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New Left Review nº 53, Setembro-Outubro, 2008

Ao examinar a relação entre urbanização e capitalismo, David Harvey sugere que observemos a
remodelação que Haussmann fez em Paris e a atual e explosão de crescimento das cidades como
resposta às crises sistêmicas de acumulação ― e faz um apelo no sentido da democratização do poder
para dar forma à experiência urbana.
O DIREITO À CIDADE
*

DAVID HARVEY
i

Vivemos numa era em que os ideais dos direitos humanos passaram para o centro do palco
tanto no sentido político quanto ético. Grande parte da energia é gasta na divulgação de seu
significado na construção de um mundo melhor. No entanto, a maioria dos conceitos agora
difundidos não desafia fundamentalmente a lógica hegemônica dos mercados liberal e
neoliberal nem as formas dominantes quer da legalidade quer da ação do estado. Vivemos,
enfim, num mundo dos direitos da propriedade privada do índice de lucro supera todas as
noções de direitos. Desejo aqui analisar outro tipo de direito humano, o direito à cidade.
Será que o ritmo e a escala de urbanização nos últimos cem anos contribuíram para o bem-
estar do homem? A cidade, nas palavras do sociólogo urbano Robert Park, é a tentativa
humana mais bem sucedida de transformar o mundo em que vive à feição de seu desejo. Mas
se a cidade é o mundo que o homem criou, é o mundo em que ele está, doravante,
condenado a viver. Assim, indiretamente, e sem nenhuma noção clara de sua tarefa, ao fazer
a cidade, o homem refez-se a si mesmo.
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A questão do tipo de cidade que queremos não pode estar divorciada do tipo de vínculos
sociais, relação com a natureza, estilo de vida, tecnologias e valores estéticos que
desejamos. O direito à cidade é muito mais do que a liberdade individual de acesso aos
recursos urbanos: é o direito de mudar a si mesmo ao mudar a cidade. Acima de tudo, é a
terra da comunidade mais do que um direito individual já que essa transformação depende
inevitavelmente do exercício de um poder coletivo para remodelar o processo de
urbanização. A liberdade de fazer e refazer nossas cidades e a nós mesmos é, gostaria de
discutir, um dos direitos humanos mais precisos e, no entanto, mais negligenciados.
Desde o início, as cidades se expandiram por meio de concentrações sociais e geográficas de
produto excedente. A urbanização sempre foi, portanto, um fenômeno de classe já que os

*
Tradução e comentários em notas: Leila Longo em 12/01/09.
i
David Harvey (Inglaterra, 1935) é geógrafo marxista formado na Universidade de Cambridge. É professor da City
University of New York e atualmente trabalha com diversas questões ligadas à geografia e à problemática urbanas.
vistas a partir de uma perspectiva materialista-dialética. Em Justiça social e a cidade, 1980, confronta o paradigma
liberal versus o paradigma marxista na análise dos problemas urbanos. (N.T.)


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produtos excedentes são extraídos de um lugar e de alguém, ao passo que o controle sobre o
seu desembolso de regra está nas mãos de poucos. Essa situação geral persiste sob o
capitalismo, é claro; mas uma vez que a urbanização depende da mobilização de um produto
excedente, uma conexão íntima emerge entre o desenvolvimento do capitalismo e a
urbanização.
Os capitalistas têm de gerar produção excedente para produção de valor em excesso; este,
por sua vez, deve ser reinvestido para gerar mãos valor em excesso. O resultado do contínuo
reinvestimento é a expansão da produção excedente num padrão composto — por essa razão,
as curvas logísticas (dinheiro, rendimento e universo [conjunto de itens]) ligadas à história da
acumulação de capital são pautadas pela trajetória de crescimento da urbanização sob o
capitalismo.
A eterna necessidade de encontrar terrenos lucrativos para a produção de superávit e
absorção forma a política do capitalismo. Também apresenta ao capitalista obstáculos quanto
à expansão contínua e despreocupada. Se o trabalho torna-se escasso e os salários altos, ou o
trabalho existente deve ser disciplinado ― desemprego induzido tecnologicamente ou um
ataque no poder da classe trabalhadora organizada são os dois principais métodos — ou novas
forças de trabalho devem ser encontradas pela imigração, exportação de capital ou pela
proletarização de elementos independentes até agora da população. Capitalistas devem
também descobrir novos meios de produção em geral e recursos naturais em particular, o que
faz aumentar a pressão no meio-ambiente natural para conseguir matérias-primas necessárias
e absorver o inevitável desperdício. Precisam abrir terrenos para a extração de matéria-prima
― muitas vezes objetivo com esforço imperialista e neocolonial.
As leis coercitivas da competição também forçam a implementação contínua de novas formas
de tecnologia e organizacionais, já que estas permitem ao capitalista competir com elas
utilizando métodos inferiores. As inovações definem novas carências e necessidades, reduzem
o tempo de giro do capital e diminuem a fricção da distância, o que limita o alcance
geográfico dentro do qual o capitalista pode procurar por ofertas mais amplas de trabalho,
matérias-primas, etc. Se não há poder de compra suficiente no mercado, novos mercados
devem ser encontrados para expandir o comércio exterior com a produção de novos produtos
e estilos de vida, a criação de novos instrumentos de crédito, de um estado que financia
débitos e gastos privados. Se, no final, o índice de lucro é muito baixo, então uma
regulamentação do estado de “competição ruinosa”, monopólio (fusão e aquisição) e
exportação de capital fornecem a saída.
Se não se puder tirar proveito de qualquer um dos obstáculos, os capitalistas não podem
reinvestir com lucro sua produção excedente. A acumulação de capital é bloqueada e só lhes
resta encarar uma crise na qual seu capital pode ser desvalorizado e, em alguns casos, até
mesmo fisicamente extinto. Mercadorias excedentes podem perder valor ou ser destruídas
enquanto a capacidade produtiva e os recursos podem ser depreciados ou cair em desuso; o
próprio dinheiro pode ser desvalorizado pela inflação e o trabalho, pelo desemprego maciço.
Como então tirar proveito desses obstáculos e expandir o terreno da atividade lucrativa que a
urbanização capitalista impulsiona? Meu argumento é de que a urbanização tem tido um papel
especialmente ativo ao lado de fenômenos como gastos militares ao absorver o produto
excedente que os capitalistas produzem perpetuamente em sua busca por lucro.

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Revoluções Urbanas
Em primeiro lugar, consideremos o caso da Paris do Segundo Império. O ano de 1848 trouxe
por toda a Europa as primeiras e claras crises de capital e trabalho excedentes não utilizados.
Elas atingiram Paris duramente e fez emergir uma malograda revolução por parte de
trabalhadores desempregados e daqueles burgueses idealistas que viam numa república social
o antídoto para a ganância e desigualdade que caracterizara a Monarquia de Julho. A
burguesia republicana reprimiu violentamente os revolucionários, mas fracassou em resolver a
crise. O resultado foi a ascensão de Luís Napoleão Bonaparte ao poder que engendrou o golpe
de 1851 e proclamou-se imperador mo ano seguinte. Para sobreviver politicamente, lançou
mão de ampla repressão a movimentos políticos alternativos. Lidou com a situação econômica
com um vasto programa de investimentos de infraestrutura dentro e fora da França. Fora da
França, significava a construção de estradas de ferro por toda a Europa e no Oriente, bem
como apoio a grandes obras como o Canal de Suez. Dentro da França, significava a
consolidação da rede de estradas de ferro, a construção de portos e ancoradouros e a
drenagem de charcos. Acima de tudo, impôs a reconfiguração da infraestrutura urbana de
Paris. Bonaparte encarregou Georges-Eugène Haussmann das obras públicas da cidade em
1853.
Haussmann compreendeu claramente que sua missão era ajudar a resolver o superávit e o
desemprego através da urbanização. A reconstrução de Paris absorveu imensas quantidades
de trabalho e capital para os padrões da época e, aliado à supressão das aspirações das forças
de trabalho parisiense, foi o primeiro veículo da estabilização social. Aproveitou-se das idéias
dos planos utópicos que os partidários de Fourier
ii
e de Saint-Simon
iii
debateram nos anos
1840 para remodelar Paris, mas com uma grande diferença: transformou a escala na qual o
processo urbano foi imaginado. Quando o arquiteto Jacques Ignace Hittorff mostrou a
Haussmann seus planos para o novo bulevar, ele os atirou de volta dizendo que ‘não estava
largo o suficiente. ... são 40m de largura e eu quero 120m.’ Anexou subúrbios e desenhou
toda a vizinhança como o Les Halles. Para fazer isso, Haussmann precisou de novas
instituições financeiras e instrumentos de débito, o Crédit Mobilier e o Crédit Immobilier que
foram construídos na linha de Saint-Simon. De fato, ajoudou a resolver a distribuição de
superávit ao montar um sistema proto-keynesiano de melhorias infraestruturais urbanas
débito-financiadas.

ii
François Marie Charles Fourier (Besançon,1772 – Paris,1837) foi um socialista e um dos pais do cooperativismo.
Crítico do economicismo e do capitalismo e adversário da industrialização, da civilização urbana, do liberalismo e da
familia baseada no matrimônio e na monogamia. Propôs a criação de unidades de produção e consumo, as falanges ou
falanstérios baseadas em uma forma de cooperativismo integral e auto suficiente assim como na livre perseguição do
que chamava paixões individuais e seu desenvolvimento; o qual construiria um estado que chamava harmonia. Neste
sentido antecipa a linhagem do socialismo libertário dentro do movimento socialista, mas também em linhas críticas
da moral burguesa e cristã restritiva do desejo e do prazer, constituindo-se em um dos precursores do anarquismo e
da psicanálise. (N.T.)
iii
Claude-Henri de Rouvroy, Conde de Saint-Simon, (Paris, 1760 - Paris, 1825), foi filósofo e economista, um dos
fundadores do socialismo moderno e teórico do socialismo utópico. Para Saint-Simon, no futuro, a sociedade seria
basicamente formada por cientistas e industriais. O pensamento Saint-simoniano pode ser visto nas obras de 1807 a
1821, com o lema: "a cada um segundo sua capacidade, a cada capacidade segundo seu trabalho". Previu a
industrialização da Europa e sugere uma união entre as nações para acabar com as guerras. (N.T.)



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O sistema funcionou muito bem por uns quinze anos e envolveu não só a transformação das
infraestruturas urbanas como a construção de uma nova forma de vida da persona urbana.
Paris tornou-se a ‘cidade-luz’, o grande centro de consume, turismo e prazer; os cafés, as
lojas de departamentos, a indústria da moda e grandes exposições ― tudo mudou o viver
urbano, de tal forma que poderia absorver os vastos excedentes por meio do consumo. Mas
um sistema financeiro superestendido e especulativo e as estruturas de crédito espatifaram-
se em 1868. Haussmann foi demitido; Napoleão III, em desespero, entrou em Guerra com a
Alemanha de Bismarck e perdeu. No vácuo que se seguiu emergiu a Comuna de Paris, um dos
episódios mais revolucionários da história urbana capitalista, forjada parcialmente a partir de
uma nostalgia pelo mundo que Haussmann destruíra e o desejo de tomar de volta a cidade em
nome dos que se tornaram despossuídos em razão de seu trabalho.
2

Passando rapidamente para os anos 1940 nos Estados Unidos. A imensa mobilização para o
esforço da guerra resolveu temporariamente a distribuição do superávit que parecera tão
difícil de lidar nos anos 1930 e o desemprego que o acompanhava. Mas todos temiam o que
poderia acontecer depois da guerra.
Politicamente, a situação era perigosa: o governo federal de fato praticava uma economia
nacionalizada e tinha uma aliança com a comunista União Soviética enquanto sólidos
movimentos sociais de inclinação socialista emergiram nos anos 1930. Como na era de Luís
Bonaparte, uma robusta dose de repressão política foi evidentemente providenciada pelas
classes dirigentes da época; a subseqüente história do mccarthyismo e da política da guerra
fria cujos sinais eram abundantes no início dos anos 40, é toda demais familiar. Na frente
econômica, permanecia a questão de como o superávit poderia ser absorvido.
Em 1942, uma prolongada avaliação dos esforços de Haussmann surgiu no Architectural
Forum. Documentava em detalhe o que ele fizera, tentava fazer uma análise de seus erros,
mas buscava recuperar sua reputação como um dos maiores urbanistas de todos os tempos. O
artigo era de ninguém mais que Robert Moses
iv
que depois da Segunda Guerra fez em Nova
York o que Haussmann fez em Paris.
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Ou seja, Moses mudou a escala de se pensar sobre o
processo urbano. Através de um sistema de autoestradas e transformações de infraestrutura,
suburbanização e a total reengenharia da cidade bem como de toda a região metropolitana,
ele ajudou a resolver da absorção do superávit. Para fazer isso, contou com novas instituições
financeiras e acordo de tributos que liberaram o crédito para financiar o débito da expansão
urbana. Quando estendido a toda a nação para todos os grandes centros metropolitanos do
EUA ― uma outra transformação de escala ― esse processo teve um papel crucial na
estabilização do capitalismo global depois de 1945, um período em que os EUA tinham
recursos para regular toda a economia global não comunista administrando déficits
comerciais.

iv
Robert Moses (New Haven, 1888-1981) tem uma biografia controvertida. Comparado a Haussmann, foi o grande
construtor de Nova York depois da crise de 1929, tornando-a uma cidade moderna, ou seja, desalojando os pobres,
desapropriando casas, abrindo ruas em seu lugar. Urbanista, redesenhou litorais, construiu rodovias em todo o país,
privilegiou as grandes vias para carros em detrimento dos pedestres nas cidades; isso favoreceu a criação dos
subúrbios modernos. Ficou famoso também por suas frases, como “as cidades são para o tráfego de veículos”, “se os
fins não justificam os meios, o que os justifica?” (N.T.)


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A suburbanização dos EUA não foi somente uma questão de novas infraestruturas. Como na
Paris do Segundo Império, ela gerou uma transformação radical nos estilos de vida ao trazer
novos produtos de habitação a geladeiras e ar condicionado, bem como dois carros na estrada
e um enorme aumento do consumo de gasolina. Também alterou o panorama político, já que
o subsídio à casa própria modificou o foco da ação comunitária no sentido da defesa dos
valores de propriedade privada e identidades individualizadas, mudando o voto do subúrbio
na direção de um republicanismo conservador. Proprietários de casas sobrecarregados de
débito, como foi argumentado, estariam menos sujeitos a fazer greve. Esse projeto absorveu
com sucesso o excedente e assegurou a estabilidade social, embora ao custo de esvaziar as
cidades mais interioranas e gerar mal-estar urbano no meio daqueles, principalmente os afro-
americanos, a quem foi negado o acesso à nova prosperidade.
No final dos anos 1960, um tipo diferente de crise começou a despontar; Moses, como
Haussmann, caíram em desgraça e suas soluções acabaram sendo consideradas inadequadas e
inaceitáveis. Tradicionalistas reuniram-se em torno de Jane Jacobs e buscaram se contrapor
ao brutal modernismo dos projetos de Moses com uma estética mais localizada e da região.
Mas os subúrbios foram construídos e a mudança radical no estilo de vida que isso
demonstrava tinha muitas conseqüências sociais, o que levou as feministas, por exemplo, a
proclamar o subúrbio como o lócus de seus dissabores básicos. Se a haussmannização exerceu
um papel crítico na dinâmica da Comuna de Paris, as cruéis qualidades do viver suburbano
também tiveram um papel crítico nos dramáticos eventos de 1968 nos EUA.
Estudantes descontentes de classe média branca entraram numa fase de revolta, buscaram
alianças com grupos marginais que exigiam direitos civis e incitavam contra o imperialismo
americano para criar um movimento para construir um outro tipo de mundo ― que incluísse
um tipo diferente de experiência urbana.
Em Paris, a campanha para parar a Via Expressa da Margem Esquerda e a destruição de zonas
pelos invasivos prédios altíssimos como na Place d’Italie e a Torre de Montparnasse ajudou a
animar a dinâmica mais ampla da rebelião de 1968. Foi nesse contexto que Henri Lefebvre
escreveu The Urban Revolution [“A revolução urbana”] que previu que a urbanização não só
era central para a sobrevivência do capitalismo e, portanto, destinada a tornar-se um foco
crucial da luta política e de classe como também obliterava pouco a pouco as distinções entre
cidade e campo pela produção de espaços integrados pelo território nacional, se não além
deste.
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O direito à cidade deveria ter o sentido de direito de comandar o processo urbano
como um todo, o qual foi de modo crescente dominando o campo em razão de fenômenos que
vão da agroindústria à segunda casa e turismo.
Junto com a revolta de 68, veio uma crise financeira no âmbito das instituições de crédito
que, pelo financiamento do débito, potencializou o crescimento estrondoso da propriedade
privada nas décadas precedentes. A crise reuniu força cinética no fim dos anos 1960 até que
todo o sistema capitalista ruiu, a começar pela ruptura da bolha do mercado global da
habitação em 1973, seguido pela bancarrota fiscal de Nova York em 1975. Com argumentou
William Tabb, a reação às conseqüências desta última foi pioneira na construção de uma
resposta neoliberal para os problemas quanto a perpetuar o poder de classe e a restaurar a
capacidade de absorver os excedentes que o capitalismo precisa produzir para sobreviver.
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Cercando o globo
Mais uma vez, passando rápido para nossa atual conjuntura. O capitalismo internacional tem
estado numa montanha-russa de crises regionais e quedas ― no Ocidente e no Sudeste da Ásia
em 1997-98; Argentina em 2001 ―, mas até recentemente evitou uma quebra global mesmo
ao enfrentar uma inabilidade crônica de distribuir o superávit. Qual foi o papel da
urbanização na estabilização da situação? Nos EUA, é sabedoria reconhecida que o setor
habitacional é um importante estabilizador da economia, principalmente depois da quebra do
hightech no fim dos anos 1990, embora tenha sido um ativo componente de expansão no
início da década. O mercado da propriedade privada absorveu diretamente o superávit por
meio da construção no centro da cidade, casas no subúrbio e escritórios, enquanto a rápida
inflação de ativos dos preços da habitação ― amparados por uma perdulária onda de
hipotecas que refinanciavam a taxas de juros historicamente baixas ― impulsionou o mercado
doméstico dos EUA na direção de bens de consumo e serviços. A expansão urbana americana
estabilizou parcialmente a economia global, à medida que os EUA operavam imensos déficits
comerciais com o resto do mundo, pedindo emprestado por volta de dois bilhões de dólares
por dia para dar combustível ao insaciável consumo e às guerras no Afeganistão e Iraque.
Mas o processo urbano passou por outra transformação de escala. Em suma, tornou-se global.
A explosão do mercado casa própria Grã-Bretanha e na Espanha, bem como em outros países,
ajudou a potencializar a dinâmica capitalista de uma forma bastante comparável à dos EUA. A
urbanização da China nos últimos vinte anos tem tido características diferentes, como um
foco concentrado do desenvolvimento da infraestrutura, mas é mais importante do que o dos
EUA. A urbanização da China nos últimos vinte anos teve características diferentes,
concentrou-se fortemente no desenvolvimento da infraestrutura, mas é mais importante do
que aquela dos EUA. Seu ritmo ganhou força depois de uma breve recessão em 1997, a ponto
de a China ter alcançado aproximadamente metade do suprimento de cimento mundial desde
2000. Mais de cem cidades ultrapassaram a marca de populacional de um milhão nesse
período, os vilarejos do passado, como Shenzhen, tornaram-se imensas metrópoles de seis a
dez milhões de pessoas. Grandes projetos de infraestruturas, inclusive represas e estradas ―
mais uma vez, com débito financiado ― transformam o cenário. As consequências da
economia global e a absorção de superávit têm sido significativa: o súbito crescimento do
Chile, graças ao alto preço do cobre, a prosperidade da Austrália e até mesmo o Brasil e a
Argentina recuperaram-se em parte em razão da força da demanda chinesa por matérias-
primas.
A urbanização da China nos últimos vinte anos teve um caráter diferente, com um foco
específico no desenvolvimento da infraestrutura, mas é até mesmo mais importante do que a
dos EUA. Seu ritmo foi retomado grandemente após uma breve recessão em 1997, a ponto de
a China ter utilizado mais da metade do suprimento mundial de cimento desde 2000. Em mais
de cem cidades a população ultrapassou a marca de um milhão durante o período; antes,
vilarejos como Shenzhen tornaram-se enormes metrópoles de seis a dez milhões de pessoas.
Vastos projetos de infraestrutura, inclusive represas e autoestradas ― novamente, todas com
débito financiado ― têm transformado do cenário. As consequências para a economia global e
a absorção do superávit têm sido significativa: o súbito crescimento do Chile graças ao alto
preço do cobre, a prosperidade da Austrália e até o Brasil e a Argentina têm se recuperado
em parte por conta da força da demanda chinesa por matérias-primas.
Será a estabilização da China o estabilizador primário do capitalismo global hoje? A resposta é
um qualificado sim. Porque a China é o único epicentro de um processo de urbanização que
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agora tem se tornado genuinamente global, parte por meio da surpreendente integração de
mercados financeiros que têm usado sua flexibilidade para financiar o débito do
desenvolvimento urbano em todo mundo. O Banco Central chinês, por exemplo, tem sido
ativo no mercado de segunda hipoteca nos EUA enquanto Goldman Sachs estava
profundamente envolvido na onda do mercado de capitais de bens privados em Mumbai
v
e
Hong Kong e investiu em Baltimore. Em meio a uma enchente de migrantes empobrecidos, a
construção cresceu subitamente em Johannesburg, Taipé, Moscou, bem como cidades no
centro de países capitalistas como Londres e Los Angeles. Em lugares como Dabai e Abu
Dhabi, no Oriente Médio, têm surgido surpreendentes, se não criminosos, absurdos projetos
de mega-urbanização, exibindo o superávit que emerge da riqueza do petróleo da forma mais
conspícua, injusta socialmente e devastadora do meio-ambiente possível.
A escala global torna difícil apreender que o que está acontecendo é, em princípio, similar às
transformações que Haussmann anteviu em Paris. Porque a expansão global da urbanização
depende, como aconteceu em todos os casos anteriores, da construção de novas instituições
financeiras e arranjos para organizar o crédito requerido para sustentá-las. As inovações em
marcha nos anos 1980 ― segurar e fazer um pacote das hipotecas locais postas à venda para
investidores do mundo inteiro e instituir novos veículos para manter sob controle os efeitos
colaterais das obrigações de débito ― tiveram um papel crucial. Seus muitos benefícios
incluíam margem de risco diversificada e permissão de acesso mais fácil aos números do lucro
excedente da poupança para a demanda excedente de habitação; além disso, também
baixavam as taxas de imposto agregado, enquanto geravam imensas fortunas para os
intermediários financeiros que operavam essas maravilhas. Mas a margem de risco
diversificada não o elimina. Além do mais, o fato de poder ser distribuída tão amplamente
encoraja atitudes locais até mais arriscadas, pois a credibilidade pode ser transferida para
outro lugar. Sem um controle adequado de avaliação do risco, essa onda de financiamento
transformou-se na chamada hipoteca sub-prime
vi
e na crise de valor dos ativos [asset-value]
vii
da habitação. A queda concentrou-se em primeira instância dentro e em torno das cidades
americanas, com implicações particularmente sérias para os de baixa-renda, para os
afroamericanos do interior e para habitações sustentadas por mulheres sós. Também afetou
aqueles que não podiam pagar pela habitação os preços que subiam vertiginosamente nos
centros urbanos, principalmente do sudoeste, foram obrigados a morar quase na periferia das
metrópoles; ali assumiram especulativamente uma área de construção de habitação com
taxas iniciais mais confortáveis, mas encaram agora uma alta nos preços, como o da gasolina
e dos pagamentos da hipoteca na medida dos efeitos da aplicação das taxas do mercado.
A atual crise, com repercussões locais na vida urbana e na infraestrutura, também ameaça
toda a arquitetura do sistema financeiro global e poder ser o gatilho de uma recessão de
grande vulto. O paralelo com os anos 1970 é nefasto ― inclusive com a imediata resposta de
dinheiro fácil do Federal Reserve em 2007-82 que quase certamente gerará fortes correntes
de inflação incontrolável, se não estagflação, num futuro não muito distante. Entretanto, a
situação é bem mais complexa agora e se a China poderá contrabalançar um sério impacto

v
Ex-Bombaim, Índia. (N.T.)
vi
“Sub-prime” é um crédito de alto risco destinado à habitação da população de baixa renda e de situação econômica
instável em que a única garantia exigida é o próprio imóvel. Este mercado de crédito é exclusivo dos EUA, não há em
outro lugar. Em outros termos, subprime são financiamentos no escuro, sem garantia, que acabaram por se tornar o
estopim da crise. (N.T.)
vii
“Asset-value” refere-se ao valor dos ativos de uma entidade menos o valor de seu passivo e/ou dívidas e
compromissos financeiros. (N.T.)
8
nos EUA, é uma questão em aberto. Mesmo no PRC
viii
, o ritmo da urbanização parece
diminuir..
O sistema financeiro está também mais fortemente ligado do que nunca
6
. O comércio movido
às frações de segundo do computador sempre ameaça criar uma grande divergência no
mercado ― já produz incrível volatilidade no mercado de ações — a ponto de precipitar uma
crise maciça que vai requerer um re-pensar quanto a como o capital e mercados financeiros
funcionam, inclusive sua relação com a urbanização.
Propriedade e Pacificação
Como em todas as fases precedentes, esse processo urbano de expansão radical mais recente
trouxe incríveis transformações de estilo de vida. A qualidade da vida urbana tornou-se um
bem consumível [commodity], à medida que a própria cidade num mundo em que consumo,
turismo e indústrias baseadas na cultura e no conhecimento tornava-se o aspecto principal da
economia política urbana. A propensão pós-modernista de encorajar a formação de nichos de
mercado ― que cerca a experiência urbana com uma aura de liberdade de escolha desde que
se tenha dinheiro.
Proliferam shopping-centers, multiplexes, grandes lojas de preços remarcados [box stores],
bem como mercados de fast-food e artesanato. Segundo o sociólogo Sharon Zukin, temos
agora a ‘paz pelo capuccino’. Até mesmo o desenvolvimento incoerente, insípido e monótono
do subúrbio que continua a prevalecer em muitas áreas, agora ganha seu antídoto no
movimento do ‘novo urbanismo’ atraente que vende os estilos de vida e butique da
comunidade para preencher sonhos urbanos. Este é um mundo em que a ética de
individualismo possessivo intenso e seu cognato de retraimento político das formas coletivas
de ação tornaram-se padrão para a socialização humana
7
. A defesa dos valores de
propriedade tornou-se tão soberana no interesse político que, como Mike Davis aponta, as
associações de proprietários na Califórnia passaram a ser bastiões da reação política, senão
de fascismos fragmentados da vizinhança
8
.
Cada vez mais, vivemos em áreas urbanas divididas e sujeitas a conflitos. Nas últimas três
décadas, a virada neoliberal restaurou o poder de classe às elites ricas. Desde então,
quatorze bilionários emergiram no México e, em 2006, o país se gabava do homem mais rico
do mundo Carlos Slim, ao mesmo tempo em que a renda dos pobres estagnava ou diminuía. Os
resultados estão indelevelmente gravados nas formas espaciais de nossas cidades que cada
vez mais consistem de fragmentos fortificados, espaços públicos com comunidades cercadas,
fechadas e privatizadas mantidas sob constante vigilância. No mundo em desenvolvimento
especificamente, a cidade se reparte em diferentes partes separadas com uma formação
aparente de ‘microestados’. Vizinhanças ricas com todo tipo de serviços, como escolas
exclusivas, campos de golfe, quadras de tênis e polícia particular patrulhando a área dia e
noite, bem próximas a assentamentos ilegais onde a única disponível é a de fontes públicas, o
sistema sanitário inexistente, a eletricidade é pirateada por poucos privilegiados, as ruas se
tornam rios de lama quando chove e onde a norma é compartilhar a casa. Cada fragmento
parece ter vida e funcionamento autônomo, atendo-se firmemente ao que foi possível agarrar
na luta diária para a sobrevivência
9


viii
PCR refere-se a “People’s Republic of China” [República do Povo da China], ou seja, a própria China. (N.T.)

9
Nessas condições, ideais de identidade urbana, cidadania e pertencimento ― já ameaçados
pela propagação da doença da ética neoliberal ― tornaram-se mais difíceis de sustentar. A
redistribuição privatizada por meio da atividade criminosa ameaça a segurança individual a
cada momento e instiga a exigência popular para a supressão da polícia. Parece implausível
até idéia de que a cidade poderia funcionar como um corpo político, um lugar em que e do
qual movimentos sociais progressivos poderiam emanar. Entretanto, há movimentos sociais
urbanos promovidos por fomentadores que buscam superar o isolamento e remodelar a cidade
com uma imagem diferente, apoiados por capital corporativo financiado e um número
crescente de instrumentos estatais locais com espírito empresarial.
Desapropriação
A absorção do superávit por meio da transformação urbana tem um aspecto mais sinistro
ainda. Tem levado a repetidos surtos de reestruturação urbana com a ‘destruição criativa’
que quase sempre tem uma dimensão de classe, já que são os pobres, os desprovidos de
privilégios e os marginalizados do poder político que sofrem primeiro e muito mais com esse
processo. A violência é necessária para construir o novo mundo urbano nos escombros do
velho. Haussmann dilacerou os velhos cortiços parisienses com poderes de desapropriação em
nome da melhoria pública e da renovação. Deliberadamente engenhou a remoção do centro
da cidade de grande parte da classe trabalhadora e de outros elementos não regulamentados,
onde constituíam uma ameaça à ordem pública e ao poder político. Criou uma forma urbana
em que se acreditava ― incorretamente, como se viu em 1871 ― níveis suficientes de
vigilância e controle militar poderiam ser atingidos para assegurar os movimentos
revolucionários poderiam facilmente enfraquecidos. Contudo, como apontou Engels em 1872:
Na verdade, a burguesia só tem um método de resolver a questão da habitação depois dessa
forma ― ou seja, de resolvê-la de um modo que a solução reproduza continuamente a questão
sob uma nova forma. Esse método é chamado ‘Haussmann’... Não importa quão diferentes
sejam as razões, o resultado é sempre o mesmo; ruelas e becos escandalosos desaparecem
para acompanhar o profusivo prazer da burguesia em razão de seu enorme sucesso, mas
reaparecem imediatamente em outro lugar... A mesma necessidade econômica que os
produziu no primeiro lugar, os produz no lugar seguinte.
10

Levou mais de cem anos para completar o emburguesamento do centro de Paris com as
consequências vistas nos últimos anos de rebeliões e desordem nos subúrbios isolados que são
armadilhas para imigrantes marginalizados, trabalhadores desempregados e jovens. É claro
que nesse caso a questão triste é que o que Engles escreveu é recorrente por toda a história.
Robert Moses ‘cortou os investimentos no Bronx’
ix
, em suas infames palavras, trazendo à tona
reclamações em alto e bom som de grupos das vizinhanças e movimentos. Nos casos de Paris e
Nova York, uma vez que o poder das desapropriações do Estado foi frustrado e contido com
sucesso, uma progressão mais insidiosa e cancerosa tem lugar por meio da disciplina fiscal
municipal, ou seja, a especulação da propriedade e a determinação do uso da terra segundo a
taxa de retorno relativa a seu ‘maior e melhor uso’. Engels compreendeu essa sequência toda
muito bem:
O crescimento das grandes e modernas cidades dá à nação certas áreas, especialmente as
situadas no centro, um valor crescente colossal e artificial; os edifícios erigidos nessas áreas
têm seu valor decrescido em vez de aumentado, já que não pertencem mais às circunstâncias
da mudança. São demolidos e substituídos por outros. Isso acontece principalmente com todas
as casas de trabalhadores que se situam no centro e cujo aluguel, mesmo no caso da maior

ix
No original, “Robert Moses took a meat axe to the Bronx”. (N.T.)
10
superlotação, jamais poderão, ou talvez muito lentamente, aumentar além de certo teto. São
demolidos e em seu lugar, empórios e edifícios públicos são erigidos.
11

Embora essa descrição tenha sido escrita em 1872, ela se aplica diretamente ao
desenvolvimento contemporâneo urbano na maior parte da Ásia ― Délhi, Seul, Mombai ―,
bem como o ‘enobrecimento’
x
em Nova York. Um processo de deslocamento e aquilo que
chamo ‘acumulação por desapropriação’ fica no centro da urbanização sob as rédeas do
capitalismo
12
. É a imagem no espelho da absorção do capital pelo desenvolvimento urbano
que hoje dá margem a numerosos conflitos para conseguir obter terrenos em regiões mais
valorizadas das populações de baixa renda que lá estejam vivendo por muitos anos. Considere
o caso de Seul nos anos 1990: companhias de construção e incorporadores contrataram
esquadrões de arruaceiros para invadir as vizinhanças das encostas das montanhas. Invadiram
com violência não só as casas mas também as posses dos que construíram suas próprias casas
nos anos 1950 no terreno que se tornou um prêmio. Torres altíssimas, que não mostram
nenhum sinal da brutalidade que facultou sua construção agora cobrem a maioria daquelas
encostas. Nesse ínterim, em Mumbai, seis milhões de pessoas consideradas oficialmente
moradores de favelas se estabelecem na terra sem escritura legal; todos os mapas da cidade
deixam um espaço vazio nesses lugares. Na tentativa de transformar Mumbai num centro
financeiro global que rivalize com Xangai, o súbito crescimento do fomento à habitação
ganhou movimento e a terra que os intrusos ocupavam torna-se cada vez mais valorizada.
Dharavi, uma das favelas mais notórias de Mumbai, vale estimativamente dois bilhões de
dólares. A pressão para desocupá-la ― por motivos ambientais e sociais para mascarar o fato
de se apoderar da terra ― aumenta diariamente. Poderes financeiros apoiados pelo Estado
fazem pressão para o esvaziamento forçado da favela, em alguns casos a violenta tomada de
posse da terra ocupada por toda uma geração. De repente, a acumulação de capital por meio
da atividade imobiliária cresce, já que a terra foi adquirida por quase nenhum custo.
Será que as pessoas deslocadas receberão uma indenização? Os que têm sorte receberão um
pouco. Mas enquanto a constituição indiana especificar que o Estado tem a obrigação de
proteger as vidas e o bem-estar de toda a população, independente de casta ou classe, e de
garantir direitos de moradia e abrigo, a Suprema Corte tem emitido juízos que reescrevem
esse requisito constitucional. Já que habitantes de favela são ocupantes ilegais e não podem
provar que ali moram há muito tempo, não têm o direito à indenização. Conceder esse
direito, diz a Suprema Corte, seria a mesma coisa que recompensar os batedores de carteira
por seus atos. Assim, os favelados ou resistem e lutam ou se mudam com seus poucos
pertences para acampar nas margens das estradas ou onde quer que possam encontrar um
mínimo espaço.
13
Exemplos de desapropriação também podem ser encontrados nos EUA,
embora estes tendam a ser menos brutais e mais legalísticos: o direito do governo de
propriedade tem sido alvo de abuso para desalojar moradores estabelecidos em casas
razoáveis em favor de um ordem mais alta de uso da terra, como condomínios e grandes lojas
de preços remarcados [box stores]. Quando isso foi questionado na Suprema Corte americana,
os juízes decretaram que era constitucional para jurisdições locais agirem dessa forma para
aumentar a base do imposto de propriedade.
14

Na China, milhões estão sendo desapropriados de espaços que há muito ocupavam ― três
milhões só em Pequim. Já que não têm direitos de propriedade privada, o Estado pode
simplesmente removê-los por decreto, oferecendo um pequeno pagamento em dinheiro à
vista para ajudá-los na saída antes de passar a terra para os empreiteiros com grande margem

x
Migração da classe média para áreas antes desvalorizadas da cidade. (N.T.)

11
de lucro. Certas vezes, as pessoas mudam-se de boa-vontade, mas também há relatos de
resistência generalizada cuja consequência é a repressão brutal por parte do Partido
Comunista. Na China, geralmente são as populações nas margens rurais que são desalojadas,
o que ilustra o significado do argumento de Lefebvre, prescientemente posto nos anos 1960,
que a distinção clara que uma vez existiu entre o urbano e o rural está se desfazendo num
conjunto de espaços porosos de desenvolvimento geográfico desigual sob um controle
hegemônico do Estado e do capital. Esse também é o caso da Índia onde os governos central e
de Estado agora favorecem o estabelecimento de Zonas Econômicas Especiais ―
ostensivamente para o desenvolvimento industrial, embora a maior parte da região seja
designada para a urbanização. Essa política levou a batalhas intensas contra produtores
agrícolas cuja maior foi o massacre em Nandigram a oeste de Bengala em março de 2007,
orquestrada pelo governo marxista do Estado. Com o intuito de abrir terreno para o grupo de
Salim, um conglomerado indonésio, os dirigentes do CPI(m)
xi
enviaram polícia armada para
dispersar os habitantes do vilarejo que protestavam; pelo menos quatorze foram mortos e
houve dezenas de feridos. Nesse caso, os direitos da propriedade privada não ofereceram
nenhuma proteção.
O que a proposta aparentemente progressista de recompensa aos direitos da propriedade
privada para as populações faveladas os proverá de bens que os permitirão deixar para trás a
pobreza?
15
Esse esquema está agora sendo debatido nas favelas do Rio, por exemplo. O
problema é que os pobres, acossados por uma insegurança de renda e frequentes dificuldades
financeiras, podem facilmente ser persuadidos a vender o bem imóvel por um preço
relativamente baixo. É típico dos ricos recusarem-se a abrir mão de seus bens de valor a
qualquer preço, é por isso que Moses podia cortar os investimentos nos de baixa renda no
Bronx, mas não na afluente Park Avenue. O efeito duradouro da privatização da habitação
social de Margareth Thatcher na Grã-Bretanha tem sido a criação de uma importância
monetária paga pelo uso da terra ou dos edifícios porventura existentes e de um preço
estruturado por toda a Londres metropolitana que impede a pessoas de baixa-renda ou
mesmo de classe média o acesso a alojamento em qualquer lugar próximo ao ao centro
urbano. Aposto que dentro de quinze anos, se as tendências atuais persistirem, todas as
encostas do Rio agora ocupadas por favelas serão ocupadas por condomínios de alto luxo com
vista fabulosa para a idílica baía enquanto os antigos moradores da favela terão sido
removidos para alguma remota periferia.
Formulando demandas
Podemos concluir que a urbanização teve um papel fundamental na absorção do superávit de
capital em escalas geográficas sempre crescentes, embora ao preço dos processos de
aburguesamento com destruição criativa que privaram as massas de qualquer direito à
cidade. O planeta como espaço de construção colide com o ‘planeta das favelas’.
16
De
tempos em tempos ocorrem revoltas, como em Paris em 1871 ou nos EUA com o assassinato
de Martin Luther King em 1968. Se, como parece provável, as dificuldades fiscais aumentam e
a fase neoliberal, pós-moderna e consumista de absorção do superávit capitalista por meio da
urbanização, que tem tido êxito até agora, está prestes a acabar e vislumbra-se uma crise
mais ampla, surge então a pergunta: onde está o nosso 68 ou, de forma mais comovente, a

xi
CPI(m) [Comunist Party in India (marxist)] ― Partido Comunista na Índia (marxista). (N.T.)

12
nossa versão da Comuna? Em relação ao sistema financeiro, a resposta tende a ser ainda mais
complexa exatamente devido ao fato de o processo urbano encontrar-se atualmente inserido
na esfera global. Os sinais de rebelião estão em toda parte: a inquietação na China e na Índia
é crônica, guerras civis explodem na África e a América Latina está em processo de
fermentação. Qualquer uma dessas revoltas pode ser contagiosa. No entanto, diferentemente
do sistema fiscal, os movimentos sociais de oposição, urbanos e de periferia, dos quais
existem muitos em todo o mundo, não estão bem articulados entre si; de fato, não há
praticamente nenhuma conexão entre eles. Se de alguma forma eles se unissem, o que
demandariam?
A princípio, a resposta para a última pergunta é bastante simples: maior controle
democrático sobre a produção e utilização do superávit. Como o processo urbano é um canal
importante de utilização do superávit, o estabelecimento de um manejo democrático sobre
sua utilização urbana constitui um direito à cidade. Em toda a história do capitalismo, parte
do valor do superávit tem sido tributada, e em fases da social-democracia a proporção
disponível para o estado cresceu significativamente. O projeto neoliberal dos últimos 30 anos
tendeu à privatização desse controle. Contudo, os dados para todos os países da OECD
xii

demonstram que a porção do produto interno bruto tem se mantido relativamente constante
desde os anos 70.
17
Portanto, a principal conquista do ataque neoliberal é impedir a expansão
da participação pública, como na década de 1960. O neoliberalismo também criou novos
sistemas de governança de integração do Estado com os interesses corporativos e, por meio
da aplicação do poder do dinheiro, assegurou que o desembolso do superávit mediante o
aparelho estatal favorecesse o capital corporativo e as classes altas no remodelamento do
processo urbano. A elevação da proporção do superávit nas mãos do Estado implicará um
impacto positivo se o próprio estado passar a ter um controle democrático.
Cada vez mais vemos o direito à cidade cair nas mãos de interesses privados ou quase
privados. Na cidade de Nova York, por exemplo, um prefeito bilionário, Michael Bloomberg,
remodela a cidade ao longo das linhas que favorecem os incorporadores imobiliários, Wall
Street e os elementos da classe capitalista transnacional, além de promover a cidade como
um local perfeito para negócios de altos valores e um destino fantástico para turistas. Na
realidade, ele está transformando Manhattan num grande condomínio fechado para os ricos.
Na cidade do México, Carlos Slim mudou os paralelepípedos do centro da cidade para agradar
ao olhar dos turistas. Mas não só indivíduos afluentes que exercem um poder direto. Em New
Haven ― carente de recursos para reinvestimento urbano ―, é Yale, a mais rica universidade
do mundo, que está remodelando grande parte da estrutura urbana de forma a se adequar às
suas necessidades. Johns Hopkins está fazendo o mesmo por East Baltimore e a universidade
de Columbia planeja fazer o mesmo para áreas de Nova York, provocando movimentos de
resistência de bairros em ambos os casos. O direito à cidade, como está constituído agora,
encontra-se demasiadamente confinado e restrito à pequena elite política e econômica que
cada vez mais modela as cidades segundo seus próprios desejos.
Todo o mês de janeiro, o departamento de Auditoria do estado de Nova York publica um
cálculo do total de bônus da Wall Street em relação aos 12 meses anteriores. Em 2007, um
ano desastroso para os mercados financeiros sob qualquer ponto de vista, eles somaram até

xii
OECD=Organization for Economic Cooperation and Development. Trata-se de um fórum para discutir, desenvolver e
aprimorar a política econômica e social. Tem reconhecimento internacional. São 30 países membros que pensam de
forma semelhante: países da Europa, EUA e Canadá, República Checa, Japão, Austrália, Nova Zelândia, Polônia,
Hungria, Eslováquia. (N.T.)

13
$33.2 bilhões, somente 2 % menos que no ano anterior. Em pleno verão de 2007, os Bancos
Centrais americano e europeu despejaram bilhões de dólares em crédito a curto prazo no
sistema financeiro para garantir sua estabilidade e, a partir de então, a instituição
americana baixou enormemente a taxa de juros ou supriu grandes quantias de liquidez toda
vez que o Dow ameaçava cair drasticamente. Enquanto isso, uns 2 milhões de pessoas já
estão, ou prestes a, perdendo suas casas por execução de hipoteca. Muitos bairros urbanos e
comunidades inteiras da periferia são fechados e vandalizados, arruinados por práticas
predatórias de empréstimo das instituições financeiras. Essa população não tem direito a
bônus. De fato, como a execução de hipoteca significa o perdão de dívida, que nos EUA é
considerada renda, muitos dos que foram desprovidos de posses judicialmente enfrentam uma
conta elevada do imposto de renda por dinheiro que eles nunca possuíram. Essa assimetria só
pode ser considerada como uma forma poderosa de confrontação de classes. Uma ‘Katrina
Financeira’ está sendo revelada, que convenientemente (para incorporadores) ameaça limpar
da cidade bairros de baixa renda em áreas com potencialidade de terem seus terrenos
valorizados dentro da cidade, de forma mais eficaz e rápida do que seria alcançada por meio
de domínio eminente.
Contudo, ainda estamos para ver uma oposição coerente a essas incorporações do século XXI.
Já há, naturalmente, uma grande variedade de movimentos sociais que focam a questão
urbana – da Índia e Brasil a China, Espanha, Argentina e os Estados Unidos. Em 2001, um
Estatuto da Cidade foi inserido na Constituição brasileira após pressão de movimentos sociais
pelo reconhecimento do direito coletivo à cidade
18
. Nos EUA, há pedidos para que o socorro
de $700 bilhões para instituições financeiras seja em parte direcionado ao Reconstruction
Bank, que ajudaria a evitar execuções de hipoteca e prover verbas para a revitalização de
bairros e obras de infra-estrutura em âmbito municipal. A crise urbana que está afetando
milhões teria então prioridade em detrimento das necessidades dos grandes investidores e
financeiras. Infelizmente, os movimentos sociais não são suficientemente fortes e mobilizados
para forçar essa solução. Nem sequer convergiram sobre um único objetivo de adquirir maior
controle sobre os usos do superávit – quiçá sobre as condições da produção.
Neste momento da história, essa luta tem de ser realizada globalmente, predominantemente
contra o capital financeiro. Pois essa é a escala em que os processos de urbanização
funcionam. Certamente, a tarefa política de organizar tal confronto é difícil, se não
desestimulante. No entanto, as oportunidades são múltiplas porque, como esta breve história
demonstra, as crises surgem repetidamente ao redor da urbanização, tanto local quanto
globalmente, e porque a metrópole é agora o ponto de grande colisão ― podemos ousar
chamá-la de luta de classes? ― sobre a acumulação por meio do desapossamento dos menos
favorecidos e o impulso desenvolvimentista que busca colonizar espaço para os afluentes.
Um passo em direção à unificação dessas lutas é adotar o direito à cidade tanto como um
slogan de trabalho quanto um ideal político, exatamente por se concentrar na questão de
quem comanda a conexão necessária entre a urbanização e produção de superávit e o uso. A
democratização desse direito, e a construção de um movimento social amplo para pôr em
prática essa vontade é imperativa se os despossuídos recuperarem esse controle que lhes foi
negado por tanto tempo, e se eles forem instituir novos modos de urbanização. Lefèbvre
tinha razão ao insistir que a revolução tem de ser urbana, no sentido mais amplo do termo, ou
nada.



14
NOTAS:

1
Robert Park, On Social Control and Collective Behavior, Chicago 1967, p. 3.
2
For a fuller account, see David Harvey, Paris, Capital of Modernity, New York 2003.
3
Robert Moses, ‘What Happened to Haussmann?’, Architectural Forum, vol. 77 (July 1942), pp. 57–66.
4
Henri Lefebvre, The Urban Revolution, Minneapolis 2003; and Writings on Cities, Oxford, 1996.
5
William Tabb, The Long Default: New York City and the Urban Fiscal Crisis, New York 1982.
6
Richard Bookstaber, A Demon of Our Own Design: Markets, Hedge Funds and the Perils of Financial
Innovation, Hoboken, New Jersey, 2007.
7
Hilde Nafstad et al., ‘Ideology and Power: The Influence of Current Neoliberalismo in Society’, Journal
of Community and Applied Social Psychology, vol. 17, nº 4 (Julho, 2007), pp. 313-27.

8
Mike Davis, City of Quartz: Excavating the Future in Los Angeles, London and New York, 1990.

9
Marcello Balbo, ‘Urban Planning and the Fragmented City of Developing Countries’, Third World
Planning Review, vol. 15, nº 1 (1993), pp. 23-25.

10
Friedrich Engels, The Housing Question, New York, 1935, pp. 74-7.

11
Engels, Housing Question, p. 23.

12
Harvey, The New Capitalism, Oxford, 2003, cap. 4.

13
Usha Ramanathan, ‘Illegality and the Urban Poor’, Economic and Political Weekly, 22 de julho de
2006; Rakesh Shukla, ‘Rights of the Poor: An Overview of Supreme Court’, Economic and Political
Weekly, 2 September, 2006.

14
Kelo v. New London, CT, decidiu em 23 de Junho de 2005, no caso 545, EUA, 469 (2005).

15
Muito desse pensamento está na linha do trabalho de Hernando de Soto, The Mistery of Capital: Why
Capitalism Triumphs in the West and Fails Everywhere Else?, ver a análise crítica de Timothy Mitchell,
‘The Work of Economics: How a Discipline Makes its World’, Archives Européennes de Sociologie, vol. 46,
nº 2 (Agosto de 2005), pp. 297-320.

16
Mike Davis, Planet of Slums, London and New York, 2006.

17
OECD Factbook, 2008: Economic, Environmental and Social Statistics, Paris, 2008, p. 225.

18
Edésio Fernandes, ‘Constructing the “Right to the City” in Brazil’, Social and Legal Studies, vol. 16, nº
2, (June 2007), pp. 201-19.