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J. N.

DARBY
ESTUDOS SOBRE
A PALAVRA DE DEUS
MATEUS-MARCOS
ESTUDOS SOBRE
A PALAVRA DE DEUS
MATEUS - MARCOS
T radução
de
DR. MARTINS DO VALE
DEPÓSITO DE LITERATURA CRISTÃ:
R. INFANTARIA 16, N.2 77, R/C - ESQ.
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/. N. DARBY
ESTUDOS SOBRE
A PALAVRA DE DEUS
MATEUS-MARCOS
INTRODUÇÃO AOS LIVROS
DO NOVO TESTAMENTO
dos que se refere ao Novo Testamento, seja qual for a
bênção que daí possa advir. A concentração e ao mesmo
tempo o desenvolvimento da luz divina neste precioso dom
de Deus; o imenso alcance das verdades que ele contém;
a variedade infinita dos aspectos e das aplicações verda­
deiras de uma só e mesma passagem, com todo o círculo
das verdades divinas; de igual modo a importância imensa
dessas verdades consideradas quer em si mesmas quer
a respeito da glória de Deus, quer ainda em relação com
as necessidades do homem; enfim, a maneira como elas
revelam Deus e respondem a essas necessidades...; todas
essas considerações, que eu não sei exprimir senão muito
imperfeitamente, concorrem, no seu conjunto, para fazerem
recuar uma pessoa humilde perante a pretensão de dar
uma ideia verdadeira e (mesmo em princípio) adequada
à intenção do Espírito Santo nos livros do Novo Testa­
mento.
E quanto mais a própria verdade é revelada, mais a
verdadeira luz resplandece; quanto mais o homem sente
a sua incapacidade de dela falar, mais medo ele tem de
obscurecer o que é perfeito... De igual modo, quanto mais
pura é a verdade de que nos ocupamos (e aqui trata-se
mesmo da Verdade!), mais difícil se nos torna o ocupar­
mo-nos dela para a expormos aos outros, sem de algum
modo lhe alterarmos a pureza — porque essa alteração tor-
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sagem, poderemos, para proveito de outros, comunicar a
medida da luz que nos é concedida; mas se alguém se
propõe dar uma ideia do conjunto do Novo Testamento,
toda a perfeição da própria Verdade e a universalidade
da intenção de Deus na revelação que dela nos fez se apre­
sentam ao seu espírito — e treme-se ao pensar o que suce­
derá se tentarmos dar dessa intenção uma ideia verdadeira
e geral, e ela não for completa, o que, certamente, nenhum
Cristão pretenderá fazer.
A interpretação do Antigo Testamento pode parecer a
algumas pessoas mais difícil do que a do ;Novo Testamento,
e pode acontecer que isso seja verdade em passagens iso­
ladas; más, embora os escritores do Antigo Testamento
revelem os pensamentos de Deus, que Ele lhes tinha comu­
nicado (e podemos admirar a sabedoria que se manifesta
nessa parte das Escrituras), o próprio Deus fica sempre
oculto atrás do véu. Podemos desconhecer o sentido de
uma expressão, ou não o notar; perdemos algo, sem dúvida,
porque foi Deus quem falou. Mas no iNovo Testamento
encontramos o próprio Deus, benigno, indulgente, humano.
Nos Evangelhos temos Deus sobre a Terra; Deus ilumi­
nando com luz divina as subsequentes comunicações do
Espírito Santo. É o próprio Deus que Se manifesta. Porém,
se nos dá deste modo, no Novo Testamento, mais luz para
nos guiar e para O conhecermos a Ele próprio, é também
muito mais grave interpretar mal essas comunicações
vivas, ou disfarçar, com os nossos próprios pensamentos,
o que é a Verdade. Porque é necessário recordarmo-nos
de que Cristo é a Verdade. Ele é o Verbo; é Deus que nos
fala, na Pessoa do Seu Filho, que, sendo um verdadeiro
homem, manifesta também o Pai.
Pelo que respeita à própria exegese, a verdade, a luz,
a vida eterna, encontram-se no que é revelado no Novo
Testamento; e podemos considerar este sob tantos aspectos
que a dificuldade prática se toma muito maior. Podemos,
com efeito, considerar esta Verdade no seu valor intrínseco
e essencial; podemos considerá-la como a manifestação da
eterna natureza de Deus; podemos considerá-la na sua ma-
INTRODUÇÃO 7
nifestação em vista da glória do Filho; podemos examinar
também as suas relações e os seus contrastes com as comu­
nicações parciais do Antigo Testamento, que ela completa
e eclipsa pelo seu próprio brilho, com a dispensação do
governo terrestre de (Deus, o qual ela põe de lado, para
introduzir o que é eterno e celeste. Enfim, podemos consi­
derar esta verdade nas suas relações com o homem, porque
«a vida era a luz dos homens», tendo Deus querido mani-
festar-Se e glorificar-Se no homem, fazer-Se conhecer por
ele e estabelecê-lo como meio de ele próprio se revelar às
suas outras criaturas inteligentes. Em cada passagem do
Novo Testamento haveria também algo a dizer sobre todos
esses diferentes aspectos, porque a Verdade é Una, tal
como está em Deus. Mas brilha sobre todas as coisas, mos­
trando delas o seu verdadeiro carácter.
Apesar de todas estas dificuldades, duas coisas, no en­
tanto, me tranquilizam: Temos de nos haver com um Deus
de bondade perfeita, que nos deu essas maravilhosas comu­
nicações, para que delas aproveitemos; em segundo lugar,
embora a fonte da Verdade seja infinita e perfeita, embora
essas revelações decorram da plenitude da Verdade de
Deus, e que a sua comunicação seja perfeita, conforme a
perfeição de Aquele que no-la deu, esta comunicação é feita
por meio de diversos instrumentos, em si mesmos de capa­
cidade limitada, empregados por Deus para dela comuni­
carem esta ou aquela porção. Todavia, esta água viva e
pura não foi, de modo algum, alterada; mas, em cada
comunicação, tem sido limitada pela intenção de Deus no
instrumento empregado por Ele para a distribuir, estando
inteiramente em relação com o conjunto, segundo a per­
feita sabedoria de Quem comunicou toda a verdade. O
canal não é infinito; a água que nele corre é infinita, mas
não o é na sua comunicação. Eles profetizaram em parte,
e nós conhecemos também em parte.
O aspecto e a aplicação da verdade têm mesmo um
caráoter particular, segundo o vaso por onde Deus a comu­
nicou. A água viva está ali, na sua perfeita pureza; jorra
da fonte tal como se encontra lá. A fonte, através da qual
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ela é produzida diante dos homens, tem a forma da sabe­
doria de Quem a fez para ser Seu instrumento, para tal
efeito. O Espírito Santo actua no homem, vaso expressa­
mente preparado para esse fim, vaso que Deus tinha criado,
formado, aperfeiçoado, adaptado moral e intelectualmente
para este ou aquele serviço acerca da Verdade; e Deus
actua nesse vaso segundo o fim para que o tinha preparado.
Cristo era — e É!—a Verdade. Os outros têm-na comuni­
cado, cada um segundo o que lhe foi dado; e esta comu­
nicação tem sido em relação com os elementos com os quais
Deus os tinha posto respectivamente em relação pela inteli­
gência e pelo coração, e segundo o fim para o qual o Espí­
rito Santo os tinha preparado.
Deixando, pois, os meus receios, lanço-me confiante ao
cumprimento deste serviço, de coração apoiado na perfeita
bondade de Deus, que gosta de nos abençoar. Possa o justo
sentimento da minha responsabilidade guardar-me de avan­
çar em algo que não seja segundo Deus; e que o próprio
Senhor, na Sua graça, Se digne dirigir-me e conceder-me
tudo aquilo que possa constituir uma bênção para o leitor.
O Novo Testamento tem um carácter evidentemente
muito diferente do Antigo, e o que atrás disse a tal respeito
forma o essencial dessa diferença. O Novo Testamento
trata da revelação do próprio Deus e manifesta o Homem
levado, em Justiça, à glória e à presença de Deus. Anterior­
mente, Deus tinha feito promessas e tinha executado julga­
mentos. Tinha governado um povo sobre a Terra; tinha
actuado no que concerne às nações, tendo em vista esse
povo como centro dos Seus planos para a Terra. Tinha-lhe
dado a Sua lei, tinha-lhe concedido, por intermédio dos
profetas, uma luz crescente, anunciando como sempre mais
próxima a chegada d’Aquele que deveria dizer-lhe tudo da
parte de Deus. Mas a presença do próprio Deus, Homem
no meio dos homens, tudo mudou: Ou o homem receberia,
como coroa de bênção e de glória, Aquele cuja presença
devia banir todo o mal, desenvolver e conduzir à perfeição
todo o elemento de bem, dando ao mesmo tempo um
INTRODUÇÃO 9
objecto que seria o centro de todos os afectos tornados
perfeitamente felizes pelo igozo desse objecto; ou então,
rejeitando esse Cristo, a nossa pobre natureza devia mos­
trar-se o que na realidade é, inimizade contra Deus, e tor­
nada evidente a necessidade de uma ordem de coisas com­
pletamente nova, onde a felicidade do homem e a glória
de Deus seriam fundadas sobre uma nova Criação.
Sabemos o que aconteceu: Aquele que era a imagem
do Deus invisível teve de dizer, após o exercício de uma
longa e perfeita paciência: «IPai justo, o mundo não te
conheceu», e mais ainda, infelizmente: «Eles têm odiado,
tanto a mim como a meu Pai» {João 17:25; 15:24).
Todavia, esse estado do homem não tem, de modo ne­
nhum, impedido Deus de realizar os Seus planos; pelo
contrário, esse miserável estado proporcionou-Lhe a oca­
sião de o fazer. Deus não quis rejeitar o homem até ao
momento em que o homem O tivesse rejeitado a Ele —
(tal como no jardim do ;Éden, o homem, consciente do seu
pecado, não podendo suportar a presença de Deus, escon­
deu-se ou afastou-se d’Ele, antes de Ele o ter expulso do
jardim). Mas quando o homem, por seu lado, repeliu intei­
ramente a Deus, a Deus que, em bondade, viera ao meio
da sua miséria espiritual e moral, Deus ficou livre — per-
mita-se-nos a expressão, porque ela é moralmente certa —
Deus ficou livre para prosseguir os Seus eternos desígnios.
No entanto Deus não executa o julgamento, como no Éden,
quando o homem se afastara d’Ele; agora é a graça sobe­
rana que, quando o homem está manifestamente perdido
e se declarou inimigo de Deus, prossegue a Sua obra para
fazer resplandecer a Sua glória aos olhos do universo na
salvação dos pobres pecadores que O tinham rejeitado (‘).
O Ver: Tito 1:2; 2.5 Timóteo 1:9-10; comparar Provérbios 8:22-31,
sobretudo 30 e 31; Romanos 16:25-26 (ler: escritos proféticos). Sob a lei,
Deus não saía nunca do santuário, e o homem não podia entrar ali. No
Cristianismo, Deus saiu — e o homem entrou! Isto pertence à essência de
cada uma dessas duas dispensações. Anteriormente havia promessas. São rela­
ções características.
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Mas, para que a perfeita sabedoria de Deus se manifes­
tasse mesmo nos mais ínfimos detalhes, essa obra de graça
soberana, na qual o próprio Deus Se revelava, deve ser
vista como tendo uma justa relação com todos os planos
de Deus anteriormente revelados no Antigo Testamento,
deixando também todo o Seu lugar ao Seu governo do
mundo.
Tudo isso demonstra que, fora da grande ideia que
tudo domina, há neste marvilhoso Livro quatro assuntos
que se desenrolam aos olhos da fé. Em primeiro lugar o
grande tema, o facto por excelência, é que a perfeita luz
é manifestada: É o próprio Deus que Se revela. Mas esta
luz é manifestada em amor — outro nome essencial de
Deus. Cristo, que é a manifestação dessa luz e desse amor,
que, se tivesse sido recebido, teria constituído o cumpri­
mento de todas as promessas, Cristo é apresentado ao
homem e em particular a Israel considerado sob o ponto
de vista da sua responsabilidade; Cristo é apresentado
a Israel com todas as provas pessoais, morais e de poder
que deixaram esse povo sem desculpa. Em segundo lugar,
sendo rejeitado, a Sua rejeição torna-se o meio pelo qual
a salvação se concretiza; e a nova ordem de coisas — a nova
Criação, o Homem glorificado, a Igreja participando com
Cristo da glória celeste — é colocada sob os nossos olhos.
Em seguida são manifestadas as relações entre a antiga
ordem de coisas e a nova ordem sobre a Terra acerca da
lei, das promessas, das profecias ou das instituições divinas;
são-no, quer apresentando a nova ordem como seu cumpri­
mento e posto de lado o> que era velho, quer verificando
o contraste que existe entre a antiga e a nova ordem, quer
ainda demonstrando a perfeita sabedoria de Deus em todos
os pormenores dos Seus caminhos. Finalmente o governo
do mundo por Deus é profeticamente posto em evidência;
e a renovação das relações de Deus com Israel, em julga­
mento ou em bênção, é rápida, mas claramente verificada,
por ocasião da suspensão dessas relações devido à rejeição
do Messias.
INTRODUÇÃO 11
Podemos acrescentar que tudo o que é necessário ao
homem, peregrino sobre a Terra até que Deus cumpra os
desígnios da Sua graça em poder, lhe é abundantemente
fornecido. Saído, pela chamada de Deus, do que é rejeitado
ou condenado, e não estando ainda de posse da porção que
Deus lhe tem preparado, o homem, que obedeceu a essa
chamada, tem necessidade de uma direcção e do que lhe
revela a origem da força necessária para marchar para o
alvo da sua vocação e os meios para se apropriar dessa
força. Deus, chamando-o para seguir o seu Mestre, que o
mundo rejeitou, não o deixou sem lhe proporcionar toda
a luz e todas as direcções próprias para o iluminarem e
encorajarem no seu caminho, nem sem lhe indicar as fontes
da força e o meio de dela se prover. Todo o estudioso das
Sagradas Escrituras sabe bem que estes assuntos não são
tratados metodicamente, nem cada um em separado, no
Novo Testamento. Se assim fosse, a sua compreensão tor-
nar-se-ia muito mais difícil. GÊ em vida e em poder, quer
de Cristo, quer do Espírito Santo, nos autores inspirados,
que eles se desenrolam perante os nossos corações.
Os Evangelhos, de um modo geral, apresentam-nos Cristo
como sendo luz e graça; não, porém, sob a forma de dou­
trina, mas sim como sendo o próprio Deus apresentado
aos homens neste mundo, como sendo Aquele em quem
se cumpriam as promessas feitas a Israel; abertamente,
como sendo uma Pessoa divina, na qual os desígnios do
Pai se cumpririam, sendo os Judeus considerados como
reprovados no seu estado espiritual de então. O Apocalipse
mostra a introdução do governo de Deus neste mundo em
relação com a responsabilidade sob a qual as suas relações
com um Deus revelado o colocaram. Os escritos de Paulo
apresentam enfim a aceitação do homem por Deus e o seu
lugar diante d’Ele pela redenção, a nova Criação e a Igreja
segundo os planos de Deus — o mistério de Deus. Todavia,
por toda a parte, nas Epístolas, .se encontram diversos
assuntos em rel&ção com estes, e cada desenvolvimento iso­
lado de um desses temas faz jorrar abundante luz sobre
todos os outros. A isto podemos acrescentar que os escritos
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de João tratam particularmente da manifestação de Deus
e da vida divina em Cristo e no Homem vivificado, corres­
pondendo, como devem, um ao outro; os escritos de Pedro
tratam da peregrinação do Cristão, fundada na ressurreição
de Cristo, e do governo moral do mundo. Mas, repito, quer
na Pessoa de Cristo, quer nas comunicações do Espírito
Santo (sendo a vida de Cristo, de uma maneira ou de outra,
a luz dos homens), a verdade é posta em evidência pela
manifestação viva de Deus e pela sua aplicação viva aos
homens, estando também em relação com o desenvolvi­
mento 0) progressivo inerente à verdade, quando é comu­
nicada ao homem e adaptada às necessidades particulares
e à capacidade espiritual daqueles a quem era dirigida.
0) Falo aqui, bem entendido, da verdade revelada no Novo Testamento.
A comunicação feita nesta revelação tem sido de cada vez mais clara, tendo
O Espírito Santo sido dado depois de o Senhor ter sido glorificado. O apóstolo
pôde dizer, falando da natureza do próprio Deus: «O que é verdadeiro nele
(Cristo) e em vós, porque as trevas se desvanecem e a verdadeira luz já brilha».
É um Cristo que é a sabedoria de Deus. Nele habita corporalmente toda a
plenitude da Divindade. Toda a plenitude se agradou de habitar n ’Ele. Santi-
ficou-se a Si mesmo, para que nós sejamos santificados pela verdade. O Espí­
rito Santo conduziu os apóstolos em toda a verdade, tendo recebido do que
era de Cristo e tendo-lho comunicado. Ora, tudo o que o Pai tem é de
Cristo; foi por isso que Ele disse que o Espírito Santo tomaria do que era
d’Ele e lho anunciaria.
Era assim, e a questão de um desenvolvimento subsequente já está jul­
gada. Haverá algo mais do que «a plenitude da divindade?», ou do que «tudo
o que o Pai tem?», algo de mais claro do que a «verdadeira luz?». Ora, é
isto o que nos é revelado. Se pensarmos no homem, cujas ideias provêm dele
mesmo, como a aranha tira o seu fio da sua própria substância, poderemos,
sem dúvida, falar de desenvolvimento; mas se se tratar da revelação de
Cristo, pelo dom da luz que já veio, Cristo não cresce! E, certamente, não
encontraremos nada de bom fora de «tudo o que o Pai Lhe deu». Eis, pois,
o que nós possuímos, por revelação: O desenvolvimento inerente à comuni­
cação da verdade ao homem, concernente à sua capacidade de recepção (nisso
há progresso para cada um de nós) e à manifestação de Cristo, desde João
Baptista até à Sua plena revelação pelo Espírito Santo, revelação que nos
é feita no Novo Testamento. Nenhuma tradição pode acrescentar o que quer
que seja à revelação do que Cristo é. Nenhum desenvolvimento nos pode dar
uma única verdade nova acerca da plenitude/ de Cristo. E é assim que as
orgulhosas pretensões do homem são aniquiladas.
INTRODUÇÃO 13
Sem dúvida, as comunicações do Novo Testamento são
para os santos de todos os tempos e em todos os lugares,
mas foram dirigidas, historicamente falando, a homens
vivos e postos em relação com o seu estado espiritual. Esta
circunstância de modo nenhum enfraquece a verdade que
é comunicada, e que é de Deus. É isto o que o apóstolo
Paulo exprime, ao dizer: «Nós não somos, como muitos,
falsificadores da Palavra de Deus; antes, falamos de (Cristo
com sinceridade, como de Deus, na presença de Deus»
(2.* Coríntios 2:17); e ainda: «Não falsificando a Palavra
de Deus; e, assim, nos recomendamos à consciência de
todo o homem, na presença de Deus, pela manifestação da
verdade» (2.a Coríntios 4:2). Paulo nada acrescenta a este
vinho puro, não o falsifica. O que lhe foi dado sai dele puro,
tal como o recebeu íí1).
Mas, dirigida aos homens, a Palavra de Deus tem mes­
mo muito mais realidade do que uma simples verdade
abstracta; é mais imediatamente de Deus. Não são ideias
do homem a respeito de Deus, nem raciocínios do espírito
do homem, ainda que a verdade fosse o seu tema; nem
sequer é a verdade, tal como está em Deus, submetida, de
um modo abstracto, à capacidade do homem, para que ele
a julgue. É Deus, o próprio ©eus que se dirige ao homem,
que lhe fala, lhe comunica os Seus pensamentos, como
sendo mesmo Seus. Porque, se o homem deve julgá-los, não
são as palavras de Deus como tais anunciadas. «Vós a rece­
bestes— diz Paulo — não como palavra de homens, mas
O O relato de l.s aos Coríntios 2 é muito impressionante a este res­
peito, e é da maior importância para os nossos dias. «As coisas que o olho
não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem, são
as que Deus preparou para os que O amam». (É o estado que se encontra
no Antigo Testamento). «Mas Deus no-las revelou pelo Seu Espírito» — é a
revelação. «Coisas... das quais também falamos, não com palavras de sabe­
doria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina» — é a comunicação,
a inspiração. Em terceiro lugar: «Elas se discernem espiritualmente» — é a
recepção. A revelação, o testemunho inspirado e a sua aceitação só pela
graça e pelo poder do Espírito, tudo é claramente relatado.
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(conforme é, na verdade) como Palavra de Deus» (l.a Tessa-
lonicenses 2:13).
Tem-se confundido muitas vezes o efeito produzido no
homem, o efeito que lhe faz reconhecer a verdade e a auto­
ridade da Palavra, com um julgamento trazido pelo homem
sobre esta Palavra, como sobre uma matéria que lhe tfosse
submissa. A Palavra de Deus não pode nunca ser assim
apresentada. Seria negar a sua própria natureza; seria o
mesmo que dizer: «Não é Deus quem fala». E Deus poderia
negar-Se a Si próprio, dizendo que Ele não é Deus? tÊ evi­
dente que não. E se não pode negar-Se a Si próprio, tam­
bém não ppde falar e admitir deppis que a Sua Palavra
não tem autoridade própria.
A Palavra de Deus é adaptada à natureza do homem:
«A vida é a luz dos homens». É justamente das coisas que
produzem um efeito segundo a natureza de um objecto
ao qual elas são aplicadas, sem que sejam julgadas por
esse objecto. É o que se dá em toda a reacção química;
administram-me um remédio; sinto o seu efeito segundo
a minha natureza. Desse modo fico convencido quer do
efeito quer do poder do remédio, sem que tenha de emitir
parecer sobre o próprio remédio, como se, para tanto, eu
estivesse habilitado. Dá-se precisamente o mesmo, por
graça, sobre a revelação de Cristo, excepto nisto: a mal­
dade voluntária do homem repele essa revelação e rejeita-a,
de sorte que ela se torna um odor de morte para morte.
A Palavra de Deus nunca é julgada; quando ela produz o
seu efeito, julga os pensamentos e as intenções do coração
(Hebreus 4:12). O homem está-lhe submetido; não a julga.
Quando o homem tem, por graça, recebido a Palavra
de Verdade que, como tal, se dirige a ele, está em condi­
ções de compreender todo o alcance desta Palavra, com
o auxílio do Espírito Santo; e, neste caso, as circunstâncias
das pessoas às quais a Palavra tem sido historicamente
dirigida, tomam-se um meio para compreender a intenção
do pensamento de Deus na parte da Palavra agora em
questão. Essas circunstâncias, como temos visto, não mu­
dam nada à divina pureza da Palavra; mas, uma vez que
INTRODUÇÃO
15
Deus se dirige aos homens, segundo o estado espiritual
deles, este estado, tal como nos é apresentado na própria
Palavra, facilita-nos em alto grau a compreensão do que
nos é dito. Mesmo este estado não pode ser compreendido
senão pela Palavra e com o auxílio do Espírito Santo (quer
como efeito da maldade do coração do homem, quer como
dependendo em parte das dispensações de Deus).
De qualquer modo, a graça dirige-se aos homens segundo
o estado espiritual deles (0, segundo a fidelidade de Deus
às Suas promessas, e em relação com os Seus caminhos,
que Ele já lhes ensinou. Não é que, tendo chegado a ver­
dadeira luz, esta luz seja agora deturpada ou depreciada
para a adaptar às trevas; se assim fosse, já não seria ela
mesma, e nem seria própria para relevar o homem, liber­
tando-o do estado em que ele se encontrava; mas a verda­
deira luz é comunicada de maneira a ficar ao alcance dos
homens e aplicável ao seu estado. 'É, ao mesmo tempo,
aquilo de que eles tinham necessidade e o que era digno
de Deus. Mas também só Deus o podia fazer. Tudo isto é
igualmente verdadeiro, como sendo aplicável aos temas de
que o Senhor trata e àqueles de que o Espírito Santo fala
por intermédio dos Seus apóstolos. O Senhor pode dirigir-
-Se aos Judeus convertidos, mas presos ainda ao sistema
judaico, para fazer evidenciar as intenções de Deus (sempre
fiel às Suas promessas) a respeito desse povo, como tam­
bém, sendo elevado ao Alto, pode comunicar, pelo Seu Es­
pírito, todas as consequências da união da Igreja com Ele
nos lugares celestes, fora de todos os planos de Deus para
a Terra. Cristo pode mostrar às almas que se alimentam
O Ê Deus vindo em graça ao meio do mal, graça apropriada ao homem
nesse mal. Ela revela Deus como nada mais o pode fazer, mas é apropriada ao
homem, por muito mau que ele seja. Assim, dando o que é puramente celeste
e divino, ela o faz enfrentando o mal neste mundo. Este facto, embora reve­
lando Deus tal como será conhecido no Céu, é, quanto à sua operação, des­
conhecido num paraíso terrestre ou celeste — o bem no meio do mal! Os
anjos desejam vê-lo de perto. Por outro lado, é a soberania, a graça, a
sabedoria-, o que o simples bem não pode ser embora a isso conduza na sua
mais elevada forma.
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J. N. DARBY
dos elementos mundanos, contrários a essa elevação celeste
e que não apreendem nela o que os livra da sua tendência
mundana e carnal, as provas do mal em que caíram. Pode
mostrar-lhes esse mal por meios que põem essas almas em
relação com as verdades eternas de Deus de uma maneira
que, embora elementar, julga a disposição carnal que sem­
pre existiu naqueles que não se elevam à altura das inten­
ções de Deus. O Espírito Santo também pode mostrar a
verdade mais simplesmente na elevação que é própria a
essa verdade. Pode apoiar-Se nos caracteres essenciais da
natureza de Deus para julgar tudo o que, sob as fornias mais
plausíveis, aspirava à luz cristã, mas que pecava contra esta
natureza nas coisas mais simples; pode assim ligar as almas
mais simples e menos avançadas às qualidades mais eleva­
das do próprio Deus, na essência da Sua natureza.
A compreensão da posição das pessoas a quem os escri­
tos são dirigidos, compreensão extraída dos próprios escri­
tos, ajuda muito, sob a direcção do Espírito Santo, a
apreender a verdade divina que ali se encontra; verdade
absoluta, mas, pela graça de Deus, verdade aplicada, ver­
dade prática, realizada na alma pelo poder de Deus agindo
nessa mesma alma, e protegendo-a, por intermédio dessa
verdade, da tendência carnal do coração que a levará a cair
nos excessos que deram lugar aos escritos que dela nos
falam. Esta verdade desce até nós, seja qual for o nosso
estado espiritual, não se alterando para se acomodar a nós,
nem revestindo uma forma que dependa do nosso estado,
embora dele se apropriando, mas sim para nos elevar até à
fonte de onde ela desceu e da qual nunca se separará (por­
que a verdade que nos é comunicada é sempre a verdade
em Deus e em Cristo, a fim de nos elevar moralmente até
à altura da natureza divina, «...que é verdadeiro nele e em
vós; porque vão passando as trevas, e já a verdadeira luz
alumia» (1.* João 2:8). É o efeito da intervenção de Cristo
a quem nós estamos unidos pelo Espírito Santo, que é UM
com Deus, o Pai.
A mesma verdade da adaptação das comunicações de
Deus à posição daqueles que as receberam historicamente
INTRODUÇÃO 17
nos introduz na compreensão de todos os planos de Deus,
porque Ele Se revela na Sua autoridade, na Sua sabedoria
e na Sua soberania, nos Seus planos, como Se faz conhecer
na Sua natureza pela revelação de Si mesmo em Cristo.
Cristo é o centro desses desígnios, mas toda a família, nos
céus e na Terra, se submete ao Pai de nosso Senhor Jesus
Cristo. Anjos, principados, potestades, Judeus, Gentios, tudo
o que se nomeia, todos serão colocados sob a Sua auto­
ridade (estando a Igreja unida a Ele, na glória). Ora, os
planos de Deus a nosso respeito são-nos revelados na Sua
Palavra; e, embora Deus nos não fale para satisfazer a nossa
curiosidade, há muitos assuntos, fora da salvação propria­
mente dita, que se prendem a essa supremacia de Cristo,
e também àquilo que Deus nos apresenta como desenvolvi­
mento dos Seus planos neste mundo para nossa própria
instrução.
Assim, embora as intenções de Deus acerca dos Judeus
sejam naturalmente muito mais desenvolvidas no Antigo
Testamento, as relações da sua História com os temas do
Novo Testamento, a transição histórica da antiga dispen-
sação para a nova, a conciliação das promessas feitas aos
Judeus com a universalidade da dispensação evangélica,
todos esses temas devem necessariamente encontrar um
lugar no Novo Testamento, uma vez que os planos de Deus
deviam ser-nos revelados. Digo os planos de Deus, porque
não pensamos somente nos Judeus; é Deus quem actua nos
Seus planos e quem ali Se faz conhecer. Assim, embora
a plena luz se revele no Novo Testamento, nele encontra­
mos algo dirigido aos Judeus e aos discípulos que tinham
feito parte desse povo, algo que revela os planos de Deus
a respeito deles. Sem essas revelações, e ise elas se não refe­
rissem à posição espiritual desse povo, não haveria har­
monia nos planos de Deus, ou, pelo menos, essa harmonia
ser-nos-ia desconhecida e não existiria moralmente. Estas
observações têm relação com a doutrina, a história (quer
dizer, com a apresentação do Messias), com a profecia,
mostrando a fidelidade de Deus, e com os julgamentos
sobre esse povo.
2
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Para que nós conheçamos a Deus — o Deus que Se
dignou intervir nos assuntos deste mundo—a simples luz
não basta. É necessário conhecer esse Deus não só tal
como Ele é na Sua natureza, embora isso seja o- essencial
e principal, mas também tal como Ele próprio se revelou
em todos os Seus caminhos, em todos os Seus pormenores
nos quais os nossos corações, pequenos e estreitos, podem
aprender a conhecer o Seu amor fiel, paciente, condescen­
dente, nos Seus caminhos onde se desenvolve a ideia abs­
tracta da Sua sabedoria, de maneira a tomá-la acessível
à nossa limitada inteligência, que pode encontrar essa sabe­
doria em coisas que tiveram lugar no meio dos homens,
estando inteiramente fora e acima de todas as suas previ­
sões, mas anunciadas por Deus, de modo que nós as conhe­
cêssemos. Acima de tudo verificamos que Deus quis ligar-Se
ao homem de modo muito particular em todas essas coisas.
Que maravilhoso privilégio da Sua fraca criatura!... A (Filo­
sofia— insensata, limitada e mesmo essencialmente estú­
pida em todos os seus raciocínios — pretende que o mundo
é demasiado pequeno para que Deus se interesse por uma
tão fraca criatura como o homem, por algo que não é mais
do que um ponto na imensidão do universo. Que triste
loucura! Como se a extensão material do teatro fosse a me­
dida das manifestações morais que ali se operam e dos
combates de princípios que ali se travam. O que se passa
neste mundo é o espectáculo que manifesta aos olhos de
todas as inteligências do universo os caminhos, o carácter
e a vontade de Deus. Cabe-nos a nós receber, por graça,
o conhecimento e o poder para dele gozarmos, a fim de que
Deus seja glorificado em nós; que Ele seja glorificado não
somente por nós—o que, de qualquer modo, será verda­
deiro— mas em nós. Este é o nosso privilégio, pela graça
que está em Cristo, e para nossa união com Ele, que é a
sabedoria e o poder de Deus. Quanto mais criancinhas obe­
dientes e humildes nós formos, mais realizamos essa glo­
riosa posição. E um dia conheceremos como temos sido
conhecidos!... No entanto, quanto mais Cristo for objecti­
vamente a nossa porção e a nossa ocupação, mais nós nos
INTRODUÇÃO 19
assemelharemos a Ele subjectivamente. Graças a Deus, o
Senhor tem escondido estas coisas aos sábios e aos inte­
ligentes e tem-nas revelado às criancinhas!... «Todavia —
diz o apóstolo — falamos sabedoria entre os perfeitos; não,
porém, a sabedoria deste mundo, nem dos príncipes deste
mundo, que se aniquilam; mas falamos a sabedoria de
Deus, oculta em mistério, a qual Deus ordenou, antes dos
séculos, para nossa glória» (l-a Coríntios 2:6-7).
Antes de nos ocuparmos de cada um dos livros em par­
ticular, vamos apresentar em primeiro lugar uma ideia
geral do conteúdo do Novo Testamento, ou antes, da ordem
da revelação das verdades nele contidas.
Para tanto, não temos necessidade de sair da ordem
habitual dos livros, sem, no entanto, lhe ligarmos impor­
tância O).
O primeiro assunto que se apresenta é a história e a
Pessoa do próprio Senhor Jesus, assunto contido nos quatro
Evangelhos.
Depois, vem o estabelecimento da Igreja e a propagação
do Evangelho no mundo, após a ascensão do Senhor Jesus.
Esta história é-nos relatada nos Actos dos Apóstolos.
Em seguida temos o desenvolvimento da verdadeira dou­
trina de Cristo, os cuidados dos apóstolos pelas igrejas e
pelas almas individualmente, com as necessárias indicações
para um comportamento que glorifique o Senhor, espe­
rando o Seu regresso; a refutação dos erros pelos quais
o Inimigo procurava corromper a fé, e as instruções indis­
pensáveis para defender os fiéis das seduções dos instru­
mentos da sua malícia. Estes assuntos, especialmente o pri­
meiro, encerram toda a glória pessoal do Senhor. Falamos,
como é evidente, do conteúdo das Epístolas.
0) Nas Bíblias alemãs, tal como em várias edições católicas e em
muitos manuscritos, a ordem é diferente. Mas, para o fim que me propüs
atingir, essa diferença não tem nenhuma importância. Toda a gente sabe que
esta ordenação dos Livros não tem nada a ver com a revelação em si.
20 J. N. DARBY
Em último lugar, encontramos as profecias. Elas veri­
ficam o mal que devia obscurecer e alterar o testemunho
prestado a Cristo no mundo, mas que, quando estivesse
plenamente desenvolvido, ocasionaria o julgamento. As pro­
fecias revelam-nos também o progresso dos julgamentos
de Deus, que acabarão pela destruição dos inimigos que
ousarem pôr-se em rebelião aberta contra o Cordeiro, Rei
dos reis e Senhor dos senhores. Revelam-nos de igual modo
a glória e a ibênção que terão lugar a seguir aos julga­
mentos. Este último assunto liga o ensinamento cristão à
revelação dos caminhos de Deus a respeito do governo do
mundo. Encontra-se longamente desenvolvido em Apoca­
lipse, mas as suas relações com a decadência da Igreja são
expostas em diversas Epístolas.
Em primeiro lugar ocupar-nos-emos naturalmente dos
Evangelhos, que nos contam a história da vida do Senhor
e O apresentam aos nossos corações, quer pelos Seus actos,
quer pelos Seus discursos, nos diversos caracteres que O
tornam, sob todos os aspectos, precioso às almas dos remi­
dos, segundo a medida do conhecimento que lhes é conce­
dido e segundo as suas necessidades—caracteres que, em­
bora o Senhor seja visto aqui na Sua humilhação ('), for­
mam, no seu conjunto, a plenitude da Sua glória pessoal,
tanto quanto nós somos capazes de a compreender, en­
quanto estamos nestes vasos de argila neste mundo C1).
O Senhor — isto é evidente — tinha de reunir em Si
mesmo sobre a Terra, segundo os planos de Deus e segundo
as revelações da Sua Palavra, mais de uma natureza para
o cumprimento da Sua glória e para a manutenção e mani­
festação da de Seu Pai. Mas, para que isso pudesse ter
0) Comparar 1.9 Coríntios 2:8.
(a) Talvez, para ser mais explícito, devesse exceptuar as relações de
Cristo com a Igreja — assunto este que se encontra tratado nas Epístolas;
mas não abrangeria esta parte tão preciosa da doutrina de Cristo na expressão:
«A Sua glória pessoal». Exceptuando o facto de que Ele edificaria uma Igreja
na Terra, é somente pelo Espírito Santo, enviado após a Sua ascensão, que
Ele deu aos apóstolos e aos profetas a revelação deste inefável ministério.
INTRODUÇÃO 21
lugar, Ele tinha de ser também alguma coisa, para que fosse
visto na luz da Sua verdadeira natureza, oomo andando
neste mundo. iCristo teve de cumprir o serviço que Lhe
pertencia prestar a Deus, como sendo Ele próprio o ver­
dadeiro servo; e isto como servindo a Deus pela Palavra
no meio do Seu povo, segundo o Salmo 40 (por exemplo,
versos 8, 9, 10); Isaías 49:4-5, e outras passagens. Um grande
número de testemunhos tinham anunciado que o filho de
David se assentaria, da parte de Deus, no trono de seu pai;
e o cumprimento dos planos de Deus a respeito do ISeu povo
terrestre liga-se, no Antigo Testamento, Àquele que devia vir
e que, na Tex-ra, teria a relação do Filho de Deus com o
Eterno Deus. O Cristo, o Messias, ou, em simples tradução,
o Ungido, devia aparecer e apresentar-Se a Israel segundo
a revelação e os planos de Deus. E essa semente prometida
devia chamar-Se Emanuel, ou seja: Deus connosco, Deus
com o Seu povo.
Os Judeus limitavam a sua espera pouco mais ou menos
a esse carácter de Cristo, e mesimo isso à sua maneira, não
vendo ali senão a elevação da sua nação, sem terem o sen­
timento dos seus pecados nem das suas consequências. No
entanto esse carácter de Cristo não era tudo o que a pala­
vra profética, que tinha declarado os planos de Deus, anun­
ciava a respeito d’Aquele que o próprio mundo esperava.
Cristo era o Filho do homem — título que o Senhor Jesus
gostava de usar — título de suma importância para nós.
O Filho do homem é, parece-me, segundo a Palavra de
Deus, o herdeiro de tudo o que os planos de Deus destina­
vam ao homem como sendo a sua porção ©m glória, o her­
deiro de tudo o que Deus devia dar ao homem, segundo
esses planos. (Ver Daniel 7:13-14; Salmo 8:5-6; Salmo 80:17,
e Provérbios 8:30-31). Mas, para ser herdeiro de tudo o que
Deus destinava ao homem, Cristo devia ser homem. O Filho
do homem era, verdadeiramente, da raça humana — que
preciosa e consoladora verdade!—nascido de uma mulher,
real e verdadeiramente um homem, e, participando do san­
gue e da carne, fora feito semelhante aos Seus irmãos!...
22
J. N. DARBY
Nesse carácter, Ele teve de sofrer e ser rejeitado, para
que pudesse herdar todas as coisas num estado completa­
mente novo, ressuscitado e glorificado. Teve de morrer e
ressuscitar, porque a herança estava imaculada, o homem
em rebelião e os Seus co-herdeiros tão culpados como os
outros.
Jesus devia, pois, ser o granae profeta, embora servo,
o Filho de David e o Filho do homem; e, por conseguinte,
realmente homem sobre a Terra, nascido sob a lei, nascido
de uma mulher, da posteridade de David, herdeiro dos
direitos da família de David, herdeiro dos destinos do
homem segundo a intenção e os planos de Deus. Mas, rela­
tivamente a isso, Ele teve de glorilficar a Deus, segundo
o estado espiritual em que o homem se encontrava como
caído qtuanto à sua responsabilidade, e satisfazer a essa
responsabilidade de maneira a glorificar a Deus, mas pres­
tando, enquanto estava neste mundo, o testemunho de um
profeta, Ele, a fiel testemunha.
Mas quem é que reuniria todos esses caracteres? Essa
glória era somente uma glória oficial, de que o Antigo Tes­
tamento tinha dito que um homem devia herdar? O estado
do homem, manifestado sob a lei e sem lei, demonstrava
a impossibilidade de o fazer participar, tal como estava,
da bênção de Deus. A rejeição de Cristo levava ao máximo
essas provas. E, com efeito, o homem tinha, acima de tudo,
necessidade de ser ele próprio reconciliado com Deus, fora
de toda a dispensação e do governo especial de um povo
sobre a Terra. O homem tinha pecado; era necessário que
uma redenção se realizasse para glória de Deus e salvação
dos homens. Mas quem a levaria a caibo? O homem tinha
necessidade dela para si próprio; um anjo devia guardar
o seu lugar para si, preenchê-lo, mas nada mais podia fazer.
Não podia ser um salvador. E quem, de entre os homens,
podia ser herdeiro de todas as coisas, e ter todas as obras
de Deus colocadas sob o seu domínio, segundo as Escri­
turas? Era o Filho de Deus quem devia herdá-las; era o seu
Criador quem devia possuí-las. Aquele, pois, que devia ser
INTRODUÇÃO 23
o Servo, o Filho de David, o Filho do homem, o Redentor,
era o Filho de Deus, o Deus Criador (').
Os Evangelhos, em geral, desenvolvem esses caracteres
de Cristo, não de uma forma dogmática (tendo apenas o de
João essa forma, e só até um certo ponto), mas contando
a história do Senhor, de maneira a apresentá-Lo nesses di­
versos caracteres de um modo muito mais vivo do que
seria se nos tivessem sido comunicados apenas sob a forma
de doutrina. O Senhor fala segundo este ou aquele carácter,
actua segundo um ou outro, de sorte que nós O vemos, a
Ele próprio, cumprindo o que pertencia às diversas posições
que nós, pelas Escrituras, sabemos serem Suas. Não só o
carácter de Cristo se toma assim muito mais conhecido
nos seus detalhes morais e no seu verdadeiro alcance escri-
turístico, segundo o sentido e a intenção de Deus que ali
se revelam, mas também o próprio Cristo Se torna, nesses
caracteres, mais pessoalmente o objecto da fé e das afei­
ções do coração. É uma pessoa que nós conhecemos, e não
somente uma doutrina.
Por esse precioso meio que Deus Se dignou empregar,
as verdades a respeito de Jesus estão igualmente muito mais
ligadas com tudo o que O precedeu —com a história do
Antigo Testamento. A mudança nos caminhos de Deus
liga-se à glória da Pessoa de Cristo, e é em relação com esta
glória que a transição das relações de Deus com Israel e
com o mundo à ordem celeste e cristã teve lugar. Este sis­
tema celeste, embora tendo um carácter muito mais dis­
tinto do Judaísmo do que teria se o Senhor não tivesse
vindo, não é uma doutrina que, contradizendo-o, anule tudo
o que o tinha precedido. Cristo, vindo, apresentou-Se aos
Judeus, por um lado, como submetido à lei, e por outro,
como sendo a Semente em quem as promessas deviam ser
cumpridas. Mas Ele foi rejeitado, e assim o povo Judeu não
O O acto da Criação, quando não é atribuída a Deus em geral, distin­
guindo as Pessoas da Divindade, é sempre atribuído ao Filho ou ao Espírito
Santo.
24
J. N. DARBY
só violou a Lei, o que já tinha feito no Sinai ('), mas tam­
bém perdeu todo o direito às promessas—e promessas
sem condições, sempre distintas. (Ver Romanas 10). Deus
pôde então introduzir a plenitude da Sua graça.
Ao mesmo tempo tiveram o seu cumprimento os tipos
e as figuras. A (maldição da lei foi executada. Cumpri­
ram-se as profecias que se referem à humilhação de Cristo.
E as relações de todas as almas com Deus — relações sem­
pre necessariamente ligadas à Sua Pessoa, uma vez que Ele
tinha aparecido — foram ligadas à posição que o Redentor
tomou no Céu. Deste modo a porta está aberta aos Gentios,
e o plano de Deus a respeito da Igreja, corpo de Cristo
assumpto ao Céu, plenamente revelado. Filho de David se­
gundo a carne, e declarado Filho de Deus em poder por
meio da ressurreição de entre os mortos i(Romanos 1:3-4),
«Jesus Cristo foi ministro da circuncisão, por causa da ver­
dade de Deus, para que confirmasse as promessas feitas aos
pais; e para que os Gentios glorifiquem a Deus, pela sua
misericórdia» i(Romanos 15:8-9). k<Ele é a cabeça do corpo
da Igreja, é o princípio e o primogénito de entre os mortos,
para que em tudo tenha a preeminência» (Colossenses 1:18).
A glória da nova ordem de coisas era tanto mais exce­
lente, tanto mais elevada acima de toda a ordem terrestre
que a tinha precedido, quanto estava ligada à Pessoa do
próprio Senhor Jesus—a Ele, como Homem glorificado
junto de Deus, Seu Pai. Ao mesmo tempo, o que era agora
introduzido punha o Seu selo em tudo o que O tinha pre­
cedido, como sobre uma ordem de coisas que tinha estado
em Seu lugar, e ordenada por Deus; porque o Senhor Se
0) É solene, mas instrutivo, notar que a primeira coisa que o homem
fez, foi arruinar tudo o que Deus tem estabelecido: Noé, o novo chefe do
mundo, embriagou-se; aparece-nos o vitelo de ouro, quando a lei foi dada;
os sacerdotes oferecem um fogo estranho no primeiro dia; Salomão cai na
idolatria e arruina o reino; Nabucodonosor erige a estátua de ouro e per­
segue os serviços do verdadeiro Deus!...
Deus veio em graça, mas o sistema estava arruinado. E é assim com
a Igreja, não tenho a menor dúvida. Mas tudo será reparado de uma maneira
mais gloriosa no último Adão.
INTRODUÇÃO 25
apresentara sobre a Terra em relação com o sistema que
existia antes da Sua vinda.
Os três primeiros Evangelhos mostram-nos a apresen­
tação de Cristo ao homem responsável, e particularmente
a Israel. João oferece-nos o carácter divino e eterno do
próprio Senhor; sendo Israel, desde o primeiro capítulo,
considerado como tendo-0 rejeitado; estando ele próprio,
Israel, endurecido e rejeitado — e o mundo insensível à
presença do seu Criador. É por isso que se vê plenamente,
neste Evangelho, a graça eficaz e soberana, o novo nasci­
mento, e a Cruz como fundamentos das coisas celestes.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS
CAPÍTULO 1
P
\Jonsideremos agora o Evangelho segundo S. Mateus.
Este Evangelho apresenta-nos Cristo no carácter de Filho
de David e de Abraão, quer dizer, em relação com as pro­
messas feitas a Israel, mas apresentado ao mesmo tempo
como Emanuel, Jehovah o Salvador, pois tal era o Cristo.
É Aquele que, sendo recebido, teria cumprido as promessas
(e assim o fará no futuro) em favor desse amado povo.
O Evangelho segundo S. Mateus é, com efeito, a história
da rejeição de Cristo pelo povo, e, consequentemente, a his­
tória da condenação do próprio povo, tanto quanto dizia
respeito à sua responsabilidade (porque os desígnios de
Deus não podem falhar), e da substituição a que Deus ia
proceder, de acordo com o Seu propósito.
À medida que o carácter do Rei e do reino se desenvolve
e desperta a atenção dos chefes do povo, estes opõem-se
e privam o povo que os segue, e a si próprios, de todas as
bênçãos ligadas com a presença do Messias. O Senhor anun-
cia-lhes as consequências da sua oposição e mostra aos
Seus discípulos o estado espiritual do reino que deveria
ser estabelecido na Terra após a Sua rejeição, e também
as glórias que daí deviam resultar para Si e para o Seu
povo com Ele. E em Sua Pessoa, quanto à Sua obra, é reve­
lado também o fundamento da Assembleia — a Igreja edifi­
cada por Si. Numa palavra, como consequência da Sua re­
jeição por Israel, é revelado primeiro o reino tal qual existe
agora (capítulo 13), em seguida a Igreja (capítulo 16),
e depois o reino em glória (capítulo 17). Por fim, após a Sua
28 J. N. DARBY
ressurreição, é dada uma nova missão aos apóstolos, diri­
gida a todas as nações, na base de um Cristo ressuscitado 0 .
Sendo o objectivo do Espírito de Deus, neste Evangelho,
apresentar Jehovah cumprindo as promessas feitas a Israel,
e as profecias que se referem ao Messias (e ninguém pode
deixar de ficar surpreendido com o número de referências
ao seu cumprimento), começa com a genealogia do Senhor,
partindo de David e de Abraão, os dois troncos dos quais
se elevou a genealogia Messiânica, e aos quais tinham sido
feitas as promessas. A genealogia está dividida em três pe­
ríodos, conforme as três grandes divisões da história do
povo: desde Abraão ao estabelecimento da realeza, na pes­
soa de David; desde o estabelecimento da realeza ao cati­
veiro; e desde o cativeiro até Jesus.
Podemos observar a maneira como o Espírito Santo
menciona, nesta genealogia, os pecados graves cometidos
pelas pessoas cujos nomes nos são dados, engrandecendo
a graça soberana de Deus que podia conceder um salvador
em conexão com tais pecados como os de Judá, com uma
pobre Moabita trazida para o meio do Seu povo, e com cri­
mes como os de David.
A genealogia, em Mateus, é a genealogia legal, quer dizer,
a genealogia de José —de José, de quem Cristo 'homem era
o herdeiro legítimo segundo a lei Judaica. O evangelista
omitiu três reis da parentela de Acab, a fim de ter catorze
gerações em cada período. Joacaz e Joaquim são também
omitidos. O objectivo não é, de modo nenhum, prejudicado
por esta circunstância. O fim era apresentá-la como era
reconhecida pelos Judeus, e todos os reis eram bem conhe­
cidos de todos.
Mateus narra rapidamente os factos concernentes ao
nascimento de Jesus — factos que são de eterna e infinita
importância, não só para os Judeus, que estavam directa­
mente interessados neles, mas para nós mesmos—factos
O Isto teve lugar após a Sua ressurreição, na Galileia, e não do Céu
e da glória, como no caminho de Damasco.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 29
nos quais Deus condescende em ligar a Sua glória com os
nossos interesses, com os interesses do homem.
Maria estava desposada com José. A sua posteridade era,
por consequência, legalmente a de José, quanto aos direitos
da herança; mas o filho que trazia em seu ventre era de
origem divina, concebido pelo poder do Espírito Santo.
O anjo do Senhor é enviado, como instrumento de provi­
dência, a fim de satisfazer a tema consciência e o recto
coração de José, comunicando-lhe que o que Maria havia
concebido era do Espírito Santo.
Podemos notar aqui que o anjo se dirige a José nesta
ocasião tratando-o por «filho de David». O Espírito Santo
chama assim a nossa atenção para o parentesco de José
(tido como pai de Jesus) com David, sendo Maria chamada
sua mulher. O anjo dá ao mesmo tempo o nome de Jesus
(que quer dizer Jehovah o Salvador) ao menino que havia
de nascer. Aplica este nome à libertação de Israel do estado
em que o pecado o tinha mergulhado'O). Todos estes factos
tiveram lugar para cumprir tudo quanto Jehovah tinha dito
pela boca do Seu profeta: «Eis que uma virgem conceberá,
e dará à luz um filho, e será o seu nome Emanuel», o que
quer dizer Deus connosco (Isaías 7:14).
Eis, pois, o que o Espírito Santo põe diante de nós, nes­
tes poucos versículos: Jesus, Filho de David, concebido pelo
poder do Espírito Santo; Jehovah o Salvador, que salvará
Israel dos seus pecados; Deus connosco; Aquele que cum­
pria aquelas maravilhosas profecias que, mais ou menos
claramente, mostram o problema que só o Senhor Jesus
podia resolver.
José, homem justo, simples de coração e obediente, dis­
cerne sem dificuldade a revelação do Senhor e acata-a. Estes
factos mostram o carácter deste Evangelho, isto é, a ma­
neira como Cristo é apresentado nele. Mas que maravilhosa
revelação esta d’Aquele por Quem as palavras e promessas
o Está escrito: «Porque Ele salvará o Seu povo», o que mostra perfei­
tamente o título de Jehovah contido no nome de Jesus ou Josué; porque
Israel era o povo do Deus Eterno, isto é, de Jehovah.
30 J. N. DARBY
de Jehovah deviam ser cumpridas! Que fundamento de ver­
dade para compreensão do que era esta gloriosa e miste­
riosa Pessoa, de Quem o Antigo Testamento havia dito bas­
tante para despertar os desejos e confundir as mentes do
povo ao qual era enviada!...
'Nascido de uma mulher, nascido sob a lei, herdeiro de
todos os direitos de D a vi d segundo a carne, e, ao mesmo
tempo, o iFilho de Deus, Jehovah o Salvador, Deus com o
Seu povo: — quem poderá compreender ou aprofundar o
mistério da natureza d’Aquele em quem todas estas coisas
se combinam? De facto, a Sua vida, como veremos, mostra
a obediência do homem perfeito, as perfeições e o poder
de Deus.
Os títulos de Jesus, títulos de herdeiro de David, de
Salvador do Seu povo e de Emanuel, que acabamos de refe­
rir e que se encontram no capítulo 1:20-23, estão relacio­
nados com a Sua glória no meio de Israel. O Seu nasci­
mento pelo Espírito Santo cumpriu o Salmo 2:7 a seu res­
peito, como homem nascido sobre a Terra. O nome de Jesus
c a Sua concepção pelo poder do Espírito Santo, vão, sem
dúvida, muito além desse parentesco, unas estão ligados
também de um modo especial com a Sua posição em Is­
rael (*).
CAPÍTULO 2
Nascido deste modo e assim caracterizado pelo anjo,
e cumprindo as profecias que anunciavam a presença de
Emanuel, Jesus é formalmente reconhecido como Rei dos
Judeus pelos Gentios, guiados pela vontade de Deus, que
dirige o coração dos seus sábios <2). Quer dizer que vemos
0) A relação mais extensa é indicada mais particularmente no Evan­
gelho segundo S. Lucas, onde a Sua genealogia remonta até Adão. Mas aqui,
o título de Filho do homem é-Lhe especialmente aplicado.
(2) A estrela não conduziu os magos desde o seu país até à Judeia.
Deus quis apresentar este testemunho a Herodes e aos chefes do povo. Tendo
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS
31
o Senhor, Emanuel, o Filho de David, Jehovah, o Salvador,
o Filho de Deus, nascido Rei dos Judeus, ser reconhecido
pelos chefes dos Gentios. É este o testemunho de Deus no
Evangelho segundo S. Mateus, e o carácter sob o qual Jesus
é ali apresentado. Em seguida, na presença de Jesus, assim
revelado, vemos os chefes dos Judeus em relação com um
rei estrangeiro que, no entanto, conhece, como sistema, as
revelações de Deus na Sua Palavra, — mas totalmente indi­
ferente para com Aquele que era o objecto dessas revela­
ções; vemos esse rei, inimigo terrível do Senhor — do Se­
nhor, verdadeiro Rei e verdadeiro Messias!—procurando
levá-Lo à morte.
A providência de Deus vela pelo Menino, que nasceu em
Israel, empregando meios que deixam o povo inteiramente
responsável, e cumprindo ao mesmo tempo todos os pensa­
mentos de Deus a respeito desse único e verdadeiro Rema­
nescente de Israel, única e verdadeira fonte de esperança
para o povo. Porque, sem Ele, todos sucumbiriam e sofre­
riam as consequências de estarem ligados ao povo.
sido dirigidos pela Palavra de Deus (da qual os principais do povo e os
próprios escribas reconheciam o alcance, e segundo a qual Herodes os reen­
viava a Belém), os magos reencontram a estrela que tinham visto no seu
país e que os conduziu à casa onde estava o Menino. Esta visita teve lugar
algum tempo depois do nascimento de Jesus. É, pois, natural que eles tenham
visto a estrela quando o Menino nasceu. Herodes também se dirige nos seus
cálculos de acordo com o momento da aparição da estrela, acerca da qual
tinha cuidadosamente indagado junto dos magos. A viagem deles deveria ter-
-lhes tomado muito tempo. O nascimento de Jesus é-nos relatado no capítulo 1.
O primeiro verso do capítulo 2 deve ser traduzido assim: «Ora, tendo Jesus
nascido...», porque se trata de um tempo já passado.
Farei notar igualmente aqui que as profecias do Antigo Testamento são
citadas de três maneiras que não devem ser confundidas. A Palavra de Deus
diz: «Para que se cumprisse»; «de modo que se cumpriu»; «então se cumpriu».
No primeiro caso trata-se do próprio fim da profecia. Veja-se Mateus 1:22-23,
que é um exemplo disso. No segundo caso trata-se de um cumprimento que
está na intenção da profecia, sem que, no entanto, seja o único e completo
pensamento do Espírito Santo. Mateus 2:23 pode servir de exemplo. Em
terceiro lugar não se trata senão de um facto respondendo ao pensamento
da passagem que, no seu espírito, se lhe aplica, sem dele ser o objecto posi­
tivo. (Veja-se capítulo 2:17).
32 J. N. DARBY
Descido ao Egipto para evitar o cruel desígnio de Hero-
des, que queria arrancar-Lhe a vida, Jesus toma-Se a Vi­
deira verdadeira; recomeça, moralmente falando, na Sua
Pessoa, a história de Israel, bem como i(em sentido mais
amplo) a história do homem, como último Adão em relação
com Deus. E isto para que a Sua morte tivesse lugar — sem
dúvida para bênção de tudo e de todos. Ora, Ele era o
Filho de Deus e o Messias; portanto, Filho de David. Mas
para tomar o Seu lugar .como Filho do homem, Ele devia
morrer .(Veja-se João 12). Não se trata apenas da profecia
de Oséas: «Do Egipto chamei o meu Filho» (Oséas 11:1),
aplicada deste modo a este verdadeiro princípio de Israel
em graça, como o bem-amado segundo os Seus desígnios,
pois o povo havia falhado inteiramente, de sorte que, sem
esta graça, Deus os teria cortado. Vimos em Isaías, Israel,
o servo, dar lugar a Cristo, o Servo, juntando um Rema­
nescente fiel (os filhos que Deus Lhe deu enquanto esconde
o Seu rosto da Casa de Jacob. Ver Isaías 8:17-18), para se
tornar o núcleo do novo povo de Israel, segundo o pensa­
mento de Deus. O capítulo 49 deste profeta apresenta esta
transição de Israel para Cristo de um modo muito notável.
Aliás, é esta a base de toda a história de Israel, conside­
rado como tendo falhado sob a lei, e sendo restabelecido
em graça. Cristo é, moralmente, o novo tronco da nova
Israel. (Comparar Isaías 49, versos 3 e 5)i(*).
Depois da morte de Herodes, Deus dá conhecimento do
facto a José, num sonho, ordenando-lhe que volte com o
Menino e Sua mãe para a terra de Israel. Devemos notar
que a terra mencionada aqui pelo nome recorda os privi­
légios concedidos por Deus. Não se fala da Judeia nem da
Galileia, mas sim da «terra de Israel». Pode, porém, o Filho
de David, entrando nela, chegar ao trono de Seus pais?
Não!... Ele tem de tomar o lugar de um estranho entre os
desprezados do Seu povo. Guiado por Deus num sonho.
0) No verso 5 Cristo toma esse título de Servo. Em João 15 encontramos
a mesma substituição de Cristo em Israel. Israel tinha sido a videira trans­
portada do Egipto. A Videira verdadeira é Cristo.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 33
José leva-0 para a Galileia, cujos habitantes constituíam
motivo de profundo desprezo dos Judeus, por não estarem
habitualmente em ligação com Jerusalém e a Judeia — a
terra de David, dos reis reconhecidos por Deus, e do tem­
plo, e onde até o dialecto da língua comum a todos traía
a sua separação daqueles que, pelo favor de Deus, tinham
voltado de Babilónia para a Judeia. Até mesmo na Galileia,
José se estabelece numa cidade cujo nome era um opróbrio
para quem ali habitava, e uma nódoa na sua reputação.
Tal era a posição do Filho de Deus, quando veio ao
mundo, e tais as relações do Filho de David com o Seu
povo, quando, pela graça e segundo os desígnios de Deus,
Se encontrou no meio dele. Por um lado, era Emanuel,
Jehovah, seu Salvador; mas por outro, o Filho de David,
tomando o Seu lugar no meio do Seu povo e associando-Se
com os mais pobres e mais desprezados do rebanho, refu-
giando-Se na Galileia por causa da iniquidade de um falso
rei que reinava na Judeia com o apoio dos Gentios da
quarta monarquia e com o qual os sacerdotes e os princi­
pais do povo estavam ligados. Estes, infiéis a Deus e des­
contentes com os homens, detestavam orgulhosamente um
jugo ao qual os seus pecados os haviam sujeitado e que
eles não ousavam sacudir, embora não reconhecessem sufi­
cientemente os seus delitos para de boa mente se subme­
terem a esse jugo como a um justo castigo de Deus.
Eis como o evangelista, ou antes, o Espírito Santo nos
apresenta o Messias em relação com Israel.
CAPÍTULO 3
Começamos agora a Sua verdadeira história. João Bap­
tista vem, segundo a profecia de Isaías (capítulo 40), para
preparar o caminho do Senhor ante a Sua face, procla­
mando que era chegado o reino dos céus e convidando o
povo ao arrependimento. O ministério de João para Israel
é caracterizado neste Evangelho por três coisas:
3
34 J. N. DARBY
Primeira, o Senhor, o próprio Jehovah vinha. O Espírito
Santo (na citação que faz de Isaías 40:3) deixa de lado as
palavras «a nosso Deus», no final do verso, porque Jesus
vinha como homem em humilhação, embora sendo reco­
nhecido como o Eterno — e Israel já não tinha o direito
de dizer «nosso»;
Segunda, o reino dos céus (') estava próximo — a nova
dispensação, que devia substituir a outra que, propriamente
falando, pertencia ao Sinai, onde o Eterno Deus tinha falado
sobre a Terra. 'Nesta nova dispensação, «os céus reinarão».
Eles serão a sede da autoridade de Deus no Seu Cristo,
e caracterizá-lo-ão;
Terceira, o povo, como tal, em vez de ser abençoado no
seu estado de espírito actual, é chamado ao arrependimento
em vista da aproximação desse reino. Por conseguinte João
dirige-se para o deserto, afastando-se dos Judeus com os
quais ele não podia associasse, porque vinha no caminho
da Justiça (capítulo 21:32). Alimenta-se do que o deserto
lhe dá (até mesmo as suas vestes proféticas dão testemunho
da posição que ele tinha tomado da parte de Deus), e ele
próprio é cheio do Espírito Santo.
Por consequência João era profeta, pois vinha da parte
de Deus, dirigindo-se ao Seu povo para o chamar aó arre­
pendimento, e para lhe anunciar a bênção de Deus segundo
as promessas de Jehovah seu Deus. Mas João era mais do
que um profeta, porque apresentava como coisa imediata
a introdução de uma nova dispensação, há longo tempo
esperada, e o advento do Senhor em Pessoa. Ao mesmo
tempo, embora viesse para Israel, João não reconhecia o
povo; porque este devia ser julgado, a eira do Senhor Deus
devia ser limpa, as árvores que não davam bons frutos de-
O Encontramos esta expressão somente no Evangelho segundo S. Mateus,
ligada às dispensações e caminhos de Deus acerca dos Judeus. «O reino de
Deus» é o termo genérico; «o reino dos céus» é o reino de Deus, mas o
reino de Deus tomando particularmente o carácter de governo celeste.
Encontrá-lo-emos mais à frente, dividido em reino de nosso Pai e reino do
Filho do homem.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 35
viam ser cortadas. Seria apenas um Remanescente que o
Eterno Deus colocaria na nova posição no reino que ele
anunciava, sem ainda ser revelado de que modo esse reino
ia ser estabelecido. João proclamava o julgamento do povo.
Que facto de incomensurável grandeza era a presença
do Eterno Deus no meio do Seu povo, na iPessoa d’Aquele
que, embora devendo ser o cumprimento de todas as pro­
messas, era, necessariamente, embora rejeitado, o Juiz de
todo o mal que existia no meio do Seu povo!
Quanto mais damos a estas passagens a sua verdadeira
aplicação, isto é, quanto mais as aplicamos a Israel, tanto
mais apreendemos a sua verdadeira força (*).
Sem dúvida, o arrependimento é uma necessidade eterna
para toda a alma que se aproxima de Deus; mas em que
luz esta verdade não é colocada, quando vemos a inter­
venção do próprio Senhor chamando o Seu povo ao arre­
pendimento, pendo de lado—perante a sua recusa — todo
o sistema das suas relações Consigo e estabelecendo uma
nova dispensação — um reino que pertence somente àqueles
que O escutam — e fazendo cair, por fim, o Seu Juízo sobre
o Seu povo e sobre a cidade que havia por tão longo tempo
amado! «Ah!, se tu conhecesses também, ao menos neste
dia, o que à tua paz pertence! Mais agora isto está enco­
berto aos teus olhos» (Lucas 19:42).
O Ê preciso lembrar que, além das promessas especiais feitas a Israel
e a sua chamada como povo de Deus sobre a Terra, esse povo representava
justamente o homem considerado na sua responsabilidade para com Deus sob
a cultura mais perfeita que Deus pudesse dar-lhe. Até ao dilúvio, havia um
testemunho, mas não havia dispensações ou instituições de Deus. Depois, no
mundo novo, vemos um governo humano, uma chamada e promessas em
Abraão, a lei, o Messias, Deus vindo em graça; Deus podia fazer tudo, e
fê-lo com perfeita paciência, mas em vão, quanto ao encontrar algum bem
na carne. Agora Israel, tendo sido posto de lado como estando na carne,
estando esta julgada e a figueira amaldiçoada como estéril, o Homem de
Deus, o último Adão, Aquele em quem está a bênção pela redenção, é
manifestado ao mundo. Nos três primeiros Evangelhos, como vimos, Cristo
é apresentado ao homem para que ele O receba; em João, o homem e Israel
são postos de lado, e são introduzidos os soberanos caminhos de Deus em
graça e em ressurreição.
36
J. N. DARBY
Esta verdade dá lugar à apresentação de outra verdade
muito mais importante, anunciada aqui em relação com os
direitos soberanos de Deus, não em vez das suas conse­
quências, mas contendo em si todas essas consequências.
O povo ia de toda a parte, e, como vemos noutra passa­
gem, especialmente os desprezados e os ímpios, para serem
baptizados, confessando os seus pecados. Mas os que, aos
seus próprios olhos, ocupavam o lugar de principais entre
o povo, eram, aos olhos •do profeta, que amava o povo
segundo o pensamento de Deus, os objectos do Juízo anun­
ciado. A ira permanecia sobre eles. Quem havia induzido
estes escarnecedores a fugirem dela? Humilhem-se como os
outros; tomem o seu lugar e mostrem a mudança dos seus
corações. Vangloriarem-se dos privilégios da sua nação, ou
dos seus antepassados, de nada servia perante Deus. Deus
exigia o que a Sua própria natureza, a Sua Verdade, reque­
ria. Além disso, Deus era soberano; «Mesmo destas pedras, -
Deus pode suscitar filhos a Abraão». É isto o que a Sua
graça soberana tem feito por Cristo com respeito aos Gen­
tios. A realidade era necessária. O machado estava posto
à raiz das árvores; as que não produzissem bons frutos
seriam cortadas (versos 7-10).
Eis o grande princípio moral que o Juízo ia exercer
em força. A pancada ainda não havia sido dada, mas o ma­
chado estava já posto à raiz das árvores. João tinha vindo
para levar os que aceitassem o seu testemunho a uma nova
posição, ou ao menos a um novo estado para o qual eram
preparados por esse testemunho. Aqueles que se arrepen­
diam, ele os distinguia dos outros pelo baptismo. Mas
Aquele que vinha depois de João — Aquele cujas sandálias
João não era digno de levar — limparia completamente a
Sua eira e separaria os que éram verdadeira e moralmente
Seus, do Seu povo Israel (esta era a Sua eira), e executaria
o Juízo sobre os restantes. Por sua parte, João abria pri­
meiramente a porta para o arrependimento; o Juízo viria
depois.
O Juízo não era a única obra que pertencia a Jesus. No
entanto duas coisas Lhe são atribuídas neste testemunho
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 37
de João: Baptiza com fogo — é o Juízo proclamado ao
verso 12, o qual consome todo o mal; mas baptiza também
com o Espírito Santo — o Espírito que, dado e actuando
em energia divina no homem, vivificado, redimido, purifi­
cado no sangue de Cristo, o tira da influência de todos os
actos da carne, e o coloca em relação e comunhão com tudo
o que é revelado da parte de Deus, com a glória em que
Ele põe as Suas criaturas na vida que transmite, destruindo
moralmente em nós o poder de tudo o que é contrário ao
gozo destes privilégios.
Note-se que o único e bom fruto reconhecido por João,
como meio de escapar, é a confissão sincera, pela graça
de Deus, de todos os pecados. Só aqueles que fizerem esta
confissão escaparão ao machado. As únicas árvores real­
mente boas eram aquelas que se confessavam más.
Mas que momento solene este para o amado povo de
Deus! Que extraordinário acontecimento era a presença
de Jehovah no meio da nação com a qual estava em rela­
ção!... Note-se que João Baptista não apresenta aqui o
Messias como o Salvador que vem em graça, mas sim como
o Chefe do reino, como Jehovah, que executaria o Seu Juízo,
se o povo se não arrependesse. Veremos a seguir a posição
que Jesus toma, em graça.
No verso 13 o próprio Senhor Jesus, que até agora tem
sido apresentado como o Messias e mesmo como Jehovah,
vem a João para ser baptizado com o baptismo de arrepen­
dimento. Lembramos que aceitar este baptismo era o único
bom fruto que um Judeu, no seu estado, podia produzir.
O acto em si provava ser o fruto de uma obra de Deus —
da acção eficaz do Espírito Santo. Aquele que se arrepende
confessa que tem andado até agora longe de Deus; de modo
que se trata de um facto novo, fruto da Pálavra de Deus
e obra em si, o sinal de uma nova vida, da vida do Espírito
na sua alma. O próprio facto da missão de João não dava
outro fruto, nenhuma prova admissível de vida de Deus
num Judeu, a não ser a confissão. O que não quer dizer
que não havia ninguém em quem o Espírito Santo não
tivesse agido vitalmente; mas, no estado espiritual do povo
38 J. N. DARBY
e segundo a chamada de Deus por intermédio do Seu servo,
essa era a prova desta vida — o retorno do coração para
Deus. Estes formavam o verdadeiro Remanescente do povo,
os que Deus reconhecia como tais; e era deste modo que
eram separados da grande massa que amadurecia para o
Juízo. Estes eram os verdadeiros santos, os excelentes da
Terra; embora o único lugar para tais homens fosse a humi­
lhação do arrependimento. Era por ali que tinham de come­
çar. Quando Deus traz a misericórdia e a Justiça, aprovei­
tam-se com gratidão da misericórdia, reconhecendo-a como
seu único recurso, e curvam o seu coração ante a Justiça,
como justa consequência do estado espiritual do povo de
Deus, mas aplicando-a a si próprios.
Ora Jesus apresenta-Se no meio daqueles que tomam
esta posição (verso 13). Embora seja verdadeiramente o Se­
nhor, o Eterno Deus, o justo Juiz do Seu povo, AqueUe que
devia limpar a Sua eira, Ele toma o Seu lugar entre o Re­
manescente fiel que se humilha perante esse julgamento.
Toma o lugar do mais humilde do Seu povo perante Deus.
No Salmo 16, versos 1 a três, poderemos ler: «Guarda-me,
ó Deus, porque em ti confio. Digo ao Senhor: Tu és o meu
Senhor; não tenho outro bem além de ti. Quanto aos santos
que há na Terra, são eles os ilustres nos quais tenho todo
o meu prazer». Perfeito testemunho de graça! O Salvador
identifica-Se, segundo esta graça, com o primeiro movi­
mento do Espírito nos corações do Seu povo, humilhando-
-Se a Si mesmo, não só na condescendência da Sua graça
para com eles, mas tomando o Seu lugar como se fora um
deles na sua verdadeira posição perante Deus; não mera­
mente para confortar os seus corações por tal bondade,
mas a fim de simpatizar com todas as suas dores e dificul­
dades; a fim de ser o padrão, a origem e a perfeita expres­
são de todos os sentimentos que convinham à posição de­
les. Com um Israel impenitente e ímpio Ele não podia asso-
ciar-Se, mas com o primeiro efeito vivo da Palavra e do
Espírito de Deus nos pobres do rebanho, podia fazê-lo em
graça. E Ele faz o mesmo agora. Encontramos a Cristo
desde o primeiro passo, o que é, realmente, de Deus.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 39
Mas, além disso, Ele vem para pôr aqueles que o rece­
biam em relação com Deus, segundo o favor que se baseava
numa perfeição tal como a Sua, e sobre o amor que, to­
mando a causa do Seu povo, satisfazia o coração do Senhor,
e, havendo glorificado perfeitamente a Deus em tudo o que
Ele é, O tornou capaz de Se satisfazer em bondade. Sem
dúvida, para que isso tivesse lugar, o Senhor teve de dar
a Sua vida, porque o estado espiritual dos Judeus, bem
como o de todos os homens, requeria esse sacrifício, para
que tanto uns como os outros pudessem estar em relação
com o Deus de Verdade. Mas até mesmo nisto o amor de
Jesus não falhou. Todavia, aqui o Senhor condu-los ao gozo
da bênção expressa em Sua própria Pessoa, a qual devia
ser solidamente fundada no sacrifício — bênção que eles
têm de alcançar por meio do caminho do arrependimento,
no qual entraram pelo baptismo de João; o baptismo que
Jesus recebeu com eles, para que pudessem prosseguir
juntos para a posse de todas as excelentes coisas que Deus
preparou para aqueles que O amam.
João, compreendendo a dignidade e a excelência da
Pessoa d’Aquele que vinha ao seu encontro, opõe-se ao de­
sejo do Senhor. O Espírito Santo revela deste modo o ver­
dadeiro carácter da acção do Senhor. Quanto ao Senhor,
era a Justiça que ali O trazia, e não a questão do pecado
— Justiça que Ele cumpria em amor. Cumpria, assim como
João Baptista, o que convinha ao lugar que Lhe era desti­
nado por Deus. Com que condescendência Ele se identifica
ao mesmo tempo com João, dizendo: «Assim nos convém».
É o servo humilde e obediente. E foi sempre desse modo
que Ele se conduziu sobre a Terra. Além disso, quanto à
Sua posição, a graça levou Jesus aonde o pecado nos havia
conduzido; ele entrou pela porta que o Senhor tinha aberto
para as Suas ovelhas. Confessando o pecado tal como ele é,
comparecendo perante Deus na confissão do nosso pecado,
encontramo-nos na companhia de Jesus (’)• Na realidade,
0) Dá-se o mesmo com o sentimento do nosso nada. Ele humilhou-Se
a Si próprio, e, na consciência do nosso nada encontramo-nos com Ele e,
40 J. N. DARBY
trata-se do fruto do Espírito Santo em nós. Era o caso dos
pobres pecadores que iam ter com João. Foi assim que
Jesus tomou o Seu lugar em Justiça e em obediência entre
os homens e mais propriamente entre os Judeus penitentes.
É nesta posição de homem — justo, obediente, cumprindo
na Terra, em perfeita humildade, a obra pela qual Se havia
oferecido a Si mesmo em graça, segundo o Salmo 40, entre-
gandoJSe para o cumprimento de toda a vontade de Deus
em absoluta renúncia — qüe Deus Seu Pai O reconheceu
plenamente e O selou, declarando que Ele era na Terra o
Seu Filho amado.
Sendo baptizado — prova notável do lugar que havia
tomado com o Seu Povo — os céus abrem-se, e vê o Espí­
rito Santo descer sobre Si com uma pomba; e eis uma voz
do Céu que dizia: «Este é o meu Filho amado, em quem me
comprazo» (versos 16-17).
Mas estas circunstâncias requerem a nossa atenção.
Nunca os Céus se abriram sobre a Terra, nem para qual­
quer homem na Terra, antes da vinda do Filho amado 0 .
Deus tinha, certamente, em bondade e paciência, abençoa­
do, de maneira providencial, todas as suas criaturas; tinha
abençoado também o Seu povo, segundo as regras do Seu
governo terrestre. Além disso havia os eleitos, que Ele
guardava em fidelidade. No entanto, e até esse momento,
os céus não tinham sido abertos! Deus tinha enviado um
testemunho em ligação com o Seu governo na Terra; mas
não havia nela um objecto sobre o qual os olhos de Deus
pudessem descansar com complacência, até que Jesus, ima­
culado e obediente, Seu Filho amado, aqui chegou. Mas
o que se torna precioso para nós é o facto de que, quando
o Senhor toma o Seu lugar publicamente em graça, lugar
ao mesmo tempo, somos cheios da Sua plenitude. Mesmo quando caímos,
não é depois de termos sido levados a nos conhecermos tal como somos« que
nós vemos Jesus voltar a erguer-nos.
O No princípio do Livro de Ezequiel (1:1) é-nos dito que os céus se
abriram, mas tratava-se apenas de uma visão, como o próprio profeta nos
explica. Neste caso era a manifestação de Deus em Juízo.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 41
de humilhação com Israel — quer dizer, com o Remanes­
cente fiel, apresentando-Se assim perante Deus, para cum­
prir a Sua vontade —os Céus se abrem sobre um objecto
digno da sua atenção. Sem dúvida, Ele era sempre digno
de adoração, mesmo antes que o mundo existisse; mas
agora havia tomado esse lugar nos desígnios de Deus como
homem, e os céus abriram-se a Jesus, o objecto de toda
a afeição de Deus na Terra. O Espírito Santo desce sobre
Ele em forma visível. E Ele, homem na Terra, um homem
que toma o Seu lugar com os humildes do povo penitente,
é reconhecido como sendo o Filho de Deus. Não é apenas
ungido de Deus, mas, como homem, está ciente da descida
do Espírito Santo sobre Si — o selo que o Pai põe sobre Si.
E aqui não se trata, evidentemente, da Sua natureza divina
no carácter de Filho eterno do Pai. O selo não estaria em
conformidade com esse carácter; e, quanto à Sua Pessoa,
esse selo é-Lhe manifestado, com o conhecimento que dele
tinha, na idade de doze anos, no Evangelho segundo S. Lu­
cas. Mas, embora sendo o Filho eterno, é também homem.
Filho de Deus na Terra, É selado com o Espírito Santo
como homem!... Como homem tem assim consciência da
presença do Espírito Santo em Si. Esta presença está em
relação com o carácter de humildade, mansidão e obediên­
cia em que o Senhor Jesus apareceu na Terra. É «como
pomba» que o Espírito Santo desce sobre Ele; precisa­
mente como foi na forma de Línguas de fogo que Ele des­
ceu sobre as cabeças dos discípulos para seu testemunho
em poder neste mundo, segundo a graça que se dirigia a
todos, e a cada um na sua própria Língua.
Jesus estabelece assim, em Sua própria posição, o lugar
em que nos introduz por meio da redenção {João 20:17).
Porém, a glória da Sua Pessoa é sempre cuidadosamente
ressalvada. Não é apresentado um objecto a Jesus, como,
por exemplo, a Saulo de Tarso, e, num caso ainda mais
análogo, a Estêvão, o qual, cheio do Espírito* Santo, vê os
céus abertos, e, olhando bem para eles, vê o Filho do ho­
mem, e foi transformado na Sua imagem. Jesus veio e é
em Si mesmo o objecto sobre o qual os céus se abrem;
42
J. N. DARBY
não tem objecto transformador, como no caso de Estêvão,
ou no nosso caso em Espírito. O Céu olha para Jesus, o
perfeito alvo de deleite. É a Sua relação com Seu Pai, já
existente, que é selada i0. Nem tão-pouco o Espírito criou
o Seu carácter (excepto no que se refere à Sua natureza
humana; neste sentido, Ele foi concebido no ventre da vir­
gem Maria pelo poder do Espírito Santo). Ele tinha-Se
ligado com os pobres, na perfeição do Seu carácter, antes
de ser selado com o Espírito Santo, e em seguida actua
segundo a energia e o poder do que havia recebido sem
medida na Sua vida humana neste mundo. (Ver: Mateus
12:28; João 3:34; Actos dos Apóstolos 10:38).
Encontramos na Palavra de Deus quatro ocasiões me­
moráveis em que os céus se abrem. Cristo é o objecto de
todas estas revelações e cada qual tem o seu carácter espe­
cial. Aqui o Espírito Santo desce sobre Jesus e Ele é reco­
nhecido o Filho de Deus (ver João 1:33-34). No final do
mesmo capítulo Jesus declara-Se o Filho do homem. Os
anjos de Deus sobem e descem sobre Ele. É, como Filho
do homem, o objecto do seu ministério (2). No final de
Actos 7 abre-se uma cena inteiramente nova. Os Judeus
rejeitam o último testemunho que Deus lhes envia. Estêvão,
por meio de quem é dado esse testemunho, é cheio do Es­
pírito Santo, e os céus abrem-se-lhe. O sistema terrestre
foi definitivamente acabado pela rejeição do testemunho
do Espírito Santo dado acerca da glória de Cristo elevado
às alturas. Mas isto não é meramente um testemunho. O
crente é cheio do Espírito, o Céu abre-se para ele, a glória
de Deus é-lhe revelada, e o Filho do homem aparece-lhe,
de pé, à direita de Deus. Isto* é uma coisa diferente dos céus
se abrirem sobre Jesus, o objecto do deleite de Deus na
Terra. Trata-se do Céu aberto ao próprio crente, tendo o
seu objecto no Céu, depois de haver sido rejeitado na
C) Isto é também verdade a nosso respeito, quando estamos nessa rela*
ção por graça.
(3) É grave erro dizer-se que Cristo é a escada. Cristo é, como o tinha
sido Jacob, o objecto do serviço e do ministério dos anjos.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 43
Terra. Vê, pelo Espírito Santo, a glória celestial de Deus,
e Jesus, o Filho do homem, o objecto especial do seu teste­
munho, na glória de Deus. A diferença é tão notável quão
interessante; e mostra, do modo mais notável, a verdadeira
posição do crente na Terra, e a alteração que a rejeição
de Jesus pelo Seu povo terrestre produziu. Com a diferença
que a Igreja, a união dos crentes em um corpo com o Se­
nhor no Céu, não havia ainda sido revelada. Mais tarde
(Apocalipse 19) o Cêu abre-se e o Senhor mesmo sai, o Rei
dos reis e Senhor dos senhores. Vemos assim:
Primeiro, Jesus, o Filho de Deus na Terra, objecto do
deleite do Céu, selado com o Espírito Santo;
Segundo, Jesus, o Filho do homem, objecto dos cuidados
do Céu, sendo os anjos Seus servos;
Terceiro, Jesus, nas alturas à direita de Deus, e o crente,
cheio do Espírito Santo e sofrendo na Terra por amor do
Seu nome, vendo a glória nas alturas, e o Filho do homem
na glória;
E, finalmente, Jesus, o Rei dos reis, e Senhor dos senho­
res, saindo do Céu para julgar e fazer guerra contra os
escamecedores que disputam a Sua autoridade e oprimem
a Terra.
Mas recapitulemos, voltando ao fim do capítulo 3: O Pai
reconhece a Jesus, o Homem obediente na Terra, que entra,
como verdadeiro Pastor, pela porta, como Seu Filho amado
em quem está todo o Seu deleite. 0 Céu é aberto sobre
Jesus; Ele vê o Espírito Santo descendo sobre Si, a força
infalível e suporte das perfeições da Sua vida humana;
e recebe do Pai o testemunho da Sua relação entre Ele
e os Seus. Nenhum objecto em que a Sua fé deve ser posta
Lhe é apresentado como o é a nós. È a Sua relação com
o Céu e Seu Pai que é selada. A Sua alma desfruta o gozo
do facto com a descida do Espírito Santo e a voz de
Seu Pai.
Esta passagem do Evangelho segundo S. Mateus requer,
porém, um pouco mais de atenção. O bendito Senhor, ou
antes, o que ocorreu com Ele, mostra-nos o lugar ou o mo­
delo em que Ele põe os crentes, quer sejam Judeus ou Gen-
44 J. N. DARBY
tios: Claro, somos postos nesse lugar pela redenção. «Subo
para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus» são as
palavras benditas que pronunciou depois da Sua ressurrei­
ção. Mas, para nós, o Céu está aberto; estamos selados com
o Espírito Santo; o Pai reconhece-nos como filhos. Mas a
dignidade divina da Pessoa de Cristo é sempre mantida
no mundo em humilhação, como na transfiguração em gló­
ria. Moisés e Elias encontram-se na mesma glória, mas desa­
parecem quando a precipitação de Pedro, autorizado a falar,
os queria pôr no mesmo nível. Quanto mais perto estamos
de uma pessoa divina, tanto mais a adoramos e reconhece­
mos o que ela é. Porém, encontra-se aqui outro facto muito
notável. Pela primeira vez, quando Cristo toma este lugar
entre os homens em humildade, a Trindade é plenamente
revelada. Sem dúvida, o Filho e o Espírito Santo são men­
cionados no Antigo Testamento. Mas ali a unidade da Di­
vindade é o ponto essencial revelado. Aqui é o Filho como
Homem que é reconhecido. O Espírito Santo desce sobre
Ele e o Pai decl ara-O como Seu Filho. Que maravilhosa
relação com o homem! Que lugar para o homem ocupar!
Mediante a relação de Cristo com o homem, a Deidade é
revelada na sua própria plenitude. A Sua humanidade apre-
senta-se em toda a sua plenitude. Mas Ele era nealmente
homem — o Homem em Quem os desígnios de Deus quanto
ao homem deviam ser cumpridos.
Por esta razão, e uma vez que Ele realizou e mostrou
o lugar em que o homem é posto perante Deus na Sua pró­
pria Pessoa e segundo os desígnios de Deus em graça
quanto à nossa relação com Deus, nós também estamos
em conflito com o Inimigo. Ele entra também nesse lado
da nossa posição. Temos a nossa relação com Deus nosso
Pai. Ele venceu por nós e mostrou-nos como venver. No­
te-se também que, primeiramente, a relação do Senhor com
Deus é plenamente estabelecida e revelada, e que em segui­
da começa o conflito com Satanás. E dá-se o mesmo con­
nosco. Mas a questão era esta: Manter-se-ia o Segundo Adão
onde o primeiro Adão tinha falhado? E, além disso, estava
no deserto deste mundo e sob o poder de Satanás — em
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS
45
lugar das bênçãos de Deus — pois era ali que nós tínhamos
chegado.
Devemos também notar outro ponto aqui, a fim de ver­
mos o lugar que o Senhor toma. A lei e os profetas vigo­
raram até João. É então anunciado algo de novo — o reino
dos céus. O Juízo termina pelo povo de Deus. O machado
está posto à raiz das árvores, a pá está nas mãos d’Aquele
que vem, O' trigo é recolhido no celeiro de Deus, a palha
é queimada. Quer dizer, há um fim da história do povo
de Deus em Juízo. Nós entramos no campo onde o homem
está perdido e espera o julgamento; mas a história do
homem como responsável terminou. Por isso é dito: «Mas
agora na consumação dos séculos Se manifestou para tirar
o pecado pelo sacrifício de Si mesmo». Isto aconteceu lite­
ralmente com Israel; mas é também moralmente verdadeiro
a nosso respeito; com a diferença que nós somos recolhidos
para o Céu, assim como o Remanescente de então, e esta­
remos no Céu. Mas, sendo Cristo rejeitado, a história da
responsabilidade acabou, e nós somos introduzidos em
graça como seres já perdidos.
Consequentemente, após este anúncio, Cristo vem e,
identificando-Se com o Remanescente que escapa ao Juízo
por meio do arrependimento, prepara este novo lugar para
o homem sobre a Terra. Mas nós não podíamos ocupá-lo
antes da redenção ser cumprida. Entretanto Ele manifestou
o nome do Pai àqueles que Ele Lhe tinha dado do mundo.
CAPITULO 4
Tendo assim tomado em graça a Sua posição como
homem sobre a Terra, Jesus começa a Sua carreira terres­
tre, sendo levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado
pelo Diabo. O Homem justo e santo, o Filho de Deus, go­
zando, como tal, de todos os privilégios que Lhe são pró­
prios, teve de passar pelas experiências dos ardis mediante
os quais o primeiro Adão caiu. É posto à prova o Seu
estado espiritual. Não se trata agora de um homem ino-
46 J. N. DARBY
cente, gozando de todas as bênçãos naturais de Deus, e
posto à prova no meio dessas bênçãos. Mas é Cristo que,
em intimidade com Deus como Seu Filho amado, no meio
da provação, tendo conhecimento do bem e do mal, e,
quanto ás circunstâncias exteriores, descendo ao meio do
estado decaído do homem, tem de ser profundamente pro­
vado nesta fidelidade inerente a esta posição a respeito da
Sua perfeita obediência. A fim de manter esta posição, não
pode ter outra vontade que. não seja a do Pai e tem de a
cumprir, sejam quais forem as consequências que daí Lhe
advenham. Tem de a cumprir no meio de todas as dificul­
dades e privações, no isolamento, no deserto, onde estava
o poder de Satanás, o qual podia tentá-Lo para seguir um
caminho mais fácil do que aquele que era para glória de
Seu Pai. Tem de renunciar a todos os direitos que perten-
oem à Sua Pessoa, excepto os que recebia de Deus, entre­
gando-os a Ele com perfeita confiança.
O Inimigo fez todo o possível para induzir Jesus a fazer
uso dos Seus privilégios, «Se tu és o Filho de Deus», para
Seu próprio alívio, separado do mandamento de Deus, evi­
tando os sofrimentos que podiam advir do cumprimento
da Sua vontade. Mas tudo isto com o fim de O levar a fazer
a Sua própria vontade — e não a vontade de Deus.
Jesus, desfrutando em Sua própria Pessoa e relação com
Deus o pleno favor de Deus como Filho de Deus, a luz do
Seu rosto, vai ao deserto para estar quarenta dias em luta
com o Inimigo*. Não se separa dos homens nem de todos os
contactos com os homens e as coisas do homem para (como
Moisés e Elias) estar com Deus. Porém, já plenamente com
Deus, Ele é separado dos homens pelo poder do Espírito
Santo para estar só na Sua luta com o Inimigo. No caso
de Moisés, era o homem fora da sua condição natural, para
estar com Deus. No caso de Jesus dá-se o mesmo para estar
com o Inimigo, porque estar com Deus era a Sua posição
natural.
O Inimigo tenta-0 em primeiro lugar propondo-Lhe sa­
tisfazer as necessidades do Seu coipo e, em vez de esperar
em Deus, empregar, segundo a Sua própria vontade e em
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 47
Seu próprio benefício o poder de que era dotado. Porém,
se Israel tinha sido alimentado no deserto oom o maná de
Deus, o Filho de Deus, por maior que fosse o Seu poder,
actuaria de acordo com o que Israel tinha aprendido com
o princípio de que «Nem só de pão viverá o homem, mas
de toda a palavra que sai da boca de Deus». O Homem,
o Judeu obediente, o Filho de Deus confiava nesta palavra
e nada fazia sem ela. Não tinha vindo para fazer a Sua pró­
pria vontade, mas a vontade d’Aquele que O tinha enviado.
É este o princípio que caracteriza o Espírito de Cristo nos
Salmos. Nenhuma libertação é aceite senão a intervenção
de Jehovah, quando Ele assim o entender. Trata-se de pa­
ciência perfeita, a fim de ser perfeito e completo em toda
a vontade de Deus. Não podia haver nenhum desejo cul­
pável em Cristo; mas ter fome não era pecado, era uma
necessidade humana — e que mál há em comer quando se
tem fome?... Mas não era a vontade de Deus que Ele exer­
cesse agora o Seu poder — e Jesus viera para cumprir essa
vontade, segundo a Palavra de Deus. A sugestão de Satanás
era: «Se tu és o Filho de Deus, manda»; mas Ele tinha
tomado o lugar de servo, e o servo não manda — obedece!
Satanás procurou afastar o Senhor do lugar de obediência
e serviço perfeitos, do lugar de servo.
E note-se aqui a importância que a Escritura tem, e
observe-se também o carácter da obediência de Cristo. Para
esta obediência, a vontade de Deus não era simplesmente
uma regra, era o único motivo de acção. A nossa vontade
é frequentemente detida pela Palavra de Deus; mas não era
assim com Cristo. A vontade de Seu Pai era o Seu motivo.
Cristo agia não meramente segundo a vontade de Deus, mas
sim porque era a vontade de Deus. Gostamos de ver uma
criança que, correndo para qualquer coisa de que ela gosta,
se detém e faz alegremente a vontade de seus pais, quando
for chamada. Mas Cristo nunca obedeceu deste modo, nunca
procurou fazer a Sua própria vontade, mas sim a de Seu
Pai. E nós somos santificados para a obediência de Cristo.
Note-se ainda que a Escritura era aquilo de que Ele vivia
e que O fazia vencedor. Tudo aqui dependia da vitória de
48
J. N. DARBY
Cristo, como tudo dependeu da queda de Adão. Mas para
Cristo bastava uma palavra, naturalmente bem empregada.
Não procurava outra coisa que não fosse a obediência. E
era o bastante para Satanás, pois nada tinha a dizer. Os
seus ardis são assim frustrados.
O primeiro princípio do triunfo é a obediência simples
e absoluta, que vive de toda a palavra que sai da boca de
Deus. O segundo é a perfeita confiança no caminho da obe­
diência.
Em segundo lugar, o Inimigo coloca Jesus no pináculo
do templo, para O induzir a aplicar a Si mesmo as promes­
sas feitas ao Messias, sem se manter nos caminhos de Deus.
O homem fiel deve certamente contar com o auxilio de
Deus, enquanto andar nos Seus caminhos. O Inimigo quer
levar o Filho do homem a experimentar a Deus (em vez
de contar com Ele, andando nos Seus caminhos) a fim de
ver se podia confiar n’Ele. Isso teria sido uma falta de con­
fiança em Deus, e não obediência; ou presunção, arrogan-
doJSe os seus privilégios, em vez de contar com Deus em
obediência ('). Tomando o Seu lugar com Israel, na condi­
ção em que ele se encontrava sem rei no país, e mencio­
nando as instruções que Lhe eram dadas nesse Livro para
o guiar no caminho de Deus, Jesus emprega, para Sua pró­
pria orientação, aquela parte da Palavra que contém o man­
damento divino a tal respeito: «INão tentarás o Senhor teu
Deus»; passagem muitas vezes mencionada como se proi­
bisse o excesso de confiança em Deus; ao passo que ela
significa que não é preciso desconfiar, mas verificar se Ele
é fiel. Os Israelitas tentavam a Deus no deserto, dizendo:
«Está Deus entre nós?». E eis o que Satanás pretendia
obter do Senhor.
O Temos necessidade de confiança para termos a coragem de obedecer;
mas a verdadeira confiança encontra-se no caminho da obediência. Satanás
pode servir-se da Palavra de Deus com astúcia, mas não pode desviar dela
a Cristo, o Senhor. Cristo pode ainda empregá-la como arma divina sufi­
ciente — e Satanás não tem réplica. Interdizer a obediência teria sido reve­
lar-se verdadeiro Satanás. Quanto ao lugar em que o Senhor Se encontrava,
podemos notar que todas as Suas citações são sempre segundo Deuteronómio.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 49
Não conseguindo enganar este coração obediente, nem
mesmo ocultando-se sob o emprego da Palavra de Deus,
o Inimigo mostra-se no seu verdadeiro carácter, tentando
o Senhor pela terceira vez, para que Ele Se poupasse a Si
mesmo a todos os sofrimentos que O aguardavam, mostran-
do-Lhe a herança do Filho do homem na Terra, que seria
Sua quando a tivesse alcançado através de todos esses cami­
nhos difíceis, mas necessários para a glória do Pai, e que
o Pai tinha delineado para Ele. Tudo seria agora Seu se,
adorando-o, reconhecesse Satanás, o deus deste século. Isto
era, com efeito, o que os reis da Terra tinham feito apenas
por uma pequena parte dessas coisas — e quantas vezes
apenas por uma vaidade fútil! —mas Ele, Ele tê-las-ia todas.
Mas se Jesus devia herdar a glória terrestre (assim como
toda a outra glória), o alvo do Seu coração era Deus mes­
mo, Seu Pai, para O glorificar. Qualquer que fosse o preço
do dom, era como dom do Doador que o Seu coração o
apreciava. Além disso Ele estava na posição de um homem
experimentado e de um fiel Israelita; e fosse qual fosse a
prova da paciência em que o pecado do povo O tivesse colo­
cado, por maior que fosse a prova, Ele não serviria nin­
guém senão o Seu Deus.
Mas se o Diabo leva a tentação, o pecado, até ao fim e se
revela como sendo o Adversário (Satanás), o fiel tem o
direito de o afastar. Se vem como tentador, o fiel deve
responder-lhe com a fidelidade da Palavra de Deus, a qual
é o perfeito guia do homem, segundo a vontade de Deus.
Não precisa de compreender tudo. A Palavra é a Palavra
d’Aquele que faz todas as coisas, e, seguindo-a, andamos
segundo a sabedoria que conhece todas as coisas, e num
caminho formado por essa sabedoria e que, portanto, im­
plica uma confiança absoluta em Deus.
As duas primeiras tentações eram ardis do Diabo; a ter­
ceira constituía uma aberta hostilidade contra Deus. E se
ele vem abertamente como adversário de Deus, o fiel tem
o direito de não querer tratar com ele. «Resisti ao diabo,
e ele fugirá de vós» (Tiago 4:7). Então ele sabe que se en­
controu com Cristo — e não com a carne. Possam os crentes
4
50 J. N. DARBY
resistir, se Satanás procurar tentá-los por meio da Palavra
de Deus, sabendo que o domínio de Satanás está no homem
caído.
A salvaguarda do crente, moral e espiritualmente (quer
dizer, quanto ao estado do seu coração), é a simplicidade
da fé. Se buscarmos a glória de Deus sem outro motivo
que não seja o nosso engrandecimento ou a nossa própria
satisfação, quer do corpo quer da mente, a nossa fé não
permanecerá. Demonstra-se pela Palavra de Deus, que guia
a fé simples, como isso é contrário ao pensamento de Deus.
Não é a arrogância, que rejeita a tentação, como se isso
fosse bom; é a obediência que dá humildemente a Deus
o Seu lugar, e, por conseguinte, também à Sua Palavra.
«Pela palavra dos teus lábios me guardei das veredas do
destruidor» (Salmo 17:4), daquele que fez a sua própria
vontade e dela fazia o seu guia. Se o coração buscar so­
mente a Deus, o mais astucioso ardil é descoberto, porque
o Inimigo nunca nos tenta para buscarmos somente a Deus.
Mas isso implica um coração puro, e não egoísmo. É o que
foi mostrado em Jesus.
A nossa salvaguarda contra a tentação é a Palavra de
Deus, quando visada com o discernimento de um coração
perfeitamente puro, que vive na presença de Deus e aprende
a conhecer os Seus pensamentos na Sua Palavra O), e sabe,
portanto, aplicá-la às circunstâncias presentes. É a Palavra
de Deus que guarda a alma das ciladas do Inimigo.
Note-se também, por consequência, que é no espírito de
simples e humilde obediência que consiste o poder; porque,
onde esse poder existe, Satanás nada pode fazer. Deus está
lá e, desse modo, o Inimigo é vencido. Parece-me que estas
C) Não deve haver outro motivo de acção além da vontade de Deus,
que o homem deve procurar sempre na Sua Palavra. Quando Satanás nos
impele a agir, como faz sempre, por qualquer outro motivo, vemos que este
é sempre oposto à Palavra de Deus, que está no coração, e ao motivo que
o governa; é, por conseguinte, julgado como sendo-lhe contrário. Está
escrito: «Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti».
Por esta razão, quando estivermos na incerteza, devemos averiguar qual o
motivo por que somos influenciados.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 51
três tentações são dirigidas contra o Senhor sob os três
caracteres: do homem, do Messias e do Filho do homem.
Não havia nele desejos pecaminosos, como no homem pe­
cador, mas tinha fome. O tentador quis persuadi-JLo a satis­
fazer essa necessidade sem Deus. As promessas dos Salmos
pertenciam-Lhe como havendo sido feitas ao Messias. E to­
dos os reinos do mundo Lhe pertenciam como Filho do
homem.
Jesus responde sempre como um Israelita fiel, pessoal­
mente responsável perante Deus, citando o Livro de Deute-
ronómio que trata deste assunto — ou seja, da obediência
de Israel tendo em vista a posse da terra e dos privilégios
que lhe pertenciam em ligação com essa obediência, e fora
da organização que os constituía um corpo perante Deus (J).
Satanás afasta-se de Jesus, e os anjos vêm exercer o seu
ministério em favor do Messias, o Filho do homem vito­
rioso pela obediência. Ele respondeu plenamente àquilo em
que Satanás teria querido* levá-Lo a provar Deus. Os anjos
são para nós também espíritos administradores.
Mas como é profundamente interessante ver o nosso
bendito Senhor, o Filho de Deus — o Verbo feito carne —
tomar o Seu lugar entre os humildes crentes na Terra;
depois, tendo tomado esse lugar, reconhecido pelo Pai como
Seu Filho, estando os céus abertos, e abertos sobre Ele
como homem, e o Espírito Santo descer e repousar sobre
Ele como homem, embora sem medida, vê-Lo formar o mo­
delo da nossa posição, embora ainda não estivéssemos nele;
toda a Trindade divina, como já disse, plenamente revelada
O Um exame atento do Pentateuco mostrar-nos-á que, embora os factos
históricos necessários estejam estabelecidos, o conteúdo de Levítico e de
Números é essencialmente típico. O tabernáculo era feito segundo o modelo
mostrado no monte — modelo das coisas celestes; não só as ordenanças ceri­
moniais, mas também os factos históricos, como o apóstolo claramente o
estabelece, lhes vieram como tipos e foram escritos para nossa instrução.
O Livro de Deuteronómio dá indicações para o comportamento deles no
país. Os três livros mencionados, mesmo onde contêm fact®s históricos, são
típicos no seu objecto. Não sei se algum sacrifício foi oferecido após a sua
instituição, a menos que não tenham sido sacrifícios oficiais. (Ver Actos 7:42).
52 J. N. DARBY
quando Ele Se associou deste modo com o homem; e então,
quando nós éramos escravos de Satanás, partiu nesse carác­
ter e nessa relação para enfrentar Satanás por nós, a fim
de manietar o homem forte e dar por Si mesmo esse lugar
também ao homem; mas quanto a nós a redenção era ne­
cessária para nos levar aonde Ele está.
Havendo João sido lançado na prisão, o Senhor parte
para a Galileia. Este movimento, que colocava a cena do
Seu ministério fora de Jerusalém e da Judeia, tinha um
grande significado a respeito dos Judeus. O povo, concen­
trado em Jerusalém e vangloriando-se de possuir as pro­
messas, os sacrifícios, o templo, e de ser a tribo real, perdia
a presença do Messias, Filho de David. Jesus, para manifes­
tação da Sua Pessoa, para o testemunho da intervenção de
Deus em Israel, dirige-se aos pobres e desprezados do reba­
nho; porque o Remanescente e os pobres do rebanho encon­
tram-se já, nos capítulos 3 e 4, claramente distinguidos dos
chefes do povo. Deste modo tomou-Se o verdadeiro tronco,
em vez de ser uma vara do que havia sido plantado noutro
lugar, embora o efeito disto não tivesse ainda sido plena­
mente manifestado. Este momento corresponde ao capí­
tulo 4 de João.
Podemos observar aqui que, no Evangelho segundo
S. João, os Judeus são sempre distinguidos da multidão 0 .
A Língua, ou antes, a pronúncia dos Galileus era inteira­
mente diferente da dos Judeus. Na Galileia não se falava
o Caldeu.
Esta manifestação do Filho de David na Galileia era ao
mesmo tempo o cumprimento de uma profecia de Isaías,
cuja força é esta: Embora o cativeiro Romano fosse muito
mais terrível do que a invasão dos Assírios, quando vieram
contra a terra de Israel, havia, no entanto, uma circuns­
tância que alterava todas as coisas, a saber, a presença
do Messias, a verdadeira Luz na Terra.
O Chamada «o povo» nos Evangelhos.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 53
Note-se que o Espírito de Deus omite aqui toda a his­
tória de Jesus até ao começo do Seu ministério, depois da
morte de João Baptista. Dá a Jesus a Sua posição própria
no meio de Israel — Emanuel, o Filho de David, o amado
de Deus, reconhecido como Seu Filho, o único fiel em
Israel, embora sujeito a todas as tentações de Satanás;
e em seguida vem a Sua posição profética, anunciada por
Isaías, e o reino é proclamado como estando à porta i1).
Então o Senhor junta em redor de Si aqueles que de­
viam definitivamente segui-Lo no Seu ministério e tenta­
ções; e, à Sua chamada, abandonando tudo, ligar a sua
sorte e a sua porção com a sorte e a porção do Senhor.
O homem forte foi amarrado de sorte que Jesus podia
pilhar os seus bens e anunciar o reino com as provas da­
quele poder que era capaz de o estabelecer.
CAPÍTULOS 5-7
Duas coisas são então postas em evidência na narrativa
do Evangelho. A primeira é o poder que acompanha a pro­
clamação do reino, facto anunciado em dois ou três ver­
sos (2), sem qualquer outro pormenor. O reino é procla­
mado com actos de poder que chamam a atenção de todo
o país, de todo o território do* antigo Israel. Jesus aparece
diante deles investido desse poder. Segunda (capítulos 5 a 7),
O Podemos notar aqui, como já fizemos anteriormente, que Ele deixa
os Judeus © Jerusalém» e o Seu lugar natural, por assim dizer, que Lhe dava
o Seu nome — Nazaré — e toma o Seu lugar profético. A prisão de João
era o sinal da Sua própria rejeição. João era também ali o Seu precursor,
como, na sua missão, o tinha sido do Senhor (ver capítulo 17:2). O teste­
munho de Jesus é o mesmo que o de João Baptista.
0) É deveras surpreendente que todo o ministério do Senhor nos seja
descrito num simples verso (capítulo 4:23). Tudo o que vem depois são
factos de importância moral particular, mostrando o que se passava no meio
do povo em graça, até à Sua rejeição. Não é uma história consecutiva
propriamente dita. E isto marca mui distintamente o carácter do Evangelho
segundo S. Mateus.
54 J. N. DARBY
é o carácter do reino, anunciado no sermão da montanha,
assim como o carácter das pessoas que deverão ter parte
nele (sendo revelado ao mesmo tempo o nome do Pai). Quer
dizer, o Senhor tinha anunciado a vinda do reino, e, com
o actual poder de bondade, tinha vencido o adversário;
mostra então quais eram as verdadeiras características
segundo as quais o reino seria estabelecido, quem entraria
nele, e como. Não se fala aqui de redenção, mas sim do
carácter e da natureza do reino, e de quem nele poderia
entrar. Isto mostra claramente a posição moral que este
sermão ocupa no ensino do Senhor.
É evidente que, em toda esta parte do Evangelho, o
assunto do ensino do Espírito Santo' é a posição do Senhor,
e não os pormenores da Sua vida. Os pormenores vêm
depois para mostrar plenamente o que Ele era no meio de
Israel, as Suas relações com o povo e a Sua carreira no
poder do Espírito que conduziu à rotura entre o Filho de
David e o povo que deveria tê-iLo recebido. Despertada deste
modo a atenção de todo o País pelos Seus actos de poder,
o Senhor põe diante dos discípulos — mas aos ouvidos do
povo — os princípios do Seu reino.
Podemos distinguir neste discurso as seguintes partes (*):
(') A divisão que damos pode ajudar de maneira prática à aplicação
do sermão da montanha. Quanto aos assuntos que este discurso encerra,
poder-se-ia, talvez, embora a diferença não seja muito grande, dividi-lo ainda
melhor assim:
O capítulo 5:1-16 contém o quadro completo do carácter e da posição
do Remanescente» que recebe as instruções do Senhor, a posição desse Rema­
nescente tal como ela devia ser segundo os propósitos de Deus. Isto é com­
pleto em si.
Os versos 17-48 do capítulo 5 estabelecem a autoridade da lei que deveria
ter regulado o comportamento do fiel até à introdução do reino, lei que eles
deveriam ter cumprido, assim como as palavras dos profetas, a fim de que
eles (o Remanescente) fossem colocados sobre esse novo campo; todo aquele
que fosse culpado do desprezo dessa lei seria excluído do reino.
Mas» estabelecendo assim a autoridade da lei, retoma os dois grandes
elementos do mal, tratados somente nos actos exteriores da lei, violência e
corrupção, e julga o mal no coração (capítulo 5, versos 22 e 28); é preciso,
custe o que custar, que o homem se livre do mal e de toda a ocasião de
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 55
O carácter e a posição daqueles que estarão no reino
(capítulo 5:1-12).
A sua posição no mundo (capítulo 5:13-16).
As relações dos princípios do reino com a lei (capítulo
5:17-48)0.
o fazer, mostrando assim como deveria ser o comportamento dòs Seus discí­
pulos e o estado da sua alma — o que deveria caracterizá-los sob esse aspecto.
O Senhor considera então certas coisas toleradas por Deus em Israel e orde­
nadas segundo o que Ele podia suportar. Traz em seguida, à luz de uma
verdadeira avaliação moral, o divórcio — sendo o casamento a base divina­
mente estabelecida de todas as relações humanas — e os juramentos ou votos,
a acção da vontade do homem em relação com Deus, depois o suporte do
mal e a plenitude da graça, quer dizer, o seu carácter abençoado que trazia
com ele o título moral do que era o seu expressivo lugar — filhos do Pai
que estava nos Céus*
Em lugar de enfraquecer o que Deus exigia, sob a lei, Ele queria não
só que se observasse a lei até ao seu cumprimento, mas também que os
Seus discípulos fossem perfeitos como perfeito é o Pai que está nos céus.
Isto junta à revelação do Pai o comportamento moral e o estado espiritual
que convinha ao carácter dos filhos, tal como era revelado em Cristo.
No capítulo 6, temos os motivos, o alvo, que devem governar o coração
fazendo o bem, levando uma vida espiritualmente sã. Os olhos dos discípulos
deviam estar postos no Pai. Isto é individual.
O capítulo 7 ocupa-se essencialmente do que convém aos discípulos de
Jesus quanto às suas relações com os outros — não julgar os seus irmãos e
ter cuidado com os profanos (versos 1-6). Em seguida o Senhor exorta os
Seus a confiarem no Pai, pedindo-Lhe o que lhes fizer falta; ensina-lhes a
agir para com os outros segundo essa mesma graça que gostaríamos de ver
posta em prática para connosco mesmo. Isto é fundado no conhecimento da
bondade do Pai (versos 7-12). Enfim, o Senhor exorta os Seus à energia que
os fará entrar pela porta estreita e tomar, custe o que custar, o caminho
de Deus (porque muitos gostariam de entrar no reino, mas não por essa
porta). Adverte-os a respeito daqueles que haviam de procurar enganá-los,
pretendendo possuir a Palavra de Deus. Não é só o nosso próprio coração,
e o mal propriamente dito, que são de temer quando se trata de seguir o
Senhor, mas também as ciladas e os agentes do Inimigo. Mas estes revelar-
-se-ão pelos seus próprios frutos.
O É, no entanto, importante notar que não há espiritualização da lei,
como frequentemente se pretende. Trata-se de dois grandes princípios de
imoralidade entre os homens (violência e má cobiça), aos quais se juntam
os juramentos voluntários. Há nisto um contraste entre as exigências da lei
e o que Cristo requeria.
56 J. N. DARBY
O espírito em que os discípulos de Jesus devem fazer
as boas obras (capítulo 6:18).
A separação do espírito do mundo e dos seus anseios
(capítulo 6:19-34).
O espírito das relações dos discípulos com os outros
homens (capítulo 7:1-6).
A confiança em Deus que lhes convinha (capítulo 7:7-12).
A energia que deve caracterizá-los para entrarem no
reino; não meramente para ali entrar — muitos procura­
riam fazê-lo — mas para entrarem segundo aqueles princí­
pios que tornam a entrada difícil ao homem, para ali entra­
rem segundo os princípios de Deus — pela porta estreita;
mas também os meios para discernirem aqueles que pro­
curarão enganá-los, bem como a vigilância necessária para
não se deixarem enganar (capítulo^ 7:13-23).
Finalmente, obediência verdadeira e prática às palavras
do Senhor, a verdadeira sabedoria dos que escutam as Suas
palavras (capítulo 7:24-29).
Existe outro princípio que caracteriza este discurso:
é a introdução do nome do Pai. Jesus coloca os Seus discí­
pulos em relação com Seu Pai, como sendo o Pai deles;
revela-lhes o nome do Pai, para que eles estejam em rela­
ção com Ele, e para que possam actuar segundo o que
Ele é.
Este discurso apresenta os princípios do reino, mas su­
põe a rejeição do Rei; apresenta a posição ©m que essa
rejeição conduziria aqueles que são Seus e que devem
esperar um galardão celestial. Deviam ser um aroma divino
em que Deus era conhecido e actuava, e seriam um espec­
táculo para o mundo inteiro. Era este, aliás, o objectivo de
Deus. O seu testemunho devia ser tão claro que o mundo
teria de atribuir as suas obras ao Pai. Deviam agir, por um
lado, no tocante ao mal que atingia o coração e os motivos;
e, por outro lado, segundo o carácter do Pai em graça, con­
fiarem-se à aprovação do Pai, que vê em tudo o que é se­
creto, em tudo onde o olhar doi homem não pode penetrar.
Deviam ter absoluta confiança n’Ele para todas as suas
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 57
necessidades. A Sua vontade era a regra mediante a qual
se entra no reino.
Podemos ver como este discurso está relacionado com
a proclamação do reino como estando próximo; e que todos
estes princípios de conduta são dados como características
do reino e como condições para entrada nele. Sem dúvida,
resulta daí que eles convêm àqueles que ali entraram. Mas
o discurso é pronunciado no meio de Israel!('), antes de
o reino ser estabelecido, e como estado prévio para nele
entrar e para estabelecer os princípios fundamentais do
reino em relação com esse povo, e em contraste moral com
a ideia que Israel dele tinha feito.
Examinando as bem-aventuranças, descobriremos que
esta parte do discurso nos dá em geral o carácter do pró­
prio Cristo. Estas bem-aventuranças supõem duas coisas:
a posse futura da terra de Israel pelos simples; e a perse­
guição do Remanescente fiel, verdadeiramente justo em
seus caminhos e que afirmava os direitos do verdadeiro Rei
(o Céu foi apresentado a esse Remanescente como espe­
rança para manter o seu coração) (2).
Esta será, com efeito, a posição do Remanescente nos
últimos dias antes da introdução do reino. Moralmente, era
O É preciso lembrar sempre que, enquanto Israel tem, de maneira
dispensacional, uma grande importância como centro do governo de Deus
neste mundo, era moralmente no homem que todos os caminhos e todas as
relações de Deus tinham sido desenvolvidos, de maneira a revelar o que o
homem era. O Gentio era o homem entregue a si próprio, quanto aos cami­
nhos especiais de Deus e, por isso, não era manifestado. Cristo era uma luz
(eis apocalupsin ethnôn) que revelava os Gentios.
(a) É preciso notar, embora de passagem, os caracteres que são verda­
deiramente abençoados. Eles supõem o mal no mundo e no meio do povo
de Deus. Primeiramente não procura grandes coisas para si mesmo, aceitando
um lugar inferior, desprezado, no meio de uma cena contrária a Deus. Eis
porque são caracterizados pelas aflições e pela complacência, por uma von­
tade que não se eleva contra Deus ou que não defende a sua posição ou os
seus direitos. Sente-se então o desejo de um bem positivo, porque não o
possuímos ainda; estar dele faminto e sequioso tais são quer o estado inferior
quer a actividade do espírito. Manifesta-se então a graça para com os outros,
do mesmo modo como a pureza do coração e a ausência de tudo o que
58 J. N. DARBY
assim em relação com Israel no tempo dos discípulos do
Senhor, estando suspensa a parte terrestre do reino. Em
vista do Céu, os discípulos são considerados como teste­
munhas em Israel; mas—embora fossem o único meio de
preservar a Terra — eram um testemunho para o mundo.
De modo que os discípulos são encarados em relação com
Israel, mas, ao mesmo tempo, como testemunhas da parte
’e Deus no mundo (o reino estava à vista, mas ainda não
estava estabelecido). A relação com os últimos dias é evi­
dente; contudo o testemunho dos discípulos tinha então
moralmente este carácter. Somente o estabelecimento do
reino terrestre foi suspenso, e a Igreja, que é celeste, foi
introduzida. O capítulo 5:25 faz evidentemente alusão à po­
sição de Israel no tempo de Cristo. De facto Israel fica
cativo, em prisão, até que tenha recebido o seu pleno cas­
tigo; depois será libertado.
0 Senhor fala e actua sempre como homem obediente,
movido e guiado pelo Espírito Santo; Mas vê-se, da ma­
neira mais notável, neste Evangelho', quem é Aquele que
assim actua; é o que dá ao reino dos Céus o seu verdadeiro
carácter moral. João Baptista podia anunciá-lo como uma
mudança de dispensação, mas o seu ministério era terres­
tre. Cristo podia igualmente anunciar esta mesma verdade
(e essa mudança de dispensação era importantíssima), mas
havia nEle algo mais do que isso. Ele era do Céu, o Senhor
que vinha do Céu. Falando do reino dos céus, falava do pro­
fundo e divino sentimento do Seu coração. Ninguém havia
estado no Céu, senão Aquele que do Céu havia descido,
o Filho do homem, que estava no Céu (João 3:13). Portanto,
falando do Céu, Jesus dizia o que sabia e dava testemunho
do que tinha visto. Esta verdade, como é apresentada no
poderia excluir a Deus e aquilo que Lhe está sempre ligado: a paz e tudo
o que a procura. Creio que há nesses versos uma progressão moral, um
conduzindo sempre ao outro, como sendo um o efeito do outro. Nos dois
últimos vemos as consequências da manutenção de uma boa consciência e da
relação com Cristo num mundo de pecado. Há, como em l.s de PedTo, dois
princípios de sofrimento: Pela Justiça e por amor de Cristo.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 59
Evangelho segundo S. Mateus, realiza-se de duas maneiras.
Já não se tratava de um governo terrestre, segundo a lei;
Jehovah, o Salvador, Emanuel, estava presente. Poderia ser
diferente no Seu carácter celestial, no espírito, nos princí­
pios essenciais de toda a Sua vida?
Além disso, quando Cristo começou o Seu ministério
público e foi ungido com o Espírito Santo, o Céu abrh>se
sobre Si. Foi identificado com o Céu como homem selado
com o Espírito Santo na Terra. Assim, Ele era a expressão
contínua do espírito, da realidade do Céu. Não existia ainda
o exercício do poder judicial que manteria este carácter
aos olhos de todos os que se lhe opunham. Era a manifes­
tação desse carácter em paciência, não obstante a oposição
de todos em redor d'Ele e da incapacidade dos Seus discí­
pulos para O compreenderem. Por isso encontramos no ser­
mão da montanha a descrição do que convém ao reino do
Céu, e até mesmo da certeza do galardão para aqueles que
sofrerem na Terra por amor do Seu nome. Esta descrição,
como vimos, é essencialmente do carácter do próprio
Cristo... É assim que um coração celestial se exprime sobre
a Terra. Se o Senhor ensinava estas coisas, é porque as
amava, porque as encarnava e nelas se deleitava. Sendo
o Deus do Céu, cheio, como homem, do Espírito Santo,
sem medida, o Seu coração estava perfeitamente em har­
monia com um céu que Ele conhecia perfeitamente. Por
conseguinte, concretiza o carácter que os Seus discípulos
deviam assumir com estas palavras: «Sede vós, pois, per­
feitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus». Todo
o seu comportamento devia, pois, estar em relação com
o Pai celeste (ver 5:48).
Quanto mais compreendemos a glória divina de Jesus e
a maneira como Ele estava em relação com o Céu como
homem, tanto mais entendemos o que era para Jesus o
reino dos céus, sob o ponto de vista do que convinha a
esse reino. Quando esse reino for estabelecido mais tarde
em poder, o mundo será governado segundo esses princí­
pios, embora não sejam, propriamente falando, princípios
do mundo.
60
J. N. DiARBY
O Remanescente dos últimos dias, estou certo, vendo
que tudo ao redor de si é contrário à fidelidade, e notando
que toda a esperança Judaica se desvanece aos seus olhos,
será forçado a olhar para cima, e cultivará mais e mais
este carácter, que, se não é celestial, é, pelo menos, muito
semelhante a Cristo 0 .
Há duas coisas que se ligam à presença das multidões,
no verso 1. Primeira, o momento exigia que o Senhor desse
uma verdadeira ideia do carácter do Seu reino, visto que
já atraía após Si a multidão. Fazendo-se sentir o seu poder,
importava tornar conhecido o seu carácter. Por outro lado,
essa multidão que seguia a Jesus representava uma arma­
dilha para os Seus discípulos; e o Senhor faz-lhes com­
preender o perfeito contraste que existia entre o efeito
que essa multidão podia produzir sobre eles, e o Verdadeiro
espírito que devia governá-los. Assim, cheio Ele próprio
do que era realmente bom, apresenta imediatamente o que
enchia o Seu próprio coração. Este era o verdadeiro carác­
ter do Remanescente, que, em geral, se assemelhava a
Cristo nisso. É muitas vezes assim nos Salmos.
O sal da Terra é algo muito diferente da luz do mundo.
A terra, creio, representa aqui o que já fazia profissão de
ter recebido a luz da parte de Deus — o que estava em
relação com Ele em virtude dessa luz — tendo revestido
perante Ele uma forma definida. Os discípulos de Cristo
O Aqueles que sofreram e morreram, subirão ao Céu, como testemu­
nham Mateus 5:12 e Apocalipse. Os outros, tornados semelhantes a Cristo,
estarão com Ele no Monte Sião; aprenderão o cântico cantado no Céu e
acompanharão o Cordeiro para qualquer parte que Ele vá (neste mundo).
Poderemos ainda fazer notar aqui que nas bem-aventuranças a promessa
da Terra é feita aos mansos (capítulo 5:5), e cumprir-se-á à letra nos últimos
dias. No verso 12 do mesmo capítulo há a promessa de uma recompensa nos
céus para aqueles que sofrerem por Cristo, promessa verdadeira para nós
agora, e verdadeira de qualquer modo para aqueles que forem mortos por
amor de Jesus nos últimos dias, que terão o seu lugar no Céu, muito embora
tenham feito parte do Remanescente Judeu e não da Igreja. Encontra-se o
mesmo tema em Daniel 7; simplesmente, é preciso notar que são os tempos
e a lei — e não os santos — que são entregues nas mãos da Besta.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 61
eram o princípio de preservação na Terra. Eram a luz do
mundo, que não possuía essa luz. Esta era a posição deles,
quer quisessem quer não. Era o propósito de Deus que eles
fossem a luz do mundo, e não se acende uma luz para a
esconder.
Tudo isto supõe a possibilidade do estabelecimento do
reino neste mundo, se a maioria dos homens a tal se não
opusesse. Não se trata da questão da redenção do pecador,
mas da realização do carácter que era próprio a um lugar
no reino de Deus; lugar que o pecador devia procurar en­
quanto se encontrava no caminho com a sua parte adversa,
para não ser entregue ao juiz —o que, na realidade, acon­
teceu ao Judeu.
Ao mesmo tempo, os discípulos são colocados indivi­
dualmente em relação com o Pai — o segundo grande prin­
cípio do discurso, como consequência da presença do Filho
— e Jesus apresenta-lhes algo mais excelente do que a sua
posição de testemunho do reino. Deviam actuar em graça,
do mesmo modo como o Pai agia, e deviam orar por uma
ordem de coisas em que tudo correspondesse moralmente
ao carácter e à vontade do Pai. «Santificado seja o teu
nome; venha o teu reino» í1); quer dizer que tudo corres­
ponda ao carácter do Pai, a fim de que tudo seja o efeito
do Seu poder. «Seja feita a tua vontade, assim na terra
como no céu»; é a perfeita obediência (capítulo 6:9-10). A
sujeição universal a Deus no céu e na terra será, até certo
ponto, conseguida péla intervenção de Cristo no milênio;
e absolutamente realizada quando Deus for tudo em todos.
Entretanto a oração exprime a dependência diária, a neces­
sidade de perdão, a necessidade de se ser guardado do
poder do inimigo, o desejo de se não ser por ele joeirado,
como acto disciplinar de Deus, como no caso de Job ou de
Pedro, e de se ser guardado do mal.
É ainda uma oração em relação com a posição do Re­
manescente; ultrapassa a dispensação do Espírito, e até
O Quer dizer, o do Pai. Comparar Mateus 13:43.
62 J. N. DARBY
mesmo o que é próprio do milénio como reino terrestre,
a fim de exprimir os justos desejos do Remanescente, e
falar do seu estado e dos seus perigos, até que venha o
reino do Pai. Muitos destes princípios são sempre verda­
deiros, porque estamos no reino, e devemos manifestar em
espírito os seus sinais; mas a aplicação especial e literal
desta passagem é mesmo aquela que acabo de dar. Os dis­
cípulos são postos em relação com o Pai na realização do
Seu carácter, que devia manifestar-se neles em virtude
dessa relação, promovendo neles o desejo do estabeleci­
mento do Seu reino e ultrapassarem as dificuldades dum
mundo inimigo, guardando-se das ciladas do Diabo, e cum­
prindo a vontade do Pai. Jesus concedia-lhes tudo isso.
Assim Jesus passa da lei (!), reconhecida como vindo de
Deus, ao cumprimento dessa lei, quando ela for, por assim
dizer, absorvida na vontade d'AqueIe que a deu, ou cum­
prida nos seus propósitos por Aquele que somente Ele
podia fazê-lo fosse em que sentido fosse.
CAPITULO 8
Aqui, o Senhor começa no meio de Israel a Sua paciente
vida de testemunho, que findou com a Sua rejeição pelo
povo que Deus havia preservado durante longo tempo para
Si, e para sua própria bênção.
O Senhor tinha anunciado o reino, posto em evidência
em todo' o país o Seu poder, declarado o Seu carácter, bem
como o espírito dos que deviam entrar no reino. Mas os
(') A lei é a regra perfeita para um filho de Adão, a regra ou a
medida do que ele deve ser, mas não da manifestação de Deus em graça,
como o era Jesus Cristo, que é o nosso modelo nisso— é um justo convite
a amar a Deus e a andar no cumprimento do dever em relação com Ele,
mas não uma imitação de Deus, andando no amor, como Cristo nos amou
e Se entregou a Si mesmo por nós.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 63
Seus milagres (') bem como todo o Evangelho, são sempre
caracterizados pela Sua posição* entre os Judeus e os de­
sígnios de Deus com eles, até ser rejeitado. Ele é Jehovah,
mas é homem obediente à lei, deixando antever a entrada
dos Gentios no reino (o seu estabelecimento em mistério
no mundo), predizendo a edificação da Igreja ou Assembleia
sobre o reconhecimento de ser o Filho do Deus vivo, e o
reino em glória; e, ao mesmo tempo que revela como efeito
da Sua presença a perversão do povo (2), leva sobre o Seu
O Os milagres de Cristo tinham um carácter particular. Não se tratava
apenas de actos de poder, mas sim de actos do poder de Deus, visitando
este mundo em bondade. Este poder tinha sido frequentemente manifestado,
sobretudo a partir de Moisés, mas não raro em Julgamento. Todos os mila­
gres de Cristo livravam os homens das funestas consequências que o pecado
tinha trazido. Houve apenas uma excepção, a maldição da figueira, mas ela
representava uma sentença judicial contra Israel, isto é, contra o homem
sob a antiga aliança, quando tinha uma bela aparência, mas não dava fruto.
(2) Acrescento aqui algumas notas manuscritas, tomadas ao reler o Evan­
gelho segundo S. Mateus, depois de preparado este estudo. Elas lançarão,
penso eu, luz sobre a estrutura deste Evangelho. Os capítulos 5 a 7 indicam
o carácter requerido para entrar no reino, carácter que devia marcar o
Remanescente reconhecido, estando Jehovah então em caminho com a nação,
para o Julgamento. Os capítulos 8 e 9 mostram o outro lado da questão: a
graça e a bondade introduzidas, Deus manifestado, o Seu carácter e os Seus
actos — essa coisa nova que não podia meter-se entre as velhas; e ainda a
bondade em poder, mas rejeitada, o Filho do homem (não o Messias) não
tendo onde repousar a cabeça. O capítulo 8 apresenta a intervenção actual
de Deus, em bondade temporal com poder. Este capítulo ultrapassara Israel
por causa da bondade que actuava em graça a respeito do que era excluído
do campo de Deus em Israel. Compreende o poder de Deus acima de todo
o poder de Satanás, das enfermidades e dos elementos, e isto por Cristo,
tomando o fardo sobre Si próprio, mas numa rejeição de que Ele tinha
plena consciência. Os versos 17 a 20 do capítulo 8 levam-nos a Isaías 53:3-4,
e a um estado de coisas que exige que O sigamos plenamente, renunciando
a tudo o mais. Isto conduz a este triste testemunho: Se o poder divino expulsa
a Satanás, a presença divina, que assim se manifesta, é insuportável para
o mundo. Os porcos representam Israel. O capítulo 9 mostra o lado religioso
da presença do Senhor em graça, o perdão, e o testemunho de que Jehovah
estava ali, segundo o Salmo 103, mas para chamar os pecadores — e não os
justos. Eis, sobretudo, o que não podia convir aos velhos odres... Finalmente,
excepto a paciência em bondade, este capítulo põe praticamente fim à história.
Ele veio para salvar a vida de Israel. Quando Ele veio era, realmente, a
64 J. N. DARBY
coração, com perfeita paciência, o fardo de Israel. É Jeho­
vah, presente em bondade, aparentemente um deles mes­
mo: espantosa verdade!
Em primeiro lugar encontramos a cura do leproso. Só
Jehovah, em Sua bondade soberana, podia curar a lepra;
(veja-se Levítico 14). Aqui Jesus faz o mesmo. «Se quiseres»,
diz o leproso, «podes». «Quero», responde o Senhor (capí­
tulo 8:2-3). Mas, ao mesmo tempo, enquanto manifesta em
Sua própria Pessoa o que repele toda a possibilidade de
contaminação — o que está acima do pecado — mostra a
mais perfeita condescendência para com aquele que estava
contaminàdo. Ele toca o leproso, dizendo: «Quero, sê Mmpo»
(verso 3). Vemos a graça, o poder, a santidade incontaminá-
vel de Jehovah, descendo na Pessoa de Jesus, à maior pro­
ximidade do pecador, tocando-o, por assim dizer. Era, na
verdade, «o Senhor que te cura» (Êxodo 15:26) 0 . Ao mesmo
tempo Jesus esconde-Se, e ordena ao homem, que acabava
de ser curado, que vá mostrar-se ao sacerdote, em confor­
midade com as ordenanças da lei, e que fizesse a sua oferta.
Não sai da esfera do Judeu em sujeição' à lei; mas Jehovah
estava ali em bondade.
Porém, no caso seguinte, encontramos (versos '5 e se­
guintes) um Gentio que, pela fé, desfruta o pleno efeito
daquele poder que a sua fé atribui a Jesus, dando ao Senhor
ocasião para revelar a verdade solene de que muitos destes
morte!... Somente, por toda a parte onde havia fé, no meio da multidão
circunvizinha, havia curas. Os Fariseus mostram a blasfémia dos chefes, mas
a paciência da graça subsiste ainda, desenvolvida para com Israel, no capí­
tulo 10. No capítulo 11 todas as coisas foram achadas como não servindo
para nada. O Filho revelava o Pai e isto permanece em nós e dá descanso.
O capítulo 12 desenvolve plenamente o Julgamento e a rejeição de Israel.
O capítulo 13 apresenta Cristo como um semeador, não procurando fruto
na sua vinha; apresenta também a forma actual do reino dos Céus.
0) Aquele que tocasse um leproso tornava-se ele próprio impuro, mas
o nosso adorado Salvador aproximou-Se mesmo assim do homem e limpou-o,
sem contudo contrair a impureza dele. O leproso conhecia o poder do Senhor,
mas não estava seguro da sua bondade. O «Quero» manifesta-a, mas com o
direito que só Deus tinha de dizer: «Quero».
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS
65
pobres gentios virão e se assentarão no reino dos céus com
os pais, honrados pelos Judeus como progenitores dos her­
deiros da promessa, enquanto que os filhos do reino seriam
lançados nas trevas exteriores. De facto, a fé do centurião
reconhecia um poder divino em Jesus que, devido à glória
d’Aquele que o possuía, não abandonaria Israel, mas abri­
ria a porta aos Gentios e enxertaria na oliveira da pro­
messa ramos da oliveira brava no lugar daqueles que seriam
cortados. A forma como essas coisas se cumpririam na As­
sembleia não estava agora em questão.
Jesus não abandona ainda Israel. Entra em casa de Pe­
dro e cura a sogra dele. E, passado o sábado, faz o mesmo
a todos os enfermos que se juntam em redor da casa. Os
enfermos são curados, os demónios expulsos, de modo que
a profecia de Isaías tem o seu cumprimento: «Verdadeira­
mente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nos­
sas dores levou sobre si» (Isaías 53:4), Jesus tomou de Sua
livre vontade o peso de todas as dores que oprimiam Israel
a fim de os aliviar e curar. É ainda Emanuel que sente a
sua miséria e Se aflige com as aflições deles, mas que vem
com esse poder que demonstra que Ele é capaz de os
libertar.
Estes três casos de cura de que acabamos de falar mos­
tram o carácter do Seu ministério de um modo claro e
notável. Esconde-Se porque, até ao momento de mostrar
o Juízo aos Gentios, não levanta a Sua voz nas praças pú­
blicas. É a pomba que está sobre Ele. As demonstrações
do Seu poder atraem a Si os homens; mas isso de modo
nenhum O ilude, e nunca, em espírito, Se afasta do lugar
que tomou. É desprezado e rejeitado pelos homens; não tem
onde reclinar a cabeça. As raposas e as aves do céu têm
mais lugar sobre a Terra do que Ele — Ele, a Quem vimos
aparecer um momento antes como sendo o Senhor Deus, o
Eterno, reconhecido pelo menos pelos infelizes, a cujas ne­
cessidades Ele nunca deixou de responder. Portanto, se
alguém O quer seguir, tem de deixar tudo para ser compa­
nheiro do Senhor, que não teria vindo à Terra se tudo
tivesse estado em ordem; nem sem absoluto direito, embora
5
66 J. N. DARBY
fosse ao mesmo tempo com amor, que só podia ser mani­
festado pela Sua missão e as necessidades que O trou­
xeram.
O Senhor tinha de ser sobre a Terra ou tudo ou nada.
Isto devia ser, com efeito, sentido moralmente nos seus
efeitos na graça que, agindo pela fé, ligava o fiel com Ele
por um inefável elo. Sem isto o coração não poderia ter
sido moralmente posto à prova. Mas isto não era menos
verdade, porquanto as provas estavam bem presentes: O
vento e as ondas, aos quais, no parecer humano, Ele estava
exposto, obedeciam à Sua voz—notável prova para a incre­
dulidade que O tinha despertado do Seu sono, e havia su­
posto qüe era possível que as ondas 0 tragassem e com Ele
os desígnios e o poder de Quem criou os ventos e as ondas!
É claro que aquela tempestade foi permitida a fim de expe­
rimentar a fé deles e manifestar a dignidade da Sua Pes­
soa. Se o Inimigo era o instrumento que a produziu, apenas
conseguiu que o Senhor manifestasse a Sua glória. Tal é
sempre o caso para Cristo e para nós, quando a fé existe.
Ora a realidade deste poder e o modo como ele operava
são grandemente demonstrados pelo que se segue (versos 28
e seguintes).
O Senhor desembarca no país dos Gergesenos ou Gada-
renos. Ali o poder do Inimigo mostra-se em todos os seus
horrores. Se o homem, para quem o Senhor tinha vindo em
graça, não O conhecia, os demónios conheciam o seu Juiz
na Pessoa do Filho de Deus. O homem estava possesso
deles. 0 temor que eles tinham do tormento aquando do
Juízo Final é aplicado no espírito do homem à presença
imediata do Senhor: «Vieste aqui atormentar-nos antes de
tempo?». Os demónios actuam nos homens pelo terror do
seu poder; não têm realmente nenhum, a não ser que sejam
temidos. Mas somente a fé pode tirar este medo ao homem.
Não falo da concupiscência mediante a qual eles actuam,
nem dos ardis do Inimigo, mas sim do seu poder. «Resisti
ao Diabo e ele fugirá de vós». Aqui, os demónios desejam
mostrar a realidade do seu poder, e o Senhor permite-o a
fim de tornar bem claro que neste mundo não é meramente
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 67
o homem que está em causa, quer seja bom ou mau, mas
sim o que é mais forte do que o homem. Os demónios en­
tram nos porcos e estes perecem nas águas. Triste reali­
dade, plenamente demonstrada! Não se tratava nem de sim­
ples enfermidade nem de concupiscência pecaminosa, mas
de demónios! Mas, graças a Deus, tratava-se também de
Alguém que, embora homem na Terra, era mais poderoso
do que eles. São obrigados a reconhecer esse poder e ape­
lam para ele. Não existe a ideia de resistência. Na tentação
do deserto Satanás fora vencido. Jesus liberta completa­
mente o homem a quem eles haviam oprimido com o seu
poder satânico. O poder dos demónios não era nada pe­
rante Ele. Podia ter libertado o mundo de todo o poder
do Inimigo, se essa fosse a única questão, e de todos os
males da Humanidade. O valente fora manietado e o Se­
nhor dispunha do despojo. Mas a presença de Deus, de
Jehovah, perturba o mundo mesmo mais do que o poder
do Inimigo que avilta e domina sobre a mente e o corpo.,
O poder do Inimigo sobre o coração — tão pacífico, tão
modesto e infelizmente tão pouco sentido — é mais pode­
roso do que a sua própria força. Este poder sucumbe ante
a Palavra de Jesus, mas a vontade do homem aceita o
mundo tal como ele é, governado pela influência de Sata­
nás. A cidade, que tinha visto a libertação do endemoni­
nhado e o poder de Jesus entre eles, pede-Lhe que se retire.
Triste história, a deste mundo! O Senhor veio com poder
para libertar o mundo — o homem—'de todo o poder do
Inimigo; mas o mundo não o quis. O homem estava moral­
mente afastado de Deus, e não apenas submetido à escra­
vidão do Inimigo. Submetera-se ao seu jugo, habituara-se a
ele, e não quis a presença de Deus.
Não duvido de que o que aconteceu aos porcos seja uma
figura do que aconteceu aos Judeus ímpios e profanos que
rejeitaram o Senhor Jesus. Nada mais impressionante do
que a maneira como a Pessoa divina, Emanuel, embora
homem em graça, é manifestado neste capítulo.
68
J. N. DARBY
CAPÍTULO 9
Enquanto o Senhor actua segundo o carácter e o poder
de Jehovah, como lemos no Salmo 103: «É Ele que perdoa
todas as tuas iniquidades, e sara todas as tuas enfermida­
des», é a graça actual para com Israel, e em que Ele véio,
que é apresentada. Este capítulo apresenta o carácter do
Seu ministério, assim como o antecedente mostra a digni­
dade da Sua Pessoa e o significado do que Ele era. O Se­
nhor apresenta-Se a Israel como seu verdadeiro Redentor
e Libertador; e, para demonstrar o Seu direito (ao qual a
incredulidade se opunha) de ser assim em bênção para
Israel e perdoar todas as suas iniquidades que levantavam
uma barreira entre ele e seu Deus, Jesus cumpre a segunda
parte do versículo e cura os enfermos (Salmo 103:3). Belo
e precioso testemunho de bondade para com Israel, e, ao
mesmo tempo, demonstração da Sua glória no meio do Seu
povo! No mesmo espírito com que havia perdoado e curado,
chama o publicano e entra em sua casa, porque Ele não
tinha vindo chamar os justos, mas sim os pecadores.
Resta-nos agora examinar uma outra porção do ensina­
mento deste Evangelho: O progresso da oposição dos incré­
dulos, principalmente dos doutores e dos religiosos, e tam­
bém da rejeição da obra e Pessoa do Senhor.
A ideia, o quadro do que teve lugar foi-nos já apresen­
tado no caso do endemoninhado gadareno — o poder de
Deus apresentado para completa libertação do Seu povo,
do mundo, se o recebessem — poder que os demónios con­
fessavam ser o mesmo que em breve os julgará e lançará
fora, que se manifestava em bênção para todos os Gada-
renos, mas que eles rejeitam, porque não* queriam um
tal poder entre eles. Não quiseram a presença de Deus.
Após isto começa o relato dos pormenores e do carácter
dessa rejeição. Note-se que o capítulo 8:1-27 nos mostra a
manifestação do poder do Senhor, poder que é verdadei­
ramente o de Jehovah sobre a Terra. Desde o verso 28 até
ao fim deste capítulo a aceitação desse poder pelo mundo
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 69
e a influência que ali reinava são-nos apresentadas, quer
em poder quer moralmente, nos corações dos homens.
Chegamos, pois, ao desenvolvimento histórico da rejei­
ção desta intervenção de Deus na Terra. A multidão glorifi­
cava a Deus que havia dado tal poder ao homem. Jesus
aceita esta posição. Ele era homem; a multidão via-O como
homem e reconhecia o poder de Deus, mas não sabia com­
binar as duas ideias na Pessoa de Jesus.
A graça, que rejeita as pretensões do homem à Justiça,
é agora posta em evidência.
Mateus, o portageiro, é chamado, porque Deus atenta
para o coração, e a graça chama os vasos de eleição. O Se­
nhor revela o pensamento de Deus a tal respeito, e a Sua
própria missão. Veio para chamar os pecadores; teria, por­
tanto, misericórdia. Era Deus agindo em graça, e não o
homem com a sua suposta justiça, contando com os seus
méritos (verso 13). O Senhor assinala (versos 14 e seguintes)
duas razões que tomam impossível reconciliar a Sua car­
reira com as exigências dos Fariseus. Como poderiam os
Seus discípulos jejuar, quando o Noivo estava presente?
Logo que o Messias tivesse partido, eles teriam ocasião
de o fazer. Aliás, é impossível introduzir os novos princí­
pios e a nova ordem da Sua missão nas antigas fórmulas
farisaicas. Vemos assim a graça para com os pecadores,
mas (sendo a graça rejeitada) vem agora uma prova mais
elevada de que o Messias, Jehovah, está ali, em graça.
Sendo solicitado para erguer uma menina do seu leito de
morte, Jesus aceita a petição. Quando Se desloca, uma
pobre mulher, que tinha já empregado todos os meios de
cura ao seu alcance sem qualquer resultado positivo, é ins­
tantaneamente curada, tocando com fé a orla do Seu ves­
tido.
Esta história oferece-nos dois importantes aspectos da
graça que era manifestada em Jesus. Cristo veio para des­
pertar Israel sucumbido. Ele fará isso mais tarde, no pleno
sentido da palavra. No entanto, todo aquele que se Lhe
apegava pela fé, no meio das multidões que O acompanha­
vam, era curado, por mais desesperado que fosse o seu
70 J. N. DARBY
estado. E este facto, que teve lugar em Israel quando Jesus
ali Se encontrava, é verdadeiro também a nosso respeito,
pelo menos em princípio. A graça em Jesus é poder que
cura e que ressuscita os mortos. Deste modo Ele abriu os
olhos daqueles que, em Israel, O aceitaram como sendo
o Filho de David, e creram no Seu poder para lhes valer
nas suas necessidades. Ele expulsava também os demónios
e restituía a fala aos mudos (versos 27 e seguintes). Ora
Jesus tendo operado esses actos de poder em Israel de
forma que o povo se maravilhava, os Fariseus, a seita mais
religiosa da nação, atribuem esse poder ao príncipe dos
demónios. Eis c efeito da presença do Senhor sobre os
chefes do povo, invejosos da Sua gíória assim manifestada
no meio daqueles sobre os quais eles exerciam a sua in­
fluência. Mas dsto de modo nenhum impede Jesus de pros­
seguir a carreira da Sua benéficência. Ele pode ainda dar
testemunho entre o povo. Não obstante a oposição dos Fari­
seus, a Sua paciente bondade ainda tem oportunidade de se
manifestar. Continua a pregar e a curar. Tem compaixão
do povo, que era como ovelhas sem pastor e moralmente
entregues a si próprias. Vê ainda que a seara é grande,
mas que os ceifeiros são poucos. Quer dizer, vê ainda todas
as portas abertas para falar ao povo — e passa por cima da
maldade dos Fariseus. Enquanto Deus Lhe dá acesso junto
do povo, o Senhor continua o Seu trabalho de amor.
Vejamos o resumo do que encontramos neste capítulo,
isto é, a graça manifestada em Israel. !Em primeiro lugar
a graça sarando e perdoando, de harmonia com o Salmo
103. Em seguida a graça vinda para chamar os pecadores,
e não os justos; o esposo estava ali, e a graça, em poder,
não podia ser posta nos odres Judaicos e Farisaicos. Era
algo de novo, até mesmo acerca de João Baptista. O Senhor
vem realmente para dar vida aos mortos, não para curar,
mas todo aquele que toca em Si pela fé — porque havia
quem o fizesse — era curado desse modo. Como Filho de
David, Ele abre os olhos aos cegos, para que vejam; e abre
a boca aos mudos, possessos dos demónios, para que falem.
Mas tudo isto é rejeitado com blasfémia pelos orgulhosos
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 71
Fariseus, que a si próprios se consideravam justos. Mas
a graça vê a multidão ainda como ovelhas sem pastor-,
e enquanto o porteiro mantém a porta aberta, Ele não
cessa de buscar e de socorrer as ovelhas.
CAPITULO 10
No entanto, embora não procurasse a Sua própria glória,
tinha consciência da iniquidade que governava o povo.
Depois de haver exortado os Seus discípulos a orarem para
que obreiros fossem enviados para a seara, Jesus começa a
actuar de conformidade com esse desejo. Chama os doze
discípulos, comunica-lhes o poder de expulsar os demónios
e de curar os enfermos, e envia-os às ovelhas perdidas da
Casa de Israel. Vemos, nesta missão, até que ponto os
desígnios de Deus a respeito de Israel formam o tema deste
Evangelho. Os discípulos deviam anunciar a esse povo, e
exclusivamente a ele, que o reino estava próximo, exercendo
ao mesmo tempo o poder que haviam recebido: notável
testemunho prestado Àquele que era vindo e que não só
podia operar milagres, mas também conferir poder aos
outros para fazerem o mesmo. 'Deu-lhes autoridade sobre
os espíritos imundos para esse fim. ’É isto o que caracte­
riza o reino: O homem curado de todo o mal, e o demónio
expulso. É por isso que os milagres são chamados em
Hebreus 6:5 «as virtudes do século futuro» 0 .
Os discípulos deviam depender também, quanto às coi­
sas necessárias para a sua manutenção, inteiramente de
Aquele que os enviava. Emanuel estava presente. Se os
milagres eram uma prova para o mundo do poder do seu
Mestre, o facto de nada lhes faltar devia sê-lo também para
os seus próprios corações. A ordenança foi anulada para
o período de tempo do seu ministério que se seguiu à par-
(J) Porque então Satanás será amarrado, e o homem libertado pelo
poder de Cristo. Havia então libertações parciais da mesma espécie.
72 J. N. DARBY
tida de Jesus deste mundo (ver Lucas 22:35-37). Aquilo que
Ele aqui (Mateus 10) ordena aos Seus discípulos diz res­
peito 'à Sua presença como Messias, como o próprio Jeho-
vah na Terra. Por isso a recepção dada aos Seus mensa­
geiros, ou a sua rejeição, decide a sorte daqueles a quem
eles eram enviados. Rejeitá-los era rejeitar o Senhor, Ema­
nuel Deus com o Seu povo (>). Com efeito, Jesus enviava
os Seus discípulos como ovelhas para o meio de lobos.
Necessitavam da prudência das serpentes e deviam mostrar
a simplicidade das pombas — raro conjunto de virtudes,
encontrado somente naqueles que, pelo Espírito do Senhor,
são sábios quanto ao bem e simples quanto ao mal.
Se não se acautelassem dos homens (triste testemunho
dado a respeito destes), teriam de sofrer; mas, quando
açoitados e levados à presença de concílios e de governa­
dores e reis, todas essas tribulações se tornariam um teste­
munho para eles, um meio divino de apresentar o Evan­
gelho do reino aos reis e aos príncipes, sem alterar o seu
carácter e sem o acomodar ao mundo ou confundir os dis­
cípulos de Jesus com os costumes e a falsa grandeza deste
mundo. De resto, tais circunstâncias tornariam o seu teste­
munho muito mais notável do que o teria conseguido a sua
ligação com os grandes da Terra. E para cumprirem esse
testemunho, o Senhor concederia aos Seus este poder e esta
direcção do Espírito de seu Pai que fariam com que as
palavras que eles pronunciavam não fossem as suas pró-
O O verso 15 estabelece uma divisão no discurso do Senhor. Até ali,
trata-se da missão daquele momento. A partir do verso 16 temos reflexões
mais gerais acerca da missão dos discípulos, vista no seu conjunto, no seio
de Israel. É evidente que isso vai.além da missão deles de então, e supõe
a vinda do Espírito Santo. A missão à qual a Igreja, como tal, é chamada,
é muito diferente. Isto aplica-se somente a Israel. Era-lhes proibido irem
para os Gentios; mas isso acabou necessariamente com a destruição de Jeru­
salém e a dispersão da nação judaica. Todavia, renovar-se-á no fim, até à
vinda do Filho do homem. Havia, só para os Gentios, um testemunho colo­
cado perante Israel como juiz. Tal era Paulo; e esta parte da sua história,
mesmo até Roma, no Livro de Actos, passava-se no seio dos Judeus. A última
parte, a partir do verso 16, tem menos a ver com o Evangelho do reino.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 73
prias palavras, mas as palavras de Quem os inspirava, como
vemos nos versos 19-20.
Aqui de novo a relação dos discípulos com o Pai, que
tão notavelmente caracteriza o sermão da montanha, forma
a base da sua capacidade para o serviço que tinham de
cumprir. Note-se que este testemunho era dirigido somente
a Israel; estando Israel sob o jugo dos Gentios desde Nabu-
codonosor, o testemunho teria de alcançar os seus chefes.
Ora esse testemunho devia suscitar uma oposição tal
que destruiria todos os laços de família e despertaria um
ódio tão encarniçado que não pouparia nem sequer a vida
dos entes mais queridos. Mas aquele que, apesar de tudo,
permanecesse até ao fim, esse seria salvo (versos 21-22).
Não obstante, o caso era urgente. Eles não deviam resistir,
mas, se a oposição tomasse a forma de perseguição, deviam
fugir e pregar o Evangelho noutros lugares, porque, antes
de terem percorrido todas as cidades de Israel o Filho do
homem estaria de volta ('). Eles deviam anunciar o reino.
Jehovah Emanuel estava ali, no meio do Seu povo, e os
chefes do povo tinham chamado ao senhor da casa Belzebu.
Isto não tinha impedido o testemunho de Jesus, mas acen­
tuava poderosamente as circunstâncias em que o testemu-
0) Note-se aqui a expressão «Filho do homem». É o carácter (segundo
Daniel 7) sob o qual o Senhor virá, com um poder e uma glória muito
maiores do que os da Sua manifestação como Messias, Filho de David, poder
e glória que se manifestarão numa esfera muito mais vasta. Como Filho
do homem, é o herdeiro de tudo o que Deus destina ao homem. (Ver
Hebreus 2:6-8 e l.ê Coríntios 15:27). Devia, por conseguinte, dada a condição
do homem, sofrer para possuir essa herança. Estava ali como Messias, mas
devia ser recebido no Seu verdadeiro carácter, como Emanuel, e os Judeus
deviam ser provocados moralmente. Não haverá o reino segundo um prin­
cípio carnal. Rejeitado como Messias, como Emanuel, adia o período desses
acontecimentos que encerrarão o ministério dos Seus discípulos para com
Israel até à Sua vinda como Filho do homem. Durante esse tempo Deus
manifestou outras coisas que tinham sido escondidas desde a fundação do
mundo: A verdadeira glória de Jesus, o Filho de Deus, a Sua glória celeste
como homem e a união da Igreja com Ele no Céu. O Julgamento de Jeru­
salém e a dispersão da nação suspenderam o ministério que tinha começado
no momento de que nos fala aqui o evangelista. Os acontecimentos que
74 J. N. DARBY
nho deveria ser prestado. O Senhor enviou os Seus discí­
pulos, advertindo-os deste estado de coisas, para manter
este derradeiro testemunho no meio do Seu amado povo
por tanto tempo quanto fosse possível. Estes factos tive­
ram lugar naquele tempo, e é possível, se as circunstâncias
o permitirem, que continue até que o Filho do homem
venha para executar o Juízo. Mas então o senhor da casa
se levantará para fechar a porta. O dia de hoje do Salmo 95
terá acabado para sempre.
Israel, habitando nas suas cidades, é o objectivo deste
testemunho, o qual é necessariamente suspenso quando ele
já não estiver na sua terra. O testemurfho do reino vin­
douro, dado em Israel pelos apóstolos, depois da morte
do Senhor, é o cumprimento desta missão, contanto que
este testemunho fosse dado na terra de Israel; porque
o reino podia ser anunciado como devendo ser estabelecido
enquanto Emanuel estava na Terra, ou então pelo regresso
de Cristo, vindo do Céu, conforme foi anunciado por iPedro
no capítulo 3 de Actos. E isto podia ter lugar se Israel esti­
vesse no seu país, mesmo até à vinda de Cristo. (Deste modo
o testemunho pode ser retomado em Israel, quando este
se encontrar de novo na sua terra e Deus der o poder espi­
ritual necessário para isso.
Entretanto os discípulos deviam participar da posição
do próprio Cristo. Se chamaram Belzebu ao dono da casa,
quanto mais aos seus domésticos (verso 25). Mas eles não
deviam temer. Essa era a parte inevitável dos que eram
por Deus no meio do povo. iPorém, nada havia encoberto
que não viesse a ser revelado. Eles próprios nada deviam
ocultar, devendo proclamar dos eirados tudo o que lhes
preencheram o intervalo de tempo a partir desse momento não são aqui o
tema do discurso do Senhor, porque Ele não se refere senão ao ministério,
tendo os Judeus por objecto. Quanto aos planos de Deus acerca da Igreja,
em relação com a glória de Jesus à direita de Deus, será assunto tratado
noutro lugar.
Lucas dá-nos com mais detalhes o que concerne ao Filho do homem.
Em Mateus, o Espírito Santo ocupa-nos com a rejeição de Emanuel.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 75
tinha sido ensinado; porque todas as coisas seriam trazidas
para a luz: a sua fidelidade a Deus a este respeito, assim
como todas as outras coisas. Isto, enquanto provocava a
conspiração dos seus inimigos, devia caracterizar o com­
portamento dos discípulos. Deus, que é Luz, e vê nas trevas
como na luz, traria tudo à luz, mas eles tinham de fazer
isso moralmente. Portanto, não deviam temer coisa alguma
enquanto desempenhassem esse serviço, a não ser a Deus,
o justo Juiz do último dia. Aliás, taté os próprios cabelos
das suas cabeças estavam contados. Eles eram mui pre­
ciosos para o Pai — Pai que até tomava conta da morte de
um passarinho! iNem isso podia acontecer sem o consenti­
mento d’Aquele que era o Pai deles.
Enfim, os discípulos deviam estar bem imbuídos da
convicção de que o Senhor não tinha vindo para trazer
paz à Terra; pelo contrário, seria a divisão, até mesmo no
seio das famílias. Mas Cristo devia ser mais precioso do
que pai ou mãe, e até mesmo que a própria vida. Quem
quisesse salvar a sua vida à custa do testemunho de Cristo,
perdê-la-ia; mas quem a perdesse por amor de Cristo, achá-
-la-ia. Todo aquele que recebesse este testemunho, receberia
também a Cristo e, em Cristo, Aquele que O tinha enviado.
Portanto, sendo Deus assim reconhecido na pessoa das Suas
testemunhas na Terra, concederia a todo aquele que os
recebesse um galardão' de acordo com o testemunho dado.
Reconhecendo deste modo o testemunho do Senhor rejei­
tado, ainda que fosse por meio de um simples copo de
água, aquele que o desse não perderia o seu galardão. Num
mundo de oposição, aquele que aceita o testemunho de
Deus e recebe (apesar do antagonismo do mundo) aquele
que dá esse testemunho, confessa realmente a Deus, bem
como o Seu servo. Isto é tudo o que podemos fazer. A re­
jeição de Cristo fez d’Ele o teste, a pedra de toque.
Desde esse momento encontramos o julgamento defini­
tivo da nação; não, porém, abertamente declarado (o que
tem lugar no capítulo 12), nem na cessação do ministério
de Cristo que actuava, apesar da oposição da nação, no
sentido de agrupar o Remanescente, e nem— o que é mais
76 J. N. DARBY
importante ainda—na manifestação de Emanuel; declara­
do, sim, no carácter dos Seus discursos, nas afirmações
positivas que descrevem o estado do povo, e no compor­
tamento do Senhor no meio das circunstâncias que Lhe
proporcionavam a ocasião de expressar quais eram as suas
relações com aquele povo.
CAPÍTULO 11
Tendo enviado os Seus discípulos para pregarem, o Se­
nhor continua no exercício do Seu próprio ministério. A no­
tícia das' obras de Cristo chega a João, no cárcere. E este,
em cujo coração, não obstante o seu dom profético, ainda
resta qualquer coisa dos pensamentos e esperanças judai­
cas, manda perguntar a Jesus, por intermédio dos seus dis­
cípulos, se é Ele Aquele que estava para vir, ou se deviam
ainda esperar outro 0). 'Deus permitiu esta pergunta a fim
de pôr tudo no seu lugar. Cristo, sendo a Palavra de Deus,
deveria ser a Sua própria testemunha. Deveria dar teste­
munho de Si próprio e também a João, e não receber teste­
munho deste — e foi isso mesmo o que Ele fez na presença
dos discípulos de João. Curava todas as enfermidades e
pregava o Evangelho aos pobres; e os mensageiros de João
deviam dar perante ele este verdadeiro testemunho do que
Jesus era. João devia aceitar este testemunho. Era por meio
destas coisas que o homem era posto à prova. Bem-aventu-
rado seria todo aquele que se não escandalizasse com o
aspecto humilde do Rei de Israel. Deus manifestado em
carne não vinha para buscar a pompa da realeza, embora
de direito Lhe pertencesse, mas sim a libertação dos que
sofriam. A Sua obra revelava um carácter bem mais pro­
fundamente divino, tinha um princípio de acção muito mais
glorioso do que aquele que dependia da posse do trono de
C) A sua mensagem a Jesus demonstra uma plena confiança na palavra
do Senhor como profeta, mas total ignorância quanto à Sua Pessoa; e é isso
o que sobressai aqui, com grande evidência.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 77
David— do que o poder que teria posto João em liberdade,
e posto fim à tirania que o tinha encarcerado.
Empreender este ministério, descer à cena onde era
exercido, levar as dores e o fardo do Seu povo, podia ser
uma pedra de tropeço para um coração carnal que aguar­
dava o aparecimento de um reino glorioso para satisfação
do orgulho de Israel. Mas não estaria isto assim mais de
harmonia com o pensamento divino, não seria mais neces­
sário para o estado espiritual do povo tal como Deus o via?
Os corações de todos seriam assim postos à prova, para
mostrarem se pertenciam ao Remanescente contricto, que
discernia os caminhos de Deus, ou à multidão, que somente
buscava a sua glória, não possuindo uma consciência exer­
citada perante Deus, nem o sentimento da sua própria ne­
cessidade e miséria.
Tendo colocado João sob a responsabilidade de receber
o testemunho que punha todo> o Israel à prova, e, da nação
em geral, distinguia o Remanescente, o Senhor dá teste­
munho de João, dirigindo-Se à multidão e recordando-lhe
como ela tinha seguido a pregação de João. Mostra-lhe o
ponto exacto a que Israel tinha chegado nos caminhos de
Deus. A introdução, em testemunho, do reino estabelecia
a diferença entre o passado e o futuro. Entre os nascidos
de mulher não tinha havido ninguém maior do que João
Baptista, ninguém que tivesse estado tão perto de Jehovah,
enviado ante a Sua face, ninguém que Lhe tivesse prestado
um testemunho mais exacto e completo, que tivesse estado
tão separado de todo o mal pelo poder do Espírito de Deus
— a separação própria ao cumprimento de uma tal missão
entre o povo de Deus. Todavia, ele não tinha estado no
reino. O reino não estava ainda estabelecido; e estar na
presença de Cristo no Seu reino, gozando o resultado da
Sua glória (*), era algo de maior que todo o testemunho
do reino vindouro.
O Não é o estabelecimento da Igreja de Deus; mas sendo estabelecidos
os direitos do Rei, tal como se manifestam na glória, sendo postas as bases
desse reino, os Cristãos estão no reino, embora de maneira muito particular
78 J. N. DARBY
Todavia, desde o tempo de João Baptista houve uma
mudança notável. Desde então o reino era anunciado. Não
fora estabelecido, mas era anunciado. Era uma coisa muito
diferente das profecias que falavam do reino para um tem­
po ainda distante, ao mesmo tempo que se convidava o
povo a ouvir a lei dada por Moisés. João Baptista foi ante
a face do Rei anunciando que o reino estava próximo, e
mandando aos Judeus que se arrependessem a fim de pode­
rem entrar nele. Deste modo a lei e os profetas falaram da
parte de Deus até João. A lei era a regra; os profetas, man­
tendo a regra, fortaleciam as esperanças e a fé do Rema­
nescente. De facto, a energia do Espírito impelia os homens
a forçarem o seu caminho através de todas as dificuldades
e de toda a oposição dos condutores da nação e de um povo
cego, para que, de qualquer modo, pudessem alcançar o
reino de um Rei rejeitado pela cega incredulidade daqueles
que deveriam tê-Lo recebido. Visto o Rei ter vindo em humi­
lhação e ter sido rejeitado, era necessária essa violência
para entrar no reino. A porta estreita era a única entrada.
Se a fé pudesse realmente, a este respeito, penetrar nos
pensamentos de Deus, João era o Elias que havia de vir.
Quem tinha ouvidos para ouvir, que ouvisse. A entrada era,
de facto, só para estes.
Se o reino tivesse aparecido na glória e poder do seu
Chefe, a violência não teria sido necessária; teria sido pos­
suído como o efeito certo desse poder. Mas era da vontade
de Deus que eles fossem moralmente postos à prova. Era
ainda assim que eles deviam receber Elias de uma maneira
espiritual.
O resultado desta prova é-nos dado logo a seguir, nas
palavras do Senhor (versos 16 e seguintes), isto é, o verda­
deiro carácter desta geraçãò e os caminhos de Deus em
conexão como a Pessoa de Jesus, manifestados pela Sua
rejeição. Como geração, tinham perdido tanto os avisos da
e excepcional, porque eles estão no reino com Jesus Cristo, glorificado, mas
oculto em Deus. Partilham da sorte do Rei, e partilharão da Sua glória
quando Ele reinar.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 79
Justiça como os atractivos da graça. Os filhos da sabedo­
ria, aqueles cujas consciências eram esclarecidas por Deus,
reconheciam a verdade do testemunho de João contra si
próprios e a graça dos caminhos de Jesus, tão> necessária
aos culpados.
João, separado da iniquidade da nação, tinha, aos olhos
deles, um demónio. Jesus, bondoso para com os mais mise­
ráveis, era acusado de contemporizar com o mal. No en­
tanto a evidência era bastante forte para ter convencido
o coração de cidades como Tiro ou Sodoma; e a justa
admoestação do Senhor adverte a nação incrédula e per­
versa de um julgamento mais terrível do que aquele que
esperava o orgulho de Tiro e a corrupção de Sodoma.
Mas tudo isto era um teste para os mais favorecidos
da humanidade. Poderia perguntar-se porque não foi a men­
sagem enviada a Tiro, pronto a escutar? Ou a Sodoma, para
que ela escapasse ao fogo que a consumiu? É porque o
homem tem de ser experimentado de todos os modos; para
que os perfeitos desígnios de Deus possam ser manifesta­
dos. Se Tiro e Sodoma tinham abusado das vantagens de
que um Deus criador e de providência os tinha cumulado,
os Judeus deviam manifestar o que havia no coração do
homem, uma vez de posse de todas as promessas, e feitos
depositários de todos os oráculos de Deus. Mas eles van­
gloriavam-se do dom, e afastaram-se do Dador. O seu cego
coração não reconheceu e até rejeitou o seu Deus. O Senhor
sentiu o desprezo do' Seu povo amado; mas, como único
homem obediente na Terra, submeteu-Se à vontade de Seu
Pai que, agindo em soberania, como Senhor dos céus e da
Terra, manifestava, no exercício desta soberania, a Sua
divina sabedoria e a perfeição do Seu carácter (versos 25
e seguintes). Jesus aceita a vontade de Seu Pai nos seus
efeitos, e, assim sujeito, vê a sua perfeição. Convinha que
Deus revelasse aos humildes todos os dons da Sua graça
em Jesus, Emanuel sobre a Terra, e os ocultasse ao orgulho
que procurava esquadrinhá-los e julgá-los. Mas isto abre
a porta à glória dos desígnios de Deus. O facto é que a
Pessoa do Senhor era por demais gloriosa para ser sondada
80 J. N. DARBY
ou compreendida pelo homem, embora as Suas palavras
e as Suas obras deixassem a nação sem desculpa no tocante
à sua recusa de vir a Ele para conhecer o Pai. Jesus, obe­
diente à vontade de Seu Pai, embora plenamente cônscio
de tudo quanto era penoso para o Seu coração em seus
efeitos, vê toda a extensão da glória que seguiria a Sua
rejeição.
Todas as coisas Lhe foram entregues por Seu Pai. É o
Filho que é revelado à nossa fé, sendo desviado o véu que
cobria a Sua glória, agora que Ele é rejeitado como Mes­
sias. Ninguém O conhece senão o Pai. Quem de entre aque­
les orgulhosos podia sondar o que Ele era? Aquele que
desde toda a eternidade era um com o Pai, e que Se tinha
feito homem, ultrapassava, no profundo mistério do Seu
ser, todo o conhecimento, excepto o do próprio Pai. A im­
possibilidade de conhecer Aquele que Se aniquilou a Si
mesmo para Se tornar homem, mantinha a certeza, a reali­
dade da Sua divindade, que esta renúncia de Si próprio
poderia ter ocultado dos olhos da incredulidade. A incom-
preensibilidade de um ser, numa forma definida, revelava
o infinito que se encontrava n’Ele. A Sua divindade era
garantida pela fé contra o efeito da Sua humanidade sobre
o espírito do homem.
Ora, se ninguém conhecia o Filho senão o Pai, o Filho,
que é verdadeiro Deus, era capaz de revelar o Pai. «Deus
nunca foi visto por alguém; o Filho unigénito, que está no
seio do 'Pai, esse o fez conhecer» (João 1:18). Ninguém
conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho O
quiser revelar. Miserável ignorância, que no seu orgulho O
rejeita! Foi assim, segundo o bom prazer do Filhó, que esta
revelação foi feita. Atributo característico da perfeição di­
vina! Ele tinha vindo para revelar o 'Pai e fizera-o segundo
a Sua própria sabedoria. Tal era a verdade das relações
do homem com o Filho, não obstante Se haver submetido
à dolorosa humilhação de ser rejeitado pelo Seu povo, como
último teste do seu estado, do estado do homem.
Note-se também que este princípio, esta verdade acerca
de Cristo, abre a porta aos Gentios, a todos os que forem
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 81
chamados. Ele revela o Pai a quem quer. Busca sempre
a glória do Pai. Somente Ele O pode revelar — lEle, a Quem
o Pai, Senhor dos céus e da Terra, entregou todas as coisas.
Os Gentios são incluídos nos direitos conferidos por este
título, até mesmo todas as famílias nos céus e na Terra.
Cristo exerce esses direitos em graça, chamando quem Ele
quer ao conhecimento do Pai.
Encontramos, pois, aqui a geração perversa e incrédula;
encontramos um Remanescente da nação justificando a
sabedoria de Deus manifestada em João e em Jesus, em
julgamento e em graça; encontramos a sentença do julga­
mento dos incrédulos, a rejeição de Jesus no carácter em
que Ele Se havia apresentado à nação, e a Sua perfeita
submissão, como homem, à vontade do Pai nessa rejeição,
dando ocasião> para a manifestação à Sua alma da glória
que Lhe é própria como Filho de Deus—glória que nin­
guém podia conhecer, do mesmo modo como somente Ele
podia revelar a glória do Pai. De sorte que o mundo, que
recusava recebê-(Lo, se encontrava em completa ignorância,
excepto o Filho que, segundo o Seu bom prazer, queria reve­
lar-lhes o Pai.
Vemos também aqui que a missão dos discípulos em
Israel, que rejeitava a Cristo, continua (se Israel continuar
a habitar no seu país) até à vinda de Cristo como Filho do
homem, Seu título de julgamento e de glória, como herdeiro
de todas as coisas (quer dizer, até ao julgamento mediante
o qual Ele toma posse da terra de Canaan, num poder tal
que não deixa lugar para os Seus inimigos). É este título,
como herdeiro de todas as coisas, que é mencionado em
João 5; Daniel 7 e Salmos 8 e 80.
Note-se também que, no capítulo 11, a perversidade da
nação que tinha rejeitado o testemunho de João e o do
Filho do homem, vindo em graça e associandoJSe em bon­
dade com os Judeus, abre a porta ao testemunho da glória
do Filho de Deus, e à revelação do Pai por Ele em graça
soberana — graça que podia torná-Lo conhecido de maneira
eficaz tanto a um pobre Gentio como a um Judeu. Já não
se tratava da responsabilidade de receber Aquele que era
6
82 J. N. DARBY
enviado, mas da graça soberana que comunicava a quem
ela queria. Jesus conhecia o homem, o mundo, a geração
que tinha desfrutado das maiores vantagens possíveis. Não
havia lugar para pôr o pé no lamacento atoleiro daquilo
que se tinha afastado de Deus. No meio de um mundo de
mal, Jesus permanecia como sendo o único que podia reve­
lar o Pai, a origem de todo o bem. E quem são os que Ele
chama? O que é que Ele concede aos que vêm a Si? Ünica
fonte de bênção e o único que revela o Pai, convida todos
os que estão cansados e oprimidos. Talvez não conheces­
sem a origem de toda a miséria, ou seja, a separação de
Deus, o pecado. Mas Jesus conhecia-a, e somente Ele podia
curá-los. Se era a consciência do pecado que pesava sobre
eles, tanto melhor. De qualquer modo, o mundo já não
satisfazia os seus corações; eram miseráveis e, por conse­
guinte, os objectos do coração de Jesus. Além disso, Jesus
lhes daria descanso. Não explica aqui como o fará; anuncia
somente o facto. O amor do Pai que, em graça, na Pessoa
do Filho, buscava os miseráveis, daria descanso (não mera­
mente alívio ou simpatia, mas descanso!) a todo aquele que
viesse a Jesus. Era a perfeita revelação do Nome do Pai ao
coração daqueles que dela necessitavam, e isto pelo Filho —
era a paz, a paz com Deus. Bastava vir a Cristo: Ele se
encarregava de tudo e dava descanso. Mas há no descanso
um segundo elemento. Há algo mais do que a paz no conhe­
cimento do Pai em Jesus. E mais do que isso é também
necessário; porque mesmo quando a alma se encontra per­
feitamente em paz com Deus, este mundo apresenta ao
coração muitas causas de perturbação. Em tal caso, trata-se
da submissão, ou da vontade própria. Cristo, com o conhe­
cimento da Sua rejeição, sentindo a profunda dor causada
pela incredulidade das cidades em que tinha operado tantos
milagres, havia manifestado a mais completa submissão ao
(Pai, e havia achado nisso perfeito descanso para a Sua
alma. A esse mesmo descanso Jesus convida todos os que
O ouvem, a todos os que sentem essa necessidade de des­
canso para as suas almas. «Tomai sobre vós o meu jugo
e aprendei de mim», quer dizer, o jugo de inteira submis-
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 83
são à vontade do Pai, aprendendo com Ele a enfrentar as
dificuldades da vida; porque Ele era «manso e humilde de
coração», sempre contente de estar no lugar mais humilde
segundo a vontade de Deus. De facto, nada pode perturbar
aquele que ali se encontra. É o lugar do perfeito descanso
para o coração.
CAPITULO 12
Por fim, a rejeição da nação, como consequência do seu
desprezo pelo Senhor, é claramente manifestada, do mesmo
modo que o fim de todas as Suas relações com o povo como
nação, para dar lugar ao estabelecimento, da parte de Deus,
de um sistema inteiramente diferente, quer dizer, o reino
sob uma forma muito especial.
Assim, o capítulo 11 é o grande eixo de toda a história.
Cristo é uma testemunha divina de Si mesmo, e João Bap­
tista devia reconhecê-Lo assim, como outro o tivesse feito.
Já não era Aquele de Quem era dado testemunho como Mes­
sias, mas o Filho de Deus, que dá testemunho de João. Mas
a nação tinha rejeitado a Deus, manifestado tanto em avisos
como em graça; apenas havia um Remanescente. A sabe­
doria era justificada pelos seus filhos. Então, por muito
abominável que fosse a Sua rejeição, vêmo-Lo submeter-Se
a ela, como sendo a vontade do Pai; mas isso leva-0 à cons­
ciência da Sua glória pessoal, verdadeiro motivo dessa re­
jeição. Todas as coisas Lhe foram entregues por Seu Pai.
Ninguém podia conhecê-tLo, nem conhecer o Pai, a não ser
que Ele O revelasse. O mundo inteiro, posto à prova pela
perfeição do Senhor, foi achado jazendo na maldade (em­
bora ali houvesse um Remanescente poupado); o homem
estava universalmente afastado de Deus. Deus olhou desde
os céus para ver, como lemos, mas os filhos dos homens
tinham-se todos afastado do caminho; não havia justo, nem
sequer um. Assim Jesus, quando andava sobre o mar, es­
tava só num mundo condenado, condenado por causa da
Sua rejeição; mas agora, na soberana graça do Pai, é o
84
J. N. DARBY
Filho revelando o Pai, e chamando os cansados e oprimidos
para a revelação desta graça em Si mesmo. É agora a nova
posição. Ele tinha posto o homem à prova. O que Ele era
em Si mesmo impedia o homem de O receber. Ora, aqueles
que estavam cansados deviam vir Àquele que permanecia
assim só, e Ele lhes daria descanso. Deviam aprender com
Aquele que assim Se tinha submetido inteiramente; teriam
descanso quanto ao mundo e a tudo mais na Terra. E assim
é também connosco. Quando nos curvamos inteiramente, en­
tramos como rejeitados, de maneira consciente, na posse
dos nossos privilégios sobre um terreno celeste mais ele­
vado.
O primeiro motivo que deu lugar à questão da Sua Pes­
soa e ao Seu direito de terminar aquela disperisação foi
o facto de os discípulos colherem as espigas e as debulha­
rem à mão para saciarem a fome. Os Fariseus repreen­
diam-nos, porque era em dia de sábado. Jesus lembra-lhes
que o rei, rejeitado pela maldade de Saul, havia participado
do pão que só era concedido aos sacerdotes. O Filho de
David, num caso semelhante, podia muito bem desfrutar
de um privilégio análogo. Além disso Deus estava actuando
em graça. Os sacerdotes também profanavam o sábado no
serviço do templo; e ali estava Quem era maior do que o
templo (versos 5-6). Aliás, se eles tivessem verdadeiramente
conhecido os pensamentos de Deus, se tivessem sido im­
buídos do espírito que a Sua Palavra declarava ser-Lhe
agradável: «Misericórdia quero, e não sacrifício», não teriam
condenado a inocentes. De resto, o Filho do homem é Se­
nhor do sábado.
Aqui Jesus já não toma o título de Messias, mas o de
Filho do homem — um Nome que dava testemunho da nova
ordem de coisas e de um poder mais extenso. Ora, o que
o Senhor dizia tinha um grande alcance, porque o sábado
era o sinal da aliança entre Jehovah e a nação judaica
(Ezequiel 20:12-20), e o Filho do homem declarava o Seu
poder sobre ele. Se o sábado era tocado, era o fim da
aliança.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 85
A mesma questão é levantada na sinagoga; e o Senhor
persiste em agir em graça, e em fazer bem, mostrando-lhes
que eles fariam a mesma coisa por uma das suas ovelhas.
Mas isto, por grande que fosse a prova do foeneficiente
poder de Jesus, não fez senão excitar o ódio deles. Eram
filhos do assassino. Jesus retira-Se do meio deles, e grandes
multidões O seguem. Jesus cura-as, recomendando-lhes que
O não descobrissem. No entanto, em tudo isto, as suas
acções não eram senão o cumprimento de uma profecia que
designa claramente a posição do Senhor nesse momento
(versos 17 e seguintes). A hora viria em que Ele faria mani­
festar o julgamento em vitória. Entretanto, Ele guardava
uma posição de perfeita humildade em que a graça e a
verdade podiam fazer-se valer para aqueles que as apre­
ciavam e delas tinham necessidade. Mas, no exercício desta
graça e no Seu testemunho da verdade, Ele nada faria para
deturpar este carácter ou para atrair a atenção dos homens
tanto que impedisse a Sua verdadeira obra, ou que pudesse
sequer suspeitar-se de que Ele buscava a Sua própria
glória. No entanto o Espírito de Deus estava sobre Ele como
sendo o Seu Filho bem-amado, em Quem a Sua alma se
deleitava; anunciaria o Juízo aos Gentios, e os Gentios con­
fiariam no Seu Nome.
A aplicação desta profecia a Jesus, neste momento, é de
toda a evidência. Vemos como Ele Se mantinha reservado
com os Judeus, abstendo-Se de satisfazer os desejos car­
nais deles, e contentando-Se de permanecer na sombra,
contanto que Deus, Seu Pai, fosse glorificado. Ele próprio
glorificava perfeitamente o Seu Pai na Terra, fazendo o
bem. Em breve devia ser anunciado aos Gentios, quer por
meio do Juízo de Deus, quer apresentando-Se-lhes como
sendo o objecto da sua confiança (versos 17-21).
Esta passagem de Isaías 42 é evidentemente posta aqui
pelo Espírito Santo para desenhar claramente a posição do
Senhor, antes de se abrirem as novas cenas que a Sua
rejeição nos prepara.
Então o Senhor expulsa um demónio de um homem cego
e mudo (versos 22 e seguintes) — triste condição, descre­
86 J. N. DARBY
vendo verdadeiramente o estado de espírito do povo acerca
de Deus. As multidões, plenas de admiração, exclamam:
«Não é este o Filho de David?» Mas os religiosos de entre
elas, ouvindo isto, invejosos do Senhor e hostis ao teste­
munho de Deus, declaram que é pelo poder de Belzebu
que Jesus faz esse milagre, selando assim o seu próprio
estado e colocando-se sob o Juízo definitivo de Deus. Jesus
demonstra o absurdo da acusação. Satanás não destruiria
o seu próprio reino. Os seus próprios filhos, que tinham
a pretensão de fazerem a mesma coisa, julgariam a iniqui­
dade deles. Mas, se não era pelo poder de Satanás (e os
Fariseus admitiam que os demónios tinham sido realmente
expulsos), era o dedo de Deus, e o reino de Deus estava
entre eles.
Aquele que tinha entrado em casa do homem forte para
pilhar os seus bens, teve de o manietar antes (verso 29).
A verdade é que a presença de Jesus punha tudo à prova;
tudo, da parte de Deus, se concentrava n'Ele. Era o próprio
Emanuel que estava ali! Todo aquele que não era por Ele,
era contra Ele. Quem com Ele não ajuntava, espalhava.
Tudo agora dependia somente d’Ele. Suportaria toda a
incredulidade acerca da Sua Pessoa. A graça podia remo­
vê-la, Jesus podia perdoar todo o pecado; mas falar e blas­
femar contra o Espírito Santo (quer dizer, reconhecer o
exercício de um poder, que é o poder de Deus, e atribuí-lo
a Satanás) nâo poderia ser perdoado; porque os Fariseus
reconheciam que o demónio havia sido expulso, e era so­
mente por maldade, por deliberado ódio a Deus que atri­
buíam o feito a Satanás. E que perdão podia haver para
esta blasfémia? Não havia nenhum nem na dispensação
da lei 0), nem na do Messias. A sorte daqueles que assim
0) Note-se esta expressão. Vemos a maneira como o Espírito Santo
passa do tempo presente (então presente para os Judeus, e que em breve
devia acabar) para aquele em que o Messias estabeleceria o Seu reino, o
«mundo futuro» ou «século futuro». Nós temos uma posição fora de tudo
isso, durante a suspensão do estabelecimento público do reino. Os apóstolos
apenas o pregaram ou anunciaram; não o estabeleceram. Os seus milagres
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 87
blasfemavam estava decidida. É o que o Senhor lhes faz
compreender. O fruto era a prova da natureza da árvore;
e o fruto era essencialmente mau. Eram uma raça de víbo­
ras. João tinha-lhes dito a mesma coisa. As suas próprias
palavras os condenavam (versos 31-37). Neste comenos os
escribas e os fariseus pedem um sinal (versos 38 e seguin­
tes). Isto era maldade. Eles tinham visto bastantes mila­
gres. Não se tratava senão de provocar a incredulidade dos
outros.
Este pedido dá ocasião ao Senhor para pronunciar o
Julgamento desta geração. Não haveria outro sinal para
esta geração perversa senão o do profeta Jonas. Como Jo-
nas esteve três dias e três noites no ventre do grande peixe,
assim estaria o Filho do homem três dias e três noites no
seio da terra. Mas, ai! Cristo já então tinha sido rejeitado.
No dia do Juízo, os Ninivitas condenarão esta geração
pelo seu comportamento, porque eles se tinham arrepen­
dido com a pregação de Jonas; e um maior do que Jonas
ali estava. A rainha do sul de igual modo testificaria contra
a maldade desta geração perversa. 0 seu coração, atraído
pela fama da sabedoria de Salomão, tinha-a conduzido a ele
desde os confins da terra; e ali estava um maior do que
Salomão! Os pobres e ignorantes Gentios compreendiam
a sabedoria de Deus na Sua Palavra, quer por intermédio
dos profetas, quer por intermédio do rei, melhor do que o
Seu povo amado, mesmo quando o Grande Rei e Profeta
estivesse lá, no meio dele.
E eis o Julgamento de Deus: o espírito imundo (de ido­
latria) que havia saído do povo, não achando repouso fora
de Israel (Israel, infelizmente, a sua verdadeira casa, en­
quanto que ela deveria ter sido a casa de Deus), voltaria
com sete espíritos piores do que ele. Encontrariam a casa
desocupada, varrida e adornada; e o último estado seria
foram «as virtudes do século futuro» (comparar 1.5 Pedro 1:11-13). Isto é
de grande importância, como veremos em breve. O mesmo se dá com a
Nova Aliança, de que Paulo era o ministro; e no entanto não a estabeleceu
nem com Judá nem com Israel.
88 J. N. DARBY
pior do que o primeiro (verso 45). Que solene julgamento
do povo este! Aqueles no meio dos quais Jehovah tinha
andado tornaram-se a habitação de um espírito imundo —
duma superabundância de espíritos imundos; não apenas
sete (o número completo), mas com estes, que os incita­
riam à loucura contra Deus e contra aqueles que honravam
a Deus, conduzindo-os assim à sua própria destruição, com
estes, dizia eu, c outro espírito imundo também, o qual os
traria de novo à maldita idolatria de que haviam escapado!
O Julgamento de Israel estava pronunciado.
Jesus rompe enfim publicamente os laços que subsis­
tiam entre Si e o povo, segundo a carne (versos 46-50),
não aceitando como Seus senão aqueles que eram forma­
dos pela Palavra de Deus, e manifestados pelo cumprimento
da vontade de Seu Pai, que estava nos céus. Não reconhe­
cia como Seus senão aqueles que eram formados segundo
o padrão do sermão da montanha.
CAPITULO 13
Os Seus actos e as Suas palavras, a partir deste mo­
mento, prestam testemunho da nova obra que Ele estava
realmente fazesndo sobre a Terra. Deixa (capítulo 13) a casa
e senta-Se junto do lago. Toma uma nova posição fora de
Israel para anunciar à multidão o>que era verdadeiramente
a Sua obra. Um semeador saiu para semear.
O Senhor já não procura fruto na Sua vinha. Tinha sido
necessário, segundo as relações de Deus com Israel, que
o Senhor procurasse esse fruto; mas o Seu verdadeiro ser­
viço, Ele bem o sabia, era, não encontrar fruto entre os
homens, mas trazer ao homem o que podia produzir fruto.
É importante notar aqui que o Senhor fala do efeito
visível e exterior do Seu trabalho de Semeador. A única
ocasião em que Ele exprime o Seu Juízo quanto à causa
interior do resultado, é quando diz: «Eles não tinham
raiz»; e até mesmo aqui Ele se limita a enunciar o facto.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 89
As doutrinas relativas à operação divina necessária para
produzir fruto não são tratadas aqui. É o Semeador que
é posto em destaque, assim como o resultado da Sua se­
menteira, e não o que faz germinar a semente na terra.
Em cada um dos casos, excepto no primeiro, é produzido
um certo efeito.
Portanto, o Senhor é-nos apresentado aqui como come­
çando uma obra independente de toda a relação precedente
de Deus com os homens, trazendo com Ele a semente da
Palavra que semeia no coração por meio do Seu ministério.
Onde ela é compreendida, onde permanece, onde não é
pisada nem secada, produz frutos para a glória do Senhor
e para felicidade e proveito de todo aquele que a guarda
em seu coração.
No verso 11 o Senhor expõe a razão por que fala de
modo enigmático à multidão. A distinção é agora definiti­
vamente estabelecida entre o Remanescente e a nação. Esta
estava sob o julgamento da cegueira pronunciado pelo pro­
feta Isaías. Bem-aventurados eram os olhos dos discípulos
porque viam o Emanuel, o Messias, o objecto das esperan­
ças e dos desejos de tantos profetas e homens justos! Tudo
isto mostra o Julgamento, e um Remanescente chamado
e separado (>).
Acrescentarei aqui algumas observações acerca do carác­
ter das pessoas de quem o Senhor fala na parábola. Quando
a Palavra é semeada num coração que a não compreende,
quando ela não produz nenhuma relação de inteligência,
de sentimento ou de consciência entre o coração e Deus,
o Inimigo deita-a fora; ela não permanece no coração.
Aquele que a ouve não é menos culpado. A semente lançada
no coração era adequada a todas as necessidades, à natu­
reza e ao estado espiritual do homem.
A recepção imediata da Palavra com alegria, no caso
seguinte, tende antes a demonstrar que o coração não a
0) Comparar Marcos 4:33-34. Isto aplicava-se a todos, se tinham tido
ouvidos para ouvir, mas havia trevas para os homens de vontade própria.
90 J. N. DARBY
guardará, porque, nesse caso, é pouco provável que a cons­
ciência seja atingida. Uma consciência atingida pela Palavra
de Deus torna o homem circunspecto; vê-se a si mesmo na
presença de Deus, o que é sempre uma coisa muito séria,
qualquer que seja o atractivo da Sua graça ou a esperança
que inspira a Sua bondade. Se a consciência não foi atin­
gida, não existe raiz. A Palavra foi recebida pela alegria
que ela comunicava; mas quando traz tribulação, é aban­
donada. Quando a consciência tem sido já exercitada, o
Evangelho produz imediatamente alegria; mas quando as­
sim não é, desperta a consciência, se existe verdadeira obra
por ele operada. No primeiro caso, ele responde às neces­
sidades já existentes, satisfazendo-as. No segundo caso, cria
essas necessidades. Mas, ai!... A experiência diária é a triste
e melhor explicação da terceira classe! Não há má vontade,
há esterilidade.
A verdadeira compreensão da Palavra não é afirmada
senão por aqueles que produzem fruto. O verdadeiro enten­
dimento da Palavra põe uma alma em relação com Deus,
porque a Palavra revela Deus — exprime o que Ele é. Se
a compreendo, conheço-O; e o verdadeiro conhecimento de
Deus (quer dizer, do Pai e de Seu Filho Jesus Cristo) é a
vida eterna. Ora, qualquer que seja o grau de luz, é sempre
Deus assim revelado, cuja iPalavra, semeada por Jesus, dá
o conhecimento. Assim, gerados pdla Palavra, nós produzi­
remos neste mundo, em diversas medidas, os frutos da vida
de Deus. Porque o assunto de que se trata aqui é o efeito,
neste mundo, da aceitação da verdade trazida por Jesus
(não o Céu, nem o que Deus faz no coração para que a se­
mente produza fruto).
Esta parábola não fala, como analogia, do reino, embora
a Palavra semeada fosse a do reino, mas do grande prin­
cípio elementar do serviço de Cristo na universalidade da
sua aplicação; e foi realizado na Sua Pessoa e no Seu ser­
viço, quando Ele estava sobre a Terra, e após a Sua par­
tida, embora mais amplos tópicos de graça pudessem ser
então produzidos.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 91
Nas seis parábolas seguintes encontramos semelhanças
do reino; e temos de nos lembrar que este reino é estabe­
lecido durante a rejeição do Rei ([); tem, por conseguinte,
um carácter particular, quer dizer que é caracterizado pela
ausência do Rei. Aliás, na explicação da primeira parábola,
encontramos qual é o efeito do Seu regresso.
As três primeiras destas seis parábolas apresentam-nos
o reino nas suas formas exteriores no mundo. São dirigidas
à multidão. As três últimas apresentam o reino segundo a
avaliação que dele faz o Espírito Santo, segundo a verdade
do carácter deste reino, como é visto por Deus — o pensa­
mento e os desígnios de Deus nesse carácter. Por isso elas
são dirigidas somente aos discípulos. O estabelecimento
público do reino segundo a justiça e o poder de Deus é tam­
bém anunciado aos discípulos na explicação da parábola
do joio.
Consideremos primeiramente a forma exterior que devia
tomar este reino, publicamente anunciado à multidão. Lem­
bremo-nos de que o Rei, isto é, o Senhor Jesus, estava rejei­
tado na Terra; que os Judeus se tinham condenado a si
próprios, rejeitando-O; que, sendo a Palavra de Deus em­
pregada para cumprir a obra d’Aquele que o Pai tinha en­
viado, o Senhor fazia assim saber que estabelecia o reino
não pelo Seu poder, exercido em Justiça e em Juízo, mas
dando testemunho aos corações dos homens; e que o reino
assumia agora um carácter ligado com a responsabilidade
do homem e com o efeito que se produzia quando a Palavra
de luz era lançada na Terra, dirigida aos corações dós ho­
mens e confiada como sistema de verdade à sua fidelidade
e aos seus cuidados (mantendo, todavia, Deus o Seu direito
soberano de preservação dos Seus filhos e da verdade em
si mesmo). Esta última parte não constitui o tema destas
(*) Note-se aqui que, tendo o capítulo 12 colocado perante nós o julga­
mento do povo judeu, temos agora o reino tal como ele é durante a ausência
do Rei. No capítulo 16 temos a Igreja edificada por Cristo, e no capítulo 17
temos o reino em glória.
92 J. N. DARBY
palavras. Mencionei-o aqui porque, de outro modo, poderia
supor-se que tudo dependia absolutamente do homem. Se
assim fosse, desgraçadamente, tudo estaria perdido.
A parábola do joio é a primeira na ordem (versos 24-30).
Dá-nos uma ideia geral do efeito das sementeiras quanto
ao reino, ou antes, o resultado de o reino ter sido confiado
de momento às mãos dos homens.
O resultado foi que este reino já não apresentou, como
conjunto, a aparência da própria obra do Senhor. Ele não
semeia o joio; mas, pela negligência e pela infidelidade dos
homens, o Inimigo encontrou o meio de o semear. Note-se
que «o joio» não designa nem os pagãos nem os Judeus,
mas sim o mal operado entre os Cristãos por Satanás, por
meio de falsas doutrinas, maus doutores e seus sectários.
O Senhor Jesus sem£ou. Satanás, enquanto os homens dor­
miam, semeou também. Houve judaizantes, filósofos, heré­
ticos que permaneciam tanto no erro como se opunham
à verdade do Antigo Testamento.
No entanto Cristo só tinha semeado boa semente. Mas
será necessário arrancar o joio? É evidente que o estado
do reino neste mundo, durante a ausência de Cristo, de­
pende da resposta a esta questão, e também lança alguma
luz sobre este estado. Ora, havia ainda menos poder para
introduzir um remédio do que tinha havido para prevenir
contra o mal. Tudo teria de permanecer sem remédio até
à intervenção do Rei no tempo da ceifa. O reino dos céus
sobre a Terra, tal como se encontra nas mãos dos homens,
deve continuar como um sistema mesclado. Heréticos, fal­
sos irmãos ali estarão, assim oomo o fruto da obra do Se­
nhor, que dá testemunho, nesta última relação de Deus com
o homem, da incapacidade do homem para conservar no
seu primeiro estado o que é bom e puro. Assim tem sido
sempre (').
O Pensamento solene este! O primeiro acto do homem foi estragar
o que Deus tinha feito e que era inteiramente bom. Foi assim com Adão,
com Noé, a lei, o sacerdócio de Arão, o filho de David, o próprio Nabu-
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS
93
No tempo da ceifa (expressão que designa um certo
espaço de tempo durante o qual terão lugar os aconteci­
mentos relacionados com a ceifa) — «por ocasião da ceifa»,
o Senhor ocupar-se-á primeiramente, na Sua providência, do
joio. Digo «na Sua providência», porque emprega os anjos.
O joio será atado em molhos, pronto para ser queimado.
É preciso notar que as coisas exteriores no mundo cons­
tituem o tema aqui tratado — actos que resultam em cor­
rupção, corrupção desenvolvida no meio da Cristandade.
Os servos não são capazes de o fazer. É de tal ordem
a mistura ocasionada pela fraqueza e negligência do homem
que, arrancando o joio, eles arrancariam também o bom
grão. Faltaria não só o discernimento, mas também o poder
prático de separação para executarem o seu propósito. Uma
vez que o joio existe, os servos nada têm que fazer com ele,
quanto à sua presença neste mundo, na Cristandade. O ser­
viço deles aplica-se ao bem. O cuidado de purificar a Cris*
tandade não é da sua competência. É uma obra de Julga­
mento sobre o que não é de Deus, uma obra que pertence
Àquele que sabe e pode executá-la segundo a perfeição de
um conhecimento que inclui tudo e de um poder ao qual
nada escapa; um conhecimento que saberá, de dois que esti­
verem na mesma cama, tomar um e deixar o outro. A exe­
cução do Julgamento sobre os maus neste mundo não per­
tence aos servos (') de Cristo. 0 Senhor cumprirá esse Jul­
gamento por intermédio dos anjos do Seu poder, aos quais
confia o cuidado de o executar.
Depois de ter atado o joio. Ele ajunta o bom grão no
Seu celeiro. O trigo não é atado em molhos; o Senhor
toma-o todo para Si. Eis, pois, o que tem relação com o
aspecto exterior do reino neste mundo. Isto não é tudo
codonosor, a Igreja. No tempo de Paulo, todos procuravam os seus próprios
interesses— e não os de Jesus Cristo. Tudo é bom, tudo é melhor e seguro
com o Messias.
0) Falo aqui daqueles que tiverem sido Seus servos durante a Sua
ausência; porque os anjos são também Seus servos, do mesmo modo que os
santos do século futuro.
94 J. N. DARBY
o que a parábola nos ensina, mas termina o assunto de que
nos fala esta parte do capítulo. Durante a ausência de Je­
sus, o resultado da Sua sementeira, no seu conjunto, será
manchado pela obra do Inimigo. No final, o Senhor atará
em molhos toda a obra do Inimigo, isto é, prepará-la-á neste
mundo para o Julgamento. Em seguida Ele arrebatará a
Igreja. É evidente que com isto termina neste mundo a
cena que tem prosseguido durante a Sua ausência. O Julga­
mento ainda não é executado. Antes de falar dele o Senhor
apresenta outros quadros das formas que o reino tomará
durante a Sua ausência.
O que tinha sido semeado como um grão de mostarda
torna-se numa grande árvore, expressão esta que simboliza
um grande poder sobre a Terra. O Assírio, Faraó, Nabuco-
donosor, são-nos apresentados na Palavra de Deus como
grandes árvores (ver Ezequiel 31:3 e seguintes; Ezequiel
17:23-24; Daniel 4:10 e seguintes). Tal devia ser a forma do
reino que começava de pequenina pela Palavra semeada
pelo Senhor e, mais tarde, pelos Seus discípulos. O que pro­
duziria esta semente deveria revestir pouco a pouco a forma
de um grande poder, tornando-se proeminente na Terra,
e sob o qual outros viriam abrigar-se, como pássaros nos
ramos de uma árvore. E assim tem sucedido, com efeito.
Em! seguida (versos 33 e seguintes), vemos que não só
seria uma grande árvore na Terra, mas que o reino seria
caracterizado como um sistema de doutrina que se propa­
garia por si própria — uma profissão que abarcaria tudo
aquilo que a sua esfera de influência atingisse. Seria leve­
dada a totalidade das três medidas. Não é necessário acen­
tuar o facto de que a palavra fermento é sempre empregada
nas Escrituras num mau sentido; mas o Espírito Santo quer
fazer-nos compreender que não se trata do poder regene­
rador da Palavra no coração de um indivíduo, trazendo-o de
novo a Deus; nem -tão-pouco é simplesmente um poder que
actua por força exterior, tal como Faraó, Nabucodonosor
e outros apresentados como grandes árvores da Escritura.
Mas é um sistema de doutrina que, penetrando por toda a
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS
95
parte, caracterizará a massa. Não é a fé propriamente dita,
nem a vida; é uma religião — é a Cristandade. É a profis­
são de uma doutrina em corações que não suportam nem
Deus, nem a verdade, e se ligam sempre ao estado de cor­
rupção da própria doutrina.
Com esta parábola do fermento o Senhor dá por termi­
nadas as Suas instruções à multidão. Tudo agora lhe é apre­
sentado em parábolas, porque ela não O recebia. Ele, o seu
Rei; e Ele falava de coisas que se relacionavam com a Sua
rejeição, e de um aspecto do reino desconhecido das reve­
lações do Antigo Testamento, as quais têm em vista ou o
reino em poder ou um pequeno Remanescente recebendo,
no meio de sofrimentos, a palavra do Rei profeta que tinha
sido rejeitado.
Depois da parábola do fermento, Jesus não fica junto
do mar com a multidão — lugar próprio para a posição em
que Ele estava quanto ao povo depois do testemunho dado
no final do capítulo 12, >e aonde Ele tinha vindo ao deixar
a casa. Agora Jesus regressa a casa com os Seus discípulos;
e ali, em intimidade com eles, revela-lhes o verdadeiro
carácter —o objectivo —do reino dos céus, o resultado do
que ali se fazia e os meios que seriam empregados para
purificar tudo na Terra, quando a história exterior do reino,
durante a Sua ausência, tivesse terminado. Quer dizer, en­
contramos aqui o que caracteriza o reino para o homem
espiritual, o que este compreende como sendo o verdadeiro
pensamento de Deus acerca do reino, e o Julgamento que
deli tirará o que Lhe era contrário — o exercício de poder
que tornará o reino exteriormente conforme ao coração de
Deus.
Vimos como a sua história natural terminou com estas
duas coisas: o bom grão guardado no celeiro, e o joio
atado em molhos sobre a Terra, pronto para ser queimado.
A explicação desta parábola retoma a história do reino
nessa época; simplesmente, ela faz-nos compreender e dis­
tinguir as diferentes partes do amálgama, atribuindo cada
96
J. N. DARBY
parte ao seu verdadeiro autor. O campo é o mundo 0 ;
a Palavra foi ali semeada para desse modo estabelecer o
reino. A boa semente, eram os filhos do reino; pertenciam
realmente ao reino segundo os desígnios de Deus; são os
seus herdeiros. Os Judeus já o não eram, e a herança já não
era um privilégio do nascimento segundo a carne. Tomá­
vamo-nos filhos do reino pela Palavra de Deus. Ora, no
meio desses filhos do reino, para estragar a obra do Se­
nhor, o Inimigo introduziu toda a sorte de pessoas, frutos
das doutrinas que ele tinha semeado no meio daqueles que
tinham nascido da verdade. Tal é a obra de Satanás no
lugar onde. a doutrina de Cristo fpi introduzida. A ceifa
é o fim do século (2). Os ceifeiros são os anjos (verso 39).
Devemos notar aqui que o Senhor não explica na sentido
histórico o que aconteceu, mas os termos empregados in­
troduzem o desfecho quando chega o tempo da ceifa. O
cumprimento do acontecimento histórico na parábola é in­
tuitivo; e o Senhor passa adiante, para dar o resultado
principal do que era estranho ao reino durante a Sua au­
sência nas alturas. O bom grão — quer dizer, a Igreja —
está no celeiro, e o joio em molhos sobre a Terra. Ora o
Filho do homem tomará tudo o que constitui esses mo­
lhos, tudo' o que, como mal, ofende Deus no reino, e lança-o
no lago de fogo, onde há pranto e ranger de dentes (versos
4042). Depois deste Julgamento, os justos resplandecerão
como Ele próprio, o verdadeiro Sol desse dia de glória —
do século vindouro—no reino de seu Pai. Cristo terá rece­
bido o reino do Pai cujos filhos eles eram; e eles resplan­
decerão nele com Jesus segundo esse cairácter.
Encontramos assim, para a multidão, os resultados na
Terra das sementeiras divinas e as maquinações do Ini-
0) É evidente que não foi na Igreja que o Senhor começou a semear;
ela não existia ainda. De igual modo distingue aqui Israel do mundo; é
deste que Ele fala. O Senhor procurava fruto em Israel; semeia no mundo,
porque Israel, após todos os Seus cuidados, não dava fruto.
(a) Não só o momento que o termina, mas também os actos que cum­
prem os desígnios de Deus ao terminá-lo (sunteleia).
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 97
migo—o reino apresentado sob este aspecto; em seguida
vemos as associações dos malfeitores ou ímpios, fora da
ordem natural, como crescendo no reino; e o arrebata­
mento da Igreja. Mas, para os Seus discípulos, o Senhor
explica tudo o que era necessário para lhes fazer com­
preender perfeitamente os termos da parábola. Vem em
seguida o Julgamento executado pelo Filho do homem
sobre os malfeitores, que são lançados no fogo; e a mani­
festação dos justos na glória (estes últimos acontecimentos
têm lugar depois de o Senhor ter ressuscitado e posto fim
à forma exterior do reino dos céus sobre a Terra, sendo
os malfeitores ligados em grupos e os santos arrebatados
para o Céu (!).
E agora, tendo explicado a história e os seus resultados
em Julgamento e em glória para pleno conhecimento dos
Seus discípulos, o Senhor comunica-lhes os pensamentos de
Deus acerca do que se passava na Terra enquanto os acon­
tecimentos notórios e terrestres do reino se desenvolviam
— coisas que o homem espiritual devia ali discernir. O
reino dos céus era para ele, para aquele que compreen­
desse o propósito de Deus, como um tesouro escondido num
campo. Um homem encontra o tesouro, e compra o campo
a fim de o possuir. O campo não era o seu objectivo, mas
sim o tesouro que nele estava. Assim Cristo adquiriu o
mundo. Ele possui-o de direito. O Seu objectivo é o tesouro
nele escondido, o Seu próprio povo, toda a glória da reden­
ção a ele ligada; numa palavra, a Igreja é considerada não
na sua beleza moral e, em certo sentido, divina, mas como
objecto especial dos desejos e do sacrifício do Senhor — o
que o Seu coração tinha achado neste mundo, segundo os
planos e propósitos de Deus.
Nesta parábola, trata-se do poderoso atractivo desta
C) Note-se também que o reino dos céus está dividido em duas partes:
o reino do Filho do homem, e o reino de nosso Pai; os objectos do julga­
mento naquilo que está submetido a Cristo, e um lugar semelhante ao Seu
para filhos perante o Pai.
7
98 J. N. DARBY
«coisa nova» que induz aquele que a encontra a comprar
todo o campo, a fim de a possuir.
Os Judeus não eram uma coisa nova; o mundo não
tinha nenhum atractivo; mas este novo tesouro induziu
Aquele que o tinha descoberto a desfazer-Se de tudo para
o obter. Com efeito, Cristo tudo deixou. Não só Se aniqui­
lou a Si mesmo para nos remir, mas também renunciou a
tudo o que Lhe pertencia como homem, como o Messias
na Terra, as promessas, os Seus direitos reais, a Sua vida,
para tomar posse do mundo, que continha em si este
tesouro, o povo que Ele amava.
Na parábola da pérola de grande preço temos a mesma
ideia, mas modificada pelas outras (versos 45-46). Um nego­
ciante procurava boas pérolas. Ele sabia o que fazia. Tinha
gosto, discernimento, conhecimento daquilo que procurava.
Era a notória beleza do tesouro que motivava a sua pro­
cura. Quando encontrou uma pérola que respondia aos
seus pensamentos, ele sabe que vale a pena vender tudo
para a possuir. Ela é valiosa aos olhos daquele que sabe
apreciar o seu valor. Por isso ele compra só a pérola — e
nada mais. De igual modo Cristo encontrou na Igreja uma
beleza ital e (por causa dessa beleza) um valor que O levam
a deixar tudo para a obter. É precisamente o que tem lugar
acerca do reino. Considerando o estado espiritual do ho­
mem, até mesmo o dos Judeus, a glória de Deus exigia que
tudo fosse abandonado a fim de possuir esta coisa nova;
porque nada havia no homem que Cristo pudesse tomar
para Si. O Senhor não só encontrava prazer em deixar tudo
para possuir esta coisa nova; mas aquilo que o Seu coração
procura, aquilo que não encontra em qualquer outra parte,
encontrou-o no que Deus lhe deu, no reino. Não comprou
outras pérolas. Antes de ter descoberto esta pérola, Ele
não tinha nenhum motivo para se desfazer de tudo o que
tinha. Mas logo que a viu, tomou uma decisão: abandona
tudo por amor dela. O seu valor leva-0 a decidir-Se, porque
Ele sabe julgar e procura com discerni mento.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS
99
Não quero dizer que os filhos do reino não sejam in­
fluenciados pelo mesmo princípio. Quando temos com­
preendido o que significa ser filho do reino, deixamos tudo
para dele gozarmos, para pertencermos à pérola de grande
preço. Mas não compramos algo que não seja o tesouro,
para podermos ter mesmo o tesouro; e estamos bem longe
de procurarmos belas pérolas antes de termos encontrado
a pérola de grande preço. Estas parábolas, no seu pleno
alcance, não se aplicam senão a Cristo. O fim em vista
com estas parábolas é fazer sobressair o contraste entre
o que se fazia então e tudo aquilo que tinha sido feito
antes — a saber, as relações do Senhor com os Judeus.
Resta-nos ainda examinar uma das sete parábolas, a da
rede lançada ao mar (versos 47-50). Nesta parábola não há
a mínima mudança nas pessoas empregadas, quer dizer,
n^ própria parábola. Os mesmos pescadores que lançaram
a rede a puxam para a praia e fazem a separação, colo­
cando nos cestos os peixes bons e não ligando importância
aos maus. O trabalho dos que puxam a rede para a praia
consiste em apanhar o peixe bom; e é só depois de terem
desembarcado que isso é feito. Fazer a separação é, sem
dúvida, o trabalho deles; mas só têm de se preocupar com
o peixe bom. Eles conhecem-no bem. Ter peixe bom é o
trabalho deles, o objectivo da pesca. Sem dúvida, outros
peixes entram na rede e ali são retidos juntamente com
os bons; mas eles não são bons. Não é necessário outra
opinião. Os pescadores conhecem o bom peixe. Nem todos
os peixes são bons. Os bons são postos à parte. Aqueles
que -não podem ser assim considerados, deixam-nos. Este
acto dos pescadores faz parte da própria história do reino
dos céus. Não se trata aqui do Julgamento dos maus. O
peixe mau é deixado na praia, quando os pescadores apa­
nham o bom para os cestos. 'Não se trata aqui do destino
final, nem dos bons nem dos maus. O destino dos bons
não é serem postos à parte na praia, nem o dos outros
somente o serem deixados lá. Isso é posterior à acção da
parábola. E, quanto aos maus, o seu Julgamento não con­
siste apenas na sua separação dos bons, aos quais tinham
100
J. N. DARBY
sido misturados, mas na sua destruição. A execução do
Juízo não faz parte da parábola, nem nesta nem na do joio
ou do trigo. Nesta o joio é atado em molhos e deixado no
campo; aqui o peixe mau é lançado fora da rede.
Assim a rede do Evangelho tem sido deitada ao mar
das nações e nela têm entrado homens de toda a sorte.
Após essa colheita geral que encheu a rede, os obreiros
do Senhor, cuidando dos bons, juntam-nos, separando-os
dos maus. Convém noiar que isto é uma semelhança do
reino. É o carácter que o reino toma, quando o Evangelho
tem reunido uma massa de crentes bons e maus. Por fim,
quando a rede tiver sido tirada com todas as espécies nela
incluídas, os bons são separados, porque são preciosos; os
outros são- deixados. Os bons são reunidos em diversos
vasos. Os santos são reunidos, não pelos anjos, mas pela
obra daqueles que têm trabalhado em Nome do Senhor.
A distinção não é feita por meio do Juízo, mas pelos servos
ocupados com os bons.
A execução do Julgamento é um assunto diferente. Os
obreiros nada têm a ver com isso. Na consumação do
século virão os anjos e separarão os malfeitores de entre
os justos — não os bons de entre os restantes, como os
pescadores fizeram — e lançá-los-ão no lago de fogo, onde
haverá pranto e ranger de dentes (versos 49-50). Não nos
é dito aqui que os anjos estão ocupados com os justos.
A tarefa de apanhar para os cestos os peixes bons não
pertencia aos anjos, mas sim aos pescadores. Os anjos
estão nas duas parábolas ocupados com os maus. O resul­
tado público tinha sido visto, quer durante o período do
reino dos céus, quer depois, na parábola do joio. 'Não é
aqui repetido. A obra que deve ser feita acerca dos justos,
quando a rede estiver cheia, é aqui acrescentada. O destino
dos maus e o dos ímpios é dado uma segunda vez para
distinguir o trabalho feito acerca deles da obra feita pelos
pescadores, que juntam os bons em diversos vasos. Além
disso o destino dos maus é apresentado sob um outro
ponto de vista, os justos são deixados no seu lugar. O Jul­
gamento dos ímpios é declarado tanto na parábola do joio
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 101
como nesta. São lançados lá, onde haverá pranto e ranger
de dentes, mas o estado geral do reino é revelado, e os
justos resplandecerão como o Sol, na parte mais elevada
do reino. Aqui fala-se só daquilo que a inteligência com­
preende, do que a mente espiritual vê; os justos são postos
em vasos. Há, na primeira parábola, antes do Julgamento,
pelo poder espiritual, uma separação que não existia no
estado público geral do reino; havia só o que a providên­
cia fizera no campo, e o bom grão é recebido no Céu. Aqui,
a separação é efectuada em relação aos bons. Para a inteli­
gência espiritual, este era o ponto principal — e não uma
manifestação pública. De facto, o Julgamento será executa­
do somente sobre os maus; os justos serão deixados lá (’)■
Na explicação da segunda parábola trata-se, no caso do
joio, do Julgamento absoluto e final, que destroi e consome
o que resta no campo e que tinha sido já junto e providen-
cialmente separado do bom grão. Os anjos são enviados
no fim, não para separarem o joio do trigo (o que já tinha
sido feito), mas para lançarem o joio no fogo, purificando
desse modo o reino. Na explicação da parábola dos peixes
(verso 49) é feita a escolha. IHaverá justos sobre a Terra,
e os maus serão separados deles. O ensino prático desta
parábola é a separação dos bons de entre os maus, e o
ajuntamento em grupo de um grande número dos primei­
ros. Isto repete-se mais de uma vez, sendo muitos dos bons
reunidos em grupo também algures. Os servos do Senhor
são os instrumentos empregados no que tem lugar na pró­
pria parábola.
Estas parábolas compreendem coisas novas e velhas,
como lemos nos versos 51 e 52. A doutrina do reino, por
0) Em todas as profecias simbólicas e parábolas, a explicação vem
depois da parábola e acrescenta factos; porque o julgamento executado teste»
munha publicamente daquilo que, no tempo da parábola, pode ser discernido
espiritualmente. A parábola pode ser espiritualmente compreendida. O resul­
tado existe; o julgamento o mostrará publicamente, de modo que, na expli­
cação, devemos sempre ir além da parábola. O julgamento explica o que não
é compreendido antes senão espiritualmente, e introduz uma nova ordem de
coisas (comparar Daniel 7).
102 J. N. DARBY
exemplo, era uma doutrina bem conhecida. Que o reino
tomaria as formas descritas pelo Senhor, que abrangeria
todo o mundo sem distinção, que a existência do povo de
Deus derivaria não de Abraão, mas sim da Palavra de Deus
— tudo isto era completamente novo. Tudo era obra de
Deus. O escriba tinha conhecimento do reino, mas igno­
rava inteiramente o carácter que ele tomaria como reino
dos céus estabelecido pela Palavra de Deus neste mundo,
da qual tudo depende aqui.
Em seguida o Senhor (versos 53 e seguintes) retoma os
Seus trabalhos entre os Judeus O). Para eles, Jesus era
apenas «o filho do carpinteiro»; conheciam a Sua família
segundo a carne. O reino dos céus não existia aos seus
olhos. A revelação deste reino foi feita algures, noutra pas­
sagem da Escritura, onde o conhecimento das coisas divi­
nas foi comunicado. Os Judeus nada viam para além da­
quelas coisas que o coração natural podia perceber. A bên­
ção do Senhor era impedida pela incredulidade deles. Jesus
era rejeitado por Israel como profeta do mesmo modo que
como Rei.
CAPITULO 14
0 Evangelho segundo S. Mateus retoma o curso histó­
rico dessas revelações, mas de maneira a fazer sobressair
o espírito que animava o povo. Herodes (amando mais o
0) Os capítulos que se seguem são deveras impressionantes no seu
carácter. A pessoa de Cristo, como o Jehovah do Salmo 132, é introduzida,
mas Israel é rejeitado e os discípulos deixados sós enquanto Jesus ora no
monte. Depois volta, reagrupa os Seus discípulos, e a região de Genesaré
reconhece-O. Temos então, no capítulo 15, a descrição moral completa do
terreno sobre o qual Israel permanecia realmente e deve permanecer; mas
vai-se muito mais longe quanto ao coração do homem. Em seguida encon­
tramos o que Deus é, revelado em graça à fé, mesmo quando esta se encontra
num Gentio. Historicamente, Ele reconhece ainda Israel, mas em perfeição
divina; agora, está num poder administrativo humano. No capítulo 16 a Igreja
é então profeticamente introduzida, e, no capítulo 17, está em vista o reino de
glória. No capítulo 16 é-lhes proibido dizer que Ele é o Cristo. Acabou-se.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 103
seu poder terrestre e a sua própria glória do que a sub­
missão ao testemunho de Deus, e convencido mais por um
falso pensamento humano do que pela consciência, embora
em muitas coisas pareça ter reconhecido o poder da ver­
dade) tinha decapitado o precursor do Messias, João Bap­
tista, a quem havia já encarcerado a fim de afastar da
vista de sua mulher aquele que tinha repreendido fielmente
o pecado em que ela vivia.
Jesus é sensível ao alcance desse acto, que Lhe é rela­
tado. Cumprindo, em serviço humilde (embora pessoal­
mente exaltado acima dele) juntamente com João, o teste­
munho de Deus na congregação, sente-Se unido de coração
e na Sua obra com ele, porque a fidelidade no meio do mal
une intimamente os corações; e Jesus tinha condescendido
em tomar um lugar onde se tratava de fidelidade (ver os
Salmos 9:9-10 e 40:9-10). Ouvindo o relato da morte de João,
Jesus retira-Se para um lugar deserto. Porém, embora afas-
tando-Se da multidão, que começava assim a agir aberta­
mente na rejeição do testemunho de Deus, Jesus não cessa
de suprir todas as suas necessidades, e de testificar desse
modo que podia ministrar divinamente a todas as necessi­
dades que havia entre eles. A multidão, que sentia essas
necessidades e que, embora não tivesse fé, admirava o
poder de Jesus, seguiu-0 até ao deserto; e Jesus, movido
de compaixão, curou todos os seus enfermos. Chegada a
tarde, os discípulos pedem-Lhe que despeça a multidão,
para que ela possa comprar comida. Jesus recusa e dá um
testemunho notável da presença, na Sua Pessoa, de Aquele
que havia de satisfazer os pobres do Seu povo, dando-lhes
pão com abundância (Salmo 132:15). Jehovah, o Senhor,
que estabelecera o trono de David, estava ali na Pessoa de
Quem havia de herdar esse trono. Não há dúvida de que
doze cestos de pedaços de pão dizem respeito ao número
que, nas Escrituras, significa sempre a perfeição do poder
administrativo no homem.
É de notar também que o Senhor espera que os Seus
doze discípulos sejam capazes de servir de instrumentos
para cumprirem os Seus actos de bênção e de poder, admi-
104
J. N. DARBY
nistrando segundo o Seu poder as bênçãos do reino. «Dai-
-thes vós de comer», diz Ele (verso 16). Isto aplica-se à
bênção do reino do Eterno e aos 'discípulos de Jesus, os
doze, como sendo os ministros; mas há igualmente um
princípio muito importante quanto ao efeito da fé em todas
as intervenções de Deus em graça. A fé deveria poder usar
do poder que actua numa tal intervenção, para produzir
as obras que são próprias a esse poder segundo a ordem
desta dispensação e da compreensão que a fé tem dela.
Encontraremos noutro lugar este princípio mais plenamente
desenvolvido.
Os discípulos queriam despedir a multidão, por não sa­
berem servir-se do poder de Cristo. Deveriam ter sabido
usar dele em favor de Israel, de conformidade com a gló­
ria d’Aquele que Se encontrava no meio deles.
Se agora o Senhor demonstrava, oom perfeita paciên­
cia, pelos Seus actos, que Aquele que podia assim abençoar
Israel estava no meio do Seu povo, nem por isso deixava
de dar testemunho da Sua separação desse povo, por causa
da sua incredulidade. Jesus ordena aos Seus discípulos que
entrem num barco e passem para a outra banda do mar
sozinhos; e, despedindo Ele próprio a multidão, sobe ao
monte, a um lugar isolado, para orar, enquanto o barco
com os discípulos era açoitado pelas ondas, porque o vento
era contrário — um quadro vivo do que tem acontecido.
Deus tem, com efeito, enviado o Seu povo sozinho para
atravessar o mar tormentoso do mundo, enfrentando uma
oposição contra a qual é difícil lutar. Durante esse tempo,
Jesus, só, ora nas alturas. Despediu o Seu povo judaico,
que O havia rodeado durante o período da Sua presença
neste mundo.
Além do seu carácter geral, a partida dos discípulos põe
diante de nós, de um modo notável, o Remanescente judeu.
Pedro, individualmente, saindo do barco, vai, em figura,
além da posição deste Remanescente. Ele apresenta aquela
fé que, desprezando a comodidade terrestre do barco, vai
ao encontro de Jesus, que Se lhe revelou. Pedro anda sobre
o mar — um acto destemido, mas baseado na palavra de
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 105
Jesus: «Vem» (verso 29). Mas note-se que este andar de
Pedro sobre as ondas não tem outro fundamento senão
estas palavras: «Se és Tu» {verso 28), quer dizer, o próprio
Jesus. Não existe apoio algum nem nenhuma possibilidade
de andar, se Cristo for perdido de vista. Tudo depende
d’Ele. ‘No barco há um meio bem conhecido, mas nada mais
senão a fé, que olha para Jesus, permite andar sobre a
água. O homem, apenas como homem, afunda-se pelo sim­
ples facto de estar em semelhante posição. Nada pode sus-
ter-se sobre as águas, excepto pela fé que recebe de Jesus
a força que há xi’Ele e que O imita. Mas é grato imitar a
Jesus; está-se então mais perto d'Ele, mais semelhante a
Ele. É esta a verdadeira posição da Igreja, em contraste
com o Remanescente no seu aspecto normal. Jesus anda
sobre a água como em terreno sólido. Aquele que criou os
elementos tal como eles são, pode bem dispor das suas
qualidades a Seu bel-prazer. permite que se levantem tem­
pestades para provar a nossa fé. Anda sobre as ondas alte­
rosas do mesmo modo que anda sobre a acalmia. Aliás, a
tempestade não faz diferença. O que se afunda nas águas,
tanto o faz no temporal como na calmaria; e o que pode
andar sobre elas, tanto o faz na calmaria como no tem­
poral— porém, desde que se olha para as circunstâncias,
a fé falta e o Senhor é esquecido. Muitas vezes, com efeito,
as circunstâncias levam-nos a esquecer Jesus, ali onde a fé
n’Aquele que está acima de todas as coisas deveria tomar-
-nos capazes de as dominar.
No entanto — Deus seja bendito! —Aquele que, pelo Seu
próprio poder, anda sobre as águas está lá para suster a fé
e os passos vacilantes do pobre discípulo; de qualquer
modo, essa fé tinha levado Pedro .tão perto de Jesus que
Este lhe estende a mão e o segura. O erro de Pedro foi
olhar para as ondas, para a tempestade (que, afinal, nada
tinha a ver com o resto), em vez de olhar para Jesus, que
não tinha mudado, e andava sobre as próprias ondas, como
a sua fé deveria ter observado. Contudo, o grito de angús­
tia põe em acção o poder de Jesus, como a sua fé deveria
106 J. N. DARBY
ter feito; simplesmente era para sua vergonha agora, em
vez de ser o gozo da comunhão andando como o Senhor.
Quando Jesus entrou no barco, o vento acalmou. Assim
será também quando Jesus voltar para o Remanescente
do Seu povo neste mundo. Então também Ele será adorado
como Filho de Deus por todos aqueles que estão no barco
com o Remanescente de Israel. Em Genesaré, Jesus exerce
de novo o poder que mais tarde expulsará da Terra todo
o mal que Satanás ali tem feito. Porque quando Ele voltar,
o mundo O reconhecerá. Este é um belo quadro do resul­
tado da rejeição de Cristo, que este Evangelho nos deu já
a conhecer no modo como Jesus tomou lugar no meio do
povo judeu.
CAPITULO 15
Este capítulo apresenta-nos o homem e Deus, contraste
moral entre a doutrina de Cristo e a dos Judeus; assim,
o sistema judaico é moralmente rejeitado por Deus. Quando
falo do sistema, refiro-me a todo o estado moral dos Ju­
deus, sistematizado pela hipocrisia que procurava ocultar
a iniquidade, ao mesmo tempo que a aumentava aos olhos
de Deus, perante Quem se apresentavam. Serviam-se do
Nome de Deus para descerem, sob o pretexto de piedade,
mais baixo que as regras da consciência natural. É assim
que um sistema religioso se converte no grande instru­
mento dó poder do Inimigo, e mais particularmente quando
aquilo de que esse sistema usa ainda o nome, foi instituído
por Deus. Mas então o homem é julgado, porque o Judaís­
mo era o homem com a lei e sob a cultura de Deus.
O Julgamento que o Senhor pronuncia sobre este siste­
ma de hipocrisia, ao mesmo tempo que manifesta a conse­
quente rejeição de Israel, dá lugar a um ensino que se
estende muito para além desse sistema; e que, perscru­
tando o coração humano, e julgando o homem segundo o
que dele procede, prova ser o coração uma fonte de toda
a espécie de iniquidade; e, desta forma, torna evidente que
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 107
toda a verdadeira moralidade tem a sua base na convicção
e confissão do pecado. Porque, sem esta convicção e sem
esta confissão, o coração é sempre falso e em vão se van­
gloria. Desta forma também Jesus remonta à origem de
tudo, e sai das relações especiais e temporárias da nação
judaica para entrar na verdadeira moralidade que pertence
a todas as épocas. Os discípulos não observam a tradição
dos anciãos (versos 1-2); o Senhor não Se prende com ela.
Aproveita a acusação para fazer notar à consciência dos
acusadores esta verdade, que o Juízo motivado pela rejeição
do Filho de Deus era permitido também com o fundamento
dessas relações que já existiam entre Deus e Israel. Os
Escribas e os Fariseus invalidavam pela sua tradição o man­
damento de Deus, e isto num ponto de capital importância,
aquele de que dependiam todas as bênçãos terrestres para
os filhos de Israel. Por meio dessas mesmas ordenanças,
Jesus (versas 8-9) denuncia também a hipocrisia, o egoísmo
e a avareza daqueles que pretendiam guiar o povo e formar
o seu coração à moralidade e ao culto de Jehovah. Isaías
tinha já pronunciado o julgamento deles.
Em seguida o Senhor mostra à multidão (versos 10 e
seguintes) que se trata daquilo que o homem é, do que
sai do seu coração, do íntimo do seu ser; e assinala as
tristes torrentes que emanam dessa corrupta origem. Mas
o que escandalizava aqueles que a si mesmos se conside­
ravam justos, o que era ininteligível para os próprios dis­
cípulos, era a simples verdade acerca do coração do homem,
tal como é conhecido de Deus. Não há nada mais simples
do que a verdade, quando é conhecida; e nada mais difícil
nem mais obscuro do que o juízo acerca dela, quando feito
pelo coração do homem que a não possui; porque o homem
julga segundo os seus próprios pensamentos — e a verdade
não está neles. Numa palavra, Israel, e particularmente o
Israel religioso e a verdadeira moral são postos em con­
traste: o homem é colocado sob a sua própria responsabili­
dade e no seu verdadeiro estado perante Deus.
Jesus sonda o coração; mas, agindo em graça, actua de
harmonia com o coração de Deus e manifesta-o saindo, por
108 J. N. DARBY
uns e por outros, dos 'termos convencionais das relações de
Deus com Israel. Uma Pessoa divina, Deus, pode andar na
aliança que tem dado, mas não pode ser limitado por ela.
A infidelidade do Seu povo a essa aliança fomece a ocasião
de nos mostrar o Senhor indo além desse lugar. Note-se
aqui o efeito da religião tradicional que cega o julgamento
moral. O que haveria de mais claro e de mais simples do
que esta verdade, que o que contamina o homem não é o
que ele come, mas sim o •que sai da sua boca e do seu
coração?! Mas os discípulos não podiam compreendê-la, in­
fluenciados como estavam pelo desprezível ensino farisaico,
que substituía a pureza interior por vistosas formas exte­
riores.
Cristo deixa então os termos de Israel e as Suas dispu­
tas com os doutores de Jerusalém, para ir visitar os luga­
res que estavam mais afastados dos privilégios judaicos.
Foi para as bandas de Tiro e de Sídon (verso 21), cidades
que Ele próprio tinha usado como exemplo do que estava
mais longe do arrependimento. Veja-se o capítulo 11, onde
são equiparadas com Sodoma e Gomorra, mas como estan­
do ainda mais endurecidas do que elas.
Uma mulher vem dessas regiões. Era uma mulher dessa
raça maldita, segundo os princípios que distinguiam Israel
(Deuteronómio 7:1-2). Era uma mulher cananeia. Vem para
pedir a intervenção de Jesus em favor de sua filha, pos­
sessa de um demónio. Pedindo a Jesus esse favor, ela ser-
ve-se do título que a fé reconhecia ao Senhor na Sua rela­
ção com os Judeus: Chama-0 «Filho de David». Isto dá
lugar a um completo desenvolvimento da posição do Se­
nhor, ao mesmo tempo que condições sob as quais o homem
podia esperar ter parte no efeito da Sua bondade, na reve­
lação do próprio Deus.
Como Filho de David, Ele nada tem a ver com uma Ca­
naneia. Não lhe responde. Os discípulos desejavam livrar-se
dela, ainda que concedendo-lhe o que ela pedia, para porem
termo à sua importunidade. O Senhor diz-lhes que não fora
enviado senão às ovelhas perdidas da Casa de Israel, como
lemos no verso 24. Esta era, com efeito, a verdade. Fossem
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 109
quais fossem os desígnios de Deus, manifestados por oca­
sião da Sua rejeição (ver Isaías 49), Ele era ministro da cir­
cuncisão pela verdade de Deus, a fim de cumprir as Suas
promessas feitas aos pais (Romanos 15:8).
A mulher, em linguagem mais simples e directa, expres­
são mais natural dos seus sentimentos, pede a misericor­
diosa intervenção d’Aquele em cujo poder ela confia. O Se­
nhor responde-lhe que não é bom tomar o pão dos filhos
e dá-lo aos cães (verso 26). Vemos aqui a Sua verdadeira
posição, vindo para Israel; as promessas eram para os
filhos do reino. O Filho de David era o administrador des­
sas promessas. Poderia Ele, como tal, desfazer o que dis­
tinguia o povo de Deus?
Mas esta fé que se fortalece com a necessidade, e que
não encontra outro recurso senão no próprio Senhor, aceita
a humilhação do seu estado, e conclui que com Ele há pão
para matar a fome daqueles que não têm direito a ele.
Esta fé persevera também, porque há uma necessidade
premente, e confiança no poder d’Aquele que veio em graça.
Que tinha feito o Senhor na Sua aparente dureza? Tinha
levado a pobre mulher ao sentimento e à expressão do seu
verdadeiro lugar perante Deus, quer dizer, à verdade a seu
respeito. Mas então era verdade para dizer que Deus era
menos bom do que ela pensava, menos rico em misericórdia
para com a desprezada, que não tinha esperança nem con­
fiança senão nessa misericórdia? Dizer isso teria sido negar
o carácter e a natureza de Deus, de que Jesus era a ex­
pressão, a verdade, e a testemunha sobre a Terra; teria
sido negar-Se a Si próprio e ao objectivo da Sua missão.
Jesus não podia dizer: «Deus não tem uma migalha para
uma tal criatura». Antes responde de todo o coração: «Ó
mulher! grande é a tua fé; seja isso feito para contigo como
tu desejas». Deus sai dos estreitos limites da Sua aliança
com os Judeus para actuar na Sua soberana bondade, se­
gundo a Sua própria natureza. Sai deles para ser Deus
em bondade e não meramente Jehovah em Israel.
Mas esta bondade é manifestada para com uma alma
levada a reconhecer, em face dessa bondade, que não tem
110 J. N. DARBY
nenhum direito a ela. Era para este ponto que a aparente
dureza do Senhor a tinha conduzido. Ela recebia tudo pela
graça, embora em si mesma fosse indigna de tudo. É as­
sim, e somente assim, que toda a alma obtém a bênção.
Não é somente o sentimento das suas necessidades — a mu­
lher cananeia tinha-o desde o princípio — eram essas neces­
sidades que a levavam lá. Não basta reconhecer que o Se­
nhor Jesus pode responder a essas necessidades — a mu­
lher vem com esse conhecimento; é necessário estarmos
na presença da única fonte de bênção e sentirmos que,
apesar de ali estarmos, não temos o direito de nos aprovei­
tarmos dela. E isto é uma posição terrível. Quando assim
acontece, tudo é graça. Deus pode então agir de harmonia
com a Sua bondade, e responde a todos os desejos que o
coração possa nutrir para sua felicidade.
Portanto, vemos Cristo aqui como servo da circuncisão
pela verdade de Deus, para a confirmação das promessas
feitas aos pais, e para que os Gentios pudessem também
glorificar a Deus pela Sua misericórdia, como está escrito
(Romanos 15:8-9). Ao mesmo tempo esta última verdade
toma manifesta a verdadeira condição do homem, e a
plena e perfeita graça de Deus. Deus actua segundo esta
verdade, permanecendo fiel às Suas promessas; e a sabe­
doria de Deus é manifestada de um modo que causa admi­
ração.
Vemos como a introdução, neste lugar, da história da
mulher cananeia desenvolve e põe em evidência esta parte
do Evangelho. O princípio do capítulo expõe o estado moral
dos Judeus, a falsidade de uma religiosidade farisaica e
sacerdotal; mostra o verdadeiro estado do homem como
tal, aquilo de que o coração do homem era a fonte, e revela
em seguida o coração de Deus tal como é manifestado em
Jesus. Os caminhos de Jesus para com esta mulher mos­
tram a fidelidade de Deus às Suas promessas; e a bênção
finalmente concedida faz sobressair a plena graça de Deus
em relação com a manifestação do verdadeiro estado do
homem, reconhecido pela consciência — a graça elevando-se
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 111
acima da maldição que pesava sobre o objecto dessa mes­
ma graça — elevando-se acima de tudo, para abrir caminho
até à necessidade que a fé lhe apresentava.
O Senhor retira-Se agora dali e vai para a Galileia,
lugar onde estava em relação com o desprezado Remanes­
cente dos Judeus. Não era nem Sião, nem o templo, nem
Jerusalém, mas os pobres do rebanho, onde o povo estava
em espessas trevas (Isaías 9:2). Lá, a Sua compaixão segue
esse pobre Remanescente e exerce-se ainda em seu favor.
O Senhor renova mais uma vez a evidência, não apenas
das Suas ternas misericórdias, mas da Sua presença que
satisfazia os pobres do Seu povo, alimentando-os com pão!
Não é, no entanto, pelo poder administrativo que Ele podia
conceder aos Seus discípulos, mas sim segundo a Sua pró­
pria perfeição e actuando Ele mesmo. Provê às necessida­
des do Remanescente do Seu povo. Em consequência, do
resto dos pedaços de pão que sobejaram encheram ainda
sete cestos (verso 37). Jesus parte dali sem que algo mais
tenha acontecido.
Vimos a moral eterna e a verdade interior substituírem
a hipocrisia das formas, a religião legal do homem e o seu
coração revelado como sendo uma fonte de mal e nada
mais; e o coração de Deus, plenamente revelado, elevando-
-Se acima de toda a dispensação a fim de manifestar a per­
feita graça que está em Cristo. Deste modo as dispensações
são postas de lado, embora plenamente reconhecidas, e,
por isso, o homem e Deus plenamente postos em evidência.
É um capítulo maravilhoso no que há de eterno na verdade
que concerne a Deus, e o que a revelação de Deus mostra
no homem. E isto, note-se, dá ocasião de revelar, no capí­
tulo seguinte, a Igreja, que não é uma dispensação, mas
que é fundada sobre o que Cristo é, o Filho do Deus vivo.
No capítulo 12 Cristo era rejeitado segundo uma dis­
pensação, e, no capítulo 13, o reino era substituído. Aqui
o homem é posto de lado, assim como o que ele tinha feito
da lei, e Deus actua segundo a Sua própria graça acima de
todas as dispensações. Aparecem então a Igreja e o reino
em glória.
112
J. N. DARBY
CAPÍTULO 16
O capítulo 16 vai mais longe do que a simples revelação
da graça de Deus. Jesus revela o que devia formar-se nos
desígnios dessa graça onde Ele era reconhecido, mostrando
que os orgulhosos do povo de Deus são rejeitados, que
Deus os aborrece (Zacarias 11), do mesmo modo como eles
O aborrecem. Fechando os olhos (devido à perversidade
da vontade deles) aos maravilhosos e beneficentes sinais do
Seu poder, que constantemente Ele empregava a favor dos
pobres que O procuravam, os Fariseus e Saduceus — sur­
preendidos com essas manifestações, embora incrédulos de
coração e determinação — pedem um sinal do' Céu. O Se­
nhor censura-os pela sua incredulidade, mostrando-lhes que
eles sabiam bem distinguir a aparência do céu !(versos 2-3),
mas que os sinais dos tempos os não despertavam. Eram
uma geração má e adúltera que estava na Sua frente —
e deixa-os: Expressão bem significativa do que se passava
então em Israel.
O Senhor Jesus adverte os Seus discípulos da subtileza
destes adversários da verdade e d'Aquele que Deus tinha
enviado para revelar essa verdade (versos 5-12). Israel, como
povo, é abandonado nas pessoas dos seus chefes. Ao mesmo
tempo recorda em paciente graça aos discípulos a expli­
cação que lhes havia dado.
Em seguida Jesus pergunta aos Seus discípulos o que
era que os homens diziam d’Ele, como lemos nos versos 13
e seguintes. Tratava-se de toda a sorte de opiniões, e não
de fé; isto é, da incerteza que pertence à indiferença moral,
com ausência daquela necessidade cônscia de uma alma que
só pode descansar na verdade, no Salvador que se tem en­
contrado. Depois Jesus pergunta aos discípulos o que era
que eles próprios diziam d’Ele. Pedro, a quem o Pai Se
tinha dignado revelar-Se, declara a sua fé, respondendo-Lhe:
«Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo». Não há nenhuma
incerteza aqui, nem simples opinião, mas sim o poderoso
efeito da revelação feita pelo próprio Pai, da pessoa de
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 113
Cristo, ao discípulo que Ele havia escolhido para gozar
de um tal privilégio.
Aqui a condição do povo manifesta-se de uma maneira
notável, não acerca da lei, como no capítulo precedente,
mas a respeito de Cristo, que lhe 'tinha sido apresentado.
Vemo-la em contraste com a revelação da Sua glória àque­
les que O seguiam. Deste modo temos três classes distintas:
em primeiro lugar os Fariseus arrogantes e incrédulos; em
seguida, as pessoas que sentiam e reconheciam haver em
Cristo um poder e uma autoridade divinos, mas que conti­
nuavam indiferentes; finalmente, a revelação de Deus e a fé
divinamente concedida.
No capítulo 15, a graça para com aquela que só nessa
mesma graça tem esperança, é posta em contraste com a
desobediência e com a perversão hipócrita da lei, pela qual
os Escribas e os Fariseus procuravam ocultar essa desobe­
diência sob o pretexto de piedade.
O capítulo 16, julgando a incredulidade dos Fariseus a
respeito da Pessoa de Cristo, e pondo de lado esses homens
perversos, apresenta a revelação da Sua pessoa como fun­
damento da Igreja, que devia substituir os Judeus como
testemunha de Deus sobre a Terra; e anuncia os desígnios
de Deus acerca do seu estabelecimento. Juntamente com
isto, mostra-nos a administração do reino, tal como* era
agora estabelecido na Terra.
Consideremos primeiramente a revelação da Pessoa de
Cristo. Pedro confessa que Jesus é o Cristo, o cumprimento
das promessas feitas por Deus e das profecias que anun­
ciavam a sua realização. Ele era Aquele que devia vir, o
Messias que Deus tinha prometido. Além disso, Ele era o
Filho de Deus. O Salmo 2 tinha anunciado que, apesar dos
conluios dos chefes perversos do povo e da orgulhosa ini­
mizade dos rei 5 da Terra, o Rei de Deus seria consagrado
sobre o monte de Sião. Era o Filho, gerado de Deus. Os reis
e os juizes da Terra (•) são chamados a submeterem-se-Lhe,
O O estudo dos Salmos fez-nos compreender o que está em relação
com o estabelecimento em bênção do Remanescente judeu nos últimos dias.
8
114 J. N. DARBY
para não serem feridos com o ceptro do Seu poder, quando
Ele tomar as nações por Sua herança. Assim o verdadeiro
crente esperava o Filho de Deus, nascido na plenitude dos
tempos sobre a Terra. Pedro confessou que Jesus era o
Filho de Deus. Natanael também o tinha feito: «Tu és o
Filho de Deus, tu és o Rei de Israel» {João 1:49). E, mais
tarde, Marta diz a mesma coisa.
No entanto Pedro, especialmente instruído pelo Pai,
acrescenta à sua confissão-uma palavra simples, mas muito
poderosa: «Tu és o Filho do Deus vivo». Jesus não é apenas
Aquele que cumpre as promessas e responde às profecias;
é do Deus vivo que Ele é Filho, d’Aquele em Quem está a
vida e o poder vivificante.
O Filho herda desse poder de vida em Deus, que nada
pode vencer nem destruir. Quem é que pode vencer o poder
d ’Aquele — desse Filho — que era procedente de «Aquele
que vive»? Satanás tem o poder da morte; é ele que man­
tém o homem sob o domínio dessa terrível consequência
do pecado; e isto pelo justo Juízo de Deus, que faz a força
desse domínio. A expressão do verso 18: «as portas do in­
ferno», do lugar inivisível, refere-se a esse reino de Satanás.
É, pois, sobre esse poder, que deixa sem força a fortaleza
do Inimigo, que a Igreja é edificada. A vida de Deus não
será destruída. O Filho do Deus vivo não será vencido. Por­
tanto, aquilo que Deus edifica sobre a rocha do poder
imutável de vida em Seu Filho não será derrubado pelo
império da morte. Se o homem sucumbiu e se caiu sob
o poder desse império. Deus, o Deus vivo não será vencido
por ele. È sobre este fundamento que Deus edifica a Sua
Igreja. Ela é a obra de Cristo, fundada sobre iSi como Filho
do Deus vivo — e não do primeiro Adão nem baseada nele.
É fundada sobre a iSua obra, consumada segundo o poder
que esta verdade revela. A Pessoa de Jesus, o Filho do Deus
vivo, é a sua força. A ressurreição é a demonstração dessa
força. Ali, Ele é declarado Filho de Deus em poder. Conse­
quentemente, não é durante a Sua vida, mas sim quando
ressuscitado de entre os mortos que Jesus começa esta
obra. A vida estava n’Ele; mas é após o Pai ter quebrado
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 115
as portas do próprio Inferno (é Ele que, pelo Seu divino
poder, tinha feito isso e ressuscitado) que, subido às altu­
ras, Ele começa, pelo Espírito Santo, a edificar aquilo que
o poder da morte ou o poder daquele que o detinha — agora
já vencido — nunca poderá destruir. (É a Sua Pessoa que
está em vista aqui e é sobre Ela que tudo é fundado. A res­
surreição é a prova de que Ele é o Filho do Deus vivo, e de
que as portas do Inferno nada podem contra Ele; o poder
delas é destruído pela Sua ressurreição. Por isso nós vemos
que a Igreja (embora formada sobre a Terra) é muito mais
do que uma dispensação; mas o reino não o é.
A obra da Cruz era necessária; mas aqui não se trata de
saber o que o justo Juízo de Deus exigia, ou da justificação
de um indivíduo, mas daquilo que anulava o poder do Ini­
migo. Era dado a Pedro reconhecer a Pessoa d’Aquele que
vivia segundo o poder da vida de Deus. Era uma revelação
particular e directa do Céu, da parte do Pai. Sem dúvida.
Cristo tinha dado provas bastantes de Quem Ele era; mas
as provas não tinham produzido qualquer efeito no cora­
ção do homem. A revelação do Pai era o meio de saber
Quem Ele era, e isso ia muito além das esperanças de um
Messias.
Aqui, o Pai tinha revelado directamente a verdade da
própria Pessoa de Cristo, revelação que ultrapassava toda
a questão de relação com os Judeus. Sobre este fundamento,
Cristo edificaria a Sua Igreja. Pedro, já assim chamado pelo
Senhor, recebe, nesta ocasião, uma confirmação desse título.
O Pai tinha revelado a Simão, filho de Jonas, o mistério
da Pessoa de Jesus; e Jesus anuncia também, por meio do
nome que lhe dá (J), a estabilidade, a firmeza, a duração,
a força prática do Seu servo favorecido pela graça.
O direito de dar um nome pertence a um superior que
pode marcar àquele que o usa o seu lugar e o seu nome na
família ou na posição em que esse inferior se encontra. Este
direito, quando é real, supõe o discernimento, compreensão
O A passagem (capítula 16:18) deve ser lida: «Também eu te digo».
116
J. N. DARBY
daquilo que se faz: Adão dá nomes aos animais (Génesis
2:19-20). Nabucodonosor dá novos nomes aos Judeus cativos
(Daniel 1:7); o rei do Egipto a Eliaquim, que tinha colo­
cado no trono e a quem passou a chamar Jeoaquim (2.° Reis
23:34). Jesus toma, pois, este lugar, dizendo a Pedro: Meu
Pai 'to revelou; e eu também te dou um lugar e um nome
relacionado com esta graça. ÍÉ sobre aquilo que o Pai te
revelou que eu vou edificar a minha Igreja (0, contra a qual
(fundada como é sobre esta vida que vem de Deus) as por­
tas do império da morte não prevalecerão nunca; e eu que
edifico, e que edifico sobre este fundamento inabalável, eu
te dou o lugar de uma pedra (Pedro) em relação com este
templo vivo. Pelo dom de Deus, tu pertences já por natu­
reza ao edifício — pedra viva e tendo o conhecimento desta
verdade que é o fundamento e que faz de cada pedra uma
parte do edifício. Pedro era por excelência uma pedra, por
causa daquela confissão; era-o por antecipação pela eleição
de Deus. O Pai, na Sua soberania, fez-lhe esta revelação.
O Senhor assina-lhe ao mesmo tempo o seu lugar como
tendo, Ele, direito de administração e autoridade no reino
que ia estabelecer.
Eis o que nos é dito acerca da Igreja, nomeada aqui
pela primeira vez, tendo os Judeus sido rejeitados por
causa da sua incredulidade, e o homem convencido de
pecado.
Um outro assunto se apresenta ligado àquele da Igreja
que o Senhor ia edificar; a saber, o reino que devia ser
estabelecido. Este reino devia ter a forma do reino dos
(l) É importante distinguir aqui a Igreja que Cristo edifica, ainda não
acabada, mas que Ele mesmo edifica, *e que, manifestada como um todo no
mundo, é edificada, sob responsabilidade, pelo homem. Em Efésios 2:20-21,
e em l.s Pedro 2:4-5 temos esta construção que cresce e é edificada. Não é
feita nenhuma menção do trabalho do homem, quer numa quer noutra dessas
passagens; é um trabalho divino. Em l.s Coríntios 3, Paulo é um sábio
arquitecto; outros podem edificar de madeira, feno ou palha. A confusão daí
resultante tem sido a base do Papado e de outras corrupções que se encon­
tram naquilo que se chama a Igreja. A Igreja de Deus, vista na sua realidade,
é uma obra divina que Cristo realiza e na qual Ele habita.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 117
céus; era-o assim nos desígnios de Deus. Mas tendo o Rei
sido rejeitado sobre a Terra, o reino ia estabelecer-se agora
de uma maneira especial.
Aliás, embora fosse rejeitado, o Senhor tinha as chaves
desse reino; a autoridade pertencia-Lhe. Mas confiá-las-ia
a Pedro que, quando Ele, -Cristo, tivesse partido, abriria
as portas do reino, primeiramente aos Judeus e depois aos
Gentios. Pedro devia exercer também a autoridade no reino,
da parte do Senhor; de modo que o que ele ligasse na Terra
em Nome de Cristo {o verdadeiro Rei, embora assumpto
ao Céu) teria sido ligado no Céu; e se desligasse alguma
coisa na Terra em Nome de Cristo, isso teria sido desligado
no Céu. Numa palavra, Pedro tinha o poder de comando
no reino de Deus na Terra, e este reino tinha agora o carác­
ter de reino dos céus, porque o seu Rei estava no Céu, e o
Céu marcaria com a sua autoridade os actos de Pedro. Mas
o Céu sancionaria os seus actos terrestres, e não o facto de
ligar ou desligar para o Céu. A Igreja, relacionada com o
carácter do Filho do Deus vivo e edificada por Cristo, em­
bora formada sobre a Terra, pertence ao Céu; o reino, em­
bora dirigido do Céu, pertence à Terra — tem aqui o seu
lugar e o seu serviço (*).
O Note-se bem isto, de que, aliás, já falei noutro lugar: Não há chaves
nenhumas de ou para a Igreja ou Assembleia. Pedro tinha as* chaves da
administração do reino. Mas a ideia de chaves em relação com a Igreja, ou
o poder das chaves na Igreja é puro sofisma. Não há nada de semelhante.
A Igreja é edificada; os homens não edificam com chaves, e é Cristo (e não
Pedro) quem a edifica. Por outro lado, os actos assim sancionados eram actos
de administração neste mundo. O Céu sancionava esses actos; não têm relação
com o Céu, mas apenas com a administração terrestre do reino. Além disso,
forçoso é notar que o que é conferido aqui é individual e pessoal. Era um
nome e uma autoridade conferidos a Simão, filho de Jonas.
Algumas outras notas ajudar-nos-ão a melhor compreender o alcance
destes capítulos. Na parábola do semeador (capítulo 13), a Pessoa do Senhor
não nos é apresentada; trata-se apenas de semear — e não de ceifar. Na
primeira analogia do reino, Ele é Filho do homem, e o campo é o mundo.
Jesus está inteiramente fora do Judaísmo. O capítulo 14 mostra-nos o estado
das coisas, desde a rejeição de João Baptista até ao tempo em que o Senhor,
por Seu lado, for reconhecido ali mesmo, onde foi rejeitado. No capítulo 15,
118 J. N. DARBY
Portanto, quatro coisas são assinaladas pelo Senhor
nesta passagem:
Primeira, a revelação feita pelo Pai a Simão;
Segunda, o nome dado a Simão por Jesus, que ia edifi­
car a Sua Igreja sobre o fundamento revelado naquilo que
o Pai tinha comunicado a Simão;
Terceira, a Igreja edificada pelo próprio Cristo, ainda
incompleta, sobre o fundamento da Pessoa de Jesus, reco­
nhecido como Filho do Deus vivo;
Quarta, as chaves do reino destinadas a Pedro, isto é,
a autoridade no reino, dada a Pedro, como administrando-o
da parte de Cristo, ordenando nele o que era da Sua von­
tade e que teria sido ordenado no Céu. Mas tudo isto está
relacionado com Simão pessoalmente, em virtude da elei­
ção do Pai (que, em Sua sabedoria, o tinha escolhido para
receber esta revelação), e em virtude da autoridade de
Cristo (que lhe tinha dado o nome que o distinguia pes­
soalmente no gozo deste privilégio).
Tendo o Senhor, deste modo, dado a conhecer os propó­
sitos de Deus acerca do futuro — propósitos que se cumpri­
riam na Igreja e no reino — já não havia lugar para a Sua
apresentação aos Judeus como Messias. Não é que Ele
abandonasse esse testemunho, cheio de graça e de paciên­
cia para com o povo, testemunho que Ele tinha prestado
durante todo o Seu ministério, não! Esse testemunho con­
tinuava, de facto, mas os Seus discípulos deviam compreen­
der que já não era obra deles anunciá-Lo ao povo como
sendo o Cristo. Desde então Ele começou também a fazer
compreender aos Seus discípulos que devia sofrer, ser
morto e ressuscitar (versos 21 e seguintes).
é a luta moral, e Deus vê-Se a Si próprio ali em graça» como estando
acima do mal. Não me deterei mais sobre este assunto. Mas no capítulo 16.
temos a Pessoa do Filho de Deus, o Deus vivo, depois a Igreja e Cristo o
construtor; no capítulo 17, temos o reino com o Filho do homem vindo
em glória. As chaves (embora o Céu sancione o uso que Simão delas faça)
eram, como vimos, as do reino (e não da Igreja); e isso — a parábola do
joio o demonstra — devia corromper-se e destruir-se, irremediavelmente. Cristo
— e não Pedro — edifica a Igreja (comparar 1.» Pedro 2:4*5).
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 119
Ora, por muito abençoado e honrado que Pedro fosse
pela revelação que o Pai lhe tinha feito, o seu coração
ainda se inclinava de um modo carnal para a glória humana
do seu Mestre (e, para dizer a verdade, para a sua própria),
e estava longe de se elevar à altura dos pensamentos de
Deus. Mas, ai! Ele não está só!... Ser convencido das mais
elevadas verdades, e até mesmo desfrutá-las sinceramente
como verdades, é algo muito diferente de ter o coração
formado para os sentimentos e para andar no mundo de
harmonia com essas verdades. Não é a sinceridade no gozo
da verdade que faz falta. O que é preciso é ter a carne,
o ego mortificados, é estar morto para o mundo. Podemos
desfrutar sinceramente da verdade tal como Deus a ensina,
e, no entanto, não termos a carne mortificada nem o cora­
ção num estado* que seja segundo essa verdade em que Ele
se move neste mundo. iPedro (há pouco tão honrado pela
revelação da glória de Jesus, e constituído, de maneira
muito particular, o depositário da administração do reino
confiada ao Filho — tendo um lugar destacado no estado
de coisas que devia seguir-se à rejeição de Cristo pelos Ju­
deus), Pedro faz agora a obra do Inimigo a respeito da
perfeita submissão de Jesus ao sofrimento e à ignomínia
que deviam introduzir essa glória e caracterizar o reino.
Infelizmente, a coisa era simples demais: Pedro pensava
nas coisas do homem — e não nas de Deus. Mas o Senhor,
na Sua fidelidade, repele-o, e ensina aos Seus discípulos
que a Cruz é o único caminho, o caminho assente, neces­
sário; e quem quisesse segui-Lo devia entrar nesse caminho
que Ele tomava. Aliás, que aproveitaria ao homem ganhar
o mundo inteiro e perder a sua alma? Porque era disso
que se tratava 0 , e não da glória exterior do reino.
(J) Na primeira Epístola de Pedro encontramos frequentemente estes
pensamentos — as palavras «esperança»» «pedra viva» — aplicados primeira­
mente a Cristo e depois aos Cristãos. E, concordando com isto» a salvação
pela vida em Cristo, o Filho do Deus vivo, encontramos ainda aqui: «Alcan­
çando o fim da vossa fé» a salvação das almas». Veja-se também todos os
versos em que o apóstolo apresenta as suas instruções.
120 J. N. DARBY
Após ter examinado este capítulo, como sendo a expres­
são da transição do sistema Messiânico para o estabeleci­
mento da Igreja fundada sobre a revelação da Pessoa de
Cristo, desejo chamar também a atenção para os carac­
teres de incredulidade que ali se desenvolvem, quer entre
os Judeus, quer nos corações dos discípulos. Ser-nos-á útil
observarmos um pouco as formas dessa incredulidade:
Em primeiro lugar ela toma uma forma mais grosseira,
pedindo um sinal do Céu. Os Fariseus e os Saduceus unem­
-se para mostrarem a sua insensibilidade a tudo o que o
Senhor tinha feito. Pedem uma prova para os sentidos na­
turais, ou seja, para a sua incredulidade. Não querem crer
em Deus, quer escutando as Suas pálavras, quer conside­
rando as Suas obras. Seria necessário que Deus satisfizesse
a vontade deles, o que não seria nem a fé nem a obra de
Deus. Eles tinham inteligência para as coisas humanas bem
menos claramente manifestadas, mas não tinham nenhuma
inteligência para as coisas de Deus. Por isso não lhes seria
dado outro sinal senão o de um Salvador perdido para
eles, como Judeus sobre a Terra. Teriam de se submeter,
quer quisessem quer não, ao Juízo da incredulidade que
manifestavam. O reino ser-lhes-ia tirado; o Senhor deixa-os.
O sinal de Jonas está ligado com o assunto de todo o ca­
pítulo.
Vemos em seguida a mesma falta de atenção para com
o poder manifestado nas obras de Jesus; mas já não se
trata da oposição da vontade incrédula: a preocupação
do coração pelas coisas presentes subtrai-o à influência
dos sinais já dados. Mas isto é fraqueza, e não má vontade.
No entanto, os discípulos são culpados, e Jesus chama-os
«homens de pouca fé», mas não «hipócritas» nem «geração
perversa e adúltera».
Vemos depois a incredulidade manifestar-se sob a forma
de uma opinião indolente, que mostra que o coração e a
consciência daqueles de que se trata nâo se interessam por
um assunto que deveria dominá-los — assunto de tal ordem
que se o coração pensasse realmente na sua verdadeira
importância, não teria descanso enquanto não tivesse adqui-
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 121
rido inteira certeza a seu respeito. Neste caso a alma não
sente necessidade de nada e por isso não tem discerni­
mento. Quando a alma sente necessidades, uma só coisa
pode satisfazê-la — e não pode haver descanso enquanto
a não encontrar. A revelação de Deus que criou essas neces­
sidades não deixa a alma tranquila até que ela possua com
toda a certeza o que a despertou. Os que não sentem neces­
sidades, podem permanecer nas probabilidades, cada um
segundo o seu carácter natural, a sua educação e as suas
circunstâncias. Existem muitas coisas para despertar a
curiosidade—a mente está ocupada com elas e faz o seu
juízo. A fé tem necessidades, e, em princípio, tem compreen­
são do objecto que responde a essas necessidades; a alma
é exercitada até encontrar o que precisa. O facto é que
Deus está presente.
É o caso de tPedro. O Pai revela-lhe o Seu Filho. Embora
fosse fraco, encontra-se nele uma fé viva, e reconhece-se
o estado da sua alma quando diz: «Senhor, para quem
iremos nós? Tu tens as pálavras da vida eterna, e nós
temos visto e crido que tu és o Cristo, o Filho do Deus
vivo» (João 6:68-69). Feliz o homem a quem Deus revela
tais verdades! em quem desperta tais necessidades! Pode
haver lutas, muita coisa para aprender, muito que morti­
ficar; mas o plano de Deus está ali com a vida que com
isso se relaciona. Vimos o seu efeito no caso de Pedro. Cada
crente tem o seu lugar no templo do qual Simão era uma
pedra tão destacada. Segue-se então que o coração esteja,
na prática, à altura da revelação que lhe foi feita? Não;
a carne, ao fim e ao cabo, podè não estar mortificada do
lado onde a revelação toca a nossa posição terrestre.
Com efeito, a revelação feita a Pedro implicava a rejei­
ção do Cristo neste mundo — levava necessariamente à hu­
milhação de Cristo e à Sua morte. Esse era o ponto essen­
cial. Substituir a revelação do Filho de Deus, da Igreja e
do reino celeste pela manifestação do Messias na Terra —
o que isso significava, senão que Jesus devia ser entregue
aos Gentios, ser crucificado, e depois ressuscitar? Mas Pe­
dro não havia prestado moralmente atenção a tudo isso.
122 J. N. DARBY
Pelo contrário, o seu coração carnal aproveitava-se da reve­
lação que lhe tinha sido feita e do que o Senhor lhe tinha
dito, para se elevar aos seus próprios olhos. Ele via, pois,
a glória pessoal de Jesus, sem lhe apreender as consequên­
cias morais. Põe-se a repreender o próprio Senhor e pro­
cura afastá-lo do caminho da obediência e da submissão.
O Senhor, sempre fiel, trata-o então como um adversário.
Infelizmente, quantas vezes temos nós gozado, gozado sin­
ceramente de uma verdade, e, no entanto, faltado às conse­
quências práticas que daí decorriam para nós sobre a
Terra! Um Salvador celeste, glorificado, que edifica a Igreja
— isso implica a Cruz sobre a Terra. A carne não com­
preende isto. Ela elevará o seu Messias ao Céu, por assim
dizer; mas tomar a sua parte da humilhação que necessa­
riamente se segue não é a sua ideia de um Messias glorioso.
A carne tem de ser mortificada para tomar esse lugar. Para
isso é-nos necessária a força de Cristo pelo Espírito Santo.
Um crente que não está crucificado para o mundo não é
senão uma pedra de tropeço para todo aquele que procura
seguir a Cristo.
Tais são as formas de incredulidade que precedem a
verdadeira confissão de Cristo e que, infelizmente, se en­
contram naqueles que sinceramente O têm confessado e
conhecido (não estando a carne mortificada de maneira a
fazer andar a alma à altura daquilo que ela aprendeu de
Deus, e estando a inteligência espiritual obscurecida pelo
pensamento das consequências que a carne rejeita).
Mas se a Cruz é a entrada do reino, a glória não tardará
a produzir-se. Sendo o Messias rejeitado pelos Judeus, um
título mais glorioso e de mais profundo alcance é revelado:
o Filho do homem virá na glória de Seu Pai (porque Ele
é Filho de Deus) e dará a cada um segundo as suas obras
(verso 27). Alguns mesmo dos que ali estavam não prova­
riam a morte (pois era dela que falavam) antes de terem
visto a manifestação da glória do reino, que pertencia ao
Filho do homem.
Podemos notar aqui o título de «Filho do homem» posto
como fundamento; o título de Messias é abandonado, en-
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 123
quanto testemunho prestado nesse tempo, e substituído
pelo de «Filho do homem», que Jesus toma ao mesmo
tempo que o de Filho de Deus, e que tinha uma glória que
Lhe pertencia de pleno direito. Jesus devia vir na glória
de Seu Pai, como Filho de Deus, e no Seu reino, como
Filho do homem.
É interessante recordar aqui a instrução que nos é dada
no princípio do Livro dos Salmos. O justo, distinguido da
congregação dos ímpios, foi apresentado no Salmo 1. No
Salmo 2 encontramos a revolta dos reis da Terra e dos
príncipes contra o Eterno e contra o Seu Ungido (quer
dizer, o Seu Cristo). Ora, a este respeito é declarado o de­
creto do Eterno. Adonai, o Senhor, rir-Se-á deles desde
o Céu. Além disso o Rei de Jehovah será estabelecido no
Monte de Sião. Eis o decreto: «O SENHOR me disse: Tu és
meu Filho, Eu hoje te gerei» ('). E é ordenado aos reis
e aos juizes da Terra que beijem o Filho.
Nos Salmos seguintes, toda esta glória é obscurecida.
A angústia do Remanescente, na qual Cristo tem uma parte,
é-nos relatada. Depois, no Salmo 8, Cristo é proclamado
Filho do homem, Herdeiro de todos os direitos conferidos
em soberania ao homem pelos desígnios de Deus. O nome
de Jehovah torna-se excelente em toda a Terra. Estes Sal­
mos não vão além da parte terrestre destas verdades, ex­
cepto na passagem: «Aquele que habita nos céus se rirá
deles» (Salmo 2:4); enquanto que em Mateus 16 a relação
do Filho de Deus com isto e a Sua vinda com os anjos
(para não falar da Igreja) são postas sob os nossos olhos.
Isto é, vemos que o Filho do homem virá na glória do Céu.
Não é que a Sua estadia no Céu seja a verdade anunciada
nesta passagem, mas sim que o Filho do homem, vindo
O Vimos que Pedro ia mais longe. Aqui, Cristo é considerado como
o Filho, nascido sobre a Terra no tempo, e nâo como Filho eternamente
no seio do Pai. Pedro, sem receber a plena revelação desta verdade, vê-O
como Filho segundo o poder da vida divina na Sua própria Pessoa; Pessoa
sobre a qual a Igreja, por conseguinte, podia ser edificada. Mas aqui consi­
deramos o que se reporta ao reind.
124 J. N. DARBY
para estabelecer o Seu reino sobre a Terra, está revestido
da mais elevada glória do Céu. Ele vem no Seu reino.
O reino está eslabelecido sobre a Terra, mas Ele vem com
a glória do Céu para o tomar. iÉ o que o capítulo seguinte
nós vai mostrar, segundo a promessa do verso 28 deste.
iNos Evangelhos que falam do reino, a transfiguração
segue-se imediatamente à promessa de se não provar a
morte antes de ver o reino do Filho do homem. E não
somente isso, mas Pedro.(na sua segunda Epístola 1:16),
falando desta cena, declara que era uma manifestação do
poder e da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Diz ele que
a palavra profética lhes tinha sido confirmada pela reve­
lação da Sua majestade; de sorte qúe os apóstolos sabiam
do que falavam anunciando o poder e a vinda de Cristo,
por terem visto a Sua majestade. É, efectivamente, nesse
sentido que o Senhor fala dela aqui, como temos visto.
A transfiguração era uma demonstração da glória em que
Ele viria depois para confirmar a fé dos Seus discípulos
na perspectiva da Sua morte, a qual lhes acabava de
anunciar.
CAPITULO 17
No capítulo 17, Jesus leva Pedro, Tiago e João a um
alto monte, e ali transfigura-Se perante eles: «O Seu rosto
resplandeceu como o Sol e os Seus vestidos se tomaram
brancos como a luz». Moisés e Elias apareceram também,
falando com Ele. Por agora, deixaremos o assunto da Sua
conversação, o qual é profundamente interessante, até che­
garmos ao Evangelho de Lucas. Este evangelista acrescenta
alguns pormenores que, sob certos aspectos, dão outro
aspecto desta cena.
Aqui, o Senhor aparece em glória e Moisés e Elias com
Ele. Um, o legislador dos Judeus; e o outro, igualmente
distinto, o profeta que procurou reconduzir as dez tribos
apóstatas ao culto de Jehovah, e que, desesperando do povo,
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 125
voltou para Horeb, de onde a lei tinha saído, e foi em se­
guida levado para o Céu, sem passar pela morte.
Estes dois personagens eminentes por excelência nas
relações de Deus com Israel, um fundador, o outro restau­
rador do povo segundo a lei, estes dois homens aparecem
com Jesus. Pedro (surpreendido com esta aparição, alegre
por ver o seu Mestre associado com estes pilares do sis­
tema judaico, com servos de Deus e tão eminentes, igno­
rando a glória do Filho do homem e esquecendo a reve­
lação da glória da Sua Pessoa como Filho de Deus), Pedro
deseja fazer três tendas, e colocar Jesus, Moisés e Elias ao
mesmo nível, como oráculos. Mas a glória de Deus mani-
festa-se; isto é, o sinal conhecido em Israel como morada
(Shechinah) dessa glória (*); e a voz do Pai é ouvida. A graça
pode colocar os Moisés e os Elias na mesma glória que o
Filho de Deus, e associá-los com Ele; mas se a estultícia
do homem, na sua ignorância, pretende pô-los juntos, como
tendo neles mesmos uma autoridade igual sobre o coração
do fiel, o Pai tem de reivindicar imediatamente os direitos
de Seu Filho. Nem um só instante se passa antes de a voz
do Pai proclamar a glória da Pessoa de Seu Filho, a Sua
relação com Ele mesmo, proclamando que Ele é o objecto
de toda a Sua afeição, que encontra n’Ele todo o Seu pra­
zer. É a Ele que os discípulos devem escutar. Moisés e Elias
têm desaparecido. Cristo está ali só, como Aquele que deve
ser glorificado, Aquele que deve ensinar aqueles que escu­
tavam a voz do Pai. O próprio Pai O distingue, O apresenta
à atenção dos discípulos, não como sendo digno do amor
deles, mas como objecto das Suas próprias delícias. Em
Jesus Ele Se ccmprazia. Assim os afectos do Pai são-nos
apresentados como regra para os nossos, oferecendo-lhes
um objecto comum. Que posição para pobres criaturas
como nós! Que graça! (2)
O Pedro, instruído pelo Espírito Santo, chama-lhe «a glória excelente».
(a) Não é por causa do valor divino do seu testemunho que Moisés e
Elias desaparecem. Não podia haver disso uma confirmação mais forte do
que esta cena, como diz Pedro. Mas« não só eles não eram o tema do teste-
126 J. N. DARBY
Ao mesmo tempo a lei e toda a ideia da sua restauração
sob a antiga aliança tinham passado; e Jesus, glorificado
como Filho do homem e Filho do Deus vivo, fica o único
dispenseiro do conhecimento e dos pensamentos de Deus.
Os discípulos prostram-se sobre os seus rostos, com grande
medo, ao ouvirem a voz de Deus. Jesus, para quem esta
glória e esta voz eram naturais, encoraja-os, como sempre
fazia neste mundo, dizendo-lhes: «Não tenhais medo» (ver­
so 7). Eles estavam com Ele, que era o objecto da afeição
do Pai; porquê, pois, temer?! O melhor amigo deles era
a manifestação de Deus sobre a Terra; a glória pertencia-
-Lhe. Moisés e Elias tinham desaparecido, do mesmo modo
que a glória, que os discípulos não eram ainda capazes de
suportar. Jesus — que lhes tinha sido assim manifestado
na glória que Lhe era dada e nos direitos da Sua gloriosa
Pessoa nas Suas relações com o Pai — Jesus fica-lhes, o
mesmo que eles tinham sempre conhecido. Mas esta glória
não devia ser o assunto do testemunho deles até que Ele,
o Filho do homem, ressuscitasse de entre os mortos — o
Filho do homem no Seu sofrimento. Era preciso então dar
a grande prova de que Ele era o Filho de Deus em poder.
O testemunho a este respeito devia ser prestado, e Ele
entraria pessoalmente naquela glória que acabava de ser
exposta perante os olhos deles.
munho de Deus, como o era Cristo, mas também o seu testemunho se não
referia às coisas celestes, que deviam então ser reveladas em conexão com
o Filho, vindo do Céu, e as suas exortações não o atingiam. O próprio João
Baptista estabelece esta diferença (João 3:13 e 31-34). É por isso que, como
é revelado, o Filho do homem devia ser elevado. Por isso o Senhor ordena
aqui aos Seus discípulos que não digam que Ele é o Messias, porque o
Filho do homem devia sofrer. Era uma mudança na vida e no ministério
do Senhor, e a glória futura do reino era revelada aos discípulos; mas então
Ele devia sofrer (ver João 12:27). A história dos Judeus tinha terminado no
capítulo 12, ou, mais exactamente, no capítulo 11; e o fundamento da
mudança estava posto. Encontramos João e o Senhor, ambos rejeitados; uma
submissão perfeita; depois todas as coisas entregues a Cristo por Seu Pai,
e Ele revelando o Pai (comparar João 13:14). Mas em Mateus, fora do
Judaísmo, começa pelo que Ele trouxe, não procurando fruto no homem.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 127
Levanta-se então uma dificuldade no espírito dos discí­
pulos produzida pela doutrina dos escribas acerca de Elias.
Elias — diziam eles—devia vir antes da manifestação do
Messias; e, com efeito, a profecia de Malaquias 4:5-6 dava
lugar a essa expectativa. Os discípulos perguntam a Jesus:
«Porque dizem então os Escribas que é mister que Elias
venha primeiro?» (isto é, antes da manifestação do Mes­
sias); ao passo que nós acabamos de ver que Tu és, TU,
esse Messias. E no entanto Elias ainda não veio. Jesus
confirma as palavras da profecia, acrescentando que Elias
restauraria todas as coisas (verso 11). «Mas — continua o
Senhor — digo-vos que Elias já veio, e não o conheceram,
mas fizeram-lhe tudo o que quiseram. Assim farão eles tam­
bém padecer o Filho do homem» (verso 12). Então os discí­
pulos compreenderam que Ele falava de João Baptista, que
tinha vindo no espírito e no poder de Elias, como o Espí­
rito Santo tinha anunciado a Zacarias, seu pai (Lucas 1:17).
Mas esta passagem exige algumas considerações:
Em primeiro lugar, quando o Senhor diz (Mateus 17:11):
«Em verdade Elias virá primeiro, e restaurará todas as
coisas», apenas confirma o que os escribas diziam, segundo
a profecia de Malaquias, como se dissesse: «Eles têm ra­
zão». Em seguida o Senhor declara o efeito da vinda de
Elias: «Restaurará todas as coisas». Ora, o Filho do homem
devia ainda vir. Jesus tinha dito aos Seus discípulos: «Não
acabareis de percorrer as cidades de Israel sem que venha
o Filho do homem», como lemos em Mateus 10:23. Entre­
tanto o Filho do homem tinha vindo e era Ele mesmo que
falava com eles. Mas esta vinda do Filho do homem, de
que Ele falava, é a Sua vinda em glória, quando for mani­
festado Filho do homem em Julgamento, segundo Daniel 7.
Era assim que tudo o que tinha sido dito aos Judeus seria
cumprido; e, no Evangelho segundo S. Mateus, Jesus fala
aos Seus discípulos seguindo esta expectativa. No entanto
Jesus devia ser apresentado à nação, e devia sofrer. Era
necessário que a nação fosse posta à prova pela apresenta­
ção do Messias segundo a promessa. Isto foi feito, e como
Deus tinha predito pelos profetas: «Ele foi desprezado dos
128
J. N. DARBY
homens». De igual modo João O precedeu segundo Isaías 40,
como a voz no deserto, no espírito e poder de Elias; mas
João foi rejeitado, como devia sê-lo o Filho do homem (!).
Então o Senhor, por meio destas palavras, anuncia aos
Seus discípulos, em relação com a cena que eles acabavam
de contemplar e com toda esta parte deste Evangelho, que
o Filho do homem, tal como era agora apresentado aos
Judeus, devia ser rejeitado. Este mesmo Filho do homem
devia ser manifestado em- glória, tal como eles o tinham
visto momentaneamente sobre o monte. Com efeito, Elias
devia vir, como diziam os Escribas, mas João Baptista
tinha preenchido essa função de Elias em poder para a
apresentação do Filho do homem; a qual (sendo os Judeus
deixados, como deviam ser, à sua própria responsabilidade)
terminaria com a Sua rejeição, e com a rejeição de Israel
até aos dias em que Deus começasse de novo as Suas rela­
ções com o Seu povo sempre bem-amado, fosse qual fosse
a sua condição. Deus restabeleceria então todas as coisas
(obra gloriosa que Ele realizaria introduzindo o Seu Uni­
génito Filho no mundo). A expressão de «restabelecer todas
as coisas» refere-se aqui aos Judeus, e num sentido moral.
Em Actos, capítulo 3, refere-se ao efeito da própria pre­
sença do Filho do homem.
A presença temporária do Filho do homem foi o mo­
mento da realização de uma obra da qual depende a glória
eterna, e na qual Deus foi plenamente glorificado, acima
e além de todas as dispensações; de uma obra cuja glória
visível do Filho do homem é o fruto, tanto quanto esta
glória depende da Sua obra, e não da Sua Pessoa divina;
de uma obra enfim na qual, moralmente, Ele foi perfeita­
mente glorificado, glorificando plenamente a Deus. Todavia,
no que concerne às promessas feitas aos Judeus, esta pre­
sença do Filho do homem não era senão o último' passo na
prova a que esse povo era submetido pela graça. Deus sabia
O João Baptista rejeita também a aplicação para si próprio de Mala-
quias 4:5-6; enquanto que Isaías 40 e Malaquias 3:1 Lhe são aplicados em
Lucas 1:76 e 7:27.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 129
bem que eles rejeitariam o Seu Filho; mas não quis tê-los
por definitivamente culpados até que eles o tivessem feito.
Deste modo Deus, na Sua sabedoria divina (embora cum­
prindo mais tarde as Suas imutáveis promessas), apresen­
ta-lhes Jesus — o Seu Filho, o Messias que eles esperavam.
Dá-lhes todas as provas necessárias. Envia-lhes João Bap­
tista como Seu percursor no espírito e poder de Elias.
O Filho de David nasceu em Belém, com todos os sinais
que deveriam ter convencido esse povo. Mas os Judeus
estavam cegos pelo orgulho e pela sua própria justiça,
e tudo rejeitaram.
Não obstante, convinha que Jesus Se adaptasse em gra­
ça, quanto à Sua posição, ao estado miserável de Israel.
Assim também, antítipo de David rejeitado no seu tempo,
partilhava da aflição do Seu povo. Se os Gentios oprimiam
esse povo, Ele, o seu Rei, devia associar-Se à sua angústia,
dando ao mesmo tempo todas as provas do que Ele era,
e buscando os Seus em amor. Uma vez rejeitado, tudo se
converte em pura graça. Os Judeus já não têm direito a
coisa alguma segundo as promessas, e ficam reduzidos a
receberem tudo dessa mesma graça, como faria um pobre
Gentio. Deus nãc faltará à Sua graça. Assim Deus colocou-
o s na verdadeira condição de pecadores, e não deixará de
cumprir as Suas promessas. Este é o tema de Romanos 11.
Ora o Filho do homem, que virá, será este mesmo Jesus
que agora Se retirou. Os céus recebêJLo-ão até ao tempo do
restabelecimento de todas as coisas de que falaram os pro­
fetas. Mas aquele que era o Seu precursor durante a Sua
presença temporária neste mundo, não podia ser o mesmo
Elias. João era, pois, conforme à manifestação de então
do Filho do homem, excepto a diferença que necessaria­
mente decorria da Pessoa do Filho do homem. Este não
podia ser senão um, enquanto que isso podia não ser o
caso para João Baptista e Elias. Mas como Jesus manifes­
tou todo o poder do Messias, todos os Seus direitos a tudo
o que pertencia a esse Messias, sem revestir ainda a glória
exterior, por não ter ainda chegado o Seu tempo (João 7),
também João cumpriu moralmente e em poder a missão de
9
130 J. N. DARBY
Elias para preparar o caminho do Senihor ante a Sua face
(segundo o verdadeiro carácter da Sua vinda, tal como ela
se cumpria então), e respondeu literalmente a Isaías 40,
e mesmo a Malaquias 3, as únicas passagens que lhe são
aplicadas. É por esta razão que João afirmou que ele não
era Elias, e que o Senhor disse: «E se quereis dar crédito,
é este o Elias que havia de vir», (Mateus 11:14). Ê por isso
também que João nunca aplicou a si mesmo Malaquias 4:5-6,
anunciando-se apenas como aquele que cumpria Isaías
40:3-5, e isto em todos os Evangelhos, qualquer que seja
o seu carácter particular 0 .
Mas continuemos o estudo deste capítulo. Se o Senhor
sobe à glória, a verdade é que também desce a este mundo,
mesmo agora, em Espírito e em simpatia, e encontra a
multidão e o poder de Satanás, com os quais nós temos de
nos haver. Enquanto o Senhor estava no monte, um infeliz
pai trazia aos discípulos seu filho que era lunático e pos­
sesso de um demónio (versos 14 e seguintes). Aqui é reve­
lado um outro carácter da incredulidade do homem, até
mesmo do crente — a incapacidade de se servir do poder
que está, por assim dizer, à sua disposição no Senhor.
Cristo, o Filho de Deus, o Messias, o Filho do homem, tinha
vencido o Inimigo, tinha manietado o homem forte e tinha
o direito de o expulsar. Como homem, SER obediente, ape­
sar das tentações de Satanás, Cristo tinha-o vencido no
deserto, e tinha assim, como homem, o direito de o des­
tituir do seu poder sobre o homem, quanto a este mundo;
e é o que Ele tem feito. Expulsando os demónios e curando
os enfermos, Ele livrava o homem do poder do Inimigo.
«Deus — diz Pedro, em Actos 10:38 — ungiu a Jesus de Na­
zaré com o Espírito Santo e com virtude; o qual andou
fazendo bem e curando a todos os oprimidos do diabo».
Ora, este poder deveria ter sido usado pelos discípulos,
os quais deveriam ter sabido usar, pela fé, do poder que
Jesus tinha assim manifestado sobre a Terra; mas eles não
0) Ver a nota precedente.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 131
puderam fazê-lo. Portanto, que vantagem havia em trazer
este poder à Terra, se os discípulos não tinham fé para
o usar? O poder estava ali. O homem podia aproveitar-se
dele para sua completa libertação de toda a opressão do
inimigo, mas não tinha fé para o fazer — até mesmo os
crentes não a tinham. A presença de Cristo tornava-se
assim inútil sobre a Terra, visto que até mesmo os Seus
discípulos não sabiam como aproveitar-se dela. Havia mais
fé no homem que tinha trazido o filho do que neles, pois
a necessidade de auxílio levou-o a buscar o remédio. Todos,
portanto, ficam sob esta sentença do Senhor: «C geração
incrédula e perversa!» (verso 17). Ele tem de os deixar; e
aquilo que a glória tinha revelado ao Céu, o incrédulo o
realizará neste inundo.
Note-se que não é o mal no mundo que põe fim à inter­
venção especial de Deus; pelo contrário, dá lugar à inter­
venção da graça. Cristo tinha vindo por causa do império
de Satanás sobre o homem. Ele retira-Se porque aqueles
que O tinham recebido são incapazes de usar o poder que
Ele trouxe Consigo, ou que concede para os livrar; não
sabem aproveitar as vantagens de que gozam. Faltava-lhes
a fé. No entanto notemos ainda esta importante e impres­
sionante verdade que, enquanto esta dispensação de Deus
continua, Jesus não deixa de atender a fé individual com
bênção, até mesmo quando os Seus discípulos não sabem
glorificá-Lo por meio do exercício da fé. A mesma sentença
que condena a incredulidade dos discípulos convida o atri­
bulado pai ao gozo da bênção. Afinal de contas, para nos
podermos aproveitar deste poder, temos de estar em comu­
nhão com Jesus pela energia prática da fé.
Jesus abençoa, pois, o pobre pai segundo as suas neces­
sidades, e, cheio de paciência, retoma o curso das instru­
ções que dava aos Seus discípulos acerca do objectivo da
Sua rejeição e da Sua ressurreição como Filho do homem.
Amando o Senhor, e incapzes de levarem por diante as suas
ideias além das circunstâncias do momento, os discípulos
sentem-se perturbados; todavia isto era a redenção, a salva­
ção, a glória de Cristo.
132
J. N. DARBY
Antes, porém, de continuar, e expondo-lhes o que con­
vinha aos discípulos de um Senhor rejeitado e a posição
que iam ocupar, põe diante deles a Sua glória divina e a
relação deles com Aquele que a possuía, do modo mais
impressionante, se ao menos eles a pudessem ter com­
preendido. Ao mesmo tempo coloca-Se com perfeita condes­
cendência e ternura no mesmo lugar deles, ou antes, colo-
ca-os a eles no mesmo lugar que Ele tem como Filho do
grande Rei do templo e de toda a Terra, como vemos nos
versos 24-27.
« Os que cobravam o tributo para o serviço do templo
vieram e perguntaram a Pedro se. o seu Mestre não o pa­
gava. Sempre pronto a salientar-se, esquecido da glória
que tinha visto e da revelação que lhe fora feita pelo Pai,
Pedro, descendo ao nível normal dos seus próprios pensa­
mentos, ansioso por ver o seu Mestre considerado como
um bom Judeu, e sem O consultar, responde que sim.
O Senhor antecipa-Se a Pedro, quando ele entra, e mostra-
-lhe o Seu conhecimento divino do que tivera lugar longe
de Si. Ao mesmo tempo fala de Pedro e de Si como sendo
ambos filhos do Rei do templo (Filho de Deus, mantém
ainda em paciente bondade o Seu humilde lugar como
Judeu) e estando, por conseguinte, ambos livres do tributo.
Mas não deviam escandalizar ninguém. Comanda então a
Criação (porque Ele pode tudo assim como conhece todas
as coisas) e faz com que um peixe traga a importância
necessária, associando de novo o nome de Pedro ao Seu.
Ele tinha dito: «Para que os não escandalizemos», e agora
diz: «Dá-o por mim e por ti». Maravilhosa e divina con­
descendência! Aquele que sonda os corações e dispõe à von­
tade da Criação, o Filho do Soberano Senhor do templo
coloca os Seus pobres discípulos na mesma relação com
Seu Pai celestial, com o Deus que era adorado nesse mes­
mo templo. Submete-Se aos deveres que teriam sido exigi­
dos justamente aos estranhos, mas coloca o Seu discípulo
na posse de todos os privilégios que Lhe pertencem como
Filho. Vemos claramente a relação entre esta comovente
expressão da graça divina e o assunto destes capítulos. De-
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 133
monstra todo o alcance da mudança que se estava ope­
rando.
É interessante notar que a primeira Epístola de Pedro
é baseada em Mateus 16, e a segunda no capítulo 17, que
acabamos de estudar (*). No capítulo 16, Pedro, instruído
pelo Pai, confessa que o Senhor é o Filho do Deus vivo;
e o Senhor diz que sobre esta pedra edificará a Sua Igreja,
e que aquele que tinha o império da morte não prevale­
ceria contra ela. Assim também Pedro, na sua primeira
Epístola, declara que eles eram de novo nascidos para
uma viva esperança pela ressurreição de Jesus Cristo de
entre os mortos. Ora, é por esta ressurreição que o poder
da vida do Deus vivo é manifestado. Em seguida Pedro
fala de Cristo como sendo a Pedra Viva, ao Qual vindo nós
também como pedras vivas, somos edificados templo santo
para o Senhor.
Na segunda Epístola, ele refere, de maneira especial,
a glória da transfiguração como prova da vinda e do reino
do Filho do homem; fala também, nesta segunda Epístola,
do Juízo do Senhor.
CAPITULO 18
Aqui, os grandes princípios que convêm à nova ordem
de coisas são comunicados aos discípulos. Examinemos um
pouco estas doces e preciosas instruções do Senhor.
Podem ser consideradas de duas maneiras. Revelam
os caminhos de Deus a respeito do que tomaria o lugar
do Senhor sobre a Terra como testemunho prestado à
graça e à verdade, e, além disso, descrevem o carácter
O Estas duas Epístolas, após terem estabelecido a redenção pelo pre­
cioso sangue de Cristo, e a regeneração pela semente incorruptível da Palavra,
tratam do governo de Deus. Na primeira, encontramos a sua aplicação aos
Seus, para os conservar; na segunda, esta aplicação é feita aos maus e ao
mundo. Vai até aos elementos abrasados, que se fundirão, e, finalmente, até
aos novos céus e à nova Terra.
134 J. N. DARBY
que é, em si, o verdadeiro testemunho que deve ser dado.
Este capítulo pressupõe Cristo rejeitado e ausente, e a
glória do capítulo 17 como futura. Passa em claro o capí­
tulo 17 para se ligar com o capítulo 16 (excepto os versos
finais do capítulo 17, que dão um testemunho prático da
abdicação que Cristo fez dos Seus verdadeiros direitos
até que Deus os faça valer).
O Senhor fala dos dois assuntos incluídos no capítulo 16
— o Reino e a Igreja. O que conviria ao reino seria a sim­
plicidade de uma criança que não sabe fazer valer os seus
direitos perante um mundo que não lhe presta atenção —
o espírito de dependência e de humildade. Os habitantes
desse reino têm de se tornar como meninos. Na ausência
do Senhor rejeitado, era este o espírito que convinha aos
que O seguem. Todo aquele que receber um menino em
nome de Jesus, recebe-0 a Ele mesmo. Por outro lado, todo
aquele que puser uma pedra de tropeço no caminho de um
desses pequeninos que crêem em Jesus (*), será submetido
a um terrível julgamento (versos 5-6). Desgraçadamente é
mesmo isto o que o mundo faz; mas, ai do mundo por causa
disso!
Quanto aos discípulos, se aquilo que eles mais estima­
vam se convertesse num ardil para eles, deviam arran­
cá-lo e destruí-lo (versos 8-9) — deviam ter, agindo em
graça, o máximo cuidado para não serem um tropeço para
aquele que cria em Cristo, e usar da mais implacável seve­
ridade quanto a si mesmos, em tudo que para eles repre­
sentasse ocasião de queda. A perda de tudo aquilo que
neste mundo era precioso nada representava quando com­
parado com o seu estado eterno num outro mundo; porque
era disso que então se tratava, e o pecado não podia en­
contrar lugar na casa de Deus. Solicitude acerca dos outros,
mesmo dos mais fracos; severidade para consigo mesmo
—tal era a regra do reino, para que nenhuma cilada ou
(') Aqui o Senhor distingue «um pequenino que crê». Nos outros versos
fala de um menino, fazendo do seu carácter, como tal, o modelo do Cristão
no mundo.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 135
mal pudesse ali manifestar-se. Quanto às ofensas, era neces­
sária uma perfeita graça no perdão. Não deviam desprezar
estes pequeninos; porque, se eles não sabiam abrir o seu
caminho neste mundo, eram, contudo, o objecto do favor
especial do Pai, tal como aqueles que, nas cortes terrestres,
tinham o privilégio particular de ver a face do rei (ver­
so 10). Não é que não houvesse pecado neles, mas o Pai não
desprezava aqueles que estavam longe de Si. O Filho do
homem tinha vindo para salvar o que estava perdido (’).
E não era da vontade do Pai celeste que perecesse um só
— nem um só — destes pequeninos (versos 11-14). Não du­
vido de que o Senhor fala aqui dos pequeninos, como
aqueles que Ele tinha em Seus braços; mas inculca nos
Seus discípulos o espírito de humildade e de dependência,
por um lado, e, por outro lado, esse espírito do Pai que eles
deviam imitar para serem verdadeiramente filhos do reino.
Não deviam andar segundo o espírito do homem que quer
manter o seu lugar e fazer-se valer; mas deviam humilhar-
-se e suportar o desprezo, e, ao mesmo tempo (o que é a
verdadeira glória), imitar o Pai, que considera os humildes
e os admite na Sua presença. O Filho do homem tinha
vindo em favor daqueles que eram desprezíveis e despre­
zados. Eis o espírito dO‘ reino. É este o espírito da graça
de que se fala no fim do capítulo 5. üé o espírito do reino.
Mas a Igreja mais particularmente devia ocupar o lugar
de Cristo na Terra. Quanto às ofensas pessoais, este mesmo
espírito de doçura convinha ao Seu discípulo; ele devia
ganhar o seu irmão. Se aquele que tinha pecado contra
o seu irmão escutava, então o assunto devia ser sepultado
no coração daquele que tinha sido ofendido; se não escu­
tava, o ofendido devia levar consigo duas ou três pessoas
e ir junto do ofensor a fim de atingirem a sua consciência
ou servirem de testemunhas; mas se estes meios assim esti-
(') Como doutrina, o estado de pecado do menino e a sua necessidade
do sacrifício de Cristo são claramente verificados aqui. Ele não diz «buscar»,
para eles. O emprego da parábola da ovelha extraviada é aqui muito im­
pressionante.
136
J. N. DARBY
pulados fossem ineficazes, era preciso dar conhecimento
à Igreja do assunto; e se o culpado não se submetesse,
devia ser considerado como um estrangeiro, como o era
para Israel um pagão e um publicano. Não se trata aqui
da disciplina pública da Igreja, mas do espírito em que os
crentes deviam andar. Se o transgressor cedia à advertên­
cia, era preciso perdoar-lhe setenta vezes sete vezes por dia.
Mas, embora se não trate da disciplina da Igreja, vemos
que a Assembleia toma o. lugar de Israel sobre a Terra.
A expressão: os que estão dentro e os que estão fora repor­
ta-se doravante a ela. O Céu teria ratificado o que a Igreja
ligar na Terra; e o Pai também concederia o que dois ou
três concordassem em pedir; porquê Cristo está onde dois
ou três se reunirem em Seu Nome 0 . Assim, quer para as
decisões a tomar, quer para as orações, eles eram como
Cristo na Terra, porque o próprio Cristo estava ali com
eles. Que solene verdade! Favor imenso concedido a dois
ou três quando verdadeiramente reunidos em Seu Nome!
Mas este é um assunto de profunda consternação quando
0) É importante recordar aqui que — enquanto o Espírito Santo é ple­
namente reconhecido em Pessoa em Mateus, como, por exemplo, no nasci­
mento do Senhor, e, no capítulo 10, agindo e falando como Pessoa divina
nos discípulos que realizavam o serviço que lhes fora destinado, porque é
sempre por Ele e só por Ele que nós podemos agir justamente — a vinda
do Espírito Santo, na ordem de uma dispensação divina, não faz parte do
ensino deste Evangelho, embora seja reconhecido de facto no capítulo 10.
A presença de Cristo em Mateus, visível como homem, termina com a Sua
ressurreição; o Remanescente Judeu é enviado da Galileia para o mundo
como um corpo aceite, para evangelizar os Gentios, e Jesus declara que
estará com eles até à consudiação do século. Assim, aqui encontra-Se no
meio de dois ou três reunidos em Seu Nome. A Igreja aqui não é o corpo
constituído pelo baptismo do Espírito Santo sobre a Terra; mas se dois ou
três estão reunidos em Seu Nome, Cristo está no meio deles. Ora, eu não
duvido de que todo o bem da vida de Cima e a Palavra de Vida vêm do
Espírito, mas isso é outra coisa, e a Igreja aqui não é nem o corpo nem
a casa em virtude da descida do Espírito Santo. Este ensinamento e esta
revelação eram posteriores, e, felizmente, continuam verdadeiros; mas aqui
temos Cristo no meio daqueles que estão reunidos em Seu Nome. Mesmo no
capítulo 16, é Ele que edifica, mas isso é outra coisa. Evidentemente que é
espiritualmente que Ele está presente.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 137
existe apenas a pretensão à unidade, mas sem a menor
realidade 0 .
Um outro elemento próprio do carácter do reino, que
tinha sido manifestado em Deus e em Cristo, é a graça
que perdoa. Também nisto os filhos do reino devem ser
os imitadores de Deus, e perdoar sempre. Mas isto refere-se
somente a ofensas pessoais, e não à disciplina públioa. De­
vemos perdoar até ao fim, ou antes, não encontrar limites
para esta acção, do mesmo modo que Deus tudo nos per­
doou. Ao mesmo tempo que isto, creio que as dispensa-
ções de Deus para com os Judeus são aqui descritas. Eles
não só tinham violado a lei, mas tinham também morto
o Filho de Deus. Cristo intercedeu por eles, dizendo: «Pai,
perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lucas 23:34).
Em resposta a esta oração, um perdão provisório foi anun­
ciado pelo Espírito Santo, pela boca de Pedro (Actos 3).
Mas esta graça foi também rejeitada. Quando se tratava
de fazer graça aos Gentios que, sem dúvida, lhes deviam
os cem dinheiros, não queriam ouvir falar disso, e foram
entregues ao castigo 10, até que o Eterno pudesse dizer
«Já recebeu em dobro... por todos os seus pecados».
Numa palavra, o espírito do reino não consiste em poder
exterior, mas em humildade. E, neste estado, está-se perto
do Pai, e então é fácil ser-se doce e humilde neste mundo.
Aquele que tiver sentido o favor de Deus não procurará ser
grande sobre a Terra; está imbuído do espírito da graça,
acarinha os humildes, perdoa àqueles que lhe têm feito
mal, está junto de Deus e parece-se com Ele nos seus cami­
nhos. O mesmo espírito da graça reina quer na Igreja quer
0) Ê deveras impressionante ver aqui que a única sucessão na função
de ligar e desligar que o Céu sanciona é a dos dois ou três reunidos em
Nome de Cristo.
O Este acto de entregar ao castigo, e a revelação formal da posição
celeste intermediária em relação com o Filho do homem na glória encon­
tram-se em Actos 7, quando Estêvão relata a história do povo Judeu, desde
Abraão, o primeiro chamado como fundamento da promessa, até àquele
momento.
138
J. N. DARBY
nos seus membros. Somente a Igreja representa Cristo
sobre a Terra; e é a ela que se referem essas regras fun­
dadas sobre a aceitação de um povo como pertencendo a
Deus. Dois ou três realmente reunidos em Nome de Jesus,
actuam com a Sua autoridade e gozam dos Seus privilégios
junto do Pai, porque o próprio Jesus está ali, no meio deles.
CAPÍTULO 19
Este capítulo prossegue o assunto do espírito que con­
vém ao reino dos céus, e penetra profundamente nos prin­
cípios que governam a natureza humana e no que era então
divinamente introduzido. O Senhor aproximou-Se da Ju­
deia; e uma questão dos Fariseus dá lugar à exposição
da Sua doutrina acerca do matrimónio. Deixando a lei dada
por causa da dureza dos seus corações, Ele reporta-Se (l)
0) A relação é marcada aqui entre a coisa nova e a natureza, como
Deus a tinha formado no princípio, passando por cima da lei, considerada
somente como algo de intermediário. Era um novo poder, porque o pecado
tinha aparecido, mas a Criação de Deus é reconhecida, mostrando inteira­
mente o estado do coração que não admite a sua fraqueza. O pecado corrom­
peu o que Deus tinha criado de bom. O poder do Espírito de Deus, que
nos foi dado pela redenção, coloca o homem e o seu caminho absolutamente
fora de todo o estado da carne, e introduz um novo poder divino, pelo qual
o homem anda neste mundo, seguindo o exemplo de Cristo. Mas, com isto,
temos a mais completa sanção daquilo que o próprio Deus estabeleceu no
princípio. Isto é bom, embora pudesse haver algo de melhor. Ê muito
impressionante a maneira como a lei é posta de lado para voltar à primitiva
instituição de Deus, o poder espiritual, não retirando inteiramente o coração
de toda a cena, embora ele ali andasse. O Senhor reconhece, no casamento,
o filho, o carácter do jovem, o que é.de Deus e o que é amável na natureza.
Mas o estado do coração do homem é sondado. Isto não depende do carácter,
mas dos motivos, e é plenamente posta à prova por Cristo (há uma completa
mudança dispensacional, porque eram prometidas riquezas a um Judeu fiel),
e por um Cristo rejeitado — o caminho do Céu — toda a coisa e a prova
de toda a coisa, isto é, do coração do homem.
Deus fez o homem íntegro com certas relações de família. O pecado
corrompeu completamente essa velha ou primeira Criação do homem. A vinda
do Espírito Santo trouxe um poder que, no segundo homem, nos transporta
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 139
à instituição de Deus, segundo a qual o homem e a mulher
se deviam unir, para serem apenas um aos olhos de Deus.
Estabelece, ou antes, restabelece o verdadeiro carácter do
vínculo indissolúvel do matrimónio. Digo indissolúvel, por­
que a excepção para o caso de infidelidade não abrange
um', a pessoa culpada havia já quebrado o vínculo. O ho­
mem e a mulher já não eram uma só carne. Ao mesmo
tempo, se Deus dava a força espiritual para isso, era ainda
melhor ficar só (versos 10-12).
O Senhor renova então as Suas instruções acerca das
crianças, testemunhando a Sua afeição por elas. Parece-me
que Ele b faz aqui relacionando o facto com a ausência
de tudo o que liga ao mundo, às suas distracções e às suas
concupiscências, e reconhecendo o que é amável, confiante
e visivelmente puro na natureza; ao passo que, no capí­
tulo 18, tratava-se do carácter intrínseco do reino.
Depois disto, Jesus mostra (em relação com a intro­
dução do reino na Sua Pessoa) a natureza da dedicação
absoluta e do completo sacrifício de todas as coisas para
O seguirem, se verdadeiramente procuravam agradar a
Deus. O espírito do mundo, as paixões carnais e as riquezas
são em todo o sentido opostos a um tal acto. Sem dúvida,
a lei de Moisés restringia essas paixões; mas supunha-as
e, em certo sentido, suportava-as. Segundo a glória do
mundo, uma criança nada valia. Que poder poderia ela ter
nessa glória? Mas ela é preciosa aos olhos do Senhor.
A lei prometia a vida àquele que a observasse. O Senhor
torna-a simples e prática nas suas exigências, ou antes
da velha para a nova Criação e nos dá as coisas celestes — somente, isto
não é ainda quanto ao vaso, o corpo. Mas isso não pode negar nem condenar
o que Deus criou no princípio. É impossível. No princípio Deus os fez.
Quando chegamos ao estado celeste, tudo isso desaparece, mas não os frutos
que daí provêm por graça. Se um homem, pelo poder do Espírito Santo,
tem o dom de o fazer e fica inteiramente celeste, tanto melhor; mas é
absolutamente mau falar contra as relações que Deus criou no princípio, ou
condená-las, ou minimizá-las, ou denegrir a autoridade que Deus conferiu a
tudo isso. Se um homem pode viver santamente acima e fora dessas relações,
para servir a Cristo, está muito bem, mas isso é raro e excepcional.
140 J. N. DARBY
recorda essas exigências na sua verdadeira simplicidade.
As riquezas não eram proibidas pela lei; quer dizer, em­
bora as obrigações morais entre homem e homem fossem
mantidas pela lei, o que ligava o coração ao mundo não
era julgado por ela. Segundo o governo de Deus, a pros­
peridade ligava-se à obediência à lei, porque ela reconhecia
o mundo e reconhecia que o homem vivia nele — e ali o
provava. Cristo reconhece isto mesmo; mas os motivos do
coração são postos à prova. A lei era espiritual, e o Filho
de Deus estava ali. Encontramos outra vez o que já tínha­
mos visto, isto é, o homem posto à prova e Deus revelado.
Tudo na natureza da lei é intrínseco e eterno, porque Deus
está já revelado. Cristo julga tudo ò que corrompe o cora­
ção, que actua sobre o seu egoísmo e o separa assim de
Deus. «Vende o que tens — diz Ele —e segue-me». Infeliz­
mente o jovem não podia renunciar às suas riquezas, ao
seu bem-estar, a si próprio. «É difícil — diz Jesus — entrar
um rico no reino dos céus». Isto era evidente: era o reino
de Deus, o reino dos céus; o eut o egoísmo, o mundo não
tinham ali nenhum lugar. Os discípulos, não compreenden­
do que não existe bem algum no homem, espantavam-se
de que um homem tão favorecido e tão bem intencionado
estivesse ainda longe da salvação. Quem poderia então
salvar-se? Revela-se então toda a verdade: É impossível aos
homens; eles não podem vencer as concupiscências da car­
ne. Moralmente, elas são o próprio homem quanto à sua
vontade e aos seus afectos. Não se pode branquear um
negro nem tirar as manchas da pele a um leopardo: o que
eles exibem está na sua própria natureza. Mas para Deus
— bendito seja o Seu Nome! — tudo é possível.
Estas instruções acerca das riquezas levam Pedro a per­
guntar qual seria a porção daqueles que tinham renunciado
a tudo. Somos assim reconduzidos à glória do capítulo 17.
Haverá uma regeneração; o estado de coisas será inteira­
mente renovado sob o domínio do Filho do homem. Nesse
tempo, os discípulos sentar-se-ão sobre doze tronos para
julgarem as doze tribos de Israel. Eles terão o primeiro
lugar na administração do reino terrestre. Cada um, porém,
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 141
terá o seu próprio lugar; porque, quaisquer que fossem as
coisas às quais tinham renunciado por amor de Jesus, rece­
beriam o cêntuplo e a vida eterna. Aliás, a decisão não será
estabelecida sobre as aparências, nem segundo o lugar que
os homens ocupam no velho sistema, e perante os outros
homens. Muitos dos primeiros serão os últimos — e muitos
dos últimos serão os primeiros. Com efeito, era de recear
que o coração carnal do homem, num espírito mercenário,
não aceitasse um tal encorajamento como forma de recom­
pensa por todo o seu trabalho e por todos os seus sacri­
fícios, e procurasse fazer de Deus seu devedor.
CAPÍTULO 20
É por isso que, na parábola pela qual o Senhor continua
o Seu discurso, Ele estabelece claramente o princípio da
graça e da soberania de Deus naquilo que Ele dá, e de uma
maneira distinta para com aqueles que Ele chama. O Se­
nhor faz depender do Seu chamamento e da Sua graça os
Seus dons àqueles que Ele introduz na Sua vinha.
Podemos notar que, quando o Senhor responde a Pedro,
o faz como consequência de ele ter deixado tudo para seguir
a Cristo após a Sua chamada. O motivo era o próprio
Cristo; por isso Ele diz: «Vós, que me seguistes». Fala da­
queles que tudo deixaram por amor do Seu Nome. Eis
o motivo! A recompensa é um incentivo para quando, por
amor de Cristo, estamos já no caminho. É sempre assim,
quando se fala de recompensa no Novo Testamento 0 .
Aquele que foi chamado à undécima hora dependia desta
O Com efeito, a recompensa, nas Escrituras, é sempre um estímulo
para aqueles que estão em aflição e em sofrimento, por terem entrado, por
motivos mais elevados, no caminho de Deus. Fora assim com Moisés, com
o próprio Cristo, cujos motivos se encontravam num perfeito amor, como
sabemos, e, no entanto, por causa da alegria que estava perante Ele, suportou
a Cruz, tendo desprezado a vergonha. Estava (archêgos kaiteleiôtés) no cami­
nho da fé.
142 J. N. DARBY
chamada para a sua entrada no trabalho; e se o seu amo,
na sua bondade, decidia dar-lhe tanto como aos outros, eles
deveriam alegrar-se com isso. Aos primeiros havia sido
feita justiça; recebiam o que havia sido estipulado. Os últi­
mos desfrutavam da graça do amo. E o Senhor faz notar
que eles aceitaram o princípio da graça, da confiança nessa
graça: «Dar-vos-ei o que for justo». O ponto essencial da
parábola é justamente esse — a confiança na bondade do
dono da vinha, e a graça como ponto de partida da sua
acção. Mas quem o compreendia? Um Paulo podia entrar
tarde na obra, tendo sido chamado por Deus nessa altura,
e, não obstante, ser um testemunho mais poderoso da
graça do que os obreiros que tinham trabalhado desde a
aurora do Evangelho.
O Senhor prossegue o Seu assunto com os discípulos.
Sobre a Jerusalém, onde o Messias deveria ter sido recebido
e coroado, para ser rejeitado e condenado à morte, mas
para ressuscitar em seguida; e quando os filhos de Zebedeu
vêm pedir-Lhe os dois primeiros lugares no reino, Ele res­
ponde-lhes que pode conduzi-los ao sofrimento; mas quanto
aos primeiros lugares no Seu reino, não pode concedê-los
(segundo os desígnios do Pai) senão àqueles para quem o
Pai os havia preparado. Que maravilhosa renúncia a Si
próprio! íÉ para o Pai, para nós, que Ele trabalha. De nada
dispõe. Pode conceder àqueles que O seguirem uma parte
dos Seus sofrimentos, mas todas as outras coisas serão
dadas segundo os desígnios do Pai. Mas que real glória
para Cristo e que perfeição n’Ele, e que privilégio para nós
de não termos senão este motivo e de partilharmos os so­
frimentos do Senhor! E que purificação para os nossos
corações carnais nos é aqui proposta, fazendo-nos actuar
só para um Cristo sofredor, compartilhar da Sua Cruz,
e nos entregarmos a Deus para a recompensa!
O Senhor aproveita então o momento para explicar os
sentimentos que convêm aos Seus seguidores e cuja per­
feição eles tinham visto n’Ele. No mundo, procurava-se a
autoridade, procurava-se ser grande; mas o espírito de
Cristo era o espírito de serviço, que fazia escolher o último
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 143
lugar e mostrar uma dedicação absoluta aos outros. For­
mosos e perfeitos princípios, cuja plena e brilhante per­
feição foi manifestada em Cristo. Abandonar tudo, a fim
de depender confiadamente na graça d’Aquele que servi­
mos; e, como consequência, a prontidão em tomar o lugar
mais humilde, sendo assim servos de todos — eis o que
deveria ser o espírito dos que têm parte no reino, tal como
o estabeleceu agora o Senhor que foi rejeitado. íÉ isto o
que convém àqueles que O seguem C1). Esta parte do Evan­
gelho termina com o verso 28, principiando então as cenas
finais da vida do nosso Bendito Salvador.
No verso 29 (2) começa a Sua última apresentação a
Israel como Filho de David, O Eterno, o verdadeiro Rei
de Israel, o Messias. Começa, a este respeito, a Sua carreira
em Jericó, o lugar onde Josué entrou no país— lugar onde
a maldição permaneceu por tão longo tempo. Abre os olhos
cegos do Seu povo, dos que crêem n'Ele e O recebem como
o Messias, pois Ele o era verdadeiramente, embora rejei­
tado. Os cegos saudam-No como Filho de David, e Ele res­
ponde à sua fé, abrindo-lhes os olhos. Seguem-No — figura
do verdadeiro Remanescente do Seu povo, que espera por
Ele.
O Note-se a maneira como os filhos de Zebedeu e sua mãe procuram
o primeiro lugar no próprio momento em que o Senhor Se dispõe a tomar
o último, sem reserva. Infelizmente, quantos exemplos semelhantes não vemos
nós a cada passo! Isto serve para mostrar a maneira absoluta como o Senhor
Se despojou de tudo. Eis aqui os princípios do reino celeste: perfeita abne­
gação, contentamento na completa dedicação; é o fruto do amor que não
procura o seu próprio bem — condescendência que decorre daquilo que não
se procura; submissão quando se é desprezado, doçura e humildade de coração.
O amor produz ao mesmo tempo quer o espírito de serviço para com os
outros, quer a humildade que fica contente com esta posição. O Senhor
cumpriu isto até à morte, dando a Sua vida em resgate de muitos.
(0 O caso do cego de Jericó marca, nos três primeiros Evangelhos, o
princípio das circunstâncias finais da vida de Cristo, as quais conduziam à
Cruz, estando terminado o conteúdo geral e os ensinamentos de cada um
deles. Desde então Jesus é apresentado como Filho de David, sendo como tal
a última apresentação que faz de Si próprio a esse povo, e sendo-Lhe pres­
tado o testemunho de Deus sob esse título.
144 J. N. DARBY
CAPITULO 21
Em seguida Jesus, dispondo de tudo o que pertence a
um povo de boa vontade, faz a Sua entrada em Jerusalém
como Rei e Senhor, de conformidade com o testemunho
de Zacarias. Mas, apesar de ali entrar como Rei — último
testemunho para a cidade amada, que (para sua ruína)
ia rejeitá-Lo — vem como um Rei humilde e manso. O
poder de Deus actua sobre o coração das multidões; e elas
aclamam Jesus como Rei, como Filho de David, servindo-se
das expressões do Salmo 118 (*), que celebra o sábado
milenial introduzido pelo Messias, devendo ser então reco­
nhecido pelo povo. As multidões estendem os seus vestidos
para prepararem o caminho do seu glorioso, mas humilde
Rei. Cortam ramos das árvores para Lhe darem testemu­
nho, e Ele é conduzido em triunfo até Jerusalém, enquanto
o povo exclama: «Hosana ao Filho de David; bendito O
que vem em nome do Senhor; hosana nas maiores alturas!».
Quão felizes seriam, se os seus corações tivessem sido trans­
formados, para conservarem esse testemunho pelo Espírito;
mas Deus, em Sua soberania, dispunha os seus corações
para prestarem esse testemunho. Ele não podia permitir
que o Seu Filho fosse rejeitado sem o receber.
E agora o Rei, mantendo totalmente a Sua posição de
humildade e de testemunho, vai passar tudo em revista.
Aparentemente, são as diferentes classes do povo que vêm
para O julgar e para O enredar; mas, de facto, elas apre­
sentam-se todas perante Ele para receberem das Suas mãos,
umas após as outras, o julgamento de Deus a seu respeito.
É uma cena emocionante esta que se desenrola aqui,
perante os nossos olhos — o verdadeiro Juiz, o Rei eterno,
apresentando-Se, pela última vez, ao Seu povo rebelde,
com o testemunho mais glorioso prestado ao Seu poder
e aos Seus direitos; e eles vindo para O atormentarem
0) Este Salmo é particularmente profético para o tempo da futura
recepção do Senhor; é muitas vezes citado em relação com essa recepção.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 145
e para O condenarem, levados pela sua própria maldade
a desfilarem perante Ele uns após os outros, expondo aber­
tamente o seu verdadeiro estado, para receberem seu pró­
prio julgamento, sem que Ele deixe, por um instante se­
quer, (a não ser na purificação do templo, antes de começar
esta cena) a posição de Fiel e Verdadeira testemunha em
toda a humildade na Terra.
Há duas partes a distinguir nesta narrativa. A primeira
apresenta o Senhor no Seu carácter de Messias e de Jeho-
vah. Como Senhor, ordena que Lhe seja trazido o jumento
(verso 3). Entra na cidade, segundo a profecia, como Rei
(versos 7-11). Purifica o templo com autoridade (versos
12-13). As objecções dos sacerdotes, Ele responde com o
Salmo 8, que fala da maneira como o Eterno tira a Sua
glória e estabelece os Seus justos louvores pelos lábios
das criancinhas (versos 15-16). No templo, cura também
a Israel (verso 14). Depois o Senhor deixa-os, não podendo
ficar na cidade, que já não podia reconhecer, mas ficando
fora com o Remanescente. No dia seguinte, por uma ima­
gem notável, Ele mostra a maldição que vai cair sobre o
povo. Israel era a figueira do Eterno, mas atravancava
a terra. Estava ornamentada de folhas, mas não produzia
nenhum fruto. A figueira, julgada pelo Senhor, seca ime­
diatamente. É uma figura dessa infeliz nação, do homem
na carne com todas as suas vantagens, que não dava ne­
nhum fruto para o Cultivador.
Com efeito, Israel tinha todas as formas exteriores de
religião; era zeloso pela lei e pelas ordenanças, mas não
dava fruto para Deus. Enquanto colocado sob a responsa­
bilidade de o dar, isto é, sob a antiga aliança, nunca o dará.
A rejeição de Jesus pôs fim a essa esperança. Deus actuará
em graça sob a nova aliança, mas aqui não se trata disso.
A figueira representa Israel, tal como se encontrava: o ho­
mem cultivado por Deus, mas em vão. Tudo estava aca­
bado. Não duvido de que aquilo que o Senhor diz aqui aos
discípulas a respeito de remover montanhas (versos 20-22),
sendo um grande princípio geral, se refere também ao que
devia ter lugar em Israel por meio do ministério deles.
10
146 J. N. DARBY
Encarado como um corpo sobre a Terra, como nação, Israel
desapareceria e perder-se-ia entre os Gentios. Os discípulos
eram o que Deus acolhia segundo a sua fé.
Vemos o Senhor entrar em Jerusalém como !Rei — Jeho-
vah, o Rei de Israel — e em seguida o Julgamento pronun­
ciado sobre a nação. Seguem-se então os pormenores do
Julgamento sobre as diversas classes que formavam esse
povo. Em primeiro lugar vêm os principais sacerdotes e os
anciãos, que deveriam ter guiado o povo; chegam-se ao
Senhor e põem em questão a Sua autoridade (versos 23
e seguintes). Dirigindo-se-ÍLhe desse modo, tomam o lugar
de chefes da nação e presumem ser juizes, aptos a pronun­
ciarem-se sobre a validade de qualquer juízo que pudesse
ser feito; de contrário, porque se ocupavam eles de Jesus?
O Senhor, na Sua infinita sabedoria, faz-lhes uma per­
gunta que põe à prova a sua competência, e, segundo a sua
própria confissão, eles eram incompetentes. Então, como
julgá-íLo?! 0 Dizer-lhes qual era o fundamento da Sua
autoridade, era inútil. Era tarde demais para lhes comu­
nicar qual era esse fundamento. Lapidá-Lo-iam se Ele
tivesse declarado a Sua verdadeira origem. Por isso lhes
responde: Pronunciai-vos sobre a missão de João Baptista.
E se eles não podiam fazê-lo, porquê então inquirir acerca
da Sua própria? Eles não podiam pronunciar-se. Reconhe­
cer a missão de João Baptista como enviado de Deus equi­
valia a reconhecer a Cristo. Negar que João tinha sido en­
viado por Deus acarretar-lhes-ia o perderem a sua influência
junto do povo. Não havia, para eles, problema de cons­
ciência! Confessam a sua incompetência. Então Jesus de­
clina a competência deles como chefes e guardiões da fé
do povo: Eles tinham-se julgado a eles mesmos. Então, a
partir do verso 28 até ao verso 14 do capítulo 22, o Senhor
põe claramente diante dos olhos deles a sua conduta e os
caminhos de Deus a seu respeito.
0) Reenviar à consciência é, muitas vezes, a resposta mais acertada,
quando a vontade é perversa.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 147
Em primeiro lugar, tendo a pretensão de fazerem a
vontade de Deus, não a faziam; enquanto que os que eram
manifestamente maus se haviam arrependido e a tinham
feito. Eles, vendo isto, ficaram ainda mais endurecidos.
Em seguida, não só a consciência natural não tinha sido
atingida neles, nem pelo testemunho de João nem pelo
arrependimento de outros, embora Deus tivesse empregado
todos os meios próprios para os fazer dar fruto digno dos
Seus cuidados, como também só encontrou neles perver­
sidade e rebelião. Os profetas tinham sido rejeitados, e o
Seu Filho sê-lo-ia de igual modo. Eles queriam a herança
do Filho para si próprios (verso 38). iNão podiam deixar de
reconhecer que as consequências de um tal crime seriam
necessariamente a destruição desses malvados e a entrega
da vinha a outros. Jesus aplica-lhes a parábola citando
o Salmo 118 (versos 22-23), anunciando que a pedra rejei­
tada pelos construtores se tornaria a principal pedra an­
gular; além disso, todo aquele que caísse sobre esta pedra
— como fazia a nação naquele momento—seria despeda­
çado; e aquele sobre quem ela caísse — esta será a sorte
da nação rebelde nos últimos dias — ficaria reduzido a pó
(verso 44). Os principais sacerdotes e os Fariseus com­
preenderam que Ele falava deles, mas não ousaram pôr
as mãos sobre Ele, porque as multidões O tinham por pro­
feta. Tal é a história de Israel considerada na sua própria
responsabilidade até aos últimos dias. Jehovah buscava
fruto na Sua vinha.
CAPÍTULO 22
Aqui, o comportamento da nação quanto ao convite da
graça é, por sua vez, apresentado. A parábola é, portanto,
uma semelhança do reino dos céus. Deus quer honrar o
Seu Filho celebrando as Suas bodas. Em primeiro lugar,
os Judeus, já convidados, são chamados para a festa. Eles
não querem vir a ela. Isto foi feito durante a vida de
Cristo. Depois, estando tudo preparado, Deus envia de novo
os Seus mensageiros para os induzirem a vir. Esta é a mis-
148 J. N. DARBY
são dos apóstolos à nação, quando a obra da redenção foi
cumprida. Os Judeus desprezam a mensagem ou matam os
mensageiros (!). O resultado é a destruição dos malvados
e da sua cidade. Trata-se do julgamento que se abateu so­
bre Jerusalém.
Devido à recusa de aceitarem o convite, são agora admi­
tidos ao festim os infelizes, os Gentios, os que estavam
de fora —e a sala de núpcias fica cheia de convidados.
Mas aqui uma outra coisa se apresenta. Encontrámos,
é verdade, o Julgamento de Jerusalém nesta parábola, mas,
como é uma semelhança do reino, temos nela também o
Julgamento do que se encontra dentro do reino. Cada cir­
cunstância tem de estar de harmonia com o seu carácter.
Ora, para uma festa nupcial é preciso um vestido de núp­
cias. Se Cristo vai ser glorificado, tudo tem de estar de
acordo com a Sua glória. Pode haver uma aparente entrada
no reino, uma profissão de Cristandade; mas quem não
estiver vestido daquilo que convém às núpcias será lançado
fora. Temos de estar revestidos do próprio Cristo. Por
outro lado, tudo está preparado — nada é pedido. Os con­
vidados não tinham de levar coisa alguma. O Rei tinha
provido a tudo. Mas temos de estar imbuídos do espírito
daquilo que é feito. Se houver o pensamento do que é pró­
prio para uma festa nupcial, a necessidade de um vestido
de núpcias será evidentemente sentida; caso contrário, a
honra do Filho do Rei terá sido esquecida. O coração será
estranho à festa; o próprio homem será tratado como estra­
nho pelo Julgamento do Rei, quando tomar conhecimento
dos convidados que entraram.
Assim foi também manifestada a graça a Israel — e Is­
rael é julgado por ter recusado o convite do grande Rei
para a festa de Seu Filho: E é também julgado o abuso
desta graça por parte daqueles que aparentemente acei­
taram o convite. A entrada dos Gentios é anunciada. Ter-
0) O desprezo e a violência são as duas formas da rejeição do teste­
munho de Deus, e da verdadeira testemunha. Eles odeiam um e amam o
outro, ou se ligam a um e desprezam o outro.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 149
mina aqui a história do Julgamento de Israel em geral,
e do carácter que tomará o reino.
Depois distõ (versos 15 e seguintes), as diferentes clas­
ses de Judeus são apresentadas, cada uma por sua vez. Pri­
meiro, os Fariseus e os Herodianos (quer dizer aqueles que
favoreciam a autoridade dos Romanos e aqueles que se
lhes opunham) procuravam confundüo nas Suas palavras.
O bendito Salvador responde-lhes com aquela perfeita sabe­
doria que sempre manifestava em tudo quanto fazia e dizia.
Da parte deles, aquilo não era senão pura maldade, mani­
festando uma ausência total de consciência. O seu próprio
pecado os tinha colocado sob o jugo romano, posição con­
trária, com efeito, àquela que deveria ser a do povo de
Deus na Terra. Assim, e aparentemente, Cristo tinha de Se
tomar alvo das suspeitas das autoridades, ou então renun­
ciar à pretensão de ser o Messias e, por consequência, o
Libertador. Mas quem havia dado lugar a este dilema? Não
era o fruto dos próprios pecados deles? O Senhor mostra-
-Ihes que eles próprios tinham aceitado o jugo. O dinheiro
comportava a marca do facto: que dessem, portanto, o di­
nheiro a quem ele pertencia; e que dessem também — o que
eles não faziam — a Deus o que era de Deus. O Senhor dei­
xa-os sob o jugo que eram obrigados a confessar que ha­
viam aceitado. Lembra-lhes os direitos de Deus, os quais
eles tinham esquecido. Tal deveria ter sido o estado de
Israel segundo o estabelecimento do poder em Nabuco-
donosor «uma videira mui larga, de pouca altura» (Eze-
quiel 17:6).
Vêm a seguir os Saduceus à Sua presença e interrogam-
jNo a respeito da ressurreição, pensando provar o seu
absurdo. Ora, do mesmo modo como o estado da nação
havia sido posto em evidência na conversa de Jesus com
os Fariseus, também a incredulidade dos Saduceus é aqui
demonstrada. Os Saduceus pensavam apenas nas coisas
deste mundo, querendo negar a existência de um outro
mundo. Mas, por maior que fosse o estado de degradação
e de sujeição em que o povo tinha caído, o Deus de Abraão,
de Isaac e de Jacob não mudava. As promessas feitas aos
150 J. N. DARBY
pais permaneciam inalteráveis, e os pais estavam vivos
para delas gozarem mais tarde. Era a Palavra e o poder
de Deus que estavam em questão. O Senhor mantinha-os
com poder e evidência. Os Saduceus são reduzidos ao si­
lêncio.
Os doutores da lei, surpreendidas com a Sua resposta,
fazem uma pergunta, que dá oportunidade ao Senhor para
extrair do conteúdo da lei o que, aos olhos de Deus, é a
sua essência, apresentando assim a sua perfeição, e o que
— seja qual for o meio por que possa ser alcançada — faz
a felicidade dos que andam nela. Apenas a graça se eleva
mais alto.
Terminam aqui as interrogações deles. Tudo está jul­
gado e posto à luz a respeito da posição do povo e das
seitas de Israel; e o Senhor tem posto diante deles os per­
feitos pensamentos de Deus a seu 'respeito, quer acerca do
estado espiritual do povo, quer das Suas promessas ou da
substância da lei.
Era agora a vez de Jesus levantar uma questão para
fazer sobressair a Sua própria posição. Propõe aos Fariseus
conciliarem o título de «Filho de David» com o de «Senhor»
que o próprio David Lhe dera, e isto em relação com a
ascensão desse mesmo Cristo para Se assentar à déxtra de
Deus até que os Seus inimigos sejam postos por escabelo
de Seus pés, e Ele estabeleça o Seu trono em Sião. Ora, esta
era a chave da posição de Cristo nesse momento. Incapa­
zes de Lhe responder, ninguém mais ousou fazer-Lhe per­
guntas. Com efeito, se os Judeus tinham podido compreen­
der este Salmo 110, também tinham compreendido todos
os desígnios de Deus acerca de Seu Filho no momento em
que iam rejeitá-Lo. Isto terminava necessariamente estas
conversas, mostrando a verdadeira posição de Cristo, que,
embora o Filho de David, tem de subir ao Céu para receber
o reino, e, enquanto espera por ele, ficar sentado à direita
de Deus, de acordo com os direitos da Sua gloriosa Pessoa
-^Senhor de David, do mesmo modo que Filho de David.
Existe um outro ponto interessante que deve ser acen­
tuado aqui. Nestas conversas e discursos com as diferentes
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 151
classes dos Judeus, o Senhor revela o estado espiritual deles
a respeito das suas relações com Deus, e em seguida a po­
sição que Ele próprio tomou. Em primeiro lugar mostra a
posição nacional que eles tinham perante Deus, como sendo
responsáveis para com Ele, de acordo com a consciência
natural e os privilégios que lhes pertenciam. O resultado
seria serem eles cortados e substituídos por outros na vinha
do Senhor (capítulo 21:28-46). Em seguida o Senhor expõe
a condição deles em relação com a graça do reino, assim
como a introdução dos pecadores gentios. Também aqui
o resultado é serem cortados e a cidade destruída (’). De­
pois os Herodianos, amigos dos Romanos, e os Fariseus,
seus inimigos, pretensos amigos de Deus, fazem sobressair
a verdadeira posição dos Judeus frente ao poder imperial
dos Gentios e perante Deus. Na Sua entrevista com os
Saduceus, o Senhor mostra-lhes a certeza das promessas
feitas aos pais, e as relações de Deus com eles acerca da
vida e da ressurreição. Depois mostra aos Escribas o ver­
dadeiro alcance da lei, e enfim a posição que Ele, o Filho
de David, tomava, segundo o Salmo 110; posição que se
ligava com a Sua rejeição pelos condutores da nação que
O rodeava.
0) Desde o verso 28 do capítulo 21 até ao fim, encontramos a respon­
sabilidade da nação considerada como gozando dos seus antigos privilégios,
segundo os quais ela deveria ter produzido fruto. Não o tendo feito, um
outro povo a substitui. Mas não é isso a causa do Julgamento que se exe­
cutava contra Jerusalém, devendo ainda exercer-se de maneira mais terrível,
que levará à destruição da cidade. A morte de Jesus, o último daqueles que
tinham sido enviados para buscarem fruto, acarreta o julgamento sobre esses
assassinos (Mateus 21:31-41). A destruição de Jerusalém é a consequência da
rejeição do testemunho ao reino, testemunho enviado para os chamar em
graça. Trata-se do início do Julgamento sobre os vinhateiros — os Escribas,
os principais sacerdotes e os chefes do povo. O Julgamento executado, por
causa da rejeição do testemunho, vai mais longe (verso 7). Uns desprezam a
mensagem, os outros maltratam os mensageiros; sendo a graça assim rejeitada,
a cidade é queimada e os seus habitantes são cortados (comparar: capítulo 23:36
e ver a profecia histórica em Lucas 21). Esta distinção é mantida em cada
um dos três Evangelhos.
152 J. N. DARBY
CAPITULO 23
Este capítulo mostra claramente até que ponto os dis­
cípulos são considerados em relação com a nação enquanto
povo judeu, embora o Senhor julgue os chefes que seduziam
o povo e desonravam a Deus com a sua hipocrisia. Jesus
diz à multidão e aos Seus discípulos (verso 2): «Na cadeira
de Moisés se assentaram os Escribas e os Fariseus». Sendo
deste modo os intérpretes da lei, deviam ser obedecidos em
tudo o que diziam segundo a lei, embora o seu comporta­
mento não fosse senão hipocrisia. O que é importante aqui
é a posição dos discípulos, que é efectivamente a mesma
que a de Jesus. Estão em relação coríi tudo o que é de Deus
na nação, isto é, com a nação enquanto povo reconhecido
de Deus — por consequência com a lei como tendo auto­
ridade da parte de Deus. Ao mesmo tempo o Senhor julga,
e os discípulos também deviam na prática julgar o anda­
mento da nação, enquanto representada publicamente pelos
seus chefes. Deviam cuidadosamente evitar o comporta­
mento dos Escribas e dos Fariseus, embora continuando
a fazer parte da nação.
Depois de ter reprovado a esses pastores do povo a sua
hipocrisia, o Senhor assinala a maneira como eles próprios
condenavam os actos dos seus pais — edificando os sepul­
cros dos profetas que eles tinham assassinado. Eles eram,
pois, os filhos daqueles que tinham morto os profetas, e
Deus punha-os à prova enviando-lhes também profetas,
justos e escribas; eles encherão a medida da sua iniquidade
perseguindo e matando esses enviados—condenando-se as­
sim eles mesmos pelas suas próprias palavras — a fim de
que todo o sangue dos justos, derramado desde Abel até
Zacarias, caísse sobre essa geração, como se lê nos versos
35-36.
Terrível acumulação de culpas, desde o começo da ini­
mizade que o homem pecador, quando colocado sob res­
ponsabilidade, tem mostrado sempre para com o testemu­
nho de Deus; e que aumentava todos os dias, porque a
consciência endurecia mais e mais à medida que se obsti-
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 153
nava contra esse testemunho. A verdade era tanto mais
evidente quanto era certo que as suas testemunhas haviam
sofrido. Era um escolho visível a evitar na marcha do povo.
Mas o povo perseverava em fazer o mal, e cada passo
em frente nesse caminho, cada acto semelhante, era uma
prova do seu crescente endurecimento. Tudo estava acumu­
lado sobre a cabeça dessa geração reprovada.
Note-se aqui o carácter atribuído aos apóstolos e aos
profetas cristãos. Escribas, sábios, profetas, são enviados
aos Judeus — à nação rebelde. Isto mostra claramente qual
o ponto de vista em que eles são considerados neste capí­
tulo. Até mesmo os apóstolos são «sábios», são «escribas»
enviados aos Judeus.
Mas a nação — Jerusalém, a cidade bem-amada de Deus
— é culpada e é julgada. Cristo, como temos visto desde
a cura do cego perto de Jericó, apresenta-Se como o Eterno,
o Rei de Israel. Quantas vezes quis Ele ajuntar os filhos
de Jerusalém, e eles não quiseram! (versos 37-39). E agora
a sua casa ia ficar deserta até que, convertidos de coração,
se servissem das expressõess do Salmo 118, e, em seu de­
sejo, aclamassem a vinda D’Aquele que vem em nome do
Eterno, esperando a libertação das Suas mãos e pedindo-
-Lha — numa palavra, até que clamem: Hosana Àquele que
vem. Não veriam mais a Jesus até que, humilhados de cora­
ção, proclamassem bendito Aquele que esperavam, e que
agora rejeitavam — enfim, até que estejam preparados de
coração. A paz virá depois; o desejo precede o Seu apare­
cimento.
Os últimos três versos mostram-nos claramente a posi­
ção dos Judeus, ou de Jerusalém como centro do sistema
judaico perante Deus. Desde há muito, e muitas vezes, Jeho-
vah o Salvador, quisera ajuntar os filhos de Jerusalém como
a galinha ajunta os seus pintainhos debaixo das suas asas,
mas eles não quiseram. A sua casa permanecerá abando­
nada e deserta, mas não para sempre. Depois de terem
morto os profetas e lapidado aqueles que lhes tinham sido
enviados, os Judeus tinham crucificado o seu Messias, e
rejeitado e matado aqueles que Ele lhes tinha enviado para
154 J. N. DARBY
lhes anunciarem a graça, mesmo depois da Sua rejeição.
Por isso não O verão mais até que se arrependam e o
desejo de O verem germine em seus corações, de modo que
estejam preparados para O bendizerem — e O bendigam
em seus corações, e façam confissão desse desejo. O Mes­
sias, que ia deixá-los não será mais visto por eles até que
o arrependimento incline os seus corações para Aquele
que nesse momento' rejeitavam. Depois, eles O verão. O Mes­
sias, vindo em nome de Jehovah, será manifestado ao Seu
povo Israel. É Jehovah, o seu Salvador, Quem aparecerá,
e o Israel, que O tinha rejeitado, como tal O verá. O povo
entrará assim no gozo das suas relações com Deus.
Tal é o quadro moral e profético de Israel. Os discípu­
los, como Judeus, eram considerados como fazendo parte
da nação, embora como um Remanescente espiritualmente
separado dela, e dando testemunho no seu meio.
CAPITULO 24
Vimos já que a rejeição do testemunho do reino em
graça é a causa do Julgamento que se abate sobre Jeru­
salém e seus habitantes. Ora, o capítulo 24 dá-nos a posição
desse testemunho no meio do povo; dá-nos o estado espi­
ritual dos Gentios e a relação em que se encontravam com
o testemunho dado pelos discípulos. Depois temos o estado
espiritual de Jerusalém, que era a consequência da rejeição
do Messias e o seu desprezo pelo testemunho. Temos, en­
fim, a derrocada universal que terá lugar no fim desse
tempo—estado de coisas que terminará pela aparição do
Filho do homem e a congregação dos eleitos de Israel desde
os quatro ventos.
Esta notável passagem merece toda a nossa atenção.
Ela é ao mesmo tempo uma profecia e um ensinamento
dirigidos aos discípulos para os orientar no caminho que
eles teriam de seguir através dos acontecimentos que iam
ter lugar.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 155
Jesus deixa o templo, e isto para sempre. Acto solene
que, pode dizer-se, executava o Juízo que Ele acabava de
proferir. A Casa estava agora deserta. Mas o coração dos
discípulos permanecia ainda acorrentado a esse templo
pelos seus antigos preconceitos. Assim, chamam a atenção
de Jesus para os magníficos edifícios que formavam o con­
junto. Mas Jesus anuncia-lhes a sua destruição total. De­
pois, tendo-se retirado com Ele para o Monte das Oliveiras,
os discípulos perguntam-íLhe quando terão lugar essas coi­
sas, e qual será o sinal da Sua vinda e da consumação do
século (verso 3). Relacionam a destruição do templo com
a vinda de Cristo e a consumação do século. Esta — convém
notá-lo — é o fim do período durante o qual Israel estava
sujeito à lei sob a antiga aliança, período que devia cessar
para dar lugar ao Messias e à nova aliança. GÊ preciso notar
ainda que se trata do governo da Terra da parte de Deus,
e dos Julgamentos que se executarão aquando da vinda de
Cristo, que porá fim ao século de então. Os discípulos con­
fundiam o que o Senhor tinha dito a respeito da destruição
do templo com essa época ('). O Senhor trata do assunto
do Seu ponto de vista (quer dizer, do ponto de vista do tes­
temunho que os discípulos deviam prestar em relação com
os Judeus, durante a Sua ausência, e do ponto de vista da
consumação do século). Nada acrescenta acerca da des­
truição de Jerusalém, que já tinha anunciado. O tempo da
Sua vinda era ocultado de propósito. Além disso, a destrui­
ção de Jerusalém por Tito pôs fim, com efeito, à posição
que as instruções do Senhor tinham em vista. Já não existia
nenhum testemunho reconhecível entre os Judeus. Quando
esta posição for reassumida, a aplicabilidade da passagem
O De facto, esta posição de Israel e o testemunho que a ela se refere
foram interrompidos pela destruição de Jerusalém; é por isso que este acon­
tecimento se apresenta ao espírito em relação com a profecia de que não é
certamente o cumprimento. O Senhor ainda não veio, nem a grande tribu­
lação; mas o estado de coisas, ao qual o Senhor faz alusão até ao fim do
verso 14, sofre uma interrupção violenta e judiciária pela destruição de Jeru­
salém, de sorte que há, sob este ponto de vista, uma relação entre os dois
acontecimentos.
156 J. N. DARBY
sê-lo-á também. Depois da destruição de Jerusalém até esse
momento só a Igreja é tida em consideração.
O discurso do Senhor divide-se em três partes:
Primeira, o estado geral dos discípulos e do mundo du­
rante o tempo do testemunho, até ao fim do verso 14;
Segunda, o período caracterizado pelo facto de que a
abominação da desolação é estabelecida no lugar santo
(verso 15);
Terceira, a vinda do Senhor e a congregação dos eleitos
em Israel (verso 29).
Eis o que caracteriza o tempo do testemunho dos dis­
cípulos: Falsos Cristos, falsos profetas entre os Judeus,
e a perseguição movida aos que prestam testemunho, en­
tregando-os por fim aos Gentios. Mas há detalhes mais
precisos ainda a respeito desses dias: Haveria falsos Cris­
tos em Israel; haveria guerras, fornes, pestes e terramotos.
Mas eles não deviam perturbar-se: ainda não seria o fim.
Essas coisas não seriam senão o princípio das dores (ver­
sos 5-8). Eram principalmente coisas exteriores. Havia ou­
tros acontecimentos que poriam os discípulos ainda mais
à prova —coisas mais íntimas. Os discípulos seriam entre­
gues aos seus inimigos para serem afligidos, mortos, odia­
dos de todas as nações. 0 resultado disto será que, entre
os que fizeram profissão de serem discípulos, muitos se
escandalizarão; e tms aos outros se trairão e se entregarão.
Surgirão falsos profetas e seduzirão a muitos, e porque a
iniquidade se multiplicará, o amor de muitos se esfriará —
que triste quadro! Mas estas coisas dão lugar ao exercício
de uma fé já provada. Aquele que perseverar até ao fim
será salvo. Isto diz respeito à esfera própria do testemunho
em particular. O que o Senhor diz não é de modo nenhum
limitado ao testemunho em Canaan; mas como Canaan é o
ponto de partida do testemunho, tudo está em relação com
essa região como centro dos caminhos de Deus.
Em seguida (verso 14), o Evangelho do reino será pre­
gado em todo o mundo para testemunho a todas as nações;
e então virá o fim — a consumação do século. Ora, embora
o Céu seja a fonte da autoridade quando o reino for esta-
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 157
belecido, Canaan e Jerusalém formam os seus centros ter­
restres. De modo que a ideia do reino, embora estenden­
do-se a todo o mundo, leva os nossos pensamentos para
a Terra de Israel. É «este Evangelho do reino» X1) de que
se fala aqui; não é a proclamação da união da Igreja com
Cristo, nem a redenção na sua plenitude, como foi pregada
e ensinada pelos apóstolos, após a ascensão do Senhor;
mas é o reino que ia ser estabelecido na Terra, como João
Baptista e o próprio Senhor tinham anunciado. O estabele­
cimento da autoridade universal de Cristo glorificado será
pregado em todo o mundo, para pôr à prova a obediência
dos discípulos, e para fornecer o objecto da fé a todos
aqueles que tinham ouvidos para ouvir.
Eis, pois, a história geral do que se fará até ao fim
do século, sem entrar no assunto da proclamação que fun­
dou a Igreja propriamente dita. A destruição iminente de
Jerusalém e a recusa dos Judeus de aceitarem o Evangelho
fizeram com que Deus suscitasse um testemunho especial
por intermédio de Paulo, sem anular a verdade do futuro
reino. O que se segue demonstra que este estabelecimento
do testemunho do reino terá lugar no fim, e que o teste­
munho chegará a todas as nações antes de vir o Julga­
mento que porá fim ao século.
Mas haverá um momento em que, dentro de uma deter­
minada esfera (a saber: Jerusalém e seus arredores), se
desencadeará um período especial de sofrimento com res­
peito ao testemunho em Israel. Falando da abominação
que produz a desolação, o Senhor recorda-nos Daniel a
fim de podermos compreender o assunto de que Ele fala.
Ora Daniel (capítulo 12, onde se fala desta tribulação) colo­
ca-nos definitivamente nos últimos dias — no tempo em
O O Evangelho do reino foi confiado a Israel no capítulo 10, e aqui,
embora isso não constitua o objecto de um ensinamento, é o assunto que vai
até ao verso 14, não havendo, porém, distinção formal. A missão do capí­
tulo 28 diz respeito aos Gentios; mas então não há nada do reino, antes o
contrário, embora Cristo seja ressuscitado. Porém, todo o poder Lhe é dado
no Céu e na Terra.
158 J. N. DARBY
que Miguel se levantará em defesa do povo de Daniel,
isto é, dos Judeus, que se encontram sob o domínio dos
Gentios — dias em que haverá um tempo de tribulação tal
como nunca houve desde o princípio do mundo até agora,
e nem haverá jamais, e em que o Remanescente será liber­
tado (Daniel 12:1). Na última parte do capítulo precedente
desse profeta, este tempo é chamdo «o tempo do fim»
(Daniel 11:40), e a destruição do rei do norte é profetica­
mente declarada. Ora o profeta anuncia (Daniel 12:11-12)
que mil trezentos e trinta e cinco dias antes da plena bên­
ção (e bem-aventurado aquele que nela participar) o sacri­
fício contínuo será abolido e a abominação que causa a
desolação sérá estabelecida; Além disso anuncia que, desde
esse momento, haverá mil duzentos e noventa dias (isto é,
mais um mês do que os mil duzentos e sessenta dias de
que se fala em Apocalipse, e durante os quais a mulher
que foge da serpente é alimentada no deserto; e também
um mês mais do que os três anos e meio do fim do capí­
tulo 7 de Daniel, verso 25). Depois disso, como vemos aqui,
vem o Julgamento e o reino é entregue aos santos.
Desta forma está bem provado que esta passagem (Ma­
teus 24:15) se refere aos últimos dias e à posição dos Judeus
por essa época. Os acontecimentos do tempo passado, desde
que o Senhor falou, confirmam este pensamento. Nem du­
rante mil duzentos e sessenta dias, nem mil duzentos e ses­
senta anos depois do tempo de Tito, nem tão-pouco trinta
dias ou trinta anos depois se deu qualquer acontecimento
que pudesse ser o cumprimento desses dias de Daniel. Os
períodos já passaram há muitos anos. Israel não foi liber­
tado, nem Daniel se viu na sua sorte no final desses dias.
É igualmente claro que se trata aqui, nesta passagem, de
Jerusalém e dos seus arredores, porque aqueles que se
encontram na Judeia são convidados a fugir para os mon­
tes (verso 16).
Os discípulos que se encontrarem na Judeia nessa época
deverão orar para que a sua fuga não se dê em dia de
sábado (verso 20)—mais uma prova de que os Judeus
são o assunto da profecia; mas é também um testemunho
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 159
do temo cuidado que o Senhor tem daqueles que são Seus,
ocupando-Se deles, mesmo no meio desses acontecimentos
sem paralelo, do tempo que faria no momento da sua fuga.
Além disso, diversas circunstâncias mostram, se mais
provas fossem necessárias, que se trata do Remanescente
judaico, e não da Igreja. Nós sabemos que todos os fiéis
devem ser arrebatados para irem ao encontro do Senhor
nos ares, e que depois voltarão com Ele {l.a Tessalonicen-
ses 4:17 e 14). Mas aqui vemos que haverá falsos cristos
na Terra, e dirão: «Eis que ele está no deserto», «eis que
ele está no interior da casa» (versos 24-26). Mas os santos,
que serão arrebatados e que voltarão com o Senhor, nada
têm que ver com os falsos cristos na Terra, visto que irão
para o Céu para estarem com Ele ali, antes da Sua vinda
à Terra. Pelo contrário, é fácil de compreender que os Ju­
deus, que esperam uma libertação terrestre, sejam susceptí­
veis de tais tentações e sejam enganados por esses pre­
tensos cristos, se não estiverem guardados pelo próprio
Deus.
Vê-se, pois, que esta parte da profecia se aplica aos
últimos dias, aos três últimos anos e meio ao fim dos
quais o Julgamento se manifestará pela vinda do Filho
do homem. O Senhor virá subitamente, como um relâm­
pago, como uma águia sobre a sua presa, lá ao lugar onde
se encontrar o objecto do Seu Julgamento (versos 27-28).
Imediatamente após a tribulação desses últimos três anos
e meio, todo o sistema hierárquico de governo será aba­
lado e inteiramente destruído (verso 29). Aparecerá então
o sinal do Filho do homem, no céu, e todas as tribos da
Terra verão o Filho do homem vindo sobre as nuvens do
céu, com poder e grande glória (versos 29-30). Este verso 30
é a resposta à segunda parte da pergunta dos discípulos,
no verso 3. O Senhor dá aos Seus discípulos as advertên­
cias necessárias para a sua orientação; mas o mundo não
verá nenhum sinal, por mais claros que sejam esses sinais
para aqueles que compreendem. Mas esse sinal não será
dado senão no momento da aparição do Senhor. O resplen­
dor da glória d'Aquele que o mundo tinha desprezado fará
160 J. N. DARBY
ver a esse mesmo mundo quem é Aquele que vem; e será
do lado de onde o mundo menos O esperava! Que terrível
momento esse quando, em vez do Messias que responde­
ria ao seu orgulho terrestre, virem aparecer nos céus o
Cristo que eles rejeitaram!
Depois o Filho do homem, assim vindo e manifestado,
mandará os Seus anjos ajuntar os Seus escolhidos, desde
os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus
{verso 31). É isto o que termina a história dos Judeus e
mesmo a de Israel, em resposta à pergunta dos discípulos,
e manifesta os caminhos de Deus acerca do testemunho
no meio do povo que O tinha rejeitado, anunciando o tempo
da sua profunda angústia, e o Julgamento que estalará
no meio desta cena, quando Jesus vier, sendo completa a
subversão de todos os poderes, grandes e pequenos.
O Senhor dá a história do testemunho em Israel, e a
desse próprio povo, desde o momento da Sua partida até
à Sua vinda; mas o espaço de tempo durante o qual não
haverá nem povo, nem templo, nem cidade, não é especi­
ficado. É isto o que dá especial importância à tomada
de Jerusalém. Não se fala directamente aqui desse acon­
tecimento— o Senhor não o descreve; mas a tomada de
Jemsalém pôs fim à ordem de coisas às quais o discurso
do Senhor se aplica, a essa ordem de coisas que não retoma
a sua aplicação até que Jerusalém e os Judeus estejam de
novo em cena. O Senhor anuncia-o desde o princípio. Os
discípulos pensavam que a vinda do Senhor teria lugar
ao mesmo tempo que a destruição de Jerusalém. Às per­
guntas que eles lhes tinham feito, Jesus responde de ma­
neira que o Seu discurso lhes fosse útil até à tomada de
Jerusalém. Mas, uma vez feita a menção da abominação
e da desolação, achamo-nos transportados aos últimos dias.
Os discípulos deviam compreender os sinais que o Se­
nhor lhes dava. A destruição de Jerusalém, como disse já,
pelo próprio facto em si, detinha a aplicação do discurso
de Jesus. A nação judaica foi então posta de lado; mas
o verso 34 tem um sentido muito mais amplo, e, realmente,
mais apropriado. Os Judeus incrédulos subsistirão corno
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 161
tal até que tudo seja cumprido. (Comparar o capítulo 32
de Deuteronómio, versos 5 e 20, que tem particularmente
em vista esse Julgamento de Israel). Deus oculta o Seu
rosto até ver qual será o fim deles, porque são uma gera­
ção muito perversa, filhos em quem não há fé. E isto teve
lugar. São uma raça à parte até ao dia de hoje. Essa gera­
ção subsiste — tal qual monumento de infalibilidade dos
caminhos de Deus e das palavras do Senhor.
Enfim, o governo de Deus, exercido a respeito desse
povo, está traçado até ao fim. O Senhor vem e congrega
os eleitos dispersos de Israel (verso 31).
A história profética continua no verso 31 do capítulo
25, que se liga ao verso 30 do capítulo 24. E como este
verso 31 do capítulo 24 dá o relato do ajuntamento de
Israel depois do aparecimento do Filho do homem, o verso
31 do capítulo 25 anuncia a Sua acção em Juízo com os
Gentios. O Filho do homem aparecerá, sem dúvida, como
um raio, a respeito da apostasia, a qual será como um
corpo morto perante Ele. Mas quando vier solenemente
para tomar o Seu lugar terrestre em glória, esse aconteci­
mento não passará como um relâmpago. Assentar-Se-á sobre
o trono da Sua glória, e todas as nações serão congregadas
perante Ele, assentado sobre o trono de Juízo, e elas serão
julgadas segundo a forma como trataram os mensageiros
do reino, que foram para lho comunicar. Estes mensageiros
são «os irmãos» de que se fala aqui (capítulo 25, verso 40);
os que os receberam são «as ovelhas» (25:32-33); os que
negligenciaram a sua mensagem são «os cabritos» (25:32;
41 e seguintes). O relato, começando no verso 31 do capí­
tulo 25, da separação das ovelhas dos cabritos e dos seus
resultados, representa as nações que são julgadas sobre a
Terra segundo o tratamento que deram a esses mensa­
geiros. É o Julgamento dos vivos, pelo menos no que con­
cerne às nações — um Juízo tão definitivo como o dos
mortos. Não se trata aqui do Juízo guerreiro de Cristo,
como no capítulo 19 de Apocalipse. É uma sessão do Seu
supremo tribunal no Seu direito de governar a Terra, como
em Apocalipse 20:4. Falo do princípio, ou antes, do carácter
11
162 J. N. DARBY
do Julgamento. Não tenho dúvidas de que esses «irmãos»
são Judeus, tal como eram os discípulos, quer dizer que se
encontrarão numa posição semelhante quanto ao seu teste­
munho. Os Gentios que tiverem recebido a sua mensagem
serão aceites como se tivessem tratado Cristo da mesma
maneira. O Pai tinha-lhes preparado o gozo do reino; e eles
entram nele, embora estando sobre a Terra, porque Cristo
tinha vindo no poder da vida eterna (>).
Passei, de momento, sobre a parte compreendida entre
o capítulo 24:31 e o capítulo 25:31 porque a parte final
deste último capítulo é o complemento de tudo o que se
refere ao governo e ao Julgamento da Terra. Mas há uma
classe de pessoas cuja história, nos seus grandes traços
morais, encontra o seu lugar entre os dois versos que acabo
de mencionar. São os discípulos de Cristo fora do teste­
munho dado entre Israel, os discípulos aos quais Ele con­
fiou o Seu serviço e uma posição relacionada Consigo
mesmo, durante a Sua ausência. Esta posição e este ser­
viço estão em relação com o próprio Cristo, e não com
Israel, em qualquer lugar que esse serviço seja realizado.
Porém, antes de chegarmos a estes versos, há alguns
de que ainda não falei, e que se aplicam mais particular­
mente ao estado de coisas em Israel, como advertência aos
discípulos que ali se encontravam, e descrevem o Julga­
mento distintivo que tem lugar entre os Judeus nos últi-
O Não há nenhuma razão possível para aplicar esta parábola àquilo
que se chama o Julgamento Geral — expressão absolutamente contrária à
Escritura. Em primeiro lugar, há três espécies de personagens, e não sim­
plesmente duas: os cabritos, as ovelhas e os irmãos. Em seguida vem o
Julgamento só dos Gentios; aliás, a causa do Julgamento é totalmente inapli­
cável à própria grande massa destes últimos. A causa do Julgamento é a
maneira como os irmãos foram recebidos. Ora, durante longos séculos nenhum
foi enviado à imensa maioria dos Gentios. Deus não teve em consideração
os tempos dessa ignorância, e, no início da Epístola aos Romanos é indicada
outra causa do seu Julgamento. Tratou-se já dos Cristãos e dos Judeus no
capítulo 24 e na primeira parte do capítulo 25. São justamente aqueles que
o Senhor encontrará sobre a Terra aquando da Sua vinda, e que serão jul­
gados segundo a maneira como tiverem recebido os mensageiros que Ele lhes
tiver enviado.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 163
mos dias. Falo deles aqui, porque toda esta parte do dis­
curso— a saber desde o capítulo 24:31 ao capítulo 25:31 —
é uma exortação do Senhor, uma direcção aos discípulos
acerca dos seus deveres durante a Sua ausência. Refiro-me
aos versos 36 a 44 do capítulo 24. Os discípulos falam-nos
da contínua expectativa que lhes impunha a ignorância do
momento em que o Filho do homem apareceria, e em que
eram intencionalmente deixados (o Julgamento terrestre);
enquanto que, desde o verso 45, o Senhor Se dirige mais
directamente e de uma maneira mais geral ao seu compor­
tamento durante a Sua ausência, não em relação com Is­
rael, mas com os Seus —os domésticos da Sua Casa. Tinha-
-lhes confiado a tarefa de fornecerem a estes um alimento
conveniente na Sua Casa. É esta a responsabilidade do
ministério na Igreja.
É importante notar que, na primeira parábola, o estado
da Igreja é considerado como um todo; a parábola das vir­
gens e a dos talentos indicam uma responsabilidade indi­
vidual. Por isso o servo infiel é expulso e tem a sua parte
com os hipócritas. O estado da Igreja responsável dependia
de aguardarem a vinda de Cristo, ou do seu coração dizer:
Ele tarda em vir. É no regresso do Senhor que o Juízo será
pronunciado sobre a fidelidade dos Seus servos durante
esse intervalo. A fidelidade será aprovada nesse dia. Por
outro lado, o esquecimento prático da Sua vinda conduzirá
à libertinagem e à tirania.
Trata-se aqui de um sistema intelectual. «O mau servo
diz em seu coração: O meu senhor tarde virá; a sua von­
tade está interessada nisso. O resultado era que a sua von­
tade carnal se manifestava. Já não era o serviço dedicado
aos domésticos da casa, esperando de coração a aprovação
do senhor, quando ele voltasse; mas a mundanidade no
comportamento e na pretensão a uma autoridade arbitrá­
ria à qual o serviço que lhe estava confiado dava ocasião.
Ele come e bebe com os temulentos; une-se ao mundo e
participa dos seus caminhos; espanca os seus conservos
de sua livre vontade. Eis aonde se chega quando se esquece
deliberadamente a vinda de Jesus durante a Sua ausência,
164
J. N. DARBY
e se considera a Igreja como estabelecida no mundo. Em
vez do serviço fiel encontra-se a tirania e o mundanismo.
E não é exacto este quadro?
O que aconteceu aos que tinham o lugar de serviço na
Casa de Deus? Eis as consequências, em qualquer dos ca­
sos: o servo fiel que, por amor e devoção ao seu Mestre,
se dedicou ao bem-estar da Sua Casa, será, quando do
regresso do seu Senhor, estabelecido sobre todos os Seus
bens; aqueles que tiverem sido fiéis no serviço da Casa
serão colocados sobre todas as coisas pelo Senhor, quando
Ele tomar o Seu lugar de poder e actuar como Rei. Todas
as coisas são entregues a Jesus pelo Pai. Aqueles que, em
humildade, tiverem sido fiéis no Seu serviço durante a Sua
ausência serão estabelecidos sobre tudo o que Lhe foi con­
fiado, isto é, sobre todas as coisas — elas não são outra
coisa senão «os bens» de Jesus. Por outro lado, aquele que
durante a ausência do Senhor se arrogou o lugar de mestre,
e se deixou conduzir pelo espírito da carne e do mundo
ao qual estará unido, não será tratado somente como o
mundo; o seu Senhor virá inesperadamente e ele receberá
o castigo dos hipócritas. Que sublime lição esta para todos
aqueles que se atribuem um lugar de serviço na Igreja!
E é de notar aqui que não nos é dito que o servo mau se
tenha embriagado, mas que come e bebe com os que o
fazem. Ele alia-se ao mundo e segue os seus hábitos.
De resto, por muito mau que seja o coração do servo
malvado, este é o aspecto geral que tomará o reino nesse
dia. O esposo tardará, com efeito; e as consequências que
daí se poderão esperar do coração do homem não deixarão
de se realizar. Mas o efeito, que vemos então, é pôr em
evidência aqueles que tinham realmente a graça de Cristo (')
e aqueles que a não tinham.
O Como é solene o testemunho prestado aqui ao efeito produzido pela
perda de parte da Igreja da espera actual do regresso do Senhor! Isto faz com
que a igreja professante corra para a opressão hierárquica e para o munda­
nismo, de modo a, no fim, ser cortada como hipócrita. Ela diz em seu coração:
O meu Senhor tarda em vir — renunciando assim à espera presente. É o que
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 165
CAPITULO 25
Os professos, durante a ausência do Senhor, são apre­
sentados iaqui como virgens que saem ao encontro do
Noivo para O alumiarem no Seu caminho até casa. Nesta
passagem Ele não é o Noivo da Igreja. Ninguém mais vai
ao Seu encontro para as Suas bodas com a Igreja no Céu.
A noiva não aparece nesta parábola. Se ela tivesse sido
introduzida, teria sido Jerusalém sobre a Terra. A Igreja,
como tal, não está em cena nestes capítulos.
Trata-se aqui da responsabilidade individual (l) durante
a ausência de Cristo. O que caracterizava os fiéis nesta
época é que eles saíam do mundo, do Judaísmo, de tudo,
até da religião em relação com o mundo, para irem ao
encontro do Senhor que vem. O Remanescente judaico,
pelo contrário, espera Jesus no lugar onde se encontra.
Se esta expectativa fosse real, o pensamento daquilo que
será necessário para Aquele que vem — a 'luz, o azeite —
caracterizava o que é governado por ele. Por outro lado,
bastará ao coração esperar na companhia dos professos
e levar lâmpadas com eles. !No entanto, as virgens tomam
todas a sua posição; saem; deixam a casa para irem ao
encontro do Noivo. Ele demora. OÉ isto o que tem aconte­
cido. Todas adormecem (verso 5). Toda a igreja profes­
sante perdeu o pensamento do regresso do Senhor — até
mesmo os fiéis que têm o Espírito. Devem ter ido também
a qualquer lado para dormirem comodamente — a um lugar
de repouso para a carne. Mas là meia-noite, subitamente,
ouve-se o clamor: «Aí vem o Esposo; saí-Lhe ao encontro!»
(verso 6). Mas, ai! Ainda temos necessidade da mesma cha­
mada, como no princípio. Ainda devemos sair para irmos
ao Seu encontro. As virgens levantam-se e espevitam as
tem dado origem à sua ruína espiritual. A verdadeira posição cristã foi per­
dida, quando foi posta de lado a vinda do Senhor. E note-se que, embora o
homem se encontre nesse estado, é considerado como servo responsável.
0) Quanto aos servos, no capítulo 24, trata-se de responsabilidade
colectiva.
166
J. N. DARBY
suas lâmpadas. Há tempo bastante entre o clamor da meia-
-moite e a chegada do Noivo para verificar o estado de
cada uma. Ora, havia virgens que não tinham azeite nas
suas vasilhas. As suas lâmpadas tinham-se apagado (!). As
prudentes tinham azeite, mas era-lhes impossível partilhá-lo
com as outras. Somente as que o tinham entraram com
o Noivo para tomarem parte nas bodas (versos 7-10). O
esposo recusa reconhecer as outras. Que tinham elas que
fazer ali? As virgens deviam iluminar com as suas lâm­
padas. Não o tinham feito. Porque haviam então de parti­
lhar da festa? Tinham falhado naquilo que lhes garantia
ali um lugar. A que título teriam elas agora o direito de
ali entrarem? As virgens que estavam na festa eram as que
acompanhavam o Noivo. Aquelas não o tinham feito. Tam­
bém não entrariam na festa. Mas até mesmo os Cristãos
fiéis têm esquecido a vinda de Cristo! Adormeceram!...
Mas, pelo menos, possuíam o que era essencial para essa
vinda. A graça dc Noivo faz com que o clamor seja ouvido
(verso 6), proclamando a Sua chegada. O clamor desperta
as virgens; elas têm azeite nas suas vasilhas; e a demora,
que dá lugar a que as lâmpadas das infiéis se apaguem,
dá tempo às fiéis para se prepararem e estarem no seu
lugar; e, por muito esquecidas que possam ter sido, entram
com o noivo para a festa nupcial (2).
Passemos agora do estado de alma ao serviço. Porque,
na verdade (verso 14), isto é como um homem que, tendo
de se ausentar de sua casa — porque o Senhor habitava
em Israel — confia os seus bens aos seus servos antes de
partir. Temos aqui os princípios que caracterizam os ser-
0) A palavra significa antes: Tochas. Elas tinham, ou deveriam ter azeite
nas suas vasilhas para alimentar a chama.
0) Note-se aqui que o despertar é produzido pelo grito. Ele desperta
tudo. É suficiente para provocar em todos os praticantes uma actividade
necessária, mas tem por efeito pô-losi todos à prova, e separá-los. Não era
o momento de obter azeite ou socorros de graça daqueles que eram já prati­
cantes; a conversão não é o tema desta parábola. Não duvido de que a questão
de se procurar azeite não está ali senão para mostrar que não era o momento
de o fazer.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 167
vos fiéis, ou o contrário. Não se trata agora da espera pes­
soal, individual, e da posse do azeite necessário para ter
um lugar no cortejo glorioso do Senhor; também não se
trata da posição pública e geral daqueles que estavam ao
serviço do Mestre, caracterizada no seu conjunto como uma
posição, e assim designada por um só servo; mas o que
encontramos aqui é a fidelidade individual no serviço, como
antes na expectativa do Noivo. O Mestre, no Seu regresso,
regulará as Suas contas com cada um, individualmente.
Ora, qual era a posição dos servos? Qual é o princípio que
produzirá a fidelidade?
Note-se em primeiro lugar que não se trata de dons
providenciais, de bens terrestres. Não são «os bens» que
Jesus confiou aos Seus servos quando Se ausentou. Eram
dons que os preparavam para o labor no Seu serviço en­
quanto Ele estivesse ausente. O Mestre era soberano e
sábio. Deu diferentemente a cada um, e a cada um segundo
a sua capacidade. Todos eram aptos para os serviços que
lhes eram confiados, e eram-lhes concedidos os dons ne­
cessários para a sua realização. Fidelidade no seu desem­
penho era a única coisa que estava em questão. O que
distinguia os fiéis dos infiéis era a confiança no seu Mestre.
Tinham bastante confiança no Seu bem conhecido carácter,
na Sua bondade, no Seu amor para trabalharem sem outra
autorização além do conhecimento que eles tinham do Seu
carácter pessoal e da inteligência que essa confiança e esse
conhecimento produziam. Que necessidade havia de lhes dar
importantes somas de dinheiro, se não fosse para negocia­
rem com elas? Acaso Ele se havia enganado quando lhes
concedeu esses dons? A dedicação que resultava do conhe­
cimento que eles tinham do seu Mestre contava com o
amor d’Aquele que eles conheciam. Trabalhavam e eram
recompensados. Este é o verdadeiro carácter e o motivo
do serviço na Igreja. Mas era isto o que faltava ao terceiro
servo. Não conhecia o seu Mestre — não confiava n’Ele.
Nem sequer soube fazer o que era consequente com os
seus próprios pensamentos (versos 24-27). Esperava uma
168 J. N. DARBY
autorização que lhe desse -segurança contra o carácter que
o seu coração atribuía falsamente ao seu Mestre. Aqueles
que conheceram o carácter do seu Mestre entraram no
Seu gozo.
Existe uma diferença entre esta parábola e a de Lucas
19:12-27. Nesta, cada servo recebe uma mina; a responsa­
bilidade é a única coisa que está em causa. Portanto, aquele
que ganhou dez minas é estabelecido sobre dez cidades. Na
primeira trata-se da soberania e da sabedoria de Deus,
e aquele que trabalha é guiado pelo conhecimento que pos­
sui do seu Mestre — e os desígnios de Deus em graça são
cumpridos. O que tem a maior parte recebe ainda mais
(versos 20, 21 e 29). A recompensa é, ao mesmo tempo, mais
geral. Aquele que ganhou dois talentos e o que ganhou
cinco entram ambos e de igual modo no gozo do Senhor
que serviram (versos 21 e 23). Conheceram-No sob o Seu
verdadeiro carácter; entram no Seu pleno gozo. Que o
Senhor nos conceda a todos a mesma graça!
Mas há mais que isso na parábola das virgens. Referejse
mais directa e mais exclusivamente ao carácter celestial dos
crentes. Não se trata da Igreja propriamente dita, como
corpo, pois os fiéis saíram para irem ao encontro do Noivo,
que voltava para as bodas. O reino dos céus, quando o Se­
nhor voltar para executar o Julgamento, tomará o carácter
de pessoas saídas do mundo e mais ainda do Judaísmo —
de tudo o que pertence à carne sob a forma de religião; de
toda a forma mundana estabelecida — para não terem de
tratar senão com o Senhor que vem, e para irem para Ele.
Este era o carácter dos fiéis desde o princípio, como tendo
parte no reino dos céus, se compreendessem a posição em
que a rejeição de Cristo os tinha colocado. As virgens, é
verdade, entraram de novo/e isso falseava o seu carácter;
mas o clamor da meia-noite repô-las no seu verdadeiro
lugar. Por isso elas entram com o Noivo, e não se trata
de julgar nem de recompensar, mas de estar com Cristo.
Na primeira parábola e na de Lucas o assunto é o regresso
de Jesus à Terra, e a recompensa individual—-resultado,
no reino, do seu comportamento durante a ausência do
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 169
Rei 0). Não :se trata disso na parábola das virgens. As que
não têm azeite não entram de modo nenhum na festa de
núpcias. Isto basta. As outras têm a sua bênção em comum;
entram com o Noivo para a festa. Não se trata de recom­
pensa particular, nem de diferença de comportamento entre
elas. Era a expectativa dos seus corações, embora a graça
tivesse de as restaurar. Qualquer que tivesse sido o lugar
do serviço, o galardão estava certo. Esta parábola diz res­
peito e limita-se à parte celestial do reino como tal. É uma
semelhança do reino dos céus.
Podemos notar aqui que a demora do Mestre é igual­
mente assinalada na terceira parábola (verso 19): «E muito
tempo depois». A fidelidade e a constância dos servos eram
assim postas à prova. Que o Senhor nos conceda a graça
de sermos achados agora no fim dos tempos, fiéis e dedi­
cados, para que possa dizer-nos: «Bem está, servos bons
e fiéis!». Uma coisa digna de nota, é que, nestas parábolas,
os servos, ou os que saíram no princípio, são os mesmos
que se encontram no fim. O Senhor não mantém a supo­
sição da demora além de «nós, os que ficarmos vivos» (2)
Lágrimas e ranger de dentes são a porção daquele que
não tem conhecido o seu Mestre, e que O tem ultrajado
com os pensamentos que alimentou acerca do Seu carácter.
A história profética, interrompida desde o fim do ver­
so 31 do capítulo 24, é retomada no verso 31 do capítulo 25.
Vimos o Filho do homem aparecer como um relâmpago
e em seguida juntar o Remanescente de Israel dos quatro
ventos da terra. Mas não é tudo. Se Ele aparece assim de
maneira súbita e inesperada, estabelece igualmente o Seu
trono de Justiça e de glória sobre a Terra. Se destrói os
O) Na parábola dos talentos, em Mateus, temos, sem dúvida, o estabe­
lecimento «sobre muito»; é o reino, mas há um sentido mais completo na
expressão: Entra no gozo do teu Senhor; e a bênção é ali uniformemente
derramada sobre todos aqueles que têm sido fiéis no serviço, grandes ou
pequenos.
(a) É assim a respeito das igrejas no Apocalipse. O Senhor fala às
igrejas que existiam, embora essas assembleias sejam — não duvido — uma
história completa da Igreja.
170 J. N. DARBY
Seus inimigos, que encontra sublevados contra Si, assen-
ta-Se também no Seu trono para julgar todas as nações.
Este é o Julgamento sobre a Terra dos vivos.
Encontram-se aqui quatro partes diferentes: O Senhor,
o próprio Filho do homem — os irmãos, as ovelhas e os
bodes. Creio que os irmãos aqui são os Judeus, esses Judeus
que Ele tinha empregado como mensageiros para prega­
rem o reino durante a Sua ausência. O Evangelho do reino
devia ser pregado como testemunho a todas as nações;
e então viria o fim do século. Ora, isto tinha já tido lugar
na época de que se fala aqui. O resultado disso será mani­
festado perante o trono do Filho do homem sobre a Terra.
O Senhor chama, pois, a esses mensageiros «Seus ir­
mãos». Tinha-lhes dito que seriam maltratados, e eles o
foram. No entanto havia homens que tinham recebido o
seu testemunho.
Ora, era tal a afeição do Senhor pelos Seus fiéis servos,
era tal o caso que fazia deles que julgava aqueles a quem
o testemunho era enviado conforme a maneira como eles
tinham recebido esses mensageiros, quer em bem quer em
mal, como se eles tivessem feito essas coisas a Si próprio.
Que encorajamento para as Suas testemunhas, durante
esses tempos de tribulação, onde a actividade da sua fé
será posta à prova! Ao mesmo tempo fazia-se moralmente
justiça àqueles que eram julgados; porque tinham rejeitado
o testemunho, fosse quem fosse aquele que o tinha pres­
tado. Em seguida a Palavra de Deus dá-nos as consequên­
cias do comportamento, quer de uns, quer de outros. É o
Rei — porque este é o carácter que Cristo tomou agora
sobre a Terra — que pronuncia o Juízo; e chama «as ove­
lhas» (aqueles que tinham acolhido os mensageiros e tinham
simpatizado com eles nos seus'sofrimentos e nas suas per­
seguições) para herdarem do reino que lhes tinha sido pre­
parado desde a fundação do mundo; pois tais tinham sido
as intenções de Deus a respeito desta Terra. Deus tinha
sempre em vista o reino. Eles eram os benditos de Seu Pai
(do Pai do Rei). Não se tratava de filhos que compreendes­
sem a sua própria relação com o Pai; mas eram o objecto
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 171
da bênção do Pai do Rei deste mundo. Além disso eles
deviam entrar na vida eterna; porque tal era, por graça,
o poder da Palavra que eles tinham recebido em seus cora­
ções. Possuidores da vida eterna, eles serão abençoados
num mundo abençoado também (verso 34).
Aqueles que tinham desprezado o testemunho- e as tes­
temunhas, tinham, por essa mesma razão, desprezado o
Rei que os tinha enviado; irão para os tormentos eternos
(versos 45-46).
Assim, todo o efeito da vinda de Cristo-, em relação com
o reino e Seus mensageiros durante a Sua ausência, é de­
senrolado perante os nossos olhos: A respeito dos Judeus,
até ao verso 31 do capítulo 24; a respeito dos Seus servos,
durante a Sua ausência, até ao fim do verso 30 do capí­
tulo 25, incluindo o reino dos céus no seu estado actual
e os galardões celestiais que serão concedidos; e em se­
guida, acerca das nações abençoadas sobre a Terra aquando
do Seu regresso, desde o verso 31 deste capítulo 25 até
ao fim.
CAPITULO 26
O Senhor tinha terminado os Seus discursos. (Prepara-Se
agora para sofrer e para fazer a Sua última e comovente
despedida dos Seus discípulos, à mesa da Sua última Pás­
coa na Terra, mesa em que instituiu o simples e precioso
memorial que recorda com um interesse tão profundo os
Seus sofrimentos e o Seu amor. Esta parte do Evangelho
não exige muitas explicações—não, certamente, por falta
de interesse, mas porque carece mais de ser sentida do que
explicada.
Com que simplicidade o Senhor anuncia o que deve
acontecer! (verso 2). Tinha chegado já a Betânia, seis dias
antes da Páscoa (João 12:1); ali permaneceu, excepto para
a última ceia, até ser preso no jardim de Getsêmani, em­
bora visitasse Jerusalém e ali tivesse tomado a Sua última
refeição.
172
J. N. DARBY
Examinámos já os discursos pronunciados durante esses
seis dias, assim como os Seus actos, tais como a purifi­
cação do templo. O que precede este capítulo é a manifes­
tação dos direitos do Senhor como Emanuel, Rei de Israel,
ou o Juízo do grande Rei a respeito do povo — Julgamento
expresso em palavras às quais o povo não podia dar res­
posta; e enfim o estado dos Seus discípulos durante a Sua
ausência. Vemos agora a submissão de Cristo aos sofri­
mentos que iam abater-se- sobre Si, mas que, realmente,
não constituiam senão o cumprimento dos desígnios de
Deus Seu Pai — e a obra do Seu próprio amor.
O quadro do pecado terrível do homem na crucificação
de Jesus desenrola-se ante nossos olhos. Mas o próprio Se­
nhor o anuncia (verso 2) antecipadamente com toda a cal­
ma de Alguém que tinha vindo justamente para isso. Antes
dos principais sacerdotes mutuamente se consultarem, Je­
sus fala dela como de uma coisa consumada: «Bem sabeis
que daqui a dois dias é a Páscoa; e o Filho do homem será
entregue para ser crucificado». Em seguida os principais
sacerdotes, os escribas e os anciãos do povo reunem-se para
acertarem os seus planos a fim de se apoderarem de Jesus
e se desfazerem d’Ele (versos 3-4).
Numa palavra, temos primeiro os maravilhosos desíg­
nios de Deus, e a submissão de Jesus, segundo o Seu conhe­
cimento desses desígnios e das circunstâncias que os reali­
zarão; depois os perversos desígnios do homem que não
fazem senão cumprir os de Deus. O pormenorizado pro­
pósito deles de não O prenderem durante a festa, por teme­
rem o povo (verso 5), não era de Deus e falha: Ele devia
sofrer durante a festa.
Judas era apenas um instrumento da maldade deles na
mão de Satanás que, no fim de contas, não fez senão regu­
lar as coisas segundo a intenção divina. Os principais do
povo queriam, mas em vão, evitar prendêjLo na ocasião
da festa, por causa da multidão que podia favorecer a
Jesus, se Ele apelasse para ela. Tinham já procedido de
igual modo (Marcos 11:18) aquando da Sua entrada em
Jerusalém. Eles pensavam que Jesus faria esse apelo, por-
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 173
que a maldade conta sempre encontrar os seus próprios
princípios nos outros. É por isso que falha frequentemente
quando pensa enredar os justos: Eles são simples — e ela
não o é. Aqui, era a vontade de Deus que Jesus sofresse
durante a festa. Mas Deus tinha preparado um doce alívio
para o coração do Salvador — um bálsamo para o Seu cora­
ção mais do que para o Seu próprio corpo — circunstância
empregada pelo Inimigo para induzir Judas ao extremo
e pô-lo em relação com os principais sacerdotes.
Betânia— cuja recordação se liga aos últimos momen­
tos de tranquilidade e de paz da vida do Salvador e onde
moravam Marta e Maria e Lázaro, o ressuscitado — Betâ­
nia (>) recebe Jesus pela última vez: Retiro bendito, mas
momentâneo, de um coração que, sempre pronto para se
derramar em amor, era sempre oprimido num mundo de
pecado que não respondia nem podia responder a esse
amor; de um coração que, no entanto, nos deu, nas suas
relações com esta família bem-amada, o exemplo de uma
perfeita afeição, embora humana, que encontrava doçura
em ser apreciada e correspondida. A perspectiva da Cruz,
que Ele teria de contemplar com resoluta firmeza, não pri­
vava o Seu coração da doçura desta comunhão, embora a
tornasse solene e comovedora. Fazendo a vontade de Deus,
Jesus não cessou de ser homem. Condescendeu em tudo
ser por amor de nós. Não podia mais reconhecer Jerusa­
lém, e este santuário de Betânia O abrigava por um mo­
mento da rude mão do homem. Podia mostrar ali o que
sempre fora como homem. É com razão que o acto da­
quela que, em certo sentido, podia apreciar o que Ele
sentia (2) (aquela cuja afeição compreendia instintivamente
o ódio que se erguia contra o objecto que ela amava, ódio
C) Não é na casa de Marta que esta cena tem lugar, mas sim na de
Simão, o leproso. Marta servia, e Lázaro estava à mesa. Isto toma mais
inteiramente pessoal o acto inteligente de Maria.
(2) Não se encontra nenhum exemplo mostrando que os discípulos tenham
alguma vez compreendido o que Jesus lhes dizia.
174 J. N. DARBY
que fazia realçar essa afeição), acto que exprimia a apre­
ciação que o seu coração fazia do valor e da graça de Jesus,
é contado no mundo inteiro (versos 6-13). É uma cena, um
testemunho que coloca o Salvador sensivelmente perto de
nós e desperta nos nossos corações um sentimento que os
santifica unindo-os à Sua bem-amada Pessoa..
A Sua vida habitual era uma tensão permanente de alma
em proporção do poder do Seu amor — uma vida de dedi­
cação no meio do pecado e da miséria. Por um momento,
Ele pode reconhecer, e reconhece {em presença do poder
do mal que então ia ter o seu curso, e do amor que, pelo
verdadeiro conhecimento de Jesus, cultivado ficando sen­
tado a Seus pés, a Ele se ligava, inclinando-Se assim sob
a força desse amor) essa dedicação por Si mesmo, mani­
festada pelas coisas às quais a Sua alma se submetia em
perfeição divina. Podia reconhecer o verdadeiro significado
de palavras inteligentes, proferidas como resultado da acção
divina no recôndito da alma (*).
O leitor fará bem em estudar cuidadosamente esta cena
de impressionante condescendência e manifestação de alma.
Desde o capítulo 16 até ao fim do capítulo 25, Jesus, Ema­
nuel, Rei e Juiz Supremo, havia feito passar tudo em Jul­
gamento perante Ele. Tinha terminado o que tinha para
dizer. A este respeito, a Sua tarefa no mundo estava cum­
prida. Toma er.tão o lugar de vítima. Já não tinha senão
que sofrer, e pode deixar-Se ir livremente para desfrutar
comoventes expressões de afeição, brotando de um coração
que Lhe é dedicado. Apenas podia provar o mel e prosse­
guir avante; mas prova-o e não rejeita uma afeição que o
Seu coração podia apreciar e que apreciava.
O Cristo encontrou em casa do fariseu o coração da pobre mulher, que
era uma pecadora, e ali revela abertamente o pensamento de Deus, dizendo-o
de modo que todos ouvissem. Aqui, Ele encontra o coração de Maria, justifica
e satisfaz o seu afecto e dá uma aprovação divina ao que ela faz. O Senhor
encontra no sepulcro o coração de Maria de Magdala, para o qual o mundo
era vazio, se Ele ali não estivesse — e revela o pensamento de Deus sob a
sua mais elevada forma de bênção. Tal é o efeito da dedicação a Cristo.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 175
Notemos ainda o efeito de uma profunda afeição pelo
Senhor. Esta afeição respira necessariamente a atmosfera
em que o espírito do Senhor se encontrava então. A mu­
lher que O tinha ungido não estava informada das circuns­
tâncias que iam ter lugar, nem era profetisa. Mas a aproxi­
mação dessa hora de trevas foi sentida por alguém cujo
coração estava posto em Jesus (*)• As diversas formas do
mal desenrolavam-se perante Ele e mostravam-se no seu
verdadeiro carácter; e, sob a influência de um mesmo se­
nhor, o próprio Satanás, juntaram-se em redor do único
objectivo contra o qual valia a pena pôr em ordem essa
concentração de maldade que revelava abertamente o ver­
dadeiro carácter de cada um.
Mas a perfeição de Jesus, que fazia sobressair a inimi­
zade do homem, revelava a afeição que se encontrava em
Maria; e ela, por assim dizer, reflectia a perfeição no
afecto; e como esta perfeição era posta em acção e reve­
lada pela inimizade, o mesmo acontece com a sua afeição.
Por isso o coração de Jesus não podia senão correspon­
der-lhe. Jesus, por causa dessa inimizade, era ainda mais
o objecto de um coração que, certamente guiado por Deus,
instintivamente apreendia o que se estava a passar.
O tempo do testemunho e até mesmo da explicação das
Suas relações com todos aqueles que O rodeavam tinha ter­
minado. O Seu coração podia gozar livremente das afeições
verdadeiras, boas e espirituais de que era alvo — afeições
que, qualquer que fosse a sua forma humana, mostravam
bem claramente a sua origem divina. Nesse solene mo­
mento, Ele era o alvo e o centro de toda a atenção do Céu.
Jesus tinha o sentimento da Sua posição. Os Seus pen­
samentos estavam concentrados na Sua partida. Durante
O A inimizade dos chefes de Israel era conhecida dos discípulos: «Mestre»
ainda agora os Judeus procuravam apedrejar-te, e voltas para lá?», e logo a
seguir Tomé — testemunho pleno de graça para com aquele que, mais tarde,
mostrou a sua incredulidade quanto à ressurreição de Jesus-: «Vamos nós
também, para morrermos com Ele». O coração de Maria, sem dúvida, sentia
essa inimizade, e, à medida que ela crescia, crescia também a sua afeição
pelo Senhor.
176 J. N. DARBY
o exercício do Seu poder, ocultaJSe e esquece-Se de Si. Mas
agora, oprimido, rejeitado e como um cordeiro levado para
o matadouro, sente que é o justo Objecto dos pensamentos
dos Seus, de todos aqueles que têm corações para apreciar
o que Deus aprecia. O Seu coração está cheio do que vai
acontecer. (Ver os versos 2; 10-13; 18 e 21).
Algumas palavras mais acerca da mulher que ungiu a
Jesus: O efeito de ter o coração fixado com afecto em Je­
sus é revelado nela de uma maneira notável. Preocupada
com Ele, ela sente a Sua posição. Sente o que O aflige;
e isto leva o seu afecto a agir de harmonia com a devoção
especial que a situação inspira. Assim como o ódio contra
Ele se desenvolve até às intenções homicidas, também o
espírito de dedicação por Ele se desenvolve nela. Por con­
seguinte, com o seu acto de afecto, ela faz precisamente
o que convém à posição do Senhor. Sem dúvida a pobre
mulher não estava inteligentemente esclarecida a esse res­
peito, mas fez o que convém. O valor tão infinitamente pre­
cioso que a Pessoa de Jesus tinha para ela toma-a clarivi­
dente a respeito do que se passava em Seu espírito. Aos
seus olhos Cristo estava investido de todo o interesse das
Suas circunstâncias; e derrama prodigamente sobre Ele
o que é a expressão do seu afecto. Fruto desse sentimento,
o seu acto responde às circunstâncias; e embora fosse ape­
nas o instinto do seu coração, toma aos olhos de Jesus todo
o valor que a perfeita inteligência do Senhor lhe podia atri­
buir, inteligência que abrangia ao mesmo tempo o senti­
mento do seu coração e os acontecimentos que iam ter
lugar.
Mas esse testemunho de afecto e de devoção a Cristo
desperta o egoísmo, a falta de coração das outras teste­
munhas desta cena. Censuram a pobre mulher e provam
tristemente (para não falar de Judas (*)) quão pouco o
conhecimento do que diz respeito a Jesus desperta neces-
0) O coração de Judas é o ponto de partida desse mal, mas os outros
discípulos, não estando ocupados de Cristo, caem na esparrela.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 177
sariamente em nossos corações os afectos que convêm a
esse conhecimento (versos 8-9). Logo após este aconteci­
mento (versos 14-16), Judas sai e concorda com os infelizes
sacerdotes entregar-lhes Jesus pelo preço de um escravo.
O Senhor prossegue a Sua carreira de amor; e do mes­
mo modo como tinha aceitado o testemunho de afecto da
pobre mulher, manifesta agora pelos Seus discípulos um
afecto de valor infinito para as nossas almas.
O verso 16 conclui o assunto de que temos estado a
falar — o conhecimento que Cristo tinha, segundo Deus,
do que O esperava, os conluios dos principais sacerdotes,
o afecto da pobre mulher aceite pelo Senhor, o frio egoís­
mo dos discípulos e a traição de Judas.
O Senhor institui então o memorial da verdadeira Pás­
coa. Envia os Seus discípulos para fazerem os preparativos
para a celebração da festa em Jerusalém. Designa Judas
como sendo aquele que havia de entregá-Lo aos Judeus
(versos 17-25). Notar-se-á que o Senhor não exprime aqui
simplesmente o Seu conhecimento daquele que devia traí-
-Lo!... Ele sabia isso quando chamou Judas; mas diz: «Um
de vós me há-de trair» (verso 21). Era precisamente isto
o que comovia o Seu coração. E Ele desejava que os como­
vesse a eles de igual modo.
Jesus mostra em seguida que é de um Salvador entregue
à morte que é preciso recordarem-se. Já não se trata de
um Messias vivendo na Terra; tudo isso era passado. Já
não se tratava da recordação da libertação de Israel da
escravidão do Egipto. Cristo —e um Cristo morto — come­
çava uma ordem de coisas inteiramente nova. Era n’Ele
que eles deviam pensar agora — n’Ele, morto neste mundo.
Em seguida Jesus chama a atenção deles para o sangue
da nova aliança e para o que faz com que esse sangue se
estenda a outros além dos Judeus, sem contudo os nomear.
«Ele é derramado por muitos». Aliás, este sangue não é
somente destinado, como no Sinai, a confirmar a aliança,
por cuja fidelidade eles eram responsáveis: ele era derra­
mado em remissão de pecados. De modo que a Ceia do
Senhor apresenta a recordação de Jesus morto, de Jesus
12
178 J. N. DARBY
que, ao morrer, rompeu com o passado, lançou o funda­
mento da nova aliança, obteve a remissão dos pecados e
abriu a porta aos Gentios. A Santa Ceia apresenta-0 pe­
rante nós somente na Sua morte. O Seu sangue é separado
do Seu corpo; Ele está morto. Não se trata nem de Cristo
vivendo sobre a Terra, nem de Cristo glorioso no Céu. Está
separado do Seu povo, quanto aos seus gozos na Terra;
mas eles devem esperá-Lo como o companheiro da felici­
dade que Ele lhes assegurou — porque Ele digna-Se sê-lo —
para melhores dias: «Já não beberei deste fruto da vide,
até àquele dia em que o beba novo (') convosco, no reino
de meu Pai» (verso 29). Mas, uma vez quebrados esses elos,
quem, senão Jesus, poderia sustentar a luta? Todos O aban­
donam. Os testemunhos da Palavra de Deus cumprem-se,
porque estava escrito: «Ferirei o pastor, e as ovelhas do
rebanho se dispersarão» (verso 31).
Todavia, Jesus iria renovar as Suas relações, como Sal­
vador ressuscitado, com esses pobres do rebanho, lá mesmo
onde Se tinha já identificado com eles durante a Sua vida
(verso 32). Iria adiante deles para a Galileia. Esta promessa
é verdadeiramente notável, porque o Senhor retoma, sob
uma nova forma, as Suas relações judaicas com eles e com
o reino. Podemos notar aqui que, como o- Senhor tinha jul­
gado todas as classes de pessoas (até final do capítulo 25),
mostra agora o carácter das Suas relações com todos aque­
les com quem as tinha mantido. Quer se tratasse da mu­
lher, quer se tratasse de Judas, ou dos discípulos, cada qual
toma o seu lugar em relação com o Senhor. É tudo o que
se encontra aqui. Se Pedro teve energia natural bastante
para ir um pouco mais longe, seria apenas para dar uma
queda maior no lugar onde só o Senhor podia permanecer
de pé.
E agora (versos 36 e seguintes) o Senhor isola-Se para
apresentar em súplicas a Seu Pai os sofrimentos que O
esperam.
O «Novo», não é de novo (Néon), mas sim de outra espécie (Kainon).
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 179
Mas, embora isolando-Se para oração, leva Consigo três
dos Seus discípulos, para que, nesse tão solene momento,
eles pudessem vigiar com Ele. Eram os mesmos três que
tinham estado com Ele por ocasião da transfiguração. Eles
deviam ver a Sua glória no reino e os Seus sofrimentos.
Afasta-Se deles um pouco, indo mais para diante. Eles,
porém, adormeceram, tal como tinham feito no monte da
transfiguração. Esta cena é-nos descrita em Hebreus 5:7.
Jesus não bebia ainda o cálice, mas tinha-o perante Si. Na
Cruz, Ele bebeu-o, sendo feito pecado por nós, e a Sua
alma sentiu-se desamparada de Deus. Aqui, o poder de Sa­
tanás actua empregando a morte como terror a fim de O
oprimir. Mas a consideração deste assunto terá lugar mais
adequado quando estudarmos o Evangelho segundo S. Lu­
cas.
Vemos aqui a alma de Jesus sob o peso da morte —
antecipada — como somente Ele o podia conhecer, e ela
não tinha ainda perdido o seu aguilhão. Sabemos quem
é que tem o poder da morte, e a morte tinha por enquanto
o pleno carácter de salário do pecado, e a maldição, o do
Juízo de Deus. Mas Jesus vigia e ora. Por um lado, como
homem, submetido pelo Seu amor a este assalto, em pre­
sença da mais poderosa tentação a que podia ser subme­
tido, Ele vigia; por outro lado, expõe a Sua aflição a Seu
Pai. A Sua comunhão não foi interrompida, por grande que
fosse a Sua angústia. Esta angústia era-Lhe mais dolorosa
em submissão e dependência do Pai. Mas nós devíamos ser
salvos. Se Deus devia ser glorificado n’Ele que Se tinha
encarregado da nossa causa, o cálice não podia ser afas­
tado d’Ele. A submissão de Jesus é perfeita.
Jesus lembra com ternura a Pedro a sua falsa con­
fiança ('), fazendo-lhe sentir a sua fraqueza (versos 40-41);
mas Pedro estava demasiado cheio de si mesmo para apro-
0) É maravilhoso ver o Senhor na profunda agonia da antecipação do
cálice — somente o apresentando ao Pai, e não o bebendo ainda — voltar-Se
para os discípulos e falar-lhes com uma graça plena de calma, como se
estivesse na Galileia; voltando depois exactamente à mesma terrível luta de
180
J. N. DARBY
veitar a lição. Desperta do sono, mas a confiança que tem
em si mesmo não é abalada. Era-lhe necessária uma expe­
riência mais triste para o curar...
Jesus toma, pois, o cálice; mas toma-o da mão de Seu
Pai. A vontade de Seu Pai era que Ele o bebesse. Entregan­
do-Se assim inteiramente a Seu Pai, não é nem das mãos
dos Seus inimigos nem das de Satanás (embora eles fos­
sem os instrumentos) que Ele o toma. De conformidade com
a perfeição com que Se havia submetido à vontade de Deus
a este respeito, entregando-Lhe todas as coisas, é só da
Sua mão que Ele o recebe. É a vontade do Pai. É desta
forma que nós escapamos de causas, secundárias e das ten­
tações do Inimigo, buscando só a vontade de Deus que
ordena todas as coisas. É d’E!e que recebemos aflições e
provações, se elas nos sobrevêm.
Mas já não há necessidade de que os discípulos vigiem:
Chegou a hora ('). Jesus ia ser entregue às mãos dos ho­
mens. Isto era dizer tudo. Judas indica-0 com um beijo.
Jesus vai ao encontro da multidão e repreende Pedro por
ter procurado resistir com armas carnais. Se Cristo tivesse
querido escapar, poderia ter pedido doze legiões de anjos
— e tê-las-ia! Mas devia cumprir-se toda a Escritura (2).
Era a hora da Sua submissão aos efeitos da maldade do
homem e ao poder das trevas, e ao Julgamento de Deus
contra o pecado. É o cordeiro para o matadouro. Então
todos os discípulos O abandonam (verso 56). Entrega-Se,
chamando,, porém, a atenção da multidão para o que esta­
vam a fazer. Se ninguém pode demonstrar a Sua culpa-
espírito, que oprimia a Sua alma. Acrescento que em Mateus Ele é vítima,
e que aquilo que Ele encontra aqui é todo o agravamento, sem circunstâncias
atenuantes.
O Proponho-me falar dos sofrimentos do Senhor, estudando o Evangelho
segundo S. Lucas, onde eles são descritos mais pormenorizadamente; porque
é como Filho do homem que Ele é ali particularmente apresentado.
(8) Note-se aqui o lugar que o Senhor, num momento tão solene e tão
próximo da Cruz, dá às Escrituras, que dizem que é necessário que assim
aconteça —■porque esse momento tinha chegado (verso 54). Estas são as pala­
vras de Deus.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 181
bilidade, Ele não negará a verdade. Confessa a glória da
Sua Pessoa como Filho de Deus, e declara que desde agora
verão o Filho do homem, já não em doçura, como Aquele
que não esmagaria a cana quebrada, mas vindo sobre as
nuvens do céu e assentado à direita do Poder (versos 56-64).
Tendo dado este testemunho, Jesus é condenado por
aquilo que disse de Si próprio— pela confissão da verdade.
As falsas testemunhas não foram bem sucedidas. Os sacer­
dotes e os chefes de Israel eram culpados da Sua morte,
em virtude da rejeição do testemunho que Ele dera da
verdade. Ele era a Verdade; eles estavam sob o poder do
pai da mentira, rejeitando o Messias, o Salvador do Seu
povo (versos 65-66). Já não virá mais a eles, senão como
Juiz.
Insultam-No e ultrajam-No. Desgraçadamente, como te­
mos visto, cada um toma o seu lugar aqui: Jesus, o de
vítima; os outras tomam o lugar da traição, da rejeição,
do abandono, negando o Salvador! Que triste quadro! Que
solene momento! Quem poderia suportá-lo? Somente Cristo!
E como Vítima! Como tal, Ele devia ser despojado de tudo,
e isto na presença de Deus. Tudo o mais desaparece, ex­
cepto o pecado, que levava à Cruz; e, por graça, o próprio
pecado também, ante a poderosa eficácia do sacrifício. Con­
fiando em si mesmo, Pedro hesita, e, quando é reconhecido,
mentindo e jurando, nega o seu Mestre! Depois, dolorosa­
mente convencido da impotência do homem frente ao ini­
migo da sua alma e do pecado, sai e chora amargamente.
Essas lágrimas não podiam apagar a sua culpa, mas pro­
vando que havia, por graça, integridade de coração, elas
dão testemunho dessa impotência a que a própria integri­
dade de coração não podia dar remédio (*).
O Penso que veremos, comparando os Evangelhos, que o Senhor foi
interrogado em casa de Caifás, na noite em que Pedro O negou; e que os
principais sacerdotes e os anciãos deliberaram de novo pela manhã, e, interro­
gando o Senhor, receberam d’Ele a confissão em virtude da qual O entregaram
a Pilatos. Durante a noite, os activos chefes somente se reuniram. De manhã,
houve uma assembleia regular do Sinédrio.
182
J. N. DARBY
CAPÍTULO 27
Depois os infelizes sacerdotes e chefes do povo entre­
gam o seu Messias aos Gentios, tal como Ele tinha dito
aos Seus discípulos. Judas, no desespero, sob o poder de
Satanás, enforca-se, depois de haver atirado o prémio da
sua iniquidade aos pés dos principais sacerdotes e dos
anciãos. Satanás é forçado a prestar testemunho à inocên­
cia do próprio Senhor, por uma consciência que ele enga­
nou. Que cena! Então os sacerdotes, que não sentiram na
consciência o pecado de comprarem a Judas o sangue de
Jesus, têm escrúpulo de porem o dinheiro na tesouraria
do templo, porque ele era o preço do sangue. Perante tudo
o que se estava a passar, o homom mostrou-se tal qual é,
e mostrou o poder de Satanás sobre ele. Os sacerdotes,
tendo reunido em conselho, deliberaram comprar um campo
para sepultura de estrangeiros. Estes eram, a seus olhos,
bastante profanos para nele serem sepultados — contando
que eles próprios não fossem contaminados por um tal
dinheiro! Era, no entanto, o momento da graça de Deus
para os estrangeiros, e o do Julgamento de Israel. Aliás,
eles estabelecem desse modo um perpétuo memorial do seu
próprio pecado, e do sangue que fora derramado. Aceldama,
isto é, campo de sangue, é tudo quanto resta neste mundo
das circunstâncias desse grande sacrifício. O mundo é um
campo de sangue, mas de sangue que fala mais do que o
sangue de Abei.
É sabido que esta profecia se encontra no Livro de
Zacarias, capítulo 11, versos 12 e 13. A palavra «Jeremias»
pôde escapar no texto, no tempo em que ali não havia
senão «pelo profeta»; ou então., como na ordem requerida
pelos talmudistas, «Jeremias» era o primeiro no Livro dos
Profetas, dizia-se provavelmente: «Jeremias ou um dos
profetas» (ver Mateus 16:14). Mas não é este o lugar pró­
prio para discutir esta questão.
Termina aqui a parte deles nas cenas judaicas. O Se­
nhor comparece agora perante Pilatos. Aqui a questão não
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 183
é se Ele é o Filho de Deus, mas se é o Rei dos Judeus.
Embora Ele fosse Rei dos Judeus, era só no carácter de
Filho de Deus que consentiria aos Judeus o recebererrí-No.
Tivessem-No eles recebido como Filho de Deus e Ele teria
sido o seu Rei. Mas isso não podia ser: Ele tinha de cum­
prir a obra da expiação. HavendcHO rejeitado como Filho
de Deus, os Judeus negam-No agora como seu Rei. Mas os
Gentios tornam-se também culpados na pessoa do seu chefe
na Palestina, cujo governo lhes tinha sido confiado. O chefe
gentio deveria ter reinado com justiça. O seu representante
na Judeia reconheceu a maldade dos inimigos de Cristo;
a sua consciência, alarmada pelo sonho- de sua mulher, pro­
cura escapar-se à iniquidade de condenar Jesus. Mas o
verdadeiro príncipe deste mundo, quanto ao exercício actual
do poder, era Satanás. Pila tos, lavando as mãos (vã espe­
rança de se libertar da sua responsabilidade), entrega o
inocente à vontade dos Seus inimigos, embora dizendo não
achar n’Ele falta alguma. E entrega aos Judeus um homem
culpado de uma sedição e de um homicídio, em lugar do
Príncipe da vida (versos 11-26). Mas foi ainda por causa
da Sua confissão, e por isso somente, que Ele foi conde­
nado; confessou, perante o tribunal dos Gentios, a mesma
coisa que tinha confessado no tribunal judaico, isto é, a
verdade, fazendo boa confissão do que concernia à verdade
quanto àqueles perante quem Se encontrava.
Barrabás (•) — expressão do espírito de Satanás, que foi
homicida desde o princípio, e de rebelião contra a auto­
ridade que Pilatos deveria manter — Barrabás era estimado
pelos Judeus; e, com ele, a injusta indolência do governa­
dor, que era impotente contra o mal, procurou satisfazer
a vontade do povo que deveria ter governado. «Todo o
povo» se tornou culpado do sangue de Jesus; expressão
solene, que se tem cumprido até aos nossos dias, esperando
que a graça soberana, de conformidade com os planos de
O Coisa estranha: Esta palavra significa «filho de Abba», isto é, do
Pai, como se Satanás troçasse deles por meio desse nome.
184
J. N. DARBY
Deus, a retire — palavras solenes, mas terríveis: «O seu
sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos» (verso 25).
Triste e terrível ignorância que a obstinação trouxe sobre
um povo que rejeitou a Luz!
Ah!, como cada qual, repito, toma o seu lugar na
presença desta pedra angular — um Salvador rejeitado!
O comum dos Gentios, os soldados, fazem-no com escárnio,
com aquela brutalidade que lhes era habitual como pagãos
e como carrascos; mas eles o farão com alegria e adoração,
quando Aquele de quem eles troçaram for verdadeiramente
o Rei dos Judeus em glória. Jesus suporta tudo. Era a hora
da Sua perfeita submissão a todo o poder do mal: era pre­
ciso que a paciência tivesse a sua obra perfeita para que
a sua obediência fosse completa em todo o sentido. Ele su­
portou tudo sem conforto, para não faltar em obediência
a Seu Pai. Que diferença entre este comportamento e o do
primeiro Adão, rodeado de bênçãos!
Cada qual, nesta hora solene em que tudo é posto à
prova, tem de ser servo do pecado ou da tirania da im­
piedade. Constrangem um certo Simão (conhecido mais
tarde, ao que parece, entre os discípulos) a levar a Cruz
de Jesus; e levam o Senhor ao lugar da Sua crucificação.
Uma vez ali, Ele recusa o que poderia entorpecer. Não
quer evitar o cálice que devia beber, nem privar-Se das
Suas faculdades para ser insensível ao que Deus queria
que Ele sofresse (versos 30-38). As profecias dos Salmos
cumprem-se na Sua Pessoa por meio daqueles que nem
sequer pensavam no que faziam. Ao mesmo tempo, os Ju­
deus conseguiam assim chegar ao último grau de vileza.
O seu Rei é pregado na Cruz! Mas eles têm de sofrer o
opróbrio, embora contra a sua vontade. Mas de quem é a
culpa?...
Endurecidos e insensíveis, os Judeus compartilham com
um malfeitor a triste satisfação de insultarem o Filho de
Deus, o seu Rei, o Messias, e isto para a sua própria ruína
(versos 39-44), e citam — tão cega é a incredulidade!—as
suas próprias Escrituras, como expressão do seu próprio
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 185
pensamento, o que é posto na boca dos incrédulos inimigos
de Jehovah. Jesus bem o sentiu; mas a angústia da Sua
provação, na qual, no fim de contas, Ele era uma teste­
munha calma e fiel, o abismo dos Seus sofrimentos escon­
dia algo de muito mais terrível que toda esta maldade ou
este desprezo dos homens. As ondas levantaram, sem dú­
vida, a sua voz (J). Uma após outra as ondas da iniquidade
desfazem-se contra Ele; mas quem poderá sondar o abismo
que sob elas O aguardava? O Seu coração, a Sua alma —
vaso de um amor divino — somente eles podiam descer
mais abaixo do que o fundo desse abismo aberto ao homem
pelo pecado, a fim de tirar os que ali jaziam, depois de
haver sofrido as suas dores na Sua própria alma. Um cora­
ção que sempre fora fiel, era desamparado de Deus. Aonde
o pecado tinha levado o homem, o amor levou o Senhor,
mas com uma natureza e compreensão em que não havia
distância nem separação, de modo que o desamparo foi
sentido em toda a sua plenitude. Ninguém mais senão
Aquele que Se encontrava nessa posição podia sondá-lo
ou senti-lo.
É também um espectáculo maravilhoso ver o único
homem justo neste mundo declarar, no fim da sua vida,
que era desamparado de Deus. Mas era assim que Ele O
glorificava, como ninguém tinha podido fazê-flo*, e num
lugar onde ninguém senão Ele o podia — feito pecado na
presença de Deus, sem véu para o ocultar, sem misericór­
dia para o suportar.
Os pais, cheios de fé, tinham, nas suas aflições, feito
a experiência da fidelidade de Deus, que respondia à espe­
rança dos seus corações. Mas Jesus (no tocante à Sua alma
nesse momento) clamava em vão. «Um verme, e não um
homem» perante os olhos dos homens; Ele devia suportar
o desamparo de Deus, em Quem confiava.
0) Encontramos em Mateus, particularmente juntos, a desonra feita ao
Senhor e os insultos que Lhe dirigiam; e em Marcos encontramos o aban­
dono de Deus.
186 J. N. DARBY
Tendo os seus pensamentos muito longe dos d’Ele, os
que O rodeavam nem sequer compreendiam as Suas pala­
vras, mas cumpriam as profecias pela sua ignorância. Je­
sus, dando testemunho, pela força da Sua voz, que não
era o peso da morte que O oprimia, rende o espírito (ver­
sos 45-50).
A eficácia da Sua morte é apresentada neste Evangelho
sob um duplo aspecto. Primeiro, o véu do templo foi ras­
gado de alto a baixo (verso 51). Deus, que sempre esti­
vera oculto atrás do véu, mostrou-Se completamente por
meio da morte de Jesus. A entrada no santuário é fran­
queada— caminho novo e vivo que. Deus nos consagrou
através do véu (Hebreus 10:19-20). Todo o sistema judaico,
as relações do homem com Deus sob a preponderância
desse sistema, o sacerdócio, tudo caía com o rasgão do véu.
Cada qual se achou na presença de Deus, sem o impedi­
mento do véu. Os sacerdotes deviam estar sempre na Sua
presença. Mas, pelo mesmo acto, o pecado, que tornaria
impossível a nossa presença ali, foi, para o crente, comple­
tamente tirado de diante de Deus. O Deus santo e o crente
purificado dos seus pecados são postos em relação pela
morte de Cristo. Que amor é este que realizará uma tal
obra!
Além de tudo o mais, era tal a eficácia da Sua morte
que, quando a Sua ressurreição quebrou os laços que os
prendiam, muitos mortos apareceram na cidade — teste­
munhas do poder d'Aqueâe que, havendo sofrido a morte,
Se elevou acima dela e venceu e destruiu o seu poder e a
tomou em Suas próprias mãos. A bênção estava agora na
ressurreição. A presença de Deus sem véu, e a presença de
pecadores purificados diante d’Ele provam a eficácia dos
sofrimentos de Cristo.
A ressurreição dos mortos, sobre os quais o rei dos ter­
rores já não tinha mais direito, mostrava a eficácia da
morte de Cristo pelos pecadores, e o poder da Sua ressur­
reição. O Judaísmo acabou e o poder da morte também
para aqueles que têm fé. O véu foi rasgado, a sepultura
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 187
restituiu a sua presa (versos 52-53); Ele é o Senhor dos
mortos e dos vivos 0 .
Resta ainda um testemunho particular do poder omni­
potente da morte de Jesus e do alcance desta palavra:
«E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim»
(ver João 12:32). O centurião que estava de guarda aquando
da crucificação do Senhor, vendo o terramoto e as coisas
que tinham sucedido, cheio de temor, reconhece a glória
da Pessoa do Salvador; e, embora estrangeiro para Israel,
dá o primeiro testemunho de fé entre os Gentios: «Verda­
deiramente este era Filho de Deus».
Mas a narrativa continua. Algumas pobres mulheres
— a quem a devoção dá, muitas vezes, da parte de Deus,
mais coragem do que aos homens, cuja posição é mais
responsável e mais agitada — estavam perto da Cruz, vendo
o que faziam Àquele que elas amavam (2) (versos 55-56).
0) A glória de Cristo, na Sua ascensão e como Senhor de todos, nâo
se encontra, historicamente, no quadro de Mateus.
C) A parte que as mulheres tomam em toda esta história é muito ins­
trutiva, especialmente para elas. A actividade do serviço público, o qual pode­
mos chamar «a obra», pertence naturalmente aos homens, isto é, tudo o que
diz respeito àquilo que, geralmente, denominamos Ministério; embora as
mulheres participem particularmente em preciosas actividades. Mas existe um
outro lugar na vida cristã que mais particularmente lhes diz respeito: é a
pessoal e tema afeição a Cristo. Foi uma mulher que ungiu o Senhor, enquanto
os discípulos murmuravam; eram mulheres que estavam ao pé da Cruz, en­
quanto todos, excepto João, O tinham abandonado; foram mulheres que foram
ao sepulcro, e foram anunciar a verdade aos apóstolos, os quais tinham ido
para suas casas; enfim, eram mulheres que proviam às necessidades do Senhor.
E, em verdade, isto vai mais além. A dedicação ao serviço pertence talvez
aos homens, mas o instinto de afeição, o qual penetra mais intimamente na
posição de Cristo, e se encontra assim mais imediatamente em relação com
os Seus sentimentos, numa comunhão mais íntima com os sofrimentos do
Seu coração, essa é a parte da mulher — e, seguramente, uma parte feliz.
A actividade do serviço para Cristo coloca o homem um pouco fora dessa
posição, sobretudo se ele não for vigilante. De resto, cada coisa tem o seu
lugar. Falo do que é característico, porque há mulheres que têm servido
muíto, e homens que são muito impressionáveis. Note-se também, como penso
ter dito já, que esta afinidade do coração para com Jesus é o estado em que
são recebidas as comunicações do verdadeiro conhecimento. O primeiro e pleno
Evangelho é anunciado à pobre mulher pecadora, que lava os pés do Senhor;
188
J. N. DARBY
Mas essas mulheres não eram as únicas a substituir os
apavorados discípulos. Outros (versos 57-60) — como tantas
vezes acontece — que tinham estado na obscuridade, com
medo do mundo, logo que as profundidades da sua afeição
são agitadas pelos sofrimentos d’Aquele a quem realmente
amam, no momento doloroso em que outros estão atemo­
rizados, incitados pela rejeição de (Cristo, acham que é che­
gado o momento para tomarem uma decisão e tornam-se
destemidas testemunhas do Senhor. Associados até agora
com os que tinham crucificado o Senhor, têm agora de
aceitar esse acto ou declararem-se Seus seguidores. Pela
graça tomam esta última decisão.
Deus tinha preparado tudo antecipadamente. O Seu Fi­
lho tinha de ter a Sua sepultura com os ricos. José vai ou­
sadamente ter com Pilatos e pede o corpo de Jesus. 'Envolve
o corpo, que Pilatos lhe manda dar, num fino e limpo
lençol, e põe-No no seu próprio sepulcro novo, o qual
nunca tinha servido para guardar a corrupção do homem.
Maria de Magdala e a outra Maria ( ' ) —porque elas eram
conhecidas — assentam-se perto do sepulcro, ligadas por
tudo o que restava para a sua fé d’Aquele que tinham ama­
do e seguido com adoração durante a Sua vida (verso 61).
Mas a incredulidade não crê em si própria e, temendo
que aquilo que nega seja verdade, descrê de tudo. Os
principais sacerdotes (versos 62-66) pedem a Pilatos que
o sepulcro seja guardado, a fim de frustrarem toda a ten­
tativa que os discípulos pudessem fazer para estabelecerem
a doutrina da ressurreição sobre a falta do corpo de Jesus
o acto de ungir o Senhor foi uma revelação dada a Maria para o dia do Seu
sepultamento; a nossa mais alta posição foi comunicada a Maria de Magdala;
a comunhão que Pedro desejava é anunciada a João, que reclinava a cabeça
no seio de Jesus. E em todas estas comunicações as mulheres têm grande
participação.
O Quer dizer, a mulher de Clopas e a mãe de Tiago e de José, a qual
é muitas vezes designada por «a outra Maria». Em João 19:25, Maria, mulher
de Clopas, tem sido tomada como uma aposição da irmã da mãe de Jesus,
mas é um erro. Trata-se de outra pessoa. Havia quatro mulheres: Três Marias
e a irmã da mãe de Jesus.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 189
no sepulcro em que tinha sido posto. Pilatos manda que
eles próprios guardem o sepulcro; de forma que tudo
quanto eles fizeram foi tomarem-se a si próprios testemu­
nhas involuntárias do facto, para nos assegurarem o cum­
primento daquilo que eles temiam. Assim Israel era cul­
pado desse esforço de inútil resistência ao testemunho
que Jesus tinha dado da Sua própria ressurreição. Eles
mesmos eram um testemunho contra si quanto à verdade.
As precauções que Pilatos talvez não tivesse tomado, os
sacerdotes as tomaram até ao ponto máximo, de modo
que todo o erro quanto ao facto da Sua ressurreição era
impossível.
A ressurreição do Salvador é resumidamente relatada
em Mateus. O objectivo é ainda, após a ressurreição, ligar
o ministério e o serviço de Jesus — transferido agora para
os discípulos — com os pobres do rebanho, com o Rema­
nescente de Israel. O Senhor reune-os ainda na Galileia,
onde os tinha constantemente ensinado e onde habitavam
os desprezados do povo, longe do orgulho dos Judeus. Isto
ligava o trabalho deles com o Seu, naquilo que o caracte­
rizava, particularmente em relação com o Remanescente
de Israel.
Examinarei noutra passagem das Escrituras os porme­
nores da ressurreição.. Aqui, ocupar-me-ei somente do al­
cance deste acontecimento em Mateus.
CAPITULO 28
Findara o sábado (sábado à noite, segundo o nosso ca­
lendário— verso 1) e as duas Marias foram ver o sepulcro.
De momento foi tudo o que fizeram. Os versos 1 e 2 não
são consecutivos; e os versos 2, 3 e 4 estão ligados. Quando
o terramoto e as circunstâncias que o acompanharam tive­
ram lugar, ninguém ali estava senão os isoldados. À noite,
tudo estava em segurança, tudo estava arrumado. Na ma­
nhã seguinte os discípulos nada sabiam. Quando as mu­
lheres chegaram ao sepulcro de madrugada, o anjo que
190 J. N. DARBY
estava assentado à porta do sepulcro deu-lhes as boas novas
da ressurreição do Senhor. O anjo do Senhor desceu e
abriu a porta do túmulo que o homem tinha fechado com
todas as precauções possíveis 0 . Com efeito, os Judeus
somente tinham garantido o excepcional testemunho, a ver­
dade da pregação dos apóstolos, colocando ali os soldados.
As mulheres, pela sua visita ao sepulcro na tarde anterior
e de manhã quando o anjo lhes falou, receberam pela fé
uma plena certeza do facto da ressurreição do Salvador.
Tudo quanto é aqui apresentado são factos. As mulheres
tinham estado junto do sepulcro ao anoitecer. A interven­
ção do anjo mostrou aos soldados, o verdadeiro carácter
da saída do Senhor do túmulo; e a visita das mulheres, de
madrugada, estabeleceu o facto da Sua ressurreição como
um objectivo de fé para si mesmas. E elas vão anunciar
o acontecimento aos discípulos do Senhor que — longe de
terem feito o que os Judeus lhe atribuíram — nem sequer
acreditaram nas palavras das mulheres. O próprio Senhor
Jesus aparece às mulheres que, tendo acreditado nas pala­
vras do anjo, voltaram do sepulcro.
Como disse já, Jesus liga-Se à Sua antiga obra no meio
dos pobres do rebanho, longe do centro das tradições ju­
daicas e do templo e de tudo o que ligava o povo a Deus,
segundo a antiga aliança. Marca aos discípulos um en­
contro na Galileia, e ali ele6 O encontram e O reconhecem.
É ali, nessa antiga cena do labor de Cristo, segundo Isaías
8 e 9, que eles recebem de Jesus a sua missão. Por isso não
se fala neste Evangelho da ascensão de Cristo, mas de
«todo o poder que Lhe é dado no Céu e na Terra», e, por
conseguinte, a missão confiada aos discípulos estende-se
a todas as nações (aos Gentios). Era a elas que eles deviam
proclamar os direitos do Senhor, e delas fazer discípulos.
Porém, não se tratava simplesmente do Nome do Eterno
que eles tinham de anunciar, nem a sua missão era somente
0) Mas eu creio que o Senhor Jesus já tinha deixado o sepulcro antes
de a pedra ser removida. Essa remoção destinava-se apenas a chamar a atenção
do homem para o facto.
EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS 191
em relação com o Seu trono em Jerusalém. Senhor dos céus
e da Terra, os Seus discípulos deviam proclamá-Lo por to­
das as nações, baseando a sua doutrina na confissão do
Pai, do Filho e do Espírito Santo. Eles deviam ensinar, não
a lei, mas os preceitos -de Jesus. O Senhor estaria com eles,
com os discípulos que assim O confessassem, até à consu­
mação dos séculos (versos 18-20). É isto que liga tudo o que
será realizado até que iCristo Se assente no grande trono
branco, como lemos em Apocalipse 20:11, com o testemunho
que Ele próprio deu na Terra, no meio de Israel. É o teste­
munho do reino e do seu Chefe, uma vez rejeitado por um
povo que O não conhecia. Isto liga o testemunho dado às
nações com um Remanescente em Israel, reconhecendo
Jesus como O Messias, mas agora ressuscitado de entre
os mortos, como Ele mesmo tinha dito, mas não com um
Cristo reconhecido como assumpto ao Céu. Jesus não é
somente apresentado, nem tão-pouco Jehovah, como o
objectivo do testemunho, mas a revelação do Pai, do Filho
e do Espírito Santo como Santo Nome mediante o qual
as nações foram postas em relação com Deus.
FIM DO EVANGELHO SEGUNDO S. MATEUS
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS
CAPITULO 1
0 Evangelho segundo S. Marcos tem um carácter que
difere, em certos aspectos, de todos os outros. Cada Evan­
gelho, como temos visto, tem o seu próprio carácter. Cada
um deles se ocupa da Pessoa do Senhor Jesus sob um ponto
de vista diferente: Como uma Pessoa divina, o Filho de
Deus; como o Filho do homem; como o Filho de David, o
Messias apresentado aos Judeus, Emanuel. Mas Marcos não
se ocupa de nenhum desses títulos. É o Servo que encon­
tramos neste Evangelho, e em particular o Seu serviço para
levar a Palavra — o serviço activo de Cristo no Evangelho.
A glória da Sua Pessoa divina manifesta-se por si, é certo,
de uma maneira muito particular através do Seu serviço,
e apesar do que Ele era, de forma que evita as suas conse­
quências. Todavia, o serviço é o assunto do livro. Sem
dúvida, veremos desenvolverjse o carácter do ensino do
Senhor (e, por conseguinte, a verdade agitando as formas
judaicas sob as quais se havia efectuado), bem como o
relato da Sua morte, da qual tudo dependia para o estabe­
lecimento da fé. Mas o que distingue este Evangelho é o
carácter de serviço e de Servo que está ligado à vida de
Jesus — a obra que Ele veio realizar pessoalmente durante
a Sua vida sobre a Terra. É por esta razão que o relato
da história do Seu nascimento se não encontra em Marcos.
O livro abre com o princípio da pregação do Evangelho.
João Baptista é o arauto, o precursor d’Aquele que trouxe
estas boas novas aos homens.
13
194 J. N. DARBY
A mensagem é nova — pelo menos no absoluto e com­
pleto carácter que toma, e na sua directa e imediata apli­
cação. Não se trata dos privilégios judaicos, que se obtinham
pelo arrependimento e pelo regresso ao SENHOR. Ele ia
vir, segundo a Sua promessa. E João, para preparar o Seu
caminho ante Ele, pregava o arrependimento para remissão
dos pecados. Era disto que eles necessitavam: Remissão
dos pecados para todo o contrito, eis o essencial, o objectivo
formal da missão de João Baptista.
O arrependimento e a remissão dos pecados dizem cla­
ramente respeito à responsabilidade do homem, neste caso
de Israel, no seu estado natural diante de Deus; e, clarifi­
cando essa responsabilidade quanto ao estado do homem
relativamente a Deus, na sua condição moral e responsável,
qualificam-no para a recepção da bênção que Deus tinha
em vista — moralmente, no que julga os pecados em prin­
cípio, como Deus o faz; e de uma maneira responsável, no
que Deus os perdoa todos. Por isso a remissão é necessa­
riamente uma coisa presente e actual. Existe um perdão
de governo assim como um perdão de justificação, mas o
princípio é o mesmo, e o último é a base do primeiro.
Simplesmente, quando é governamental é acompanhado por
diversos actos de Deus, deixando o pecado de ser imputado
no tocante às actuais relações com Deus, pois, assim como
na justificação, é uma coisa eternamente verdadeira. Com
a justificação do perdão — como em Romanos 4, mostrando,
pela citação do Salmo 32, o carácter da não imputação dos
pecados — com fundamento na obra de Cristo, e por isso
absoluta e imutável. O pecado não é imputado e nunca o
poderá ser, porque a obra que o tira da vista de Deus está
feita e consumada. Esta obra — eterna, absoluta e imutável
em si mesma — é a base de todas as relações de Deus com
o homem em graça. A graça reina em justiça. Os capítulos 9
e 10 de Hebreus mostram-no desenvolvidamente, quando se
trata da consciência e aproximação de Deus, e isto nos
lugares santos. Encontramos o mesmo em Romanos 3-5,
onde a questão é judicial, um assunto de Julgamento, de
ira e de justificação. É a base de bênção, por grande que
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 195
ela seja em si mesma, e não o fim, quer dizer a paz com
Deus e a reconciliação. Aqui tratava-se de todas as bênçãos
que Israel terá pela nova aliança (fundada na morte de
Cristo), mas, sendo rejeitados, aqueles que criam entravam
em melhores e celestiais bênçãos. Em Êxodo 32:14-34 encon­
tramos o perdão governamental, não a justificação. No caso
do grande pecado de David, o pecado foi perdoado, quando
foi reconhecido; a iniquidade foi tirada, mas resultou dali
um severo castigo, ligado com o perdão, porque ele tinha
dado ocasião aos inimigos do Eterno de blasfemarem.
A glória de Deus em Justiça tinha de ser mantida perante
o mundo (2.a de Samuel 12:13-14).
Tratava-se aqui de uma proposta feita a Israel de um
perdão actual, que será cumprido nos últimos dias; e então,
como a sua longa rejeição terminará em perdão governa­
mental, serão também — pelo menos o Remanescente — pela
morte de Cristo e pelo derramamento do Seu sangue, per­
doados e glorificados para gozarem das promessas sob a
nova aliança (comparar Actos 3).
Os profetas tinham anunciado, de facto, o perdão, se
o povo voltasse para o Senhor; mas aqui o perdão era o
alvo actual da pregação. O povo sai em massa para se
aproveitar dele. A consciência, pelo menos, era despertada;
e, fosse qual fosse o orgulho dos chefes, o estado espiritual
de Israel era sentido pelo povo, quando qualquer coisa fora
da rotina religiosa actuava sobre o coração e sobre a cons­
ciência— quer dizer, quando Deus falava. Eles confessam
os seus pecados (versos 4-5). Talvez em alguns não hou­
vesse senão a consciência natural, isto é, não haveria real­
mente uma obra vivificante; mas, pelo menos, essa cons­
ciência era posta em actividade pelo testemunho de Deus.
Mas João (versos 6-8), rigidamente separado de todo o
povo, e vivendo separado da sociedade humana, anunciava
Alguém mais poderoso do que ele, cujas sandálias não era
digno de desatar. Aquele que João anunciava não pregaria
somente o arrependimento, ao qual se submetiam pelo
baptismo da água; Ele conferiria o Espírito Santo, o poder,
àqueles que recebessem o Seu testemunho. Aqui este Evan-
196
J. N. DARBY
gelho passa rapidamente ao serviço d’Aquele que João assim
assinalava. Apresenta só e mui sumariamente o que O intro­
duzia nesse serviço.
O Senhor toma lugar entre os arrependidos do Seu povo,
e, submetendo-Se ao baptismo de João, vê o Céu aberto para
Si, e o Espírito Santo descendo sobre Si como uma pomba.
O Pai reconhece-0 como Seu Filho, sobre a Terra, em Quem
Se compraz. Em seguida Jesus é levado pelo Espírito Santo
ao deserto, onde foi tentado por Satanás. Durante quarenta
dias vive entre as feras, mas os anjos O servem (versos 9-13).
Vemos aqui toda a Sua posição — o carácter que o Senhor
toma sobre a Terra — todos os traços desse carácter e as
suas relações com o que O rodeava são reunidos nestes
dois ou três versos. Isto já foi tratado pormenorizadamente
em Mateus.
Em seguida João desaparece da cena (verso 14), para
dar lugar ao ministério público de Cristo, do qual ele era
apenas o precursor; e o próprio Cristo Se apresenta na
posição de testemunho, declarando que o tempo está cum­
prido; que não se tratava agora nem de profecias nem de
dias vindouros; que Deus ia estabelecer o Seu reino e que
eles deviam arrepender-se e receber a Boa Nova que naquele
próprio momento lhes era anunciada.
O evangelista passa rapidamente (x) para cada fase do
serviço de Cristo. Tendo apresentado o Salvador como em­
preendendo o ministério público que convidava as almas
a receberem a Boa Nova como uma coisa presente (tendo
chegado o tempo do cumprimento dos caminhos de Deus),
apresenta-0 convidando outros para fazerem o mesmo tra­
balho em Seu Nome, seguindo-O. A Sua Palavra não falha
nos seus efeitos: Aqueles que Ele chama deixam tudo, e
seguem-No (2). Em dia de sábado, Ele entra na cidade, para
O Esta rapidez caracteriza Marcos, assim como a palavra «logo» (euthéôs).
(a) É o facto em si mesmo que é apresentado aqui, tal como em Mateus.
A narrativa de Lucas dá-nos ocasião de entrarmos mais pormenorizadamente
no tema da chamada dos discípulos. Desde os dias de João Baptista, eles
tinham estado mais ou menos associados ao Senhor — pelo menos estes tinham
estado.
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 197
ensinar (versos 21-22). A Sua Palavra não consiste em argu­
mentos que evidenciem a incerteza do homem, mas vem
com a autoridade d’Aquele que conhece a verdade que anun­
cia— autoridade que era verdadeiramente a de Deus, que
pode transmitir a verdade. Ele fala como Alguém que possui
autoridade — e disso dá sobejas provas. A Palavra, que assim
se apresenta aos homens, tem poder sobre os demónios.
Estava ali um homem possesso (versos 23-26). O espírito
imundo, embora sendo-o, dá testemunho Àquele que falava
e cuja presença ele não podia suportar; mas a Palavra que
o despertava também tinha poder para o expulsar. Jesus
repreende-o — ordena-lhe que se cale e que saia do homem;
e o espírito imundo, depois de manifestar a realidade da
sua presença e a sua maldade, submete-se, e sai do homem.
Tal era o poder da palavra de Cristo.
Não é de estranhar que a fama deste milagre se expan­
disse por toda a região (versos 28); mas o Senhor prossegue
a obra, o Seu serviço, por toda a parte onde Se apresenta
(versos 29 e seguintes). Vai a casa de Pedro, cuja sogra jaz
doente com febre. Cura-a imediatamente; depois, quando
declinava o sábado, trouxeram-Lhe todos os que se achavam
enfermos. Ele, sempre, sempre pronto a servir (precioso
Senhor!), cura-os a todos.
Mas não era para ser rodeado pela multidão que o Senhor
trabalhava; e pela manhã, muito antes de romper o dia,
foi para um lugar deserto para orar. Tal era o carácter do
Seu serviço — feito em comunhão com Seu Deus e Pai, e
sob a Sua dependência. Retira-Se, pois, para um lugar
deserto. Os discípulos encontram-No ali e dizem-Lhe que
todos O procuram; mas o Seu coração está na Sua obra.
A expectativa geral não O demove a regressar. Prossegue o
Seu caminho a fim de cumprir a obra que Lhe tinha sido
confiada — pregando a verdade entre o povo, porque esse
era o serviço ao qual Ele Se tinha devotado.
Ora, fosse qual fosse a dedicação de Jesus a esse ser­
viço, o Seu coração não estava insensibilizado pela preo­
cupação; estava sempre com Deus. Um pobre leproso apro­
xima-se, reconhecendo o Seu poder, mas incerto quanto à
198
J. N. DARBY
Sua vontade, bem como a respeito do amor que exercia
esse poder (versos 40 e seguintes). Ora, essa terrível doença
não só isolava o próprio homem, mas também contaminava
todo aquele que tocasse o doente, mesmo ao de leve que
fosse. Mas nada detém o Senhor no serviço a que o Seu
amor O chama. O leproso era um infeliz, escorraçado da
sociedade e dos seus semelhantes e excluído da casa de
Jehovah. Mas o poder de Deus estava ali presente. O homem
tinha de ser assegurado d a . boa vontade com que o seu
abatido coração não podia contar. Quem se interessaria por
um desgraçado como ele? Ele tinha fé quanto ao poder de
Cristo, mas os seus pensamentos a seu próprio respeito
ocultavam-lhe a extensão do amor qúe o tinha visitado.
Jesus estende a mão e toca-o...
O mais humilde dos homens aproxima-Se do pecado e
daquilo que era o seu sinal e extermina-o; O Homem que,
na força do Seu amor, tocou o leproso sem ficar contami­
nado era Deus, o único que podia remover a lepra que tor­
nava miserável e proscrito aquele que dela era afligido.
O Senhor fala com uma autoridade que revela imedia­
tamente o Seu amor e a Sua divindade: «Quero, sê limpo»
(verso 41). Quero — era o amor de que o leproso duvidava,
a autoridade de Deus, o único que tem o direito de dizer:
EU QUERO. O efeito seguiu-se à expressão da Sua vontade.
É sempre assim quando Deus fala. E quem curava a lepra,
a não ser Jehovah? Era Ele o único que desceu o bastante
para tocar esse ser contaminado, que contaminava por seu
lado todos aqueles que tivessem de tratar com ele? Sim,
Ele era o ÚNICO! Mas era Deus que tinha descido, o amor
que tinha descido tão baixo, e que, fazendo-o, se mostrava
poderoso para salvar todo aquele que se Lhe confiasse. Era
a incorruptível pureza em poder,'que podia, portanto, actuar
em amor acerca do mais vil, e deleitar-Se em o fazer. Veio
ao encontro do homem contaminado, não para ser conta­
minado pelo contacto, mas para tirar a contaminação. Tocou
o leproso em graça — e a lepra desapareceu!
Jesus furta-Se às aclamações dos homens e ordena àquele
que tinha sido curado que fosse apresentar-se aos sacer-
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 199
dotes, de acordo com a lei de Moisés. Mas esta submissão
à lei, de facto, dava testemunho de que Ele era Jehovah,
porque só Jehovah, segundo a lei, purificava soberanamente
o leproso. O sacerdote era apenas testemunha de que a cura
tinha sido realizada. A cura do leproso divulgou-se por toda
a parte e, atraindo a multidão, levou Jesus a afastar-Se para
lugares desertos.
CAPÍTULO 2
Alguns dias depois entrou outra vez na cidade, e logo
a multidão se juntou. Que quadro vivo da vida de serviço
do Senhor! Ele prega-lhes. Era este o Seu objectivo e o
Seu serviço (veja-se o capítulo 1:38). Mas dedicando-Se ainda
ao humilde cumprimento da tarefa que Lhe está confiada,
o Seu próprio serviço, o Seu amor — pois quem serve como
Deus, quando Ele Se digna fazê-lo? — fazem realçar os Seus
direitos divinos. Ele sabe qual é a verdadeira origem de
todos esses males e pode dar o remédio. «Os teus pecados»,
diz Ele ao pobre paralítico, que tinha sido trazido para
junto de Si com uma fé que não se detinha perante as
dificuldades, perseverando apesar delas — perseverança da
fé que é alimentada pelo sentimento da necessidade e pela
certeza de que o poder se encontra n’Aquele que procura­
mos— «os teus pecados estão perdoados» (verso 5). Depois
dá uma resposta às murmurações dos escribas e faz calar
todos os contraditores. Jesus exerce o poder que O autori­
zava a pronunciar o perdão do pobre enfermo <!). As murmu­
rações dos doutores punham em evidência, como doutrina,
Aquele que estava ali; tal como o veredicto dos sacerdotes,
que declarava o leproso limpo, punha o selo da Sua autori­
dade sobre a verdade que Jehovah, o único que curava
O É preciso distinguir entre o perdão governamental e o perdão absoluto
dos pecados. Simplesmente, tal como é o homem, o primeiro não poderia
existir sem o segundo. Mas antes de Cristo ser rejeitado e morto, isto não
podia ser plenamente manifestado.
200 J. N. DARBY
Israel, estava ali (verso 12). O que Jesus prossegue é o Seu
serviço, o Seu testemunho; e o efeito ê tomar evidente que
o Eterno está ali e que visitou o Seu povo. Era o Salmo 103
que se cumpria quanto aos direitos e quanto à revelação
da Pessoa de Aquele que assim actuava.
Jesus Sai da cidade; o povo juntaJse em volta d’Ele; e.
de novo Ele os ensina (verso 13). A chamada de Levi dá
lugar a uma nova fase do Seu ministério. Ele tinha vindo
para chamar os pecadores, e não os justos. Depois diz-lhes
que não podia deitar a nova energia divina, em Si revelada,
nas antigas formas do farisaísmo. E havia uma outra razão
para isso — a presença do Noivo. «Pqdem, porventura, jejuar
os convidados para a boda, enquanto o Noivo está com
eles?» Mas dias viriam em que lhes seria tirado o Noivo,
e seria então o tempo de eles jejuarem (versos 18-20).
Depois Jesus insiste na incompatibilidade dos velhos
vasos judaicos com o poder do Evangelho, que não faria
senão alterar o Judaísmo ao qual pretendiam ligá-lo (ver­
sos 21-22). O que sucedeu quando os discípulos atravessavam
as searas confirma esta doutrina.
As ordenanças perdiam a sua autoridade em presença
do Rei ordenado por Deus, rejeitado e peregrino sobre a
Terra. Além disso, o sábado — sinal da aliança entre Deus
e os Judeus — tinha sido feito para o homem, e não o
homem para o sábado; portanto, Jesus, o Filho do homem,
era Senhor do sábado. Rejeitado como Filho de David, as
ordenanças perdiam a sua força, e eram-Lhe subordinadas.
Como Filho do homem, possuidor (aos olhos de Deus) de
todos os direitos que Deus tinha conferido ao homem, Ele
era Senhor do sábado, o qual fora feito para o homem
(versos 25-28). Em princípio,- as coisas velhas tinham pas­
sado. Mais ainda, eram, com efeito, as coisas novas de
graça e de poder que não comportavam a antiga ordem de
coisas. Mas tratava-se de saber se Deus podia agir em graça
e abençoar, em Sua soberania, entre o Seu povo — se Deus
devia submeter-Se à autoridade dos homens, que se apro­
veitavam das Suas ordenanças contra a Sua bondade; ou
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 201
fazer bem de conformidade com o Seu próprio poder e
amor como estando acima de tudo. Devia o homem circuns­
crever a operação da bondade de Deus? E era ela, em ver­
dade, o vinho novo que o Senhor trazia ao homem.
CAPITULO 3
Tal foi a questão levantada na sinagoga aquando da cura
do homem que tinha uma das mãos mirrada. O Senhor
suscita esta questão publicamente diante das consciências
daqueles que O observavam; mas nem os corações nem as
consciências Lhe responderam — e Ele actua no Seu serviço
segundo a bondade e os direitos de Deus, e cura o homem C1).
Os Fariseus e os seus inimigos, os Herodianos—pois todos
estavam contra Deus e unidos neste caso — consultam-se
mutuamente acerca de como poderiam destruir a Cristo.
Jesus parte para o mar (2). Ali a multidão segue-0, por causa
de tudo o que Ele tinha feito; de sorte que Ele é obrigado
a tomar um barco, a fim de poder estar afastado da mul­
tidão. Os espíritos submetem-se-Lhe, obrigados a reconhecer
que Ele é o Filho de Deus; mas Ele proibiu-os de O mani­
festarem.
Pregar, buscar as almas, dedicar-Se a todos, mostran-
do-Se, pelos Seus actos, possuidor do poder divino, ocul-
tando-Se ao mesmo tempo da observação dos homens para
cumprir, sem os seus aplausos, o serviço que tinha em­
preendido— tal era a Sua vida de homem neste mundo.
O amor e o poder divino revelavam-se no serviço que esse
O Podemos apenas ver como o antigo sistema, baseado naquilo que o
homem devia ser para Deus, é posto de lado para introduzir o que Deus é
para o homem. Mas tendo o primeiro sido estabelecido por Deus, nada mais,
a não ser as palavras e as obras de Jesus, teria autorizado os Judeus a renunciar
a ele. Tal como se apresentava, era nítida oposição e ódio contra a plena
revelação d’Aquele que tinha ordenado o outro sistema (comparar João
15:22- 14).
0) Isto é, o mar de Tiberíades.
202 J. N. DARBY
amor O impelia a cumprir, e no cumprimento do qual esse
poder era exercido. Mas isto não podia ser circunscrito pelo
Judaísmo, por muito que o Senhor fosse submetido às orde­
nanças de Deus dadas aos Judeus.
Ora, sendo Deus assim manifestado, a oposição carnal
do homem depressa se revela (x). A descrição do serviço de
Cristo termina, portanto, aqui, e aqui se manifesta o seu
efeito. Depois, no que se segue, esse efeito é desenvolvido
quanto à iniquidade do homem e quanto aos desígnios de
Deus. Entretanto o Senhor nomeia doze dos Seus discípulos
para O acompanharem e para irem pregar em Seu Nome
(versos 13-39). Ele podia, não só operar milagres, mas tam­
bém comunicar aos outros esse poder, e fazê-lo por meio
de autoridade. Volta a entrar em casa, e a multidão reune-se
outra vez. E aqui manifestam-se os pensamentos do homem
ao mesmo tempo que os de Deus. Os Seus amigos pro-
curam-No como a alguém que está fora de si. Os Escribas,
usando da sua influência como eruditos, atribuem a Sata­
nás o poder que não podiam negar. O Senhor responde-lhes
mostrando que, em geral, todo o pecado podia ser perdoado;
mas que reconhecer o poder e atribuí-lo ao Inimigo, em
vez de reconhecerem Aquele que o exercia, não era tomar
o lugar da incredulidade ignorante, mas sim o de adver­
sários, blasfemando assim contra o Espírito Santo. Era um
pecado que nunca poderia ser perdoado (versos 23-30).
O «homem forte» estava lá; mas Jesus era mais poderoso
do que ele, pois expulsava os demónios. Tentaria Satanás
destruir a sua própria casa? O facto de o poder de Jesus
se manifestar dessa maneira deixou-os sem desculpa. O «Ho­
mem Forte» de Deus tinha, portanto, vindo: Israel rejeitou-0
e, quanto aos seus chefes, blasfemando contra o Espírito
Santo, colocaram-se a eles próprios sob uma condenação
O Eis o segredo de toda a história de Jesus. Filho de David, estando
n’Ele todas as promessas feitas aos Judeus, sendo também o Servo em todas
as necessidades e sofrimentos, embora sendo Deus e Deus manifestado n’Ele
— eis o que o homem não podia suportar. O pensamento da carne é inimizade
contra Deus.
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 203
sem esperança. Por isso o Senhor distingue imediatamente
o Remanescente, que recebia a Sua palavra, de tudo aquilo
que o ligava a Israel segundo a carne. A Sua mãe ou os
Seus «irmãos» são os discípulos que O rodeiam, e os que
fazem a vontade de Deus. Isto põe, realmente, Israel de
lado nesse momento.
CAPÍTULO 4
Este capítulo introduz o verdadeiro carácter e o resul­
tado do Seu serviço, e toda a história do serviço que devia
realizar-se num futuro muito distante; assim como a res­
ponsabilidade dos discípulos quanto à parte que teriam
nele; e a paz de todo aquele que se entregasse a Deus,
cumprindo-o; as tempestades que sobreviriam e que exer­
ceriam a fé, enquanto que Jesus, aparentemente, se não
ocupasse dos Seus; e a justa confiança da fé, assim como
o poder que a sustinha.
Todo o carácter da obra, quer nesse momento, quer até
à vinda do Senhor, é descrito neste quarto capítulo.
O Senhor recomeça nele o Seu habitual trabalho de
instrução, mas em relação com o desenvolvimento que aca­
bava de ter lugar das Suas relações com os Judeus. Ele
semeia. Já não procura fruto na Sua vinha. Vemos, no
verso 11, como é acentuada a distinção entre os Judeus e
os Seus discípulos. A estes era dado conhecer os mistérios
do reino de Deus; mas para aqueles que estavam de fora
todas estas coisas eram tratadas por parábolas. Não repe­
tirei aqui as observações que fiz quando falei desta pará­
bola em Mateus. Mas o que se segue a partir do verso 21
pertence essencialmente ao Evangelho segundo S. Marcos.
Temos visto como o Senhor Se ocupava da pregação do
Evangelho do reino e como confiava a outros também a
pregação do mesmo Evangelho. Ele era semeador, e semeava
a Palavra. Este era o Seu serviço, e era de igual modo o
deles. Mas acende-se uma candeia para ser escondida? Aliás,
nada será escondido. Se o homem não põe em evidência
204 J. N. DARBY
a verdade que recebeu, Deus revelará todas as coisas. Que
todos tomem nota disto!
No verso 24 o Senhor aplica este princípio aos Seus dis­
cípulos. Deviam prestar atenção ao que ouviam, porque
Deus agirá a seu respeito segundo a sua fidelidade no
ministério da Palavra que lhes foi confiada. O amor de
Deus enviava aos homens a palavra da graça e do reino.
E o objectivo do serviço confiado aos discípulos era fazê-la
chegar à consciência dos homens. Cristo comunicava-a aos
discípulos, e estes deviam fazê-la chegar aos outros homens
em toda a sua plenitude. Segundo a medida com que derem
livre curso a este testemunho de amor (conforme o dom
que tiverem recebido), assim lhes será dado a eles no go­
verno de Deus. Se eles dessem ouvidos àquilo que lhes
comunicavam, receberiam ainda mais; porque, regra geral,
todo aquele que realizasse o que lhe fosse concedido, rece­
beria ainda mais; e àquele que verdadeiramente o não con­
seguisse, até o que tinha lhe seria tirado.
Depois o Senhor revela o que terá lugar acerca de Si
próprio. Ele tinha semeado, e, assim como a semente brota
e cresce sem intervenção alguma do semeador, Cristo dei­
xaria que o Evangelho se propagasse pelo mundo sem apa­
rentemente interferir, sendo o carácter especial do reino o
facto de o Rei não estar nele. Mas quando chegar o tempo
da ceifa, o semeador terá outra vez de se ocupar dela.
Assim seria com Jesus: Ele virá outra vez para Se ocupar
da ceifa. Ele estava pessoalmente comprometido na semen­
teira e na ceifa. No intervalo tudo continuaria como se as
coisas estivessem entregues a si próprias, realmente sem
a intervenção do Senhor em Pessoa.
O Senhor emprega outra semelhança para descrever o
carácter do reino (verso 30). A pequenina semente que Ele
semeia tomar-se-á num grande sistema, sumamente elevado
na Terra, capaz de proteger temporalmente aqueles que a
ele se abrigarem.
Assim, encontramos aqui a obra da pregação da Palavra
de Deus; a responsabilidade dos obreiros aos quais o Se­
nhor vai confiar essa pregação durante a Sua ausência; a
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS
205
actividade do Senhor no princípio e no fim, no tempo da
sementeira e no tempo da ceifa, conservando-Se Ele pró­
prio afastado durante o intervalo desses dois acontecimen­
tos; finalmente, a formação de um grande poder terrestre
como resultado da verdade que o Senhor pregava e que
criara um pequeno núcleo em redor de Si. Restava ao Se­
nhor mostrar ainda uma parte da história daqueles que O
seguiam: Encontrariam dificuldades gravíssimas no seu
caminho. O Inimigo levantaria uma grande tormenta contra
eles (versos 35-41). Aparentemente, Cristo não se preocupou
com a situação deles. Eles chamam-No e despertam-No em
altos gritos — aos quais Ele responde em graça. Ele fala ao
vento e ao mar, e segue-se uma grande bonança. Mas, ao
mesmo tempo o Senhor censura a incredulidade deles. Deve­
riam ter contado com Ele e com o Seu poder divino, e não
pensarem que Ele pudesse ser engolido pelas ondas. Deve­
riam ter-se lembrado das suas relações com Ele —que, por
graça, estavam associados com Ele.
Que tranquilidade a Sua! O temporal não O perturba.
Consagrado à Sua obra, descansou no momento em que o
serviço não requeria a Sua actividade. Descansou durante
a viagem. O Seu serviço apenas Lhe permitia esses mo­
mentos arrancados pelas circunstâncias ao Seu trabalho.
A Sua divina tranquilidade, que não conhecia a descon­
fiança, permitia-Lhe dormir durante a tempestade. Não
acontecia assim com os discípulos; esquecendo o poder,
ignorando a glória d ’Aquele que Se encontrava com eles,
não pensavam senão em si próprios, como se Jesus os
tivesse esquecido. Uma palavra Sua mostra em Si o Senhor
da Criação.
Tal é o verdadeiro estado dos discípulos, quando Israel
é posto de lado. O temporal levanta-se, e Jesus não parece
dar-lhe atenção. Ora a fé deveria ter reconhecido que eles
se encontravam no mesmo barco com Ele. Quer dizer, se
Jesus deixa a semente que tem semeado para crescer até
à ceifa, nem por isso deixa de estar no mesmo barco; com­
partilha, verdadeiramente, a sorte dos Seus seguidores, ou
antes, eles compartilham da Sua. Os perigos são os mesmos
206 J. N. DARBY
em que Ele e a Sua obra se encontram. Quer dizer que não
há perigo nenhum! E quão grande é a loucura da incredu­
lidade! Supor por um instante, quando o Filho de Deus veio
a este mundo para cumprir a redenção e os desígnios esta­
belecidos de Deus, que aos olhos do homem, por uma tem­
pestade acidental, Ele e toda a Sua obra se afundavam
subitamente no lago! Encontramo-nos — bendito seja o Seu
Nome! — no mesmo barco com Ele. Se o Filho de Deus não
perece, nós também não pereceremos.
CAPITULO 5.
Mas, noutro sentido, os discípulos de Jesus não estão
com Ele. Eles são chamados para servir, quando Ele deixa
a cena do Seu trabalho. É o que nos ensina a história do
endemoninhado Legião, liberto do seu miserável estado.
O homem — e Israel em particular — estava completamente
sob o poder do Inimigo. Cristo, segundo a obra do Seu
poder, libertou completamente aquele a favor de quem o
Seu poder foi exercido. Este homem está agora vestido — já
não está nu — em seu perfeito juízo, e aos pês de Jesus
para escutar as Suas palavras. Mas os habitantes daquela
região ficaram cheios de medo e pediram-Lhe que se reti­
rasse dos seus termos — o mesmo que o mundo fez com
Cristo; e na história da manada de porcos temos a figura
de Israel depois do Remanescente ter sido curado. Eles são
impuros, e Satanás puxa-os para a destruição. Ora, quando
Jesus Se retira, aquele que pessoalmente sentiu os pode­
rosos efeitos do Seu amor teria desejado estar com Ele;
mas ele devia ir para sua casa e levar aos seus o testemu­
nho de tudo o que Jesus tinha feito. Ele devia servir na
ausência de Jesus.
Em todas estas narrativas vemos a obra e a dedicação
do Servo, mas ao mesmo tempo vemos o poder divino de
Jesus manifestado nesse serviço.
Nas circunstâncias que seguem a cura do endemoninhado
encontramos o quadro da verdadeira posição de Jesus na
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 207
Sua obra (versos 21 e seguintes). Ele é solicitado para curar
a filha de Jairo — do mesmo modo que veio para curar os
Judeus, se tivesse sido possível. Quando ia para casa de
Jairo para realizar a Sua obra, uma pobre mulher incurável
toca com fé a orla do Seu vestido e é instantaneamente
curada. Era assim com Jesus durante a Sua passsagem
entre os Judeus. De entre a multidão que O rodeava algu­
mas almas, pela graça, tocavam-No por fé. De facto, a sua
enfermidade era em si mesmo incurável, mas Jesus tinha
a vida em Si mesmo, segundo o poder de Deus; e a fé,
tocando-O, tirava dali a virtude. Tais pessoas eram levadas
a reconhecer o seu estado, mas eram curadas. Exterior­
mente, Jesus estava no meio de todo o Israel — mas só a
fé recolhia d’Ele os benefícios, no sentimento das suas pró­
prias necessidades e da glória da Sua Pessoa.
Ora, os remédios eram inúteis para a jovem que
constituía o objectivo daquela viagem. Jesus encontra-a
morta; Mas nem por isso Ele deixa de atingir o Seu alvo:
Ressuscita-a, porque Ele pode dar a vida. E assim acon­
teceu também a respeito de Israel: À Sua passagem, os que
tinham fé em Jesus eram curados, por mais incuráveis que
fossem em si mesmos; mas, com efeito, quanto a Israel,
a nação estava morta em delitos e pecados. Aparentemente
isto detinha a obra de Jesus. Mas, no fim, a graça restaurará
a vida a Israel. Vemos como a perfeita graça de Jesus
intercepta o efeito das más notícias trazidas da casa de
um dos principais da sinagoga. Diz a Jairo, quando os
mensageiros lhe dão a notícia da morte de sua filha e lhe
falam da inutilidade de incomodar mais o Mestre: «Não
temas, crê somente». De facto, embora o Senhor restaure
a vida a Israel no fim dos tempos, é todavia pela fé que
isso tem lugar. O caso da pobre mulher, embora na sua
imediata aplicação não vá além dos Judeus, aplica-se con­
tudo, em princípio, à cura de todos os Gentios que, pela
graça, são trazidos para contactarem Jesus pela fé.
Esta narrativa dá, pois, o carácter do serviço de Jesus
e a maneira como, de facto, tinha de ser efectuado, dado
o estado em que o homem se encontrava.
208
J. N. DARBY
CAPÍTULO 6
No relato seguinte Marcos retoma a história propria­
mente dita desse serviço. Simplesmente, vemos Jesus já
rejeitado por um povo cego, não obstante o poder que Ele
tinha manifestado, e que dava testemunho da glorià da Sua
Pessoa. Contudo, Ele prossegue o Seu serviço e envia os
Seus discípulos para que nenhum esforço deixe de ser feito;
mas envia-os com o testemunho do Julgamento que espe­
rava aqueles que se tornassem culpados da rejeição da Sua
missão — rejeição que, aliás, estava já em andamento. No
entanto o Senhor continua a dar provas, em misericórdia
e em bondade, de que o Eterno, cheio de compaixão pelo
Seu povo, estava presente; até que por fim teve de pre­
parar os Seus discípulos para o resultado certo da Sua
obra — para a Sua morte às mãos dos Gentios, aos quais
os principais sacerdotes O entregariam.
Para os Judeus, Jesus era o carpinteiro, o filho de Maria.
A incredulidade deles detinha a mão benfazeja de Deus a
seu respeito. Jesus prossegue a Sua obra noutro lugar, e
envia os Seus discípulos — acto que implicava a posse de
um poder divino. Era ainda para Israel que a missão d’Ele
recebida os dirigia, e eles deviam pronunciar o Julgamento
contra o país de Emanuel, o país de Israel, como sendo
uma terra poluída, onde o seu testemunho seria rejeitado.
Deviam partir confiados na protecção poderosa de Aquele
que assim os enviava, e eles não teriam falta de nada. Ele
era o Senhor soberano, que dispunha de tudo. Cristo pode
não só comunicar bênçãos como sendo Ele próprio um canal
de bênçãos, mas também conferir aos Seus discípulos o
poder de expulsar demónios. Os discípulos cumprem a sua
tarefa.
Esta passagem mostra de uma maneira notável a posição
e a glória de Cristo. Ele é o Servo; para os homens, Ele
é o filho do carpinteiro. Neste novo serviço, Ele não toma
nenhum lugar, cumprindo apenas o que Deus Lhe tinha
dado para fazer. Não pode fazer ali nenhum milagre por
causa da incredulidade deles. Ele estava sempre pronto a
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 209
servir, mas impedido de falar, limitado no exercício do Seu
amor, onde não se abria uma porta para dar entrada à
Sua influência; e a natureza, que julga segundo o que vê,
nunca a abre. Somente, onde havia necessidade, o Seu amor,
nunca cansado, actuava e devia actuar. O pequeno número
de enfermos aproveitava de um amor que a ninguém des­
preza, porque o amor nunca busca os seus próprios inte­
resses.
Mas, no verso seguinte, Aquele que não podia fazer obras
maravilhosas (porque o Seu serviço dependia de condições
divinas, com base nas quais Deus podia encontrar e levar
a efeito as suas relações com os homens, a fim de Se reve­
lar a Si próprio) confere agora poder aos outros sobre os
espíritos imundos — um poder que é divino. Quem quer
que seja pode operar milagres, se Deus lhe der o poder;
mas só Deus o pode dar. Eles de nada têm falta, porque
Emanuel está ali; e anunciam o Juízo, se a sua mensagem
for rejeitada. O amor divino tinha feito d’Ele um Servo
inteiramente dependente; mas o Servo dependente era Deus
em graça e em Justiça.
Mas todas estas manifestações de poder têm por efeito
despertar a consciência do rei que então reinava em Israel;
e o evangelista abre para nós a história da oposição homi­
cida das autoridades em Israel contra as testemunhas da
verdade (versos 14 e seguintes). Herodes tinha mandado
matar a João Baptista para satisfazer a iniquidade de uma
mulher que lhe agradava—iniquidade que ele partilhava
com ela. Uma dança valia, para ele, a vida do profeta de
Deus. Tal era o governador de Israel!
Os apóstolos regressam. Jesus afasta-os da multidão
curiosa e necessitada, indo para um lugar deserto; mas a
multidão segue-0. Jesus, rejeitado pelo país que amava,
tem compaixão dos pobres do rebanho e manifesta em
favor deles o poder de Jehovah para os abençoar, de con­
formidade com o Salmo 132. Farta de pão os pobres. Tendo
despedido a multidão, atravessa o mar a pé, andando sobre
as águas; junta-Se aos discípulos, e o vento cessa — uma
figura daquilo de que falámos quando estudámos o Evan-
14
210 J. N. DARBY
gelho segundo S. Mateus. O trabalho dos discípulos estava
feito. Mas os seus corações, ainda muito endurecidos nessa
altura, apesar de todos os milagres que tinham visto, esque­
cem esses milagres uns após outros. O Senhor prossegue
a Sua obra de bênção. Bastava tocar-Lhe para serem
curados.
CAPÍTULO 7
O poder dominante que era exercido entre os Judeus
tinha-se revelado hostil ao testemunho de Deus, e tinha
mandado matar aquele que Ele tinha enviado no caminho
da Justiça. Os Escribas, e os que pretendiam seguir a jus­
tiça, tinham corrompido o povo com o seu ensino e violado
a lei de Deus. Lavavam os copos e os jarros, mas não os
seus corações; e desde que os sacerdotes — a religião —
lucrassem com isso, punham de lado os deveres dos filhos
para com os pais. Mas Deus via os corações, e do coração
do homem procedia toda a sorte de impureza, iniquidade
e violência. Era isso o que contaminava o homem, e não
o facto de ter as suas mãos por lavar. Eis o Julgamento
desta religiosidade sem consciência e sem temor de Deus,
e o verdadeiro discernimento do que é o coração do homem
aos olhos de Deus, que tem os olhos demasiado puros para
ver o mal.
Mas é preciso que Deus também mostre o Seu coração.
E se Jesus julgava o do homem com a vista de Deus — se
manifestava os Seus caminhos e a Sua fidelidade para com
Israel — mostrava, no entanto, desse modo o que Deus era
para os que sentiam que tinham necessidade d’Ele e que
vinham a Ele pela fé confessando-O e apoiando-se na Sua
pura bondade. Dos termos de Tiro e de Sidon vem uma
mulher da raça condenada, gentia e siro-fenícia. O Senhor,
em resposta à súplica que ela Lhe dirige para curar a sua
filha, diz-lhe que os filhos (os Judeus) estão em primeiro
lugar, e que não convinha tirar o pão aos filhos para o
dar aos cães; resposta desoladora para a pobre mulher,
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 211
se o sentimento que ela tinha das suas necessidades e da
bondade de Deus não tivesse ultrapassado e posto de lado
qualquer outro pensamento. Estas duas coisas tomavam-na
humilde de coração, e pronta a reconhecer o soberano favor
de Deus para com o povo da Sua eleição neste mundo.
Não tinha Deus o direito de escolher um povo para Si?
E ela não pertencia a esse povo. Mas isso não destruía
nem a bondade nem o amor de Deus. Ela era apenas um
cão gentio, mas era tal a bondade de Deus que até para
os cães tinha pão! Cristo, a perfeita expressão de Deus,
Deus manifestado em carne, não podia negar a Sua bondade
e graça, não podia dizer que a fé tinha pensamentos mais
elevados de Deus do que a realidade, porque Ele mesmo
era amor. A soberania de Deus era reconhecida — nenhuma
pretensão a qualquer direito da parte do homem. A pobre
mulher não se apoiava senão na graça. A sua fé apreendia,
com inteligência dada por Deus, a graça que ultrapassava
as promessas feitas a Israel. Penetra no coração do Deus
de amor, revelado em Jesus, do mesmo modo como Ele
penetra no nosso, e saboreia o fruto. Porque era introdu­
zido isto: O próprio Deus directamente em presença do
homem e em relação com ele, e o homem tal como era
perante Deus — e não uma regra ou um sistema pelo qual
o homem se prepara para Deus.
No milagre seguinte (versos 31-37), vemos o Senhor con­
ceder o dom de ouvir e de falar a um homem que era
surdo-mudo e incapaz de exprimir os seus próprios pensa­
mentos. Não podia beneficiar da Palavra de Deus, nem
louvá-Lo. O Senhor regressou ao lugar onde Se apresentara
como luz para Israel; e aqui trata apenas com o Rema­
nescente. Tira o homem à parte, fora da multidão. É a
mesma graça que toma o lugar de toda a pretensão à
justiça no homem, e se manifesta aos infelizes. A sua
forma, embora exercida agora a favor do Remanescente de
Israel, é apropriada ao estado tanto dos Judeus como dos
Gentios — é a graça. Mas para estes também ela é a mesma:
Ele toma o homem à parte, de entre a multidão, para
que a obra de Deus seja manifestada. A multidão deste
212
J. N. DARBY
mundo não tinha realmente parte alguma nela. Vemos aqui
Jesus; o Seu coração entemece-se devido ao estado do
homem, e mais particularmente devido ao estado do Seu
amado povo Israel, do qual este pobre surdo-mudo é uma
imagem comovente. Jesus faz ouvir o surdo e falar o mudo.
Era assim individualmente, e assim será com todo o Rema­
nescente de Israel nos últimos dias. 0 próprio Senhor actua,
e faz tudo bem. O poder do Inimigo é destruído, a surdez
do homem e a sua incapacidade para usar a sua língua tal
como Deus lha tinha dado são tiradas pelo Seu amor, que
actua com o poder de Deus.
O milagre dos pães testemunhava a presença do Deus
de Israel, segundo as Suas promessas. Testemunhava a
graça, que ultrapassava mesmo os limites dessas promessas,
vinda da parte de Deus —do Deus que julgava o estado
espiritual do homem, mau em si, e o daqueles que, segundo
a justiça, pretendiam ter direito a elas. Esta graça resga­
tava e, em amor, abençoava o homem, subtraindo-o ao
poder de Satanás e tornando-o capaz de escutar a voz de
Deus e de O louvar, Ibendizer e adorar.
Nesta parte da história do Senhor há ainda alguns fac­
tos assaz notáveis que desejo assinalar, pois mostram-nos
o espírito em que Jesus operava nesse momento. Ele reti-
ra-Se para longe dos Judeus, depois de lhes ter mostrado
o vazio e a hipocrisia do seu culto e a iniquidade do cora­
ção humano — coração esse que não era senão uma fonte
de corrupção e de pecado.
O Senhor, nesse momento solene, que punha em evi­
dência a rejeição de Israel, retira-Se para longe, para um
lugar onde não havia oportunidade de operar no meio
daquele povo. Retira-Se para as fronteiras das cidades
estrangeiras e cananeias de Tiro e de Sidon (cap. 7:24) e, de
coração oprimido, não queria mesmo que alguém soubesse
onde Ele se encontrava. Mas a bondade e o poder de Deus
tinham sido sobejamente manifestados e Jesus não poderia
agora estar escondido lá, onde havia tantas necessidades.
A fama das Suas obras tinha-se expandido por toda a
parte, e o olho penetrante da Fé descobria facilmente o
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 213
Ünico que podia responder às suas necessidades. Assim a
Fé encontra Jesus, quando todos aqueles que, aparente­
mente, tinham direito às promessas, são enganados por
essa mesma pretensão c pelos seus privilégios. A Fé é o
que conhece as suas necessidades e não conhece outra
coisa, e sabe que somente Jesus pode responder a elas.
0 que Deus é para a Fé é manifestado a todo aquele que
dela tem necessidade, segundo a graça e o poder que estão
em Jesus. Escondido dos Judeus, Ele é graça para os peca­
dores. Do mesmo modo (cap. 7:33), quando cura o surdo
da sua surdez e da sua dificuldade em falar, condu-lo para
fora da multidão, olha para o Céu e suspira. Oprimido no
Seu coração pela incredulidade do povo, tira, à parte, aquele
que acaba de ser o objecto do .exercício do Seu poder.
Olha para a Fonte soberana de toda a bondade, de todos
os socorros para o homem, e aflige-se com o pensamento
do estado em que o homem se encontra.
Portanto, esta cura exemplifica mais particularmente o
Remanescente de entre os Judeus, segundo a eleição da
graça — Remanescente separado, por uma graça divina, da
totalidade da nação, estando a Fé em actividade entre esse
reduzido número.
O coração de Cristo está longe de repelir o Seu povo
terrestre. A Sua alma está abatida pelo sentimento de incre­
dulidade que separa Israel de Si e da salvação. Entretanto
Ele remove a surdez do coração de alguns e solta-lhes a
língua para que o Deus de Israel seja glorificado.
Por ocasião da morte de Lázaro, Cristo também Se
aflige por causa da dor que a morte traz ao coração humano.
Porém, neste caso, para além da dor, havia ainda um
testemunho público de como Deus sofre com o sofrimento
do homem, que Ele criou à Sua imagem e semelhança.
Veremos, no Capítulo 8, um outro exemplo do que
acabamos de referir. Jesus conduz o cego para fora da
cidade. Ele não abandona Israel, desde que haja Fé ali, mas
separa da multidão aquele que tem esta Fé, e coloca-o
em relação com o poder, a graça, o céu de onde emana a
bênção — bênção essa que, por conseguinte, se estende tam-
214
J. N. DARBY
bém aos gentios. O poder do Senhor não era exercido no
meio de evidente incredulidade. Isto mostra-nos muito cla­
ramente a posição de Cristo com respeito ao povo. Ele
prossegue a Sua obra, mas retira-Se para Deus, por causa
da incredulidade de Israel. Mas é para o Deus de toda a
graça. Ali o Seu coração encontra refúgio, até que chegue
a grande hora da expiação.
CAPITULO 8
É por isso que, segundo me parece, nos é dado o segundo
milagre da multiplicação dos pães. O Senhor opera em favor
de Israel, não mais como administrando o poder messiâ­
nico no meio do povo (o que, tal como temos visto, era
indicado pelo número doze), mas, apesar da Sua rejeição
por Israel, continuando a exercer o Seu poder de uma ma­
neira divina e separada do homem. O número sete (*) tem
sempre a força da perfeição sobre-humana — o que está
completo: isto, porém, aplicado ao que está completo, tanto
no poder do mal como no do bem, quando não é humano
e subordinado a Deus. Aqui ele é divino. É essa intervenção
de Deus, que não se cansa e que esta de acordo com o
Seu próprio poder, o objecto principal da repetição do
milagre a manifestar.
Depois disso é-nos mostrado o estado espiritual dos che­
fes de Israel e do Remanescente. Os fariseus pedem um
sinal; mas nenhum sinal seria dado a essa geração. 0 seu
estado de espírito era de completa incredulidade, pois ti­
nham perante eles abundantes provas de quem Jesus era!
Aliás, foram essas mesmas provas que os levaram a pedir-
-Lhe um sinal! Por isso o Senhor se afasta deles. Mas o
estado de cegueira espiritual e de pouca inteligência do
Remanescente também se toma bem patente (vers. 16). O
Senhor adverte os Seus de evitarem o espírito e o ensino
(*) Note-se que sete é o número dígito indivisível mais elevado.
Doze é o número mais divisível que há.
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 215
dos fariseus, falsos pretendentes a um santo zelo por Deus;
e dos herodianos, servis sectários do espírito mundano que,
para agradarem ao imperador, punham Deus inteiramente
de lado!...
Empregando a palavra «fermento», o Senhor dà aos Seus
discípulos oportunidade de manifestarem a sua pouca inte­
ligência espiritual. Se os Judeus não aprendiam nada dos
milagres do Senhor e ainda pediam sinais, os próprios
discípulos também não realizavam o poder divino que se
manifestava neles! É este estado de espírito — e eu não
duvido absolutamente nada — que está assinalado no cego
de Betsaida (vers. 22-26). Jesus toma-o pela mão e condu-lo
para longe da aldeia e da multidão; emprega, para ope­
rar O1) a cura, algo que era de Si próprio, algo que possuía
a virtude da Sua própria Pessoa. E o primeiro efeito repre­
senta bem o estado de espírito dos discípulos. Eles viam,
sem dúvida, mas confusamente: viam «homens como árvo­
res, que andavam»! Mas o amor do Senhor não se cansa
da incrédula lentidão de inteligência deles. Age a seu res­
peito segundo o poder da Sua própria intenção e fá-los ver
claramente! Em seguida — longe de Israel — a incerteza
resultante da incredulidade é aproximada da certeza resul­
tante da Fé (por mais obscura que seja a inteligência desta)
e Jesus, proibindo aos Seus discípulos de falarem do que
eles, certamente, criam (o tempo para convencer Israel dos
direitos de Cristo como Messias tinha passado), anuncia o
que Lhe deve acontecer para o cumprimento dos desígnios
de Deus em graça, como Filho do homem, após a Sua
rejeição por Israel (2). De modo que tudo está agora no
seu lugar, por assim dizer: Israel não vê em Jesus o Mes­
O O emblema, em relação com a santidade dos rabinos, era muito esti­
mado pelos Judeus, no que concerne a essa relação; mas aqui a sua eficácia
ligava-se à Pessoa daquele que o usava.
0) Não temos aqui nada da Igreja nem de Chaves do Reino. Isso
depende de algo que não é introduzido aqui como fazendo parte da confissão
de Pedro: «O Filho do Deus vivo». Aqui encontramos a glória do Reino
vindo em poder, em contraste com o Cristo rejeitado, profeta-servo em Israel.
/
sias. Por conseguinte Jesus já se não dirige ao povo como
tal. Os Seus discípulos reconhecem-NO como o Messias, e
Ele anuncia-lhes a Sua morte e a Sua ressurreição.
Ora, pode-se ter a verdadeira fé (e isto é uma verdade
prática muito importante) sem que o coração esteja mol­
dado segundo a plena revelação de Cristo e sem que a
carne seja praticamente crucificada em proporção da me­
dida de conhecimento que se tem do objecto da fé. Pedro
reconhecia bem, pela revelação de Deus, que Jesus era o
Cristo; mas estava longe de ter o coração limpo segundo
os pensamentos de Deus em Cristo. E quando o Senhor
anuncia a Sua rejeição, a Sua humilhação e a Sua morte,
e isto perante toda a gente, a carne de Pedro, escandalizada
pela ideia de ter um Mestre assim rejeitado e desprezado,
mostra a sua energia ousando repreender o próprio Senhor
(vers. 32)! Esta tentativa de Satanás, de desencorajar os
discípulos pela desonra da Cruz, revolta o coração do Se­
nhor. Todo o Seu afecto pelos Seus discípulos e a vista
dessas pobres ovelhas perante as quais o inimigo colocava
uma pedra de tropeço é a causa da violenta repreensão de
Pedro como sendo o instrumento de Satanás e falando da
parte dele. Mas, para nós, a razão do acto de Pedro era
simples: os seus pensamentos estavam nas coisas dos
homens e não nas de Deus; porque a Cruz encerra em si
toda a glória de Deus. O homem prefere a glória do homem,
e por isso Satanás o governa.
O Senhor chama o povo e os Seus discípulos e expliea-
-lhes claramente que, se querem segui-LO, devem tomar o
Seu partido e carregar cada qual a sua cruz. Porque assim,
perdendo a vida, eles a salvariam, e a alma valia mais que
qualquer outra coisa. De resto, se alguém tinha vergonha
de Jesus e das Suas palavras, o Filho do homem se enver­
gonharia dele quando viesse na glória de Seu Pai com os
santos anjos. Porque, qualquer que fosse a Sua humilhação,
a glória Lhe pertencia! E é para lhes fortalecer a fé que
o Senhor coloca perante os Seus principais discípulos essas
sublimes revelações.
216 J. N. DARBY
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 217
CAPITULO 9
No Evangelho segundo S. Mateus vimos a transfiguração
anunciada em termos que se referiam ao assunto desse
Evangelho: O Cristo rejeitado tomando a Sua posição glo­
riosa de Filho do homem. Em todos os Evangelhos a trans­
figuração está em relação com o momento em que esta
transição é claramente posta em evidência, mas com um
carácter particular em cada um deles. Em Marcos temos
visto o serviço humilde e dedicado de Cristo na procla­
mação do Reino, fosse qual fosse a glória divina que res­
plandecesse através da Sua humilhação. Por consequência,
a manifestação da transição para a glória é anunciada aqui
como a vinda do Reino em poder. Não há nada que dis­
tinga mais particularmente o relato que temos aqui daquele
que se encontra em Mateus, excepto o isolamento de Jesus
e dos Seus três discípulos nesse momento, que é mais for­
temente acentuado no versículo 2, e que os feitos são
relatados sem mais adicionamentos. Em seguida o Senhor
ordena-lhes que não digam nada a ninguém acerca do que
tinham visto até Ele ser ressuscitado de entre os mortos.
Podemos observar aqui que é, com efeito, o Reino em
poder que se manifesta — e não o poder do Espírito Santo
pondo o pecador, como um membro santo do corpo, em
relação com Cristo, a Cabeça, revelando-lhe a glória celeste
de Cristo, tal como Ele está no Céu, à direita do Pai.
Cristo está na Terra. Está em relação com as grandes tes­
temunhas da ordem judaica (a lei e a profecia), mas tes­
temunhas que lhe cedem inteiramente o lugar, participando
mesmo da glória do Reino com Cie. Cristo é manifestado
em glória sobre a Terra: o homem na glória ê reconhecido
como Filho de Deus, do mesmo modo que é conhecido na
nuvem, posto que revelando ali a Sua glória. Nâo é ainda
a nossa posição sem véu; o véu, quanto à nossa relação
com Deus, está rasgado de alto a baixo e temos plena
liberdade de entrar nos lugares santos pelo sangue de Cristo.
Mas é um privilégio espiritual e não uma manifestação
218 J. N. DARBY
pública. Quanto a isso o nosso véu, o nosso corpo, não
está rasgado; mas está o de Cristo, como privilégio de
entrada (x).
Mas esta posição de glória não podia ser tomada pelo
Senhor, nem estabelecer-se o reino glorioso, a não ser numa
nova ordem de coisas: Cristo devia ressuscitar primeiro
de entre os mortos, para depois a estabelecer. Esta nova
ordem não se conciliava com a apresentação de Jesus como
o Messias, tal como Ele estava então. Por isso ordena aos
Seus discípulos que não digam a ninguém o que tinham
visto, senão após a Sua ressurreição. Devia ser então uma
confirmação poderosa da doutrina do Reino em glória.
Esta manifestação da glória confirmava a fé dos discípulos
nesse tempo (do mesmo modo que o Getsêmane lhes paten­
teava a realidade dos Seus sofrimentos e dos Seus com­
bates com o príncipe das trevas), e depois, quando o Cristo
tivesse tomado a Sua nova posição, ela constituiria o tema
e a confirmação do testemunho deles.
Em II Pedro 1:19 podemos ver o carácter desta mani­
festação e as suas relações com o Reino terrestre de glória,
de que os profetas tinham falado. Leiamos, pois, essa pas­
sagem: «E temos, mui firme, a palavra dos profetas».
Os discípulos tinham parado no limiar da porta. Embora
os seus olhos estivessem abertos, na realidade eles viam
«homens como árvores que andavam». Que quereria dizer
«ressuscitar de entre os mortos»? — perguntavam eles entre
si (vers. 10). A ressurreição era-lhes conhecida. Toda a seita
dos fariseus acreditava nela. Mas este poder, que libertava
do estado onde o homem e mesmo os santos se encontra­
vam, implicando também que outros ali existiam ainda
abandonados, enquanto esse poder se exercia —eis o que
eles ignoravam totalmente. De que havia uma ressurreição,
na qual Deus ressuscitaria todos os mortos no último dia,
eles não duvidavam. Mas que o Filho do homem fosse a
(') A entrada na nuvem não faz parte desta revelação. Encontramo-la
em Lucas. A nuvem, para Israel, era o lugar onde Deus habita; era uma
nuvem luminosa (Mateus 17).
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 219
ressurreição e a vida — o triunfo absoluto do último Adão
sobre a morte, o Filho de Deus tendo a vida em Si mesmo,
manifestado pela Sua ressurreição de entre os mortos (livre­
mente que, a seu tempo, será também cumprido nos santos),
eis o que eles não entendiam. Eles recebiam, sem dúvida,
as palavras do Senhor como verdadeiras, como tendo auto­
ridade. Mas o que Ele queria dizer-lhes era incompreensível
para eles.
Ora a incredulidade nunca deixa de encontrar objecções
para se justificar aos seus próprios olhos, que se recusam
a compreender as provas divinas da verdade — objecções
assaz fortes na aparência e que podem perturbar o espírito
daqueles que, pela graça do Senhor, estão dispostos a crer,
ou que já creram, mas que ainda estão fracos na fe.
Os profetas tinham dito que Elias viria primeiro. Os
escribas insistiam nessa afirmação (vers. 11). Impressiona­
dos agora pela glória que confirmava de maneira incon­
testável as pretensões de Cristo, os discípulos falam-Lhe
desta dificuldade. A convicção que a visão da glória trazia
ao seu espírito levava-os a confessar a dificuldade acerca
da qual eles se tinham calado anteriormente, não ousando
falar dela. Mas agora a prova é suficientemente forte para
lhes dar a coragem de que careciam para encararem de
frente essa dificuldade.
Com efeito, a Palavra de Deus falava desta vinda, e Jesus
aceita-a como sendo a própria verdade: Elias devia vir pri­
meiro e restaurar todas as coisas. E ele virá de facto antes
da manifestação da glória do Filho do homem. Mas é pre­
ciso que o Filho do homem sofra primeiramente e seja
rejeitado. Isso também estava escrito, do mesmo modo que
a missão de Elias. Aliás, antes desta manifestação de Cristo,
que punha os Judeus à prova quanto às suas responsabili­
dades, Deus não tinha deixado de fornecer a este povo um
testemunho segundo o poder e o espírito de Elias, — mas
eles fizeram com ele tudo o que quiseram. Estava escrito
que o Filho do homem sofreria antes da Sua glória, tão
certo como estava escrito que Elias viria. Na verdade, como
acabamos de dizer, quanto ao testemunho para os Judeus,
220 J. N. DARBY
aquele que tomava moralmente o lugar de Elias já tinha
vindo. E tinham-no tratado como iam agora tratar o Se­
nhor. Paralelamente, João Baptista tinha dito que ele não
era Elias, citando Isaías 40, que fala do testemunho; mas
não cita nunca Malaquias 4, que se refere a Elias pessoal­
mente. O Senhor (Mateus 11:10) faz uma aplicação de Mala­
quias 3:1; mas João Baptista cita Isaías.
Quando Jesus desceu do monte, a multidão correu para
Ele, espantada, ao que parece, da Sua misteriosa ausência,
longe dos Seus discípulos. Saúda-0 com o respeito que toda
a Sua vida lhe tinha inspirado. Mas o que tinha tido lugar,
durante a Sua ausência, não fazia senão confirmar a solene
verdade de que Jesus devia ir-se embora — verdade esta que
acabava de ser posta em evidência por um testemunho mais
glorioso. O próprio Remanescente, os que criam, não sabia
aproveitar do poder que agora se encontrava sobre a Terra.
A fé destes crentes não realizava a presença do Messias, o
Poder de Jehovah, o Salvador, o Médico de Israel. Para
quê, pois, continuar ainda no meio do povo e dos discípulos?
O pobre pai exprime a sua aflição duma maneira como­
vente, por palavras que mostram um coração integro, ren­
dido pelo sentimento das suas necessidades, mas muito
fraco na fé. Descreve o estado miserável do seu filho; e o
seu coração apresenta um verdadeiro quadro do estado de
espírito do Remanescente, da fé que tinha necessidade de
ser fortalecida, por causa da incredulidade sob a qual estava
atrófiada. Israel não valia mais do que a pobre criança. Mas
aquele que tudo podia estava lá! Isto hão era a dificuldade,
mas havia fé para aproveitar do Seu poder? Tal era a ques­
tão. «Se tu podes» — diz o pai aflito a Jesus. «Se tu podes»
— responde o Salvador — aplica-se à tua fé. «Se tu podes
crer, todas as coisas são possíveis». O pobre pai, homem
de coração recto, confessa, com lágrimas, o seu próprio
estado de fraqueza espiritual, e procura na bondade de
Cristo socorro para as suas necessidades.
Assim, a posição de Israel estava plenamente manifes­
tada. A Omnipotência estava lá para o curar, para o libertar
do poder de Satanás. Mas isso devia ser feito pela fé, por-
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 221
que a alma devia voltar para Deus. E a fé existia naqueles
que, tocados pelo testemunho do Seu poder e movidos pela
graça de Deus, procuravam em Jesus o remédio para os
seus males e o fundamento das suas esperanças. A sua fé
era fraca e vacilante, mas lá, onde Ele se encontrava, Jesus
agia segundo o poder soberano da Sua própria graça e da
bondade de Deus, que encontrava nela própria a sua justa
medida. Por muito longe que possa ir a incredulidade na­
queles que aproveitam da graça de uma dispensação, em
toda a parte onde é preciso responder a uma necessidade,
Jesus o faz, quando se olha para Ele. E isto é, para nós,
uma grande bênção e um grande encorajamento.
Todavia, para que este poder fosse exercido pelo próprio
homem (para o que Deus o chamava), era preciso que o
homem se aproximasse intimamente de Deus — que aquele
a quem este poder fosse confiado se habituasse à comunhão
permanente de Deus, afastando-se de tudo aquilo que o
punha em relação com o mundo e a carne.
Resumamos agora os princípios desta narrativa, tendo
em vista a sua aplicação geral. O Senhor, que se ia embora,
para não ser mais do mundo, até que volte em glória, encon­
tra, ao descer do monte da transfiguração, um caso do poder
de Satanás sobre o homem, sobre o povo judeu. 0 homem
e Israel tinham estado sob esse poder quase desde o começo
da sua existência. A fé, que reconhece a intervenção de
Deus em Cristo e ali procura abrigo contra o mal actual,
é fraca, vacilante, preocupada do mal cuja visfa lhe esconde
em grande parte o Poder que o domina e que o suprime.
Mas o sentimento da necessidade é assaz profundo para
que a fé encontre refúgio neste Poder — o Poder de Deus.
É a incredulidade, que não sabe contar com o Poder
presente, que põe fim às relações de Cristo com o homem.
Não é a miséria deste que faz isso, porque foi a miséria
do homem que trouxe Jesus à Terra. Mas agora a Omni­
potência está presente, e somente é necessária a fé para
dela aproveitar. E se o coração do homem, para fugir ao
poder do inimigo, se volta para Jesus, pode — graças a
Deus! — apresentar ao Senhor a sua incredulidade, como
222
J. N. DARBY
se de qualquer outra coisa se tratasse. Em Jesus há o amor
e o poder bastantes para toda e qualquer especie de fra­
queza. A multidão aumenta e comprime-se, atraída pela
vista do poder do inimigo. Poderia o Senhor curar o me­
nino? Ou poderia Ele deixar o testemunho do poder de
Satanás invadir os corações?... É a curiosidade dos homens,
cuja imaginação está cheia do efeito do poder do inimigo.
Mas, qualquer que fosse a incredulidade do homem, Cristo
estava lá, como testemunho de um Poder que, em amor
pelos homens, destruía os efeitos do poder de Satanás. O
povo acorre. Jesus vê-o e, com uma simples palavra, expulsa
o demónio. Jesus actua segundo as exigências do Seu poder
e as intenções do amor de Deus. O esforço do inimigo pro­
voca a intervenção do Senhor, que a fraqueza da fé do pai
do menino tendia a fazer parar. Não obstante, se colocamos
toda a nossa enfermidade, assim como a nosssa miséria
perante Cristo, Ele responde sempre segundo a plenitude
do Seu poder. Mas, por outro lado, se a carne se ocupa
das ideias da fé, desvia a inteligência dos caminhos de Deus.
Enquanto viajava, Cristo ia explicando a Sua morte e
o novo estado que tomaria na Sua ressurreição. Porque cen­
surava Ele a falta de inteligência espiritual dos Seus dis­
cípulos, que lhes escondia tudo e enchia o seu espírito de
ideias de glória terrestre e messiânica? É aqui que reside
o segredo da sua falta de inteligência espiritual: Jesus
tinha-lho dito bem claramente; mas, pelo caminho, eles
discorriam entre si para saberem qual deles ocuparia o
primeiro lugar no Reino (vers. 34). Os pensamentos da carne
enchiam os seus corações no que dizia respeito a Jesus,
precisamente em oposição ao que ocupava o pensamento
de Deus a Seu respeito. A enfermidade apresentada a Jesus
encontra uma resposta no poder e na graça soberana do
Senhor. A carne e as suas concupiscências ocultam-nos,
mesmo quando pensamos n’Ele, todo o valor dos pensa­
mentos de Deus. Era a sua própria glória que os discípulos
procuravam no Reino. A Cruz, verdadeiro caminho da gló­
ria, era-lhes ininteligível.
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 223
O Senhor (vers. 31 e seguintes) retoma em seguida com
os discípulos o grande tema que nesse momento estava
perante Ele, a questão que, de qualquer modo, tinha de
ser decidida: Ele devia ser rejeitado. E isola-Se da multidão
com os Seus discípulos, para os instruir sobre este ponto.
Mas os discípulos, preocupados com a Sua glória e com os
Seus direitos como Messias, não compreendiam nada dos
Seus discursos. A sua própria fé, tal como ela era, cega-
vaos acerca de tudo o que ultrapassava os seus pensa­
mentos, porque, mesmo ligando-se à Pessoa de Cristo, esta
fé — ou antes, os seus próprios corações, nos quais ela se
encontrava — ligava a Jesus e n’Ele procurava o cumpri­
mento de tudo aquilo que a carne desejava para seu pró­
prio interesse. Quão astuto é o coração humano! Vemos
revelar-se claramente a sua subtileza na disputa pela preemi­
nência que os discípulos mantinham entre eles. A sua fé
é demasiado fraca para poder suportar superioridades ou
esclarecimentos que contrariem as suas ideias (vers. 32).
E essas ideias manifestam-se bem e sem dissimulação entre
eles. Jesus repreende-os e apresenta-lhes como exemplo uma
criancinha, conforme já tinha feito noutras ocasiões. Aquele
que seguia Cristo devia ter um espírito inteiramente con­
trário ao espírito do mundo — um espírito em conexão com
tudo o que era fraco e desprezado pelo orgulho do mundo.
Recebendo assim uma criancinha, recebia-se Cristo — e rece­
bendo-se Cristo recebia-se o Pai. Tratava-se de coisas eternas
e o espírito do homem deve, portanto, ser como o espírito
de uma criança.
O mundo estava de tal modo oposto a Cristo que quem
não era contra Ele era por Ele (r). O Filho do homem devia
ser rejeitado. Tratava-se da fé na Sua Pessoa e já não de
O Alguns têm dificuldade em conciliar estas palavras com a seguinte
passagem: «Aquele que não é por mim é contra mim». Mas as duas passagens
concordam entre si, quando se tem em conta o ponto principal: Cristo era o
critério divino do estado do homem — e isso resolve a questão. O mundo
estava totalmente, absolutamente contra o Senhor. Se um homem não estava
224 J. N. DARBY
um serviço individual para Ele. Mas, e infelizmente, os
discípulos pensavam mais neles próprios: «Ele não nos
segue». Eles deviam partilhar a rejeição do seu Mestre.
E se alguém lhes desse a beber um simples copo de água
fria que fosse, Deus lembrar-se-ia disso. O que quer que
fosse que pudesse fazê-los tropeçar na sua marcha, fosse
mesmo o seu olho direito ou a sua mão direita, eles fariam
bem arrancando-os, porque não eram as coisas de um Mes­
sias sobre a Terra que estavam em jogo, mas as da Eter­
nidade. Tudo será posto à prova pela perfeita santidade
de Deus, e isso em julgamento, de uma maneira ou de outra,
cada um, bom e mau, será salgado com fogo. Onde houver
vida, o fogo não consumirá senão a carne; porque, quando
somos julgados, somos castigados pelo Senhor, a fim de
que não sejamos condenados com o mundo. Se o julga­
mento atinge os maus (e, certamente, ele os atingirá), é
a condenação, é um fogo que não se apaga. Mas, para os
justos, há também outra coisa: Eles serão salgados com
sal. O poder da santa graça que liga a alma a Deus e a
preserva interiormente do mal, não faltará àqueles que
são consagrados a Deus, cuja vida é uma oferenda para
Ele. Sem dúvida o sal não é a doçura que agrada e que
a graça produz, mas sim esta energia divina em nós, que
une todas as coisas com Deus e Lhe consagra o coração,
ligando-o a Ele por um sentimento de obrigação e de desejo,
rejeitando tudo o que em si mesmo Lhe é contrário (obri­
gação que decorre da graça, e que por isso opera mais
poderosamente). Assim, na prática, era a graça distintiva,
a energia da santidade, que separa de todo o mal e aparta
para Deus. O sal era uma boa coisa. Aqui, o efeito produ­
zido na alma, o estado da alma em si mesma é assim
chamado, do mesmo modo que a graça, que produz esse
estado, é também chamada sal. Assim, os que se ofereciam
contra Ele — e aqui não podia haver meio termo — era por Ele; ora, se um
homem não era por Ele, é porque esse homem era do mundo, e, por conse­
guinte, contra o Senhor.
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 225
a Deus eram postos à parte para Ele — eram o sal da Terra.
Ora, se o sal perde o seu sabor, com que poderemos nós
salgar? O sal serve para salgar outras coisas, mas se vier
a tomar-se insípido e precisar de sal para si próprio, nada
mais haverá que o possa salgar! E o mesmo se dá com os
Cristãos. Se aqueles que são de Cristo não derem bom
testemunho, onde encontrar fora deles quem o faça e pro­
duza nesses próprios Cristãos o efeito desejado? Este senti­
mento de obrigação a Deus, que separa do mal, este julga­
mento de todo o mal no coração deve encontrar-se em nós
mesmos. Não se trata aqui de julgar os outros, mas de
cada qual se colocar perante Deus, tomando-se assim o
sal da Terra, e tendo esse sal em si mesmo. A respeito dos
outros, deve-se procurar a paz. E é a verdadeira separação
de todo o mal que nos torna capazes de andarmos juntos
em paz.
Numa palavra, os Cristãos deviam manter-se separados
do mal, perto de Deus, andando com Deus e estando em
paz uns com os outros.
Seria impossível ter uma instrução mais clara, mais
importante, mais preciosa. Em poucas palavras ela julga,
ela dirige toda a vida cristã.
Mas o termo do serviço do Senhor estava próximo.
Tendo descrito nestes princípios as exigências da Eterni­
dade e o carácter da vida cristã, Jesus restabelece, nos seus
primeiros princípios, todas as relações de Deus com o
homem, pondo de lado o mundo e a sua glória, assim
como a glória judaica, do ponto de vista do seu cumpri­
mento imediato, mostrando também o caminho da vida
eterna, que se encontrava na Cruz e no poder de Deus que
salva. Não obstante, e no meio de tudo isto, toma Ele
próprio o lugar de obediência e de serviço — verdadeiro
lugar do homem!... Por outro lado, o próprio Deus sendo
introduzido no Seu próprio carácter de Deus, na Sua natu­
reza e nos Seus direitos divinos — sendo deixadas de lado
a especial glória que pertence às dispensações e as relações
que lhes são próprias!...
15
226 J. N; DARBY
CAPÍTULO 10
É um princípio admirável como este que se nos apre­
senta aqui — as relações da natureza (tais como o próprio
Deus as estabeleceu no princípio) restabelecidas na sua
autoridade original, enquanto o coração é julgado, e, além
disso, a Cruz, único meio de chegar junto de Deus, que
tinha sido a fonte criadora dessas relações. Na Terra, Cristo
não podia oferecer senão a Cruz àqueles que O seguiam.
A glória, a que a Cruz devia conduzir, fora revelada a alguns.
Mas, para Ele, tomara o lugar de servo. Era o conheci­
mento de. Deus, através de Jesus Cristo, que devia preipará-
-los para essa glória e a ela os levar, porque isso era,
realmente, a vida eterna. Todos os outros meios interme­
diários se tinham tornado, nas mãos dos homens, hostis
a Deus, que os tinha concedido para Sua manifestação na
Pessoa de Cristo.
É por isso que encontramos nos versículos 1-12 a origem
das relações que devem existir entre o homem e a mulher,
tal como tinham saído das mãos criadoras de Deus. Nos
versículos 13-16 vemos o interesse que Jesus tomava pelas
criancinhas, o seu lugar aos olhos compassivos de Deus, e
o valor moral do que elas representavam perante os homens.
No versículo 17 chegamos à lei, ao mundo, e ao coração
do homem, colocado em presença de ambos. Mas ao mesmo
tempo vemos que Jesus tem prazer naquilo que é amável
na criatura, como criatura — princípio de um profundo
interesse desenvolvido neste capítulo — aplicando sempre
moralmente a pedra-de-toque (*) a esse mesmo coração. Pelo
que concerne à lei, tal como o coração natural a pode
considerar (isto é, quanto aos actos exteriores que ela exige),
o jovem tinha-a observado. Tinha-a observado com natural
sinceridade, com um rigor que Jesus sabia apreciar como
uma qualidade da criatura, e que devemos sempre reconhe-
O Pedra-de-toque — pedra de jaspe negro que serve para avaliar a pureza
dos metais que nela se esfregam. Em sentido figurado significa: meio de
prova seguro, em que podemos confiar.
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 227
cer onde quer que exista. É importante recordar que Aquele
que, como homem, era perfeitamente separado para Deus
— e isto porque Ele tinha os pensamentos de Deus — sabia
reconhecer ao mesmo tempo as imutáveis obrigações das
relações estabelecidas pelo próprio Deus, e também tudo
o que havia de amável e de atraente na Sua criatura, como
tal. Tendo Jesus os pensamentos de Deus — sendo Deus
manifestado em carne — poderia Ele não reconhecer o que
era de Deus na Sua criatura?! E, fazendo-o, tem de esta­
belecer as obrigações das relações em que colocou a Sua
criatura e mostrar a Sua ternura pelas nascentes imagens
do espírito que Lhe era querido. Ele tem de amar a recti­
dão natural que pode manifestar-se na Sua criatura. Mas
tem de julgar também o verdadeiro estado do homem
plenamente desenvolvido, os afectos que se prendiam aos
objectos que Satanás suscitava, e uma vontade que repelia
e abandonava a manifestação de Deus — levando o homem
a deixar as suas vaidades e a segui-LO, pondo assim moral­
mente à prova o seu coração.
De uma outra maneira ainda, Jesus põe em evidência
a perfeição absoluta de Deus. O jovem via o exterior da
perfeição de Cristo, confiando no poder do homem para
realizar o que era bom. Vendo essa realização prática em
Jesus, e embora o não considerasse senão como um simples
rabino, o jovem dirige-se a Ele e, humanamente falando,
com sinceridade, pretende aprender Daquele em quem via
tanta perfeição, a regra da vida eterna. Este pensamento
exprime-se na saudação sincera e cordial que Lhe dirige.
Corre, ajoelha-se em frente desse Doutor, que tinha um
lugar tão alto na sua estima, e diz: «Bom Mestre!». Os
limites humanos dos seus pensamentos acerca dessa bon­
dade e a sua confiança no poder do homem manifestam-se
por estas palavras: «Que farei para herdar a vida eterna?».
O Senhor compreendendo toda a importância das suas pa­
lavras, responde-lhe: «Porque me chamas bom? Ninguém
é bom senão um só, que é Deus» (vers. 18). Todo aquele
que conhecer Deus respeitará o que Deus Criou, quando
se apresentar como tal e no seu devido lugar. Mas somente
228
J. N. DARBY
Deus é bom. O homem, se é inteligente, não tem a pre­
tensão de ser bom diante de Deus, nem sonha com a bon­
dade humana. Este jovem esperava, pelo menos, vir a ser
bom pela lei (’) e cria que Jesus era bom como homem.
Ora, as maiores vantagens que a carne podia reconhecer
e que respondiam à sua natureza, não faziam sènâo fechar
mais ainda ao homem a porta da vida e do 'Ceu. Nâo sendo
o homem bom, mas sim pecador, a carne aproveitava-se
da lei para fazor a sua própria justiça. E, com efeito, se
é necessário procurarmos a Justiça, é porque não a temos
(isto é, somos pecadores e não podemos alcançar essa Jus­
tiça por nós próprios). Além disso, as vantagens deste
mundo, que parecem tomar o homem mais capaz de fazer
o bem, prendem o seu coração ao que parece, alimentam
o seu egoísmo e levam-no a dar pouco valor â imagem
de Deus.
Mas os ensinamentos deste capítulo ampliam considera­
velmente este assunto acerca do esitado do homem perante
Deus. Os pensamentos da carne acompanham o afecto do
coração daquele que está já vivificado pelo espírito da graça,
agindo pelo atractivo de Cristo, e emprestam-lhe a sua
forma, até que o próprio Espírito Santo comunique a
essas afeições a força da Sua presença, dando-dhes como
objecto a glória de Cristo no Céu. Mas, ao mesmo tempo,
faz luzir (para o coração do crente) sobre a Cruz a luz dessa
glória, revestindo a Cruz de todo o valor da redenção que
ali foi consumada, e da graça divina que nela é a fonte,
e produzindo a identidade com Cristo naquele que leva a
sua cruz com Ele.
Pedro não compreendia como se podia ser salvo, se
tais vantagens, como as que os Judeus possuíam nas
suas relações com Deus (e que se apresentavam de modo
especial no caso desse jovem), não faziam senao barrar o
caminho do Reino de Deus. O Senhor reencontrao nessa
mesma posição, porque a questão agora é justamente a
(*) Note-se que o jovem não pergunta: Que devo fazer para ser salvo?
Ele pretendia alcançar a vida eterna pelo cumprimento da lei.
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 229
do homem perante Deus. Enquanto se tratava apenas do
homem, isso era impossível — segunda e profunda verda­
de— no que diz respeito à sua condição de pecador. Não
somente não havia ninguém bom, excepto Deus, mas tam­
bém ninguém podia ser salvo, segundo o que o homem
era, desprovido da graça do Senhor. Quaisquer que fossem
as suas vantagens, como meios não lhe teriam servido de
nada no seu estado de pecado. Mas o Senhor introduz uma
outra fonte de esperança — «Para Deus todas as coisas são
possíveis». Tudo isso, e, em boa verdade, toda esta parte
do Evangelho, o mostra, pondo mesmo de parte o sistema
judaico, porque, enquanto que esse sistema assentava sobre
a prova feita da possibilidade de adquirir, pela posse de
leis divinamente estabelecidas, a Justiça e um lugar na
presença de um Deus que até então Se não havia manifes­
tado, agora esta nova fonte de esperança revelava Deus e
conduzia o homem e o coração do homem para um frente
a frente com Ele, como uma coisa presente, em graça,
sem dúvida, mas, no entanto, face a íface, tal como Ele
era. Os discípulos, não tendo ainda recebido o Espírito
Santo, estão sob a influência do antigo sistema e não vêem
os homens senão como árvores que andam. Este assunto
é plenamente desenvolvido neste capítulo. Na verdade, eles
podiam sonhar com o Reino, mas não era senão com pen­
samentos carnais.
Mas a carne, os pensamentos carnais introduzem-se ainda
mais profundamente na carreira da vida de graça. Pedro
lembra ao Senhor que os discípulos tinham abandonado
tudo para O seguirem. O Senhor responde: «Em verdade
vos digo que ninguém (l) há que tenha deixado casa, ou
irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos,
por amor de Mim e por amor do Evangelho, que não receba,
já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmas, mães,
filhos e campos, com perseguições; e no mundo por vir a
vida eterna» — mas Pedro não pensava nisso. 0 Senhor afir-
O Isto saía já das relações dos discípulos mesmo com os Judeus, e, em
princípio, admitia os Gentios.
230 J. N. DARBY
ma claramente que, quem quisesse segui-LO não alcançaria
neste mundo qualquer vantagem individual ou particular,
mas a Vida Eterna. O Senhor saía assim da esfera das pro­
messas ligadas ao Messias na Terra, para erutrar e fazer
entrar os outros naquilo que era eterno. Não se podia, pois,
julgar segundo as aparências no que concernia a recom­
pensas individuais.
Em boa verdade, os discípulos seguiam Jesus e pensa­
vam na recompensa, mas pouco na Cruz, que era, afinal,
o verdadeiro caminho. Por isso estavam espantados ao ve­
rem Jesus dirigir-Se deliberadamente para Jerusalém, onde
queriam mâtá-LO, e tinham medo (vers. 32). Mesmo seguin-
do-O, estavam longe de poderem compreender o que o
caminho implicava. Por isso Jesus lho explica frequente­
mente: Implicava a Sua rejeição e a Sua entrada no Novo
Mundo pela ressurreição. João e Tiago, pouco tocados ainda
pelas comunicações do Senhor, servemjse da sua fé na rea­
leza de Cristo para apresentarem o desejo carnal do seu
coração, que era o de estarem um à Sua direita e o outro
à Sua esquerda na glória. E o Senhor de novo os adverte
de que eles terão de levar a cruz com Ele; e tomar Ele
mesmo o lugar daquele que deve realizar o serviço que lhe
está confiado, chamando os outros à comunhão dos Seus
sofrimentos. Quanto à glória do Reino, isto é, quanto ao
assentar-se à Sua direita ou à Sua esquerda, não Lhe com­
petia a Ele concedê-lo; porque era para aqueles a quem
estava preparado. Tal é o lugar de serviço, de humilhação
e de obediência em que este Evangelho no-LO apresenta
sempre. Tal devia ser também o dos Seus discípulos.
Acabamos de ver o que representava a carne num jovem
íntegro, que Jesus amava, e nos Seus discípulos, que não
sabiam tomar a verdadeira posição de Cristo. É notãvel o
contraste entre estes factos e o pleno triunfo do Espírito
Santo, como podemos ver, comparando este capítulo com
Filipenses 3.
Paulo apresenta-se-nos ali como um homem exterior­
mente irrepreensível, segundo a lei, tal como o jovem do
Evangelho; mas viu Cristo em glória, e, pelo ensinamento
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 231
do Espírito Santo, a Justiça — a Justiça segundo a qual
Cristo tomou lugar na glória, de onde se revelou a Paulo.
Tudo aquilo que tinha sido um ganho era agora uma
perda para Paulo! Pretenderia ele ainda algo de uma jus­
tiça carnal, de uma justiça de homem, ainda que pudesse
cumpri-la, quando tinha visto a Justiça que brilhava na
glória de Cristo?! Paulo tinha agora a Justiça que era de
Deus pela fé. Que valeria, pois, aquela justiça pela qual
tinha trabalhado, agora que possuía a perfeita Justiça que
Deus dava pela fé?! Não só os pecados eram apagados, mas
também, por força dessa Justiça, a justiça do homem se
tomara sem valor. Os olhos de Paulo tinham sido abertos
pelo poder do Espírito Santo e pela presença de Cristo.
Poderiam ainda os atractivos, que conquistavam o coração
do jovem e o retinham no mundo que Cristo deixava, e
que, rejeitando Cristo, tinha rejeitado Deus, reter aquele
que já tinha visto Cristo na Sua glória? É evidente que não!
Esses atractivos eram agora para ele como imundície. Paulo
tinha feito a perda de todas as coisas a fim de ganhar
Cristo. Considerava-as como sendo absolutamente sem va­
lor. O Espírito Santo, revelando-lhe Cristo, tinha-o libertado
inteiramente dessas prisões.
Ora, esta manifestação de Cristo glorificado ao coração
vai ainda mais longe. O homem que rompe assim com o
mundo deve seguir Aquele a cuja glória aspira; e, para
isso, tem de colocar-se sob a Cruz. Os discípulos tinham
abandonado tudo para seguirem a Jesus. A graça tinha-os
ligado a Cristo, para O seguirem. O Espírito Santo ainda
os não ligara à Sua glória. Jesus sobe a Jerusalém. Os dis­
cípulos espantam-se e têm medo de O seguir, embora Ele
vá à frente, fortalecendo-os com a Sua condução e a Sua
presença. Paulo procura o poder da Sua ressurreição, deseja
a comunhão dos Seus sofrimentos e de tornar-se semelhante
a Ele na Sua morte. Em vez de espanto e de terror, há
em Paulo plena inteligência espiritual e desejo sincero de
ser conforme a essa morte, que os discípulos receavam. Ali
ele encontrava Cristo e o caminho da glória que o Senhor
lhe tinha revelado
232 J. N. DARBY
Aliás, esta visão de Cristo purifica os desejos do cora­
ção, mesmo a respeito da glória. João e Tiago queriam para
eles próprios o melhor lugar* no Reino — desejo esse que
se servia (num fim carnal e egoísta) da inteligência da fé —
inteligência essa que via apenas a cinquenta por cento e
procurava, logo de início, o Reino, em vez de procurar a
glória e o mundo por vir. Paulo tinha visto a Cristo e o
seu único desejo na glória era possuí-LO — «a fim de que
eu ganhe Cristo», e um novo estado conforme a esse desejo.
Não um bom lugar ao pé d’Ele no Reino, mas Cristo
mesmo. É a libertação — o efeito da presença do Espírito
Santo, revelando um Cristo glorificado.
Podemos notar que em cada caso o Senhor introduz a
Cruz. Era a única passagem deste mundo decaído para
o mundo da glória e da vida etema Q). Ao jovem Ele mos­
tra a Cruz; a João e a Tiiago, que pedem um bom lugar
no Reino, Ele mostra a taça que eles teriam de beber,
seguifldo-0. Segundo a determinação de Deus, a vida etema,
se bem que recebida já, estava, em possessão e em gozo,
do outro lado da Cruz.
Notemos também que o Senhor estava tão perfeitamente
e tão divinamente acima do pecado em que jazia a natureza,
que podia reconhecer tudo o que nela era de Deus, e mos­
trar ao mesmo tempo que toda a relação entre o'homem
e Deus era impossível, em face do que o homem é. As
vantagens não constituíam senão impedimentos. Era pre­
ciso passar por aquilo que é a morte da carne. É preciso
termos uma Justiça divina e entrar em espírito (mais tarde
entraremos de facto) num outro mundo, para O seguirmos
e estarmos com Ble, para «ganharmos Cristo». Solene lição
esta!...
O Desde a transfiguração até ao ponto em que se trata dos Seus direitos
como Filho de David, é a Cruz que é sempre apresentada. O ministério de
profeta e de pregador que Ele tinha realizado até então, terminava (com a
transfiguração, na qual brilhava a Sua glória futura neste mundo) sobre a
Cruz, que devia ser o termo de Seu serviço aqui, na Terra. Mas, antes de
lá chegar, Jesus apresenta-Se como Rei. Mateus começa pelo Rei, mas Marcos
tem essencialmente em vista o Profeta.
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 233
De facto, só Deus é bom, e — tendo o .pecado entrado —
se Deus Se manifesta, é impossível ao homem estar eiii rela­
ção com Ele. Mas para Deus tudo é possível. E a Cruz é
o único caminho para Deus. Cristo ali 'conduz, e é preciso
segui-LO nesse caminho, que é o caminho da vida eteoma.
Quem tiver o espírito de uma criancinha ali entrará pela
graça. O espírito de serviço e de humilhação de si próprio
tem ali o seu caminho. Cristo ali andou, dando a Sua vida
em resgate de muitos. Aqui termina esta parte da ins­
trução dada pelo Senhor. A humildade no serviço é o lugar
onde Cristo nos põe. Foi lá que Ele 'andou. Este capítulo
é digno de toda a atenção que, pela graça, o Cristão lhe
puder consagrar, porque fala do terreno sobre o qual
o homem pode permanecer, e mostra até onde Deus re­
conhece o que é natural — e a senda dos discípulos aqui,
em baixo.
No vers. 46 começa um outro assunto. O Senhor entra
no caminho das Suas últimas relações com Israel, apre-
sentando-Se antes como Rei, Emanuel, do que como o pro­
feta, que devia ser enviado. Como profeta, o Seu ministério
tinha sido cumprido. Tinha sido «enviado para pregar»,
dissera Ele aos Seus discípulos. Essa missão conduzira-0
à Cruz, como vimos. E Ele devia, necessariamente, anun­
ciá-lo, como resultado, aos que O seguiam. O Senhor retoma
agora as Suas relações com Israel, mas como Filho de David.
Aproxima-Se de Jerusalém, de onde se havia 'afastado e
onde devia ser rejeitado. E o poder de Deus manifesta-se
n’EIe. Aquele que traz a bênção ao preço do dom de Si
próprio entra por Jericó, cidade da maldição (Josué 6:26).
O pobre cego (x) (e tal era, com efeito, o povo) reconhece
que Jesus, o Nazareno, é o Filho de David. A graça de
Jesus responde em poder às necessidades do Seu povo, que
se exprimia pela fé e pela perseverança, apesar dos obstá-
(*) Já fiz notar que o cego de Jericó é, nos três primeiros Evangelhos,
o ponto onde começam a história das últimas relações de Cristo com os Judeus
e os Seus sofrimentos finais, estando terminados o Seu ministério geral e o
Seu serviço.
234
J. N. DARBY
culos que a multidão colocava na estrada, multidão essa
que não sentia essas necessidades e apenas seguia Jesus
atraída pelas manifestações do Seu poder, sem que a fé do
coração estivesse ligada a Ele. Aquela fé, a fé que o cego
revelava, tem o sentimento das necessidades. Jesus para e
chama-o, e manifesta, em presença de todos, o poder divino
que, no meio de Israel, respondia à iè que reconhecia em
Jesus de Nazaré o verdadeiro Filho de David, o Messias.
A fé deste pobre homem o tinha curado, e ele segue Jesus
estrada fora, de coração sincero e sem medo, porque a fé
que reconhecia Jesus como sendo o Cristo era uma fé di­
vina, posto que não conhecesse talvez nada da Cruz que o
Senhor acabava de anunciar aos Seus discípulos, como con­
sequência da Sua fidelidade e do Seu serviço, coisas em que
a fé, quando é genuína, deve estar sempre presente.
CAPÍTULOS 11 E 12
No texto que segue Jesus apresenta-Se a Jerusalém como
Rei. A Sua recepção mostra até que ponto o testemunho
que Ele tinha dado calara fundo no coração dos simples.
E Deus também queria que esta recepção tivesse lugar
da maneira que teve. Há pouca diferença entre o relato que
temos aqui e o de Mateus. Somente o Reino, como tal,
é apresentado mais simplesmente: «O Reino do nosso pai
David» (vers. 10).
Com que dignidade Jesus, como Juiz de todas as coisas,
toma agora conhecimento público de tudo o que se fazia
no templo, e dali sai sem nada dizer! O Senhor tinha visi­
tado o Seu templo, do mesmo modo como tinha entrado
na cidade montado num jumentinho sobre o qual nunca
homem algum se sentara. Julga Israel, na figueira mal­
dita C1). A glória do Senhor, da Casa do Eterno, é reivin-
O É o homem sob a antiga aliança, a carne sob a exigência de Deus,
e nunca fruto algum aí crescerá.
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 235
dicada com autoridade — uma autoridade que Jesus recla­
ma e que exerce na Sua própria Pessoa. Os escribas e os
principais sacerdotes recuam perante o ascendente que a
Sua palavra Lhe tinha dado sobre o povo. E fosse qual
fosse a malícia deles, Jesus sai da cidade sem ser moles­
tado. No dia seguinte os Seus discípulos espantam-se ao
verem que a figueira tinha secado até à raiz. Jesus asse­
gura-lhes que tudo o que eles pedirem com fé lhes será
feito, mas deverão agir em graça para gozarem desse privi­
légio. Os escribas, os principais sacerdotes e os anciãos,
confundidos, perguntam-Lhe com que autoridade fazia Ele
aquelas coisas, ou quem Lhe deu tal autoridade para as
fazer; mas Jesus dirige-Se à consciência deles de maneira
a demonstrar-lhes a sua incompetência para Lhe fazerem
uma tal pergunta, descobrindo ao mesmo tempo a falta
de sinceridade deles: Não sabiam que responder à questão
do baptismo de João. Com que direito então O submetiam
eles às suas questões a respeito dos Seus próprios direitos?!
Não sabiam decidir nada, quando havia oportunidade de
o fazer. Por outro lado, com a sua resposta, ou teriam san­
cionado a obra de Jesus ou teriam perdido a autoridade
sobre o povo ao renegarem o baptismo de João, que tinha
dado testemunho de Cristo. Quanto ao ganhá-los... — já não
se tratava disso. Mas que frivolidade que é a sabedoria do
homem em presença de Deus e ida Sua sabedoria!
A mudança de dispensação, e o pecado que rejeitava
o Rei têm um lugar mais demarcado no Evangelho segundo
S. Mateus. Em Marcos é dada mais ênfase ao serviço de
Cristo como Profeta. Em seguida Jesus apresenta-Se como
Rei, como já vimos. E, nestes dois Evangelhos, vemos que
é Jehovah quem cumpre a missão que Ele se dignou tomar.
Consequentemente, encontramos em Mateus acusações
mais pessoais contra os Judeus, como na parábola dos
dois filhos (Mateus 21:28-32), e a particularidade da mu­
dança de dispensação na parábola das bodas ^Mateus
22:1-14). Estas duas parábolas não se encontram em Marcos.
Neste Evangelho o Espírito de Deus apresenta-nos a imu-
236
J. N. DARBY
tável dignidade da Pessoa do Senhor e o simples facto de
que o Profeta e o Rei eram rejeitados — rejeição essa que
acarretava o julgamento de Israel. É, aliás, o mesmo teste­
munho geral que vimos em Mateus.
Em seguida o Senhor dá o resumo de toda a lei como
princípio de bênção entre a criatura de Deus e o que cons­
tituía a pedra-de-toque para o coração, na rejeição de
Cristo. Digo para o coração, porque a prova estava real­
mente lá, embora fosse apenas na inteligência que ela apa­
recia. Mesmo quando se tinha princípios verdadeiramente
ortodoxos (Cristo sendo rejeitado), o coração que não se
ligasse à Sua Pessoa não podia segúi-Lo no caminho para
onde a Sua rejeição O conduzia. O sistema dos desígnios
de Deus, que dependia dessa rejeição, era uma dificuldade.
Embora sem o terem compreendido antes, os que estavam
ligados à Sua Pessoa seguiam-No e encontravam-se nesse
mesmo caminho. Assim, o Senhor dá a essência da lei — de
toda a lei — como ensinamento essencialmente divino — e
o ponto onde os desígnios de Deus são transplantados para
a nova cena onde devem cumprir-se fora da maldade e da
má vontade do homem. De modo que esses poucos versí­
culos (cap. 12:28-37) nos apresentam a lei e o Filho de
David, e Este tomando o lugar de Filho do homem — o Se­
nhor— à direita de Deus. Era o segredo de tudo o que se
passava. A união do Seu corpo, a Assembleia, com Ele
próprio era tudo o que faltava. Somente em Marcos o Pro­
feta reconhece o estado moral que, sob a lei, tende para a
entrada no Reino (vers. 34). Este escriba tinha o espírito
de entendimento.
O quadro da condição que trazia o julgamento, que
encontramos em Mateus 23, não nos é dado aqui. Não era
o Seu assunto na ocasião. Jesus, ainda como Profeta,
adverte moralmente os Seus discípulos. Mas o julgamento
de Israel, por ter rejeitado o Filho de David, não está aqui,
perante os Seus olhos, da mesma maneira que o encon­
tramos em Mateus (quer dizer que não é da rejeição que
o Espírito Santo se ocupa agora). O verdadeiro carácter
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 237
da devoção 'dos escribas é assinalado, e os discípulos são
prevenidos contra eles. O Senhor faz-lhes sentir também
o que, aos olhos de Deus, dava verdadeiro valor âs ofertas
que eram trazidas para o templo.
CAPÍTULO 13
Neste capítulo o Senhor tem em vista muito mais o ser­
viço dos apóstolos, nas circunstâncias em que eles se iam
encontrar, do que o desenvolvimento dos planos e dos cami-
nhoà de Deus acerca do Reino — ponto de vista apresentado
antes, em Mateus, que desenvolve este assunto.
Notaremos que a questão dos discípulos apresenta, de
um modo geral, o assunto que os preocupava. Perguntam
quando se cumprirá o julgamento sobre o templo e quando
sucederão todas as outras coisas. Os versículos 9-13, em­
bora contendo algumas circunstâncias que encontramos em
Mateus 24, referem-se sobretudo ao que é dito em Ma­
teus 10. Trata-se, com efeito, da obra que os discípulos reali­
zariam no meio de Israel e em testemunho contra as auto­
ridades perseguidoras, sendo o Evangelho pregado em todas
as nações, antes que chegue o fim. Os discípulos deviam
tomar, como pregadores, o lugar que Jesus tinha ocupado
no meio do povo. Mas o seu testemunho devia ir muito mais
longe: Encontrariam todos os sofrimentos possíveis e as
mais dolorosas perseguições.
Ora, em dado momento esse serviço devia terminar, e o
sinal, bem conhecido, da abominação da desolação indi­
caria esse momento. Eles deviam então fugir. Seriam os
dias de tribulação sem igual, e sinais e maravilhas que, se
fosse possível, enganariam os próprios eleitos. Mas eles
estavam prevenidos. Depois desses dias tuido seria abalado
e o Filho do homem viria. O poder tomaria o lugar do tes­
temunho e o Filho do homem ajuntaria os Seus eleitos
(de Israel) de todas as partes da Terra.
16
238
J. N. DARBY
Parece-me que neste Evangelho, mais do que em qual­
quer outro, o Senhor junta o próximo julgamento de Jeru­
salém com o futuro, chamando a atenção para este, porque
se ocupa mais da conduta dos Seus discípulos durante esses
acontecimentos. Israel e todo o sistema no meio do qual
o Senhor tinha aparecido deviam ser provisoriamente pos­
tos de lado para introduzir a Assembleia e o Reino no seu
carácter celeste, e em seguida o milénio — isto é, a Assem­
bleia na Sua glória e o Reino estabelecido em poder —
quando o sistema legal e Israel, sob a primeira aliança,
fossem finalmente postos de lado. Nestes dois períodos,
a posição geral dos discípulos seria a mesma. Mas, no se­
gundo, os acontecimentos seriam mais definitivos e impor­
tantes, e é desses que o Senhor mais particularmente
falava. Todavia, o que estava mais iminente e que para
o presente punha de lado Israel e o seu testemunho, exigia
que uma advertência fosse feita aos discípulos por causa
do perigo que os ameaçava — e eles aqui a recebem.
O esforço dos Judeus para restabelecerem finalmente
o seu sistema, em desprezo de Deus, não fará senão trazer
uma apostasia declarada e o julgamento definitivo. Será
o tempo da tribulação sem igual, de que o Senhor fala.
Mas desde o tempo da primeira destruição de Jerusalém
por Tito até à vinda do Senhor, os Judeus são considerados
como postos de lado e sob este julgamento, seja qual for
o grau do seu cumprimento.
Os discípulos são chamados a velar porque não sabem
nem o dia nem a hora. E é a conduta dos discípulos a este
respeito que está aqui de moido especial perante os olhos
do Senhor. É este grande dia e hora em que o Senhor
voltará que os anjos e o próprio Filho, como Profeta, igno­
ram. Porque Jesus deve sentar-Se à direita de Deus, até que
os Seus inimigos sejam colocados por estrado de Seus pés
— e o momento em que Ele se levantará não foi revelado.
O Pai o tem reservado, disse Jesus, para Sua exclusiva auto­
ridade. Veja-se Actos 3, onde Pedro anuncia aos Judeus
a volta de Jesus. Eles rejeitaram o Seu testemunho, e agora
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 239
esperam o pleno cumprimento de tudo o que foi dito. En­
tretanto, os servos foram deixados para servir durante
a ausência do Mestre. Ele deu ordem ao porteiro em par­
ticular para vigiar. Isto aplica-se aos discípulos nas suas
relações com Israel, mas é ao mesmo tempo um princípio
geral. O Senhor dirige-o a todos os Seus Servos.
CAPÍTULO 14
Este capítulo retoma o fio da narrativa, mas em cir­
cunstâncias solenes, que se relacionam com o Em da vida
do Senhor.
Desde então os escribas e os principais sacerdotes con­
sultavam-se entre si em como poderiam prendê-Lo, à trai­
ção, e matá-Lo, pois temiam a influência do povo, que admi­
rava as Suas obras, a Sua bondade e a Sua complacência.
Teriam, pois, querido evitar prendê-Lo durante a festa,
quando a multidão afluía a Jerusalém. Mas Deus tinha
outros planos. Jesus devia ser o nosso Cordeiro Pascal,
adorável Senhor! E Ele ofereceJSe para ser a vítima de
propiciação. Ora, sendo tais os planos de Deus e o amor
de Cristo, não faltavam a Satanás agentes próprios para
levarem a cabo tudo o que ele pudesse fazer contra o Se­
nhor. Assim, oferecendo-Se Jesus para vítima, dentro em
pouco o povo estaria disposto a entregar, mesmo aos gen­
tios, Aquele que, pela Sua bondade e pelas Suas obras, o
tinha atraído. E a traição sem dificuldade o entregaria nas
mãos dos principais sacerdotes. Mas os planos de Deus, que
O reconhecia e 0 apresentava na Sua graça, teriam o pri­
meiro lugar! E a ceia em Betânia, e a ceia em Jerusalém
precederiam — uma a oferenda e a outra o acto de Judas.
Isto porque, seja qual for a maldade do homem, Deus
toma sempre o lugar que quer, e não permite nunca ao
poder do inimigo que esconda os Seus caminhos para a fé,
nem deixa o Seu povo sem testemunho do Seu amor.
240
J. N. DARBY
Esta parte da história é muito importante. Deus põe
em primeiro lugar os pensamentos e os temores dos chefes
do povo para no-los dar a conhecer. Mas deixa absoluta­
mente tudo em Suas mãos. E a maldade do homem, a trai­
ção e o poder de Satanás, quando operam da maneira mais
enérgica (e nunca estiveram tão activos), não fazem senão
cumprir os desígnios de Deus para a glória de Cristo. Antes
da traição de Judas, Jesus recebe o testemunho do afecto
de Maria. Deus põe o selo desta afeição sobre Aquele que'
devia ser traído. E, por outro lado, antes de ser abando­
nado e entregue, pode mostrar todo o Seu afecto pelos
Seus, na Sua última ceia com eles, na instituição da Santa
Ceia e do Lava-pés. Que belo testemunho do interesse que
Deus põe em cuidar dos Seus filhos e em consolá-los no
mais sombrio momento da Sua aflição!
Notemos também de que maneira o amor por Cristo en­
contra, no meio das trevas que se acumulam em volta
dos Seus passos, a luz que dirige a Sua conduta e a dirige
precisamente para o que mais convinha nesse momento.
Maria não tinha nenhuma revelação profética, mas o perigo
iminente em que o ódio dos Judeus colocava o Senhor
Jesus estimula o seu afecto e leva-a a realizar um acto que
devia ser publicado por toda a parte onde a morté de
Cristo e o Seu amor por nós fossem anunciados, no mundo
inteiro. Ë o verdadeiro conhecimento — a verdadeira direc­
ção moral nas coisas do espírito. O acto de Maria vem a ser
uma ocasião de trevas para Judas, pois é revestido da luz
da sabedoria divina, para o testemunho próprio do Senhor.
Esta sua afeição por Cristo discerne o que convém — ela
compreende o bem e o mal de uma maneira justa e opor­
tuna. Ë uma boa coisa preocuparmo-nos com os pobres.
Mas, nesse momento, todo o pensamento de Deus se con­
centrava no sacrifício de Cristo. Havia sempre ocasião de
cuidar dos pobres, e é justo fazê-lo. Mas pô-los em compa­
ração com Jesus, no momento do Seu sacrifício, era pô-los
fora do seu lugar e esquecer tudo o que era precioso para
Deus. Judas, que só pensava no dinheiro, compreendia a
situação presente em função do seu próprio interesse. A sua
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 241
agudeza 'de espírito era 'do inimigo: a de Maria era 'de Deus,
Os acontecimentos precipitam-se: Judas entende-se com os
principais sacerdotes, para lhes entregar Jesus, a troco 'de
dinheiro. E, com efeito, o contrato é concluído, segundo
os seus pensamentos e os pensamentos deles. É, no en­
tanto, mui to importante observar a maneira como — se
posso assim falar — o próprio Deus domina a situação.
Embora seja este o momento em que a malícia do homem
está no auge e em que o poder de Satanás se exerce no
mais alto grau, tudo se cumpre perfeitamente e no mo­
mento exacto, da maneira e pelos instrumentos requeridos
por Deus. Nada, nem a menor coisa, Lhe escapa. Nada se
realiza a não ser aquilo que Ele quer, como Ele quer, e
quando Ele quer. Que consolação para nós! E, nas circuns­
tâncias que nos ocupam, que emocionante testemunho!
O Espírito Santo relata, pois, o desejo, fácil de compreen­
der, dos chefes do povo e dos escribas de evitarem ai ocasião
da festa para prenderem Jesus. Mas era um desejo inútil!
Aquele sacrifício devia cumprir-se nessa altura — e cum­
pre-se!
Aproximavajse, porém, o momento da última Páscoa da
vida de Jesus — Páscoa essa em que Ele próprio devia
servir de cordeiro, e não deixar à fé outro memorial a não
ser o de Si próprio e da Sua obra. O Senhor envia então
os Seus discípulos a fim de prepararem tudo o que era
necessário para celebrarem a festa. À tarde senta-Se com
os Seus discípulos para conversar com eles e testemunhar-
-Ihes, pda última vez, o Seu afecto por eles, como seu com­
panheiro. Mas é também para lhes anunciar que um deles
o trairá (porque Ele devia sofrer tudo, até a traição, con­
forme estava escrito). Com este pensamento, pelo menos
o coração de cada um dos onze começa a entristecer-se (J)
0) Há algo de muito belo e de muito comovente na pergunta dos dis­
cípulos. Os seus corações estavam seriamente rendidos, e as palavras de Jesus
tinham neles todo o peso de um testemunho divino. De modo nenhum pensa­
vam em traí-Lo, excepto Judas. Mas as Suas palavras eram seguramente
verdadeiras, as suas almas reconheciam-no, e eles sentiam desconfiança de
242
J. N. DARBY
— porque o traidor devia ser um daqueles que comiam do
mesmo prato com Ele. Mas, ai desse homem! Contudo, nem
o pensamento de uma tal iniquidade nem a dor do Seu
coração podem fazer parar o curso do amor de Cristo.
E Ele lhes dá as provas desse grande amor na Ültima Ceia.
Era d’Ele, do Seu sacrifício, e não de uma libertação tem­
poral que eles deviam lembrar-se dali para o futuro. Tudo
se condensava n’Ele, e no facto de Ele morrer sobre a Cruz.
Em seguida dando-lhes o Cálice, estabelece o fundamento
da Nova Aliança no Seu sangue (em figura), apresentando-
-Iho como participação na Sua morte — verdadeira bebida
de vida. Depois de terem bebido todos dele, Jesus diz-lhes
que aquilo é o selo da Nova Aliança — coisa bem conhecida
dos Judeus, desde Jeremias, acrescentando que esse sangue
era derramado por muitos. A morte devia, pois, entrar ali,
para estabelecer a Nova Aliança e para pagar o resgate
de muitos. Mas, para isso, era necessária a morte, e que
os laços terrestres entre Jesus e os Seus discípulos ficas­
sem destruídos. Jesus não beberia mais do fruto da vide
(sinal dessas relações) antes de renovar esses laços com
eles, no Reino de Deus. Quando o Reino fosse restabelecido,
Ele estaria de novo com eles, e renovaria esses laços de
intimidade (sob outra forma e de maneira mais real e mais
excelente). Mas agora tudo mudava. Em seguida cantam
um hino e saem para se dirigirem ao lugar habitual, no
Monte das Oliveiras.
As relações de Jesus com os Seus discípulos aqui, na
Terra, deviam ser, com efeito, quebradas, mas isso não era
porque Ele os abandonasse. Jesus consolidava ou, pelo
menos, manifestava, na Sua última ceia com eles, os senti­
mentos do Seu coração e a força (do Seu lado) desses
si próprios ao ouvirem as declarações de Cristo. Não havia neles a orgulhosa
certeza de que eles O não trairiam, mas os seus corações inclinavam-se perante
as solenes e terríveis palavras de Jesus. Judas evita a questão, mas depois,
para não dar ares de se julgar superior aos outros, formula-a — e é para
ser designado pessoalmente pelo Senhor, o que constituiu verdadeiro alívio
para os outros discípulos (Mateus 26:25).
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 243
laços. Mas eles seriam escandalizados por causa da Sua
posição, e abandoná-Lo-iam. Mas era a mão de Deus que
estava em tudo isso! Ele feria o Pastor. Mas, uma vez res­
suscitado de entre os mortos, Jesus retomaria as Suas
relações com os Seus discípulos — com os pobres do Reba­
nho. Iria à frente deles para a Galileia, para lá onde essas
relações tinham começado, longe do orgulho da nação, e
onde, segundo a Palavra de Deus, a Luz tinha resplandecido
no meio deles.
A morte estava perante Ele. Era necessário sofrê-la,
para que as relações, quaisquer que elas fossem, se resta­
belecessem entre Deus e o homem. O Pastor seria ferido
pelo Senhor dos Exércitos. A morte era o julgamento de
Deus. Poderia o homem sustê-lo? UM só o podia fazer!
Pedro, amando demasiado a Cristo para que o seu coração
pudesse abandoná-Lo, avança demasiado no caminho da
morte, para logo recuar, prestando assim um mais rele­
vante testemunho da sua incapacidade para atravessar o
abismo que se abria perante os seus olhos, na Pessoa do
seu desprezado Mestre. Aliás, para Pedro não havia senão
o exterior do que é a morte. A fraqueza, que lhe inspirava
o seu terror, tornava-o incapaz de olhar o abismo que o
pecado tinha aberto diante dos nossos pés. No preciso
momento em que Jesus anuncia tudo o que ia acontecer,
Pedro tenta enfrentar essa situação. Sincero no seu afecto,
não sabia o que era o homem posto a nu perante Deus, e em
presença do poder do inimigo, que tinha a morte por arma.
Pedro tinha já tremido de medo, mas a presença de Jesus,
que inspira afeição, não implica que a carne, que nos im­
pede de O glorificar, seja morta no verdadeiro sentido do
termo. Aliás, ele não sabia nada acerca desta verdade.
É a morte de Cristo que revelou o nosso verdadeiro estado,
trazendo o único remédio possível para a nossa condição
de pecadores — a morte e a vida em ressurreição. Como
a Arca no Jordão, Cristo estava sozinho na morte, para
que o Seu povo resgatado pudesse atravessá-la em seco.
Jesus avança para o termo da Sua provação — provação
que não fazia senão demonstrar a Sua perfeição e a Sua
244
J. N. DARBY
glória, e glorificar a Deus, Seu Pai, ao mesmo tempo; mas
provação que não Lhe evitava nada daquilo que teria tido
o poder de O reter, se alguma coisa houvesse que pudesse
fazê-lo — e foi até à morte e ao peso da cólera de Deus,
peso que nós não podemos conceber.
Aproximou-Se do combate e do sofrimento, não irreflec­
tidamente, como Pedro, que ali se lança, por ignorar a natu­
reza desse combate, mas apromixa-Se dele com pleno conhe­
cimento, colocando-Se em •presença de Seu Pai, perante
quem tudo é pesado e medido, e onde a vontade d’Aquele
que Lhe impunha uma tal obra é claramente demonstrada
na Sua comunhão com Ele; ide modo que Jesus a realiza
tal como Deus a considerava, segundo a extensão e a inten­
ção de Seus pensamentos e da Sua natureza, numa per­
feita obediência à Sua vontade.
Jesus afasta-Se sozinho, para orar ao Pai. E, espiritual­
mente, atravessa toda a extensão dos Seus sofrimentos,
e suportando toda a angústia na comunhão de Seu Pai.
Tendo esses sofrimentos diante dos Seus próprios olhos,
coloca-os perante o coração de Seu Pai, a fim de que, se
fosse possível, passasse de Si aquele Cálice. Se não, seria,
pelo menos, da mão de Seu Pai que Ele o receberia. Ali
estava a piedade, pela qual Ele fora sempre escutado e as
Suas orações atendidas. Estava ali como homem — feliz
por ter os Seus discípulos velando com Ele, feliz por Se
isolar e derramar Seu coração no seio de Seu Pai, no
estado de dependência de um homem que ora. Que sublime
espectáculo!...
Pedro, que dizia querer morrer pelo seu Mestre, nem
sequer é capaz de velar com Ele! O Senhor mostra-lhe,
com doçura, a sua inconsequência, reconhecendo que, com
efeito, o seu espírito estava cheio de boa vontade, mas
que a carne era sem valor no combate com o inimigo e na
provação espiritual.
A narração de Marcos, revelando todo o estado espi­
ritual dos homens com quem Jesus se tinha associado,
e passando rapidamente de um acontecimento a outro
acontecimento, de maneira a relacioná-los entre si, é tão
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 245
surpreendente como o desenvolvimento mais circunstan­
ciado dos outros Evangelhos. É imprimido um carácter
moral em cada passo que se dá nesta história, dando-lhe,
no seu conjunto, um interesse que nada saberia igualar
(salvo Aquele que está acima de todas as coisas e de todos
os pensamentos) a não ser a Pessoa d’Aquele que está aqui
perante nós. Ele, ao menos, velava junto de Seu Pai; porque,
depois de tudo, e dependente como foi em graça, que podia
o homem fazer por Ele? Completamente homem como era,
sobre UM só Ele se devia apoiar, e assim Ele foi o Homem
Perfeito. Indo de novo para orar, volta para ver os Seus
dormindo ainda, e de novo Ele apresenta o Seu caso a Seu
Pai. Desperta então os discípulos, porque era chegada a
hora em que eles nada poderiam fazer por Ele. Judas apro-
xíma-se com o seu beijo. Jesus submete-Se. Pedro, que dor­
mira durante a veemente oração do seu Mestre, desperta
para ferir, quando Este Se submete como um cordeirinho
indo para o matadouro. Pedro fere um dos assistentes e
corta-lhe uma orelha. Jesus argumenta com os que tinham
vindo para O prenderem, recordando-lhes que, quando Ele
estava (humanamente falando) constantemente exposto ao
poder deles não O tinham prendido. Mas havia outra razão
para que isso -tivesse lugar agora — os desígnios e a Pala­
vra de Deus haviam de cumprir-se. Era o cumprimento
fiel da obra que Lhe estava destinada. Todos O abandonam
e fogem, porque quem, senão Ele próprio, podia seguir o
caminho até ao fim?
Na verdade um jovem tentou ir mais longe, mas logo
que os agentes da autoridade lhe põem a mão em cima,
agarrando o lençol de linho fino em que se embrulhava,
ele salva-se, abandonando-o e fugindo. Quanto mais a gente
se aventura, fora do poder do Espírito Santo, no caminho
onde se encontra o poder do mundo e da morte, tanto
maior é a vergonha com que teremos de arcar—se Deus
nos permite dali escapar. O jovem fugiu desnudo!...
As testemunhas faltam, não em malícia, mas em firmeza
de testemunho, e mesmo a força nada podia contra Ele,
antes do momento que Deus tinha fixado. É a confissão
246 J. N. DARBY
de Jesus, a Sua fidelidade ao proclamar a verdade na con­
gregação, a causa da Sua condenação. 0 homem nada pode
fazer, posto que tenha feito tudo quanto à sua vontade e à
sua culpabilidade. O testemunho dos inimigos de Jesus,
a afeição de Seus discípulos — tudo falta! Eis o homem!
É Jesus que rende testemunho à verdade. Jesus que vela
com o Pai — Jesus que Se submete àqueles que nunca
tinham podido apoderar-se d ’Ele, até chegar a hora designa­
da por Deus. Pobre Pedro! Foi mais longe do que o jovem
no jardim. E encontramo-lo aqui, a carne no lugar do teste­
munho, no lugar onde esse testemunho se deve prestar,
perante o poder daquele que a tal se opõe e dos seus ins­
trumentos! Mas ai! Pedro não se éscapará. A Palavra de
Cristo será verdadeira, se a de Pedro for falsa — O Seu cora­
ção será fiel e pleno de amor, se o de Pedro (como o de
todos nós) for infiel e cobarde. Jesus confessa a verdade,
e Pedro nega-a. Todavia, a graça do nosso adorável Senhor
não lhe falta; e, tocado por ela, cobre a face e desfaz-se
em lágrimas.
Mas a Escritura tem de cumprir-se: Ele será entregue
nas mãos dos gentios. Ali, Ele é acusado de ser Rei. E a
Sua resposta, que Ele é, de facto, Rei, deve ter sido certa­
mente, a causa da Sua morte. Mas era a verdade!
A confissão que Jesus fizera diante dos principais sacer­
dotes (vers. 61-62) refere-se às Suas relações com Israel,
como já vimos noutras passagens deste Evangelho. O Seu
serviço era a pregação na congregação de Israel. Jesus
apresenta-Se, de facto, como Rei, como Emanuel. Agora
confessa que é, para Israel, a esperança do povo. «Tu, tu
és», dissera o sumo sacerdote, «o Cristo, o Filho de Deus
Bendito?» (vers. 61). Era, segundo o Salmo 2, o título e a
posição gloriosa d’Aquele que era a esperança de Israel.
Mas Jesus acrescenta o que Ele será (isto é, o carácter que
Ele ia tomar, ao ser rejeitado por esse povo, carácter esse
no qual Ele devia apresentar-Se ao povo rebelde). Seria
o que está escrito nos Salmos 8 e 110, e também no capí­
tulo 7 de Daniel, com os seus resultados — a saber, o Filho
do homem à direita de Deus e vindo sobre as nuvens do
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 247
céu. O Salmo 8 não apresenta Cristo senão de uma maneira
geral. O Salmo 110 e o capítulo 7 de Daniel falam 'do Messias
da maneira particular segundo a qual Cristo Se anuncia
aqui. A blasfémia que o sumo sacerdote Lhe atribuía não
era senão a rejeição da Sua Pessoa. Porque o que Jesus
dizia encontrava-se bem expresso na Palavra de Deus — nas
Sagradas Escrituras.
CAPITULO 15
Perante Pilatos, Jesus faz uma boa confissão, dando tes­
temunho à verdade, ali, onde a iglória de Deus o exigia
e onde esse testemunho se opunha ao poder do inimigo.
A tudo o mais Ele não responde nada. Deixa-os fazer o que
eles querem — e o evangelista não entra em nenhum deta­
lhe. Prestar esse testemunho era o último serviço e o
último dever que Ele tinha de cumprir. Esse testemunho
está prestado. Os Judeus preferem Barrabás, o sedicioso
e assassino. E Pilatos, dando ouvidos à multidão, aliciada
pelos principais sacerdotes, entrega Jesus, para ser crucifi­
cado. O Senhor sofre os insultos dos soldados, que juntam
o orgulho e a insolência da sua classe à dureza do carrasco,
cujas funções executam. Triste espécimen da natureza hu­
mana, este! O Cristo, que vinha para os salvar, estava,
de momento, sob o poder deles. Jesus usava o Seu poder,
não para Se salvar a Si próprio, mas para livrar os outros
do poder de Satanás. Finalmente, conduzem-No ao Gólgota,
para O crucificarem. Ali, dão-Lhe a beber uma mistura en-
turpecedora, que Ele recusa. E como era tudo o que eles
faziam ou podiam fazer, crucificam-No, com dois malfei­
tores, um à Sua direita e outro à Sua esquerda, cumprindo
assim tudo o que estava escrito a Seu respeito. Era a hora
do poder das trevas; era a hora dos Judeus e dos principais
sacerdotes. Tinham atingido o desejo dos seus corações.
Mas, assim procedendo, e sem disso se aperceberem, tomam
manifestas a glória e a perfeição de Jesus. O Templo não
poderia erguer-Se, sem ser assim primeiramente abatido!
248 J. N. DARBY
E, como instrumentos, eles confirmam o facto que Jesus
lhes anunciara. Por outro lado, Ele salvava os outros e não
Se salvava a Si próprio. São as duas partes da perfeição
da morte de Cristo em relação com o homem.
Mas, quaisquer que ifossem os pensamentos de Cristo e
os Seus sofrimentos em relação aos homens (esses cães,
esses touros de Basan), a obra que Ele teve de cumprir
tinha uma profundidade que se estendia muito para além
desse mundo exterior. As •trevas cobriam a terra — teste­
munho simpático e divino daquilo que cobria, de uma
obscuridade muito mais intensa, a alma de Jesus, aban­
donado de Deus, por causa do pecado do homem, mas que
mostrava lá, incomparavelmente mais que em qualquer
outro lugar, a Sua perfeição absoluta, enquanto que as
trevas marcavam, de maneira exterior, a Sua inteira sepa­
ração das coisas alheias, estando toda a obra apenas entre
Ele e Deus, segundo a Sua perfeição. Mal compreendido
pelos homens, tudo se passa entre Ele e Deus. E Jesus,
tendo soltado de novo um grande brado, expira (vers. 37).
A Sua obra estava concluída. Que teria Ele mais que fazer
num mundo onde não vivia senão para cumprir a vontade
de Deus? Tudo estava já completo, e, necessariamente, Ele
vai-se embora. Não falo de uma necessidade física, porque
Lhe restava ainda toda a Sua força. Mas, rejeitado pelo
mundo, a Sua misericórdia para com esse mesmo mundo
já não tinha ali lugar. A vontade de Deus estava perfeita­
mente cumprida por Ele próprio. Tinha bebido na Sua
alma o Cálice da morte e do julgamento do pecado. Nada
mais Lhe restava senão morrer. E expira, obedecendo até
ao fim, para começar num outro mundo (quer para a Sua
alma separada do corpo, quer na glória) uma vida onde
o mal não poderá nunca entrar, e onde o homem novo
será perfeitamente feliz na presença de Deus.
A Sua obra estava terminada. A Sua obediência tinha
um termo na morte — a Sua obediência, e, por consequên­
cia, a Sua vida, enquanto vivida no meio de pecadores. Qual
teria sido, pois, o alvo de uma vida onde não houvesse mais
obediência a cumprir?! Ora, a Sua obediência era perfeita,
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 249
até na morte — e iEle expira! Desde então o caminho do
Santuário está aberto. O véu foi rasgado de alto a baixo.
O centurião, um gentio, reconhece em Jesus, na Sua morte,
a Pessoa do Filho de Deus. Até então o Messias e o Judaís­
mo, andavam juntos. Na morte de Cristo separam-se. O Ju­
daísmo rejeita o Cristo — e Este toma-Se o Salvador do
mundo. O véu já não esconde Deus. E era tudo o que o
Judaísmo podia fazer a este respeito. A manifestação da
perfeita graça está ali para o gentio que — porque Jesus
entrega a Sua vida com um brado que prova a existência
de uma tal força — reconhece que o Príncipe da Vida, o
Filho de Deus, estava ali. Pilatos também se espanta de
que Ele já esteja morto. E não acredita senão quando o
centurião lho certifica. Quanto à fé — longe da graça e até
mesmo da justiça humana — ele não se inquieta absoluta­
mente nada com isso.
Mas a Sua morte não O arranca dos corações dos sim­
ples, que O amam (que talvez não tenham estado no com­
bate, mas que a graça fazia sair agora dos seus lugares
de refúgio). Não 0 arranca dos corações dessas mulheres
piedosas, que O tinham seguido e O tinham muitas vezes
provido nas Suas necessidades alimentares. Não O arranca
do coração de José de Arimateia que, embora tocado no seu
íntimo, não O tinha seguido ainda, mas que se sente enfim
fortificado pelo testemunho da graça e da perfeição de
Jesus (a integridade do Conselheiro encontra nos factos,
não um motivo de temor, mas algo que o determina a
fazer-se conhecer como discípulo de Jesus!). Aquelas mu­
lheres e José de Arimateia ocupam-se, cada um por seu
lado, do corpo de Jesus. Esse tabernáculo do Filho de Deus
não é deixado sem os cuidados que eram devidos pelos
homens Àquele que acabava de os deixar. De resto, a Provi­
dência de Deus, assim como a Sua obra nos seus corações,
tinha provido a tudo: O corpo de Jesus é colocado no
túmulo e todos aguardam o fim do sábado para concluírem
cada qual o seu trabalho a respeito d’Ele. As mulheres
tomaram conhecimento do lugar em que Jesus fora sepul­
tado— diz-nos o Evangelista.
250 J. N. DARBY
CAPITULO 16
O último capítulo está dividido em duas partes — facto
este que tem dado lugar a perguntas sobre a autenticidade
dos versículos 9-20. A primeira parte do capítulo, nos ver­
sículos 1-8, relata o fim da exposição, na sua relação com
o restabelecimento do que estudámos neste Evangelho —
as relações do Profeta de Israel e do Reino com o povo
(ou, pelo menos, com o Remanescente do povo eleito). Os
discípulos, e Pedro, que o Senhor menciona individualmente
(verdadeiramente em graça, por causa da sua renegação),
deviam ir ao Seu encontro na Galileia, como Ele lhes tinha
dito. Lá se restabeleceriam as relações de Jesus Ressusci­
tado com os pobres do Rebanho, que confiavam e espe­
ravam n ’Ele (sendo apenas reconhecidos por estar todo o
povo perante Deus). As mulheres não dizem nada aos outros.
O testemunho de Cristo Ressuscitado era confiado só aos
Seus discípulos, a esses Galileus desprezados! A Providência
de Deus usou do terror como meio de impedir as mulheres
de falarem da Ressurreição de Cristo, como teriam natural­
mente feito.
Nos versículos 9-20 temos outro testemunho. Os discí­
pulos não aparecem aqui como um Remanescente eleito,
mas sim na incredulidade natural do homem. A mensagem
é enviada ao mundo inteiro. Maria de Magdala (Maria Ma­
dalena), anteriormente possessa de sete demónios, escrava
absoluta desse poder terrível, é encarregada agora de comu­
nicar aos discípulos do Senhor a Sua Ressurreição! Em
seguida o próprio Senhor Jesus lhes aparece e confia-lhes
a missão que lhes tinha destinado (vers. 12-15). Diz-lhes
para irem por todo o mundo e pregarem o Evangelho
a toda a criatura. Já não se tràta especificamente do Evan­
gelho do Reino. Todo aquele que, no mundo inteiro, crer
e se unir a Cristo pelo baptismo, será salvo; aquele que
não crer será condenado. Tratava-se, portanto, ou da sal­
vação ou da condenação. O crente era salvo; aquele que
recusava a mensagem era condenado. De resto, se alguém,
convencido da verdade, recusava juntar-se aos discípulos,
EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS 251
confessando o Senhor, a sua condição seria 'das piores. Por
isso é dito: «Aquele que tiver crido e que tiver sido bapti­
zado». Sinais de poder acompanhariam os crentes, que
seriam preservados do poder do inimigo.
O primeiro sinal seria o seu poder e domínio sobre os
demónios; o segundo, a prova dessa graça que ultrapassava
os estreitos limites de Israel, dirigindo-se a todo o mundo:
Falariam novas línguas...
O poder do inimigo, manifestado no mal, não teria efeito
sobre eles: pegariam em serpentes, e, se alguma coisa
mortífera bebessem, não lhes faria mal. Se impusessem as
mãos sobre enfermos, ficariam curados... Numa palavra:
o poder de Satanás sobre o homem seria derrubado, e a
graça proclamada a todos os homens.
Tendo-lhes confiado assim a sua missão, Jesus sobe ao
Céu e senta-se à direita de Deus — lugar de onde partirá
o Poder para abençoar e de onde Ele voltará para colocar
os pobres do Rebanho na posse do Reino. Mas, enquanto
esperam, os discípulos substituem-No, estendendo a esfera
da sua acção até aos confins da terra. E o Senhor con­
firma a sua palavra por sinais e prodígios que os acom­
panham.
Julgar-se-á, talvez, que me alonguei pouco acerca dos
sofrimentos de Cristo, no que escrevi sobre Marcos. Mas
este assunto jamais será esgotado. É tão vasto como a Pes­
soa e a Obra de Cristo. Deus seja bendito! Em Lucas temos
mais detalhes. E eu sigo a ordem dos pensamentos que me
apresenta o Evangelho, e parece-me que, no que toca à
Crucificação de Cristo, é o cumprimento da Sua obra que
o Evangelista tem em mente. O seu grande tema era o
Profeta. Tinha, pois, de contar a Sua história até ao fim.
E assim nós possuímos, numa narração sucinta, mas clara,
um quadro muito completo dos acontecimentos que mar­
cam o fim da vida do Senhor como homem, aqui, na Terra
— do que Ele teve de cumprir como servo de Seu Pai. Foi
esta ordem do Evangelho que eu segui.
FIM DO EVANGELHO SEGUNDO S. MARCOS