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Ronald Dworkin defende uma posição contrária aos pressupostos do

positivismo jurídico.
O positivismo jurídico tenta transformar o estudo do Direito em uma ciência
com as mesmas características das ciências naturais. A característica
fundamental da ciência é a sua avaloratividade, ou seja, a distinção que faz
entre juízos de fato – “representa uma tomada de conhecimento da realidade,
visto que a formulação de tal juízo tem apenas a finalidade de informar, de
comunicar a outro a minha constatação” (Norberto Bobbio) - e juízos de valor –
“uma tomada de posição frente à realidade” (Norberto Bobbio), contrariamente
ao juízo de fato, sua formulação tem a finalidade de influir sobre o outro, de
leva-lo a tomar uma decisão semelhante a minha. A ciência trabalha apenas
com juízos de fato e excluiu do seu campo científico os juízos de valor, pois
busca um conhecimento objetivo da realidade, sendo os juízos de valor
tipicamente subjetivos.
O jurista, portanto, seria comparado a um cientista que estuda a realidade
sem dela formular juízos de valor.
Para os defensores do positivismo jurídico, o sistema jurídico é um sistema
lógico fechado: nele as decisões jurídicas podem ser inferidas, por meio da
lógica, a partir das regras jurídicas predeterminadas. Essas regras foram
estabelecidas sem interferência subjetiva de valores sociais, políticos ou
morais. Para eles também, os juízos morais podem ser emitidos por meio de
argumentação racional, evidência ou prova.
Dworkin irá se opor a essa ideia de neutralidade e objetividade do Direito
proposta pelo positivismo jurídico e afirmar que em casos difíceis o sistema
jurídico tão bem amparado como sugere essa doutrina do direito, na verdade,
apresenta espaço para diversidade de opiniões e sentenças.
Em sua obra Levando os direitos a sério, afirma que enquanto “uns dizem
que há apenas uma resposta certa para questões complexas, outros afirmam
que não há uma única resposta certa, mas tão somente respostas”.
Como autor contemporâneo, Dworkin está presente nos debates atuais e
atenta para peculiaridades dos julgamentos, em que nas mãos de diferentes
juízes um mesmo caso pode ter diferentes sentenças.
Para ilustrar a dificuldade de se obter uma única resposta, ele afirma que
“quando um juiz se depara com um processo judicial difícil, mesmo havendo,
em princípio, uma teoria do direito superior às outras e, portanto, uma única
resposta correta a um caso difícil, esta resposta está trancafiada no céu do
filósofo do direito, inacessível tanto aos leigos quanto aos advogados e juízes.
Cada um pode ter apenas sua própria opinião, e a opinião do juiz não oferece
mais garantias de verdade do que a de qualquer outra pessoa” (Dworkin,
Levando os direitos a sério, pág. 431). É como, por exemplo, haver uma
divergência entre os árbitros em um jogo de xadrez. Nesse caso, nenhuma
opinião pode ser verdadeira, não há uma resposta a questão, mas somente
respostas e cada uma é tão válida quanto as outras. Cada árbitro nesse
impasse pensará que sua resposta é superior.
Nessa discussão, uma questão é levantada em sua obra: se “é sensato
ou justo que o Estado faça valer a decisão de um determinado grupo de juízes
num caso difícil, mesmo que um outro grupo de juízes igualmente criteriosos e
competentes tenha chegado a uma decisão diferente?” (pág. 431) O autor
responde a indagação alegando que apesar da decisão de um grupo de juízes
ser passível de falhas e possivelmente não consigam provar sua correção, é
preferível deixar essa decisão vigorar do que atribuí-la a uma outra
instituição.
Há algumas consequências por pensar que não há uma única resposta
correta nos casos mais complexos, conhecidos como hard cases, e estas
podem ser exemplificadas no caso da Spartan Steel, citado na obra do Dworkin
em questão. Nesse caso, os empregados do réu romperam um cabo elétrico
que pertencia a uma companhia de energia elétrica que fornecia energia ao
autor da ação (Spartan Steel), e a fábrica teve que ser fechada enquanto o
cabo estava sendo consertado. O tribunal tinha de decidir, então, se permitiria
ou não que o demandante fosse indenizado por perda econômica decorrente
de danos à propriedade alheia cometidos por negligência. Imaginando que não
há uma única resposta correta, o demandante no caso Spartan Steel não teria
direito a ser compensada por seu prejuízo econômico e o acusado não teria o
direito de livrar-se da responsabilidade pelo dano. A proposição “empresa
acusada é responsável pelos danos econômicos” não é verdadeira, mesmo
que a proposição “a empresa acusada não é responsável” também não seja
verdadeira. Assim, nenhuma das proposições é falsa (porque isso tornaria a
outra verdadeira), mas também nenhuma é verdadeira.
Sobre a impossibilidade de existência de uma resposta correta existem
três argumentos: “1) inevitável imprecisão da linguagem jurídica às vezes torna
impossível dizer que uma proposição do Direito é verdadeira ou falsa; 2)
suposição de que as proposições de Direito têm uma estrutura oculta,
explicitada pelo positivismo jurídico, que explica como pode ser verdadeiro, por
exemplo, que nem um determinado contrato seja válido ou não válido; 3) às
vezes, uma proposição de Direito é contestada de tal maneira que nenhum
outro lado tem qualquer chance de provar que o outro está errado; esse
argumento supõe que as proposições de Direito inerentemente controvertidas
não podem ser nem verdadeiras nem falsas” (Flávio Quinaud Pedron, A
controvérsia sobre a única resposta correta).
Dworkin diz que existe a possibilidade teórica de “alegações favoráveis
que tornem o acusado responsável serem tão fortes quanto as alegações
favoráveis que o livre dessa responsabilidade”. Mas se tal possibilidade vir a
concretizar-se, os juízes não poderão, com base nas regras até aqui já
mencionadas, afirmar nenhuma das proposições como verdadeira, nem negar
qualquer uma delas como falsa, estabelecendo-se o „juízo de empate‟.
Ronald Dworkin alerta a possibilidade do juízo de empate emitido por
determinado juiz se tornar polêmico. Mas afirma que em sistemas jurídicos
primitivos (com poucos precedentes ou poucas leis judiciais) o número de
casos examinados como empate será maior do que em um sistema jurídico
avançado( já pródigo em regras e práticas constitucionais, grande número de
leis e precedentes), neste a probabilidade prévia de empates é muito menor,
podendo levar a excluí-los. Essa instrução não negaria a possibilidade teórica
de um empate, mas iria pressupor que, dada a complexidade do material
jurídico existente, os juízes irão concluir que, pesados todos os prós e contras,
uma ou outra das partes detém a melhor argumentação para o caso.
“A refutação, então, da tese de que existe uma resposta correta para
casos difíceis deve vir de um argumento filosófico, de modo a contestar que em
um sistema jurídico complexo e abrangente é improvável que duas teses
divirjam a ponto de exigir respostas diferentes” (Flávio Quinaud Pedron, A
controvérsia sobre a única resposta correta).
Essa ambiguidade já aqui relatada em relação a um caso não é capaz
de excluir a possibilidade de uma resposta correta, para Dworkin. Se em um
caso difícil existirem duas justificativas que oferecem uma adequação
igualmente aos dados jurídicos, uma delas, entretanto, oferecerá uma
justificativa melhor que a outra se for superior enquanto teoria política ou moral;
se abranger melhor os direitos que as pessoas realmente têm do que a outra.
O autor ainda afirma que a resposta “não há resposta correta” é um juízo
da mesma natureza que qualquer uma das outras respostas disponíveis e
igualmente falíveis aos casos complexos.
Dworkin, então, na busca de defender uma única resposta correta,
finaliza dizendo que “o mito de que num caso difícil só existe uma resposta
correta é tão obstinado quanto bem-sucedido. Sua obstinação e seu êxito
valem como argumentos de que não se trata de um mito”.