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Eclesiástico

EDITORA
AVE-MARIA
Extraído da
Bíblia Ave-Maria
INTRODUÇÃO
Este é o único livro do AT do qual conhece-
mos o autor. É chamado Jesus Ben Sirac. Jesus
deve ser o nome e Ben Sirac o sobrenome, isto
é, o nome de família.
Uma dúvida que incomoda os exegetas é
se o sábio de Jerusalém teria ou não sofrido
influência da comunidade helênica. Certo é que
a abertura ao helenismo não é explícita, pois o
livro fala do temor ao Senhor; da Lei; da Torah;
do culto; todas temáticas judaicas que nada têm
a ver com o helenismo.
A impressão que, a primeira vista, temos,
é a de Ben Sirac como um sábio prudente,
ancorado no passado do seu povo, mas aberto
aos valores de um mundo novo que começa-
va a atrair os seus discípulos. Ben Sirac não
podia ignorar os eventos da história, as novas
tendências. Seu objetivo parece ser ajudar os
discípulos a continuarem fiéis à tradição, mas
também abertos ao novo.
O profeta e seu tempo
Tendo o seu neto traduzido a sua obra do
hebraico ao grego, a partir de 132 a.C., e se o
4
Introdução
seu avô não escreveu o livro antes do final de
sua carreira (prólogo), podemos presumir que
o autor compôs o seu livro durante o primeiro
quarto do II século a.C., e deve ter nascido apro-
ximadamente na metade do III século, época em
que ensinava Coélet.
Isso parece confirmado ainda por outros
indícios. Em primeiro lugar, na obra de Bem
Sira não se encontra nenhuma alusão à crise
provocada pela helenização de Antíoco IV, em
167 a.C. Seu período foi o anterior, em que a
Palestina passava do controle dos Lágidas para
os Ptolomeus. Com certeza foi um período de
muita tensão política e militar, como o nosso
próprio autor constata em 10,8: a soberania
passa de uma nação a outra pela injustiça, pela
arrogância e pelo dinheiro
1
.
A obra
Estrutura
É difícil estabelecer uma estrutura para o
Livro de Ben Sirac, mas não podemos dizer que
isso seja impossível, caso de Coélet. Embora os
diversos autores discordem quanto às especifici-
dades estruturais da obra, todos concordam que
há nela nove pontos que nos permitem delinear
uma estruturação:
1. Gilbert, La Sapienza del Cielo, 140.
5
Introdução
1-2 introdução: Sabedoria, realidade do Senhor
e prova do discípulo;
8-9 perícopes, sobre a Sabedoria, distribuídas
segundo uma aparente desordem;
Eclo 24 é o centro do livro;
primeira parte: 1-23; segunda parte 24-51. A
discussão é se o cap. 24 é isolado ou per-
tence a um dos dois blocos;
tendência a falar da sabedoria na primeira parte
e da história dos pais na segunda parte;
a parte segunda é mais compacta: hino à criação
(42,15-43,33), ênfase sobre a pessoa de Ben
Sirac e textos autobiográficos.
elogio dos pais, 44-50;
Eclo 51: final autêntico do livro? Apêndice ou
parte do livro?
diversidade de temáticas: sabedoria; temor do
Senhor; teodiceia; louvor.
Por meio desses elementos, parece viável a
hipótese estrutural da professora Calduch:
Primeira Parte: 1-23: sobre a sabedoria;
Segunda Parte: 24–42,14: sabedoria na sociedade;
Terceira Parte 42,15-50: hino à criação e hino
aos patriarcas.
Gênero
2
Não é original, mas nem por isso monótono ou
decadente: não é simples imitação de Provérbios.
2. Neste ponto e nos seguintes seguiremos as anotações do curso de Nuria
Calduch-Benages, professora da Gregoriana.
6
Introdução
A característica de Ben Sirac é a natureza
pedagógica do livro e seus métodos de argu-
mentação. Uma prova é o uso da fórmula al
tomar (não diz), que é fórmula própria da pe-
dagogia egípcia: o sábio subentende um grupo
de ouvintes ao qual tenta persuadir.
Aprecia a tradição, mas não deixa de ser
aberto à modernidade.
Usa elementos psicológicos ao tentar retra-
tar alguns personagens: o preguiçoso (22,1), o
rico, o orgulhoso etc.
Conhece bem a literatura bíblica anterior,
o que lhe possibilita criar poemas: Eclo 1,1-10;
4,12-22 e outros.
Suas fórmulas literárias incluem: exortações,
conselhos (4-5.7-9); provérbios (numérico: 26,5;
com comparação: 14,1; isolados: 13,1; 6,14; 27,4);
poemas autobiográficos (34,11; 51,13); elogio dos
antepassados (44–50); poemas sobre a sabedoria
(1,1-10), mundo de imagens (imagens dos ani-
mais, das plantas, do vestuário): 30,7-8.
Temática
O tema principal é por todos conside-
rado a sabedoria: já em Eclo 1,1 se diz que
toda sabedoria vem do Senhor e está sempre
com ele. Outros textos: 1,2-10; 4,12; 6,18-37;
14,22–15,10; 19; 20,27-33; 24,32-47; 38,25–
39,15; 51,18-38.
7
Introdução
O temor do Senhor: 1,11-40, logo após a
perícope inaugural; 2,1-23; 10,23-34; 25,9-16;
31,12-42; 40,18-28.
No AT o temor é sinônimo de veneração,
respeito e afeto, vizinhança, comunicação.
Sem o temor do Senhor, ninguém pode
atingir a sabedoria; e para chegar ao temor é
preciso da Lei.
A Lei é se manter no temor do Senhor. Con-
tudo, apesar de falar constantemente de temor
do Senhor ligado à Lei, seria injusto qualificá-
-lo como legalista (7,31; 28,6-9). Parece que o
filho de Sirac faz referência a citações da Torah
quando fala da Lei: 7,31 (Lev 6,11; Nm 28,11-13;
Dt 18,3-5; Lv 19,1-3); Eclo 29,11-15 em relação
ao socorro do pobre (Lv 19,10-13; 17-18).
Sem negar o sentido da palavra Torah,
ensinamento, o filho de Sirac recupera um
sentido secundário da Torah: segunda Lei; o
código da aliança é uma forma de continuar a
primeira aliança, a do Sinai. Também a Torah
segue o seu dinamismo, ao interno de uma
história de sabedoria; a Torah é muito mais do
que preceitos estabelecidos. Por isso, não seria
lícito identificar a Torah com a sabedoria, já que
a primeira é apenas um meio para se chegar à
segunda.
A oração: a) é também um tema fundamen-
tal, comparado à Lei; o sábio trata da oração com
muita ênfase e ardor; a oração é coligada com
8
Introdução
a vida, a oração do sábio; quando o sábio fala
da oração, o faz do mesmo modo que fala dos
outros temas; b) o livro não diz como se deve
orar, mas oferece exemplos: oração de súplica
individual, 18,22; 22, 33–23,6; a oração de súpli-
ca coletiva: 33, 1-15; agradecimento individual:
50,24-26; 51,1-17; oração de louvor 16,24-27; ;
42,15–43,37, sentimento com a contemplação
do criado; condições de oração (7,10).
O culto: a) sacerdócio, sacrifícios e normas
cultuais; b) não se pode oferecer um sacrifício a
Deus e ser moralmente incorreto; c) o culto está
unido à expressão da vida moral do homem: o
homem deve viver o seu cotidiano em relação
pessoal com o Senhor; d) há um culto político
que resguarda o sumo sacerdote, a moral; um
culto estético: vestes, cenário, cerimônia; um
culto moral: sacrifícios justos. O culto, enfim,
tem algo a ver com todos os aspectos da vida
humana: o culto é algo estético, mas, ao mes-
mo tempo, composto de elementos religiosos
e proféticos.
História de Israel: 44–50 narra a história
de Israel de um modo altamente original. Não
é apenas uma galeria de personagens bíblicas.
Cita também duas vezes Henoc! Não fala nada
sobre Esdras, mas muito em Neemias. Estra-
nhamente, ainda dedica um capítulo a Simão!
Criação: considera o cosmo como uma
criatura que o Senhor revelou na história do
9
Introdução
homem e especialmente na história de Israel.
É fortemente marcado por um nacionalismo.
A criação vem impostada como louvor ao
criador. Sublinha, sobretudo, a doutrina dos
contrários, das coisas opostas que remonta ao
Livro do Gênesis (42,15–43,37). Toda a busca
sobre a criação de um modo ou de outro é o
desejo de falar do homem. O homem quer
compreender o criador. Essa problemática, à
qual se dá o nome de teodiceia, é uma resposta
à ânsia humana de conhecer a sua origem e
o sentido da vida
A morte e o além: ao filho de Sirac importa
mais a condição da vida até o momento da mor-
te. Estamos ainda antes da crise macabaica e
não se fala de sobrevivência após a morte. Para
todos há somente o Sheol. O filho de Sirac não
oferece, contudo, uma doutrina bem ordenada
sobre o tema. As passagens que tocam nes-
se assunto são 11,20-28; 14,11-21; 30,14-20;
38,16-24; 40,1-17; 41,1-7. Ao autor interessa
exclusivamente como se vive antes da morte
(uma vida coerente).
Vida em sociedade: o livro é pleno de pon-
tos práticos. Exemplos: domínio das paixões,
sexualidade, comer, beber, riqueza e falar. O
capítulo 37 introduz o tema do discernimen-
to. Coligados ainda a esse assunto aparecem
os conselhos sobre a família, a mulher e a
amizade.
10
Introdução
Mensagem teológica
Trata-se de um tratado endereçado aos
jovens nobres de Jerusalém, futuros governa-
dores do país.
Não é um manual de teologia, mas toca em
temas diversos e de uma maneira pouco orga-
nizada, sem uma estrutura clara; nem todos os
temas são teológicos.
Temas não teológicos e morais: as temáticas
não teológicas são abordadas no interior dos
temas morais.
Sabedoria, Temor do Senhor, Lei: eis as
sínteses sapienciais do Eclo: a) 19,18, toda a sabe-
doria é temor do Senhor e em toda sabedoria há
prática da Lei; b) junto ao tema da sabedoria está
também aquele da oração e do culto, da história
de Israel, porque o sábio põe o seu fundamento
não só na doutrina dos antigos mas também
na natureza do homem e na sua relação com
Deus; c) temas escatológicos: a morte, o possível
além; d) temas teológicos e temas ligados à vida
familiar, referência às filhas de Israel, vida entre
marido e mulher, relações com pessoas anciãs,
relação com os servos, relações de amizade,
relações entre os governantes, ricos e pobres,
comerciantes, conselheiros, médicos, artesãos,
figuras da vida social; e) interesse pela educação
dos filhos; comportamento nos banquetes; vinho,
viagem, empréstimos, trabalho; f) sabedoria
como tom religioso que conduz a Deus.
11
ECLESIÁSTICO 1
Prólogo: Em razão do exposto na introdução, a presente tradução foi feita do texto
da antiga versão latina. Recorremos ao texto original nas passagens em que
o texto está incompleto ou corrompido. As passagens impressas em grifo
(itálico) são as que não figuram na versão grega dos Setenta. As principais
variantes dos textos gregos e hebraicos estão reproduzidas em notas.
ECLESIÁSTICO
Prólogo*
P
ela Lei, pelos Profetas e por outros escritores
que os sucederam, recebemos inúmeros en-
sinamentos importantes e cheios de sabedoria,
que tornam Israel digno de louvores pela sua
doutrina e sabedoria, pois não somente esses
autores deverão ter sido muito esclarecidos, mas
os próprios estranhos podem tornar-se, graças a
eles, muito hábeis em falar e escrever.
Foi assim que, após entregar-se particu-
larmente ao estudo atento da Lei, dos Profetas
e dos outros Escritos, transmitidos por nossos
antepassados, também meu avô Jesus quis
escrever algo instrutivo e cheio de sabedoria, a
fim de que as pessoas desejosas de se instruir,
esclarecidas por suas lições, pudessem dedicar-
-se mais e mais à reflexão e progredir na vida
conforme a Lei.
Exorto-vos, então, a consagrar à leitura
deste Livro boa vontade e atenção muito parti-
cular, e a perdoar-nos também quando, embora
querendo dar uma imagem exata da sabedoria,
não encontramos, entretanto, os termos dese-
jados para expressá-la. Com efeito, as palavras
12
ECLESIÁSTICO 1
hebraicas perdem sua força quando traduzidas
em língua estrangeira, fato que não acontece
com este Livro somente, pois a Lei, os Profetas e
os outros Escritos são, quando traduzidos, muito
diferentes do texto original.
No ano trinta e oito do reinado de Ptolomeu
Evergetes, vim ao Egito, onde permaneci muito
tempo. Aí encontrei, dei-xado ao abandono,
este Livro, encerrando uma doutrina que não se
deve desprezar. Por isso, julguei que fosse útil e
mesmo necessário trabalhar com cuidado para
traduzi-lo. Durante muito tempo, dediquei a
esse fim muitas vigílias e todos os cuidados para
executar essa obra e publicá-la no interesse
daqueles que quiserem entregar-se à reflexão
e aprender como se devem conduzir, se estive-
rem resolvidos a pautar a sua vida segundo a
Lei do Senhor.
I – A SABEDORIA NA VIDA (1–42,14)
Sabedoria e temor do Senhor
1
1 Toda a sabedoria vem do Senhor Deus,
ela sempre esteve com ele.
Ela existe antes de todos os séculos.
2 Quem pode contar os grãos de areia do mar,
as gotas de chuva, os dias do tempo?
Quem pode medir a altura do céu,
a extensão da terra, a profundidade do
abismo?
13
ECLESIÁSTICO 1
3 Quem pode penetrar a sabedoria divina,
anterior a tudo?
4 A sabedoria foi criada antes de todas as coisas,
a inteligência prudente existe antes dos
séculos!
5 O Verbo de Deus nos céus é fonte de sabe-
doria,
seus caminhos são os mandamentos eternos.
6 A quem foi revelada a raiz da sabedoria?
Quem pode discernir os seus artifícios?
7 A quem foi mostrada e revelada a ciência
da sabedoria?
Quem pode compreender a multiplicidade
de seus caminhos?
8 Somente o Altíssimo, criador onipotente,
rei poderoso e infinitamente temível,
Deus dominador, sentado no seu trono;
9 foi ele quem a criou no Espírito Santo, quem
a viu, numerada e medida;*
10 ele a aspergiu em todas as suas obras,
sobre toda a carne, à medida que a repartiu,
e deu-a àqueles que a amavam.
11 O temor do Senhor é uma glória, um motivo
de glória,
uma fonte de alegria, uma coroa de regozijo.
12 O temor do Senhor alegra o coração.
Ele nos dá alegria, regozijo e longa vida.
1,9. No Espírito Santo: esta expressão mostra que o tradutor latino pensa na
sabedoria personificada: Jesus Cristo.
14
13 Quem teme o Senhor se sentirá bem no
instante derradeiro,
no dia da morte será abençoado.
14 O amor de Deus é uma sabedoria digna de
ser honrada.
15 Aqueles a quem ela se mostra amam-na
logo que a veem,
logo que reconhecem os prodígios que realiza.
16 O temor do Senhor é o início da sabedoria.
Ela foi criada com os homens fiéis no seio
de sua mãe,
ela caminha com as mulheres de escol,
vemo-la na companhia dos justos e dos fiéis.
17 O temor do Senhor é a religião da ciência.*
18 Essa religião guarda e santifica o coração;
ela lhe traz satisfação e alegria.
19 Aquele que teme ao Senhor será confortado,
no dia da morte será abençoado.
20 O temor do Senhor é a plenitude da sabedoria,
a plenitude de seus frutos, para aquele que
a possui
21 ela enche toda a sua casa com os bens que
produz,
e seus celeiros com seus tesouros.
22 O temor do Senhor é a coroa da sabedoria:
dá uma plenitude de paz e de frutos de
salvação.
1,17. As passagens próprias do texto latino são, às vezes, como aqui, glosas ca-
racterísticas, que atenuam o rigor do pensamento ao interpretá-lo. Ver, por
exemplo: 16,20; 17,20; 18,22; 21,11; 23,10.
ECLESIÁSTICO 1
15
23 Ele a viu e numerou-a; ora, um e outra são
um dom de Deus.
24 A sabedoria distribui a ciência e a prudente
inteligência;
eleva à glória aqueles que a possuem.
25 O temor do Senhor é a raiz da sabedoria,
seus ramos são de longa duração.
26 A inteligência e a religião da ciência se
acham nos tesouros da sabedoria,
mas a sabedoria é abominada pelos pecadores.
27 O temor do Senhor expulsa o pecado,
Sabedoria e mansidão
28 pois aquele que não tem esse temor não
poderá tornar-se justo.
A violência de sua paixão causará sua ruína.
29 O homem paciente esperará até um deter-
minado tempo,
após o qual a alegria lhe será restituída.
30 O homem de bom senso guarda suas palavras;
muitos falarão, em voz alta, de sua prudência.
31 O sentido da instrução está encerrado nos
celeiros da sabedoria.
32 Mas o culto de Deus é abominado pelo
pecador.
33 Meu filho, tu que desejas ardentemente a
sabedoria,
sê justo e Deus ta concederá.
34 Pois o temor do Senhor é sabedoria e instrução,
e o que lhe é agradável
ECLESIÁSTICO 1
16
35 é fidelidade e doçura;
ele encherá os celeiros daqueles (que as
possuem).
Sabedoria e verdade
36 Não sejas rebelde ao temor do Senhor, não
vás a ele com um coração fingido.
37 Não sejas hipócrita diante dos homens,
e que teus lábios não sejam motivo de
queda.
38 Vela sobre eles para que não caias, e não
atraias sobre tua alma a desonra;
39 e para que Deus, revelando teus segredos,
não te destrua no meio da assembleia,
40 por te teres aproximado do Senhor sorra-
teiramente,
com o coração cheio de astúcia e engano.
Paciência e confiança em Deus
2
1 Meu filho, se entrares para o serviço de Deus,
permanece firme na justiça e no temor, e
prepara a tua alma para a provação;
2 humilha teu coração, espera com paciência,
dá ouvidos e acolhe as palavras de sabedoria;
não te perturbes no tempo da infelicidade,*
3 sofre as demoras de Deus; dedica-te a Deus,
espera com paciência,
2,2. Humilha teu coração: no grego – Torna reto o teu coração.
ECLESIÁSTICO 2
17
a fim de que no derradeiro momento tua
vida se enriqueça.
4 Aceita tudo o que te acontecer.
Na dor, permanece firme; na humilhação,
tem paciência.
5 Pois é pelo fogo que se experimentam o
ouro e a prata,
e os homens agradáveis a Deus, pelo cadi-
nho da humilhação.
6 Põe tua confiança em Deus e ele te salvará;
orienta bem o teu caminho e espera nele.
Conserva o temor dele até na velhice.
7 Vós, que temeis o Senhor, esperai em sua
misericórdia,
não vos afasteis dele, para que não caiais;
8 vós, que temeis o Senhor, tende confiança nele,
a fim de que não se desvaneça vossa recom-
pensa.
9 Vós, que temeis o Senhor, esperai nele; sua
misericórdia vos será fonte de alegria.
10 Vós, que temeis o Senhor, amai-o, e vossos
corações se encherão de luz.
11 Considerai, meus filhos, as gerações humanas:
sabei que nenhum daqueles que confiavam
no Senhor foi confundido.
12 Pois quem foi abandonado após ter perse-
verado em seus mandamentos?
Quem é aquele cuja oração foi desprezada?
13 Pois Deus é cheio de bondade e de misericórdia,
ele perdoa os pecados no dia da aflição.
ECLESIÁSTICO 2
18
Ele é o protetor de todos os que verdadei-
ramente o procuram.
14 Ai do coração fingido, dos lábios perversos,
das mãos malfazejas,
do pecador que leva na terra uma vida de
duplicidade;*
15 ai dos corações tímidos que não confiam
em Deus,
e que Deus, por essa razão, não protege;
16 ai daqueles que perderam a paciência, que
saíram do caminho reto,
e se transviaram nos maus caminhos.
17 Que farão eles quando o Senhor começar
o exame?
18 Aqueles que temem o Senhor não são in-
crédulos à sua palavra,
e os que o amam permanecem em sua vereda.
19 Aqueles que temem o Senhor procuram
agradar-lhe,
aqueles que o amam satisfazem-se na sua Lei.
20 Aqueles que temem o Senhor preparam o
coração,
santificam suas almas na presença dele.
21 Aqueles que temem o Senhor guardam os
seus mandamentos,
têm paciência até que ele lance os olhos
sobre eles,
2,14. A primeira linha no texto grego está assim: Ai dos corações tímidos, das
mãos sem vigor.
ECLESIÁSTICO 2
19
22 dizendo: “Se não fizermos penitência, cai-
remos nas mãos do Senhor,
e não nas mãos dos homens”,
23 pois a misericórdia dele está na medida de
sua grandeza.
Piedade filial
3
1 Os filhos da sabedoria formam a assem-
bleia dos justos,
e o novo que compõem é, todo ele, obediên-
cia e amor.
2 Ouvi, meus filhos, os conselhos de vosso pai,
segui-os de tal modo que sejais salvos.
3 Pois Deus quis honrar os pais pelos filhos,
e cuidadosamente fortaleceu a autoridade
da mãe sobre eles.
4 Aquele que ama a Deus o roga pelos seus
pecados,
acautela-se para não cometê-los no porvir.
Ele é ouvido em sua prece cotidiana.
5 Quem honra sua mãe é semelhante àquele
que acumula um tesouro.
6 Quem honra seu pai achará alegria em seus
filhos, será ouvido no dia da oração.
7 Quem honra seu pai gozará de vida longa;
quem lhe obedece dará consolo à sua mãe.
8 Quem teme o Senhor honra pai e mãe.
Servirá aqueles que lhe deram a vida como
a seus senhores.
ECLESIÁSTICO 3
20
9 Honra teu pai por teus atos, tuas palavras,
tua paciência,
10 a fim de que ele te dê sua bênção,
e que esta permaneça em ti até o teu último dia.
11 A bênção paterna fortalece a casa de seus
filhos,
a maldição de uma mãe a arrasa até os
alicerces.*
12 Não te glories do que desonra teu pai,
pois a vergonha dele não poderia ser glória
para ti,
13 pois um homem adquire glória com a honra
de seu pai,
e um pai sem honra é a vergonha do filho.*
14 Meu filho, ajuda a velhice de teu pai,
não o desgostes durante a sua vida.*
15 Se seu espírito desfalecer, sê indulgente,
não o desprezes porque te sentes forte,
pois tua caridade para com teu pai não será
esquecida,*
16 e, por teres suportado os defeitos de tua
mãe, te será dada uma recompensa;*
17 tua casa se tornará próspera na justiça.
Tu serás lembrado de ti no dia da aflição,
e teus pecados se dissolverão como o gelo
ao sol forte.*
3,11. No hebraico: A bênção do pai dá firmeza à raiz; a maldição da mãe arranca a planta.
3,13. Um pai: no grego, uma mãe. No hebraico: Aquele que amaldiçoa a sua mãe
peca gravemente.
3,14. No hebraico: Meu filho, persevera em honrar o teu pai, e não o abandones em
toda a sua vida.
3,15. Porque te sentes forte: no hebraico, durante toda a sua vida.
3,16. Por teres suportado: no grego – Em lugar de teus pecados, tua casa prosperará.
3,17. Tua casa se tornará próspera: repetição do versículo precedente.
ECLESIÁSTICO 3
21
18 Como é infame aquele que abandona seu pai,
como é amaldiçoado por Deus aquele que
irrita sua mãe!*
Doçura e humildade
19 Meu filho, faze o que fazes com doçura,
e, mais do que a estima dos homens, ga-
nharás o afeto deles.
20 Quanto mais fores elevado, mais te humi-
lharás em tudo,
e perante Deus acharás misericórdia;
21 porque só a Deus pertence a onipotência,
e é pelos humildes que ele é verdadeira-
mente honrado.
22 Não procures o que é elevado demais para ti;
não procures penetrar o que está acima de ti.
Mas pensa sempre no que Deus te ordenou.
Não tenhas a curiosidade de conhecer um
número elevado demais de suas obras,
23 pois não é preciso que vejas com teus olhos
os seus segredos.
24 Acautela-te de uma busca exagerada de
coisas inúteis,
e de uma curiosidade excessiva nas nume-
rosas obras de Deus,
25 pois a ti foram reveladas muitas coisas,
que ultrapassam o alcance do espírito humano.
3,18. É amaldiçoado por Deus: no hebraico – irrita o seu criador.
ECLESIÁSTICO 3
22
26 Muitos foram enganados pelas próprias opi-
niões. Seu sentido os reteve na vaidade.*
27 O coração empedernido acabará por ser
infeliz. Quem ama o perigo nele perecerá.
28 O coração de caminhos tortuosos não triunfará,
e a alma corrompida neles achará ocasião
de queda.
29 O coração perverso ficará acabrunhado de
tristeza,
e o pecador ajuntará pecado sobre pecado.*
30 Não há nenhuma cura para a assembleia
dos soberbos,
pois, sem que o saibam, o caule do pecado
se enraíza neles.
31 O coração do sábio se manifesta pela sua
sabedoria;
o bom ouvido ouve a sabedoria com ardente
avidez.*
32 O coração sábio e inteligente abstém-se do
pecado.
Ele triunfará nas obras de justiça.
Bondade com os infelizes
33 A água apaga o fogo ardente, a esmola
enfrenta o pecado.
3,26. No hebraico: os pensamentos dos homens são tão numerosos como as
imaginações perversas que os seduzem.
3,29. No fim deste versículo, o texto hebraico ajunta: Onde falta a menina
dos olhos, falta a luz; onde não há ciência, falta a sabedoria.
3,31. No grego: um coração sábio medita as parábolas; o sábio deseja encontrar quem o
ouça atentamente.
ECLESIÁSTICO 3
23
34 Deus olha para aquele que pratica a mise-
ricórdia;
dele se lembrará no porvir, no dia de sua
infelicidade este achará apoio.*
4
1 Meu filho, não negues esmola ao pobre,
nem dele desvies os olhos.
2 Não desprezes o que tem fome, não irrites
o pobre em sua indigência.
3 Não aflijas o coração do infeliz,
não recuses tua esmola àquele que está na
miséria;
4 não rejeites o pedido do aflito, não desvies
o rosto do pobre.
5 Não desvies os olhos do indigente, para que
ele não se zangue.
Aos que pedem não dês motivo de vos
amaldiçoarem pelas costas,
6 pois será atendida a imprecação
daquele que te amaldiçoa na amargura de
sua alma.
Aquele que o criou o atenderá.
7 Torna-te afável na assembleia dos pobres,
humilha tua alma diante de um ancião;
curva a cabeça diante de um poderoso.
8 Dá ouvidos ao pobre de boa vontade.
Paga a tua dívida, dá-lhe com doçura uma
resposta apaziguadora.
3,34. No grego: aquele que recompensa os benefícios pensa no futuro.
ECLESIÁSTICO 4
24
9 Liberta da casa do orgulhoso aquele que
sofre injustiça.
Quando fizeres um julgamento, não o faças
com azedume.*
10 Sê misericordioso com os órfãos como um pai;
e sê como um marido para a mãe deles.
11 E serás como um filho obediente do Altíssimo,
que, mais do que uma mãe, terá compaixão
de ti.
Amor à sabedoria
12 A sabedoria inspira a vida aos seus filhos,
ela toma sob a sua proteção aqueles que a
procuram;
ela os precede no caminho da justiça.*
13 Aquele que a ama, ama a vida;
aqueles que velam para encontrá-la senti-
rão sua doçura.*
14 Aqueles que a possuem terão a vida como
herança,
e Deus abençoará todo o lugar onde ele entrar.
15 Aqueles que a servem serão obedientes ao
Santo;
aqueles que a amam serão amados por
Deus.*
4,9. Não o faças: no grego – Não sejas pusilânime.
4,12. Inspira a vida: no grego – exalta.
4,13. Sentirão sua doçura: no grego – serão repletos de alegria.
4,15. Santo: expressão favorita do judaísmo para designar Deus, sem empregar
o seu nome.
ECLESIÁSTICO 4
25
16 Aquele que a ouve julgará as nações;
aquele que é atento em contemplá-la per-
manecerá seguro.
17 Quem nela põe sua confiança a terá como
herança e sua posteridade a possuirá,
18 pois na provação ela anda com ele, e
escolhe-o em primeiro lugar.
19 Ela traz-lhe o temor, o pavor e a aprovação.
Ela o atormenta com sua penosa disciplina,
até que, tendo-o experimentado nos seus
pensamentos,
ela possa confiar nele.
20 Então ela o porá firme, voltará a ele em linha reta.
Ela o cumula de alegria,
21 desvenda-lhe seus segredos
e enriquece-o com tesouros de ciência, de
inteligência e de justiça.
22 Porém, se ele se transviar, ela o abandonará,
e o entregará às mãos do seu inimigo.
Prudência e justiça
23 Meu filho, aproveita-te do tempo, evita o mal;
24 para o bem de tua alma, não te envergonhes
de dizer a verdade,*
25 pois há uma vergonha que conduz ao pecado,
e uma vergonha que atrai glória e graça.
26 Em teu próprio prejuízo não te mostres parcial,
não mintas em prejuízo de tua alma.*
4,24. No grego: Não tenhas que te envergonhar de ti mesmo.
4,26. Não mintas: no grego – não te enrubesças para tua perda.
ECLESIÁSTICO 4
26
27 Não tenhas complacência com as fragilida-
des do próximo,*
28 não retenhas uma palavra que pode ser
salutar,
não escondas tua sabedoria pela tua vaidade.
29 Pois a sabedoria faz-se distinguir pela língua;
o bom senso, o saber e a doutrina, pela
palavra do sábio;
e a firmeza, pelos atos de justiça.
30 Não contradigas de nenhum modo a verdade,
envergonha-te da mentira cometida por
ignorância.*
31 Não te envergonhes de confessar os teus
pecados;
não te tornes escravo de nenhum homem
que te leve a pecar.*
32 Não resistas face a face ao homem podero-
so, não te oponhas ao curso do rio.*
33 Combate pela justiça, a fim de salvares tua
vida;
até a morte, combate pela justiça,
e Deus combaterá por ti contra teus inimigos.
34 Não sejas precipitado em palavras,
e (ao mesmo tempo) covarde e negligente
em tuas ações.
4,27. Próximo: não se trata aqui da falta de caridade, mas do exercício da
correção fraterna.
4,30. Da mentira: no grego – de faltar à instrução.
4,31. Que te leve: no grego – de um insensato.
4,32. Não resistas: no grego – não tenhas consideração.
ECLESIÁSTICO 4
27
35 Não sejas como um leão em tua casa,
prejudicando os teus domésticos e tirani-
zando os que te são submissos.
36 Que tua mão não seja aberta para receber,
e fechada para dar.
Falsa segurança
5
1 Não contes com riquezas injustas.
Não digas: “Tenho o suficiente para viver”,
pois no dia do castigo e da escuridão, isso
de nada te servirá.
2 Quando te sentires forte, não te entregues
às cobiças de teu coração.
3 Não digas: “Como sou forte!”.
ou: “Quem me obrigará a prestar contas
dos meus atos?”,*
4 pois Deus tomará sua vingança.
Não digas: “Pequei, e o que me aconteceu
de mal?”,
pois o Senhor é lento para castigar os crimes.
5 A propósito de um pecado perdoado, não
estejas sem temor,
e não acrescentes pecado sobre pecado.
6 Não digas: “A misericórdia do Senhor é grande,
ele terá piedade da multidão dos meus
pecados”,
5,3. Ou: “Quem me obrigará… – no grego – porque o Senhor te punirá com
toda a certeza.
ECLESIÁSTICO 5
28
7 pois piedade e cólera são nele igualmente
rápidas,
e o seu furor visa aos pecadores.
8 Não demores em te converteres ao Senhor,
não adies de dia em dia,
9 pois sua cólera virá de repente, e ele te
perderá no dia do castigo.
10 Não te inquietes à procura de riquezas
injustas,
de nada te servirão no dia do castigo e da
escuridão.
Domínio próprio
11 Não joeires a todos os ventos,
não andes por qualquer caminho,
pois é assim que se revela o pecador de
linguagem dúbia.
12 Firma-te no caminho do Senhor,
na sinceridade de teus sentimentos e teus
conhecimentos,
nunca te afastes de uma linguagem pacífica
e equitativa.*
13 Escuta com doçura o que te dizem, a fim de
compreenderes,
darás então uma resposta sábia e apro-
priada.*
5,12. Na sinceridade etc.: no grego – que a tua linguagem seja sempre a mesma.
5,13. No grego, sê pronto para ouvir, e lento para responder.
ECLESIÁSTICO 5