You are on page 1of 12

ÁGUA DA PALAVRA – REVISTA DE LITERATURA E TEORIAS / NÚMERO 3 MARÇO 2011 ISBN 2178 0870

1

A escrita de si na ficção brasileira contemporânea

Fabíola Padilha (UFES)


“[...] leitor, sou eu mesmo a matéria deste livro.”
(Montaigne)

“eis uma de „minhas‟ frases preferidas: não
procurem nada atrás de meus escritos, „eu‟ se existir
estou todo neles, bem à tona.”
(Evando Nascimento)


No âmbito atual dos estudos literários, vem recrudescendo notavelmente o interesse pela investigação
de relatos em primeira pessoa. Isso se deve, em parte, à constatação de que assistimos ao alargamento do
território do eu, tributário, dentre outros fatores, do avanço da cultura midiática e do impulso narcisista e
vertiginoso votado à exposição da intimidade. Além das formas tradicionais do gênero biográfico, tais
como os testemunhos, as memórias, as biografias (autorizadas ou não), as autobiografias, os diários e as
correspondências, a celebração espetacular do eu ocupa domínios historicamente viabilizados em função
mesmo do incremento tecnológico dos novos meios de comunicação e da expansão do mercado
editorial. São eles os blogs, as entrevistas com escritores, os relatos de auto-ajuda, os perfis, as histórias
de vida, os retratos, os anedotários, as variantes do show – talk show, reality show...
i
, ampliando
consideravelmente o que Leonor Arfuch denomina, tendo em vista a cultura contemporânea, de “espaço
biográfico”, expressão tomada de empréstimo a Philippe Lejeune (um dos grandes teóricos da
autobiografia), concebido pela estudiosa argentina como um “espaço-temporalidade – mais dilatado que
o gênero, pensado não a partir da pureza étnica, mas sim das interações, das inter-relações, do
hibridismo das formas, de seus deslizamentos metonímicos, de sua intertextualidade, em resumo, das
diferentes maneiras em que as vidas „reais‟ – experiências, momentos, iluminações, lembranças –
narram-se, circulam e são apropriadas nas incontáveis esferas da comunicação midiatizada”
ii
.
É fato que a construção do eu no ato da escrita não constitui propriamente uma novidade.
Manifestações dessa prática são encontradas desde tempos imemorais. Para se ter uma ideia, já no
século I d. C., o epigramista Marcial escreve: “Este é aquele que lês, e a quem procuras, / Marcial,
famoso em todo o mundo / Por seus mordazes livrinhos de epigramas, / A quem, assíduo leitor, deste
prestígio / Enquanto ele vivia e tinha sentimento / O que raros poetas têm após a morte.”. No século IV,
Santo Agostinho redige suas Confissões, a “autobiografia espiritual” que endereça a Deus, detentor
supremo da palavra judicativa sobre a vida que se oferece para exame moral, obra esta inteiramente
distinta, por exemplo, da homônima composta no século XVIII por Rousseau, considerada por muitos o
marco pioneiro do gênero autobiográfico. Com suas Confissões, Rousseau empenha-se em esquadrinhar
ÁGUA DA PALAVRA – REVISTA DE LITERATURA E TEORIAS / NÚMERO 3 MARÇO 2011 ISBN 2178 0870

2

os meandros da interioridade, buscando, entretanto, não reproduzir a verdade sobre os fatos exatos de
sua vida, mas sim imprimir um caráter autêntico ao sujeito que emerge da escrita, interpelando
diretamente o leitor. Certo do ineditismo de sua empreitada, Rousseau inaugura jactancioso o Livro I de
suas Confissões, declarando: “Dou começo a uma empresa de que não há exemplos, e cuja execução não
terá imitadores. Quero mostrar aos semelhantes um homem em toda a verdade da natureza; e serei eu
esse homem”
iii
. Também Montaigne pretendeu, dois séculos antes de Rousseau, traçar uma imagem de
si, destinando-a ao virtual leitor. No pórtico de seus Ensaios, ele anuncia: “Eis aqui, leitor, um livro de
boa-fé”
iv
. E, antecipando já uma certa expectativa em relação ao que prometem as páginas seguintes,
nos adverte: “Se houvesse almejado os favores do mundo, ter-me-ia enfeitado e me apresentaria sob
uma forma mais cuidada, de modo a produzir melhor efeito. Prefiro, porém, que me vejam na minha
simplicidade natural, sem artifício de nenhuma espécie, porquanto é a mim mesmo que pinto”
v
.
Contrariamente a Rousseau, que demonstra uma certa obstinação pela verdade revelada por meio da
“transparência e imetiaticidade dos movimentos de sua alma”
vi
, procurando alcançar aí uma unidade
identitária coesa, Montaigne se notabiliza por ser o “pintor da mudança” e da infixidez, como confirma,
aliás, esta conhecida passagem: “O mundo é movimento; tudo nele muda continuadamente [...] Não
posso fixar o objeto que quero representar: move-se e titubeia como sob o efeito de uma embriaguez
natural. Pinto-o como aparece em dado instante, apreendo-o em suas transformações sucessivas, não de
sete em sete anos, como diz o povo que mudam as coisas, mas dia por dia, minuto por minuto. [...] Se
minha alma pudesse fixar-se, eu não seria hesitante; falaria claramente, como um homem seguro de si.
Mas ela não pára e se agita sempre à procura do caminho certo”
vii
.
Estes breves exemplos, com suas evidentes diferenças espaciotemporais, comportando obviamente
visões de mundo dissimilares, reiteram assim a convicção de que a construção do eu pela escrita é, como
mencionado antes, um sempiterno procedimento. No entanto, ao invés de optar, adotando uma
perspectiva diacrônica, por traçar uma linhagem dos relatos em primeira pessoa que promovem o
enredamento entre o autor e o eu da escrita, compondo com isso um quadro genealógico desses textos
específicos, me interessa discutir aqui, já efetuando um necessário recorte, a maneira como se configura
hoje, em textos assumidamente ficcionais, essa primeira pessoa que, para se constituir, incorpora traços
autobiográficos, numa época – a nossa – que já vivenciou a desconstrução do sujeito autoevidente, como
um dos gestos ligados a um empreendimento maior, comprometido com a derrocada de valores
universais e hegemônicos, de ressaibo metafísico. Em síntese, importa reconhecer, tendo na mira esse
contexto, que a impossibilidade de uma súmula dialética decorrente do trânsito vida e obra se encontra
em consonância com um zeitgeist dominado pela falência do sujeito cartesiano, como veremos a seguir.
No circuito da ficção brasileira contemporânea, há um enorme contingente de relatos em primeira
pessoa que, de alguma forma, apontam para a figura extratextual do autor, operando uma
ÁGUA DA PALAVRA – REVISTA DE LITERATURA E TEORIAS / NÚMERO 3 MARÇO 2011 ISBN 2178 0870

3

autorreflexividade identificada em diferentes escalas, fenômeno que, vale ressaltar, se propaga também
na literatura estrangeira atual.
Só para nos atermos às publicações nacionais que ocupam a primeira década do século XXI, obras
como, por exemplo, O falso mentiroso: memórias (2004), de Silviano Santiago, que comentarei adiante,
Nove noites (2002), de Bernardo Carvalho, A chave de casa (2007), de Tatiana Salem Levy, Budapeste
(2003), de Chico Buarque, Retrato desnatural (diários 2004-2007)(2008), de Evando Nascimento,
Berkeley em Bellagio (2003) e Lorde (2004), de João Gilberto Noll, O autor mente muito (2001), de
Carlos Sussekind e Francisco Daudt da Veiga, Joana a contragosto (2005), de Marcelo Mirisola, e
Ribamar (2010), de José Castello, lançam mão, cada uma a seu modo, de estratégias autorreflexivas em
suas composições, franqueando uma mútua permeabilidade entre autor e narrador. Encontramos aí desde
a presença inequívoca, em maior ou menor grau, de marcas autorais (como ocorre em todos esses
romances), até sutis jogos especulares que visam a pôr em xeque a autoridade autoral daquele que assina
a obra (é o caso especialmente do romance de Chico, Budapeste). De imediato, tais obras nos induzem a
questões como: 1) superada a cisão dualista verdade x ficção, alçada ao umbral da indecidibilidade, que
implicações decorrem dessas interrelações para a construção identitária da voz em primeira pessoa?; 2)
que efeitos produzem nas categorias autor e narrador essa referencialidade inscrita no interior da ficção?
Lidar com a articulação das esferas vida e obra implica em princípio reconvocar a figura do autor,
reinserindo-a no centro do debate, mais de quatro décadas após a deflagração de sua morte. Não se trata
aqui de cometer anacronismos, exumando o autor como um sujeito uno e monolítico, cuja integridade
seria decalcada na escrita, correndo na contramão das tendências filosóficas da crítica do sujeito. Pelo
contrário. O que no campo atual dos estudos literários vem sendo chamado de “retorno do autor” alinha-
se paradoxalmente à desconstrução da identidade perficiente. Secundando Diana Klinger: “[...] o retorno
do autor [...] é coerente com a reconfiguração contemporânea da subjetividade, isto é, não como retorno
de um sujeito pleno, fundamento e autoridade transcendente do texto, e sim como um sujeito não
essencial, fragmentado, incompleto e suscetível de auto-criação”
viii
.
Nesse sentido, um certo óbito do autor, legado por Barthes e Foucault, guardadas as devidas diferenças
argumentativas entre os dois pensadores, contribuiu decisivamente para solapar a dimensão
transcendental que recobria essa instância autoral. Vale a pena, portanto, recuperar, de passagem,
algumas linhas mestras dos respectivos postulados.
Em “A morte do autor”, Barthes conjura, como se sabe, uma espécie de construção ideal, metafísica,
de autor, como núcleo controlador do significado, a servir de parâmetro inclinado a regular o “sentido
único, de certo modo teológico”
ix
, dos textos sob a salvaguarda de sua assinatura. Tratava-se, naquele
momento, de sepultar o poder “tirânico” que o autor exercia sobre sua obra, liberando-a para trilhar sua
(im)própria deriva, desinvestida de toda a pessoalidade que atravancasse seu incerto destino e traísse sua
ÁGUA DA PALAVRA – REVISTA DE LITERATURA E TEORIAS / NÚMERO 3 MARÇO 2011 ISBN 2178 0870

4

natureza linguística. Como sentencia Barthes: “[...] o autor nunca é nada mais para além daquele que
escreve, tal como eu não é senão aquele que diz eu: a linguagem conhece um „sujeito‟, não uma
„pessoa‟, e esse sujeito, vazio fora da própria enunciação que o define, basta para fazer suportar a
linguagem, quer dizer, para a esgotar”
x
. Contraposta à imagem do Autor, “concebido como o passado de
seu próprio livro”, Barthes consagra a emergência aí do scriptor moderno, que “nasce ao mesmo tempo
que o seu texto”, inaugurando uma nova relação temporal ao configurar-se no presente mesmo, o aqui e
agora, da enunciação. Longe de constituir-se como uma incitação homicida por parte do semiólogo
(“retenhamos as lágrimas”, como diz Foucault), a “morte do autor” tem como corolário a deposição dos
privilégios deste último, reputado como unidade transcendente, conferindo relevo à figura
desontologizada do leitor: “o leitor”, explica Barthes, “é o espaço exacto em que se inscrevem, sem que
nenhuma se perca, todas as citações de que uma escrita é feita; a unidade de um texto não está na sua
origem, mas no seu destino, mas este destino já não pode ser pessoal: o leitor é um homem sem história,
sem biografia, sem psicologia”
xi
. E arremata categórico: “o nascimento do leitor tem de pagar-se com a
morte do Autor”
xii
.
Subsequente ao momento inaugural e iconoclasta de Barthes, Michel Foucault, em sua não menos
famosa (e polêmica) conferência “O que é um autor?”, também redimensiona a ideia de autor a partir da
noção de “função autoral”, caracterizada como um “modo de existência, de circulação e de
funcionamento de certos discursos no interior de uma sociedade”
xiii
. Localizando o advento da figura do
autor no final do século XVIII e início do XIX, em que se verifica um autêntico “regime de propriedade
para os textos” e se reconhecem os efetivos “direitos de autor”, Foucault salienta que o momento de sua
insurgência representa “o momento crucial da individualização na história das ideias, dos
conhecimentos, das literaturas, e também na história da filosofia e das ciências”
xiv
. Num dos temas
desenvolvidos nessa conferência, Foucault sublinha a especificidade da linguagem como sendo um
corpo subtraído de toda interioridade, de todo núcleo transcendente que governasse um sentido nele
alocado, aproximando-se visivelmente das reflexões de Barthes sobre o tema: “[...] a escrita de hoje se
libertou do tema da expressão”, pondera Foucault, “ela se basta a si mesma, e, por consequência, não
está obrigada à forma da interioridade; ela se identifica com sua própria interioridade desdobrada. O que
quer dizer que ela é um jogo de signos comandado menos por seu conteúdo significado do que pela
própria natureza do significante [...]”
xv
. Como desdobramento das reflexões sobre o autor, Foucault
acena para a necessidade de se “reexaminar os privilégios do sujeito”, visando a “retirar d[este último]
seu papel de fundamento originário”, analisando-o “como uma função variável e complexa do
discurso”
xvi
. Ao final de suas reflexões, ao afirmar que o autor “é, sem dúvida, uma das especificações
possíveis da função sujeito”, Foucault projeta um horizonte no qual a própria função autor seria
ÁGUA DA PALAVRA – REVISTA DE LITERATURA E TEORIAS / NÚMERO 3 MARÇO 2011 ISBN 2178 0870

5

dispensável, um horizonte a abrigar os discursos no “anonimato do murmúrio”, fazendo valer a questão
que ecoa o “rumor de uma indiferença: „Que importa quem fala?‟”
xvii
.
Passados pois mais de quarenta anos, é possível verificar, contudo, que a figura do autor,
contrariamente ao ambicionado por Foucault, conserva uma pregnância inarredável no imaginário do
público leitor, alimentada sem dúvida pela cultura midiática, corroborando o fato de que ainda importa,
sim, quem fala. Como nota Ana Cláudia Viegas: “Pelo menos no campo literário, permanece em nós,
leitores, a vontade de encontrar do outro lado da página um ser que nos abrace; o que mantém o fetiche
em torno de objetos pertencentes aos escritores (livros, máquina de escrever, fotos, documentos
pessoais, entre outros) ou da oportunidade de ter a presença do autor, seja em programas de televisão ou
ao vivo, nas tão badaladas „mesas de escritores‟”
xviii
. A propósito dessa pregnância do autor no
imaginário do público leitor, apenas para ilustrar, reproduzo um trecho da coluna que Eliane Brum
assina na revista Época, no curto texto de apresentação do autor por ela entrevistado, o Luis Rufatto. A
matéria foi postada no dia 31/01/2011 e se encontra disponível na versão on line da revista. Lá, Eliane
diz o seguinte: “Desde que ouvi Luiz Ruffato contar sua história, em Paraty no ano passado, que ficava
ensaiando o convite para que ele a compartilhasse com vocês aqui nesta coluna. Há escritores cujos
livros a gente ama, mas quando os conhece encarnados, são tão arrogantes e mesquinhos que dá nhaca
da obra. Por isso, em geral até prefiro não conhecer os autores dos livros que amo para não misturar as
almas – e perder os livros que já possuem um pedaço da minha. No caso de Ruffato, o risco não existe.
Ele é uma das pessoas mais encantadoras e generosas que já conheci. Encontrá-lo é como chegar em
casa”
xix
.
Tal depoimento corrobora o prognóstico de que a escrita permanece assombrada pela imagem
inarredável daquele que a forjou, frustrando de certo modo sua atribuição meramente funcional.
No que toca entretanto ao estudo de elementos autorreflexivos em textos ficcionais, no rastro das
importantes contribuições de Barthes e Foucault para a reavaliação do estatuto do autor, e em
conformidade com a crítica do sujeito, a presença, digamos assim, “materializada” desse espectro no
interior de seu discurso, imiscuindo-se na trama mesma da escrita, pode ser vista como um ato
performático do autor/ator. Em outras palavras, o vazio aberto pelo desmoronamento da imagem
idealizada do “autor-Deus” seria locupletado por um gesto autoficcional, uma espécie de
autoengendramento de que resulta não a cristalização de uma nova índole inteiriça, soberana, mas todo
um esforço consciente de desenhar uma imagem de si, ainda que precária, única construção de resto
possível para esse eu, visto que não mais se cogita resgatar uma suposta totalidade identitária. Em
síntese, a imagem que se dramatiza na escrita é a de um sujeito em construção, que não oculta as
manobras empregadas no intuito de edificar-se, mas, ao invés disso, empenha-se em exibi-las ao leitor,
ÁGUA DA PALAVRA – REVISTA DE LITERATURA E TEORIAS / NÚMERO 3 MARÇO 2011 ISBN 2178 0870

6

como um ilusionista que decide, diante dos olhos atônitos do público, mostrar que seus incríveis poderes
são na verdade o potencial exercício de seu virtuoso engenho, desfazendo a aura encantatória que a
prestidigitação produz. Integram a urdidura desse ator da escrita os aspectos empíricos de conhecimento
público, que igualmente participam dessa multifária, incompleta e provisória trama identitária.
Conforme assinala Klinger: “[...] tanto os textos ficcionais quanto a atuação (a vida pública) do autor
são faces complementares da mesma produção da subjetividade, instâncias de atuação do eu que se
tencionam ou se reforçam, mas que, em todo caso, já não podem ser pensadas isoladamente. O autor é
considerado o sujeito de uma performance, de uma atuação, um sujeito que „representa um papel‟ na
própria „vida real‟, na sua exposição pública, em suas múltiplas falas de si, nas entrevistas, nas crônicas
e auto-retratos, nas palestras”
xx
.
Para não ficarmos somente na esfera da teorização, tomemos a título de exemplo emblemático da
escrita de si O falso mentiroso: memórias, de Silviano Santiago, romance que analisei noutro lugar
xxi
, de
onde recupero algumas passagens, para uma rápida abordagem sobre o funcionamento desse tipo de
escrita.
Narrado em primeira pessoa pelo personagem Samuel Carneiro de Souza Aguiar, o romance leva ao
paroxismo o embaralhamento das divisas que confinavam o fato e a ficção, a verdade e a mentira, o
original e a cópia. A começar pelo título, que evoca o paradoxo do falso mentiroso, didaticamente
informado na quarta capa, na qual se pode ler a seguinte definição extraída da Enciclopédia Mirador:
“paradoxo atribuído a Euclides de Mileto (século IV a. C.), cuja forma mais simples é: se alguém afirma
„eu minto‟, e o que diz é verdade, a afirmação é falsa; e se o que diz é falso, a afirmação é verdadeira e,
por isso, novamente falsa etc.”. Esse paradoxo, inscrevendo-se como exponencial aporia, desmobiliza
qualquer suposta credibilidade conferida ao projeto memorialístico, suspendendo todo critério prévio
que viesse em socorro do que no limite seriam verdade e mentira. Logo nas primeiras linhas do
romance, por exemplo, a certeza de uma linhagem progenitora do narrador é categoricamente rechaçada,
porquanto Samuel principia seu relato certificando-nos: “Não tive mãe. Não me lembro da cara dela.
Não conheci meu pai. Também não me lembro da cara dele”
xxii
. Essas informações são todavia logo
rasuradas por seus ademanes galhofeiros, ao emendar aí as desconcertantes frases: “Posso estar
mentindo. Posso estar dizendo a verdade”
xxiii
.
Enquanto rubrica da “escrita de si”, as memórias configuram um empreendimento
autointerpretativo que tem como pano de fundo o impulso de imprimir unidade ao que já nasce
naturalmente diverso, provisório e em constante mutação: a identidade do sujeito. A tentativa de ordenar
a mixórdia de eus que se agitam no indivíduo ao longo de sua história resulta numa “fabulação de si
mesmo”. Como pondera Silviano Santiago:
ÁGUA DA PALAVRA – REVISTA DE LITERATURA E TEORIAS / NÚMERO 3 MARÇO 2011 ISBN 2178 0870

7


A construção da identidade, depois da psicanálise, a questão da identidade é um “constructo”, é uma constante reelaboração,
como no conceito de Lacan e Derrida de a posteriori, après coup, que diz que constantemente estamos reorganizando a
“placa-mãe” da nossa memória, e essa reorganização da placa-mãe é sempre uma nova invenção de identidade que está sendo
proposta.
xxiv



No texto memorialístico, essa forma de ordenação pressupõe o arranjo momentâneo de uma
dispersão passada, um bricabraque dos fragmentos retidos pela placa-mãe, à qual se roga para que
descortine seu arquivo. Em sua extensa e desarticulada superfície, tenta-se domesticar uma certa
indisciplina, de forma a conter a disjunção dos elementos que circulam nos intrincados meandros de seu
esteio. Cada formação obtida desse exercício recapitulativo flagra um instantâneo, no que o arresto
revela de efêmero e transitório.
Como gênero discursivo que reenvia à precedência de um eu, em torno do qual a escrita se
organiza, buscando fornecer uma imagem possível desse eu que se dá a ver no registro do testemunho,
as memórias se vinculam a outras modalidades discursivas, que igualmente ensejam a exposição dos
“caminhos imprevisíveis de uma vida vivida”, tais como a autobiografia, o diário íntimo e as confissões,
sendo, no entanto, bastante tênue a linha que enfeuda cada uma dessas modalidades
xxv
.
A distinção entre sujeito que escreve e sujeito da escrita, rompendo definitivamente com a idéia
reducionista de uma coincidência especular entre essas instâncias, possibilitou a leitura/escritura dos
gêneros confessional, autobiográfico e memorialístico sob a égide do ficcional, sem excluir contudo a
inquietante presença fantasmática de uma empiricidade não mais perceptível em seus estritos contornos.
Ou seja, se a vida não se confunde mais com a escrita, é fato também que vida e escrita estão
profundamente comprometidas, imbricadas, não estabelecendo entre si uma relação isomórfica, porém
anamórfica, situada na interseção dos elementos em jogo.
Para compor suas memórias, Samuel, autodesignando-se escritor, confessa ter aproveitado os
“vários volumes” de seu Diário íntimo, reciclagem da qual resulta uma obra que opera um trânsito
discursivo livre, mesclando diversos gêneros prosaicos (romance, memória, autobiografia), sem a
restrição de uma exigência unidirecional.
Ao impedir qualquer decisão classificatória, o texto de Santiago aponta para aquilo mesmo que,
por meio da afirmação, é negado: as memórias não se limitam a um resgate autobiográfico do narrador,
a história sendo edificada como a inviabilidade de uma escrita memorialística nos termos tradicionais.
Tal inviabilidade se constrói a contrapelo de uma outra história que se vai tecendo – a de um narrador
que se autoengendra, abalando, no interior do próprio gênero do qual emerge, os pressupostos
convencionais das memórias, frustrando o voyeurismo do leitor que deseja conhecer a vida de um sujeito
ÁGUA DA PALAVRA – REVISTA DE LITERATURA E TEORIAS / NÚMERO 3 MARÇO 2011 ISBN 2178 0870

8

chamado Samuel. Afinal, como se fiar em alguém que em suas memórias fabrica nada mais nada menos
do que cinco versões para as “circunstâncias excepcionais de [seu] nascimento”?
O narrador põe em xeque assim a lei do gênero
xxvi
, para falar com Derrida, por intermédio de sua
causticante degeneração. A corrosão do que o invólucro promete – um texto memorialístico – origina
(palavra que integra o campo semântico de “gênero”) o paradoxo de que, afinal, as memórias (às
avessas) de Samuel dão “testemunho”, afinando-se harmonicamente ao título que as enfeixa, ao mesmo
tempo em que expõe a menção ao gênero a uma congenial abertura, de natureza aporética, indecidível.
A transgressão à lei do gênero no romance de Santiago vai ao encontro de uma demanda mais
ampla, que evidentemente ultrapassa a mera tendência de mistura de gêneros, como a promulgada pelo
Romantismo, por exemplo, e exercida com liberdade ilimitada por gerações sucessivas, cada qual a seu
modo, cada qual com suas próprias motivações. A transgressão aqui vai também muito além da
recorrente prática pós-moderna de manipulação de diferentes códigos e discursos agenciados na
composição textual, apesar de essa prática ser facilmente identificada no tecido de O falso mentiroso:
memórias.
Compreendido nesse gesto transgressivo encontra-se todo um esforço consciente de “des-
possessão” de uma marca originária responsável pela figuração do eu, inscrita, essa marca, no âmbito
mesmo que recorta os domínios da autobiografia. Essa região assoma como um ponto de fuga para onde
converge o discurso memorialístico, com o objetivo de moldar a fisionomia desse eu – finalidade última
do empreendimento retrospectivo.
O ato de desapossar-se de si, num texto que se pretende memorialístico, acarreta inúmeros
desdobramentos sísmicos, que vão do abalo da própria entidade autoral, passam pela dissolução de uma
suposta identidade construída a partir da restituição do passado, até desembocar em questões que versam
sobre origem e originalidade, cuja abrangência encerra ainda considerações acerca do “ultrapassamento
da metafísica”, citando uma expressão cunhada por Gianni Vattimo.
Em O falso mentiroso: memórias, Samuel, com divertida ironia – tônica preponderante das memórias –
, professa o princípio da multiplicidade como determinação genética, em que o eu dominante avulta
como uma espécie de fatalidade inerente a um regime natural de livre concorrência:

Não sei por que nestas memórias me expresso pela primeira pessoa do singular. E não pela primeira do plural. Deve haver
um eu dominante na minha personalidade. Quando escrevo. Ele mastiga e mascara os embriões mais fracos, que vivem em
comum como nós dentro de mim. A teoria genética diz que toda grávida carrega no útero gêmeos, trigêmeos e até
quadrigêmeos. Somos concebidos como múltiplos. É o gene dominante que – constrangido a ser imperador, primeiro e único
– estrangula e come os genes recessivos, ou débeis, para poder, sozinho e endemoninhado, sair da caverna materna para a
claridade do mundo.
xxvii



ÁGUA DA PALAVRA – REVISTA DE LITERATURA E TEORIAS / NÚMERO 3 MARÇO 2011 ISBN 2178 0870

9

E para justificar a permanência de um eu que sobrevive a expensas da duplicação
originária, o narrador esclarece: “O eu é a forma que encontrei para comungar, na mesa deste escrito,
com os embriões que assassinei no útero da mamãe”
xxviii
. O eu aqui adquire espessura na medida em que
incorpora outros eus compartilhados – e simultaneamente descartados, de modo que algo ainda como
um eu resta, fruto de uma hesitação entre o próprio e o impróprio da marca, que subsiste no texto
autobiográfico: “Somos três, possivelmente quatro, talvez cinco, compartilhando um único cérebro”
xxix
.
Esse mecanismo de autocriação do eu sob o primado de um “nós dominante” se torna mais
complexo e profuso ao constatarmos que, no limiar da letra e da vida, o autor, Silviano Santiago, joga
com sua presença, agregando-se à estampa identitária plural de Samuel, contribuindo para conspurcar a
univocidade da primeira pessoa. Essa presença se anuncia desde a capa, emprestando às memórias a
tradução visual de sua persona: a fotografia em preto e branco ostentando um sorridente bebê de olhar
maroto.
Outros indícios do indivíduo Santiago se disseminam, enredando-se nas malhas das letras de
Samuel. É o caso, por exemplo, das referências à data e ao local de nascimento do autor
(Samuel/Santiago), que “coincidem” entre si, favorecendo a intrincada mise en abîme sobre a qual a
narrativa se ergue. Na quinta versão de seu nascimento, Samuel declara, por exemplo, que “teria nascido
em Formiga, cidade do interior de Minas Gerais. No dia 29 de setembro de 1936. Filho legítimo de
Sebastião Santiago e Noêmia Farnese Santiago”
xxx
. No entanto, como sói acontecer com o falso
mentiroso, ao elencar distintas histórias envolvendo sua(s) origem(ns), essa fábula, como as demais, é
igualmente desconstruída, conservando todavia o traço do que foi rechaçado: “A versão é tão
inverossímil, que nunca quis explorá-la. Consistente só a data do nascimento. Cola-se à que foi
declarada em cartório carioca pelo doutor Eucanaã e Donana”
xxxi
, estes últimos pais postiços de Samuel.
O agenciamento de dados biográficos do autor empírico (Santiago), transportados para a
narrativa autobiográfica de um “autor de papel” (Samuel), induz a um jogo autorreflexivo, culminando
numa assinatura que conteria em seu bojo a inclinação ao múltiplo, ao se inscrever como potencial
abertura para o seu desdobramento.
Essa disjunção da voz em primeira pessoa encontra eco, por sua vez, num outro texto de
Santiago, “Epílogo em 1ª pessoa: eu & as galinhas d‟angola”, concebido para uma palestra proferida na
PUC do RJ, em setembro de 2004. Na ocasião, Santiago foi convidado a pronunciar-se sob a tutela do
nome próprio, o que o inspirou a pontuar sua fala com uma série de questões acerca da complexa
autoridade que subjaz à chancela da primeira pessoa do singular. Numa passagem de seu texto, ele
indaga: “Sem identidade, sem rosto e sem nome próprio estável, qual é a minha primeira pessoa que,
para se exprimir neste preciso momento, devo invocar e convocar?”
xxxii
. Noutra passagem, incansável
em suas perquirições, Santiago conjectura:
ÁGUA DA PALAVRA – REVISTA DE LITERATURA E TEORIAS / NÚMERO 3 MARÇO 2011 ISBN 2178 0870

10


Ou a minha primeira pessoa a ser invocada e convocada nesta palestra seria aquela que existe no momento em que, na minha
casa, coloco ponto final no texto que acabei de escrever – neste, por exemplo –, e o assino com o nome que me é próprio por
direito civil? Ou seria aquela minha primeira pessoa que escreveu fim em outro texto recente, um romance, a que dei o título
de O falso mentiroso – Memórias?
xxxiii



Santiago desarticula a unicidade subentendida na “primeira pessoa”, desmembrando-a em
copiosos eus, que se ramificam na extensão dessas interrogações alternativas. O que lhe permite
reconhecer, nas condições que dariam suporte à ancoragem do eu, uma necessária exclusão do privilégio
concedido à voz enunciativa, compreendida como detentora dos direitos assegurados a uma identidade
estável, que precederia a todos os enunciados.
A afirmação da alteridade, ao equacionar a heterodoxia do eu, produz um efeito performático, na
medida em que a construção de si implica a um tempo o declarado autoaniquilamento do sujeito indiviso
e imutável e sua concomitante reconstrução a partir do caminho aberto pelo outro. Assim, a certa altura
de suas memórias, Samuel revela: “Meu rosto, uma folha de papel em branco”
xxxiv
, inaugurando uma
zona franca e fértil, apta a albergar uma legião de eus. É o que podemos ver, por exemplo, na seguinte
passagem:
Há que distinguir. Vozes, tons, falas, sentimentos, idéias de cada um dos três corpos, dos quatro ou dos cinco eus que
coexistem em mim. Normal. Há que aprender a voltar a entrecruzar, depois de desentrecruzados, vozes, falas, tons,
sentimentos, idéias. [...] no entrecruzamento de vozes, falas, tons, sentimentos, idéias, sobressai o gene dominante,
constitutivo da personalidade. Antropófago pela lei da natureza. Este eu que não quis ser nós. E é. É expressão de nós. Nós
atados com escrúpulo e cuidado, que eliminam o nós. Dão autonomia ao eu.
xxxv


Nas linhas de suas memórias, Samuel brinca abertamente com o drama que circunda as
investidas malogradas, dirigidas à construção da identidade. Recusando-se a fixar no papel a harmonia
de um rosto único, Samuel se compraz em comunicar: “Sou o mais original dos impostores”
xxxvi
,
lembrando, porém, que a impostura, neste caso, não participa de um regime de oposições, situando-se do
lado oposto à sinceridade. O termo se inscreve com a devida rasura, sugerindo a movência própria das
elaborações identitárias provisórias. É o autor mesmo – Santiago – quem se manifesta em defesa de seu
personagem: “No limite, meu personagem não é um impostor. Qualquer pessoa que tenha experiência de
psicanálise sabe que você está constantemente fabulando sua própria identidade, refazendo a sua
identidade, até o momento em que tenha certa tranqüilidade em relação àquela construção que você
fez”
xxxvii
. Em outro tempo e lugar, opinião semelhante é expressa também por Montaigne, que expõe em
seus Ensaios a dificuldade enfrentada na tarefa de pintar-se. Vale a pena citar novamente o trecho já em
parte mencionado:

Não posso fixar o objeto que quero representar: move-se e titubeia como sob o efeito de uma embriaguez natural. Pinto-o
como aparece em dado instante, apreendo-o em suas transformações sucessivas, não de sete em sete anos, como diz o povo
que mudam as coisas, mas dia por dia, minuto por minuto. É pois no momento mesmo em que o contemplo que devo
ÁGUA DA PALAVRA – REVISTA DE LITERATURA E TEORIAS / NÚMERO 3 MARÇO 2011 ISBN 2178 0870

11

terminar a descrição; um instante mais tarde não somente poderia encontrar-me diante de uma fisionomia mudada, como
também minhas próprias idéias possivelmente já não seriam as mesmas. [...] Se minha alma pudesse fixar-se, eu não seria
hesitante; falaria claramente, como um homem seguro de si.
xxxviii


No que tange ao caráter performático, identificado na escrita de Santiago, este pode ser aproximado,
por seu turno, de uma certa tendência que se verifica atualmente (mais do que em qualquer outra época)
nas letras contemporâneas
xxxix
. Trata-se da tentativa de desmitificação do próprio ato da escrita no
momento de seu nascedouro, captando o átimo de sua realização, facultando um strip-tease daquele que
escreve, ao deixar-se surpreender “no extremo de si mesmo”, como diz o poeta, “se exercendo nessa
nudez, a mais nua que há”
xl
.
Ao fim e ao cabo, a folha de papel em branco se torna então palco onde o eu encena a figuração
de seu próprio rosto. E onde assume a função de “pintor de si mesmo”, tornando-se sujeito/objeto do
discurso que assina.





i
ARFUCH, Leonor. O espaço biográfico: dilemas da subjetividade contemporânea. Trad. Paloma Vidal.
Rio de Janeiro: EdUERJ, 2010, p. 15.
ii
Ibid., p. 114.
iii
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Confissões. Trad. Raquel de Queiroz, livros I a X, e José Benedicto Pinto,
livros XI e XII. Bauru, SP: EDIPRO, 2008, p. 29.
iv
MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. Trad. Sérgio Milliet. São Paulo: Nova Cultural, 1996a. v. 1, p. 31.
(coleção Os Pensadores)
v
Ibid., p. 31.
vi
DUQUE-ESTRADA, Elizabeth Muylaert. Devires autobiográficos: a atualidade da escrita de si. Rio de
Janeiro: NAU/Editora PUC-Rio, 2009, p. 18.
vii
MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. Trad. Sérgio Milliet. São Paulo: Nova Cultural, 1996b, v. 2, p.
153. (coleção Os Pensadores)

viii
KLINGER, Diana. Escritas de si, escritas do outro: o retorno do autor e a virada etnográfica. Rio de
Janeiro: 7Letras, 2007, p. 61.
ix
BARTHES, Roland. O rumor da língua. Trad. António Gonçalves. Lisboa: Edições 70, 1987, p. 51.
x
BARTHES, 1987, p. 51.
xi
Ibid., p. 53.
xii
Ibid., p. 53.
xiii
FOUCAULT, Michel. Estética: literatura e pintura, música e cinema. Trad. Inês Autran Dourado
Barbosa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001, p. 274. (col. Ditos e Escritos; v. III)
xiv
Ibid., p. 267.
xv
FOUCAULT, 2001, p. 268.
xvi
Ibid., p. 287.
xvii
Ibid., p. 288.
xviii
VIEGAS, Ana Cláudia Coutinho. O “retorno do autor”: relatos de e sobre escritores contemporâneos.
In: VALLADARES, Henriqueta do Coutto Prado (Org.). Paisagens ficcionais: perspectivas entre o eu e o
outro. Rio de Janeiro: 7Letras, 2007, p. 15.
xix
www.revistaepoca.globo.com
xx
KLINGER, 2007, p. 55.
xxi
PADILHA, Fabíola. Expedições, ficções: sob o signo da melancolia. Vitória: Flor&Cultura, 2007.
xxii
SANTIAGO, Silviano. O falso mentiroso: memórias. Rio de Janeiro: Rocco, 2004a, p. 9.
ÁGUA DA PALAVRA – REVISTA DE LITERATURA E TEORIAS / NÚMERO 3 MARÇO 2011 ISBN 2178 0870

12


xxiii
Ibid., p. 9.
xxiv
html://p.php.uol.com.br/tropico/html/textostextos//2375,2.shl (SANTIAGO, 2004b)
xxv
Cf. MIRANDA, Wander Melo. Corpos escritos: Graciliano Ramos e Silviano Santiago. São Paulo:
Ed. USP; Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1992, p. 25-41.
xxvi
Cf. DERRIDA, Jacques. Parages. Paris: Galilée, 1986.
xxvii
SANTIAGO, 2004a, p. 136.
xxviii
Ibid., p. 136.
xxix
Ibid., p. 180.
xxx
Ibid., p. 180.
xxxi
SANTIAGO, 2004a, p. 180.
xxxii
SANTIAGO, Silviano. Epílogo em 1 ª pessoa: eu & as galinhas d‟angola. In: ______. O
cosmopolitismo do pobre. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2004c, p. 246, grifos do autor.
xxxiii
SANTIAGO, 2004c, p. 249.
xxxiv
SANTIAGO, 2004a, p. 140.
xxxv
Ibid., p. 181.
xxxvi
Ibid., p. 218.
xxxvii
html://p.php.uol.com.br/tropico/html/textostextos//2375,2.shl (SANTIAGO, 2004b)
xxxviii
MONTAIGNE, 1996b, p. 153-154.
xxxix
Esse caráter performático pode abranger, em sentido amplo, o conjunto das práticas culturais
contemporâneas, não mais com o propósito de “chocar” ou “romper” com formas artísticas tradicionais,
como tencionavam fazer as vanguardas do século XX, mas com o intuito de desmobilizar os princípios
que norteiam a representação mimética. Como ressalta Márcio Seligmann-Silva: “A marca dessa arte [a
arte contemporânea] é a saída do campo da mímesis como imitatio e passagem para uma noção de arte
como manifestação das pulsões: rito, performance”. E, citando Perniola, arremata: “A transmissão ritual
dos usos já tende a caracterizar a cotidianidade: todos os gestos e todos os comportamentos estão
implicados numa circulação que os subtrai à identidade e à origem” (SELIGMANN-SILVA, Márcio. O
local da diferença. São Paulo: Ed. 34, 2005, p. 59-60).
xl
MELO NETO, João Cabral de. In: OLIVEIRA, Marly de (Org.). Obra completa: volume único. Rio de
Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 413.