
Baixa Idade Média como um movimento restrito às rupturas.

Por um lado, o estilo românico reafirmava a religiosidade cristã ao explorar espaços mal iluminados e fechados, os
quais reforçavam a necessidade de meditação espiritual em tempos de diversas incertezas. Por outro, as
construções, apesar de todo o seu colorido e vivacidade, também reafirmavam a religiosidade da época com o uso
de arcos ogivais que sinalizavam a parte mais alta das construções para os céus. Além disso, a grande envergadura
dos edifícios reforçava a inferioridade do homem em relação a Deus.

As corporações de ofício
Entre os séculos XI e XII observamos que a Europa Medieval passou por intensas mudanças socioeconômicas com o
aparecimento dos burgos. Além de representarem o processo de reurbanização europeu, a criação desses espaços
esteve intimamente ligada ao desenvolvimento de atividades produtivas e ao reaquecimento do comércio em geral.
Com o passar do tempo, vemos a formação de um grupo social integrado por artesãos e comerciantes que se
sustentam por meio dessa outra atividade econômica.

Muitos membros desse grupo social inédito, interessados em organizar e padronizar suas atividades, passaram a
desenvolver suas próprias associações. É nesse contexto que as corporações de ofício regulamentam os trabalhos
artesanais. Antes disso, as atividades de tal natureza eram coordenadas de forma natural, sem que para isso fosse
necessário algum tipo de limitação ou regra.

Em geral, as corporações de oficio reuniam os comerciantes e artesãos que se envolviam na fabricação e venda de
um mesmo tipo de produto. Visando a garantia de ganho para os seus integrantes, uma corporação tinha poderes
para tabelar os preços referentes à mão de obra e a matéria-prima empregada em um processo de fabricação. Além
disso, tomavam todo o cuidado para que a fabricação seguisse determinados padrões de qualidade e combatiam a
falsificação de mercadorias.

Nesse aspecto, observamos que a corporação acabava interferindo na quantidade de produtos disponíveis para a
oferta e controlavam a cotação dos preços das mercadorias que vendiam. Além disso, proibiam que pessoas não
associadas à determinada corporação tivessem autonomia para realizar a fabricação de um mesmo produto fora de
suas exigências. Dessa forma, a concorrência comercial era combatida e os mercados consumidores devidamente
preservados.

Esse amplo conjunto de mudanças acabou impondo uma nova concepção de trabalho e riqueza para o mundo
medieval. Por um lado, os nobres continuavam a fundamentar sua prosperidade na posse das terras e no controle
dos servos e vassalos que estavam sobre os seus domínios. Por outro, os comerciantes e artesãos – primeiros
formadores da classe burguesa – através da administração de seus bens, aliavam noções de poupança, investimento
e lucro.

Ascensão e queda do Império Islâmico
Entre os séculos VII e VIII, o Império Islâmico alcançou sua maior extensão territorial, abarcando terras desde a Ásia
Central até a Península Ibérica, passando pelo norte da África. Essa rápida ascensão pode ser explicada pela
unidade conseguida entre os árabes realizada pelo advento do islamismo e de sua adoção como religião.

A origem do império está na Península Arábica, região desértica ocupada pelos árabes, que se dedicavam
principalmente ao comércio, seja através das caravanas de beduínos no deserto ou nas cidades próximas ao litoral,
como Iatreb e Meca. Foi nesta última que nasceu Maomé, membro da tribo dos coraixitas, por volta de 570, e onde
ele iniciou a difusão da crença em um deus único, Alá. Os árabes eram politeístas, adorando animais e plantas. A
cidade de Meca era um centro religioso por abrigar o templo onde se encontrava apedra negra, um possível
meteorito tido como sagrado, que ficava guardado na Caaba, junto a várias imagens dos demais deuses.

Maomé afirmava que durante mais de vinte anos, em suas meditações, estivera em presença do anjo Gabriel, que
em suas mensagens dizia a ele existir apenas um Deus, condenando a adoração dos demais deuses árabes. Dizia
ainda que Maomé era mais um dos profetas de Deus, como Moisés e Jesus, e deveria difundir pelo mundo a verdade
divina repassada nas mensagens. Maomé iniciou suas pregações em Meca, conseguindo adeptos principalmente
entre a população pobre. Os ricos membros da tribo dos coraixitas viam a pregação monoteísta como uma ameaça
ao seu poder econômico e religioso, já que a economia girava principalmente em torno da peregrinação à cidade
para visitas à Caaba, e as pregações monoteístas poderiam expulsar os visitantes.

A perseguição a Maomé e seus seguidores se intensificou, obrigando-os a fugir para Iatreb, cidade ao norte de Meca,
em 622. O episódio ficou conhecido como Hégira e marcou o início do calendário islâmico. Em Iatreb (depois
denominada Medina, cidade do profeta), Maomé conseguiu converter a população e formar um exército para
conquistar Meca em 630. Maomé morreu em 632, mas neste período de dez anos entre a Hégira e sua morte ele
conseguiu unificar as tribos árabes e convertê-las ao islamismo, em boa parte devido ao jihad, o esforço a favor de
Deus, subjugando militarmente os recalcitrantes.

Até a sua morte Maomé havia conquistado toda a Península Arábica, e os quatro califas que o sucederam
expandiram o território do império para a Pérsia, Mesopotâmia, Palestina, Síria e Egito. Os califas eram os
“sucessores do Profeta de Deus”. Porém, havia o problema da sucessão, surgindo o debate se seriam os membros
da tribo coraixita ou os descendentes diretos de Maomé que o sucederiam. O primeiro califa acabou sendo o sogro
de Maomé, Abu-Béquer. O Império Islâmico era um Estado teocrático, com o califa exercendo as funções de chefe
religioso e chefe de Estado. Apesar de empreenderem uma guerra pela difusão da nova religião, os árabes foram
tolerantes com cristãos e judeus nos territórios conquistados, pois eram considerados os “Povos do Livro”, indicando
uma herança religiosa comum.

O quarto califa, Ali, genro de Maomé, foi derrubado pelos membros da tribo dos Omíadas, ligados ao califa Otman,
iniciando uma nova dinastia. No período dos Omíadas, entre 661 e 750, o Império Islâmico conheceu sua maior
extensão territorial, somando territórios na Índia, Ásia Central, norte da África e Península Ibérica, sendo contidos
pelos francos em 732, na Batalha de Poitiers, passando ainda a capital para Damasco. Foi neste período que houve
a principal divisão entre os muçulmanos, resultando nossunitas e xiitas, unindo divergências sucessórias às questões
religiosas. Os sunitas adotavam os preceitos da Suna, livro dos ditos e feitos de Maomé, e do Corão, além de
acreditarem que a eleição dos chefes deveria ser livre. Os xiitas, pelo contrário, assumiam a ligação apenas ao Corão
e apontavam a necessidade de uma liderança centralizadora.

Em 750, os abássidas derrubaram a dinastia omíada, transformaram Bagdá em capital do Império e iniciaram um
processo de desagregação com a instituição dos emirados, que eram califados independentes, tais como Córdoba e
Cairo. Posteriormente, a partir do século XIII, o império foi sendo também conquistado pelos turcos, povos originários
da Ásia Central, um processo que iria se estender até o início do século XX, mas mantendo o islamismo como
religião. Na Península Ibérica, os muçulmanos foram derrotados pelos cristãos durante as Guerras de Reconquista,
que tiveram fim no século XV.

A extensão do Império, a ligação entre Ocidente e Oriente e a assimilação de hábitos culturais e conhecimentos
produzidos pelos povos conquistados proporcionou aos muçulmanos a produção de um importante patrimônio
cultural, incluindo filosofia, medicina, matemática, arquitetura etc., que até os dias atuais se faz presente.
Crise do Século XIV
Entre os séculos XII e XIV, a economia medieval vivenciou uma época de ascensão mediante a ampliação da oferta
de gêneros agrícolas e o desenvolvimento das cidades. A dinâmica que antes ordenava a Europa despontava para
outras possibilidades que incluíam o aquecimento das atividades comerciais, o afrouxamento das relações servis em
algumas regiões, a monetarização da economia e a consolidação de uma nova classe social pela burguesia.

Contudo, no início da segunda metade do século XIV, essa realidade foi bruscamente interrompida com o terrível
advento da Peste Negra. Em pouco tempo, milhares de europeus foram dizimados por uma terrível epidemia que se
alastrou graças às péssimas condições de higiene daquela época. Além de causar tantas mortes, essa doença
também foi responsável por um grande declínio populacional. Alguns estudiosos estimam que mais de um terço da
Europa foi vitimada.

A morte de tanta gente acabou provocando um enorme desordenamento ao processo produtivo daquela época. As
atividades comerciais retraíram, bem como as propriedades feudais desaceleraram a sua capacidade de produção.
Temendo a escassez de alimento, que de fato aconteceu, vários nobres dificultaram ao máximo a saída dos servos
de suas propriedades. Nesse contexto de escassez e enrijecimento, as tensões entre servos e nobres logo se
evidenciaram.

Não por acaso, a Peste Negra veio logo a conviver com os levantes organizados por servos e jornaleiros de toda a
Europa. Em regiões da Bélgica, França e Inglaterra observamos os camponeses envolvidos em grandes revoltas que
ficaram conhecidas pelo nome de “jacqueries”. O termo, proveniente da expressão “Jacques bon homme”, era
negativamente dirigida para todos aqueles que não tinham qualquer tipo de propriedade ou não ocupavam uma
posição privilegiada.

Tanta instabilidade demonstrou que os antigos hábitos e instituições que definiam a ordem feudal não mais se
manteriam incólumes. Por tal razão, observamos que essas últimas décadas do período medieval foram marcadas
por guerras, a centralização do poder político e a reorganização das atividades econômicas. Adentrando o século XV,
vemos uma Europa articulando transformações que definiram boa parte da compreensão do mundo moderno.

Educação na Idade Média
O processo de educação na Idade Média era responsabilidade da Igreja. Existiam nesse período medieval escolas
que funcionavam anexas às catedrais ou a escolas monásticas que funcionavam nos mosteiros, nesse contexto, a
Igreja assumiu a tarefa de disseminar a educação e a cultura no medievo e o seu papel foi preponderante para o
nosso legado educacional contemporâneo.

A escola no período medieval era dirigida por um cônego, ao qual se dava o nome de scholarius ou scholasticus. Os
professores eram clérigos de ordens menores e lecionavam as chamadas sete artes liberais:gramática, retórica,
lógica, aritmética, geografia, astronomia e música, que mais tarde constituíram o currriculum de muitas universidades.
Para acontecer o ensino precisava-se de uma autorização, essa era cedida pelos bispos e pelos diretores das
escolas eclesiásticas que, com medo de perderem a influência, dificultavam ao máximo essa concessão. Reagindo
contra essas limitações, professores e alunos organizaram-se em associações denominadas universitas, que mais
tarde originou a palavra universidades. As universidades eram compostas por quatro divisões ou faculdades. A
faculdade de Artes era o lugar onde a educação acontecia de forma mais geral, as faculdades de Direito, Medicina e
Teologia trabalhavam o conhecimento de forma mais específica. Os diretores das faculdades eram chamados
de decanos e eleitos pelos professores; o decano da Faculdade de Artes era o reitor e representava oficialmente a
universidade.

Os cursos oferecidos eram em latim e com isso exigia-se do estudante muito empenho e dedicação. O estudo das
sete artes liberais era dividido em dois ciclos: o trivium e o quadrivium. O primeiro compreendia a gramática, a
retórica e a lógica; o segundo compunha-se do estudo da aritmética, geografia, astronomia e música. Conforme o
grau de afinidade, distribuíam-se então os estudantes pelos cursos de Direito, Medicina e Teologia. Os estudantes
viviam em um ritmo frenético e as calorosas discussões com a população eram rotineiras. De uma forma geral os
estudantes eram de origem humilde e muitos viviam internos em colégios ou internatos que contavam com rígidas
formas disciplinadoras estudantis. Com o tempo esses colégios passaram a constituir campos de estudos
autônomos, sendo que alguns deles ainda existem, e são renomados mundialmente, como os de Oxford,
Cambridge e o de Sorbonne, fundado em 1257 por Rogério de Sorbon, na França.

A metodologia de ensino baseava-se na leitura de textos e na exposição de ideias feitas pelos professores. As aulas
muitas vezes eram animadas quando os debates entre mestres e alunos eram travados em público, discutiam sobre
um tema determinado, essas aulas foram denominadas descholastica disputattio. Esse processo de estudo foi muito
usado por São Tomás De Aquino e foi chamado de escolástica. A escolástica teve seu apogeu no século XIII, o
método proporcionou a criação de diversas Universidades por toda a Europa, como as de Paris, Oxford, Cambridge,
Salerno, Bolonha, Nápoles, Roma, Pádua, Praga, Lisboa e assim por diante. Sendo que a Universidade de Bolonha
ficou célebre por sua faculdade de Direito e Salerno, por sua faculdade de Medicina.

Filosofia Medieval
O desenvolvimento do conhecimento durante a Idade Média conta com particularidades diversas que se afasta
daquela errônea perspectiva que a define como a “Idade das trevas”. Contudo, a predominância dos valores
religiosos e as demais condições específicas fazem do período medieval apenas singular em relação aos demais
períodos históricos. Nesse sentido, o expressivo monopólio intelectual exercido pela Igreja estabeleceu uma cultura
de traço fortemente teocêntrico.

Não por acaso, os mais proeminentes filósofos que surgiram nessa época tiveram grande preocupação em discutir
assuntos diretamente ligados ao desenvolvimento e à compreensão das doutrinas cristãs. Já durante o século III,
Tertuliano apontava que o conhecimento não poderia ser válido se não estivesse atrelado aos valores cristãos. Logo
em seguida, outros clérigos defenderam que as verdades do pensamento dogmático cristão não poderiam estar
subordinadas à razão.

Em contrapartida, existiam outros pensadores medievais que não advogavam a favor dessa completa oposição entre
a fé e a razão. Um dos mais expressivos representantes dessa conciliação foi Santo Agostinho, que entre os séculos
IV e V defendeu a busca de explicações racionais que justificassem as crenças. Em suas obras “Confissões” e
“Cidade de Deus”, inspiradas em Platão, ele aponta para o valor onipresente da ação divina. Para ele, o homem não
teria autonomia para alcançar a própria salvação espiritual.

A ideia de subordinação do homem em relação a Deus e da razão à fé acabou tendo grande predominância durante
vários séculos no pensamento filosófico medieval. Mais do que refletir interesses que legitimavam o poder religioso
da época, o negativismo impregnado no ideário de Santo Agostinho deve ser visto como uma consequência próxima
às conturbações, guerras e invasões que viriam a marcar a formação do mundo medieval.

Contudo, as transformações experimentadas com a Baixa Idade Média promoveram uma interessante revisão da
teologia agostiniana. A chamada filosofia escolástica apareceu com o intuito de promover a harmonização entre os
campos da fé e da razão. Entre seus principais representantes estava São Tomas de Aquino, que durante o século
XIII lecionou na universidade de Paris e publicou “Suma Teológica”, obra onde dialoga com diversos pontos do
pensamento aristotélico.

São Tomás, talvez influenciado pelos rigores que organizavam a Igreja, preocupou-se em criar formas de
conhecimento que não se apequenassem em relação a nenhum tipo de questionamento. Paralelamente, sua obra
teve uma composição mais otimista em relação à figura do homem. Isso porque acreditava que nem todas as coisas
a serem desvendadas no mundo dependiam única e exclusivamente da ação divina. Dessa maneira, o homem teria
papel ativo na produção de conhecimento.

Apesar dessa nova concepção, a filosofia escolástica não foi promotora de um distanciamento das questões
religiosas e, muito menos, afastou-se das mesmas. Mesmo reconhecendo o valor positivo do livre-arbítrio do homem,
a escolástica defende o papel central que a Igreja teria na definição dos caminhos e atitudes que poderiam levar o
homem à salvação. Com isso, os escolásticos promoveram o combate às heresias e preservaram as funções
primordiais da Igreja.

Guerra dos Cem Anos
Do ponto de vista histórico, podemos ver que a Guerra dos Cem Anos foi um evento que marcou o processo de
formação das monarquias nacionais inglesa e francesa. Não por acaso, vemos que esse conflito girou em torno dos
territórios e impostos que eram tão necessários ao fortalecimento de qualquer monarquia daquela época. Sendo
assim, vemos que tal evento manifesta significativamente a centralização política que se desenvolveu nos fins da
Idade Média.

Iniciada em 1337, a Guerra dos Cem Anos foi deflagrada quando o trono francês esteve carente de um herdeiro
direto. Aproveitando da situação, o rei britânico Eduardo III, neto do monarca francês Felipe, O Belo (1285 – 1314),
reivindicou o direito de unificar as coroas inglesa e francesa. Dessa forma, a Inglaterra incrementaria seus domínios e
colocaria um conjunto de prósperas cidades comerciais sob o seu domínio político, principalmente da região de
Flandres.

Nessa época, os comerciantes de Flandres apoiaram a ação britânica por terem laços comerciais francamente
estabelecidos com a Inglaterra. Por conta desse apoio, os ingleses venceram as primeiras batalhas e conseguiram o
controle de alguns territórios do Norte da França. Até aquele instante, observando a superioridade numérica e bélica
dos ingleses, era possível apostar na queda da monarquia francesa. Contudo, a decorrência da Peste Negra impôs
uma pausa aos dois lados da guerra.

As batalhas só foram retomadas em 1356, quando a Inglaterra conquistou novas regiões e contou com apoio de
alguns nobres franceses. No ano de 1360, a França se viu obrigada a assinar o Tratado de Brétigny. Pelo
documento, a Inglaterra oficializava o seu domínio sobre parte da França e recuperava alguns territórios inicialmente
tomados pelos franceses.

A ruína causada pela guerra provocou grandes problemas aos camponeses franceses. A falta de recursos, os
pesados tributos e as fracas colheitas motivaram as chamadas jacqueries. Nesse instante, apesar dos episódios de
violência contra a nobreza, os exércitos da França reorganizaram suas forças militares. Realizando a utilização de
exércitos mercenários, o rei Carlos V conseguiu reaver uma parcela dos territórios perdidos para a Inglaterra.

Nas últimas décadas do século XIV, os conflitos tiveram uma pausa em virtude de uma série de revoltas internas que
tomaram conta da Inglaterra. Apesar da falta de guerra, uma paz definitiva não havia sido protocolada entre os
ingleses e franceses. No ano de 1415, o rei britânico Henrique V retomou a guerra promovendo a recuperação da
porção norte da França. Mais do que isso, através do Tratado de Troyes, ele garantiu para si o direito de suceder a
linhagem da monarquia francesa.

Em 1422, a morte de Carlos VI da França e de Henrique V da Inglaterra fizeram com que o trono francês ficasse sob
a regência da irmã de Carlos VI, então casada com o rei Henrique V da Inglaterra. Nesse meio tempo, os
camponeses da França se mostraram extremamente insatisfeitos com a dominação estrangeira promovida pela
Inglaterra. Foi nesse contexto de mobilização popular que a emblemática figura de Joana D’Arc apareceu.

Alegando ter sido designada por Deus para dar fim ao controle inglês, a camponesa Joana D'Arc mobilizou as tropas
e populações locais. Aproveitando do momento, o rei Carlos VII mobilizou tropas e passou a engrossar e liderar os
exércitos que mais uma vez se digladiaram contra a Inglaterra. Nesse instante, temendo o fortalecimento de uma
liderança popular, os nobres franceses arquitetam a entrega de Joana D'Arc para os britânicos.

No ano de 1430, Joana D'Arc foi morta na fogueira sob a acusação de bruxaria. Mesmo com a entrega da heroína, os
franceses conseguiram varrer a presença britânica na porção norte do país. Em 1453, um tratado de paz que
encerrava a Guerra dos Cem Anos foi assinado.
Por um lado, a guerra foi importante para se firmar o ideal de nação entre os franceses. Por outro, abriu caminho
para que novas disputas alterassem a situação da monarquia inglesa.

História da Igreja Católica
A religião cristã, formada pela filosofia cristã, constituída por ensinamentos (amor, compaixão, fraternidade...)
provenientes das ideias de Jesus Cristo, fundador e considerado o maior apóstolo do cristianismo, surgiu e ficou
conhecida no mundo antigo (Antiguidade).

Após a perseguição e morte de Jesus Cristo, Pedro foi o principal apóstolo responsável por difundir o cristianismo.
Posteriormente, durante o auge da civilização romana, o apóstolo Paulo teve fundamental importância para a
expansão do cristianismo e da filosofia cristã. A partir da influência de Paulo, a religião desenvolveu-se inicialmente
de forma incipiente entre os romanos, pois os cultos cristãos eram proibidos em Roma e, nessa época, a grande
maioria da população romana era pagã.

Durante o governo do imperador romano Nero, os cristãos sofreram uma das maiores perseguições em Roma: foram
torturados, empalados e hostilizados nas arenas durante espetáculos públicos. No ano de 313, o imperador
Constantino deu liberdade de culto aos cristãos e, a partir de então, o cristianismo passou a agregar novos adeptos
em Roma, tornando-se a religião oficial do Império Romano em 390, ato instituído por Teodósio.

O imperador Constantino, para evitar a crise e a decadência do Império Romano, dividiu-o em duas partes: a
ocidental, com a capital em Roma, representava o Império Romano do Ocidente; e a parte oriental, com a capital em
Constantinopla (capital da civilização bizantina), representava o Império Romano do Oriente.

Com o decorrer dos séculos, criaram-se grandes diferenças entre a Igreja bizantina e a Igreja romana, culminando,
no ano de 1054, no primeiro Cisma do Oriente. As principais consequências desse cisma ocorreram por divergências
políticas entre os romanos e bizantinos. O papa (bispo de Roma) resistiu às insistentes tentativas de domínio do
imperador bizantino, ao mesmo tempo em que os bizantinos não aceitavam e não acreditavam na figura do papa
como chefe de todos os cristãos. Eles divergiam também em relação ao culto a imagens, às cerimônias, aos dias
santificados e quanto aos direitos do clero.

Após as invasões dos povos germânicos (bárbaros) e com a crescente crise e decadência do Império Romano, a
Igreja Católica aliou-se aos bárbaros, cristianizando-os, dominando e conquistando os vastos territórios ocidentais do
Império Romano. As principais alianças se deram com os francos e, posteriormente, com o Império Carolíngio (na
figura de seu grande imperador Carlos Magno). Juntamente com a Igreja Católica, propuseram reconstruir a
magnitude do Império Romano do Ocidente, o chamado Sacro Império Romano Germânico.

Desse modo, adentramos a Idade Média, período que a Igreja Católica se confirmou como uma das maiores
instituições religiosas e políticas do mundo ocidental. Sendo a grande detentora de propriedades de terra e
dominando o campo do saber, as grandes bibliotecas medievais e os estudos filosóficos ocorriam quase sempre nos
mosteiros medievais. Nesse período, surgiram os monges copistas (que reproduziam vários exemplares da Bíblia) e
o movimento conhecido como Cruzadas.

Durante a Idade Média, a Igreja Católica, a fim de demonstrar seu poder político e também levando em conta a
crença da salvação das almas dos hereges, instalou a Santa Inquisição ou Tribunal do Santo Ofício. As pessoas
acusadas de heresias eram interrogadas por membros do clero, podendo ser torturadas ou queimadas nas fogueiras.
A Santa Inquisição foi estabelecida por dois principais motivos: primeiro, a efetivação do poder político católico (as
pessoas que questionassem a fé católica eram consideradas hereges); e segundo, os católicos acreditavam estar
libertando as almas dos hereges, portanto, o corpo pereceria, mas a alma considerada eterna estaria salva. Com
essas justificativas, os católicos torturaram e mataram um grande número de pessoas.

No século XVI, principalmente na região norte da Europa, alguns monges pertencentes à Igreja Católica (Martinho
Lutero e João Calvino) iniciaram tentativas de reformas na doutrina católica. Deve-se ressaltar que os dois monges
não tinham a pretensão de iniciar o movimento conhecido na história por Reforma Protestante, mas apenas
solicitavam mudanças nos ritos católicos, como a cobrança de indulgências, a usura, entre outros.

O movimento de reforma iniciado por Lutero e Calvino alcançou uma dimensão que os próprios monges não haviam
planejado. A reforma foi decisiva, não por romper com a fé cristã, mas por contestar as doutrinas e os ritos católicos,
fundando posteriormente o gérmen inicial da Igreja Protestante (que, atualmente, concorre plenamente com a Igreja
Católica quanto ao número de fiéis e adeptos pelo mundo).

A Igreja Católica também exerceu papel fundamental na catequização dos indígenas do continente americano no
período das Grandes Navegações Marítimas Europeias. Aliás, a difusão do cristianismo foi um dos motivos para o
empreendimento marítimo europeu a partir do século XV.

Atualmente, a sede da Igreja Católica se encontra no Estado do Vaticano (norte da cidade de Roma), criado em 1929
pelo Tratado de Latrão, especialmente para sediar e abrigar o alto clero da Igreja – entre eles, o papa.

História da prostituição medieval
A Idade Média foi um período histórico marcado pelo domínio religioso da Igreja católica na Europa Ocidental,
criando rígidas formas de condutas para as mulheres, buscando garantir a manutenção de suas virtudes femininas,
como a virgindade, ao mesmo tempo em que liberava em boas medidas as práticas sexuais dos homens. Dessa
forma, apesar da rigidez religiosa, a prostituição era tolerada dentro de alguns parâmetros, para evitar que casos de
estupros se tornassem maiores do que já eram. O sexo pago se tornava assim uma válvula de escape da libido
masculina.

No fim do Império Romano, os adeptos do cristianismo enfrentavam a prostituição através da conversão das
mulheres. Segundo Lujo Basserman, em seu livro História da Prostituição – Uma Interpretação Cultural,quando os
cristãos conseguiam converter uma cortesã romana em religiosa, os romanos se vingavam matando uma cristã, ou
mesmo arrastando-as nuas pelas ruas antes de deixá-las em uma casa de prostituição. Algumas prostitutas viraram
santas católicas como Maria do Egito.

Um exemplo de tentativa de acabar com a prostituição foi realizado por Luís IX, o São Luís, que editou um decreto
em 1254 expulsando as prostitutas das cidades e aldeias francesas, confiscando ainda seus bens. Os problemas que
tal medida teria causado podem ser imaginados ao se saber que dois anos depois, em 1256, ele alterou a ordem,
determinando que as prostitutas deveriam viver longe das pessoas e locais honrados, confinando-as em locais
específicos nas periferias das cidades, mostrando que era difícil eliminar a prática de venda do corpo feminino.
O que os medievais apontavam como a virtude das mulheres era o elemento necessário para a realização de
casamentos, já que as mulheres eram consideradas “públicas” ou “puras”. Muitas delas, depois do estupro, caíam na
prostituição. Entretanto, houve a institucionalização da prática da prostituição entre os séculos XIV e XV. Segundo o
historiador Jacques Rossiaud, em seu livro A Prostituição na Idade Média, havia quatro níveis de prostituição na
França medieval: as casas públicas (controladas pelo Estado), os banhos, os bordéis particulares e as meretrizes
autônomas.

Além disso, a faixa etária das mulheres indicavam as etapas pelas quais elas haviam passado. Por volta dos 17
anos, as prostitutas trabalhavam nas ruas, sendo que, depois dos 20, tornavam-se camareiras das casas de banho,
vendendo-se nestes locais para os frequentadores. Por volta dos 28 anos, tornavam-se pensionistas dos bordéis.
Depois dessa idade, quando a beleza da juventude havia sido perdida, algumas prostitutas se tornavam cafetinas em
bordéis e algumas poucas se casavam, sendo que a maioria se retirava para conventos criados para acolher as
mulheres pecadoras e arrependidas.

Império Bizantino
O colapso do Império Romano sentiu um de seus maiores golpes quando, em 395, o imperador Teodósio dividiu os
territórios em Império Romano do Ocidente e do Oriente. Em 330, o imperador Constantino criou a cidade de
Constantinopla no local onde anteriormente localizava-se a colônia grega de Bizâncio. Não sentido os reflexos da
desintegração do Império Romano, a cidade de Constantinopla aproveitou de sua posição estratégica para
transformar-se em um importante centro comercial.

Cercada por águas e uma imponente fortificação, a cidade de Constantinopla tornou-se uma salvaguarda aos
conflitos que marcaram o início da Idade Média. Com o passar do tempo, o Império Bizantino alcançou seu esplendor
graças à sua prosperidade econômica e seu governo centralizado. No governo de Justiniano (527 – 565), o império
implementou um projeto de expansão territorial que visava recuperar o antigo esplendor vivido pelo Antigo Império
Romano.

Ao longo de seu reinado, Justiniano conseguiu conter o avanço militar dos persas e búlgaros sob a região balcânica.
Logo depois, empreendeu a expulsão dos vândalos do Norte da África. Mais tarde, deu fim à dominação gótica na
Península Itálica e tomou a Península Ibérica dos visigodos. Apesar de chegar a reagrupar os antigos domínios da
Roma Antiga, Justiniano não conseguiu resistir às novas invasões dos povos germânicos na Europa e a dominação
árabe no Norte da África.

No plano político, Justiniano buscou a formulação de leis que se inspiravam nos antigos códigos jurídicos romanos.
Formando um conjunto de juristas influenciados pelo Direito Romano, Justiniano compilou um grupo de leis que
formaram o chamado Corpo do Direito Civil. Apesar de empreender a ampliação dos domínios do império, Justiniano
foi vítima de uma grande conturbação. Na Revolta de Nika (532), vários populares organizaram um movimento em
protesto contra as pesadas cargas tributárias e o grande gasto empreendido nas campanhas militares.

Mesmo contando com essa aproximação do mundo romano, o Império Bizantino sofreu influência dos valores da
cultura grega e asiática. Um dos traços mais nítidos dessa multiplicidade da cultura bizantina nota-se nas
particularidades de sua prática religiosa cristã. Divergindo de princípios do catolicismo romano, os cristãos bizantinos
não reconheciam a natureza física de Cristo, admitindo somente sua existência espiritual. Além disso, repudiavam a
adoração de imagens chegando até mesmo a liderarem um movimento iconoclasta.

Essas divergências doutrinárias chegaram ao seu auge quando, em 1054, o Cisma do Oriente estabeleceu a divisão
da Igreja em Católica Apostólica Romana e Ortodoxa. Dessa forma, a doutrina cristã oriental começou a sofrer uma
orientação afastada de diversos princípios do catolicismo tradicional contando com lideranças diferentes das de
Roma.

Na Baixa Idade Média, o Império Bizantino deu seus primeiros sinais de enfraquecimento. O movimento cruzadista e
a ascensão comercial das cidades italianas foram responsáveis pela desestruturação do Império. No século XIV, a
expansão turco-otomana na região dos Bálcãs e da Ásia Menor reduziu o império à cidade de Constantinopla.
Finalmente, em 1453, os turcos dominaram a cidade e deram o nome de Istambul, uma das principais cidades da
Turquia.

Literatura Medieval
Durante a Idade Média, a produção literária esteve claramente vinculada aos processos de ordem política e social da
época. Em meio às invasões bárbaras, ocorreu um processo de ruralização da sociedade que dificultou a produção
literária entre os séculos V e X. De fato, a grande parte da população medieval não tinha acesso aos livros e nem
sequer dominava a escrita de algum idioma.

Um exemplo dessa situação pode ser visto nos próprios destinos tomados pelo processo de cristianização da
Europa. Por não saberem ler, muitos dos convertidos tinham acesso às narrativas bíblicas e hagiográficas por meio
de imagens que buscavam estruturar uma narrativa. Dessa forma, podemos ver que a adoração a imagens ganha
espaço mediante as dificuldades impostas pela falta de obras e instituições que pudessem facilitar o acesso à
literatura.

Na Alta Idade Média, podemos assinalar que o Império de Carlos Magno (800 - 887) foi um dos momentos singulares
em que as atividades culturais e intelectuais, incluindo aí a literatura, tiveram relativo prestígio. Várias escolas tiveram
a função de ensinar e preservar o legado deixado pela civilização greco-romana. No mais, os mosteiros foram os
mais importantes e significativos centros de preservação e produção intelectual de escritos influenciados pela
Antiguidade.

Saindo dos limites da Europa Feudal, não podemos nos esquecer da rica produção literária organizada pelos povos
convertidos ao islamismo. “O Livro dos reis e Rubayat”, de Omar Khayan, e “As mil e uma noites” se destacam como
grandes exemplos da literatura árabe. Ao mesmo tempo, podemos também indicar o grande trabalho de tradução
que Averróis e Córdoba fizeram da filosofia grega para a língua árabe.

Atingindo a Baixa Idade Média, podemos ver uma transformação muito interessante na literatura europeia. As línguas
nacionais (também conhecidas como línguas vulgares) começaram a quebrar o monopólio que o latim exercia na
maioria dos documentos escritos. A poesia épica, marcada pela temática militar, descrevia a coragem dos nobres
cavaleiros. “Poema do Cid”, “Canção dos Nibelungos” e “Canção de Rolando” são alguns dos mais importantes
exemplos dessa vertente literária.

No século XII, o trovadorismo inaugurou uma nova fase da poesia medieval em que o ambiente de cavalaria passou
a dividir espaço com a figura da mulher. O trato refinado, os galanteios e o amor entraram em cena. Nesse mesmo
contexto, o desenvolvimento das cidades abriu espaço para que o fabliaux surgisse como um tipo de literatura
satírica para que as autoridades, senhores feudais e clérigos fossem criticados pela letra de seus vários autores.

Décadas mais tarde, vemos que o aparecimento das universidades também contribuiu para que vários estudantes
concebessem paródias bem humoradas sobre os textos oficiais. Também conhecidos como “poetas goliardos”, esse
escritores anônimos abusavam da irreverência para criticar os valores de sua época. “Carmina Burana” é uma das
obras que melhor representa a ação crítica desempenhada por esses escritores do baixo medievo.

Alcançando o final da Idade Média, já podemos observar que os valores mundanos começaram a se contrapor à
predominância dos valores religiosos. A preocupação dos intelectuais e artistas em pensar na condição humana
trilhava os primeiros passos da Renascença. Entre outros exemplos, “A Divina Comédia”, do poeta italiano Dante
Alighieri, e “O Romance da Rosa”, de João Menung e Guilherme de Lorris, identificam essa mudança de ênfase e
tema.

Magna Carta
No processo de constituição das monarquias nacionais europeias, a prerrogativa de centralização do poder político
nas mãos de um único monarca parece ser regra comum a todos os Estados que se formavam naquela época. De
fato, o fortalecimento das monarquias nacionais assinala a limitação dos poderes nobiliárquicos e eclesiásticos em
favor do fortalecimento da autoridade real. Contudo, não podemos concluir que essa fosse uma experiência
desenvolvida igualitariamente em todas as regiões da Europa.

Quando nos aportamos para a formação da monarquia britânica, notamos que a autoridade monárquica enfrentou
dificuldades para se estabelecer. No século XII, a ascensão da dinastia Plantageneta, que teve como primeiro rei
Henrique II (1154 - 1189), foi fundamental para que leis de caráter nacional pudessem efetivamente legitimar a
ampliação dos poderes reais. Entre outras ações, esta dinastia foi responsável pela criação da common law, conjunto
de leis válido em todo o território britânico.

Contudo, a supremacia real deu seus primeiros sinais de desgaste no reinado de Ricardo Coração de Leão (1189 -
1199), que foi marcado pelo envolvimento do Estado em diversos conflitos militares contra a França e participou
ativamente na organização da Terceira Cruzada (1189-1192). As longas ausências da autoridade monárquica e o alto
custo gerado nestas guerras acabaram despertando a insatisfação dos nobres ingleses com relação ao rei.

O abalo na relação entre os nobres e a autoridade real só veio a ganhar força durante o governo de João Sem-Terra
(1199 - 1216). Entre outros motivos, podemos apontar que o rei João acabou politicamente desgastado por conta do
seu envolvimento em novos conflitos militares, a elevação dos impostos cobrados sob a população e a tentativa de
impor a taxação das propriedades eclesiásticas. Dessa forma, os nobres organizaram um levante que colocaria a
autoridade real em risco.

Para que não fosse deposto, o rei João Sem-Terra aceitou acatar as determinações impostas pela Magna Carta,
documento de 1215 que viria a remodelar o papel do rei na Inglaterra. Entre outras disposições, a nova lei dizia que o
rei não poderia mais criar impostos ou alterar as leis sem antes consultar o Grande Conselho, órgão que seria
integrado por representantes do clero e da nobreza. Além disso, nenhum súdito poderia ser condenado a prisão sem
antes passar por um processo judicial.

Dessa maneira, podemos compreender que, ao longo de sua trajetória, o Estado monárquico britânico nunca chegou
a se enquadrar plenamente nos moldes do regime absolutista. Não por acaso, por meio dos dispositivos criados pela
Magna Carta, foi que os membros do Parlamento (sucessor do Grande Conselho) deram origem à monarquia
constitucional que sagra o desenvolvimento da Revolução Inglesa, acontecimento histórico que assinala a crise do
Antigo Regime Europeu.

Movimento Iconoclasta
No desenvolvimento do cristianismo, observamos que a criação das normas de conduta e as questões de fé não
estiveram prontas a todos aqueles que se convertiam à nova religião. Nos primeiros séculos após a morte de Cristo,
vemos que os cristãos e as autoridades religiosas se envolveram em vários debates, interessados na determinação
de um mesmo pensamento. No entanto, é necessário admitir que muitas divergências teológicas aconteceram no
meio desse caminho.

Em várias regiões do Ocidente e do Orient, observamos que a utilização de ícones era bastante comum na
divulgação das narrativas e valores fundamentais do cristianismo. Mais que uma peça de decoração ou uma
expressão artística, as imagens de santos e situações bíblicas serviam como um eficiente instrumento de conversão
para amplas populações que não conheciam o mundo letrado ou que ainda se mostravam influenciadas pelas
tradições religiosas pagãs.

Ao chegarmos ao século VIII, enquanto as imagens eram largamente usadas no Ocidente, os cristãos orientais
organizaram um movimento que questionava o uso das imagens no cristianismo. Vários párocos do Império Bizantino
desconfiavam que a conversão empreendida pelas imagens poderia ser desprovida de uma reflexão religiosa
profunda. Nesse sentido, muitos pagãos viriam a converter-se pela beleza das imagens e à recorrência das mesmas
em suas antigas práticas religiosas.

O primeiro levante iconoclasta aconteceu no ano de 730, quando o imperador Leão III publicou um édito ordenando a
destruição de imagens. O interesse primordial dessa ordem era realizar a purificação do cristianismo e diminuir a
influência dos monges que realizavam a fabricação dessas imagens. Logo em seguida, Constantino V ofereceu a
sustentação ideológica necessária para que outra onda de destruição acontecesse pelas cidades cristãs.

Observando o crescimento dessa prática, os clérigos ocidentais condenaram o movimento iconoclasta durante o
Concílio de Niceia II. Mesmo assim, ao longo do século IX, outras manifestações iconoclastas vieram a ameaçar o
uso das imagens no cristianismo. Foi somente pela metade desse mesmo século que a reinterpretação dos ícones
determinou o fim de tal prática. A partir de então, as imagens seriam consideradas como uma representação do
testemunho da fé cristã.

O Auto de fé
Do século V ao XV, o mundo vivenciou um período chamado Idade Média. Nesse período, uma instituição que
predominou nos aspectos econômicos, sociais e culturais foi a Igreja Católica. Guiados pela fé, os religiosos
organizaram expedições evangelistas (Cruzadas), tomaram o poder (Sacro Império) e cometeram algumas
atrocidades em nome de Deus, entre elas a Santa Inquisição.

Entende-se por Santa Inquisição o julgamento que a Igreja fazia a fim de separar os cristãos dos hereges. Qualquer
um que não aceitasse as regras impostas, que desafiasse o poder da Igreja ou que não aceitasse Jesus Cristo como
seu salvador, seria perseguido e levado à Inquisição. Consistia em um julgamento no qual o réu deveria pedir perdão
por seus pecados e receber sua sentença, que na maioria das vezes era ser queimado vivo. O ato de pedir perdão
ficou conhecido como o Auto de fé.

O Auto de fé era a cerimônia em que os réus eram obrigados a participar, antes de sua condenação. Era iniciado
com um sermão e, logo depois, os réus tinham que pedir perdão por seus crimes sem direito à defesa. Em seguida,
caminhavam em direção a um pátio, ladeados por expectadores de todas as partes do reino. Primeiro iam os réus
que se salvaram da fogueira. Em suas roupas havia a pintura de uma chama de cabeça para baixo. Depois iam os
réus condenados à fogueira. A pintura era de uma chama de ponta para cima (ilustrando o que lhes esperava). Por
último iam os ditos hereges, réus que não aceitaram a salvação de suas almas ou que, por conta da gravidade de
seus crimes, não receberam o perdão. Em suas vestes havia ilustrações de chamas, cobras e demônios. A cerimônia
se encerrava nas chamas da fogueira. Os expectadores, em sua maioria, vibravam.

No ano de 2000, o papa João Paulo II, líder máximo da Igreja na época, pediu perdão por vários crimes cometidos
pela instituição, inclusive a Santa Inquisição.

O Clero
Com o desenvolvimento da fé cristã pela Europa, a Igreja passou a ter um papel de ação social e político cada vez
mais amplo nos tempos medievais. Desde sua conjunção com o Estado Romano, os membros eclesiásticos
dispensavam esforços para organizar a sua própria hierarquia, determinar as crenças e realizar a conversão dos
pagãos. No século IV, o Concílio de Niceia definiu as bases doutrinárias da religião e o combate às dissidências
interpretativas.

No século seguinte, a hierarquia da Igreja se mostrava organizada em uma complexa estrutura. Na base estavam os
padres, responsáveis pela condução das paróquias espalhadas em uma mesma diocese. Logo em seguida, os
bispos tomavam conta de uma província e os arcebispos das capitais das províncias. No topo se encontravam os
patriarcas, que tomavam conta das mais importantes cidades; e o papa, líder máximo que determinava as ações de
todos aqueles que ocupavam os escalões inferiores.

Com o passar do tempo, observamos que essas ações de organização religiosa e administrativa passaram a
conviver com outra situação. A doação de feudos como sinal de devoção acabou fazendo com que a Igreja se
transformasse em uma grande proprietária de terras. Nesse novo contexto, a influência exercida no campo da fé
passou a se estender para o campo político e econômico. Em pouco tempo, o celibato entre os clérigos apareceu
como uma medida que conservava as propriedades eclesiásticas.

O constante envolvimento da Igreja com questões políticas e econômicas acabou abrindo portas para outra divisão
no interior da instituição religiosa. Já na Baixa Idade Média surgiram ordens interessadas em se abster das questões
materiais e viver somente em função do plano da espiritualidade. Através de votos de castidade, pobreza e silêncio,
estes clérigos buscavam uma experiência espiritual mais elevada e afastada das tentações do mundo material.

Nasceu assim o movimento monástico, onde os cenobitas, mais conhecidos como monges, habitavam o interior dos
mosteiros em busca do cumprimento dessa vida de resignação espiritual. No século VI, o monge Bento de Núrsia
fundou a ordem monástica beneditina, considerado o primeiro grupo de monges de toda a Idade Média. Logo em
seguida, as outras ordens monásticas da Igreja foram inspiradas pelas orientações fundadas pela “Regra de São
Bento”.

Esses membros envolvidos restritamente com a questão espiritual seriam reconhecidos como os integrantes do clero
regular, ou seja, aqueles que viviam em acordo com as regras dos mosteiros. Por outro lado, os dirigentes religiosos
ligados às questões políticas e econômicas, passaram a incorporar o clero secular. Nesta subdivisão, os
representantes da Igreja se envolviam na administração das riquezas e interferiam ativamente nas questões políticas
da época.

O conceito de Idade Média
O que chamamos de Idade Média é o período compreendido entre a deposição do último soberano do Império
Romano do Ocidente, Rômulo Augústulo (476, século V), até a conquista da cidade de Constantinopla, pelos turcos
(1453, século XV), pondo fim ao Império Bizantino.

Esse período, pelas inúmeras invasões territoriais, frequentes guerras e ampla intervenção da Igreja ficou conhecido
pelos renascentistas, no século XVI, como a “Idade das Trevas”, a “Idade da Fé” ou a “Espessa noite gótica”. O termo
“Idade Média” vem do latim medium aevo. Durante o século XV, o humanismo dividiu o latim em três categorias: latim
clássico, latim bárbaro e latim dos humanistas. Mas entre o latim clássico e sua redescoberta, existiu um latim que
fugiu dos padrões da Antiguidade Clássica, chamado latinitas media. A expressão medievo, período compreendido
entre os séculos V e XV, surgiu deste latim.

No século XVI alguns pensadores teorizaram a Idade Média como um período decadente. Uma fase da História em
que, por conta da interferência religiosa, a ignorância predominou. No século seguinte a Idade Média começou a ter
seu valor reconhecido. A Europa vivia um período conhecido como Romantismo, época em que a sensibilidade
aflorou. Os românticos buscavam uma identidade nacional e uma maior aproximação do passado com o intuito de
entender melhor seu presente.

Mas foi no século XX que a Idade Média foi reconhecida como um período de descobertas que transformaram nosso
meio. Além de ser a origem de nossa miscigenação (através da mescla de valores da sociedade antiga com os povos
germânicos), segundo Jacques Le Goff (em seu livro “Para um novo conceito de Idade Média”. Lisboa: editorial
Estampa, 1980, p. 12.), foi na Idade Média que surgiu a sociedade moderna, que criou “a cidade, a nação, o Estado,
a universidade, o moinho, a máquina, a hora e o relógio, o livro, o garfo, o vestuário, a pessoa, a consciência e,
finalmente, a revolução”.

A Idade Contemporânea procurou (e procura) investigar os fatos sem julgá-los. A História evoluiu, deixando de
privilegiar biografias e elites, para explorar costumes, crenças, festas, vida cotidiana, entre outros. Em 1929, na
França, a fim de estudar uma “Nova História”, Marc Bloch e Lucien Febrve criaram uma revista que reformulou nossa
historiografia e influenciou um grupo de historiadores franceses a estudar a maneira de pensar dos homens. A
“História das Mentalidades”, como é conhecida, examinou fontes literárias, arqueológicas e artísticas pouco
exploradas referentes à Idade Média e foi responsável por seu novo conceito.

O poder da Igreja Católica no mundo feudal
A Igreja Católica teve papel preponderante na formação do feudalismo; além de grande proprietária de terras,
estruturou a visão de mundo do homem medieval. Na realidade, foi a instituição que sobreviveu às inúmeras
mudanças ocorridas na Europa no século V e, ao promover a evangelização dos bárbaros, concretizou a simbiose
entre o mundo romano e o bárbaro.

Tal fato a tornou herdeira da cultura clássica, pois no universo medieval a Igreja Católica monopolizava o
conhecimento. Sem dúvida alguma sua estrutura fortemente hierarquizada colaborou para que ultrapassasse todas
as crises, concentrando o saber e o poder. Internamente havia uma divisão entre o alto clero, membros da nobreza
que exerciam cargos de direção, e o baixo clero, composto por pessoas originárias dos seguimentos mais pobres da
população. O comando de toda essa estrutura lentamente concentrou-se nas mãos do bispo de Roma, que se tornou
papa no século V.

Para cumprir a missão de evangelização dos reinos bárbaros entre os séculos V e VII, parte do clero passou a
conviver com os fieis, constituindo o clero secular, isto é, aquele que vive no mundo. Entretanto, com o tempo, parte
dos religiosos se vinculou aos aspectos temporais e materiais do mundo medieval, ou seja, aos hábitos, interesses,
relações, valores e costumes dos homens comuns, afastando-se das origens doutrinárias e religiosas.

Paralelamente ao clero secular surgiu o clero regular, formado por monges que serviam a Deus vivendo afastados do
mundo material, recolhidos em mosteiros. São Bento organizou a primeira ordem monástica no ocidente, a ordem
dos beneditinos, baseado na regra orar e trabalhar, que significa viver, na prática, em estado de obediência, pobreza
e castidade. Na verdade, os mosteiros acabaram se tornando o centro da vida cultural e intelectual da Idade Média e
também cumpriram funções econômicas e políticas importantes.

Entre os séculos XI e XIII a Igreja viveu diversas crises e mudanças. Contra a concentração de poderes materiais da
Igreja surgiram, por exemplo, vários movimentos que questionavam alguns dogmas cristãos e por isso eram
considerados heréticos. Os cátaros, valdenses, patarinos, entre outros, condenavam a riqueza da Igreja e não se
submetiam à autoridade do papa. Os hereges foram combatidos com extrema violência pela Igreja Católica,
principalmente após a organização do Tribunal do Santo Ofício, no século XII, o julgamento chamava-se Inquisição
do Santo Oficio. Dessa crise surgiu uma reforma na Igreja Católica, promovida pelo papa Gregório IX, no século XI.
Entre os pontos fundamentais estava a questão de que os senhores feudais não poderiam mais nomear os bispos de
sua região, o fim do comércio de bens religiosos, a imposição do celibato clerical e os movimentos das cruzadas.
Na própria Igreja também existiam movimentos contrários ao seu envolvimento nas questões materiais e ao uso da
violência contra os hereges. Eram os franciscanos e dominicanos, que pregavam voto de pobreza e por isso eram
conhecidos como ordens mendicantes, que se misturavam ao povo, procurando demonstrar a vida pobre e
sacrificada do cristão. No entanto, eles foram incapazes de realizar a moralização definitiva da Igreja. Pode-se
considerar que toda movimentação contra as interferências daIgreja Católica no mundo material, iniciada na Idade
Média, acabaram originando a grande divisão dos católicos no século XVI, com a Reforma Protestante.

Oficinas medievais
Na Alta Idade Média, as atividades artesanais estiveram restritas às necessidades de um mesmo feudo. Geralmente,
um artesão se fixava em uma propriedade oferecendo os seus serviços em troca da proteção e dos recursos
disponíveis na propriedade feudal. Não raro, o artesão não dedicava todo o seu tempo disponível para as atividades
artesanais estando também envolvido no trabalho com a terra. De fato, os portadores desse tipo de habilidade
possuíam um raio de ação limitado.

Contudo, entre os séculos XI e XII, este panorama se modificou na medida em que as cidades e os contingentes
populacionais da Europa cresceram significativamente. Podendo agora atender uma ampla gama de consumidores,
esses artesãos passaram a se deslocar para o ambiente urbano onde tinham maior autonomia para organizar suas
atividades. Progressivamente, o trabalho artesanal foi incorporando um significativo número de pessoas e se
organizou de forma mais complexa.

Foi nesse contexto que surgiram as chamadas oficinas. Nela observamos artesãos desempenhando funções
variadas e a presença de relações de trabalho diferentes daquelas observadas no interior das propriedades feudais.
Sob a perspectiva de uma economia monetarizada, os funcionários de uma oficina costumavam receber um salário
em troca de uma jornada de trabalho. Além disso, vemos que a oficina congregava a matéria-prima e as ferramentas
necessárias à produção.

O dono de uma oficina era conhecido como o mestre-artesão. Ele possuía os contatos comerciais necessários para
vender a produção, era proprietário das ferramentas e obtinha a matéria-prima a preços mais baixos. Na condição de
dono da oficina, ele desfrutava da grande parte dos lucros obtidos com a venda de suas mercadorias finalizadas.
Apesar de dono, muitos mestres também ocupavam o seu tempo participando do processo de fabricação.

Logo abaixo do mestre-artesão estavam os oficiais jornaleiros, também conhecidos como companheiros. Na
qualidade de artesãos – e muitas vezes tendo um grau de parentesco próximo ao mestre, os oficiais executavam
grande parte das tarefas ligadas ao processo produtivo. Em troca de seu serviço ganhavam um salário estipulado
pelo mestre e que variava muito em função do desempenho comercial apresentado pela oficina.

Na última escala da hierarquia de uma oficina temos os aprendizes. Em geral, o aprendiz era um jovem que
disponibilizava a sua ajuda aos artesãos enquanto tomava conhecimento das técnicas empregadas na produção de
uma mercadoria. Em troca dos seus serviços, o aprendiz recebia moradia, alimentação e vestuário. Para ele, tal
condição poderia ser vantajosa, pois, ao longo do tempo, poderia ascender socialmente, se transformando em
artesão ou mestre.

Apesar de demonstrarem tal configuração, as oficinas medievais não podem ser simplesmente equiparadas ao
ambiente fabril que se instala com a Revolução Industrial, no século XVIII. Dentro de uma gama de limites, podemos
ver que as oficinas medievais foram uma primeira etapa do processo de complexificação da economia europeia que,
séculos mais tarde, se configuraram sob a hegemonia das indústrias.

Os Bárbaros
A palavra “bárbaro” significa “não grego”.

Os Bárbaros eram povos germânicos que não habitavam o Império Romano. Entre eles estão os francos, os
lombardos, os hunos, os visigodos, os vikings e os ostrogodos. Cada povo possuía política e organização social
própria. Eram povos harmônicos, que viviam da agricultura e eram politeístas, ou seja, acreditavam em vários
deuses, aos quais ofereciam oferendas e dedicavam suas vitórias. Plantavam grãos e cultivavam animais para o
comércio e seu próprio consumo. De todos os povos bárbaros, um deles merece maior importância: os hunos.

Bastante ambiciosos, os hunos eram hábeis guerreiros, porém violentos. Dedicavam-se a invasões, saques e
pilhagens para sua sobrevivência e expansão territorial. Por conta desta ambição, durante anos pressionaram os
demais povos bárbaros para uma invasão ao Império Romano com o intuito de explorar terras férteis (a Germânia era
um território infértil, coberto por pântanos, o que dificultava o plantio) e acumular riquezas. Quando finalmente
conseguiram, no século V, contribuíram intensamente para a queda do Império, mas não foram os principais
responsáveis, pois na época das invasões o Império já se encontrava em crise.

Os obstáculos do século XV
Com o passar das décadas, toda a instabilidade vivida na Europa do século XIV passou a ser respondida por um
novo período de crescimento e expansão. As cidades voltaram a crescer, o comércio se rearticulava e os campos
voltavam a produzir satisfatoriamente. Apesar da reação, velhos e novos problemas indicavam que a ordem feudal
não oferecia condições para que esse crescimento tivesse um fôlego maior. Mesmo superando a crise, havia outros
obstáculos a serem enfrentados.

Um dos mais importantes dessa época se estabelecia na incompatibilidade existente entre as demandas e feições
econômicas do campo e da cidade. A inapetência do trabalho servil, em muitas ocasiões, não conseguia suprir a
crescente demanda gerada pelas cidades europeias. Os problemas com abastecimento eram bastante comuns
nessa época. Por outro lado, as propriedades feudais apresentavam um número de consumidores restrito que
poderia absorver as mercadorias das cidades.

Além disso, vemos que a burguesia não tinha condições de se expandir tendo em vista a falta de moedas
padronizadas que facilitariam o comércio em uma determinada localidade. Toda vez que atravessavam um território
eram obrigados a se submeter à cobrança de impostos e pedágios locais que também limitavam a obtenção de lucro.
Externamente, o controle dos árabes sob o Mediterrâneo e o monopólio das cidades italianas encarecia os produtos
que adentravam o restante da Europa.

Mediante tais entraves, a economia europeia começou a buscar a exploração de novos mercados como uma forma
de incrementar a oferta de alimentos, reduzir o preço das mercadorias e buscar fontes de metais preciosos. Foi assim
que a ventura das grandes navegações passou a ganhar novo fôlego e desbravar mares e terras antes
completamente desconhecidas. Aproveitando de todo o conhecimento da época, o homem europeu rompia com as
velhas barreiras que limitavam espacialmente a sua visão de mundo.

Além disso, vale lembrar que esse novo conjunto de necessidades também veio acompanhado pela formação das
monarquias. Fortalecendo a autoridade real, a burguesia simplificava a cobrança de impostos. Além disso, pela força
das leis, o regime monárquico padronizava as moedas e arrecadava mais tributos. Com o passar do tempo, o próprio
Estado monárquico protagonizava as ações que buscam novas terras e a expansão do comércio. Dessa forma, os
empecilhos do século XV eram vencidos.

Peste Negra
A peste negra ficou conhecida na história como uma doença responsável por uma das mais trágicas epidemias que
assolaram o mundo Ocidental. Chegando pela Península Itálica, em 1348, essa doença afligiu tanto o corpo, quanto
o imaginário de populações inteiras que sentiam a mudança dos tempos por meio de uma manifestação física. Assim
como a Aids, a peste negra foi considerada por muitos um castigo divino contra os hábitos pecaminosos da
sociedade.

Conforme alguns pesquisadores, a peste negra é originária das estepes da Mongólia, onde pulgas hospedeiras da
bactéria Yersinia pestis infectaram diversos redores que entraram em contato com zonas de habitação humana. Na
Ásia, os animais de transporte e as peças de roupa dos comerciantes serviam de abrigo para as pulgas infectadas.
Nos veículos marítimos, os ratos eram os principais disseminadores dessa poderosa doença. O intercâmbio
comercial entre o Ocidente e o Oriente, reavivado a partir do século XII, explica a chegada da doença na Europa.

O contato humano com a doença desenvolve-se principalmente pela mordida de ratos e pulgas, ou pela transmissão
aérea. Em sua variação bubônica, a bactéria cai na corrente sangüínea, ataca o sistema linfático provocando a morte
de diversas células, e cria dolorosos inchaços entre as axilas e a virilha. Com o passar do tempo, esses inchaços,
conhecidos como bubões, se espalham por todo corpo. Quando ataca o sistema circulatório, o infectado tem uma
expectativa de vida de aproximadamente uma semana.

Além de atacar o sistema linfático, essa doença também pode atingir o homem pelas vias aéreas atacando
diretamente o sistema respiratório. Essa segunda versão da doença, conhecida como peste pneumônica, tem um
efeito ainda mais devastador e encurta a vida do doente em um ou dois dias. Em outros casos, a peste negra
também pode atingir o sistema sangüíneo. Desprovida de todo esse conhecimento científico sobre a doença, a
Europa medieval explicava e tratava da doença de formas diversas.

Desconhecendo as origens biológicas da doença, muitos culpavam os grupos sociais marginalizados da Baixa Idade
Média por terem trazido a doença à Europa. Alguns registros da época acusavam os judeus, os leprosos e os
estrangeiros de terem disseminado os horrores causados pela peste negra. No entanto, as condições de vida e
higiene nos ambientes urbanos do século XIV são apontadas como as principais propulsoras da epidemia.

Na época, as cidades medievais agrupavam desordeiramente uma grande quantidade de pessoas. O lixo e o esgoto
corriam a céu aberto, atraindo insetos e roedores portadores da peste. Os hábitos de higiene pessoal ofereciam
grande risco, pois os banhos não faziam parte da rotina das pessoas. Além disso, os aglomerados urbanos
contribuíram enormemente para a rápida proliferação da peste. Ao chegar a uma cidade, a doença se instalava
durante um período entre quatro e cinco meses.

Depois de ceifar diversas vidas, esses centros urbanos ficavam abandonados. Os que sobreviviam à doença tinham
que, posteriormente, enfrentar a falta de alimentos e a crise sócio-econômica instalada no local. Por isso, muitas
cidades tentavam se precaver da epidemia criando locais de quarentena para os infectados, impedindo a chegada de
transeuntes e dificultando o acesso aos perímetros urbanos. Sem muitas opções de tratamento, os doentes se
apegavam às orações e rituais que os salvassem da peste negra.

A intensidade com que a epidemia afetou os centros urbanos europeus era bastante variada. Em casos mais
extremos, cerca de metade de uma população inteira não resistia aos efeitos devastadores da epidemia. Estudiosos
calculam que cerca de um terço de toda população européia teria sucumbido ao terror da peste. Ao mesmo tempo
em que a peste negra era compreendida como um sinal de desgraça, indicava o colapso de alguns valores e práticas
do mundo feudal.

Reino dos Francos
Durante o século V, as tribos dos francos, com o processo de invasão do Império Romano do Ocidente, passaram a
ocupar o norte da Gália. No governo de Clóvis, em 494, os exércitos reais empreenderam uma investida militar contra
os visigodos que assegurou o domínio sobre toda região gaulesa. No decorrer dos governos francos, os reis
empreenderam uma sólida associação com a Igreja Católica. Durante diversas dinastias, a Igreja e os nobres
recebiam terras como recompensa da aprovação religiosa e apoio militar.

Ao longo do século VII os vários reis que assumiram o trono não conseguiram assegurar a unidade dos territórios.
Conhecidos como “reis indolentes”, tais autoridades passaram a conceder poderes políticos a um grupo de
funcionários públicos conhecidos como major domus ou prefeito do palácio. O mais conhecido deles foi Carlos
Martel, que no ano de 732 liderou os francos na chamada Batalha de Poitiers, que impediu a expansão árabe rumo à
Europa Central.

Com essa conquista, Carlos abriu portas para que seu filho, Pepino, o Breve, garantisse a condição de rei dos
francos. Apoiado pela Igreja, Pepino empreendeu a conquista sob os territórios da Península Itálica, que
posteriormente teve parte de suas terras doadas ao alto clero. Dominada diretamente pela Santa Sé, essa região
ganhou o nome de Patrimônio de São Pedro. Carlos Magno, filho de Pepino, sucedeu seu pai no ano de 768.

Na década de 770, Carlos Magno subjugou os lombardos e saxões, obrigando-os a se converterem ao cristianismo.
Anos mais tarde empreendeu campanhas no Leste Europeu, dominando uma parcela dos povos eslavos. Estreitando
laços com a Igreja, o chamado Império Carolíngio vislumbrou a disseminação do cristianismo da Europa e restringiu o
avanço da Igreja Bizantina. No ano de 800, o papa Leão III nomeou Carlos Magno imperador na cidade de Roma.

Para manter a unidade de seus territórios, foi necessário que ele distribuísse terras ao diversos integrantes do clero e
da nobreza. Ao conseguirem a posse dos condados e das marcas (tipos diferentes de possessão de terra), esses
grupos sociais estabeleciam um sólido laço de fidelidade com a autoridade de Carlos Magno. Além disso, o
imperador criou um grupo de fiscais, chamados de missi dominici (emissários do senhor) que eram obrigados a
fiscalizar os territórios reais. Para regimentar suas terras, Carlos ainda criou as capitulares, primeiro conjunto de leis
do mundo medieval.

As conquistas deste império que se formou na Idade Média foram responsáveis por um período de intensa atividade
cultural. Patrocinado do rei, escolas foram fundadas, várias obras greco-romanas foram traduzidas com o auxílio da
Igreja que preservou boa parte deste conhecimento. Com a morte de Carlos Magno, em 814, todo o apogeu do
Império Carolíngio foi posto a prova. Após o governo de Luís Piedoso, filho de Carlos, os territórios foram alvo da
disputa de seus três filhos.

Depois de intensas disputas, o Tratado de Verdun (843) fixou a divisão do império em três novos reinos. Carlos, o
Calvo, tornou-se o rei da França ocidental; Luís, o Germânico, deteve controle sobre a França Oriental; e Lotário
tornou-se rei da França Central. Com a divisão, o poderio militar dos francos não conseguiu fazer frente à invasão
dos normandos, magiares e árabes.

Nesse processo, outros nobres ganharam prestígio mediante seu sucesso militar. Em 987, Hugo Capeto controlou a
região da França Ocidental. Com sua ascensão teve início a chamada dinastia capetíngia. Na porção oriental, os
duques da Francônia, da Saxônia, da Baviera e da Suábia tomaram conta da região fundando o Reino Germânico. A
queda do Império Carolíngio deu fim ao reino dos francos, que foi substituído pelo poder político dos nobres
proprietários de terra.

Revoltas Camponesas
Durante alguns séculos da Baixa Idade Média (X – XV), a estabilidade econômica e social proveniente das Cruzadas
e o desenvolvimento comercial propiciaram um tempo de relativa prosperidade. No entanto, a disseminação da Peste
Negra na Europa Medieval provocou um violentíssimo processo de retração econômica onde a mão-de-obra
disponível se tornava bem menor e, consequentemente, dificultava o equilíbrio entre a produção agrícola e a
demanda alimentar.

A falta de alimentos incitou muitos senhores feudais a promover o aumento dos impostos e obrigações a serem
cobrados sobre a classe servil. Através dessa medida, os donos das terras buscavam garantir a manutenção de seu
padrão de vida e, ao mesmo tempo, impedir que os camponeses saíssem de seus domínios com maior facilidade. No
meio urbano, essas dificuldades também atingiram os trabalhadores livres que tiveram seus salários sensivelmente
reduzidos com a diminuição do mercado consumidor.

Ao mesmo tempo em que estes fatores conjunturais contribuíram para que as relações entre servos e senhores
feudais entrassem em crise, devemos destacar também que as transformações climáticas ocorridas nessa época têm
grande importância para a deflagração de várias revoltas camponesas. Certamente, a proeminência desses levantes
encobre todo um passado monopolizado pelos escritos da classe clerical, que costumava salientar a relação
harmoniosa entre o senhor e os seus servos.

Já na década de 1320, revoltas urbanas de jornaleiros belgas marcavam a crise que se formava na Europa. Algumas
décadas depois, a França se transformou no palco das primeiras revoltas camponesas que ficaram conhecidas como
“jacqueries” ou “Revolta dos Jacques”. O uso desse termo tinha origem na expressão “Jacques bon homme”, termo
dirigido aos camponeses que significava “Jacques, o simples”.

A eclosão dessas revoltas na França deve ser vista sob o contexto do conturbado período da Guerra dos Cem Anos.
Nessa época, as derrotas nos confrontos contra os ingleses, a prisão do rei João II e a elevação dos impostos sobre
os camponeses foram razões específicas que explicavam o pioneirismo francês na organização dessas revoltas
populares. Em vários documentos salienta-se que os envolvidos na revolta questionavam seriamente a subordinação
às autoridades da época.

De fato, as revoltas teriam grande importância para que o processo de formação de algumas monarquias nacionais
européias acontecesse. O risco oferecido à classe detentora de terras (nobreza) favoreceu a criação de grandes
exércitos comandados sob a autoridade de um monarca. Além disso, tais revoltas abrem nossos olhos contra o
corriqueiro discurso imobilista que costuma descrever a Idade Média como um tempo estável e desprovido de
transformações históricas.

Sacro Império Germânico
A desintegração do Império Carolíngio possibilitou a formação de novos reinos na Europa Ocidental. Entre esses,
destacamos a dominação política exercida pelos duques germânicos sobre a região da antiga França Oriental.
Através do voto dos principais duques da região (Francônia, Saxônia, Suábia e Baviera), era escolhido o rei que
obteria controle sobre o Reino Germânico. O primeiro rei escolhido foi Henrique I da Saxônia, eleito em 936.

Henrique da Saxônia foi sucedido por seu filho, Oton I. Sob seu domínio, o Reino Germânico conquistou a Lotaríngia,
que anteriormente era ocupada pelos húngaros. Essa vitória obtida durante a Batalha de Lechfeld possibilitou o
fortalecimento dos laços entre Oton e a Igreja. No ano de 962, o papa João XII coroou Oton I como Imperador do
Sacro-Império Germânico. Consolidado até o início do século XIX, esse novo império fortificou a influência da Igreja
sobre o Estado. Buscando a reversão deste quadro, Oton criou diversos bispados e abadias, e concedeu cargos
religiosos aos nobres que o apoiasse.

Na parte final do século X, o processo de descentralização política promovido pela feudalização das terras incitou
fortes contendas políticas entre o imperador, os senhores feudais e o clero. No século XI, essas disputas ficaram
polarizadas entre os que reconheciam a autoridade real, e os nobres submetidos à influência do papa. A situação
conflituosa chegou ao seu ápice quando as tropas do papa Gregório VII e do imperador Henrique IV guerrearam
entre os anos de 1073 e 1085.

Gregório VII, pertencente à Ordem de Cluny, lutava contra as tramas políticas que colocavam os bispos da Igreja
sobre a influência política do imperador. Entre outras medidas, resolveu proibir a concessão de postos clericais
(investiduras) dadas pela autoridade real do Sacro-Império. Avesso às decisões do papa, Henrique IV acabou sendo
excomungado. Ameaçado pelas tropas da Igreja, pediu que o papa revogasse da sua decisão. Tempos depois,
organizou exércitos contra o papa, que se viu obrigado a fugir de Roma.

A questão entre o papa e o rei foi contornada, em 1122, com a Concordata de Worms. Essas intrigas, que se
arrastaram ao longo de toda a Idade Média, deixaram esse conflito conhecido como Querela das Investiduras. A rixa
estabelecida entre os reis germânicos e o pontífice romano enfraqueceu a influência política de ambos os lados,
fortalecendo a autoridade local dos nobres. Dessa forma, vários pequenos Estados se formaram, dando caráter
simbólico à autoridade do imperador do Sacro Império Germânico.

Universidades Medievais
Durante boa parte da Idade Média, o acesso ao conhecimento científico e o mundo letrado ficaram restritos aos
mosteiros e igrejas da cristandade daquela época. Vários membros tiveram a importante missão de preservar e
reproduzir diversas das obras que integravam o saber produzido durante a Antiguidade Clássica. Contudo, esse
monopólio intelectual fixado pela Igreja viria a sofrer profundas transformações com o estabelecimento do
renascimento urbano-comercial.

A partir do século XII, diversos agentes sociais reivindicariam o conhecimento de habilidades que só eram possíveis
com o domínio da leitura e da escrita. De fato, funcionários municipais ou membros do funcionalismo dos nascentes
Estados Nacionais tinham que elaborar documentos oficiais e decretos que pudessem organizar as ações reais.
Paralelamente, a burguesia também fazia semelhante reivindicação com o intuito de calcular seus lucros, elaborar
contratos e redigir letras de câmbio.

Foi nesse novo contexto que algumas escolas leigas, geralmente financiadas pelo interesse burguês, surgiam com a
intenção de colocar o saberes para fora dos portões da Igreja. Em pouco tempo, eficazes centros de ensino
surgiriam, dando origem as primeiras universidades de que se tem notícia. Sem dúvida alguma, essa viria a ser uma
das mais expressivas contribuições deixadas pela “tenebrosa” era medieval para o mundo contemporâneo.

Apesar de conhecermos tal inovação, não podemos simplesmente transportar nosso conceito de universidade para
aqueles dias. Ao contrário de hoje, a universidade não era o sinônimo de um grande número de salas e prédios, onde
as mais variadas áreas do conhecimento viriam a ser estudadas. No período medieval, a universidade, que em sua
acepção original significava “corporação”, fazia referência ao conjunto de professores e alunos que faziam parte de
uma instituição de ensino.

Inicialmente, qualquer indivíduo poderia lecionar ou aprender em uma determinada universidade. Os mestres
geralmente recebiam o pagamento pelo saber repassado diretamente com seus alunos. Em situações em que um
indivíduo não possuía condições para arcar com seus estudos, acabavam prestando serviços diversos para membros
da população local. Em geral, desempenhavam tarefas contábeis ou trabalhavam como livreiros e copistas. Uma
outra parcela, ainda, tinha seus estudos financiados por familiares mais ricos ou membros da Igreja ou do Estado.

As primeiras universidades foram surgindo de forma espontânea e acabava agregando indivíduos de diferentes
origens. Com relação a essa imensa diversidade é importante ressaltar que o conhecimento científico produzido
pelos árabes e bizantinos também foram de fundamental importância para o desenvolvimento dos primeiros cursos a
serem lecionados. Dessa forma, vemos uma íntima relação entre o aparecimento das universidades e a circulação de
conhecimento entre o Oriente e o Ocidente.

Os relatos que apontam o surgimento de universidades indicam que as primeiras teriam aparecido nas cidades
européias de Oxford, Paris e Bolonha. Geralmente, um aluno universitário era admitido bastante jovem, podendo
ingressar nas diferentes escolas com idade entre 12 e 15 anos de idade. Inicialmente, seus estudos começavam na
escola de artes liberais, onde tinham contato com dois programas de disciplinas: o trivium e o quadrivium.

No trivium, eram ensinadas as matérias que também poderiam compor as chamadas ciências das palavras. Nesse
período eram promovidas aulas de gramática latina, retórica e lógica. Passado esse estágio inicial, cursava nas
matérias do quadrivium, ou “ciências das coisas”, que abraçava as disciplinas de aritmética, geometria, astronomia e
música. Depois disso, o aluno estava apto para exercer algum tipo de atividade ou, ainda, se especializar em direito,
medicina e teologia.

Apesar de simbolizar um espaço para o livre desenvolvimento da ciência, as universidades ainda vão se subordinar
ao controle clerical. Nesse sentido, a Igreja será responsável pela instituição da Licentia Docendi, uma espécie de
licença para ensinar emitida por membros do clero. Além disso, assim como alguns governos, também vão
transformar os mestres em funcionários pagos por eles. Dessa forma, diversos anseios políticos e sociais viriam a
influir no desenvolvimento do saber daquela época.

Xiitas x Sunitas
Vista como umas das mais significativas divisões do mundo islâmico, xiitas e sunitas aparecem em diversos
noticiários sem uma devida explicação que possa esclarecer as dúvidas do grande público. Como se não bastassem
os preconceitos que atingem a comunidade muçulmana como um todo, vemos que essa divisão é de suma
importância para que seja possível entender a história de uma das mais importantes religiões existentes no mundo.
Por volta do século VIII, a expansão do islamismo por diversas partes do mundo determinou a origem da divisão que
hoje estabelece a diferença entre xiitas e sunitas. Tudo isso se iniciou no ano de 632, quando a morte do profeta
Muhammad abriu espaço para uma disputa sobre quem poderia ocupar a posição de principal líder político de toda a
comunidade islâmica existente.

Ali, genro de Muhammad, reivindicava a sucessão por ser ele casado com Fátima, a única filha viva do profeta na
época, e ter dois netos como descendentes diretos do profeta. Contudo, a maioria dos muçulmanos não concordava
com essa ideia ao perceber que Ali era muito jovem e inexperiente para ocupar tamanha posição. Foi então que Abu
Bakr, amigo do profeta, acabou sendo escolhido como sucessor pela maioria dos muçulmanos.
Após a vigência de Abu como califa, dois outros líderes foram aclamados como chefes supremos dos muçulmanos.
Foi então que, em 656, após o assassinato do califa Uhtman, Ali conseguiu governar por um breve período. Nesse
tempo, a forte oposição da tribo dos omíadas acabou estabelecendo a independência dos califados de Medina e
Damasco. Pouco tempo depois, o próprio Ali acabou sendo morto por um grupo de partidários que não aceitava sua
postura conciliatória.

Mesmo com essa dissidência, os partidários de Ali – conhecidos como “Shiat Ali” – prosseguiram lutando e
questionando a legitimidade política dos califados que não se sujeitavam à autoridade dos descendentes diretos de
Muhammad.

Conhecidos mais tarde como “xiitas”, eles acreditam que os líderes oriundos da linhagem do Profeta são líderes
aprovados por Alá e, por essa razão, teriam a capacidade de tomar as decisões políticas mais sensatas.
Por outro lado, os sunitas – assim designados por também aderirem a Sunna, livro biográfico de Muhammad – têm
uma ação política e religiosa mais conciliatória e pragmática. Preocupados com questões que extrapolam o campo da
religiosidade, os sunitas empreendem uma interpretação mais flexível dos textos sagrados, estabelecendo assim um
maior diálogo com outros povos e adaptando suas crenças com o passar do tempo.

Numericamente, os sunitas hoje representam mais de noventa por cento da população muçulmana espalhada pelo
mundo. Na condição de minoria, os xiitas acreditam que sua vida ascética e a adoção de princípios mais rígidos
garantiriam o retorno de Mahdi, o último descendente direto, que seria responsável pelo retorno de um governo mais
justo e próspero. Já os sunitas acreditam que os livros sagrados (Alcorão e Suna) e a discussão entre os irmãos
sejam suficientes para a promoção de um bom governo.