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COMENTÁRIO DO
NOVO TESTAMENTO
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COMENTÁRIO DO
NOVO TESTAMENTO
Exposição da
Primeira Epístola aos Coríntios
Simon J. Kistemaker
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EDITORA CULTURA CRISTÃ
Rua Miguel Teles Júnior, 394 Cambuci
01540-040 São Paulo, SP Brasil
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Comentário do Novo Testamento – Exposição da Primeira Epístola aos Coríntios ©2003,
Editora Cultura Cristã. Publicado originalmente em inglês com o título New Testament
Commentary, Exposition of the First Epistle to the Corinthians por Baker Books, uma
divisão da Baker Book House Company, P.O. Box 6287, Grand Rapids, MI 49516-6287.
©1993 by Simon J. Kistemaker.
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida,
armazenada em um sistema de recuperação ou transmitida de qualquer forma ou por
quaisquer meios – eletrônicos, mecânicos, fotocópia, gravação ou outro, sem autoriza-
ção prévia e por escrito da editora. A única exceção se constitui de breves citações em
resenhas impressas.
A tradução da Escritura do texto de 1 Coríntios é do próprio autor. As citações da
Escritura, exceto as de outro modo indicadas, são da tradução de Almeida, Revista e
Atualizada. Usada com permissão.
1ª edição em português – 2003
3.000 exemplares
Tradução
Helen Hope Gordon Silva
Revisão
Claudete Água de Melo
Vagner Barbosa
Editoração
Eline Alves Martins
Capa
Expressão Exata
Publicação autorizada pelo Conselho Editorial:
Cláudio Marra (Presidente), Alex Barbosa Vieira,
André Luís Ramos, Mauro Fernando Meister,
Otávio Henrique de Souza, Ricardo Agreste,
Sebastião Bueno Olinto, Valdeci Santos Silva.
Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas
Editor: Cláudio Antônio Batista Marra
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SUMÁRIO
Abreviaturas ......................................................................................... 7
Prefácio .............................................................................................. 11
Introdução ......................................................................................... 13
Comentário
1. Introdução (1.1-9) e Divisões na Igreja, 1ª parte (1.10-31) ............... 53
2. Divisões na Igreja, 2ª parte (2.1-16) ................................................. 105
3. Divisões na Igreja, 3ª parte (3.1-23) ................................................. 143
4. Divisões na Igreja, 4ª parte (4.1-21) ................................................. 181
5. Imoralidade e Litígios, 1ª parte (5.1-13) ........................................... 219
6. Imoralidade e Litígios, 2ª parte (6.1-20) ........................................... 249
7. Problemas relativos ao Casamento (7.1-40) .................................... 291
8. Comida Oferecida aos Ídolos (8.1-13) ............................................. 365
9. Apóstolos e Direitos (9.1-27) ........................................................... 393
10. Admoestações e Liberdade (10.1-11.1) ........................................... 445
11. Culto, 1ª parte (11.2-34) ................................................................. 503
12. Culto, 2ª parte (12.1-31) ................................................................. 567
13. Culto, 3ª parte (13.1-13) ................................................................. 623
14. Culto, 4ª parte (14.1-40) ................................................................. 657
15. A Ressurreição (15.1-58) ................................................................. 723
16. Coleta para o Povo de Deus (16.1-4) e Conclusão (16.5-24) ......... 819
Bibliografia Seleta ............................................................................... 851
Índice de Autores ................................................................................ 867
Índice da Escritura ............................................................................... 873
6
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ABREVIATURAS
ASV American Standard Version
ATANT Abhandlungen zur Theologie des Alten und Neuen
Testaments
ATR Anglican Theological Review
AusBRev Australian Biblical Review
BA Biblical Archaeologist
BAR Biblical Archaeology Review
Bauer Walther Bauer W. F. Arndt, F. W. Gingrich, F. W.
Danker, A Greek-English Lexicon of the New
Testament, 2d ed.
BDT Baker’s Dictionary of Theology
BEB Baker Encyclopedia of the Bible
BF British and Foreign Bible Society, The New Testament,
2d ed., 1958
Bib Biblica
BibOr Bibliotheca Orientalis
BibRev Biblical Review
BibToday Bible Today
BibTr The Bible Translator
BibZ Biblische Zeitschrift
BJRUL Bulletin of John Rylands University Library of Manchester
B of T Banner of Truth
BS Bibliotheca Sacra
BTB Biblical Theological Bulletin
Cassirer A New Testament Translation, E. Cassirer
CBQ Catholic Biblical Quarterly
ChrSchRev Christian Scholar’s Review
ConcJourn Concordia Journal
ConcThMonth Concordia Theological Monthly
CristTheolRev Criswell Theological Review
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CTJ Calvin Theological Journal
EDNT Exegetical Dictionary of the New Testament
EDT Evangelical Dictionary of Theology
EphThL Ephemerides théologicae lovaniensis
EvJ Evangelical Journal
EvQ Evangelical Quarterly
Exp The Expositor
ExpT Expository Times
GNB Good News Bible
GThJ Grace Theological Journal
HTR Harvard Theological Review
Interp. Interpretation
ISBE International Standard Bible Encyclopedia, rev. ed.
BJ Bíblia de Jerusalém
JBL Journal of Biblical Literature
JETS Journal of the Evangelical Theological Society
JQR Jewish Quarterly Review
JRH Journal of Religious History
JSNT Journal for the Study of the New Testament
JSOT Journal for the Study of the Old Testament
JTS Journal of Theological Studies
KJV King James Version
LCL Loeb Classical Library edition
Liddell H.G. Liddell, R. Scott, H. S. Jones, Greek-English
Lexicon, 9th ed.
LuthQuart Lutheran Quarterly
LXX Septuaginta
Merk Augustinus Merk, ed., Novum Testamentum Graece
et Latine,9th ed.
MLB The Mordern Language Bible
MM J. H. Moulton, G. Milligan, The Vocabulary of the Greek
Testament, 1930
Moffat The Bible — A New Translation, James Moffatt
MSJ The Master’s Seminary Journal
NAB New American Bible
NASB New American Standard Bible
NCV New Century Version (The Everyday Bible)
NEB New English Bible
NedTTS Nederlands theologisch tijdschrift
Neotest Neotestamentica
COMENTÁRIO DO NOVO TESTAMENTO
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Nes-Al Eberhard Nestle; Kurt Aland, rev; NovumTestamentum
Graece, 26th ed.
NIDNTT New International Dictionary of the New Testament
Theology
NIV New International Version
NJB New Jerusalem Bible
NKJV New King James Version
NovT Novum Testamentum
NRSV New Revised Standard Version
n. s. nova série
NTS New Testament Studies
Phillps The New Testament in Modern English, J. B. Phillips
PitPer Pittsburgh Perspective
RB Revue biblique
REB Revised English Bible
ResScRel Recherches de Science Religieuse
ResQ Restoration Quarterly
RevExp Review and Expositor
RevHistPhilRel Revue d’Histoire et de Philosophie Religieuses
RSV Revised Standard Version
RTR Reformed Theological Review
RV Revised Version
SB H. L. Strack, P. Billerbeck, Kommentar zum Neuen
Testament aus Talmud und Midrasch
SBL Society for Biblical Literature
SBT Studies in Biblical Theology
SEB Simple English Bible
SJT Scottish Journal of Theology
Souter Alexander Souter, org., Novum Testamentum Graece
SR Studies in Religion/Sciences Religieuses
SWJourTh Southwestern Journal of Theology
Talmud The Babylonian Talmud
TDNT Theological Dictionary of the New Testament
Thayer Joseph H. Thayer, Greek-English Lexicon of the New
Testament
ThEd Theological Educator [New Orleans]
ThF Theologische Forschung
ThLZ Theologische Literaturzeitung
TheolZeit Theologische Zeitschrift
TNT The New Translation
ABREVIATURAS
10
TR The Textus Receptus: The Greek New Testament
According to the Majority Text
TrinityJ Trinity Journal
TynB Tyndale Bulletin
UBS United Bible Societies Greek New Testament, 3d ed.
VigChr Vigiliae christianae
Vogels H. J. Vogels, org., Novum Testamentum Graece et
Latine, 4th ed.
VoxEv Vox Evangelica
VoxRef Vox Reformata
WBC World Biblical Commentary
WTJ Westminster Theological Journal
WesThJ Wesleyan Theological Journal
WUNT Wissenschaftliche Untersuchungen zum Neuen Testament
ZPEB Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Bible
ZTK Zeitschrift für Theologie und Kirche
COMENTÁRIO DO NOVO TESTAMENTO
11
PREFÁCIO
Meu predecessor, Dr. William Hendriksen, trabalhou incansavel-
mente na redação de comentários para a série Comentários do Novo
Testamento. Mesmo quando sua saúde começou a falhar, ele ainda ini-
ciou o trabalho preliminar para um comentário sobre 1 Coríntios. Ele
havia escrito sobre todas as epístolas paulinas à exceção da correspon-
dência coríntia. Sua contribuição introdutória a este planejado comen-
tário foi publicada postumamente e eu faço referência a elas tanto no
texto como nas notas de rodapé.
Considero um privilégio oferecer este volume aos leitores. Como
outros na série, este comentário foi composto para proveito tanto do
pastor como do estudante sério da Bíblia. Aspectos técnicos foram co-
locados em seções separadas e em notas de rodapé, com o propósito de
tornar mais agradável a leitura deste livro.
A tradução do texto grego é minha. Citações do restante do Antigo
e do Novo Testamentos são geralmente extraídas de “the New Interna-
tional Version”. Citações de outras versões são claramente assinaladas.
O número de artigos e livros especializados recentemente publica-
dos sobre particularidades de 1 Coríntios é realmente fenomenal. Nes-
te volume, procurei fazer uso dessas atuais publicações tanto quanto
possível e citá-las quer nas notas de rodapé quer na bibliografia. Gra-
ças a incessante pesquisa, melhorou muito nossa compreensão da epís-
tola de Paulo dirigida aos coríntios no século I e a nós na última década
do século XX.
Algumas das explicações que apresento neste volume não encon-
trarão consenso universal. Isso é normal para qualquer comentarista
que escreve sobre 1 Coríntios. Apesar das minhas divergências com
12
relação a outros autores, tenho por eles sincero respeito e recomendo
aos leitores seus livros e artigos. Creio que, em minha exposição, fui
fiel ao texto da Palavra de Deus e que ouvi diligentemente ao que Deus,
por meio de seu servo Paulo, diz a nós.
Simon J. Kistemaker
Páscoa, 1993
COMENTÁRIO DO NOVO TESTAMENTO
13
INTRODUÇÃO
14 INTRODUÇÃO
ESBOÇO
A. Corinto
B. Cronologia
C. Mensagem
D. Destinatários
E. Teologia
F. Autenticidade
G. Características
H. Texto
I. Propósito
J. Esboço
15 INTRODUÇÃO
A. Corinto
1. Localização
A antiga Corinto estava localizada numa extensa planície abaixo do
soberbo Acrocorinto, um cume fortificado de 575 metros de altura na
península do Peloponeso. A subida íngreme do Acrocorinto tornava o
forte praticamente invencível e a própria cidade era relativamente segu-
ra. Da antiga Corinto, a distância até a cidade portuária de Lacaeum,
localizada no golfo de Corinto, era de cerca de três quilômetros ao norte.
A cerca de onze quilômetros para o leste situava-se a cidade portuária de
Cencréia junto ao golfo de Sarônica. Esses dois portos traziam a Corinto
comércio e riqueza. Navios do Ocidente (Itália, Espanha e Norte da África)
levavam seus produtos até Lacaeum, e navios do Oriente (Ásia Menor,
Fenícia, Palestina, Egito e Cirene) aportavam em Cencréia.
Capitães e tripulações relutavam em navegar as duzentas milhas
que circundavam o cabo ao sul da península (cabo Malea), onde tem-
pestades imprevisíveis tornavam a navegação extremamente incerta.
Extravios de navios, cargas e vidas estavam profundamente gravados
na memória tanto dos proprietários dos navios quanto dos marinhei-
ros. Por esse motivo, ou atracavam em Lacaeum ou em Cencréia. Des-
ses portos, transportavam as mercadorias dos navios maiores pelo ist-
mo que liga a península à Grécia central.
A construção de um canal teria facilitado o transporte de mercado-
rias, como Periander (625-583 a. C.) percebeu; mas, em vez disso, pa-
vimentou-se uma ligação terrestre, que se chamou de diolkos. Essa
palavra significa uma plataforma móvel sobre rodas. Pequenos navios
eram colocados sobre as plataformas e arrastados do golfo de Sarônica
no lado oriental até o golfo de Corinto no lado ocidental, e vice-versa.
O volume de mercadorias transportadas através do istmo contribuiu
consideravelmente para a quantia de taxas de circulação de mercadori-
as recolhidas por Corinto.
1
1. Jerome Murphy-O’Connor, “The Corinth that Saint Paul Saw”, BA 47 (1984): 147-59.
16 INTRODUÇÃO
Na Antigüidade, o rei grego Demétrio e os imperadores romanos
Júlio César e Gaio Calígula quiseram escavar um canal através do ist-
mo em seu ponto mais estreito (7,2 quilômetros). Nero, mais tarde, deu
início às obras, mas logo teve de abandonar o projeto por várias ra-
zões: finanças, uma crença de que fazer um canal era um ato de sacri-
légio e uma teoria de que os níveis da água nos dois lados do istmo
eram diferentes.
2
Josefo relata que Vespasiano, o general das forças
romanas na Palestina, que escravizou um número incontável de ju-
deus, enviou aproximadamente seis mil homens judeus a Corinto para
cavar a passagem pelo istmo em 67.
3
Finalmente, na última parte do
século IX e começo do século X, engenheiros franceses construíram e
completaram o canal coríntio.
2. História
A cidade de Corinto aparece na Ilíada de Homero e, portanto, data
do segundo milênio antes de Cristo. Exerceu influência sobre toda a
península, o istmo e parte da Grécia central. No século VII a. C., Co-
rinto alcançou o seu apogeu devido à sua atração para o comércio.
Periander impulsionou o poder comercial de Corinto suprindo o equi-
pamento necessário para transportar navios menores através do istmo.
Mas, durante o dois séculos seguintes, Corinto teve de enfrentar o po-
der rival de Atenas.
Durante a Guerra do Peloponeso (431-404 a. C.), entre Atenas e
Esparta, Corinto aliou-se a Atenas. Essa guerra enfraqueceu Atenas e
Corinto de tal forma que Filipe II da Macedônia subjugou Corinto no
ano 338 a. C. Seu filho, Alexandre o Grande, usou Corinto como um
centro comercial e atração turística. Depois da morte de Alexandre
(323 a. C.), Corinto assumiu a liderança das cidades-estados gregas no
Peloponeso e no sul da Grécia.
Mais tarde, em 196 a. C., os romanos conquistaram a Grécia e con-
cederam a Corinto o direito de liderar a liga das cidades na província
da Acaia. Quando os corintos se rebelaram, cinqüenta anos mais tarde,
2. Suetônio, Life of Apollonius of Tyana 4.24; Plínio, Natural History 4.9-11; Jerome
Murphy-O’Connor, St.. Paul’s Corinth: Texts and Archaeology, Good News Studies, vol. 6
(Wilmington, Del.: Glazier, 1983), pp. 53, 85.
3. Josefo Wars 3.10.10 [540].
17 INTRODUÇÃO
os romanos, sob Lúcio Mummius, destruíram a cidade. Por um século,
a cidade permaneceu em ruínas, até que Júlio César a reedificou em 44
a. C. e reconstruiu os dois portos de Lacaeum e Cencréia. Corinto tor-
nou-se uma colônia romana conhecida então como Colonia Laus Julia
Corinthiensis (a colônia coríntia é louvor juliano), isto é, esta colônia
honra Júlio César. A cidade prosperou novamente como um entreposto
e centro comercial que atraiu pessoas de várias partes do mundo.
3. Povo
Como um colônia sujeita à lei romana, Corinto tinha um governo
semelhante ao da cidade imperial.
4
A língua oficial era o latim, embora
o grego permanecesse a língua do povo simples. Paulo menciona no-
mes latinos de pessoas que viviam em Corinto: Tércio, Gaio e Quarto
(Rm 16.22,23), o casal judeu Priscila e Áqüila; Tício Justo; Crispo, o
principal da sinagoga, e Fortunato (At 18.2, 7; 1Co 1.14; 16.17). Ofici-
ais romanos civis e militares, entre os quais estava o procônsul Gálio
(At 18.12), residiam em Corinto junto com uma multidão de colonos
formada de ex-soldados e libertos (ex-escravos) vindos de Roma. Ha-
via também mercadores, artesãos, artistas, filósofos, mestres e traba-
lhadores de muitos países ao redor do Mediterrâneo. A população da
cidade incluía certo número de judeus de Israel e de outros lugares,
gregos nativos, expatriados e escravos. Todas essas pessoas viviam e
trabalhavam em Corinto ou em suas duas cidades portuárias. Aumen-
tavam a população de Corinto, contribuíam para sua diversidade e for-
taleciam sua economia. O interior contribuia para a base agrícola de
Corinto. A própria cidade era um centro manufatureiro e os dois portos
faziam de Corinto um centro do comércio internacional. Em resumo,
Corinto desfrutava de reconhecimento internacional.
4. Religião e Cultura
Autores gregos e romanos nos séculos que antecederam o surgi-
mento do Cristianismo referiram-se muitas vezes a Corinto como a
cidade da fornicação e da prostituição. Os gregos haviam cunhado o
termo corinthiazesthai (literalmente, “viver uma vida coríntia”) para
descrever a imoralidade da cidade. Corinto tinha uma dúzia de templos
4. Victor Paul Furnish, “Corinth in Paul’s Time. What Can Archaeology Tell Us?” BAR 14
(1988): 14-27.
18 INTRODUÇÃO
ou mais, dos quais, um, dedicado à deusa do amor, Afrodite, era conhe-
cido na Antigüidade por sua imoralidade. Estrabão escreve sobre a ci-
dade de Corinto em época anterior à sua destruição pelos romanos, em
146 a. C., e registra a presença de mil prostitutas no templo de Afrodi-
te,
5
embora a exatidão dessa afirmação tenha sido questionada por
muitos estudiosos.
6
Supomos que a cidade de Corinto e seus dois por-
tos, que recebiam uma multidão de navegantes, mercadores e solda-
dos, dificilmente era um lugar para altos padrões morais. As claras
exortações de Paulo para fugir da imoralidade (5.1; 6.9; 15-20; 10.8)
deixam a nítida impressão de que a promiscuidade não era rara nessa
cidade.
Os coríntios também permitiam que muitos grupos religiosos dife-
rentes praticassem sua fé. Além do culto a Afrodite, os coríntios cul-
tuavam Asclépio, Apolo e Posêidon. Havia também vários altares e
templos para as divindades gregas Atenas, Hera e Hermes, além de
santuários para o culto dos deuses egípcios Ísis e Serapis.
7
Entre os diversos grupos religiosos presentes em Corinto, incluíam-
se os judeus. Os imperadores Júlio César e Tibério haviam dado aos
judeus liberdade para praticarem sua religião desde que se abstives-
sem de atos de rebelião contra o governo romano. O imperador Cláu-
dio, também, havia reeditado esse decreto imperial. Os judeus em Co-
rinto tinham sua própria sinagoga,
8
onde, no início, convidaram Paulo
a pregar, mas da qual logo o expulsaram. Lucas narra que os líderes
judeus arrastaram Paulo até o tribunal (bhma) do procônsul Gálio
9
e o
5. Estrabão Geography 8.6.20.
6. Entre outros, ver H. D. Saffrey, “Aphrodite a Corinthe: Réflexions sur Une Idée Re-
çue”, RB 92 (1985): 359-74.
7. Veja Dan P. Cole, “Corinth & Ephesus. Why did Paul Spend Half His Journeys in These
Cities?” BibRev 4 (1988): 20-30.
8. Arqueólogos descobriram um lintel com a provável inscrição “Sinagoga dos Hebreus”.
Embora os arqueólogos atribuam uma data do III ou IV séculos para esse lintel, a presença
de uma sinagoga judaica nos dias de Paulo não está em questão. Consultar Richard E. Oster,
Jr., “Use, Misuse and Neglect of Archeological Evidence in Some Modern Works on 1
Corinthians (1Co 7,1-5; 8,10; 11, 2-16; 12, 14-26)”, ZNW 83 (1992): 52-73.
9. O imperador Augusto declarou Corinto a capital da província de Acaia e, embora essa
província estivesse sob jurisdição senatorial, algumas vezes o imperador designou procôn-
sules para administrar a lei romana. Assim, o Imperador Cláudio enviou Gálio a Corinto
para servir como procônsul (presumivelmente de julho de 51 até junho de 52).
19 INTRODUÇÃO
acusaram de ensinar uma religião contrária à lei (At 18.12,13). Gálio,
sabendo da legitimidade da religião judaica, recusou-se a ouvir os ju-
deus porque sua acusação nada tinha que ver com a lei romana. Para
ele, o assunto era uma controvérsia religiosa interna, não uma questão
civil e, por esse motivo, recusou a acusação.
À vista das várias correntes religiosas existentes em Corinto, a in-
trodução do Cristianismo, vista como uma variante da fé judaica, não
era, absolutamente, ofensiva à população em geral. Os gentios corínti-
os mais facilmente poderiam aceitar a fé cristã do que a religião judai-
ca. Paulo ensinava que os gentios convertidos ao Cristianismo não pre-
cisavam se submeter aos rituais da fé judaica, nem mesmo à circunci-
são. Por esse motivo, seus ensinamentos enfureceram os oficiais da
sinagoga local, que arrastaram Paulo até a presença de Gálio. Mas de-
pois que perderam sua causa no tribunal do procônsul, Paulo e a igreja
continuaram a pregar o evangelho sem medo de que lhes fizessem mal
(ver At 18.10). Porque o Senhor tinham muitas pessoas nessa cidade, a
igreja continuou a crescer. Ao contrário dos judeus, os cristãos encon-
travam-se nas casas de membros da igreja – em Corinto, na casa de
Tício Justo, que morava ao lado da sinagoga. Os cristãos fundaram
igrejas domésticas que, em casas grandes, reuniam no máximo cin-
qüenta pessoas e, em casas menores, talvez trinta.
Um acontecimento importante na Corinto cosmopolita do século I
eram os Jogos do Istmo. Esses jogos eram o segundo em importância –
o primeiro lugar pertencia aos Jogos Olímpicos – e eram realizados a
cada dois anos, na primavera. Os jogos incluíam corridas, lutas e corri-
da de bigas (comparar com 9.24-27).
10
Durante seus dezoito meses em
Corinto, Paulo deve ter assistido aos Jogos do Istmo na primavera de
51. Supomos que Paulo tenha se ocupado em seu ofício de fabricante
de tendas durante esses eventos e, fazendo-se tudo para com todos,
proclamava o evangelho da salvação (ver 9.22, 27).
5. Importância
Paulo decidiu pregar o evangelho nas capitais das províncias, entre
as quais, Tessalônica na Macedônia e Corinto na Acaia. Considerou as
10. Oscar Broneer, “The Apostle Paul and the Isthmian Games”, BA 25 (1962): 2-31; e
“Paul and Pagan Cults at Isthmia”, HTR 64 (1971): 169-87.
20 INTRODUÇÃO
capitais como centros estratégicos onde, em alguns casos, as rotas co-
merciais terrestres e marítimas se encontravam. De Corinto, o evange-
lho finalmente se espalhou para as vilas rurais ao redor, para outras
cidades da região e para muitas partes do mundo mediterrâneo.
Mais do que a qualquer outra igreja, Paulo devotou seu talento,
tempo e lágrimas à congregação de Corinto. Os membros receberam
três visitas (2Co 13.1), orientação sadia, longas cartas e incessante ora-
ção. Apresentaram diversos problemas práticos que angustiavam a jo-
vem congregação coríntia. Como pai dessa igreja específica (4.15),
Paulo orientou os crentes sobre como lidar com todas as suas dificul-
dades. No entanto, suas palavras não estão limitadas a certas pessoas
ou a determinada época; Paulo deixou por escrito orientações para a
igreja universal. A mensagem teológica que ele apresenta aplica-se a
situações existentes em inúmeras congregações através do mundo. De
fato, seus ensinamentos sobre casamento, divórcio, separação, virgens
e viúvas (capítulo 7) servem para todos. Conseqüentemente, a epístola
de Paulo é dirigida a cada crente de qualquer época ou século em todas
as partes do mundo.
11
B. Cronologia
1. Procônsul Gálio
Lucas informa que Paulo permaneceu um ano e meio em Corinto
em sua primeira visita (At 18.11). Entre outras coisas, menciona que a
visita de Paulo a Corinto ocorreu quando Gálio servia como procônsul
da Acaia (At 18.12). Sabemos que o mandato para um procônsul era de
um ano, a contar do primeiro dia de julho até o último dia de junho.
Arqueólogos descobriram inscrições próximas a Delfos que, num caso,
mencionam o nome Gálio como procônsul da Acaia junto ao de Cláu-
dio; a inscrição especifica a data como o duodécimo ano do reinado do
imperador Cláudio e a vigésima sexta vez que ele era proclamado im-
perador. Uma vez que Cláudio deu início ao seu primeiro ano de gover-
no no dia 25 de janeiro de 41, ele começou seu duodécimo ano em 25
de janeiro de 52. Nessa ocasião, Gálio já havia cumprido quase sete
meses de seu proconsulado em Corinto (julho de 51 a junho de 52).
11. Consultar Larry McGraw, “The City of Corinth”, SWJourTh 32 (1989): 5-10.
21 INTRODUÇÃO
Depois de seu comparecimento diante do tribunal de Gálio, Paulo per-
maneceu ainda muitos dias em Corinto (At 18.18) e, então, partiu para
Éfeso. Com base na data do proconsulado de Gálio, que aceitamos
como estabelecida, podemos dizer, com certo grau de certeza, que Pau-
lo fundou a igreja de Corinto nos anos 50-52.
2. Imperador Cláudio
Encontramos outra referência à cronologia em Atos 18.2, onde
Lucas escreve que Áqüila e sua mulher, Priscila, haviam chegado re-
centemente da Itália porque o imperador Cláudio (41-54) havia expul-
sado todos os judeus de Roma. Historiógrafos romanos fornecem mais
informações sobre a expulsão dos judeus. Suetônio registra que Cláu-
dio “expulsou os judeus porque esses provocavam constantes distúrbi-
os sob a instigação de Chrestos”.
12
Esse historiador, ao que parece, não
estava familiarizado com o nome grego Christus (o ungido), mas co-
nhecia o nome mais comum Chrestos (o benevolente). Embora Suetô-
nio pensasse que Chrestos instigasse pessoalmente os distúrbios, su-
pomos que os judeus em Roma entraram em choque com os seguidores
de Cristo. Desconhecendo a diferença entre Judaísmo e Cristianismo,
Cláudio decretou que todos os judeus fossem banidos da cidade impe-
rial. Entre os que partiram estavam Áqüila e Priscila, que algum tempo
depois chegaram a Corinto.
Dio Cássio afirma que o imperador Cláudio, em seu primeiro ano
no poder, não expulsou os judeus da cidade, mas os proibiu de se reu-
nirem.
13
Essa proibição foi promulgada em 41. Paulo Orósio, historia-
dor cristão do século V, escreve que, segundo Josefo, a expulsão dos
judeus por Cláudio aconteceu no nono ano do domínio do imperador,
ou seja, em 49; menciona ainda que Suetônio escreveu sobre a expul-
são dos judeus por causa dos distúrbios instigados por Chrestus.
14
O
problema é que não podemos encontrar em qualquer dos escritos de
Josefo nenhum trecho semelhante a essa afirmação. Conseqüentemen-
12. Judaeos impulsore Chresto assidue tumultuantes expulit; Suetônio Cláudius 25.4.
Suetônio não indica a data da expulsão dos judeus.
13. Dio Cássio Roman History 60.6.6.
14. Paulus Orosius, The Seven Books of History Against the Pagans, série Fathers of the
Church, trad. de Roy J. Deferrari, (Washington, D.C.: Catholic University Press, 1964), p.
297.
22 INTRODUÇÃO
te, alguns estudiosos questionam a exatidão do relato de Orósio e optam
pelo relato de Dio Cássio para datar a restrição da liberdade dos judeus
em Roma por Cláudio.
15
Preferem essa data à indicada por Orósio.
Estudiosos que adotam a data mais recuada de Dio Cássio têm de
responder a uma série de questões sobre a cronologia das visitas de
Paulo a Corinto. Por exemplo, se Paulo visitou Corinto pela primeira
vez em 41, quando Cláudio promulgou seu decreto sobre os judeus em
Roma, ele não poderia ter retornado a Corinto até os primeiros anos da
década seguinte, época em Gálio se encontrava ali. Para onde Paulo foi
nesse meio-tempo? Tentando resolver esses problemas cronológicos,
há estudiosos que atribuem a Lucas uma memória vaga e falta de per-
cepção histórica.
16
Achamos difícil, contudo, aceitar semelhantes con-
jeturas. Ao contrário, vemos 49 como a data da expulsão; ela precede
imediatamente a primeira vez em que Paulo esteve em Corinto e con-
corda com a data seguinte, a da chegada de Gálio, em 51.
17
3. Rei Aretas
Paulo faz uma interessante observação histórica em 2 Coríntios.
Ele relata que o governador preposto do rei Aretas montou guarda na
cidade de Damasco para o prender, mas ele escapou durante a noite
quando outros cristãos, de uma janela na muralha, o baixaram num
cesto (11.32,33). Aretas IV governou como rei dos nabateus de 9 a. C.
até 39 ou 40 A. D. Depois da morte do imperador Tibério em 16 de
março de 37, seu sucessor, Gaio Calígula, concedeu a Aretas o contro-
le de Damasco como um rei subordinado. Dessa forma, a fuga de Paulo
dessa cidade ocorreu depois que Aretas começou a governar Damasco,
em 37, e antes de sua morte, dois anos mais tarde.
18
15. Por exemplo, Gerd Luedemann, Paul, Apostle to the Gentiles: Studies in Chronology
(Filadélfia: Fortress, 1984), pp. 164-71; Murphy-O’Connor, St. Paul’s Corinth, pp. 129-40.
16. Murphy-O’Connor, St. Paul’s Corinth, p. 140; Luedemann, Paul, Apostle to the Gen-
tiles, p. 170.
17. Consultar Robert Jewett, A Chronology of Paul’s Life (Filadélfia: Fortress, 1979), pp.
36-38; E.M. Smallwood, The Jews under Roman Rule (Leiden: Brill, 1976), pp. 210-16.
18. Jewett, Chronology, pp. 30-33; George Ogg, The Chronology of the Life of Paul
(Londres: Epworth, 1968), pp. 22-23; ver também o título americano The Odyssey of Paul
(Old Tappan, N. J.: Revell, 1968).
23 INTRODUÇÃO
4. Paulo e Barnabé
Ao chegar a Jerusalém, depois de uma ausência de três anos, Paulo
encontrou-se com Pedro e Tiago por quinze dias (Gl 1.18,19). Os fiéis,
temendo pela vida de Paulo, o levaram para Cesaréia e o colocaram a
bordo de um navio para Tarso (At 9.29,30). Paulo fundou igrejas na
Cilícia e na Síria (At 15.41; Gl 1.21) e, então, convidado por Barnabé,
foi para Antioquia, onde ensinou por um ano (At 11.25,26). Durante
esse tempo, Paulo e Barnabé viajaram para a Judéia a fim de oferecer
ajuda aos cristãos que padeciam por causa da fome, em 44 ou 45 (At
11.29,30). A primeira viagem missionária aconteceu provavelmente
entre 46 e 48, quando Paulo e Barnabé pregaram o evangelho na ilha
de Chipre e em Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra e Derbe (At 13-14).
Depois de seu retorno a Antioquia, a igreja os enviou ao Concílio de
Jerusalém (At 15). Paulo escreve que, depois de catorze anos, subiu
novamente a Jerusalém (Gl 2.1). Se considerarmos os catorze anos
como referindo-se ao tempo transcorrido desde a conversão, datamos
o Concílio de Jerusalém em 49.
19
5. Igreja de Corinto
Logo depois do encontro em Jerusalém, Paulo iniciou sua segunda
viagem missionária pela visita às igrejas na Ásia Menor (At 15.36 –
16.5). Ele cruzou o mar Egeu e viajou até Filipos, Tessalônica, Beréia
e Atenas (At 16.8 – 17.33). Supomos que Paulo chegou em Corinto no
outono de 50, ali permanecendo por dezoito meses (At 18.11).
Paulo partiu de Corinto na primavera de 52, navegando com Áqüi-
la e Priscila para Éfeso, onde os deixou, continuando sua viagem para
Cesaréia, de onde foi para Jerusalém e Antioquia (At 18.18-22). De-
pois, viajou pela Ásia Menor, fortalecendo as igrejas, chegando a Éfe-
so provavelmente no outono de 52 (At 18.23; 19.1). Permaneceu três
anos em Éfeso, ensinando, primeiro na sinagoga e depois na escola de
Tirano, e propagando a palavra de Senhor (At 19.8, 20; 20.31). Não
temos como especificar a ocasião exata da composição de 1 Coríntios,
mas 55 é uma data bastante próxima.
20
19. A referência “catorze anos” pode tanto incluir como excluir os “três anos” (Gl 1.18) e
dá margem a controvérsias.
20. S. Dockx é da opinião que Paulo compôs a carta no primeiro trimestre de 54. Ver sua
24 INTRODUÇÃO
De certa forma, 1 Coríntios é a continuação de uma epístola anteri-
or que Paulo escreveu mas que não foi preservada. Ele havia enviado
aos coríntios uma carta ordenando a eles não se associarem com pesso-
as imorais (5.9). Aparentemente, não conseguiu transmitir sua mensa-
gem, fato que moveu os coríntios a lhe escreverem uma resposta (ver
7.1). Paulo respondeu a carta que havia recebido da igreja em Corinto
e compôs o que hoje chamamos 1 Coríntios. Depois de enviar essa
epístola, Paulo foi a Corinto e os visitou “em tristeza”, escrevendo-
lhes depois uma carta “com muitas lágrimas” (2Co 2.1, 3,4). A visita e
a remessa dessa carta provavelmente aconteceram em 55. No ano se-
guinte, Paulo compôs 2 Coríntios.
6. Governadores Félix e Festo
Tendo partido de Éfeso, fortalecendo as igrejas na Macedônia e
chegando a lugares tão distantes como o Ilírico (Rm 15.19), Paulo diri-
giu-se a Corinto para passar o inverno ali (1Co 16.6). Durante o inver-
no de 57, redigiu sua carta aos Romanos. Depois de uma extensa jorna-
da a pé pela Macedônia e uma viagem de navio até Cesaréia, Paulo
chegou em Jerusalém para a celebração do Pentecoste nesse ano (At
20.16; 21.17). Em Jerusalém, Paulo foi preso e enviado a Félix, o go-
vernador romano, em Cesaréia. Ao que tudo indica, Félix já ocupava o
posto por vários anos quando presidiu o julgamento de Paulo em Cesa-
réia (At 24.2, 10). Durante os últimos dois anos de sua administração,
Félix manteve Paulo na prisão, entregando-o a Pórcio Festo. Não dis-
pomos de uma data exata da elevação de Festo ao governo em Cesa-
réia, mas Félix deve ter permanecido até uma data entre 52 e 59. Na
companhia de Agripa II, que estava no décimo ano de seu reinado,
Festo ouviu a defesa de Paulo. Agripa começou a governar em março
do ano 50, o que fixa o encontro com Paulo no verão de 59.
21
As referências indiretas em Atos e nas epístolas de Paulo à sua
vida e ministério fornecem uma cronologia da época de sua conversão
“Chronologie Paulinienne de l’Année de la Grande Collecte”, RB 81 (1974): 183-95. No
mesmo sentido, consultar Graydon F. Snyder, First Corinthians: A Faith Community Com-
mentary (Macon, Ga.: Mercer university Press, 1992), p. 8.
21. Josefo, Wars 2.14.4 [284]. Ver também David L. Jones, “Luke’s Unique Interest in
Historical Chronology”, in Society of Biblical Literature 1989 Seminar Papers, org. por
David J. Lull. (Atlanta: Scholars 1989), pp. 378-87.
25 INTRODUÇÃO
nas proximidades de Damasco até sua viagem a Roma e subseqüente
soltura. Dentro dessa cronologia, podemos, confiantemente, datar a
primeira visita de Paulo a Corinto entre 50 e 52, e inferir que ele escre-
veu 1 Coríntios dentro dos três anos seguintes à sua partida de Corinto.
C. Mensagem
A epístola foi ocasionada por um relatório trazido a Paulo por mem-
bros da casa de Cloe (1.11), por uma carta dos coríntios (7.1) e pela
chegada de uma delegação da igreja de Corinto (16.17). O relatório
dos da casa de Cloe referia-se às facções que haviam surgido em Co-
rinto e estavam destruindo a unidade da igreja. Paulo também tinha
ouvido acerca de incesto (5.1), litígios (6.1-8) e imoralidade (6.9-20).
A carta que ele recebeu de Corinto continha perguntas sobre o casa-
mento (7.1), as virgens (7.25), a comida sacrifica aos ídolos (8.1), os
dons espirituais (12.1), a coleta para os santos de Jerusalém (16.1) e
Apolo (16.12). A delegação formada por três homens da igreja de Co-
rinto supriu as lacunas existentes (16.17).
1. Problemas de Liderança
A congregação de Corinto significava muito para Paulo: ele escreve
que era pai espiritual deles em Cristo Jesus mediante o evangelho (4.15).
Sem dúvida, o período relativamente breve do ministério de Paulo na
igreja de Corinto, junto com as diferenças de origem étnica e de status
econômico de seus membros, permitiu o surgimento de muitos proble-
mas. Havia judeus cristãos, os quais conheciam as Escrituras do Antigo
Testamento e os gentios tementes a Deus que haviam freqüentado as
reuniões de adoração na sinagoga local; havia também cidadãos ricos e
escravos indigentes. A congregação reunia pessoas de várias nacionali-
dades e muitas línguas. Podemos seguramente dizer que, devido a essa
diversidade, a igreja de Corinto não primava por estabilidade.
Quando um espírito de partidarismo invadiu a igreja de Corinto, as
pessoas afastaram-se umas das outras e a união deu lugar à discórdia.
Quando Paulo tomou conhecimento da existência de facções na con-
gregação de Corinto, tratou do problema como prioridade. Conforme
lhe haviam dito, a igreja estava dividida em quatro grupos e cada um
seguia um líder: Paulo, Apolo, Cefas ou Cristo. No primeiro versículo
sobre esse assunto, ele apela aos coríntios no nome do Senhor Jesus
26 INTRODUÇÃO
Cristo para que estivessem de acordo uns com os outros, que evitassem
divisões e que estivessem unidos numa só mente e num só parecer
(1.10). A pergunta retórica: “Cristo está dividido?” (1.13) subentende
uma resposta negativa que afirme a unidade da igreja cristã. Quem são
Paulo e Apolo? A resposta é que são simplesmente servos a quem o
Senhor atribuiu a tarefa de levar pessoas à fé nele (3.5). Estão incumbi-
dos da missão de proclamar e ensinar a revelação de Deus ao povo, razão
pela qual proíbe-se a arrogância e o partidarismo. Cada membro da igre-
ja de Corinto tem de aprender o que as Escrituras têm a dizer e, assumin-
do um espírito de mansidão, precisa evitar divisões na igreja (4.6).
Por causa da ausência de Paulo, por três anos, da igreja de Corinto
(de 52 a 55), alguns de seus líderes haviam se tornado arrogantes; eles
se opunham e desafiavam a liderança de Paulo e de seus cooperadores
(4.18-21; 9.1-6; 16.10-12). Esses líderes alegavam serem sábios e filo-
soficamente instruídos; sem dúvida, eram influenciados pela filosofia
grega da época (comparar 1.20-25; 2.1-5, 12-14; 3.18-22; 12.3). Não
eram gnósticos,
22
mas adversários do afã de Paulo de ensinar e aplicar
o evangelho de Cristo. Paulo os chama de volta à revelação de Deus e
aponta Cristo como poder e sabedoria de Deus (1.24, 30). Paulo aplica
a revelação divina ao cotidiano deles, perturbado por enfermidades
morais e sociais.
2. Problemas Morais e Sociais
Na comunidade de Corinto, um homem mantinha relações sexuais
com a mulher de seu pai – um mal que não acontecia nem mesmo entre
os gentios (5.1). Paulo considerou toda a igreja de Corinto responsável
por esse pecado e repreendeu seus membros por não se lamentarem.
23
Instruiu os coríntios a entregarem tal homem a Satanás e a expulsarem-
no da comunidade (5.5,13). Paulo ordenou que fosse removida da igre-
ja tal infâmia; essa mácula prejudicaria a eficácia da igreja em Corin-
to. Paulo esperava dos cristãos que fossem exemplares quanto à pureza
22. Walter Schmithals vê puro gnosticismo cristão em Corinto. Ver Gnosticism in Corin-
th: An Investigation of the Letters to the Corinthians, trad. de John E. Steely (Nashville e
Nova York: Abingdon, 1971), p. 138. Contudo, não o meio mas o fim do primeiro século é
conhecido por um começo embrionário do gnosticismo cristão nas igreja de Corinto.
23. Consultar Brian S. Rosner, “‘ouv ci. ma/ llon ev penqh, sate’: Corporate Responsibility in 1
Corinthians 5”, NTS 38 (1992): 470-73; F. S. Malan, “The Use of the Old Testament in 1
Corinthians”, NeoTest 14 (1981): 134-66.
27 INTRODUÇÃO
moral em uma sociedade imoral. Por essa razão, Paulo ordenou aos
coríntios que não se associassem com pessoas sexualmente impuras,
mas que fugissem da imoralidade (5.9; 6.9-11, 18).
A imoralidade também envolvia um mal social, a saber, o fato de
cristãos apresentarem suas demandas perante um juiz gentio (6.1). Re-
petidamente, Paulo fez os coríntios recordarem-se de seus ensinamentos
anteriores sobre a imoralidade, perguntando se lembravam de suas ad-
moestações. Com relação às demandas em juízo, instruiu-os de forma
clara a encontrarem um homem sábio dentre eles para julgar, como
mediador, suas diferenças. Aplicando a lei de Cristo de amor mútuo,
instou-os que preferissem sofrer injustiça e dano a obter um ganho de
causa que inevitavelmente seria prejudicial ao seu próximo (6.7,8).
Outros problemas sociais existentes na comunidade de Corinto esta-
vam relacionados a casais, pessoas separadas ou divorciadas, solteiras e
viúvas. A igreja enviou uma carta a Paulo em que os membros buscavam
sua orientação em questões relativas ao casamento. Ele atendeu plena-
mente à solicitação deles apresentando uma longa exposição sobre um
assunto de interesse universal (v. 7). Na verdade, em toda a Escritura,
ninguém apresentou uma exposição mais detalhada sobre questões ma-
trimoniais do que Paulo em 1 Coríntios 7. Paulo fundamentou seu ensi-
no na instituição do santo matrimônio no Éden e no pronunciamento de
Jesus sobre não quebrar os votos matrimoniais (Gn 2.24; Mt 19.4-6).
3. Problemas Religiosos e Culturais
Outra questão sobre a qual os coríntios buscaram orientação foi
quanto à atitude que deveriam ter diante de uma prática gentílica: co-
mer comida sacrificada a um ídolo (8.1). Os cristãos que tinham cons-
ciência firme não tinham dúvidas quanto a comer carne num templo
idólatra porque consideravam o ídolo como nada sendo e a carne como
alimento comum. Exerciam a liberdade cristã comprando tal carne no
mercado. Mas Paulo chamou a atenção para a consciência do irmão
mais fraco, a responsabilidade dos cristãos fortes para com o irmão
mais fraco e a unidade da igreja.
4. Problemas Eclesiásticos
Os quatro capítulos seguintes (11-14) dizem respeito a questões
pertinentes ao culto: oração e profecia, a celebração da ceia do Senhor,
28 INTRODUÇÃO
os dons espirituais, o significado do amor, o profetizar e o falar em
línguas e a ordem no culto. Os problemas referentes aos dons espiritu-
ais eram tão graves que a carta que os coríntios enviaram a Paulo pedia
que explicasse a questão dos dons espirituais. A questão em si precede
e segue o eloqüente capítulo sobre o amor (13), que dá tom para a
conduta apropriada no culto.
5. Problemas Doutrinários
Nada indica que os leitores tenham pedido alguma orientação de
Paulo sobre a doutrina da ressurreição. Mas havia chegado ao seu co-
nhecimento que alguns membros da igreja de Corinto negavam a exis-
tência da ressurreição (15.12). Nas observações iniciais de sua epísto-
la, Paulo escreveu sobre a expectativa do retorno de Jesus (1.8). Isso é
revelador por causa do longo discurso de Paulo sobre a ressurreição
física do corpo em 15.12-58 e sua discussão sobre a escatologia. Paulo
escreve que os coríntios corriam o risco de serem desviados do cami-
nho por doutrinas errôneas sobre a ressurreição de Cristo (15.12, 33,34).
No começo e no fim de sua epístola, Paulo encoraja seus leitores a
aguardarem o retorno de Cristo.
D. Destinatários
Pela leitura cuidadosa da carta de Paulo, podemos aprender algo
sobre seus leitores. Do relato histórico em Atos, sabemos que alguns
judeus aceitaram o evangelho e abandonaram a sinagoga local. Tam-
bém gentios que adoravam o Deus de Israel, conhecidos como temen-
tes a Deus, creram em Jesus e foram batizados (At 18.7-8).
1. Judeus e Tementes a Deus
O emprego do Antigo Testamento por Paulo em sua epístola revela
que ele pressupunha que muitos de seus leitores tinham um conheci-
mento básico das Escrituras, pois ele cita passagens de vários livros do
Antigo Testamento. Ele revela sua própria predileção por citar mais de
um livro que de outro. Precisamente falando, quase um terço da soma
total de suas citações diretas são da profecia de Isaías.
24
Além da afini-
dade de Paulo com Isaías, ele faz citações de Gênesis, Êxodo, Deute-
24. Essa propensão para citar Isaías também é evidente em Romanos, onde Paulo cita esse
profeta dezoito vezes de um total de sessenta passagens do Antigo Testamento.
29 INTRODUÇÃO
ronômio, Jó, Salmos, Jeremias e Oséias. Em resumo, com relação a 1
Coríntios, ele se firma basicamente nos livros de Moisés e na profecia
de Isaías.
Podiam os cristãos de Corinto compreender, de imediato, o con-
texto, a colocação e a aplicação dessas citações do Antigo Testamento
no discurso de Paulo? Cristãos de origem judaica haviam aprendido as
Escrituras desde a infância e, assim, podiam compreender o contexto
das passagens citadas e sua aplicação. Por exemplo, de Isaías 22.13,
Paulo cita as palavras “Comamos e bebamos, que amanhã morrere-
mos”. Cristãos de origem judaica, familiarizados com a história de Is-
rael, compreendiam imediatamente a importância histórica dessas pa-
lavras. Sabiam que Paulo fazia alusão à indiferença do povo de Jerusa-
lém quando um exército estrangeiro encontrava-se prestes a devastar o
seu país. Em vez de pedir socorro a Deus, esses israelitas matavam
bois, comiam a carne, bebiam vinho e entregavam-se à orgia. O povo
de Jerusalém não se arrependia, afastava-se deliberadamente de Deus
e esperava o tempo passar embriagando-se.
Muitos dos tementes a Deus de Corinto haviam adquirido conheci-
mento das Escrituras na sinagoga local e na igreja. Também consegui-
am entender a profundidade do ensinamento de Paulo e não necessita-
vam de explicações adicionais.
2. Convertidos
Outras pessoas converteram-se à fé quando Paulo começou seu
ministério em Corinto. Não devemos esquecer que permaneceu ali so-
mente dezoito meses, pois Paulo partiu em 52. Quando escreveu 1
Coríntios, três anos mais tarde, não podia esperar que cada membro da
igreja de Corinto tivesse um conhecimento e uma compreensão perfei-
tos das Escrituras. Muitos dos problemas eclesiásticos e sociais nessa
igreja surgiram de um discernimento e uma aplicação insuficientes da
Palavra de Deus.
Paulo observa que a conduta de alguns cristãos coríntios é idêntica
à das pessoas mundanas, a ponto, inclusive, de a diferença entre eles
ser desprezível (3.3). Paulo repreende o comportamento deles, marca-
do por brigas, inveja, imoralidade e licenciosidade; pela sua conduta
estavam desacreditando o templo de Deus. Paulo os faz lembrar que,
30 INTRODUÇÃO
como o Espírito de Deus habita neles, o corpo deles é o templo de
Deus. E, se alguém destrói esse templo, Deus o destruirá (3.16,17).
Acaso Paulo, com a expressão grega pneumatikoi, está se opondo a
pessoas que se autodenominam de espirituais? Fosse esse o caso, seria
de se esperar que esse termo grego estivesse no masculino plural e
aparecesse freqüentemente do início ao fim de 1 Coríntios. Esse, difi-
cilmente, é o caso. Paulo escreve a palavra espiritual doze vezes,
25
mas
nove das ocorrências estão no gênero neutro e referem-se a verdades,
coisas e corpos espirituais. Quando emprega a forma masculina, quer
no singular ou no plural (2.15; 3.1; 14.37), o termo aparece em con-
traste explícito ou implícito com pessoas que são não-espirituais ou
crianças em Cristo. Pessoas espirituais são cheias do Espírito Santo,
fazem bons julgamentos, não são sensuais ou mundanas e aceitam o
mandamento do Senhor e obedecem a ele.
Verificamos que essa carta contém uma série de lemas que eram
usados pelas pessoas arrogantes de Corinto. Paulo se dirige a esses
membros da igreja, dialogando com eles a partir de seus slogans. Eles
aplicavam o slogan “Todas as coisas me são lícitas” (6.12; 10.23) à sua
conduta diária. Eles se deleitavam em pecados sexuais e sociais e per-
mitiam-se tal conduta sob o pretexto da liberdade em Cristo. Em vez
de servirem ao seu Senhor e Salvador, satisfaziam seus próprios dese-
jos pecaminosos. Paulo os censura com afirmações contrárias que anu-
lam o conteúdo de seus lemas. Eles diziam que todas as coisas eram
lícitas, mas Paulo afirma que nem todas as coisas são proveitosas. Van-
gloriavam-se dizendo: “Os alimentos são para o estômago, e o estôma-
go para os alimentos”, ao que Paulo respondeu “mas Deus destruirá
tanto estes como aquele” (6.12,13).
26
Buscavam satisfação sexual, mas
Paulo mostra que a imoralidade sexual é pecado contra o próprio cor-
po. Uma vez mais ele lembra os coríntios que o corpo do cristão é um
templo do Espírito Santo (6.19; ver 3.16,17). Paulo confronta esses
arrogantes que queriam tirar o máximo proveito da liberdade cristã. De
maneira franca, lhes diz que se tornaram altivos no falar e que carecem
de correção (4.18-21).
25. 1 Coríntios 2.13, 15; 3.1; 9.11; 10.3, 4; 12.1; 14.1, 37; 15.44 [duas vezes], 46.
26. Ver Roger L. Omanson, “Acknowledging Paul’s Quotations”, BibTr 43 (1992): 201-13.
31 INTRODUÇÃO
Muitas dessas pessoas eram recém-convertidos que precisavam ser
alimentados na fé. Evidentemente, judeus e tementes a Deus também
eram recém-convertidos ao Cristianismo e precisavam ser instruídos
no evangelho. A congregação de Corinto compunha-se de pessoas den-
tre todas as camadas da sociedade e de muitas nacionalidades. Os mem-
bros da congregação demonstravam falta de homogeneidade e união
enquanto permaneciam em práticas pecaminosas que pertenciam às
suas respectivas culturas.
3. Romanos
Depois da reconstrução de Corinto em 44. a. C., a cidade tornou-se
uma colônia romana habitada por um grande número de pessoas dos
corpos administrativo e militar e por escravos libertos. A cultura roma-
na influenciou a sociedade de Corinto e alguns de seus costumes torna-
ram-se parte da vida diária.
Por exemplo, Paulo escreve sobre véus que cobriam a cabeça de
homens e mulheres no culto: um homem não deve ter sua cabeça co-
berta quando ora ou profetiza, mas uma mulher que ora ou profetiza
deve cobrir sua cabeça (11.4,5, 13). Ele tem em mente o costume dos
romanos que, na Itália e nas colônias, cobriam a cabeça em devoções
públicas ou privadas. Quando ofereciam sacrifícios, oravam ou profe-
tizavam, puxavam a toga sobre a cabeça. Paulo está tentando dizer aos
cristãos de Corinto que gostaria que se apartassem de forma clara des-
ses costumes romanos e adotassem um estilo de vida cristão.
27
4. Líderes
A congregação de Corinto ainda estava em seu estágio de forma-
ção quando apóstolos (Paulo e Pedro) e cooperadores apostólicos (Apo-
lo, Timóteo, Silas e Tito) atenderam às necessidades da igreja. Alguns
dos líderes na igreja foram Estéfanas e seus dois amigos, Fortunato e
Acaico. Os ex-chefes da sinagoga de Corinto, Crispo e Sóstenes, tam-
bém eram considerados líderes. Paulo não usa o termo presbítero, mas
pede aos membros que se submetam àqueles que haviam se dedicado
ao serviço da igreja (16.15,16). Já em sua primeira viagem missioná-
ria, Paulo designou presbíteros em cada congregação que fundou (At
27. Oster, “Use, Misuse and Neglect”, pp. 67-69.
32 INTRODUÇÃO
14.23). Anos mais tarde, ele se dirigiu à igreja em Filipos juntamente
com seus “bispos e dáconos” (Fp 1.1). Também instruiu Tito para que
constituísse presbíteros em cada cidade na ilha de Creta (Tt 1.5; ver
também 1Tm 3.1-7). A congregação de Corinto, contrariamente, reve-
la um estágio inicial de liderança.
28
5. Adversários
Em muitos lugares, em sua epístola, Paulo demonstra ter encontra-
do adversários de seu ministério e doutrina. Esses adversários não for-
mavam necessariamente uma frente coesa, pois, ao que parece, defen-
diam interesses diferentes. Paulo observa que os judeus exigem sinais
miraculosos e os gregos buscam sabedoria (1.22). Ele tinha de lidar
com membros com concepções errôneas acerca da fé cristã, entre os
quais estavam aqueles que ensinavam que não há ressurreição (15.12).
Influenciados pela filosofia grega, alguns negavam completamente a
ressurreição. Outros estavam fascinados pela oratória dos sofistas gre-
gos, que atraía muitos ouvintes. Quando chegou a Corinto depois de
sua humilhante experiência no Areópago de Atenas (At 17.16-34), Paulo
afirmou não ter vindo aos coríntios “com ostentação de linguagem ou
de sabedoria” (2.1). Os sofistas em Atenas acreditavam possuir os te-
souros da sabedoria e seus seguidores procuravam imitá-los. Paulo não
possuía o dom da eloqüência que Apolo tinha (comparar com 2Co 10.10;
11.6); conseqüentemente, Apolo era admirado e Paulo desprezado por
alguns em Corinto.
29
Paulo menciona Apolo sete vezes, nessa epístola,
sempre com apreço, a seu companheiro de trabalho (1.12; 3.4, 5, 6, 22;
4.6; 16.12).
E. Teologia
Para os escritores do Novo Testamento, as Escrituras do Antigo
Testamento eram uma fonte fundamental de informação. Os evangelis-
tas, especialmente Mateus, mostram que Jesus baseou-se exclusiva-
mente nas Escrituras para o seu ensino. Com o Antigo Testamento em
28. Comparar com Andrew D. Clarke, “Secular and Christian Leadership in Corinth”,
TynB 43 (1922): 395-98.
29. Consultar Bruce W. Winter, “Are Philo and Paul Among the Sophists? A Hellenistic
Jewish and a Christian Response to a First Century Movement”, dissertação de doutorado,
Macquaire University, 1988.
33 INTRODUÇÃO
mãos, o autor da epístola aos Hebreus ensina a superioridade de Cristo
e da doutrina do sacerdócio. Em suas epístolas aos Coríntios, Paulo
apóia a sua doutrina com citações das Escrituras do Antigo Testamento
e, inclusive, de um dito de Jesus.
Por exemplo, Paulo termina suas instruções a respeito do homem
incestuoso fazendo uma citação do texto grego de Deuteronômio 17.7:
“Expulse o homem mal do seu meio” (5.13). Ele denuncia a imoralida-
de sexual com uma citação da instituição do casamento no paraíso (Gn
2.24; 1Co 6.16). Sua discussão sobre o divórcio começa com os ensi-
namentos de Jesus que estão registrados nos Evangelhos.
30
Jesus tam-
bém faz referência à instituição do casamento (Gn 2.24), à qual ele
acrescenta o seu próprio ensino: “O que Deus ajuntou não o separe o
homem”(Mt 19.6). Paulo apresenta esse dito com suas próprias pala-
vras, dizendo: “Uma mulher não deve se separar de seu marido” (7.10).
Os exemplos tirados dos capítulos 5-7 revelam que Paulo se baseou
nas Escrituras para instruir os leitores na moralidade social e sexual.
31
As Escrituras são a base da teologia de Paulo. Não apenas ele cita
passagens do Antigo Testamento, como também alude a elas apresen-
tando paralelos verbais em outros lugares em suas duas epístolas co-
ríntias. Essas alusões e paralelos verbais são predominantemente dos
livros de Moisés,
32
dos Salmos e Provérbios, além de Isaías. A corres-
pondência coríntia está repleta de referências diretas e indiretas às Es-
crituras do Antigo Testamento.
Paulo apresenta Deus como o Pai, o Cristo e o Espírito Santo. Dis-
cute as doutrinas do pecado, da salvação e da santificação do homem e
da soberania de Deus. Além disso, compõem a teologia de Paulo a
doutrina da igreja em sua relação com o culto e a vida, e o ensino da
ressurreição.
1. Deus
Embora Paulo mencione repetidamente o nome de Cristo Jesus,
ele o apresenta em relação a Deus. Conseqüentemente, Paulo é um
30. Mateus 5.32; 19.3-9; Marcos 10.2-12; Lucas 16.18.
31. Brian S. Rosner, “‘Written for Our Instruction’”, TynB 43 (1992): 399-401.
32. Gênesis, doze ocorrências; Êxodo, 21; Levítico, três; Números, catorze, e Deuteronô-
mio, vinte.
34 INTRODUÇÃO
apóstolo de Cristo Jesus, mas pela vontade de Deus (1.1); a saudação é
primeiro da parte de Deus, o Pai, e, então, do Senhor Jesus Cristo (1.3).
Paulo dá graças a Deus pelos coríntios (1.4), os quais Deus chamou “à
comunhão de seu Filho Jesus Cristo” (1.9). Pela mensagem da cruz e
de Cristo, Deus é fonte de poder e sabedoria (1.18-25). Deus escolhe
as coisas fracas, loucas e humildes do mundo a fim de que se gloriem
no Senhor (1.26-31). Deus revela sua sabedoria oculta ao seu povo e
envia o seu Santo Espírito para que compreendam e discirnam os mis-
térios de Deus (2.10-15). Deus causa o crescimento na igreja pelos
seus servos; os membros da igreja são descritos como seu campo, edi-
fício e templo (3.5-17).
Para Paulo, o reino pertence a Deus. Ele se refere ao conceito reino
cinco vezes em sua epístola (4.20; 6.9, 10; 15.24, 50). Cristo Jesus
entregará o reino a Deus, o Pai, na consumação dos séculos (15.24). A
referência ao reino em 4.20 fala do poder atual do reino de Deus, mas
as demais passagens nessa epístola dizem respeito às bênçãos futuras
do reino vindouro. O povo de Deus herdará o reino vindouro junto
com Cristo em glória.
33
O credo judaico “ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único
SENHOR” (Dt 6.4) aparece na declaração de Paulo, “para nós há um só
Deus, o Pai” (8.6). Ele é o Criador e a plenitude de todas as coisas. Ao
empregar o termo Pai, Paulo indica que Deus o Pai, e o Filho Jesus
Cristo, são um. Mediante Cristo Jesus, Deus é também Pai de seu povo
(1.3). Além disso, no Antigo Testamento, Deus é Senhor; no Novo Tes-
tamento, porém, Cristo recebe esse título. Junto com outros autores do
Novo Testamento, Paulo não distingue entre o senhorio de Deus e de
Cristo; Deus realiza todas as coisas por meio de seu Filho Jesus Cristo.
Seguem alguns exemplos de como Paulo identifica essas duas Pessoas:
Antigo Testamento Novo Testamento
a mente do Senhor a mente de Cristo
o dia do Senhor o dia de nosso Senhor Jesus
o nome do Senhor o nome de nosso Senhor Jesus
a vontade de Deus a vontade do Senhor
33. Herman N. Ridderbos, Paul: An Outline of His Theology, trad. de John Richard de
Witt, (Grand Rapids: Eerdmans, 1975), p. 203. Noutra parte em suas epístolas, Paulo rela-
ciona o reino a Cristo e a Deus (Ef 5.5) e ao Filho amado de Deus (Cl 1.13).
35 INTRODUÇÃO
Paulo identifica a divindade de Jesus Cristo com Deus, o Pai, por
causa de sua experiência de conversão em Damasco, onde encontrou-
se com o Cristo ressuscitado.
34
Na igreja, Deus atua em todos os mem-
bros do corpo de Cristo: dispõe os membros, coordena o corpo e esta-
belece seus líderes (12.18, 24 e 28, respectivamente). Por fim, Deus é
um Deus de ordem e de paz (14.33).
2. Cristo
O leitor de 1 Coríntios impressiona-se pelo uso repetitivo da ex-
pressão, completa ou parcial, nosso Senhor Jesus Cristo. Paulo enfati-
za a verdade de que Cristo Jesus é Filho de Deus e Senhor de seu povo
(1.2, 9). Para o apóstolo e os destinatários de sua epístola, Jesus Cristo
é a figura central em toda a epístola: os que crêem são santificados em
seu nome, invocam o seu nome, recebem sua graça e são nele enrique-
cidos. Jesus Cristo incumbiu Paulo de pregar o evangelho (1.17), reve-
lou-lhe a fórmula da Ceia do Senhor (11.23-25) e transmitiu-lhe o con-
teúdo do evangelho (15.3-5). Esse evangelho recebe vários nomes: a
mensagem da cruz (1.18), pregar o Cristo crucificado (1.23) e o teste-
munho sobre Deus (2.1). A proclamação da ressurreição de Cristo é de
suprema importância (15.14) e os cristãos celebrando a Santa Ceia pro-
clamam a morte do Senhor até que ele venha (11.26).
35
Jesus Cristo é o verdadeiro Cordeiro pascal imolado como um sa-
crifício pelo seu povo (5.7). Como sacrifício definitivo pelo povo de
Deus, Cristo libertou o seu povo do pecado e da culpa (ver Is 53.6; Jo
1.29; Hb 9.26). Pelo sangue do cordeiro pascal que puseram nas om-
breiras de suas portas, os israelitas no Egito foram preservados do po-
der destruidor do anjo da morte (Êx 12.7, 13). De forma semelhante,
pelo seu sangue pascal derramado no Calvário, Cristo salva o seu povo
de sofrer a morte eterna. Participando do cálice da comunhão, os cris-
tãos ouvem as palavras de Jesus “Este cálice é a nova aliança no meu
sangue” (11.25) e sabem que ele, como supremo sacrifício, derramou
seu sangue por eles. Em vista disso, confessam com gratidão o ensino
34. Gordon D. Fee, “Toward a Theology of 1 Corinthians”, in Society of Biblical Litera-
ture 1989 Seminar Papers, org. por David J. Lull (Atlanta: Scholars, 1989), p. 271.
35. Consultar Victor P. Furnish, “Theology in 1 Corinthians: Initial Soundings”, in Soci-
ety of Biblical Literature 1989 Seminar Papers, org. por David J. Lull (Atlanta: Scholar,
1989), p. 260.
36 INTRODUÇÃO
do evangelho de que Cristo morreu por seus pecados (15.3). São liber-
tados do peso do pecado e da morte e receberam a vida eterna pela
morte de Jesus na cruz. Como convidados à mesa do Senhor, celebram
a festa da Páscoa.
O preço pago por Jesus para redimir o seu povo foi o seu sacrifício
na cruz. Paulo escreve, por duas vezes: “Vocês foram comprados por
um preço” (1Co 6.20; 7.23) como um lembrete aos coríntios de que a
redenção deles se realizou por meio da morte de Jesus. Paulo, em vári-
as partes de sua epístola, menciona a obra expiatória de Cristo: sua
morte na cruz (1.23; 2.2); em o nome do Senhor Jesus e no Espírito de
Deus os coríntios foram lavados, santificados e justificados (6.11); eles
não devem destruir um irmão por quem Jesus morreu (8.11). Além
disso, Cristo está sempre próximo de seu povo, como Paulo indica com
a referência à presença espiritual de Cristo durante a jornada de qua-
renta anos dos israelitas pelo deserto (10.4). Como esteve com o seu
povo no deserto, assim Cristo está com a igreja hoje e até o fim dos
tempos (Mt 28.20).
O Filho foi enviado para fazer a vontade de Deus, o Pai. Por meio
do Senhor Jesus Cristo, todas as coisas vieram a existir e, por meio
dele, o seu povo vive (8.6). Jesus Cristo é criador e fonte de vida do seu
povo. Mas como pertencemos a Cristo, Cristo pertence a Deus (3.23).
Paulo escreve que o cabeça da mulher é o homem, o cabeça de cada
homem é Cristo, e o cabeça de Cristo é Deus (11.3). A questão da
subordinação também aparece em outros lugares (15.28). Apesar de
todas as coisas terem sido subordinadas a Cristo Jesus, Cristo está su-
bordinado a Deus, o Pai. Conseqüentemente, observamos uma suces-
são ordenada: recebemos todas as coisas do Filho, que, por sua vez,
recebe todas as coisas de Deus, o Pai, “para que Deus seja tudo em
todos”.
A palavra de Jesus é definitiva quanto à separação de casais (7.10),
o direito de pregadores receberem seu sustento do evangelho (9.14) e
da impossibilidade de servir ao Senhor e aos demônios (10.21; compa-
rar com Mt 6.24; Lc 16.13). Além disso, o Senhor disciplina o seu
povo no sentido de julgá-lo (11.32; ver também 4.4). Por último, o que
Paulo escreveu aos coríntios é o mesmo que o mandamento do Senhor
(14.37).
37 INTRODUÇÃO
Paulo exorta os coríntios a imitá-lo, já que em Cristo Jesus ele se
tornou seu pai espiritual (4.15). Devem imitá-lo como ele imita a Cris-
to (11.1). Os ouvintes do evangelho de Cristo (15.3-5) devem servir ao
Senhor porque ele os cobriu de dons espirituais (1.7). Por causa de sua
salvação, foram enriquecidos em tudo. Essencialmente, são o corpo de
Cristo e, individualmente, membros dele (12.12, 20, 27). Embora aguar-
dem ansiosamente a sua volta, sabem que, quando ele vier, Deus trans-
formará todos aqueles que pertencem a ele num piscar de olhos
(15.22,23, 51,52). Por Cristo, Deus redime o seu povo, concede-lhes o
dom da imortalidade e lhes dá vitória (15.54-57). Finalmente, a fé em
Jesus efetua a união de Cristo com o seu povo, a qual garante a nossa
ressurreição, assim como Cristo também ressuscitou fisicamente den-
tre os mortos. “A redenção final do corpo é parte do triunfo supremo
do Filho Encarnado.”
36
3. Espírito Santo
Em suas referências ao Espírito de Deus, Paulo atribui, predomi-
nantemente, um papel instrumental à terceira Pessoa da Trindade. Mais
da metade dessas referências retratam o Espírito como agente a partir
de quem, por quem ou por meio de quem algo é dado, feito ou revela-
do. As demais passagens falam sobre a existência e o poder do Espírito
Santo. Examinaremos, a seguir, essas passagens.
Primeiro, Paulo enfatiza a obra do Espírito nos capítulos 2 e 12.
37
Nesses capítulos, fala do Espírito de Deus revelando verdades espiri-
tuais profundas e concedendo dons da graça aos que crêem. A prega-
ção do evangelho acontece somente pela operação eficaz do Espírito
de Deus. Paulo informa que não se apresentou aos coríntios “com os-
tentação de linguagem ou de sabedoria” (2.1). De modo nenhum. Não
se apresentou com palavras persuasivas de sabedoria, mas com uma
demonstração do poder do Espírito (2.4). Tendo recebido seu poder do
36. R. St. John Parry, The First Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians, Cambridge
Greek Testament for Schools and Colleges (Cambridge: Cambridge University Press, 1937),
p. lvi.
37. De um total de dezoito referências ao Espírito nessa epístola, sete ocorrem no capítulo
2, sete no capítulo 12, duas no capítulo 6 e, nos capítulos 3 e 7, uma vez em cada um.
Observe-se que Paulo menciona a expressão Espírito Santo apenas duas vezes (6.19; 12.3),
mas normalmente diz o Espírito ou o Espírito de Deus.
38 INTRODUÇÃO
Espírito, Paulo colocou a proclamação do evangelho num plano mais
elevado do que aquele da sabedoria humana.
38
Em segundo lugar, Deus possui a sabedoria secreta que revela ao
seu povo por meio do seu Espírito (2.7, 10). Apenas o Espírito de Deus
é capaz de compreender e revelar as profundezas de Deus. Essas pro-
fundezas são inquiridas e interpretadas pelo Espírito, que conhece os
pensamentos de Deus (2.10, 12). O Espírito ensina aos que crêem em
palavras espirituais, as quais o homem, sem a presença do Espírito, é
incapaz de compreender e, por isso, rejeita (2.13,14).
Terceiro, a estreita relação entre Deus e o Espírito não se evidencia
apenas na identificação do Espírito como sendo de Deus, mas também
como vindo da parte de Deus. Isso fica claro especialmente na asser-
ção de Paulo de que o corpo físico dos que crêem são o templo do
Espírito de Deus (3.16). Paulo diz: “o corpo de vocês é santuário do
Espírito Santo, que está em vocês, o qual vocês têm da parte de Deus”
(6.19). Ou seja, a presença santificadora do Espírito Santo nos cristãos
indica que o corpo físico é um templo no qual Deus se agrada habitar.
Os que crêem foram justificados espiritualmente no nome do Senhor
Jesus Cristo e pelo Espírito de Deus (6.11). Aliás, esse é o único lugar
no Novo Testamento que liga o Espírito Santo à obra da justificação
dos crentes. O Espírito santifica e também justifica o povo de Deus.
Quarto, o Espírito serve como agente de Deus em relação à salva-
ção do povo. Paulo descreve as atividades do Espírito com o uso de
algumas preposições (colocadas, abaixo, em itálico). Em sua discus-
são dos dons espirituais (cap. 12), Paulo menciona que uma pessoa é
capaz de confessar o senhorio de Jesus somente pelo Espírito Santo
(12.3). Os dons espirituais de sabedoria, conhecimento, fé e cura são
dados mediante o Espírito (12.8,9). Todos esses dons são obra do mes-
mo Espírito (12.11). E, por fim, Paulo escreve que nós, que formamos
o corpo de Cristo, somos todos batizados em um só Espírito (12.13).
Em resumo, o Espírito Santo é enviado por Deus, o Pai, para revelar
ao seu povo verdades espirituais para a sua salvação em Jesus Cristo.
Sua obra inclui a obra da santificação e justificação dos santos. E ele
concede aos crentes dons espirituais para a edificação do corpo de Cristo.
38. Donald Guthrie, New Testament Theology (Downers Grove: Inter-Varsity, 1981), p. 550.
39 INTRODUÇÃO
4. Igreja
Dentre todas as suas epístolas, é na correspondência coríntia que
Paulo emprega a palavra igreja com maior freqüência.
39
Ele fundou muitas
igrejas e permaneceu em Éfeso por quase três anos, bem mais do que os
dezoito meses que esteve em Corinto. Todavia, tinha um interesse espe-
cial no bem-estar espiritual da igreja de Corinto, a qual ele aconselhou
por meio de cartas, emissários (Timóteo e Tito) e visitas pessoais.
a. Natureza da Igreja
A congregação em Corinto demonstrou desdém pela unidade da
igreja local e, por implicação, da Igreja universal. Paulo compara a
igreja de Corinto com o corpo humano feito de muitos órgãos comple-
tamente dependentes uns dos outros. Esses órgãos formam um corpo
harmoniosamente reunido para funcionar apropriadamente. Assim é o
corpo espiritual de Cristo (12.12, 27).
Noutra parte, Paulo enfatiza a unidade da Igreja de Cristo com uma
referência à celebração da santa comunhão. “O pão que partimos não é
a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, embora muitos, somos
unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único
pão” (10.16b,17).
Esforçando-se pela unidade na Igreja universal, Paulo afirma repe-
tidamente que seu ensino e admoestações destinam-se a “cada igreja”
(4.17), “todas as igrejas” (7.17;11.16;14.33) e “igrejas”(14.34). Os da
Galácia expressaram homogeneidade com a comunidade de Corinto
por sua demonstração de um interesse comum em enviar um donativo
aos santos em Jerusalém (16.1-3). E as igrejas na província da Ásia
enviaram suas saudações à congregação de Corinto (16.19).
b. Culto
Quando os membros da igreja se reúnem regularmente, fazem-no
para adorar seu Senhor. Paulo dedica vários capítulos a esse assunto
específico (capítulos 11-14). Ensina primazia, prescreve decoro no vestir
quando homens e mulheres, respectivamente, oram e profetizam no
39. Das 61 ocorrências do termo ekklesia (igreja) nas epístolas de Paulo, 21 encontram-se
em 1 Coríntios, nove em 2 Coríntios, nove em Efésios, cinco em Romanos, quatro em
Colossenses, três em Gálatas, três em 1 Timóteo, duas em Filipenses, 1 Tessalonicenses e 2
Tessalonicenses, respectivamente, e uma em Filemom.
40 INTRODUÇÃO
culto, discute aparência aceitável, critica com severidade distinções de
classe e comportamento inconveniente à mesa do Senhor, transmite as
palavras da instituição da Comunhão, instrui os coríntios a examina-
rem-se a si mesmos antes de participarem dos elementos sagrados e
exorta os coríntios a exercitarem moderação (11.3-34).
Paulo recapitula o ensino sobre a celebração da ceia do Senhor,
sem omitir uma referência à confissão de fé “Jesus é Senhor” (12.3) e
ao batismo como uma iniciação ao corpo de Cristo (12.13). Nesse con-
texto, o batismo significa ser batizado com o Espírito de Cristo.
40
c. Dons
No contexto de três capítulos (12-14), Paulo reflete sobre os dons
espirituais que Deus deu à igreja. Esses dons variam desde o da sabe-
doria até o de falar em línguas e interpretá-las (12.8-10). Para benefí-
cio da igreja, Deus instituiu apóstolos, profetas, mestres, operadores
de milagres, dons de curar, socorros, governos e variedade de línguas e
intérpretes (12.28-30). Depois de listar esses dons espirituais, Paulo
discute em detalhes a prática coríntia da profecia e do falar em línguas.
Dentre esses dois dons, ele considera a profecia superior ao falar em
línguas. A profecia deve edificar, fortalecer e encorajar os crentes (14.3).
Paulo permite o falar em línguas somente quando isso comunica ver-
dades inteligíveis à igreja para a edificação e instrução, ordenadamen-
te e num contexto de amor (14.6-19). Não sendo esse o caso, o que fala
deve ficar calado (14.28).
d. Disciplina
Detectamos um relacionamento desgastado entre Paulo e a igreja
em quase cada capítulo dessa epístola.
41
Novos convertidos gentios
tentaram introduzir a sabedoria e o espírito do mundo na igreja (2.5,
12; 3.1, 3, 19). Alguns dos membros eram tão arrogantes que queriam
tomar de Paulo a liderança da igreja. Até mesmo punham em dúvida a
validade de seu apostolado (9.1-3). Por isso, Paulo os censura aspera-
40. Comparar com Guthrie, New Testament Theology, p. 755; Ridderbos, Paul, p. 373.
41. Gordon D. Fee (The First Epistle to the Corinthians in New International Commenta-
ry on the New Testament series [Grand Rapids: Eerdmans, 1987], p. 8, n. 22) exclui a
discussão de Paulo sobre o casamento (7.1-40) e sobre o decoro no culto (11.2-16). Mas
mesmo essa última passagem não está livre de controvérsia (ver 11.16).
41 INTRODUÇÃO
mente e pergunta se deveria ir ter com eles “com vara ou com amor e
espírito de mansidão” (4.21).
A congregação de Corinto não foi capaz de exercer sua responsabi-
lidade como corpo e expulsar um homem incestuoso de seu meio. Pau-
lo teve de instruí-los a exercer disciplina (5.5, 13). Também censurou o
comportamento imoral de algumas pessoas que queriam aplicar a li-
berdade cristã aos costumes sexuais (6.12). Proibiu os coríntios de irem
aos templos pagãos para refeições de comunhão, porque participar da
comida oferecida a um ídolo anula a comunhão com Cristo à sua mesa
(8.1-13; 10.1-22). Em vez de viverem como cristãos numa sociedade
pagã, alguns coríntios estavam vivendo como pessoas mundanas numa
comunidade cristã.
O mandamento de Paulo para que houvesse ordem à mesa do Se-
nhor e sua instrução em defesa do culto edificante são medidas corre-
tivas que a igreja deveria implementar (11.17-34; 14.1-35). Como uma
última censura àquelas pessoas que se julgam espiritualmente dotadas,
Paulo afirma que suas palavras são divinamente inspiradas porque Je-
sus está falando por intermédio dele (14.36,37). Aqueles que arrogan-
temente repudiam o ensino de Paulo deveriam saber que Deus os repu-
dia (14.38; comparar com Mt 10.33; 2Tm 2.12).
5. Ressurreição
De todos os escritos de Paulo, 1 Coríntios 15 figura como o capítu-
lo por excelência sobre a ressurreição. O fato redentor de que Cristo
ressuscitou dos mortos é para todos os crentes a garantia de que tam-
bém eles ressuscitarão (6.14; 15.15,16). Paulo descreve Cristo como
as primícias daqueles que morreram (15.20, 23). Quando as primícias
dos grãos maduros são colhidas, a própria colheita está próxima.
Alguns coríntios negavam a ressurreição (15.12). Se eles espirituali-
zavam sua própria ressurreição dos mortos ou não, o fato permanece de
que Paulo ensina a ressurreição física do povo de Deus.
42
Ele apresenta
essa doutrina por meio de um paralelismo tipicamente semita (15.21,22):
pelo homem veio a morte
pelo homem veio a ressurreição dos mortos
42. Para uma discussão abrangente, ver Anthony C. Thiselton, “Realized Eschatology at
Corinth”, NTS 24 (1977-78), 510-26.
42 INTRODUÇÃO
todos os que estão em Adão morrem
todos os que estão em Cristo serão levantados.
Paulo menciona Adão, que é o cabeça da raça humana, e Cristo,
que é o cabeça de todo o seu povo. O primeiro Adão, pela desobediên-
cia, trouxe a maldição da morte sobre a raça humana; o segundo Adão
removeu a maldição e concede vida eterna a todos os que nele crêem.
O primeiro Adão veio do pó da terra, o segundo Adão, contudo, desceu
do céu (15.45-49). Paulo afirma que Adão tornou-se um ser vivo, mas
Cristo, um espírito vivificador. O contraste é incomparável, porque Cris-
to tem a autoridade de erguer seu povo da sepultura e transformá-los em
corpos gloriosos e realizar esse ato redentor num piscar de olhos (15.52).
A conclusão do longo discurso de Paulo sobre escatologia soa como
uma nota de triunfo. Das profecias de Isaías e Oséias (Is 25.8; Os 13.14),
Paulo cita versos que falam sobre a morte: “Tragada foi a morte pela
vitória” e: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu
aguilhão?”. Nessas duas passagens do Antigo Testamento, contudo,
não aparece a palavra vitória. A profecia de Isaías lê: “Tragará a morte
para sempre”, e Oséias tem: “onde estão, ó morte, as tuas pragas? Onde
está, ó inferno, a tua destruição?”. Paulo substitui livremente as pala-
vras da Escritura pelo termo vitória com o qual culmina o seu discurso
sobre a ressurreição.
Paulo escreveu suas cartas aos Coríntios fazendo citações diretas e
adaptadas do Antigo Testamento, além de alusões a ele. Seus escritos,
respirando o ar das Escrituras, demonstram a ação do Espírito Santo,
que é seu principal autor. O Espírito de Deus confere a Paulo autorida-
de apostólica para usar e adaptar passagens do Antigo Testamento na
apresentação de verdades inspiradas ao povo de Deus. As Escrituras
não só sustentam o ensino de Paulo, mas também indicam que seus
escritos encontram-se em linha de continuidade com a Palavra de Deus
revelada. Quando Paulo afasta-se, por vezes, das palavras exatas do
texto do Antigo Testamento, sua atenção não se dirige a palavras espe-
cíficas, mas ao contexto daquela passagem. Em conclusão, para sua
teologia, Paulo explica o texto do Antigo Testamento para que sirva à
linha mestra de sua mensagem inspirada.
43
43. Ver E. Earle Ellis, “How the New Testament uses the Old”, in New Testament Inter-
43 INTRODUÇÃO
F. Autenticidade
Uma das cartas mais importantes de Paulo, essa epístola possui
credenciais tanto internas como externas que provam a autoria pauli-
na. Comecemos com a evidência interna.
1. Evidência Interna
Primeiro, a própria carta atesta a autoria paulina, pois em muitos
lugares Paulo faz referências a si mesmo (1.1, 12, 13; 3.4, 5, 22; 16.21).
Segundo, a saudação, o endereçamento, a bênção e a ação de gra-
ças no começo, e as saudações e doxologia na conclusão da carta são
semelhantes às de outras epístolas de Paulo.
Terceiro, referências cruzadas a Atos e às epístolas paulinas em
diversos lugares confirmam os nomes e os assuntos discutidos nessa
carta. O nome Sóstenes aparece tanto em 1 Coríntios como em Atos.
Na abertura de 1 Coríntios, Sóstenes aparece como remetente junto
com Paulo (1.1) e, em Atos, Lucas menciona que Sóstenes era o princi-
pal da sinagoga em Corinto que foi espancado diante do tribunal de
Gálio (At 18.17). Paulo batizou Crispo (1.14) e Lucas escreve que Crispo
era o principal da sinagoga local que converteu-se com toda a sua casa
(At 18.8). Áqüila e Priscila enviam saudações à igreja de Corinto
(16.19); alguns poucos anos antes haviam estado entre os primeiros
membros dessa igreja (At 18.2,3; ver também Rm 16.3). As referênci-
as cruzadas a passagens paralelas em outras epístolas paulinas são nu-
merosas demais para serem mencionadas. Toda a evidência aponta in-
questionavelmente para o apóstolo Paulo.
2. Evidência Externa
Ao final do século I, Clemente de Roma refere-se a essa epístola
como “a carta do bendito Paulo, o Apóstolo”; a Epístola de Barnabé
tem semelhanças textuais com 3.1, 16 e 18; e a Didache traz a expres-
são aramaica Maranatha que também ocorre em 16.22.
44
Durante o século II, a autenticidade da epístola de Paulo estava
estabelecida. Justino Mártir cita diretamente de 11.19 no capítulo 35
pretations: Essays on Principles and Methods, org. por I. Howard Marshall, (Grand Rapi-
ds: Eerdmans; Exeter: Paternoster, 1977), pp. 199-219.
44. Respectivamente, 1 Clemente 47.1; Barnabé 6.11; e Didache 10.6.
44 INTRODUÇÃO
de sua obra Dialogue with Trypho. Marcião colocou 1 Coríntios em
seu cânone. No último quartel desse século, o cânone Muratório atri-
bui as cartas aos Coríntios a Paulo e as coloca encabeçando a lista das
epístolas paulinas. Além disso, Irineu, Clemente de Alexandria e Ter-
tuliano fazem muitas citações dessa epístola.
3. Integridade
Estudiosos que questionam a unidade de 1 Coríntios chamaram a
atenção para a desconexão entre os assuntos apresentados. Vêem con-
tradições na composição. Para ilustrar, Paulo informa aos coríntios que
os visitará em breve (4.19) mas no último capítulo faz alusão a uma
demora (16.5, 6). Paulo mostra uma atitude irredutível com relação à
participação em sacrifícios oferecidos a um ídolo (10.1-22), mas é bran-
do em sua discussão sobre a liberdade de consciência (10.23–11.1).
Nos primeiros quatro capítulos de sua epístola, Paulo reflete sobre a
questão da apostolicidade, assunto que aparece de novo no capítulo 9.
De acordo com alguns estudiosos, esses são apenas três exemplos que
ilustram falta de coerência.
45
Não imaginamos que Paulo, com ou sem a ajuda de um escriba,
compôs a carta de uma só vez, sem interrupções. Por causa das muitas
obrigações em Éfeso (ver At 19.8-10; 20.20, 21, 34), Paulo escreveu a
epístola aos poucos e essa inevitável protelação contribuiu para mu-
danças repentinas em sua redação. Além disso, tendo em vista pausas
literárias em outras cartas de Paulo (ver, por exemplo, Rm 5.12-19 e
15.33; 16.20, 25-27), concluímos que essa peculiaridade é uma de suas
características. E, finalmente, Paulo recebeu informação sobre os co-
ríntios da parte de visitantes (1.11; 16.17), por carta (7.1) e por relatos
(5.1; 11.18). Sem dúvida nenhuma, ele conversou com esses mensa-
geiros sobre os problemas que preocupavam a igreja em Corinto.
Não podemos refazer a seqüência da composição da epístola, a não
ser recorrendo a hipóteses que são, elas mesmas, regidas por muitas
variações.
46
Contudo, as transições bruscas na carta devem ser vistas
45. Jean Héring, The First Epistle of Saint Paul to the Corinthians, trad. de A. W. Hea-
thcote e P. J. Allcock, (Londres: Epworth, 1962), p. xiii.
46. Ver a pesquisa de John C. Hurdt, Jr., The Origin of I Corinthians, 2ª ed. (Marcon, Ga.:
Mercer University Press, 1983), pp. 43-58.
45 INTRODUÇÃO
contra o pano de fundo que foi o fato de Paulo receber informação
periódica e reagir a ela. A carta é uma compilação de tópicos frouxamen-
te conectados entre si. Leon Morris conclui: “Não é um tratado teológico
sistemático, mas uma tentativa genuína de tratar uma situação concreta
da vida, uma situação que reclamava um pronunciamento apostólico em
mais do que um tema. Assim, Paulo passa naturalmente de um assunto a
outro, algumas vezes com pouco material de transição.”
47
G. Características
Vemos a epístola de Paulo aos Romanos como a carta patente do
Cristianismo, em que o apóstolo apresenta as doutrinas a respeito do
pecado, da salvação e do culto. Sabemos que alguns poucos capítulos
finais de Romanos (cap. 12-16) são dedicados a questões práticas rela-
tivas à vida da igreja. Por contraste, 1 Coríntios é, do princípio ao fim,
uma epístola que revela o cuidado pastoral de Paulo para com a con-
gregação de Corinto. O apóstolo não dá recomendações práticas so-
mente àquela igreja particular, mas a toda a igreja cristã. A série de
questões discutidas por Paulo em 1 Coríntios é suficientemente ampla
para que os membros de cada congregação possam de bom grado re-
correr a ela para orientação.
Uma primeira característica é que a epístola é excepcionalmente
abrangente no tratamento de problemas que a igreja precisa enfrentar:
cismas, respeito pela liderança, litígios, casamentos desfeitos, práticas
e influências mundanas, feminismo na igreja, problemas graves no culto,
concepções erradas sobre a consumação dos tempos e a coleta de do-
nativos para os pobres.
Segunda, Paulo se expressa de forma pessoal ao discutir os proble-
mas práticos dos coríntios. Atende aos membros da igreja como um
pastor que tem interesse pessoal em seu bem-estar espiritual. A marca
registrada dessa epístola é o pronome pessoal eu, que aparece repetida-
mente em todos os seus dezesseis capítulos.
Terceira, o estilo no qual 1 Coríntios foi escrita é notavelmente
bom. Paulo demonstra um domínio do grego que em determinados lu-
gares rivaliza com o estilo de autores clássicos; Paulo usa um grande
47. Leon Morris, “Corinthians, First Epistle to the”, ISBE, vol 1., p. 775.
46 INTRODUÇÃO
número de palavras que são peculiares a essa carta.
48
A epístola revela
um tempero semítico por causa do uso freqüente que o autor faz de
passagens do Antigo Testamento; Paulo, inclusive, recorre ao emprego
das palavras aramaicas amém e maranata.
Quarta e última, Paulo faz muitas perguntas retóricas. Especial-
mente na primeira metade, ele repete a interrogação: “Vocês não sa-
bem que...?”.
49
Ele espera que os coríntios respondam afirmativamente
a essas perguntas, pois eles foram instruídos pelos apóstolos e seus
cooperadores. Portanto, ao fazer essas perguntas, Paulo refresca a me-
mória dos coríntios e constrói sobre o fundamento estabelecido no co-
meço dessa igreja.
H. Texto
O texto grego de 1 Coríntios tem o apoio de um papiro (P
46
) e dos
principais testemunhos (tanto unciais como minúsculas). O manuscri-
to em papiro tem todos os capítulos, mas eles estão incompletos. Os
manuscritos unciais que têm o texto completo de todos os capítulos
são os códigos Í, A, B, D, 06
abs
, L, Y, 056, 0142, 0150 e 0151.
50
Em
resumo, contando também os numerosos testemunhos que têm um tex-
to incompleto, a epístola conta com um texto grego firmemente estabe-
lecido.
Não obstante, a carta apresenta alguns poucos problemas textuais
que nenhum tradutor e comentador pode ignorar. Por exemplo, a leitu-
ra de 2.4 deveria ser “não em palavras persuasivas de sabedoria” ou
“não com persuasão de sabedoria”? É mínimo o apoio de manuscritos
para a segunda interpretação; em vista disso, os tradutores preferem a
primeira.
Primeira Coríntios 13.3 é outro texto crucial. Quase todos os tra-
dutores adotam a leitura “e ainda que entregue o meu próprio corpo
para ser queimado”. Mas a esmagadora maioria do apoio de manuscri-
tos para o texto grego é “e ainda que entregue o meu próprio corpo a
fim de me orgulhar” (NRSV). Apesar da força do testemunho externo,
48. Thayer relaciona um total de 110 palavras, pp. 704-706.
49. 1 Coríntios 3.16; 5.6; 6.2, 3, 9, 15, 16, 19; 9.13, 24.
50. Consultar Kurt Aland e Barbara Aland, The Text of the New Testament, trad de Eroll F.
Rhodes, (Grand Rapids: Eerdmans; Leiden: Brill,1987), tabela 6, encarte s/nº .
47 INTRODUÇÃO
os tradutores são influenciados pela evidência interna e escolhem a
leitura mais fraca, “para ser queimado”.
Por fim, alguns manuscritos ocidentais transpõem 14.34,35 para
depois de 14.40. Mas essa transposição não contou com uma reação
favorável; a razão para a mudança parece provir da inquietude dos
escribas. Estes sentiam-se desconfortáveis com a fraseologia da reco-
mendação de Paulo para as mulheres manterem-se em silêncio no cul-
to. Todavia, a fraseologia permanece a mesma depois da transposição
e afeta muito pouco, se é que o faz, a exegese da passagem. Os estudi-
osos que classificam esses versículos como uma glosa incorporada mais
tarde ao texto de 1 Coríntios carecem da necessária evidência textual
para substanciar seu argumento. Por enquanto, não se tem essa evidên-
cia. Contudo, é possível interpretar a passagem dentro do contexto ge-
ral para mostrar que o sentido é de fato lúcido e compreensível.
I. Propósito
Resumindo o conteúdo da epístola, podemos ser breves na afirma-
ção do propósito de 1 Coríntios. Primeiro, Paulo procurou promover
um espírito de unidade na igreja local e, ao mesmo tempo, mostrar aos
leitores que eles eram parte da igreja universal. Segundo, o apóstolo
procurou corrigir uma série de tendências errôneas na comunidade de
Corinto. Uma delas era a apatia quanto ao exercício da disciplina com
relação ao homem incestuoso. Terceiro, Paulo respondeu as perguntas
que lhe haviam sido submetidas por carta (7.1) e por uma delegação
(16.17). Quarto e último ponto, a epístola de Paulo instrui os cristãos
em Corinto a coletar fundos para socorro aos santos necessitados em
Jerusalém.
J. Esboço
Um esboço simples de 1 Coríntios pode ser memorizado sem mui-
to esforço. Além das observações introdutórias e da conclusão, a epís-
tola consiste da resposta de Paulo aos problemas e preocupações da
igreja em Corinto.
1.1-9 I. Introdução
1.10-6.20 II. Resposta aos Problemas Relatados
A. Divisões na Igreja 1.10-4.21
48 INTRODUÇÃO
B. Imoralidade e Litígios 5.1-6.20
7.1-16.4 III. Resposta às Preocupações dos Coríntios
A. Problemas Relativos ao Casamento 7.1-40
B. Alimento Oferecido aos Ídolos 8.1-13
C. Apóstolos e Direitos 9.1-27
D. Admoestações e Liberdade 10.1-11.1
E. Culto 11.2-14.40
F. A Ressurreição 15.1-58
G. Coleta para o Povo de Deus 16.1-4
16.5 – 24 IV. Conclusão
A. Solicitações de Paulo 16.5-18
B. Exortações e Saudações 16.13-24
Um esboço completo com todas as rubricas e detalhes fica assim:
I. 1.1-9 Introdução
1.1-3 A. Saudações
1.4-9 B. Ação de Graças
II. 1.10-6.20 A Resposta de Paulo aos Problemas Relatados
1.10-4.21 A. Divisões na Igreja
1. Facções 1.10-17
2. A Loucura da Cruz 1.18-2.5
3. Sabedoria do Espírito 2.6-16
4. Cooperadores de Deus 3.1-23
5. Servos de Cristo 4.1-21
5.1-6.20 B. Imoralidade e Litígios
1. Incesto 5.1-8
2. Excomunhão 5.9-13
3. Litígios 6.1-11
4. Imoralidade 6.12-20
III. 7.1-16.4 A Resposta de Paulo às Preocupações dos Coríntios
7.1-40 A. Problemas Relativos ao Casamento
1. Conduta Apropriada 7.1-7
2. Fidelidade e Matrimônio 7.8-11
3. Crente e Descrente 7.12-16
4. Uma Digressão 7.17-24
5. Virgens e Casamento 7.25-40
8.1-13 B. Alimento Oferecido aos Ídolos
1. Conhecimento 8.1-3
2. Unidade 8.4-6
49 INTRODUÇÃO
3. Consciência 8.7,8
4. Pecado 8.9-13
9.1-27 C. Apóstolos e Direitos
1. Direitos Apostólicos 9.1-12
2. Renúncia de Direitos 9.13-18
3. Liberdade Apostólica 9.19-27
10.1-11.1 D. Admoestações e Liberdade
1. Admoestações Provenientes
da História 10.1-13
2. Admoestações contra a
Idolatria 10.14-22
3. Liberdade de Consciência 10.23–11.1
11.2-14.40 E. Culto
1. Homem e Mulher em
Adoração 11.2-16
2. A Ceia do Senhor 11.17-34
3. Dons Espirituais 12.1-31
4. Carta de Amor 13.1-13
5. Profecia e Línguas 14.1-25
6. Conduta Disciplinada 14.26-40
15.1-58 F. A Ressurreição
1. Ressurreição de Cristo 15.15.1-8
2. A Apostolicidade de Paulo 15.9-11
3. Ressurreição dos Mortos 15.12-34
4. Analogias ao Corpo da
Ressurreição 15.35-44a
5. Corpos Físico e Espiritual 15.44b-49
6. Imortalidade e Vitória 15.50-57
7. Uma Exortação 15.58
16.1-4 G. Coleta para o Povo de Deus
IV. 16.5-24 Conclusão
16.5-12 A. Solicitações de Paulo
1. Planos de Viagem de Paulo 16.5-9
2. Chegada de Timóteo 16.10,11
3. Relutância de Apolo 16.12
16.13-24 B. Exortações e Saudações
1. Admoestações Finais 16.13-18
2. Saudações Finais 16.19-24
50 INTRODUÇÃO
51 INTRODUÇÃO
COMENTÁRIO
52
53
1
Introdução
(1.1-9)
e
Divisões na Igreja, parte 1
(1.10-31)
54
ESBOÇO
1.1-9
1.1-3
1.4-9
1.10 – 6.20
1.10-4.21
1.10-17
1.18 – 2.5
1.18 – 20
1.21-25
1.26-31
I. Introdução
A. Saudações
B. Ação de Graças
II. A Resposta de Paulo aos Problemas Relatados
A. Divisões na Igreja
1. Facções
2. A Loucura da Cruz
a. Os Perdidos e os Salvos
b. Sabedoria e Loucura
c. Os Fracos e os Fortes
55
CAPÍTULO 1
1
1. Paulo, chamado pela vontade de Deus para ser apóstolo de Jesus Cristo, e
nosso irmão Sóstenes, 2. à igreja de Deus que está em Corinto, aos santifica-
dos em Cristo Jesus, chamados para ser santos, com todos os que em todo lugar
invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso: 3. Graça a
vocês todos e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.
4. Sempre dou graças a meu Deus no que diz respeito a vocês, a propósito da
sua graça, que lhes foi dada em Cristo Jesus, 5. porque nele vocês foram enrique-
cidos de todas as formas, em toda a palavra e em todo o conhecimento, 6. assim
como o testemunho de Cristo foi confirmado em vocês, 7. de maneira que não
falte a vocês nenhum dom espiritual enquanto aguardam ansiosamente a revela-
ção de nosso Senhor Jesus Cristo. 8. Ele também os confirmará até o fim, e os
conservará irrepreensíveis no Dia de nosso Senhor Jesus Cristo. 9. Fiel é Deus,
pelo qual vocês foram chamados à comunhão de seu Filho, Jesus Cristo nosso
Senhor.
I. Introdução
1.1-9
A. Saudações
1.1-3
Esta é a primeira das três principais epístolas (1 Coríntios, 2 Corín-
tios e Romanos) que Paulo escreveu. Suas epístolas anteriores tinham
sido as duas cartas à igreja em Tessalônica e sua carta aos Gálatas
(normalmente aceita como a primeira epístola composta por Paulo).
1
Conforme essas primeiras epístolas e as cartas aos Coríntios que foram
preservadas atestam, eram as controvérsias e as perguntas que compe-
1. Alguns estudiosos datam a composição de Gálatas em 48/49 d.C., outros ou em 51/52
ou 53 d.C. Paulo escreveu 1 Coríntios provavelmente em 55 d.C. (ver a Introdução ao
comentário).
56
liram Paulo a escrever. A necessidade de escrever é mais evidente em 1
Coríntios do que em qualquer outra epístola paulina.
William Hendriksen observa: “Dentre todas as epístolas de Paulo
não há outra que cubra uma tão ampla variedade de assuntos e proble-
mas, cobrindo temas que vão desde litígios, casamento e divórcio, ali-
mentos oferecidos aos ídolos, remuneração de ministros, conduta apro-
priada nos cultos, celebração da ceia do Senhor, o falar em línguas, fé
na ressurreição até o exercício da caridade cristã”.
2
1. Paulo, chamado pela vontade de Deus para ser apóstolo de
Jesus Cristo, e nosso irmão Sóstenes.
a. Nome e chamado. “Paulo, chamado para ser um apóstolo de Je-
sus Cristo.” Como faz em todas as suas outras epístolas, Paulo começa
essa carta apresentando-se como o autor e remetente. Ele afirma enfa-
ticamente que foi chamado (ver também Rm 1.1; Gl 1.15). Por ocasião
da conversão de Paulo, Jesus pessoalmente o chamou para ser um após-
tolo aos gentios (At 9.15). Foi ordenado para esse ofício quando o
Espírito Santo o separou e a Barnabé “para a obra que os tenho chama-
do” (At 13.2). Noutra parte, Paulo declara que, como um apóstolo,
havia sido enviado por Jesus Cristo e por Deus o Pai (Gl 1.1). Em
suma, Paulo foi chamado pelo Deus Triúno: Pai, Filho e Espírito Santo.
Quando Jesus chamou Paulo para ser um apóstolo, deu-lhe a auto-
ridade divina de pregar o evangelho e para dirigir-se a todas as igrejas
(4.17; 7.17; 14.33b; 16.1). Conseqüentemente, ninguém na igreja de
Corinto podia legitimamente pôr em dúvida a condição de apóstolo de
Paulo (comparar com 9.1,2). Se alguém fizesse isso, estaria se opondo
ao Senhor. Na maioria de suas cartas, Paulo afirma que é um apóstolo
de Jesus Cristo.
3
Somente nas introduções de Filipenses, 1 e 2 Tessalo-
nicenses e Filemom é que Paulo omite a referência ao seu apostolado.
Ele usa a expressão um apóstolo de Jesus Cristo como uma fórmula de
introdução padrão que caracteriza suas epístolas. Sabe também que um
apóstolo age como o representante daquele que o enviou, Jesus Cristo,
cuja mensagem precisa comunicar corretamente. De certo modo, um
2. William Hendriksen, “1 Coríntios”, B of T 280 (1987), p. 27.
3. As referências (com pequenas variações) são estas: Romanos 1.1; 1 Coríntios 1.1; 2 Corín-
tios 1.1; Gálatas 1.1; Efésios 1.1; Colossenses 1.1; 1 Timóteo 1.1; 2 Timóteo 1.1; Tito 1.1.
1 CORÍNTIOS 1.1
57
apóstolo pode ser comparado a um embaixador (2Co 5.20) que repre-
senta em outro país o presidente ou primeiro ministro de seu governo.
“Pela vontade de Deus.” Declarando que seu apostolado baseia-se
na vontade de Deus,
4
Paulo efetivamente afirma que seu chamado como
apóstolo tem sua origem em Deus.
“Nosso irmão Sóstenes.” A ordem das palavras desse versículo in-
trodutório exclui Sóstenes do ofício apostólico. Paulo o apresenta como
“nosso irmão”, do que se conclui que Sóstenes é um cristão bem co-
nhecido dos crentes em Corinto. No entanto, Paulo o menciona apenas
uma vez em todas as suas epístolas. Talvez este Sóstenes fosse o prin-
cipal da sinagoga em Corinto que foi espancado no tribunal de Gálio
(At 18.17). Mas, face à falta de mais informações, podemos dizer ape-
nas que ele atuou como um cooperador de Paulo. Embora Paulo escre-
va o pronome “eu” em lugar de “nós” (por ex., nos vs. 4, 10, 14, 16),
estudiosos afirmam que Sóstenes apoiou Paulo na mensagem comuni-
cada aos coríntios.
5
2. À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em
Cristo Jesus, chamados para ser santos, com todos os que em todo
lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles
e nosso.
b. Destinatários. Paulo endereça sua carta “à igreja de Deus que
está em Corinto”. Ele escreve a palavra ekklhsia, uma expressão que
no mundo helenista de então era um termo técnico tradicional normal-
mente empregado para referir-se a reuniões políticas ou de agremia-
ções (comparar com At 19.32; 39, 41). Pela metade do século I, os
cristãos começaram a designar suas próprias assembléias como a igre-
ja (ekklhsia) em Cristo. Usavam o termo para distinguirem-se dos ju-
deus, que usavam a palavra synagogue para seus locais de reunião (com-
parar, porém, com o texto grego de Tg 2.2). Paulo distingue cuidadosa-
mente os encontros dos cristãos tanto das assembléias gentílicas como
das sinagogas judaicas. Observe como o faz em uma de suas primeiras
4. Ver 2 Coríntios 1.1; Efésios 1.1; Colossenses 1.1; 2 Timóteo 1.1.
5. Gordon D. Fee conjetura que Sóstenes possa ter atuado como secretário de Paulo (com-
parar com 16.21). The First Epistle to the Corinthians, New International Commentary on
the New Testament series (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), p. 31.
1 CORÍNTIOS 1.2
58
epístolas: “À igreja dos tessalonicenses, em Deus Pai e no Senhor Je-
sus Cristo” (1Ts 1.1; 2Ts 1.1). Paulo endereça suas duas epístolas aos
coríntios de forma semelhante: “À igreja de Deus que está em Corin-
to” (1Co 1.2; 2Co 1.1), sem ligar a igreja diretamente a Jesus Cristo.
No entanto, o conceito igreja pode ser compreendido apenas em rela-
ção a Jesus Cristo, pois a Igreja de Deus está nele.
6
“Aos santificados em Cristo Jesus.” A igreja pertence a Deus, o
qual, por meio de Jesus Cristo, chamou o seu povo do mundo para uma
vida de santidade. Seu povo não deixa o mundo (ver 5.10), mas de-
monstra ao mundo que foi santificado em Cristo Jesus. Apesar das
freqüentes brigas, facções e imoralidades dos coríntios, Paulo, não obs-
tante, os descreve como povo que foi santificado em Cristo Jesus (com-
parar com Ef 5.27).
7
Nessa epístola, Paulo primeiro afirma que os crentes
foram separados por Deus para viverem vidas santas e, depois, parado-
xalmente, aponta os seus pecados e faltas. Ele indica que, quando um
crente é santificado, está inteiramente cônscio do ato gracioso de Deus,
pois o cristão reconhece que é constantemente chamado para ser santo
(ver Rm 1.7) e para viver uma vida de santidade.
“Chamados para ser santos.” Santidade é mais do que um estado.
Para os que crêem, a santificação é tanto um ato definitivo de Deus
quanto um processo ao longo da vida.
8
O ato gracioso de Deus, pelo
qual ele santifica os crentes, inclui a responsabilidade destes de serem
santos. No grego, o verbo ser não aparece na expressão chamados para
ser santos, mas o propósito de Paulo é instruir seus leitores a cumpri-
rem seu compromisso de serem santos.
Paulo foi chamado para ser um apóstolo de Jesus Cristo e, assim,
comprometeu-se a ser porta-voz de Cristo. De forma semelhante, Deus
chamou os crentes ao estado de santidade e espera deles que pratiquem
a santidade. Esse chamado permanece eficaz tanto para o apóstolo como
6. Ver Lothar Coenen, NIDNTT, vol. 1, p. 299.
7. Consultar João Calvino, The First Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians, série
Calvins’s Commentaries, trad. de John W. Fraser, (reedição; Grand Rapids: Eerdmans, 1976),
p. 17.
8. Comparar com Anthony A. Hoekema, Saved by Grace (Grand Rapids: Eerdmans; Exe-
ter: Paternoster, 1989), pp. 202-3. Ver também William W. Klein, “Paul’s Use of Kalein: A
Proposal”, JETS 27 (1984): 56-64.
1 CORÍNTIOS 1.2
59
para os coríntios, de forma que, por toda a sua vida, eles permanecem
chamados.
9
“Com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Se-
nhor Jesus Cristo”. Com essas palavras, Paulo recebe cristãos gentios
e cristãos judeus como iguais na Igreja de Jesus Cristo. Paulo refere-se
à Igreja universal, na qual todos os crentes, em toda a parte, “invocam
o nome de nosso Senhor”, e associa os coríntios com todos os outros
crentes. Mas, acaso, estaria Paulo se dirigindo, nessa epístola, aos cren-
tes tanto em Corinto como em outros lugares? Embora as cartas de
Paulo fossem destinadas a serem lidas nas igrejas (Cl 4.16; 1Ts 5.27;
comparar também 2Pe 3.15,16), a epístola é especificamente dirigida à
igreja em Corinto. A segunda parte do versículo 2 enfatiza a unidade
que os cristãos mostram na oração quando invocam o nome de Jesus
Cristo. A oração une os cristãos diante do trono da graça.
“Senhor deles e nosso.” Paulo quer que os coríntios saibam que
pertencem ao corpo de crentes. Esse corpo está no mundo inteiro, pois
os crentes em toda parte reconhecem Jesus Cristo como Senhor. As-
sim, Paulo escreve “Senhor deles e nosso”. No texto grego, a palavra
Kyrios (Senhor) é omitida; na tradução, é determinada pelo contexto.
3. Graça a vocês todos e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do
Senhor Jesus Cristo.
c. Saudações. “Graça a vocês todos e paz, da parte de Deus, nosso
Pai, e do Senhor Jesus Cristo”. Essa é a saudação usual empregada por
Paulo na maioria de suas epístolas;
10
aparece também, de forma modi-
ficada, tanto nas cartas de Pedro como de João.
11
No mundo helenísti-
co, as pessoas saudavam-se umas às outras normalmente com a pala-
vra grega chirein (traduzida como “saudações”; por ex., At 15.23; 23.26;
Tg 1.1). Sua forma derivada charis significa “graça”. Os judeus, con-
tudo, saudavam-se uns aos outros com o termo shalom (paz). Na litera-
tura epistolar da Igreja Cristã, as duas expressões, graça e paz, apare-
9. F. W. Grosheide, Commentary on the First Epistle to the Corinthians: The English Text
with Introduction, Eposition and Notes, New International Commentary on the New Testa-
ment series (Grand Rapids: Eerdmans, 1953), p. 23.
10. Romanos 1.7; 2 Coríntios 1.2; Gálatas 1.3; Efésios 1.2; Filipenses 1.2; 2 Tessaloni-
censes 1.2; Filemom 3; e, com pequenas diferenças, em Colossenses 1.2; 1 Tessalonicenses
1.1 e Tito 1.4.
11. 1 Pedro 1.2; 2 Pedro 1.2; 2 João 3. Ver também o prólogo de 1 Clemente.
1 CORÍNTIOS 1.3
60
cem juntas e têm um sentido decididamente teológico. R. C. H. Lenski
observa que “graça está sempre antes, e paz, sempre depois. Isso se
deve ao fato de que graça é a fonte de paz. Sem graça, não há nem pode
haver paz; mas quando a graça é nossa, a paz necessariamente segue”.
12
Paulo junta graça e paz à sua fonte original: elas provêm “de Deus,
nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo”.
As virtudes da graça e da paz são dádivas de Deus aos seus filhos e
ele concede esses benefícios como um Pai. Em harmonia com a oração
do Senhor, na qual Jesus ensinou seus seguidores a dizer “Pai nosso”,
Paulo retrata Deus como Pai. Por essa razão, todos os crentes são fi-
lhos de Deus por meio de Cristo. E, por meio dele, recebem as bênçãos
da graça e da paz.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 1.1,2
Versículo 1
avpo,stoloj – esse substantivo é precedido por klhto,j (chamado) para
indicar que Paulo sofreu a ação enquanto Deus realizou a ação de desig-
nar Paulo como apóstolo.
Versículo 2
h`giasme,noij – o particípio perfeito passivo no dativo plural está colo-
cado como aposto ao substantivo igreja, que coletivamente está no dativo
singular. Nesse texto, o verbo a`gia,zw (eu santifico) refere-se a um ato
definitivo de Deus. O tempo perfeito denota ação completada com resul-
tado duradouro. A voz passiva indica que Deus é o agente e que ele santi-
fica os coríntios em Cristo. “O principal conceito do termo é o de perten-
cer a Deus; ele contém o dever de ser semelhante a ele no caráter.”
13
B. Ação de graças
1.4-9
Por todas as bênçãos espirituais e materiais que ele e os destinatá-
rios de suas cartas possuem, Paulo fielmente dá graças a Deus. Nos
12. R. C. H. Lenski, The Interpretation of the St. Paul’s First and Second Epistle to the
Corinthians (1935; Columbus: Wartburg, 1946), p. 28.
13. R. St. John Parry, The First Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians, Cambridge
Greek Testament for Schools and Colleges (Cambridge: Cambridge University Press, 1937),
p. 30.
1 CORÍNTIOS 1.1, 2
61
versículos iniciais de suas epístolas, suas palavras são, invariavelmen-
te, de gratidão pelas pessoas a quem escreve.
14
4. Sempre dou graças a meu Deus no que diz respeito a vocês, a
propósito da sua graça, que lhes foi dada em Cristo Jesus.
Ao escrever “sempre dou graças a meu Deus no que diz respeito a
vocês”,
15
Paulo revela seu coração pastoral. Ele ora pelas igrejas que
fundou e agradece a Deus por elas. Usa o advérbio sempre para modi-
ficar a locução dar graças. Mas como Paulo pode expressar sua grati-
dão a Deus pela igreja de Corinto? Os membros haviam lhe causado
enorme tristeza com suas divisões, imoralidade, problemas conjugais
e litígios. Paulo pode escrever com precisão a palavra sempre? Trata-
se de uma fórmula que ele está empregando no começo de sua epísto-
la? Não. O coração de Paulo está repleto de gratidão porque Deus quis
chamar seu povo para fora do ambiente imoral e idólatra de Corinto.
Até mesmo ali Deus estabeleceu a igreja em comunhão com Jesus Cristo
(v. 9). Por essa razão ele pode agradecer a Deus sem cessar.
“A propósito da sua graça, que foi dada a vocês em Cristo Jesus”.
Essa é a segunda vez, no espaço de dois versículos (vs. 3 e 4), que
Paulo usa a palavra graça. No grego, a raiz dessa palavra aparece tam-
bém em dar graças (v. 4) e em dom (v. 7). Em resumo, Paulo enfatiza
o conceito graça nesses versículos. Qual a importância desse concei-
to? Paulo está maravilhado com a graça de Deus, na forma de dons
espirituais, derramados liberalmente sobre os cristãos coríntios (ver,
por ex., a enumeração de dons em 12.4-11). A graça de Deus se eviden-
cia nos dons que concede ao seu povo.
Observe que Paulo usa a voz passiva na segunda metade desse ver-
sículo. Deus deu graça aos coríntios. Ele é o agente implícito e os co-
ríntios são os beneficiários passivos (ver Rm 12.6; 2Co 8.1). Paulo dá
graças pela fidelidade de Deus aos crentes de Corinto, mas ele não
menciona coisa alguma sobre quaisquer virtudes próprias dos corínti-
14. Romanos 1.8; Filipenses 1.3,4; 1 Tessalonicenses 1.2; 2 Tessalonicenses 1.3; File-
mom 4. Comparar com Efésios 5.20; Colossenses 1.3; 1 Tessalonicenses 2.13; 2 Tessaloni-
censes 1.3. Ver Peter T. O’Brien, Introductory Thanksgiving in the Letters of Paul (Leiden:
Brill, 1977), pp. 108-16; e “Thanksgiving and the Gospel in Paul”, NTS 21 (1974): 144-55.
15. Dois manuscritos gregos (códigos Sinaiticus e Vaticanus) omitem o pronome pessoal
meu.
1 CORÍNTIOS 1.4
62
os. Além disso, Paulo afirma que a graça de Deus foi dada em Jesus
Cristo, isto é, em Cristo, os beneficiários desta graça foram redimidos
e estão agora separados do mundo pagão no qual vivem.
5. Porque nele vocês foram enriquecidos de todas as formas,
em toda a palavra e em todo o conhecimento.
a. Tradução. Esse versículo exibe variantes de duas palavras cruci-
ais. A primeira palavra nessa frase pode ser traduzida como que (uma
conjunção introduzindo uma afirmação que completa a oração sempre
dou graças... ou como porque (uma conjunção causal que explica a
locução em Cristo Jesus). Os tradutores geralmente preferem a segun-
da opção.
A próxima variante é “nele” (NIV, RSV) ou, como aparece em al-
gumas traduções, “por ele” (KJV, NKJV). Como aposto à locução si-
milar da oração precedente (“em Cristo Jesus”), a leitura nele é prefe-
rível. Em Cristo, portanto, o crente recebeu incontáveis riquezas espi-
rituais.
b. Mensagem. Quando Paulo escreve “vocês foram enriquecidos
nele de todas as formas”, não está se referindo especificamente às pos-
sessões materiais dos coríntios. É possível que alguns deles sejam prós-
peros (v. 26), mas Paulo chama a atenção para seus tesouros espirituais
em Cristo (ver 3.21-23; numa passagem paralela, Paulo expressa o de-
sejo de que os coríntios pudessem se tornar ricos pela pobreza de Cris-
to [2Co 8.9; 9.11]). Deus tem incontáveis riquezas espirituais que de-
seja dar aos remidos por meio de Cristo.
16
De acordo com as Escritu-
ras, Deus é rico em bondade, paciência, misericórdia e graça (Rm 2.4;
9.23; Ef 1.7; 2.4). Cristo possui riquezas insondáveis (Ef 3.8), pois
nele se ocultam todos os tesouros do conhecimento e da sabedoria (Cl
2.3). Das gloriosas riquezas que estão em Cristo Jesus, Deus supre as
necessidades daquele que crê (Fp 4.19).
Deus não adornou os coríntios com as riquezas que estão em Cris-
to com parcimônia, mas “de todas as formas”. No versículo 5, embora
não forneça uma lista de dons espirituais (ver 12.4-31), Paulo chama a
atenção para a soma de dons que os coríntios receberam. Nesse peque-
16. Friedel Selter, NIDNTT, vol. 2, p. 844; Friedrich Hauck e Wilhelm Kasch, TDNT, vol.
6, p. 329.
1 CORÍNTIOS 1.5
63
no versículo, ele acentua as palavras todas e todo/toda para indicar que
aqueles que recebem as bênçãos de Deus são, sem medida, espiritual-
mente ricos.
Paulo ilustra em que sentido os coríntios receberam riquezas espi-
rituais: “em toda a palavra e em todo o conhecimento”. Ele apresenta a
fala e o conhecimento como dois desses dons especiais. O termo grego
logos refere-se à expressão do conhecimento evangélico (evangelho)
que eles tinham. Exprimiam objetivamente a verdade do evangelho
que subjetivamente compreendiam, isto é, com a boca confessavam o
conhecimento espiritual que tinham no coração.
17
Essa é a primeira
vez que o termo conhecimento aparece nessa epístola; sua ocorrência é
freqüente em ambas as cartas aos Coríntios
18
e está estreitamente rela-
cionada ao termo sabedoria. “Diversas matizes de significado apare-
cem em contextos específicos, mas a noção de apreensão e aplicação
da verdade cristã é constante.”
19
Os dons espirituais de palavra e co-
nhecimento, quando apropriadamente usados, são um testemunho elo-
qüente de Cristo (2Co 8.7). Em outra carta, Paulo afirma estar certo de
que os cristãos estão “cheios de todo o conhecimento, aptos para se
admoestarem mutuamente” (Rm 15.14).
6. Assim como o testemunho de Cristo foi confirmado em vocês.
A mensagem do versículo 6 pode ser tanto uma reflexão posterior
que explica o versículo precedente como uma introdução ao versículo
seguinte. Eu prefiro a primeira das duas opções pelas seguintes razões:
as palavras assim como dão equilíbrio e apresentam uma comparação
com o versículo precedente. A locução foi confirmado é uma constru-
ção na voz passiva que pressupõe Deus como agente. Essa construção
forma um paralelo com foram enriquecidos no versículo 5. Também, o
dom da fala é análogo ao testemunho de Cristo. E, por fim, a locução em
vocês corresponde ao pronome vocês [subentendido na tradução: vocês
foram enriquecidos], que indica os beneficiários dos dons espirituais.
17. Grosheide, First Epistle to the Corinthians, p. 28; Henry Alford, Alford’s Greek Tes-
tament: An Exegetical and Critical Commentary, 7ª ed., 4 vols. (1877; Grand Rapids: Guar-
dian, 1976), vol. 2, p. 475.
18. Com pequenas diferenças, em 1 Coríntios 8.1, 7, 10, 11; 12.8; 13.2, 8; 14.6; 2 Corín-
tios 2.14; 4.6; 6.6; 8.7; 10.5; 11.6.
19. O’Brien, Introductory Thanksgivings; p. 119; C. K. Barrett, “Christianity at Corinth”,
BJRUL 46 (1964): 269-97.
1 CORÍNTIOS 1.6
64
A leitura o testemunho de Cristo pode ser entendida subjetivamen-
te como uma referência ao conteúdo do evangelho como tal (KJV, NKJV,
MLB [a RA, inclusive]). Em outras palavras, Deus confirmou a verda-
de do evangelho de Cristo no coração dos coríntios. Outras versões
trazem “o testemunho a respeito de (ou sobre) Cristo”, que seria uma
referência objetiva à pregação do evangelho pelos apóstolos e evange-
listas (por exemplo, NIV, RSV, REB).
20
À vista da menção geral em
toda a palavra (v. 5), a segunda tradução é preferível à primeira.
A questão refere-se, em última instância, ao modo como Deus con-
firmou o testemunho de Cristo no coração dos coríntios. Ainda que
Paulo não explique, ousamos dizer que Deus, pela fé, confirmou a
mensagem do evangelho nos crentes por meio da operação do Espírito
Santo.
7. De maneira que não falte a vocês nenhum dom espiritual
enquanto aguardam ansiosamente a revelação de nosso Senhor
Jesus Cristo.
Observe estes dois pontos:
a. Resultado. “De maneira que não falte a vocês nenhum dom.”
Como Deus conferiu numerosos dons espirituais aos coríntios, não lhes
faltava nenhuma dessas bênçãos. O verbo faltar no presente nessa ora-
ção conclusiva indica que realmente possuíam esses dons; a essa altu-
ra, na epístola, contudo, Paulo não está interessado em listar os dons
específicos (ver capítulos 12-14). Com esse verbo, Paulo não diz que é
possível que falte quaisquer dons aos coríntios; ao contrário, ele dá a
entender que não estão em desvantagem em relação a outras igrejas.
21
Pela graça de Deus, eles verdadeiramente receberam talentos espiritu-
ais em abundância.
Se interpretarmos o versículo 7 no curso do parágrafo, concluímos
que os coríntios não têm falta alguma em quaisquer dos dons espiritu-
ais precisamente por causa da pregação do evangelho. A menção dos
20. Veja Bauer, p. 494; A. T. Robertson, A Grammar of the Greek New Testament in the
Light of Historical Rersearch (Nashville: Broadman, 1934), p. 500.
21. Hans Conzelmann, 1 Corinthians: A Commentary on the First Epistle to the Corinthi-
ans, org. por George W. MacRae; trad por James W. Leitch.; “Hermeneia: A Critical and
Historical Commentary on the Bible” (Filadélfia: Fortress, 1975), p. 27.
1 CORÍNTIOS 1.7
65
dons espirituais diz respeito mais à locução foram enriquecidos (v. 5)
do que à locução foi confirmado (v. 6).
22
A palavra dom aparece aqui pela primeira vez nessa epístola e,
nesse contexto, ela não significa “milagres”( ver 12.9, 28, 30). Inter-
pretar a palavra de maneira estrita (a saber, como um milagre que serve
para confirmar a pregação do evangelho) seria restritivo e, portanto,
inaceitável. Não deveríamos limitar o termo dom, mas, preferivelmen-
te, interpretá-lo no sentido mais amplo possível.
b. Expectativa. “Enquanto aguardam ansiosamente a revelação de
nosso Senhor Jesus Cristo.” Paulo associa dons espirituais à expectati-
va do retorno de Jesus. Nessa passagem, Paulo menciona duas vezes o
fim dos tempos: aqui e no versículo seguinte (v. 8), onde ele se refere
ao dia do Senhor Jesus Cristo. Essa ênfase é importante à vista da
longa exposição sobre a ressurreição do corpo que ele apresenta em
15.12-58, onde discute explicitamente o dia escatológico. O interesse
dos coríntios no retorno iminente do Senhor parece ter diminuído (com-
parar com 15.12, 33,34); à vista disso, Paulo, logo no início de sua
epístola, quer encorajar sua audiência a aguardar ardentemente o retor-
no de Cristo.
23
A locução verbal aguardam ansiosamente é, no grego, uma pala-
vra composta com conotação de intensidade e zelo em relação à espe-
rança cristã, como revela o emprego dela por Paulo em outras epístolas:
“A criação aguarda em ansiosa expectativa” (Rm 8.19)
“Esperamos ansiosamente por nossa adoção como filhos” (Rm 8.23)
“Com paciência aguardamos por isso” (Rm 8.25)
“Porque nós, pelo Espírito, aguardamos a esperança da justiça que pro-
vém da fé”(Gl 5.5)
“E nós esperamos ansiosamente um Salvador do (céu)” (Fp 3.20)
24
Esse verbo em particular geralmente ocorre no Novo Testamento
22. F. W. Grosheide, De Eerste Brief van den Apostel Paulus aan de Kerk te Korinthe,
série Kommentaar op het Nieuwe Testament (Amsterdã: Van Bottenburg, 1932), p. 48.
23. Como John Albert Bengel observa, “A prova para um cristão verdadeiro ou falso é sua
espera, ou pavor, quanto à revelação de Cristo”. Bengel’s New Testament Commentary,
trad. por Charlton T. Lewis e Marwin R. Vincent, 2 vols. (Grand Rapids: Kregel, 1981), vol.
2, p.167.
24. Ver também Hebreus 9.28; 1 Pedro 3.20.
1 CORÍNTIOS 1.7
66
em relação aos crentes que expressam um genuíno desejo escatológico
pela restauração de todas as coisas.
Com o substantivo revelação, Paulo afirma que, por ocasião do
seu retorno, Jesus removerá o mistério de seu ser pelo desvendar da
sua presença (2Ts 1.7; 1Pe 1.7, 13; 4.13). Os coríntios devem aguardar
ansiosamente o dia dessa revelação.
8. Ele também os confirmará até o fim, e os conservará irre-
preensíveis no Dia de nosso Senhor Jesus Cristo.
a. “Ele também os confirmará até o fim.” Quem confirmará os co-
ríntios? Deus ou Jesus? A pessoa mencionada no versículo anterior é
Jesus Cristo. Mas, por quatro razões, o fluir do parágrafo (vs. 4-9)
requer que o sujeito do v. 8 seja Deus, e não Jesus Cristo. Primeira, o
parágrafo começa e termina com uma referência a Deus (ser vs. 4 e v.
9). Segunda, Deus enriqueceu, de todas as maneiras, os coríntios e os
confirmou pela pregação relativa a Cristo (vs. 5 e 6). Terceira, a oração
de abertura do v. 9 (“Fiel é Deus”) não indica um novo sujeito, mas
uma bênção de conclusão num parágrafo em que Deus é o agente. E,
última, o sujeito de um versículo paralelo é Deus:
25
“Mas aquele que
nos confirma com vocês em Cristo e nos ungiu é Deus” (2Co 1.21).
No grego, Paulo emprega o verbo confirmar/firmar duas vezes nesse
parágrafo (vs. 6 e 8). Como a pregação do evangelho confirma os cren-
tes em sua fé, assim também a promessa do constante poder de Deus os
firma até a consumação. A locução os confirmará não expressa apenas
um voto, mas uma promessa que Deus vai cumprir.
b. “E os conservará irrepreensíveis no Dia de nosso Senhor Jesus
Cristo.” Paulo não está dizendo que os coríntios são irrepreensíveis
agora que lhes escreve. Ao contrário, ele olha para o futuro e expressa
sua certeza de que Deus os apresentará sem culpa por ocasião do julga-
mento final, isto é, ninguém poderá acusá-los, pois, naquele dia, serão
irrepreensíveis. Noutra parte, Paulo ensina a maneira como os crentes
serão apresentados irrepreensíveis perante a mais elevada corte: é pela
morte do corpo físico de Cristo que Deus está reconciliado ao pecador
e o declara sem culpa (Cl 1.22).
25. O’Brien, Introductory Thanksgivings, p. 128.
1 CORÍNTIOS 1.8
67
No Antigo Testamento, a expressão o dia do Senhor refere-se ao
dia de juízo (Jl 3.14; Am 5.18-20). No Novo Testamento, o termo alude
ao retorno de Cristo (por ex., Fp 1.6, 10; 2.16; 1Ts 5.2). O retorno de
Cristo inclui um julgamento em que tanto Deus como Cristo servirão
como juiz (ver Rm 14.10; 2Co 5.10). Nesse dia, os fiéis serão declara-
dos irrepreensíveis “pelo veredicto do juiz”.
26
9. Fiel é Deus, pelo qual vocês foram chamados à comunhão de
seu Filho, Jesus Cristo nosso Senhor.
a. “Fiel é Deus.” Na hipótese de alguém duvidar da veracidade dos
versículos precedentes, Paulo afirma incondicionalmente que Deus é
fidedigno no cumprimento de suas promessas. Para enfatizar o concei-
to fiel, Paulo inicia a sentença com essa palavra, “fiel é Deus”, que
resolutamente sustenta o seu povo até o fim (v. 8). O eco dessa verdade
ressoa do começo ao fim das Escrituras.
27
Podemos confiar inteira-
mente em Deus.
b. “Pelo qual vocês foram chamados à comunhão de seu Filho.”
Deus, o Pai, elabora seu plano de salvação por meio de seu Filho, Jesus
Cristo; o Pai começa e o Filho executa esse plano (comparar com 8.6).
Mas é eficaz para todos o chamado de Deus? Dificilmente. “Muitos
são chamados, mas poucos são escolhidos”, disse Jesus (Mt 22.14).
Somente os que foram chamados à comunhão do Filho têm experiên-
cia da paciente fidelidade do Pai. O chamado é sempre associado a
Jesus Cristo, como no caso do apostolado de Paulo (v. 1) e o chamado
dos coríntios à santidade (v. 2).
O chamado é real quando o crente tem verdadeira comunhão com
Cristo. Essa comunhão, contudo, requer uma vida de santidade na qual
um cristão conforma-se em corpo e alma à semelhança do Filho de
Deus (ver Rm 8.29). Como Charles Hodge o descreve: “Comunhão
compreende união e participação”.
28
Comunhão como união e partici-
pação compreende igualmente a participação no sofrimento e na glória
de Cristo e o pertencer ao corpo de Cristo. Significa aceitar o sacra-
26. Conzelmann, 1 Corinthians, p. 28.
27. Deuteronômio 7.9; Isaías 49.7; 1 Coríntios 10.13; 1 Tessalonicenses 5.24; 2 Tessalo-
nicenses 3.3; 2 Timóteo 2.13; Hebreus 10.23; 11.11.
28. Charles Hodge, An Exposition of the First Epistle to the Corinthians (1857; reedição:
Grand Rapids: Eerdmans, 1965), p. 10. Ver também Hoekema, Saved by Grace, p. 85.
1 CORÍNTIOS 1.9
68
mento da santa comunhão: lembrar que Cristo morreu por nós (10.16).
Quando o crente é completamente transformado no âmago de seu ser,
tem genuína comunhão com Cristo. A proclamação do evangelho, aceita
com fé verdadeira, diz João, conduz à comunhão com o Pai e o Filho
(1Jo 1.3).
c. “Seu Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor.” Paulo agradece o fato
de que Deus, o Pai, chama o crente à comunhão e que o crente tem
comunhão com o Filho, que é Jesus Cristo, nosso Senhor. Paulo termi-
na sua ação de graças com uma compilação de nomes e ofícios divinos.
O Filho, eternamente gerado pelo Pai (Sl 2.7), assumiu a carne humana
e recebeu o nome de Jesus. O nome do Antigo Testamento, Joshua, no
Novo, tornou-se Jesus, com a explicação de que “ele salvará o seu
povo dos pecados deles” (Mt 1.21). Enquanto o prenome do Filho é
Jesus, seu título é Cristo, que significa o Ungido ou o Messias. O
nome aponta para seu ofício de profeta, sacerdote e rei. E, por fim,
quando Paulo chama Jesus Cristo de “nosso Senhor”, ele alude à exal-
tação deste: “o Rei dos reis e Senhor dos senhores” (1Tm 6.15).
29
Considerações Práticas em 1.4-9
De acordo com Lucas, Paulo permaneceu em Corinto por apenas
um ano e meio, enquanto estabelecia uma igreja (At 18.11; 50-52 d.C.,
presumivelmente). Nos anos seguintes, Apolo ensinou as Escrituras
aos coríntios e deu continuidade ao fortalecimento dos crentes (1.12;
3.4-6). A igreja era abençoada com um grupo de pessoas excepcional-
mente talentosas (12.7-11, 27-31) mas sofria de rivalidade, divisões,
problemas morais e irregularidades na condução do cultos.
Quando Paulo escreveu 1 Coríntios, dirigiu-se aos leitores de for-
ma pastoral, agradecendo a Deus, que os havia chamado a uma vida de
santidade. Muitos deles haviam vivido em trevas espirituais, mas, ago-
ra, pela graça de Deus, tinham comunhão com Jesus Cristo. Paulo re-
gozijava-se na salvação deles. De uma forma positiva, relembrou os
coríntios de seu compromisso com Cristo e os conclamou a ascende-
rem a um nível mais elevado de serviço a ele na igreja e na sociedade.
Em sua ação de graças a Deus, ele dirigiu-se positivamente às pessoas,
29. Comparar com Deuteronômio 10.17; Salmo 136.2-3; Apocalipse 17.14; 19.16.
1 CORÍNTIOS 1.4-9
69
apesar da falta de amor delas a Deus e seus semelhantes. Obteve, as-
sim, sua confiança e interesse.
Referindo-se ao retorno de Cristo e ao fim dos tempos (vs. 7,8),
Paulo conduz o parágrafo de ação de graças a um clímax que serve de
introdução ao restante de sua epístola.
30
O corpo de sua epístola con-
siste de admoestação, repreensão, ensino e correção. Mas, naquele que
é o capítulo mais longo de sua epístola (cap. 15), Paulo discute a dou-
trina da ressurreição e do destino eterno dos fiéis. Em resumo, ao cha-
mar a atenção para o dia do Senhor nessa passagem, Paulo dá o dom
para o restante da carta.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 1. 4,8
Versículo 4
:æ ò-æ ¡eu – ao menos dois manuscritos principais (códigos Sinaiti-
cus e Vaticanus) omitem o pronome possessivo. O texto, contudo, conta
com o forte apoio de uma ampla variedade de testemunhas e versões gre-
gas. Muitos tradutores são favoráveis à inclusão do pronome meu,
31
que é
omitido por outros.
32
Versículo 8
a|-,sìµ:eu, – trata-se de um adjetivo verbal que expressa a voz passi-
va (“não pode ser repreendido”). É palavra composta formada pelo prefi-
xo de privação a (in/ir-), pela preposição -| (em) e pela forma adjetiva do
verbo saì-æ (eu chamo).
10. Eu os exorto, irmãos, no nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos
estejam de acordo e que não haja divisões entre vocês, mas que vocês estejam
unidos tanto na disposição mental quanto no parecer. 11. Pois a respeito de vocês,
meus irmãos, fui informado, pelos da casa de Cloe, de que há contendas entre
vocês. 12. O que eu quero dizer é isto: que cada um de vocês diz “Eu sou de
Paulo”, ou “Eu sou de Apolo”, ou “Eu sou de Cefas” ou “Eu sou de Cristo”. 13.
Cristo está dividido? Paulo foi crucificado por vocês? Vocês foram batizados no
nome de Paulo? 14. Dou graças a Deus porque não batizei a nenhum de vocês,
30. J. H. Roberts, “The eschatological transitions to the Pauline letter body”, Neotest 20
(1986): 29-35.
31. KJV, NKJV, GNB, MLB, NAB, NASB, NRSV, SEB, Moffat.
32. RSV, NIV, NEB, REB, BJ, NJB, Phillips, Cassirer.
1 CORÍNTIOS 1.4, 8
70
exceto Crispo e Gaio, 15. para que ninguém possa dizer que vocês foram batiza-
dos em meu nome. 16. Batizei também a casa de Estéfanas; além desses, não me
lembro se batizei algum outro. 17. Porque Cristo não me enviou para batizar, mas
para pregar o evangelho, não com sabedoria de palavras, para que a cruz de Cristo
não seja anulada.
II. Resposta de Paulo aos Problemas Relatados
1.10 – 6.20
A. Divisões na Igreja
1.10 – 4.21
Jesus disse que um reino dividido contra si mesmo ficará deserto e
toda casa dividida contra si mesma cairá (Mt 12.25; Mc 3.24,25; Lc
11.17). Quando ouviu falar das divisões dentro da igreja de Corinto,
Paulo sabia que devia confrontar os leitores de sua carta quanto a suas
facções, contendas e ostentações para que, então, pudesse lhes ensinar
princípios de conduta espiritual.
1. Facções
1.10-17
10. Eu os exorto, irmãos, no nome de nosso Senhor Jesus Cris-
to, que todos estejam de acordo e que não haja divisões entre vo-
cês, mas que vocês estejam unidos tanto na disposição mental quan-
to no parecer.
Fazemos as seguintes observações:
a. Exortação. Paulo percebe que as contendas dos coríntios ainda
não resultaram em cisma, mas sabe que precisa chamar seus leitores de
volta a um relacionamento vivo com o Senhor e que deve fazer isso de
forma pastoral e positiva. Assim, ele se dirige a eles como seus irmãos
(e irmãs) espirituais e os exorta a considerar o nome, isto é, a plena
revelação do Senhor Jesus Cristo. Tendo sido chamados à comunhão
com Jesus Cristo, o Filho de Deus (v. 9), devem compreender que essa
comunhão inclui unidade e harmonia e exclui dissensão e rivalidade.
Paulo admoesta os coríntios pelo nome (lit.) do Senhor Jesus Cris-
to. Em suas epístolas, ele freqüentemente exorta seus leitores apelando
à mediação de Deus ou de Cristo. Por exemplo, exorta seus leitores
“pelas misericórdias de Deus” (Rm 12.1); “por nosso Senhor Jesus
1 CORÍNTIOS 1.10
71
Cristo” (Rm 15.30); “pela mansidão e benignidade de Cristo”(2 Co
10.1); “no Senhor Jesus” (1Ts 4.1; 2Ts 3.12); e, por fim, como no caso
de Evódia e Síntique, que “pensem concordemente, no Senhor” (Fp
4.2).
33
Quando apela ao nome de Jesus Cristo, Paulo exorta os que
crêem a serem um no Senhor.
b. Concórdia. Paulo exorta os membros da igreja em Corinto para
que se entendam uns com os outros (comparar com Rm 15.5). Devem
confessar de modo unânime a fé em Cristo. Devem estar em paz uns
com os outros. Paulo não está pedindo uniformidade de opinião mas,
sim, uma atitude de amor que se empenha por harmonia e paz (Fp
2.1,2).
Paulo proíbe os coríntios de formarem partidos na igreja. Ele noti-
fica os coríntios de que, por solaparem a unidade da igreja, estão se
tornando uma afronta a Jesus Cristo.
34
Na mesma sentença, ele os exorta
a serem concordes e lhes diz para não serem cismáticos (“não haja
divisões entre vocês”). Em seu discurso, ele não está refutando heresi-
as; em vez disso, busca evitar discórdias.
35
Suas instruções, tanto a
positiva como a negativa, formam os dois lados da moeda proverbial.
A expressão divisões transmite o pensamento de discussão e rivalidade
que dilacera a igreja. Numa palavra, Paulo diz aos coríntios que parem.
c. Unidade. A igreja pode ser comparada ao corpo humano (ver
12.12-27), que é composto com perfeição e que reflete unidade e har-
monia. A palavra grega katartizein significa tornar uma pessoa o que
Deus quer que ela seja, isto é, perfeita. É empregada com relação àque-
las pessoas que “haviam sido restauradas à harmonia”.
36
Elas são ago-
ra exortadas a trabalhar juntas em unidade de mente e julgamento. O
contraste com as cláusulas precedentes nessa sentença é notável, por-
que Paulo escreve: “... estejam unidos tanto na disposição mental quanto
no parecer”. O termo disposição mental está relacionado ao poder de
observação e a palavra parecer a formar um julgamento ou uma opi-
33. Consultar Georg Braumann, NIDNTT, vol. 1, pp. 570-71; Otto Schmitz, TDNT, vol. 5,
p. 795.
34. Consultar Thomas W. Gillespie, “A Pattern of Prophetic Speech in first Corinthians”,
JBL 97 (1978): 74-95.
35. Veja Lawrence L. Welborn, “On the Discord in Corinth: 1 Corinthians l-4 and Ancient
Politics”, JBL 106 (1987): 85-111.
36. Thayer, p. 336.
1 CORÍNTIOS 1.10
72
nião. Paulo quer que o coríntios estejam unidos em suas observações e
em seus julgamentos e que abandonem seu sectarismo. Ele está dizen-
do a eles que, quanto à intenção e ao parecer, devem se esforçar por
obter perfeita harmonia e continuar vivendo unidos e em paz.
Embora Paulo deseje livrar a igreja de divisões, não está pedindo
aos coríntios uniformidade de pensamento. Em vez disso, ele permite,
no seio do povo de Deus, diversidade na unidade. Conforme colocou
Rupert Meldenius, um escritor do século 17:
Nas coisas necessárias – unidade;
Em coisas não-essenciais – tolerância mútua;
E, em todas as coisas, amor.
11. Pois a respeito de vocês, meus irmãos, fui informado, pelos
da casa de Cloe, de que há contendas entre vocês.
a. “Pelos da casa de Cloe.” Não temos outra informação sobre Cloe
além do nome dela, que ocorre somente uma vez no Novo Testamento.
Se ela morava em Éfeso, onde Paulo estava quando escreveu a carta,
ou em Corinto, não se sabe. Poderíamos supor que residia em Corinto,
pois o texto pressupõe que os coríntios a conheciam. Além disso, as
notícias quanto às divisões surgiram lá. Outra possibilidade é que Cloe
fosse uma comerciante que morava em Éfeso e que seus empregados
(que tanto poderiam ser escravos, livres ou membros de sua família)
regularmente viajavam entre Corinto e Éfeso e conheciam bem a igre-
ja. Se Cloe era cristã não pode ser determinado.
37
b. “Pois a respeito de vocês, meus irmãos.” Paulo menciona a fonte
de sua informação e, dessa forma, indica que não ouviu rumores, mas
tomou conhecimento de fatos. Foi informado por pessoas que não fo-
ram enviadas como mensageiros pela igreja de Corinto, mas que o pro-
curaram por sua própria iniciativa. Obviamente a igreja não tomou a
iniciativa de informar o apóstolo sobre suas contendas. Não obstante,
ele lida pastoralmente com os membros da igreja de Corinto, chaman-
do-os de meus irmãos (e irmãs). Ele deseja boas relações e, assim, usa
o termo irmãos uma segunda vez em dois versículos (vs. 10,11).
37. F. R. Montgomery Hitchcock é da opinião que ela era uma deusa ou uma pagã. “Who
Are ‘the People of Chloe’ in 1 Cor. 1:11?” JTS 25 (1924): 163-67.
1 CORÍNTIOS 1.11
73
c. “Que há contendas
38
entre vocês.” Essas contendas ainda não
haviam se tornado divisões permanentes, mas contribuíam para um
espírito de sectarismo que prejudicava o bem-estar espiritual da igreja
(ver Tg 4.2). Além disso, contendas demonstram falta de amor e, por
isso, violam o mandamento de Deus de amar uns aos outros.
12. O que eu quero dizer é isto: que cada um de vocês diz “Eu
sou de Paulo”, ou “Eu sou de Apolo”, ou “Eu sou de Cefas” ou “Eu
sou de Cristo”.
A oração O que eu quero dizer é isto mostra que Paulo está com-
pletamente informado sobre as contendas em Corinto. Ele está dizen-
do: “Vamos falar francamente”. A questão é que os próprios coríntios
haviam criado grupos dentro da igreja e, ainda, relacionado esses gru-
pos a pessoas específicas. A ironia, contudo, é que as pessoas que tive-
ram seus nomes identificados com tais partidos (Paulo, Apolo e Cefas)
repudiavam a existência de grupos e contendas. Para dizer de outra
forma, ou numa perspectiva diferente, nenhum líder foi a Corinto a fim
de estabelecer seu próprio partido.
Na igreja de Corinto, um membro apresenta-se como seguidor de
Paulo, outro afirma ser de Apolo, outro ainda diz que imita a Pedro, e
um último afirma ser um discípulo de Cristo. Não nos é permitido con-
cluir que esses quatro partidos reunissem todos os membros da igreja.
“Sem dúvida, havia coríntios que não se incluíam em nenhum dos qua-
tro partidos.”
39
a. “Eu sou de Paulo”. O nome de Paulo é o primeiro da lista de
quatro. Numa ordem ascendente, o nome de Cristo é o último e o hie-
rarquicamente mais elevado; conseqüentemente, o nome de Paulo é o
de menor importância. Paulo havia fundado a igreja, mas, devido ao
partidarismo existente, nem todos na igreja aceitavam o apóstolo. Mes-
mo aqueles que se dispunham favoravelmente em relação a Paulo ha-
38. A palavra grega para contendas é tipicamente paulina. Ela ocorre nove vezes nas
epístolas de Paulo e em nenhum outro lugar do Novo Testamento. Ver Romanos 1.29; 13.13;
1 Coríntios 1.11; 3.3; 2 Coríntios 12.20; Gálatas 5.20; Filipenses 1.15; 1 Timóteo 6.4; Tito
3.9.
39. Archibald Robertson e Alfred Plummer, A Critical and Exegetical Commentary on
the First Epistle of St. Paul to the Corinthians, International Critical Commentary, 2ª ed.
(1911; reedição, Edimburgo: Clark, 1975), p. 11.
1 CORÍNTIOS 1.12
74
viam ultrapassado o seu ensino e intenções, pois o próprio Paulo não
havia promovido o surgimento de uma facção à parte. Por ter pregado
o evangelho, tornara-se o pai espiritual em Cristo dos coríntios (4.15).
Mas Paulo não estava interessado em ser reconhecido pelo trabalho
realizado; ao contrário, seu objetivo era o de confirmar os coríntios em
Cristo (ver v. 6). Ele não queria que olhassem para ele, mas para o
Senhor.
Rejeitando o espírito sectário dos coríntios, Paulo defendia a inte-
gridade de Apolo. Ele entendia que também Apolo repudiava as con-
tendas e facções na igreja. Sabemos que Paulo, por toda essa epístola,
não só demonstra respeito por seu colaborador Apolo como também
fala de modo apreciativo a respeito de seu trabalho (3.4, 5, 6, 22; 4.6;
16.12).
b. “Eu sou de Apolo”. Sabemos que Apolo era procedente da reno-
mada cidade de Alexandria – um centro acadêmico onde fez seus estu-
dos. Possuía um conhecimento magistral das Escrituras e, embora en-
sinasse a respeito de Jesus, precisou aprender com mais exatidão, de
Priscila e Áqüila em Éfeso, o caminho da salvação (At 18.24-26). Tor-
nou-se sucessor de Paulo em Corinto e era um orador eloqüente (At
18.24-28). Algumas pessoas na igreja ficaram impressionadas por esse
orador, especialmente porque consideravam Paulo uma pessoa fraca
cuja apresentação oral não primava pela eloqüência (2.1; 2Co 10.10;
11.6). De um ponto de vista humano, Paulo estava diante de um rival
que o havia superado no púlpito em Corinto. Mas tanto Paulo como
Apolo se recusavam a verem-se como rivais. Eram cooperadores na
proclamação do evangelho de Cristo.
c. “Eu sou de Cefas”. Não há como comprovar que Cefas (Pedro)
tivesse visitado Corinto na ausência de Paulo. É provável que tenha
estado ali.
40
Supomos que os coríntios conheciam a Pedro pessoalmen-
te, pois Paulo menciona que Pedro era acompanhado por sua esposa
nas viagens missionárias (9.5). Pedro, conhecido como cabeça da igre-
40. Eusébio, Ecclesiastical History 2.25. E ver C. K. Barrett, “Cephas and Corinth”, in
Abraham unser Vater: Juden und Christen in Gesprach über die Bibel, Festschrift für Otto
Michel zum 60, org. por Otto Betz, Martin Hengel e Paul Schmidt (Leiden: Brill, 1963), pp.
1-12; também seu Commentary on the First Epistle to the Corinthians, série Harper’s New
Testament (Nova York e Evanston: Harper and Row, 1968), p. 44.
1 CORÍNTIOS 1.12
75
ja e porta-voz dos apóstolos, era altamente respeitado. Paulo refere-se
a Pedro como Cefas e, ao que parece, preferia usar o nome aramaico
dele em vez da versão grega, Petros. Em suas epístolas, refere-se duas
vezes a Pedro (Gl 2.7, 8) contra oito vezes a Cefas (no grego – 1.12;
3.22; 9.5; 15.5; Gl 1.18; 2.9, 11, 14; ver Jo 1.42 para a mesma constru-
ção). Pedro e Paulo respeitavam-se mutuamente, em vista do que po-
demos ter certeza de que também Pedro abominaria ter seu nome asso-
ciado a uma facção em Corinto.
d. “Eu sou de Cristo”. Deparamo-nos com uma série de questões
quando tentamos interpretar essa afirmação. Por exemplo, seria o caso
de que os coríntios que não pertenciam a nenhum dos outro grupos
formavam um partido de Cristo? Acaso não eram todos esses cristãos
seguidores de Cristo? Cristo não se encontra numa categoria diferente
das outras três pessoas? Será que foi Paulo que se opôs aos coríntios
dizendo “Eu sou de Cristo”?
Não conseguimos responder a muitas dessas questões porque Pau-
lo não acrescenta nenhuma outra informação além da que temos nessa
seção do texto. A construção gramatical dessa passagem exclui a inter-
pretação de que Paulo tenha dito Eu sou de Cristo. Noutra parte, ele
menciona os três nomes, Paulo, Apolo e Cefas, de novo e, em seguida,
diz enfaticamente aos coríntios que eles são de Cristo (3.22,23; tam-
bém 2Co 10.7). Ele quer dizer que a Igreja universal com todos os seus
membros individuais pertence a Jesus Cristo.
Considerações Práticas em 1.10-12
Sabine Baring-Gould escreveu o magnífico hino “Onward Christians
Soldiers” [Avante, Soldados Cristãos] e, comparando a Igreja com um
exército poderoso, disse:
Irmãos, estamos marchando
Onde os santos marcharam ;
Nós não estamos divididos,
Somos todos um só corpo,
Um, na esperança e na doutrina,
Um, na caridade.
Contudo, as incontáveis divisões na igreja fazem com que o cristão se
1 CORÍNTIOS 1.10-12
76
lamente. Além dos conflitos geográficos e lingüísticos, disputas dentro da
igreja têm sido a causa de muitos cismas. Segundo João Calvino: “Onde
divisões religiosas são abundantes, não tarda a acontecer que o que está
na mente das pessoas logo estoure em conflito real. Pois, enquanto nada é
mais efetivo para nos congregar e nenhuma outra coisa ajuda mais a unir
nossas mentes e mantê-las em paz do que a harmonia religiosa, se surge
discordância de alguma forma com respeito à religião, a conseqüência
inevitável é que os homens rapidamente se disponham a fazer guerra, não
havendo outra área de disputas mais acirradas.”.
41
13. Cristo está dividido? Paulo foi crucificado por vocês? Vo-
cês foram batizados no nome de Paulo?
a. Primeira pergunta. “Cristo está dividido?” A maioria dos tradu-
tores compreende as primeiras três palavras desse versículo como uma
pergunta, e não como uma afirmação.
42
Uma vez que essas palavras
são seguidas por duas orações interrogativas, os especialistas vêem
uma seqüência lógica de três perguntas. Todas as três perguntas são
retóricas e esperam uma resposta negativa.
Paulo chamou a atenção de seus leitores para Cristo com a pergun-
ta quanto a Cristo estar dividido. Paulo respondeu não a essa pergunta,
mas os coríntios aparentemente disseram sim. Essas pessoas pensaram
que poderiam dividir o Cristo.
43
Foi Cristo dividido no sentido de que
foi cortado em pedaços? G. G. Findlay, em seu comentário sobre esse
texto, não pensa assim. Segundo Findlay, “dividir”, aqui, “indica dis-
tribuição, não desmembramento”.
44
Mas é impossível distribuir Cris-
to, pois ele é o Cabeça da Igreja, a qual é o seu corpo. E o corpo deve
honrar sua cabeça; de sua cabeça os membros recebem sustento e dire-
41. Calvino, I Corinthians, pp. 26-27.
42. Alguns tradudores apresentam uma declaração exclamatória: “Certamente Cristo não
foi dividido entre vocês!” (NEB, REB) ou “Cristo foi dividido entre grupos!” (GNB). Al-
guns manuscritos antigos (por ex., P
46vid
, 326, 1962) colocam um prefixo interrogativo com
a palavra não para conformar a cláusula às duas perguntas seguintes. E alguns tradutores
adotaram a interpretação que inclui a partícula negativa (ver NEB, REB).
43. Algumas poucas versões trazem “rasgado” ou “dentro” (NAB, SEB, Cassirer) ou
“repartido” (BJ, Moffatt).
44. G. G. Findlay, St. Paul’s First Epistle to the Corinthians, no vol. 3 de The Expositor’s
Greek Testament, org. por W. Robertson Nicoll, 5 vols. (1910, reedição, Grand Rapids:
Eerdmans, 1961), 765.
1 CORÍNTIOS 1.13
77
ção. Com a pergunta “Cristo está dividido?”, Paulo fez a atenção recair
sobre a cabeça do corpo, honrou a Cristo e promoveu a unidade da
Igreja.
b. Segunda pergunta. “Paulo foi crucificado por vocês”? Os corín-
tios devem ter imediatamente percebido o absurdo dessa pergunta. Não
Paulo, mas Cristo, foi crucificado por eles. Alguns dos coríntios po-
dem ter a máxima estima pelo fundador da igreja em Corinto, mas
terão de reconhecer que Paulo não morreu numa cruz para libertá-los
do pecado. Eles não podem dizer que pertencem a Paulo (ou, também,
a Apolo ou Pedro), pois, fazendo isso, desonram a Cristo.
Nas epistolas de Paulo, o verbo crucificar, em suas variantes, ocor-
re apenas oito vezes.
45
Aqui, ele aplica a si mesmo o termo que perten-
ce exclusivamente a Cristo.
c. Terceira pergunta. “Vocês foram batizados no nome de Paulo?”
Quando os coríntios receberam o sinal do batismo, eles foram batiza-
dos no nome do Pai, do Filho e do espírito Santo (Mt 28.19) ou no
nome de Jesus (At 2.38; 10.48; 19.5). “Batismo ou fé constituem o fato
de pertencer a Deus ou ao Filho de Deus.”
46
O batismo significa que
alguém se identifica completamente com a pessoa em cujo nome foi
batizado(a). O absurdo de invocar o nome de Paulo (ou o nome de
Apolo ou o de Pedro) é patente. Por causa do batismo deles na morte
de Cristo (Rm 6.3), os coríntios pertenciam a Jesus Cristo e viviam
uma nova vida. Por causa do sinal e do selo do batismo, eram chama-
dos cristãos.
14. Dou graças a Deus porque não batizei a nenhum de vocês,
exceto Crispo e Gaio, 15. para que ninguém possa dizer que vocês
foram batizados em meu nome.
a. “Dou graças a Deus”. Editores e tradutores do Novo Testamento
grego dividem-se com respeito à inclusão ou exclusão das palavras a
Deus. Muitos deles preferem incluir
47
a palavra mais do que excluí-la.
45. 1 Coríntios 1.13, 23; 2.2, 8; 2 Coríntios 13.4; Gálatas 3.1; 5.24; 6.14.
46. Adolf Deissmann, Bible Studies (reedição; Winona Lake, Ind.: Alpha, 1979) p. 147;
James D. G. Dunn, Baptisme in the Holy Spirit, Studies in Biblical Theology, 2ª série 15
(Londres: SCM, 1970), p. 117.
47. Editores da UBS, Nesl-Al, Merk, Souter e o Texto Majority as incluem. Ver KJV,
NKJV, NASB, NAB, NEB, REB, NRSV, SEB GNB.
1 CORÍNTIOS 1.14, 15
78
O emprego de Paulo em suas epístolas dá apoio à inclusão, ainda que
essas palavras não constem de alguns dos principais manuscritos.
b. “Porque não batizei a nenhum de vocês.” Paulo não está ofere-
cendo uma oração de ação de graças (ver o v. 4), mas expressando
satisfação pelo fato de não ter batizado muitos dos crentes em Corinto.
Ele havia delegado a outros a tarefa de batizar os convertidos. Da mes-
ma forma, Filipe, e não Pedro nem João, foi que batizou os samarita-
nos (At 8.12), e Pedro instruiu os seis judeus cristãos de Jope a batiza-
rem os membros da casa de Cornélio (At 10.48; 11.12).
c. “Exceto Crispo e Gaio.” Segundo o relato de Lucas, Crispo ha-
via sido um dirigente da sinagoga em Corinto, o qual, junto com todos
os membros de sua casa, creu em Jesus (At 18.8). Quando deixou a
sinagoga, Sóstenes o sucedeu (At 18.17).
O nome Gaio ocorre cinco vezes no Novo Testamento (At 19.29;
20.4; Rm 16.23; 1Co 1.14; 3Jo 1). Quando Paulo passou o inverno em
Corinto, onde compôs sua carta aos Romanos, ele hospedou-se na casa
de Gaio (Rm 16.23). Suspeitamos, por isso, que esse Gaio seja a mes-
ma pessoa que Paulo batizou quando fundou a igreja de Corinto.
d. “Para que ninguém possa dizer que vocês foram batizados em
meu nome.” Paulo é grato pelo fato de que, em seu ministério, não
batizava os que criam, para que ninguém pudesse atribuir importância
ao seu nome. Paulo, com toda certeza, não batizava pessoas em seu
nome, mas ele queria que as pessoas olhassem para Cristo que os redi-
mira e não para o pregador que os havia batizado.
16. Batizei também a casa de Estéfanas; além desses, não me
lembro se batizei algum outro.
Paulo parece ter tido um lapso de memória. Ele esquece de citar
Estéfanas e sua família junto com Crispo e Gaio. Contudo, na parte
final de sua epístola, Paulo revela que a casa de Estéfanas consistia nos
primeiros crentes na província da Acaia (16.15). Alguns comentadores
pensam que Estéfanas foi convertido em Atenas, que era parte da Acaia,
ainda que sua família morasse em Corinto.
48
Mas isso não passa de
conjetura. O próprio Estéfanas estava presente quando Paulo escreveu
48. Robertson e Plummer, First Corinthians, p. 15.
1 CORÍNTIOS 1.16
79
essa epístola; ele pode ter sido o amanuense que escreveu a carta para
Paulo e o lembrou do fato. Paulo revela características humanas nor-
mais mesmo quando está escrevendo um livro inspirado da Bíblia.
Estéfanas e os membros de sua casa eram trabalhadores ardorosos
na igreja de Corinto, os quais ministravam às necessidades espirituais
dos cristãos (16.15). Quantas pessoas formavam o círculo de sua casa?
A Bíblia ensina que o termo casa incluía marido, esposa, filhos, outros
parentes, escravos e visitantes. Por exemplo, Abraão contava com 318
homens capazes, nascidos em sua casa (Gn 14.14). O cabeça de uma
família considerava sua casa uma unidade religiosa que ele próprio
liderava. Assim, Lucas diz que, quando a salvação veio a Zaqueu, veio
também à sua casa (Lc 19.9; comparar com Jo 4.53). Em Atos, ele
revela que casas e seus cabeças foram salvos e batizados: Cornélio
(10.2, 48; 11.14); Lídia (16.15); o carcereiro de Filipos (16.31-34);
Crispo (18.8). Paulo menciona a casa de Onesíforo (2Tm 1.16) e refere-
se a cristãos que pertenciam à casa de César (Fp 4.22). Não temos infor-
mação quanto ao número de membros da casa de Estéfanas. Como uma
pessoa influente, pode ter sido cabeça de um extenso círculo familiar.
Paulo escreve que não consegue se lembrar de ninguém mais a
quem tivesse batizado. Ele não atribui importância ao privilégio de
batizar convertidos, pois seu chamado não era para batizar crentes,
mas para pregar o evangelho.
17. Porque Cristo não me enviou para batizar, mas para pre-
gar o evangelho, não com sabedoria de palavras, para que a cruz
de Cristo não seja anulada.
Nesse texto, Paulo expressa um elemento positivo e três negativos.
A declaração positiva é que Cristo o enviou para pregar a mensagem da
salvação. As negativas são que Paulo não recebeu a ordem de batizar
crentes, que a proclamação da mensagem não deveria se tornar um trata-
do filosófico e que a cruz de Cristo não pode perder sua centralidade.
a. Tarefa. Nos dois versículos precedentes (vs. 15,16), Paulo enfa-
ticamente afirma não ter interesse em batizar convertidos. Agora ele
apresenta o motivo: Cristo o enviou como um pregador do evangelho
(Rm 1.1; 15.15,16; Gl 1.16). A tarefa de pregar o evangelho requer
talento, educação, tato e aptidão. Batizar crentes é um ato simples e
1 CORÍNTIOS 1.17
80
não requer preparo, mas pregar é uma tarefa permanente de conduzir
pessoas ao arrependimento, à fé, a uma nova vida e ao crescimento.
Batizar é um ato que não se repete e que distingue um cristão do mun-
do, mas a pregação se dá a cada Dia do Senhor e muitas vezes nos dias
úteis da semana.
Paulo absolutamente não está desmerecendo o batismo. Está se-
guindo o exemplo que Jesus deixou durante seu ministério terreno:
Cristo proclamava o evangelho e os discípulos batizavam os crentes
(Jo 4.1,2). Jesus designou os apóstolos como pescadores de homens
(Mt 4.19) e os enviou a pescar homens pela pregação. “Pregar o evan-
gelho é lançar a rede; é trabalho apostólico. Batizar é reunir os peixes
já apanhados e levá-los para bordo.”
49
Paulo tinha de usar todo o seu
tempo e talento para pregar a Palavra e, por isso, deixava primariamen-
te a outros a tarefa de batizar.
b. Método. “Não com sabedoria de palavras.” Paulo não diz “pala-
vras de sabedoria” ou “sabedoria para falar”, mas, para ser preciso,
“com sabedoria de palavras”. Essa é a primeira vez na epístola que
Paulo escreve a palavra sabedoria. Nos versículos seguintes dos capí-
tulos 1 e 2, a palavra aparece no contraste que ele faz entre a sabedoria
de Deus e a sabedoria do mundo. Mas, nesse versículo, a expressão
sabedoria de palavras descreve o método de um orador grego discur-
sar com eloqüência. Na retórica grega, os oradores esmeravam-se na
apresentação de argumentos filosóficos para defender um determinado
ponto de vista. Paulo não se identifica com esse procedimento, pois ele
proclama a mensagem da cruz em termos simples.
Ao pregar o evangelho de forma simples, Paulo segue o exemplo
de Jesus. Jesus proclamou a mensagem da salvação e o povo simples o
ouviu com alegria. Da mesma forma, os apóstolos foram enviados a
pregar o evangelho com simplicidade e clareza. “‘Contar boas-novas
segundo a sabedoria do mundo’ é uma contradição; ‘novas’, isto é,
contar notícias, somente requer e admite linguagem direta. Adornar a
teoria do Calvário com elaborados teoremas significaria ‘anular a cruz
de Cristo’, eviscerar o evangelho.”
50
49. Ver Frederic Louis Godet, Commentary on First Corinthians (1886; reedição, Grand
Rapids: Kregel, 1977), pp. 84-85.
50. Findlay, First Corinthians, p. 767.
1 CORÍNTIOS 1.17
81
“[Para] que a cruz de Cristo não seja anulada.” Quando proclama-
va a mensagem da morte de Cristo na cruz do Calvário, Paulo sofreu o
escárnio do mundo greco-romano. Esse mundo rejeitou a mensagem
de uma morte ingnominiosa na cruz. Se Paulo, contudo, tivesse adota-
do a prática grega e tivesse apresentado sua mensagem com retórica
eloqüente, a mensagem da cruz teria sido esvaziada de seu poder e
glória. Então teria sido vã a sua mensagem e em consequência não
teria havido conversões e não aconteceriam batismos.
Os coríntios sabiam que Paulo tinha pregado o evangelho da morte
de Cristo sem recorrer à oratória ou à sabedoria humana (ver 2.1). Em
humildade, ele os tinha chamado ao arrependimento e fé em Jesus Cristo.
Havia indicado a vergonhosa cruz de Cristo pela qual eles foram sal-
vos do pecado e da morte.
Considerações Práticas em 1.16
A cultura norte-americana aceita o individualismo como um modo de
vida. Ela estimula o desejo de liberdade e promove o esforço por sucesso
numa sociedade competitiva. Ela encoraja a pessoa a subir a escada soci-
al, econômica e política com base em seus próprios méritos.
As estatísticas revelam que pelo menos um terço da população na
América do Norte se muda a cada ano. As famílias geralmente estão espa-
lhadas de norte a sul e de leste a oeste. Os adultos freqüentemente moram
longe de seus pais e de seus irmãos e irmãs. Quando pais idosos necessi-
tam de cuidado diário, são colocados em instituições para idosos onde
seus filhos e filhas podem visitá-los de vez em quando. Por causa do di-
vórcio, do abandono e da separação, um número cada vez maior de famí-
lias são chefiadas ou apenas pelo pai ou apenas pela mãe. Conseqüente-
mente, a família como tal é mais propriamente um pequeno núcleo que
consiste de um ou de ambos os pais e, geralmente, de dois ou três filhos.
Em outras culturas, a família geralmente consiste de um clã que inclui
avós, pai e mãe, filhos e filhas, tios e tias, sobrinhos e sobrinhas. Institui-
ções para idosos são praticamente inexistentes, pois os pais idosos são
cuidados por seus filhos e netos. A família atende às necessidades materi-
ais, sociais, emocionais e espirituais de todos os seus membros.
Quando norte-americanos ou povos de outras culturas lêem a passa-
gem da Escritura com a palavra casa, isto é, família, a interpretação e a
1 CORÍNTIOS 1.16
82
compreensão da palavra será necessariamente diferente. Podemos segu-
ramente presumir que uma cultura que considera a família como um clã
reflete mais apropriadamente o modelo bíblico do que uma estrutura que
promove o individualismo e a falta de raízes.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 1.10, 12, 16,17.
Versículo 10
t |a – a conjunção não introduz uma oração subordinada final sim-
ples, mas uma oração subordinada final seguida de um verbo exortativo.
A partícula e- é claramente adversativa para destacar a construção peri-
frástica µ:- sa:µ¡:tc¡-|et (que vocês possam ser completos). A constru-
ção está no perfeito para demonstrar efeito duradouro e no passivo para
indicar que Deus é o agente.
Versículo 12
¡-|…e- – o contraste indica que alguns estão dizendo isto e outros,
aquilo. A repetição de e- indica que as pessoas que falam são semelhantes.
Versículos 16,17
ìetie| – essa expressão adverbial significa “em adição a isso”.
eu – a partícula literalmente nega o verbo enviar, mas o curso da sen-
tença positivamente sugere que ela limita a atividade do infinitivo batizar.
18. Porque a palavra da cruz é loucura para os que estão perecendo, mas para
nós, que estamos sendo salvos, poder de Deus. 19. Pois está escrito:
“Destruirei a sabedoria dos sábios,
e a inteligência dos inteligentes
eu anularei”.
20. Onde está o sábio? Onde está o especialista na lei? Onde está o inquiridor
deste século? Deus não tornou louca a sabedoria deste mundo? 21. Desde que, na
sabedoria de Deus, o mundo, pela sua sabedoria, não conheceu Deus, aprouve a
Deus salvar aqueles que creram pela loucura da mensagem que foi pregada. 22. E
desde que os judeus pedem sinais e os gregos buscam sabedoria, 23. nós prega-
mos a Cristo crucificado, uma pedra de tropeço para os judeus, e loucura para os
gentios. 24. Para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é o
poder de Deus e a sabedoria de Deus. 25. Porque a loucura de Deus é mais sábia
do que os homens e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.
26. Considerem seu chamado, irmãos,que não foram muitos sábios de acordo
com a carne, não muitos poderosos, não muitos de nobre nascimento. 27. Mas
1 CORÍNTIOS 1.10, 12, 16, 17
83
Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu
as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes. 28. E Deus escolheu as
coisas insignificantes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para
anular as que são, 29. para que nenhum homem possa se vangloriar diante de
Deus. 30. Mas por causa dele vocês estão em Cristo Jesus, o qual se tornou sabe-
doria da parte de Deus para nós: justiça, e santificação, e redenção. 31. Para que,
exatamente como está escrito:
“Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”.
2. A loucura da Cruz
1.18-2.5
Nessa seção, Paulo ensina que o que é loucura para o mundo (a
saber, a pregação da cruz) é sabedoria para Deus, e o que é sabedoria
para o mundo (ou seja, sistemas filosóficos inventados pelo homem) é
loucura para Deus. Ele delineia o efeito do pregar-se a mensagem da
cruz de Cristo (v. 18), fundamenta seu ensino com uma passagem do
Antigo Testamento (v. 19) e leva os coríntios a tirarem suas próprias
conclusões fazendo-lhes uma série de perguntas (v. 20).
a. Os Perdidos e os Salvos
1.18-20
18. Porque a palavra da cruz é loucura para os que estão pere-
cendo, mas para nós, que estamos sendo salvos, poder de Deus.
Cada palavra nesse texto é importante, pois cada uma contribui
para uma mensagem poderosa. A conjunção porque serve como uma
ligação à referência de Paulo à cruz de Cristo (v. 17) e dá ao versículo
18 o caráter de um explicação. Quando Paulo escreve a palavra da
cruz, ele a separa da expressão sabedoria de palavras (v. 17). Embora
os dois termos traduzidos como “palavra” e “palavras” tenham a mes-
ma forma original no grego (logos), no contexto, nada têm em comum.
São, de fato, contrários. A palavra da cruz é a mensagem que proclama
um acontecimento de significado teológico e histórico. Ela aponta para
Cristo, que sofreu a morte de um criminoso, mas que afeta o destino
eterno do homem. Mas a sabedoria de palavras que o orador pronuncia
é de origem humana e contrária à mensagem da cruz.
“A palavra da cruz é loucura.” Para os gentios contemporâneos de
Paulo, o relato da morte de Cristo numa cruz fora da cidade de Jerusa-
1 CORÍNTIOS 1.18
84
lém era loucura. Classificavam Jesus como um criminoso ou um escra-
vo degenerado, pois somente esses transviados da sociedade eram cru-
cificados pelos romanos. A mensagem da cruz que Paulo anunciava
era, por isso, loucura para os gregos (v. 23).
“[Loucura] para os que estão perecendo.” O particípio presente
estão perecendo denota uma ação que está em progresso. Essa expres-
são tem tanto um componente subjetivo quanto um objetivo: subjeti-
vamente, o povo que repudia a mensagem de Paulo a considera loucu-
ra; objetivamente, o efeito da rejeição é condenação irrevogável (2Co
2.15; 4.3; 2Ts 2.10). Eles não estão a ponto de perecer, mas estão pere-
cendo realmente.
Em contraste, os coríntios não estão perecendo. Eles foram chama-
dos e santificados (v. 2); eles pertencem a uma classe diferente porque
aceitaram a ”palavra da cruz” e creram no evangelho. Portanto, Paulo
encoraja seus leitores. Ele se inclui quando diz:
“Mas para nós que estamos sendo salvos.” Observe que a cláusula
que estamos sendo salvos serve como uma explicação do pronome pes-
soal nós. O próprio Paulo coloca-se no mesmo nível dos coríntios e
afirma que eles são salvos. Mas eles não eram salvos quando Deus os
chamou? O que exatamente Paulo ensina sobre o tempo da salvação?
Em que tempo o verbo salvar é usado?
51
Uns poucos exemplos lançam
luz sobre o ensino de Paulo:
Passado: “Porque, nessa esperança, fomos salvos” (Rm 8.24)
“Pela graça vocês foram salvos” (Ef 2.5,8)
“Segundo a sua misericórdia, ele nos salvou” (Tt 3.5)
Presente: “Por ele [o evangelho] vocês estão sendo salvos”( 1Co 15.2)
“Os que estão sendo salvos” (2Co 2.15)
Futuro: “Quanto mais nós seremos salvos” (Rm 5.9)
“E, assim, todo o Israel será salvo” (Rm 11.26)
Os crentes, portanto, são, em princípio, salvos durante sua vida na
terra. Durante toda sua peregrinação terrena, guardam com alegria a
lembrança dessa abençoada segurança , pois estão no processo de se-
rem completamente salvos (comparar com Hb 1.14). A salvação plena
51. Consultar J. B. Lightfoot, Notes on the Epistles of St. Paul from Unpublished Com-
mentaries (1895; reedição, Grand Rapids: Zondervan, 1957), pp. 157-58.
1 CORÍNTIOS 1.18
85
vem para eles quando deixam o cenário dessa casa terrena e entram na
presença de Deus.
“É o poder de Deus.” Paulo diz confiantemente aos seus leitores:
“a nós pertence o poder de Deus”. Essa linguagem lembra a que Paulo
usa em sua epístola aos Romanos: “Pois não me envergonho do evan-
gelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que
crê” (1.16). O poder de Deus torna-se efetivo quando o evangelho de
Cristo é proclamado e as pessoas aceitam essa mensagem com fé. “A
palavra da cruz” tem poder para ressuscitar o pecador da morte espiri-
tual e para dar novidade de vida. Em essência, Deus está dinamica-
mente oferecendo a salvação ao seu povo.
52
Contudo, os sofisticados contemporâneos de Paulo pensaram que
ele estava proclamando pura tolice ao relacionar o poder de Deus à
fraqueza da cruz.
53
Seguindo o método de Jesus de apresentar Escritu-
ras como prova, Paulo confirma sua doutrina citando uma passagem
do Antigo Testamento.
19. Pois está escrito:
“Destruirei a sabedoria dos sábios
e a inteligência dos inteligentes
eu anularei”.
Essa é uma citação que Paulo faz quase palavra por palavra da
Septuaginta, a tradução grega das Escrituras do Antigo Testamento (Is
29.14; ver também Sl 33.10). A Septuaginta difere do texto hebraico,
que lê: “A sabedoria do sábio perecerá e a inteligência do inteligente
desaparecerá”.
O contexto dessa passagem do Antigo Testamento alude ao povo
de Israel, o qual honra a Deus com os seus lábios, mas não com o seu
coração (Is 29.13; Mt 15.8,9). Deus torna nula a sabedoria dos sábios
de Israel e dissipa a inteligência humana. Ele se opõe à sabedoria que
se origina num coração que está longe de servir a Deus. No Novo Tes-
tamento, Tiago chama a sabedoria terrena – em oposição à sabedoria
celestial – de não-espiritual e do diabo (Tg 3.15). Deus não depende de
52. Comparar com Donald Guthrie, New Testament Theology (Downers Grove: Inter-
Varsity, 1981), p. 592.
53. Veja Peter Lampe, “Theological Wisdom and the ‘Word About the Cross’: The Rheto-
rical Scheme in 1 Corinthians 1-4”, Interp 44 (1990): 120.
1 CORÍNTIOS 1.19
86
nossa sabedoria; pelo contrário, nós somos instados a rogar a Deus por
sabedoria (Tg 1.5), a qual ele dará liberalmente a qualquer um que se
achegar a ele com fé. Gordon D. Fee observa com propriedade: “Con-
tudo, é na loucura de nossas maquinações humanas que imaginamos
poder ludibriar a Deus ou que nos faz pensar que Deus deve ser tão
esperto quanto nós”.
54
20. Onde está o sábio? Onde está o especialista na lei? Onde
está o inquiridor deste século? Deus não tornou louca a sabedoria
deste mundo?
a. Alusões. Em 1 Coríntios, Paulo demonstra uma aparente predile-
ção por citar e fazer alusões à profecia de Isaías.
55
Duas das perguntas
nesse versículo – Onde está o sábio? Onde está o especialista na lei? –
são explicitamente de Isaías, e Paulo baseia-se implicitamente em Isa-
ías para uma terceira pergunta: “Deus não tornou louca a sabedoria do
mundo?”.
No oráculo do profeta contra o Egito, Isaías pergunta onde estão os
homens sábios do faraó (Is 19.12). A seguir, no contexto dos ais pro-
nunciados sobre os assírios, Isaías pergunta onde está o escriba (Is 33.18,
NKJV). Ele tem em mente o cerco de Jerusalém pelas forças de Sena-
queribe, rei da Assíria (Is 36-37). Quando o exército assírio cercou
Jerusalém, o rei Ezequias depositou sua confiança no Deus de Israel,
que o libertou da opressão. Um anjo do Senhor causou a morte de
185.000 soldados assírios (Is 37.36). “Isaías, refletindo sobre tudo isso,
descreve as pessoas, atônitas, dizendo: Onde está o escriba que contou
[deveria ter contado] o tributo (cobrado dos judeus)? Onde está aquele
que pesou (deveria ter pesado) o tributo? Onde está o que contou [de-
veria ter contado] as torres (cujo número os assírios conheceriam na
medida em que as fossem destruindo)? [Is 33.18].”
56
Para o propósito
de Paulo, contudo, o escriba é o especialista nas Escrituras do Antigo
Testamento.
54. Fee, First Corinthians, p. 70.
55. Das dezessete citações diretas do Antigo Testamento, seis são de Isaías: Isaías 29.14
em 1.19; Isaías 64.4 em 2.9; Isaías 40.13 em 2.16; Isaías 28.11,12 em 14.21; Isaías 22.13
em 15.32; Isaías 25.8 em 15.54.
56. William Hendriksen, “William Hendriksen on 1 Corinthians 1.18-31”, B of T 284
(1987): 20.
1 CORÍNTIOS 1.20
87
Prometendo redenção para Israel, Deus diz que destruirá o saber
dos sábios (Is 44.25). Com uma pergunta retórica que espera uma res-
posta afirmativa, Paulo diz que Deus fez parecer louca a sabedoria
deste mundo.
b. Perguntas. “Onde está o sábio?” Com quatro perguntas, Paulo
resume o que havia afirmado no versículo 18 e provado pelas Escritu-
ras no versículo 19. A ênfase recai sobre Deus, que age para salvar, e
destrói a sabedoria do sábio. Fosse alguém confrontar a Deus com sa-
bedoria humana, seria ele o derrotado. Como na época de Moisés, os
sábios do Egito desapareceram de cena por ordem de Deus; da mesma
forma, a sabedoria desaparece da terra quando os mestres que se opõem
a Deus proclamam sabedoria humana. Paulo não supõe que todos os
sábios saíram de Corinto, mas que a tentativa deles de frustrar a obra
de Deus é fútil (ver 3.19).
“Onde está o especialista na lei?” Com a segunda pergunta, Paulo
dirige o seu discurso àqueles judeus que haviam recebido formação
para explanar as Escrituras do Antigo Testamento (que, diga-se de pas-
sagem, era a formação do próprio Paulo). Essas pessoas recorriam às
doutrinas da lei do Antigo Testamento, mas recusavam-se a aceitar a
mensagem da cruz como o cumprimento dessas doutrinas.
“Onde está o inquiridor deste século?” Essa terceira pergunta apli-
ca-se aos filósofos, tanto judeus como gregos. A expressão deste sécu-
lo se opõe a o século vindouro; contrasta os valores éticos do mundo
presente com os do reino de Cristo.
Resumindo as três primeiras perguntas com uma quarta, Paulo faz
a seguinte pergunta retórica: “Deus não tornou louca a sabedoria do
mundo?”. Enquanto o mundo volta a sua sabedoria contra o Todo-po-
deroso, Deus torna louca a prudência do mundo; o resultado é derrota
para o mundo. Paulo vale-se de um paralelismo no final da terceira e
da quarta pergunta. As expressões deste século e deste mundo são sinô-
nimas.
57
Os coríntios precisam compreender que Deus tornou loucura
a sabedoria mundana daqueles que rejeitaram a mensagem da cruz de
Cristo, muito embora eles próprios ainda não tivessem compreendido
57. Barrett, First Corinthians, p. 53.
1 CORÍNTIOS 1.20
88
o pleno significado dessa cruz. Por meio dela, Deus inaugurou o sécu-
lo vindouro, que transcende o presente século.
58
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 1.18-20
Versículos 18,19
:et ,...a ieììu¡- |et, – esse particípio médio presente do verbo a ie ììu¡t
(eu destruo) indica que o processo é contínuo e que o composto é perfeito.
59
:et,...cæ,e¡-|et,. – o particípio presente progressivo do verbo cæ,æ
(eu salvo) indica que os crentes estão sendo salvos.
O contraste das partículas ¡-| e e- demonstra que há somente duas
classificações: os perdidos e os salvos.
aieìæ – o verbo é a forma futura de aieììu¡t; sua estreita relação
com o particípio presente do mesmo verbo no versículo 18 é interessante.
Versículo 20
-¡æ¡a|-| – do verbo ¡æ¡at|æ (torno louca), o aoristo mostra ação
concluída. Ver a relação desse verbo com o substantivo (loucura).
sec¡eu – uma vez que a evidência de manuscritos que favorecem da
inclusão do pronome :eu:eu é forte, muitos tradutores a adotaram.
60
Ou-
tros supõem que a adição do pronome pode ter sido influenciada pela
expressão anterior este século.
c. Sabedoria e Loucura
1.21-25
21. Desde que, na sabedoria de Deus, o mundo, pela sua sabe-
doria, não conheceu Deus, aprouve a Deus salvar aqueles que cre-
ram pela loucura da mensagem que foi pregada.
a. “Desde que, na sabedoria de Deus, o mundo, pela sua sabedoria,
não conheceu Deus.” As duas conjunções (“desde” e “que”) expres-
sam causa e tornam esse versículo uma explanação comovente da ma-
58. Consultar James A. Davis, Wisdom and Spirit: An Investigation of 1 Corinthians 1.18
– 3.20 Against the Background of Jewish Sapiential Traditions in the Greco-Roman Period
(Lanham, Md.: University Press of America, 1984), p. 74;. McMillan, “An Aspect of Re-
cent Wisdom Studies in the New Testament”, ResQ 10 (1967): 201-10.
59. Ver Robertson, Grammar, p. 827
60. KJV, NKJV, NAB, NEB, REB, SEB, GNB, Phillips, Cassirer.
1 CORÍNTIOS 1.21
89
neira como Deus transformou em loucura a sabedoria do mundo (v.
20). Paulo é específico quando diz: “na sabedoria que pertence a Deus”.
A sabedoria de Deus, não a sabedoria do mundo, é importante. Mas o
que Paulo entende pela expressão a sabedoria de Deus? Geralmente é
dada uma destas duas respostas:
1. Alguns comentaristas apontam as seguintes passagens do Novo
Testamento: Atos 14.17, na qual Paulo, falando ao povo de Listra, diz
que Deus não deixou a si mesmo sem testemunho, mas mandou chuvas
e estações frutíferas; Atos 17.27, em que Paulo, diante do Areópago,
afirma que os homens procurariam a Deus; e Romanos 1.20, que de-
clara que os homens são indesculpáveis porque Deus se deu a conhe-
cer pela criação.
61
2. Outros comentaristas registram objeções a essa linha de inter-
pretação,
62
embora eles reconheçam que o peso desses paralelos é sig-
nificativo. Uma objeção é que o contexto desse versículo é relaciona-
do não a Deus revelando-se a si mesmo na criação, mas a Deus salvan-
do os crentes por meio da mensagem da cruz de Cristo. A estrutura
básica da sentença é que Deus em sua sabedoria aprouve salvar os que
creram na mensagem da cruz. O verbo principal, aprouve, recebe ênfa-
se na sentença e é crucial para o entendimento desse versículo.
Uma objeção relacionada é que a expressão sabedoria de Deus
está em oposição à expressão a sabedoria deste mundo. Deus executa
o seu plano de salvação em sabedoria que o mundo chama loucura.
Inversamente, a sabedoria do mundo é loucura para Deus porque ela é
uma rejeição da mensagem da cruz.
E uma terceira objeção é que a oração “o mundo, pela sua sabedo-
ria não conheceu Deus” não deveria ser entendida como logicamente
precedente à oração aprouve a Deus. Ou seja, Deus rejeita a sabedoria
do mundo por causa de sua recusa em aceitar a sabedoria de Deus. Mas
apraz a Deus salvar aqueles que em fé aceitam o evangelho de Cristo.
61. Ver os comentários de Calvino, p. 39; Godet, p. 96; Hodge, p. 21; e Fee, p. 72
62. Lightfoot, Notes on the Epistles, p. 161; Grosheide, First Epistle to the Corinthians,
p. 47; W. Harold Mare, 1 Corinthians, no vol.10 de The Expositor’s Bible Commentary,
org. por Frank E. Gaebelein, 12 vols. (Grand Rapids: Zondervan, 1976), p. 194; Leon Mor-
ris, 1 Corinthians, ed. rev., série Tyndale New Testament Commentaries (Leicester Inter-
Varsity; Grand Rapids: Eerdmans, 1987), p. 44.
1 CORÍNTIOS 1.21
90
b. “Aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da prega-
ção.” O verbo aprazer aponta para a soberania de Deus em vista da
qual ele escolhe os crentes eleitos com base em seu decreto, decisão e
propósito.
63
O que apraz a Deus é, contudo, diametralmente oposto à
loucura humana e seu apego à sabedoria do mundo. O mundo ora igno-
ra propositadamente, ora ridiculariza mordazmente a pregação do evan-
gelho porque para a mente humana pecaminosa ele é loucura. Mas o
povo de Deus continua crendo nesse evangelho louco e o aclama como
sabedoria de Deus.
c. Finalmente, deve-se observar o contraste entre duas locuções
nesse versículo: o mundo… por sua sabedoria e pela loucura da men-
sagem que foi pregada. Nos dois casos, a palavra pela indica o objeto
da confiança: o mundo confia na sabedoria humana, mas o crente, na
loucura da pregação. Domingo após domingo, e até mesmo nos demais
dias da semana, os crentes ouvem a pregação do evangelho e recebem
instrução das Escrituras. A pregação não é apenas a apresentação elo-
qüente de um sermão (embora uma apresentação eficiente também te-
nha a sua importância), mas também o conteúdo da mensagem. Os
crentes aceitam o conteúdo divino com fé e respondem à sabedoria de
Deus, os incrédulos, porém, rejeitam essa sabedoria e a chamam de
loucura. O resultado é que, enquanto a pessoa do mundo se recusa a
conhecer a Deus e se perde eternamente, o crente conhece a Deus e é
salvo eternamente.
22. E desde que os judeus pedem sinais e os gregos buscam
sabedoria, 23. nós pregamos a Cristo crucificado, uma pedra de
tropeço para os judeus, e loucura para os gentios.
Pela segunda vez, Paulo emprega a conjunção causal desde que
(ver v. 21) e, dessa forma, fornece uma explanação adicional. Ele ago-
ra especifica, e apresenta o mundo dividido em dois grupos: os judeus
e os gregos.
a. “Os judeus pedem sinais e os gregos buscam sabedoria.” Sendo
ele mesmo um judeu nascido numa cultura helenista, Paulo caracteriza
adequadamente tanto os judeus como os gregos. Nos Evangelhos, le-
mos que os judeus repetidamente pediram de Jesus um sinal.
64
Jesus
63. Hans Bietenhard, NIDNTT, vol. 2, p. 818; Gottlob Schrenk, TDNT, vol. 2, p. 741.
64. Mateus 12.38,39; 16.1; Marcos 8.11,12; Lucas 11.16; João 2.18; 6.30.
1 CORÍNTIOS 1.22, 23
91
não se submeteu a eles, pois recusavam-se a crer nele a não ser que
realizasse um milagre (ver Jo 4.48). Aos judeus, Deus havia confiado
as Escrituras do Antigo Testamento (Rm 3.2); eram os beneficiários
das alianças de Deus, da lei, das promessas e das leis do culto (Rm
9.3,4). Apesar disso, quando Jesus veio, eles recusaram-se a crer nele a
não ser que ele se tornasse um operador de milagres sujeito às ordens
deles. Em resumo, os judeus rejeitaram a mensagem divina da salva-
ção que Jesus trouxe (Jo 1.11).
O termo gregos tem sentido mais amplo do que uma simples refe-
rência aos cidadãos de Corinto ou mesmo à Grécia como nação; refere-
se, isto sim, a um grupo de pessoas sob a influência da língua, da filo-
sofia e da cultura grega. Filósofos estóicos e epicureus (At 17.18) busca-
vam razões para sua existência neste mundo. Dotados de mente inqui-
sitiva, eles e seus conterrâneos buscavam sabedoria. Tanto judeus como
gregos, no entanto, demonstravam ceticismo, ao contrário de Paulo e
de seus colaboradores que pregavam o evangelho de Cristo.
b. “Mas nós pregamos a Cristo crucificado, uma pedra de tropeço
para os judeus e loucura para os gentios.” A diferença é, de fato, mar-
cante. Paulo refere-se ainda de forma mais intensa à cruz do que havia
feito antes (vs. 17,18), afirmando que, em sua pregação, ele e seus
colaboradores estão explicando o significado da crucificação de Cristo
(ver 2.2). Triunfantemente, ele declara uma verdade que foi adotada
como um lema pela Igreja Cristã: “Nós pregamos a Cristo crucifica-
do.” Mas qual é precisamente o sentido dessas palavras? O próprio
Paulo oferece uma resposta dupla.
“Uma pedra de tropeço para os judeus.” Do ponto de vista de um
judeu, Deus amaldiçoava eternamente uma pessoa crucificada. Mes-
mo uma simples referência a uma tal pessoa era ofensiva a um judeu de
sensibilidade religiosa (comparar com Dt 21.23; Gl 3.13; 5.11). Na
verdade, identificar um homem crucificado como o Cristo, isto é, o
Messias, era o extremo da insensibilidade religiosa.
“E loucura para os gentios.” Para os gentios, a idéia de proclamar
uma mensagem sobre uma pessoa que foi pregada a uma cruz era com-
pleta loucura. Uma pessoa crucificada pelas autoridades romanas geral-
mente era um escravo criminoso. Na forma de pensar dos gentios, seria
ridículo dizer o que quer que fosse a respeito de um homem condenado
1 CORÍNTIOS 1.22, 23
92
a morrer dessa maneira. Certamente, um escravo criminoso que morria
numa cruz não poderia ser o Senhor e Salvador da humanidade.
Os crentes aceitam a mensagem da cruz e prontamente admitem
não compreenderem plenamente o significado do sofrimento de Jesus
na cruz. Não obstante, sabem que são salvos pela fé.
24. Para os que foram chamados, tanto judeus como gregos,
Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus. 25. Porque a loucu-
ra de Deus é mais sábia do que os homens e a fraqueza de Deus é
mais forte do que os homens.
Uma vez mais Paulo usa o verbo chamar (ver vs.1, 2, 9). Somente
aquelas pessoas, incluindo judeus e gregos, que foram efetivamente
chamadas por Deus, são capazes de crer na mensagem da cruz e aceitá-
la sem reservas. Deus chama para si um povo que é amado, santo e
separado do mundo.
65
Ele os chama dentre aqueles judeus para os quais
Cristo é uma ofensa e dentre aqueles gregos para os quais Cristo é
loucura. Oriundos das comunidades judias e da cultura grega, essas
pessoas crêem na mensagem de Cristo (v. 21) e são salvas. Nesse con-
texto, o nome Cristo significa o Cristo crucificado e ressuscitado.
Nos versículos 24 e 25, Paulo atribui quatro qualidades a Deus –
poder, sabedoria, loucura e fraqueza – as quais vamos examinar sepa-
radamente.
a. Poder de Deus. Cristo é o poder de Deus. Paulo não relaciona a
palavra poder à obra de Cristo na criação (Jo 1.3; Cl 1.16,17; Hb 1.2),
mas à sua obra de recriação (ver v. 18; Rm 1.4,16). Cristo é o poder de
Deus na redenção do seu povo. O poder de Deus é revelado na ressur-
reição de Cristo, que é o maior milagre de todos os tempos. Na verda-
de, a palavra poder é uma resposta ao pedidos de um sinal pelos judeus.
b. Sabedoria de Deus. Paulo não diz que Cristo personifica sabe-
doria, mas que Cristo é a resposta de Deus aos gentios que consideram
loucura mensagem da cruz. A sabedoria de Deus contrasta com a lou-
cura dos gentios.
c. Loucura de Deus. “Porque a loucura de Deus é mais sábia do
65. Herman N. Ridderbos, Paul: An Outline of His Theology, trad. por John Richard de
Witt (Grand Rapids: Eerdmans, 1975), p. 333; D. A. Carson, The Cross and Christian
Ministry (Grand Rapids: Baker, 1993), pp. 22-23.
1 CORÍNTIOS 1.24, 25
93
que os homens.” A loucura atribuída a Deus e comparada com a sabe-
doria humana é infinitamente maior do que as qualidades atribuídas ao
homem.
66
Deus usa uma manjedoura em Belém como o berço para seu
majestoso Filho e escolhe uma cruz cruel como instrumento de morte
para seu enviado divino.
d. Fraqueza de Deus. “E a fraqueza de Deus é mais forte do que os
homens.” Deus recorre àquelas coisas que são loucas e fracas aos olhos
do homem para mostrar sua sabedoria e força na obra da salvação do
povo de Deus. Respondendo ao repetido apelo de Paulo para remover
um espinho de sua carne, o Senhor disse: “A minha graça te basta, por-
que o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2Co 12.9; ver também 13.4).
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 1.21-25
Versículo 21
-i-teµ ,a¡ – essas duas conjunções (“pois, desde que”) enfatizam a
causa e explicam o versículo anterior.
:eu sµ¡u,¡a:e, – o substantivo derivado do verbo sµ¡uccæ (eu pre-
go) refere-se não à atividade da pregação, mas ao conteúdo do evangelho.
cæcat :eu, itc:-ue|:a, – o aoristo infinitivo (“salvar”) denota uma
ação simples vista em sua totalidade.
67
O particípio ativo presente (“os
que crêem”) revela progresso contínuo.
Versículo 23
-c:au¡æ¡-|e| – do verbo c:au¡eæ (eu crucifico), o tempo perfeito
nesse particípio passivo mostra que a ação de crucificar Jesus ocorreu no
passado, mas os efeitos desse ato é relevante para o passado, o presente e
o futuro.
¡-|...e- – o contraste entre os interesses dos judeus e dos gregos é
enfatizado.
66. Ver J. M. Cooper, “The Foolishness of God versus the Wisdom of Man”, ThEd 14
(1983): 35-40.
67. Ver H. E. Dana e Julius R. Mantey, A Manual Grammar of the Greek New Testament
(1927; reedição, Nova York: Macmillan, 1967), p. 196.
1 CORÍNTIOS 1.21-25
94
Versículo 25
e:t – a conjunção introduz aparentemente uma oração coordenada, e
o mesmo faz a conjunção ,a¡ no versículo seguinte (v. 26). Editores do
texto grego (Nes-Al, UBS) colocam um sinal de ponto e vírgula no final
do versículo 24 para mostrar a estrutura coordenada da cláusula seguinte.
:æ| a|ò¡æiæ| – aqui está uma referência implícita à “sabedoria dos
homens”, traduzida “[mais sábio] que a sabedoria dos homens”.
68
c. O Fraco e o Forte
1. 26-31
26. Considerem seu chamado, irmãos, que não foram muitos
sábios de acordo com a carne, não muitos poderosos, não muitos
de nobre nascimento.
a. Chamado. Quando Paulo apresenta um assunto sensível que toca
os seus leitores pessoalmente, ele freqüentemente recorre à saudação
cordial, irmãos. Na linguagem da época, esse termo também incluía as
mulheres.
O verbo considerar pode, nesse versículo, ser entendido como uma
ordem (modo imperativo) ou como uma constatação (modo indicati-
vo). O verbo é o primeiro termo na sentença grega; em vista disso, é
enfático. A maioria dos tradutores opta pelo modo imperativo e traduz
(com variantes na escolha da palavra) “Considerem!”
69
Outros tomam
o verbo no modo indicativo e o traduzem “vocês estão consideran-
do”.
70
Paulo diz para os coríntios considerarem seu chamado. Mas qual é
o significado do termo chamado [ou vocação]? Primeiro, Deus chama
uma pessoa pela pregação e pelo ensino do evangelho. Se esse chama-
do torna-se efetivo pela obra do Espírito Santo, o crente desfruta de
comunhão íntima com Cristo (vs. 2, 9, 24). A seguir, o crente que res-
ponde ao chamado de Deus entra em comunhão com outros crentes
(ver Ef 4.1).
68. C. F. D. Moule, An Idiom-Book of New Testament Greek, 2ª ed. (Cambridge: Cam-
bridge University Press, 1960), p. 98.
69. NEB, REB, NIV, RSV, NRSV, NASB, GNB, SEB, MLB, Phillips e Cassirer.
70. KJV, NKJV; comentaristas Barrett, Bengel, Grosheide, Hodge.
1 CORÍNTIOS 1.26
95
Além disso, Paulo faz seus leitores lembrarem de sua vocação es-
piritual. Não são apenas chamados, também são santos (v. 2) e, como
tais, são povo de Deus. Eles precisam compreender a manifestação de
loucura e fraqueza da parte de Deus em relação à cruz de Cristo. Preci-
sam estar dispostos a suportar o escândalo da cruz (Gl 5.11) e demons-
trar a humildade de Cristo. Alguns cristãos de Corinto eram da opinião
de que seu lugar na igreja era superior ao dos demais crentes (v. 12).
Não tinham interesse em promover o bem-estar espiritual de seus ir-
mãos na fé. Seu sectarismo os impedia de servir a outros.
72
Paulo vai,
na seqüência, dar instrução relativa à posição educacional, econômica
e social desses coríntios: os sábios, os poderosos e os de nobre nasci-
mento.
73
b. Classe. A igreja de Corinto consistia de pessoas simples e de
alguns poucos líderes que haviam alcançado proeminência educacio-
nal, financeira e social.
74
Dentre as pessoas proeminentes estavam Es-
téfanas (v. 16; 16.17), os ex-líderes da sinagoga, Sóstenes e Crispo (vs.
1 e 14), o generoso Gaio (v. 14; Rm 16.23) e Erasto, tesoureiro da
cidade (Rm 16.23).
“Não há muitos sábios segundo a carne, não muitos poderosos, não
muitos de nobre nascimento.” Paulo fornece informação indireta sobre
o status de alguns membros da igreja antes de sua conversão. Pelos
padrões do mundo, isto é, “segundo a carne”, poucos deles eram reco-
nhecidos como sábios, da classe governante ou da nobreza. Embora
alguns dos cristãos de Corinto fossem ricos, poucos eram bem-nasci-
dos, isto é, de origem nobre. Jesus revela que Deus oculta coisas espi-
rituais dos sábios e instruídos, mas as revela aos pequeninos que de-
pendem de outros para ajuda e direção (Mt 11.25; Lc 10.21).
27. Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para enver-
gonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para en-
72. Consultar R. A Horsley, “Wisdom of Word and Words of Wisdom in Corinth”, CBQ
39 (1988): 224-39.
73. Ver Gerd Theissen, The Social Setting of Pauline Christianity: Essays on Corinth,
org. por John H. Schütz (Filadélfia: Fortress, 1982), p. 72.
74. Consultar E. A. Judge, “The Social Identity of the First Christians: A Question of
Method in Religious History”, JRH 11 (1980): 201-17; Abraham J. Malherbe, Social As-
pects of Early Christianity, 2ª ed. aumentada (Filadélfia: Fortress, 1983), p. 72.
1 CORÍNTIOS 1.27
96
vergonhar as fortes. 28 E Deus escolheu as coisas insignificantes
do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para anular as
que são.
Nesses versículos, Paulo expõe a ação redentora de Deus; ele o faz
por meio das técnicas literárias do contraste e da repetição. A expres-
são adversativa mas começa um contraste, apresentando o lado positi-
vo das afirmações negativas do versículo anterior (v. 26). Antônimos
nesses versículos são as coisas loucas e os sábios, as coisas fracas e as
fortes. A expressão muitos de nobre nascimento (v. 26) é equilibrada
por um antônimo, “as coisas insignificantes” (v. 28). A repetição ocor-
re na escolha dos verbos escolheu e envergonhar, além da expressão
do mundo.
Paulo ensina duas coisas:
a. Soberania. Nesses versículos, Paulo ensina não a doutrina da
eleição divina, mas a soberania de Deus. Ele repete intencionalmente
palavras e expressões para demonstrar que Deus age na vida dos corín-
tios (o verbo escolher e o substantivo mundo ocorrem cada um três
vezes nos dois versículos [vs. 27 e 28]).
Primeiro, Deus governa soberanamente, escolhendo as coisas lou-
cas do mundo. Essas são coisas sem importância (comparar com
3.18,19). Por exemplo, de acordo com o autor romano Sêneca, o povo
de Deus fazia algo sem sentido ao guardar o sábado; o mundo gentio
não tinha um conceito de semana e, por isso, considerava o descanso
no sábado completa insensatez e uma perda de tempo. Mas Deus usa as
ciosas que o mundo chama loucura para envergonhar os homens que
são tidos por sábios.
Em segundo lugar, Deus escolhe essas coisas que o mundo consi-
dera fracas para envergonhar as fortes. Para ilustrar, as Bem-aventu-
ranças ensinam que os mansos herdarão a terra (Mt 5.5), muito embora
para o mundo a mansidão seja sinônimo de fraqueza. Na parábola do
grande banquete (Lc 14.16-24), Jesus retratou os convidados no salão
do banquete não como cidadãos, mas como os pobres, os paralíticos,
os cegos e os mancos. Aqui, o dito proverbial é aplicável: “os últimos
serão primeiros, e os primeiros serão últimos” (Mt 20.16).
Terceiro, Paulo afirma que as coisas insignificantes e as desprezí-
1 CORÍNTIOS 1.27, 28
97
veis foram escolhidas por Deus. Para ele, o substantivo coisas no plu-
ral neutro “indica uma massa em que os indivíduos têm tão pouco va-
lor que não são contados como personalidades distintas”.
75
Mas essas
pessoas, às quais o mundo despreza, Deus as escolhe como suas. Deus
leva a cabo seu propósito conferindo honra ao que é comum e abolindo
as coisas que são importantes.
b. Propósito. Paulo escreve três orações de propósito nos versícu-
los 27 e 28. Ele diz que Deus envergonha os sábios, envergonha os
fortes e anula coisas que aos olhos do homem são importantes. Na
visão do mundo, essas pessoas e coisas insignificantes não contam. É
como se elas fossem inexistentes. O mundo dá valor apenas aos sábios,
aos poderosos e aos de nobre nascimento. Mas Deus inverte os pa-
drões do mundo pelo fato de escolher pessoas que são humildes, fracas
e desprezadas pelo mundo.
76
Ele anula (isto é, remove completamente)
esses padrões transitórios para dar lugar aos estatutos eternos que são
inaugurados com a nova ordem em Jesus Cristo. Deus escolhe aquilo
que é insignificante e desprezado e esvazia as coisas que são importan-
tes para o mundo. Como Paulo escreve em sua carta à igreja em Roma,
Deus “chama as coisas que ainda não existem como se elas já existis-
sem” (Rm 4.17, NKJV). Deus executa os seus planos de acordo com a
sua vontade soberana.
29. Para que nenhum homem possa se vangloriar diante de
Deus.
Paulo conclui sua longa discussão com uma oração subordinada
final negativa que exclui qualquer vanglória humana diante de Deus.
Quando Deus vai até a mais humilde camada de existência para esco-
lher seu próprio povo e suas próprias coisas e então as exalta, ninguém
pode atribuir o crédito a si mesmo. Deus elimina toda vanglória em sua
presença porque nenhum homem, mas somente Deus, é digno de lou-
vor e glória. Como o expressa John Albert Bengel, “Podemos nos glo-
riar não diante dele, mas nele”.
77
Os coríntios aparentemente não haviam aprendido essa lição. Eles
75. Godet, First Corinthians, p. 112.
76. Ver George E. Ladd, A Theology of the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans,
1974), p. 398; J. I. Packer, NIDNTT, vol. 1, p. 73.
77. Bengel, New Testament Commentary, vol. 2, p. 173.
1 CORÍNTIOS 1.29
98
se vangloriavam livremente nas realizações humanas e na posse de
coisas materiais. Em suas duas epístolas, Paulo freqüentemente censu-
ra os seus leitores por causa do pecado de se vangloriar.
78
De forma
exemplar, Paulo ensina as pessoas a não se gloriarem em seus feitos,
mas a louvarem o Senhor em tudo o que fazem: até mesmo seu comer
e beber precisa ser feito para a glória de Deus (10.31). Eles precisam
ver que Deus os chamou para fora de um mundo de trevas para a mara-
vilhosa companhia de Cristo. Tudo o que eles recebem vem a eles da
parte de Deus o Pai, que os ama por meio de seu Filho Jesus Cristo.
Nada trago em minhas mãos,
Simplesmente me apego à tua cruz;
Nu, venho a ti em busca de vestes;
Desamparado, venho a ti em busca de graça;
Imundo, venho à fonte;
Lava-me, Salvador, ou morro.
– Thomas Hastings
30. Mas por causa dele vocês estão em Cristo Jesus, o qual se
tornou sabedoria da parte de Deus para nós: justiça, e santifica-
ção, e redenção.
a. “Mas por causa dele.” Paulo chega ao ponto central da questão
ao lembrar os coríntios da salvação deles em Cristo. Eles são crentes,
não incrédulos. Por essa razão, ele começa o versículo com uma par-
tícula adversativa que é traduzida como “mas”. Ele indica Deus como
o autor da salvação. Deus enviou seu Filho para salvar seu povo, para
purificá-lo de pecado e para trazê-lo para a sua gloriosa comunhão.
Paulo pode corretamente dizer “por causa dele”, pois Deus é a causa
de o homem estar em Cristo Jesus.
b. “Vocês estão em Cristo Jesus.” A locução em Cristo Jesus ou em
Cristo aparece muitas vezes nas epístolas de Paulo.
79
Estar em Cristo
significa ter comunhão íntima com ele e com todos os demais crentes
que estão unidos a ele. Em outras palavras, a união com Cristo é um
privilégio e ao mesmo tempo uma obrigação de viver uma vida que
seja dedicada a ele.
78. 1 Coríntios 3.21; 2 Coríntios 10.17; 11.12, 18.
79. Romanos 6.11; 8.1, 39; 16.3, 7, 9, 10; 1Coríntios 1.30; 2 Coríntios 5.17; Gálatas 1.22;
5.6; Efésios 1.13.
1 CORÍNTIOS 1.30
99
c. “Que se tornou sabedoria de Deus para nós.” Alguns tradutores,
entre os quais alguns comentaristas, entendem os quatro substantivos
sabedoria, justiça, santidade e redenção como sendo a seqüência que
Paulo pretendia.
80
Outros tradutores consideram a frase um comentá-
rio parentético, de modo que a sentença principal seria: “De [Deus]
vocês são por meio de Jesus Cristo (que se tornou sabedoria para nós
pela ação de Deus) justiça, e santificação, e redenção”.

Ele coloca a
oração parentética em oposição a Cristo Jesus.
81
Outros, ainda, afir-
mam que o conceito sabedoria é explicado pelos substantivos justiça,
santidade e redenção.
82
Convém tecer algumas poucas observações sobre essas traduções.
A gramática no texto grego dificulta a coordenação das quatro pala-
vras sabedoria, justiça, santidade e redenção. O texto parece indicar
que a palavra sabedoria tivesse de ser explicada pelos outros três subs-
tantivos (comparar a tríade análoga lavados, santificados e justifica-
dos em 6.11). Porque estamos em Cristo Jesus, todos os quatro subs-
tantivos estão em primeiro lugar relacionados a ele e depois a nós (ver
as traduções NEB e REB). Isso é evidente mesmo quando o termo
sabedoria é interpretado em oposição a Cristo Jesus. Com respeito aos
quatro substantivos, concluímos que “[sabedoria] se mantém por si
mesmo, com os outros três ligados a ele a título de definição”.
83
A sabedoria tem sua origem em Deus, que a faz habitar em Cristo
Jesus. Por sua vez, por meio de Cristo Jesus, nós nos tornamos benefi-
ciários dessa sabedoria. Mediante nossa união com Cristo, possuímos
sabedoria espiritual para conhecer a Deus e tomarmos posse de sua
obra para nossa salvação. A oração subordinada “que se tornou sabe-
doria de Deus para nós” reflete a obra salvífica que Cristo realizou em
nosso favor: em Cristo temos justiça, santidade e redenção. Paulo es-
creve que Cristo é sabedoria para nós. Ele começa o versículo 30 com
o pronome vocês, que se refere aos coríntios. Mas quando ele mencio-
na a sabedoria em conexão com a salvação, ele muda o pronome para a
primeira pessoa do plural oblíquo nos para incluir-se.
80. Por exemplo, KJV, BJ, NJB, Alford, Calvino, Godet, Hodge, Lenski.
81. W. Bender, “Bemerkungen zur Übersetzung von 1 Korinther 1:30”, ZNW 71 (1980):
263-68.
82. Ver NKJV, NIV.
83. Findlay, First Corinthians, p. 773.
1 CORÍNTIOS 1.30
100
d. “Justiça, e santidade, e redenção.” Em Cristo somos reconcilia-
dos com Deus. Noutro lugar, Paulo ensina que Deus fez de Cristo Aquele
que leva sobre si os nossos pecados, a fim de que possamos nos tornar
justiça de Deus em Cristo (2Co 5.21; ver Rm 10.4; Fp 3.9). Justiça é
um ato único, mas santidade é o resultado ou efeito de um ato;
84
a
justiça é um ato externo mediante o qual uma pessoa é declarada justa
em Cristo; santidade é um estado interior alcançado pela habitação do
Espírito Santo no crente.
Paulo usa a palavra redenção na lista de três substantivos explica-
tivos. Esses substantivos não são apresentados numa seqüência doutri-
nária, não aparecem outra vez como uma tríade e não são explicados
no contexto da passagem. Redenção talvez apareça por último na se-
qüência porque “é o primeiro dom de Cristo a iniciar em nós e o último
a ser aperfeiçoado”.
85
Cristo Jesus ofereceu a si mesmo na cruz do
Calvário pela nossa redenção (Rm 3.24,25).
31. Para que, exatamente como está escrito:
“Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”.
Em Cristo Jesus recebemos uma mente iluminada (comparar com
Ef 1.18) para compreender que, primeiro, por meio de sua obra, fomos
declarados justos diante de Deus; segundo, que Deus nos santifica para
nos fazer permanecer em sua presença sem qualquer ruga ou mancha;
e, por último, que Deus nos liberta do peso da culpa e da servidão ao
pecado. Cristo Jesus é nosso Salvador e Senhor. Caso alguém queira se
vangloriar, ele pode fazer isso somente vangloriando-se no Senhor e
dando graças a Deus o Pai pela pessoa e obra de Cristo.
Conforme seu costume, Paulo fundamenta seu ensino na Escritura.
Ele cita Jeremias 9.24,25 e apresenta um resumo de uma linha: “Aque-
le que se gloria, glorie-se no Senhor” (ver 2Co 10.17). Jeremias regis-
tra uma palavra do Senhor que instrui o povo de Israel a não se vanglo-
riar por causa da sabedoria humana ou de riquezas terrenas. Deviam
vangloriar-se, diz o Senhor, no entendimento e conhecimento de Deus,
que demonstra bondade, justiça e retidão em favor de seu povo. Que
alguém se glorie de conhecer intimamente a Deus. Paulo usa essa pas-
84. Bauer, p. 9; Thayer, p. 6.
85. Calvino, I Corinthians, p. 46.
1 CORÍNTIOS 1.31
101
sagem de forma resumida para dizer aos coríntios que conhecessem a
Deus pessoalmente em Jesus Cristo e se gloriassem somente nele.
Considerações Práticas em 1.27-29
Friedrich Wilhelm Nietzsche, nascido em 1844, pertencia a uma fa-
mília de pregadores. Seu pai era um ministro do evangelho, assim como
muitos ancestrais de sua mãe. Ao estudar teologia, desenvolveu uma pro-
funda aversão à fé cristã. Descrevia Jesus como um fraco que morreu
vergonhosamente numa cruz em absoluto fracasso. Nietzsche não apenas
desprezava Jesus como também a todos os que acreditavam no evangelho
de Cristo. Segundo Nietzsche, os cristãos são favoráveis ao sofrimento,
desprezam as riquezas e a sabedoria, além de preferirem o fraco ao forte.
Para ele, Deus estava morto e Jesus era um insensato.
Secularistas modernos dirigem acusações semelhantes contra Cristo
e o Cristianismo. Afirmam que os ensinamentos de Cristo estão ultrapas-
sados e os Dez Mandamentos, obsoletos. Acusam as normas cristãs de
inibir a vida, de obstruir a realização própria e de induzir à culpa. Ensi-
nam que se adotarmos padrões humanos, somos libertos das algemas da
religião cristã.
Contudo, Deus escolhe as coisas loucas e fracas do mundo para en-
vergonhar os ateístas, os agnósticos, os humanistas e os secularistas. Ele
anula seus padrões inventados por homens para que eles experimentem
falência moral e ceifem uma colheita de violência física numa sociedade
decadente. Entrementes, Deus escolhe as coisas loucas e as fracas deste
mundo para promover sua igreja e seu reino. Ele confere honra ao traba-
lho de pessoas insignificantes e desprezadas que dedicam a vida ao servi-
ço de Deus e de seus semelhantes. Ele se alegra por aquelas pessoas que
vivem em harmonia com a sua palavra e que se gloriam em seu Senhor e
Salvador Jesus Cristo.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 1.26-31
Versículo 26
¡ì-i-:- – como primeira palavra de uma oração, esse verbo ativo e
presente é enfatizado. Está no modo imperativo, não no indicativo. Paulo
usa esse verbo com freqüência no imperativo.
86
86. 1 Coríntios 3.10; 8.9; 10.12, 18; 16.10; Gálatas 5.15; Filipenses 3.2; Colossenses 2.8; 4.17.
1 CORÍNTIOS 1.27-29
102
Versículo 27,28
O tempo presente em sa:atc,u|µ (duas vezes) indica que Deus conti-
nua a envergonhar os sábios e os fortes, e o tempo aoristo em sa:a¡,µcµ
mostra que Deus anulou de uma vez por todas as coisas que eram de valor
para o mundo.
:a a,-|µ – a tradução as coisas insignificantes não reproduz o jogo de
palavras entre esse adjetivo e o substantivo -u,-|-t, (de nobre nascimento
[v. 26]).
[sat] :a ¡µ e|:a – a conjunção [sat] foi provavelmente adicionada
por escribas a fim de dar equilíbrio e harmonia em relação às demais ora-
ções. “Ao acrescentar a palavra, passou desapercebida aos escribas a for-
ça da expressão :a ¡µ e|:a, a qual não é um novo item da série, mas uma
caracterização abrangente e representativa de todos os itens preceden-
tes.”
87
Editores do texto grego e tradutores dividem-se entre incluir ou
eliminar a conjunção.
Nesses dois versículos, Paulo vale-se do uso do neutro plural em vez
do singular (por exemplo, v. 25, :e ¡æ¡e|...:e acò-|-, [a loucura... a
fraqueza]). Ele usa o plural para referir-se a pessoas.
Versículo 29
¡µ sau,µcµ:at iaca ca¡, – a sintaxe é hebraica: a partícula negativa
nega o verbo vangloriar-se, e não o substantivo carne. Além disso, a tra-
dução literal toda carne significa realmente “todas as pessoas” e, portan-
to, equivale a ninguém.
Versículos 30,31
-, au:eu – a preposição expressa causa. Ver João 6.66 para um uso
semelhante dessa preposição.
t |a – o verbo ,-|µ:at (pode ser) deve ser complementado com um
subjuntivo depois da conjunção. O verbo ,-,¡ai:at (está escrito) é o per-
feito indicativo passivo e é introduzido pelo advérbio saòæ,.
87. Bruce M. Metzger, A Textual Commentary on the Greek New Testament, 3ª ed. Corri-
gida (Londres e Nova York: United Bible Societies, 1975), p. 545.
1 CORÍNTIOS 1.27-31
103
Sumário do Capítulo 1
Na parte introdutória do capítulo, Paulo afirma o seu nome e o seu
chamado como apóstolo. Dirige-se aos membros da igreja em Corinto,
lembra que foram santificados e chamados para serem santos e os cum-
primenta com uma saudação apostólica. Expressa sua gratidão a Deus
pela graça que os coríntios haviam recebido em Cristo Jesus, a confir-
mação do testemunho de Cristo e a fidelidade de Deus.
Paulo conclama as pessoas em Corinto a concordarem umas com
as outras. Ele tomara conhecimento da existência de um espírito de
divisão que estava produzindo facções, a saber, grupos que seguiam
Paulo, Apolo, Cefas e Cristo. Censura os coríntios perguntado-lhes se
Cristo está dividido ou se Paulo foi crucificado por eles. Declara que
Cristo o comissionou para pregar o evangelho. Por essa razão, diz Pau-
lo, ele havia batizado poucas pessoas. Além disso, não pregava com
“sabedoria de palavras”, para que a cruz de Cristo não perdesse o
sentido.
Num discurso sobre a loucura da cruz, Paulo contrasta a sabedoria
do mundo com o poder de Deus. Afirma que Deus salva seu povo pela
loucura da pregação do evangelho, que é uma pedra de tropeço para os
judeus e loucura para os gentios. Ele observa que a loucura de Deus
excede a sabedoria humana e que a fraqueza de Deus é maior do que a
força humana.
Paulo lembra os coríntios da posição que eles têm. Pelos padrões
humanos, poucos deles são sábios, ricos ou de nobre nascimento. Ele
diz a eles que Deus escolheu as coisas insignificantes e desprezadas
para evitar que qualquer pessoa se vangloriasse. Porque eles estão em
Cristo Jesus, diz Paulo, devem gloriar-se somente no Senhor.
1 CORÍNTIOS 1
104
105
2
Divisões na Igreja, parte 2
(2.1-6)
106
ESBOÇO (continuação)
2.1-5
2.6-16
2.6-8
2.9-10a
2.10b-13
2.14-16
d. Poder e Fé
3. Sabedoria do Espírito
a. Sabedoria e os Amadurecidos
b. Deus e Revelação
c. O Espírito Santo e Sabedoria Humana
d. O Homem Não-espiritual e o Espiritual
107
CAPÍTULO 2
2
1. Quando fui até vocês, irmãos, não cheguei anunciando o testemunho sobre
Deus com eloqüência excepcional ou sabedoria incomparável. 2. Eu decidi
nada saber entre vocês, senão a Jesus Cristo e este crucificado. 3. Eu fui até vocês
em fraqueza, temor e grande tremor. 4. A minha palavra e a minha pregação não
consistiram em palavras persuasivas de sabedoria, mas em demonstração do Espí-
rito e de poder. 5. Para que a fé de vocês não se apoiasse em sabedoria de homens,
mas no poder de Deus.
d. Poder e Fé
2.1-5
A divisão de capítulo nessa conjuntura é infeliz, pois o apóstolo
ainda não completou seu discurso sobre a loucura da cruz. No último
segmento da discussão, ele lembra seus leitores da primeira vez que os
visitou, quando foi a eles para lhes proclamar o evangelho. Não foi
com discurso persuasivo, mas no poder do Espírito Santo. Nada levou
aos coríntios senão a mensagem do Cristo crucificado, para que a fé
deles pudesse basear-se no poder de Deus.
1. Quando fui até vocês, irmãos, não cheguei anunciando o tes-
temunho sobre Deus com eloqüência excepcional ou sabedoria in-
comparável.
Depois de Paulo ter visitado Atenas por ocasião de sua segunda
viagem missionária, provavelmente no verão do ano 50 d.C., conti-
nuou sua viagem até Corinto (At 18.1). Como era seu costume, prefe-
ria visitar capitais das quais o evangelho pudesse se irradiar para as
regiões circunvizinhas. Corinto, a capital da Acaia, que ficava no sul e
centro da Grécia, tinha dois portos, um dando para o sudeste oriental
(Cencréia) e outro, para o norte (Lacaeum). Desses portos, marinhei-
ros podiam levar as boas- novas para países e cidades por toda a bacia
108
do Mediterrâneo. De fato, Corinto era estrategicamente localizada para
a difusão do evangelho.
a. “Quando fui até vocês, irmãos.” Paulo chegou em Corinto abati-
do em conseqüência de seu encontro com filósofos e da resposta ad-
versa à sua mensagem em Atenas (At 17.16-34). Logo depois de sua
chegada, foi recebido na casa de Áqüila e Priscila, judeus cristãos e
fabricantes de tendas que o ajudaram (At 18.2, 3). Face à observação
de Paulo de que os membros da casa de Estéfanas foram os primeiros
convertidos na província da Acaia (16.15), presumimos que Áqüila e
Priscila já eram cristãos. Paulo e seu anfitrião e anfitriã formavam o
núcleo da igreja cristã em Corinto. Pregando a judeus e gregos na sina-
goga local, Paulo levou Tício Justo, Crispo, Gaio e Estéfanas com suas
respectivas famílias à fé em Jesus. A igreja coríntia então continuou a
florescer e a crescer em número. Quando Paulo deixou Corinto dezoito
meses mais tarde (At 18.11), Timóteo e Silas continuaram a obra da
pregação do evangelho.
Mais uma vez, Paulo chama os coríntios de irmãos. Com essa ex-
pressão comum de afeição, apela a todos os membros (homens e mu-
lheres) dessa igreja. Além disso, revela seu coração pastoral quando
trata de questões delicadas relativas à igreja de Corinto.
b. “Não cheguei anunciando o testemunho sobre Deus.” Alguns
manuscritos gregos têm a palavra testemunho, enquanto outros, misté-
rio. No texto grego, as palavras apresentam semelhanças que podem
justificar a confusão. O testemunho manuscrito para a leitura mistério
é antigo, mas limitado, enquanto o que existe para testemunho é gran-
de. Diversos editores, tradutores e professores do Novo Testamento
grego preferem o último termo.
1
Sua preferência se fundamenta na evi-
dência interna, isto é, no sentido do contexto em que o termo aparece
(compare 1.6). Paulo proclamou aos coríntios o evangelho, o qual é o
testemunho de Deus revelado por meio de Jesus Cristo.
Alguns estudiosos interpretam o versículo 7, que tem a palavra
mistério, como uma explanação do versículo 1. Outros eruditos discor-
1. Merk, Nes-Al, Texto Majority, TR, BF; BJ, KJV, MLB, NKJV, NAB, NASB, NEB,
NIV, RSV, Cassirer, G. Zuntz, The Text of the Epistles: A Disquisition upon the Corpus
Paulinum (Londres: Oxford University Press, 1953), p. 101; Lothar Coenen, NIDNTT, Vol.
3, p. 1043.
1 CORÍNTIOS 2.1
109
dam, argumentando que os escribas foram influenciados pela leitura
do versículo 7 e, por esse motivo, introduziram a palavra no versículo
1. Mas quando Paulo chegou a Corinto, ele não apresentou um misté-
rio, mas o evangelho de Cristo, o qual encontra-se aqui subentendido
na palavra testemunho.
Muitos tradutores adotam a leitura o testemunho de Deus enquanto
outros lêem “o testemunho a respeito de Deus” (NIV, Cassirer). A di-
ferença é uma questão de como se deve interpretar o caso genitivo. Um
genitivo subjetivo significa que Deus é o autor desse testemunho; o
genitivo objetivo faz de Paulo o proclamador desse testemunho a res-
peito de Deus. Levando em consideração uma construção semelhante
(1.6), interpretamos o genitivo como sendo, ao mesmo tempo, subjeti-
vo e objetivo: Deus é aquele que dá origem ao testemunho e Paulo o
proclama e instrui os coríntios a respeito de Deus.
2
c. “Com eloqüência excepcional ou sabedoria incomparável.” Paulo
declara publicamente que ele não havia aparecido em Corinto com uma
mensagem apresentada com sublime eloqüência e sabedoria. Seus de-
bates com os epicureus eruditos e os filósofos estóicos em Atenas ha-
viam sido totalmente infrutíferos e, em Corinto, ele não havia pregado
o evangelho à maneira de um orador nem de um filósofo. Pelo contrá-
rio, Paulo havia trazido a mensagem da salvação em linguagem sim-
ples e, por isso, qualquer um de seus ouvintes a podia entender. Essa
abordagem não era comum no ambiente helenista, onde oradores capa-
zes eram admirados.
Os substantivos eloqüência e sabedoria descrevem as qualidades
verbais e a acuidade mental de um orador. As duas expressões referem-
se a palavras que vêm dos lábios de um orador e a pensamentos que
formam sentenças com as palavras. Obviamente, Paulo muitas vezes
demonstra em suas epístolas que possui tanto eloqüência como sabe-
doria. Nesse contexto, Paulo refere-se não à deficiência quanto às suas
próprias habilidades, mas aos excessos cometidos pelos oradores e fi-
lósofos gregos. O apóstolo recusa-se a adotar as suas práticas; em vez
2. F. W. Groscheide, Commentary on the First Epistle to the Corinthians: The English
Text with Introduction, Exposition and Notes, série New International Commentary on the
New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1953), p. 58, n. 5.
1 CORÍNTIOS 2.1
110
disso, ele prega com simplicidade e clareza a mensagem da cruz de
Cristo.
3
Como conclusão, Paulo começa esse versículo com o pronome
pessoal “eu” (a primeira palavra no texto grego trata-se da contração
“e eu”) para expressar intimidade com os seus ouvintes. No texto gre-
go, Paulo termina o versículo 1 com a palavra Deus para indicar que o
seu propósito não é exaltar a si mesmo, mas dirigir a atenção de seus
ouvintes para Deus e Jesus Cristo.
2. Eu decidi nada saber entre vocês, senão a Jesus Cristo e este
crucificado.
a. “Porque decidi nada saber.” Aparentemente, Paulo parece ser
antiintelectual. Mas esse dificilmente seria o caso, pois a formação que
havia recebido em Jerusalém havia sido intensa e prolongada. Além do
mais, a busca dos gregos por conhecimento e sabedoria não era, de
forma alguma, estranha ao apóstolo (At 17.17). Mas ele não estava
interessado em ensinar as metodologias coríntias que os pensadores
atenienses haviam adotado e os filósofos humanistas haviam esposa-
do. Paulo diz que viera pregar as boas-novas do Cristo crucificado (1.23;
Gl 6.14). Jesus Cristo o havia escolhido para apresentar o nome de
Cristo a judeus e gentios (At 9.15; 26.16). Ele não designou Paulo para
qualquer outra tarefa a não ser essa. Quando Paulo chegou a Corinto,
estava agindo em cumprimento da responsabilidade que Jesus lhe hou-
vera confiado, isto é, pregar o evangelho da cruz de Cristo. Como um
embaixador no pleno sentido da palavra, não conhecia outra tarefa se-
não proclamar a mensagem de seu Senhor e Salvador crucificado, Je-
sus Cristo.
b. “Entre vocês.” Essas palavras referem-se ao ano e meio que Paulo
permaneceu com os coríntios enquanto lhes ensinava a Palavra de Deus
(At 18.11). Num sentido mais amplo, a expressão “entre vocês” revela
o modo de vida de Paulo enquanto ia pregando o evangelho de região
para região, de sinagoga para sinagoga e de igreja para igreja.
c. “Senão a Jesus Cristo e este crucificado.” Essa é uma reelabora-
3. Consultar Jean Héring, The First Epistle of Saint Paulo to the Corinthians, trad. por A.
W. Heathcote e P. J. Allcock, (Londres: Epworth, 1962), p. 14, Jerome Murphy-O’Connor,
1 Corinthians, série New Testament Message (Wilmington, Del.: Glazier, 1979), p. 17.
1 CORÍNTIOS 2.2
111
ção mais detalhada de uma expressão que já havia aparecido antes,
“Cristo crucificado” (1.23). A mensagem da crucificação de Cristo
parece ser direta e simples, mas tanto os judeus como os gentios rejei-
tavam o apelo de Paulo para que cressem num Cristo crucificado como
uma ofensa ou como loucura. Portanto, Paulo tinha de ir além dos de-
talhes históricos da crucificação e ensinar a seus ouvintes as implica-
ções teológicas desse acontecimento redentor na história humana. Não
apenas ensinava a razão da morte de Cristo na cruz, mas também os
benefícios eternos para cada pessoa que crê: o perdão dos pecados, a
vida eterna e a ressurreição do corpo.
Considerações Práticas em 2.2
Espera-se de ministros ordenados do evangelho façam da proclama-
ção e do ensino do evangelho de Cristo sua vocação de dedicação exclu-
siva. Ordenação quer dizer que Deus os colocou à parte para pregar, para
usar as palavras de Paulo, “a tempo e fora de tempo” (2Tm 4.2). Os após-
tolos deram o exemplo quando designaram sete homens cheios do Espíri-
to Santo e de sabedoria para ministrarem às necessidades físicas das viú-
vas em Jerusalém (At 6.1-6). Dessa forma, os apóstolos dedicaram-se à
proclamação da Palavra e à oração. Às vezes, contudo, Paulo realizou
trabalho manual como fabricante de tendas para suprir suas necessidades
diárias. Contudo, sempre que teve suprimentos suficientes, ele dedicava
todo o seu tempo ao ministério da Palavra.
Quando Cristo chama alguém para proclamar o evangelho, essa pes-
soa precisa fazê-lo com inteira dedicação ao chamado que recebeu para o
ministério; precisa recusar ofertas para envolver-se em outras áreas da
vida. Deve ser antes e acima de tudo um ministro da Palavra de Deus.
Séculos atrás, um pregador geralmente colocava estas iniciais depois do
seu nome: V. D. M. (Verbi Domini Minister, ministro da Palavra do Se-
nhor). Um pregador faz bem em repetir e aplicar a máxima de Paulo: “Eu
decidi nada saber entre vocês, senão a Jesus Cristo e este crucificado”.
3. Eu fui até vocês em fraqueza, temor e grande tremor.
Que confissão dos lábios de um dos apóstolos de Cristo! Quanta
honestidade! Quanta humildade! Novamente aqui (ver o v. 1), Paulo
relata a história pessoal como um exemplo. Ele despe sua alma e revela
seus pensamentos íntimos. Ele nada tinha a oferecer senão a mensa-
1 CORÍNTIOS 2.2, 3
112
gem da morte de Cristo na cruz. A recepção que teve da parte dos ju-
deus em Corinto logo transformou-se em hostilidade, tanta que ele teve
de deixar a sinagoga local para continuar seu ministério na casa de
Tício Justo. Quando o desencorajamento sobrepujou o apóstolo, Jesus
apareceu a Paulo numa visão e lhe disse para não ficar com medo, para
continuar pregando e não silenciar. Jesus revelou que tinha muitas pes-
soas na cidade de Corinto (At 18.7-11).
“Eu fui até vocês em fraqueza, temor e grande tremor” (comparar
com 4.10). De suas outras epístolas, ficamos sabendo que Paulo preci-
sou de auxílio material; freqüentemente, passava por privações e afli-
ções (2Co 11.23-28; 12.7), além disso, estava doente por ocasião de
sua visita aos gálatas (Gl 4.13,14). Supomos que Paulo era um homem
realmente sem atrativos, talvez de pequena estatura (2Co 10.10) e que
tinha sua visão comprometida por enfermidade (ver Gl 4.15; 6.11).
Não obstante, provou ser um defensor e propagador destemido do evan-
gelho quando pregava nas sinagogas e mercados públicos de Damas-
co, Jerusalém, Antioquia, Chipre, Ásia Menor, Macedônia e Acaia.
Paulo menciona sua estada de dezoito meses em Corinto (At 18.11)
quando escreve que esteve em Corinto com “temor e grande tremor”.
Foi sua a árdua tarefa de estabelecer uma igreja na cosmopolita Corin-
to. Aos olhos dos coríntios influentes, Paulo era uma pessoa sem força,
sem recursos e sem privilégios. Por causa de seu ofício, eles o tinham
como nada mais que um escravo e não nutriam qualquer respeito por
ele. Os judeus constantemente conspiravam contra ele e, em determi-
nada ocasião, conseguiram fazer com que ele fosse julgado pelo pro-
cônsul Gálio (At 18.12). Os termos temor e tremor ocorrem várias ve-
zes nas epístolas de Paulo como uma expressão de ansiedade.
4
O medo
é uma força debilitante usada por Satanás para retardar os servos de
Cristo e para distorcer sua percepção. Paulo não dá detalhes, mas con-
fessa que, durante sua estada em Corinto, experimentou o medo e teve
sua coragem estremecida. Os termos temor e tremor estão relaciona-
dos às inúmeras ameaças políticas e sociais que Paulo teve de enfrentar.
Além disso, imaginamos que Paulo abrigava temor e tremor natu-
rais, pois ele conhecia as suas limitações humanas, diante da tremenda
4. 2 Coríntios 7.15; Efésios 6.5; Filipenses 2.12; e ver a LXX de Êxodo 16.15.
1 CORÍNTIOS 2.3
113
tarefa de pregar o evangelho e fundar uma igreja em Corinto. Ele sabia
que, enquanto negava a si mesmo, tinha de confiar em Deus, que lhe
proveria a força necessária para cumprir a missão.
5
Isso fica evidente
na mensagem contida no próximo versículo.
4. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em
palavras persuasivas de sabedoria, mas em demonstração do Es-
pírito e de poder.
a. Negativa. Jesus dá ao pregador a exigente missão e obrigação de
pregar o evangelho. Nenhum pregador pode confiar em suas próprias
idéias e habilidades. Se o fizer, será como o confiante evangelista que,
no decorrer de um culto, pregou sem o poder sustentador do Espírito
Santo. Por causa disso, fracassou no púlpito e ficou humilhado perante
a congregação. Depois do culto, um presbítero lhe deu este sensato
conselho: “Se o senhor tivesse chegado ao púlpito da maneira como
saiu, o senhor teria saído como chegou.” A humildade deve ser uma
característica de cada pastor que conduz uma congregação em culto.
Paulo diz que sua linguagem, isto é, seu discurso e pregação não
consistiam em palavras persuasivas de sabedoria. Ele repete o que ha-
via afirmado num versículo anterior (v. 1) e agora personaliza as pala-
vras linguagem e pregação com o pronome minha. Ele usa esses dois
termos para descrever a mensagem do evangelho (1.18) e a obra da
pregação. Contudo, Paulo não identifica os oradores que falam persu-
asivamente e que pregam em palavras de sabedoria.
6
O que Paulo quer dizer? Ele era capaz de apresentar o evangelho
persuasivamente com palavras cuidadosamente escolhidas, como dei-
xou claro em seu discurso perante o rei Agripa II (At 26.27,28). Contu-
do, aqui, Paulo se recusa a pronunciar sua mensagem em palavras per-
suasivas de sabedoria; com isso, sugere que sua sabedoria não se origi-
na no homem, mas em Deus.
b. Texto. “Não em palavras persuasivas de sabedoria.” O texto gre-
go dessa parte do versículo 4 tem algumas variantes. Nas traduções,
5. João Calvino, The First Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians, série Calvin’s
Commentaries, trad de John W. Fraser, (reedição; Grand Rapids: Eerdmans, 1976), p. 50.
6. Timothy H. Lim sugere que esses oradores eram pregadores coríntios que mascateavam
o evangelho por lucro. “‘Not in Persuasive Words of Wisdom, but in the Demonstration of
the Spirit and Power’ (1Co 2.4),” NovT, (1987): 137-149.
1 CORÍNTIOS 2.4
114
essas variantes dificilmente aparecem exceto pela leitura: “Não con-
sistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana” (RC, assim
como NKJV, itálicos acrescentados). O adjetivo humana parece ser
um acréscimo que escribas inseriram para explicar o conceito sabedo-
ria e, portanto, é uma leitura secundária.
A maior dificuldade para os tradutores, contudo, está no adjetivo
persuasivas. Esse adjetivo não ocorre em nenhum outro lugar em toda
a literatura grega. Aparentemente, Paulo mesmo cunhou a palavra. Essa
interpretação tem o apoio de um dos mais antigos manuscritos, P
46
, e é
o texto aceito pela maioria dos tradutores.
7
Outros estudiosos são de
opinião de que esse adjetivo deveria ser traduzido como o substantivo
singular, persuasão. Eles propõem a adoção de um texto grego mais
breve que omite o termo palavras, do que resulta a leitura não com a
persuasão de sabedoria.
8
Embora fortes argumentos tenham sido reu-
nidos em defesa dessa tradução, a leitura persuasão não conta com o
apoio dos manuscritos. “Não em palavras persuasivas de sabedoria”
ainda parece ser a tradução preferida. Independentemente da escolha
que o tradutor faz, as dificuldades permanecem.
c. Positiva. “Mas em demonstração do Espírito e de poder.” Paulo
escolhe três palavras-chave para descrever o poder espiritual disponí-
vel àqueles que pregam a Palavra de Deus. A primeira é “demonstra-
ção”, que é um termo usado num tribunal com relação a um testemu-
nho. O termo significa que ninguém é capaz de refutar a prova que é
apresentada.
A segunda palavra é “Espírito”, que pela primeira vez aparece aqui
nessa epístola. Os coríntios deviam saber que o seu nascimento espiri-
tual é obra exclusivamente do Espírito Santo (v. 13), que o corpo deles
é um templo do Espírito Santo (6.19) e que seus dons espirituais são
obra do Espírito (12.11). Eles têm a evidência neles mesmos.
A última palavra é “poder”. No Novo Testamento, essa palavra
está intimamente associada com o Espírito Santo. Por exemplo, Jesus
7. Bauer, p. 639; Bruce M. Metzger, A Textual Commentary on the Greek New Testament,
3ª ed. corrigida (Londres and Nova York: United Bible Societies, 1975), p. 546.
8. Gordon D. Fee, The Epistle to the First Corinthians, série New International Commen-
tary on the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), p. 88, n. 2; Zuntz, The Text of
the Epistles, p 23-25.
1 CORÍNTIOS 2.4
115
disse aos apóstolos que eles receberiam poder quando o Espírito Santo
descesse sobre ele no Pentecoste (At 1.8; ver também Lc 24.49). Numa
de suas epístolas, Paulo escreve: “Nosso evangelho não chegou até
vocês simplesmente com palavras, mas também com poder, com o Es-
pírito Santo e com profunda convicção” (1Ts 1.5), Muito embora a
expressão poder geralmente signifique maravilhas, aqui tem um senti-
do mais amplo que o de milagres. O termo denota “a mão de Deus se
estendendo para agir poderosamente, mediante o apóstolo, em várias
formas”.
9
Paulo exorta os coríntios a abrirem seus olhos espirituais e obser-
varem por si mesmos que Deus está em ação por meio de seu poder e
de seu espírito. Eles possuem prova visível e incontroversa por meio
do poder do evangelho e da presença do Espírito Santo.
5. Para que a fé de vocês não se apoiasse em sabedoria de ho-
mens, mas no poder de Deus.
No último versículo dessa seção, Paulo declara o motivo pelo qual
ele rejeita as palavras persuasivas e a sabedoria excepcional. Ele havia
se dirigido aos coríntios para pregar o evangelho. E sua pregação re-
sultou na fé pessoal deles em Deus. Paulo diz a eles que esse dom não
tem sua origem na sabedoria humana nem é confirmada por ela. Se a fé
fosse de origem humana, ela fracassaria completamente e desaparece-
ria. Mas a fé repousa no poder de Deus, que defende o crente e lhe dá
forças para perseverar (comparar com 1Pe 1.5).
Deus opera fé no coração dos coríntios por meio da pregação do
evangelho de Cristo. Ele não apenas lhes concedeu o dom da fé, mas
também os levou à conversão. Deus confia a Paulo a missão de fortale-
cer a fé deles mediante sua instrução nas verdades da Palavra de Deus.
Em resumo, os coríntios precisam saber que a fé não se fundamenta na
sabedoria de homens, mas no poder de Deus.
“Sabedoria de homens.” Observe que Paulo emprega o substantivo
plural homens para ilustrar que em Corinto muitas pessoas estão mi-
nistrando suas próprias concepções e sabedoria. O discernimento hu-
mano é temporal, falho e sujeito à mudança; a sabedoria de Deus é
eterna, perfeita e imutável. Quando um cristão, com fé, pede sabedoria
9. Calvino, 1 Corinthians, p. 51.
1 CORÍNTIOS 2.5
116
a Deus (Tg 1.5), ele experimenta a operação do poder de Deus. Alegra-
se na salvação que Deus lhe concedeu.
Considerações Práticas em 2.4
Igrejas com origem na Reforma do século XVI sempre patrocinaram
a causa de um ministério com formação superior. A origem de muitas
universidades deve-se ao desejo da igreja de formar os futuros pregado-
res. Quando essas escolas cresceram e finalmente se tornaram universida-
des, a formação teológica foi e continua sendo oferecida em escolas de
teologia afiliadas ou em seminário teológicos. O objetivo sempre foi o de
capacitar os candidatos ao ministério para o emprego correto da Palavra
de Deus (ver 2Tm 2.15).
O próprio Paulo havia estudado profundamente as Escrituras. Em suas
epístolas pastorais, exortou Timóteo a perseverar no que havia aprendido
de Paulo e de outros. Incumbiu Timóteo de pregar a Palavra “com grande
paciência e cuidadosa instrução” e a fazer “o trabalho de um evangelista”
(2Tm 4.2,5). Os pregadores devem ser ensinados a pregar sermões que
sejam exposições fiéis das Escrituras. Além disso, os sermões precisam
ser sem verbosidade e sem histórias que não sejam relacionadas à passa-
gem bíblica em questão. Por fim, pregadores devem ser capazes de se
comunicarem e de se relacionarem eficazmente com as pessoas à quais
eles ministram a palavra de Deus.
Palavra, Expressões e Construções em Grego em 2.1-5
Versículo 1
µìòe|...sa:a,,-ììæ| – o verbo no aoristo ativo (“fui”) e o particípio
no presente ativo (“anunciando”) formam uma locução verbal, e não po-
dem ser separados. Paulo foi a Corinto com o propósito expresso de pre-
gar o evangelho e, depois de sua chegada, continuou a pregar.
eu – essa partícula negativa está colocada imediatamente depois do
verbo µìòe| para mostrar que a partícula negativa usual ¡µ com o particí-
pio significaria “não anunciando”.
10
Com as palavras nessa seqüência, o
sentido de fui... anunciando passa para o negativo.
10. C. F. D. Moule, An Idiom-Book of New Testament Greek, 2ª ed. (Cambridge: Cam-
bridge University Press, 1960), p. 105.
1 CORÍNTIOS 2.1-5
117
Versículo 2
eu – J. B. Lightfoot liga a palavra de negação ao verbo -s¡t|a (decidi)
e traduz a oração toda como segue: “Eu não tinha o objetivo nem a inten-
ção de conhecer coisa alguma”.
11
O advérbio de negação para o infinitivo
-t e- |at (saber) deveria ser ¡µ. C. F. D. Moule, contudo, fornece numero-
sos exemplos de um deslocamento ou troca das partículas negativas eu e
¡µ e chama a atenção para o texto grego de 2 Coríntios 2.2, que é uma
construção semelhante mas normal.
12
Versículo 4
ìe,e, – Paulo usa reiteradamente o singular e o plural de ìe,e, nos
primeiros dois capítulos dessa epístola (1.5, 17, 18; 2.1, 4, 13). Aqui, a
palavra é um sinônimo para a mensagem do evangelho, especialmente
com o pronome minha, que aparece duas vezes, o qual modifica “palavra”
e “pregação”.
i-tòet, ce|ta, ìe,et, – “palavras persuasivas de sabedoria”. Essa
leitura tem o apoio dos códices Vaticanus, Sinaiticus e Bezae. Mas não
existe evidência textual para a presença do adjetivo i-tòe, (persuasivas).
O substantivo i-tòæ (persuasão), que no dativo singular é i-tòet , ocorre
em outros textos gregos. O apoio dos manuscritos nesse versículo é extre-
mamente fraco, especialmente na leitura mais breve que omite o substan-
tivo ìe,et,.
13
Versículo 5
t |a – a oração subordinada negativa de finalidade com ¡µ está ligada
ao sujeito principal sa,æ e ao verbo -,-|e¡µ| (estive) no versículo 3.
-| – com o dativo em ambas as vezes que ocorre, essa preposição
significa “sobre”.
11. J. B. Lightfoot, Notes on the Epistles of St. Paul from Unpublished Commentaries
(1895; reedição, Grand Rapids: Zondervan, 1957), p. 171; e ver Fee, First Corinthians, p.
92, n. 17.
12. Moule, Idiom-Book, pp. 156, 168.
13. Consultar Hans Conzelmann, 1 Corinthians: A Commentary on the First Epistle to
Corinthians, org. por George W. MacRae; trad. por James W. Leitch. Hermeneia: A Critical
and Historical Commentary on the Bible (Filadélfia: Fortress, 1975), p. 55; Metzger, Textu-
al Commentary, p. 546; R. St. John Parry, The First Epistle of Paul the Apostle to the
Corinthians, Cambridge Greek Testament for Schools and Colleges (Cambridge University
Press, 1937), p. 49.
1 CORÍNTIOS 2.1-5
118
6. Falamos sabedoria, entretanto, entre os amadurecidos; não, porém, a sabe-
doria deste século ou dos governantes desta época, que estão destinados a perecer.
7. Mas falamos a sabedoria de Deus em um mistério – sabedoria escondida, que
Deus preordenou desde a eternidade para a nossa glória; 8. sabedoria essa que
nenhum dos poderosos deste século entendeu. Porque, se a tivessem entendido,
não teriam crucificado o Senhor da glória. 9. Mas, exatamente como está escrito,
Coisas que os olhos não viram e os ouvidos não ouviram
E que não entraram no coração do homem,
Essas coisas Deus preparou para aqueles que o amam.
10 Porque Deus as revelou a eles pelo Espírito. Na verdade, o Espírito pers-
cruta todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus. 11. Pois quem entre os
homens conhece as coisas do homem senão o espírito do homem que está dentro
dele? Assim também ninguém conhece as coisas de Deus senão o Espírito de
Deus. 12. Ora, nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de
Deus, para que conheçamos as coisas que nos foram dadas gratuitamente por Deus.
13. E as coisas que falamos não são palavras comunicadas pela sabedoria huma-
na, mas aquelas comunicadas pelo Espírito, à medida que explicamos verdades
espirituais em palavras espirituais. 14. O homem não-espiritual não aceita as coi-
sas do Espírito de Deus, porque são loucura para ele e ele é incapaz de entendê-
las, porque elas se discernem espiritualmente. 15. Porém o homem espiritual jul-
ga todas as coisas, mas ele mesmo não é julgado por ninguém. 16 Pois
quem conheceu a mente do Senhor,
que o possa instruir?
Nós, porém, temos a mente de Cristo.
3. Sabedoria do Espírito
2.6-16
Na segunda parte desse capítulo, Paulo dirige-se a todos os cris-
tãos que são sábios quanto à salvação. Receberam a sabedoria secreta
de Deus que ele revela ao seu povo. Sem dúvida, essas pessoas são
guiadas pelo Espírito Santo.
a. Sabedoria e os Amadurecidos
2.6-8
6. Falamos sabedoria, entretanto, entre os amadurecidos; não,
porém, a sabedoria deste século ou dos governantes desta época,
que estão destinados a perecer.
a. “Falamos sabedoria, entretanto.” Em grego, a primeira palavra
da sentença é “sabedoria”, a qual, por causa de sua posição, é enfática.
Uma tradução literal seria “Sabedoria falamos”. Paulo não define ou
1 CORÍNTIOS 2.6
119
descreve aqui essa palavra (ver o v. 7), mas deixa subentendido que
está se referindo à sabedoria de Deus (1.21, 24, 30). Compreensivel-
mente, continua a elaborar sobre as observações iniciais sobre sabedo-
ria; nos versículos subseqüentes, reúne os conceitos sabedoria e
Espírito.
Paulo contrasta a sabedoria divina com a sabedoria do mundo que
havia encantado alguns cristãos coríntios. Estes pensam que a mensa-
gem da cruz de Cristo anunciada por Paulo é simplista e não corres-
ponde aos padrões da sabedoria secular. Ao fazer uma diferença nítida
entre os dois conceitos de sabedoria, Paulo afirma enfática e confian-
temente que ele e seus companheiros de ministério têm a sabedoria de
Deus que, conforme já explicou (1.18-30), é com certeza superior à
sabedoria do mundo.
Com a ajuda da conjunção adversativa entretanto, Paulo passa do
singular (eu) para o plural (nós). Nessa epístola, Paulo muda freqüen-
temente do singular para o plural e vice-versa (por ex., 3.1, 2, 6, 9, 10).
Aqui, ele retoma o plural de 1.23: “Nós pregamos a Cristo crucifica-
do”. Alguns tradutores interpretam o pronome plural nos versículos 6 e
7 como o singular “eu” (ver GNB, NEB), o que significa um abandono
do texto grego. Paulo tem em mente todos aqueles que pertencem ao
círculo apostólico, entre os quais estão seus colaboradores Timóteo e
Silas. O que ele quer dizer é que sua pregação, bem como a dos que
com ele trabalham, é indubitavelmente distinguida pela sabedoria. Com
o verbo grego lalein (falar), ele não denota o conteúdo da fala, mas o
ato de falar. Mas entre quem Paulo e seus colegas de ministério falam
sabedoria?
b. “[falamos] sabedoria … entre os amadurecidos.” A literatura
sobre o versículo 6 é, sem dúvida, fenomenal; com respeito a essa ora-
ção subordinada, os estudiosos levantam múltiplas questões. Por exem-
plo, quem são essas pessoas amadurecidas? Também existem cristãos
imaturos? Acaso Paulo ou outros escritores do Novo Testamento agru-
pam cristãos por categorias? Paulo está fazendo uso de ironia quando
usa a palavra amadurecido quando ele sabe muito bem que os coríntios
não alcançam o padrão de perfeição? Paulo e seus colaboradores estão
falando diretamente aos amadurecidos ou estão eles com (entre) os
amadurecidos discutindo sabedoria? Ele está tomando por empréstimo
1 CORÍNTIOS 2.6
120
palavras que pertencem a outros ambientes que não a comunidade cris-
tã de Corinto?
14
Essas e muitas outras perguntas merecem uma respos-
ta. Para não nos estendermos demasiadamente, vamos nos limitar a
apenas algumas delas e fornecer os seguintes comentários.
Primeiro, os escritores do Novo Testamento não apresentam qual-
quer evidência de uma distinção entre dois tipos de cristãos: amadure-
cidos e imaturos, espirituais e naturais, superiores e inferiores. Os es-
critores do Novo Testamento não fazem essa distinção; em vez disso,
exortam todos os cristãos a avançarem para a maturidade (por ex., Hb
6.1). Entre o povo de Deus, reconhecemos níveis de desenvolvimento,
pois ninguém pode reivindicar ter alcançado a perfeição. Até mesmo
os homens mais santos, dentre os quais situamos Jó, do Antigo Testa-
mento, e Paulo, do Novo Testamento, terão de admitir que alcançaram
apenas um pequeno começo. Paulo fala aos coríntios como a “crianças
em Cristo” (3.1) e lhes diz que eles pensam como crianças (14.20). Não
obstante, considera todos os cristãos nos quais o Espírito Santo efetiva-
mente opera como cristãos amadurecidos. Em outras palavras, com a
palavra amadurecidos, Paulo inclui todos os coríntios que receberam o
Espírito (3.16; 12.3, 13) e que atendem ao evangelho de Cristo.
Segundo, no contexto, Paulo não distingue entre cristãos amadure-
cidos e imaturos. Em vez disso, distingue entre cristãos amadurecidos
que aceitam a mensagem da cruz e descrentes que consideram a sabe-
doria de Deus loucura. Descreve fé e descrença, sabedoria de Deus e
do mundo, crente e incrédulo.
Terceiro e último, a palavra grega que é traduzida como “amadure-
cido” ou “perfeito” ocorre em outros lugares das epístolas paulinas e
geralmente é equivalente a “adulto”.
15
Adultos são aquelas pessoas que
aceitaram o evangelho da cruz de Cristo, experimentaram o poder de
Deus na própria vida e aguardam a renovação de todas as coisas como
fruto da ressurreição de Jesus. São os que recebem a sabedoria divina
e se alegram nela com os que também crêem.
14. Consultar E. Earle Ellis, Prophecy and Hermeneutic in Early Christianity: New Tes-
tament Essays (Grand Rapids: Eerdmans, 1978, pp. 45-62; W. Baird, “Among the Mature:
The Idea of Wisdom in I Corinthians 2:6”, Interp 13 (1959): 425-432.
15. 1 Coríntios 14.20; Efésios 4.13; Filipenses 3.15; Colossenses 1.28. Ver Gerhard De-
lling, TDNT, Vol. 8, pp. 75-76; Reinier Schippers, NIDNTT, Vol. 2, p. 62.
1 CORÍNTIOS 2.6
121
c. “Não, porém, a sabedoria deste século, nem a dos governantes
desta época.” Paulo continua a descrever o significado da sabedoria
em termos negativos. A sabedoria deste século é idêntica à sabedoria
do mundo (1.20), que é caracterizada por uma natureza fugaz e variável.
Quem são os “governantes desta época”? Alguns estudiosos inter-
pretam a locução como referência aos poderes demoníacos e aludem a
muitas passagens do Novo Testamento (por ex., Jo 12.31; 14.30; 16.11;
Ef 6.12).
16
Mas esta interpretação encontra dificuldade no versículo 8.
Ali Paulo escreve que se os poderosos deste século tivessem conheci-
do a sabedoria divina, não teriam crucificado Jesus. Não foram demô-
nios, mas governantes que crucificaram Jesus. Além do mais, os demô-
nios conheciam a Jesus, como os evangelhos claramente mostram. O
contexto não contém referência aos anjos maus, mas a seres humanos
que são considerados fortes (1.27). E, ainda, o contexto mostra um
contraste entre a sabedoria humana e a sabedoria divina sem referência
a poderes demoníacos.
17
Outros estudiosos, portanto, pensam que a
expressão se refere a autoridades seculares, abrangendo todos os líde-
res políticos e intelectuais do mundo. Entre eles estão Caifás e Pilatos,
autoridades que crucificaram Jesus (ver At 3.17; 4.26,27).
18
d. “Que estão destinados a perecer.” No grego, Paulo usa a expres-
são “destinados a perecer”, que é a mesma que é traduzida como inva-
lidar em 1.28 (ver também 15.24,26). Ele mostra que Deus, que con-
trola a história do mundo, causa a repentina destituição de líderes, de
oficiais, de mestres e suas filosofias. Paulo usa o tempo presente do
verbo, destinados a perecer, para indicar o permanente controle que
Deus exerce neste mundo. Por todos os séculos, Deus faz sua Palavra
triunfar e a sabedoria do mundo e seus defensores, fracassar.
16. Dentre muito outros, ver C. K. Barrett, A Commentary on the First Epistle to the
Corinthians, série Harper’s New Testament Commentaries (Nova York e Evanston: Harper
e Row, 1968), p. 70.
17. Gene Miller, “ARCONTWN, TOU AIWNOS TOUTOU – A New Look at 1 Corinthi-
ans 2:6-8”, JBL 91 (1972): 522-528; Wesley Carr, “The Rulers of This Age – 1 Corinthians
II.6-8”, NTS 23 (1976-77): 20-35. Comparar com Robin Scroggs, “Paul: Sophos and Pneu-
matikos”, NTS 14 (1967-68): 33-55.
18. Dentre os comentaristas que defendem essa interpretação, ver Calvino, p. 53; Fee, pp.
103-104; Lightfoot, p. 174; R. C. H. Lenski, The Interpretation of St. Paul’s First and
Second Epistle to the Corinthians (1935; Columbus: Wartburg, 1946), p. 96; D. A. Carson,
The Cross and Christian Ministry (Grand Rapids: Baker, 1993), p. 47.
1 CORÍNTIOS 2.6
122
7. Mas falamos a sabedoria de Deus em um mistério – sabedo-
ria escondida, que Deus preordenou desde a eternidade para a nossa
glória; 8. sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século
entendeu. Porque, se a tivessem entendido, não teriam crucificado
o Senhor da glória.
a. Sabedoria divina. A diferença entre a sabedoria do mundo e a
sabedoria de Deus é clara. No versículo anterior (v. 6), Paulo menciona
a sabedoria em termos negativos; a sabedoria humana é temporal e
leva as pessoas à frustração e, por fim, à destruição. Agora, ele dá uma
descrição positiva: a sabedoria de Deus é eterna e sem limites. Ela
conduz as pessoas das trevas para a luz, salvação e glória. Paulo ensina
aos coríntios que ele e os demais pregadores declaram a sabedoria de
Deus em um mistério. Essa é a primeira vez que a palavra mistério
ocorre em conexão com sabedoria (A leitura variante no versículo 1 é
uma exceção).
b. Mistério. O que Paulo quer dizer com a oração: “falamos a sabe-
doria de Deus em mistério”? O verbo grego lalein (falar) não denota a
substância do discurso de Paulo, mas a maneira de falar (ver o v. 6). O
caso genitivo de “sabedoria” indica posse, origem e caráter; Paulo está
se referindo à sabedoria de Deus. E “sabedoria” é qualificada pela lo-
cução em mistério. Ou seja, Paulo não fala um mistério; a sabedoria de
Deus é misteriosa.
A sabedoria é um mistério e é ininteligível ao descrente. Para o que
crê, a sabedoria se torna manifesta, pois Deus a comunica por meio do
evangelho que os apóstolos pregam. Paulo havia afirmado antes que
Cristo é sabedoria de Deus e, assim, se tornou nossa sabedoria (1.30).
Sabedoria e salvação por meio de Cristo são intimamente relaciona-
das, pois a palavra sabedoria significa “os atos sábios de Deus na sal-
vação do homem”.
19
O processo de salvação é um milagre para os cren-
tes, mas um mistério para pessoas que não têm o Espírito de Deus
(comparar com vs. 11-15). Sempre que o termo mistério aparece no
Novo Testamento, é precedido geralmente por verbos com sentido de
“revelar” ou de “proclamar”. Esse mistério foi predestinado por Deus
19. Donald Guthrie, New Testament Theology (Downers Grove: Inter-Varsity, 1981), p.
95. Consultar também Michael Walter, “Verborgene Weisheit und Heil Für die Traditions-
geschichte und Intention des ‘Revelationsschemas’”, ZTK 84 (1987): 297-312
1 CORÍNTIOS 2.7, 8
123
antes da criação deste mundo, mas agora Deus o revela ao seu povo
por meio da pregação do evangelho (ver Ef 3.3; Cl 1.26).
20
c. Preordenado. Paulo, então, refere-se à “sabedoria oculta, que
Deus preordenou desde a eternidade para a nossa glória”. A sabedoria
que esteve oculta até o tempo presente é agora revelada por intermédio
da pessoa e da obra de Cristo. Pedro revela que os profetas investiga-
ram atentamente o tempo e as circunstâncias da vinda de Cristo. Ele
diz que essas coisas foram depois reveladas aos crentes por meio da
pregação do evangelho e pela obra do espírito Santo (1Pe 1.10-12).
Muito embora este mistério da salvação não esteja mais oculto, ele,
não obstante, permanece algo que a mente humana não pode compre-
ender plenamente. Este mistério está relacionado ao amor de Deus, o
qual é tão profundo que o ser humano é incapaz de o compreender
inteiramente (comparar com Ef 3.17-19).
Deus, em sua sabedoria, predestinou esta salvação para nossa gló-
ria antes da humanidade sequer ter sido criada. Ele preordenou salvar
os coríntios para a própria glória deles, uma verdade que Paulo afirma
ao discorrer sobre esse tema em outro lugar: “E se ele fez isso para
tornar as riquezas de sua glória conhecidas aos objetos de sua miseri-
córdia, que ele preparou de antemão para glória?” (Rm 9.23).
Deus é soberano e demonstra sua graça e misericórdia ao seu povo,
ao qual predestinou para glória. Paulo não poderia ter descrito a dife-
rença entre a sabedoria secular e a sabedoria divina em termos mais
claros. O contraste entre a glória dos que crêem e a glória dos senhores
terrenos é revelador. Assim escreve J. B. Lightfoot: “Nossa glória cres-
ce, enquanto a deles diminui”.
21
Refletimos a glória e as virtudes de
Deus já nesta vida, mas na vida por vir resplandeceremos como pedras
de sua coroa (ver, por ex., Fp 3.21; a metáfora se encontra em Zc 9.16).
d. Ignorância. “sabedoria essa que nenhum dos governantes deste
século entendeu.” Paulo repete a expressão governantes deste século
(v. 6). Esses governantes não têm conhecimento espiritual e não conse-
guem ver a importância do reino de Cristo na terra, que vem em res-
posta à súplica do crente: “venha o teu reino” (Mt 6.10). Não podem
20. Günter Finkenrath, NIDNTT, Vol. 3, p. 504; Günther Bornkamm, TDNT, Vol 4, p. 820.
21. Lightfoot, Notes on the Epistles, p. 175.
1 CORÍNTIOS 2.7, 8
124
compreender o governo de Deus na terra porque Deus não lhes revelou
sua sabedoria divina.
Paulo não explica a resistência de judeus e gentios à revelação de
Deus em Jesus Cristo. Em vez disso, explica a ignorância desses go-
vernantes em termos negativos: “porque, se tivessem entendido essa
sabedoria, não teriam crucificado o Senhor da glória”. Acaso Paulo
fala apenas de Caifás, Herodes Antipas e Pilatos ou tem em mente todo
líder que governa sem dar glória a Deus? Os líderes judeus e gentios
que crucificaram Jesus são representantes de todos os governantes deste
mundo.
22
Qualquer pessoa que ignore a causa de Cristo toma lugar
junto com os governantes que mataram Jesus.
Jesus, o Senhor da glória, é a resposta à pergunta do salmista: “Quem
é o Rei da Glória”? (Sl 24.8; ver também At 7.2). Ele não só governa
no céu, mas também na terra e se faz conhecido pela pregação do evan-
gelho. Se os governantes deste mundo se submetem a ele, Cristo os
abençoa e os faz prosperar (Sl 2.10-12).
Considerações Doutrinárias em 2.7
Deus é soberano na execução de seu plano de criar o universo e de
salvar a humanidade do pecado. Ele predestina seu povo para a glória
eterna. Quando Paulo escreve que, antes da criação desta terra, Deus já
tinha planejado salvar a humanidade para a glória daqueles a quem ele
redime, isso causa-nos temor e maravilha. Paulo fala da sabedoria de Deus,
que se revela em um mistério. Nossa mente humana não consegue apreen-
der completamente a importância do amor de Deus pelos pecadores, por-
que o conceito antes de todos os tempos é profundo demais para nós. E a
glória que parcialmente recebemos nesta vida, mas inteiramente na eter-
nidade, é maravilhosa demais para nós. Confessamos que não podemos
apreender inteiramente esta verdade em nossa mente.
De fato, a doutrina da salvação, simples e, no entanto, profunda, pode
ser compreendida somente porque Deus a revela para nós. Deus revela a
salvação de acordo com sua graça eletiva como uma verdade que “precisa
ser ensinada sábia e cuidadosamente”.
23
22. Grosheide, First Epistle to the Corinthians, p. 65.
23. Confissão de Fé de Westminster 3.8. Ver também o ponto de vista de J. Kenneth
Grider, “Predestination as Temporal Only”, WesThJ 22 (1987): 56-64.
1 CORÍNTIOS 2.7
125
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 2.6-8
Versículo 6
-| – essa preposição seguida por um substantivo no caso dativo não
significa “para” ou “em”, mas “entre”.
e- – o segundo e- no versículo é traduzido algumas vezes como “isto
é” ou é substituído por algum sinal de pontuação.
Versículo 7
ò-eu ce|ta| – a seqüência das palavras nessa locução é significativa
porque enfatiza que a sabedoria tem sua origem em Deus e pertence a ele.
-| – o sentido da preposição é “na forma de” ou “consistindo de”
aies-s¡u¡¡-|µ| – o particípio perfeito passivo do verbo ocultar deve-
ria ser traduzido como um mais-que-perfeito para indicar que a sabedoria
de Deus esteve oculta por um longo período, mas que no presente é reve-
lada.
24
Versículo 8
µ| – o pronome relativo no feminino não se relaciona ao termo ante-
cedente mais próximo, “glória”, mas ao termo sabedoria.
25
-t – seguido pelo indicativo na prótase e com a | na apódose, essa é
uma sentença condicional oposta à realidade.
b. Deus e Revelação
2.9,10a
9. Mas, exatamente como está escrito,
Coisas que os olhos não viram e os ouvidos não ouviram
E que não entraram no coração do homem,
Essas coisas Deus preparou para aqueles que o amam.
a. Adversativa. Como faz em muitos outros lugares nessa epístola,
Paulo fundamenta seu ensino com um apelo às Escrituras. Introduz a
passagem com a adversativa mas seguida pela fórmula exatamente como
está escrito. A sentença como está é incompleta, pois falta um verbo.
24. A. T. Robertson, A Grammar of the Greek New Testament in the Light of Historical
Research (Nashville: Broadman, 1934), p. 1117.
25. Parry, First Epistle to the Corinthians, p. 54.
1 CORÍNTIOS 2.9
126
Sugerimos a inserção do verbo no plural nós entendemos para equili-
brar com a locução verbal tivessem entendido no versículo anterior (v.
8). O contraste, portanto, é entre “governantes deste século” (Pôncio
Pilatos e Herodes Antipas) que não conheciam a sabedoria de Deus e
os coríntios que conhecem sua sabedoria. Uma tradução possível é:
“Pois se [esses governantes] tivessem conhecido esta sabedoria, não
teriam crucificado o Senhor da glória. Entretanto – exatamente como
está escrito – [nós entendemos as] coisas que nenhum olho viu nem
ouvido algum ouviu”.
26
O contraste entre os versículos 8 e 9 é eviden-
te. Ao mesmo tempo, a introdução proposta do pronome nós serve igual-
mente como um esclarecimento dos versículos 8 e 9 e como uma ponte
para o pronome nos no versículo seguinte (v. 10).
b. Profecia. Paulo cita livremente a profecia de Isaías escrita sete
séculos antes de Paulo ter escrito essa epístola. Mas a locução verbal
está escrito significa que a importância dessas palavras ainda perma-
necem válidas para o presente.
A citação vem de Isaías 64.4, mas difere consideravelmente do tex-
to hebraico:
Porque desde a antigüidade não se ouviu,
nem com ouvidos se percebeu,
nem com os olhos se viu Deus além de ti,
que trabalha para aquele que nele espera.
Paulo, aparentemente, cita de memória, porque também a tradução
grega de Isaías difere: “Desde a eternidade não temos ouvido, e nossos
olhos não têm visto nenhum Deus além de ti e tuas obras que farás para
aqueles que esperam por misericórdia” (Is 64.3, LXX). Em vista da
divergência, alguns estudiosos acreditam que Paulo se valeu também
de palavras de outras passagens (Is 52.15; 65.17; Jr 3.16). Presumimos
que Paulo recorre à memória, não tendo as Escrituras diante de si. Ele
formula um texto que concorda com as passagens das profecias de
Isaías e Jeremias.
27
26. “Ver B. Frid, “The Enigmatic av lla, in 1 Corinthians 2.9”, NTS 31 (1985): 603-611.
Mas Lenski (First Corinthians, p. 102) segue comentaristas mais antigos que repetem o
verbo falamos (v. 7).
27. A. Feuillet, “L’énigme de 1 Cor., II,9”, RB 70 (1963): 52-74; K. Berger, “Zur Diskus-
sion über die Herkunft von 1 Kor. ii. 9”, NTS 24 (1978): 270-283.
1 CORÍNTIOS 2.9
127
c. Significado. O que Paulo está tentando dizer nesta passagem?
Uma vez que ele se refere a quatro diferentes passagens das profecias
de Isaías e Jeremias, temos de interpretar a passagem tal como a en-
contramos. Paulo cita três partes do corpo humano e as apresenta em
termos negativos: “Coisas que os olhos não viram e os ouvidos não
ouviram, e que não entraram no coração [isto é, na mente] do homem”.
Ele conclui a citação com uma linha positiva: “Essas coisas Deus pre-
parou para aqueles que o amam”.
Tomemos em consideração primeiro os termos negativos. O subs-
tantivo coisas, omitido em algumas traduções,
28
significa a sabedoria
de Deus que é revelada para o propósito da salvação do ser humano.
Mas o conhecimento da salvação não se origina com o ser humano
quando este abre seus olhos para ver, ou ouve o que outros lhe dizem,
ou concebe pensamentos. Paulo elimina todos os caminhos de percep-
ção dos sentidos e deixa o leitor tirar sua própria conclusão no sentido
de que a sabedoria só pode emanar de Deus.
29
Ao mencionar os órgãos
físicos, a saber, olhos, ouvidos e coração [mente], Paulo enfatiza o
processo da percepção, análise e assimilação dos fatos. Esses órgãos
por si mesmos não podem dar ao ser humano sabedoria para conhecer
e compreender a obra divina da salvação.
Em termos positivos, Paulo informa aos coríntios que “Deus pre-
parou [salvação] para aqueles que o amam”. Em outra epístola Paulo
escreve, “Deus trabalha para o bem daqueles que o amam” (Rm 8.28).
30
Quanto à sabedoria de Deus, o autor de Eclesiástico diz: “Ele conce-
deu [sabedoria] àqueles que o amam” (Sir. 1:10, RSV).
A última linha da citação ensina duas coisas: Deus é o autor de
nossa salvação, e nós o amamos. O texto ensina que Deus preparou as
coisas que pertencem à salvação e concede esse dom independente-
mente de mérito nosso. Por meio de sua Palavra e na plenitude do
tempo para a vinda de Cristo, ele a revela. Conseqüentemente, quando
compreendemos essa verdade, demonstramos nosso amor a Deus por
este dom maravilhoso.
28. MLB, NAB, NIV, KJV, NKJV, SEB.
29. Walter C. Kaiser, Jr., “A Neglected Text in Bibliology Discussions: 1 Corinthians 2:6-
16”, WTJ 43 (1980-81): 301-319.
30. Ver também 1 Coríntios 8.3; Tiago 1.12; 2.5. Consultar Johannes B. Bauer, “‘... TOIS
AGAPOSIN TON THEON’ Rm 8:28 (I Cor. 2.9, I Cor. 8.3)”, ZNW 50 (1959): 106-112.
1 CORÍNTIOS 2.9
128
10a. Porque Deus as revelou a eles pelo Espírito.
As traduções divergem quanto à primeira palavra dessa oração.
Algumas têm a conjunção adversativa mas, outras trazem a aditiva e,
enquanto outras dão preferência a uma causal, como pois ou porque.
As diferenças provêm da leitura do texto grego e da interpretação do
versículo precedente (v. 9). Eu prefiro a leitura causal pelas seguintes
razões: Primeira, se inserimos um verbo no versículo 9, eliminamos a
necessidade de uma conjunção alternativa ou aditiva no início do ver-
sículo 10. A união dos textos com uma conjunção causal esclarece a
razão pela qual temos conhecimento com respeito à nossa salvação:
Deus a revelou a nós. Segunda, a conjunção causal liga este versículo
(10a) à citação imediatamente antecedente. E, terceira, ela faz justiça
ao pronome nos [a nós], por lhe dar mais força.
31
No grego, o pronome
se encontra no início por motivo de ênfase, isto é, “para nós Deus as
revelou”. O pronome não está limitado aos apóstolos e seus coopera-
dores, mas abrange todos os crentes.
Por meio do Espírito Santo, Deus torna conhecida aos crentes a
sua sabedoria (Mt 11.25; 16.17). O Espírito prepara uma pessoa para
receber a verdade do evangelho e a conduz a Cristo. Deus revela sua
sabedoria por meio do Espírito, de modo que a salvação é a obra da
Trindade. Deus produz a salvação, opera mediante seu Espírito e nos
garante a sua glória.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 2.9,10
a
Versículo 9
-it sa¡eta| – a preposição -| seria mais apropriada, mas Paulo usa o
grego da Septuaginta que, nesse caso, traduz literalmente o hebraico (com-
parar o texto da Septuaginta de IV Re 12.5; Jr 3.16; 28.50; ver também Lc
24.38; At 7.23).
32
Versículo 10a
,a¡ — essa conjunção tem o apoio de P
46
, Codex B, 1739 e de outros
31. Archibald Robertson e Alfred Plummer, A Critical and Exegetical Commentary on
the First Epistle of St. Paulo to the Corinthians, International Critical Commentary, 2ª ed.
(1911; reedição, Edimburgo: Clark, 1975), p. 43.
32. Moule, Idiom-Book, p. 183.
1 CORÍNTIOS 2.10a
129
manuscritos. À luz desse contexto, ,a¡, em vez de e- , é a leitura mais
difícil e, portanto, a preferida; ela ocorre três vezes em três orações. Qual-
quer escriba seria tentado a modificar a frase com a conjunção e- .
ai-saìu¢-| – o verbo revelar está relacionado com a palavra mistério
e com o perfeito particípio ativo oculta (v. 7). Sua conotação é de uma
revelação especial, em vez de revelação geral.
33
c. O Espírito Santo e a Sabedoria Humana
2.10b-13
Os tradutores geralmente divergem quanto à divisão de parágrafos.
Nesse ponto (v. 10), muitos preferem iniciar um novo parágrafo em
vez de dividir esse versículo em duas partes. Nós, porém, tomamos a
primeira parte do versículo 10 como uma conclusão ao versículo 9 e a
segunda parte como o começo de um novo parágrafo.
34
10b. Na verdade, o Espírito perscruta todas as coisas, até mes-
mo as profundezas de Deus.
A sentença afirmativa serve como uma observação inicial em uma
seção sobre a obra do Espírito Santo. Apesar de breve, a frase é profun-
da em nos revelar a relação interpessoal dentro da Divindade. Admiti-
mos que a mente humana é incapaz de sondar a profundeza das pala-
vras de Paulo. Numa doxologia, Paulo reconhece exatamente essa ina-
bilidade ao perguntar: “Quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem
foi o seu conselheiro?” (Rm 11.34; ver também Jó 11.7). Nenhum ser
humano é convidado a tomar assento nos conselhos de Deus.
35
O Espírito perscruta todas as coisas e nada escapa à sua atenção.
Paulo escreve o verbo perscrutar no presente para indicar que para o
Espírito a obra de perscrutar nunca cessa; na presença de Deus todas as
coisas são descobertas e reveladas (Hb 4.13). Deus conhece todas as
coisas e seus olhos estão em toda a parte (Pv 15.3).
O alcance da obra do Espírito chega até as profundezas de Deus. O
que são essas profundezas de Deus? São os caminhos incompreensí-
veis de Deus, os quais sempre permanecem mistérios para a mente
33. Consultar Lightfoot, Notes on the Epistles, p. 178.
34. Dividem o versículo 10, por exemplo, as traduções NEB, NIV e NCV.
35. João Calvino, Institutes of the Christian Religion, trad. por Henry Beveridge, 8ª ed.
americana, 2 vols. (Grand Rapids: Eerdmans, 1949), vol 1, p. 155.
1 CORÍNTIOS 2.10b
130
inconstante e pouco profunda dos homens. Dentre essas profundezas
estão as riquezas inexauríveis da sabedoria e do conhecimento de Deus
(Rm 11.33), o dom divino da salvação aos homens, a difusão do evan-
gelho em cada época e geração e a vinda do reino de Deus.
Deus se move de modo misterioso
Ao realizar suas maravilhas;
Deixa suas pegadas nos mares,
E cavalga as tempestades.
Nas profundezas de minas insondáveis
De sua destreza que nunca falha,
Entesoura seus sábios desígnios
E executa a sua vontade soberana.
*
– William Cowper
11. Pois quem entre os homens conhece as coisas do homem
senão o espírito do homem que está dentro dele? Assim também
ninguém conhece as coisas de Deus senão o Espírito de Deus.
a. Analogia. Empregando uma analogia da vida humana, Paulo
compara o espírito de homem com o Espírito de Deus. Pergunta se
alguém pode saber os motivos das ações de uma pessoa. Ele responde
a essa pergunta dizendo que somente o espírito do homem é capaz de
conhecer suas próprias motivações. O espírito humano é capaz de guar-
dar segredos dos olhos e ouvidos de outras pessoas.
Por outro lado, temos de confessar que muito embora tenhamos
sido criados com conhecimento natural básico a respeito de nós pró-
prios, deparamo-nos com inúmeras dificuldades para conhecermos nos-
sas motivações interiores. Nosso conhecimento inato nos guia na to-
mada de decisões relacionadas ao ambiente em que vivemos. Tenta-
mos analisar as razões que nos levam a fazer e a dizer determinadas
coisas num esforço por nos conhecer. Procuramos obter uma compre-
ensão básica de nosso ser subconsciente pela análise de nossa mente.
b. Diferença. Se fôssemos além do ponto básico que Paulo está
* “God moves in a mysterious way/ His wonders to perform;/ He plants His footsteps in
the sea,/ And rides upon the storm.// Deep in unfathomable mines/ Of never-failing skill,/
He treasures up His bright designs/ And works His sovereign will.”
1 CORÍNTIOS 2.11
131
tentando ensinar, vacilaríamos. Como Deus disse ao povo de Israel:
“Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos
caminhos, os meus caminhos” (Is 55.8). Deus é o Criador do espírito
do homem (Zc 12.1); ele soprou nas narinas do homem o fôlego da
vida (Gn 2.7). Mas o Espírito incriado de Deus procede do Pai e do
Filho (Jo 14.26). A repetição da expressão homem nesse versículo tem
como objetivo reforçar a imensurável diferença entre o espírito huma-
no e o Espírito de Deus. Deus conhece a mente do homem, mas o ho-
mem é incapaz de conhecer a mente de Deus.
No texto grego desse versículo, Paulo escreve dois verbos diferen-
tes para conhecer (oida e ginwskw). A idéia que o primeiro verbo passa
é a de se ter conhecimento natural básico – ou seja, o espírito dentro do
homem conhece seu próprio pensamento. O segundo verbo, conjugado
aqui no pretérito, denota o processo de se adquirir conhecimento: “Ne-
nhum homem conseguiu uma compreensão das coisas que pertencem a
Deus, senão o próprio Espírito de Deus”; Paulo contrasta os dois ver-
bos para explicar que a mente humana é capaz de conhecer as coisas
referentes ao homem, mas não as coisas referentes a Deus. Em outras
palavras, Paulo não está dizendo que o Espírito de Deus está engajado
em obter conhecimento relativo aos pensamentos de Deus. O espírito
tem conhecimento inerente. “Essa mudança de terminologia pode ser
considerada como uma advertência para nós não forçarmos a analogia”.
36
12. Ora, nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espíri-
to que vem de Deus, para que conheçamos as coisas que nos foram
dadas gratuitamente por Deus.
a. “Ora, nós não recebemos.” No versículo anterior, Paulo falou do
espírito humano de forma geral. Mas aqui ele especifica os coríntios e
a si mesmo pelo uso do pronome possessivo plural nós. Esse pronome
está no início da frase em grego e, dessa forma, é enfatizado. Com esse
pronome inclusivo, Paulo chega ao cerne do parágrafo sobre o Espírito
de Deus versus o espírito humano. O apóstolo oferece a confortadora
garantia de que recebemos o Espírito, dado a nós por Deus.
36. Lightfoot, Notes on the Epistles, p. 179. Mas ver Donald W. Burdick, que força a
analogia. “oi= da and ginw,skw in the Pauline Epistles”, in: New Dimensions in New Testa-
ment Study, org. por Richard N. Longenecker e Merrill C. Tenney (Grand Rapids: Zonder-
van, 1974), p. 351.
1 CORÍNTIOS 2.12
132
b. “Não o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus.” A
expressão não o espírito do mundo tem sido interpretada de diversas
formas:
descreve os governantes do mundo que crucificaram Jesus (v. 8);
denota o mal que estabeleceu suas próprias regras e objetivos (ver
2Co 4.4; 1Jo 4.4; 5.19);
é equivalente à sabedoria deste mundo (1.20);
é o espírito no homem que é mundano.
Nós afirmamos que o espírito do mundo é o espírito que torna o
mundo secular.
37
Desde que Adão e Eva caíram em pecado, o espírito
deste mundo tem se revelado em oposição ao Espírito de Deus: por
exemplo, na impiedade anterior ao dilúvio, na construção da torre de
babel e nos falsos mestres que procuraram destruir a Igreja nos dias
dos apóstolos (2Pe 2; 1 Jo 4.1-3; Jd 4-19). É o espírito que governa
uma pessoa na qual não habita o Espírito de Deus. É o poder que deter-
mina “todo o pensar e agir dos homens, que se opõe ao Espírito que é
de Deus”.
38
Ao contrário, como Paulo o expressa em eloqüente grego, os cren-
tes receberam o Espírito que procede de Deus (ver Jo 15.26; Gl 4.6). O
Espírito de Deus vem aos crentes de uma outra esfera que não este
mundo e transmite o conhecimento de Deus, da criação, da redenção e
da restauração. Desde o Pentecoste, o Espírito de Deus habita no cora-
ção de todos os crentes (6.19).
c. “Para que conheçamos as coisas que nos foram dadas gratuita-
mente por Deus.” Por que Deus nos concede o dom do seu Espírito? A
resposta é para que possamos conhecer de maneira inata as coisas que
dizem respeito à nossa salvação. O Espírito nos ensina os tesouros que
temos em Cristo Jesus, a quem Deus entregou à morte numa cruz a fim
de que tenhamos vida eterna (1Jo 5.13). Se Deus entregou seu Filho,
sem dúvida nos dará com ele todas as coisas (Rm 8.32). Os crentes
tomam posse do dom da salvação mediante a obra do Espírito Santo.
Reconhecem por meio da fé que, em Cristo, pecado e culpa lhes foram
37. Consultar Lenski, First Corinthians, p. 108.
38. Hermann N. Ridderbos, Paul: An Outline of His Theology, trad. por John Richard de
Witt (Grand Rapids: Eerdmans, 1975), p. 92.
1 CORÍNTIOS 2.12
133
removidos, que Deus está reconciliado com eles e que o caminho para
os céus foi aberto para eles.
13. E as coisas que falamos não são palavras comunicadas pela
sabedoria humana, mas aquelas comunicadas pelo Espírito, à me-
dida que explicamos verdades espirituais em palavras espirituais.
a. Intérprete. Nesse ponto de seu discurso, Paulo refere-se a si
mesmo e aos seus colegas pregadores. Revela que as palavras que pro-
clamam não são baseadas em sabedoria humana.
Fazemos as seguintes observações:
Primeira, Paulo usa um verbo grego que significa o ato de falar, e
não o conteúdo do discurso (ver vs. 6, 7). Segunda, ele coloca a nega-
tiva na frase propositadamente antes de palavras para contrastar sabe-
doria humana e sabedoria divina. E, terceira, indica que o agente que
ensina os apóstolos e seus colaboradores o que pregar não é uma pes-
soa repleta de sabedoria humana. Ao contrário, essa pessoa não é outra
senão o Espírito de Deus. O Espírito, portanto, os capacita a proclama-
rem o evangelho (Mt 10.20).
Além disso, o próprio evangelho é inspirado pelo Espírito. Isso
não deveria ser entendido como se os apóstolos fossem meros instru-
mentos que o Espírito Santo empregou para atingir seus objetivos. Com
certeza, não! Os autores da Escritura usaram seus talentos e capacida-
des, sua formação e cultura e suas características e peculiaridades na
tarefa de escrever. Não obstante, o espírito os ensinou como verbalizar
as verdades de Deus. Como diz Paulo enfaticamente: “Falamos ... não
palavras comunicadas pela sabedoria humana, mas aquelas comuni-
cadas pelo Espírito” (itálicos acrescentados). Para o apóstolo, portan-
to, a inspiração não se baseia em pensamento humano ou em sabedoria
de homens, mas no ensino concedido pelo Espírito Santo. O estilo,
vocabulário, dicção e sintaxe de Paulo são os veículos da verdade que
o Espírito lhe ensinou.
39
b. Variante. As traduções da última parte do versículo 13 diver-
gem, conforme ilustram alguns poucos exemplos:
39. Consultar Frederic Louis Godet, Commentary on First Corinthians (1886; reedição,
Grand Rapids: Kregel, 1977), p. 154.
1 CORÍNTIOS 2.13
134
“Expressando verdades espirituais em palavras espirituais” (NIV).
“Interpretando verdades espirituais para homens espirituais” (mar-
gem da NIV).
“Comparando coisas espirituais com espirituais” (KJV, NKJV).
“Interpretando verdades espirituais àqueles que possuem o Espíri-
to” (RSV) ou “aos que são espirituais” (NRSV).
“Suprindo linguagem espiritual para coisas espirituais” (NJB).
O sentido exato dessa última parte da frase é obscuro. Uma tradu-
ção literal é incompreensível: “Interpretando espirituais em espiritu-
ais”. Portanto, o leitor precisa levar em consideração o contexto desse
versículo em busca de orientação para escolher e fornecer dois subs-
tantivos que completem a oração.
Se considerarmos as referências explícitas de Paulo aos cristãos
amadurecidos (v. 6) e ao homem espiritual (v. 15), poderemos entender
que o escritor tem em mente homens espirituais. Se aplicarmos as re-
gras da gramática, contudo, deparar-nos-emos com uma sutil objeção a
essa interpretação. O segundo adjetivo, espirituais, não é precedido
por um artigo definido que designe um grupo de pessoas em particular
(gramaticalmente, uma palavra masculina); em vista disso, existe a pos-
sibilidade de que Paulo quisesse dizer “palavras espirituais”. Nós não
deixamos de considerar essa interpretação,
40
mas pretendemos dar o
mesmo peso a uma segunda interpretação, a de que o adjetivo refere-se
ao substantivo palavras (gramaticalmente neutro). Ou seja, Paulo e
seus colaboradores estão interpretando verdades espirituais em pala-
vras espirituais (implicitamente, para homens espirituais). Por isso, para
um dos adjetivos, suprimos a palavra verdades e para o outro, o termo
palavras; dessa forma, lemos: “interpretando verdades espirituais em
palavras espirituais”.
c. Explicação. O verbo grego synKr]n{ pode ser traduzido tanto
como “combinando”, “comparando” ou como “interpretando”.
41
O pri-
meiro desses três significados está de acordo com o contexto e tem
40. Como escreve Donald Guthrie, “Se... cristãos que são ensinados pelo Espírito são
capazes de interpretar a verdade espiritual aos que possuem o Espírito, isso demonstra o
ministério de ensino do Espírito”. New Testament Theology, p. 556.
41. Bauer, p. 774.
1 CORÍNTIOS 2.13
135
sido escolhido por muitos comentadores.
42
Tradutores modernos, con-
tudo, relutam em adotar a palavra combinando porque duvidam que
seja este o sentido que Paulo quis transmitir.
Outros estudiosos adotam a segunda alternativa (“comparando”) e
observam que o mesmo verbo grego ocorre em 2 Coríntios 10.12, onde
significa “comparar”. Mas são diferentes os respectivos contextos, ra-
zão pela qual uma tradução igual para ambas as passagens se torna
difícil e improvável.
Conclusivamente, portanto, o contexto parece dar suporte à leitura
interpretar. Friedrich Büchsel observa que a tradução combinar é mui-
to fraca, enquanto “comparar” introduz um conceito que é incompatí-
vel com o contexto. “Em vista disso, o melhor é aceitar o significado
“interpretar”, “expor”, que é predominante na [Septuaginta] ‘expondo
revelações do Espírito’”.
43
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 2.12,13
sec¡eu – diversos manuscritos acrescentam o pronome demonstrativo
:eu:eu para indicar contraste (“este mundo”), mas a leitura mais breve
tem o apoio de testemunhos mais antigos e mais fortes.
eteas:et, – este adjetivo verbal (“ensinadas”) tem um sentido passi-
vo. Ocorre duas vezes e é seguido em ambas as vezes por um genitivo
subjetivo.
44
i|-u¡a:tset, i|-u¡a:tsa – o primeiro adjetivo não tem o artigo defi-
nido :et,, que reduz a probabilidade de que seja masculino (ou seja, ho-
mens espirituais). Eu prefiro manter os dois adjetivos no mesmo gênero
neutro. A presença de ìe,et, (palavras) neste versículo sugere que Paulo
subentende que pensamentos espirituais são explicados em palavras espi-
rituais.
45
42. Dentre muitos outros, ver Leon Morris, 1 Corinthians, ed. rev., série Tyndale New
Testament Commentaries (Leicester: Inter-Varsity; Grand Rapids: Eerdmans, 1987), p. 58.
43. Friedrich Büchselm TDNT, Vol. 3, p. 954. Ver também a leitura da LXX em Gênesis
40.8, 16, 22; Daniel 5.15-17, onde o verbo se refere à interpretação de sonhos.
44. Consultar Moule, Idiom-Book, p. 40.
45. Consultar Robertson, Grammar, p. 654.
1 CORÍNTIOS 2.12, 13
136
d. O Homem Não-espiritual e o Homem Espiritual
2.14-16
Paulo conclui com um último contraste este capítulo descrevendo,
primeiro, em termos negativos, o que a pessoa não-espiritual não é
capaz de fazer. Depois, fala positivamente sobre o homem espiritual e,
por último, conclui que os leitores de sua epístola têm “a mente de
Cristo”.
14. O homem não-espiritual não aceita as coisas do Espírito de
Deus, porque são loucura para ele e ele é incapaz de entendê-las,
porque elas se discernem espiritualmente.
a. “O homem não-espiritual.” A palavra grega que eu traduzi como
“não-espiritual” ocorre aqui e em quatro outros lugares no Novo
Testamento.
46
A tradução declara o que o homem não é, a saber, espiri-
tual. Isso é exatamente o que Paulo quer expressar por meio do con-
traste de uma pessoa não-espiritual com uma pessoa espiritual. “O pri-
meiro é homem animado, dotado de alma no sentido de força vital, o
homem natural, em contraste com o homem espiritual.”
47
O homem
natural pertence ao mundo, enquanto o homem espiritual pertence a
Deus. Um é um descrente e o outro um crente; um não tem o Espírito
enquanto o outro tem o Espírito; um segue os instintos naturais (Jd 19),
o outro segue o Senhor.
b. “[O homem não-espiritual] não aceita as coisas do Espírito de
Deus.” Embora o verbo aceitar seja sinônimo de receber (ver o v. 12),
a diferença é digna de nota. O primeiro verbo, que é ativo, refere-se ao
objeto que é aceito. O segundo verbo, que é passivo, descreve a manei-
ra como o objeto é recebido. A tradução não aceitar, nesse versículo,
tem o sentido de rejeitar. O homem não-espiritual repudia as coisas do
Espírito de Deus porque ele não as entende nem as deseja. Ele aceita
apenas as coisas do mundo.
c. “Porque são loucura para ele.” A coisas espirituais dizem respei-
to ao pecado, à culpa, ao perdão, à redenção, à salvação, à justiça e à
46. 1 Coríntios 15.44 (duas vezes), 46; Tiago 3.15; Judas 19. Para a tradução não-espiri-
tual, ver Bauer, p. 894, e NEB, REB, BJ, MLB, RSV.
47. Günther Harder, NIDNTT, Vol. 3, p. 684; ver também Eduard Schweitzer, TDNT, Vol.
9, p. 663.
1 CORÍNTIOS 2.14
137
vida eterna. À pessoa não-espiritual, essas coisas não têm sentido, são
irrelevantes e, inclusive, estultice. Elas não têm lugar em uma vida que
é limitada ao mundo presente.
48
d. “E ele é incapaz de entendê-las, porque elas se discernem espiri-
tualmente.” Paulo fala a respeito de uma incapacidade que é causada
pela ausência do Espírito Santo na vida do descrente. Admite-se que o
incrédulo possa exceder o cristão de várias maneiras: intelectualmen-
te, quanto à educação, filosoficamente ou, até mesmo, moralmente.
Pode ser um cidadão digno e um líder na sociedade que evita os exces-
sos sensuais que caracterizam outras pessoas. No entanto, o não-cris-
tão é incapaz de entender as coisas espirituais. Falta-lhe a presença
habitadora do Espírito Santo para iluminar seu entendimento.
Paulo afirma que o descrente não é capaz de compreender as ver-
dades espirituais “porque elas se discernem espiritualmente”. O verbo
discernir é importante. Primeiro, aponta para um processo contínuo de
avaliar o contexto espiritual em que vivemos. Segundo, a voz passiva
denota que o crente guiado pelo espírito Santo é capaz de testar os
espíritos para verificar se eles vêm de Deus (comparar com 1Jo 4.1).
Submisso a Deus, o cristão deve julgar todas as coisas espiritualmente.
O agnóstico ou ateísta é incapaz de julgar espiritualmente porque
ele próprio está morto em transgressões e pecados (Ef 2.1). Com res-
peito às coisas espirituais, é como um homem que aperta o interruptor
quando não há corrente elétrica e, assim, não consegue acender a lâm-
pada. Pior, não tem sequer idéia do que causa a pane e é incapaz de
predizer a duração do blecaute. Ele é impotente para alterar a situação,
mas precisa esperar até que o fornecimento de energia elétrica seja
restabelecido. Da mesma maneira, a não ser que o poder do espírito
entre em sua vida e o ilumine espiritualmente, ele permanece em tre-
vas espirituais. O espírito santo capacita o homem a ver claramente o
caminho que conduz à vida e a avaliar com exatidão as circunstâncias
em que ele próprio se encontra.
15. Porém o homem espiritual julga todas as coisas, mas ele
mesmo não é julgado por ninguém.
a. “Porém o homem espiritual julga todas as coisas.” Que alegria
48. Consultar S. D. Toussaint, “O Homem Espiritual”, BS 125 (1968): 139-146.
1 CORÍNTIOS 2.15
138
para uma pessoa espiritual, chegar diretamente a Deus, a fonte de sa-
bedoria (Tg 1.5)! De Deus ele recebe sabedoria sem limites. Conse-
qüentemente é capaz de examinar todas as coisas criteriosamente e de
exercer a liderança num mundo submetido à escuridão do pecado. “É
somente o homem espiritual que tem esse conhecimento firme e são
dos mistérios de Deus, que realmente distingue a verdade do erro, o
ensinamento de Deus das invenções humanas e é muito pouco iludi-
do.”
49
Para o crente, as Escrituras são uma luz em seu caminho e uma
lâmpada para seus pés (Sl 119.105). Ele sabe que na luz de Deus ele vê
a luz (Sl 36.9). Em vista da unção da pessoa espiritual com o Espírito
Santo, ela tem conhecimento da verdade (1Jo 2.20). Assim, é capaz de
distinguir a verdade do erro, o fato da ficção e a autenticidade do fingi-
mento.
Paulo escreve que o homem espiritual julga todas as coisas. Por
implicação, essa pessoa recebe a direção do Espírito Santo e usa as
Escrituras como sua bússula para a jornada desta vida. A expressão
todas as coisas significa o espectro geral da existência humana. Isso
não significa que o homem espiritual seja um especialista em cada área
da vida. Em vez disso, com respeito à comunidade na qual Deus o
colocou, é capaz de avaliar todas as coisas espiritualmente.
b. “Mas ele mesmo não é julgado por ninguém.” Esta é uma afir-
mação ousada de Paulo. Contudo, o apóstolo não quer dizer que os
cristãos jamais são julgados (comparar com 14.29), mas, em vez disso,
que o crente não pode ser julgado por descrentes; eles são incapazes de
julgar um crente espiritualmente. O crente é julgado com base na Pala-
vra de Deus. Afinal, são as Escrituras, e não regras e regulamentos
humanos, que julgam o homem espiritual com respeito ao seu destino
eterno.
16 Pois
quem conheceu a mente do Senhor,
que o possa instruir?
Nós, porém, temos a mente de Cristo.
a. Fonte. Este versículo é a confirmação da afirmação ousada de
Paulo na passagem anterior (v. 15). Como de costume, Paulo funda-
49. Calvino, I Corinthians, p. 62.
1 CORÍNTIOS 2.16
139
menta seu ensino com citações das Escrituras, que ele considera sua
corte de apelação. Cita, agora, duas linhas separadas de Isaías 40.13 da
tradução grega do texto hebraico (comparar com Jr 23.18; Sabedoria
9.13). Em outra parte, Paulo cita a passagem inteira do Antigo Testa-
mento em ordem consecutiva (ver Rm 11.34). Mas, agora, ele omite
uma linha do texto da Septuaginta, a saber, “quem foi o seu conselhei-
ro?”. As duas linhas “quem conheceu a mente do Senhor” e “que o
possa instruir” diferem ligeiramente do texto hebraico: “quem enten-
deu a mente do Senhor” e “a quem o senhor consultou para o alumiar”?
b. Significado. Em que sentido a passagem do Antigo Testamento
prova o argumento de Paulo? A palavra-chave nessa citação é o termo
mente, que se refere tanto a Deus como a Cristo. Paulo indica que a
mente de uma pessoa espiritual precisa estar em harmonia com a men-
te de Deus. Quando o homem é controlado pelo Espírito de Deus, ele
deseja cumprir a lei de Deus, fazer a vontade de Deus e refletir a glória
de Deus. Deus conhece o homem e o instrui, mas seria um absurdo
pensar que o homem é capaz de conhecer e de instruir a Deus. Quem
tem autoridade para julgar a lei de Deus? Em sua epístola, Tiago escre-
ve que “aquele que fala mal do irmão ou julga a seu irmão fala mal da
lei e julga a lei” (4.11). Ele diz ainda que Deus é o único Legislador e
Juiz (4.12). Não obstante, a pessoa na qual habita o Espírito de Deus
possui conhecimento espiritual para o guiar e dirigir nesta vida terrena.
Paulo afirma que nós, como crentes, temos a mente de Cristo. Nos
versículos precedentes, ele dá ao pronome pessoal nós um sentido in-
clusivo. Portanto, também aqui o pronome se refere a Paulo e aos de-
mais apóstolos e aos crentes que deles ouviram o evangelho. O escritor
da Epístola aos Hebreus declara sucintamente: “Essa salvação, que foi
anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos
que a ouviram” (2.3). A expressão mente de Cristo, portanto, significa
o conhecimento que o crente tem de Cristo pela ação do Espírito e a
apropriação da mensagem do evangelho.
50
50. Wendell Lee Willis, “The ‘Mind of Christ’in I Corinthians 2, 16”, Bib 70 (1989): 110-
122.
1 CORÍNTIOS 2.16
140
Possa a mente de Cristo, meu Salvador,
Viver em mim, dia após dia,
Por seu amor e poder controlando
Tudo o que eu faço e digo.
– Kate B. Wilkinson
Considerações Práticas em 2.15,16
Paulo realmente quer dizer que o cristão que ora fervorosamente pelo
dom do Espírito está livre de cair em erro? Dificilmente, pois muitos cris-
tãos podem testificar que por causa de uma desatenção momentânea, pas-
saram anos em torturante aflição. Somente a vida de Jesus na terra pode
ter sido caracterizada como sendo isenta de erro. Com toda a humildade,
seus seguidores têm de confessar que suas vidas estão longe de serem
perfeitas.
O povo de Deus, redimido por meio da obra de Jesus Cristo, é chama-
do a amar a Deus de coração, alma e mente, e a amar o próximo como a si
mesmo (Mt 22.37-39). Deve fazê-lo para expressar sua gratidão a Deus
pela salvação dada por Cristo. Devem orar para que o Espírito Santo, que
vive dentro deles, os conduza para mais perto de Jesus Cristo. Ter comu-
nhão com Cristo significa ter a mente de Cristo, e eles querem servi-lo em
gratidão.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 2.14-16
¢u,tse, – este adjetivo é derivado do substantivo ¢u,µ (alma, vida) e
tem a conotação de uma vida natural que permanece em contraste com a
vida de um crente que está cheio do Espírito Santo.
:eu ò-eu – os manuscritos que incluem essas duas palavras são refor-
çados pela antigüidade, pela distribuição geográfica e pela importância.
Portanto, a regra de que a leitura mais breve representa o texto original
não pode ser mantida nesse caso.
51
¡æ¡ta...-c:t| – “é considerado como loucura” pela pessoa não-espiri-
tual.
52
Ver também 1.18; 3.19.
51. Metzger, Textual Commentary, p. 547. Comparar com Fee, First Corinthians, pp. 97-
98, n. 5.
52. Friedrich Blass e Albert Debrunner, A Grek Grammar of the New Testament and
Other Early Christian Literature, trad. e rev. por Robert Funk (Chicago: University of
Chicago Press, 1961), nº 190.1.
1 CORÍNTIOS 2.15, 16
141
a |as¡t |-:at – o verbo no presente ativo e passivo ocorre três vezes
nesse e no próximo versículo. É um verbo composto que significa “olhan-
do através de uma série (a |a) de objetos ou particularidades para distin-
guir (s¡t|æ) ou inquirir”.
53
:a ia |:a — uma série de testemunhos substituiu ¡-| pelo artigo defi-
nido :a para efetuar uma balanço com e- na oração seguinte. É difícil
determinar a leitura exata, mas a possibilidade de ¡-| ter sido substituída
por :a é mais provável do que o inverso. Além disso, permanece a questão
quanto a se o artigo definido fortalece o adjetivo ia|:a ou serve para
indicar o plural neutro em lugar do acusativo masculino singular.
54
su¡teu – no Antigo Testamento, essa palavra é outro nome para Deus.
Mas, no Novo Testamento, ela se refere a Jesus Cristo. As palavras Se-
nhor e Cristo neste contexto são sinônimas.
e, – o pronome relativo no masculino singular é empregado para in-
troduzir uma idéia consecutiva, “que” ou “de forma a”.
55
Sumário do Capítulo 2
Paulo lembra aos coríntios que ele não havia chegado até eles como
um orador eloqüente ou como um filósofo. Em vez disso, ele procla-
mara o testemunho de Deus, isto é, o evangelho de Cristo que ele não
trouxe segundo o discernimento humano mas no poder do Espírito de
Deus. Paulo declara que sua pregação é uma mensagem de sabedoria
que se origina em Deus, mas que os governantes deste século haviam
sido incapazes de compreender. Ele fundamenta seu ensinamento ci-
tando de uma passagem da profecia de Isaías.
Em um segmento sobre o Espírito de Deus, Paulo revela que os
crentes receberam não o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de
Deus. Com a sabedoria que o Espírito concedeu aos crentes, as pessoas
espirituais são capazes de julgar todas as coisas espiritualmente.
53. Thayer, p. 39.
54. Metzger, Textual Commentary, pp. 547-548.
55. Robertson, Grammar, p. 724.
1 CORÍNTIOS 2
142
143
3
Divisões na Igreja, parte 3
(3.1-23)
144
ESBOÇO (continuação)
3.1-23
3.1-4
3.5-9
3.10-15
3.16,17
3.18-23
4. Cooperadores de Deus
a. Meros Homens
b. Servos de Deus
c. Construtores a Serviço de Deus
d. Templo de Deus
e. Advertência e Conclusão
145
CAPÍTULO 3
3
1. E eu, irmãos, não pude falar a vocês como a homens espirituais, mas [falei
a vocês] como homens que são sensuais, como crianças em Cristo. 2. Eu dei a
vocês leite para beber, não alimento sólido, porque vocês ainda não podem supor-
tar alimento sólido. Na verdade, vocês ainda não podem. 3. Porque vocês ainda
são naturais. Porquanto, desde que há entre vocês ciúmes e contendas, não é as-
sim que são de mente não-espiritual e que andam nos caminhos do homem? 4.
Pois quando alguém diz: “Eu sou de ”Paulo”, mas outro diz: “Eu sou de Apolo”,
não são vocês meros homens?
5. O que então é Apolo e o que é Paulo? Eles são servos por meio dos quais
vocês se tornaram crentes, conforme o Senhor deu uma tarefa a cada um. 6. Eu
plantei, Apolo regou, mas o crescimento veio de Deus. 7. De modo que nem o que
planta nem o que rega é alguma coisa, mas somente Deus dá o crescimento. 8.
Ora, o que planta e o que rega são um, mas cada um receberá a sua recompensa,
segundo o seu próprio trabalho. 9. Porque de Deus somos cooperadores; vocês
são lavoura de Deus e edifício de Deus.
10. Segundo a graça de Deus que me foi dada, lancei o fundamento como
prudente mestre construtor, e outro edifica sobre ele. Porém cada um cuide como
edifica 11. Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que foi posto,
o qual é Jesus Cristo. [sobre ele]. 12. Contudo, se alguém edifica sobre o funda-
mento com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, 13. a obra de cada
um se tornará manifesta, pois o dia a demonstrará, porque estará sendo revelada
pelo fogo. E o fogo provará que tipo de obra cada um realizou. 14. Se a obra que
alguém edificou permanecer, ele receberá uma recompensa. 15. Se a obra de al-
guém se queimar, ele sofrerá perda; mas esse mesmo será salvo, todavia, como
que por meio do fogo.
16. Vocês não sabem que são o templo de Deus e que o Espírito de Deus
habita em vocês? 17. Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá;
porque o templo de Deus é santo e isso é o que vocês são.
18. Que ninguém se engane. Se alguém dentre vocês se tem por sábio neste
século, que se faça de tolo para se tornar sábio. 19. Porque a sabedoria deste
mundo é loucura diante de Deus; porquanto está escrito:
“Ele apanha os sábios na própria astúcia deles”.
146
20. E outra vez:
“O Senhor conhece os pensamentos dos sábios,
que são pensamentos vãos”.
21. Portanto, que ninguém se glorie nos homens; porque tudo é de vocês: 22.
seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam
as coisas presentes, sejam as futuras: todas as coisas são de vocês. 23. E vocês são
de Cristo, e Cristo é de Deus.
4. Cooperadores de Deus
3. 1-23
Paulo fala aos coríntios com severidade, pois eles se mostraram
crianças em Cristo por causa de sua incapacidade de crescerem espiri-
tualmente (A linguagem usada pelo apóstolo lembra as palavras escri-
tas pelo autor da Epístola aos Hebreus [5.12-14]). Paulo considera
maduros os cristãos que, cheios do Espírito Santo, são capazes de exer-
cer a liderança na construção da casa de Deus.
a. Meros Homens
3.1-4
1. E eu, irmãos, não pude falar a vocês como a homens espiri-
tuais, mas [falei a vocês] como homens que são sensuais, como cri-
anças em Cristo.
a. Destinatários. Sempre que precisa repreender seus leitores, Pau-
lo dirige-se a eles de forma pessoal e como iguais. A palavra irmãos,
que inclui também as irmãs na congregação, transmite uma mensagem
de solidariedade. É uma abordagem pastoral que revela o cuidado amo-
roso de Paulo. Por contraste, os profetas do Antigo Testamento jamais
se dirigem ao leitores como irmãos, mas os admoestam severamente
com as palavras assim diz o Senhor. Muito embora a mensagem em si
seja áspera, Paulo expressa unidade com os destinatários de sua epís-
tola (ver, por ex., 1.10, 11, 26; 2.1).
b. Mensagem. “Eu... não pude falar a vocês como a homens espiri-
tuais, mas [falei a vocês] como homens que são sensuais.” Observe
que Paulo usa o pretérito para indicar sua primeira visita aos coríntios
(2.1). Naquela ocasião, muitos deles eram gentios que nunca tinham
ouvido a revelação de Deus nas Escrituras. Durante sua primeira visita
a Corinto, ele os abordou com o evangelho que eles aceitaram pela fé.
1 CORÍNTIOS 3.1
147
Mas agora Paulo se dirige a pessoas que são não-espirituais e sensuais
em sua conduta. Ele se refere a elas como “meras crianças em Cristo”.
Ele está descrevendo a condição espiritual em que elas se encontravam
quando ele lhes escrevia sua epístola. Critica os coríntios pelo fracasso
deles em apreender o sentido do evangelho de Cristo que ele lhes havia
anteriormente proclamado. Por conseguinte, ele está dizendo que eles
não foram capazes de fazer progresso em seu crescimento espiritual.
1
c. Conseqüência. Paulo afirma que não pode chamá-los de homens
espirituais, mas os considera sensuais (lit., carnais).
2
Mas se eles não
são espirituais (ver 2.14), eles são ou não cristãos? Sim, são cristãos,
porque Paulo dirige-se a toda a igreja em Corinto, a qual ele descreve
como santificada em Cristo Jesus (1.2). Além disso, o apóstolo declara
que ele e os coríntios receberam o Espírito (2.13). Por último, ele cha-
ma os destinatários de irmãos para fortalecer o laço de unidade com
eles (3.1). Gordon D. Fee observa: “Uma pessoa não pode ser cristã e
não ter [o] Espírito. Por outro lado, os coríntios estão envolvidos com
comportamentos não-cristãos; nesse sentido, eles são “não-espirituais”,
não porque não têm o Espírito, mas porque estão pensando e vivendo
exatamente como aqueles que não o têm”.
3
Paulo escreve essas palavras como uma repreensão contundente.
Os coríntios em geral estão se conduzindo como pessoas carnais, do
mundo. Não só ele os chama de sensuais; chega até mesmo a usar o
humilhante termo crianças. Em certo sentido, Paulo é contraditório:
numa afirmação anterior ele tinha dito: “Entretanto, expomos sabedo-
ria entre os amadurecidos” (ver comentário sobre 2.6), mas agora ele
descreve os coríntios como crianças, embora crianças em Cristo. A
maturidade não é algo que se alcance no final de um período probató-
rio. Paulo ressalta que a maturidade é alcançada na hora da ressurrei-
ção dos mortos (consultar Fp 3.11-15). “Isso significa que, para ele,
em marcante contraste com concepções modernas evolucionistas in-
1 CORÍNTIOS 3.1
1. Comparar com James Francis, “‘As Babes in Christ’– Some Proposals Regarding 1
Corinthians 3,1-3”, JSNT 7 (1980): 41-57.
2. Comparar com Bauer, p. 743; Thayer, p. 569.
3. “Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians, série New International Com-
mentary on the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), p. 123; D.A. Carson, The
Cross and Christian Ministry (Grand Rapids: Baker, 1993), pp. 70-71.
148
fluenciadas pelas ciências biológicas, maturidade é uma categoria esca-
tológica.”
4
Cristãos maduros são aqueles que estão vivos em Jesus Cris-
to, estão cheios do Espírito Santo e buscam glorificar a Deus, o Pai.
Aqui, contudo, a palavra perfeito tem o sentido de que o crente
vive tanto interior como exteriormente a vida cristã desde o momento
em que ele se apropriou plenamente do evangelho.
5
Paulo diferencia
pessoas maduras de crianças para incitar os coríntios à ação. Como
crianças, ainda consomem leite em vez de alimento sólido, e assim
permanecem principiantes na fé. Podem ser comparados com um bili-
onário que vive como se fosse paupérrimo.
2. Eu dei a vocês leite para beber, não alimento sólido, porque
vocês ainda não podem suportar alimento sólido. Na verdade, vo-
cês ainda não podem.
Apesar da referência de Paulo a crianças, ele continua a lidar gen-
tilmente com os leitores de sua epístola (comparar com 1Ts 2.7; 1Pe
2.2). Ele os chama de crianças em Cristo. Quando uma mãe verifica
que seu neném não está crescendo fisicamente, ela se preocupa e con-
sulta um médico. Da mesma forma, Paulo, que descreve a si mesmo
como o pai dos coríntios “pelo evangelho” (4.15), está vitalmente inte-
ressado no crescimento espiritual deles.
A metáfora é interessante. Paulo usa a mesma linguagem do autor de
Hebreus, que também descreve sua audiência como crianças que conso-
mem leite em vez de alimento sólido (Hb 5.12-14). O autor de Hebreus
explica que a metáfora leite significa as doutrinas rudimentares da fé
cristã. Mas Paulo apresenta a figura de linguagem sem a explicar. Ele
deixa à imaginação do leitor a tarefa de dar sentido à metáfora.
Em termos espirituais, alimento sólido consiste de doutrina cristã
avançada. Paulo diz a seus leitores que eles ainda não estavam prontos
para alimento sólido quando esteve com eles. Mas agora, decorrido
certo tempo, eles deveriam ser capazes de compreender os ensinos avan-
çados da fé cristã. Isso não significa que suas cartas aos coríntios não
contenham doutrina. Pelo contrário, a primeira epístola de Paulo aos
4. J. Stanley Glen, Pastoral Problems in First Corinthians (Londres: Epworth, 1965), p. 53.
5. Herman N. Ridderbos, Paul: An Outline of His Theology, trad. de John Richard de Witt
(Grand Rapids: Eerdmans, 1975), p. 271.
1 CORÍNTIOS 3.2
149
coríntios é repleta de ensinamento referente à moralidade, eclesiologia
e escatologia. A explicação de Paulo nesse versículo indica que o ali-
mento que ele dá aos coríntios “difere quanto à forma, e não quanto ao
conteúdo.”
6
3. Porque vocês ainda são naturais. Porquanto, desde que há
entre vocês ciúmes e contendas, não é assim que são de mente não-
espiritual e que andam nos caminhos do homem?
a. “Porque vocês ainda são naturais.” Sem qualquer tentativa de
abrandar seus sentimentos, Paulo diz aos coríntios que eles são natu-
rais, isto é, não-espirituais em sua conduta. Outras traduções para essa
palavra que aparece em itálico são:
“mundanos” (NIV);
“da carne” (NRSV);
“inclinações naturais” (NJB);
“numa condição natural” (NAB);
“de mentalidade não-espiritual”(Cassirer);
“no plano meramente natural” (NEB);
“controlados por sua natureza humana corrompida” (TNT).
No grego, Paulo usa o adjetivo sarkinos (de carne) no versículo 1 e
o adjetivo sarkikos (carnal) no versículo 3. Embora a diferença no gre-
go seja de apenas uma letra, há distinção de significado. A título de
exemplo, um comentarista compara com a distinção, no inglês, entre
leathern (feito de couro) e leathery (com qualidades próprias do cou-
ro).
7
O termo leathern se aplica a um artigo feito realmente de couro,
mas quando ele tem a aparência ou textura do couro, é descrito como
leathery. Assim, a expressão de carne (sarkinos) indica a essência ou
substância de carne, ao passo que o termo carnal (sarkikos) descreve
sua aparência e características. O primeiro termo descreve uma subs-
tância imutável; o segundo, uma característica que pode ser alterada.
6. C. K. Barrett, A Commentary on the First Epistle to the Corinthians, série Harper’s
New Testament Commentary (Nova York e Evanston: Harper and Row, 1968), p. 81; Mor-
na D. Hooker, “Hard Sayings: I Corinthians 3:2”, Theology (1966): 19-22.
7. G. G. Findlay, St Paul’s First Epistle to the Corinthians, no vol. 3 de The Expositor’s
Greek Testament, org. por W. Robertson Nicoll, 5 vols. (1910; reedição: Grand Rapids,
Eerdmans, 1961), p. 785. Ver também SB, Vol. 3, p. 330.
1 CORÍNTIOS 3.3
150
Como a palavra natural aqui difere de não-espiritual em 2.14? Paulo
está dizendo que os coríntios se igualam às pessoas do mundo a tal
ponto que não resta diferença perceptível entre eles quanto à conduta.
Um descrente é não-espiritual e, como o Espírito não reside nele, care-
ce de discernimento espiritual. Contudo, o crente que está inclinado a
seguir os caminhos do mundo não consegue crescer espiritualmente e,
subseqüentemente, deve ser admoestado a se arrepender.
8
b. “Porquanto, desde que há entre vocês ciúmes e contendas.” Por
essa razão, Paulo os repreende com severidade, porque os coríntios
estavam cheios de ciúme e de contendas (1.11; Rm 13.13; 2Co 12.20;
Gl 5.20). Quando Clemente de Roma escreveu sua epístola aos corínti-
os, no final do século I, inteiramente ciente de seus muitos problemas
congregacionais, usou com freqüência os termos ciúme, inveja e con-
tenda.
9
Escolhendo palavras que descrevem a vida dos coríntios, Cle-
mente aponta os vícios que os contagiavam e oprimiam já por várias
décadas (comparar com Tg 3.14). Os coríntios discutiam entre si, eram
destituídos de amor uns pelos outros e se comportavam como pessoas
não-espirituais.
c. “Não é assim que são de mente não-espiritual e que andam nos
caminhos do homem?” Aqui está uma pergunta retórica que Paulo pro-
põe aos coríntios, dos quais ele espera uma resposta positiva. Eles eram,
de fato, como pessoas não-espirituais que observavam os caminhos da
carne, isto é, do mundo, e não a lei de Deus. Haviam recebido o Espí-
rito de Deus (2.2), mas agiam como se fossem pessoas do mundo. Pa-
recem indicar que a presença do Espírito em sua vida não faz diferen-
ça. Sua conduta diária não os distingue daqueles que não têm o Espíri-
to. E seu andar segundo o homem não condiz com o que deve ser a vida
de alguém que crê (ver Sl 1.3).
4. Pois quando alguém diz: “Eu sou de ”Paulo”, mas outro diz:
“Eu sou de Apolo”, não são vocês meros homens?
Paulo volta ao ponto de partida ao repetir as palavras que tinha
ouvido dos membros da casa de Cloe (1.12). Logo depois da saudação
e das palavras de ação de graças no começo de sua epístola, ele con-
8. Consultar Eduard Schweizer, TDNT, Vol. 9, p. 663.
9. Por exemplo, 1 Clemente 3.2; 4.7; 5.5; 6.4; 9.1.
1 CORÍNTIOS 3.4
151
frontou os coríntios sem rodeios com o problema das divisões na igre-
ja. Agora, ele emprega apenas dois dos slogans que os coríntios profe-
riam: “Eu sou de Paulo” e “Eu sou de Apolo”. Os outros dois, “Eu sou
de Cefas”, e “Eu sou de Cristo”, não são repetidos. Porque esses no-
mes não foram incluídos? Paulo e Apolo haviam sido ministros do evan-
gelho na igreja de Corinto, ao contrário de Cefas. E, com certeza, cada
cristão poderia clamar ser de Cristo (Rm 14.8). Mais para o final do
capítulo, porém, Paulo menciona três nomes: Paulo, Apolo e Cefas.
A pergunta: “Não são vocês meros homens?” é paralela à oração
do versículo anterior (v. 3): “que andam nos caminhos do homem”.
Ambas as orações servem para equiparar os cristãos coríntios às pes-
soas não-espirituais do mundo. Em resumo, Paulo compara os cristãos
em Corinto com seus correspondentes mundanos.
Considerações Doutrinárias em 3.1-4
As Escrituras, de Gênesis 1 até Apocalipse 22, ensinam que há duas
classes de pessoas: crentes e descrentes.
10
Recentemente, muitas pessoas
têm introduzido uma categoria a mais e falam de três divisões: a pessoa
não-regenerada, o cristão espiritual e o cristão carnal. Sabemos que a Bí-
blia é clara no que diz respeito à divisão da humanidade em apenas dois
grupos, mas podemos provar que a Palavra de Deus fala de uma categoria
de crentes “nascidos de novo” que são cristãos carnais? Geralmente, 1
Coríntios 3.1-4 é citado como prova.
Embora Paulo repreenda os coríntios por eles serem apenas crianças
em Cristo e não terem a maturidade que já deveriam ter alcançado, ele não
diz que eles se encontram numa determinada classe da qual devem ser
promovidos para se tornarem cristãos espirituais. Paulo encoraja os corín-
tios a crescerem em graça, conhecimento, fé, amor e santidade.
11
Na ver-
dade, Pedro também enfatiza a necessidade de crescimento espiritual no
cristão (por ex., 1Pe 2.2; 2Pe 3.18).
Nas suas epístolas aos Coríntios, Paulo refere-se aos leitores como
10. Por ex., Gênesis 4.1-15; Salmo 73.15-28; Oséias 2.23; Mateus 25.31-46; Efésios
2.11-13; Apocalipse 22.14-15.
11. J. C. Ryle, Holiness: Its Nature, Hindrances, Difficulties, and Roots (reedição; Lon-
dres: Clarke, 1956), p. XV. Ver também Ernest C. Reisinger, What Should We Think of “the
Carnal Christian”? (Edimburgo: Banner of Truth Trust, 1978), p. 8.
1 CORÍNTIOS 3.1-4
152
cristãos espirituais. Ele os chama de santificados em Cristo Jesus (1.2);
diz a eles que estão em Cristo Jesus, o qual é para eles sabedoria, isto é,
justiça, santidade e redenção (1.3); e também que eles foram lavados, san-
tificados e justificados no nome de Jesus Cristo (6.11). Finalmente, Paulo
chama os coríntios de nova criação em Cristo (2Co 5.17).
12
Os cristãos de Corinto são pessoas espirituais que estão lutando
com um problema de comportamento. Paulo os repreende por suas in-
trigas e conduta, que os colocam no mesmo nível das pessoas munda-
nas. No entanto, depois de sua repreensão, ele os lembra das riquezas
espirituais que possuem em Jesus Cristo (3. 21-23).
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 3.1-3
Versículos 1,2
µeu|µòµ| – o aoristo de eu|a¡at (sou capaz) com a partícula negativa
eus comunica que Paulo deseja dirigir-se aos coríntios como pessoas es-
pirituais, mas é impedido de assim fazer por causa do comportamento
deles.
ca¡st |et, – “de carne”. Adjetivos terminando em -t|e, geralmente ex-
pressam o sentido de feito de. Adjetivos como terminação tse, (como no
versículo 3, ca¡stset [“carnal”]) geralmente significam semelhante a. A
primeira categoria diz respeito à substância material, a segunda à ética. Paulo
escolheu deliberadamente a forma ca¡st|et, no versículo 1 e ca¡stset no
versículo 3.
13
aìì` – no contexto, o advérbio é uma forte adversativa que significa
“sim, sem dúvida”.
Versículo 3
eieu – essa partícula não diz respeito a lugar, mas a extensão ou causa
e é traduzida como “na medida em que” ou “desde que”.
12. Anthony A. Hoekema, Saved by Grace (Grand Rapids: Eerdmans; Exeter: Paternos-
ter, 1989), p. 25. Ver também sua contribuição a Five Views on Sanctification (Grand Rapi-
ds: Zondervan, Academie Books, 1987), p. 189.
13. Friedrich Blass e Albert Debrunner, A Greek Grammar of the New Testament and
Other Early Christian Literature, trad. e rev. de Robert Funk (Chicago: University of Chi-
cago Press, 1961), nº 113.2.
1 CORÍNTIOS 3.1-3
153
b. Servos de Deus
3.5-9
Um pastor não é ministro de uma igreja particular, mas ministro do
evangelho de Cristo. É Cristo que o envia para ministrar como servo
do povo de Deus. Isso é o que tanto Paulo como Apolo estavam fazen-
do na igreja de Corinto. Como servos de Cristo (4.1), esperavam a
bênção de Deus sobre o seu trabalho.
5. O que então é Apolo e o que é Paulo? Eles são servos por
meio dos quais vocês se tornaram crentes, conforme o Senhor deu
uma tarefa a cada um.
a. Pergunta. “O que então é Apolo e o que é Paulo?”
14
O que é
importante para Paulo é o ofício, e não a pessoa – o que conta não é
quem a pessoa é, mas o que ela é. Paulo relaciona os nomes três vezes
(vs. 4, 5, 22), mas sempre numa ordem diferente a fim de chamar a
atenção sobre a obra que Paulo e Apolo estão fazendo e não sobre a
personalidade deles. A conjunção então liga a pergunta ao versículo
anterior (v. 4), onde Paulo censura seus leitores pelo partidarismo que
prevalecia na igreja de Corinto. Eles não devem prestar atenção nas
pessoas, mas sim na obra que essas pessoas estão realizando para Cristo.
Em estilo retórico, Paulo seguidamente faz perguntas que reque-
rem respostas positivas (ver o v. 4). Agora ele mesmo dará uma resposta.
b. Resposta. “Eles são servos por meio de quem vocês se tornaram
crentes.” Observe que Paulo chama a si mesmo e a Apolo de servos
para remover qualquer idéia errônea de que eles fossem apóstolos ri-
vais que estão agindo cada qual segundo seu próprio programa; são
servos de Cristo.
15
W. Harold Mare observa ainda que Paulo intencio-
nalmente não usa a primeira pessoa do plural, “nós somos servos”, mas
diz apenas que eles são servos. “A razão disso é que nenhum obreiro
cristão deve ser idolatrado.”
16
14. Muitas traduções apresentam o pronome interrogativo em ambas as questões: “O que
então é Apolo e o que é Paulo?” (NKV, NKJV, NAB, SEB, GNB, MLB, TNT, Moffat,
Phillips). O Texto Majoritário inverte a ordem dos dois nomes (NKV, NKJV).
15. Ver A. Dittberner, “‘Who is Apollos and who is Paul?’ – 1 Cor. 3:5”, BibToday 71
(1974): 1549-52.
16. W. Harold Mare, 1 Corinthians, no vol. 10 de The Expositor’s Bible Commentary, org.
por Frank E. Gaebelein, 12 vols. (Grand Rapids: Zondervan, 1976), p. 205.
1 CORÍNTIOS 3.5
154
Além disso, o objetivo do servo de Cristo é levar pessoas à fé em
Cristo. Quando ele prega fielmente a Palavra a fim de que pessoas
creiam no evangelho, ninguém deve enaltecer o pregador, que mera-
mente realizou o seu trabalho (Lc 17.10). Apenas Cristo deve receber a
glória e a honra (comparar com Jo 3.30).
Finalmente, Paulo não emprega o termo escravos, mas servos. A
diferença é que o primeiro termo refere-se à completa submissão que
alguém devota a Cristo. O segundo diz respeito ao serviço feito em
favor de Cristo à sua igreja e aos membros desta.
17
Paulo é um servo do
evangelho de Cristo (ver Ef 3.7; Cl 1.23) comissionado pelo próprio
Senhor.
c. Tarefa. “Conforme o Senhor deu uma tarefa a cada um.” O Se-
nhor envia seus servos para realizarem diferentes tarefas: Paulo serviu
como um professor excepcional; e Apolo como um eloqüente prega-
dor. Paulo prontamente admite as diferenças no ministério, mas opõe-
se quando os coríntios mostram preferências que resultam em facções.
Ele quer que os membros da Igreja de Corinto afastem o ciúme e pro-
movam o laço de unidade, amor e comunhão.
6. Eu plantei, Apolo regou, mas o crescimento veio de Deus.
Essa é uma ilustração tomada diretamente de um cenário agrícola,
em que o agricultor semeia ou planta mudas. Para que as sementes
germinem ou as mudas peguem, o colaborador do agricultor rega o
solo com a quantidade necessária de água. Espera-se do agricultor que
faça todo o trabalho de cultivo em preparação para o crescimento. Isso
inclui lavrar, fertilizar, semear ou plantar, regar, capinar, cuidar e pul-
verizar. Mas aqui a atividade do ser humano precisa parar, pois ele não
pode fazer as plantas crescerem. O ser humano prontamente admite
que é incapaz de controlar as condições climáticas. Não pode fazer o
sol brilhar, o vento soprar, ou a chuva cair. Conseqüentemente, é inca-
paz de fazer as plantas crescerem e depende inteiramente de Deus para
o produto da colheita. Em vista disso, Paulo acrescenta a adversativa
mas e diz que somente Deus dá o crescimento.
Semelhantemente, Paulo pregou o evangelho em Corinto. Semeou
onde ninguém tinha proclamado a Cristo. Quando partiu para Éfeso,
17. Klaus Hess, NIDNTT, Vol. 3, p. 548.
1 CORÍNTIOS 3.6
155
um ano e meio depois, deixou em Corinto uma igreja ainda inexperien-
te. Quando Apolo esteve com os coríntios, ele regou. Ajudou-os, mos-
trando pelas Escrituras que Jesus era o Cristo (At 18.28). Mas todo o
trabalho, tanto de Paulo como de Apolo, teria sido em vão se Deus não
tivesse continuamente feito a igreja crescer tanto espiritual como nu-
mericamente. Os verbos gregos no texto indicam que o trabalho de
Paulo e de Apolo era temporário, mas o de Deus, permanente. Paulo e
Apolo um dia partiram de Corinto, mas Deus continuou fazendo a igreja
crescer.
7. De modo que nem o que planta nem o que rega é alguma
coisa, mas somente Deus dá o crescimento.
O versículo 7 conclui o versículo anterior (v. 6): não o homem, mas
Deus recebe a honra e a glória pelo trabalho realizado na Igreja. Paulo
se utiliza ainda da ilustração emprestada da agricultura referindo-se a
“o que planta” e “o que rega”. Esses dois, contudo, não recebem crédi-
to, muito embora seu trabalho seja vital. Deus recebe todo o louvor. No
grego, a colocação da palavra Theos (Deus) no final da frase é enfática.
Observe que, nessa conclusão, Paulo não menciona nenhum nome.
Ele não está interessado em nomes, mas em resultados. A obra da pre-
gação e do ensino do evangelho que se realiza em toda parte só é bem-
sucedida se Deus concede sua bênção. Os coríntios precisam ver a mão
de Deus no trabalho realizado pelos ministros da Palavra. Os ministros
não são nada em comparação com Deus. Caso Deus quisesse estabele-
cer uma igreja sem a ajuda de pregadores, ele poderia fazê-lo. Mas ele
emprega ministros para efetuar o crescimento da igreja (ver Rm 10.14).
Paulo não está desmerecendo o trabalho para o qual os pregadores são
chamados. De forma alguma! Contudo, ele intencionalmente omite
nomes de pessoas para mostrar aos leitores que Deus, e não o pregador,
é importante.
8. Ora, o que planta e o que rega são um, mas cada um recebe-
rá a sua recompensa, segundo o seu próprio trabalho.
a. Unidade. “O que planta e o que rega são um.” Pensemos em dois
agricultores ocupados numa lavoura. Um está plantando mudas e o
outro segue regando as mudas recém-plantadas. Ambos têm um objeti-
vo comum: ver as plantas crescerem e, depois, amadurecerem para a
1 CORÍNTIOS 3.7, 8
156
colheita. Nenhum dos dois trabalhadores, nem as pessoas que obser-
vam o seu trabalho, pensam em rivalidade e disputa mas, muito pelo
contrário, em unidade e cooperação.
Paulo e Apolo jamais pensaram em rivalidade, mas, na qualidade
de servos de Cristo, serviram à igreja de Corinto para a glória de Deus.
Por essa razão, Paulo pode dizer que ambos eram um só. O numeral um
aparece no gênero neutro em grego, para indicar que ambas as pessoas
pertencem à mesma categoria de obreiros da lavoura de Deus.
b. Individualidade. Na segunda metade desse versículo, Paulo ob-
serva que a individualidade é um fator que Deus também leva em con-
ta: “E cada um receberá a sua recompensa, segundo o seu próprio tra-
balho.” Nos versículo subseqüentes, Paulo não restringe a aplicação
das palavras cada um, de forma que é possível dizer que ela se refere a
cada obreiro no reino de Deus. Essa parte do versículo diz que aquele
ou aquela que trabalha não se afadiga para sua própria glória, mas para
a glória de Deus.
Tomando uma parábola como ilustração, os que receberam cinco e
dois talentos esforçaram-se e, por seu suor e inteligência, dobraram as
quantias que seu senhor havia confiado ao seu cuidado. Quando o se-
nhor retornou, aquele que havia recebido cinco talentos apresentou
dez talentos ao seu senhor, e o que havia recebido dois talentos conse-
guiu quatro para o seu senhor. Cada um recebeu louvor e recomenda-
ção individual pelo trabalho que havia feito (Mt 25.14-23). Por terem
passado tudo para as mãos de seu senhor, os dois servos demonstraram
decidida devoção a ele. Trabalharam para ele e não para si mesmos.
Recompensas, portanto, são o resultado da fidelidade. Não são a razão
nem o objetivo dos esforços dos servos.
9. Porque de Deus somos cooperadores; vocês são lavoura de
Deus e edifício de Deus.
a. “Porque de Deus somos cooperadores.” O termo cooperadores
denota a relação entre Paulo e Apolo ou a relação entre esses dois obrei-
ros e Deus? A primeira interpretação resultaria na tradução “coopera-
dores para Deus” e a segunda em “cooperadores com Deus”.
A favor da primeira interpretação está a conjunção porque, que
liga o versículo anterior (v. 8) à primeira parte desse versículo. Paulo
1 CORÍNTIOS 3.9
157
está dizendo que Apolo e ele próprio não estão trabalhando para si
mesmos, mas para Deus.
18
São trabalhadores a serviço de Deus, e “são
servos assalariados de Deus, em vez de [serem] seus colegas”.
19
De
outro prisma, a expressão “cooperadores” está ligada, em outras passa-
gens, a substantivos que transmitem a idéia objetiva. Por exemplo, Paulo
escreve que “somos cooperadores para sua alegria” (2Co 1.24) e “Tito
é meu companheiro e cooperador de vocês” (2Co 8.23; ver também
1Ts 3.2).
A segunda interpretação é: “Nós também trabalhamos junto com
Deus”.
20
Essa tradução é aceitável apenas na medida em que se exclui
a idéia de cooperação em equiparação com Deus. Deus e homem ja-
mais são iguais na proclamação do evangelho, pois o homem é apenas
um instrumento na mão de Deus e não trabalha ao lado, mas para Deus
(At 9.15).
Muitos tradutores apresentam o caso genitivo na forma possessiva
(somos cooperadores de Deus) e deixam sem resposta a questão da
interpretação. Gordon D. Fee observa que a posição enfática da forma
de Deus, que ocorre três vezes nesse versículo, sugere a idéia possessi-
va. Ele conclui que “o argumento do parágrafo inteiro enfatiza a unida-
de deles em cooperação sob Deus”.
21
Não obstante, a repetição por três
vezes da palavra Deus no versículo 9 não tira a possibilidade de que o
primeiro uso seja objetivo (“para Deus”). Essa possibilidade apóia-se
em dois fatores: a mudança da primeira pessoa plural nós para a segun-
da pessoa plural vocês a torna provável; os versículos anteriores (vs. 7
e 8) a tornam plausível, pois Deus é o agente.
b. “Vocês são lavoura de Deus, edifício de Deus.” Paulo passa dos
ministros para as pessoas, de nós para vocês. No grego, ele coloca o
pronome vocês no final da sentença para ênfase. Além disso, ele conti-
18. Comparar essas duas versões com variantes: “porque somos companheiros trabalhan-
do juntos para Deus” (GNB, RSV, Moffat).
19. Barrett, First Corinthians, p. 86; Victor Paulo Furnish, “Fellow Workers in God’s
Service”, JBL 80 (1961): 364-70; Hans Conzelmann, 1 Corinthians: A Commentary on the
First Epistle to the Corinthians, org. por George W. MacRae, trad. por James W. Leitch,
Hermeneia: A Critical and Historical Commentary on the Bible (Filadélfia: Fortress, 1975),
p. 74, n. 53; Bauer, p. 788.
20. SEB, JB, KJV, Cassirer, Philips.
21. Fee, First Corinthians, p. 134.
1 CORÍNTIOS 3.9
158
nua a usar a comparação com a lavoura.
22
Essa lavoura deve ser consi-
derada ativa, no sentido de que dá fruto? Ou é para ser considerada
passiva, como, por exemplo, quando é cultivada? A segunda interpre-
tação parece encaixar-se melhor ao contexto do que a primeira. Ou
seja, pela pregação do evangelho, Paulo e Apolo cultivaram os corínti-
os, a quem Paulo chama de lavoura de Deus. Os coríntios devem com-
preender que ministros trabalham na igreja não para si mesmos, mas
para o Senhor. “Disso segue que os coríntios estavam errados em sub-
meterem-se a homens quando, por direito, pertencem somente a Deus.”
23
Do imaginário agrícola, Paulo passa para uma metáfora referente à
arquitetura. “[Vocês são] edifício de Deus.” Assim como uma lavoura
vai sendo cultivada, também um edifício, para ser erguido, passa por
um processo. Os construtores fazem seu trabalho para o Senhor (ver Ef
2.19-22; 1Pe 2.5).
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 3.5-9
Versículo 5
:t...:t – O Texto Majoritário opta pelo masculino :t, (quem?) nas
duas ocorrências em vez do neutro :t (o quê?). Apesar do testemunho
manuscrito antigo em favor do masculino, o contexto demanda o prono-
me interrogativo neutro. “Além disso, a suposição do neutro :t no versí-
culo 7 é decisiva para :t no versículo 5 (uma vez que a resposta é “Nada”,
a pergunta dificilmente pode ser “Quem”).
24
`Aieììæ,...lauìe, – O Textus Receptus (KJV, NKJV) inverteu a or-
dem desses dois nomes, provavelmente para repetir a seqüência do versí-
culo anterior (vers. 4). As melhores testemunhas, contudo, dão apoio à
seqüência seguida aqui.
sat – a conjunção deve ser entendida como uma explicação, no senti-
do de “que é para dizer”.
25
22. Os editores de EDNT, Vol. 1, p. 246, sugerem que Paulo estava pensando numa vinha.
23. João Calvino, The First Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians, série Calvin’s
Commentary, trad, de John W. Fraser (reedição; Grand Rapids: Eerdmans, 1976), p. 72.
24. Bruce M. Metzger, A Textual Commentary on the Greek New Testament, 3ª ed. corri-
gida (Londres e Nova Iorque: United Bible Societies, 1975), p. 548.
25. Blass e Debrunner, Greek Grammar, nº 442.9.
1 CORÍNTIOS 3.5-9
159
Versículos 6,7
µu,a|-| — o tempo imperfeito do verbo au,a|æ (faço crescer) difere
no tempo dos outros três verbos (plantar e regar) no versículo 6. Esses
dois verbos estão no aoristo. O trabalho humano (plantar e regar) é um
acontecimento único, mas a obra de Deus (que ocasiona o crescimento)
continua ininterrupta.
aa·. – essa partícula conclusiva significa “e assim, conseqüente-
mente” (ver o v. 21).
26
Versículos 8,9
tetc|...tec| – o adjetivo descreve a particularidade ou individuali-
dade da pessoa.
ò.cu....a¡.| au|.µ,ct – o caso genitivo nesta oração em particular
é objetiva (“para Deus” ou “em favor de Deus”).
27
,-æ¡,te| – este substantivo indica um campo que está sendo lavrado
ou cultivado.
c. Construtores para Deus
3.10-15
Em suas epístolas, Paulo recorre diversas vezes à comparação com
o trabalho de edificação. Ele apresenta os cristãos como edifício de
Deus (vs. 9, 16) e observa que Cristo é o único fundamento deles (vs.
10-14; Ef 2.20). Ele descreve a vida espiritual dos crentes como uma
construção em andamento (Ef 4.29; 1Ts 5.11) e revela que os cristãos
estão sendo juntamente edificados em Cristo (Ef 2.22; Cl 2.7).
10. Segundo a graça de Deus que me foi dada, lancei o funda-
mento como prudente mestre construtor; e outro edifica sobre ele.
Porém cada um cuide como edifica [sobre ele].
a. “Segundo a graça de Deus que me foi dada.” Paulo, antes de
desenvolver seu tema da edificação, reconhece a graça recebida de
Deus. Não reivindica pertencer ao grupo exclusivo dos doze apóstolos,
26. C. F. D. Moule, An Idiom-Book of the New Testament Greek, 2ª ed. (Cambridge:
Cambridge University Press, 1960), p. 144.
27. R. St. John Parry, The First Epistle of Paulo the Apostle to the Corinthians, Cambrid-
ge Greek Testament for Schools and Colleges (Cambridge: Cambridge University Press,
1937), p. 64.
1 CORÍNTIOS 3.10
160
não tendo compartilhado do ensino diário que Jesus lhes deu. Paulo foi
chamado somente mais tarde, depois da ascensão de Jesus e do derra-
mamento do Espírito Santo. Sabia que fôra a última pessoa a quem
Jesus apareceu, “como por um nascido fora de tempo” (15.8). No en-
tanto, fora chamado para ser um apóstolo. E esse chamado Paulo con-
siderava um ato divino de graça pelo qual ele sempre deu graças em
suas epístolas (ver, por ex., 15.10; Rm 15.15; Gl 2.9; Ef 3.2, 7,8).
Com toda a humildade, Paulo atribui sua posição de apóstolo à
graça que Deus lhe concedeu. Em vista disso, pouco antes de afirmar
que ele é o mestre construtor da igreja de Corinto, ele elimina qualquer
idéia de arrogância de sua parte ao chamar a si próprio de sábio.
28
Ele
menciona que é um construtor pela graça de Deus.
b. “Lancei o fundamento como prudente mestre construtor; e outro
edifica sobre ele.” Paulo faz uso de termos familiares aos coríntios que
tinham conhecimento de construção, especialmente de construção de
templos. Ele dá a si mesmo o título de mestre construtor, o qual perten-
ce ao empreiteiro que supervisionava o trabalho de muitos subcontra-
tados. O construtor era responsável pela supervisão diária de cada um
dos construtores individuais. De forma semelhante, Paulo tinha a tare-
fa de supervisionar o trabalho realizado por seus cooperadores na edi-
ficação de um templo espiritual em Corinto.
29
Paulo se descreve como construtor prudente, capacitado. Antes da
chegada de seus cooperadores, Silas e Timóteo (ver At 18.4,5), Paulo
tinha elaborado um plano de construção para lançar os alicerces da
estrutura. Paulo, portanto, não é somente o arquiteto, mas também o
empreiteiro que, com seus subcontratados, constrói o edifício. Além
disso, Paulo não está falando de cristãos individuais que compõem a
igreja, mas da própria igreja espiritual.
A oração subordinada e outro edifica sobre ele não deve ser enten-
dida negativamente, como se Apolo tivesse recebido louvor e aceita-
ção indevida em Corinto. Absolutamente! Paulo lançou o fundamento,
mas o edifício foi construído por outros, Apolo inclusive. De fato, o
28. John Albert Bengel, Bengel’s New Testament Commentary, trad. de Charlton T. Lewis
e Marvin R. Vincent, 2 vols. (Grand Rapids: Kregel, 1981), vol. 2, p. 179.
29. Jay Shanor, “Paul as Master Builder: Construction Terms in First Corinthians”, NTS
34 (1988): 461-470.
1 CORÍNTIOS 3.10
161
termo mestre construtor elimina qualquer crítica negativa quanto ao
estabelecimento da igreja de Corinto, pois Paulo está no comando. Paulo
e seus colaboradores servem a um mesmo propósito, a saber, à edifica-
ção espiritual da igreja. Quando Paulo escreve o verbo edificar, ele
revela o trabalho permanente de edificação do corpo de Cristo. “A co-
munidade cristã é juntamente edificada pela cooperação de todos os
participantes (1Co 3.10-15), em unidade com apóstolos e profetas (Ef
2.20), para tornar-se a única santa comunidade do Senhor.”
30
c. “Porém cada um cuide como edifica.” Em Romanos 15.20, Pau-
lo diz que sua meta era “pregar o evangelho, não onde Cristo já fora
anunciado, para não edificar sobre fundamento alheio”. Em sua epísto-
la aos Romanos, Paulo menciona sua conduta (de não edificar sobre
fundamento alheio), mas, na primeira carta aos Coríntios, ele é o cons-
trutor que emprega muitas pessoas a fim de erigir um edifício sobre o
alicerce que ele mesmo lançou.
Na última parte desse versículo, Paulo exorta os construtores a re-
alizarem um trabalho de qualidade. Ele quer a melhor atuação de cada
trabalhador. Assim como ele próprio deu o exemplo, assim ele espera
que todos os que constroem sobre seu fundamento adotem sua ética de
trabalho. A tarefa deles é edificar os membros individuais da igreja
mediante o ensino e a pregação fiel do evangelho de Cristo.
11. Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do
que foi posto, o qual é Jesus Cristo.
a. Fundamento apropriado. Para dar ênfase, a palavra fundamento
abre esse versículo no grego. Cada casa e cada edifício requer um ali-
cerce sólido. Caso fendas e rachaduras significativas apareçam em pa-
redes construídas sobre uma fundação sólida, jamais poderão ser atri-
buídas a um alicerce (uma infra-estrutura) deficiente. A responsabili-
dade deve, nesse caso, ser atribuída ao trabalho negligente dos que
cuidaram da superestrutura.
Qual foi o fundamento que Paulo, pela graça de Deus, lançou em
Corinto? Foi o evangelho de Cristo. Com o auxílio divino, Paulo reali-
zou o trabalho de um pioneiro quando levou o evangelho a uma cidade
pagã conhecida por sua imoralidade. Os coríntios ouviram as boas-
30. Jürgen Goetzmann, NIDNTT, Vol. 2, p. 253.
1 CORÍNTIOS 3.11
162
novas da salvação por Jesus Cristo: a encarnação do Filho de Deus; o
sofrimento, a morte, a ressurreição e a ascensão de Jesus; e a realidade
do perdão e da restauração para cada um que aceite Cristo com verda-
deira fé. A pessoa e a obra de Jesus Cristo, reveladas nas Escrituras, é
o verdadeiro fundamento sobre o qual a Igreja é constituída. Paulo
espera que os ministros do evangelho de Cristo construam a Igreja e
que o façam, pois, em harmonia com evangelho.
b. Base falsa. Paulo adverte os coríntios de que “ninguém pode
lançar outro fundamento, além do que foi posto”. Com sua advertên-
cia, “cada um cuide como edifica [sobre ele]” (v. 10b), ele alerta os
construtores de que seu trabalho será julgado.
31
Nenhum trabalhador a
serviço do Senhor pode ensinar e pregar impunemente um evangelho
que é contrário ao evangelho de Cristo. Ninguém pode propor outro
fundamento em lugar daquele que Deus mesmo estabeleceu, pois fra-
cassará completamente. Nenhum teólogo pode mudar o evangelho sem
incorrer na ira de Deus (comparar com o v. 17). Os apóstolos recebe-
ram este evangelho de Jesus, proclamaram-no tanto a judeus como a
gentios, e então o entregaram à posteridade como um depósito sagra-
do. Definitivamente, a Igreja repousa sobre nenhuma outra base senão
a revelação de Cristo.
Paulo indubitavelmente estava se opondo a algumas pessoas que
estavam ativamente tentando mudar o fundamento sobre o qual a con-
gregação em Corinto estava edificada.
12. Contudo, se alguém edifica sobre o fundamento com ouro,
prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, 13. a obra de cada
um se tornará manifesta; pois o dia a demonstrará, porque estará
sendo revelada pelo fogo. E o fogo provará que tipo de obra cada
um realizou.
a. “Contudo, se alguém edifica sobre o fundamento.” Paulo não
está falando da infra-estrutura, mas da superestrutura, do edifício que
está sendo erguido pelos obreiros na Igreja de Deus. A expressão Con-
tudo, se alguém é suficientemente abrangente para incluir cada pessoa
que trabalha ativamente na obra do Senhor. Em outras palavras, o ter-
31. Craig A. Evans, “How Are the Apostles Judged? A Note on 1 Corinthians 3.10-15”,
JETS 27 (1984): 149-150.
1 CORÍNTIOS 3.12, 13
163
mo alguém não se refere apenas a pregadores e mestres do evangelho.
Todo crente deve construir um edifício sobre o fundamento da Palavra
de Deus.
b. “Com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha.” A
figura de linguagem que Paulo emprega também não deve ser interpre-
tada literalmente, nem compreendida alegoricamente, nem aplicada
erroneamente. Com a metáfora, ele quer dizer que a superestrutura pre-
cisa corresponder à infra-estrutura. Os materiais usados para construir
o edifício precisam estar em conformidade com a preciosidade e dura-
bilidade da fundação.
Se a fundação que Deus estabeleceu é sua revelação em Jesus Cris-
to, então o edifício deve refletir essa revelação em cada fase de sua
construção. Paulo menciona seis materiais, os quais apresenta em or-
dem decrescente de importância. Dos seis, o ouro é o mais precioso e a
palha o menos precioso de todos. Os templos no mundo antigo eram
construídos com mármore e adornados com ouro e prata. As casas co-
muns eram construídas com madeira e tijolos feitos da mistura de bar-
ro e palha. É óbvio que ninguém constrói toda uma casa de ouro, prata,
pedras preciosas, madeira, barro ou palha. Cada um desses materiais
por si só não se presta para a construção de toda uma casa.
Entretanto, Paulo usa a comparação para mostrar o que as pessoas
fazem com a revelação de Deus em Jesus Cristo. Alguns vivem segun-
do esta Palavra, aplicam-na à vida diária e progridem espiritualmente
conforme buscam edificar a si mesmos e aos demais crentes. Essas
pessoas estão vitalmente interessadas em doutrina pura e na “pura pre-
gação da Palavra [de Deus]”.
32
Constroem suas casa espirituais com os
metais e pedras preciosas da Palavra viva. Outros levam uma vida su-
perficial com uma aparência de Cristianismo; parecem estar satisfeitos
em viver em casas comuns feitas de madeira, barro e palha.
33
c. “A obra de cada um se tornará manifesta.” Temos aqui a oração
32. Calvino, 1 Corinthians, p. 75
33. J. M. Ford refere-se à Festa dos Tabernáculos, quando as pessoas construíam moradi-
as temporárias feitas de madeira ou palha. Embora o aspecto temporário das moradias seja
digno de nota, a explicação de que as pessoas decoravam essas habitações com ouro, prata
e pedras preciosas não é, realmente, convincente. “You Are God’s ‘Sukkah’ (1 Cor. iii. 10-
17)”, NTS 21 (1974): 139-142.
1 CORÍNTIOS 3.12, 13
164
principal que conclui o argumento que Paulo iniciou na oração subor-
dinada condicional no versículo 12. Ele interrompe a metáfora da cons-
trução para chamar a atenção para a obra de cada crente em particular,
e não mais para a obra coletiva da Igreja. Cada pessoa prestará contas
do que tiver feito com a revelação de Deus em seu Filho. Assim como
na parábola dos talentos ou das minas, cada servo teve de comparecer
perante o senhor (Mt 25.14-30; Lc 19.11-27), também cada um indivi-
dualmente comparecerá perante o Senhor por ocasião do juízo (Ap
20.11-15).
Com o tempo futuro, Paulo admoesta os coríntios acerca de um dia
em que será manifesta a obra de cada um. Os livros serão abertos e
cada um será julgado de acordo com as obras que foram registradas
(Ap 20.12). O homem pode, no presente, ocultar sua obra, mas, con-
forme Paulo expressa, o dia de sua manifestação virá em breve. Essa
manifestação revelará tudo o que alguém tiver feito ou deixado de fa-
zer para Cristo.
d. “Pois o dia a demonstrará.” A referência é ao dia do juízo, ao
qual Paulo se refere repetidas vezes.
34
O objeto direto do verbo de-
monstrará é o substantivo obra na sentença anterior. O dia do juízo
final
35
revelará as obras de cada um.
e. “Porque estará sendo revelada pelo fogo.” O fraseado dessa ora-
ção específica acarreta problemas exegéticos, pois a locução verbal
estará sendo revelada não tem um sujeito. O sujeito pode ser tanto o
dia do julgamento como a obra das pessoas (RA e RC fazem a forma
verbal concordar com “obra”, revelada). No caso de os tradutores es-
colherem a primeira alternativa, o texto lê: “Aquele dia se revelará
com fogo” (NAB). Se escolhem o segundo termo, temos a seguinte
leitura: “Pois naquele dia o fogo revelará a obra de cada um” (GNB).
Ambas as traduções são interessantes, mas os especialistas favore-
cem a primeira escolha em vista da evidência em textos paralelos. Por
exemplo, Paulo, ao escrever sobre a segunda vinda de Cristo, afirma
que “isso acontecerá quando o Senhor Jesus se revelar do céu em cha-
34. Ver Romanos 13.12; 1 Coríntios 1.8; 4.5; 2 Coríntios 5.10; 1 Tessalonicenses 5.4; 2
Tessalonicenses 1.7-10; 2 Timóteo 1.12, 18; 4.8.
35. Alguns tradutores vertem a palavra como “o dia do juízo” (NEB; SEB), “o Dia do
Senhor” (Cassirer) ou “o Dia de Cristo” (GNB).
1 CORÍNTIOS 3.12, 13
165
ma de fogo” (2Ts 1.7; ver também Ml 4.1). Além disso, se a segunda
alternativa for adotada, a oração seguinte fica praticamente idêntica.
Finalmente, se o termo obra é o sujeito, parece incongruente dizer “o
fogo revelará a obra de cada um” e depois dizer que “a obra de cada um
será queimada” (v. 15). Revelar a obra de alguém não é exatamente a
mesma coisa que destruí-la pelo fogo. A melhor opção é considerar a
expressão dia como sujeito e interpretar o verbo ser revelada(o) como
reflexivo: “o dia se revelará com fogo.”
f. “E o fogo provará que tipo de obra cada um realizou.” Paulo não
equipara necessariamente obra e edifício. De uma perspectiva espiri-
tual, o teste pelo fogo não determina o destino eterno dos coríntios
(comparar com v. 15); em vez disso, determina “se receberão ou não
recompensas dentro do contexto da salvação”.
36
Quais são os fatores determinantes desse processo de prova? Os
fatores são fé em Jesus Cristo (ver o v. 5) e a presença do Espírito
Santo no coração dos crentes (vs. 16; 6.19).
37
Recompensas são basea-
das na obediência ativa a Cristo e percebidas em um espírito de gratidão.
14. Se a obra que alguém edificou permanecer, ele receberá
uma recompensa. 15. Se a obra de alguém se queimar, ele sofrerá
perda; mas esse mesmo será salvo, todavia, como que por meio do
fogo.
a. Primeira condição. Paulo conclui essa parte do discurso com
duas sentenças condicionais. A primeira diz: “Se a obra que alguém
edificou permanecer”. Essa parte da frase introduz o conceito de per-
manência. Ouvindo atentamente a argumentação de Paulo sobre a cons-
trução de um edifício, percebemos que Paulo identifica o fundamento
do edifício com Jesus Cristo (vs. 10,11). Ele admoesta os coríntios a
serem cuidadosos quanto ao modo como edificam sobre esse funda-
mento. Se o fundamento é de valor incalculável, ele argumenta, o edi-
fício também será inestimável. Os materiais duráveis aplicados na cons-
trução (ouro, prata e pedras preciosas) são um complemento apropria-
do à fundação preciosa em Jesus Cristo. O obreiro fiel na igreja estabe-
36. Charles W. Fishburne, “1 Corinthians III. 10-15 and the Testament of Abraham”, NTS
(1970-71): 114.
37. Hermann Haarbeck, NIDNTT, Vol. 3, p. 809.
1 CORÍNTIOS 3.14, 15
166
lece objetivos de longo alcance, usa materiais dispendiosos e se orgu-
lha da qualidade de seu trabalho. A antiga anedota do pedreiro é perti-
nente. Um transeunte viu dois pedreiros assentando tijolos. Perguntou
a um o que estava fazendo e recebeu a áspera resposta: “Você não
enxerga? Estou assentando tijolos!” O outro, quando perguntado sobre
o que fazia, ergueu os olhos e respondeu com orgulho em sua voz:
“Estou construindo uma catedral, senhor!”.
A conclusão da primeira sentença condicional é que um obreiro
aplicado “receberá uma recompensa”. Paulo repete aqui o que havia
escrito no versículo 8: “cada um receberá sua própria recompensa”.
Como Paulo usa o termo recompensa nessa epístola? Paulo diz que ele
prega o evangelho, mas não aceita remuneração por seu trabalho, não
obstante afirmar que “ordenou o Senhor aos que pregam o evangelho
que vivam do evangelho” (9.14). Paulo não aceita depender de nin-
guém; argumenta que uma recompensa deve ser recebida por alguma
coisa que é feita voluntariamente.
38
Recompensas são dadas apenas
para o trabalho que não estamos obrigados a fazer, caso contrário seri-
am obtidas como pagamentos por boas obras. Paulo não está dizendo
que os coríntios devem obter crédito por obra realizada para o Senhor.
Pelo contrário, ele mesmo exclama com alegria que o trabalho que
realiza é feito segundo a graça que Deus lhe deu (v. 10) O cristão não
deve viver em busca de recompensa, mas em busca de graça e miseri-
córdia (comparar com Lucas 17.10). Então o Senhor premiará a labuta
do crente com as bênçãos necessárias e ainda louvará o obreiro fiel
(4.5). Dessa forma o cristão fiel receberá sua recompensa.
b. Segunda condição. “Se a obra de alguém se queimar, ele sofrerá
perda.” Esse é o outro lado da moeda do provérbio. Um incêndio destrói
todos os materiais combustíveis, tais como madeira ou palha. Quando o
fogo termina, verifica-se a perda de bens. É fácil restringir o versículo (v.
15) àqueles pregadores do evangelho que são negligentes em seus afaze-
res e que vêem sua obra desaparecer, mas o texto se aplica a cada um que
crê e, dessa forma, serve como uma advertência a jamais se tornar negli-
gente mas trabalhar diligentemente pela causa do Senhor.
39
38. Paul Christoph Böttger, NIDNTT, Vol. 3, p. 142; Herber Preisker, TDNT, Vol. 4, p.
722; C. Crowther, “Works, Work and Good Works”, ExpT 81 (1970): 166-71.
39. James E. Rosscup conclui que Paulo combina os símbolos que tanto agradam a Cristo
1 CORÍNTIOS 3.14, 15
167
“Mas esse mesmo será salvo, todavia, como que pelo fogo.” Ape-
sar do dano que o crente negligente sofre, Deus lhe concede graciosa-
mente o dom da salvação. John Albert Bengel descreve de forma cla-
ríssima o conceito salvação por meio da comparação do pecador que é
salvo pelo fogo como “um negociante náufrago [que], mediante a per-
da das mercadorias e do lucro, é salvo pela ondas”.
40
Isso não equivale
a dizer que qualquer um que realize a obra que Cristo lhe confiou será
salvo (Mt 7.21-23). A salvação é o ato gracioso de Deus mediante a
obra expiatória de Cristo na cruz. Ninguém entra nos céus fiado em
boas obras, pois o Senhor diz que o sumo sacerdote Josué, o qual é
acusado por Satanás, é “um tição tirado do fogo” (Zc 3.2; Jd 23).
Considerações Práticas em 3.10-12
Quando uma pessoa que pratica medicina ou direito abre um consul-
tório ou escritório em determinado lugar, na maioria das vezes permanece
nesse lugar até a aposentadoria. O médico ou advogado atende à comuni-
dade e geralmente não sente necessidade de mudar-se para outra região.
Em média, um pastor se muda a cada quatro ou cinco anos. Quando
chega a se aposentar, via de regra serviu em uma meia dúzia de cidades.
Durante seus primeiros anos de ministério, muda-se geralmente uma vez
a cada quatro anos, e, em seu último ministério, permanece uma década
ou mais numa mesma congregação. Poucos são os pastores que ocupam o
mesmo púlpito por 25, trinta ou, mesmo, quarenta anos. Quando um mi-
nistro permanece numa igreja por mais de duas décadas, as pessoas come-
çam a identificar a congregação pelo seu nome. Então o pastor tende a se
tornar a única liderança forte em sua congregação, o que pode levar à
divisão quando o pastor se aposenta ou falece.
Algumas igrejas prosperaram durante pastorados longos enquanto
outras desfrutaram de uma série de dons e talentos de pastores que servi-
ram por períodos mais breves. Nenhuma igreja, contudo, deve ser edifica-
da sobre o nome e os talentos de um determinado pastor, mas sobre o
fundamento firme, Jesus Cristo. Quando isso acontece, a igreja permane-
ce forte e continua a crescer. Enquanto pastores vêm e vão, a igreja edifi-
cada sobre Jesus Cristo permanece até o fim dos tempos.
como recompensam o cristão: doutrina, atividade, motivos e carácter puros. “A New Look
at 1 Corinthians 3.12 — ‘Gold, Silver, Precious Stones’”, MSJ 1 (1990): 33-51.
40. Bengel, New Testament Commentary, Vol. 2, p. 181.
1 CORÍNTIOS 3.10-12
168
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 3.10-15
Versículos 10,11
:eu ò-eu – alguns manuscritos não têm as palavras de Deus, omitidas
provavelmente porque já constam no versículo anterior (v. 9). Sua ausên-
cia pode ser explicada mais facilmente que sua presença. Aplicando-se a
regra de que a leitura mais difícil é a mais original, aceitamos as palavras
como genuínas.
ia¡a – essa preposição pode significar “ao contrário de”, “outra que”
ou “além de” (comparar com Lucas 13.2, 4; Rm 14.5).
41
Versículos 12,13
-t – a partícula introduz uma condicional cuja primeira parte está no
versículo 12 e a parte final na primeira sentença do versículo 13. Paulo
está observando condições na igreja de Corinto e está afirmando um fato,
não uma probabilidade.
-sac:eu – Paulo enfatiza a responsabilidade individual pelo uso da
expressão cada um quatro vezes em seis versículos (vs. 8, 10, 13 [duas
vezes]).
aiesaìui:-:at – o tempo presente do verbo aiesaìui:æ (revelo) pode
ser passivo (“é revelado”) ou médio (“revela-se”). Aqui, o médio é uma
tradução apropriada com o substantivo dia como seu sujeito.
Versículos 14,15
-t :t|e, :e -¡,e| – essas duas frases nos versículos 14 e 15 são
idênticas, mas os verbos permanecer e queimar são opostos. As orações
subordinadas condicionais expressam a realidade junto com suas conclu-
sões denotando recompensa ou perda.
,µ¡tæòµc-:at – a forma no futuro da voz passiva do verbo ,µ¡teæ
(sofro perda, penalidade) refere-se a alguém que sofre perda ou é punido
com uma multa. O conceito perda é a melhor das duas interpretações.
eta iu¡e, – a preposição com o genitivo transmite a idéia de “passar
entre, através de”.
42
41. Moule, Idiom-Book, p. 51.
42. A. T. Robertson, A Grammar of Greek New Testament in the Light of Historical Rese-
arch (Nashville: Broadman, 1934), p. 582.
1 CORÍNTIOS 3.10-15
169
d. Templo de Deus
3.16,17
Paulo dá prosseguimento à figura dos edifícios, mas agora revela
que não está falando de um edifício comum, que serve aos trabalhado-
res que o constroem. Paulo chama a atenção para o templo de Deus
(comparar com o v. 9), que é santo. Se alguém tenciona destruir esse
templo, depara-se com Deus como seu inimigo e encontrará completa
destruição.
16. Vocês não sabem que são o templo de Deus e que o Espírito
de Deus habita em vocês?
a. “Vocês não sabem?”. A pergunta feita por Paulo é uma censura
aos coríntios. Ele os repreende por não conhecerem seu próprio status
e lugar em relação a Deus. Deviam ter compreendido que, quando se
tornaram cristãos, o Espírito Santo veio habitar dentro deles e ficar
com eles. Noutro lugar em seus escritos, Paulo afirma de forma explí-
cita: “Nós somos o santuário do Deus vivo” (2Co 6.16), e “Todo o
edifício... cresce para templo dedicado ao Senhor” (Ef 2.21). Aqui, ele
repreende os coríntios por causa de sua negligência e preguiça em usar
o conhecimento que possuem (1.5; 8.1).
O verbo saber no grego significa o conhecimento inerente que os
crentes devem ter. Eles sabem que são o templo de Deus. No entanto,
Paulo não revela como vieram a ter esse conhecimento. Simplesmente
pressupõe que eles devem ser capazes de trabalhar essa informação.
43
b. “Que vocês são templo de Deus.” O vocabulário dessa oração é
ímpar por duas razões: primeira, a expressão templo está no singular
(ver 6.9); segunda, o substantivo no grego não é precedido por um
artigo definido. A palavra grega para templo é naos, que indica o pró-
prio templo e não o complexo do templo (conhecido em grego como
hieron). Em suas epístolas, Paulo quase sempre escreve naos, a pala-
vra para o templo em si, para indicar que Deus fez o nome divino habi-
tar ali (1Rs 8.16-20).
44
43. Donald W. Burdick, “oi= da e ginw,skw in the Pauline Epistles”, in New Dimensions in
New Testament Study, org. por Richard N. Longenecker e Merrill C. Tenney (Grand Rapids:
Zondervan, 1974), p. 347.
44. Ver 1 Coríntios 3.16, 17 [duas vezes]; 6.19; 2 Coríntios 6.16 [duas vezes]; Efésios
2.21; 2 Tessalonicenses 2.4. Ele se refere ao complexo do templo (hieron) apenas uma vez
1 CORÍNTIOS 3.16
170
Para Paulo e para os coríntios, o templo de Deus é a igreja, isto é, o
corpo de crentes. Ainda que o próprio Paulo tenha cumprido um voto
(At 18.18) e apresentado ofertas no templo de Jerusalém (At 21.23-
26), para ele o templo espiritual era a Igreja universal. Ele também
sabia que, quando a Igreja deixa de ouvir à palavra de Deus, o maligno
assume gradativamente o controle e procura cumprir seu desejo de re-
sidir nesse templo (2Ts 2.4).
Contudo, esse templo não pertence a Satanás, mas a Deus. Paulo
omite propositadamente o artigo definido antes do substantivo naos para
indicar o uso absoluto dessa palavra. Em sua mente, não há outro templo
além da Igreja de Jesus Cristo, onde apraz à Divindade habitar. Se não há
outro templo além desse, o artigo definido torna-se desnecessário.
c. “E que o Espírito de Deus habita em vocês?”. A igreja é santa
porque o espírito de Deus habita no coração e na vida dos crentes. Em
6.19, Paulo afirma que o Espírito Santo vive no corpo físico dos cren-
tes. Mas agora ele diz aos coríntios que a presença do Espírito está
dentro deles e que eles são o templo de Deus.
Os coríntios devem saber que receberam o dom do Espírito de Deus.
Paulo já tinha chamado a atenção para o fato de que não haviam rece-
bido o espírito do mundo, mas o Espirito de Deus (2.12). Ele ensina
que os cristãos não são controlados pela natureza humana pecaminosa,
mas pelo Espírito de Deus, que neles habita (Rm 8.9).
O comportamento – brigas, inveja, imoralidade e permissividade –
dos cristãos em Corinto era repreensível. Por sua conduta, os coríntios
estavam profanando o templo de Deus e, como Paulo escreve em outra
epístola, estavam entristecendo o Espírito Santo (Ef 4.30; compare com
1Ts 5.19).
17. Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá;
porque o templo de Deus é santo, e isso é o que vocês são.
a. Condição. “Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o des-
truirá.” Na realidade, Paulo está dizendo que os fatores que podem
destruir o templo de Deus já estão presentes no momento em que es-
crevia sua epístola aos coríntios. Sem identificá-los pelo nome, ele indi-
em uma exposição a respeito do sustento material dos obreiros cristãos (1Co 9.13; compa-
rar com Dt 18.1).
1 CORÍNTIOS 3.17
171
ca aqueles que estão destituídos do Espírito de Deus. Eles estão arrui-
nando, corrompendo e destruindo propositadamente a igreja. Influenci-
am os membros pelo exemplo que dão com seu modo de vida mundano.
No grego, o verbo destruir aparece duas vezes: é a última pala-
vra da primeira oração e a primeira palavra da segunda oração. Uma
tradução para o português não consegue transmitir a ênfase da constru-
ção original, mas Paulo enfatiza que a Igreja é templo de Deus; qual-
quer um que procure destruir esse templo, seja por doutrina ou por
modo de vida, incorrerá na ira de Deus. Em resumo, Deus o destruirá.
Não se trata simplesmente de uma lei de retribuição – uma pessoa re-
cebe o que merece – mas também de uma advertência implícita de que
a Igreja é a menina dos olhos de Deus (comparar com Zc 2.8). Aquele
que atinge a Igreja de Deus, atinge a Deus.
b. Razão. “Porque o templo de Deus é santo, e é isso o que vocês
são.” Por que Deus protege a sua Igreja e destrói os seus inimigos? A
Igreja pertence a Deus e está separada do mundo (2Co 6.14-16). Em
Jesus Cristo, a Igreja é santa e, como tal, encontra-se na presença de
Deus sem ruga ou mácula (Ef 5.27). Paulo fala aos coríntios de modo
pessoal e afirma que eles de fato são o santo templo de Deus. Apesar
de seus pecados, esses crentes foram santificados em Cristo e foram
chamados para serem santos (1.2). A Igreja é santa porque Deus é san-
to. Uma confissão de fé do século 17 declara:
Esta Igreja existe
desde o começo do mundo
e permanecerá até o fim.
Isso é visto pelo fato
de que Cristo é o Rei eterno,
e disso segue que
não é possível estar sem súditos.
E esta santa Igreja é preservada por Deus
contra a fúria de todo o mundo.
Ela jamais será destruída,
muito embora, por enquanto,
possa parecer tão pequena
e, até mesmo, desprezada.
45
45. Confissão Belga, artigo 27 (itálicos adicionados).
1 CORÍNTIOS 3.17
172
Considerações Práticas em 3.16,17
Quando os israelitas construíram um tabernáculo no deserto e, mais
tarde, um templo em Jerusalém, eles foram alvo de chacota das nações.
As pessoas perguntavam a eles: “Onde está o Deus de vocês?”. Eles ti-
nham de dizer aos zombadores que o edifício não continha ídolo algum.
No templo, habitava o Nome de Deus. Os templos dos gentios, ao contrá-
rio, continham ídolos que representavam os seus deuses.
Quando Paulo ensinava aos crentes de Corinto que eles eram o tem-
plo de Deus, os descrentes de Corinto ficavam perplexos; não podiam
compreender que um grupo de cristãos poderia se autodenominar um tem-
plo e afirmar que o Espírito de Deus habitava dentro deles. Os gentios
tinham dificuldade para imaginar um templo sem um edifício. Eram inca-
pazes de compreender como o Deus invisível dos cristãos podia habitar
um corpo humano visível.
As igrejas cujas raízes espirituais e históricas vêm do período da Re-
forma do século XVI, têm edifícios para o culto que são modestos e apa-
rentemente vazios. À exceção do púlpito, de bancos, um batistério e uma
mesa da comunhão, o edifício é vazio. Na verdade, sobre o púlpito, à
plena vista de qualquer participante do culto, está a Bíblia aberta. O povo
adora a Deus pela recepção da proclamação da palavra e pela resposta a
ela. Não adoram a palavra, mas a Deus, que fala com eles por meio das
Escrituras.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 3.16,17
|ae, – “o templo.” O substantivo aparece sem artigo definido; é único
em seu gênero
46
e é usado no sentido absoluto da palavra. No versículo
17, o substituto aparece duas vezes com o artigo, mas ali o artigo tem a
conotação de esse ou de o anteriormente mencionado.
|ò-¡-t— o futuro do indicativo do verbo |ò-t¡æ (destruo) tem uma
leitura variante no tempo presente |ò-t ¡-t, que provavelmente tornou-se
presente do indicativo por ser repetição da mesma palavra imediatamente
precedente.
46. Robertson, Grammar, p. 794-95; Parry, First Epistle to the Corinthians, p. 68.
1 CORÍNTIOS 3.16, 17
173
e. Admoestação e Conclusão
3.18-23
Paulo chegou ao final de seu discurso sobre a tensão na igreja de
Corinto. Ele lembrou os crentes das riquezas que possuem, especial-
mente aqueles em Cristo e no Espírito Santo. Agora, pronuncia-lhes
uma severa admoestação no sentido de que não se tornem sábios aos
seus próprios olhos, pois tal coisa é loucura para Deus. Ao contrário,
devem tornar-se inteiramente cônscios de suas posses, pois todas as
coisas são deles em Cristo.
18. Que ninguém se engane. Se alguém dentre vocês se tem por
sábio neste século, que se faça de tolo para se tornar sábio.
a. “Que ninguém se engane.” Nossa expectativa seria a de que Pau-
lo formulasse uma conclusão à discussão imediatamente precedente
sobre a fundação, o edifício e o templo de Deus. O apóstolo, em vez
disso, adverte seus leitores quanto ao engano próprio, que Paulo indica
já estar acontecendo na igreja de Corinto. Paulo pretende alertar os
leitores quanto ao perigo de se afastarem da verdadeira doutrina da
palavra de Deus. Tanto Paulo como Tiago repetem várias vezes a ad-
moestação: “Não se enganem”.
47
O auto-engano acontece quando uma
pessoa procura justificar seus pensamentos, palavras ações e se recusa
a admitir que está errada. Em que consiste, pois, esse auto-engano?
Paulo explica na sentença que segue.
b. “Se alguém dentre vocês se tem por sábio neste século.” Primei-
ro, Paulo adverte a todos em Corinto, mestres e discípulos, líderes e
leigos, membros e simpatizantes. Observe que ele uma vez mais recor-
re ao uso da expressão Se alguém dentre vocês (ver os vs. 12 e 17)
quando se dirige aos leitores.
Segundo, em vez de se referir à ilustração emprestada da agricultu-
ra e do ofício da construção, Paulo retorna à sua discussão anterior
sobre a sabedoria (1.20-25; 2.6; ver também 4.10). Embora ele pareça
confundir os seus leitores ao voltar às primeiras observações, ele torna
esses comentários sobre a sabedoria fundamentais para tudo o mais.
Os coríntios estavam enganando-se a si mesmos porque estavam sedu-
zidos pela sabedoria do mundo.
47. Ver 1 Coríntios 6.9; 15.33; Gálatas 6.7; 2 Tessalonicenses 2.3; Tiago 1.16.
1 CORÍNTIOS 3.18
174
Terceiro, Paulo especifica que a sabedoria que seduz os crentes
tem sua origem neste século. A sabedoria do mundo se manifesta em
pessoas que querem ser independentes, governar a própria vida e ad-
ministrar seus próprios negócios em vez de se submeterem ao senhorio
de Cristo.
48
c. “Que se faça tolo para se tornar sábio.” Essa afirmação informa
aos cristãos coríntios que eles precisam fazer uma volta de 180 graus.
Devem rejeitar a sabedoria mundana e tornarem-se tolos aos olhos do
mundo. Os coríntios precisam ver o contraste entre o Cristianismo e o
mundo e, em seguida, aceitar o rótulo tolo. Eis um ou dois exemplos de
tolice cristã: os cristãos obedecem ao mandamento de Jesus para ama-
rem os seus inimigos (Mt 5.44; Lc 6.27). O mundo, contudo, prescreve
o slogan “Pague na mesma moeda”. Jesus ensina seus seguidores a dar
liberalmente a qualquer um em necessidade (Lc 6.30, 38). O mundo,
contudo, sugere a implementação das regras do individualismo: “O
que é meu é meu”. Para o mundo, as doutrinas de Jesus são tolice, mas
Paulo diz para seus leitores que se eles se tornarem tolos ao olhos do
mundo, então se tornarão sábios aos olhos de Deus.
O propósito de Paulo é levar os coríntios a seguirem os preceitos
do evangelho de Cristo. Eles precisam ser guiados pelo Senhor e se
tornarem completamente dependentes dele para a sabedoria celestial
(Tg 1.5). O cristão que escuta de modo obediente à voz do Senhor,
humildemente pratica ações que emanam de um coração sábio e com-
preensivo. Tal pessoa possui sabedoria celestial que é “pura... pacífica,
indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial,
sem fingimento” (Tg 3.17).
19. Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus;
porquanto está escrito:
Ele apanha os sábios na própria astúcia deles.
20. E outra vez:
O Senhor conhece os pensamentos dos sábios,
que são pensamentos vãos.
Nesse resumo, Paulo repete os pensamentos que já havia expressa-
do na pergunta: “Porventura, Deus não tornou louca a sabedoria do
48. Calvino, I Corinthians, p. 80.
1 CORÍNTIOS 3.19, 20
175
mundo?” (1.20). A expressão deste mundo forma um paralelismo com
a expressão neste século (v. 18), e essas duas expressões também apa-
recem no discurso de Paulo sobre a sabedoria e a loucura (1.20). Tendo
em vista que o contraste entre o mundo e a comunidade cristã é o cora-
ção desta questão, Paulo considera necessário reiterar seu ensino sobre a
sabedoria do mundo. Ele examina a sabedoria do mundo da perspectiva
de Deus e a declara loucura ou estultícia. Nas palavras de Charles Hod-
ge, “A própria verdade ou o conhecimento verdadeiro tornam-se loucu-
ra, se empregados para alcançar-se um fim ao qual não estão ajustados”.
49
Além do mais, Paulo fundamenta o seu ensino nas Escrituras. Ele
já havia citado Isaías 29.14 (1.19); agora recorre ao Livro de Jó e, em
seguida, ao Livro dos Salmos para mostrar que Deus despreza a sabe-
doria que se origina no coração do homem.
A primeira citação (v. 19) é tradução literal que Paulo faz do texto
hebraico de Jó 5.13.
50
É parte de um longo discurso que Elifaz, o tema-
nita, dirige a Jó. Elifaz compara Deus a um caçador que apanha Jó em
sua astúcia. Em certo sentido, essa citação é tomada fora de seu con-
texto, mas Paulo a escolheu por causa da palavra-chave sabedoria.
Não obstante, o texto se aplica diretamente às pessoas sábias dos dias
de Paulo que astutamente maquinam favorecer a causa de sua própria
sabedoria mundana. Essa é uma sabedoria sem Deus. Mas Deus apa-
nha o sábio em sua própria astúcia e torna louca a sua sabedoria. “A
capacidade do ser humano de racionalizar não consegue se manter di-
ante da soberania divina.”
51
A segunda citação (v. 20), extraída do Salmo 94.11, é propositada-
mente adaptada para o contexto presente. Uma tradução do hebraico
lê: “O SENHOR conhece os pensamentos do homem; ele sabe que eles
são fúteis”. Paulo se baseia no texto da Septuaginta (Sl 93.11, LXX),
que tem o plural homens. Substituindo as palavras dos homens por dos
sábios, Paulo altera o texto ao mesmo tempo em que o interpreta.
52
Ele
49. Charles Hodge, An Exposition of the First Epistle to the Corinthians (1857; reedição,
Grand Rapids: Eerdmans, 1965), p. 60.
50. Essa é a única citação direta do Livro de Jó em todo o Novo Testamento. A leitura da
Septuaginta não coincide com a tradução grega apresentada por Paulo.
51. D. A. Carson, NIDNTT, Vol. 1, p. 413. Ver Otto Bauernfeind, TDNT, Vol. 5, p. 726.
52. Consultar Allan M. Harman, “Aspects of Paul’s Use of the Psalms”, WTJ 32 (1969):
1-23.
1 CORÍNTIOS 3.19, 20
176
muda o vocabulário, mas não o sentido. Uma vez mais a palavra-chave
é “sábio”, muito embora Paulo a tenha inserido em substituição da
palavra “homens”. No entanto, o contexto do Salmo 94 fala do raciocí-
nio louco de homens arrogantes que oprimem e matam o inocente (Sl
94.7). Essas pessoas lembram aqueles que se opõem a Deus com a
sabedoria do mundo. Seus pensamentos são inteiramente conhecidos
perante o Senhor, pois nada permanece oculto dele. O Senhor declara
que os pensamentos humanos são vazios, isto é, as opiniões dos sábios
são fúteis e sem proveito (comparar com Rm 1.21).
As duas citações do Antigo Testamento têm o Senhor Deus como
sujeito e os sábios, os quais são loucos aos olhos de Deus, como obje-
tos. Na primeira citação, os sábios são como um pássaro capturado
numa rede; não podem escapar. Na segunda, mesmo antes de conse-
guirem formular seus pensamentos, Deus já declara suas deliberações
como sendo vãs. Qualquer um que procura se opor a Deus com sabe-
doria humana inevitavelmente é derrotado.
21. Portanto, que ninguém se glorie nos homens; porque tudo é
de vocês: 22. seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja
a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras:
todas as coisas são de vocês.
a. “Portanto, que ninguém se glorie nos homens.” Paulo faz um resu-
mo com base nas passagens precedentes (vs. 18-20): ele exorta os corín-
tios a não se gloriarem em outros seres humanos. Como ele usa a forma
imperativa do verbo, alguns poucos tradutores traduzem a oração assim:
“Basta de gloriar-se nos homens!” (NIV; com variações, NEB, TNT).
O objetivo da diretriz de Paulo é que não devem se vangloriar em
homens, sejam eles Paulo, Apolo ou Cefas. Em 1.31, Paulo citou as
Escrituras para reforçar seu argumento e disse: “Aquele que se gloria,
glorie-se no Senhor” (Jr 9.24). Agora ele apresenta o lado negativo da
mesma exortação ao dizer aos leitores que não se gloriem nas realiza-
ções de seres humanos. Deus concede seu dom gracioso ao seu povo, o
qual, em completa dependência dele, não pode gloriar-se em si mes-
mo. Precisa reconhecer que Deus, não o ser humano, governa o mundo
e tudo o que nele há. O salmista declarou que a terra pertence a Deus e
tudo o que ela contém pertence a ele (Sl 24.1). Portanto, todo louvor e
toda honra são devidos ao seu nome.
1 CORÍNTIOS 3.21, 22
177
b. “Porque tudo é de vocês.” De repente, Paulo muda o foco de
suas observações finais. Ele passa de uma exortação negativa para uma
declaração positiva de que tudo pertence aos coríntios. Embora o dito
tudo é de vocês seja um provérbio estóico – “O homem sábio... é se-
nhor sobre tudo o que vem a ele de fora”
53
–, Paulo o remove de seu
contexto filosófico e o relaciona a Jesus Cristo. O povo de Deus preci-
sa ver a obra de Cristo em cada aspecto da criação; deve glorificá-lo
por tudo o que ele fez e continuamente sustenta pelo seu poder. Ao usar
o termo tudo, Paulo inclui o ministério dos que pregam e ensinam o
evangelho. Assim, ele exorta os coríntios a verem que o Senhor tudo
lhes concede, tanto o espiritual como o material. O povo de Deus, de
fato, possui todas as coisas.
c. “Seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas, seja o mundo, seja a vida,
seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras.” Paulo come-
ça, dessa forma, a enumerar as categorias que integram o pronome
tudo. Ele repete os nomes Paulo, Apolo e Cefas do início de sua expo-
sição (1.12). Esses homens são servos de Cristo enviados para atender
às necessidades espirituais do povo de Deus. Em certo sentido, portan-
to, Paulo pode dizer aos coríntios: “Nós somos de vocês”.
Abruptamente, Paulo fala do mundo, da vida, da morte, do presen-
te e do futuro. Gordon D. Fee comenta: “Esses cinco itens... são os
tiranos por excelência da existência humana, aos quais as pessoas es-
tão cativas como escravas por toda a vida”.
54
Mas Paulo diz que todas
as coisas pertencem aos crentes, porque eles não são escravos, mas
proprietários (por acaso, em Romanos 8.38, Paulo também menciona a
morte, a vida, o presente e o futuro).
Em que sentido um cristão possui as categorias que Paulo enume-
rou? A palavra mundo deve ser compreendida em relação a Jesus Cris-
to, que fez o mundo, o redimiu, o sustenta e nomeia o seu povo para ser
o seu despenseiro nele. Realmente, esse mundo redimido por Cristo é a
oficina, isto é, o local de trabalho do cristão. Nessa oficina, ele glorifi-
ca o seu Senhor, pois ele sabe que, por meio de Cristo, o mundo perten-
ce a ele.
53. Conzelmann, 1 Corinthians, p. 80. Consultar Victor Paul Furnish, “Belonging to Christ:
A Paradigm for Ethics in First Corinthians”, Interpret 44 (1990): 145-57.
54. Fee, First Corinthians, p. 154.
1 CORÍNTIOS 3.21, 22
178
As duas palavras seguintes, “vida” e “morte”, também se referem a
Jesus Cristo. Ele é tanto o doador da vida como o vencedor sobre a
morte. A vida de Cristo é dada aos crentes pelo evangelho (2Tm 1.10)
e pelo Espírito Santo, que os livra da morte (Rm 8.2, 6, 11). Paulo
escreve eloqüentemente sobre a derrota da morte. Uma passagem típi-
ca de uma das epístolas de Paulo é ilustrativa: “Pois, quanto a ter mor-
rido, de uma vez para sempre morreu para o pecado; mas, quanto a
viver, vive para Deus. Assim também vocês se considerem mortos para
o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus” (Rm 6.10,11).
55
E,
por último, os cristãos possuem o presente, no qual Deus governa. Nada
acontece por acaso, mas, pelo contrário, todas as coisas (por exemplo,
saúde e enfermidade, alegria e pesar) vêm de sua mão. Quanto ao futuro,
os cristãos colocam sua fé e confiança em Jesus Cristo, pois nada pode
separá-los “do amor de Deus, que está em Cristo Jesus” (Rm 8.39).
c. “Todas as coisas são de vocês.” Pela segunda vez, Paulo afirma
que os cristãos possuem todas as coisas. Contudo, esta afirmação, que
em grego consiste de duas palavras, é diretamente vinculada a Cristo.
Paulo prossegue, dizendo:
23. E vocês são de Cristo, e Cristo é de Deus.
A primeira parte desse versículo traz a informação de que os corín-
tios pertencem a Jesus Cristo. Ele deu sua vida por eles, e os convidou
a terem comunhão com ele. Eles têm sua vida e bens unicamente por
meio dele. Em vista disso, vivem para Cristo, a quem pertencem e ser-
vem, e não para partidos dentro da igreja. Que ninguém diga individu-
almente “eu sou de Cristo” (1.12), pois, como corpo, eles todos perten-
cem a Cristo. Com esse resumo, Paulo efetivamente põe um ponto fi-
nal ao partidarismo na igreja.
O téologo Zacharias Ursinus, do século XVI, propôs uma questão
pertinente: “Qual é teu único conforto na vida e na morte?”, e ele mes-
mo deu a reposta à sua pergunta; “Que eu não pertenço a mim mesmo,
mas pertenço – corpo e alma, na vida e na morte – ao meu fiel Salva-
dor, Jesus Cristo”.
56
Os cristãos podem dizer com Paulo: “Se vivemos,
55. Ver também Gálatas 2.19,20; Colossenses 2.20; consultar Walter Schmithals, NIDNTT,
Vol. 1, pp. 439-41.
56. Catecismo de Heidelberg, pergunta e resposta 1.
1 CORÍNTIOS 3.23
179
para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer,
pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Rm 14.8; ver Gl 3.29).
A segunda parte do versículo é uma afirmação teológica: “E Cristo
é de Deus”. Cristo foi enviado por Deus para realizar sua obra media-
dora neste mundo. Por meio de Cristo, Deus é a fonte elementar de
vida para todo o seu povo. Cristo está sujeito a Deus o Pai, como Paulo
explica em outra parte desta epístola: “O próprio Filho também se su-
jeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo
em todos” (15.28).
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 3.18-21
Versículos 18,19
-,aia:a:æ – imperativo presente ativo, terceira pessoa do singular, do
verbo -,aia:aæ (eu engano). Esse verbo aparece somente nas epístolas de
Paulo.
57
O verbo mais freqüente é iìa|aæ, que ocorre inúmeras vezes no
Novo Testamento.
ees-t – a forma impessoal do verbo ees-æ (penso, pareço), que nesse
caso significa “penso”.
ia¡a – com o dativo, a preposição significa, metaforicamente, “aos
olhos de Deus”.
58
Versículo 21
æc:- – a partícula introduz o imperativo médio presente sau,acòæ
(que ninguém se glorie). Serve como uma partícula conclusiva e significa
“assim, então” ou “por isso”.
- | – seguido pelo dativo plural a |ò¡æ iet,, a preposição significa “com
referência a”.
Sumário do Capítulo 3
Paulo registra uma razão adicional para pregar o evangelho aos
coríntios: ele os considera pessoas mundanas que não passam de bebês
em Cristo. Sua inveja, brigas e divisões revelam seu mundanismo e
57. Romanos 7.11; 16.18; 1 Coríntios 3.18; 2 Coríntios 11.3; 2 Tessalonicenses 2.3.
58 Moule, Idiom-Book, p. 52.
1 CORÍNTIOS 3.18-21
180
falta de maturidade. Ele lhes diz que Apolo e Paulo são servos envia-
dos pelo Senhor para os levar à fé. Paulo plantou a semente, Apolo
regou, mas Deus deu o crescimento. Cada um realiza uma tarefa e re-
cebe uma recompensa, mas Deus controla obreiros e campos.
Alternando metáforas, Paulo escreve que os construtores erguem
edifícios nos quais empregam ouro, prata, pedras preciosas, madeira,
barro ou palha. Paulo se compara a um construtor que estabeleceu um
alicerce, e esse alicerce é Jesus Cristo. Sobre ele, outros estão edifi-
cando a Igreja. Os trabalhos de cada pessoa serão provados pelo fogo
para que se verifique a qualidade da obra feita. Cada um ou receberá
uma recompensa ou sofrerá uma perda.
Os coríntios devem saber que são o templo de Deus, no qual seu
Espírito habita. Proponha-se alguém a destruir esse templo, e Deus o
destruirá.
Paulo conclui seu discurso com uma admoestação a não se deixa-
rem enganar pelos padrões do mundo. A sabedoria do mundo é loucura
aos olhos de Deus, um argumento que Paulo prova pela citação de
passagens do Antigo Testamento. Ele incita seus leitores a não se glo-
riarem em homens, mas compreenderem que em Cristo possuem todas
as coisas. Eles pertencem a Cristo, e Cristo é de Deus.
1 CORÍNTIOS 3
181
4
Divisões na Igreja, parte 4
(4.1-21)
182
ESBOÇO (continuação)
4.1-21
4.1-5
4.6-8
4.9-13
4.14-17
4.18-21
5. Servos de Cristo
a. Fidelidade
b. Orgulho
c. Descrição
d. Admoestação
e. Visita em Breve
183
CAPÍTULO 4
4
1. Assim, pois, que os homens nos considerem como servos de Cristo e des-
penseiros dos mistérios de Deus. 2. Assim, então, o que se requer dos despen-
seiros é que cada um deles seja encontrado fiel. 3. Mas para mim, é de pouca
importância que eu seja julgado por vocês ou por um tribunal humano; entretanto,
eu não julgo nem a mim mesmo.4. Não tenho consciência de que haja alguma
coisa contra mim; contudo, nem por isso me dou por justificado. Porém, o único
que me julga é o Senhor. 5. Portanto, nada julguem antes do final do tempo, até
que venha o Senhor, o qual não somente trará à plena luz as coisas ocultas das
trevas, como também manifestará os desígnios dos corações. E, então, cada um
receberá o seu louvor da parte de Deus.
6. Essas coisas, irmãos, eu as apliquei a mim mesmo e a Apolo, em atenção a
vocês, para que por nosso exemplo aprendam que não devem ir além do que está
escrito, para que ninguém se torne arrogante e favoreça um em detrimento de
outro. 7. Pois quem o torna diferente de qualquer outro? E o que você tem que não
tenha recebido? E se de fato o recebeu, por que se vangloria, como se não o não
tivesse recebido? 8. Vocês já têm tudo de que precisam, vocês já estão ricos; sem
nós, vocês se tornaram reis. E eu desejo que vocês realmente se tenham tornado
reis, de modo que possamos reinar com vocês. 9. Pois eu acho que Deus nos fez
apóstolos, em último lugar, como homens condenados à morte, porque nos torna-
mos um espetáculo para o mundo, para os anjos e para os homens. 10. Nós somos
tolos por causa de Cristo, mas vocês estão confiando em seu próprio discernimen-
to em Cristo. Nós somos fracos, mas vocês são fortes; vocês são nobres, mas nós
somos desprezíveis. 11. Até à presente hora, sofremos fome, sede e nudez; somos
esbofeteados e não temos morada certa. 12. Trabalhamos com as nossas próprias
mãos; quando somos injuriados, bendizemos; quando perseguidos, suportamos;
13. quando caluniados, respondemos com palavras brandas. Nós nos tornamos o
lixo do mundo, a escória de todos até agora.
14. Não escrevo estas coisas para os envergonhar, mas para admoestá-los
como a amados filhos meus. 15. Mesmo que vocês tivessem incontáveis assisten-
tes em Cristo, não teriam muitos pais; pois eu, pelo evangelho, tornei-me pai de
vocês em Cristo Jesus.
16. Portanto, eu os admoesto a que sejam meus imitadores. 17. Por essa ra-
184
zão, estou mandando a vocês Timóteo, que é meu filho amado e fiel no Senhor, o
qual os lembrará dos meus caminhos em Cristo Jesus, exatamente como eu ensino
em todos os lugares em cada igreja.
18. Alguns se tornaram arrogantes, como se eu não estivesse indo até vocês,
19. mas em breve irei visitá-los, se o Senhor quiser, e então vou conhecer não a
palavra daqueles que são arrogantes, mas o poder que eles têm. 20. Porque o reino
de Deus consiste não em palavra, mas em poder. 21. O que vocês querem? Devo
ir a vocês com uma vara ou com amor e espírito de mansidão?
5. Servos de Cristo
4. 1-21
Nesse segmento de sua epístola, Paulo diz que, como um servo de
Cristo, ele é responsável perante aquele que o mandou. Cristo ordenou
que ele fosse fiel no serviço de Deus e no ministério a seu povo. Final-
mente, Paulo será julgado pela obra que tiver feito, não pelos homens,
mas pelo próprio Cristo.
a. Fidelidade
4.1-5
1. Assim, pois, que os homens nos considerem como servos de
Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus.
a. “Assim, pois.” Essas duas palavras referem-se ao capítulo ante-
rior, no qual Paulo disse aos coríntios para não se gloriarem em ho-
mens, fossem estes Paulo, Apolo ou Cefas. Ele os instruiu a olharem
para Cristo, em quem tudo lhes pertence. Além disso, os servos de
Cristo são cooperadores entre si e não estão competindo uns com os
outros. Pelo uso das palavras assim, pois, Paulo conecta o ensino do
capítulo 3 com o que escreverá a seguir.
b. “Que os homens nos considerem como ministros de Cristo.”
Observe que Paulo usa o plural nesse versículo para se referir aos após-
tolos e seus auxiliares, mas no versículo 3 ele muda para o singular.
Com o uso do plural, ele chama a atenção dos seus leitores para a
instrução que veio antes. Se todas as coisas são deles em Cristo (ver
3.21,22), então que cada membro da igreja de Corinto considere os
apóstolos como servos de Cristo. Essa palavra para “servo” é derivada
não de diakonos, mas de {yphretai (servos sob seu senhor). A palavra
originalmente descrevia os escravos que remavam no convés de uma
1 CORÍNTIOS 4.1
185
embarcação. No século I, o termo assumiu um sentido mas amplo e
significava um trabalhador doméstico. Por exemplo, o atendente que
tomou o rolo de Isaías de Jesus quando ele pregou em Nazaré era um
servo na sinagoga local (Lc 4.20).
1
Paulo informa aos coríntios que a igreja deve compreender a rela-
ção entre os apóstolos e a Igreja e entre os apóstolos e Cristo. Os após-
tolos são servos na Igreja, mas Jesus, e não a Igreja, é o senhor deles,
pois eles foram enviados por Jesus Cristo para servirem à Igreja (3.5;
comparar com At 26.16). Assim, os membros da igreja devem respeitar
esses apóstolos que voluntária e fielmente servem a eles em lugar de
Cristo e sob sua autoridade.
c. “E despenseiros dos mistérios de Deus.” Uma outra descrição de
Paulo e de seus cooperadores é transmitida pela palavra despenseiro.
O termo refere-se ao servo a quem o senhor confiou a supervisão da
casa. O despenseiro ou mordomo é considerado responsável pelos bens
de seu senhor e, de tempos em tempos, precisa prestar contas de sua
administração (ver Mt 25.14; Lc 16.2; 19.11-27).
2
Para dizer de manei-
ra mais enfática, Paulo e seus colaboradores eram “subalternos de Cristo
e supervisores em nome de Deus”.
3
Nesse versículo (v. 1), o termo des-
penseiro não se refere a uma casa e aos bens pessoais de seu dono; o
substantivo mistérios mostra que o sentido é que são despenseiros da
revelação de Deus em Jesus Cristo.
O termo mistério ocorre com freqüência no Novo Testamento. Para
ser preciso, aparece uma vez na resposta de Jesus quanto ao seu costu-
me de ensinar por parábolas (Mt 13.11 e as passagens paralelas de Mc
4.11 e Lc 8.10), 21 vezes nas epístolas de Paulo e quatro vezes no
Apocalipse (1.20; 10.7; 17.5 e 7).
4
Mas qual é o sentido que Paulo quer
dar a essa expressão?
1. Ver Bauer, p. 842; Thayer, pp. 641-642.
2. Jürgen Goetzmann, NIDNTT, Vol. 2, p. 255; J. D. M. Derrett, Law in the New Testament
(Londres: Darton, Longman and Todd, 1970), pp. 48-77; J. Reumann, “Oikonomia – Terms
in Paul in Comparison with Lucan Heilsgeschichte”, NTS 13 (1966-67): 147-167.
3. Jouette M. Bassler, “1 Corinthians 4:1-5”, Interpret 44 (1990): 181.
4. Dentre 28 ocorrências no grego, seis estão na forma de “mistérios de Deus” ou “misté-
rios de Cristo”: 1 Coríntios 2.1 (interpretação variante); 4.1; Efésios 3.4; Colossenses 2.2;
4.3; Apocalipse 10.7.
1 CORÍNTIOS 4.1
186
Não devemos simplesmente equiparar os mistérios de Deus com o
evangelho de Cristo. “O mistério em si não é revelação; é o objeto da
revelação... A revelação descobre o mistério em si. Em vista disso, o
mistério de Deus não é revelado por si mesmo. No tempo determinado,
é graciosamente manifestado pelo próprio Deus àqueles que são por
ele escolhidos e abençoados.”
5
O conhecimento que Deus nos revela é
apenas um vislumbre de todo o espectro do conhecimento divino. O
conhecimento do próprio Deus permanecerá para sempre um mistério
para a mente humana, mas, pelas Escrituras, somos capazes de apreen-
der a obra da redenção de Cristo. O conhecimento do mistério da re-
denção nos é dado por meio da palavra de Deus e da operação do Espí-
rito Santo (ver o comentário sobre 2.7).
Paulo e seus colaboradores são despenseiros dos mistérios de Deus.
Como instrumentos de Deus, proclamam o evangelho; fortalecem os
crentes em sua fé, e , pela operação do Espírito Santo, edificam a igreja.
2. Assim, então,
6
o que se requer dos despenseiros é que cada
um deles seja encontrado fiel.
Sentenças conclusivas parecem proliferar nos escritos de Paulo.
Os últimos versículos do capítulo anterior (3.21-23) eram um sumário
e o primeiro versículo desse capítulo (4.1) também recapitula esse en-
sinamento. Ao dizer “então”, Paulo uma vez mais faz uma conclusão,
dessa vez do contexto precedente sobre despenseiros. A inferência é
que se Paulo e seus auxiliares são despenseiros de Deus, como os co-
ríntios devem estimá-los? Que qualidade devem os membros da igreja
de Corinto examinar em relação a esses despenseiros dos mistérios de
Deus? A epístola de Paulo parece indicar que seus destinatários apreci-
am a capacidade de falar e a eloqüência. Mas a exigência básica de um
despenseiro é a fidelidade. A mordomia requer uma dedicação que ex-
clua todo interesse próprio e inclua lealdade sacrificial (Lc 12.42).
Do plural despenseiros, Paulo passa para o singular um. Indica,
assim, que o requisito “ser fiel” não se aplica apenas à equipe de obrei-
5. Günther Bornkamm, TDNT, Vol. 4, pp. 820-821. Ver também Günter Finkenrath,
NIDNTT, Vol 3, p. 504; Donald Guthrie, New Testament Theology (Downers Grove: Inter-
Varsity, 1981), pp. 93-94.
6. Bauer, p. 480.
1 CORÍNTIOS 4.2
187
ros, mas a cada pessoa que serve a Cristo (1Pe 4.10).
7
Cada cristão
precisa demonstrar fidelidade e dedicação.
3. Mas para mim, é de pouca importância que eu seja julgado
por vocês ou por um tribunal humano; entretanto, eu não julgo
nem a mim mesmo.
a. “Mas para mim, é de pouca importância que eu seja julgado por
vocês.” Paulo não demonstra arrogância alguma, mas verdadeira hu-
mildade. Como um despenseiro fiel que se guarda de qualquer interes-
se próprio, Paulo profere um juízo bastante modesto de si mesmo. De
um modo típico do Antigo Testamento (comparar com Jz 6.15), Paulo
expressa várias vezes modéstia diante de Deus e diante dos leitores de
sua epístola (ver 15.9; 2Co 11.1; Ef 3.8).
A locução é de pouca importância serve como uma introdução à
oração subordinada final (“que eu seja julgado por vocês”). O verbo
julgar nesse versículo significa “examinar, interrogar”. Paulo, muitas
vezes, suportou julgamento severo, primeiro quando trabalhou em
Corinto, mais tarde quando esteve preso em Cesaréia, e finalmente
quando esteve em Roma (9.3; e At 24.8; 28.18).
8
Paulo não tinha re-
ceio de ser investigado ou interrogado, pois estava disposto a sofrer
tudo pelo seu Senhor. Se os coríntios o quisessem interrogar, ele leva-
ria isso em mínima conta. Ou se eles quisessem convocá-lo perante
uma corte humana, ele também consideraria isso de pouca monta em
comparação com se apresentar diante do trono de justiça de Deus, que
o havia enviado mediante Jesus Cristo.
b. “Ou por um tribunal humano.” Literalmente, o texto grego diz
“um dia indicado por uma corte humana”.
9
Mas há aqui um contraste
implícito com o dia do julgamento final, quando cada pecador terá de
se apresentar diante de Deus (3.13).O termo tribunal humano prova-
velmente contém uma alusão à corte eclesiástica que foi convocada
para provar o apostolado de Paulo.
10
7. Algumas traduções têm o plural na segunda parte do texto: “que possam ser encontra-
dos fiéis” (RSV, NRSV, TNT, Moffat).
8. Consultar também o texto grego de Lucas 23.14; Atos 4.9; 12.19.
9. Bauer, p. 347.
10. Lawrence L. Welborn, “On the Discord in Corinth:1 Corinthians 1-4 and Ancient
Politics”, JBL 106 (1987): 108.
1 CORÍNTIOS 4.3
188
c. “No entanto, eu não julgo nem a mim mesmo.” Essa não é uma
afirmação dissimulada com a qual Paulo estivesse querendo se colocar
acima de qualquer crítica. De modo algum! Paulo sabe que não pode
ser objetivo na avaliação de seus próprios pensamentos, palavras e
ações. Por isso, ele deixa esse ato de julgamento para Deus, pois so-
mente ele pode ser um juiz imparcial. Isso não quer dizer que Paulo
esteja querendo fugir de qualquer avaliação. Paulo não está falando de
ações humanas que precisem ser averiguadas de tempos em tempos;
está falando de seu apostolado. Esse tipo de julgamento pertence a
Deus.
Considerações Práticas em 4.3
Administradores de instituições educacionais pedem que os estudan-
tes avaliem o desempenho dos professores na sala de aula. Os professores
reconhecem o valor desse procedimento, pois os estudantes sabem anali-
sar com bastante perspicácia tanto os pontos fracos como os pontos fortes
de um professor. Membros da administração podem auxiliar um professor
na superação de dificuldades e manifestar gratidão por bom desempenho.
Os pastores devem estar dispostos a submeterem-se à avaliação da
igreja quanto à sua doutrina e vida. Não devem se tornar reféns do medo
ou temer perder a auto-estima. Avaliações têm o objetivo de fortalecer os
pastores em seu trabalho e sua auto-estima. Por outro lado, se um pastor
fiel vai ser avaliado por membros de uma congregação que nutrem más
intenções, ele tem toda a razão de fazer objeção a essa avaliação. Paulo
não tinha medo de crítica; ele disse aos coríntios que considerava o julga-
mento deles uma questão secundária. “Não importa o que os homens pen-
sam, [um pastor] deve apelar a Deus.”
11
4. Não tenho consciência de que haja alguma coisa contra mim;
contudo, nem por isso me dou por justificado. Porém, o único que
me julga é o Senhor.
a. “Não tenho consciência de que haja alguma coisa contra mim.”
No grego, as palavras alguma coisa estão colocadas no início por ra-
11. “João Calvino, The First Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians, na série
Calvin’s Commentaries, trad. por John W. Fraser (reedição; Grand Rapids: Eerdmans, 1976),
p. 86.
1 CORÍNTIOS 4.4
189
zões de ênfase. Paulo, dessa forma, está realçando que está de cons-
ciência limpa; que não lhe pesa na consciência falta alguma (ver Jó
27.6). A observação não deve ser interpretada no sentido de que ele
tivesse calado sua consciência. O que ele quer dizer é que, com respei-
to ao seu apostolado, Paulo era um servo fiel que diligentemente cum-
pria todas as suas atribuições. Já, como sutilmente observa John Albert
Bengel, “aquele cuja consciência o acusa é que procura atuar como
juiz de sua própria causa”.
12
b. “Contudo, nem por isso me dou por justificado.” As palavras
claras dessa oração expressam uma verdade profunda. Se Paulo fosse
justificado com base em sua fidelidade apostólica, estaria ensinando
uma justiça que se poderia merecer. A justificação, contudo, jamais
pode se basear nas boas obras realizadas pelo homem (Tt 3.5), pois, se
assim fosse, a obra mediadora de Cristo teria sido insuficiente ou in-
completa. Com base na obra perfeita de Cristo, o homem é completa-
mente justificado.
Paulo conjuga o verbo justificar no perfeito: “nem por isso me dou
por justificado”. Ele indica que já foi declarado justo, não por causa de
suas próprias obras, mas por causa de Jesus Cristo. Em sua vida, Paulo
demonstra que é zeloso em sua obra apostólica; com seu zelo, contudo,
não adquire a perfeição (comparar com Gl 2.16 e Fp 3.12,13).
c. “Pois o único que me julga é o Senhor.” Jesus Cristo é o juiz, o
qual cumpriu a lei (Mt 5.17) e é o fim da lei (Rm 10.4). Jesus tem
direito de julgar Paulo, pois, por meio do Espírito Santo, o enviou como
um apóstolo aos gentios (At 13.1-3). Jesus é que julga o apóstolo com
respeito ao serviço apostólico que Paulo realiza em seu ministério. O
Senhor designa, supervisiona e avalia a obra que Paulo precisa reali-
zar, seja em tempo de decepção (At 18.6-10) ou em tempos de dificul-
dades iminentes (At 23.11). Em vista disso, Paulo diz aos coríntios que
sua prestação de contas é ao Senhor (comparar com 2Co 5.10).
5. Portanto, nada julguem antes do final do tempo, até que ve-
nha o Senhor, o qual não somente trará à plena luz as coisas ocul-
tas das trevas, como também manifestará os desígnios dos cora-
ções. E, então, cada um receberá o seu louvor da parte de Deus.
12. John Albert Bengel, Bengel’s New Testament Commentary, trad. por Charlton T. Lewis
e Marvin R. Vincent, 2 vols. (Grand Rapids: Kregel, 1981), Vol. 2, p. 183.
1 CORÍNTIOS 4.5
190
Observe os seguintes aspectos:
a. A vinda do Senhor. “Nada julguem antes do final do tempo, até
que venha o Senhor.” Com isso, Paulo encerra a discussão sobre os
comentários adversos dirigidos a ele e a seus cooperadores. Sua con-
clusão é que, sendo o próprio Jesus o juiz de Paulo, os coríntios deve-
riam abster-se de julgá-lo. Ele os instrui a não julgar coisa alguma, mas
a esperar até o fim dos tempos, quando o Senhor voltar. Quando eles
estiverem juntamente com Paulo no juízo, então terá chegado a hora de
criticarem a obra realizada por Paulo (ver 6.2,3). A intenção evidente
dessa observação é mostrar aos coríntios que então também eles esta-
rão sujeitos a julgamento.
Observe que Paulo dá aos leitores um mandamento forte, que se lê
literalmente: “não antes do final do tempo julguem coisa alguma”. Li-
gando a consumação do século ao retorno do Senhor, Paulo ordena aos
crentes que parem de emitir palavras de julgamento. Ele não está dizen-
do que deveriam deixar completamente de julgar. Com certeza, não!
Quando um pastor ou professor não adere à verdade da palavra de Deus,
e seu ensino e vida contradiz as Escrituras, é preciso que a igreja julgue.
Mas Paulo proíbe que se critique uma pessoa cuja doutrina e conduta
estejam em harmonia com a Escritura. Quando Jesus voltar – e ninguém
sabe quando será – cada crente participará do ato de julgar (6.2).
b. A revelação do Senhor. “O qual não somente trará à plena luz as
coisas ocultas das trevas, como também manifestará os desígnios dos
corações.” O Senhor tornará públicas as coisas relativas ao homem,
tanto as interiores como as exteriores. Dissipará as trevas e, assim,
trará à luz todo tipo de coisas até então ocultas. Embora o termo trevas
tenha freqüentemente um sentido sinistro (ver, por ex., a cegueira tem-
porária do mágico Barjesus [At 13.11] ou o mandamento para tornar
públicas as obras infrutíferas das trevas [Ef 5.11]), aqui a palavra tem
conotação neutra e se refere simplesmente a coisas que são desconhe-
cidas.
13
Deus governa todas as coisas por ele criadas, o que inclui as
trevas. Davi registra que as trevas e a luz são a mesma coisa para Deus
(Sl 139.12). No dia do julgamento, inúmeras coisas das quais os cris-
tãos não tiveram conhecimento serão trazidas à luz.
13. Bauer, p. 757.
1 CORÍNTIOS 4.5
191
Além disso, as pessoas são capazes de esconder pensamentos e
intenções nos recantos íntimos do coração. Muitas dessas intenções
nunca vêm à luz durante a vida terrena de uma pessoa. Mas, quando
Jesus voltar, ele as tornará públicas, a fim de que todos os segredos
sejam descobertos (Rm 2.16; Ap 20.11-13).
c. Louvor da parte de Deus. “E, então, cada um receberá o seu
louvor da parte de Deus.” Quem recebe louvor da parte de Deus? Deus
elogia a pessoa que possui o poder regenerador interior do Espírito
Santo e, conseqüentemente, ouve de modo obediente à Palavra como
aquele que recebe a aprovação de Deus (Rm 2.29). Deus distribuirá
graciosamente o seu louvor a cada crente no dia do julgamento, quan-
do Cristo haverá de revelar todas as coisas (Ap 22.12).
Em vez de escrever palavras de censura, Paulo conclui essa seção
com uma menção positiva acerca do louvor. Ela serve como uma exor-
tação aos coríntios para absterem-se de julgar a Paulo e seus colabora-
dores e para esperarem o louvor de Deus, não de homens.
Considerações Práticas em 4.5
Devemos ver a ênfase de Paulo acerca do louvor no contexto desse
versículo específico. Por exemplo, ele começa indicando quando os cris-
tãos receberão louvor, isto é, no tempo determinado por Deus para a vinda
de Cristo. A seguir, ele afirma que cada pessoa receberá louvor individu-
almente. Por fim, este louvor procede de Deus, não de seres humanos.
A Escritura ensina, sem deixar dúvidas, que haverá recompensas nos
céus para o cristão. Jesus diz: “E eis que venho sem demora, e comigo
está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras”
(Ap 22.12).
14
A Bíblia não ensina que uma pessoa pode merecer a salva-
ção, mas, ao contrário disso, que Deus derrama seu louvor sobre o crente
que fielmente faz a vontade de Deus. Assim, na parábola dos talentos,
ouvimos Jesus dizer acerca dos servos que haviam recebido cinco e dois
talentos: “Muito bem, servo bom e fiel; você foi fiel no pouco, sobre o
muito o colocarei. Entre no gozo do teu senhor” (Mt 25.21,23, NKJV).
14. Ver Isaías 35.4; 40.10; 62.11; Apocalipse 2.23.
1 CORÍNTIOS 4.5
192
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 4.1-5
Versículos 1,2
a|ò¡æie, – este substantivo é empregado num sentido geral e indefi-
nido, e significa “alguém” ou “as pessoas”. “Assim é como as pessoas
(isto é, vocês) devem nos considerar.”
15
æe- – a partícula está voltada para trás, para a palavra despenseiros no
v. 1, e significa “ao demonstrar que”; o advérbio ìetie| está voltado para
frente, e significa “segue que”.
16
,µ:-t:at – ”o que se requer”. Em vez disso, muitos dos principais
manuscritos têm a segunda pessoa plural imperativa ,µ:-t:- (requerei!).
O imperativo continua a série sau,acòæ (3.21), ìe,t,-còæ (v. 1). Contu-
do, também pode ser indicativo (“você está requerendo”). Os tradutores
preferem a terceira pessoa do singular, impessoal, porque ela dá equilí-
brio à segunda parte da sentença, que tem a terceira pessoa do singular
(“seja encontrado”).
Versículo 3
-ìa,tc:e| – temos aqui o uso intensivo do adjetivo superlativo de
¡ts¡e, e é traduzido “muito pouco”. O superlativo verdadeiro é “o me-
nor” (ver 15.9). A oração subordinada iniciada pela conjunção t |a resulta
do superlativo intensivo e explica o seu sentido: “que eu deveria ser
julgado”.
Versículo 4,5
-| :eu:æ – esta oração subordinada preposicional significa “por isso”
ou “por essa razão” e expressa a idéia de causa.
e a|as¡t|æ| – o particípio presente ativo do verbo a|as¡t|æ (eu exa-
mino) revela não uma ação no futuro, mas uma ação continuada no pre-
sente.
æc:- – uma conjunção ilativa que significa “e assim, conseqüente-
mente” (ver. 3.7).
17
15. Bauer, p. 69.
16. C. F. D. Moule, An Idiom-Book of New Testament Greek, 2ª ed. (Cambridge: Cam-
bridge University Press, 1960), p. 161.
17. Ibid., p. 144.
1 CORÍNTIOS 4.1-5
193
e -iat|e, – o substantivo é precedido por um artigo definido para
enfatizar que o louvor é dado a cada cristão individualmente.
b. Orgulho
4.6-8
6. Essas coisas, irmãos, eu as apliquei a mim mesmo e a Apolo,
em atenção a vocês, para que por nosso exemplo aprendam que
não devem ir além do que está escrito, para que ninguém se torne
arrogante e favoreça um em detrimento de outro.
a. Aplicação. “Essas coisas, irmãos, eu as apliquei”. Mais uma vez
Paulo se dirige aos seus leitores com a saudação irmãos que, na lingua-
gem dessa época, incluía também as irmãs.
18
Ele recorre a essa sauda-
ção para preparar sua audiência para a mensagem direta e pessoal que
segue. E Paulo também quer conduzir o assunto de maneira pastoral.
O que são “essas coisas” que Paulo aplicou? A questão precisa ser
respondida em conexão com o sentido do verbo aplicar. Outras tradu-
ções lêem
“tenho figuradamente transferido” (NKJV);
“nesta representação geral” (NEB);
“para mudar a forma de” (Bauer, p. 513).
Em resumo, Paulo está dizendo que ele quer usar uma figura de
linguagem com “essas coisas”. No capítulo anterior, Paulo emprega
imagens emprestadas da agricultura e das edificações; no contexto
imediato, apresenta os despenseiros como ilustração. Em vista disso,
as palavras essas coisas abarcam as três metáforas empregadas por
Paulo no texto entre 3.5 e 4.5.
19
Paulo afirma que o que escreveu aos coríntios, ele havia aplicado a
si mesmo e a Apolo para benefício de seus leitores. Tanto Paulo como
Apolo haviam servido à igreja de Corinto por longos períodos de tem-
po. Mas, ao não fazer menção de Pedro, chama indiretamente a aten-
ção para sua observação anterior de que Paulo e Apolo são servos de
18. Ver, por exemplo, 1.10, 11, 26; 2.1; 3.1.
19. Consultar Morna D. Hooker, “‘Beyond the Things Which Are Written’: An Examina-
tion o 1 Cor. iv.6”, NTS 10 (1963-64): 127-32.
1 CORÍNTIOS 4.6
194
Cristo encarregados da tarefa de proclamar os mistérios de Deus (3.5;
4.1).
20
Ele aplica a linguagem figurada do agricultor, do construtor e do
despenseiro a si mesmo e a Apolo.
21
Essas ilustrações, diz Paulo, são
para o benefício dos coríntios.
b. Aprendizado. “Para que por nosso exemplo aprendam que não
devem ir além do que está escrito.” Especialistas têm gasto muita tinta
no esforço de explicar essa parte do texto. Uns poucos exemplos mos-
tram várias maneiras possíveis de traduzir essa frase.
“Que vocês possam aprender de nós a não pensar além do que está
escrito” (NKJV);
“Possam vocês aprender de nós a não ir além do que está estabele-
cido” (NAB);
“De modo que vocês possam aprender de nós o significado do dita-
do: ‘Não vá além do que está escrito’” (NIV);
“Que lhes possa ser ensinada a verdade das palavras: ‘Nada além
do que está escrito’” (Cassirer).
Esses exemplos não só revelam diferentes traduções do texto gre-
go, como também diferenças na interpretação do texto em si. Alguns
especialistas são da opinião de que as palavras “não devem ir além do
que está escrito” são uma glosa ininteligível que deve ser eliminada do
texto.
22
Mas não há evidência textual para substanciar a alegação de
que essas palavras sejam uma glosa. Além do mais, a omissão dessas
palavras torna o próprio versículo incoerente. A maioria dos estudio-
sos acredita que essas palavras “são evidentemente um provérbio, ou
um princípio, em fórmula proverbial”.
23
Pode ter sido um ditado cor-
20. Consultar André Legault, “‘Beyond the Things Which Are Written’ (1 Cor. IV.6)”,
NTS 18 (1971-72): 227-31.
21. Hooker, “‘Beyond the Things Which Are Written’”, pp. 131-32.
22. Ver, por exemplo, Hans Conzelmann, 1 Corinthians: A Commentary on the First
Epistle to the Corinthians, org. por George W. MacRae, trad. por James W. Leitch, Herme-
neia: A Critical and Historical Commentary on the Bible (Filadélfia: Fortress, 1975), p. 86;
Legault, “Beyond the Things”, p. 231. Para uma opinião diferente, consultar J. M. Ross,
“Not Above What Is Written: A Note on 1 Cor 4:6”, ExpT 82 (1970-71): 215-17.
23. Lawrence L. Welborn, “A Conciliatory Principle in 1 Cor. 4.6”, NovT 19 (1987): 332;
R. St. John Parry, The First Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians, Cambridge,
Greek Testament for Schools and Colleges (Cambridge: Cambridge University press, 1937),
pp. 78-79.
1 CORÍNTIOS 4.6
195
rente na arena política da época de Paulo e que servia para a promoção
da unidade. Paulo, dizem esses especialistas, faz uso de uma máxima
familiar nos círculos de Corinto para apelar para o fim das divisões na
igreja e para promover a unidade.
No entanto, quando Paulo toma emprestada a expressão o que está
escrito, está se referindo às Escrituras do Antigo Testamento? Presu-
mivelmente, sim! O próprio provérbio precisa transmitir uma mensa-
gem, que no contexto das duas epístolas aos coríntios significa a Escri-
tura. E, nessas cartas, o termo grego gegraptai (está escrito) freqüente-
mente introduz citações das Escrituras.
24
Paulo faz repetidas citações
dos livros da Lei, dos Profetas e dos Escritos. No total, há dezessete
citações do Antigo Testamento em 1 Coríntios e dez em 2 Coríntios.
A severa admoestação que Paulo faz aos coríntios de que não de-
vem ir além do que está escrito adquire um sentido adicional no capítu-
lo 10. Depois de citar alguns poucos exemplos da história de Israel,
Paulo afirma: “Essas coisas aconteceram a eles como advertência, e
foram escritas para nossa admoestação, sobre quem os fins dos séculos
chegaram” (10.11). Seria, de fato, restritivo demais limitar a admoes-
tação de Paulo de “não ir além do que está escrito” às seis passagens da
Escritura citadas por ele nos três primeiros capítulos de 1 Coríntios
(1.19, 31; 2.9, 16; 3.19, 20). Conclusivamente, Paulo se refere a toda a
revelação do Antigo Testamento.
c. Arrogância. “Para que ninguém se torne arrogante e favoreça
um em detrimento de outro.” A última parte desse versículo é impor-
tante, pois nos versículos seguintes (vs. 7,8), Paulo continua a conde-
nar o orgulho, o tema básico desse segmento.
O problema crucial do que Paulo afirma diz respeito às divisões na
igreja de Corinto; uma facção prefere Paulo e a outra facção, Apolo.
Empertigando-se como galos encrespados, os membros de cada facção
colocavam-se arrogantemente uns contra os outros. Se não fosse tão
sério, seria cômico observar cada um dos membros da igreja exibindo
os favoritos de seus partidos. Paulo proíbe cada um dos coríntios de
promover o partidarismo exaltado que está em curso na igreja (1.12;
24. A tradução está escrito (com variações), referindo-se às Escrituras, ocorre em 1 Co-
ríntios 1.19, 31; 2.9; 3.19; 9.9, 10; 10.7, 11; 14.21; 15.45, 54; 2 Coríntios 4.13; 8.15; 9.9.
1 CORÍNTIOS 4.6
196
3.4). Que ninguém trombeteie sua preferência por um líder, seja Paulo
ou Apolo, mas que cada crente procure aprender deles o que as Escri-
turas têm a dizer. Eles precisam aprender com seus líderes a ouvir os
ensinamentos da palavra de Deus.
25
Em diversos lugares, as Escrituras
advertem as pessoas contra a arrogância (ver, por exemplo, Jó 40.12;
Pv 8.13 e Gl 6.3). Os coríntios precisam aprender a serem humildes e
compreenderem que tudo o que possuem receberam de Deus. Eles ou-
vem Deus falar com eles a partir das páginas das Escrituras.
7. Pois quem o torna diferente de qualquer outro? E o que você
tem que não tenha recebido? E se de fato o recebeu, por que se
vangloria, como se não o não tivesse recebido?
Paulo faz três perguntas aos coríntios:
a. “Pois quem o torna diferente de qualquer outro?”. Paulo dirige-
se a cada membro da igreja quando usa o pronome pessoal singular
você. Paulo desafia o indivíduo que deseja arrogantemente exibir sua
superioridade a dizer de quem recebeu o posto de que se apropriou. A
questão que Paulo coloca diante de indivíduos enfatuados é retórica e
recebe a resposta negativa: “Obviamente, ninguém!”.
26
Certamente, Pau-
lo não criou uma facção com o seu nome, e Deus não concedeu superi-
oridade alguma a nenhum cristão individualmente. Uma pessoa arro-
gante é incapaz de recorrer a alguém em busca de auxílio.
b. “E o que você tem que não tenha recebido?” Paulo faz novamen-
te uma pergunta retórica a cada cristão. Essa pergunta também recebe
uma resposta negativa: “Nada”! Perguntado sobre o que possui, cada
coríntio e coríntia precisa reconhecer a fonte de tudo o que relacionar.
Uma resposta honesta precisa ser que Deus concedeu todos os dons
materiais e espirituais (ver Jo 3.27 e Tg 1.17). Cada um está em débito
com Deus e precisa louvá-lo por tais posses e, dessa forma, não tem
base para arrogância.
c. “ E, se de fato o recebeu, por que se vangloria, como se não o não
tivesse recebido?” A terceira pergunta vem logo em seguida. Ou seja,
25. Consultar F. W. Grosheide, Commentary on the First Epistle to the Corinthians: The
English Text with Introduction, Exposition and Notes, na série New International Commen-
tary on the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1953), p. 104.
26. Conzelmann responde: “Nada”. 1 Corinthians, p. 86. A tradução de Cassirer também
requer esta resposta: “Ora, o que o distingue dos outros homens?”.
1 CORÍNTIOS 4.7
197
se uma pessoa recebeu um dom – seja um bem espiritual ou material -
ela está obrigada a expressar gratidão. Seria o cúmulo da ingratidão
não reconhecer sua origem e, por isso, desprezar o doador, não expres-
sando gratidão a ele. A pessoa que recebe esses dons age, então, como
se sempre os tivesse possuído e, assim, se apresenta como seu legítimo
proprietário. Se Deus concede graça, então seu povo se torna recebe-
dor de bênçãos incontáveis. Como eles dependem inteiramente de Deus,
não podem dar a si mesmos qualquer crédito por suas aquisições.
27
8. Vocês já têm tudo de que precisam, vocês já estão ricos; sem
nós, vocês se tornaram reis. E eu desejo que vocês realmente se
tenham tornado reis, de modo que possamos reinar com vocês.
a. Contraste. “Vocês já têm tudo de que precisam.” Paulo passa
novamente para a segunda pessoa do plural vocês e fala para a igreja.
Ele observa que os coríntios pensam ter satisfeito suas exigências espi-
rituais e materiais; não têm necessidade de coisa alguma ou de nin-
guém mais. Em total contraste com a realidade, consideram-se bem-
sucedidos na igreja e na sociedade e, com efeito, cultivavam a falsa
noção de que cada um era superior aos demais.
“Vocês já estão ricos.” Pessoas auto-suficientes enganam a si mes-
mas, pois acreditam que são ricas quando são absolutamente pobres.
Por exemplo, Jesus repreende a igreja de Laodicéia: “Você diz: ‘Estou
rico; na verdade, obtive riqueza e não preciso de coisa alguma’. Mas
você não percebe que é infeliz, miserável, pobre, cego e nu” (Ap 3.17).
“Sem nós, vocês se tornaram reis.” Paulo vale-se de expressões
que circulavam entre os filósofos estóicos daquela época (ver o co-
mentário sobre 3.21).
28
Tais filósofos orgulhavam-se de serem auto-
suficientes, e os coríntios aparentemente estavam sendo influenciados
pelo ensino deles. Em vez de verem a si mesmos como cidadãos no
reino de Deus, os cristãos coríntios agem como se fossem os soberanos
nesse reino. Alegam serem reis, em vez de súditos do rei.
b. Ironia. “E eu desejo que vocês realmente se tenham tornado
reis, de modo que possamos reinar com vocês.” Nesse versículo, o tom
de Paulo é irônico. O apóstolo expressa seu desejo de que o reino de
27. Consultar Calvino, I Corinthians, p. 91.
28. Consultar Conzelmann, 1 Corinthians, p. 87, n. 28.
1 CORÍNTIOS 4.8
198
Deu tivesse de fato se revelado e que os crentes coríntios reinassem
com Cristo (2Tm 2.12; Ap 3.21). Se esse fosse o caso, ele e Apolo
prontamente se assentariam junto deles eles na cadeira de honra real.
Mas, como o oposto é que é verdadeiro, ele se utiliza de sarcasmo para
impressionar os leitores de sua epístola. Eles deixaram de reconhecer
o fato de que os servos de Cristo (Paulo, Apolo e outros) lhes haviam
ensinado a respeito do reino de Deus e os tinham conduzido a Cristo.
Agora alegam ser independentes desses servos e enganam a si mesmos
fingindo serem reis. O comentário irônico lhes faz saber que, em agin-
do assim, eles se colocam à frente de Paulo e seus colaboradores, os
quais ainda estão aguardando a vinda do reino.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 4.6-8
Versículos 6,7
No Texto Majoritário, o infinitivo presente ò¡e|-t | (pensar) ocorre
depois do verbo ,-,¡ai:at (está escrito; ver KJV e NKJV). Tanto manus-
critos mais antigos como geograficamente mais representativos, no en-
tanto, omitem o infinitivo.
t|a ¡µ ...|ucteucò- – o verbo na segunda pessoa do plural na voz mé-
dia é um presente subjuntivo no contexto de uma oração subordinada fi-
nal (comparar com Gl 4.17). A expressão -t, ui-¡ :eu -|e, significa
“cada um em favor de um contra o outro (ninguém... em favor de um
contra o outro)”.
29
A condição simples introduzida por -t expressa realidade; ela realça a
conjunção sa t , que é intensiva e é traduzida como “de fato”.
Versículo 8
s-se¡-c¡-|et -c:- – a construção perifrástica com o perfeito passivo
do particípio de se¡-||u¡t (eu sacio) e o verbo ser/estar na segunda pes-
soa do plural do tempo presente significa que por um tempo considerável
os coríntios tiveram todas as coisas de que necesitavam.
Os verbos -iìeu:µca:- (vocês se tornaram ricos) e -¡actì-uca:- (vo-
29. Friedrich Blass e Albert Debrunner, A Greek Grammar of the New Testament and
Other Early Christian Literature, trad. e rev. por Robert Funk (Chicago: University of
Chicago Press, 1961), nº 247.4.
1 CORÍNTIOS 4.6-8
199
cês se tornaram reis) são aoristos de ingresso (que expressam ingresso
num novo estado), ou seja, os coríntios tinham se tornado ricos e, do pon-
to de vista deles, continuavam sendo ricos.
c. Descrição
4.9-13
9. Pois eu acho que Deus nos fez apóstolos, em último lugar,
como homens condenados à morte, porque nos tornamos um espe-
táculo para o mundo, para os anjos e para os homens.
Se Paulo expressou ironia nos versículos precedentes (vs. 7,8), aqui
(vs. 9-13) ele avalia de modo realista sua presente condição. Supomos
que Paulo esteja se referindo ao que havia recentemente acontecido a
ele em Éfeso. Ele compôs essa epístola algum tempo depois de o dis-
túrbio ter ocorrido (At 19.23-41).
Os coríntios sabiam bem qual era a situação de Paulo quando ele
descreve a condição de um apóstolo. Essa condição é a oposta daquela
a que Paulo se refere causticamente, a saber, a de que ele quisesse ser
um rei com os coríntios e governar com eles (v. 8). Em vez de estar na
posição mais alta, governando, ele está na posição mais baixa, sofren-
do perseguição e morte.
a. “Pois eu acho que Deus nos fez apóstolos.” Paulo não está sendo
crítico, apenas observa que Deus designa homens para serem apósto-
los. Ele aceita essa designação como um fato, mas tem sua própria
reflexão sobre a importância de ser um apóstolo (o plural apóstolos
não é específico, mas refere-se, de modo geral, à categoria apóstolo).
Sua experiência tem sido a de que, por causa de seu apostolado, é sub-
metido à ridicularização, ódio e maus-tratos físicos e verbais, sem fa-
lar da possibilidade da morte. A locução eu acho (que significa “em
minha opinião”) é um aparte e deve ser compreendida à luz da senten-
ça inteira.
b. “Em último lugar, como homens condenados à morte.” Deus
colocou os apóstolos em último lugar, como se estivessem numa para-
da de vitória,
30
na qual os conquistadores aparecem primeiro e os con-
30. Alguns tradutores oferecem um equivalente dinâmico aqui: “no fim da procissão”
(NIV), “bem no final da procissão da vitória” (TNT, itálicos no original), “no final da
parada dele” (BJ).
1 CORÍNTIOS 4.9
200
quistados por último. Esse lugar assinala-os como vítimas que logo
verão a morte, ou por mão humana ou pelo dente de feras.
c. “Porque nos tornamos espetáculo para o mundo, para os anjos e
para os homens.” Paulo emprega a palavra theatron (traduzida como
“espetáculo”), da qual deriva o termo teatro. Observe que essa mesma
palavra grega aparece duas vezes no relato que Lucas faz do tumulto
em Éfeso, no qual Gaio e Aristarco, companheiros de Paulo, foram
arrastados para o teatro (At 19.29,31) como espetáculo para o povo.
Em anfiteatros, qualquer um podia comparecer para assistir à execu-
ções de escravos e criminosos. Portanto, a afirmação de Paulo de que
ele é um espetáculo para o mundo, não é um exagero.
Em contraposição à palavra mundo, Paulo acrescenta os dois subs-
tantivos, anjos e homens. Que contraste essas duas categorias! Os an-
jos são enviados por Deus como ministros a serviço de seus eleitos.
Assim, quando o povo de Deus suporta sofrimento e depara-se com a
morte, anjos os socorrem e fortalecem. Os anjos observam tudo e, como
mensageiros, informam a Deus. Ao contrário, os homens são cruéis e
de coração frio; sentem prazer em ver outros seres humanos serem
despedaçados por feras na arena.
Se os coríntios parassem um momento para refletir sobre a vida
dos apóstolos de Cristo, teriam de admitir que os apóstolos são exata-
mente o oposto dos monarcas reinantes.
10. Nós somos tolos por causa de Cristo, mas vocês estão confi-
ando em seu próprio discernimento em Cristo. Nós somos fracos,
mas vocês são fortes; vocês são nobres, mas nós somos desprezíveis.
a. “Nós somos tolos.” A auto-estima é um ingrediente básico de
uma vida equilibrada, e ser chamado de tolo é uma experiência degra-
dante que pode comprometer severamente a auto-imagem de alguém.
Se uma pessoa afirma que ela mesma é tola, seria o caso de supormos
que sua fala é irônica. E é exatamente isso que ocorre no caso desse
versículo.
31
Paulo afirma que ele e seus companheiros de apostolado são tolos
“por causa de Cristo” (ver, por ex., At 14.19; 16.22-25; 17.10; 18.12).
31. Consultar K. A. Plank, Paul and the Irony of Afliction, SBL Semeia Studies (Atlanta:
Scholars, 1987), pp. 44-54.
1 CORÍNTIOS 4.10
201
De uma perspectiva humana, Paulo e os demais apóstolos são tolos ao
arriscarem a vida por causa de Cristo. “Todavia, o sentido é obviamen-
te duplo: dessa forma, os apóstolos também refletem a verdade do evan-
gelho, que é tolice ao olhos dos sábios deste mundo”.
32
b. “Mas vocês estão confiando em seu próprio discernimento em
Cristo.” Os apóstolos são tolos aos olhos não somente do mundo, mas
também dos crentes coríntios. Paulo é bastante irônico quando diz aos
destinatários de sua epístola que eles se consideram crentes inteligen-
tes e sábios em Cristo. Quer dar a entender justamente o oposto, por-
que a sabedoria deles é meramente humana, que nada tem que ver com
a sabedoria divina em Cristo.
33
Teríamos esperado que os coríntios re-
cebessem a direção do Espírito Santo (2.12). Em sua oposição a Paulo,
contudo, deixaram-se influenciar pela sabedoria mundana (comparar
com 3.18; 2Co 11.19) e encontravam-se separados de Cristo e do Espí-
rito Santo. Em vez de buscar sabedoria em Cristo, confiavam em sua
própria razão enganosa. Recorrendo à ironia, Paulo tenta fazê-los per-
ceber a sua própria arrogância.
c. Nós somos fracos e vocês são fortes; vocês são nobres e nós,
desprezíveis.” Aqui temos ainda mais ironia. Paulo contrasta a sorte
dos apóstolos com a dos coríntios. Ele prontamente proclama a fraque-
za dos servos de Cristo num mundo em que a fraqueza é desprezada e
a força é louvada. Então, na ordem inversa, contrasta a honra que os
coríntios receberam com a desonra que é atribuída aos apóstolos.
Em outra parte, Paulo contrasta sua fraqueza (2.3; 2Co 12.5, 9, 10;
13.4) com as virtudes de poder e força. Considera sua própria fraqueza
como sendo marca de um verdadeiro seguidor de Jesus Cristo, pois é
Cristo que o fortalece (Fp 4.13). Toma a revelação de Jesus com res-
peito à sua própria fraqueza como motivo para vangloriar-se; diz que o
poder de Cristo se aperfeiçoa nele (2Co 12.9). Os coríntios, ao contrá-
rio, declaram-se fortes, mas são fracos e destituídos de comunhão ínti-
ma com Cristo. Deveriam ser fortes no Senhor; de fato, foram chama-
dos e santificados por ele (1.2, 9).
32. Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians, na série New International Com-
mentary on the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), p. 176.
33. Comparar com Jürgen Goetzmann, NIDNTT, vol. 2, p. 620.
1 CORÍNTIOS 4.10
202
Os coríntios professam-se honrados. Mas, porque procuram fundir
as coisas de Cristo com as coisas do mundo, nada acumulam a não ser
vergonha sobre si mesmos. Inversamente, os apóstolos são objeto de
zombaria, escárnio e desonra por parte dos incrédulos; ainda assim,
por causa de sua comunhão íntima com Jesus, são honrados por Deus.
11. Até à presente hora, sofremos fome, sede e nudez; somos
esbofeteados e não temos morada certa. 12. Trabalhamos com as
nossas próprias mãos; quando somos injuriados, bendizemos; quan-
do perseguidos, suportamos; 13. quando caluniados, respondemos
com palavras brandas. Nós nos tornamos o lixo do mundo, a escó-
ria de todos até agora.
Paulo faz uso de ironia em apenas algumas observações. Chama a
atenção para a forma como os apóstolos vivem, mas não quer desenco-
rajar os leitores. Não está suplicando piedade, mas deseja que os corín-
tios saibam que os verdadeiros servos de Cristo precisam passar por
aflição e disciplina.
a. “Até à presente hora, sofremos fome, sede e nudez; somos esbo-
feteados e não temos morada certa.” Essa descrição concorda com ou-
tras passagens nas quais Paulo cataloga as calamidades pelas quais
passou: espancamentos, açoites, prisões, tumultos, naufrágios, noites
em claro, fome, sede, frio e perigos mortais (2 Co 4.8,9; 6.4-10; 11.23-
27; 12.10; ver Rm 8.35; Fp 4.12).
34
Além dessas coisas, Paulo teve de
passar por uma enfermidade quase mortal enquanto esteve na provín-
cia da Ásia, talvez em Éfeso (2 Co 1.8-11).
Quando Paulo escreve que foi espancado, o verbo grego indica que
ele foi golpeado a socos por pessoas que rejeitavam o evangelho de
Cristo. O verbo é quase sempre empregado para descrever os maus-
tratos pelos quais Paulo teve freqüentemente de passar.
35
A frase “e
não temos morada certa” não significa que Paulo fosse um morador de
rua ou sem-teto, mas que era um peregrino sem um domicílio estabele-
cido.
36
Durante suas freqüentes viagens, é provável que Paulo fizesse
uso de uma tenda construída por ele mesmo.
34. R. Hodgson, “Paul the Apostle and First Century Tribulation Lists”, ZNW 74 (1983): 59-80;
William D. Spencer, “The Power in Pauls Teaching’ (1 Co 4.9-20) “, JETS 32 (1989): 551-61.
35. Bauer, p. 441.
36. Albrecht Oepke, TDNT, vol. 1, p. 503.
1 CORÍNTIOS 4.11-13
203
Jesus deu a seus discípulos o mandamento de que o trabalhador
deve receber seu salário (Lc 10.7). Paulo esclareceu esse mandamento
dizendo que aqueles que pregam o evangelho devem ser mantidos por
aqueles que ouvem a pregação (9.14; ver também 1Tm 5.18). O pró-
prio Paulo não fez uso desse direito; preferiu trabalhar com suas pró-
prias mãos para não obstruir o progresso do evangelho (9.12b). Em
vista disso, Paulo carecia muitas vezes de comida, bebida e agasalho.
b. “E trabalhamos com as nossas próprias mãos.” Cada menino
judeu tinha de aprender um ofício, geralmente com seu próprio pai,
para ter como se sustentar. Jesus tornou-se um carpinteiro, João e Tia-
go eram pescadores e Paulo era um fabricante de tendas. Muito embo-
ra o ofício de Paulo fosse considerado inferior, ele não se envergonha-
va dele. Tanto em Atos como nas epístolas de Paulo, não faltam refe-
rências ao fato de Paulo se dispor pessoalmente ao trabalho (ver, por
ex., At 18.3; 20.34; 1Co 9.6; 1 Ts 2.9; 2Ts 3.8). Mas na cultura helenis-
ta de então, os gregos nutriam desprezo pelo trabalho manual.
37
Eles
eram da opinião de que o trabalho braçal era para escravos. Ao traba-
lhar com suas próprias mãos, Paulo rebaixava-se socialmente aos olhos
dos cidadãos locais.
c. “Quando somos injuriados, bendizemos; quando perseguidos,
suportamos.” O mundo é incapaz de compreender essa atitude descrita
por Paulo. No mundo impaciente de hoje, muitas pessoas vivem se-
gundo o slogan “bateu, levou”. Ofensa encontra ofensa e perseguição
encontra reação imediata.
Os judeus observavam a regra “olho por olho, dente por dente,
mão por mão, pé por pé” (Êx 21.24; Lv 24.20; Dt 19.21). Jesus, porém,
lhes ensinou: “não resista ao perverso; mas, a qualquer que o ferir na
face direita, volta-lhe também a outra... ame os seus inimigos e ore
pelos que o perseguem” (Mt 5.39, 44; ver Lc 6.28). Os apóstolos ado-
tam o ensino de Jesus e demonstram sua instrução na própria vida diária.
Os verbos que Paulo usa nessa passagem estão no tempo presente a
fim de indicar que os apóstolos eram constantemente ridicularizados e
perseguidos. Em resposta, continuavam a abençoar seus inimigos e a
suportar perseguição. Paulo afirma literalmente que, a respeito da per-
37. Comparar com Grosheide, First Epistle to the Corinthians, p. 109.
1 CORÍNTIOS 4.11-13
204
seguição, “estamos suportando”. Os apóstolos aprenderam a viver com
opressão num espírito de mansidão de acordo com os ensinamentos de
Cristo (ver Mt 5.5, 9-12).
d. “Quando caluniados, respondemos com palavras brandas.” O
verbo caluniar realmente significa “adulterar” ou “deturpar” as pala-
vras de alguém. A palavra transmite a idéia de obscurecer a verdade de
forma a colocar alguém em má situação. O remédio que Paulo prescre-
ve é difícil de se tomar: “respondemos com palavras brandas”.
38
À luz
da descrição de Paulo da conduta apostólica, essa tradução está de acor-
do com o contexto. Paulo está dizendo que, mesmo quando a verdade é
deturpada em mentira, ele continua a amar os seus acusadores.
e. “Nos nós tornamos o lixo do mundo, a escória de todos até ago-
ra.” A linguagem que Paulo emprega para descrever a si próprio e os
demais apóstolos é pitoresca. Ele se refere ao lixo que é removido numa
faxina completa de uma casa ou prédio. Então ele acrescenta que eles
são “a escória de todas as coisas”. Essas expressões parecem ser sinô-
nimas. Mas na literatura grega, a palavra peripsema (escória) era fre-
qüentemente empregada em relação ao sacrifício anual de criminosos
ou de pessoas deformadas. Eles eram o “lixo da sociedade”.
39
Essas
oferendas eram feitas em benefício da sociedade. Da mesma forma, os
apóstolos são representantes de Jesus, que era considerado um crimi-
noso e foi pendurado numa cruz para benefício do povo (comparar
com Jo 11.50).
Embora Jesus tenha dado a si mesmo como o supremo sacrifício
pelos pecados da humanidade, os apóstolos também sofreram fisica-
mente por causa do evangelho de Cristo. Desprezados pela sociedade e
considerados lixo, os apóstolos podiam encontrar força e conforto no
Senhor. Sabiam que durante sua vida terrena teriam de suportar a der-
risão do mundo. Em vista disso, Paulo escreve a expressão até agora.
Enquanto escrevia essa epístola em Efésios, pode muito bem ter ouvi-
38. Os tradutores diferem neste ponto: “suplicamos” (KJV, NKJV), “tentamos conciliar”
(RSV; ver NAB, Cassirer), “humildemente apelamos” (NEB). Consultar Bauer. p. 617.
39. Consultar J. I. Packer, NIDNTT, vol. 1, p. 479; Friedrich Hauck, TDNT, vol. 3, pp.
430-31; Gustav Stählin, TDNT, vol. 6, pp. 90-91. A. Hanson, “1 Corinthians 4.13b and
Lamentations 3.45”, ExpT 39 (1982): 214-15.
1 CORÍNTIOS 4.11-13
205
do algum tipo de canto ominoso da parte da população local: “Aos
leões com os cristãos!” (15.32).
40
Considerações Práticas em 4.11-13
Estatísticas revelam que a Igreja cresce numérica e espiritualmente
em países onde perseguições, injustiças, pobreza, corrupção e aflições
são comuns. Por comparação, a filiação à Igreja declina em países onde
flui riqueza e conforto. Onde vivem cercados de conforto e tranqüilidade
material, os cristãos tendem muitas vezes a esquecer os chamamentos de
Cristo. Tornam-se auto-suficientes e, embora mantendo uma aparência
religiosa, perdem seu amor por Cristo e pela mensagem da salvação.
Deveriam os cristãos, portanto, alegrar-se com a perseguição e a afli-
ção? Eles jamais deveriam buscar a perseguição pela perseguição, mas
quando são obedientes ao evangelho, são rejeitados pelo mundo e têm de
sofrer perseguições. A eles, Jesus diz: “Regozijem-se e exultem, porque é
grande o seu galardão nos céus” (Mt 5.12). Seguidores de Cristo desco-
brem que as amizades mundanas os abandonam. Sofrem mau-trato verbal
que freqüentemente é acompanhado de angústia física e mental. Na ver-
dade, lutam contra forças espirituais controladas por Satanás (ver Ef 6.12).
No entanto, eles se regozijam, pois receberão sua recompensa.
Deveriam os cristãos, então, buscar para si pobreza para estarem vi-
vos espiritualmente? Não necessariamente. Abraão é conhecido como pai
de todos os crentes, ainda assim Deus o abençoou com numerosos bens
terrenos. Da mesma forma, Jó foi tentado, provado e fortalecido em sua
fé. No entanto, Deus o abençoou com incontáveis riquezas. Riqueza ma-
terial, contudo, deve estar sempre a serviço de Cristo, mas o cristão não
deve jamais servir às riquezas. Como diz Paulo, “a avareza... é idolatria”
(Cl 3.5). Jesus ensina que um cristão deve amar a Deus de todo coração,
alma e mente, e amar o próximo como a si mesmo (Mt 22.37-40). Assim,
ele será rico em Cristo, muito embora considerado pobre pelo mundo.
Henry F. Lyte deu expressão poética ao seu desejo pessoal de seguir a
Jesus e aceitar as conseqüências:
Jesus, tomei a minha cruz,
40. G. G. Findlay, St. Paul’s First Epistle to the Corinthians, no Vol. 3 de The Expositor’s
Greek Testament, org. por W. Robertson Nicoll, 5 vols. (1910; reedição, Grand Rapids:
Eerdmans, 1961), p. 803.
1 CORÍNTIOS 4.11-13
206
Tudo deixei, para te seguir;
destituído, menosprezado, abandonado,
tu, de agora em diante, meu único bem serás;
Pereça qualquer apaixonada ambição,
Tudo o que busquei, almejei ou conheci;
Porém, como é rica minha condição:
Deus e os céus me restam ainda.
*
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 4.9-13
Versículos 9,10
ec-a ,aµ – uma afirmação parentética que significa “pois em mi-
nha opinião”; muitos manuscritos que refletem antigüidade e ampla
representação geográfica omitem a conjunção a·t (que).
·a -ca¡a – o substantivo no dativo é explicado pelos substantivos
a,,.ìcta e a|òµaictz e significa “para o mundo, igualmente a anjos e
a homens”.
41
µ¡.tz...u¡.tz – note-se, primeiro, a posição desses dois pronomes
pessoais (no começo e no final das três orações, denotando ênfase);
segundo, a sua repetição; e, por fim, sua ordem inversa na última oração.
Versículos 11,12
a,µt ·µz aµ·t aµaz – “até à presente hora”. Esse trecho (vs. 11-13)
começa e termina com uma referência ao tempo, .az aµ·t (até agora).
Exceto o aoristo passivo .,.|µòµ¡.| (nós nos tornamos) no versí-
culo 13, todo esse segmento tem todos os verbos finitos e os particípi-
os no tempo presente.
ìctecµcu¡.|ct – o particípio presente de ìctecµ.a (eu injurio) pode
ter um sentido concessivo (“embora sejamos injuriados”).
* “Jesus, I my cross have taken,/ All to leave, and follow Thee;/ Destitute, despised, for-
saken,/ Thou from hence my all shalt bee;/ Perish every fond ambition,/ All I’ve sought or
hoped or known;/ Yet how rich is my condition:/ God and heaven are still my own.”
41. A. T. Robertson, A Grammar of the Greek New Testament in the Light of Historical
Research (Nashville: Broadman, 1934), p. 788.
1 CORÍNTIOS 4.9-13
207
Versículo 13
i.µt-aòaµ¡a – esse composto de i.µt (ao redor) e o substantivo
derivado do verbo -aòaµt¸a (eu limpo) significa o resíduo da ação de
esfregar um objeto. A desinência -¡a desse substantivo denota o resul-
tado da ação.
i-¡t¢µ¡a – da preposição i-¡t e do verbo ¢aæ (esfrego, raspo), o
termo indica “o que foi raspado”.
d. Admoestação
4.14-17
14. Não escrevo estas coisas para os envergonhar, mas para
admoestá-los como a amados filhos meus.
Paulo havia censurado asperamente os coríntios, mas agora ele vol-
ta-se a eles como um pai amoroso que tem cuidado pelos seus filhos
(ver 2Co 6.13; Gl 4.19; 1Ts 2.11). Uma das coisas que as crianças mais
receiam é serem envergonhadas na presença de seus amigos. A vergo-
nha deixa uma marca indelével na mente delas, que, ao que parece,
elas são incapazes de apagar. A igreja de Corinto não quer ser desonra-
da na presença de outras igrejas na Acaia, Macedônia e Ásia Menor
(comparar com 6.5; 2Co 9.4).
Depois de uma oração negativa, “não... para os envergonhar”, Pau-
lo faz uma observação positiva, “para admoestá-los”. Ele quer que os
coríntios o escutem para benefício deles mesmos. Ele os admoesta a
prestar atenção às suas palavras, pois é o pai deles em Cristo, assim
como eles são os seus filhos. Suas palavras são palavras de um pai que,
em amor, corrige seus filhos.
42
Paulo dirige-se aos coríntios em amor
genuíno; assim, ele usa o adjetivo amados. Nos versos seguintes, ele
revela o conteúdo de sua admoestação.
43
15. Mesmo que vocês tivessem incontáveis assistentes em Cristo,
não teriam muitos pais; pois eu, pelo evangelho, tornei-me pai de
vocês em Cristo Jesus.
42. Johannes Behm, TDNT, vol. 4, p. 1022.
43. Com relação ao verbo grego nouthetein (admoestar), que é uma palavra paulina, ver
Atos 20.31; Romanos 15.14; Colossenses 1.28; 3.16; 1 Tessalonicenses 5.12; 2 Tessaloni-
censes 3.15.
1 CORÍNTIOS 4.14, 15
208
a. “Mesmo que vocês tivessem incontáveis assistentes em Cristo.”
Com certo exagero, Paulo chama a atenção para o conceito pai. Ele diz
aos coríntios: “Por um momento, suponham que, além de Apolo e de
mim mesmo, vocês tivessem sido guardados por muitos assistentes que
os tivessem conduzido a Cristo. Não obstante, sou seu pai espiritual
que primeiro lhes ensinou o evangelho”. Paulo emprega o termo pai-
dagogos, do qual se originou o termo pedagogo. Na cultura helenísti-
ca, um pedagogo era um escravo doméstico ou um homem livre que
acompanhava o filho (ou os filhos) de pais abastados até a escola e de
volta para casa. Ele era incumbido de disciplinar a criança, castigá-la
sempre que necessário, protegê-la de perigos e de más influências, e
ajudar a criança na pronúncia correta, gramática e dicção.
44
Ele ajuda-
va o menino a fazer seu dever de casa, cuidava dele quando estava
doente, e atendia às suas necessidades até que o menino alcançasse a
adolescência.
Paulo exagera propositadamente quando sugere que os coríntios te-
riam dez mil pedagogos para cuidar, castigar e corrigi-los com respeito à
conduta e à doutrina cristã. Veja que um pai que contrata um pedagogo
continua sendo responsável pela educação de seu filho. O pai era muito
mais chegado ao filho do que o pedagogo jamais poderia ser.
b. “Não teriam muitos pais; pois eu, pelo evangelho, tornei-me pai
de vocês em Cristo Jesus.” Cada pessoa pode ter inúmeros professo-
res, mas apenas um pai biológico. Dessa forma, Paulo observa que os
coríntios poderiam presumivelmente ter inumeráveis pedagogos para
conduzi-los a Cristo, mas nenhum poderia ter muitos pais espirituais.
Por dezoito meses, Paulo havia trabalhado para estabelecer a igreja em
Corinto (At 18.11). Em vista disso, poderia verdadeiramente dizer que
em Cristo Jesus ele era o progenitor espiritual da igreja de Corinto. De
uma perspectiva judaica, um mestre que ensinasse aos seus alunos a
Torá (as Escrituras do Antigo Testamento, outras literaturas sagradas
judaicas e a tradição oral) era considerado um pai.
45
Assim, Paulo afir-
mou sua autoridade apostólica com relação àqueles membros da igreja
que a questionavam.
44. Consultar Norman H. Young, “Paidagogos: The Social Setting of a Pauline Meta-
phor”, NovT 29 (1987): 150-76.
45. SB, vol. 3, pp. 340-41.
1 CORÍNTIOS 4.15
209
Se examinarmos essa questão de uma perspectiva diferente, vemos
que a igreja não produziu os apóstolos; ao contrário, Jesus Cristo capa-
citou os apóstolos, os quais saíram para fundar a igreja. Embora outros
obreiros, entre os quais estavam Timóteo, Silas, Apolo e Tito, tivessem
ido a Corinto para auxiliar no ensino e na edificação dos membros da
igreja, eles o fizeram sob a autoridade última de Paulo.
46
Por meio do
evangelho de Cristo, Paulo pode chamar a si mesmo de pai dos coríntios.
16. Portanto, eu os admoesto a que sejam meus imitadores. 17.
Por essa razão, estou mandando a vocês Timóteo, que é meu filho
amado e fiel no Senhor, o qual os lembrará dos meus caminhos em
Cristo Jesus, exatamente como eu ensino em todos os lugares em
cada igreja.
a. Imitadores. Paulo levou o evangelho aos coríntios, testemunhou
seu nascimento espiritual, ensinou-lhes o modo cristão de viver, con-
clamou-os a seguir a Cristo e demonstrou seu amor constante para com
eles. Agora, ele os chama a serem seus imitadores e a adotar seu teste-
munho pessoal de Cristo.
47
Por implicação, Paulo os conclama a imitar
a Cristo, que se revela no evangelho. Em outra parte dessa epístola, ele
escreve: “Sejam meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (11.1;
ver também Gl 4.12; Fp 3.17; 2Ts 3.7, 9). O que Paulo está tentando
dizer é que se alguém está imitando a ele, Paulo, está imitando a Cristo.
Falando como seu pai espiritual, Paulo espera que os coríntios si-
gam seu exemplo. Desde que nascem, as crianças são dependentes de
seus pais para a sobrevivência, cuidado, orientação e ensino. Elas re-
produzem o modo de vida de seus pais, aprendem verdades elementa-
res e adotam seus valores fundamentais. As crianças refletem não ape-
nas fisicamente, mas também espiritualmente a semelhança de seu pai
e sua mãe. “Quanto mais íntimo o relacionamento de pai e filho, mais
as semelhanças se desenvolvem.”
48
Esse relacionamento íntimo, ob-
viamente, se funda no amor. Paulo demonstra seu amor para com seus
46. Herman N. Ridderbos, Paul: An Outline of His Theology, trad. de John Richard de
Witt (Grand Rapids: Eerdmans, 1975), p. 450.
47. D. M. Stanley, “‘Become imitators of me’: The Pauline Conception of Apostolic Tra-
dition”, Bib 40 (1959): 859-77; Wilhelm Michaelis, TDNT, vol. 4, p. 668.
48. Willis P. De Boer, The Imitation of Paul: An Exegetical Study (Kampen: Kok, 1962),
p. 153; Eva Maria Lassen, “The Use of the Father Image in Imperial Propaganda and 1
Corinthians 4:14-21”, TynB 42.1 (1991): 127-36.
1 CORÍNTIOS 4.16, 17
210
filhos espirituais ao chamá-los de “filhos amados” (v. 14, NKJV).
b. Filhos. A maioria dos tradutores traduz o grego literalmente:
“enviei”, o que sugere que Paulo instruiu Timóteo a viajar a Corinto.
No entanto, não temos evidência de que Timóteo tenha sequer ido até
Corinto (ver, porém, 16.10,11). Por esse tempo (A.D. 55), Paulo come-
çou a escrever a Primeira Epístola aos Coríntios. Se Timóteo tivesse
estado com Paulo nessa época, esperaríamos que Paulo incluísse seu
nome nas saudações, como em 2 Coríntios 1.1.
Outros tradutores preferem a forma presente do verbo: “Estou en-
viando”. O raciocínio é que quando um escritor envia uma carta ou um
mensageiro, coloca-se no lugar dos que vão recebê-la. Para os destina-
tários, o ato de enviar ocorreu no passado. Mas do ponto de vista de
quem envia, isso acontece no presente.
“Por essa razão, estou enviando Timóteo até vocês, que é meu fi-
lho querido e fiel no Senhor”. Junto com a carta, Paulo está enviando
Timóteo aos coríntios. Timóteo aprendera a fé de sua avó Lóide e de
sua mãe Eunice (2Tm 1.5); pressupomos que ele tenha se convertido
quando Paulo e Barnabé estiveram em Listra e Derbe em sua primeira
viagem missionária (At 14.8-21). Quando Timóteo mais tarde acompa-
nhou Paulo, ele foi muitíssimo bem recomendado pelos cristãos em
Listra (At 16.1-3) e, ao que se presume, já era cristão há algum tempo.
Paulo chamou Timóteo de “meu filho amado e fiel no Senhor”.
Isso significa que Paulo considerava a si mesmo o pai espiritual de
Timóteo. Como um pai natural normalmente ama seu filho, assim Pau-
lo amava profundamente o seu filho espiritual (1Tm 1.2; 2Tm 1.2;
comparar com Fm 10). E Timóteo provou sua lealdade filial para com
Paulo no serviço ao Senhor. Sabemos do livro de Atos e das Epístolas
de Paulo que Timóteo freqüentemente completava as tarefas que o pró-
prio Paulo estivesse impossibilitado de fazer. Por exemplo, quando
Paulo teve de deixar Filipos, Tessalônica e Beréia, Timóteo foi traba-
lhar em seu lugar (AT 17.15; Fp 2.22; 1Ts 3.1-3, 6).
c. Instrução. “[Timóteo] os lembrará dos meus caminhos em Cris-
to Jesus, exatamente como ensino em todos os lugares em cada igreja.”
Como filho espiritual de Paulo, Timóteo precisa refrescar a memória
dos filhos espirituais de Paulo em Corinto. Ele devia lembrá-los da
1 CORÍNTIOS 4.16, 17
211
conduta cristã de Paulo, aqui referida como “dos meus caminhos em
Cristo Jesus”. Esses caminhos referem-se ao trabalho que Paulo reali-
zou durante sua estada entre os coríntios: ensinar, pregar, aconselhar,
formar, nutrir e orar. Compõem as atividades desenvolvidas por Paulo
em prol de Jesus Cristo e da edificação da igreja.
Paulo afirma que, muito embora não tenha visitado a igreja de Co-
rinto por algum tempo, ninguém deveria pensar que não estivesse traba-
lhando em outro lugar. Ele estivera ensinando, principalmente em Éfeso
e na província da Ásia. E seu ensino ali é semelhante ao que os coríntios
haviam recebido alguns anos antes. Além do mais, Paulo crê e defende a
unidade da Igreja de Jesus Cristo (ver 7.17; 14.33). Não há lugar, portan-
to, para divisões e doutrinas que sejam contrárias ao evangelho.
Considerações Doutrinárias em 4.14-17
Quando Paulo escreve que é o pai dos cristãos coríntios, imediata-
mente pensamos na palavras de Jesus quando proferiu seus ais contra os
fariseus: “A ninguém sobre a terra chamem de pai; porque só um é Pai de
vocês, aquele que está nos céus” (Mt 23.9). Acaso Paulo está desconside-
rando o mandamento de Jesus? Não necessariamente. As palavras de Je-
sus precisam ser entendidas dentro do contexto em que foram ditas.
Em seu discurso contra os fariseus, Jesus diz aos doze discípulos e às
multidões que rejeitem o título rabbi como um título para si próprios, pois
eles têm apenas um mestre (Mt 23.8). Então, diz a eles que ninguém os
deveria chamar de pai porque Deus é o Pai de todos eles. O termo os pais
“tornou-se uma maneira muito comum de se referir aos antigos professo-
res da lei, especialmente os grandes mestres”.
49
Jesus os admoesta contra
o uso de títulos que promovam o orgulho nas pessoas que são dessa forma
honradas. No Novo Testamento, Paulo e os demais apóstolos jamais são
chamados de pai quando outros se dirigem a eles. Quando Paulo usa a
figura de linguagem de pai e filhos, ele a qualifica dizendo: “pois eu, pelo
evangelho, tornei-me pai de vocês em Cristo Jesus” (v. 15). Não é Paulo,
mas Jesus Cristo, que é assim honrado e glorificado.
49. K. Kohler, “Abba, Father: Title of Spiritual Leader and Saint”, JQR 13 (1900-1901):
567-80; D. A. Carson, Matthew, no vol. 8 de The Expositor’s Bible Commentary, org. por
Frank E. Gaebelein, 12 vols. (Grand Rapids: Zondervan, 1984), p. 475.
1 CORÍNTIOS 4.14-17
212
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 4.14-17
Versículo 14
eus -|:¡-iæ| – a partícula negativa eus precede o particípio presente
ativo de -|:¡-iæ (eu torno [alguém] envergonhado). Normalmente, a par-
tícula ¡µ rege particípios, mas aqui o contraste das palavras eu...aììa re-
quer um abandono da regra.
50
|euò-:æ| – do verbo |euò-:-æ (admoesto), essa leitura com o particí-
pio presente é preferida ao verbo infinitivo |euò-:æ . Ambas as leituras
têm apoio equivalente nos manuscritos, contudo o uso do particípio é uma
característica predominante nos escritos de Paulo.
Versículo 15
¡u¡teu, – esse adjetivo no plural masculino acusativo não significa
“dez milhares” mas sim, “incontáveis”.
51
-a|...-,µ:- – com o verbo no subjuntivo, a oração subordinada condi-
cional expressa ceticismo. O advérbio aìì` na apódose (a segunda parte
da oração) significa “ao menos”.
-,æ u¡a, – observe-se que esses dois pronomes pessoais colocados
juntos um do outro indicam o relacionamento estreito entre Paulo e os
coríntios.
Versículo 17
-i-¡¢a – o ativo aoristo de i-¡iæ (envio) é provavelmente o aoristo
epistolar, “estou enviando”.
e, u¡a, a|a¡|µc-t – “o qual os lembrará”. Essa oração subordinada
expressa finalidade; faz paralelo com a oração “que é meu filho amado e
fiel no Senhor”.
e. Visita em Breve
4.18-21
18. Alguns se tornaram arrogantes, como se eu não estivesse
indo até vocês, 19. mas em breve irei visitá-los, se o Senhor quiser,
50. Robert Hanna, A Grammatical Aid to the Greek New Testament (Grand Rapids: Baker,
1983), p. 291.
51. Bauer, p. 529.
1 CORÍNTIOS 4.14-17
213
e então vou conhecer não a palavra daqueles que são arrogantes,
mas o poder que eles têm.
a. Arrogância. Paulo retorna à discussão da arrogância que era de-
monstrada por alguns dos coríntios (ver v. 6), pois esse pecado conti-
nua como um mal arraigado na congregação. Aparece não só na forma
de um espírito de divisão, mas também na falta de respeito para com
Paulo (ver 9.1-3; 2Co 10.9,10). Antes que ele transfira sua atenção
para questões de disciplina, Paulo uma vez mais urge tais pessoas que
são líderes arrogantes a prestarem atenção (comparar com 1.11,12;
3.3,4).
Personificado como sabedoria, o Senhor diz: “A soberba, a arro-
gância, o mau caminho e a boca perversa, eu os aborreço” (Pv 8.13b).
Esses são pecados que alguns dos coríntios cometiam (comparar com
5.2; 8.1). Paulo quer que esses coríntios orgulhosos reconheçam sua
ofensa e se arrependam, de forma que esse mal não venha a contaminar
toda a congregação.
b. Intenção. A arrogância torna uma pessoa cega para a realidade.
Os líderes arrogantes em Corinto pensavam que Paulo permaneceria
em Éfeso e não visitaria os coríntios. Eles subestimavam o cuidado
amoroso de Paulo para com a igreja e sua intenção de visitar as igrejas
na Macedônia e na Acaia (At 19.21). Paulo se lembrava diariamente
das igrejas em oração e continuava pessoalmente interessado em seu
bem-estar espiritual (1.4; Fp 1.3,4; Cl 1.3,4; 1Ts 1.2,3; 2Ts 1.3). Estava
determinado a visitá-las, ainda que esses líderes estivessem espalhan-
do o rumor de que Paulo não iria a Corinto. Sentiam-se provavelmente
seguros, pensando que a presença de Timóteo revelasse a falta de inte-
resse de Paulo em relação à igreja de Corinto. Contudo, “eles sabem
muito bem que Paulo está equipado com o poder de Deus”.
52
c. Asserção. “Em breve, irei visitá-los, se o Senhor quiser.” Paulo
fala com determinação, pois está indo de fato visitar a igreja de Corin-
to. Escreve que está para chegar em breve. Depois de viajar pela Mace-
dônia, pretende ir até Corinto e passar algum tempo ali, talvez todo o
inverno (16.5-7). Comunica-lhes, inclusive, que deixará Éfeso depois
do Pentecoste (16.8), provavelmente no ano 56 d. C.
52. Calvino, I Corinthians, p. 100.
1 CORÍNTIOS 4.18, 19
214
Paulo qualifica suas intenções com a oração subordinada condici-
onal se Deus quiser (ver também 16.7). Ele sabe que está a serviço do
Senhor, que o envia aonde quer que a presença de Paulo se fizer neces-
sária. Ele não é seu próprio senhor, mas pertence ao seu Senhor Jesus
Cristo.
d. Propósito. “E, então, vou conhecer não a palavra daqueles que
são arrogantes, mas o poder que eles têm.” Paulo não está interessado
em saber o que os seus oponentes têm a dizer, pois suas acusações
foram proferidas enquanto ele estava ausente. Ele quer conhecer que
influência esses líderes têm exercido sobre os membros da igreja. Se
esses homens estivessem cheios do Espírito Santo, teriam sido capazes
de exercer uma liderança positiva na igreja. Mas se eles estivessem
sem o Espírito Santo, não teriam a capacidade de edificar a igreja.
Paulo planeja permanecer por algum tempo em Corinto para descobrir
se tais líderes tinham sido capacitados com poder espiritual para levar
adiante a causa de Cristo.
20. Porque o reino de Deus consiste não em palavra, mas em
poder.
Nas observações finais dessa parte da carta, Paulo escolhe cuida-
dosamente suas palavras. Com o conceito reino, ele recorda o poder e
o alcance universal da ação de Deus. Antes, Paulo havia zombado dos
coríntios ao chamá-los de reis (v. 8), mas agora ele lhes ensina a doutri-
na de que Cristo governa com poder em todo o seu reino.
Essa é a primeira vez que Paulo emprega a palavra reino nessa
epístola. Embora o termo apareça principalmente nos evangelhos sinó-
ticos, também ocorre com freqüência nas epístolas de Paulo.
53
Em muitas
passagens, Paulo realça o aspecto presente do reino de Cristo. Por exem-
plo, o reino não consiste em comida ou bebida (Rm 14.17), nem em
palavra arrogante, mas em poder (1Co 4.20) e em vidas que são dignas
de Deus (1Ts 2.12). Em outros textos, ele salienta o aspecto escatológico
do reino: pessoas ímpias não o herdarão (6.9,10; Gl 5.19-21; Ef 5.5).
Em suas referências ao reino, Paulo dá a devida ênfase ao senhorio
de Jesus Cristo. “O exercício do senhorio implica o exercício de um
53. Romanos 14.17; 1 Coríntios 4.20; 6.9,10; 15.24, 50; Gálatas 5.21; Efésios 5.5; Colos-
senses 1.13; 4.11; 1 Tessalonicenses 2.12; 2 Tessalonicenses 1.5; 2 Timóteo 4.1,18.
1 CORÍNTIOS 4.20
215
domínio que está intimamente ligado à idéia de reino dinâmico visto
no ensino de Jesus.”
54
Muito embora Paulo omita o nome Jesus nesse
versículo, o reino de Deus pertence a Cristo. Toda a autoridade nos
céus e na terra lhe foi dada (Mt 28.18). No reino de Deus, portanto,
Jesus Cristo governa de maneira suprema pelo exercício do poder espi-
ritual (5.4; ver também Mc 9.1). Entramos nesse reino “somente por
causa do poder salvador de Deus, que nos transforma de um modo
maravilhoso e nos torna participantes de seu reino”.
55
21. O que vocês querem? Devo ir a vocês com uma vara ou com
amor e espírito de mansidão?
Paulo encerra seu discurso fazendo duas perguntas diretas. Na pri-
meira, interroga seus leitores sobre o que eles querem que ele faça. Na
segunda, dá a eles uma alternativa: desejam ser punidos ou amados?
Ele não faz a pergunta somente aos arrogantes, mas a toda a igreja de
Corinto. Cada um na congregação é co-responsável pelo dano que o
partidarismo e a arrogância causaram. Por causa de sua responsabili-
dade corporativa, todos agora devem responder à pergunta de Paulo.
a. “Devo ir a vocês com uma vara?” Como interpretamos a palavra
vara? Ela pode ser compreendida literalmente ou de modo figurado.
Acaso Paulo vai a Corinto como um mestre-escola ou assistente que
aplica a vara aos alunos desobedientes?
56
Essa interpretação literal se
ajustaria ao contexto em que Paulo mencionou os pedagogos ou assis-
tentes que eram incumbidos de corrigir o comportamento de crianças
(v. 15). No entanto, uma explicação figurada é válida se entendemos
que Paulo vai a Corinto com “uma palavra de poder”.
57
Paulo oferece a
alternativa de ir a Corinto com uma vara de poder espiritual que lhe foi
dada por Jesus Cristo. Ele é o representante de Cristo e, assim, está
qualificado a corrigir o povo com a autoridade da Palavra de Deus. O
Novo Testamento descreve Cristo dotado de poder absoluto, que é sim-
54. Guthrie, New Testament Theology, p. 429.
55. R. C. H. Lenski, The Interpretation of St. Paul’s First and Second Epistle to the
Corinthians (1935; Columbus: Wartburg, 1946), p. 202.
56. Carl Schneider, TDNT, vol. 6, p. 968.
57. Robert W. Funk, Language, Hermeneutic, and Word of God: The Problem of Langua-
ge in the New Testament and Contemporary Theology (Nova York, Evanston and Londres:
Harper and Row, 1966), p. 303.
1 CORÍNTIOS 4.21
216
bolizado por uma vara (Hb 1.8 [Sl 45.6]; Ap 2.27; 12.5; 19.15 [Sl 2.9]).
Cristo utiliza essa vara para a destruição final do mal.
58
b. “[Ou devo ir a vocês] com amor e espírito de mansidão?”. Se a
escolha fosse deixada para o apóstolo, ele preferiria ir como um pai
amoroso para falar a filhos arrependidos. Preferiria poupá-los a puni-
los, desde que se arrependessem (comparar com 2Co 1.23). Se os re-
preende, o faz com amor. Como já tem demonstrado por palavras e
ações, seu amor por eles é genuíno (ver o v. 14). Em harmonia com o
ensino de Cristo, o apóstolo preferiria ir até eles com brandura.
Durante seu ministério terreno, Jesus ensinou os seus seguidores a
promover um espírito de mansidão (Mt 5.5; 11.29). Por ocasião de sua
entrada triunfal em Jerusalém, ele próprio chegou mansamente caval-
gando um jumento (Mt 21.5; ver Zc 9.9), mas quando ele avistou Jerusa-
lém, chorou por ela porque os seus habitantes deixaram de reconhecer
que em Jesus Cristo o próprio Deus estava vindo até eles (Lc 19.41-44).
Assim, Jesus disse palavras de censura e de lamento (Mt 23.37-39).
Paulo agora está perguntando aos coríntios se eles querem que ele
vá e os perdoe em amor e mansidão ou os castigue no caso de eles se
recusarem a se arrepender. A escolha é deles.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 4.18-21
Versículo 18
æ, – “como se”. Essa partícula introduz um pensamento subjetivo de
alguns coríntios, a saber, “Paulo não virá”.
-|uctæòµca| – o passivo aoristo de |ucteæ (eu incho) deve ser tradu-
zido no perfeito composto: “alguns se tornaram arrogantes”.
Versículos 20,21
-| – a preposição, que ocorre duas vezes no versículo 20, exige o
dativo dos substantivos palavra e poder. É um dativo descritivo
-| ¡a¡eæ – a preposição com o substantivo no dativo denota acompa-
nhamento (“com vara”) e deve ser ligada ao verbo -ìòæ. Esse verbo no
aoristo é um subjuntivo deliberativo: “Devo ir a vocês?”
58. Margaret Embry, NIDNTT, vol. 1, pp. 163-64.
1 CORÍNTIOS 4.18-21
217
:- – essa partícula não é uma conjunção, mas uma adjunção. Ela com-
bina componentes iguais.
Sumário do Capítulo 4
Paulo ensina aos coríntios que ele e os demais apóstolos são servos
de Cristo e mordomos dos mistérios de Deus. Deus espera que eles
sejam fiéis, pois respondem a ele e não a homens. Os coríntios não
deveriam julgar os labores desses apóstolos; em vez disso, deviam dei-
xar que o Senhor os julgue, pois ele revelará os que está oculto no
coração dos homens e ele os louvará.
Paulo admoesta os coríntios a não irem além do que está escrito e
não serem arrogantes uns para com os outros. Diz a eles que tudo o que
possuem lhes foi dado, de modo que não podem se vangloriar como se
sempre as tivessem possuído. Para fazer os coríntios voltarem ao seu
juízo, Paulo serve-se de ironia, perguntando se eles são ricos e se go-
vernam como reis. A partir daí, revela como os apóstolos vivem para
Cristo e para o evangelho de Cristo. São fracos, porém fortes; têm
fome e sede; carecem de agasalho e de abrigo; realizam trabalho ma-
nual para o seu próprio sustento. São maltratados física e verbalmente,
mas mostram paciência e bondade.
Os coríntios são chamados, por Paulo, de seus filhos amados, pois
ele é o pai espiritual deles mediante o evangelho. Paulo os conclama a
seguirem o seu exemplo, diz a eles que lhes envia Timóteo para lem-
brá-los do exemplo de vida do apóstolo e que ele mesmo em breve irá
visitá-los. Conclui perguntando se desejam receber castigo ou amor e
brandura.
1 CORÍNTIOS 4
218
219
5
Imoralidade e Litígios, parte 1
(5.1-13)
220
ESBOÇO (continuação)
5.1- 6.20
5.1-8
5.1.5
5.6-8
5.9-13
5.9-11
5.12,13
B. Imoralidade e Litígios
1. Incesto
a. Um Irmão Imoral
b. Uma Ilustração Oportuna
2. Excomunhão
a. Falha na Comunicação
b. Um Julgamento
221
CAPÍTULO 5
5
1. Realmente foi noticiado que existe imoralidade em seu meio, e de tal espé-
cie que não acontece nem mesmo entre os gentios, isto é, que um homem tem
a esposa de seu pai. 2. E vocês são arrogantes! Não deveriam estar se angustian-
do? Expulsem de seu meio o homem que praticou esse ato. 3. Pois mesmo eu
estando pessoalmente ausente, mas presente em espírito, como se eu estivesse
presente, já julguei o homem que assim agiu. 4. Quando vocês se reunirem e eu
estiver em espírito com o poder de nosso Senhor Jesus, 5. no nome do nosso
Senhor Jesus entreguem esse homem a Satanás para destruição da carne, de modo
que seu espírito possa ser salvo no Dia de nosso Senhor.
6. Vocês se vangloriarem não é bom. Não sabem que uma pequena quantia de
fermento faz crescer a massa toda? 7. Joguem fora o fermento velho, para que
vocês sejam uma massa nova, sem fermento, assim como vocês são. Pois na ver-
dade Cristo foi sacrificado como nosso cordeiro pascal. 8. Portanto, vamos cele-
brar a festa, não com o velho fermento, ou seja, com o fermento da malícia e da
maldade, mas sim com o pão não fermentado da sinceridade e da verdade.
B. Imoralidade e Litígios
5.1- 6.20
1. Incesto
5.1-8
Na conclusão do capítulo anterior, Paulo havia dado aos coríntios
uma escolha: ele deveria ir a eles com uma vara ou no espírito de amor
e brandura. Deu a entender que se eles se arrependessem, ele seria para
eles um pai amoroso, caso contrário, teria de castigá-los com uma vara.
Essa conclusão serve de ponte para o novo assunto que Paulo quer
discutir com os coríntios. Ele soube que alguém na igreja cometeu o
pecado do incesto e que essa pessoa não foi repreendida pelos mem-
bros da igreja. Esse pecado hediondo à vista de Deus e do homem
222 1 CORÍNTIOS 5.1
precisa ser extirpado. Tanto o homem, por causa de seu ato de incesto,
como a igreja, por causa de sua falha em agir, são culpados de pecado.
a. Um Irmão Imoral
5.1-5
1. Realmente foi noticiado que existe imoralidade em seu meio,
e de tal espécie que não acontece nem mesmo entre os gentios, isto
é, que um homem tem a esposa de seu pai.
a. Notícia. “Realmente foi noticiado.” A primeira palavra da sen-
tença grega, holos, é um advérbio que significa “realmente”, “geral-
mente” ou “completamente”. Transmite mais o sentido de “por intei-
ro” do que universalidade
1
e significa que a história toda foi relatada.
Por ter a posição inicial na sentença, o advérbio é enfático e modifica a
expressão impessoal foi noticiado. Paulo não está interessado em reve-
lar quem foi que espalhou a notícia, ou como ele recebeu a notícia. Ele
só declara o fato e não fornece detalhes, exceto para dizer que numa
carta anterior ele havia advertido os coríntios a não se associarem com
pessoas imorais (v. 9; ver o comentário).
b. Conteúdo. “Existe imoralidade em seu meio... um homem tem a
esposa de seu pai.” Paulo faz um relatório sobre a imoralidade que diz
respeito a um membro da igreja e a esposa do pai desse homem. Não
nos é dito se a mulher é uma crente ou se o pai do homem está vivo,
mas Paulo passa a impressão de que o pai ainda vive (Gn 35.22; Am
2.7). Nos meios judaicos, a expressão esposa de seu pai significava
“madrasta”. Embora a mulher não fosse aparentada biologicamente
com o filho, contudo, por causa dos votos de casamento com o pai
dele, ela lançava o filho num pecado ao ter relações sexuais com ele.
Deus disse repetidamente aos israelitas: “Não tenham relações sexuais
com a esposa de seu pai; isso o desonraria” (Lv 18.8, 20; Dt 22.30;
27.20). Se um filho tivesse relações sexuais propositadamente com sua
madrasta, a comunidade teria de condená-lo à morte por apedrejamento.
Será que um filho estaria livre para se casar com sua madrasta se
seu pai tivesse morrido? Nos primeiros dois séculos da era cristã, al-
guns rabinos judeus condenavam o casamento de um filho prosélito
1. A SEB tem “Está sendo contado em toda parte”. Em contraste, na BJ lê-se “Foi-me
contado como fato indubitável”.
223 1 CORÍNTIOS 5.2
com sua madrasta pagã, mas outros o toleravam.
2
Será que os judeus e
os prosélitos de Corinto tinham tomado conhecimento dessa prática de
tolerância? Não sabemos. Não obstante, Paulo condena o ato e chama
a atenção para a conduta dos gentios a respeito dessa questão.
“De tal espécie que não acontece nem mesmo entre os gentios.”
3
Quando Paulo menciona a palavra gentios, ele certamente deseja indi-
car a severidade do pecado que o membro da igreja havia cometido.
Paulo faz referência aos gentios para incitar a comunidade cristã a agir,
em vez de permitir que um membro envergonhe a congregação toda.
Assim como uma maçã podre pode estragar todo o conteúdo da caixa,
assim um pecador irresponsável pode tornar toda a igreja coríntia ine-
ficaz em seu testemunho à comunidade gentia.
2. E vocês são arrogantes! Não deveriam estar se angustiando?
Expulsem de seu meio o homem que praticou esse ato.
Por que os coríntios haviam negligenciado em castigar essa pessoa
imoral e não a haviam expulsado? As palavras de Paulo são mordentes:
“Vocês são arrogantes”. No capítulo anterior ele havia declarado que
alguns dos coríntios eram arrogantes quanto ao modo de falar (4.6, 18,
19). Agora ele se dirige a todos os crentes em Corinto, porque ele sabe
que os líderes já tinham desviado outros. Eles já vêm sendo soberbos
há algum tempo e continuam a ser orgulhosos. Pensam que estão livres
para decidir não fazer nada a respeito dessa maldade (6.12; 10.23),
porque alegam possuir conhecimento superior (3.18; 8.1,2). Paulo en-
frenta a dificuldade de procurar raciocinar com pessoas a quem falta
humildade e constrangimento.
Com uma pergunta retórica que espera resposta positiva, Paulo pro-
põe: “Vocês não deveriam antes estar angustiados?” Agora que os aler-
tou sobre uma mancha sobre o corpo da igreja, ele lhes pede que come-
cem um período de lamentação. O verbo angustiar-se refere-se a en-
tristecer-se pelo pecado cometido quer pela própria pessoa ou por ou-
tros. O Antigo Testamento fornece o exemplo de Esdras, que chorava
por causa da infidelidade dos exilados. Tinham voltado a Jerusalém e
construído o templo, mas haviam se casado com mulheres estrangeiras
2. SB, vol. 3, p. 358.
3. Cícero condena o incesto: Pro Cluentio 5.11-14.
224
que pertenciam ao povo à volta deles (Ed 10.1-6).
4
Paulo diz aos corín-
tios que também entrem num período de lamentação, assim demons-
trando arrependimento com tristeza piedosa. Subseqüentemente eles
se humilharão diante de Deus, e sentirão sua presença amorosa.
Os coríntios precisam deixar seu orgulho, mostrar obediência re-
novada à lei de Deus e expulsar o homem mau da igreja. Paulo diz:
“Expulsem de seu meio o homem que praticou esse ato”. O grego indi-
ca que o homem cometeu um ato de imoralidade, não que ele continua
a praticá-lo.
Chegou o momento para a disciplina da igreja. Precisa ocorrer a
disciplina, assim como o cirurgião precisa usar o bisturi para remover
o tumor maligno do corpo do paciente. Se os coríntios não expulsarem
o homem imoral da igreja, a própria comunidade cristã será colocada
sob condenação divina (v. 13). A igreja de Jesus Cristo é caracterizada
pela santidade e deve tirar o pecador ostensivo e não arrependido, ex-
cluindo-o. Do lado inverso, excluí-lo, com o concomitante arrependi-
mento da igreja, limpa e purifica o corpo de Cristo.
3. Pois mesmo eu estando pessoalmente ausente, mas presente
em espírito, como se eu estivesse presente, já julguei o homem que
assim agiu.
a. Concessão. “Pois mesmo eu estando pessoalmente ausente, mas
presente em espírito.” Nos versículos 2 e 3, Paulo abertamente dá seu
parecer sobre a questão da imoralidade. Para ênfase, ele coloca o pro-
nome vocês do versículo 2 contraposto ao pronome eu do versículo 3.
Admite que a distância geográfica o separa dos destinatários de sua
carta, mas isso não significa que suas palavras escritas possam ser re-
cebidas de modo leviano. Ao contrário, ele está com a igreja em espíri-
to, e nesse sentido a está liderando pessoalmente. Em espírito ele toma
na mão o martelo, por assim dizer, e dirige a reunião da assembléia da
igreja local. Paulo sabe que ele e os coríntios têm de remover a mancha
da congregação. Ele faz isso por meio de oração em favor dos coríntios
e mediante sua epístola.
b. Julgamento. “Como se eu estivesse presente, já julguei o ho-
4. Bauer, p. 642. Ver também Brian S. Rosner “‘ouv ci ma/ llon ev penqh, sate’: Corporate
Responsibility in 1 Corinthians 5”, NTS 38 (1992): 470-83.
1 CORÍNTIOS 5.3
225
mem que assim agiu.” Paulo diz à congregação que ele já agiu com
respeito ao homem imoral. Fala como se estivesse em Corinto, e em
essência ele é redundante quando diz: “como se eu estivesse presente”.
Ele escreve no passado perfeito, “eu já julguei”, para indicar que to-
mou uma decisão logo que soube do pecado. “Como Paulo não fala
sobre uma ação, mas sobre uma condenação, não há dúvida nenhuma
aqui do juízo divino como no caso de Ananias e Safira.”
5
A fraseologia é enfática na cláusula o homem que assim agiu. Para
favorecer o estilo, alguns tradutores omitem a palavra assim. Algumas
traduções, no entanto, zelosamente a incluem para mostrar a ênfase
pretendida por Paulo.
6
Paulo escreve uma seqüência de três conceitos
que servem como demonstrativos (o homem, assim, agiu). No grego,
ele ressalta que o ato de pecar aconteceu no passado e tem efeitos que
perduram para a igreja.
Que ninguém pense que Paulo está longe da cena e, portanto, sem
autoridade. A Paulo não está faltando autoridade; ele quer que a igreja
aja, guiada pelo seu juízo no caso. Numa assembléia correta, a igreja
precisa excluir o homem que cometeu o crime. Paulo não determina
um procedimento detalhado para a disciplina da igreja, mas podemos
esperar que a prática de confirmar a verdade por duas ou três testemu-
nhas teria de ser seguida (ver Mt 18.15-17).
4. Quando vocês se reunirem e eu estiver em espírito com o
poder de nosso Senhor Jesus, 5. no nome do nosso Senhor Jesus
entreguem esse homem a Satanás para destruição da carne, de
modo que seu espírito possa ser salvo no dia de nosso Senhor.
a. Reunião. O objetivo das palavras de Paulo é induzir a igreja de
Corinto a eliminar esse mal de seu meio imediatamente. Ele instrui os
membros a se reunirem em assembléia e a fazer isso como se ele esti-
vesse presente. Enquanto reunidos, eles devem invocar o nome de Je-
sus, que lhes prometeu em pessoa que estaria presente onde houvesse
dois ou três reunidos em seu nome (Mt 18.20). Além disso, eles deveri-
5. F. W. Grosheide, Commentary on the First Epistle to the Corinthians: The English Text
with Introduction, Exposition and Notes, New International Commentary on the New Tes-
tament (Grand Rapids: Eerdmans, 1953), p. 121.
6. KJV, NKJV, NASB, Cassirer. Bauer traduz a combinação de assim e isso como “tão ignobil-
mente” (p. 597).
1 CORÍNTIOS 5.4, 5
226
am saber que o próprio Paulo estaria com eles em espírito. Não deveri-
am menosprezar sua presença em espírito, como se sua presença física
fosse real e sua presença espiritual ilusória. Não, não seria assim por
várias razões. Primeira, Paulo escreve repetidamente: “eu estou com
vocês”. Segunda, no grego ele emprega o adjetivo pessoal enfático meu
com o substantivo espírito. No uso idiomático em nossa língua, esse
adjetivo é omitido. Terceira, a expressão em espírito é sinônima da frase
“o poder de nosso Senhor Jesus”. Paulo fala com a autoridade apostó-
lica que Jesus lhe delegou; como apóstolo, ele exerce poder divino.
b. Traduções. Nos versículos 3, 4 e 5, Paulo escreve uma sentença
longa à qual falta fluência, o que revela tensão e agitação interior. A
dificuldade com que nos deparamos é a pontuação dessa passagem (vs.
3-5).
7
O grego original indica que esses versículos podem ser inter-
pretados como sendo uma só sentença ligada frouxamente. “Pois eu,
na verdade, como ausente no corpo, mas presente no espírito, já jul-
guei, como se estivesse presente, com respeito àquele que fez esse fei-
to, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, quando vocês se reunirem e
meu espírito, com o poder de nosso Senhor Jesus Cristo, para entregar
esse tal a Satanás para a destruição do corpo, para que o espírito possa
ser salvo no dia do Senhor Jesus” (KJV). Essa sentença única fica desa-
jeitada e deixa de comunicar a intenção de Paulo.
Os tradutores dos tempos modernos apresentam sentenças mais
curtas e introduzem pontuação apropriada. Mas mesmo assim perma-
necem numerosas dúvidas, como fica evidente nas seguintes traduções.
Como deverá ser interpretada a frase no nome do Senhor Jesus? Essa
frase pode modificar uma das quatro
8
cláusulas em itálico:
“Eu já pronunciei a sentença em nome do Senhor Jesus sobre o
homem que fez tal coisa. Quando vocês estiverem reunidos... de-
vem entregar esse homem às mãos de Satanás”. (RSV).
7. Em minha tradução, coloquei a frase em nome do nosso Senhor Jesus como parte do
versículo 5.
8. Hans Conzelmann lista seis opções e Leon Morris sete. Consulte, de Conzelmann, 1
Corinthians: A Commentary on the First Epistle to the Corinthians, org. por George W.
MacRae, trad. por James W. Leitch, Hermeneia: A Critical and Historical Commentary on
the Bible (Filadélfia : Fortress, 1975), p. 97; Morris, 1 Corinthian, ed rev., série Tyndale,
New Testament Commentaries (Leicester: Inter-Varsity: Grand Rapids: Eerdmans, 1987),
pp. 84-85.
1 CORÍNTIOS 5.4, 5
227
“Quando vocês estiverem reunidos em nome de nosso Senhor Je-
sus... entreguem esse homem a Satanás” (NIV).
“Eu, como quem está presente, já julguei aquele que fez esta coisa
em nome do Senhor Jesus. Quando vocês estiverem reunidos...
essa pessoa deve ser entregue a Satanás”.
9
“Quando vocês e meu espírito estiverem reunidos... vocês devem,
no nome do Senhor Jesus, entregar a Satanás um homem como
esse” (Cassirer).
Muitos tradutores favorecem a primeira interpretação porque Pau-
lo, embora ausente de Corinto no corpo, mas presente no espírito, fala
com autoridade em nome de Jesus. Seu veredicto, então, não é uma
opinião pessoal, e, sim, pronunciado em nome de Jesus e com a apro-
vação deste.
Inversamente, porém, faz sentido olhar uma frase no contexto do
texto grego e ligá-lo à frase mais próxima. Quando os oficiais da igreja
leram essa epístola em grego nas congregações, os ouvintes tiveram de
ligar a frase em questão ou às palavras que a precedem ou então àque-
las que a seguem. Se seguirmos esse princípio, poderemos favorecer a
segunda ou a terceira interpretação.
Muitos estudiosos endossam a segunda interpretação: “Quando
vocês se reunirem no nome de nosso Senhor Jesus, e eu estiver com
vocês em espírito com o poder de nosso Senhor Jesus”. Eles mantêm
que os crentes que se reúnem no nome de Jesus sabem que ele é o
cabeça e eles são o corpo (Ef 1.22, 23). E estes crentes sabem que onde
dois ou três estão reunidos no nome de Jesus, ele estará em seu meio
(Mt 18.20). A objeção que se faz a essa interpretação é a frase repetiti-
va de nosso Senhor Jesus. Essa frase ocorre com os substantivos nome
e poder e os torna indistinguíveis.
A terceira interpretação transmite o sentido de que o homem come-
teu o pecado sexual com sua madrasta no nome do Senhor Jesus. Mas
essa interpretação enfrenta algumas objeções. Primeiro, por causa de
variantes textuais, é difícil decidir se a interpretação deve ser nosso
Senhor Jesus ou o Senhor Jesus. Tendo em vista a fraseologia usual de
9. Jerome Murphy-O’Connor, “1 Corinthians V, 3-5”, RB 84 (1977): 245; Gerald Harris,
“The Beginnings of Church Discipline: 1 Corinthians 5”, NTS 37 (1991): 1-21.
1 CORÍNTIOS 5.4, 5
228
Paulo (“nosso Senhor Jesus”) ao longo de toda a epístola – ele quase
sempre fala de “o Senhor” sem a identificação Jesus – os estudiosos
preferem a interpretação com o pronome pessoal nosso. A seguir, pare-
ce haver uma incongruência na conduta de um filho cristão que teve
relações ilícitas com sua madrasta gentia e invocou o nome de Jesus
para justificar seu pecado. Suspeito que a última coisa que esse peca-
dor invocaria seria o nome “de nosso Senhor Jesus”. E, finalmente, se
o caso fosse esse, teríamos esperado que Paulo mencionasse o mau uso
do nome de Jesus com uma repreensão cáustica.
A quarta interpretação parece a melhor. Se ligarmos a frase prepo-
sitiva, no nome do nosso Senhor Jesus, com a cláusula entregar esse
homem a Satanás, a sentença transmite a ordem de Paulo à congrega-
ção de Corinto de expulsarem esse homem. Com exceção da frase no
nome de nosso Senhor Jesus, o versículo 4 deve ser entendido como
uma afirmação parentética. A ênfase, então, deve recair sobre o co-
mando de Paulo e a execução deste pela igreja. Os coríntios devem
obedecer a Paulo e agir com base na autoridade de Jesus. Paulo diz:
“[Eu já sentenciei]: no nome de nosso Senhor Jesus, entreguem esse
homem a Satanás”. Ele diz aos membros que quando se reunirem pre-
cisam passar a agir, pois tanto o espírito de Paulo como o poder de
Jesus estarão presentes.
10
Quando os coríntios agirem, serão ajudados
pela presença espiritual de Paulo e pelo poder de Jesus.
c. Destruição. “Entreguem esse homem a Satanás.” Traduzi o ver-
bo entregar como imperativo – o grego tem um infinitivo – para mos-
trar a severidade do caso. Entregar alguém a Satanás é semelhante à
ordem que Jesus deu aos discípulos: tratar um pecador impenitente
como um pagão ou cobrador de impostos (Mt 18.17). A ordem para
entregar alguém a Satanás tem paralelo numa outra epístola em que
Paulo escreve sobre pessoas que naufragam em sua fé: “Dentre estes
se contam Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para
serem ensinados a não blasfemar” (1Tm 1.20).
A ordem de Paulo para entregar uma pessoa a Satanás é o ato de
excomunhão. A excomunhão expurga o mal da igreja (compare com o
v. 13). Os crentes estão seguros na mão de Deus, de quem ninguém,
10. Veja G. A. Cole, “1Co 5.4 ‘com meu espírito’”, EspT 98 (1987): 205.
1 CORÍNTIOS 5.4, 5
229
nem mesmo Satanás, pode arrebatá-los (Jo 10.28, 29), mas se um peca-
dor é entregue ao príncipe deste mundo, ele enfrenta a destruição. Ele
não goza mais da proteção que uma comunidade cristã atenciosa e so-
lícita proporciona. Quando está à deriva e privado de apoio espiritual,
ele recobra seu juízo e, subseqüentemente, arrepende-se.
Do Antigo e do Novo Testamentos, respectivamente, tiramos dois
exemplos de pessoas que se arrependeram. Gômer que, como a esposa
sexualmente imoral de Oséias personifica Israel, exclama: “Irei e tor-
narei para o meu primeiro marido, porque melhor me ia então do que
agora” (Os 2.7); e o filho pródigo arrependido ao confessar que ele
pecara contra Deus e contra seu pai. Ele caiu em si depois de guardar
porcos para um gentio até mesmo no sábado do Senhor e passar muita
fome. Ele tinha quebrado o mandamento de Deus, mas confessou seu
pecado diante de Deus e, de vontade própria, retornou à casa paterna.
Nas palavras do pai, o filho perdido estava morto, mas quando voltou
ao lar estava vivo novamente (Lc 15.24, 32).
“Para a destruição da carne.” O que Paulo quis dizer com a palavra
carne? Por falta de detalhes esclarecedores, somos forçados a recorrer
a uma de duas hipóteses. A primeira é uma explicação de que a “car-
ne”, quando referente à parte vil da vida física do homem, o faz pecar.
11
Nas mãos de Satanás, esta parte de uma pessoa perece. Nós fazemos
objeção a essa explicação. Satanás só pode destruir aquilo que Deus
permite,
12
mas ele nunca conduz um pecador a Cristo e ao arrependi-
mento. Ele está determinado a levar um pecador para mais longe de
Deus. Em resumo, Satanás antes impede do que promove a causa de
Cristo. Portanto, essa explicação não merece consideração.
Preferimos a segunda hipótese. Além do ato de excomunhão, Deus
permite a Satanás atacar e aos poucos enfraquecer o corpo físico do
homem (compare com Jó 2.4-6; 2Co 12.7).
13
Paulo não se refere a uma
11. N. G. Joy, “‘Is the Body Really to Be Destroyed?’ (1 Corinthians 5.5)”, BibTr 39
(1988): 429-36; Anthony C. Thiselton, “The meaning of Sarx in 1 Corinthians 5.5: A Fresh
Approach in the Light of Logical and Semantic Factors’, SJT 26 (1973): 204-28; J. Cambi-
er, “La Chair et L’Esprit en 1 Cor. v. 5”, NTS 15 (1969): 221-32.
12. Ver, no entanto, T. C. G. Thornton, “Satan ¾ God’s agent for punishing”, EspT 83
(1972): 151-52.
13. Colin Brown, entre outros, declara que “a destruição física não é prevista” (NIDNTT,
vol. 1, p. 466).
1 CORÍNTIOS 5.4, 5
230
morte repentina (como, por ex., em Atos 5.1-10), mas sim a um proces-
so de declínio físico. Durante esse processo, o pecador tem tempo sufi-
ciente para refletir sobre sua condição e arrepender-se.
14
“Para que o espírito dele possa ser salvo.” A cláusula sobre a des-
truição da carne é gramaticalmente subordinada a essa cláusula princi-
pal de propósito. Ainda que a palavra grega pneuma (espírito) na tra-
dução possa referir-se ao Espírito Santo ou ao espírito do homem, os
tradutores compreendem o termo como se referindo não ao Espírito
divino, e sim ao espírito humano. Não obstante, uma estudiosa sugeriu
que a comunidade cristã tinha de expulsar o homem incestuoso “para
evitar ofensa à presença do Espírito Santo”.
15
É certo que a Escritura
nos ensina a não angustiar ou tolher o Espírito Santo de Deus (ver Ef
4.30; 1Ts 5.19). Mas essa não é a questão na passagem aqui. Rejeita-
mos essa interpretação por pelo menos três razões. Primeira, o versícu-
lo 5 contrasta a carne e o espírito do homem, não a carne humana e o
Espírito Santo. A seguir, Paulo declara que o espírito do homem pode
ser salvo, não que a presença do Espírito Santo pode ser conservada. E
em último lugar, nos versículos antecedentes (vs. 3 e 4), a palavra pneu-
ma ocorre duas vezes e faz referência ao espírito do homem, não ao
Espírito Santo.
A destruição da carne serve ao propósito de tornar a alma do peca-
dor novamente sã antes de ele morrer. A dádiva da salvação depende
do arrependimento, o qual ocorre durante a vida terrena da pessoa, não
depois de sua morte. A Bíblia nos ensina claramente que o arrependi-
mento precisa acontecer na terra, não no inferno. A morte física fecha
a porta irrevogavelmente a uma segunda oportunidade para o arrepen-
dimento e a salvação (Lc 16.19-31).
Contudo, Paulo escreve que o espírito do homem pode ser salvo no
Dia do Senhor, o que parece apontar para o dia do juízo. Isso não signi-
fica que o homem precisará aguardar até o fim dos tempos para poder
ser salvo. Ao contrário, Paulo quer dizer que nesta vida o pecador arre-
pendido recebe a salvação e no Dia do Senhor é contado entre aqueles
14. Frederic Louis Godet, Commentary on First Corinthians (1886; reedição, Grand Ra-
pids: Kregel, 1977), p. 257; Morris, I Corinthians, p. 86.
15. Adela Yarbro Collins, “The Functions of ‘Excommunication’ in Paul”, HTR 73 (1980):
263.
1 CORÍNTIOS 5.4, 5
231
que são glorificados. “A salvação é antes de tudo uma realidade esca-
tológica, vivenciada na vida presente, com certeza, mas que terá seu
cumprimento pleno no Dia do Senhor.”
16
A frase o dia do Senhor tam-
bém pode se referir a mais do que o fim dos tempos, quando o julga-
mento ocorrerá. Pode significar também um período singular durante o
qual o povo de Deus se regozijará no Senhor. Os profetas do Antigo
Testamento entendiam a frase com o sentido de um tempo durante o
qual Deus reivindica a vitória sobre o mundo e seu povo triunfa com
ele (Is 2.11, 17-20; Zc 14.7).
Na sua infinita sabedoria para levar um pecador ao arrependimen-
to, Deus usa vários meios e métodos (ver 11.32; 1Pe 4.6). Deus está
interessado na salvação da alma do homem.
“No Dia de nosso Senhor Jesus.” Paulo espera que, ainda que Sata-
nás destrua o corpo físico, o espírito do homem possa ser salvo no dia do
juízo. Resta saber se esse homem foi restaurado física e espiritualmente.
17
Considerações Práticas em 5.3-5
Quando os israelitas entraram em Canaã e venceram Jericó, Acã trans-
grediu a ordem dada por Deus ao se apoderar de itens dedicados a Deus.
As pessoas o apedrejaram e assim foi removida a ira de Deus contra o
pecado (Js 7.25,26). Deus chama seu povo para ser um povo santo.
Na igreja de Jerusalém, Ananias e Safira propositadamente tentaram
enganar o Espírito Santo. Pedro pôs a descoberto o engano que pratica-
ram, e Deus os removeu da comunidade cristã tirando a vida deles (At
5.1-11). Deus quis que os seguidores de Jesus honrassem a verdade.
Paulo pôs diante da igreja coríntia o comportamento incestuoso de
um de seus membros. Com uma ordem direta, ele instruiu os membros a
expulsarem o homem da igreja no nome do Senhor. A excomunhão do
homem consistia em ser entregue às mãos de Satanás. Paulo encarrega a
igreja de se limpar da maldade e da vileza e abraçar as virtudes da sinceri-
dade e da verdade (v. 8).
16. Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians, New International Commentary
on the New Testament series (Grand Rapids, Eerdmans, 1987), p. 213.
17. Consultar E. Fascher, “Zu Tertullians Auslegung von 1 Kor 5, 1-5 (De Pudicitia c. 13-
16)”, ThLZ 99 (1974): 9-12; Brian S. Rosner, “Temple and Holiness in 1 Corinthians 5”,
TynB 42.1 (1991): 137-45.
1 CORÍNTIOS 5.3-5
232
Se Paulo não tivesse agido fortemente para excluir esse homem da
igreja, o pecado dele teria continuado a infetar a congregação inteira. A
conduta imoral do homem apresentava uma ameaça direta à existência da
própria igreja. Os cristãos vivem numa casa de vidro, por assim dizer, e o
mundo está livre para observá-los. Quando a igreja deixa de reprimir um
pecado que o mundo condena, ela já se tornou ineficaz.
Em nossa cultura, observamos um crescimento rápido de seitas, cul-
tos e religiões que não são o Cristianismo. A razão dessa expansão feno-
menal é a falta de credibilidade da Igreja. Seus padrões de moralidade não
se comparam favoravelmente àqueles de outras religiões. Para muitas pes-
soas, a Igreja se tornou uma impostura: elas vêem uma Igreja na qual
alguns líderes são corruptos, onde a disciplina é frouxa e onde a excomu-
nhão se tornou uma prática obscura.
A Igreja hoje deve tratar seriamente com o pecado. Ela precisa procu-
rar levar os ofensores ao arrependimento e à salvação ou então recorrer à
excomunhão. Em palavras e ações, ela deve demonstrar um ódio intenso
ao pecado e um desejo sincero de santidade. Essa santidade exige amor
ardente para com Jesus Cristo e obediência total a seus mandamentos.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 5.1-5
Versículo 1
eìæ, – o advérbio que significa “inteiramente” (até mesmo, realmen-
te) aparece no início da sentença para ênfase, e modifica o verbo aseu-:at
(é noticiado) que no tempo presente é iterativo.
:etau:µ ie¡|-ta – o adjetivo denota severidade (“de tal espécie”); o
substantivo, que ocorre duas vezes, normalmente significa “fornicação”,
mas nesse contexto significa “incesto”. A cláusula æc:- é mais explicativa
do que cláusula de resultado ou mesmo de propósito.
18
:t|a – a posição desse pronome indefinido (“alguém”) é singular;
está colocado entre ,u|atsa (esposa) e :eu ia:¡e, (do pai) e dá ênfase aos
dois substantivos.
19
18. C. F. D. Moule, An Idiom-Book of New Testament Greek, 2ª ed. (Cambridge: Cam-
bridge University Press, 1960), p. 140. Bauer a lista como cláusula de resultado (p. 900).
19. Friedrich Blass e Albert Debrunner, A Greek Grammar of the New Testament and
Other Early Christian Literature, trad. e rev. por Robert Funk (Chicago: University of
Chicago Press, 1961), nº 473.1.
1 CORÍNTIOS 5.1-5
233
Versículo 2
sat u¡-t, – a posição enfática do pronome com a conjunção (“e vo-
cês”) é equilibrada pela expressão introdutória -,æ ¡-| ,a¡ (pois eu) no
versículo 3. A partícula eu,t é parte de uma pergunta retórica que pede
resposta afirmativa.
t |a – embora essa partícula geralmente introduza uma cláusula de
propósito, aqui uma estrutura imperativa faz sentido. Sendo assim, t |a
tem imperatividade.
i¡a,a, – as evidências dos manuscritos se dividem quase igualmente
para o uso desse particípio aoristo ou para ietµca,. Ambos os particípios
têm o mesmo sentido nesse versículo, de modo que a escolha é realmente
difícil.
Versículo 3
-,æ ¡-| – como primeira palavra da sentença, esse pronome pessoal é
enfático. A partícula ¡-| subsiste sozinha e não é equilibrada por um e-
correspondente. O particípio presente aiæ| (estar ausente) denota con-
cessão (“embora”). Sua contraparte é ia¡æ| e- (no entanto presente).
Versículos 4,5
µ¡æ| – a evidência de manuscritos para esse pronome pessoal parece
favorecer sua inclusão em vez de sua omissão. A presença da palavra
X¡tc:eu logo em seguida ao substantivo `lµceu continua problemática,
porque provas externas dos manuscritos gregos são fortes tanto a favor da
inclusão como da exclusão.
20
Existe a possibilidade de que um escriba
tenha acrescentado a palavra para dar peso adicional à frase em nome do
Senhor Jesus Cristo.
cu|a,ò-|:æ| u¡æ| – o particípio aoristo passivo do verbo composto
cu|a,æ (eu reúno) constitui a construção genitiva absoluta que se estende
até a frase seguinte (:eu -¡eu i|-u¡a:e,, e meu espírito).
ia¡aeeu|at – o infinitivo aoristo que denota ação única toma o lugar
de um imperativo: entreguem!
20. Bruce M. Metzger, A Textual Commentary on the Greek New Testament, 3ª ed. corri-
gida (Londres and Nova York: United Bible Societies, 1975), p. 550.
1 CORÍNTIOS 5.1-5
234
b. Uma Ilustração Oportuna
5.6-8
Nos versículos anteriores, Paulo explicou a base para sua sentença
de excluir o irmão pecador da comunidade cristã. Ele agora acrescenta
uma ilustração vívida tirada da vida diária: o processo de fazer pão.
Paulo usa o exemplo do fermento que permeia toda a massa e pode
contaminá-la se contiver bactérias nocivas. Mas para ilustrar o que tem
em mente, primeiro ele precisa lembrar aos coríntios a jactância peca-
minosa deles.
6. Vocês se vangloriarem não é bom. Não sabem que uma pe-
quena quantia de fermento faz crescer a massa toda?
Em poucas palavras, Paulo repete o que havia dito antes (ver v. 2).
Ele repreende os coríntios pela sua arrogância em não remover o peca-
dor de seu meio. Já lhes havia dito que não se gloriassem nos homens
e sim no Senhor (comparar com 1.31; 3.21; 4.7). Ele quis humilhá-los
mostrando-lhes a realidade de sua situação e a seriedade do pecado.
João Calvino comenta: “Pois eles eram tão orgulhosos como se esti-
vessem vivendo nas condições de uma Idade de Ouro, quando na reali-
dade estavam rodeados por muitas coisas vergonhosas e impróprias”.
21
Se os cristãos coríntios não agirem rapidamente, o mal da imorali-
dade em seu meio os destruirá a todos. Paulo se refere a fermento (tam-
bém chamado de levedo), que no seu tempo consistia de massa retida
da hora da última fornada. Era acrescentado um líquido a uma parte
dessa massa, que era então misturada com farinha para dar início ao
processo de fermentação. Mas se o fermento estivesse contaminado
por bactérias nocivas, isso ameaçaria a saúde física das pessoas que
comessem o pão. Portanto, o ciclo teria de ser bruscamente quebrado
pela rejeição do fermento. A ilustração do fermento contaminado trans-
mite a idéia de sua ampla penetração (ver Gl 5.9) e seu potencial para
levar a resultados danosos. Os cristãos em Corinto, e especialmente aque-
les de descendência judaica, sabiam que por ocasião da celebração da
Páscoa, cada pedacinho de fermento tinha que ser removido dos lares, e
que por uma semana inteira o povo judeu comia pão sem fermento (ver
21. João Calvino, The First Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians, série Calvin’s
Commentaries, trad. de John W. Fraser (reedição.; Grand Rapids: Eerdmans, 1976), p. 109.
1 CORÍNTIOS 5.6
235
Êx 12.15). Além disso, pelos ensinos de Jesus, os cristãos judeus de
Corinto sabiam que o fermento muitas vezes simbolizava o mal.
22
A segunda parte do versículo 6 é uma pergunta retórica que exige
uma resposta afirmativa. Naturalmente, os coríntios conheciam bem os
resultados de fermento infectado. Sabiam que a quantia de fermento era
relativamente pequena em comparação com a quantidade de massa. Quan-
to mais um escândalo sexual “de tal espécie que não acontece nem entre
os gentios” (v. 1) corromperia a comunidade cristã em Corinto!
7. Joguem fora o fermento velho, para que vocês sejam uma
massa nova, sem fermento, assim como vocês são. Pois na verdade
Cristo foi sacrificado como nosso cordeiro pascal.
a. “Joguem fora o fermento velho.” A primeira sentença desse ver-
sículo parece revelar uma contradição inerente. Paulo ordena que os
coríntios se livrem do velho fermento e ao mesmo tempo afirma que
eles são “uma nova massa, sem fermento”. Mas o fermento deve ser
interpretado simbolicamente nesse contexto. O fermento representa o
mal. Assim como os judeus tinham de remover o fermento velho de
suas casas e comer pão sem levedura por uma semana inteira, assim os
coríntios devem expurgar o mal de seu meio. Quando Paulo diz que
eles são sem levedo, ele quer dizer que foram santificados por Cristo
(1.2; 6.11) e chamados para viverem vidas santas. Paulo enfatiza o
positivo e faz o negativo subordinado ao positivo, isto é, a santificação
deles em Cristo Jesus deve sem demora motivar os coríntios a remove-
rem o mal de seu meio. Paulo quer que a igreja coríntia se limpe, do
mesmo modo que os judeus limpavam seus lares de toda partícula de
fermento uma vez por ano.
b. “Para que vocês sejam uma massa nova.” A remoção do fermento
velho dos lares israelitas no Egito ocorreu na pressa e simbolizava sua
libertação da escravidão (Êx 12.33,34, 39). Semelhantemente, expurgar
o velho fermento da igreja coríntia deve ser feito depressa; simboliza
ficar livre da escravidão do pecado, especificamente do pecado da parte
incestuosa. Antes de celebrar a festa da Páscoa, os israelitas tinham de
limpar toda e qualquer partícula de fermento de suas casas, porque o pão
22. Mateus 16.6, 11; Marcos 8.15; Lucas 12.1. A parábola do fermento é uma exceção
(Mt 13.33; Lc 13.21).
1 CORÍNTIOS 5.7
236
pascal tinha de ser sem levedura. Assim também os cristãos em Corinto
tinham de remover todo e qualquer traço de mal de seu meio e demons-
trar que são “uma nova massa”, isto é, um povo novo em Cristo.
23
c. “Pois na verdade Cristo foi sacrificado como nosso cordeiro pas-
cal.” Paulo compacta uma grande quantidade de teologia numa senten-
ça bastante curta.
24
E como ele coloca essa sentença, não num contexto
teológico, mas sim numa passagem relacionada à disciplina, ele é con-
ciso. A imagem da matança do cordeiro pascoal na véspera da ceia da
Páscoa e a morte de Cristo na cruz deve ter surgido bastante natural-
mente à mente de Paulo.
25
Ele lembra aos coríntios: os israelitas tive-
ram de remover fermento de seus lares antes que pudessem comer o
cordeiro pascal. Eles então matavam o cordeiro e passavam o sangue
dele nas ombreiras e na verga porta (Êx 12.7,13). Mas quando Cristo
foi crucificado, ele, como Cordeiro de Deus, tornou-se o sacrifício su-
premo e final para o povo de Deus (Hb 9.26). Ele removeu o pecado do
mundo (Is 53.5,6; Jo 1.29). Seu povo é santificado por causa de sua
morte na cruz. Trazendo à mente essa perspectiva teológica, Paulo es-
pera que os coríntios façam uma aplicação prática e removam o pecado
rapidamente de seu meio.
Num sentido espiritual, os cristãos podem celebrar a Páscoa. Seu
pecado foi expurgado por meio da morte sacrificial de Cristo.
26
Os
seguidores de Cristo são salvos da morte eterna pelo sangue do cordei-
ro pascal morto no Gólgota. Os cristãos são libertos do peso da culpa e
receberam o dom da vida eterna.
Será que, nessa passagem, Paulo dá uma referência cronológica
que nos ajuda a datar a epístola? Não, porque com exceção da referên-
cia ao Pentecostes (16.8), essa epístola não tem qualquer espécie de
cronologia. Dessa passagem não podemos deduzir que Paulo estava
para celebrar a Páscoa judaica em Éfeso. Isso seria colocar algo no
texto em lugar de extrair algo dele.
23. Consultar Jean Héring, The First Epistle of Saint Paul to the Corinthians, trad. por A.
W. Heathcote; P. J. Allcock (Londres: Epworth, 1962), p. 36; SB, vol. 3, pp. 359-60.
24. Dean O. Wenthe, “An Exegetical Study of 1 Corinthians 5.7b”, Springfielder 38 (1974):
134-40.
25. Donald Guthrie, New Testament Theology (Downers Grove: Inter-Varsity, 1981), p. 464.
26. Veja J. K. Howard, “‘Christ Our Passover’: A Study of the Passover-Exodus Theme in
1 Corinthians”, EvQ 41 (1969): 97-108.
1 CORÍNTIOS 5.7
237
8. Portanto, vamos celebrar a festa, não com o velho fermento,
ou seja, com o fermento da malícia e maldade, mas sim com o pão
não fermentado da sinceridade e da verdade.
a. Negativo. “Vamos celebrar a festa não com o velho fermento, ou
seja, com o fermento da malícia e da maldade.” Paulo não está pedindo
que os cristãos coríntios observem a celebração judaica da Páscoa. Se
estivesse pedindo que fizessem isso, ele estaria negando a importância
da expiação de Cristo. E mais, estaria pedindo aos gentios para se tor-
narem judeus antes que ele pudesse aceitá-los como cristãos. Nem está
Paulo dizendo que os coríntios devem celebrar a Ceia do Senhor, por-
que num capítulo subseqüente (11.17-34) ele lhes ensinará a respeito
da Santa Comunhão. Não. Paulo está falando figuradamente sobre a
alegria que os cristãos sentem por saber que estão limpos do pecado.
Essa exortação implica celebrar nossa liberdade em Cristo Jesus, pôr
em ação nossa própria salvação (Fp 2.12) e consagrar-nos para fazer
sua vontade (Rm 12.1,2; 1Pe 2.5).
A exortação para celebrar uma vida de obediência à vontade de
Cristo exclui o fermento velho, isto é, a malícia e a maldade. As ex-
pressões malícia e maldade são explicações do termo fermento velho,
que em si descreve a natureza velha e pecaminosa da pessoa. O homem
não-convertido é caracterizado pelos pecados da inclinação para o mal
e a maldade. A inclinação para o mal é a disposição pecaminosa de
uma pessoa e a maldade é o exercício sinistro dessa disposição. No
grego, Paulo escreve a palavra poneria (maldade), que se refere às
atividades do diabo.
b. Positivo. “[Vamos celebrar a festa] com o pão não fermentado
da sinceridade e da verdade.” A linguagem que Paulo emprega é incon-
fundivelmente metafórica. Ele insiste com os leitores para que obser-
vem a festa de consumir “pão sem fermento”, o que significa pão que
não está contaminado e permeado pela maldade. Este “pão” do qual os
coríntios devem se nutrir consiste de “sinceridade” ou pureza de men-
te. Quando Paulo escreve sinceridade, ele propõe o oposto da expres-
são inclinação para o mal. A pureza de mente é um componente, um
recurso do crente santificado, cujo propósito é amar o Senhor e amar
seu próximo como a si mesmo.
Ainda mais, o termo verdade é o inverso de maldade. O próprio
1 CORÍNTIOS 5.8
238
Jesus se chama de “a verdade” (Jo 14.6), mas ele descreve o diabo
como sendo o maligno (Mt13.19) e o pai da mentira (Jo 8.44). Numa
passagem anterior, Paulo havia dito aos cristãos coríntios que eles têm
comunhão com Cristo (1.9). Agora ele lhes diz para comer o pão da
verdade, o que significa que devem viver uma vida nova, não mancha-
da pelas más influências da impureza e da duplicidade.
27
Em vez de instruir os coríntios a adotarem padrões exclusivos de
moralidade, Paulo chama a atenção deles para a verdade em Cristo.
Com essa verdade, eles são capazes de viver em harmonia com todos
os preceitos de Deus, inclusive os princípios morais.
28
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 5.7,8
Versículo 7
-ssaòa¡a:- – o aoristo imperativo ativo do verbo composto -ssaòat¡æ
(eu limpo). O composto é mais perfectivo (completo) do que diretivo.
|-e| – nesse contexto o adjetivo transmite a idéia de uma quebra com
o antigo para ser completamente novo. O adjetivo sat|e| significa que o
novo existe juntamente com o antigo (por ex., o Novo Testamento).
Versículo 8
æc:- -e¡:a,æ¡-| – aqui a partícula não introduz uma cláusula de re-
sultado, mas é inferencial e significa “portanto”. O verbo no presente do
subjuntivo ativo é exortativo (“celebremos”) e sugere ação contínua.
¡µe- – literalmente, “e não”. Essa partícula deve ser entendida como
uma explicação do termo fermento velho.
9. Já lhes escrevi em minha carta para não se associarem com pessoas imo-
rais. 10. Eu me referia não a pessoas imorais deste mundo, nem a pessoas ganan-
ciosas e trapaceiras ou idólatras, porque então vocês teriam de deixar este mundo.
11. Mas agora eu lhes escrevo para não se associarem com alguém que, embora se
chame irmão, seja uma pessoa imoral ou gananciosa, ou um idólatra ou difamador
ou beberrão ou trapaceiro. Com uma pessoa assim nem mesmo comam! 12. Pois
que direito tenho de julgar aqueles que estão fora [da igreja]? Vocês não julgam
aqueles que estão dentro? 13. Mas Deus julgará aqueles que estão fora.
27. Anthony C. Thiselton, NIDNTT, vol. 3, p. 886.
28. Consultar Ralph P. Martin, New Testament Foundations: A Guide for Christian Stu-
dents. 2 vols. (Grand Rapids: Eerdmans, 1975), vol. 2, p. 397.
1 CORÍNTIOS 5.7, 8
239
“Expulsem o homem mau de seu meio”.
2. Excomunhão
5.9-13
Pelas duas epístolas paulinas à igreja coríntia, ficamos sabendo
que Paulo escreveu duas cartas adicionais que não mais existem. Antes
de redigir 1 Coríntios, ele já enviara à congregação uma epístola com
uma mensagem a respeito de imoralidade (5.9). E antes de compor 2
Coríntios, ele mandou à igreja uma epístola que pode ser chamada “a
carta pesarosa” (2Co 2.4), e que parece ser diferente de 1 Coríntios. Ao
todo Paulo enviou quatro comunicados a Corinto (ver a Introdução).
a. Falha na Comunicação
5.9-11
9. Já lhes escrevi em minha carta para não se associarem com
pessoas imorais. 10. Eu me referia não a pessoas imorais deste mun-
do, nem a pessoas gananciosas e fraudulentas ou idólatras, porque
então vocês teriam de deixar esse mundo.
a. “Já lhes escrevi em minha carta.” Por várias razões não podemos
presumir que Paulo esteja se referindo a essa epístola. Primeira, além
de mencionar o homem incestuoso, ele ainda não disse nada sobre pes-
soas imorais. A seguir, a frase eu lhes escrevi em minha carta (literal-
mente, na carta) sugere algo acontecido no passado; o versículo 11,
“Mas agora eu lhes escrevo”, indica um contraste evidente. E, final-
mente, Paulo escreveu muitas cartas que não se tornaram parte do Novo
Testamento (16.3; 2Co 10.10). Conseqüentemente, entendemos que
Paulo se refere a uma carta anterior que não foi preservada.
b. “A não se associarem com pessoas imorais.” Tudo que nos resta
da epístola anterior de Paulo é a cláusula que temos aqui, que no grego
consiste de apenas três palavras e em nossa língua tem no mínimo cin-
co: “Não se associem com fornicadores”. A cláusula reflete a preocu-
pação de Paulo pelos leitores que vivem na cidade imoral de Corinto.
Faltam-nos informações adicionais sobre o conteúdo da breve carta de
aconselhamento que Paulo escrevera, mas pelas observações que se-
guem, concluímos que os coríntios o haviam entendido mal. Agora ele
explica o que tinha em mente, embora numa sentença desajeitada cujo
sentido é mais bem transmitido numa paráfrase.
1 CORÍNTIOS 5.9, 10
240
c. “Eu me referia não
29
a pessoas imorais deste mundo, nem a pes-
soas gananciosas e fraudulentas ou idólatras.” As comunicações escri-
tas freqüentemente ficam abertas a mal-entendidos. O escritor preten-
de uma coisa, mas o leitor entende outra. Num diálogo oral, uma pes-
soa pode pedir esclarecimento e então receber uma resposta imediata.
Isso não acontece com a correspondência escrita, na qual as demoras
são comuns e esperadas. A falta de clareza, pois, torna-se um empeci-
lho enorme à compreensão. Os coríntios entenderam que a carta inicial
de Paulo lhes dizia que não se associassem com pessoas sexualmente
imorais do mundo – os indivíduos da praça do mercado, das oficinas
de trabalho e da arena de esportes. Os leitores haviam posto de lado a
carta porque reconheceram que a ordem de Paulo não poderia ser im-
plementada. Neste mundo imperfeito, os cristãos não podem se apartar
inteiramente de pessoas imorais; isso equivaleria a deixar este mundo
(mas veja João 17.14-18).
No entanto, Paulo não queria dizer que os coríntios deveriam se
separar completamente de pessoas sexualmente imorais. Ele quis di-
zer: não se envolvam com essas pessoas! (comparar com 2Ts 3.14).
Ele pretende que os cristãos coríntios não se associem com um irmão
membro da igreja que pratica atos sexualmente imorais. Ele lhes disse
que expulsassem essa pessoa de seu meio. Sua objeção é à presença do
homem incestuoso na igreja coríntia, e por essa razão escreve a frase
imoralidade sexual quatro vezes (vs. 1, 9, 10, 11). Deduzimos que na
carta anterior ele se expressara com um termo geral, “pessoas imo-
rais”, mas aqui ele é direto em seu uso do singular: “uma pessoa imo-
ral” (v. 11).
O catálogo de vícios (ganância, fraude, idolatria) na verdade é
uma extensão da proibição de Paulo para não se associar com pessoas
que cometem imoralidade sexual.
30
Os pecados nessa lista mais longa
têm que ver com servir a qualquer ídolo em lugar do Deus vivo. Pesso-
as gananciosas e trapaceiras servem não a Deus, e sim ao Dinheiro (Mt
29. “Naturalmente não estava me referindo às pessoas em geral que são...” (REB). Bauer
tem “de modo algum” (p. 609) e Thayer, “não inteiramente” (p. 476), mas essas duas últi-
mas traduções falham em comunicar.
30. Peter S. Zaas. “Catalogues and Context: 1 Corinthians 5 and 6”. NTS 34 (1988): 622-
29.
1 CORÍNTIOS 5.9, 10
241
6.24; Lc 16.13), e Jesus revela a impossibilidade de servir aos dois ao
mesmo tempo. Paulo chama a pessoa gananciosa especificamente de
idólatra (Ef 5.5; ver Gl 5.20; Cl 3.5) que não herdará o reino de Deus.
Essas pessoas não fazem parte do reino, e sim do mundo.
d. “Porque então teriam que deixar este mundo.” Se um cristão
quisesse se separar de pessoas mundanas, teria de deixar totalmente a
sociedade humana. Segundo a parábola de Jesus, o trigo e o joio cres-
cem juntos no campo até a ceifa. Então o mato será lançado no fogo e
o trigo armazenado no celeiro (Mt 13.30). No presente, porém o crente
tem de viver ao lado do incrédulo.
11. Mas agora eu lhes escrevo para não se associarem com nin-
guém que, embora se chame irmão, seja uma pessoa imoral ou
gananciosa, ou um idólatra ou difamador ou beberrão ou trapa-
ceiro. Com uma pessoa assim nem mesmo comam!
a. “Mas agora eu lhes escrevo.” O adversativo mas contrasta as
primeiras palavras aqui com o versículo 9, onde Paulo faz alusão a
uma carta anterior. Paulo está dizendo: “Se alguém duvidou do teor da
carta anterior, será impossível não entender o sentido daquilo que trans-
mito agora”.
31
Eu explico o advérbio agora como sendo uma referên-
cia à condição presente da igreja coríntia; ele se relaciona ao momento
e à questão a respeito do homem incestuoso.
32
b. “Não se associem com ninguém que, embora se chame irmão,
seja uma pessoa imoral.” Em sua epístola anterior, Paulo havia escrito
a expressão coletiva pessoas imorais¸ mas no presente contexto a pala-
vra significa “uma pessoa imoral”.
Descrever alguém que é sexualmente imoral como sendo um ir-
mão é uma contradição. Esses dois conceitos são mutuamente exclusi-
vos. Mas Paulo qualifica sua declaração dizendo que o homem imoral
se dizia um irmão. Contudo essa pessoa, por causa de seu pecado, não
pode pertencer à comunidade cristã e é excluída do reino de Deus. Suas
ações contradizem tudo o que a Igreja ensina. Se ela permanecer dentro
da comunhão cristã, a Igreja não poderá mais ser chamada de cristã.
31. G. G. Findlay, St. Paul’s First Epistle to the Corinthians, no vol. 3 de The Expositor’s
Greek Testament, org. por W. Robertson Nicoll, 5 vols. (1910; reedição, Grand Rapids:
Eerdmans, 1961), p. 812.
32. Bauer tem como as coisas estão agora (p. 545).
1 CORÍNTIOS 5.11
242
c. “Uma pessoa gananciosa, ou um idólatra.” Paulo se repete nessa
lista prolongada de pecados. Não obstante, ele quer que os coríntios
saibam que a imoralidade sexual não é o único pecado que a comuni-
dade cristã condena. A condenação da ganância e da idolatria aparente-
mente diz respeito à condição social da antiga Corinto. Devido ao co-
mércio e transporte de mercadorias, e o influxo de viajantes de outros
países, o dinheiro reinava supremo. O amor ao dinheiro invariavel-
mente leva à adoração de ídolos – qualquer que seja o ídolo.
Com freqüência, Paulo advertia os cristãos a não participarem de
cultos a ídolos. A palavra idólatra ocorre quatro vezes nessa epístola
(5.10, 11; 6.9; 10.7) e uma vez em Efésios 5.5 (ver também Ap 21.8;
22.15).
33
Essa advertência repetida revela a ansiedade de Paulo com
respeito ao culto aos ídolos, que ele considerava um pecado ostensivo
e uma homenagem aos poderes demoníacos.
34
d. “Um difamador ou beberrão ou trapaceiro.” Dois vícios adicio-
nais mencionados aqui são a difamação e a embriaguez; Paulo havia
mencionado a fraude ou trapaça no versículo anterior (v. 10). A lista de
pecados que ele fez nessa passagem se assemelha a alguns dos manda-
mentos do Decálogo: não praticarás a idolatria, não fornicarás, não
furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás (Êx 20.1-17; Dt
5.6-21). Paulo não segue a seqüência dos Dez Mandamentos; ele enfa-
tiza os pecados que eram comuns na cultura daquele tempo; ele omite
o mandamento para não cometer assassínio.
Com respeito ao consumo de vinho, nem o Antigo nem o Novo
Testamento em parte alguma prescreve uma abstinência total. Somen-
te aqueles que eram constrangidos pelo voto nazireu (Nm 6.3,4) e al-
guns outros receberam a ordem de abster-se (Lv 10.9; Jr 35.6, 8, 14; Ez
44.21). As Escrituras, no entanto, denunciam o beberrão e o avisam
sobre as conseqüências espirituais de sua intemperança (por ex., 6.10).
e. “Com pessoa assim nem mesmo comam!” Numa sociedade ori-
ental, normas estabelecidas de hospitalidade não podiam ser quebra-
das. Não oferecer comida a um parente, a um conhecido, a um amigo,
33. O substantivo idolatria aparece quatro vezes no Novo Testamento (1 Co 10.14; Gl
5.20; Cl 3.5; 1Pe 4.3).
34. Friedrich Büchsel, TDNT, vol. 2, p. 380; Wilhelm Mundle, NIDNTT, vol. 2, p. 286.
1 CORÍNTIOS 5.11
243
ou a um hóspede poderia ser interpretado como declaração de guerra.
A parábola do amigo à meia-noite indica que um anfitrião estaria dis-
posto a incorrer no desagrado de um vizinho no esforço de obter comi-
da para seu hóspede (Lc 11.5-8).
3 5
Numa inversão das normas estabe-
lecidas, Jesus muitas vezes comeu com cobradores de impostos e peca-
dores e era chamado amigo deles (Mt 11.19; Lc 15.2) – e escandaliza-
va os líderes religiosos. Então, qual é o objetivo dessa ordem de Paulo?
A questão diz respeito à disciplina da Igreja. Jesus instruiu seus
seguidores sobre o procedimento que prescreve para a excomunhão
poder resultar numa separação completa entre a comunidade cristã e o
pecador ofensivo (Mt 18.17). O pecador é uma mancha na integridade
da Igreja (comparar com 2Pe 2.13; Jd 12). Tal pecador deve ser exclu-
ído da comunhão dos cristãos. Então ele poderá se conscientizar do
erro de seu caminho, arrepender-se e voltar à fé (comparar com 2Ts
3.14,15). Em contraste, os cristãos poderiam seguir os costumes soci-
ais aceitos comendo com não-cristãos.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 5.9-11
Versículo 9
-,¡a¢a – este não é o aoristo epistolar, e sim o tempo passado do
verbo escrever (ver Rm 15.15).
Tanto no versículo 9 como no 11, o composto do infinitivo médio no
presente cu|a|a¡t,|ucòat (associar-se) é usado como imperativo numa
estrutura indireta de comando.
Versículo 10
eu – essa combinação parece significar: “Não estou me referindo a
pessoas imorais em geral”.
36
:eu sec¡eu – a primeira ocorrência significa o mundo secular, a se-
gunda, o mundo inteiro.
sat – as edições gregas, incluindo a Nestlè-Aland, a British and Fo-
reign Bible Society e a Merk tem a leitura sat, que liga os dois substanti-
35. Veja Simon J. Kistemaker, The Parables of Jesus (Grand Rapids: Baker, 1980), p.
177.
36. Blass e Debrunner, Greek Grammar, nº 433.2.
1 CORÍNTIOS 5.9-11
244
vos iì-e|-s:at, (indivíduos cobiçosos) e a ¡ia,t| (trapaceiros). O Texto
Majoritáio tem a leitura µ (ou): “assim mecanicamente conformando-se
ao contexto. A leitura sat é fortemente sustentada por testemunhas tanto
alexandrinas quanto ocidentais”.
37
-i-t – com essa conjunção, a cláusula revela uma elipse de uma próta-
se numa sentença condicional contrária aos fatos: “[se esse fosse o caso]
vocês teriam de deixar o mundo”. A conjunção -i-t não é temporal e sim
causal, no sentido de “porque senão” (ver 7.14).
38
Versículo 11
-,¡a¢a – este é o aoristo epistolar. O escritor se vê como estando no
lugar do destinatário da carta; ele escreve o aoristo mas quer dizer o pre-
sente. Para uma ocorrência similar, ver 9.15.
e|e¡a,e¡-|e, – o particípio presente na voz média denota concessão:
“embora ele se chame”.
¡µe- – a combinação da partícula negativa com a conjunção significa
“nem mesmo”.
Em dois versículos Paulo expõe a legitimidade de se aplicar a dis-
ciplina da Igreja. Ele apresenta uma demarcação clara das atribuições
devidas da autoridade com referência a si, à congregação coríntia e a
Deus. Ele conclui essa seção com um apelo à congregação para deixar
as Escrituras terem a palavra final nesse assunto.
b. Um Julgamento
5.12,13
12. Pois que direito tenho de julgar aqueles que estão fora [da
igreja]? Vocês não julgam aqueles que estão dentro?
a. O direito de Paulo. Paulo chega ao fim de seu discurso sobre
excluir pecadores intencionais. Ele se refere à sua carta que foi mal
compreendida e à explicação subseqüente aqui (vs. 9,10): não está fa-
lando sobre pecadores fora da comunidade cristã. Quando Paulo usa a
expressão aqueles que estão fora, ele revela suas origens judaicas. Os
rabis judeus designavam as pessoas que pertenciam a uma religião di-
37. Metzger, Textual Commentary, p. 551.
38. Bauer, p. 284.
1 CORÍNTIOS 5.12
245
ferente como sendo “de fora”.
39
Os “de dentro” eram aqueles que se-
guiam a fé judaica. Nessa passagem, Paulo aplica esses termos respec-
tivamente ao mundo e à Igreja. Ele admite abertamente que ele não
tem o direito de julgar o mundo. No capítulo seguinte, Paulo pergunta
aos coríntios se eles sabem que os santos julgarão o mundo (6.2). Mas
aquele versículo específico fala do juízo final, e não sobre o tempo
presente.
Isso não quer dizer que Paulo aprove a vida pecaminosa dos incré-
dulos. Pelo contrário, quando caminhava pelas ruas da antiga Atenas,
ele se agitou porque a cidade estava cheia de ídolos (At 17.16). Mas
Paulo não tinha autoridade para julgar fora da Igreja.
b. O dever da Igreja. Dentro da comunidade cristã, não Paulo, mas
sim a igreja inteira deve julgar esses casos que pedem a separação
decisiva entre a Igreja e o mundo. Quando um membro da igreja in-
tencionalmente persiste no pecado e recusa arrepender-se, a igreja pre-
cisa exercer a disciplina. Então a igreja não vê mais esta pessoa como
alguém que lhe pertence, mas ao contrário, como uma pessoa do mun-
do. Portanto, Paulo faz aos coríntios uma pergunta retórica que exige
uma resposta positiva: “Vocês não julgam aqueles que estão dentro?”
Qualquer pessoa que afirme ser membro da Igreja precisa prome-
ter obediência a Jesus Cristo. Mas se ele ou ela opta por viver em deso-
bediência ao Senhor, a congregação inteira deve excluir essa pessoa de
seu rol. Se a igreja deixa de julgar, ela se coloca no campo do pecador
e é igualmente culpada diante de Deus. Não um líder eclesiástico indi-
vidual, mas a igreja toda é responsável por administrar a disciplina a
membros obstinados. Escreve C. K. Barrett: “A responsabilidade pelo
julgamento está nas mãos de todo o corpo de crentes, não de um pe-
queno grupo de autoridades ministeriais”.
40
13. Mas Deus julgará aqueles que estão fora.
“Expulsem o homem mau de seu meio”.
c. A tarefa de Deus. No grego, a diferença entre o tempo presente
ou futuro do verbo julgar depende de um acento, mas os manuscritos
39. SB, vol. 3, p. 362.
40. C. S. Barrett, A Commentary on the First Epistle to the Corinthians, série Harper’s
New Testament Commentaries (Nova York e Evanston: Harper and Row, 1968), p. 133.
1 CORÍNTIOS 5.13
246
antigos não tinham marcas de acentuação, e portanto não podemos
determinar se Paulo quer dizer “Deus julga” ou “Deus julgará”. Os
tradutores estão igualmente divididos quanto a isso. Alguns estão a
favor do tempo presente e dizem que isso aponta para a competência.
41
O julgamento do mundo nós deixamos para Deus, que é tanto onisci-
ente como onipotente. E com Abraão indagamos: “Não agirá com jus-
tiça o juiz de toda a terra?” (Gn 18.25). Ele conhece os perdidos e os
salvos das pessoas no mundo. Outros estudiosos preferem o tempo futu-
ro do verbo, tendo em vista os primeiros versículos do capítulo seguinte
(ver o comentário sobre 6.1-4).
42
No geral, contudo, a diferença é insig-
nificante. Deus julga as pessoas e concluirá essa tarefa no dia do juízo.
Nessa passagem, Paulo contrasta claramente os membros da igreja
coríntia, a quem se dirige enfaticamente com o pronome vocês (v. 12),
e Deus (v. 13). A igreja administra a disciplina por amor à sua pureza,
enquanto Deus julga as pessoas do mundo. Deus certamente julga os
membros da igreja que estão em erro, mas a tarefa de expulsar pecado-
res impenitentes é um dever que a igreja precisa exercer.
b. A palavra de Deus. A afirmação conclusiva de Paulo é uma frase
das Escrituras: “Expulsem o homem mau de seu meio”. O texto, com
uma ligeira variação, aparece repetidamente em Deuteronômio.
43
A
passagem do Antigo Testamento, tanto no hebraico como no grego,
tem o verbo imperativo expulsar no singular. Paulo, no entanto, usa a
segunda pessoa do plural do presente do imperativo para indicar que a
igreja inteira deve estar envolvida no processo de expurgar o pecado
para conseguir a pureza na igreja.
A passagem ecoa a ordem anterior de Paulo para entregar o homem
incestuoso a Satanás (v. 5). Paulo chama a atenção tanto para esse ho-
mem como para qualquer outra pessoa na congregação que pratique o
mal deliberadamente. Presumivelmente, Paulo optou por usar a pala-
vra grega para “mal” porque ela apresenta um jogo de palavras com a
palavra grega para “fornicador”.
44
A severidade de deixar um pecador
41. Godet, First Corinthians, p. 278.
42. Fee, First Corinthians, p. 220 n. 7.
43. Deuteronômio 17.7; 19.19; 21.21; 22.21, 24; 24.7.
44. Consultar Peter S. Zaas, “‘Cast Out the Evil Man from Your Midst’; (1 Cor 5.13b)”,
JBL 103 (1984): 259-61.
1 CORÍNTIOS 5.13
247
sem o apoio e o cuidado da igreja é comparável à excomunhão de bani-
dos sociais e morais na sociedade judaica do tempo de Jesus. Quando
o pecador enfrenta o isolamento total, a possibilidade de arrependi-
mento é real. A disciplina da igreja é planejada para causar contrição
no coração do pecador e nutrir nele um desejo de retornar ao cuidado
do Senhor Jesus.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 5.13
- ,a ¡a:- – o aoristo imperativo do verbo composto -,at¡æ (eu expul-
so) tem uma conotação diretiva (comparar com v. 2).
-, u¡æ| au:æ| – ”para longe de vocês”. O texto grego de Deuteronô-
mio 17.7 e paralelos tem o pronome reflexivo -au:æ|. Esse pronome na
segunda pessoa do plural é introduzido pelo verbo - ,a¡-t , (você precisa
expulsar) na segunda pessoa do singular.
45
Resumo do Capítulo 5
Depois de dizer aos coríntios que ele poderá ir a eles para puni-los
ou para amá-los (4.21), Paulo diz que soube da imoralidade existente
dentro da igreja local. Ele revela que um homem manteve relações
sexuais com a esposa de seu pai. Paulo repreende os membros da igre-
ja por serem arrogantes: ele os admoesta a se entristecerem e expulsa-
rem o pecador de seu meio. Ele mesmo já decidiu excluir o homem da
congregação, entregando-o a Satanás, e então instrui a igreja a fazer
isso.
Usando uma ilustração da vida doméstica, Paulo observa que o
fermento em pequena quantidade permeia toda a massa. Mas o fer-
mento contaminado – ele fala figuradamente de fermento como sendo
disposição pecaminosa e a maldade – precisa ser eliminado em favor
do pão sem levedo da sinceridade e da verdade.
Paulo havia escrito uma carta para os coríntios na qual lhes manda-
va não se associarem com pessoas imorais. Agora ele revela que tinha
em mente não todas as pessoas imorais do mundo, porque então seus
leitores teriam de sair deste mundo. Ao contrário, ele os admoestava a
45. Blass e Debrunner, Greek Grammar, nº 288.1.
1 CORÍNTIOS 5.13
248
não se associarem com pessoas dentro da igreja que são imorais, ga-
nanciosas, idólatras, caluniadoras, que se embriagam ou concentradas
em fraudar. Ele os proíbe de sentarem-se à mesa com essas pessoas.
Os membros da igreja devem julgar os irmãos membros que se
envolvem em práticas pecaminosas. Inversamente, Deus é o juiz de
pecadores que estão fora da igreja. Paulo conclui seu discurso citando
um versículo apropriado do Antigo Testamento.
1 CORÍNTIOS 5
249
6
Imoralidade e Litígios, parte 2
(6.1-20)
250
ESBOÇO (continuação)
6.1-11
6.1-3
6.4-6
6.7,8
6.9-11
6.12-20
6.12-14
6.15-17
6.18-20
3. Litígios
a. Os Santos Julgarão
b. Os Sábios Falarão
c. Os Humildes Suportarão
d. Os Ímpios Perderão
4. Imoralidade
a. Permissão
b. Prostituta
c. Comprada
251
CAPÍTULO 6
6
1. Qualquer um de vocês, quando tem uma queixa contra alguém, ousa entrar
na justiça perante os ímpios em vez de resolver a questão perante os santos? 2.
Ou não sabem que os santos julgarão o mundo? E se o mundo é julgado por vocês,
será que não têm competência para resolver causas triviais? 3. Não sabem que nós
julgaremos anjos? Quanto mais assuntos comuns? 4. Se têm, então, causas sobre
assuntos comuns, vocês nomeiam homens que nada valem na igreja? 5. Digo isso
para vergonha de vocês. Será possível mesmo não haver nenhum homem sábio
em seu meio que possa ser árbitro entre seus irmãos? 6. No entanto, um irmão vai
à justiça contra outro irmão – e isso diante de incrédulos?
7. Já é, pois, uma derrota completa vocês terem entrado na justiça contra si
mesmos. Por que não é preferível ser tratados injustamente? Por que não serem
antes fraudados? 8. Mas vocês tratam injustamente e causam prejuízo, sim, até
mesmo a seus irmãos.
9. Ou será que não sabem que os ímpios não herdarão o reino de Deus? Não
se enganem; as pessoas imorais, os idólatras, os homossexuais, os sodomitas, 10.
os ladrões, os glutões, os difamadores, os estelionatários – nenhum deles herdará
o reino de Deus. 11. E é isso que alguns de vocês foram. Entretanto, vocês foram
lavados, foram santificados, foram justificados no nome do Senhor Jesus Cristo e
no Espírito do nosso Deus.
3. Litígios
6.1-11
Para Paulo, o propósito do Cristianismo é permear o mundo todo,
influenciá-lo e mudá-lo de acordo com as normas do evangelho. Mas
Paulo nota que em Corinto está acontecendo o contrário. O mundo está
penetrando na comunidade cristã para amoldá-la aos padrões do mun-
do. Prova disso é a questão das disputas que não são resolvidas dentro
dos limites da comunidade cristã, mas levadas diante de juízes munda-
nos. Os irmãos cristãos que levam suas causas para não-cristãos estão
tornando a igreja um motivo de galhofa no mundo gentio.
252 1 CORÍNTIOS 6.1
Paulo interrompe sua discussão sobre a imoralidade para instruir
os coríntios sobre o caminho que devem seguir com respeito a deman-
das na justiça. Os gregos tinham paixão por ouvir os advogados deba-
ter as causas na corte perto do local do mercado em cada cidade. Os
judeus em Israel e na Dispersão tinham suas próprias cortes, um vez
que, de acordo com o Talmude, era proibido ir perante juízes gentios.
1
Os processos que envolviam dois judeus eram resolvidos numa corte
judaica.
Na opinião de Paulo, os cristãos também deveriam resolver suas
diferenças dentro dos limites de sua própria comunidade. A Igreja que
se desenvolvia num mundo gentio deveria tomar emprestado uma pá-
gina do caderno judeu sobre como processar questões litigiosas dentro
de seu próprio círculo.
a. Os Santos Julgarão
6.1-3
1. Qualquer um de vocês, quando tem uma queixa contra al-
guém, ousa entrar na justiça perante os ímpios em vez de resolver
a questão entre os santos?
Como foi com a notícia sobre o homem incestuoso (5.1), não pode-
mos determinar como Paulo soube que os cristãos levavam queixas
contra os irmãos a um juiz não-cristão. Nem podemos saber que espé-
cie de processo Paulo tinha em mente. Presumimos que a discussão de
Paulo sobre julgar (5.12,13) o tenha feito lembrar de outro problema
que existia na igreja de Corinto.
2
No contexto de relativamente poucos
versículos, ele discute o problema, não em termos de detalhes, mas de
princípios.
a. “Quando [qualquer um de vocês] tem uma queixa contra alguém.”
A frase qualquer um de vocês é propositadamente geral, porque Paulo
não dá nenhum exemplo específico. Pelo fato de um cristão iniciar
uma demanda, ele já viola um princípio que Cristo ensinou a seus se-
1. SB, vol. 3, pp. 362-65.
2. Peter Richardson afirma que, em 6.1-8, Paulo ainda está preocupado com a imoralida-
de sexual, mas já de um aspecto legal. “Judgment in Sexual Matters 1 Cor. 6.11”, NovT 25
(1983): 37-58. Ver também V. George Shillingon, “People of God in the Courts of the
World: a Study of 1 Corinthians 6.1-11”, Direction 15 (1986): 40-50; Paul S. Minear, “Christ
and the Congregation: 1 Corinthians 5-6”, RevExp 80 (1983): 341-50.
253 1 CORÍNTIOS 6.1
guidores, isto é, buscar o bem de seu próximo, mesmo se este for um
inimigo (Lc 6.27).
Será que um cristão pode pensar algum dia em processar alguém?
Sim, se ele puder nisso observar e cumprir a lei régia: “Ame o seu
próximo como a você mesmo” (Tg 2.8). Note também os seguintes
pontos: primeiro, Paulo escreve somente “contra alguém”, não fazen-
do distinção alguma entre um crente e um incrédulo. Em seguida, ele
não se interessa pelos detalhes, mas por princípios. Ele sabe que um
caso que vai à justiça freqüentemente “é uma luta até a morte na qual
se causa dano (econômico, psicológico e espiritual) às partes”.
3
A pes-
soa que leva outra pessoa à justiça está resolvida a obter, sob a cober-
tura da lei, recursos financeiros desse acusado. Ele pretende ganhar a
causa sem levar em conta o efeito prejudicial que a ação poderá ter
sobre o acusado.
João Calvino, que estudou direito em duas universidades francesas
antes de se tornar teólogo, observou com perspicácia que as partes
envolvidas em causas judiciais eram motivadas por ganância, impaci-
ência, vingança, hostilidade e obstinação. Ele escreve:
Na verdade, onde quer que ocorram processos judiciais com freqüên-
cia, ou então onde as partes se mostram obstinadas entre si no trata-
mento da questão com o máximo rigor da lei, fica perfeitamente ób-
vio que elas têm a mente exageradamente inflamada por desejos erra-
dos e gananciosos, e que não estão preparadas para a calma mental e
para suportar as injúrias, de acordo com os mandamentos de Cristo.
4
A motivação que existe por trás dos processos civis é muitas vezes
incompatível com a profissão cristã da pessoa.
b. “Qualquer um de vocês... ousa entrar na justiça perante os ímpi-
os em vez de resolver a questão diante dos santos?”. O mundo secular
de hoje insiste com as pessoas para que exijam seus direitos e, no caso
de estes serem negados, que levem uma pessoa ou uma instituição à
justiça. Mas a Bíblia ensina o amor que, posto em prática, se traduz em
3. Robert D. Taylor, “Toward a Biblical Theology of Litigation: A Law Professor Looks at
1 Cor. 6:1-11”, Ex Auditu 2 (1986): 109.
4. João Calvino, The First Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians, série Calvin’s
Commentaries, trad. de John W. Fraser (reedição; Eerdmans, 1976), p. 122.
254
conciliação. As disputas devem ser resolvidas pela mediação no espíri-
to de promover cada um os interesses do outro. Em outro lugar, Paulo
acrescenta instruções quando diz: “Ninguém ofenda nem defraude a
seu irmão” (1Ts 4.6).
Paulo com franqueza pergunta aos coríntios se alguém pode “ir à
justiça”.
5
Na verdade, ele pergunta se algum coríntio tem a audácia de
levar um irmão cristão à justiça com o propósito de pagar mal por mal
em vez de aplicar a Regra Áurea (Lc 6.31). Ele quer saber se existe
alguém tão “descarado a ponto de buscar justiça com pecadores e não
com o povo santo de Deus” (NJB). A palavra grega adikoi, que eu tradu-
zi por “ímpios”, significa descrentes; o outro lado da proverbial moeda
é a palavra hagioi, que significa os santos.
O que Paulo quer ressaltar é que os coríntios não devem dar ao
mundo a oportunidade de ridicularizar Cristo e dividir sua Igreja. Quan-
do procuram um juiz gentio, “os coríntios estão lavando sua roupa suja
em público”.
6
Se os cristãos têm uma desavença, que a resolvam na
presença do próprio povo de Deus (comparar com Mt 18.17). Devem
cumprir o mandamento de amar o próximo como a si mesmos.
2. Ou não sabem que os santos julgarão o mundo? E se o mun-
do é julgado por vocês, será que não têm competência para resol-
ver causas triviais?
a. Conhecimento. “Ou (vocês) não sabem?”. Pelo menos seis vezes
nesse capítulo,
7
Paulo lembra aos leitores as lições sobre o final dos
tempos e a moralidade que lhes havia ensinado em ocasiões anteriores.
Ele os envolve num diálogo, e eles devem responder positivamente às
perguntas retóricas que ele faz. Aqui a pergunta é se os santos sabem
que se assentarão como juízes para julgar o mundo (Mt 19.28; Lc 22.30;
Ap 20.4). Naturalmente, os coríntios se lembram da lição que Paulo
lhes ensinou sobre o dia do juízo, quando os livros serão abertos e
todas as pessoas comparecerão diante do trono de Deus.
5. Bauer, p. 822.
6. Reginald H. Fuller, “First Corinthians 6.1-11: An Exegetical Paper”, Ex Audituu 2
(1986): 99. Comparar com J. D. M. Derrett, “Judgement and 1 Corinthians 6”, NTS37
(1991): 22-36.
7. Em 6.2, 3, 9, 15, 16, 19. Ver também 3.16; 5.6; 9.13, 24.
1 CORÍNTIOS 6.2
255
b. Autoridade. “Os santos julgarão o mundo.” Confiamos que Pau-
lo conhecia o ensino da literatura intertestamentária que fala dos san-
tos julgarem e regerem o mundo e as pessoas do mundo (ver, por ex.,
Sabedoria 3.8). Ele aplica este ensinamento ao dia do juízo. Nessa oca-
sião, os papéis serão invertidos, porque os crentes estarão julgando o
mundo pecador, incluindo seus juízes terrenos. Os santos não só julga-
rão, mas também reinarão com Cristo na era vindoura (2Tm 2.12). Por
falar nisso, Policarpo, que cita as palavras os santos julgarão o mundo,
comenta que Paulo ensina essa doutrina (Epístola aos Filipenses 11.3).
Para prosseguir com o assunto, Paulo faz outra pergunta: “Se o
mundo será julgado por vocês, será que (vocês) não têm competência
para resolver casos triviais?”. Ele emprega o recurso literário de ir do
maior para o menor.
8
Se os crentes julgarão o mundo no dia do juízo,
devem ser capazes de cuidar entre si de casos comuns no dia de hoje.
Devem saber mediar problemas na congregação e resolver as questões
de modo a agradar todos os envolvidos. Comparado às obrigações tre-
mendas da vida futura, certamente são competentes para as causas tri-
viais desta vida. Para vergonha deles, entretanto, falham nisso.
Paulo faz outra comparação, embora de forma implícita. Se os co-
ríntios recebem a honra singular de julgar o mundo, quanto mais de-
sonram o nome e a causa de Deus quando levam causas judiciais insig-
nificantes perante um juiz gentio. Por contraste, Paulo ensina os leito-
res a amar (isto é, honrar) Deus e amar seu próximo.
3. Não sabem que nós julgaremos anjos? Quanto mais assun-
tos comuns?
Observe que Paulo inclui a si próprio quando escreve na primeira
pessoa do plural. Provavelmente já havia falado antes sobre a queda
dos anjos e que Deus os julgaria (comparar com Is 24.21,22; 2Pe 2.4;
Jd 6; Ap 20.10). Supomos, no entanto, que Paulo esteja se referindo
tanto aos anjos que deixaram suas posições anteriores de autoridade
como aqueles que em pureza e fidelidade continuam a servir a Deus.
Os filhos de Deus são superiores e têm posição mais alta do que os
8. Lukas Vischer, Die Auslegungsgeschichte von I Kor 6.1-11, Rechtsverzicht und Schli-
chtung, Beiträge zir Gescxhichte der Neutestamentlichen Exegese series (Tübingen: Mohr
{Siebeck], 1955), p. 10.
1 CORÍNTIOS 6.3
256
anjos, pelas seguintes razões: Primeira, o homem é criado à imagem de
Deus e foi redimido por Cristo. Em seguida, por faltar aos anjos um
corpo físico, eles não são criados à imagem de Deus e não são ajuda-
dos por Cristo (Hb 2.16). Terceira, Deus envia os anjos para servir ao
homem, que está para herdar a salvação (Hb 1.14). Enquanto os anjos
caídos recebem sua justa punição, os anjos santos continuam em seu
glorioso serviço.
Mais uma vez, Paulo emprega o conhecido recurso literário de ar-
gumentar do maior para o menor. Santos anjos rodeiam o trono de
Deus e, como tais, estão muito acima das tribulações e cuidados terre-
nos, enquanto nós, mortais, lidamos com assuntos comuns na base do
dia-a-dia. A comparação é singular, porque essa comparação só ocorre
aqui na Escritura. Quanto mais, portanto, devemos nós ser capazes de
solucionar os assuntos comuns?
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 6.1-3
Versículo 1
i¡a,¡a -,æ| i¡e, :e| -:-¡e| – essa é uma expressão corrente no
meio jurídico: “mover uma ação contra seu próximo”.
9
A preposição i¡e,
significa “contra”. E, no contexto, o termo -:-¡e| refere-se não a um ju-
deu ou um gentio, mas sim a um irmão cristão com quem o queixoso tem
um relacionamento litigioso.
s¡t |-|-còat – a voz média desse infinitivo do presente transmite uma
idéia recíproca, como se o pronome aììµìæ| aparecesse no contexto “jul-
gar um ao outro”.
10
-it – quando a preposição é seguida do caso genitivo, denota “na
presença de”.
Versículos 2,3
s¡t|euct| embora os manuscritos antigos não tivessem os sinais de
acentuação, o contexto exige não o presente s¡t|euct| (eles julgam), mas
9. C. F. D. Moule, An Idiom-Book of New Testament Greek, 2ª ed. (Cambridge University
Press, 1960), p. 53.
10. Consultar A. T. Robertson, A Grammar of the Greek New Testament in the Light of
Historical Research (Nashville: Broadman, 1934), p. 811.
1 CORÍNTIOS 6.1-3
257
sim o tempo futuro. A forma passiva s¡t|-:at com a expressão prepositi-
va -| u¡t| apresenta um dativo instrumental, “julgado por vocês”.
s¡t:µ¡tæ| -ìa,tc:æ| – o substantivo significa “processos jurídicos”
e o adjetivo é um superlativo no caso elativo que significa “muito pequeno”.
¡µ:t ,- – aqui está uma expressão elíptica que é semelhante a iecæ ,-
¡aììe| e significa “para não falar em”.
11
b. Os Sábios Falarão
6.4-6
4. Se têm, então, causas sobre assuntos comuns, vocês nomei-
am homens que nada valem na igreja?
a. Versões. As traduções desse versículo em particular variam com
respeito à pontuação e à interpretação. A segunda parte do versículo é
uma ordem, uma declaração do fato ou uma pergunta? O manuscrito
grego antigo foi escrito sem pontuação. Portanto, os editores e traduto-
res do texto grego precisam determinar o sentido do texto, geralmente
pelo estudo do contexto. Aqui estão três versões representativas:
“Portanto, se vocês têm disputas sobre tais assuntos, nomeiem como
juízes até mesmo homens de pouca importância na igreja” (NIV);
“Mas quando vocês têm assuntos desta vida para serem julgados,
vocês os levam diante daqueles que nada valem na Igreja ” (NJB);
“Se vocês então têm juízos com respeito a coisas pertencentes a
esta vida, vocês nomeiam aqueles que são os menos estimados
pela igreja para julgar?” (NKJV).
Os primeiros seis versículos desse capítulo contêm várias pergun-
tas. Dentro dessa seqüência, a posição de um imperativo no final de
uma sentença é fora do comum (ver IV). Mesmo uma declaração de
fato (NJB) interrompe o fluxo das sentenças interrogativas. Parece lógi-
co, então, aceitar o versículo 4 como sendo uma sentença interrogativa
em lugar de uma declarativa ou imperativa. Se entendermos o versícu-
lo como interrogativo, como devemos interpretá-lo?
11. Friedrich Blass e Albert Debrunnet, A Greek Grammar of the New Testament and
Other Early Christian Literature, trad. e rev. por Robert Funk (Chicago, University of
Chicago Press, 1961), nº 427.3.
1 CORÍNTIOS 6.4
258
b. Interpretação Do versículo anterior (v. 3), a expressão assuntos
comuns é repetida, como é também o termo causas do verso 2. Com
base nesses dois versículos, Paulo chega a uma conclusão com uma
cláusula condicional: “Se têm, então, causas sobre assuntos comuns”.
Ele completa a sentença com uma segunda cláusula, que se acha aberta
a várias interpretações. Por exemplo, alguns tradutores consideram
como sujeito da cláusula os juízos gentios: aqueles “homens que nada
valem na igreja” (NJB). Essa interpretação subentende que esses juízes
eram desprezados pelos membros da Igreja Cristã (ao contrário de 1Tm
2.1, 2), o que parece pouco provável. Também não é provável que os
cristãos coríntios nomeassem juízes gentios, pois esses juízes já ti-
nham sido nomeados pelo estado.
12
Outros tradutores, contudo, entendem que os juízes vinham da pró-
pria comunidade cristã. Mas será que a comunidade nomearia juízes
que eram considerados pouco significantes ou que não eram respeita-
dos? Se Paulo está fazendo uma pergunta retórica, ele espera uma res-
posta negativa. Além disso, indiretamente, ele repreende os coríntios
por sua arrogância em desprezar irmãos cristãos. Um cristão de peque-
na importância, segundo Paulo, é pelo menos tão competente como um
juiz não-cristão. Assim Paulo aplica o princípio do contraste.
c. Conclusão. Nenhuma tradução ou interpretação está livre de di-
ficuldades. O fluxo da passagem retrata claramente a condenação de
Paulo quanto à prática dos crentes levarem causas judiciais perante
juízes gentios. Parece que preferia, em lugar disso, um princípio em-
pregado na história bíblica. Quando Moisés servia ao povo de Deus
como juiz no deserto do Sinai, seu sogro, Jetro, aconselhou-o a nomear
juízes assistentes. Ele disse:
Escolha homens capazes dentre todo o povo – homens tementes a
Deus, homens confiáveis que detestam lucro desonesto – e nomeie-os
como oficiais, chefes de grupos de mil, de cem, de cinqüenta e de dez.
Ordene que atuem como juízes para o povo em todo o tempo, mas
mande que tragam todo caso difícil a você; os casos simples eles po-
dem resolver por si mesmos [Êx 18.21, 22].
12. A. Stein sugere que cristãos judeus, conforme estavam acostumados, nomeavam um
rabi como juiz em causas triviais. Se isso era verdade, os cristãos gentios não procuravam
um rabi, mas um juiz gentio. “Wo trugen die korinthischen Christen ihre Rechtshändel
aus?” ZNW59 (1968): 86-90.
1 CORÍNTIOS 6.4
259
Moisés escutou Jetro e nomeou homens capazes e honrados para
servir ao povo como juízes; esses homens cuidavam das causas triviais
enquanto Moisés cuidava das difíceis. Do mesmo modo, o rei Josafá,
de Judá, nomeou juízes em todas as cidades fortificadas da terra (2Cr
19.5). Quando os judeus retornaram a Israel, vindos da Babilônia, ado-
taram esse sistema, que ainda era vigente nos tempos apostólicos. De
fato, em toda comunidade judaica por toda a Dispersão, os judeus tive-
ram seus próprios tribunais de justiça, seus bêt dîn.
13
Paulo está pedin-
do aos cristãos que eles também nomeiem homens respeitáveis e sábi-
os de sua própria comunidade para servir como juízes.
5. Digo isso para vergonha de vocês. Será possível mesmo não
haver nenhum homem sábio em seu meio que possa ser árbitro
entre seus irmãos?
Os cristãos de Corinto há muito tempo já deveriam ter estendido os
princípios da fé cristã às questões jurídicas. Deveriam ter nomeado
homens sábios e capazes de sua própria comunidade para resolver cau-
sas triviais entre os irmãos cristãos. Assim, Paulo repreende seus leito-
res por sua negligência e apatia. Embora antes tenha escrito que não os
envergonharia (4.14), agora ele lhes diz abertamente que as palavras
dele têm o propósito de envergonhá-los. Ele espera que sua censura
leve os leitores a agirem imediatamente para sanar a situação.
a. “Será possível mesmo não haver nenhum homem sábio em seu
meio?” Aqui está mais uma pergunta retórica à qual se espera que os
coríntios respondam então: “É claro que há um homem sábio em nossa
comunidade”. Paulo quer que nomeiem um homem que tenha a capaci-
dade de atuar como mediador, isto é, uma pessoa que possa arbitrar
entre duas pessoas a fim de efetuar a harmonia. Esse homem sábio
seria comparável a um rabino judaico que resolvia problemas em co-
munidade de judeus, quer em Israel ou no estrangeiro.
14
b. “[Um sábio] que possa ser árbitro.” Paulo não está sugerindo
13. Haim H. Cohn, “Bet Din ad Judges”, Encyclopaedia Judaica, vol. 4, col. 719-27.
14. C. K. Barrett sugere a palavra hakam (homem sábio), que se refere a um estudioso de
nível menor do que um rabino. A Commentary on the First Epistle to the Corinthians, série
Harper’s New Testament Commentaries (Nova York e Evanston, Harper and Row, 1968), p.
138. Comparar com L. A. Lewis, “The Law Courts in Corinth: An Experiment in the Power
of Baptism”, ATR, supl. 11 (1990): 88-89.
1 CORÍNTIOS 6.5
260
que os coríntios nomeiem juízes para terem uma posição permanente
(ver v. 7). Pelo contrário, nessa passagem há um ar envolvente de me-
diação, e não de vingança. O sábio não age como juiz que entrega um
veredicto, e sim como mediador que busca unir as duas partes para
entendimento e acordo mútuo.
c. “Entre seus irmãos.” A sentença grega é extremamente concisa
nessa parte final do verso: “entre seus irmãos”, que devemos entender
como sendo dois irmãos em Cristo. Combinei a referência aos dois
homens na palavra irmãos.
6. No entanto, um irmão vai à justiça contra outro irmão – e
isso diante de incrédulos?
Esse versículo pode ser entendido como uma exclamação ou como
uma pergunta. À vista da repetição próxima (ver v. 1), optamos por
uma interrogativa que, na última parte desse versículo, expressa com
ênfase os sentimentos de Paulo.
O fato de que um cristão está levando um irmão cristão à justiça já
é prova suficiente de que ele colocou de lado o mandamento de amar
seu próximo. Dentro da comunidade cristã, essa Lei Régia (Tg 2.8)
precisa funcionar sem restrições. Para Paulo, essa é uma situação ina-
creditável que nega os fundamentos da fé cristã. Pode um queixoso
que vai à justiça ter em mente o bem-estar espiritual, emocional, físico
e financeiro do irmão cristão? Calvino escreve:
Se um cristão, pois, quer demandar seus direitos numa corte judicial,
sem ir contra Deus, ele precisa tomar muito cuidado de não chegar ao
foro com qualquer desejo de vingança, qualquer sentimento mau,
qualquer ira, ou, para resumir, qualquer sentimento venenoso. Em tudo
isso o amor será o melhor guia.
15
Mesmo que seja difícil chegar ao ideal, o mandamento de amar uns
aos outros é um preceito fundamental para o cristão. Paulo volta a essa
questão nos versículos seguintes. Mas agora ele pergunta se os corínti-
os estão levando irmãos crentes à justiça perante um juiz não-cristão.
Em outra parte (2Co 6.15) Paulo pergunta: “O que têm em comum os
15. Calvino, 1 Corinthians, pp. 122-23; ver também Institutes of the Christian Religion,
trad. por John Allen, 2 vols. (Grand Rapids, Eerdmans, 1949), vol. 2, 4.20.18.]
1 CORÍNTIOS 6.6
261
crentes e os não-crentes?” A resposta é enfaticamente negativa. Além
do mais, a resposta subentende que quando essas duas categorias de
pessoas se ajuntam, o crente colhe resultados danosos.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 6.4-6
Versículo 4
¡-| eu| – essas partículas de inferência podem ser traduzidas em lin-
guagem coloquial como sendo: “Ora, eu mesmo pensei...
” 16
- a | - ,µ:- – a partícula com o verbo no presente do subjuntivo intro-
duz a prótase de uma sentença condicional que expressa probabilidade. A
apódose tem o verbo òt,-:- como presente do indicativo na forma interro-
gativa: “Vocês estão nomeando?”
Versículos 5,6
ì-,æ – as evidências dos manuscritos favorecem essa interpretação
em vez de ìaìæ (comparar com 15.34 e a variante). A interpretação prefe-
rida denota o conteúdo da fala: a variante significa o ato da fala.
-|t – esta é uma contração da forma -|-c:t| (há) que sem a negativa
eus significa “não há nenhum”. A duplicação de eu em eue-t, (ninguém)
enfatiza a negativa.
etas¡t|at – o verbo composto difere no sentido do verbo simples
s¡t|-:at (v. 6). O composto significa arbitrar, o simples denota julgar.
17
ae-ì|eu – o substantivo no singular não deixa completa a sentença.
Deveria estar no plural ou ser repetido no singular. “...Escritores do Novo
Testamento apenas seguem o caminho pisado do uso grego com a liberda-
de e individualidade apropriadas”.
18
¡-:a – no contexto, essa preposição é usada num sentido adversativo
como “contra”.
16. Moule, Idiom-Book, p. 163; R. St. John Parry, The First Epistle of Paul the Apostle to
the Corinthians, Cambridge Greek Testament for Schools and Colleges (Cambridge: Cam-
bridge University Press, 1937), p. 97.
17. Gerhard Dautzenberg, EDNT, vol. 1, p. 305, “diakrino é usado para falar sobre a
atividade de um mediador ou árbitro em contraste com o de tribunais mundanos”. Mas veja
Bauer, p. 185; Friedrich Büchsel, TDNT, vol. 3, p. 947.
18. Robertson, Grammar, p. 409.
1 CORÍNTIOS 6.4-6
262
c. Os Humildes Suportarão
6.7,8
7. Já é, pois, uma derrota completa vocês terem entrado na
justiça contra si mesmos. Por que não é preferível ser tratados
injustamente? Por que não serem antes fraudados?
a. Derrota. De um ponto de vista mundano, Paulo vira tudo de
cabeça para baixo quando diz que ganhar uma causa é uma derrota
para os coríntios. Em vez de lhes dizer que eles devem exigir seus
direitos, ele repreende os coríntios por rebaixarem irmãos crentes le-
vando-os à justiça.
No versículo anterior (v. 6), Paulo nota um só incidente de um
cristão que registra queixa contra um irmão cristão. Mas nesse versícu-
lo ele se dirige a todos os coríntios. Em outras palavras, a prática de um
processar o outro parece não ter sido incomum na comunidade cristã.
Paulo declara que esse costume é inaceitável para crentes; para eles,
um processo judicial é “uma derrota completa”.
19
Geralmente, antes de um indivíduo processar outro, ele já passou
muitas horas discutindo seus agravos e ressentimentos na presença do
acusado e de outros. O emprego que Paulo faz da palavra já indica essa
atividade preliminar durante a qual, em sua opinião, a controvérsia
deveria ter sido resolvida. Se o queixoso quer ir adiante e iniciar um
processo, ele enfrenta “já... uma derrota completa” não só para si pró-
prio, mas para a comunidade cristã inteira.
O que Paulo está procurando comunicar aos coríntios? Simples-
mente isto: mesmo que um juiz dê ganho de causa ao queixoso, o pro-
cesso judicial já teve efeito danoso sobre o acusado e toda a comunida-
de cristã. A igreja demonstra uma falta de amor numa atmosfera de
hostilidade, e é incapaz de ser uma testemunha eficaz para o mundo. O
querelante não deve receber louvor nenhum por ganhar a causa, por-
que ele faz isso em detrimento da comunidade cristã. John Albert Ben-
gel comenta: “O louvor não é mencionado explicitamente aqui, mas
um tipo de antítese dessa natureza é que é pretendido”.
20
19. Bauer, p. 349. O substantivo derrota ocorre duas vezes no Novo Testamento, aqui e
em Romanos 11.12, onde significa perda.
20. John Albert Bengel, Bengel’s New Testament Commentary, trad. por Charlton T. Lewis
e Marvin R. Vincent, 2 vols. (Grand Rapids: Kregel, 1981), vol. 2, p. 194.
1 CORÍNTIOS 6.7
263
A escolha de palavras na primeira parte desse versículo é singular.
Paulo não diz que os coríntios moveram processos um contra o outro, e
sim que o fizeram contra si mesmos. Toda a comunidade cristã, por as-
sim dizer, se torna o acusado perante os juízes gentílicos. O resultado é
que esses processos são devastadores para a moral da comunidade cristã.
b. Injustiça. “Por que não é preferível ser tratados injustamente?”
Como se Paulo antecipasse objeções às suas palavras, ele apresenta
uma pergunta que subentende uma ordem para os coríntios. De modo
sutil, ele lembra aos leitores as palavras de Jesus: “Se alguém quiser
processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa” (Mt
5.40 NVI; comparar com Lc 6.29,30). Qualquer pessoa instintivamente
protege suas posses, mas Paulo, seguindo a instrução de Jesus, ensina
os leitores a não se apegarem a pertences terrenos. Ao contrário, de-
vem estar dispostos a suportar injustiça.
c. Fraudados. “Por que não serem antes fraudados?” Se há o que
contraria nosso senso de valores, é permitir que nós mesmos sejamos
fraudados. Se os coríntios ainda não se convenceram de que as posses
materiais só têm valor transitório, Paulo ainda lhes pede que se subme-
tam a roubo – e isso num tribunal de justiça. Pedindo aos coríntios que
suportem uma perda de bens materiais, ele os incentiva a buscar o amor
mútuo e a revelar um espírito perdoador. Um espírito de mansidão e
altruísmo que é capaz de suportar o erro de boa vontade (comparar
com 1Pe 2.19-23), e não um espírito de ganância, ganha aprovação
diante de Deus. Aquele que cultiva essa atitude está seguindo nos pas-
sos de Jesus.
8. Mas vocês tratam injustamente e causam prejuízo, sim, até
mesmo a seus irmãos.
Nesse versículo, Paulo mostra que está plenamente ciente do efei-
to que os litígios têm sobre a comunidade de Corinto. Esses processos
jurídicos têm nutrido uma atitude de cobiça e ira que agora ameaça a
essência da comunhão da igreja.
Duas questões aparecem nesse texto. Primeira, o conceito de comu-
nhão cristã é severamente solapado pelo espírito litigioso dos coríntios.
Como pôde um cristão ainda chamar um membro da igreja de irmão no
Senhor se ele o prejudicou moral, emocional e financeiramente num
1 CORÍNTIOS 6.8
264
processo na justiça? A falta de amor e a presença do ódio tornam im-
possível a verdadeira comunhão cristã. Quando as pessoas se atacam
mutuamente, a unidade do corpo se desintegra (comparar com 12.25).
Uma segunda preocupação é se pode um cristão abrir qualquer pro-
cesso litigioso na justiça. Se um crente não deve entrar com processo,
como a justiça funciona dentro do contexto de uma comunidade cris-
tã? Um cristão deve pôr de lado qualquer desejo de tratar seu irmão
injustamente ou de defraudá-lo. Em vez disso, ele deve buscar o bem-
estar material de seu semelhante e assim cumprir positivamente o man-
damento de não cobiçar as posses de seu próximo.
Para Paulo, a conduta dos coríntios é inteiramente contrária aos
princípios cristãos. Eles devem resolver suas disputas e diferenças pela
mediação, promover o bem-estar da comunidade cristã, e dar ao mun-
do um testemunho transparente.
Considerações Práticas em 6.7,8
Será que um cristão pode em alguma circunstância recorrer a uma
ação judicial? A Bíblia responde afirmativamente a essa pergunta. Para
ilustrar, o Livro de Atos é claro em mostrar que Paulo fez uso do sistema
judicial romano várias vezes. É preciso dizer que ele não iniciou os pro-
cessos, contudo apelou à lei romana para defender a si próprio e à causa
do Cristianismo (At 16.37; 22.25; 25.11).
Além do mais, Deus instituiu o governo civil, o que inclui o judiciá-
rio. Oficiais e juízes governamentais são nomeados por Deus para servir
ao público e assegurar o bem-estar dos cidadãos (Rm 13.1-5).
Deve a comunidade cristã ter seus próprios juízes e advogados? Aqui
também a resposta é afirmativa. No entanto, os cristãos devem se abster
de iniciar ações na justiça, pois o litígio é um borrão sobre a comunidade.
Os cristãos devem reconhecer que “o litígio é uma manifestação da au-
sência de comunidade”.
21
Os processos jurídicos contribuem para a desin-
tegração de uma sociedade e fazem com que o individualismo reine su-
premo. Quando isso acontece, a preocupação do amor pelo próximo é
apagada numa atmosfera de egoísmo brutal.
A sociedade em geral, mas os cristãos em particular, devem resolver
21. Taylor, “Toward a Biblical Theology of Litigation”, p. 114.
1 CORÍNTIOS 6.7, 8
265
as diferenças num clima de mediação e reconciliação. Os cidadãos cris-
tãos devem tomar a frente a fim de promover respeito pelo próximo e
assim contribuir para a edificação de uma sociedade estável. Devem de-
monstrar que a estima e o amor mútuos são as marcas características da
decência e da moralidade.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 6.7
µeµ ¡-| – o advérbio já está posicionado no começo da sentença para
ênfase. Com isso Paulo aponta para um processo que precede a ação judi-
cial. A partícula ¡-| é contrabalançada pela partícula e- que deve ser su-
prida nas perguntas retóricas que Paulo faz.
¡-ò` -au:æ| – a preposição tem uma conotação adversativa (“con-
tra”, ver v. 6). O pronome reflexivo (“vocês mesmos”) não é sinônimo
de aììµìæ| (um ao outro). Este último “exporia a idéia de diversidade de
interesses, [enquanto] -au:æ| enfatiza a de identidade de interesses”.
22
aets-tcò-...aiec:-¡-tcò- – esses dois verbos no tempo presente e voz
média expressam a idéia de “deixar-se ser tratado injustamente e frauda-
do”.
23
Essas duas formas médias expressam um sentido permissivo ou
talvez causativo.
d. Os Ímpios Perderão
6.9-11
Depois da discussão de Paulo a respeito de causas na justiça e seu
efeito devastador sobre a comunidade cristã, ele amplia a discussão ao
mencionar as pessoas pecadoras que serão barradas de entrar no reino
de Deus. Nesse trecho, Paulo distingue entre aqueles que pecam deli-
beradamente e os coríntios que foram limpos do pecado. Ao se referir
a esses pecadores imorais, ele lista mais uma vez algumas das mesmas
categorias de pessoas más (ver 5.9-11).
9. Ou será que não sabem que os ímpios não herdarão o reino
de Deus? Não se enganem; as pessoas imorais, os idólatras, os ho-
mossexuais, os sodomitas, 10. os ladrões, os glutões, os difamado-
res, os estelionatários – nenhum deles herdará o reino de Deus.
22. J. B. Lightfoot, Notes on the Epistles of St. Paul from Unpublished Commentaries
(1895, reedição, Grand Rapids: Zondervan, 1957), p. 212.
23. Robertson, Grammar, p. 808; Blass e Debrunner, Greek Grammar, nº 314.
1 CORÍNTIOS 6.9, 10
266
a. “Ou será que não sabem?”. Paulo continua com a conjunção ou
que liga essa passagem aos versículos anteriores (vs. 2 e 3), que apre-
sentam as mesmas perguntas retóricas. Os coríntios sabem e entendem
as implicações espirituais de processos na justiça e de uma vida peca-
minosa? A pergunta retórica que Paulo faz nesse versículo exige uma
resposta positiva.
b. “Os ímpios não herdarão o reino de Deus.” Paulo pergunta se os
coríntios estão cientes dos fatos básicos que dizem respeito ao reino de
Deus.
Em primeiro lugar, quem herdará esse reino? Certamente não se-
rão os ímpios, cuja imoralidade sexual e outros pecados os desqualifi-
cam. São pessoas cujo desejo é fazer o mal.
24
Eles, diferentemente dos
justos, se inclinam a causar dano a outras pessoas e assim contrastam
com os justos. Paulo não está pensando em pessoas que enxergam o
erro de seu caminho e se arrependem. Ele se refere, ao contrário, àque-
las que de vontade própria continuam em seus pecados e se gloriam
neles.
Em seguida, a palavra herdar está relacionada aos filhos e filhas
que compartilharão uma herança no reino e nesse caso são os filho de
Deus. Eles recebem a herança, não pelas obras, mas pela graça (ver Ef
2.8,9). Os pecadores impenitentes, no entanto, estão excluídos do reino.
Terceira, o verbo herdar significa que não há possibilidade de que
pecadores impenitentes irão, em algum tempo, compartilhar das bên-
çãos de Deus. O uso do futuro é definitivo: eles nunca herdarão o reino.
E finalmente, o conceito de reino ocorre repetidamente nos evan-
gelhos sinóticos, especialmente no de Mateus. Mas em sua primeira
epístola aos coríntios, Paulo menciona o conceito somente cinco vezes
(4.20; 6.9, 10; 15.24, 50). Com exceção de 4.20, todas essas passagens
estão relacionadas com as bênçãos futuras do reino vindouro.
25
c. “Não se enganem; as pessoas imorais, os idólatras, os homosse-
xuais, os sodomitas.” Mais uma vez Paulo exorta os leitores a não se
24. Meinrad Limbeck, EDNT, vol. 1, p. 31.
25. Comparar com George E. Ladd, A Theology of the New Testament (Grand Rapids,
Eerdmans, 1974), p. 410; Leon Morris, New Testament Theology (Grand Rapids: Zonder-
van, Academic Books, 1986), p. 37.
1 CORÍNTIOS 6.9, 10
267
enganarem (ver 3.18);
26
eles devem estar plenamente apercebidos da
sociedade má na qual vivem. Ele enumera pecados que têm que ver
com a imoralidade sexual, e menciona em primeiro lugar os imorais
(ver comentário sobre 5.9, 10, 11). Ele usa o termo para descrever rela-
ções sexuais ilícitas ou entre uma pessoa casada e outra não casada, ou
entre duas pessoas não casadas. Paulo afirma a doutrina de Jesus de
que a imoralidade sexual torna uma pessoa impura (ver v. 11; Mt
15.19,20).
Repare que Paulo coloca os idólatras entre as pessoas imorais e os
adúlteros. A inclusão de idólatras nessa lista de pecados sexuais parece
um pouco fora de contexto. Mas no mundo gentio daquele tempo a
idolatria muitas vezes era fonte de perversão sexual (ver Rm 1.18-32).
As três categorias seguintes são os adúlteros, os homossexuais e os
sodomitas. A primeira expressão grega, moichoi (adúlteros), descreve
o pecado sexual que uma pessoa casada comete com outra que está ou
não está casada; resulta em quebrar o vínculo do casamento. A palavra
grega seguinte, malakoi (homossexuais), é relacionada a “homens e
meninos que se permitem serem usados homossexualmente”.
27
Essa
palavra conota passividade e submissão. Em contraste, o terceiro ter-
mo grego, arsenokoitai (sodomitas), representa homens que iniciam
práticas homossexuais (1Tm 1.10). São os parceiros ativos dessas prá-
ticas.
28
Pela prosa, pela cerâmica e pela escultura dos gregos e roma-
nos, descobrimos que a preocupação com práticas sexuais era prevale-
cente entre os homens do século I.
29
Esses homens chafurdavam em
pecados homossexuais e rivalizavam até mesmo com os habitantes da
antiga Sodoma (Gn 19.1-10; ver também Lv 18.22; 20.13).
d. “Ladrões, glutões, difamadores, estelionatários.” Paulo agora se
26. 1 Coríntios 15.33; Gálatas 6.7; Tiago 1.16. Ver também Herbert Braun, TDNT, vol. 6,
pp. 244-45; Walther Günther, NIDNTT, vol. 2. p. 459.
27. Bauer, p. 488.
28. Consultar David F. Wright, “Homosexuals or Prostitutes? The Meaning of Arsenokoi-
tai (1Co 6.9; 1Tm 1.10)”, VigChr 38 (1984): 1255-53; “Translating Arsenokoitai (1Co 6.9;
1Tm 1.10)”, VigChr 41 (1987): 396-98; “Homosexuality: The Relevance of the Bible”,
EvQ 61 (1989): 291-300; e William L. Petersen, “Can Arsenokoitai Be Translated by ‘Ho-
moxexuals’? (1Co 6.9; 1Tm 1.10)”, VigChr 40 (1986): 187-91.
29. Veja Catherine Clark Kroeger, “Paul, Sex and the Immoral Majority”, Daughters of
Sarah (maio/junho de 1988): 26-28.
1 CORÍNTIOS 6.9, 10
268
volta dos pecados sexuais para aqueles que têm que ver com posses
materiais, abuso físico e verbal, e roubo. Ele parece ecoar o Decálogo,
pois mesmo não listando os dez pecados, ele os enumerou na ordem
dos Dez Mandamentos. Com exceção da categoria de ladrões, a lista é
uma repetição de uma passagem anterior (5.10,11).
e. “Nenhum deles herdará o reino de Deus.” A duplicação da afir-
mação solene (v. 9) serve para dar ênfase à severidade das transgres-
sões que Paulo enumerou. Ele não está dizendo que uma pessoa que
comete qualquer um desses pecados nunca herdará o reino de Deus.
Ele dá a entender que qualquer pessoa que persiste em praticar esses
vícios será impedida de entrar no reino. Mas quando um pecador mos-
tra arrependimento genuíno e entrega sua vida a Cristo em fé, ele é
perdoado, lavado de seu pecado, libertado de sua culpa, santificado e
declarado justo. Os coríntios podiam se identificar com essa exposição
de Paulo sobre pecados morais, porque alguns dos membros tinham
deixado uma vida de pecados sexuais e sociais.
11. E é isso que alguns de vocês foram. Entretanto, vocês foram
lavados, vocês foram santificados, vocês foram justificados no nome
do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus.
Observe os seguintes pontos:
a. Imundos. “E é isso que alguns de vocês foram.” Jesus disse que
ele veio chamar não os justos, mas sim os pecadores ao arrependimen-
to (Mc 2.17; Lc 5.32; 1Tm 1.15). Os cobradores de impostos e as pros-
titutas eram os pecadores no tempo de Jesus; eles eram párias sociais e
morais. Jesus os chamou ao arrependimento e depois comia e bebia
com eles em suas casas (Mt 11.19).
Quando Paulo chegou a Corinto pela primeira vez, ele levou o evan-
gelho da salvação a algumas pessoas que viviam em pecados sexuais e
sociais. Em sua epístola, Paulo fala agora não em termos gerais, mas
notando que somente uns poucos coríntios tinham vivido antes uma
vida degenerada: “alguns de vocês foram [degenerados]”. Por causa da
vida pecaminosa que eles levavam antes, eram impuros, mas por meio
da pregação do evangelho eles receberam a dádiva da salvação e esta-
vam limpos.
b. Lavados. “Vocês foram lavados, vocês foram santificados, vo-
1 CORÍNTIOS 6.11
269
cês foram justificados.” Usando o forte adversativo entretanto, que no
grego ocorre antes de cada um dos três verbos, Paulo transmite a men-
sagem da imensa mudança espiritual. Ele contrasta o passado pecami-
noso dos coríntios com sua nova vida em Cristo. Além disso, escreve o
pronome pessoal da segunda pessoa do plural vocês nesse versículo
com cada verbo. Paulo deseja ser especificamente pessoal na forma de
se dirigir a eles.
“Vocês foram lavados.” O lavar é completo. Quando Deus perdoa
um pecador arrependido ele zera, apaga toda a culpa do relatório. O
verbo lavado (conforme traduzido) e os dois verbos seguintes (santifi-
cado e justificado) estão na voz passiva. O verbo lavar aparece somen-
te duas vezes no Novo Testamento, aqui e em Atos 22.16. No presente
texto, Paulo deixa de usar o verbo batizar, ainda que o ato de lavar o
pecado esteja ligado ao batismo. Aqui ele quer enfatizar o efeito do
batismo. Em Atos, Paulo conta sua experiência de conversão em Da-
masco, quando Ananias o instruiu a ser batizado e a lavar-se de seus
pecados (At 9.17,18). Ele frisa o ato de ser limpo do pecado e deixa a
impressão de que devemos entender esse ato figurativamente.
30
Como
o próprio Paulo havia se limpado de seu pecado de perseguir a Igreja
de Cristo, assim os coríntios foram limpos dos pecados de sua vida
anterior.
“Vocês foram santificados.” Já no início de sua epístola, Paulo dis-
se aos coríntios que eles estavam santificados em Jesus Cristo (1.2).
Agora ele os lembra de que eles foram tornados santos. O Novo Testa-
mento ensina que todo aquele que crê em Jesus é santificado nele (Jo
17.19; At 20.32; 26.18). A santificação significa que o crente entrou
para a comunidade de Deus (ver 1.9).
“Vocês foram justificados.” Em séculos passados, os teólogos pro-
testantes debateram se a santificação deveria preceder a justificação,
porque em outro lugar nessa epístola Paulo coloca a justificação antes
da santificação (1.30).
31
A justificação é um ato declarativo de Deus
pelo qual o crente é pronunciado justo em Cristo e é coordenado com o
30. Veja J. K. Parratt, “The Holy Spirit and Baptism, Part 2. The Pauline Evidence”, ExpT
82 (1971: 266-71.
31. Consultar, por ex., Anthony A. Hoekema, Saved by Grace (Grand Rapids: Eerdmans;
Exeter: Paternoster, 1989), p. 203.
1 CORÍNTIOS 6.11
270
ato de Deus da santificação. Os três verbos (lavado, santificado, justi-
ficado) são gramaticalmente aparentados. No grego, eles estão no tem-
po aoristo, que descreve uma ação única instantânea. Paulo está dizen-
do que, em dado momento, Deus pronunciou os coríntios tanto santos
como justos. Nesse contexto, ele não está explicando a distinção entre
a santificação e a justificação, e sim escrevendo um discurso contra a
iniqüidade.
32
c. Graça. “No nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso
Deus.” A última parte desse versículo revela um trinitarianismo implí-
cito, porque Paulo menciona Jesus Cristo, o Espírito e Deus. Contudo
essa observação não deve ser levada muito longe, pois nesse texto Pau-
lo não ensina especificamente a fórmula batismal trinitariana da Gran-
de Comissão (Mt 28.19).
33
Não obstante, aparece por vezes a frase no
nome de ligado ao batismo (por exemplo, At 2.38; 8.16; 19.5).
A parte final do versículo deve ser ligada a cada um dos verbos que
a antecedem (lavar, santificar, justificar). A preposição em está presen-
te duas vezes, aplica-se a todos os três verbos e deve ser entendida
como significando “em relação a”. Consideremos agora de que manei-
ra esses três verbos se relacionam com o Senhor Jesus Cristo e o Espí-
rito de Deus.
Primeiramente, o lavar do pecado é o resultado do batismo. Os
crentes são batizados no nome de Jesus Cristo e no poder do Espírito
(por ex., ver Mt. 3.11; Jo 1.33; At 10.48). Paulo usa o nome completo
de Jesus, “o Senhor Jesus Cristo”, mas escreve “o Espírito de Deus”,
não o Espírito Santo. Essa escolha de palavras é comum a Paulo, espe-
cialmente nessa epístola (2.11, 12, 14; 3.16; 7.40; 12.3).
A seguir, o ato de santificar os crentes baseia-se na obra redentora
do Senhor Jesus Cristo e é sustentado pelo poder do Espírito Santo. Do
mesmo modo, a justificação tem sua base na obra expiatória e torna-se
real para o crente pelo testemunho poderoso do Espírito.
Finalmente, o ato de justificar o crente aparece ligado ao poder do
32. Bengel, New Testament Commentary, vol. 2, p. 195.
33. Frederic Louis Godet mantém que aqui Paulo usou os três nomes divinos como fórmu-
la batismal. Commentary on First Corinthians (1886; reedição, Grand Rapids: Kregel,
1977), p. 302.
1 CORÍNTIOS 6.11
271
Espírito somente nesse texto. Na verdade, no hino cristão de 1 Timóteo
3.16, Cristo é vindicado pelo Espírito, mas em nenhuma outra parte da
Escritura encontramos o Espírito envolvido na justificação do crente.
O Espírito Santo participa da santificação do crente, mas a justificação
é obra de Deus com base na justiça de Cristo. Apenas no presente texto
o Espírito é ligado à justificação do crente.
Considerações Práticas em 6.11
A graça perdoadora de Deus oferecida aos pecadores que se arrepen-
dem é impressionante e satisfaz plenamente. Jesus diz à mulher imoral
que entrou na casa de Simão o fariseu: “Seus pecados estão perdoados ...
a sua fé a salvou. Vá em paz” (Lc 7.48, 50). Ele se dirige à mulher pega
em adultério dizendo: “Vá e deixe a sua vida de pecado” (Jo 8.11). Para
um dos criminosos crucificado com ele, afirma: “Em verdade digo que
hoje você estará comigo no paraíso” (Lc 23.43). E chama Paulo, o perse-
guidor dos cristãos primitivos, de “meu vaso escolhido” (At 9.15).
O Antigo Testamento conta a narrativa surpreendente da graça de Deus
estendida a Manassés, rei de Judá e filho de Ezequias. Manassés nasceu
na família de Ezequias, que amava o Senhor e o servia fielmente. Mas
Manassés fez o mal aos olhos do Senhor. Ele adorou os baalins e edificou
altares aos exércitos estelares nos alpendres do templo. Sacrificou seu
próprio filho, praticou magia e adivinhações, colocou uma escultura no
templo de Deus, desviou o povo de seu reino e derramou sangue inocente
(2Re 21.1-9, 16; 2Cr 33.1-9). Contudo, esse rei, quando tomou consciên-
cia de si no cativeiro, arrependeu-se. Deus não só o perdoou como o res-
taurou como rei de Judá (2Cr 33.12,13).
Ao ler essa narrativa, ficamos maravilhados com a graça perdoadora
de Deus. Tentamos sondar a profundidade do amor perdoador de Deus, e
perguntamos ousadamente se Deus perdoará todo e qualquer pecado co-
metido contra ele. Perdoará aqueles pecados que, conforme Paulo indica,
excluem o pecador do reino de Deus? A resposta é sim a todo pecador que
se chega a Deus, confessa seu pecado e roga por misericórdia.
Eis a garantia de Jesus, com uma restrição:
“Todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens; mas a blasfê-
mia contra o Espírito não será perdoada. Se alguém proferir alguma
palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á isso perdoado; mas, se
1 CORÍNTIOS 6.11
272
alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será isso perdoado, nem
neste mundo nem no porvir” (Mt 12.31,32 NVI).
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 6.11
:au:a – o pronome no plural neutro é usado para se referir não a coi-
sas, e sim a pessoas. Uma palavra mais exata seria :eteu:et (essas pesso-
as), embora o pronome plural neutro seja enfático e direto.
ai-ìeucacò- – a maioria dos tradutores interpreta esse aoristo médio
indicativo aieìeuæ (eu lavo) como passivo.
34
Os crentes são incapazes de
lavar seus próprios pecados, pois só Jesus Cristo os limpa. Contudo, al-
guns tradutores apresentam uma tradução literal: “vocês se lavaram [fi-
cando] limpos”.
35
Eles interpretam o médio como significando que os can-
didatos ao batismo se submeteram ao batismo.
-| – essa preposição muitas vezes faz permuta com a preposição -t,.
“Como é sabido, -| e -t, são na realidade a mesma palavra. Por isso não
se pode insistir na distinção entre as duas preposições”.
36
12. “Todas as coisas me são permitidas”, mas nem todas são proveitosas;
“todas as coisas me são permitidas”, mas eu não serei dominado por nada. 13. “Os
alimentos são para o estômago, e o estômago, para os alimentos”, mas Deus des-
truirá a ambos. O corpo não é para a imoralidade, e sim para o Senhor, e o Senhor
para o corpo. 14. Deus não ressuscitou só o Senhor como também nos ressuscitará
pelo seu poder. 15. Vocês não sabem que o corpo de vocês é um membro de
Cristo? Bem, então, eu hei de tirar os membros de Cristo e torná-los membros de
uma prostituta? Nunca! 16. Ou vocês não sabem que aquele que se une à prostitu-
ta é um só corpo com ela? Pois ele diz:
“Os dois se tornarão uma só carne”.
17. Mas aquele que se une com o Senhor é um só no espírito com ele.
18. Fuja da imoralidade. Qualquer outro pecado que o homem comete está
fora de seu corpo, mas o homem imoral peca contra seu próprio corpo. 19. Ou
vocês não sabem que seu corpo é um templo do Espírito Santo dentro de vocês,
que receberam de Deus? E vocês não pertencem a si mesmos. 20. Vocês foram
comprados por um preço; glorifiquem a Deus, pois, com seu corpo.
34. Por ex., BJ, KJV, NKJV, NASB, NIV, RSV, REB, SEB, TNT. Consultar G. R. Beasley-Murray,
NIDNTT, Vol. 1., p. 152; EDNT, vol. 1, p. 137.
35. Ver Cassire; Phillips; Moffatt; as leituras marginais em RV e ASV.
36. Robertson, Grammar, p. 559.
1 CORÍNTIOS 6.11
273
4. Imoralidade
6.12-20
Depois de admoestar os coríntios sobre os litígios, Paulo agora
volta ao assunto da imoralidade. No capítulo anterior, ele deu instru-
ções a respeito do caso do incesto; agora ele discute princípios gerais
com respeito à imoralidade sexual.
a. Permissão
6.12-14
12. “Todas as coisas me são permitidas”, mas nem todas são
proveitosas; “todas as coisas me são lícitas”, mas eu não me deixa-
rei dominar por nada.
Nos versículos 12 e 13a, Paulo lista os lemas usados pelos corínti-
os. Ele lista os lemas um a um e dá sua resposta apropriada:
Resposta
mas nem todas as coisas são proveitosas
mas eu não me deixarei dominar por nada
mas Deus destruirá a ambos
Lema
Todas as coisas me são permitidas
Todas as coisas me são permitidas
Os alimentos são para o estômago e o es-
tômago para os alimentos
Vamos agora comentar cada lema e a resposta de Paulo que o segue.
a. “Todas as coisas me são lícitas.” Esse lema aparece quatro vezes
na primeira epístola de Paulo aos coríntios (6.12 (duas vezes), 10.23
(duas vezes). A origem do lema não é de importância precípua. Não
podemos apurar com toda a certeza se Paulo havia dado aos leitores
essas palavras. Também não sabemos se o lema veio dos filósofos gre-
gos ou dos incipientes gnósticos.
37
O que é significativo é que certos
membros da igreja de Corinto usavam o lema como desculpa para pro-
mover seu modo de entender a liberdade cristã.
Coríntios livres-pensadores eram de opinião que podiam fazer o
que bem entendessem.
38
Seu modo de aplicar o lema todas as coisas
37. Veja Michael Parsons, “Being Precedes Act: Indicative and Imperative in Paul’s Wri-
ting”, EvQ 60 (1988): 99-127.
38. Examinando o lema de 6.12 e 10.23 no contexto dos capítulos 8-10, James B. Hurley
sugere que Paulo se dirige a cristãos judeus. “Man and Woman in 1 Corinthians”, disserta-
ção de doutorado, Cambridge University, 1973, p. 86.
1 CORÍNTIOS 6.12
274
me são lícitas excedia os limites do comportamento cristão aceitável.
Em lugar de viver como crentes perdoados, santos e justos, eles se
entregavam a pecados sociais e sexuais. Em vez de se submeterem ao
governo de Jesus Cristo, eles justificavam o pecado em nome da liber-
dade dada a eles em Cristo. Em vez de servir ao Senhor e seu próximo
em amor cristão genuíno (Mt 22.37-40), serviam a si próprios.
Numa de suas afirmações sucintas, Martinho Lutero lançou luz
sobre o entendimento errôneo da liberdade por parte dos coríntios. Ele
escreveu: “Um cristão é um senhor perfeitamente livre de todos, não
sujeito a ninguém. Um cristão é um servo perfeitamente obrigado a
todos, sujeito a todos”.
39
b. “Mas nem todas as coisas são proveitosas” (comparar com Sir.
37.28). Alguns coríntios livres-pensadores pareciam aplicar as pala-
vras todas as coisas a tudo, inclusive aos atos sexuais imorais. Entre-
tanto Paulo rejeita a noção de que a expressão precisa ser entendida
como incluindo o pecado; os mandamentos de Deus traçam parâme-
tros claros sobre a conduta aceitável. Embora Paulo concorde com o
moto, ele o limita com uma declaração adversativa: “mas nem todas as
coisas são úteis” (RSV). Nessa afirmação ele omite o referente, isto é,
ele não diz “nem tudo é útil para mim ” ou “nem tudo é útil para você”;
ao contrário, deixa a questão em aberto. Mas nossa conduta, quer boa
ou má, sempre afeta as pessoas com quem interagimos. Não temos o
direito de fazer o que quer que agrade a nós sem estarmos atentos a
qualquer efeito nocivo que nosso comportamento possa ter sobre nos-
so semelhante. O egoísmo contraria a ordem de amar nosso próximo
como a nós mesmos. Em conseqüência disso, Paulo escreve: “Mas nem
todas as coisas são proveitosas”.
c. “‘Todas as coisas me são permitidas, mas eu não me deixarei
dominar por nada’”.
40
Novamente Paulo cita o moto que circulava na
comunidade cristã em Corinto, e ele outra vez restringe o raio de sua
aplicação e, com isso, seu impacto. A expressão todas as coisas tem
seu inverso na frase coisa alguma.
39. Helmut T. Lehmann, org., Luther’s Works, 55 vols., Career of the Reformer I, vol. 31
(Filadélfia: Muhlenberg, 1957), p. 344.
40. Ver Bauer, p. 279.
1 CORÍNTIOS 6.12
275
O que Paulo está tentando comunicar com essa negação? Primeiro,
no grego Paulo apresenta um trocadilho. Quando ele diz que todas as
coisas são lícitas para ele, ele quer dizer que tem a autoridade para
fazer todas as coisas. O trocadilho em grego é refletido nos itens com
itálico. Ter autoridade é ter domínio sobre algo ou alguém. Mas, diz
Paulo, eu não permitirei que nada, nem pessoa alguma, tenha autorida-
de sobre mim. Depois, ele se torna pessoal ao aplicar o moto a si mes-
mo na primeira pessoa do singular. Ele faz isso com freqüência para
dar liderança e direção aos leitores que enfrentam questões morais e
sociais.
41
Terceiro, ao se identificar com essas questões, ele nota o fato
de que ele não possui mais aquilo que o possui.
Deus nos deu apetites naturais que podemos satisfazer em liberdade
cristã. Por exemplo, nós somos limitados por leis naturais e morais: o
comer e beber devem ser exercidos com moderação, e o sexo deve ser
conservado dentro dos laços do santo matrimônio. Mas se uma pessoa
cede ao pecado, ela é seu escravo e o pecado é seu mestre (comparar com
Gn 4.7; Rm 6.16). Uma pessoa pode exercer a liberdade cristã livremen-
te em todas as coisas, contanto que isso ocorra em comunhão com Cristo.
13. “Os alimentos são para o estômago, e o estômago, para os
alimentos”, mas Deus destruirá a ambos. O corpo não é para a
imoralidade, e sim para o Senhor, e o Senhor para o corpo.
a. “‘Os alimentos são para o estômago, e o estômago, para os ali-
mentos.’” Começando com um slogan generalizado, “todas as coisas
me são permitidas”, Paulo recita agora um ditado proverbial específi-
co: tem que ver com os alimentos e o estômago. A pessoa que compôs
esse ditado, seja quem for, tornou-o vívido invertendo os dois substanti-
vos na segunda metade. Portanto, o público aceitou o moto prontamente.
Mas embora Paulo aceitasse a verdade do provérbio, ele acrescenta-lhe
um comentário de forma semelhante ao do texto anterior (ver v. 12).
Deus criou um mundo que produz uma variedade de alimentos para
sustentar a vida. Quando não é desperdiçado, o alimento acaba no es-
tômago de quem come. E, inversamente, um estômago recebe alimen-
to para o benefício do consumidor. Foi assim que Deus projetou sua
41. Ver 1 Coríntios 6.15; 7.7; 8.13; 10.29, 30, 33; 14.11. Consultar Bengel, New Testa-
ment Commentary, vol. 2, p. 196.
1 CORÍNTIOS 6.13
276
grande criação. Mas Deus também impõe limites. Os produtos alimen-
tícios, que são perecíveis, e a vida humana, sujeita ao envelhecimento,
com o tempo se acabam. Tanto o alimento como o estômago são tem-
porais e sem permanência.
b. “Mas Deus destruirá a ambos.” Aqui Paulo focaliza a temporali-
dade da comida e do estômago. Para dar ênfase à sua natureza passa-
geira, declara que Deus há de destruir as duas coisas. Nesse contexto,
Paulo não entra em pormenores sobre comer alimentos oferecidos aos
ídolos, a liberdade cristã, ou comer e beber para a glória de Deus. Em
outros lugares ele trata desses tópicos (8; 10.23-33).
c. “O corpo não é para imoralidade, e sim para o Senhor, e o Se-
nhor para o corpo.” O recado que Paulo dá aos coríntios é que eles não
devem identificar o apetite sexual com um apetite por comida e bebi-
da. J. B. Lightfoot observa que os coríntios confundiam a proibição de
duas categorias distintas: “comida e bebida de um lado, e pecados de
sensualidade do outro”.
42
Comida e bebida devem ser consumidas com
moderação e discrição. Mas o consumo em si não é questão de morali-
dade, porque qualquer pessoa com bom senso santificado deseja ser
saudável e continuar a ter saúde. Inversamente, o mandamento de Deus
para fugir da fornicação e adultério é relacionado à moralidade.
Deus criou o corpo humano não para o prazer pecaminoso, mas
para sua glória. Ele o formou à sua imagem e segundo sua semelhança
(Gn 1.26), não para a imoralidade sexual. Os membros do Conselho de
Jerusalém sabiam que os gentios consideravam aceitável a imoralida-
de sexual. Portanto, aos decretos sobre os alimentos, os membros do
conselho acrescentaram a lei moral: “que vocês se abstenham das coi-
sas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue, da carne de animais
sufocados e das relações sexuais ilícitas” (At 15.29). Aqueles coríntios
que ostentavam sua liberdade em Cristo se consideravam livres para
regalar-se no comer e na gratificação sexual. Mas sua imoralidade se-
xual violava os preceitos do Conselho de Jerusalém e era uma trans-
gressão do Decálogo (Êx 20.14; Dt 5.18).
42. Lightfoot, Notes on the Epistles, p. 214. Ver também Archibald Robertson e Alfred
Plummer, A Critical and Exegetical Commentary on the First Epistle of St. Paul to the
Corinthians, International Critical Commentary, 2ª ed. (1911; reedição. Edimburgo, Clark,
1975), p. 123.
1 CORÍNTIOS 6.13
277
Deus criou o corpo físico do homem para o trabalho na sua criação
(Gn 1.28). Ele instituiu o casamento para a propagação da raça huma-
na e para o enriquecimento do casal no casamento. Ele vê o uso do
corpo humano no sexo ilícito como coisa absolutamente contrária a
seu propósito (ver 1Ts 4.3-5). Então Paulo observa que o corpo é para
servir ao Senhor e acrescenta ainda que o Senhor é para o corpo.
Ao lema dos coríntios, Paulo acrescenta ainda sua própria instru-
ção. Ele faz um paralelo com o ritmo e o estilo do lema deles:
O alimento para o estômago e o estômago para o alimento.
O corpo para o Senhor e o Senhor para o corpo.
Como o alimento e o estômago são feitos um para o outro, assim o
corpo físico e o Senhor servem um ao outro. Tanto o alimento como o
estômago são de significação transitória, mas o corpo e o Senhor têm
significação duradoura ligada à ressurreição. O paralelismo não deve
ser levado até sua conclusão lógica, pois o propósito de Paulo não é
esse.
43
Nosso corpo físico, criado por Deus, porém manchado pelo peca-
do, na morte descerá ao túmulo. Foi remido por Cristo e será ressusci-
tado, como seu corpo foi ressuscitado. O Senhor reivindicará esse cor-
po porque pertence a ele (Rm 14.8).
14. Deus não ressuscitou só o Senhor como também nos ressus-
citará pelo seu poder.
Assim como Deus destrói o alimento e o estômago, ele restaura
tanto o corpo de Cristo como o nosso na ressurreição. Devemos discer-
nir a diferença entre a ressurreição de Cristo e a nossa, tanto quanto ao
tempo como quanto ao tipo. Cristo é as primícias, os primeiros frutos,
e nós somos seus seguidores (15.15,20). Ele é o autor de nossa salva-
ção, e nós somos sua família (Hb 2.10,11). Mas essa diferença não é a
preocupação de Paulo nesse texto específico.
No mundo gentio dos dias de Paulo, os filósofos gregos considera-
vam o corpo físico dos homens de valor insignificante, enquanto viam
sua alma como tendo importância total. Por esse motivo, Paulo retorna
43. Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians, série New International Com-
mentary on the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), p. 256.
1 CORÍNTIOS 6.14
278
à doutrina da ressurreição no capítulo 15 e frisa a significação do cor-
po humano. Mas, no contexto atual, ele meramente introduz o fato de
que Deus ergueu Cristo dos mortos, e ele assegura que Deus também
levantará o corpo de cada um de nós pelo seu poder. A interpretação é
que, assim como Jesus foi ressuscitado fisicamente, assim também nosso
corpo físico será ressuscitado. Note que Paulo se torna pessoal ao usar
o pronome da primeira pessoa do plural nós, no qual ele próprio está
incluído.
Embora seja colocado no túmulo por ocasião da morte, nosso cor-
po físico é precioso para Deus (comparar com Sl 116.15). Ele o tem em
alta estima e o vivificará pelo seu poder (veja Rm 8.11; 2Co 4.14;
13.4). O poder de Deus tocou o corpo de Cristo na sepultura, e esse
mesmo poder tocará nosso corpo morto no túmulo para dar-lhe vida.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 6.12-14
Versículos 12,13
-,euctacòµce¡at – o uso do futuro passivo de -,eucta,æ (eu tenho
autoridade sobre) apresenta um trocadilho, pois o verbo -,-c:t| (é permi-
tido) denota que a pessoa a quem se aplica recebeu a autoridade (-,eucta).
:t|e, – esse pronome indefinido pode ser masculino (“qualquer pes-
soa”) ou neutro (“qualquer coisa”). A segunda tradução é a preferida por-
que dá equilíbrio com o neutro ia|:a (todas as coisas).
sat...sat – a repetição da conjunção significa “tanto... como”.
Versículo 14
-,-,-¡-t – o futuro ativo (“ele ressuscitará”) é apropriado ao ensino
que retrata a ressurreição física como sendo um acontecimento vindou-
ro.
44
Também contrabalança o tempo futuro de sa:a¡,µc-t (ele destruirá)
no versículo anterior (v. 13). Outras leituras são o aoristo -,µ,-t¡-| que
segue o aoristo do verbo simples µ,-t¡-| e o tempo presente -,-,-t¡-t,
que provavelmente representa um erro inadvertido de um escriba.
45
Os
tradutores são a favor da primeira leitura. O verbo composto e o verbo
simples são idênticos quanto ao sentido.
44. Veja João 5.28,29; 11.24; Atos 24.15; 1 Tessalonicenses 4.16,17.
45. Bruce M. Metzger, A Textual Commentary on the Greek New Testament, 3ª ed. corri-
gida (Londres e Nova York, United Bible Societies, 1975), p. 552.
1 CORÍNTIOS 6.12-14
279
b. Prostituta
6.15-17
15. Vocês não sabem que o corpo de vocês é um membro de
Cristo? Bem, então, eu hei de tirar os membros de Cristo e torná-
los membros de uma prostituta? Nunca!
a. “Vocês não sabem?” Outra vez Paulo faz uma pergunta retórica
com o verbo saber que exige uma resposta afirmativa (ver, por ex., vs.
2, 3, 9). Ele parece referir-se a ensinos orais anteriores para refrescar a
memória dos leitores.
46
E pergunta se eles têm qualquer conhecimento
com respeito ao próprio corpo.
b. “O corpo de vocês é um membro de Cristo.” Paulo dá continui-
dade ao pensamento de um versículo anterior (v. 13) no qual ele afir-
mou que o corpo é para o Senhor e o Senhor para o corpo. Agora ele
revela a extensão desse relacionamento íntimo: o corpo físico do cren-
te é na realidade um membro de Cristo. Nesse versículo, Paulo declara
o fato simples de os crentes serem “membros de Cristo”. Num contex-
to subseqüente ele estende esse fato ao corpo de Cristo, que é a Igreja
(ver 12.12, 27; Rm 12.5,6). Cristo usa nosso corpo físico para promo-
ver a causa do evangelho e nutrir a comunhão com ele. Nós, portanto,
somos as mãos e os pés de Cristo! Precisamos obedecer às orientações
que vêm de Cristo; ele é nosso cabeça e nós somos seus membros.
c. “Bem, então, eu hei de tirar os membros de Cristo e torná-los
membros de uma prostituta?”. Paulo espera receber uma resposta posi-
tiva à sua primeira pergunta (v. 15a) e agora prossegue com outra per-
gunta. Antes de colocá-la, ele quer que os leitores concordem com ele
e, por isso, escreve: “bem, então”. Ele está dizendo: “Se isso é verda-
de, vou tirar de Cristo esses membros que fazem o que ele manda e uni-
los a uma prostituta?”. Paulo espera dos coríntios uma resposta negativa.
A palavra grega pornh (prostituta) é um eco da palavra porneia
(fornicação, imoralidade sexual [vs. 13, 19]; a palavra coloquial “por-
nô” deriva dela). Na cultura grega daquele tempo, a prostituição e a
fornicação eram consideradas atividades toleráveis. Ateneu, um escri-
tor do século II d.C., cita de um discurso de Demóstenes: “Nós temos
amantes para o prazer, concubinas para a concubinagem diária, mas
46. John C. Hurd, Jr., The Origin of 1 Corinthians (Macon, Ga.: Mercer University Press,
1983), p. 87.
1 CORÍNTIOS 6.15
280
esposas nós temos para produzirem filhos legitimamente e ter uma
guardiã de confiança de nossa propriedade doméstica”.
47
Quando Paulo fala dos membros de Cristo e dos membros de uma
prostituta, ele não pretende traçar um paralelo exato. Em vez disso, ele
contrasta a comunhão sagrada do crente com Cristo e o desejo sensual
da pessoa que tem relações com uma prostituta. “Cristo é tão ligado a
nós, e nós a ele, que somos unidos num só corpo com ele.”
48
Paulo
revela justificável indignação com respeito à condição moral em Co-
rinto, onde a imoralidade sexual ocorria mesmo entre os cristãos. Mas
Paulo ensina que se eles estão unidos com Cristo, não podem unir-se
com uma prostituta. Esses dois conceitos são incompatíveis. Portanto,
Paulo responde à sua própria pergunta retórica com uma réplica incisiva.
c. “Nunca!” A resposta negativa à pergunta de Paulo é dada numa
única palavra, “nunca”. Em outras versões é dada como “Certamente
que não” (NKJV), “Impossível” (GNB) ou “Fora de questão” (NJB). Todas
elas enfatizam que isso seria impensável.
16. Ou vocês não sabem que aquele que se une à prostituta é
um só corpo com ela? Pois ele diz:
“Os dois se tornarão uma só carne”.
a. “Ou vocês não sabem?” Observe a frase repetitiva, vocês não
sabem?, que ocorre três vezes (vs. 15, 16, 19). Concluímos que, em
suas comunicações orais, Paulo havia instruído os coríntios a que aban-
donassem as práticas sexuais imorais dos gentios. Eles tinham de saber
que pertenciam a Jesus de corpo e alma. Que ninguém dissesse que
servia a Cristo no espírito, mas que no corpo era livre para fazer o que
agradasse a si mesmo. Corpo e espírito são intimamente ligados. Se uma
pessoa tem relações sexuais com uma prostituta, seu ato envolve não
meramente seu ser físico, mas também seu ser espiritual. O ato afeta sua
pessoa interior e o orienta material, social e religiosamente. Horst See-
bass conclui: “Aquele que se une a uma prostituta tem uma existência
em comum com ela. Não existe um pecado puramente sexual. O espírito
do prostíbulo e o Espírito de Cristo excluem-se mutuamente”.
49
47. Athenaeus Deipnosophistae 13.573b (LCL)
48. Calvino, 1 Corinthians, p. 130.
49. Horst Seebass, NIDNTT, vol. 2, p. 350.
1 CORÍNTIOS 6.16
281
b. “Aquele que se une à prostituta é um só corpo com ela.” Em
nossa língua, é necessário fornecer as palavras “com ela” para comple-
tar a tradução da sentença grega. A Escritura mostra que o verbo unir-
se se refere a mais do que a união física; envolve um relacionamento
de apego que tem implicações espirituais. Aqui há duas ilustrações:
primeira, Deus ordenou aos israelitas que o temessem, que o servissem
e que se chegassem a ele (Dt 10.20). Em seguida, Salomão se apegou
às suas esposas estrangeiras que o induziram a adorar outros deuses
em lugar do Senhor Deus (1Re 11.1-8).
c. “Pois ele diz: ‘Os dois se tornarão uma só carne’”. Paulo denun-
cia o pecado sexual dizendo que o homem que se une a uma prostituta
é um só corpo com ela. Ele prova o que diz com sua alusão ao relato da
criação de Eva no qual o verbo unir-se ocorre. “Por isso, deixa o ho-
mem pai e mãe e se une à sua mulher; e eles se tornarão uma carne”
(Gn 2.24, NASB)). Desse versículo, ele cita somente a parte final, to-
mando-a da tradução Septuaginta: “Os dois se tornarão uma carne”.
Essa citação de uma frase da instituição do casamento parece não
caber, porque a passagem tem relação com a narração do estado sem
pecado de Adão e Eva no paraíso. Não obstante, a afirmação continua
sendo verdade para todo casamento (ver Mt 19.5; Ef 5.31). Dentro dos
laços do matrimônio, um esposo e esposa cristãos tornam-se uma só
carne e são um no Senhor. Mas quando o esposo tem relações ilícitas
com uma prostitua, ele é uma só carne com ela e quebra seus laços com
o Senhor. Em vez de receber a bênção de Deus, ele está sob a maldição
de Deus.
50
Como pessoa sexualmente imoral, ele perde seu quinhão no
reino de Deus (v. 10).
17. Mas aquele que se une com o Senhor é um só no espírito
com ele.
Esse versículo faz paralelo com a primeira parte do verso anterior:
“aquele que se une a uma prostituta é um só corpo com ela” (v. 16). O
verbo unir-se, usado em ambos os versículos, na verdade significa es-
tar colado com alguém. O relacionamento é tão próximo como dois
50. Em seu artigo, “Hard Sayings – V. 1 Cor. 6.16”, Theology 66 (1963): 491-93, G. R.
Duncan aplica a passagem de Paulo a um cristão que tinha relações com uma prostituta do
templo.
1 CORÍNTIOS 6.17
282
pedaços de vidro colocados um sobre o outro; é impossível separá-los
porque a pressão do ar como que cola um ao outro. É esse o relaciona-
mento que um cristão deve ter com o Senhor.
Paulo já havia observado que nosso corpo é um membro de Cristo
(v. 15) e assim deu ênfase à singularidade de nossa estrutura física.
Agora menciona o relacionamento íntimo de nosso espírito, que é uni-
do a Cristo. Ele contrasta a união corporal de macho e fêmea com a
união espiritual do crente e Cristo. Esse contraste não pode ser levado
a extremos, pois embora uma prostituta e Cristo sejam opostos com-
pletos, o corpo e o espírito não o são. Para o crente, o corpo e a alma
formam uma unidade a serviço do Senhor. Unir-se a uma prostituta
constitui degradação e resulta em desonra; unir-se ao Senhor significa
exaltação e resulta em estima.
Um crente torna-se unido ao Senhor por meio da presença do Espí-
rito Santo que nele habita.
51
Assim ele se torna um com o Senhor em
espírito e goza uma união interior com ele (ver, por ex., 15.45; 2Co
3.17). Nesse versículo (ver v. 16) nós temos de fornecer também as
palavras com ele para completar a tradução do grego.
Considerações Práticas em 6.16,17
Realmente chama a atenção o contraste entre a pessoa que se une a
uma prostituta e a pessoa que se apega a Cristo. Por exemplo, o relaciona-
mento entre um homem e uma prostituta é momentâneo, sem amor, sem
responsabilidade, mutuamente destrutivo, decididamente egocêntrico e
vergonhosamente imoral. Em contrapartida, o relacionamento que o cren-
te tem com Cristo é caracterizado por permanência, amor, confiança, edi-
ficação, obediência e pureza.
A prostituição torna a pessoa propensa à doença, e é degradante, é
pecado, prejudica a alma dela. Cristo, ao contrário, exalta a pessoa, enco-
raja o viver sadio, instrui a pessoa na lei do amor para com Deus e para
com o próximo, e restaura o espírito do crente.
Uma pessoa imoral deixa de gozar a felicidade matrimonial; ela passa
51. Consultar Donald Guthrie, New Testament Theology (Downers Grove: InterVarsity,
1981), p. 552; E. Earle Ellis, Prophecy and Hermeneutic in Early Christianity: New Testa-
ment Essays (Grand Rapids: Eerdmans, 1978), p. 67.
1 CORÍNTIOS 6.16, 17
283
pela experiência de fracasso na intimidade pessoal, substitui o serviço a
Deus pelo sexo, e entrega-se ao que é vulgar, obsceno e sensual. Mas um
cristão constrói o companheirismo amoroso e duradouro com sua esposa,
busca satisfação própria em servir aos outros, ama seu Senhor, cultua-o
com alegria, cultiva a conversação sadia, promove a decência e exempli-
fica a virtude. “Assim podemos entender por que a carta aos Efésios [Ef
5.21-33] enfatiza que Cristo e sua Igreja, como noivo e noiva, constituem
a união que é normativa para o casamento”.
52
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 6.15,16
Versículo 15
ietµcæ – esse é um futuro ativo do indicativo (“eu farei”) ou o aoristo
ativo do subjuntivo (“para que as faça?”). Como a sentença é interrogati-
va, o subjuntivo deliberativo é preferido. Expressa dúvida e incredulidade.
¡µ ,-|et:e – o aoristo optativo de ,t|e¡at (eu sou, torno-me) no opta-
tivo com a partícula negativa ¡µ expressa um desejo negativo na forma de
uma oração: “Que não seja assim”.
Versículo 16
seììæ¡-|e, – Paulo emprega o particípio presente médio do verbo
simples em lugar do composto no relato de Gênesis (2.24, LXX). Ainda
que o particípio composto i¡ecseììæ¡-|e, denote direção, a diferença
entre essas duas formas verbais é insignificante; tanto em Gênesis 2.24
como nesse versículo, as formas se referem à união do ato sexual.
53
Além
do mais, tem implicações espirituais.
:µ ie¡|µ – a presença do artigo definido dá a entender que Paulo se
refere não a uma pessoa apenas, mas a uma categoria.
-t, – essa preposição com o substantivo ca¡sa (carne), no caso acusa-
tivo, forma a construção nominativa do predicado: “os dois se tornarão
uma carne”.
52. J. Stanley Glen, Pastoral Problems in First Corinthians (Londres: Epworth, 1965), p.
93. Consultar também Parry, First Epistle to the Corinthians, p. 105.
53. Mas ver J. I. Miller, “A Fresh Look at 1 Corinthians 6.16s.”, NTS 27 (1980): 125-27.
Ele sugere um apego em vez de união sexual.
1 CORÍNTIOS 6.15, 16
284
c. Comprado
6.18-20
18. Fuja da imoralidade. Qualquer outro pecado que o homem
comete está fora de seu corpo, mas o homem imoral peca contra
seu próprio corpo.
a. “Fuja da imoralidade”. Esse breve mandamento é exemplificado
por José na casa de seu mestre egípcio Potifar, cuja esposa tentou se-
duzi-lo. José deixou sua capa na mão dela quando fugiu daquela casa
(Gn 39.12). Nesse mandamento, Paulo emprega o verbo fugir no tem-
po presente, o que indica ação contínua. Está insistindo com os corín-
tios para que se abstenham da imoralidade que encontram diariamente
na degenerada sociedade de Corinto (comparar com 10.14).
b. “Qualquer outro pecado que o homem comete está fora de seu
corpo.” O que Paulo está dizendo nessa declaração sucinta? A biblio-
grafia sobre o verso 18b é vasta, e cai em duas categorias: essa parte do
versículo é um slogan coríntio
54
ou uma declaração que Paulo escre-
veu.
55
A primeira alternativa é que Paulo restringe o slogan com a cláu-
sula “mas o homem imoral peca contra seu próprio corpo” (v. 18c).
Mas os estudiosos fazem objeção a essa interpretação, pois acham que
a resposta suavizadora de Paulo ao slogan é abrupta.
56
Além disso, a
resposta de Paulo é inadequada para contrapor-se ao impacto desse
suposto moto expresso pelos livres-pensadores coríntios.
A segunda alternativa tem maior aceitação porque com ela Paulo
exorta seus leitores a fugirem da fornicação – um pecado que prejudica
tanto o corpo como a alma. Nesse contexto ele dá a mensagem do ver-
sículo 18: “Nenhum outro pecado ocupa a força da comunicação cor-
poral da pessoa de uma forma precisamente tão íntima. Todos os ou-
tros pecados estão a esse respeito, por comparação, fora do corpo”.
57
A
54. Moule, Idiom-Book, p. 196; Hurley, “Man and Woman”, p. 112; Jerome Murphy-
O’Connor, “Corinthian Slogans in 1 Corinthians 6.12-20”. CBQ 40 (1978): 391-96.
55. Robert H. Gundry, Swma in Biblical Theology: With Emphasis on Pauline Anthropo-
logy (1976; Grand Rapids: Zondervan: Academic Books, 1987), pp. 70-75; F. W, Groshei-
de, Commentary on the First Epistle to the Corinthians: The English Text with Introducti-
on, Exposition and Notes, série New International Commentary on the New Testament
(Grand Rapids: Eerdmans, 1955) p. 151.
56. Veja Fee, First Corinthians, p. 262.
57. Brendan Byrne, “Sinning against One’s Own Body: Paul’s Understanding of the Se-
xual Relationship in 1 Corinthians 6.18”, CBQ 45 (1983): 613.
1 CORÍNTIOS 6.18
285
maioria dos tradutores acrescentou um outro ao texto grego que diz:
“Todo pecado que o homem comete está fora de seu corpo”. Fazem
isso porque o texto expressa a exceção do pecado da fornicação.
E a dependência química de drogas ou álcool? Esses também são
pecados contra o corpo? Aceita-se que a ânsia por essas substâncias se
origina dentro de uma pessoa; as próprias substâncias entram no corpo
humano de fora. Mas o pecado da fornicação que surge no espírito
busca gratificação do próprio corpo e assim é restringido ao corpo. Em
certo sentido, esse pecado é diferente de todos os outros pecados, por-
que fica dentro do corpo.
c. “Mas o homem imoral peca contra seu próprio corpo.” O adver-
sativo mas exige a inserção da palavra outro na frase anterior. “Todo
outro pecado que o homem comete está fora de seu corpo.” Aqui, en-
tão, está a exceção aos pecados cometidos fora do corpo: a fornicação
é o único pecado dirigido contra a satisfação do corpo da própria pes-
soa (ver Sir. 23.16-27). O fornicador usa seu corpo pecaminosamente
contra o Senhor que o criou, redimiu e santificou. Assim José pergun-
tou à esposa de Potifar: “Como, pois, cometeria tamanha maldade e
pecaria contra Deus?” (Gn 39.9);
58
Inversamente, um esposo e esposa
que são um só no Senhor comunicam seu amor mútuo na intimidade do
ato sexual. E experimentam satisfação mútua em vez de alienação e
sentimento de culpa. Em suma, eles se alegram na dádiva graciosa de
Deus da felicidade do casamento.
19. Ou vocês não sabem que seu corpo é um templo do Espírito
Santo dentro de vocês, que receberam de Deus? E vocês não per-
tencem a si mesmos.
a. “Ou vocês não sabem?” A conjunção comparativa ou fornece
um motivo adicional para se fugir da imoralidade sexual. Pela última
vez nesse capítulo, Paulo pergunta retoricamente aos coríntios se eles
têm conhecimento definido (ver vs. 2, 3, 9, 15, e 16). Novamente eles
precisam dar uma resposta afirmativa à pergunta. Presumimos que numa
ocasião anterior Paulo lhes tenha instruído sobre o uso apropriado e o
destino do corpo físico.
b. “Seu corpo é um templo do Espírito Santo dentro de vocês.”
58. Ver SB, vol. 3, pp. 366-67.
1 CORÍNTIOS 6.19
286
Paulo faz os coríntios se lembrarem da sacralidade de seu corpo. Ele
observa que o Espírito Santo faz sua habitação dentro deles, de modo
que o corpo deles é seu templo. Ele escreve as duas palavras, corpo e
templo, no singular para aplicá-las ao crente individual. E mais, por
meio da ordem de palavras no grego, ele coloca ênfase sobre o Espírito
Santo. Aos coríntios Paulo escreve literalmente: “Seu corpo é um tem-
plo daquele que está dentro de vocês, a saber, o Espírito Santo”, isto é,
o corpo físico do cristão pertence ao Senhor e serve como residência
do Espírito Santo.
Quanta honra ter o Espírito de Deus habitando dentro de nós! Ob-
serve que Paulo escreve a palavra templo (ver o comentário sobre 3.16).
O grego tem duas palavras que são traduzidas “templo”. A primeira é
hieron, que se refere ao complexo do templo em geral, como na cidade
de Jerusalém. A segunda é naos, que denota o prédio do templo, com o
Lugar Santo e o Lugar Santíssimo (ver, por ex., Êx 26.31-34; Hb 9.1-
5). No presente versículo é usado naos. Para o judeu, esse era o lugar
onde Deus habitava entre seu povo até a destruição do templo em 70
d.C. Para o cristão, não num local geográfico fixo, e sim no corpo do
crente individual, é onde o Espírito de Deus se agrada viver. Na Igreja
primitiva, Irineu chamava os cristãos individuais de “templos de Deus”
e descrevia-os como “pedras para o templo do Pai”.
59
Então, se o Espí-
rito de Deus habita dentro de nós, devemos evitar entristecê-lo (Ef
4.30) ou apagar sua chama (1Ts 5.19).
c. “Que receberam de Deus.” Nesse breve segmento do versículo,
Paulo ensina, primeiro, que os crentes individuais possuem e continu-
am a possuir o dom, ou dádiva, do Espírito Santo. A seguir, ele revela
que a origem do Espírito é de Deus.
d. “E vocês não pertencem a si mesmos.” Nós não somos os donos
de nosso próprio corpo, porque Deus nos criou, Jesus nos redimiu e o
Espírito Santo faz sua habitação dentro de nós. O Deus triúno reivindi-
ca que pertencemos a ele, mas nos deixa livres para consagrar e ceder
nosso corpo físico a ele. Em contraste, aqueles que cometem a fornica-
ção profanam o templo do Espírito Santo e causam dano espiritual e
59. Irineu, Efésios 15.3 e 9.1, respectivamente. Ver também Epístola de Barnabé 4.11;
6.15.
1 CORÍNTIOS 6.19
287
físico inexprimível para si e para os outros. Por esse motivo, Paulo
exorta-nos a fugir da imoralidade sexual (v. 18). Por Deus ser dono de
nosso corpo, nós somos mordomos dele e precisamos prestar contas a
ele. Portanto, devemos montar guarda sobre a santidade dele e prote-
gê-lo de poluição e destruição. O templo de Deus é santo e precioso.
20. Vocês foram comprados por um preço; glorifiquem a Deus,
pois, em seu corpo.
a. “Vocês foram comprados por um preço.” Essas palavras aludem
à morte de Jesus na cruz do Calvário, onde ele pagou o preço de nossa
redenção. Jesus pagou pela nossa liberdade do pecado, para que, como
filhos remidos de nosso Pai celestial, nós possamos compartilhar de
suas bênçãos. O termo comprou traz à mente o mercado de escravos,
onde eles eram comprados e vendidos.
60
Se isso é o que Paulo quer dizer,
ele faz referência a cristãos que Cristo comprou como escravos para
servi-lo. Cristo agora é seu dono e mestre. Numa passagem paralela,
Paulo diz a mesma coisa: “Porque o que foi chamado pelo Senhor, sendo
escravo, é liberto do Senhor; semelhantemente, o que foi chamado, sen-
do livre, é escravo de Cristo. Vocês foram comprados por um preço. Não
se tornem escravos de homens”. (7.22,23; ver também Gl 4.6,7).
b. “Glorifiquem Deus, pois, em seu corpo.”
61
Aqui Paulo apresenta
a afirmação conclusiva de um longo discurso sobre a imoralidade se-
xual (6.12-20). Ele habilmente converteu uma discussão negativa numa
exortação positiva. Ele diz aos coríntios que usem o próprio corpo, que
é o templo santo do Espírito, para honrar a Deus. Eles podem fazer isso
escutando obedientemente a voz dele à medida em que ele lhes fala por
meio de sua revelação. Um catecismo do século 17 faz a pergunta:
“Qual é o fim principal do homem?” A resposta é: “Glorificar a Deus,
e gozá-lo para sempre”.
62
60. Bauer, pp. 12, 13; David H. Field, NIDNTT, vol. 1, pp. 267, 268; Fee, First Corinthians,
pp. 264, 265.
61. O Texto Majoritário amplia a última parte desse versículo, acrescentando um parale-
lo: “e em seu espírito, que são de Deus (KJV, NKJV). O acréscimo não tem o apoio de manus-
critos gregos dos primeiros séculos e por isso os tradutores preferem não aceitá-lo. Ver
George L. Klein, “Hos 3.1-3 – Background to 1 Cor. 6.19b-29?” CrisTheolRev 3 (1989):
373-75.
62. Breve Catecismo de Westminster, pergunta e resposta 1.
1 CORÍNTIOS 6.20
288
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 6.18-20
Versículo 18
a¡a¡:µ¡a – em vez do substantivo a¡a¡:ta (pecado), que denota a
própria ação, a¡a¡:µ¡a descreve o resultado da ação. É uma transgressão.
-s:e, – como advérbio usado como preposição imprópria, significa
“fora” e aqui está relacionado ao pecado. “À parte da fornicação - [s:e,]
:eu cæ¡a:e, -c:t| permanece fora do corpo, visto que a imoralidade po-
lui o próprio corpo”.
63
-t, – essa preposição indica um alvo que está colocado com intenção
e meios “contra”. O paradoxo é que o homem que cuida de seu próprio
corpo (Ef 5.29) se volta contra ele próprio ao cometer fornicação. Esse
pecado específico, em contraste com todos os demais pecados que estão
fora do corpo, se origina e permanece dentro do corpo.
Versículo 19
:e cæ¡a u¡æ| – com o pronome plural, o substantivo singular é distri-
butivo. Como todas as pessoas têm um corpo físico, o pronome é suficien-
te para expressar o plural.
|ae, – o templo, isto é, o lugar onde Deus habita com seu povo. Deus
escolheu o corpo dos remidos para ser a habitação de seu Espírito.
Versículo 20
:t¡µ, – ”por um preço”. O verbo µ,e¡acòµ:- (vocês foram compra-
dos) controla o caso genitivo, no aoristo da voz passiva, e por implicação
tem Cristo como seu sujeito. O genitivo pode ser explicado como um
genitivo de quantidade: “vocês foram comprados por um preço”.
64
eµ – a forma abreviada de µeµ (agora, já) é uma partícula usada com o
imperativo glorifiquem! para mostrar urgência: “Glorifiquem a Deus, en-
tão, no próprio corpo”.
63. Bauer, p. 246.
64. Moule, Idiom-Book, p. 39.
1 CORÍNTIOS 6.18-20
289
Resumo do Capítulo 6
Os cristãos coríntios processam um ao outro na justiça diante de
juízes gentios. Paulo os repreende e pergunta se eles não têm na igreja
homens piedosos que possam solucionar suas disputas triviais. Ele res-
salta que os santos julgarão o mundo e os anjos. Portanto, eles devem
nomear um homem sábio dentre eles como mediador em lugar de ir à
justiça perante incrédulos.
Paulo ensina os leitores que suas disputas surgem de uma falta de
amor, tolerância e integridade. Ele observa que os maus não herdam o
reino de Deus. Infratores do sexo, idólatras, ladrões, beberrões e mal-
dizentes também são barrados do reino. Mas os coríntios haviam sido
lavados, santificados e justificados.
Alguns dos coríntios pronunciam lemas que dizem que tudo lhes é
permitido, e que o alimento é para o estômago e o estômago para o
alimento. Paulo corrige os coríntios com comentários sobre esses le-
mas. Ele lhes ensina que o corpo deles pertence ao Senhor; não foi
feito para a imoralidade sexual. O corpo deles é um membro de Cristo,
e portanto nunca deve ser unido a uma prostituta. Paulo apóia seu ensi-
no referindo-se a uma passagem do relato da criação. Ele insiste com
os leitores para que fujam da imoralidade. E ele revela que o corpo
deles é o templo do Espírito Santo. Eles foram comprados por um pre-
ço e destinados a glorificar a Deus.
1 CORÍNTIOS 6
290
291
7
Problemas Matrimoniais
(7.1-40)
292
III. A Resposta de Paulo às Preocupações dos Co-
ríntios
A. Problemas Matrimoniais
1. Conduta Apropriada
2. Fidelidade e Casamento
a. Solteiros e Viúvas
b. Casados e Divorciados
3. Crente e Incrédulo
4. Uma digressão
5. As virgens e o Casamento
a. Estado Marital
b. Dificuldades
c. Casamento e Serviço
d. Noivado e Casamento
e. Votos de Casamento
ESBOÇO (continuação)
7.1-16.4
7.1-40
7.1-7
7. 8-11
7. 8,9
7.10,11
7.12-16
7.17-24
7.25-40
7.25-28
7.29-31
7.32-35
7.36-38
7.39-40
293
CAPÍTULO 7
7
1. Agora, com respeito às coisas sobre as quais vocês escreveram: É bom que
um homem não toque em mulher. 2. Mas por causa da imoralidade, que cada
homem tenha sua própria esposa e cada mulher tenha seu próprio marido. 3. Que
o homem cumpra sua obrigação marital para com sua esposa e, semelhantemente,
a esposa para com seu marido. 4. A esposa não tem autoridade sobre seu próprio
corpo, mas seu esposo tem, e semelhantemente o marido não tem autoridade so-
bre seu próprio corpo, mas sua esposa tem. 5. Não recusem um ao outro, exceto
talvez por consentimento mútuo por um tempo especificado para que tenham tempo
para a oração. Depois unam-se novamente, para que Satanás não os tente por
causa de sua falta de domínio próprio. 6. Mas digo isso como uma concessão, não
como uma ordem. 7. Desejaria que todos os homens fossem como eu sou. No
entanto, cada um tem seu próprio dom dado por Deus, um este dom, outro aquele.
8. Mas digo aos não casados e aos viúvos que é bom para eles se permanece-
rem como eu vivo. 9. Mas se não exercem domínio próprio, que se casem, pois é
melhor casar do que abrasar com desejo sexual.
10. Àqueles que estão casados dou este mandamento – não eu mas o Senhor
– que uma mulher não se separe de seu marido. 11. Mas se ela de fato o deixar, que
permaneça sem se casar ou que se reconcilie com seu marido, e que o marido não
se divorcie de sua mulher.
12. Para os restantes, eu digo – eu, não o Senhor: Se algum irmão tem uma
esposa não crente e ela consente em viver com ele, que ele não a mande embora.
13 E se qualquer mulher tiver um marido incrédulo, e ele consentir em viver com
ela, que ela não o mande embora. 14. Pois o marido incrédulo foi santificado por
sua esposa [cristã], e a esposa incrédula foi santificada pelo marido [cristão]; de
outra forma seus filhos seriam impuros, mas agora são santos.
15. Mas se o incrédulo sair de casa, que saia. Um irmão [cristão] ou irmã
[cristã] não é obrigado em tais assuntos. Deus nos chamou para a paz. 16. Pois
como sabe você, esposa, se irá salvar seu marido? Ou como sabe você, marido, se
irá salvar sua esposa?
17. Todavia, que cada um viva a vida que o Senhor lhe concedeu, conforme
Deus chamou a cada um. E eu estou estabelecendo esta regra em todas as igrejas.
18. Qualquer homem que já foi circuncidado e chamado, que não desfaça a cir-
294 1 CORÍNTIOS 7.1-40
cuncisão. Qualquer um que não foi circuncidado, mas foi chamado, que ele não se
torne circunciso. 19. A circuncisão nada é, nem a incircuncisão, mas o que impor-
ta é a obediência às ordens. 20. Que cada um permaneça na vocação em que foi
chamado. 21. Se você era escravo quando foi chamado, que isso não o incomode.
Mas, de fato, se você puder tornar-se livre aproveite a possibilidade. 22. Pois
aquele que foi chamado no Senhor quando escravo, é uma pessoa livre no Senhor;
e do mesmo modo o homem livre, quando chamado, é um escravo de Cristo. 23.
Vocês foram comprados por um preço. Não se tornem escravos de homens. 24.
Irmãos, que cada um permaneça com Deus na situação em que foi chamado.
25. Agora, a respeito das virgens eu não tenho mandamento do Senhor, mas
eu, que pela misericórdia do Senhor sou digno de confiança, dou meu parecer. 26.
Penso então que, por causa da presente crise, é bom um homem permanecer como
está. 27. Se você está ligado a uma esposa, não busque ser desligado. Se você está
desligado de esposa, não procure uma. 28. Mas mesmo que você se case, você não
terá pecado. E se uma virgem se casar, ela não terá pecado. Mas essas pessoas
terão grandes aflições nesta vida, e eu gostaria de lhes poupar estas dificuldades.
29. Eu digo isso, irmãos, o tempo está abreviado, de forma que de agora em
diante mesmo aqueles que têm esposa que sejam como se não tivessem esposa.
30. E aqueles que choram, que sejam como se não chorassem, e aqueles que se
alegram, que sejam como se não se alegrassem; e aqueles que compram, como
se não comprassem. 31. E aqueles que usam as coisas do mundo, que sejam
como se não as usassem plenamente. Porque este mundo, em sua forma atual,
está passando.
32. Eu quero que vocês sejam livres de ansiedades. O homem que não está
casado cuida das coisas que pertencem ao Senhor, como ele pode agradar o Se-
nhor. 33. Mas o homem casado cuida das coisas deste mundo, como pode agradar
sua esposa, 34. e seus interesses são divididos. Também a mulher que não é casa-
da ou a virgem cuida das coisas do Senhor, para que possa ser santa tanto no corpo
como no espírito. Mas a casada cuida das coisas do mundo, de como ela pode
agradar seu marido. 35. Eu digo isso em seu próprio benefício, não para restringir
vocês, mas para promover decoro e devoção ao Senhor sem distrações.
36. Mas se alguém pensa que está se portando desonrosamente para com a
escolhida, a virgem com quem ele pode casar – se suas paixões são fortes e deve
ser assim – deixem que faça o que ele deseja; ele não peca. Que se casem. 37. Mas
aquele que permanece firme em seu próprio coração e não está sob nenhuma obri-
gação, mas tem seu desejo sob controle e ele decidiu em seu coração não se casar
com a virgem, ele faz bem. 38. Portanto, aquele que se casa com sua noiva casa-
doura faz bem, mas aquele que não casa faz melhor.
39. Porque a mulher está ligada ao marido enquanto ele viver. Mas se o mari-
do morre, ela está livre para se casar com quem quiser, mas somente no Senhor.
40. Ela será mais feliz permanecendo como está, em minha opinião. E penso que
tenho o Espírito de Deus nisso.
295 1 CORÍNTIOS 7.1
III. A Resposta de Paulo às Preocupações dos Coríntios
7.1-16.4
A. Problemas Matrimoniais
7.1-40
Nos dois capítulos anteriores (5 e 6), Paulo escreveu a respeito do
incesto, dos litígios e da imoralidade sexual. Ele condenou com indig-
nação a frouxidão moral dos coríntios e incentivou-os a viverem vidas
saudáveis para glorificar a Deus. Não obstante, ele ainda não havia
tocado no assunto do casamento, da separação, da virgindade e do ce-
libato. Numa carta da igreja de Corinto, Paulo recebeu o pedido de
aconselhamento sobre problemas matrimoniais na igreja. Nesse capí-
tulo ele discute a conduta apropriada de casais, a fidelidade duradoura
no casamento, o decoro de virgens e a continência. Com a exceção de
algumas passagens em outra parte no Novo Testamento, esse capítulo
é singular em apresentar diretrizes básicas para aqueles que são casa-
dos, aqueles que desejam sê-lo ou que no passado foram casados, e
aqueles que querem permanecer solteiros.
I. Conduta Apropriada
7.1-7
1. Agora, com respeito às coisas sobre as quais vocês escreve-
ram: É bom que um homem um homem não toque em mulher.
Notamos os seguintes pontos:
a. A carta. “Agora, com respeito às coisas sobre as quais vocês
escreveram.” Paulo freqüentemente escreveu à igreja de Corinto e re-
cebeu, por sua vez, correspondência vinda deles. Ele enviou aos corín-
tios uma carta (5.9) na qual havia escrito sobre pessoas em Corinto que
eram sexualmente imorais. Talvez essa carta, que não mais existe, te-
nha também feito referência à idolatria e a outros assuntos, mas prefe-
rimos abster-nos de especulações.
1
Os coríntios responderam a essa
epístola com um comunicado escrito, entregue por Estéfanas, Fortuna-
to e Acaico (16.17), no qual pediam conselhos sobre vários itens. Na
1. Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians, Série New International Commen-
tary on the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), p. 7. Fee se sente livre para
incluir na carta inicial de Paulo pessoas gulosas, ladrões e idólatras.
296
maior parte de l Coríntios (7.1 – 16.12), Paulo responde às perguntas
que eles fizeram.
Podemos determinar com certo grau de certeza quais foram as per-
guntas que eles fizeram. Uma indicação é a frase recorrente agora com
respeito a (vs. 1, 25; 8.1; 12.1; 16.1, 12 com variações).
2
Paulo discute
o casamento (7.1-24, 39,40), o celibato (7.25-38), carne oferecida a
ídolos (8.1-11.1), o culto (11.2-34), dons espirituais (12-14), a coleta
para os cristãos de Jerusalém (16.1-4) e Apolo (16.12).
3
Como a ex-
pressão agora com respeito a está faltando, não podemos determinar
se na carta que mandaram os coríntios lhe perguntaram sobre a doutri-
na da ressurreição (15.12-57). É possível que tenham perguntado a
Paulo também sobre isso, porque tanto os coríntios como os tessaloni-
censes mostravam interesse por esse ensino (ver, por ex., 1Ts 4.13-
5.11; 2Ts 2.1-12). Em sua carta, os coríntios pediram conselhos a Pau-
lo; presumivelmente, o primeiro item que eles mencionaram tenha sido
o casamento
Castidade. “É bom que um homem não toque em mulher.” Essa
sentença seria uma citação da epístola que Paulo recebeu dos corínti-
os? Uma tradução coloca a declaração na interrogativa: “É melhor que
um homem não se case?”.
4
Ou trata-se da declaração inicial de Paulo
de sua discussão sobre o casamento? À luz do contexto, inclinamo-nos
a dar resposta afirmativa à primeira pergunta e negativa à segunda.
Baseado em sua própria autoridade, Paulo não poderia ter defendido o
celibato para todos, pois estaria contradizendo o pronunciamento de
Deus: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2.18). Então Paulo
estaria contra a procriação (Gn 1.28), as bênçãos pactuais de geração
em geração (Gn 17.7) e o crescimento da igreja. Mas Paulo não é con-
tra o casamento, que ele compara à união entre Cristo e a igreja (ver Ef
5.22,33). Portanto, ele tem uma visão elevada do casamento.
2. Margaret M. Mitchell, “Concerning peri. de, in 1 Corinthians”, NovT 31 (1989): 229-
56.
3. Para uma discussão completa, ver John C. Hurd Jr., The Origin of I Corinthians (Ma-
con, Ga.: Mercer University Press, 1983), pp. 61-94.
4. TNT, e veja NRSV, REB. Orígenes nota que Paulo recebeu essa epístola e conservou seu
conteúdo intacto. “Origen on 1 Corinthians, #121”, org. por C. Jenkins JTS 9 (1907-1908):
500. Para uma visão diferente, consultar W. E. Phipps, “Is Paul’s Attitude toward Sexual
Relations Contained in 1 Cor 7.1?” NTS 28 (1982): 125-31.
1 CORÍNTIOS 7.1
297
E mais, os rabinos comumente ensinavam que o casamento era uma
obrigação do homem, e alguns deles ainda diziam que era um dever da
mulher.
5
Se em alguma época Paulo foi casado, é difícil dizer (ver o
comentário sobre o v. 7). Tendo em vista seu entendimento profundo
da vida matrimonial, a possibilidade de que ele tivesse sido casado em
alguma época não pode ser descartada levianamente.
A formação e a educação de Paulo o impediriam de dizer que um
homem não deveria tocar uma mulher, pois isso poderia ser interpreta-
do como se ele defendesse o celibato para todos. Entendemos que Pau-
lo está citando uma frase da carta que recebera dos coríntios. A citação,
sem dúvida em forma mais abreviada, pode ser considerada um sumá-
rio da pergunta, que Paulo agora discutirá nos versículos seguintes (vs.
2-7).
c. Sentido. Qual o sentido dessa sentença? A Nova Versão Interna-
cional traduz o texto: “É bom que um homem não se case”. Essa tradu-
ção é uma interpretação do texto, mas falha em transmitir o sentido
exato. A expressão tocar em mulher é um eufemismo não para o casa-
mento, mas para o ato sexual (Gn 20.6, Pv 6.29).
6
Aparentemente, um grupo de crentes em Corinto se levantou con-
tra a imoralidade reinante na cidade. Eles defendiam o celibato e de-
clararam esse estado como normativo para o restante dos cristãos lo-
cais. Esses coríntios diziam que era bom um homem não ter relações
sexuais com uma mulher. Sua afirmação, no entanto, é mais extensiva
do que uma mera referência ao casamento. O grego emprega o termo
genérico anqrwpos (homem) em lugar da expressão anhr (esposo).
Além disso, o grego tem o substantivo indefinido gynh mulher, que
não significa “esposa”. O lema coríntio, portanto, aplicava-se a qual-
quer homem e qualquer mulher.
Segundo Walter Bauer, a expressão é bom que significa que o celi-
bato é “moralmente bom, agrada a Deus, e contribui para a salvação
(cf. 2.18)”.
7
Mas, ao citar essa afirmativa, será que Paulo está indican-
5. SB, vol. 3, pp. 377-78.
6. Gordon D. Fee, “I Corinthians 7.1 in the NIV”, JETS 23 (1980): 307-14. Fee sugere que
o eufemismo ter relações com é uma tradução possível, p. 314; First Corinthians, p. 275.
7. Bauer, p. 400. Ver também Hurd, Origin of I Corinthians, pp. 159-60.
1 CORÍNTIOS 7.1
298
do que o celibato é preferível ao casamento? Não, na verdade não está.
Ele mesmo fez referência à união de Adão e Eva no paraíso reconhe-
cendo que Deus instituiu o casamento (6.16; Gn 2.24). João Calvino
escreve: “Pois Deus assim o ordenou no princípio, que o homem sem
esposa era meio homem, por assim dizer, e sentia a falta de auxílio de
que ele especificamente precisava; e a esposa era, por assim dizer, o
arremate do homem. Portanto, qualquer mal ou dificuldade que exista
no casamento surge da corrupção da instituição de Deus”.
8
Nos versí-
culos seguintes (vs. 2-5), Paulo fala de modo favorável e com conheci-
mento de causa sobre o casamento, possivelmente por experiência pró-
pria. Não se vê nenhuma indicação de que ele o desmereça de qualquer
forma. Em suas instruções a Timóteo, escreve que os apóstatas proí-
bem as pessoas de se casarem (1Tm 4.3). Em nenhum lugar em qual-
quer de suas epístolas ele deprecia o estado do matrimônio. O que,
então, Paulo está tentando transmitir?
2. Mas por causa da imoralidade, que cada homem tenha sua
própria esposa e cada mulher tenha seu próprio marido.
a. “Mas por causa da imoralidade.” A primeira palavra no discurso
de Paulo é a adversativa mas, que qualifica o lema no versículo anteri-
or (v. 1b). Em outro lugar Paulo exorta os leitores a que evitem a forni-
cação (1Ts 4.3), pois é da vontade de Deus que eles sejam santificados.
Ele reconhece plenamente que os males da imoralidade sexual formam
a urdidura da vida de Corinto. Literalmente, Paulo diz, “por causa das
fornicações”. O plural ilustra as ocorrências freqüentes do sexo com
prostitutas. Paulo vai direto ao cerne do problema que existia na comu-
nidade coríntia. Ele aponta para as relações sexuais ilícitas que alguns
dos cristãos tinham; eles eram parte de uma sociedade pagã que nenhu-
ma objeção fazia à fornicação.
Portanto, Paulo endossava o lema dos coríntios que lutavam pela
causa do celibato, embora soubesse que pronunciar um lema não impe-
diria uma pessoa de cair no pecado. Ele está atento ao problema que os
cristãos enfrentavam em Corinto. Contudo, sua abordagem ao proble-
ma da imoralidade é mais realista do que a dos coríntios celibatários.
8. João Calvino, The First Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians, Série Calvin’s
Commentaries, trad. por John W. Fraser (reedição, Grand Rapids: Eerdmans, 1976), p. 135.
1 CORÍNTIOS 7.2
299
b. “Que cada homem tenha sua própria esposa e cada mulher tenha
seu próprio marido.” A incapacidade de algumas pessoas de praticar a
continência as induz ao pecado. Para evitar que pequem, Paulo reco-
menda que se casem e fiquem juntos em relacionamento monogâmico.
Ele efetivamente excluía a poligamia de qualquer tipo que fosse. Note
também que ele dá ênfase à igualdade entre o homem e a mulher no
estado de matrimônio. Cada parceiro deve ter seu próprio cônjuge, pois
foi assim que Deus o ordenou desde o princípio (ver Mt 19.8b). Paulo
intencionalmente repete as palavras cada e próprio e aplica os dois
termos igualmente ao marido e à esposa.
É pelo uso do adjetivo cada que o apóstolo responde à afirmação
coríntia (v. 1b). Observe que a declaração deles, “é bom que o homem
não toque em mulher”, é seguida pela réplica de Paulo: “que cada ho-
mem tenha sua própria esposa”. As expressões “um homem” (isto é,
qualquer pessoa) e cada homem se complementam.
“Paulo não coloca aqui a base para o matrimônio, como se fosse
‘ordenado como remédio contra o pecado’, mas dá um motivo especial
pelo qual se devem casar aquelas pessoas de Corinto que de outra for-
ma poderiam ter ficado solteiras.”
9
Não devemos, pois, acusar Paulo
de defender uma visão de que o casamento é meramente uma medida
preventiva contra a imoralidade.
O verbo ter é eufemístico para se referir ao ato sexual e não deve
ser interpretado como “manter”, no sentido de manter um (ou uma)
amante ilícito(a). Na narrativa sobre o homem incestuoso (5.1), “um
homem tem [‘possui’] a mulher de seu pai”, o verbo tem uma conota-
ção sexual. Do mesmo modo, no versículo 3, Paulo quer dizer que cada
homem deve ter sua própria esposa sexualmente e cada esposa deve
igualmente ter seu próprio marido.
10
E o segundo versículo prepara o
tom para a próxima sentença no discurso de Paulo.
3. Que o homem cumpra sua obrigação marital para com sua
esposa e, semelhantemente, a esposa para com seu marido. 4. A
esposa não tem autoridade sobre seu próprio corpo, mas seu mari-
9. G. G. Findlay, St. Paul’s First Epistle to the Corinthians, no vol. 3 de The Expositor’s
Greek Testament, org. por W. Robertson Nicoll, 5 vols. (1910, reedição, Grand Rapids:
Eerdmans, 1961), p. 823.
10. Hurd, Origin of I Corinthians, p. 162.
1 CORÍNTIOS 7.3, 4
300
do tem, e semelhantemente o marido não tem autoridade sobre
seu próprio corpo, mas sua esposa tem.
a. Paralelos. O paralelismo nos versículos 2 e 3 é digno de nota e
demonstra o interesse de Paulo pelo casamento e sua preocupação com
ele.
Versículo 2
que cada homem tenha sua própria
esposa
cada mulher tenha seu próprio mari-
do
Versículo 3
que o homem cumpra sua obrigação
marital para com sua esposa
semelhantemente a esposa para com
seu marido
Embora o versículo seguinte não corresponda ao ritmo dos dois
versículos anteriores, ele tem seu próprio equilíbrio interno:
b. Obrigação. Com penetrante entendimento das intimidades da
vida conjugal, Paulo declara que tanto o marido como a esposa devem
cumprir seus deveres matrimoniais recíprocos. Ele dá ênfase à igual-
dade dos dois sexos com respeito à união conjugal. “Que o homem
cumpra sua obrigação marital para com sua esposa e, semelhantemen-
te, a esposa para com seu marido”. E, ainda, ele frisa que o marido não
deve exigir da esposa, mas pelo contrário, deve satisfazer suas obriga-
ções maritais para com ela; da mesma forma, a esposa deve conceder
ao marido aquilo que ela lhe deve.
Com as palavras cumprir e obrigação, Paulo quer dizer o paga-
mento de uma dívida que cada um tem em relação ao outro.
11
“O casa-
mento sem sexo não é somente antinatural como é também expressa-
mente proibido.”
12
Ele não proclama nenhuma ordem sobre ascetismo
Versículo 4
o marido não tem autoridade sobre
seu próprio corpo, mas sua esposa
tem
a esposa não tem autoridade sobre seu
próprio corpo, mas seu marido tem
11. Em lugar de “obrigação”, o Texto Majoritário tem “benevolência” ou “afeição” (ver
KJV, NKJV)
12. Robert G. Gromacki, Called to Be Saints: An Exposition of 1 Corinthians (Grand
Rapids: Baker, 1977), p. 88.
1 CORÍNTIOS 7.3, 4
301
dentro dos laços do casamento. Paulo dissuade os cristãos coríntios
bem-intencionados, porém mal-orientados, cuja opinião era que os ca-
sais casados deveriam abster-se de relações sexuais. (ver v. 5).
c. Autoridade. O versículo 4 revela que Paulo tem um entendimen-
to ainda mais profundo da vida de casado do que ele expressou no
versículo anterior (v. 3). Ele declara que a esposa não tem nenhuma
autoridade sobre seu próprio corpo, mas que o esposo tem este poder;
e vice-versa, que o marido não tem nenhum poder sobre seu próprio
corpo, mas sua esposa tem essa autoridade. John Albert Bengel corre-
tamente intitula esse versículo de: “um elegante paradoxo”.
13
Em outra parte, Paulo ensina que o esposo é o cabeça da esposa
(11.3; Ef 5.23). Mas aqui ele deixa bem claro que com respeito à sexu-
alidade de marido e mulher, há completa igualdade. Cada um dos dois
tem autoridade sobre o corpo de seu cônjuge, e os dois se submetem
um ao outro. Assim experimentam completa mutualidade.
5. Não recusem um ao outro, exceto talvez por consentimento
mútuo por um tempo especificado para que tenham tempo para a
oração. Depois unam-se novamente, para que Satanás não os tente
por causa de sua falta de domínio próprio.
a. “Não recusem um ao outro.” O que Paulo indica na primeira
cláusula dessa sentença é que alguns casais casados dessa comunidade
coríntia estão até mesmo recusando um ao outro os seus direitos conju-
gais. Por discrição, ele omite o objeto direto do verbo recusar, mas
espera que o leitor complete o pensamento. O verbo dá a entender o
roubo ou furto de posses que pertencem a uma pessoa (comparar com
6.7,8), ou nesse caso, de seus direitos (ver v. 3; Êx 21.10). Paulo diz a
seus leitores para pararem de fazer isso e ordena aos casados que (se-
gunda pessoa do plural, vocês) “não defraudem seu cônjuge”. De fato,
ele se torna pessoal de um modo não-usual nesses assuntos íntimos.
Ele ensina aos coríntios que o lema deles de não tocarem uma mulher
(v. 1b) não se aplica a casais casados.
b. “Exceto talvez por consentimento mútuo por um tempo especi-
ficado para que tenham tempo para a oração.” Paulo permite abstinên-
13. John Albert Bengel, Bengel’s New Testament Commentary, trad. por Charlton T. Lewis
e Marvin R. Vincent, 2 vols. (Grand Rapids: Kregel, 1981), vol. 2, p. 199.
1 CORÍNTIOS 7.5
302
cia de relações maritais em três casos: primeiro, se tanto o marido como
a esposa concordam em fazer isso; depois, se os dois concordam que a
abstinência é por um período limitado; e terceiro, se ambos usarem
esse tempo para oração. Paulo permite essa exceção à regra, mas proí-
be qualquer pessoa de impor restrições involuntárias sobre seu cônjuge.
A expressão por consentimento mútuo frisa a igualdade dos sexos
com respeito às relações íntimas. Tanto o marido como a esposa devem
estar completamente convencidos de que a abstinência é desejável e
que contribui para o bem de ambos. Paulo imediatamente acrescenta a
segunda restrição, que a abstinência seja temporária, porque um arran-
jo permanente pode levar a um casamento arruinado, e ao divórcio. O
divórcio não só é contrário à instituição do casamento (Gn 2.24; Mc
10.2-9), mas derrota exatamente o propósito para o qual a abstinência
é proposta: levar a uma vida santa.
A oração diária é a marca autêntica de todo cristão sincero. Mas na
vida conjugal, marido e mulher às vezes enfrentam crises que pedem
oração especial. Quando problemas financeiros, sociais, espirituais ou
físicos aparecem para esmagá-los, eles fogem para Deus em oração.
Nessas ocasiões, eles poderão voluntária e temporariamente abster-se
de intimidades maritais.
c. “Depois se unam novamente, para que Satanás não os tente por
causa de sua falta de domínio próprio”. Os tradutores interpretam o
verbo unir-se como uma ordem. Paulo diz aos crentes em Corinto que
quando o período de oração termina, os casais devem retomar suas
funções normais. Que ninguém diga: “A abstinência temporária é boa,
mas a abstinência permanente é melhor”. Se esse fosse o caso, seria
aconselhável não casar. Paulo alerta os leitores para a presença de Sa-
tanás, que busca explorar a fraqueza humana tentando ou o marido ou
a mulher ao adultério. Levar adiante restrição permanente dentro dos
laços conjugais é contrariar as provisões graciosas de Deus para o
matrimônio e seu maravilhoso dom da sexualidade. O casamento é um
escudo protetor que deve ser empregado com eficácia contra as sutile-
zas de Satanás (Ef 5.11). Recusar fazer uso das proteções que Deus
providencia é um pecado pelo qual o indivíduo é responsabilizado.
1 CORÍNTIOS 7.5
303
Considerações práticas em 7.4, 5
Depois de Deus ter criado Adão, ele declarou: “Não é bom que o
homem esteja só. Eu farei para ele uma ajudadora apropriada” (Gn 2.18).
De uma das costelas de Adão, ele criou Eva. Deus mostrou que embora
Adão fosse uma criação perfeita, ele era incompleto enquanto Deus não
fez Eva para ser sua contraparte. Calvino comentou com perspicácia: “O
homem é somente a metade de seu corpo, e é o mesmo com a mulher”.
14
Deus nos fez de modo que no casamento o homem complementa a mulher
e a mulher complementa o homem. Além disso, tanto o homem como a
mulher foram criados com necessidades sexuais que encontram satisfa-
ção verdadeira no casamento, que Deus instituiu. Por essa razão, Paulo
declara que o marido tem autoridade sobre o corpo de sua esposa e a
esposa tem autoridade sobre o corpo do marido.
Se Deus fez homem e mulher, criou-os seres sexuais, deu a cada um o
poder sobre o corpo do outro, e instituiu o casamento, então a abstinência
forçada e permanente dentro do casamento é contrária ao desígnio de Deus.
Em suma, quando um dos parceiros defrauda o outro, ele ou ela viola a
ordenança criacional de Deus (Gn 1.28; 2.24) e, em lugar de ser espiri-
tual, é pecaminoso.
6. Mas digo isso como uma concessão, não como uma ordem.
A primeira palavra, “mas”, é uma adversativa que entendemos como
um limitador do comentário que antecede: “Depois unam-se novamen-
te...” (v. 5c), isto é, o versículo 6 deve ser ligado ao versículo que vem
imediatamente antes e não ao contexto inteiro (vs. 2-5). Paulo não está
dizendo que ele vê o casamento como uma concessão. Ao contrário,
ele permite a abstinência temporária que tem o consentimento de am-
bos os cônjuges. Com o pronome demonstrativo isso, Paulo se refere
não ao casamento, do qual ele está totalmente a favor, mas à exceção
da regra de direitos maritais (v. 5b).
15
O casamento no qual esses direi-
tos são honrados é a norma de Paulo.
À luz do versículo seguinte (v. 7), o termo concessão diz respeito à
14. Calvino, I Corinthians, p. 137.
15. O TNT acrescenta uma interpretação do versículo 6 (em itálicos). “Agora digo isto, que
eu permito o casamento, como concessão, não como mandamento”. Mas esse acréscimo
não faz justiça ao sentido do versículo 5.
1 CORÍNTIOS 7.6
304
restrição que Paulo permite que os cônjuges observem temporariamente.
Mas ele recusa transformar essa concessão em mandamento. Embora
ele mesmo tivesse recebido o dom da abstinência, Paulo não a impõe a
qualquer pessoa a quem falte esse dom.
16
7. Desejaria que todos os homens fossem como eu sou. No en-
tanto, cada um tem seu próprio dom dado por Deus, um este dom,
outro aquele.
a. “Desejaria que todos os homens fossem como eu sou.” Paulo
expressa uma vontade genuína, e não um desejo improvável. Mas o
que ele tem em mente? Ele está defendendo o celibato em vez do casa-
mento? De modo algum. Paulo ensina que, embora o casamento, que
Deus instituiu, seja bom e recomendável, nem todas as pessoas devem
ser casadas ou buscar o casamento. Algumas pessoas já foram casadas
e agora estão separadas, divorciadas ou viúvas.
A questão de saber se Paulo foi casado alguma vez incita a curiosi-
dade. “Para ser ordenado rabino, a Lei exigia que o candidato fosse
casado, e se Paulo foi ordenado, segue-se que ele deve ter sido casa-
do.”
17
Os rabis eram ensinados que todos os judeus deveriam se casar
para procriar.
18
Os pais da Igreja primitiva debateram longamente essa
questão, especialmente à luz do conhecimento completo que Paulo mos-
trava ter do casamento. Se Paulo era casado quando vivia em Jerusa-
lém, poderia ter se separado de sua esposa quando se converteu ao
Cristianismo? Sua esposa pode ter permanecido fiel ao judaísmo. Qual-
quer que tenha sido o histórico pessoal de Paulo, sabemos que ele vivia
a vida de um celibatário quando escreveu 1 Coríntios.
b. “No entanto, cada um tem seu próprio dom dado por Deus, um
este dom, outro aquele.” O casamento foi ordenado por Deus para a
procriação da humanidade e para a realização pessoal dos cônjuges.
Quando Deus retira a necessidade de casamento de uma pessoa, ele a
contempla com o dom da continência. Paulo recebeu esse dom do Se-
nhor e assim pôde alegrar-se com a sua condição. Mas ele reconhece
bem que nem todas as pessoas recebem esse benefício. E por isso Pau-
16. Jean Héring, The First Epistle of Saint Paul to the Corinthians, trad .por A. W. Hea-
thcote e P. J. Allcock (Londres: Epworth, 1962), p. 50.
17. Eduardo Arens, “Was St. Paul married?” BibToday 66 (1978): 1191.
18. Talmude, Yebamoth 63a; Kiddushin 29b.
1 CORÍNTIOS 7.7
305
lo escreve que Deus concede a cada pessoa seu dom. A pessoa a quem
Deus não concedeu continência faz bem em casar (ver v. 9; Mt 19.11,12).
A palavra grega charisma significa dons espirituais que vão desde
fé, cura, milagres, profecia, até falar em línguas ou interpretá-las (12.9-
11; Rm 12.6). Nessa passagem, Paulo não se refere a nenhum desses
dons. Ele está falando sobre seu próprio dom, o da continência. Com
respeito ao celibato, foi-lhe dada a graça de praticar o autocontrole.
Isso não significa que alguém que não consegue fazer isso e então se
casa recebe um dom especial de participar no casamento.
19
Paulo não
receita nenhuma lei ou mandamento. Cada pessoa deve decidir por si
mesma sobre essa questão.
Finalmente, não podemos rotular Paulo como sendo um asceta que
menospreza o casamento. Esse não é o caso, porque ele fala eloqüente-
mente sobre os assuntos íntimos de sexualidade e casamento. Ele é
decoroso em sua escolha de palavras, contudo franco em expressar sua
opinião. Paulo exalta o casamento, encoraja as pessoas a entrarem no
matrimônio, e ensina que o casamento satisfaz necessidades humanas
que Deus criou. No entanto, ele estimula as pessoas que têm a capaci-
dade de se impor restrições a permanecerem solteiras como ele.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 7.1-5
Versículos 1,2
-,¡a¢a:- – ao aoristo ativo do verbo -,¡a|æ (eu escrevo) está faltan-
do um objeto indireto. Muitas testemunhas colocaram o pronome pessoal
¡et (para mim, KJV, NKJV), que os manuscritos mais antigos omitem.
:µ| -au:eu ,u|atsa – “sua própria esposa”. Note que, diferente do
versículo 1b, Paulo usa o artigo definido aqui e na expressão :e| tete|
a |e¡a (seu próprio marido). No Novo Testamento os termos -au:eu e t ete|
mostram uma diferença: -au:eu é seguido pelo substantivo esposa (Ef
6.28, 33) e tete| precede o substantivo marido (14.35; Ef 6.22, 24; Tt
2.4,5; 1Pe 3.1,5). Não obstante, “tete, é aqui [v. 2] usado para contribuir
com variedade e é exatamente equivalente a -au:eu ”.
20
19. Consultar R. C. H. Lenski, The Interpretation of St. Paul’s First and Second Epistle to
the Corinthians (1935; Columbus: Wartburg, 1946), p. 282.
20. Adolf Deissmann, Bible Studies (reedição; Winona Lakae, Ind.: Alpha, 1979), p. 124.
1 CORÍNTIOS 7.1-5
306
Versículos 3,4
e|-tìµ| – esse substantivo deriva do verbo e|-tìæ (eu devo) e signi-
fica um dever ou uma obrigação. O substantivo tem o apoio dos melhores
e mais antigos manuscritos gregos e é preferido à interpretação do Texto
Majoritário, e|-tìe¡-|µ| -u|eta| (a bondade que lhe é devida).
21
aieetee:æ – o verbo composto pela preposição aie (para trás) e pelo
verbo eteæ¡t (eu dou), nesse versículo, indica um relacionamento distin-
tamente pessoal. “Quando um homem dá à sua esposa aquilo que lhe é
devido.”
22
-,eucta,-t – Paulo escolhe propositadamente essa palavra, que quer
dizer “ter poder” e que no passivo significa “ser dominado por” (6.12).
Esse verbo tem o substantivo derivado (autoridade), que nessa carta ocor-
re dez vezes (7.37; 8.9; 9.4, 5, 6, 12 [duas vezes]; 18; 11.10; 15.24).
Versículo 5
-t ¡µ:t a| – a presença da partícula a | empresta certo grau de expec-
tativa a essa parte da sentença.
23
A expressão significa “exceto talvez”.
t |a – o primeiro t |a dá um sentido imperativo aos verbos da cláusula.
“Embora essa idéia não seja inerente dentro da própria partícula (“não
privam um ao outro... exceto... para que possam”).
24
e,eìacµ:- – o tempo aoristo do verbo ter tempo é revelador porque
aponta para uma ocorrência única, e não para a ação contínua.
Antes da palavra oração, o Texto Majoritário tem a expressão |µc:-ta
sat :µ (jejum e). O acréscimo pode ter sido introduzido por escribas que
promoviam o ascetismo. No entanto, as palavras estão ausentes em ma-
nuscritos mais antigos e melhores.
2. Fidelidade e Casamento
7.8-11
Paulo faz uma abordagem sistemática ao assunto da sexualidade
21. Bruce M. Metzger, A Textual Commentary on the Greek New Testament, 3ª ed. corri-
gida (Londres e Nova York: United Bible Societies, 1975), p. 553.
22. Kurt Niederwimmer, EDNT, vol. 1, p. 128.
23. Friedrich Blass e Albert Debrunner, A Greek Grammar of the New Testament and
Other Early Christian Literature, trad. e rev. por Robert Funk (Chicago: University of
Chicago Press, 1961), nº 376.
24. Robert Hanna, A Grammatical Aid to the Greek New Testament (Grand Rapids: Baker,
1983), p. 295; ver também C. F. D. Moule, An Idiom-Book of New Testament Greek, 2ª ed.
(Cambridge: Cambridge University Press, 1960), p. 145.
1 CORÍNTIOS 7.1-5
307
humana. Depois de uma repreensão com respeito ao incesto (5.1-5),
ele discute os pecados sexuais e exorta os coríntios a fugirem da imo-
ralidade (6.12-20). Depois ele cita uma frase de uma carta que recebeu
da congregação em Corinto. Essa frase reflete um extremo oposto, pois
instrui todos a evitarem todos os relacionamentos sexuais. Paulo faz
objeção a esse lema e chama a atenção para a providência graciosa de
Deus do casamento.
Depois de discutir uma exceção temporária à função completa do
matrimônio, ele se volta àqueles que não são casados e desejam per-
manecer solteiros. Ele próprio pertence a esse grupo de pessoas, e tem,
portanto, uma palavra para eles.
a. Os Não Casados e as Viúvas
7.8,9
8. Mas digo aos não casados e aos viúvos que é bom para eles se
permanecerem como eu vivo.
a. Categorias. Será que Paulo está indicando duas categorias dis-
tintas ou a expressão não casados é sinônimo de viúvos? Se este últi-
mo é verdade, ele tem em mente tanto homens como mulheres cujos
respectivos cônjuges já morreram. No grego, Paulo usa o gênero mas-
culino para os não casados e, como era de esperar, o gênero feminino
para as viúvas. No entanto, no contexto desse capítulo em particular, o
termo não casados se refere a uma mulher separada de seu esposo (v.
11), a homens (v. 32) e a mulheres (v. 34). “Esse termo inclui aqueles
que nunca se casaram e aqueles que foram casados e que agora são
solteiros.”
25
Se aceitarmos a interpretação ampla dada ao parágrafo anterior,
então o texto parece revelar redundância. Uma viúva é uma mulher
que foi um dia casada mas atualmente não é casada e pertence ao pri-
meiro grupo. Não seria melhor agrupar todos numa só categoria, ou
falar em viúvos e viúvas?
26
Não, de modo algum. As viúvas pertenciam
25. Colin Brown, NIDNTT, vol. 3, pp. 536-37; ver também Niederwimmer, EDNT, vol. 1,
p. 236.
26. Fee dá várias razões para a escolha da tradução viúvo. First Corinthians, pp. 287-88;
William F. Orr, “Paul’s Treatment of Marriage in 1 Corinthians 7”, PitPer 8 (1967): 5-22,
ver especialmente pp. 12-14.
1 CORÍNTIOS 7.8
308
a uma classe especial. A igreja as sustentava em suas necessidades
financeiras, e eram-lhes designados ministérios na igreja (1Tm 5.3-
16). E, inversamente, Paulo insistia com as viúvas jovens para que se
casassem para ter filhos e cuidar do próprio lar (1 Tim 5.14). Dessa
forma elas seriam felizes no cumprimento de sua vocação natural.
27
Os não casados são uma classe de pessoas que inclui viúvos, e
tanto homens como mulheres que são solteiros, separados ou divorcia-
dos. Paulo aconselha essas pessoas e as viúvas a permanecerem sem
casar como ele próprio faz. Ele reforça seu conselho dizendo que é
bom ficarem em sua condição não casada. Contudo, ele já indicou que
o estado do matrimônio é aconselhável (vs. 2-5). Ao dar aconselha-
mento àqueles que não se casaram, mas a quem falta o dom da conti-
nência, Paulo é realista, até descritivo. Ele escreve:
9. Mas se não exercem domínio próprio, que se casem, pois é
melhor casar do que abrasar com desejo sexual.
b. Paixão. “Mas se não exercem domínio próprio, que se casem.”
Paulo compreende plenamente a natureza humana e dá conselhos sen-
satos. Ele já havia falado da incontinência (v. 5); agora, mais uma vez,
ele declara que algumas pessoas não se contêm, presumivelmente por
causa de sua falta de autocontrole. A eles, Paulo oferece a solução que
Deus instituiu para essa situação: “Que se casem!” Não há repreensão,
nenhuma palavra de desaprovação pela incontinência, nenhuma men-
ção de pecado. Para evitar a possibilidade de caírem em pecado porque
lhes falta continência, Paulo aconselha o casamento para quem não
está casado. Que entrem na situação do matrimônio e assim vivam uma
vida honrosa e pura.
“Pois é melhor casar do que abrasar com desejo sexual.” O grego
tem somente o verbo pyrousthai (queimar), mas o contexto exige acrés-
cimo das palavras com desejo sexual. Os tradutores sabem que o verbo
por si é incompleto e pede uma explicação. Os rabis talmúdicos junto
com estudiosos do século III até o presente interpretaram esse verbo
como se referindo a queimar no inferno.
28
Percebem-no como o juízo
27. William Hendriksen, Exposition of I-II Timothy and Titus, série New Testament Com-
mentary (Grand Rapids: Baker, 1957), p. 177.
28. F. F. Bruce, 1 and 2 Corinthians, série New Century Bible (Londres: Oliphants, 1971),
p. 68; Michael L. Barré, “To Marry or to Burn: purou/sqai in 1 Cor. 7.9”, CBQ 36 (1974):
1 CORÍNTIOS 7.9
309
justo de Deus sobre o pecador que continua a violar as leis sexuais
tradicionais. Mas Paulo alude a queimar de desejo sexual. O entendi-
mento comum do verbo queimar nesse contexto é relacionado à incon-
tinência.
Na sua discussão a respeito desse assunto sensível, Paulo é franco
mas ao mesmo tempo discreto. Suas expressões são muitas vezes in-
completas para que o leitor possa completar o sentido óbvio. Por exem-
plo, ele instruiu os maridos e esposas a não privar um ao outro (v. 5),
mas deixou de dizer tudo para que o leitor complete o que falta. Dizen-
do que é melhor casar-se do que queimar, ele novamente convida o
leitor a completar a sentença. No presente versículo, ele ensina que a
incontinência tem sua solução dentro dos laços do casamento, e com
os não casados que não têm autocontrole, ele insiste que procurem
parceiros para casar (v. 9). Para ele, o casamento é o contexto no qual
o marido e a mulher encontram satisfação para seus desejos sexuais.
29
Com a palavra comparativa melhor Paulo está colocando o casa-
mento contra o queimar. Paulo escreve que a pessoa deve entrar no
casamento como um ato para evitar um estado de desejo contínuo. Mas
seu conselho não cobre todas as situações. G. G. Findlay observa com
sabedoria: “Melhor casar do que abrasar; mas se o casamento é impos-
sível, melhor abrasar infinitamente do que pecar”.
30
Considerações Práticas em 7.8,9
Ao discutir com franqueza um tópico que geralmente causa embara-
ço, Paulo demonstra seu discernimento profundo da natureza humana.
Ele entende plenamente as características sexuais que Deus criou no ho-
mem e na mulher. Deus criou Adão e Eva e seus descendentes com neces-
sidades sexuais que são satisfeitas pela união conjugal no casamento. As-
sim, Paulo aconselha seus leitores a aceitarem o que Deus provê, o casa-
mento. Dentro do contexto da união conjugal, tanto o marido como a mulher
satisfazem as necessidades um do outro. E, do outro lado, qualquer pes-
soa que não recebeu o dom da continência, mas procura exercer domínio
193-292; Graydon F. Snyder, First Corinthians: A Faith Community Commentary (Macon,
Ga.: Mercer University Press, 1992), pp. 96-97.
29. Roy Bowen Ward, “Musonius and Paul on Marriage”, NTS 36 (1990): 281-89.
30. Findlay, First Corinthians, p. 825.
1 CORÍNTIOS 7.8, 9
310
próprio, experimenta uma aflição emocional indevida. Além disso, essa
pessoa também enfrenta o problema de carregar o peso do pecado e culpa
por sua incontinência.
Quando as necessidades sexuais são satisfeitas no casamento como
Deus prescreve, a pessoa em geral vive uma vida equilibrada cheia de
alegria e felicidade e está livre de sentimento de culpa ou remorso por
pecados sexuais. Conclusivamente, Paulo endossa o casamento e instrui
as pessoas que têm falta de controle próprio a desfrutarem da satisfação
sexual que a vida de casado proporciona.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 7.8,9
Versículo 8
:et, a,a¡et, – “os não casados”. Note que o artigo definido indica
uma categoria e a distingue da categoria de viúvas. O adjetivo substantivo
não-casado se aplica a homens e mulheres, mas para mulheres os gregos
geralmente usavam a palavra a |a|e¡e, (sem marido).
31
-a| ¡-t|æct| – Paulo escreve o presente do subjuntivo para expressar
duração (tempo presente) e incerteza (modo subjuntivo): “Se por acaso
permanecerem”.
Versículo 9
-t e- eus -,s¡a:-ue|:at – com o uso da partícula -t e o presente do
indicativo do verbo, Paulo declara um fato. Além disso, a partícula eus
(em vez de ¡µ ) precede o verbo para sublinhar o negativo do verbo
-,s¡a:-ue|:at (eles se controlam). Esse verbo está no médio com conota-
ção reflexiva (ver 1 Clem. 30.3).
,a¡µcat...iu¡eucòat – o primeiro verbo é o infinitivo aoristo ativo
(“casar-se”). O aoristo denota ação única e é incoativo. Em contraste, o
segundo verbo está no infinitivo presente passivo (“ser inflamado com”)
para indicar ação continuada.
b. Casado e Divorciado
7.10,11
10. Àqueles que são casados dou este mandamento – não eu
mas o Senhor – que uma mulher não se separe de seu marido.
31. Thayer, p. 3.
1 CORÍNTIOS 7.8, 9
311
a. “Àqueles que são casados.” Aqui Paulo se dirige a crentes que já
se casaram. Por falar nisso, com o tempo perfeito no grego da expres-
são casaram-se, Paulo indica tanto duração como estabilidade. Mes-
mo tendo recebido autoridade apostólica que ele já demonstrou em
muitos lugares (por ex., 5.5, 12; 6.18; 7.5, 8), ele agora apela à autori-
dade do Senhor Jesus Cristo. Ao longo de seu ministério, Paulo repeti-
damente citou palavras pronunciadas por Jesus. Uma dessas, “Mais
bem-aventurado é dar do que receber” (At 20.35), nem é encontrada
nos Evangelhos. Nessa epístola, Paulo revela muitas vezes que ele re-
cebeu palavras ou ordens do Senhor, que podem lhe ter vindo direta-
mente por visão ou indiretamente por meio dos apóstolos (ver 9.14;
11.23; 14.37; 15.3; comparar com 1Ts 4.15). Mas agora ele faz refe-
rência a palavras faladas que foram registradas nos Evangelhos escritos.
a. Paulo afirma que ele tem uma ordem para pessoas casadas que
vem não dele, mas do Senhor. Ele usa as palavras de uma tradição oral
do Evangelho. Supomos que Paulo tenha ouvido essa declaração dos
outros apóstolos, provavelmente de Simão Pedro (Gl 1.18, 19), e assim
recebeu-a indiretamente de Jesus. Paulo cita a palavra de Jesus preser-
vada na tradição evangélica, que para ele e os coríntios tem autoridade
divina. Na verdade, os apóstolos e a Igreja primitiva conferiam a mes-
ma importância às Escrituras do Antigo Testamento e ao Evangelho
oral ou escrito. Para eles, ambos tinham igual autoridade. E Paulo sa-
bia que, com respeito ao casamento e divórcio, os cristãos coríntios
ouviriam e obedeceriam à voz de Jesus. Escrevendo sobre esse assun-
to, portanto, Paulo não exerce mais a sua autoridade, e sim a do Se-
nhor. Paulo se põe de lado e permite que Jesus fale diretamente aos
coríntios.
b. “Dou este mandamento – não eu, mas o Senhor.” O que é que o
Senhor ordena? Numa discussão com fariseus que lhe perguntaram
acerca do divórcio, Jesus os remeteu à Escritura. Citando o relato da
criação, “[Deus] os criou homem e mulher” (Gn 1.27) e “por isso, dei-
xa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma
só carne” (Gn 2.24). Jesus acrescentou seu próprio comentário. Ele
disse: “De modo que já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o
que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mc 10.8b, 9). Quando sub-
seqüentemente os discípulos desejaram saber mais sobre o divórcio,
1 CORÍNTIOS 7.10
312
Jesus acrescentou: “Quem repudiar sua mulher e casar com outra co-
mete adultério contra aquela. E se ela repudiar seu marido e casar com
outro, comete adultério (Mc 10.11,12).
c. “Que uma mulher não se separe de seu marido.”
32
Paulo demonstra
suas próprias prerrogativas autorais invertendo a ordem da afirmação
de Jesus. Ele começa com a esposa e no versículo seguinte (v. 11)
menciona o marido. Observe que no Evangelho de Mateus nada é dito
sobre a esposa se separar do marido. Em vez disso, o marido toma a
decisão e se divorcia de sua esposa (Mt 19.9). Mateus escreveu sua
narrativa para um público judaico, no qual o marido podia mandar a
esposa embora por qualquer motivo, mas a mulher não tinha nenhum
direito de se divorciar do marido. O Evangelho de Marcos, no entanto,
escrito num contexto romano e dirigido a gentios, reflete o mundo gre-
co-romano. Nesse mundo, a mulher tinha o direito de tomar a iniciati-
va e separar-se de seu marido, o que é eufemismo para divórcio. A
possibilidade realmente existe de que mulheres influentes da igreja de
Corinto tivessem consultado Paulo a respeito das relações maritais e
do divórcio. O apóstolo responde a elas com uma palavra de Jesus.
O relato da criação ensina a unidade de esposo e esposa, a qual,
segundo Jesus, não deve ser quebrada. O profeta Malaquias também se
refere à narrativa do Gênesis e denuncia o divórcio como uma quebra
da aliança que o marido fez com sua mulher. Ele cita a palavra do
Senhor Deus, que exclama: “Eu odeio o divórcio” (Ml 2.14-16). A in-
tenção de Deus é que os votos de casamento não sejam dissolvidos.
Jesus permite uma exceção somente quando um dos cônjuges se torna
infiel ao outro (Mt 5.32; o paralelo em Lc 16.18 omite a exceção). A
regra que data do começo da história humana é que uma esposa não
pode se divorciar de seu marido e que, da mesma forma, um marido
não pode mandar embora sua esposa (v. 11).
11. Mas se ela de fato o deixar, que permaneça sem se casar ou
que se reconcilie com seu marido, e que o marido não se divorcie
de sua mulher.
32. A maioria das versões tem a voz ativa, “separar” ou seu equivalente. Uma tradução
tem o médio: “ela se separar” (REB); outra tem a passiva “ser separada” (NJB); e ver Jerome
Murphy-O’Connor, “The Divorced Woman in 1 Cor. 7.10-11”, JBL 100 (1981): 601-6.
1 CORÍNTIOS 7.11
313
a. “Mas se ela de fato o deixar.” A probabilidade do divórcio é por
demais real hoje em dia. Semelhantemente nos dias de Paulo, o divór-
cio, mesmo entre cristãos, não era nada inconcebível. Com uma cláu-
sula condicional no grego, Paulo mostra que a ocorrência de divórcio é
provável. Se crentes coríntios, então, desejavam obedecer ao ensino
das Escrituras e de Jesus, que conselho tinham para um casal cristão
vivenciando a incompatibilidade que leva ao divórcio? Aparentemen-
te, a igreja local estava enfrentando uma situação na qual uma esposa
iniciava procedimentos de divórcio contra seu marido. A pergunta à
qual Paulo deve responder é: como a palavra de Deus no Antigo Testa-
mento e o ensino de Jesus se aplicam a um divórcio específico em
pauta em Corinto? Quando o divórcio afinal se torna um fato consuma-
do, o que a igreja diz?
33
b. “Que permaneça sem se casar ou que se reconcilie com seu ma-
rido.” Os editores geralmente consideram essa parte do versículo 11
como sendo um parêntese, de forma que a parte final do versículo 10
se completa na última cláusula do versículo seguinte. Será que Paulo
está dando sua própria opinião na cláusula parentética ou é palavra de
Jesus? E se é opinião do próprio Paulo, ele está extrapolando os limites
da exceção à infidelidade que Jesus permitiu (Mt 5.32)?
Jesus declara que Deus havia instituído o casamento, e então que
aquilo que ele uniu ninguém devia separar (Mt 19.6). Ele quer dizer
que o casal não tem o direito de anular os votos que fizeram. Nem o
marido nem a esposa têm “o poder de tornar um casamento inválido”.
34
Em outras palavras, no parêntese Paulo está repetindo os ensinos de
Jesus ao não permitir exceção nenhuma à regra do casamento. Quando
Paulo escreve que uma esposa deixa seu marido, ele não aprova a sepa-
ração. Ao contrário, ele ordena que ela fique sem se casar ou se recon-
cilie com seu esposo. Dando a entender que o elo do casamento não
deve ser quebrado, Paulo aceita a realidade da separação. Contudo, ele
proíbe casar de novo e aconselha a esposa que inicia o divórcio a se
reconciliar com seu marido. O termo reconciliação “nunca é usado a
33. Consultar Stanley B. Marrow, “Marriage and Divorce in the New Testament”, ATR 70
(1988): 3-15. Marrow até declara que o ensino de Jesus sobre o divórcio era impraticável
em Corinto (p. 13).
34. Calvino, 1 Corinthians, p. 147.
1 CORÍNTIOS 7.11
314
respeito de uma parte inocente. Nunca se diz que Deus se reconciliou
conosco, mas somente que nós nos reconciliamos com ele”.
35
Se a es-
posa inicia o processo de divórcio, ela é quem deve fazer os esforços
que levam à reconciliação.
c. “E que o marido não se divorcie de sua esposa.” O que é verdade
para a mulher é igualmente verdade para o marido. No grego, Paulo
emprega um sinônimo de divórcio que é, literalmente, “mandar embo-
ra”. Embora na sociedade judaica e greco-romana o marido tivesse a
prerrogativa de se divorciar de sua mulher e tivesse maior liberdade do
que a mulher, Paulo ensina o que as Escrituras dizem sobre este assun-
to. Ele se recusa a seguir a cultura de seu tempo, mas se prende à Pala-
vra de Deus. Ele proíbe o marido de mandar sua esposa embora. Fica
implícito que o esposo precisa lutar por reconciliação no caso de um
divórcio, porque o casamento é para toda a vida.
Considerações Práticas em 7.10,11
O conselho de Paulo de que a esposa que se separa de seu marido não
deve se casar novamente parece contrário àquilo que ele escreveu antes
nesse mesmo capítulo. Ele aconselhou as pessoas não casadas que tinham
problemas de falta de autocontrole a se casarem (v. 9). Agora escreve que
a mulher que planeja se divorciar de seu esposo deve ficar sem se casar.
Mas Paulo liga a primeira afirmação, “que permaneça sem se casar”, à
segunda, “que se reconcilie com seu marido”. Se a primeira parte não é
observada, a segunda perdeu sua razão de ser. Enquanto a mulher perma-
necer sem se casar, há esperança para a reconciliação.
O divórcio devasta a família inteira. A separação afeta o marido, a
mulher, as crianças, os parentes e os amigos. Por fazer mal a todos, o
divórcio é algo que Deus odeia (Ml 2.16). Nas sociedades em que a famí-
lia ampliada é uma unidade bem integrada, os parentes se esforçam para
evitar o divórcio se for de algum modo possível. Na comunidade da igre-
ja, também, os membros têm a responsabilidade corporativa de ajudar os
membros da irmandade quando eles precisam de aconselhamento. Com
referência à igreja, Paulo escreve: “Se um membro sofre, todos sofrem
com ele. Se um deles é honrado, com ele todos se regozijam” (12.26).
35. William F. Luck, Divorce and Remarriage: Recovering the Biblical View (San Fran-
cisco: Harper and Row, 1987), pp. 165-66.
1 CORÍNTIOS 7.10, 11
315
Crente e Incrédulo
7.12-16
12. Para os restantes, eu digo – eu, não o Senhor: se algum
irmão tem uma esposa não crente e ela consente em viver com ele,
que ele não a mande embora.
Observe os seguintes pontos:
a. Autoridade apostólica. “Para os restantes, eu digo – eu, não o
Senhor.” Se seguíssemos os moldes de redação de hoje, colocaríamos
a passagem anterior (vs. 10,11) entre aspas e a introduziríamos com a
expressão Jesus disse. O versículo 12 então começaria com a introdu-
ção: “Para os restantes, eu digo”. Mas Paulo está escrevendo no estilo
de sua época. Ele indica que não está mais apelando a uma palavra
falada por Jesus, mas agora fala com autoridade própria como ele faz
em muitos pontos ao longo desse capítulo.
36
Ele enfrenta o problema
do casamento misto no qual o marido é crente e a esposa incrédula, ou
vice-versa. Nessa situação, Paulo tem de ditar uma regra com base em
sua autoridade apostólica.
Na primeira parte do capítulo (vs. 2-7), Paulo discute os direitos
conjugais em relação à instituição do casamento (Gn 2.24). Em segui-
da, ele se dirige aos não casados e às viúvas da igreja (vs. 8,9) e depois
diz uma palavra do Senhor para os casais casados que são crentes (vs.
10,11). Agora ele encara o problema de crentes e incrédulos no contex-
to do casamento. Trata-se do último grupo de pessoas a receber o con-
selho apostólico. Portanto, Paulo escreve: “Para os restantes, eu digo”.
Ele não tem nenhuma palavra para os incrédulos.
A igreja agora se dirige ao apóstolo dos gentios e busca uma res-
posta para as questões maritais relacionadas a marido cristão e mulher
gentia. Paulo deve se pronunciar sobre esse assunto com a autoridade
que Cristo lhe deu, e dar conselhos que estejam em harmonia com o
ensino de Jesus.
b. Casamento misto. “Se algum irmão tem uma esposa não crente e
ela consente viver com ele, que ele não a mande embora.” Em todo o
36. Ver 7.6, 8, 10, 12, 25, 32, 35, 40. Consultar Peter Richardson, “‘I say, not the Lord’:
Personal Opinion, Apostolic Authority and the Development of Early Chirstian Halakah”,
TynB 31 (1980): 65-86.
1 CORÍNTIOS 7.12
316
Antigo Testamento, Deus proíbe seu povo de se casar com gentios, e
isso também vale para os coríntios. Em outro lugar, Paulo lhes diz que
se casem somente no Senhor (v. 39; comparar com 2Co 6.14-18). Mas
na situação presente, um marido gentio aceitou o evangelho e põe sua
fé em Jesus Cristo. Mas a esposa dele permanece firme em suas cren-
ças pagãs e não segue seu marido em sua fé recém-encontrada.
O conselho de Paulo aos coríntios é fundamentado no princípio
bíblico de que o casamento não deve ser dissolvido. Ele orienta o casal
a ficar junto quando a esposa incrédula está plenamente satisfeita em
viver com seu esposo crente. Paulo chama o marido de irmão espiritual
(ver 1.1) que dá liderança como chefe da casa. Se sua esposa está feliz
de ficar com ele e o marido está contente com ela, diz Paulo, então que
ele conserve intacto o casamento.
13. E se qualquer mulher tiver um esposo incrédulo, e ele con-
sentir viver com ela, que ela não o mande embora.
Paulo está se dirigindo a pessoas do mundo grego-romano, no qual
a esposa tinha o direito de divorciar-se do marido. Não era o caso na
sociedade judaica, na qual somente o marido poderia iniciar um
divórcio.
A palavra mulher nesse contexto significa que essa pessoa é cren-
te. Ela se tornou cristã, mas seu marido (ainda) não chegou à fé em
Cristo. No entanto, à parte da questão religiosa, o casal vive junto har-
moniosamente. Se o marido sente-se feliz em viver com sua esposa
crente, o conselho de Paulo a ela é que fique com ele e não alimente
idéias a respeito de divórcio.
No caso de casamentos mistos, os cônjuges cristãos devem fazer
tudo que podem para ficar com seus parceiros incrédulos. Nunca de-
vem ser os primeiros a buscar o divórcio. O conselho de Paulo é: “Fi-
que como está”.
14. Pois o marido incrédulo foi santificado por sua esposa [cris-
tã], e a esposa incrédula foi santificada pelo marido [cristão]; de
outra forma seus filhos seriam impuros, mas agora são santos.
a. O Problema. “Pois o marido incrédulo foi santificado por sua
esposa.” Na cultura greco-romana do século I, um casamento misto
geralmente significava que uma mulher cristã tinha um marido pagão.
1 CORÍNTIOS 7.13, 14
317
Um homem cristão normalmente não teria uma esposa incrédula. O
Novo Testamento faz repetidos relatos de um cristão que é batizado
com sua casa inteira (por ex., At 16.32-34, 18.8; 1Co 1.16). Nesses
casos, a esposa também havia se tornado cristã.
37
Devido à opressão que muitas esposas cristãs tinham de suportar
por parte de maridos incrédulos (ver 1Pe 3.1-6), Paulo primeiro se re-
fere à esposa crente que vive com um esposo pagão, e depois o inverso.
Nessas famílias, o cônjuge incrédulo havia sido santificado pelo par-
ceiro crente.
Qual o sentido exato da expressão foi santificado? O cônjuge in-
crédulo continua um gentio e assim mesmo Paulo declara que ele ou
ela foi consagrado. A incongruência desse relacionamento marital cha-
ma a atenção, especialmente quando Paulo escreve que o corpo de um
crente é membro do próprio Cristo (6.15) Como um cônjuge não cren-
te pode ser santificado?
b. Resposta. Devemos ser cuidadosos em não procurar coisas de-
mais no texto. Entretanto, o evangelho penetra no mundo de tal manei-
ra que em dada família um dos cônjuges se torna um cristão, mas não o
outro. Depois o que é crente, por sua conduta, palavra e oração pode
ganhar o seu cônjuge para Cristo. Por causa do poder de Cristo, a in-
fluência de um crente muitas vezes é mais forte do que a influência de
um não crente.
38
Calvino escreve: “Pois a piedade de um faz mais para
‘santificar’ o casamento do que a impiedade do outro para torná-lo
impuro”.
39
Em outras palavras, o propósito de Deus de salvar seu povo
é muito mais inclusivo do que nossa compreensão limitada do proces-
so da salvação.
Paulo não está dizendo que um marido ou esposa não-crente tor-
nou-se moralmente santo por meio de seu cônjuge cristão. Não, o ho-
mem não é capaz de santificar ou salvar um semelhante. O que o após-
37. Consultar Margaret Y. MacDonald, “Early Christian Women Married to Unbelievers”,
SR 19 (1990): 221-34; “Women Holy in Body and Spirit: The Social Setting of 1 Corinthi-
ans 7”, NTS 36 (1990): 161-81.
38. R. St John Parry, The First Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians, Cambridge
Greek Testament for Schools and Colleges (Cambridge: Cambridge University Press, 1937),
p. 112.
39. Calvino, 1 Corinthians, p. 148.
1 CORÍNTIOS 7.14
318
tolo quer dizer é que um cônjuge não-crente que convive intimamente
com um parceiro cristão sente a influência da santidade.
Ser santificado significa que uma pessoa é influenciada pelas rei-
vindicações de Cristo. O inverso é igualmente verdade: qualquer pes-
soa não santificada é influenciada pelas reivindicações de um mundo
que se opõe a Cristo. No grego, a expressão ser santificado está no tem-
po perfeito, o que indica que, a partir do momento em que o cônjuge se
torna cristão, seu esposo ou esposa entra em contato com a santidade.
c. Santificado. Um estudo das Escrituras revela que a palavra gre-
ga santificar tem pelo menos quatro sentidos diferentes. Significa, pri-
meiro, colocar coisas de lado para as funções sacras (por ex, itens rela-
cionados ao culto no tabernáculo (Êx 29.37, 44); em seguida, consa-
grar pessoas, ou por batismo (1Co 6.11), pelo casamento cristão (1Co
7.14), ou pela expiação do pecado (Hb 9.13); terceiro, reverenciar os
nomes de pessoas, ou coisas (1Pe 3.15); e em último lugar, purificar
alguém do mal.
40
O segundo sentido do verbo “santificar” se aplica ao
presente versículo. O cônjuge crente santificou o cônjuge incrédulo de
maneira muito semelhante à maneira em que o templo santificou o
ouro ligado a ele, ou o altar a oferta colocada nele (Mt 23.17, 19).
41
O
objeto não era santo por si mesmo, mas por associação.
Paulo não está dizendo que o cônjuge gentílico tem um relaciona-
mento pessoal com Cristo, pois nesse caso ele não seria mais chamado
de incrédulo. Não obstante, sua conduta é afetada pela conduta do côn-
juge cristão. O cônjuge não-cristão concorda em viver com a pessoa
cristã em quem habita o Espírito de Deus, cumpre as obrigações que
advém da instituição do casamento (Gn 2.24) e conserva intacto seu
casamento em obediência ao mando de Jesus (Mt 19.6).
42
Os dois vi-
vem num ambiente santificado, porque o lar é consagrado pela leitura
e aplicação da Palavra de Deus e pela oração. Paulo também declara
santos os filhos que nasceram antes ou depois da conversão do cônjuge
ao Cristianismo.
40. Bauer, pp. 8-9.
41. Charles Hodge, An Exposition of the First Epistle to the Corinthians (1857; reedição,
Grand Rapids: Eerdmans, 1965), p. 116.
42. Jerome Murphy-O’Connor, “Works Without Faith in 1 Cor. 7.14”, RB 84 (1977): 356.
1 CORÍNTIOS 7.14
319
d. Os Filhos. “De outra forma seus filhos seriam impuros, mas
agora são santos.” E a próxima geração? Paulo menciona os filhos nas-
cidos numa família em que só um dos cônjuges é cristão. Embora ele
escreva dois adjetivos descritivos (impuros, santos) para os filhos de
pais que estão em casamentos mistos, ele não faz restrições em asseve-
rar que são santos se um dos pais é crente. Ele deixa implícito que os
filhos são consagrados com base na fé daquele que é cristão; eles não
são declarados impuros com base na falta de fé do que é incrédulo. Em
suma, a fé triunfa sobre a falta de fé na família.
Paulo declara que o cônjuge incrédulo é santificado e os filhos são
santos. Mas qual é a diferença entre as palavras santificado e santo
com respeito a essa família? Enquanto o cônjuge incrédulo é santifica-
do pelo cônjuge crente, os filhos desse cônjuge gozam de um relacio-
namento pactual. Deus fez um pacto com seu povo e o abençoa ao
longo das gerações (Gn 17.7). Escrevendo sobre o povo judeu que Deus
declarou ser santo, Paulo diz: “Se for santa a raiz, os ramos também o
serão” (Rm 11.16). Quando Deus santifica seu povo, ele o chama para
viver uma vida de santidade constante. A mãe cristã pode reivindicar
as promessas pactuais de que seus filhos são santificados à vista de
Deus e chamados para a santidade. Timóteo era filho de uma judia e de
um pai grego incrédulo. Sua avó, Loide, e sua mãe, Eunice, criaram-no
num lar piedoso onde ele aprendeu a pôr sua fé em Jesus (2Tm 1.5).
“Os filhos pactuais deverão ser contados como parte do povo de Deus
e deverão ser nutridos na fé cristã e no temor do Senhor (Ef 6.4).”
43
O texto não indica se Paulo tem em mente só os filhos de casamentos
mistos ou também os filhos de pais crentes em geral. Se ele se refere a
estes últimos, há mais razão ainda de considerar esses filhos santos, es-
pecialmente quando eles próprios confessam sua fé. Esses filhos são
incorporados na vida da Igreja pelo sacramento do batismo.
44
15. Mas se o incrédulo sair de casa, que saia. Um irmão [cris-
tão] ou irmã [cristã] não é obrigado em tais assuntos. Deus nos
chamou para a paz.
43. W. Harold Mare, I Corinthians, no vol. 10 of The Expositor’s Bible Commentry, org.
por Frank E. Gaebelains, 12 vols. (Grand Rapids: Zondervan, 1976), p. 230.
44. Ver Herman N. Riddebos, Paul: An Outline of His Theology, trad. por John Richard de
Witt (Grand Rapids: Eerdmans, 1975), p. 414.
1 CORÍNTIOS 7.15
320
a. “Mas se o incrédulo sair de casa, que saia.” As palavras de Paulo
pintam um retrato da realidade, porque a primeira cláusula dessa sen-
tença declara um simples fato. Se o marido incrédulo se recusa a apoi-
ar a fé de sua esposa e acha impossível viver numa atmosfera cristã,
deixe-o ir embora. Assim ele não mais poderá ser considerado santifi-
cado por meio de sua esposa crente.
As conseqüências econômicas para uma mulher cristã abandonada
por seu marido muitas vezes eram severas; essa mulher passava por
incontáveis dificuldades. “É provável que as mulheres que possuíam
dote de casamento pequeno ou não tinham nenhum, que nada tinham
para se sustentar, tenham se encontrado divorciadas, isoladas e sem
dinheiro por amor ao evangelho.”
45
Paulo aconselha a irmã cristã: “Não
impeça que ele saia de casa”. Paulo está perfeitamente de acordo com o
que já havia aconselhado, que uma mulher cristã não deveria se divorci-
ar de seu marido (vs. 10-13). Mas se o incrédulo decide repudiar a espo-
sa, ele, e não seu cônjuge, tem toda a responsabilidade pelo divórcio.
b. “Um irmão [cristão] ou irmã [cristã] não é obrigado em tais as-
suntos.” Não temos dificuldade nenhuma em entender a regra de Paulo
de aceitar a partida voluntária do cônjuge incrédulo. Mas qual é o sen-
tido da expressão “não é obrigado”? Será que ele está querendo dizer
que a parte abandonada não é mais obrigada por seus votos do casa-
mento (ver Rm 7.2)? Ele ou ela está livre para se casar outra vez e
começar de novo?
O sentido literal da expressão não está obrigado se refere a escra-
vizar: “um irmão ou irmã não está escravizado”. O incrédulo é quem
quebra o vínculo do casamento, que Deus pretendeu que durasse a vida
inteira. Agora o crente não está mais obrigado àquela união, porque
seu cônjuge incrédulo “rompeu com Deus em vez de com seu cônju-
ge”.
46
Nesse versículo, Paulo nem proíbe nem recomenda um novo
casamento para o cônjuge abandonado, e deixa essa questão em aberto
(comparar com vs. 9, 11). Ele está interessado no testemunho que o
cristão dá para o mundo, incluindo o marido ou esposa não crente. Ele
recomenda ao cristão buscar paz com o cônjuge incrédulo. Paulo quer
45. MacDonald, “Early Christian Women”, p. 234.
46. Calvino, 1 Corinthians, p. 150. Comparar com David E. Garland, “A Biblical View of
Divorce”, RevExp 84 (1987): 419-32.
1 CORÍNTIOS 7.15
321
que o cônjuge cristão viva em obediência ao evangelho de Cristo e
assim se oponha valorosamente às forças do Maligno (Ef 6.16).
c. “Deus nos chamou para a paz.” Esse é um dos princípios funda-
mentais do Novo Testamento.
47
No capítulo anterior, Paulo disse aos
cristãos que não fossem a juízo, mas resolvessem suas diferenças paci-
ficamente por mediação (6.1-8). Agora ele recomenda paz no casa-
mento, ao proibir o divórcio e promover a reconciliação. Isso não sig-
nifica paz a qualquer preço, porque o cônjuge cristão não pode ab-
rogar sua fé. O que Paulo está dizendo é que o crente que sofre o divór-
cio deve mostrar não hostilidade, e sim um espírito conciliatório para
com seu parceiro incrédulo. O cristão provê ao cônjuge não cristão a
oportunidade de retornar e restabelecer o casamento. Quem sabe o côn-
juge não crente exclame: “Irei e tornarei para meu esposo [ou esposa]
como no começo, porque melhor eu ia então do que agora” (Os. 2.7).
Paulo proíbe os cônjuges cristãos de buscar o divórcio. Mas, diz ele, se
uma esposa cristã iniciar o divórcio, ela precisa ficar sem se casar de
novo ou ser reconciliada a seu esposo cristão (vs. 10,11). Com respeito
a um cônjuge não-cristão, o cônjuge cristão precisa dar-lhe a oportuni-
dade de voltar e restaurar o casamento.
16. Pois como sabe você, esposa, se irá salvar seu marido? Ou
como sabe você, marido, se irá salvar sua esposa?
Enquanto o cônjuge incrédulo demonstrar sua disposição de viver
com o cônjuge cristão, ele ou ela é santificado. O testemunho contínuo
de um cônjuge cristão pode provar ser eficaz em ajudar o descrente a
chegar à fé em Cristo. Esse testemunho continua efetivo até para o
cônjuge incrédulo que saiu voluntariamente (v. 15).
A declaração geral de Paulo, que Deus nos chamou para a paz,
também abrange a vida em família. Quando, no tempo de Paulo, um
esposo se tornava cristão, a esposa normalmente adotava a fé cristã.
Pedro aborda um problema marital semelhante: uma esposa que se tor-
nara crente teve de viver com seu esposo que não abraçava o Cristia-
nismo, e mostrava ressentimento e hostilidade. Pedro aconselha a es-
posa cristã a ser submissa a seu marido e ganhá-lo, com seu comporta-
mento, para Cristo (1Pe 3.1).
47. Romanos 12.18; 14.19; 1 Coríntios 14.33; 2 Timóteo 2.22; Hebreus 12.14; 1 Pedro 3.11.
1 CORÍNTIOS 7.16
322
Quando Paulo diz que nem os maridos crentes nem as esposas cren-
tes sabem se serão úteis para salvar os cônjuges pagãos, ele salienta
que só Deus pode salvar seu povo. Nós somos incapazes de efetuar a
salvação; contudo somos instrumentos na mão de Deus para fazer com
que isso aconteça. O crente sempre deve ter esperança, sabendo que
Deus efetivará seu plano e propósito: (comparar com 2Sm 12.22; Et
4.14; Jl 2.14; Jn 3.9).
Paulo incentiva ou desestimula o divórcio num casamento no qual
o cônjuge incrédulo sai de casa? Tendo em vista sua ênfase na paz,
embora não a qualquer preço, ele desaconselha o divórcio. Findlay
astutamente observa que os coríntios, “com suas noções frouxas de
moral, precisavam ser dissuadidos de se divorciarem, não encoraja-
dos”.
48
O conselho do apóstolo permanece o mesmo: não anule os vo-
tos do casamento.
Considerações Práticas em 7.15
O divórcio é uma experiência que violenta a própria alma, por isso,
sempre que possível deve ser evitado. As providências para o casamento
nos tempos antigos exigiam que o noivo desse ao pai da noiva um dote
que consistia de uma quantia estipulada de dinheiro ou serviços presta-
dos. Mas um dote também podia consistir de um presente que o pai dava
à filha por ocasião do casamento. Quando o divórcio cortava os laços
matrimoniais, o marido deixava a esposa sem lhe dar qualquer sustento. E
uma esposa cristã não podia voltar à sua família pagã. Seu pai relutaria ou
recusaria cuidar de uma filha cujo marido a tivesse mandado embora por
causa da religião dela. O único recurso dela seria ir procurar os membros
da igreja para ter auxílio espiritual e financeiro.
De que maneira o cristão de hoje age, com uma situação na qual o
divórcio se tornou realidade? Como membros do corpo de Cristo, senti-
mos a dor e o mal que uma pessoa divorciada tem de sofrer. Devemos
dizer palavras de encorajamento, e fornecer ajuda material e espiritual.
Quando um homem incrédulo divorcia-se de uma mulher cristã, esta deve
saber que o Senhor cuidará dela em todas suas necessidades.
48. Findlay, First Corinthians, p. 828.
1 CORÍNTIOS 7.15
323
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 7.12-16
Versículo 12
:et,...ìetiet, – “os restantes”. David L. Dungan observa que essa “é
a forma de tratamento com que Paulo costuma se referir aos incrédulos”.
49
Em algumas passagens (Ef 2.3; 1Ts 4.13; 5.6) essa expressão é sinônima
de :a - ò|µ (os gentios). Mas no contexto coríntio, Paulo se dirige aos
cônjuges de casamentos mistos e manda que os parceiros cristãos exer-
çam liderança.
ì-,æ -,æ –

essa combinação expressa autoridade: “Eu digo”. O pro-
nome pessoal mostra contraste ou antítese a e su¡te, (ver v. 10).
-t :t, – Paulo usa a cláusula condicional duas vezes (vs. 12, 13) para
expressar o fato de que ele está falando de realidade.
au:µ – o pronome demonstrativo no feminino singular tem seu ante-
cedente na palavra esposa. A tradução deveria ser “esta”, mas é dado como
se o texto dissesse au:µ (ela), que está como pronome pessoal da terceira
pessoa (ver também eu:e, em vez de au:e,, v. 13).
Versículo 13
cu|-uees-t – esse verbo composto (“ela consente em”) expressa tanto
mutualidade (marido e mulher consentem em morar juntos) e intensidade
(“ela ou ele está inteiramente feliz”).
Versículo 14
,u|atst – depois da palavra esposa, alguns manuscritos ocidentais e
outros inserem, primeiro, a expressão :µ itc:µ (os que crêem) e, em se-
guida, o termo correspondente :æ itc:æ depois da palavra irmão (ver
NAB). Eu não adotei a interpretação ocidental, mas por motivo de clareza
acrescentei a palavra cristã entre colchetes (comparar com REB).
-| :µ e -| :æ – a preposição com o caso dativo pode indicar lugar (na
esfera de) ou causa (por causa de).
ae-ì|æ – em vez de “irmão” o Texto Majoritário tem a leitura a|e¡t
(marido) que quase todas os outros tradutores adotaram. Contudo os me-
lhores manuscritos têm a interpretação irmão. Bruce M. Metzger observa
49. David L. Dungan, The Sayings of Jesus on the Churches of Paul: The Use of the Synop-
tic Tradition in the Regulation of Early Church Life (Filadélfia: Fortress, 1971), p. 93.
1 CORÍNTIOS 7.12-16
324
que embora a palavra esposo seja um correlato mais adequado para o
termo esposa do que a palavra irmão, “a força especial de ae-ì|æ não
[tem] sido apreciada. Para captar novamente um pouco da nuança que
pertence a ae-ì|æ , numa modificação subseqüente :æ itc:æ foi acres-
centado a a|e¡t ”.
50
Versículos 15 ,16
-t – a partícula com o presente do indicativo ,æ¡t,-:at (ele parte)
expressa uma afirmação factual. O presente médio do imperativo ,æ¡t,- còæ
(que ele parta) é permissivo.
-|...-t¡µ|µ – a preposição tem a função de -t, com o sentido, “Deus
os chamou para uma paz na qual ele quer que vocês vivam”.
51
u ¡a , – a evidência dos manuscritos é mais forte para µ ¡a , do que para
u ¡a ,. Contudo, alguns editores dos textos gregos adotam a interpretação
vocês ainda que esta tenha menor apoio. Os tradutores estão divididos igual-
mente entre as duas opções; alguns escolhem “vocês”,
52
e outros “nós”.
53
-t...cæc-t, – “se irá salvar”. Paulo deixa essa pergunta direta sem res-
posta de propósito, porque só Deus pode responder.
4. Uma Digressão
7.17-24
Em meio a esse discurso sobre o casamento, Paulo faz um desvio
para enfatizar uma regra que ele menciona três vezes. Esta é a regra
que ele dá à igreja: “fique no lugar que o Senhor lhe concedeu” (vs. 17,
20, 24). Para dar apoio ao preceito ele fornece duas ilustrações, uma
sobre a circuncisão e a incircuncisão e a outra sobre o escravo e o livre.
Paulo emprega essas ilustrações a fim de dar um contexto para o próxi-
mo segmento de sua discussão sobre o casamento e para enfatizar a
responsabilidade do cristão para com Deus.
17. Todavia, que cada um viva a vida que o Senhor lhe conce-
deu, conforme Deus chamou a cada um. E eu estou estabelecendo
esta regra em todas as igrejas.
50. Metzger, Textual Commentary, p. 555.
51. Moule, Idiom-Book, p. 79. Ver Parry, First Epistle to the Corinthians, p. 114.
52. GNB, NAB, JB, NJB, NRSV, MLB, Moffatt. Duas traduções evitam optar e traduzem: “O
chamado de Deus é um chamado para viver em paz” (NEB, REB).
53. KJV, NKJV, NASB, SEB, TNT, RSV, Cassirer, Phillips.
1 CORÍNTIOS 7.17
325
a. “Todavia, que cada um viva a vida que o Senhor lhe concedeu.”
A primeira palavra é uma adversativa que chama a atenção para a exce-
ção à regra de que os votos do matrimônio são laços firmes (v. 15a,b).
Quando o cônjuge cristão está divorciado do cônjuge incrédulo, então
que seja assim, disse Paulo. Contudo, quando um casamento é dissol-
vido, a vida continua.
Entretanto, Paulo alarga seu horizonte para se dirigir a todos os
afetados pelo evangelho. Observe que Paulo usa o substantivo cada
um duas vezes na primeira sentença desse versículo. Ele sabe que o
evangelho entra não só no relacionamento entre marido e mulher, mas
também entre judeu e gentio, entre escravo e homem livre. Em qual-
quer situação em que a pessoa esteja quando se torna cristã, ela deve
permanecer ali. É o lugar na vida que o Senhor designou para cada um.
“Paulo procurou convencer seus leitores de que sua relação com Cristo
era compatível com qualquer relacionamento ou posição social.”
54
Novos convertidos à fé cristã muitas vezes são da opinião que o único
meio de mostrar gratidão a Deus pela dádiva da salvação é tornar-se
pastor ou missionário do evangelho. Isso é louvável, mas não impres-
cindível. O Senhor chama seu povo em todas as posições da vida para
segui-lo. Ele quer que sejam pais e mães cristãos, maridos e esposas
cristãos, empregadores e empregados cristãos. Cada um deve desem-
penhar o papel que o Senhor lhe distribuiu e viver (literalmente, cami-
nhar) de acordo com isso.
b. “Conforme Deus chamou a cada um.”
55
Nesse capítulo, Paulo
escreve repetidas vezes que Deus chamou o crente (vs. 15, 17, 18 [duas
vezes], 20, 21, 22 [duas vezes, 24). Deus chama uma pessoa primeiro
para a comunhão de Jesus Cristo (1.9) e depois para um papel de de-
sempenho da vida cristã no contexto em que o Senhor o colocou. Isso
não significa que Deus não permite ao crente nenhuma mudança de
posição, emprego ou residência. O Senhor muitas vezes conduz os seus
a outras áreas de vida e lhes dá diferentes funções a desempenhar; seja
qual for a vocação em que Deus os coloca, precisam refletir a glória
54. Hodge, First Epistle to the Corinthians, p. 120.
55. O Texto Majoritário, refletido em duas traduções (KJV, NKJV) inverteu a seqüência de
“Senhor” e “Deus”. Um tradutor apresenta a palavra Deus duas vezes nesse versículo (Cas-
sirer).
1 CORÍNTIOS 7.17
326
dele. Precisam viver de modo digno naquele lugar e ambiente, como
cristãos que demonstram o amor do Senhor Jesus.
c. “E eu estou estabelecendo esta regra em todas as igrejas.” A
regra para os crentes é ficar onde o Senhor os pôs e viver de modo
digno de seu chamado. Paulo diz isso duas vezes para provar seu argu-
mento (vs. 20, 24). Ele faz essa regra apoiado em sua autoridade apos-
tólica, e aplica-a em todas as igrejas (ver 4.17; 14.34; 16.1).
18. Qualquer homem que já foi circuncidado e chamado, que
não desfaça a circuncisão. Qualquer um que não foi circuncidado,
mas foi chamado, que ele não se torne circunciso. 19. A circuncisão
nada é, nem a incircuncisão, mas o que importa é obedecer às
ordens.
Aqui temos um exemplo de uma congregação típica do século I em
que cristãos judeus e cristãos gentios cultuavam e trabalhavam juntos.
Era o caso em Corinto, onde cristãos de origem judaica e gentílica
formavam a igreja. Ali as diferenças étnicas aparentemente não causa-
vam discórdia. Quando Deus chama uma pessoa a uma vida de comu-
nhão em Cristo, as diferenças que separam um judeu de um gentio não
mais são válidas.
Um judeu, que era circuncidado no oitavo dia depois de seu nasci-
mento, não deveria tentar desfazer essa marca quando mais tarde na
vida se tornava cristão. Como judeu circunciso ele poderia testemu-
nhar de modo eficaz a favor de Cristo entre pessoas judias como ele.
Esse foi o caso de Timóteo, que era circuncidado, entre os judeus que
o conheciam em Listra e Derbe (At 16.3). Quando um judeu era cha-
mado por Deus para seguir a Cristo, ele não deveria tentar desfazer
cirurgicamente sua circuncisão para ter aparência de gentio.
56
Deus o
chamou para ser um judeu entre os judeus (ver 9.20).
Semelhantemente, quando um gentio era chamado por Deus, ele
não deveria tentar tornar-se um judeu solicitando ser circuncidado. Ele
poderia invejar o judeu que havia recebido a revelação, as alianças e as
promessas de Deus (Rm 3.2; 9.4,5). Mas Deus não o chamou para que
fosse circuncidado (Gl 5.2), porque em Cristo Jesus as distinções de
56. Comparar com Josefo Antiquities 12.5.1 [24‘]; 1 Macabeus 1.15.
1 CORÍNTIOS 7.18, 19
327
ser judeu ou gentio desaparecem.
57
Deus chamou o cristão gentio para
ser uma testemunha no contexto cultural no qual Deus o colocou.
Paulo faz referência a casos excepcionais, porque um judeu não
estaria muito disposto a desfazer a marca da circuncisão e o gentio
normalmente relutaria em aceitar essa marca. Mas, na Palestina, mi-
lhares de cristãos judeus eram zelosos quanto a guardar a lei mosaica,
incluindo o rito da circuncisão (At 21.20). Essas pessoas por vezes
exerciam pressão indevida sobre os cristãos gentios para que fizessem
o mesmo (ver At 15.1,2). Elas continuaram a fazer assim mesmo de-
pois que o Concílio de Jerusalém tomou a decisão de que esses gentios
que se tornavam cristãos não precisavam se submeter à circuncisão (At
15.19-21).
A circuncisão e a incircuncisão nada têm que ver com a fé cristã,
diz Paulo. O judeu e o gentio são iguais aos olhos de Deus, porque em
Cristo Jesus ele adota a ambos. Não o sinal externo do homem, e sim
seu desejo interior de guardar a lei de Deus, a saber, fazer a sua vonta-
de é o que importa. Os judeus, no entanto, opunham-se à palavra de
Paulo e apontavam para uma surpreendente incoerência. Embora a lei
de Deus estipulasse a circuncisão como sinal do pacto (Gn 17.10-14),
eles ouvem Paulo dizer que a circuncisão não é nada. Mas ele afirma
que guardar a lei de Deus é importante (comparar com Sir. 32.23). No
entanto, Paulo distingue claramente entre uma observância exterior da
lei como demonstrada pelo sinal do pacto, e um espírito interior que
revela obediência à vontade de Deus. O Senhor quer que tanto cristãos
judeus como cristãos gentios cumpram a lei moral. Ele deseja a obe-
diência, não por uma crença errônea de que ela seja necessária para se
obter a salvação, mas por terem um coração alegre e agradecido pela
dádiva graciosa da salvação.
20. Que cada um permaneça na vocação em que foi chamado.
21. Se você era escravo quando foi chamado, que isso não o inco-
mode. Mas se, de fato, você puder tornar-se livre, aproveite a pos-
sibilidade.
a. “Que cada um permaneça na vocação em que foi chamado.”
Mais uma vez Paulo apresenta a regra que ele determinou em todas as
57. Romanos 2.25,26; Gálatas 3.28; 5.6; 6.15.
1 CORÍNTIOS 7.20, 21
328
igrejas [ver vs. 17, 24]. A ênfase de Paulo está nas palavras “vocação”
e “chamado”, que estão relacionadas ao novo nascimento espiritual
por meio da Palavra e do Espírito de Deus. E a vocação se refere à
situação da pessoa na vida.
Esse novo nascimento espiritual não é um mero elo vertical entre
Deus e o homem, mas também um relacionamento horizontal que se
estende do lugar na vida de uma pessoa aos seus semelhantes. Uma
vocação pode ser entendida como sendo uma posição ou vocação na
qual um crente vive em obediência aos preceitos de Deus. Paulo está
dizendo que “cada um deve permanecer na posição em que estava quan-
do foi chamado”.
58
Por exemplo, um contador que se converte ao Cris-
tianismo não deve sentir que não pode mais exercer o cargo de conta-
dor por causa de sua fé. Paulo instrui cada convertido a ficar onde
Deus o colocou na vida e não mudar de ocupação. Ele está dizendo:
“Cumpra as exigências de Cristo no lugar onde você estava quando
recebeu o chamado de Deus”.
b. “Se você era escravo quando foi chamado, que isso não o inco-
mode.” Aqui está um exemplo concreto tirado do cenário social do
tempo de Paulo. Embora muitos escravos tivessem adquirido habilida-
des valiosas, preenchido cargos profissionais e adquirido um certo ní-
vel de instrução,
59
outros tinham ficado sem treinamento nem instru-
ção; freqüentemente essas pessoas analfabetas eram desprezadas e até
maltratadas por donos insensíveis (comparar com 1Pe 2.18-21).
Esperaríamos que Paulo condenasse a escravidão como instituição
criminosa. Mas ele não trata dessa questão. Ele diz ao escravo que se
tornou um cristão que não se preocupe com a escravidão. Paulo não
está interessado em perturbar a estrutura existente da sociedade. O evan-
gelho de Cristo há de permear a sociedade aos poucos como o levedo
permeia a massa de uma fornada de pão. Ele está ciente do anseio do
escravo por liberdade, mas ele sabe que Deus reina supremo. Por meio
do evangelho, “uma ordenança divina superior está se efetivando, pela
qual o mundo é mantido”.
60
A mudança final na sociedade, Paulo a
58. Bauer, p. 436. Consultar Hodge, First Epistle to the Corinthians, pp. 122-23.
59. S. Scott Bartchy, MALLON CRHSAI: First Century Slavery and the Interpretation
of 1 Corinthians 7:21, série SBL Dissertation 11 (Missoula, Mont.: SBL, 1973) pp. 73-76.
60. Ridderbos, Paul, p. 317.
1 CORÍNTIOS 7.20, 21
329
deixa com o Senhor. No momento ele exorta o escravo cristão a não se
preocupar com sua condição.
c. “Mas se, de fato, você puder se tornar livre, aproveite a possibi-
lidade.”
61
A última cláusula do grego tem apenas duas palavras e falta-
lhe um objeto direto: “antes use [-a]” (NKJV). Qual é, precisamente, o
sentido do pronome a? Negativamente, a palavra poderia se referir à
escravidão; positivamente, à liberdade; e, contextualmente, à vocação.
Em seqüência, estas são três traduções representativas:
“Mesmo se você tiver a chance de liberdade, você deve preferir
fazer pleno uso de sua condição como escravo” (NJB; ver tam-
bém NAB, NRSV);
“Contudo, se vier uma chance de liberdade, sem dúvida, aproveite-
a” (REB; ver, por ex., GNB, MLB, SEB, TNT);
“Mas se, de fato, você for alforriado, a todo custo [como um liber-
to], viva conforme [o chamado de Deus]” (Bartchy, p. 183).
A primeira tradução enfrenta pelo menos duas objeções, a primeira
gramatical e a outra cultural. Gramaticalmente, o verbo use é um impe-
rativo no tempo aoristo, indicando uma ação única. Significa um novo
começo de vida e não uma continuação da escravidão, isto é, o escra-
vo, quando ele ou ela é libertado, entra numa nova fase. Uma objeção
cultural é que não foi o escravo, mas sim o mestre quem tomou a deci-
são de alforriar o servo. O mestre pôde fazer isso por razões econômi-
cas ou sociais, contudo ele determinou a condição do escravo. Via de
regra, os escravos ansiavam ser livres.
62
A maioria dos tradutores prefere a segunda tradução porque perce-
be que a pessoa livre está em melhor posição de difundir o evangelho
do que o escravo que fica tolhido por várias restrições. No entanto, era
incontável o número de escravos no século I, de modo que um escravo
podia ser uma testemunha efetiva entre seu próprio povo.
Uma objeção à segunda tradução é que o contexto parece exigir
uma interpretação de permanecer na escravidão. Assim, a interpreta-
ção “fazer pleno uso de sua condição como escravo” se junta à frase
61. Ver Bauer, p. 884.
62. Consultar Bartchy, First-Century Slavery, p. 82.
1 CORÍNTIOS 7.20, 21
330
seguinte: “Pois aquele que foi chamado no Senhor enquanto era escra-
vo é uma pessoa livre no Senhor” (v. 22a). Entretanto, essa objeção
perde sua força quando tomamos os versículos 21 e 22 como paralelos.
O versículo 22b diz: “Do mesmo modo, o homem que está livre quan-
do chamado, é um escravo de Cristo” (ver o comentário sobre o v.
22b), e serve como correlativo da segunda tradução do versículo 21b.
A terceira tradução tem a palavra chamado como objeto direto do
verbo viver (tirado da sentença anterior). Mas quando falta a uma sen-
tença grega uma palavra necessária para se completar o pensamento,
devemos simplesmente supri-la do contexto imediato, isto é, da pró-
pria sentença. Aqui a sentença apresenta o conceito de liberdade, não o
de chamado.
63
Das três traduções, portanto, a segunda é a preferida.
O tema recorrente que Paulo frisa nesse capítulo e especialmente
nessa seção (vs. 17-24) é a permanência. Sua regra dada aos membros
da igreja é que permaneçam no lugar que Deus designou ao indivíduo
(vs. 17, 20, 24). Isso não significa imobilidade e inflexibilidade, no
entanto; quando um escravo obtém liberdade, por exemplo, seu anseio
humano foi satisfeito. Deus criou o homem não para ser escravo de seu
semelhante, mas para ser livre.
22. Pois aquele que foi chamado no Senhor quando escravo é
uma pessoa livre no Senhor; e do mesmo modo, o homem livre
quando chamado, é um escravo de Cristo.
A igreja de Corinto era constituída de população variada, desde os
ricos e influentes até os pobres e o escravo. Todos eram participantes
da graça de Cristo. Como família espiritual, os membros aceitavam um
ao outro como irmãos e irmãs. Dentro da igreja, diferenças sociais e
econômicas eram esquecidas. Mas esses cristãos que eram escravos
estavam plenamente cientes de sua falta de liberdade. Precisavam de
uma palavra de encorajamento e exortação.
Esse versículo frisa a palavra Senhor, a qual ocorre duas vezes no
sentido de agente e possuidor. Em outras palavras, o Senhor chama seu
povo e também é dono dele. A última palavra da sentença, “Cristo”, é
enfática pela sua posição. Exceto por uma omissão, o versículo mostra
63. Comparar com Peter Trummer, “Die Chance der Freiheit, Zur Interpretation des amllon
chresai in 1 Kor 7.21”, Bib 56 (1975): 344-68.
1 CORÍNTIOS 7.22
331
equilíbrio. A omissão está na segunda parte do versículo, onde deve-
mos fornecer a expressão prepositiva no Senhor. Então essa parte diz:
“do mesmo modo, o homem livre quando chamado, no Senhor é um
escravo de Cristo”. Assim, a sentença como um todo tem dois segmen-
tos paralelos.
a. “Pois aquele que foi chamado no Senhor quando escravo é uma
pessoa livre no Senhor.” Paulo diz ao escravo cristão que ele não deve
olhar para sua posição social, mas antes para a liberdade que recebeu
em Cristo (Jo 8.36). Quando Deus o chamou para fazer parte de seu
povo, ele experimentou liberdade do pecado e da culpa. Ele não é mais
um escravo do pecado, mas agora pertence aos libertos do Senhor, isto
é, aos que são libertados da escravidão.
b. “O homem livre quando chamado, é um escravo de Cristo.” Quan-
do o Senhor chamou o homem livre, ele se tornou um escravo espiri-
tual que obedientemente faz a vontade de Deus (Ef. 6.6). Com certeza,
o escravo que é um liberto no Senhor é ao mesmo tempo escravo de
Cristo, do mesmo modo que o homem livre é também um liberto de
Cristo. Juntos são irmãos e irmãs no Senhor (Fm 16). Frederic Louis
Godet escreve o seguinte: “Se em Cristo os escravos se tornam livres,
e os libertos escravos, então nem a escravidão nem a liberdade devem
ser temidos pelo crente!”
64
23. Vocês foram comprados por um preço. Não se tornem es-
cravos de homens.
A primeira parte desse versículo é uma repetição exata de 6.20,
mas as palavras estão colocadas num contexto completamente diferen-
te. No capítulo anterior, Paulo escreveu sobre prostitutas e instruiu os
coríntios para que fugissem da imoralidade sexual. Ele lembrou a eles
que o corpo de cada um era um templo do Espírito Santo e depois
acrescentou que os coríntios pertenciam a Cristo, porque foram com-
prados por um preço. Agora ele coloca as mesmas palavras, “vocês
foram comprados por um preço”, no contexto de Cristo libertar os es-
cravos do pecado e da morte. Cristo libertou os coríntios do pecado e
pagou por eles com o preço de seu sangue (ver 1Pe 1.18,19). Aqueles
64. Frederic Louis Godet, Commentary on First Corinthians (1886; reedição, Grand Ra-
pids: Kregel, 1977), p. 362.
1 CORÍNTIOS 7.23
332
que foram comprados por Cristo devem ter plena segurança de sua
salvação.
Que segurança! Jesus é meu!
Tenho antegozo da glória do Céu!
Com Cristo herdeiro, Deus me comprou,
Dele nascido, o sangue lavou. – Fanny J. Crosby
NR
Paulo faz uma séria advertência a todos os crentes coríntios para
que não se tornem escravos de homens. Deveriam saber que são escra-
vos sujeitos a Cristo de modo bem semelhante a como os israelitas
eram sujeitos a Deus (comparar com Lv 25.55). Observe que Paulo se
dirige pastoralmente aos leitores na segunda pessoa do plural. Como
ele não está se dirigindo especificamente a escravos e sim à congrega-
ção toda, Paulo provavelmente tem em mente as filosofias humanas e
os sistemas religiosos que prendem em sujeição a mente do homem
(comparar com 2.12). Em lugar de obedecerem à lei de Deus, os cris-
tãos apanhados na armadilha do pensamento humano se tornam escra-
vos dos homens (Gl 5.1; Cl 2.20). Conseqüentemente, Paulo os exorta
a atentarem para a vocação a que Cristo os chamou.
24. Irmãos, que cada um permaneça com Deus na situação em
que foi chamado.
Paulo começou esse segmento (vs. 17-24) com uma regra que deu
a todas as igrejas. Ele repetiu o preceito na metade do segmento (v.
20), e agora o termina com aquele mesmo princípio (v. 24). Em cada
um dos três versículos ele aplica a regra especificamente a cada crente.
Nesse versículo, ele acrescenta a expressão com Deus. Isso significa
que quaisquer que possam ser as circunstâncias de um crente, o cristão
deverá saber que Deus está sempre com ele e nunca o abandonará (com-
parar com Dt 31.6; Js 1.5; Hb 1.5). Mas também significa que cada
crente deve viver dignamente na presença de Deus, porque os olhos de
Deus estão sobre ele em todos os momentos. O cristão é um membro
da família da fé, um cidadão no reino de Deus e um soldado no exérci-
to do Senhor.
NR. A tradução de G. B. N. segue fielmente o texto do original de Fanny Crosby. (Salmos
e Hinos, ed. I. E. F., 1960): 487.
1 CORÍNTIOS 7.24
333
Por que Paulo declara três vezes a regra de permanecer na condi-
ção em que se encontra? Ele deu dois exemplos da esfera religiosa
(judeu e gentio) e da esfera social (escravo e livre). Antes e depois de
cada um desses exemplos, ele enfatiza sua regra de manter estabilida-
de. Para Paulo, a vocação do crente individual é viver diante de Deus
em qualquer circunstância. Ele percebe que com a entrada do evange-
lho no mundo, a sociedade e a cultura devem mudar. No entanto, ele
chama à estabilidade, e não à revolução. O próprio evangelho deve
efetuar uma mudança. Em qualquer lugar na vida em que o cristão se
encontrar, ali ele precisa viver honrosamente diante de Deus. “Está
claro que Paulo considera a vocação como fator determinante na vida
de um cristão. Ele emite o aviso para evitar circunstâncias que possam
pôr em perigo essa vocação.”
65
Um cristão põe em prática os ensinos
de Cristo, quer ele tenha suas raízes no judaísmo ou no paganismo e
quer ele seja escravizado ou livre.
Finalmente, a expressão com Deus faz com que o crente viva na
esperança da volta de Cristo. O cristão primitivo ansiava estar com
Cristo e por isso colocava sua mente não em coisas terrenas, mas nas
celestiais (Fp 3.19,20; Cl 3.2). O cristão vive sua vida na terra sabendo
que seu lar eterno é com Deus.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 7.17-23
Versículo 17
-t ¡µ – essa combinação é adversativa e significa “mas”. É equiva-
lente a iìµ|
66
Paulo não forneceu a prótase negativa dessa sentença con-
dicional, mas nós entendemos que ele diz: “Apesar da cláusula de exce-
ção sobre o divórcio (v. 15a, b), eu imponho uma regra para todas as
igrejas”.
i-¡tia:-t:æ – o tempo presente no modo imperativo expressa dura-
ção: “que continue andando”.
65. F. W. Grosheide, Commentary on the First Epistle to the Corinthians: The English
Text with Introduction, Exposition and Notes, série New International Commentary on the
New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1953), p. 172.
66. Blass e Debrunner, Greek Grammar, nº376; A. T. Robertson o traduz “somente”. A
Grammar of the Greek New Testament in the Light of Historical Research (Nashville:
Broadman, 1934), p. 1025.
1 CORÍNTIOS 7.17-23
334
Versículos 18,19
i-¡t:-:¡µ¡-|e, – o particípio perfeito passivo do verbo composto
i-¡t:-¡|æ (eu circuncido) mostra que a ação ocorreu no passado, mas seu
efeito continua no presente.
s-sìµ:at – esse particípio perfeito passivo do verbo saì-æ (eu cha-
mo) não quer dizer que o homem foi chamado para a incircuncisão, e sim
que ele foi chamado nessa condição.
:µ¡µct, – o substantivo vem do verbo :µ¡-æ (eu guardo) e denota
execução ativa.
Versículo 21
aìì` -t sat – essas três palavras estão no centro do debate sobre a
tradução e interpretação desse versículo específico. O adversativo a ììa
(entretanto) é mais forte do que a partícula e- (mas) e contrasta as duas
partes desse versículo.
67
A combinação -t sat significa “se realmente”ou
“embora”. A primeira tradução é preferida pelos estudiosos que dizem
que a sentença quer dizer liberdade da escravidão; a segunda é apoiada
por aqueles que declaram que escravos devem permanecer na escravidão.
S. Scott Bartchy observa: “Não há exemplos de -t sat significar ‘embora’
ou ‘mesmo se’ em 1 Coríntios, mas em 1 Coríntios 7 um sat enfático
aparece antes e depois do uso de -t sat em [v. 21c]. Esses empregos
sugerem que, olhando só as bases gramaticais, -t e sat em [v. 21c] devem
ser traduzidos ‘se, realmente’. À vista do contexto social e jurídico, essa é
a tradução exigida”.
68
¡a ììe| ,¡µ cat – esse é o imperativo aoristo de ,¡ae¡at (eu uso) que
contrasta com o presente do imperativo, isto é, o escravo tem um novo
começo como pessoa livre. O advérbio ¡aììe| significa “sem dúvida” ou
é comparativo que exclui uma mudança social e se traduz “antes”. A pri-
meira tradução é a preferida.
Versículo 22
-| su¡tæ – a preposição pode se referir tanto à esfera (no Senhor) ou
agência (pelo Senhor). A maioria dos tradutores opta pelo dativo de esfe-
ra; uns poucos escolheram agência.
69
Embora o aoristo da passiva sìµò-t,
(duas vezes) se acomode à agência, o contexto sugere esfera.
67. Algumas traduções omitem a adversativa (por ex, NIV, SAB, SJB, NRSV, Phillips).
68. Bartchy, First-Century Slavery, p. 178.
69. Ver, por ex., GNB, MLB, NIV, TNT.
1 CORÍNTIOS 7.17-23
335
Versículo 23
:t¡µ, – ver o comentário sobre 6.20.
¡µ ,t|-cò- – o tempo presente do imperativo negativo dá a entender
que alguns coríntios já estavam influenciados por doutrinas mundanas.
5. Virgens e Casamento
7.25-40
Depois de um breve interlúdio (vs. 17-24), no qual ele nos forne-
ceu duas ilustrações vívidas de estabilidade tiradas das esferas religio-
sa e social, Paulo agora retoma suas discussões sobre o casamento.
Este assunto, que ele introduziu no versículo 1, é amplo e tem muitas
facetas. Paulo já respondeu perguntas sobre os direitos conjugais, os
solteiros, o divórcio e os casamentos mistos. Mas ele ainda enfrenta
perguntas relacionadas à virgindade, ao casamento e o serviço do Se-
nhor, à conduta apropriada para com uma virgem e ao alcance dos
votos matrimoniais. Paulo agora dá aconselhamento sobre esses as-
suntos íntimos e estritamente pessoais.
a. Status Marital
7.25-28.
25. Agora, a respeito das virgens eu não tenho mandamento do
Senhor, mas eu, que pela misericórdia do Senhor sou digno de con-
fiança, dou meu parecer.
a. “Agora, a respeito das virgens.” As primeiras duas palavras pa-
recem referir-se a uma pergunta que os coríntios lhe fizeram em sua
carta. Paulo opera seqüencialmente ao passar em revista essas ques-
tões. Ele não explica o sentido da palavra virgens, mas é provável que
tenha em mente “o próprio estado da virgindade”.
70
As virgens em idade de casar estavam hesitantes quanto a entrar
num casamento por no mínimo duas razões: primeiro, a “presente cri-
se” (v. 26) dessa época tornava o casamento pouco aconselhável e,
ainda, alguns cristãos de Corinto aconselhavam-nas a não casar.
71
Pau-
lo discute esses assuntos nos versículos subseqüentes.
70. Calvino, 1 Corinthians, p. 155.
71. Consultar Fee, First Corinthians, pp. 323, 327.
1 CORÍNTIOS 7.25
336
b. “Eu não tenho mandamento do Senhor.” A respeito da pergunta
sobre se o celibato é bom e o casamento mau, Paulo só podia se voltar
à Escritura e responder que Deus instituiu o casamento (6.16; Gn 2.24).
E com respeito ao divórcio, ele confiou numa ordem do Senhor, que
disse aos fariseus que os votos de casamento são duradouros e não
deveriam ser quebrados (v. 10; Mc 10.8-12). Mas em relação às vir-
gens que têm planos de casamento, Paulo não tem nenhuma ordenança
nem da Escritura nem do Senhor.
c. “Mas eu, que pela misericórdia do Senhor sou digno de confian-
ça, dou meu parecer.” Paulo escreve sua epístola por inspiração divina,
e não por entendimento perspicaz humano (2Pe 1.20,21). Ele sabe que
o Senhor lhe deu autoridade apostólica para falar e para escrever em
benefício da Igreja. Mas ele não legislará com respeito a esse assunto
pessoal e sensível da virgindade. Nesse versículo ele diz que dá sua
opinião, e no versículo seguinte escreve: “eu penso” (v. 26; e ver v.
40). Sua abordagem na segunda metade desse capítulo, portanto, dife-
re da primeira metade, na qual ele citou um mandamento do Senhor (v.
10). Agora ele fala sem uma ordem divina, contudo confia no Senhor,
a quem ele dá o crédito por tê-lo chamado para o apostolado.
Paulo observa que lhe foi mostrada misericórdia de forma que ele
se tornou fiel não por sua livre vontade, mas pela benevolência de Cristo.
Foi Cristo que o chamou para ser um apóstolo e quem lhe deu vários
dons. Paulo empregava esses talentos de boa vontade e em obediência
para servir aos seguidores de Cristo. Em todas as suas epístolas, reco-
nhece que Jesus em sua misericórdia o mudou de perseguidor da Igreja
a implantador, construtor, conselheiro, pregador e professor (ver 4.1;
1Ts 2.4; 1Tm 1.13, 16). Paulo tornou-se um ministro fiel do evange-
lho, em quem os crentes podiam pôr sua confiança. Ele havia demons-
trado sua fidelidade a Jesus. E mais, ele ganhara a confiança desses
crentes de modo que procuravam-no para aconselhá-los. Paulo lhes dá
sua opinião e espera que os coríntios sigam seu conselho.
26. Penso então que, por causa da presente crise, é bom um
homem permanecer como está.
Paulo qualifica seu aconselhamento com as palavras introdutórias
eu penso, e declara que, por causa da “presente crise”, o celibato é
preferível ao casamento. Alguns tradutores têm leituras alternativas:
1 CORÍNTIOS 7.26
337
“as iminentes aflições” (MLB, RSV) ou “a crise iminente” (NRSV). Todos
os outros usam o adjetivo presente para descrever a crise. Qual era a
crise que afligia a comunidade de Corinto? Os estudiosos geralmente
dão uma de três respostas: a palavra grega anangkh (necessidade, afli-
ção) denota uma calamidade que caiu sobre a igreja em Corinto, ou é
uma referência um tanto disfarçada à perseguição que os cristãos têm
de suportar à medida que o fim dos tempos se aproxima, ou refere-se a
uma fome na terra.
A primeira explicação é que aconteceu algum infortúnio na comu-
nidade coríntia. Talvez a referência de Paulo aos fracos, doentes e
moribundos (11.30) indique uma calamidade que se seguiu a certas
irregularidades na celebração da Ceia do Senhor. Mas o que tem que
ver a celebração da Ceia com adiar um casamento? A aflição de doença
e morte em algumas famílias parece ser motivo pouco provável para
Paulo desencorajar obrigações matrimoniais na igreja toda.
A segunda interpretação é que nesse segmento Paulo faz alusão ao
fim do mundo (vs. 26-31). Ele diz que o tempo está abreviado (v. 29) e
que este mundo está passando (v. 31). Os cristãos suportarão insultos e
durezas por causa de sua fé ao entrarem no período que leva ao fim dos
tempos. Por isso, à vista dessa aflição, a pessoa que não está casada
deve permanecer solteira, mas está livre para escolher o contrário. Se a
presente aflição é interpretada de uma perspectiva escatológica, nin-
guém pensaria em fazer planos para casar. Como diz Leon Morris, no
entanto: “Paulo se refere com freqüência à volta de Cristo, mas ele não
associa anangkh com isso. Quando ele emprega essa palavra, ela tem
sentidos como “obrigação” (v. 37), “necessidade imposta” (9.16), “so-
frimentos” (2Co 6.4), etc., mas nunca os acontecimentos que precede-
rão a segunda vinda”.
72
A terceira resposta é que uma fome nos arredores gregos está an-
gustiando os cidadãos, especialmente os pobres.
73
Portanto, o conselho
de Paulo a uma pessoa não casada é apropriado, pois essa pessoa pode
72. Leon Morris, The First Epistle of Paul to the Corinthians: An Introduction and Com-
mentary, série Tyndale New Testament Commentaries , 2ª ed. (Leicester: Inter-Varsity: Grand
Rapids: Eerdmans, 1985), pp. 112-13.
73. Veja Bruce W. Winter: “Secular and Christian Responses to Corinthian Famines”,
TynB 40 (1989): 86-106.
1 CORÍNTIOS 7.26
338
suportar a dureza de uma fome bem melhor do que pais que têm de
prover diariamente para seus filhos.
74
Se considerarmos a “presente
crise” à luz da discussão sobre a celebração da Ceia do Senhor, pode-
mos ver uma possível indicação de uma fome. Em pelo menos duas
passagens, Paulo menciona que alguns coríntios estão com fome quan-
do vêem à mesa do Senhor (11.21, 34).
Todos os três pontos de vista funcionam com hipóteses, mas dos
três o terceiro parece dar a razão mais forte para ficar sem se casar.
Uma incapacidade de poder suprir as necessidades diárias de uma fa-
mília se aplica como prova de apoio para adiar o casamento.
O texto grego não flui bem. Uma tradução literal é: “Eu penso
então que isso é bom em vista da presente aflição, que é bom um ho-
mem permanecer como ele está” (NASB). Nós presumimos que Paulo
tenha começado uma cláusula, mas deixado de completá-la e então
tenha construído uma segunda cláusula. Em favor do estilo, a maioria
dos tradutores elimina a cláusula que isso é bom. Uma última observa-
ção: Paulo usa a expressão homem no sentido genérico para incluir
tanto homens como mulheres.
27. Se você está ligado a uma esposa, não busque ser desligado.
Se você está desligado de esposa, não procure uma.
a. “Se você está ligado a uma esposa, não busque ser desligado.”
Novamente Paulo ensina que os laços matrimoniais não devem ser
quebrados. Mesmo se as presentes necessidades (como o caso de uma
fome) tornam difícil a vida de casado, desde o tempo da criação Deus
pretendeu que marido e mulher ficassem juntos. Paulo emprega o ver-
bo numa forma do passado (você tem estado ligado) para indicar um
ato que aconteceu no passado com resultados que se estendem até o
presente. Esse verbo também pode ser aplicado a um homem e uma
mulher que foram ligados por votos nupciais.
75
De um ponto de vista
judaico, uma virgem era prometida a seu futuro esposo e um noivado
era equivalente a um casamento (ver Dt 22.23,24; Mt 1.18). Não deve-
74. A expressão grega av na, gkh (aflição) ocorre em Epiteto 3.26.7 com respeito à fome. Ver
também 3 Macabeus. 4.16, que nota uma dificuldade presente quando Ptolomeu entrou no
templo em Jerusalém.
75. Ver especialmente J. K. Elliott, “Paul’s Teaching on Marriage in 1 Corinthians: Some
Problems Considered”, NTS 19 (1973): 219-25.
1 CORÍNTIOS 7.27
339
mos, portanto, restringir a interpretação desse versículo aos casais ca-
sados ou noivos. O contexto geral inclui tanto casais casados quanto
noivos. Defendendo a santidade do matrimônio, Paulo os ordena a não
buscar a dissolução de seus votos de casamento ou noivado.
b. “Se você está desligado de esposa, não procure uma.” A segunda
parte do versículo faz paralelo à primeira no estilo e na sintaxe. Obser-
ve que Paulo repete a palavra-chave desligado. Mais uma vez Paulo
emprega o tempo perfeito: você tem sido desligado. Mas qual é o sen-
tido do verbo desligar? Paulo está aconselhando os solteiros a não
contemplarem o casamento na situação econômica opressiva do tempo
presente (v. 26). Walter Bauer diz: “Um estado anterior de ser ‘ligado’
não precisa ser tido por certo”.
76
Além disso, Paulo tinha em mente os
viúvos, mas não as pessoas separadas ou divorciadas, porque ele já
havia expressado seus pensamentos sobre a separação e divórcio (vs.
10-13).
28. Mas mesmo que você se case, você não terá pecado. E se
uma virgem se casar, ela não terá pecado. Mas essas pessoas terão
grandes aflições nesta vida, e eu gostaria de lhes poupar estas difi-
culdades.
a. Casamento. Na primeira parte desse versículo, Paulo não está
interessado em discutir a dimensão moral do casamento. Para ele, o
casamento legalizado não é pecado. Ele já havia dito que se pessoas
não casadas não podem se conter, “que casem” (v. 9). Seu conselho
agora diz respeito à prudência do casamento nas circunstâncias dadas.
Ele está dizendo que se um homem entrou no estado de matrimônio,
ele não pecou. Semelhantemente, se uma virgem fez os votos a seu
marido, ela não pecou, porque sua conduta está em harmonia com a
instituição do casamento (Gn 2.24). Paulo dirige-se aos problemas da
época (a saber, a dificuldade para o cristão) e não à questão do peca-
do.
77
Ele assegura aos coríntios que quando homens ou mulheres não
dão atenção ao seu conselho sobre o casamento, eles não pecaram de
modo algum. São sem culpa, contudo enfrentam sérias dificuldades.
b. Aflição. “Mas essas pessoas terão grandes aflições nesta vida.”
76. Bauer, p. 483.
77. Consultar Lenski, First Corinthians, pp. 314-115.
1 CORÍNTIOS 7.28
340
Paulo apela ao uso do plural para referir-se a um grupo de pessoas que
já casou ou está contemplando casar. O termo aflição é uma expressão
vaga, que em algumas traduções ocorre no plural como “aflições”.
78
Os intérpretes encontram dificuldades em dar uma explicação adequa-
da desse termo.
79
Se a palavra faz referência a uma fome que está asso-
lando a terra, é sinônima de “a presente crise” (v. 26).Também, a tradu-
ção literal, “aflição na carne”, em lugar da versão livre, “aflições desta
vida”, reforça o ponto de vista de que a Grécia sofreu uma fome.
c. Desejo. “Gostaria de lhes poupar estas dificuldades.” Paulo se
torna íntimo quando se dirige aos seus leitores com o pronome pessoal
eu. Como pastor, ele expressa o desejo de poder protegê-los de aflição.
Ele não está contra o casamento, mas na situação presente ele lhes
desaconselha o casamento para poupar problemas iminentes às pessoas.
Nota Adicional sobre 7.25-28
Na segunda metade desse capítulo, Paulo menciona a palavra grega
parthenos (virgem [virgens]) sete vezes (vs. 25, 28, 34 [duas vezes], 36,
37, 38). Determinar o sentido desse termo, no entanto, tem causado deba-
te considerável. Aqui estão várias interpretações:
a. Homens e mulheres. Virgens são casais que são noivos comprome-
tidos com o casamento. Assim o termo inclui tanto homens como mulhe-
res (v. 25); também se refere a um solteiro que tem dever marital para com
sua noiva (vs. 36-38).
80
Mas o contexto denota virgens do sexo feminino,
e a palavra não se aplica ao sexo masculino.
b. Casamento espiritual. Virgens são casais que estão na igreja de
Corinto que decidiram praticar o ascetismo. Eles têm um compromisso
espiritual que tem as vantagens do casamento sem relações sexuais.
81
Mas
Paulo diz aos coríntios para não privarem um ao outro da intimidade ma-
rital (v. 5).
78. RSV, SEB, GNB, JB; mas REB e NJB têm “durezas”.
79. Por exemplo, Grosheide pensa em mulheres grávidas e mães que amamentam bebês
(Mt 24.19). Ver First Epistle to the Corinthians, p. 177. Calvino entende a palavra como
significando “as responsabilidades e as dificuldades” que as pessoas casadas enfrentam.
1Coríntios, p. 158.
80. Ver Hans Conzelmann, 1 Corinthians: A Commentary on the First Epistle to the
Corinthians, org. por George W. MacRae, trad. por James W. Leitch: Hermeneia: A Critical
and Historical Commentary on the Bible (Filadélfia: Fortress, 1975), p. 132 n. 8.
81. Hurd, Origin of 1 Corinthians, pp. 177-80.
1 CORÍNTIOS 7.25-28
341
c. Casamento de levirato. As virgens são viúvas jovens. Quando um
marido judeu morria, seu irmão solteiro era obrigado a casar com a jovem
viúva (Dt 25.5,6; Mt 22.24).
82
Embora a igreja de Corinto tivesse vários
convertidos judeus, muitos membros eram cristãos gentílicos que não co-
nheciam a prática do levirato. E mais, uma viúva não é mais uma virgem.
d. Celibatários do sexo masculino. Os virgens são moços que nunca
se casaram. Alguns estudiosos asseveram que o termo virgens deve ser
aplicado não a mulheres, e sim a homens. Em apoio desta interpretação
eles apontam o texto grego de Apocalipse 14.4, onde o termo aparece com
referência a homens.
83
A objeção a esse ponto de vista é que Paulo, no
versículo 28a, dirige-se ao homem e, no versículo 28b, à mulher, a quem
chama de “a virgem”.
e. Virgens casáveis. Virgens são mulheres jovens que nunca casaram.
De alguns cristãos coríntios, Paulo recebeu a pergunta se virgens deveri-
am contemplar o matrimônio visto os tempos aflitivos em que viviam. Ele
dá seu conselho pessoal às virgens e seus pretendentes, e deixa a impres-
são distinta de que o termo virgem (ns) se aplica a jovens que ainda não se
casaram. Eu prefiro esta interpretação.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 7.25-28
Versículo 25
æ, µì-µ¡-|e, – a partícula æ, significa “como um que”, o qual tem,
com o particípio perfeito da passiva, uma conotação causativa.
84
Do verbo
-ì--æ (eu tenho misericórdia, pena), o tempo perfeito do particípio revela
uma ação no passado que tem significância para o presente. O uso da
passiva indica que Deus mostrou misericórdia a Paulo.
itc:e, -t|at – o infinitivo é epexegético, isto é, explica o particípio
perfeito anterior e significa, portanto, “teve compaixão... suficiente para
se poder confiar nele”.
85
82. J. M. Ford, “Levirate Marriage in St. Paul: 1 Cor. 7”, NTS 1o (1964): 362; James B.
Hurley, “Man and Woman in 2 Corinthians”, dissertação de doutorado, Cambridge Univer-
sity, 1973, p. 194.
83. Matthew Black, The Scrolls and Christian Origins: Studies in the Jewish Background
of the New Testament (Nova York: Nelson, 1961), p. 85; James F. Bound, “Who Are the
‘Virgins’ Discussed in 1 Corinthians 7:25-38? EvJ2 (1984): 3-15.
84. Robertson, Grammar, p. 1128; Blass e Debrunner, Greek Grammar, nº 425.3.
85. Moule, Idiom-Book, p. 127.
1 CORÍNTIOS 7.25-28
342
Versículo 26
:eu:e saìe| uia¡,-t| – as duas cláusulas desse versículo apresentam
uma repetição. A maioria das versões, portanto, omite essa frase e traduz
a última parte do versículo, saìe| a|ò¡æiæ :e eu:æ, -t|at, “é bom para
um homem estar como ele está”.
Versículo 27
¡µ ,µ:-t – o presente do imperativo transmite a proibição: “pare de
procurar”. Ocorre paralelismo nas duas sentenças. Os tempos perfeitos
e-e-cat (de e-æ eu ligo) e ì-ìucat (de ìuæ, eu solto) expressam uma inter-
rogativa em suas respectivas cláusulas. A resposta a essas perguntas está
expressa em duas proibições.
Versículo 28
- a | e- sat – “mesmo se”. A partícula - a | nas duas sentenças condici-
onais introduz verbos no subjuntivo ,a¡µcµ, (você casar) ,µ¡µ (ela ca-
sar). As formas verbais são sinônimas e idênticas no sentido. O primeiro
verbo está na segunda pessoa do singular porque Paulo, seguindo o costu-
me daquele tempo, se dirige ao homem. O segundo verbo está na terceira
pessoa do singular e tem o substantivo virgem como seu sujeito. Este subs-
tantivo, ia¡ò-|e,, é precedido pelo artigo definido µ para indicar a cate-
goria de virgens. Três manuscritos unciais (códices B, F e G) e uma teste-
munha minúscula (420) eliminam o artigo definido.
b. Dificuldades
7.29-31
Depois de dar seu conselho a virgens e a casais de noivos, Paulo
retrata as dificuldades que os crentes de Corinto devem suportar. Tal-
vez inadvertidamente, ele se desvia de seu objetivo para escrever sobre
o casamento e pondera o futuro imediato. Mas ele deixa de declarar
uma perspectiva escatológica precisa sobre a consumação do mundo.
Ele não se interessa por esse assunto no momento.
29. Eu digo isto, irmãos, o tempo está abreviado, de forma que
de agora em diante até aqueles que têm esposa que sejam como se
não tivessem esposa. 30. E aqueles que choram, que sejam como se
não chorassem, e aqueles que se alegram, que sejam como se não
se alegrassem; e aqueles que compram que sejam como se não com-
prassem. 31. E aqueles que usam as coisas do mundo, que sejam
1 CORÍNTIOS 7.29, 30
343
como se não as usassem plenamente. Porque este mundo em sua
forma atual está passando.
a. “Eu digo isto, irmãos, o tempo está abreviado.” Observe que
essa primeira parte do versículo 29 e a última sentença do versículo 31
transmitem uma mensagem sobre a brevidade do tempo. Entre essas
duas afirmações sobre a natureza passageira desta era, Paulo coloca
algumas frases poéticas. Ele deseja levar a atenção da igreja à configu-
ração sempre mutante deste mundo no qual o tempo está comprimido.
Ele quer que percebam a temporalidade desta era, a rapidez dos acon-
tecimentos e a brevidade da vida.
Paulo fala pastoralmente ao dirigir-se de forma pessoal não só aos
que são casados, mas a todos os membros da igreja de Corinto. Com o
pronome pessoal da primeira pessoa, eu, ele se dirige a seus leitores e
os chama de “irmãos” (incluindo as irmãs), à maneira da época. E o
termo digo significa uma declaração solene em lugar de fala comum.
86
A palavra isto aponta adiante e se refere à perspectiva de tempo e mun-
do, e atrás para o casamento. A frase o tempo está abreviado é curiosa
porque Paulo não está falando sobre o tempo de calendário, e sim so-
bre a era que engloba o tempo no qual ele vive (ver Mt 24.22). Dentro
desse espaço de tempo, numerosos acontecimentos estão comprimi-
dos, especialmente aqueles que dizem respeito à vinda do reino de Deus
por meio da proclamação de evangelho. Paulo está dizendo aos corín-
tios que rejeitem a visão de tempo dos gentios e adotem o ponto de
vista de que o reino de Deus já invadiu este mundo e está transforman-
do-o (comparar com Mt 11.12). Por essa razão, os crentes devem con-
templar de modo amplo a vida e concentrar-se nos fundamentos eternos.
Por tudo isso, Paulo instrui os coríntios a enxergar o casamento, a
tristeza, a alegria, as posses, os negócios e o serviço ao próximo à luz
desta era nova que a fé cristã inaugurou. Por causa desta fé, os aconte-
cimentos são comprimidos e seguem-se uns aos outros com rapidez.
Os cristãos devem entender que assim como a forma presente deste
mundo passa (v. 31), a vinda do reino de Deus continua e toca todos os
aspectos da vida humana.
87
86. No Novo Testamento, a primeira pessoa do singular fhmi,) (eu digo) ocorre apenas em
1 Coríntios 7.29; 10.15, 19; 15.50.
87. Ridderbos, Paul, p. 312.
1 CORÍNTIOS 7.29-31
344
b. “De forma que de agora em diante mesmo aqueles que têm espo-
sa, que sejam como se não tivessem esposa.” Repare que Paulo escre-
ve linhas poéticas que descrevem a vida humana. Nós entendemos es-
ses versículos como composição do apóstolo, e não como citação de
outra pessoa (2 Esdras 16.42-45).
88
Considere o ritmo da poesia em
suas cinco partes com a frase recorrente em itálicos:
aqueles que têm esposa
que sejam como se
não tivessem esposa.
e aqueles que choram
que sejam como se
não chorassem,
e aqueles que se alegram,
que sejam como se
não se alegrassem
e aqueles que compram
que sejam como se
não comprassem
e aqueles que usam as coisas do mundo
que sejam como se
não as usassem.
Paulo introduz esses versículos poéticos com a expressão de forma
que de agora em diante. As palavras traduzidas temporalmente como
“de agora em diante” podem também significar por inferência “portan-
to”.
89
Entretanto, o uso temporal combina melhor com o contexto do
que o uso inferencial, porque os crentes entraram numa nova época de
sua vida. Como cristãos, eles tanto vêem o mundo em que vivem como
se movem dentro de uma perspectiva eterna (comparar com At 17.28).
88. Romano Penna vê um possível paralelo em Diógenes Laertius Lives 6.29. “San Paolo
(1 Cor. 7.29b-31a) e Diogene il Cínico”, Bib 58 (1977): 237-45. Consultar Wolfgang Schrade,
“Die Stellung zur Welt bei Paulus, Epikteit und der Apokalyptik. Ein Beitrag zu 1 Kor 6,
29-31”. ZTK 61 (1964): 125-54. E ver Gottfried Hierzenberger, Weltbewertung bei Paulus
nach 1 Kor 7, 29-31 (Düsseldorf: Patmos, 1966), p. 30.
89. Bauer, p. 480.
1 CORÍNTIOS 7.29-31
345
O que Paulo quer dizer quando escreve: “Aqueles que têm esposa
que sejam como se não tivessem esposa”? Com certeza ele não está
defendendo a separação, o celibato e nem o divórcio. Ele está dizendo
que os cristãos devem limitar o casamento a este presente século.
90
Na
era vindoura ninguém estará casado, pois todos serão como os anjos no
céu (Mt 22.30). O próprio Deus instituiu o casamento na aurora da
história humana; portanto, o casamento não perde sua importância na
era presente.
Mas como interpretamos a expressão que sejam como se? Em to-
das as partes da composição poética de Paulo (casamento, tristeza, ale-
gria, riqueza, bens e serviço), “devemos viver como se pudéssemos ter
de deixar este mundo a qualquer momento”,
91
isto é, nós não devemos
fazer das coisas terrenas nossos objetivos máximos. Quer estejam ca-
sados, lançados em tristezas, dados à alegria, ou atentos a adquirir pos-
ses, os cristãos não devem ficar absortos nessas coisas. Devem enxer-
gar a natureza transitória delas e saber que depois de passar por este
vale terreno, os crentes entrarão na eternidade. Nesta vida, então, de-
vem preparar-se para a vida após a morte.
Um cristão vive uma vida que é contraditória em certo sentido.
Como Paulo o coloca, ele é entristecido, mas continua a alegrar-se;
pobre, mas torna muitas pessoas ricas; ele nada tem, entretanto possui
tudo (2Co 6.10).
c. “E aqueles que usam as coisas do mundo, que sejam como se
não as usassem plenamente.” O versículo final desse trecho poético
parece repetir a parte anterior, que trata de comprar e adquirir as coi-
sas. Mas o ensino de Jesus sobre a administração responsável das pos-
ses terrenas ecoa nessa frase final. Jesus ensinou seus seguidores a não
colocar o coração nessas coisas (Lc 6.29b, 30). Os seguidores de Jesus
podem usar os bens deste mundo, mas não devem ficar absortos neles
(NIV) nem usá-los de modo incorreto (NKJV).
Percamos bens, o lar,
A vida aqui – mortal,
Pois podem nos matar,
90. Ver Grosheide, First Epistle to the Corinthians, p. 177.
91. Calvino, 1 Corinthians, p. 160.
1 CORÍNTIOS 7.29-31
346
Mas vive Deus – real
Seu reino é para sempre.
– Martinho Lutero
d. “Porque este mundo em sua forma atual está passando.” Paulo
completou o círculo de seu argumento com sua referência ao tempo
encurtado em que os cristãos vivem. Ele conclui sua contribuição poé-
tica com uma declaração definitiva: este mundo está passando. O mun-
do é a criação de Deus, mas por causa do pecado ele está sujeito a
frustração e gemidos (Rm 8.20-22). Por essa razão, diz Paulo, a forma
atual do mundo está desaparecendo. A expressão forma atual se refere
à “forma (ou manifestação distinta) deste mundo”,
92
comparável às
mudanças dos atos e personagens no teatro ou filme. O mundo em si
permanecerá até o último dia. Mas sua aparência, pela ocorrência das
estações na natureza ou as mudanças gradativas na configuração da
terra, está sujeita a mudança constante.
Por conhecer a epístola de Paulo, o apóstolo João escreve palavras
quase idênticas em uma de suas epístolas. Ele diz: “O mundo passa,
bem como seus desejos” (1Jo 2.17a). Paulo tem o mesmo pensamento
quando se refere ao mundo de cada dia em que a pessoa vive. É o
mundo do casar-se e lamentar, do exultar, expandir e gastar. E este
mundo, Paulo diz, não tem forma duradoura. Em conseqüência, o cris-
tão não pode colocar seu coração naquilo que é passageiro, e sim no
que é durável e eterno.
Considerações Práticas em 7.29-31
A sociedade atual é caracterizada pela instabilidade, especialmente
quanto à vida familiar. Solapada por infidelidade marital, deserção e di-
vórcio, a vida familiar vem se deteriorando, e em numerosos casos inexis-
te. A propagação de doenças, da fome e da pobreza em grandes áreas do
mundo causa indizível sofrimento, tristeza e morte. A bancarrota de pes-
soas, companhias, cidades, províncias ou estados, e até de países é coisa
comum. E a obsessão por possuir, usar e abusar dos bens ou do meio
ambiente do mundo é inteiramente aflitiva.
92. Johannes Schneider, TDNT, vol. 7, p. 958. O termo ocorre duas vezes no Novo Testa-
mento (1 Co 7.31; Fp 2.7).
1 CORÍNTIOS 7.29-31
347
Os seguidores de Cristo estão no mundo, mas não são deste mundo
(Jo 17.14, 16). Eles são ridicularizados quando recomendam castidade
para evitar a imoralidade (Ef 5.3-5); integridade no local de trabalho, na
loja, ou no comércio para evitar a ganância (Pv 11.1); e contentamento
com comida e roupas básicas para evitar a cobiça (1Tm 6.6).
Os cristãos pertencem ao mundo que virá e por isso estão plenamente
conscientes da temporalidade desta existência terrena. Sabem que sua ci-
dadania está no céu (Fp 3.20) e por esse motivo depositam sua confiança
no Deus eterno. Não vivem desligados deste mundo presente, mas bus-
cam viver dentro dele em harmonia com todos os mandamentos de Deus.
Para ilustrar, eles põem em prática o amor genuíno em seu relacionamen-
to com o cônjuge (1Co 13.5); detestam explorar seu semelhante ou o meio
ambiente no qual vivem; alegram-se verdadeiramente com aqueles que se
alegram, e choram verdadeiramente com os que choram (Rm 12.15).
93
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 7.29-31
Versículo 29
cu|-c:aì¡-|e, -c:t| – a construção perifrástica consiste do particípio
perfeito passivo de cuc:-ììæ (eu encurto) e do verbo ser. O tempo perfei-
to expressa duração persistente.
:e ìetie| – este termo tem o sentido de “finalmente”, isto é, “de
agora em diante”.
t|a...æct| – o presente do subjuntivo funciona como um imperativo
em lugar do verbo numa cláusula de propósito: “que vivam”. A partícula
æ, sugere uma noção concessiva, “como se”.
Versículo 31
,¡æ¡-|et...sa:a,¡æ¡-|et – a primeira palavra é um particípio sim-
ples, e a segunda um composto do verbo ,¡ae¡at (eu uso). O particípio
composto é perfectivo e significa “usar plenamente”. Mas como ocorre
somente duas vezes no Novo Testamento (7.31; 9.18), não se sabe se as
formas simples e composta diferem quanto ao sentido.
94
93. Ver Darrell J. Doughty, “The Presence and Future of Salvation in Corinth”, ZNW 66
(1975): 61-90.
94. Bauer, p. 420.
1 CORÍNTIOS 7.29-31
348
c. Casamento e Serviço
7.32-35
Depois de uma breve digressão na qual Paulo demonstra sua preo-
cupação pastoral por toda a igreja de Corinto, ele volta ao tópico que
estava discutindo. Mais uma vez dedica-se a falar sobre o questão do
casamento e do celibato, especialmente em relação com o serviço ao
Senhor.
32. Eu quero que vocês sejam livres de ansiedades. O homem
que não está casado cuida das coisas que pertencem ao Senhor,
como ele pode agradar o Senhor.
a. “Eu quero que vocês sejam livres de ansiedades”. Observe que
Paulo fala a todos os membros da igreja de Corinto dirigindo-se a eles
como “vocês” (plural). Ele começa e termina os versículos 32-35 com
esse pronome pessoal para indicar que ele se dirige a toda a congrega-
ção (ver o comentário sobre o v. 35).
Uma tradução literal da parte final da primeira sentença é “sejam
livres de preocupações”, mas a palavra traz uma conotação negativa de
irresponsabilidade. No entanto, se entendemos a palavra num sentido
positivo, “livres de ansiedades”, então entendemos a intenção de Paulo
(comparar com Mt 6.25-34; Fp 4.11; 1 Pe 5.7). Essa sentença, então,
flui da seção anterior na qual Paulo ensina os cristão a implementar o
conceito que sejam como e vivam na liberdade que o Senhor provê.
95
Isso é verdade tanto para os casados como os que são solteiros. Devem
deixar as ansiedades com o Senhor.
b. “O homem que não está casado cuida das coisas que pertencem
ao Senhor, como ele pode agradar o Senhor.” É significativo o propósi-
to de Paulo de colocar o homem não casado antes da pessoa casada.
Ele liga a sentença sobre o homem solteiro com seus cuidados pelo
Senhor à frase anterior: “Eu quero que vocês sejam livres de ansieda-
des”. Assim, ele evita colocar o casado numa posição que seja inferior
à do solteiro (ver o comentário sobre o v. 34a). Esperaríamos que Pau-
lo discutisse as preocupações do casado primeiro, mas ao contrário ele
fala sobre a pessoa que não é casada. Diz que o homem solteiro, sem as
preocupações, cuida das coisas concernentes à Igreja de Deus.
95. Jurgen Goetzmann, NIDNTT, vol. 1, p. 278. Ver também Fee, First Corinthians, p. 343.
1 CORÍNTIOS 7.32
349
O verbo cuidar de ocorre cinco vezes em 1 Coríntios e duas vezes
em Filipenses.
96
Nas passagens que aparecem fora do presente capítu-
lo, Paulo compreende esse verbo pelo lado positivo. Com base nisso,
presumimos que Paulo tivesse em mente a interpretação positiva do
verbo em questão.
Com a liberdade que Cristo lhe dá, o homem não casado assume
um interesse positivo pelas coisas do Senhor. Quer trabalhe no evange-
lismo, em missões, que tenha um pastorado, ou esteja empenhado em
qualquer outra função na qual o Senhor o tenha colocado, ele mostra
diligência e cuidado de promover a causa de Cristo. Ele faz isso por
desejo sincero de agradar ao Senhor (comparar com 1Ts 4.1).
33. Mas o homem casado cuida das coisas deste mundo, como
pode agradar sua esposa, 34a. e seus interesses são divididos.
Depois de mencionar as coisas que ocupam o solteiro, Paulo discu-
te em seguida os interesses do homem casado. Tanto o homem solteiro
quanto o casado gozam a mesma liberdade que Deus dá, de modo que
um não é inferior ao outro. Na verdade, Paulo não diz palavras de desa-
provação com respeito à posição de casado de um obreiro na igreja.
Ele só observa que o obreiro solteiro tem mais tempo para dedicar à
causa de Cristo do que o outro.
Eu tomo a palavra cuidar num sentido positivo, de forma que não
há sugestão de crítica. Entendo que Paulo diz que o casado tem uma
obrigação dupla, a saber, cuidar das necessidades de sua esposa e fi-
lhos e dedicar seu tempo a trabalhar na igreja. Em outro lugar Paulo
escreve: “Se alguém não tem cuidado dos seus e especialmente dos da
própria casa, tem negado a fé e é pior do que o descrente” (1Tm 5.8).
Cuidar da família é uma preocupação válida e necessária, mas limita o
tempo que uma pessoa pode gastar no trabalho para o Senhor. Conse-
qüentemente, Paulo observa, os interesses da pessoa casada estão divi-
didos. Contudo, ele não pronuncia qualquer palavra de desaprovação
pesarosa a respeito do estado de casado; um homem deve agradar sua
esposa. Para Paulo, o casamento não é errado nem pecaminoso. Gor-
don D. Fee conclui incisivamente: “Diferente, sim; mais envolvido no
mundo presente, sim; mas inferior ou pecaminoso, não”.
97
Paulo colo-
96. 1 Coríntios 7.32, 33, 34 [duas vezes]; 12.25; Filipenses 2.20; 4.6.
97. Fee, First Corinthians, p. 345.
1 CORÍNTIOS 7.33, 34a
350
ca tanto o homem solteiro quanto o casado no mesmo nível e os vê
como colaboradores iguais na igreja.
34b. Também a mulher que não é casada ou a virgem cuida das
coisas do Senhor, para que possa ser santa tanto no corpo como no
espírito. Mas a casada cuida das coisas do mundo, de como ela
pode agradar seu esposo.
a. Problema textual. As diferenças em traduzir a primeira parte
desse versículo tornam-se claras quando examinamos versões repre-
sentativas:
“Há uma diferença entre uma esposa e uma virgem. A mulher não
casada cuida das coisas do Senhor” (NKJV; ver também Cassirer);
“e seus interesses estão divididos. Uma mulher não casada ou vir-
gem está preocupada com as coisas do Senhor” (NIV);
“Assim, também, a mulher não casada, e a virgem, ocupa sua men-
te com as coisas do Senhor” (NJB).
Observe que no primeiro exemplo o verbo grego da primeira sen-
tença é traduzido como “há uma diferença”. No segundo, o verbo gre-
go é traduzido como “divididos” e a cláusula é colocada com o versí-
culo anterior (v. 33). E o terceiro exemplo (NJB) coloca a cláusula “e ele
está dividido na mente” no versículo 33. Note também que o terceiro
exemplo tem a palavra também acrescentada no começo da sentença e
tem a palavra e em vez de ou entre os termos casada e virgem. E,
finalmente, esse exemplo revela uma estrutura gramatical incorreta de
um sujeito composto (a mulher não casada e a virgem) seguida de um
verbo no singular.
Obviamente, o texto grego do versículo 34 tem muitas variações.
Editores das edições gregas do Novo Testamento fazem listas delas e
chegam a um acordo sobre adotar uma leitura em particular que repre-
sente a mais ampla área geográfica possível.
98
Isso é refletido na leitu-
ra daquelas testemunhas gregas que vão do Oriente ao Ocidente (ver o
segundo exemplo, NIV).
98. UBS, Nes-Alm BF, Merk, Bruce M. Metzger (Textual Commentary, p. 555) escreve
que “a leitura menos insatisfatória é aquela apoiada por representantes primitivos dos tipos
de texto Alexandrino e Ocidental (P
15
B 104 vv cop
sa,bo
)”.
1 CORÍNTIOS 7.34b
351
b. Avaliação. Como avaliamos as diferenças textuais nas quais se
baseiam as traduções? Em favor do primeiro exemplo (NKJV) há que essa
tradução mantém o equilíbrio dos versículos 33 e 34. Paulo compara os
cuidados do homem não casado com os do homem casado (v. 33), e ele
contrasta os cuidados da mulher casada e da não casada (v. 34).
No entanto, a palavra e que precede a expressão está dividido no
segundo exemplo (NIV) tem forte apoio textual para ser a leitura origi-
nal. Os tradutores do primeiro exemplo (NKJV) seguem uma leitura gre-
ga que suprime essa conjunção. Se é acrescentada, a conjunção impe-
de uma tradução fluente do versículo 34. Mas se a aceitamos como
original, então a cláusula e ele está dividido pertence ao versículo 33.
Em seguida, o verbo grego memeristai quer dizer “está dividido” na voz
passiva. Esse verbo nunca é usado para indicar “uma diferença” (NKJV),
99
e não deve ser traduzido na voz ativa. E, por último, o primeiro exemplo
faz novo arranjo da ordem das palavras para fazer a expressão a mu-
lher não casada sujeito do verbo cuidar na segunda sentença.
No segundo exemplo, os tradutores convenientemente interpreta-
ram a conjunção e entre “mulher não casada” e “virgem como sendo
ou, e omitiram o termo também. O terceiro exemplo não faz isso; como
resultado, este dá uma tradução exata, embora com um sujeito com-
posto que é seguido por um verbo no singular. Embora as variações
textuais nesse versículo sejam muitas, as traduções apresentadas tanto
no segundo como no terceiro exemplo têm mérito e são preferidas ao
primeiro.
c. Interpretação. “Também a mulher não casada ou a virgem cuida
das coisas do Senhor.” Não temos certeza se Paulo escreve a expressão
virgem como explicação da frase a mulher que não é casada. Se for,
então a palavra que nós traduzimos como “ou” realmente significa “que
é”. Inversamente, Paulo pode ter tido em mente viúvas, mulheres sepa-
radas ou divorciadas, ou então solteiras.
100
Além disso, uma virgem é
uma pessoa que, embora solteira, possivelmente seja noiva. Por isso,
uma interpretação ampla da palavra virgem é preferida. Como Paulo
99. Bauer, p. 504.
100. Ver C. K. Barrett, A Commentary on the First Epistle to the Corinthians, Série
Harper’s New Testament Commentaries (Nova York e Evanston: Harper and Row, 1968), p.
180.
1 CORÍNTIOS 7.34b
352
não dá informações adicionais, não temos como nos certificar do sen-
tido exato dos termos em questão.
O que importa é o fato de que uma mulher não casada é capaz de se
dar inteiramente à obra do Senhor (comparar com Rm 16.12; Fp 4.2,3).
Se ela não está sendo cortejada com vistas a um casamento, ela está
completamente livre para dedicar sua vida ao serviço do Senhor.
“Para que possa ser santa tanto no corpo como no espírito.” Paulo
atribui santidade à pessoa toda, ao corpo que não está carregado de
obrigações maritais e maternais e ao espírito que é dominado pelo Es-
pírito Santo.
101
Mente e corpo cheios com o Espírito refletem a santi-
dade de Deus. Isso não quer dizer que a mulher não casada que dedica
sua vida ao serviço espiritual seja mais santa do que sua irmã casada
que ama seu esposo e com ele cria uma família. De modo nenhum. A
solteira se consagra ao Senhor porque ela não tem restrições que a
impeçam de fazer assim.
“Mas a casada cuida das coisas do mundo, de como ela pode agra-
dar seu marido.” Aqui está o complemento ao comentário de Paulo de
que o homem casado cuida de sua esposa (v. 33). A palavra mundo,
aqui e no versículo anterior, é relacionada aos cuidados mundanos de
um lar comum. A esposa dedica-se ao cuidado do marido e dos filhos
como para o Senhor (Ef 5.22) e estabelece um lar cristão. Como Paulo
disse antes (v. 14), a santidade da esposa crente permeia sua família de
tal modo que até seu marido incrédulo é santificado e seus filhos são
santos.
35. Eu digo isso em seu próprio benefício, não para restringir
vocês, mas para promover decoro e devoção ao Senhor sem
distrações.
Com esse versículo, Paulo mostra outra vez seu interesse pastoral
pelo bem-estar espiritual de seu povo da comunidade coríntia. Agora
ele se dirige a todos os leitores, casados e solteiros, com o pronome
plural vocês. (ver v. 32a). Paulo se preocupa com o bem-estar espiri-
tual e físico de todos os crentes em Corinto. Ele fala pastoralmente
101. Donald Guthrie, New Testament Theology (Downers Grove: Inter-Varsity, 1981), p.
167. Consultar Margaret Y. MacDonald, “Women Holy in Body and Spirit: the Social Set-
ting of 1 Corinthians 7”, NTS 36 (1990): 161-81.
1 CORÍNTIOS 7.35
353
com o pronome pessoal da primeira pessoa, eu (ver, por ex., vs. 25, 29,
32), e penetra a privacidade da vida deles com o propósito único de
promover os próprios interesses deles.
Em grego, a frase não para restringir vocês realmente diz “Eu não
os prendo com laço”. A expressão laço ocorre apenas aqui em todo o
Novo Testamento.
102
A frase é derivada ou da guerra ou da caça e deve
ser entendida figurativamente. Paulo não tem desejo nenhum de colo-
car os coríntios numa trela, por assim dizer.
Paulo já fez diversas referências à instituição do casamento (ver
vs. 3, 5, 9), e ele endossa o matrimônio como estado ordenado por
Deus (6.16). Para aqueles que receberam o dom da continência, Paulo
defende uma vida de serviço de tempo integral caracterizada por disci-
plina e devoção ao Senhor. A palavra que traduzi decoro significa no
grego “boa ordem”, isto é, uma vida apropriada, agradável e atraente.
Essa vida deve retratar devoção (estabilidade, constância) para a obra
do Senhor e, por fim, deve ser “sem distrações”.
103
Será que Paulo está elevando a vida dos não casados acima da vida
daqueles que são casados? Realmente não está. Nesse versículo con-
clusivo ele nada diz sobre o status marital dos leitores, porque ele se
dirige a todas as pessoas na igreja de Corinto. Ele pede a todos os
leitores que sirvam ao Senhor de todo coração, e, por extensão, que
não permitam que nada os separe do amor de Deus em Cristo Jesus
(Rm 8.39). Ele indica que respeita a liberdade do cristão individual.
Calvino escreve: “Nenhuma restrição deve ser imposta à consciência
das pessoas, com o resultado que alguém seja coibido de se casar”.
104
Em suma, o Senhor usa tanto os casados como os não casados para o
avanço de sua Igreja, mas todos devem ser plenamente dedicados a ele.
102. Bauer, p. 147; Thayer, p. 106.
103. Consultar David L. Balch, “1 Cor 7:32-35 and Stoic Debates about Marriage, Anxi-
ety, and Distraction”, JBL 102 (1983): 429-39.
104. Calvino, 1 Corinthians, p. 164. Consultar O. Larry Yarbrough, Not Like the Genti-
les: Marriage Rules in the Letters of Paul, Série SBL Dissertation 80 (Atlanta: Scholars,
1985), p. 110.
1 CORÍNTIOS 7.35
354
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 7.32-35
Versículos 32,33
a¡-¡t¡|eu, – esse adjetivo composto do privativo a (não) e o verbo
¡-¡t¡|aæ (eu cuido de, interesso-me por) significa sem preocupação, num
sentido positivo. O sentido negativo transmitiria o sentido irresponsável.
O verbo ¡-¡tµ|a em ambos os versículos deve ser interpretado positiva-
mente.
Versículo 34
sat ¡-¡-¡tc:at sat – “e ele está dividido. Também...” As primeiras
duas palavras formam a parte conclusiva do versículo que antecede (v.
33). Então, o sujeito do verbo ¡-¡t¡|a (ela se importa) é o substantivo µ
,u|µ , que é corroborado pelo substantivo µ ia¡ò-|e, (a virgem). Esta
leitura tem o forte apoio textual de numerosas testemunhas importantes
com somente a pequena variação de repetir as palavras e a,a¡e, (os não
casados). Em vista do apoio dos manuscritos, os tradutores favorecem
esta leitura.
Versículo 35
i¡e, :e -uc,µ¡e| – a preposição é seguida pelo artigo definido e o
adjetivo composto -uc,µ¡e|, ao qual falta o substantivo parte. O adjetivo
composto é derivado de -u (bem) e e,µ¡a (comportamento) e significa
“decoroso” (ver 12.24).
-uia¡-e¡e| – do advérbio -u e do verbo ia¡-e¡-uæ (eu me sento junto
a, assisto constantemente), esse adjetivo composto indica devoção mas,
como adjetivo, deve ser traduzido “constante”
105
Aparece uma vez no Novo
Testamento.
ai-¡tciac:æ, – um advérbio que ocorre só uma vez na Escritura e
significa “sem distração”. O composto vem do privativo a (sem) e do
verbo i-¡tciaæ (estou distraído).
d. Noivado e Casamento
7.36-38
Mais uma vez Paulo menciona virgens em relação ao casamento.
105. Blass e Debrunner, Greek Grammar, #117.1.
1 CORÍNTIOS 7.32-35
355
Ele é explícito em afirmar que pessoas que decidem casar-se não pe-
cam. Por causa de seu dom de continência, Paulo esta recomendando o
celibato para aqueles que também receberam esse dom. Outras pessoas
devem casar-se, e em fazê-lo não pecam.
36. Mas se alguém pensa que está se portando sem a devida
honra para com a escolhida, a virgem com quem ele pode casar –
se suas paixões são fortes e deve ser assim – deixe que faça o que
ele deseja; ele não peca. Deixe que se casem.
Esses versículos não têm clareza de expressão e por isso ficam
abertos a várias interpretações. Por exemplo, quem é a pessoa descrita
como esse “alguém” (v. 36)? É o noivo da virgem ou é o pai? Se ele é
o pai, por que Paulo diz “deixe que se casem” quando o noivo ainda
não foi apresentado? Se aceitarmos que Paulo se refere ao noivo, por
que ele escreve: “ele decidiu em seu coração não se casar com a vir-
gem” (v. 37)? Será que a tradução do versículo 38 deve ser “aquele que
se casa com a virgem” (NIV) ou “aquele que a dá em casamento” (NKJV)?
E finalmente, interpretamos essa passagem pelo ponto de vista antigo
oriental no qual o pai fazia os planos de casamento para sua filha? Ou
explicamos o assunto do noivado e casamento com base nos costumes
de hoje? Estudemos os versículos dessa passagem frase por frase.
a. “Mas se alguém pensa que está se portando sem a devida honra
para com a escolhida.” Parece que foi pedido que Paulo desse seu con-
selho sobre uma questão a respeito de uma virgem com idade de casar.
Ele começa com uma cláusula condicional que expressa realidade e
continua com a palavra alguém. Esse termo deve se referir a um ho-
mem que possui uma virgem, possivelmente sua noiva. O homem está
“se portando sem a devida honra” para com a mulher não casada e
agindo contra o que Paulo insta para que cada crente de Corinto faça:
que promova o decoro (v. 35). À luz do uso do grego, o termo compor-
tar-se não honrosamente pode ser um eufemismo para atos sexuais
indecentes.
106
Paulo é a favor do casamento quando as pessoas, especi-
almente aqueles que estão compromissados para casar, são incapazes
de se controlar (v. 9).
106. Por exemplo, o adjetivo grego av sch, mona refere-se a “partes [íntimas] inapresentá-
veis” (12.23). E o substantivo av schmosu, nh significa atos homossexuais indecentes (Rm
1.27; comparar com Ap 16.15).
1 CORÍNTIOS 7.36
356
b. “Se suas paixões são fortes e deve ser assim.” O sujeito da cláu-
sula condicional anterior é um homem cuja conduta moral já se tornou
questionável. Por essa razão, mantemos o mesmo sujeito nessa cláusu-
la condicional. A natureza íntima do assunto a tratar faz com que Paulo
expresse probabilidade com a partícula condicional se. No grego, o
termo hyperakmos pode significar ou “passado da idade de casar” (com
referência à mulher) ou “com fortes paixões” (referindo-se ao ho-
mem).
107
Nós optamos por este último. Paulo acrescenta que “deve ser
assim”, o que provavelmente significa que seu desejo sexual controla
o homem e o força a casar-se.
c. “Deixe que faça o que ele deseja; ele não peca. Deixe que se
casem.” Anteriormente Paulo dera o mesmo conselho: “que se casem”
(v. 9) e “se se casar não terá pecado” (v. 28). O sujeito é o noivo e sua
virgem noiva a quem Paulo aconselha o casamento.
37. Mas aquele que permanece firme em seu próprio coração e
não está sob nenhuma obrigação, mas tem seu desejo sob controle
e ele decidiu em seu coração não se casar com sua virgem casadou-
ra, ele faz bem.
a. Mas aquele que permanece firme em seu próprio coração e não
está sob nenhuma obrigação, mas tem seu desejo sob controle.” Agora
Paulo discute o caso do homem que escolheu não se casar por causa de
pressões financeiras ou sociais. Esse homem tem a força interior para
controlar seus desejos e assim é como Paulo, que tem o dom da conti-
nência (v. 7). Outras traduções têm a leitura domínio sobre sua própria
vontade (por ex., NIV). A palavra grega thelema tem tanto um sentido
objetivo (“o que se deseja que aconteça”) como uma conotação subje-
tiva (“o ato de querer ou desejar”).
108
Aqui a interpretação subjetiva
que se refere a desejo sexual se ajusta bem ao contexto e é a preferida
(comparar com Jo 1.13).
b. “E ele decidiu em seu coração não se casar com sua virgem
casadoura, ele faz bem.” Primeiro, Paulo reitera o que disse no princí-
107. Bauer observa que quando a palavra se aplica a um homem, “u`pe,r não deve ser
entendida no sentido temporal, e sim como expressão de intensificação” (p. 839). Parry, no
entanto, nota que a palavra “não descreveria um excesso, mas sim o esvair de paixão”. First
Epistle to the Corinthians, p. 121.
108. Bauer, p. 354.
1 CORÍNTIOS 7.37
357
pio desse versículo, e ainda acrescenta: “ele [já] decidiu”. O homem
pesou todos os fatores disponíveis e chegou à firme conclusão de não
se casar. Em seguida, Paulo diz que esse homem determinou “guardar
sua própria virgem”. Mas o que ele tenciona transmitir com essa decla-
ração? Mateus conta que José, que estava noivo de Maria, “não teve
relações com ela enquanto ela não deu à luz um filho (Mt 1.25). Os
noivados judaicos eram o mesmo que casamentos e não deviam ser
desmanchados. Segundo a lei judaica, um homem era obrigado a sus-
tentar sua virgem por um ano no caso de o noivado ser dissolvido.
109
O
problema, no entanto, é que a igreja coríntia não era exclusivamente
judaica; não temos certeza se a lei dos judeus era seguida em Corinto.
Paulo louva o homem que respeita a virgindade de sua noiva e durante
a crise daqueles dias (v. 26) adia o casamento.
38. Portanto, aquele que se casa com sua noiva faz bem, mas
aquele que não casa faz melhor.
Ouvimos o eco da afirmação anterior de Paulo (vs. 8,9) na qual ele
louva o casamento e exalta o celibato. E celibato deve ser sempre en-
tendido em conexão com o dom especial da continência. Não é para
todo mundo.
O versículo 38, que apresenta duas vezes o verbo grego gamizw
(eu dou em casamento), é a causa das interpretações alternativas dessa
seção (vs. 36-38). Gamizw ocorre com o verbo grego gamho (eu caso)
na conhecida expressão “casar e dar em casamento”.
110
Paulo usa o
verbo gamho no versículo 36 e o verbo gamizw no versículo 38. A
pergunta é se esses dois verbos sempre diferem no sentido ou se são
por vezes sinônimos.
Os estudiosos afirmam que nos tempos apostólicos as distinções
claras do grego clássico haviam se tornado menos nítidas, com o resul-
tado que os dois verbos tinham o mesmo sentido.
111
Se este não fosse o
109. Werner Georg Kümmel, “Verlobung und Heirat bei Paulus (1 Kor 7:36-38)”, ZNW
21 (1954): 275-95; Samuel Belkin, “The Problem of Paul’s Background”, JBL 54 (1935):
49-52.
110. Mateus 22.30; 24.38; Marcos 12.25; Lc 17.27; 20.35.
111. Consultar James Hope Moulton e Wilbert Francis Howard, A Grammar of New Tes-
tament Greek, vol. 2, Accidence and Word-Formation (Edimburgo: Clark, 1929), p. 410.
Ver também MM, p. 121.
1 CORÍNTIOS 7.38
358
caso, o verbo gamizo deveria ser interpretado como significando que
um pai dá sua filha em casamento. A passagem apresenta dificuldades
demais, no entanto, para esta interpretação. O sujeito da passagem toda
parece ser não o pai da noiva, e sim o homem que contempla o casa-
mento ou o adia. Portanto, os tradutores modernos entendem os dois
verbos gregos como sinônimos que denotam “casar”.
112
Colin Brown
caracteriza a tendência moderna quando escreve: “Esta interpretação
não envolve nenhuma mudança de sujeito no v[ersículo] 36, e oferece
uma avaliação totalmente realista da situação”.
113
A desvantagem des-
sa interpretação, entretanto, está em nosso desejo de fazer a passagem
relevante aos tempos e cultura em que vivemos. E eles são muito dife-
rentes da era apostólica e da cultura de Corinto, na qual os pais esta-
vam envolvidos no processo decisório.
Nota Adicional sobre 7.36-38
O problema da tradução dessa passagem dá origem a grandes diver-
gências quanto à interpretação. Três possibilidades podem ser listadas:
pai-filha, casamento espiritual, e o casal noivo.
a. Pai-filha. Esta é a explicação tradicional que ainda é proposta hoje.
114
Para elucidar a palavra virgem (vs. 36, 38), tradutores acrescentam a pala-
vra filha (NASB, NIV na margem). Mas o sujeito de “deixe que casem” (v.
36) torna-se difícil de explicar quando só pai e filha são mencionados. O
problema pode ser aliviado, ou aceitando-se a leitura variante, “deixe-a
casar”, ou afirmando que o plural é elíptico e significa “deixe a filha e seu
pretendente se casarem”.
115
Contudo, no versículo 36, Paulo ainda não
disse nada sobre um noivado. Com respeito à crise atual (v. 26), a grande
aflição para pessoas casadas (v. 28) e a brevidade do tempo (v. 29), espe-
raríamos que os pais aconselhassem suas filhas solteiras a não se casarem.
E esse conselho não constituiria comportamento desonroso para os pais.
A seguir, se Paulo quer transmitir o conceito pai-filha, ele não preci-
112. Consultar GNB, MLB, NAB, NIV, NCV, NRSV, REB, NJB, SEB, TNT.
113. Colin Brown, NIDNTT, vol. 2, p. 588.
114. Consultar JB, NKJV, NASB, Cassirer; ver também Morris, First Epistle to the Corinthi-
ans, pp. 116-19.
115. Archibald Robertson e Alfred Plummer, A Critical and Exegetical Commentary on
the First Epistle of St. Paul to the Corinthians, International Critical Commentary, 2ª ed.
(1911; reedição, Edimburgo: Clark, 1975), p. 159.
1 CORÍNTIOS 7.36-38
359
saria enfatizar que o pai determinou “conservar sua própria virgem”. Ne-
nhuma outra virgem é mencionada nessa passagem.
E, por fim, o verbo gamizo tem uma conotação causativa que signifi-
ca: “Eu faço com que se casem”. Mas não se sabe se esse verbo é sempre
causativo. Por que um pai estaria preocupado quanto a dar sua filha vir-
gem em casamento se ela já passou da idade casadoura? Na verdade, isso
seria fútil. John C. Hurd, Jr. observa com perspicácia que “a tradução
causativa de gamizo nunca teria sido questionada” se a passagem inteira
estivesse livre de dificuldades.
116
b. Casamento Espiritual. Alguns estudiosos acreditam que um jovem
tome sob seus cuidados uma jovem e viva com ela em harmonia espiri-
tual, mas sem união física.
117
No caso do jovem ter dificuldade em se
controlar, Paulo o aconselha a assumir um relacionamento normal de
matrimônio. Mas se o jovem tem o dom da continência e não se casa com
sua virgem, ele está fazendo uma escolha melhor, diz Paulo.
Essa interpretação se baseia em práticas de um estágio posterior na
história da Igreja. Não há evidência dessa prática em meados do século I,
e esse fator enfraquece consideravelmente o ponto de vista de que a pas-
sagem se refira a um casamento espiritual. Além disso, a própria passa-
gem (vs. 36-38) não fornece nenhuma sugestão de que Paulo esteja pen-
sando num casamento espiritual.
118
E, finalmente, ainda que o jovem con-
trole seus desejos, sua virgem pode não conseguir fazê-lo, e então ele está
indo em direção contrária ao conselho anterior de Paulo (ver v. 9). A lin-
guagem descritiva de Paulo com respeito a deveres maritais tanto do ma-
rido como da esposa (vs. 2-5) deve ser considerada quando examinamos a
visão do casamento espiritual.
c. O casal noivo. Um rapaz está noivo de uma jovem; por causa de
condições sociais decidiram não casar ainda. Mas as pressões físicas es-
tão se tornando fortes demais para o rapaz. Agora Paulo aconselha o ho-
mem a buscar o casamento como solução ao dilema que ele e sua virgem
estão enfrentando. Paulo assegura ao homem que ao fazer isso ele não
116. Hurd, Origin of 1 Corinthians, p. 174. Consultar David E. Garband, “The Christian’s
Posture: Toward Marriage and Celibacy: 1 Corinthians 7”, RevExp 80 (1983): 351-62.
117. Ver, por exemplo, Clarence T. Craig, The First Epistle to the Corinthians, vol. 10 in
The Interpreter’s Bible (Nova York: Abingdon, 1953), p. 88; Jerome Murphy-O’Connor, I
Corinthians, série New Testament Message (Wilmington, Del.: Glazier, 1979), p. 75.
118. Roland H. A. Seboldt, “Spiritual Marriage in the Early Church: A Suggested Inter-
pretation of 1 Cor. 7.36-38”, ConcThMonth 30 (1959): 103-19; 176-89.
1 CORÍNTIOS 7.36-38
360
está pecando. Se a pessoa é capaz de se controlar e decide postergar o
casamento, Paulo aprova sua decisão.
Das três interpretações, eu sou a favor da última. Não obstante, difi-
culdades cercam a terceira explicação, porque nossa tendência é interpre-
tar o texto dentro de nossa própria cultura e época. Com respeito às nume-
rosas incertezas que envolvem essa passagem em particular, o melhor é
não sermos dogmáticos.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 7.36-38
Versículo 36
-t e- :t,...|e¡t,-t – a partícula -t seguida do verbo no indicativo
parece mostrar que Paulo está familiarizado com a situação: “se alguém
pensa”.
- a | µ – dentro da sentença condicional, Paulo coloca uma segunda
condição, mas agora ele usa a partícula - a | seguida pelo subjuntivo µ do
verbo ser. O sujeito é o mesmo que o da cláusula anterior: “alguém”.
Versículos 37,38
-au:eu – o pronome reflexivo perdeu sua força e é o mesmo que au:eu
(sua própria).
æ c:- – essa é uma partícula inferencial que significa “e então, de acordo
com isto”.
119
e. Votos de Casamento
7.39,40
Paulo já discutiu os assuntos casamento, divórcio, separação, vir-
gens e noivados. Mas à parte de ter mencionado a palavra viúvas uma
vez (v. 8), ele não disse nada sobre essa categoria de pessoas. Portanto,
em seus comentários finais sobre o casamento, ele dedica dois breves
versículos às viúvas.
39. Porque a mulher está ligada ao marido enquanto ele viver.
Mas se o marido morre, ela está livre para se casar com quem
quiser, mas somente no Senhor. 40. Ela será mais feliz permane-
cendo como está, em minha opinião. E penso que tenho o Espírito
de Deus nisso.
119. Moule, Idiom-Book, p. 144.
1 CORÍNTIOS 7.39, 40
361
a. “Porque a mulher está ligada ao marido enquanto ele viver.”
120
Dadas em contexto diferente, as palavras desse versículo são seme-
lhantes, contudo, às de Romanos 7.2. Ali Paulo fala sobre a lei e diz:
“Por lei, a mulher casada está ligada pela lei ao marido, enquanto ele
vive, mas se o mesmo morrer, desobrigada ficará da lei conjugal”. Aqui
Paulo declara que os laços do matrimônio são válidos para a esposa
enquanto seu marido está vivo; por inferência, os laços são igualmente
válidos para o homem enquanto sua esposa está viva. O compromisso
ao casamento não é para o momento e sim para a vida toda, segundo as
palavras de Jesus (ver v. 10; Mt 19.6). Só a morte corretamente deixa o
esposo livre dos laços do casamento que conserva juntos marido e
mulher. O divórcio é contrário ao mandamento do Senhor, conforme
Paulo notou antes (vs. 10-11). Ele não tem necessidade de se repetir,
mas em vez disso discute o possível novo casamento da viúva.
b. “Mas se o marido morre, ela está livre para se casar com quem
quiser, mas somente no Senhor.” Paulo apela para o uso de um eufe-
mismo dizendo: “se o marido dormir”.
121
Ele não coloca restrição ne-
nhuma sobre a viúva; o fato é que em outro lugar ele aconselha as
viúvas jovens a se casarem novamente (1Tm 5.14). Mas algumas viú-
vas escolheram não se casar, como, por exemplo, a profetiza Ana (Lc
2.36,37). Nos séculos II e III, um eminente líder aconselhou as viúvas
a não se casarem de novo, chamando isso de adultério.
122
Mas Paulo
afirma que a viúva está livre para casar, com apenas uma exigência: o
futuro marido deve ser um crente. Acrescentando essa condição, Paulo
nota que um cristão tem um modo de vida diametralmente oposto àquele
do não crente. No casamento, marido e mulher devem ser um no Senhor.
c. “Ela será mais feliz permanecendo como está, em minha opi-
nião.” Esse conselho parece sugerir que a mulher não casada fica num
estado de espírito mais feliz do que aquela que está casada. Mas quan-
do momentos de tristeza, solidão e dificuldades aparecem para a viúva,
120. O Texto Majoritário tem a adição por lei depois do verbo ligada (ver KJV, NKJV). Mas
a inserção parece ser influenciada pelo texto paralelo (Rm 7.2). Manuscritos que são tanto
primitivos como de ampla distribuição geográfica não têm a inserção.
121. Comparar, nas epístolas de Paulo, com1 Coríntios 11.30; 15.6, 18, 20, 51; 1 Tessalo-
nicenses 4.13-15.
122. Por exemplo, Tertuliano; Johannes B. Bauer, “Was las Tertullian 1 Kor 7.39?” ZNW
77 (1986): 284–87.
1 CORÍNTIOS 7.39, 40
362
a felicidade é um sonho fugidio. E, inversamente, um segundo casa-
mento significa entrar na família de outro homem, o que pode causar
dificuldades inesperadas e evitar que ela tenha uma vida feliz. Na opi-
nião de Paulo, a viúva será bem avisada de ficar como está. Fazendo
assim, ela ficará mais contente do que se casasse e encontrasse proble-
mas. Paulo suaviza o que diz com as palavras em minha opinião. As-
sim repete a fraseologia do versículo 25, em que se dirigia às virgens.
Ele dá seu conselho às viúvas, mas ao mesmo tempo revela que em dar
sua opinião ele possui o Espírito de Deus.
d. “E penso que tenho o Espírito de Deus nisso.” Paulo fala com
autoridade apostólica, e em suas epístolas expressa sua confiança em
si por causa do poder do Espírito Santo que nele habita. Em numerosos
lugares no decorrer de todas as cartas, ele afirma confiança interior.
Por causa de sua postura e auto-segurança, ele estabelece uma conexão
com seus leitores e obtém o respeito deles. Reconhecem sua compe-
tência e confiabilidade e afirmam sua autoridade e credibilidade.
123
Quando Paulo tem uma ordem direta do Senhor, ele espera dos crentes
a obediência. Mas quando oferece sua própria opinião, mesmo experi-
mentando o poder do Espírito Santo, ele deixa de insistir em confor-
mismo.
124
No entanto, seu conselho é mais do que uma opinião pesso-
al. Tem o respaldo da influência do Espírito de Deus.
Resumo do Capítulo 7
Paulo toma em mãos a carta que recebeu dos coríntios e cita uma
sentença que advoga o celibato. Ele reage dizendo que, por causa da
imoralidade, um homem deve ter uma esposa e uma esposa deve ter
um marido. No casamento, marido e mulher não devem privar-se um
ao outro, negligenciando a intimidade marital. Os casais que desejam
dedicar tempo à oração poderão se abster de atividade sexual, mas
depois desse período devem reassumir as relações normais.
Aqueles que não são casados e são viúvos devem permanecer no
estado em que estão, contanto que tenham o dom da continência. Se
123. Stanley N. Olson, “Epistolary Uses of Expressions of Self-Confidence”, JBL 103
(1984): 585-97.
124. Guthrie, New Testament Theology, p. 769.
1 CORÍNTIOS 7
363
esse não for o caso, devem casar-se. Com um mandamento do Senhor,
Paulo fala contra o divórcio. Mesmo nas famílias em que um dos côn-
juges é crente e o outro um incrédulo, os casais devem permanecer
juntos e não considerar a separação. Se o incrédulo sai por vontade
própria, a esposa não fica mais presa aos seus votos de casamento, mas
é aconselhada a viver em paz.
Todas as pessoas devem se contentar com a situação de vida na
qual Deus as colocou. Paulo faz essa regra para todas as igrejas. Ele
apresenta ilustrações da circuncisão e da incircuncisão, da escravidão
e da liberdade.
Outro segmento da discussão de Paulo sobre o casamento diz res-
peito às virgens. Ele relaciona o ser solteiro e o casamento à crise da-
queles dias, e declara que casar-se não é pecado. Ele diz a todos os que
se casam para esperar muitas dificuldades, porque a época em que vi-
vem é abreviada. E observa que o mundo na forma em que o conhecem
está passando.
Paulo nota que indivíduos não casados têm mais tempo para dedi-
car ao serviço do Senhor do que aqueles que são casados e precisam
prover às necessidades da família. Ele insiste para que todos vivam
para o Senhor sem distrações. Se um homem é incapaz de controlar-se
com respeito à sua virgem, Paulo aconselha que se case e declara que o
homem não está pecando. Se um homem consegue controlar seu dese-
jo e decide não se casar, ele está fazendo a coisa certa. Paulo conclui
seu discurso sobre o casamento referindo-se aos votos de casamento
que são para a vida toda e só findam com a morte de um dos cônjuges.
Ele afirma que a viúva está livre para casar-se novamente no Senhor,
mas a aconselha a continuar não casada e a desfrutar felicidade.
1 CORÍNTIOS 7
364
365
8
Comida Oferecida a Ídolos
(8.1-13)
366
ESBOÇO (continuação)
8.1-13
8.1-3
8.4-6
8.7,8
8.9-13
B. Comida Oferecida a Ídolos
1. Conhecimento
2. Unidade
3. Consciência
4. Pecado
367
CAPÍTULO 8
8
1. Agora quanto à comida oferecida a ídolos, sabemos que “todos nós temos
conhecimento”. O conhecimento envaidece, mas o amor edifica. 2. Se alguém
supõe que sabe alguma coisa, não sabe ainda como deve saber. 3. Mas se alguém
ama a Deus, ele é conhecido por Deus.
4. Com respeito a comer o alimento oferecido a ídolos, então, nós sabemos
que “não existe tal coisa como um ídolo neste mundo”,
1
e que “não existe Deus
senão um só”. 5. Pois mesmo se existam os pretensos deuses, quer no céu ou na
terra, como na verdade há muitos deuses e muitos senhores, 6. contudo,
para nós há um Deus o Pai,
de quem são todas as coisas, e
para quem nós vivemos;
e um Senhor Jesus Cristo,
por meio de quem são todas as coisas e
por meio de quem nós vivemos.
7. Entretanto, nem todos têm este conhecimento. Por estarem acostumados
com o ídolo até agora, algumas pessoas comem comida como se fosse oferecida a
ídolos. E sua consciência, sendo fraca, é contaminada. 8. “Mas a comida não nos
aproximará de Deus. Nós nem estamos perdendo algo se não comermos, nem
ganhando algo se comermos”. 9. Mas cuide que esse direito seu não se torne um
empecilho para aqueles que são fracos. 10. Pois se alguém vir você, que tem
conhecimento, comendo no templo de um ídolo, será que a consciência de alguém
que é fraco não tomará coragem para comer comida oferecida a ídolos? 11. Por-
que o irmão fraco por quem Cristo morreu é destruído pelo seu conhecimento. 12.
Assim vocês pecam contra Cristo ao pecar contra seus irmãos e ao ferir a cons-
ciência fraca deles. 13. Portanto, se a comida faz com que meu irmão tropece e
caia em pecado, eu nunca mais comerei carne para que eu não faça com que meu
irmão tropece.
1. Bauer, p. 446.
368
B. Alimento Oferecido a Ídolos
8.1-13
Depois de discutir a questão ética do casamento no capítulo anteri-
or, Paulo agora vai para um tópico que é tanto ético como religioso: um
cristão pode comer carne que foi oferecida a ídolos? A questão tem que
ver com a vida doméstica e social de numerosas famílias cristãs que
têm de tomar decisões quanto a comer ou não com amigos gentios.
Na época de Paulo, os sacrifícios pagãos eram atos religiosos que
envolviam a família. Animais eram levados ao sacerdote, mortos e ofe-
recidos aos deuses. Certas partes eram queimadas no altar, outras par-
tes eram tomadas pelo sacerdote, e o resto da refeição consagrada era
devolvido à família que havia oferecido o animal como sacrifício. A
família convidava amigos e parentes, entre os quais havia cristãos, para
uma festa. Outras vezes, a carne consagrada era vendida nos mercados.
Os cristãos então compravam a carne e consumiam-na em casa.
Os membros da igreja coríntia se viam diante da dúvida de saber se
deveriam comer carne que tinha sido consagrada a um ídolo num tem-
plo pagão. Estavam livres para ir a festas desse tipo? Podiam se diver-
tir em nome da liberdade cristã? (ver 6.12; 10.23)? A consciência de
alguns crentes estava despreocupada enquanto a de outros estava pesa-
da (8.7). Um partido podia dizer ao outro partido: “Não exagere quan-
to à justiça”, e o segundo partido podia replicar: “Não exagere quanto
à perversidade ” (Ec 7.16,17).
l. Conhecimento
8.1-3
1. Agora quanto à comida oferecida a ídolos, sabemos que “nós
todos temos conhecimento”. O conhecimento envaidece, mas o amor
edifica.
“Agora quanto à comida oferecida a ídolos.” Com as primeiras
duas palavras desse texto (ver 7.1, 25; 12.1; 16.1, 12), Paulo se volta à
próxima pergunta da carta que recebeu dos coríntios. A expressão “a
comida oferecida a ídolos” é um lembrete direto das instruções do
Concílio de Jerusalém aos cristãos gentios: abster-se do alimento ofer-
tado a ídolos (At 15.29; 21.25; Ap 2.14,20). Por inferência, os cristãos
gentios estavam debatendo se a proibição era abrangente ou flexível.
1 CORÍNTIOS 8.1
369
Imaginamos que os cristãos judeus consumiam só alimento kosher,
mas tinham liberdade para comer junto com cristãos gentios (Gl 2.11-
14). E depois havia também o irmão de consciência fraca (vs. 7-13),
que se sentia perdido quanto a saber como proceder. Em suma, a ques-
tão da comida que havia sido oferecida a ídolos era debatida calorosa-
mente na igreja de Corinto. E Paulo, a essa altura de sua epístola, dedi-
ca tempo e esforço à questão sensível da liberdade cristã em relação ao
alimento comido num ambiente judaico-gentílico (10.14-33).
b. “Sabemos que ‘nós todos temos conhecimento’.” Os estudiosos
estão de acordo sobre a última parte dessa sentença ser uma citação
tirada da carta que os coríntios enviaram a Paulo.
2
Ao longo de toda
essa epístola, Paulo emprega repetidamente o verbo saber em seu de-
bate com os coríntios (ver, por ex., 1.16, 3.16; 6.2, 3; 8.1, 4). Os cris-
tãos em Corinto tinham estado se gabando sobre seu saber. Observe
que eles não dizem: “Nós temos conhecimento”. Em vez disso, afir-
mam que todos os cristãos da comunidade coríntia e de outras partes
têm conhecimento.
3
Ainda que Paulo deixe de explicar o termo sabedoria, deduzimos
alguns fatos pelo contexto. Os coríntios criam que os ídolos todos nada
eram e que Deus é um só (v. 4). Portanto, sabiam que esse Deus único
é Pai, e que o Senhor único é Jesus Cristo (v. 6). Paulo lembra a eles,
sobriamente, que nem todos sabiam disso (v. 7). No entanto, se os co-
ríntios exaltam o conhecimento, Paulo tem algo a lhes dizer.
c. “O conhecimento envaidece, mas o amor edifica.” Num contex-
to anterior, no qual tinha louvado os leitores por possuírem esse tesou-
ro (1.5), Paulo já havia falado sobre o conhecimento. Mas agora ele
sugere que o conhecimento leva à arrogância, que deve estar ausente
de um estilo de vida cristão (v. 11; 13.2). Um cristão deve começar
com amor. Ele só consegue edificar sua vida espiritual sobre o funda-
mento do amor. O conhecimento sem o amor envaidece. O amor nunca
é arrogante (13.4), mas sempre construtivo. Por inferência, o conheci-
mento que se subordina ao amor torna-se útil.
2. Por exemplo, Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians, série New Interna-
tional Commentary on the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), p. 365; e as
versões (GNB, NRSV, REB).
3. Jerome Murphy-O’Connor, “Freedom of the Ghetto (1Co 8.1-13; 10.23-11.1)”, RB85
(1978): 545.
1 CORÍNTIOS 8.1
370
2. Se alguém supõe que ele sabe alguma coisa, não sabe ainda
como deve saber. 3. Mas se alguém ama Deus, ele é conhecido por
Deus.
Observamos estes dois pontos:
a. Conhecimento. Paulo continua a sua resposta à carta que rece-
beu dos coríntios. Ele reage à atitude de um membro da igreja que
supõe que o conhecimento seja tudo. A ênfase está no verbo supõe, um
verbo que revela a atitude soberba do coríntio que glorifica o conheci-
mento. Mas em outra parte dessa epístola, Paulo nota que o conheci-
mento passa, porque é incompleto e imperfeito (13.8-10). Por si só o
conhecimento sempre é limitado quanto à esfera de ação, ao alcance e
à profundidade.
Na primeira cláusula, Paulo usa o verbo conhecer no tempo perfei-
to. Com esse tempo verbal, ele indica que a pessoa que imagina pos-
suir conhecimento já o acumulou e o aperfeiçoou por algum tempo. O
resultado é que essa pessoa acha que sabe tudo. Mas Paulo nada quer
ter com essa atitude soberba; ele lhe dá um basta, dizendo: “ele ainda
não sabe o que deve saber”. Paulo já disse aos coríntios que “se algum
de vocês pensa que é sábio segundo os padrões desta era, deve tornar-
se ‘louco’ para que se torne sábio” (3.18; ver também Gl 6.3).
Qual é, então, o começo do verdadeiro conhecimento? João Calvi-
no observa que o fundamento do verdadeiro conhecimento é o conhe-
cimento pessoal de Deus.
4
Podemos reconhecer esse conhecimento
quando vemos na vida de uma pessoa a graça, a humildade, a integri-
dade e a obediência em ação. Um crente reconhece suas limitações
quando ele confessa que só Deus tem conhecimento e sabedoria infini-
tos. Sendo assim, Paulo insiste com os coríntios para que reexaminem
sua visão do conhecimento e compreendam o que devem saber. Preci-
sam reconhecer que todo conhecimento é derivado e vem de Deus por
meio de Cristo. Todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento de
Deus estão guardados em Cristo (Cl 2.3). O verdadeiro conhecimento,
portanto, tem uma dimensão espiritual relacionada com Deus, que ba-
seia o conhecimento em amor. Conhecimento sozinho não é errado; na
4. João Calvino, The First Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians, série Calvin’s
Commentaries, trad. por. John W. Fraser (reedição; Grand Rapids: Eerdmans, 1976), p. 172.
1 CORÍNTIOS 8.2, 3
371
verdade, ele é essencial à vida. Mas quando uma pessoa deixa de ligar
o conhecimento ao amor divino, ela engana a si mesma e fracassa to-
talmente.
b. Amor. “Mas se alguém ama a Deus, ele é conhecido por Deus.”
O conhecimento humano é temporal, mas o amor divino é eterno. Aqui
Paulo liga os dois conceitos e dá a entender que o ingrediente essencial
do conhecimento é o amor. Sem o amor verdadeiro, o conhecimento
deixa de ter sentido. Mas o crente, que ama a Deus, compreende plena-
mente que ele é conhecido por Deus. Isso não quer dizer que por causa
do amor da pessoa por Deus ela receba reconhecimento divino. O ini-
ciador não é o ser humano, e sim Deus. G. G. Findlay nos dá um resumo
original, contudo característico: “Paulo nada atribuiria à aquisição hu-
mana; a religião é uma concessão, uma dádiva, e não uma conquista;
nosso amor ou conhecimento é o reflexo do amor e do conhecimento
divino direcionados a nós”.
5
Na verdade, o grego emprega o tempo per-
feito para o verbo passivo – é conhecido – para dar a entender que o ato
de conhecer ocorreu no passado mas tem evidente resultado no presente.
Duas observações finais a respeito desse segmento. Primeiro, a
mensagem do versículo 3, com sua ênfase no amor, contrasta com a
essência do versículo 2, com sua ênfase no conhecimento. E, em se-
gundo lugar, a última parte do versículo 3 é um pequeno desvio que
Paulo faz de sua intenção de falar sobre comida oferecida a ídolos. No
entanto, Paulo tinha de enfatizar a verdade bíblica que Deus mostrou a
seu povo (comparar Êx 33.12, 17; Gl 4.9; 1Jo 4.19).
Considerações Práticas em 8.1-3
No século I, quando as pessoas buscavam se tornar membros de igre-
jas, elas eram batizadas e instruídas nas verdades do Cristianismo. Essas
verdades eram os ensinos elementares de Cristo (Hb 6.1,2), e em anos
posteriores isso incluía tanto o Credo Apostólico como a Oração do Se-
nhor. Do século VI ao século XIV a instrução na fé cristã era dada princi-
palmente no círculo familiar.
5. G. G. Findlay, St.Paul’s First Epistle to the Corinthians, no Vol. 3 de The Expositor’s
Greek Testament, org. por W. Robertson Nicoll, 5. vols. (1910; reedição, Grand Rapids:
Eerdmans, 1961), p. 840. Embora Fee opte por uma leitura abreviada do texto e um sentido
diferente, falta-lhe o apoio dos tradutores. First Corinthians, pp. 367-68.
1 CORÍNTIOS 8.1-3
372
A Reforma sentiu a necessidade de redigir inúmeros catecismos. Em
1529, Martinho Lutero escreveu seus catecismos maior e menor para ins-
truir o povo que desconhecia os ensinos básicos do Cristianismo. João
Calvino compôs um catecismo em 1536 e instruía o povo de Genebra
diligentemente semana após semana. O Catecismo de Heidelberg, de 1563,
tornou-se um guia de instrução padrão nas igrejas reformadas da Alema-
nha, da Holanda e da América do Norte. Na Inglaterra, os teólogos de
Westminster compuseram seus catecismos breve e maior, em 1545 e 1647,
respectivamente. Esses recursos educacionais foram preparados para in-
culcar a fé cristã especialmente no coração e na mentes dos filhos de cren-
tes e interessados.
Ao longo dos séculos que se seguiram à Reforma, os instrutores dos
catecismos têm sido instrumentais na propagação de conhecimentos bí-
blicos. Por vezes a instrução tornou-se um exercício intelectual divorcia-
do da fé e do amor genuínos. E, em conseqüência, o conhecimento foi
glorificado, com o inevitável resultado de haver estagnação eclesiástica.
Em tempos recentes, contudo, o problema que a Igreja enfrenta não é
uma falta de amor, e sim uma falta de conhecimento. O problema dos
membros da Igreja não é arrogância intelectual; é antes uma ignorância da
Bíblia. A rica herança dos anos passados não é mais passada de geração
em geração. À parte do Credo Apostólico, da oração do pai-nosso e dos
Dez Mandamentos, muitos membros da Igreja pouco sabem do conteúdo
da Bíblia. Por causa do analfabetismo bíblico, a necessidade da Igreja
nesta hora é instrução sólida nas verdades da Palavra de Deus.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 8.1-3
Versículo 1
-teæìeòu:æ| – esse adjetivo verbal substantivado, neutro plural no
genitivo, vem do substantivo -teæìe| (ídolo) e do verbo òuæ (eu sacrifi-
co). Significa carne sacrificada a um ídolo e/ou comida em festas ou então
vendida no mercado.
6
Seu sinônimo, t-¡eòu:e|, (carne sacrificada a uma
divindade) aparece em 10.28.
µ ,|æct, – neste texto, o substantivo conhecimento é uma qualidade
atribuída não a Deus, mas ao homem. Alguns estudiosos vêem uma liga-
6. Consultar Gordon D. Fee, “Eidolothyta Once Again: An Interpretation of 1Corinthians
8-10”, Bib 61 (1980): 172-97.
1 CORÍNTIOS 8.1-3
373
ção entre a situação em Corinto e o movimento gnóstico do século II. Mas
tudo o que podemos dizer com certeza é que em meados do século I, os
estágios iniciais do gnosticismo se espalhavam aqui e ali. Como refletem
as epístolas de João, perto do final do século I, a heresia gnóstica entrou
na Igreja. Mas no tempo de Paulo, o gnosticismo ainda estava no estágio
de nascimento.
7
Versículos 2,3
-,|æs-|at – o infinitivo perfeito ativo de ,t|æcsæ (eu sei) denota
uma ação no passado, com efeito duradouro no presente.
-,|æ – o tempo aoristo desse verbo é incoativo (“ele começou a sa-
ber”) e é qualificado pela negativa ainda não.
-,|æc:at – a voz passiva média desse verbo no tempo perfeito não é
média, mas sim passiva: “ele é conhecido [por Deus]”. O verbo é sinôni-
mo dos verbos chamado e escolhido por Deus (Rm 8.28-30).
2. Unidade
8.4-6
4. Com respeito a comer o alimento oferecido a ídolos, então,
nós sabemos que “não existe tal coisa como um ídolo neste mun-
do”, e que “não existe Deus senão um só”.
a. “Com respeito a comer o alimento oferecido a ídolos, então.”
Nessa passagem, Paulo retoma o assunto que introduziu antes (v. 1) e
mais uma vez fala sobre a questão do alimento oferecido aos ídolos.
Este problema é tanto irritante para os leitores como é complexo para
Paulo, que tinha de dar respostas a uma comunidade cristã de consti-
tuição dividida e variada. Muitos dos membros tinham raízes no paga-
nismo e precisavam que Paulo os guiasse para saberem como lidar
com a questão de comer comida sacrificial advinda de um templo pagão.
7. Hans Conzelmann, 1 Corinthians, A Commentary on the First Epistle to the Corinthi-
ans, org. por George W. MacRae, trad. por James W. Leitch, Hermeneia: A Critical and
Historical Commentary on the Bible (Filadélfia: Fortress,1975), pp. 15, 140. Entre os estu-
diosos que atribuem o Gnosticismo a alguns coríntios, ver Walter Schmithals, Gnosticism
in Corinth: An Investigation of the Letters to the Corinthians, trad. por John E. Steeley
(NovaYork: Abingdon, 1971): pp. 225-37; R. A. Horsley. “Consciousness and Freedom
among the Corinthians: 1 Corinthians 8-10”, CNQ 40 (1978): 574-89; e “Gnosis in Corin-
th: 1 Corinthians 8.1-6”, NTS 27 (1981): 32-51.
1 CORÍNTIOS 8.4
374
b. “Sabemos que ‘não existe tal coisa como um ídolo neste
mundo’.”
8
Outra vez Paulo cita palavras da carta que os coríntios lhe
enviaram. Ele apresenta a sentença com a mesma frase usada antes (v.
1), e aqui diz: “Nós sabemos”. Paulo repete uma verdade espiritual que
os coríntios aprenderam das Escrituras e que agora aparece na carta:
um ídolo é nada (Is 44.12-20). O salmista desconhecido compara o
Deus de Israel aos ídolos das nações e afirma:
Prata e ouro são os ídolos deles,
obra das mãos dos homens.
Têm boca e não falam;
têm olhos, e não vêem,
têm ouvidos e não ouvem
têm nariz e não cheiram,
Suas mãos não apalpam,
seus pés não andam,
som nenhum lhes sai da garganta.
Tornem-se semelhantes a eles os que os fazem,
e quantos neles confiam.
[Sl. 115.4-8; 135:15-18]
c. “E que ‘não existe Deus senão um só’.” Essa última parte do
versículo é tirada também da carta que os coríntios haviam mandado a
Paulo. Ela ecoa o ensino bíblico de que só há um Deus. Isso é resumido
no credo hebraico: “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Se-
nhor” (Dt 6.4; ver Sl 86.10; Is 44.8; 45.5). Os judeus recitavam esse
credo duas vezes ao dia, pela manhã e ao fim da tarde. A Igreja Cristã
herdou esse credo dos judeus, mas não o recitava todas as manhãs e
nos finais da tarde.
Os coríntios confessam sua crença de que Deus é um; por essa
razão, dizem: nenhum ídolo existe na realidade. Se não há ídolos ver-
dadeiros, mas somente objetos inanimados feitos de madeira, pedra ou
metal, argumentam os coríntios, eles estão livres para comer da carne
8. Literalmente, “Um ídolo não é nada no mundo”. No contexto judeu-cristão, a palavra
mundo seria relacionada à “qualidade de ser criada” e serviria como substituto por “exis-
tência”. Muitas versões escolhem uma forma desse substituto. Consultar Murphy-O’Connor,
“Freedom of the Ghetto”, p. 546.
1 CORÍNTIOS 8.4
375
que foi dedicada a tais ídolos.
9
Consideram a liberdade que têm de
comer este alimento no contexto da liberdade cristã.
5. Pois mesmo se existem os pretensos deuses, quer no céu ou
na terra, como na verdade há muitos deuses e muitos senhores.
Paulo escreve a primeira parte de uma oração concessiva nesse
versículo, mas ele não chega a terminá-la gramaticalmente. No versí-
culo 6 ele começa outra sentença. Isso se deve à estrutura poética do
versículo 6 e à falta de uma transição fluente entre os dois versículos.
O que Paulo está dizendo quando afirma que há pretensos deuses
no céu ou na terra? Será que ele não está contradizendo a confissão
anterior dos coríntios de que há somente um Deus? De modo nenhum.
Ele permite que os gentios empreguem sua escolha de palavras quando
dizem que há deuses no céu e na terra. Mas, ao inserir a palavra preten-
sos, ele efetivamente põe em dúvida a realidade desses ‘deuses’. Como
os salmistas, Paulo repudia os deuses que os gentios cultuam.
10
Ele
observa que esses deuses existem apenas em nome; são sem autentici-
dade. Eles não conseguem reivindicar divindade, porque Deus reina
supremo no céu e na terra. Ainda que pessoas adorem Satanás, a quem
Jesus chamou de príncipe deste mundo (Jo 12.31; 14.30; 16.11), Sata-
nás não é e nunca será divino.
Os gentios adoravam numerosos deuses e senhores. Prestaram ho-
menagem a deuses que viviam no céu, estavam na terra e estavam no
mar.
11
A expressão senhores provavelmente significa seres de um nível
inferior que eram vistos como subordinados aos deuses propriamente
ditos.
6. contudo,
para nós há um Deus o Pai,
de quem são todas as coisas, e para quem vivemos;
e um Senhor Jesus Cristo,
por meio de quem são todas as coisas e
por meio de quem nós vivemos.
9. Ver Bruce W. Winter, “Theological and Ethical Responses to Religious Pluralism –1
Corintians 8-10”, TynB 41.2 (1990): 209-26.
10. Ver, por exemplo., Salmo 82.1, 6; 95.3; 96.4; 97.9; 136.7; 138.1.
11. Ver John Albert Bengel, Bengel’s New Testament Commentary, trad. por Charlton T.
Lewis e Marvin R. Vincent, 2 vols. (Grand Rapids: Kregel, 1981), p. 168.
1 CORÍNTIOS 8.5, 6
376
Os estudiosos debatem se Paulo compôs esses versículos, porque
aparecem aqui na forma de uma afirmação de credo. Alguns dizem que
Paulo é o autor,
12
enquanto outros defendem que ele tomou a declara-
ção emprestada.
13
Será que Paulo escreveu essas palavras, ou será que
citou palavras de uma fórmula confessional que era corrente em comu-
nidades judaico-helenistas da Igreja Cristã? A evidência não é conclu-
siva. Mas em suas epístolas, Paulo demonstra a capacidade de compor
princípios doutrinários, e por essa razão não podemos descartar a pos-
sível autoria paulina. Para ilustrar, Paulo formula afirmações doutriná-
rias sobre a ressurreição dos mortos (por ex., ver 15.12-18, 42-44).
a. “Contudo, para nós há um Deus o Pai.” O contraste que Paulo
apresenta é entre os pretensos deuses e o único Deus e Pai. Os gentios
colocavam seus deuses no céu, na terra ou no mar. Mas nosso Deus,
diz Paulo, é um só Deus que não está confinado a um local, mas está
em toda parte (comparar com Sl 139.7-10).
Nos Evangelhos e mesmo em Atos (1.4, 7), Jesus ensina os discí-
pulos a dirigirem-se a Deus como Pai (Mt 6.9). Quando ele se refere a
Deus, ele usa repetidamente esse nome. Deus e o Pai são um. Os após-
tolos, semelhantemente, notam que Deus é Pai tanto de Jesus como
dos crentes.
14
Com o termo Pai, Paulo sugere o conceito de família e
indica que nós somos filhos de Deus.
b. “De quem são todas as coisas, e para quem vivemos.” Quando
Paulo se dirige a gentios tanto em Listra como em Atenas, ele ensina
que Deus criou este mundo (ver At 14.15-17; 17.24-31). Paulo fornece
doutrina instrutiva para os cristãos coríntios. Ela corresponde ao seu
discurso no Areópago: “somos descendência dele” (At 17.28). E ele
frisa seu ensino de que todas as coisas vieram de Deus, assim como
vivemos para ele (Rm 11.36).
12. Por exemplo, ver Fee, First Corinthians, p. 374; Archibald Robertson e Alfred Plum-
mer, A Critical and Exegetical Commentary on the First Epistle of St. Paul to the Corinthi-
ans, International Critical Commentary, 2ª ed. (1911, reedição, Edimburgo: Clark,1975), p.
168.
13. Por exemplo, Jerome Murphy-O’Connor, “1 Cor. 8.6: Cosmology or Soteriology”, RB
85 (1978): 253-67; R. A. Horsley, “The Background of the Confessional in Cor. 8.6”, ZNW69
(1978); 130-35.
14. Por exemplo, Atos 2.33; Romanos 1.7; 6.4; 8.15; 15.6; Efésios 1.2; 1 Pedro1.2; 1 João
1.2; Apocalipse 1.6. Ver também Malaquias 2.10.
1 CORÍNTIOS 8.6
377
Em grego, as palavras todas as coisas significam a totalidade de
sua criação. Essas duas palavras gregas também ocorrem no relato de
Paulo sobre a criação do universo por Cristo (Cl 1.16; comparar com
Jo 1.3; Hb 1.3). Assim, Deus o Pai criou todas as coisas por seu Filho,
o Senhor Jesus Cristo. Nós devemos nossa existência a Deus o Pai e
por isso vivemos para ele.
c. “E um Senhor Jesus Cristo, por meio de quem são todas as coi-
sas.” Observe que Paulo chama Jesus de Senhor, mas não de Deus. Ao
mesmo tempo, ele dá a entender que Jesus é divino por causa da obra
da criação e redenção. Aqui Paulo pisa de leve, para que não seja acu-
sado de contradizer sua declaração anterior de que Deus é um só. Con-
tudo, ele ensina a divindade e a eternidade de Jesus ao declarar que
todas as coisas na criação vieram a existir por meio de Jesus Cristo.
d. “E por meio de quem nós vivemos.” Dessas frases, a última par-
te relaciona-se à redenção que Cristo nos deu. Cristo nos criou e nos
redimiu, de modo que nós vivemos por meio dele. Em poucas linhas
curtas e paralelas, Paulo ensina as doutrinas sobre Deus, Cristo, cria-
ção e salvação. Por inferência, nós supomos que essas doutrinas eram
conhecidas pelos coríntios.
Supondo que Paulo tenha composto essas linhas, não temos difi-
culdade em ver que eram facilmente aprendidas, memorizadas e adota-
das pelos leitores dele. O paralelismo é realmente forte, e em sua sim-
plicidade elas transmitem verdades espirituais profundas que fortale-
cem a fé do cristão.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 8.4-6
Versículos 4-5
i-¡t :µ, – com a repetição de i-¡t (ver v. 1), Paulo retoma sua discus-
são, motivado pela pergunta dos coríntios sobre alimento oferecido a ídolos.
O Texto Majoritário, refletido em pelo menos três traduções (KJV, NKJV,
NJB), insere a palavra -:-¡e, (outro). Testemunhas mais fortes e mais am-
plamente representativas não incluem essa palavra; por isso a maioria dos
estudiosos não a inclui.
sat...-ti-¡ – “mesmo se”. A partícula per é intensiva e enclítica. A
cláusula é concessiva; contudo, “a verdade da sentença principal é afir-
1 CORÍNTIOS 8.4-6
378
mada fortemente em face dessa única objeção”.
15
Paulo a coloca como
sendo um caso extremo.
Versículo 6
-, eu – a preposição denota origem, mas o pronome relativo se refere
a Deus, “de quem”. Na combinação et` eu (por meio de quem), a preposi-
ção significa agência, mas o pronome se refere a Cristo.
:a ia |:a – o artigo definido fortalece o adjetivo para tornar o concei-
to totalmente abrangente.
3. Consciência
8.7,8
7. Entretanto, nem todos têm este conhecimento. Por estarem
acostumados com o ídolo até agora, algumas pessoas comem comi-
da como se fosse oferecida a ídolos. E sua consciência, sendo fraca,
é contaminada.
a. “Entretanto, nem todos têm este conhecimento.” A primeira pa-
lavra é uma adversativa forte. Revela que nem todo crente de Corinto
tinha pleno conhecimento das doutrinas que Paulo acabava de expor,
sobre Deus, Cristo, e a criação. Paulo tem em mente aqueles cristãos
que tinham vindo há pouco tempo do paganismo e cuja fé no Senhor
era fraca por causa da ignorância. Como pastor e professor, Paulo é
responsável pela totalidade de membros da igreja. Embora tenha escri-
to que no geral todos eles têm conhecimento (v. 1), ele agora afirma
que os cristãos fracos não têm conhecimento particular.
16
Presumimos
que Paulo soube da falta de conhecimento de alguns dos crentes por
informação da delegação coríntia (Estéfanas, Fortunato e Acaico
[16.17]). Agora ele fala às necessidades deles.
b. “Por estarem acostumados com o ídolo até agora, algumas pes-
soas comem comida como se fosse oferecida a ídolos.” Essa sentença
15. A. T. Robertson, A Grammar of the Greek New Testament in the Light of Historical
Research (Nashville: Broadman, 1934), p. 1026.
16. Wendell Lee Willis afirma que as palavras nós sabemos do versículo 1a fazem parte
de uma citação sobre a sabedoria que então faz contraste com o conhecimento do versículo
7. Contudo, nós não estamos persuadidos de que as palavras nós sabemos pertencem à
citação. Ver Idol Meat in Corinth: the Pauline Argument in 1 Corinthians 8 and10, série
SBL Dissertation 68 (Chico, Calif.: Scholars, 1985), pp. 68, 88.
1 CORÍNTIOS 8.7
379
quase parece estar fora de lugar se considerarmos que Paulo chama os
coríntios de santificados e santos (1.2). Ele lhes diz que são templo de
Deus e que o Espírito de Deus vive neles (3.16; 6.19). Contudo, nesse
versículo ele revela que os cristãos fracos de Corinto estão acostuma-
dos com ídolos.
A contradição desaparece quando percebemos que no grego Paulo
emprega a palavra ídolos no singular. Se ele tivesse usado o plural,
teria mostrado que alguns dos crentes fracos ainda estavam servindo
aos deuses do paganismo. Com o uso do singular, todavia, Paulo se
refere ao ambiente pagão do qual os crentes tinham recentemente saí-
do. Os costumes de seus parentes, amigos e conhecidos estavam liga-
dos integralmente a um ídolo. E esses costumes continuavam a ter uma
influência conceitual sobre os cristãos fracos.
17
Mesmo que não mais
adorassem os ídolos nem os servissem, ainda não estavam libertos da
influência de seu próprio passado. Os crentes que eram fortes diziam
que os ídolos nada eram senão madeira e pedra. Mas todas as vezes
que os cristãos fracos entravam em contato com algo relacionado a um
ídolo, estavam diante de um conflito. Eram como um ex-viciado que
trava uma batalha interior cada vez que entra em contato com as drogas.
Com as palavras até agora, Paulo reconhece os problemas espiri-
tuais que os cristãos fracos estão enfrentando. A associação que tive-
ram com o ídolo até sua conversão permanece com eles no tempo pre-
sente, mesmo depois de sua conversão. É mostrando sua compreensão
da situação difícil deles, e assim revelando seu amor, que Paulo minis-
tra a essas pessoas. Ele sabe que no convívio com os gentios elas não
adoram mais os ídolos. Mais tarde nesse contexto ele as exorta a que
prossigam em seus esforços para fugir da idolatria (10.14). Mas agora
ele trata do problema que esses irmãos têm para comer a comida que
foi ofertada a ídolos.
c. “Comem comida como se fosse oferecida a ídolos.” Os cristãos
que eram espiritualmente fortes podiam declarar que o alimento que
talvez tivesse vindo de um templo continua sendo comida comum, mas
aqueles que eram espiritualmente fracos eram incapazes de dizer as-
17. Algumas traduções refletem o Texto Majoritário, que tem a leitura consciência (KJV,
NKJV, NJB e NAB com “consciente”) em lugar de costume. Das duas leituras, a segunda é a
mais difícil de explicar e, portanto, a preferida.
1 CORÍNTIOS 8.7
380
sim. Para eles, as associações com as práticas do paganismo o faziam
encolher-se quando comiam carne que provavelmente viera de um ani-
mal sacrificado num templo. Qualquer ligação com o paganismo tor-
nava-se uma pedra de tropeço para os cristãos fracos. Provavelmente
já conheciam o decreto do Concílio de Jerusalém (At 15.29). Embora
os fortes pudessem até entrar num templo e comer carne que tivesse
sido sacrificada (v. 10), os fracos não conseguiam nem pensar em com-
prar essa carne no mercado e prepará-la em casa.
18
Embora se manti-
vessem longe dos templos, eles se recusavam a consumir comida sacri-
fical até mesmo em sua própria casa (ver 10.27, 28).
d. “E sua consciência, sendo fraca, é contaminada.” Paulo está des-
crevendo a experiência subjetiva dos crentes fracos quando ele escre-
ve sobre a consciência deles ser contaminada. Se comessem comida
que tivesse vindo de um templo pagão, considerariam que de alguma
forma tinham participado da adoração de ídolos.
Qual é o significado da mente de uma pessoa ser contaminada? Àque-
les que são fracos faltam princípios definidos de conduta. Quando co-
mem carne que é poluída por idolatria, pesa-lhes uma consciência que
foi manchada de maneira semelhante. Sua consciência é fraca porque o
conhecimento que eles têm de si próprios é deficiente em comparação
com os irmãos na fé.
19
Falta a eles conhecimento e autoconfiança. A
consciência de uma pessoa precisa ser bem informada para funcionar
apropriadamente. Se esse não for o caso, ele ou ela tropeça desneces-
sariamente em vários pontos no caminho da vida (vs. 10-12).
8. “Mas a comida não nos aproximará de Deus. Nós nem esta-
mos perdendo algo se não comermos nem ganhando algo se co-
mermos”.
a. Texto. Se compararmos algumas traduções, imediatamente nota-
remos duas diferenças. Uma se trata do tempo verbal na primeira sen-
tença; algumas traduções têm o futuro, “não aproximará” (por ex., RSV,
18. Consultar Bruce N. Fisk, “Eating Meat Offered to Idols: Corinthian Behavior and
Pauline Response in 1 Corinthians 8-10,” TrinityJ 10 n.s. (1989): 49-70.
19. Consultar Paul D. Gardner, “The Gifts of God and the Authentication of a Christian”,
dissertação de doutorado, Cambridge University, 1989, p. 49; Claude A. Pierce, Conscien-
ce in the New Testament (Londres: SCM e Naperville, Ill.: Allenson, 1955), pp. 7775-85;
Colin Brown, NIDNTT, vol. 1, p. 352.
1 CORÍNTIOS 8.8
381
NRSV, NEB, REB) enquanto outras enfatizam o presente, “não aproxima”
(ver KJV, NKJV, NIV, NAB, NJB). A evidência de manuscritos favorece o
futuro, que estudiosos explicam com relação ao dia do juízo. A dúvida
é se os coríntios estão preocupados quanto a se chegarem a Deus em
adoração ou quanto aos efeitos do juízo final.
A outra diferença influencia a ordem das palavras na segunda sen-
tença. A negativa (“perdendo algo se não comermos”) antecede a posi-
tiva (“ganhando se comermos”) ou será que a ordem deve ser inverti-
da? Alguns tradutores começam com o positivo (KJV, NKJV, Phillips),
enquanto outros adotaram a ordem que nós preferimos. Gordon D. Fee
suspeita que a ordem do negativo seguido pelo positivo seja a leitura
mais difícil e, portanto, a original.
20
b. Origem. Esse capítulo em particular apresenta algumas citações
dos coríntios às quais Paulo responde. Nesse versículo também parece
que temos uma declaração que os coríntios fortes usavam em suas con-
versações com os membros mais fracos da igreja. Como o versículo
seguinte (v. 9) é definitivamente a resposta de Paulo, o presente versí-
culo parece ter vindo dos próprios coríntios.
21
c. Sentido. “‘Mas comida não nos aproximará de Deus’.” O que os
coríntios fortes estão dizendo é que o alimento em si não tem nenhum
significado religioso. Paulo concorda prontamente com essa opinião.
Em outra epístola ele escreve: “Porque o reino de Deus não é comida,
nem bebida” (Rm 14.17). Em outras palavras, esses coríntios estão
dizendo aos irmãos e irmãs mais fracos que não se preocupem com as
conseqüências quando comem alimento que pode ter sido oferecido a
um ídolo. Não sejam oprimidos por sentimento de culpa na consciên-
cia, dizem os fortes, pois Deus não os responsabilizará no dia do juí-
zo.
22
O lema dos coríntios, “os alimentos são para o estômago, e o
estômago, para os alimentos” (6.13) expressa o mesmo pensamento.
“‘Nós nem estamos perdendo algo se não comermos nem ganhan-
do algo se comermos’.” A segunda parte da citação da carta escrita
20. Fee, First Corinthians, p. 377 n. 6.
21. Consultar a lista que John C. Hurd, Jr. compilou em The Origin of 1 Corinthians
(Macon, Ga.: Mercer University Press, 1983), p. 68.
22. Jerome Murphy-O’Connor, “Food and Spiritual Gifts in 1 Cor. 8.8”. CBQ 41 (1979):
292-98.
1 CORÍNTIOS 8.8
382
pelos coríntios dá ênfase à primeira parte. Visto que o alimento por si
só não possui nenhum valor moral, os crentes fortes diziam que eles
não estão perdendo nem ganhando algo. Eles comem ou obtêm alimen-
to e mostram sua obediência a Deus (comparar com Fp 4.12). Observe
que não estão usando a expressão comida oferecida a ídolos; em vez
disso, falam em comida comum que é ingerida. Talvez, pela escolha de
palavras, os coríntios desejem indicar que até carne oferecida a um
ídolo seja apenas comida comum.
Paulo teria de concordar com esses coríntios que defendiam a cau-
sa da liberdade cristã. Mas ele tinha de chamar a atenção deles por
causa da falta de amor e de compaixão deles pelos irmãos e irmãs mais
fracos. Chamando todos os alimentos de comuns, eles se recusavam a
ver o ponto de vista daqueles cuja consciência os incomodava quando
comiam comida que havia sido sacrificada a um ídolo.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 8.7, 8
aìì` – note o adversativo forte (“entretanto”) que segue os versículos
anteriores mas se refere ao primeiro versículo (v. 1).
cu|µò-t a – esse substantivo apresenta uma conotação causal, “por causa
do costume”. A palavra tem forte apoio de manuscritos, mas isso é igual-
mente verdade para a leitura alternativa. No entanto, estudiosos textuais
mantêm que a leitura alternativa, cu|-teµ c-t (consciência), “aparentemente
surgiu pela assimilação com o seguinte cu|-teµct,”.
23
ia¡ac:µc-t – tempo futuro ativo do verbo ia¡tc:µ¡t (eu trago diante
de). É um termo jurídico e se refere a procedimentos no tribunal. Como o
substantivo cu|µò-ta (v. 7), tem o apoio dos manuscritos mais fortes e é
preferido à leitura com o tempo presente, ia¡tc:µct.
4. Pecado
8.9-13
9. Mas cuide que esse direito seu não se torne um empecilho
para aqueles que são fracos.
Com uma adversativa, Paulo indica que, embora concorde com o
23. Bruce M. Metzger, A Textual Commentary on the Greek New Testament, 3ª ed. corri-
gida (Londres e NovaYork: United Bible Societies, 1975), p. 557.
1 CORÍNTIOS 8.9
383
sentimento geral da citação (v. 8), ele rejeita o contexto no qual é usa-
do. Em dois versículos anteriores (vs. 1,2), ele havia dito aos coríntios
que o conhecimento e o amor precisam caminhar lado a lado. O conhe-
cimento por si só resulta em arrogância, mas quando é acompanhado
por amor, edifica. E Paulo, descobrindo uma ausência de amor na con-
duta de alguns coríntios (comparar com Rm 14.15), registra agora uma
objeção pastoral.
Paulo detecta uma atitude perigosa que abalará a unidade da igreja.
Ele ordena aos leitores que cuidem de sua própria conduta. Ele constrói
a expressão esse direito seu, no qual o pronome esse reflete um traço de
sua antipatia pela aparente soberba de alguns coríntios (ver Lc 15.30). E
mais, essa é a segunda vez que a palavra fraco aparece nesse capítulo
(ver v. 7). Se essa expressão vem, não de Paulo, mas desses coríntios
espiritualmente fortes, uma certa medida de arrogância parece óbvia.
24
Eles reivindicam agressivamente para si o direito à liberdade cristã.
No entanto, assim como conhecimento sem amor produz orgulho,
liberdade sem amor gera arrogância. Os coríntios têm o direito de afir-
mar sua liberdade de comer alimentos, pois o próprio Paulo ensina que
“nenhum alimento é por si mesmo impuro” (Rm 14.14). Mas a liberda-
de cristã deve sempre ser observada no contexto do amor para com o
próximo em geral e o irmão ou irmã espiritualmente fracos em particular.
O direito que um cristão exercita legitimamente nunca deve se tor-
nar empecilho para outro crente irmão. Paulo usa a expressão pedra de
tropeço para descrever um obstáculo específico que um cristão pode
colocar no caminho de alguém. E o empecilho aqui é comer carne sa-
crificial, que era ofensa para outros na igreja.
A liberdade que um cristão goza deve sempre ser reivindicada no
contexto de servir um ao outro em amor (Gl 5.13). Sua atitude não
deve ser empecilho para os membros mais fracos da igreja. Paulo não
está dizendo que aqueles que são fracos se ofendem, mas sim que aque-
les que são fortes causam ofensa. Os membros que promovem seus
direitos de ser livres estão exercendo pressão indevida sobre aqueles
cuja consciência os impede de comer certas espécies de carne. Paulo,
24. Consultar Roy A. Harrisville, l Corinthians, série Augsburg Commentary on the New
Testament (Minneapolis: Augsburg, 1987), p. 141.
1 CORÍNTIOS 8.9
384
portanto, alerta os coríntios que amam a liberdade a demonstrarem
amor não ofendendo os membros da igreja que são seus irmãos.
10. Pois se alguém vir você, que tem conhecimento, comendo
no templo de um ídolo, será que a consciência de alguém que é
fraco não tomará coragem de comer comida oferecida a ídolos?
Fazemos estas observações:
a. Fazendo uma refeição. Tomando uma situação da vida diária,
Paulo retrata a possibilidade de um cristão que é espiritualmente forte
sentar-se e comer no templo de um ídolo. Esse crente poderia ser con-
vidado a ir para uma festa celebrada numa das muitas salas do templo.
Ali a carne de um animal sacrificado a um ídolo seria consumida. Ele
poderia arrazoar que o ídolo não era nada mais que um pedaço de pe-
dra lavrada, e a carne comida, comum. Sua fé em Deus permaneceria
forte. E mais, ele recusaria quebrar os laços de família ou amizade. Por
causa de seu conhecimento firme da fé cristã, ele não veria mal ne-
nhum em estar presente numa reunião festiva numa das salas apropria-
das de um templo.
Embora Paulo forneça uma ilustração usando você no singular, sua
intenção é retratar a realidade de uma ocorrência comum. Não é irreal
a possibilidade de que Erasto, por exemplo, o diretor de obras públicas
em Corinto (Rm 16.23) e membro da igreja local, devesse comparecer
a festas desse tipo.
Mantendo a liberdade cristã, Paulo não repreende uma pessoa que
coma numa sala de jantar de um templo. Ele observa, corretamente,
que um crente espiritualmente forte não está adorando a um ídolo, mas
apenas desfrutando da companhia de família e amigos. Em contraste,
numa passagem mais adiante (10.19, 20), Paulo comenta sobre a idola-
tria e lá retrata o pecado de adorar um ídolo.
25
Aqui ele chama a aten-
ção não para o fato de comer numa sala pública, mas sim para o efeito
que essa ação poderá ter sobre um irmão mais fraco. Essa ação tem o
potencial de levar o irmão mais fraco à idolatria.
b. Consciência. O irmão fraco não é um judeu, provavelmente,
porque a um judeu não ocorreria entrar num templo para comer carne
sacrificada a um ídolo. Ao contrário, é provável que o irmão fraco seja
25. Fisk, “Eating Meat Offered to Idols”, pp. 62-64.
1 CORÍNTIOS 8.10
385
um gentio que tivesse se convertido recentemente ao Cristianismo, cujo
conhecimento espiritual fosse limitado, e a consciência, fraca.
26
Paulo
agora pergunta ao cristão forte com certo toque de ironia: “Será que o
ato de comer num templo não torna ousada a consciência do irmão
mais fraco?”
27
Pela sua conduta, aquele que é forte lidera o fraco; mas a verdade é
que ele leva seu irmão a extraviar-se. Se uma pessoa espiritualmente
fraca entrar e comer naquela sala, sua consciência é poluída em vez de
fortalecida (ver v. 7). Portanto, não o irmão fraco, mas sua consciência
fraca ganha ousadia. A voz interior de sua consciência não mais o res-
tringe.
28
No início de sua discussão sobre este assunto, Paulo observou
que o conhecimento conduz ao orgulho e o amor leva à edificação (v.
1). Paulo agora repete o mesmo pensamento em palavras diferentes. A
conduta sem amor e consideração pode ser desastrosa, especialmente
para os espiritualmente fracos seguidores do exemplo da pessoa forte
que lhes abre o caminho. A responsabilidade toda pela saúde espiritual
do irmão está sobre os ombros da pessoa que tem conhecimento. Sua
conduta impensada e rude constitui um pecado contra Cristo.
29
11. Porque o irmão fraco por quem Cristo morreu é destruído
pelo seu conhecimento.
Quando o irmão fraco come carne sacrificial num templo pagão,
ele associa esse ato com o culto a ídolo. Sua confiança é destruída por
causa de sua dor de consciência. Em vez de ser edificado, ele é des-
truído. Paulo examina as conseqüências da conduta do irmão instruído
que intencionalmente passa por cima das objeções que o irmão fraco
apresenta. Paulo sabe que a conduta insensível do irmão que tem co-
nhecimento destrói “o irmão fraco por quem Cristo morreu”.
26. Paul W. Gooch, “St. Paul on the Strong and the Weak: A Study in the Resolution of
Conflict”, Crux 13 (1975-76): 10-20.
27. Bauer, p. 538; R. St. John Parry, The First Epistle of Paul the Apostle to the Corinthi-
ans, Cambridge Greek Testament for Schools and Colleges (Cambridge: Cambridge Uni-
versity Press, 1930), p. 133.
28. F. W. Grosheide, Commentary on the First Epistle to the Corinthians: The English
Text with Introduction, Exposition and Notes, série New International Commentary on the
New Testament (Grand Rapis: Eerdmans, 1953): 363-75.
29. Consultar Harold S. Songer, “Problems Arising from the Worship of Idols: 1 Corinthi-
ans 8.1-11.1”, RevExp 80 (1983): 363-75.
1 CORÍNTIOS 8.11
386
O que o apóstolo diz nesse versículo diz respeito à vida espiritual dos
cristãos fracos. Eis uma explicação tríplice do ponto de vista de Paulo:
Primeiro, com a ordem das palavras, Paulo torna cada palavra im-
portante nesse texto; ele enfatiza especialmente os verbos destruir e
morrer. Esses dois verbos são palavras-chave. Nessa sentença, o verbo
destruir está no tempo presente para indicar que a ação já está ocorren-
do.
30
O irmão mais fraco “está sendo destruído”. Com o tempo presen-
te ele transmite ação progressiva, mas não a idéia de que o irmão fraco
“já está perdido”.
Em seguida, o contexto imediato (v. 12) apresenta o verbo ferir no
tempo presente. Esse verbo é um sinônimo que Paulo usa para explicar
o sentido de “destruir”.
E por fim, a passagem paralela em Romanos 14.15 e seu contexto
iluminam esse versículo: “Se seu irmão está entristecido por aquilo
que você come, você não está mais agindo em amor. Por causa do que
você come, não destrua seu irmão por quem Cristo morreu”. Se Cristo
pagou o sacrifício supremo morrendo por esse irmão fraco, então o
mínimo que um irmão forte pode fazer é demonstrar o amor fraterno a
cristãos irmãos na fé, não comendo certos alimentos. A intenção desse
versículo é retratar o contraste entre a morte de Cristo e a dureza de
coração dos coríntios fortes.
Mais duas observações sobre essa passagem. Primeira, Paulo não
está ensinando que um cristão forte pode fazer com que um irmão espi-
ritualmente fraco pereça, porque ele escreve “irmão” e não “pecador” ou
“homem”. Ele dá a entender que Cristo continua a proteger do mal essa
pessoa e fará com que possa ficar de pé (Rm 14.4). Resumindo, Cristo
amou esse irmão tanto que morreu por ele, e também o fará resistir à
tentação. Segunda, alguns tradutores introduzem um verbo como auxili-
ar: “poderia” (JB), [“poderia ser destruído”] ou o condicional (SEB), [“se-
ria destruído”] para transmitir a probabilidade de vivenciar ruína mas
não de ser realmente perdido para sempre. O irmão fraco é tolhido em
seu crescimento espiritual pela falta de amor dos irmãos cristãos.
31
Não
30. O Texto Majoritário tem o tempo futuro (“será destruído”), que é colocado numa
sentença interrogativa (ver KJV, NKJV, Phillips, e a GNB numa sentença afirmativa).
31. Consultar F. F. Bruce, 1 and 2 Corinthians, New Century Bible (Londres: Oliphants,
1971), p. 82.
1 CORÍNTIOS 8.11
387
obstante, Cristo o redimiu e santificou (1.2) e o vê como seu irmão (com-
parar com Hb 2.10,11).
Paulo não fala mais em termos gerais, mas se dirige aos coríntios
fortes pessoalmente. Ele escreve “seu conhecimento” e chama a aten-
ção para a atitude fria, sem amor, desses coríntios que estão envaideci-
dos pelo conhecimento (v. 1). Também, o uso do pronome vocês pare-
ce revelar que o problema do momento envolvia algumas pessoas.
Contrastando a morte de Cristo – como ilustração do maior amor ima-
ginável – com o conhecimento sem amor de alguns coríntios, Paulo
encoraja seus leitores a expressarem seu amor aos membros mais fra-
cos da igreja.
12. Assim vocês pecam contra Cristo ao pecar contra seus ir-
mãos ferindo a consciência fraca deles.
Concluindo, o apóstolo chega ao âmago da questão. Ele usa o ver-
bo pecar duas vezes na mesma sentença. No grego, ele acentua essa
palavra ao ter a forma pecam perto do começo da sentença e a forma
pecar na posição final.
Note estes termos:
a. Pecam contra Cristo. Usando o presente do verbo pecar, Paulo
observa que os coríntios estão no processo de cometer o pecado de
falta de amor contra Cristo. O tempo presente aponta para a relevância
e a seriedade do insulto deles contra Cristo, mesmo quando sua insen-
sibilidade está dirigida contra seus próprios irmãos em Cristo.
Quando Paulo foi cegado pela luz celeste perto de Damasco, Jesus
perguntou-lhe por que o perseguia. Atordoado, Paulo perguntou a Je-
sus quem ele era. A resposta foi: “Eu sou Jesus, a quem você persegue”
(At 9.5; 22.8; 26.15). Jesus e seus irmãos e irmãs são um, de modo
que uma ofensa contra um crente é uma ofensa contra Jesus (ver Mt
25.41-46).
b. Contra seus irmãos. Os coríntios fortes estão pecando contra
seus próprios irmãos, isto é, a Igreja. Eles cometem pecado pela sua
atitude para com os co-participantes da igreja da qual são membros em
Cristo. E conseqüentemente, não os membros irmãos, e sim eles mes-
mos são culpados e enfrentarão o juízo. Soldados que lutam numa guerra
não devem apontar suas armas para seus companheiros. Irmãos cris-
1 CORÍNTIOS 8.12
388
tãos que pecam contra companheiros cristãos pecam contra Deus e
enfrentam-no como juiz, “aquele que pode salvar e destruir” (Tg 4.12).
c. Ferindo sua consciência fraca. Veja a tradução literal dessa fra-
se: “ferindo sua consciência que se acha em condição enfraquecida”.
Os crentes de quem se espera que encorajem e instruam os irmãos que
com eles participam são quem repetidamente ferem sua consciência
enfraquecida. “Aquilo que requer o tratamento mais gentil é tratado
brutalmente, de modo que sua sensibilidade é entorpecida.”
32
De um
ponto de vista objetivo, os coríntios fortes continuamente ferem a cons-
ciência fraca de um irmão ao induzi-lo a comer carne sacrifical. Eles
o ferem espiritualmente, não fisicamente; eles atingem uma consciên-
cia já enfraquecida que se torna entorpecida. De um ponto de vista
subjetivo, a consciência ferida de um crente causa uma falta de auto-
estima.
33
13. Portanto, se comida faz com que meu irmão tropece e caia
em pecado, eu nunca mais comerei carne para que eu não faça
com que meu irmão tropece.
A conclusão a essa parte da discussão é que o próprio Paulo vai
prover liderança na igreja de Corinto, mesmo enquanto fisicamente
ausente. Se os cristãos que estão espiritualmente fortes falharem em
sua responsabilidade de fortalecer os fracos, Paulo vai dar o exemplo.
Esse versículo é uma sentença condicional que expressa realidade e
certeza. Os leitores podem estar certos de que Paulo fará de fato o que
ele está dizendo.
Paulo usa a palavra geral alimento em lugar do termo carne sacri-
ficial, que estava no centro da discussão (ver vs. 1, 4, 7, 10). A questão
de consumir alimentos não deve tornar-se pedra de tropeço para nin-
guém na igreja. O próprio Paulo repreendeu tanto Pedro como Barna-
bé pela recusa deles de comer com cristãos gentílicos em Antioquia
(Gl 2.11-14). Ele e seus associados entregaram a carta do Concílio de
Jerusalém aos cristãos gentios (At 15.29). Cristãos judeus até recusa-
vam comprar carne num mercado local de gentios por medo de comer
32. Robertson e Plummer, First Corinthians, p. 173.
33. Consultar Paul W. Gooch, “‘Conscience’ in 1 Corinthians 8 and 10”, NTS 33 (1987):
244-54.
1 CORÍNTIOS 8.13
389
alimentos que tinham sido oferecidos a um ídolo. Eles guardavam a lei
de Moisés por completo (comparar com At 21.20). Os cristãos gentios
também tinham cuidado ao comer com amigos gentios.
Por amor a seu irmão cristão, Paulo diz: “Eu nunca mais comerei
carne para que eu não faça com que meu irmão tropece”. No capítulo
seguinte dessa epístola, ele declara inequivocamente: “Eu fiz-me fraco
para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para
com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns” (9.22).
Paulo estava disposto a privar-se de comer certos alimentos para que
pudesse promover a causa de Cristo, a difusão do evangelho e o cresci-
mento da Igreja.
Paulo está sugerindo que todo cristão se torne vegetariano? Não,
de modo algum. Mas Paulo se dispõe para ir a qualquer extremo para
evitar ferir a consciência de qualquer pessoa por quem Cristo mor-
reu.
34
E se esse extremo significa não comer carne por algum tempo,
Paulo se adapta prontamente. Ele submete até sua liberdade cristã ao
princípio do amor. O que ele está pedindo que cada crente faça é mos-
trar amor cristão genuíno para cumprir o resumo do Decálogo: amar a
Deus de coração, mente e alma, e amar seu próximo como a si mesmo
(Mt 22.37-39). Na verdade, Agostinho expressa um comentário nesse
sentido: “Enquanto você amar Deus e seu próximo, você pode fazer
qualquer coisa que desejar e não cairá em pecado”.
Nota Adicional sobre 8.10
O Concílio de Jerusalém estipulou que os cristãos gentios deveriam
abster-se de alimento sacrificado a ídolos (At 15.29). Mas em Corinto,
Paulo permitia que os cristãos entrassem num templo e participassem de
festas celebradas numa de suas salas de jantar. O consentimento de Paulo
nesse capítulo parece ser contraditório, especialmente porque ele proibiu
comer carne sacrificial em 10.14-22.
Será que Paulo é complacente num capítulo (8.10) e rigoroso em ou-
tro (10.18-22)? Dificilmente. O que Paulo tenta fazer é seguir na linha
estreita do meio entre permitir a liberdade cristã e fortalecer a consciência
34. John C. Brunt, “Rejected, Ignored, or Misunderstood? The Fate of Paul’s Approach to
the Problem of Food Offered to Idols in Early Christianity”, NTS 31 (1985): 113-24.
1 CORÍNTIOS 8.13
390
dos fracos. Em outras palavras, no capítulo 8 Paulo se dirige aos fortes,
mas no capítulo 10 aos fracos.
A carne sacrificial em si não é prejudicial. Se cristãos assistissem a
uma festa onde essa carne era servida, estavam livres para participar, con-
tanto que não ferissem a consciência dos cristãos mais fracos. Mas sem-
pre que o fato de comer carne estivesse diretamente associado com a ido-
latria, Paulo condenava a prática (10.7, 14). Quando um cristão se tornava
participante de idolatria (10.18, 20), ele forjava uma associação espiritual
com um ídolo e assim tornava-se um idólatra. Sempre que gentios adora-
vam a um ídolo, o cristão não deveria ter nada com eles. Devia saber que
Deus é um Deus zeloso (Êx 20.4; Dt 5.8). Nas palavras de Tiago: “Infiéis,
não compreendem que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele,
pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tia-
go 4.4).
Considerações Práticas em 8.12
No mundo de hoje, o pecado não é levado a sério. Muitas vezes é
considerado divertido, especialmente quando relacionado com a imorali-
dade sexual. Quando a mídia menciona escapadas sexuais de pessoas im-
portantes, a expressão usada não é “pecado”, e sim “uma fraqueza de
caráter”. Na verdade, o pensamento parece ser que o termo “pecado” não
deve ser aplicado para ninguém porque pode prejudicar a reputação da
pessoa. Embora a conseqüência do pecado seja evidente, as pessoas gos-
tam de fingir que não há nada de errado.
Em muitas partes do mundo, o pecado é um embaraço para o ofensor
quando seu ato torna-se conhecido por todos. A vergonha pode ser remo-
vida por um ato de restauração, dando à parte ofendida um presente apro-
priado. Se a ofensa continuar não descoberta, a pessoa culpada continua a
agir como se nada tivesse acontecido.
No mundo greco-romano do tempo de Paulo, o pecado era uma ques-
tão de frustração. O pecado era comparado a um flecheiro que erra o alvo
e assim tem a experiência de fracasso. O pecado, portanto, era uma falta
de habilidade que o treinamento contínuo poderia superar. Não era algo
que fosse levado a sério.
As Escrituras, no entanto, ensinam que o pecado é uma afronta pesso-
al a Deus e uma transgressão das leis que ele estabeleceu. Pecar é ultra-
passar os limites legais dentro dos quais devemos viver e trabalhar. O
1 CORÍNTIOS 8.12
391
pecado é um insulto a Deus porque nós escolhemos não mais servir a ele,
mas a um ídolo. E a idolatria nada mais é do que adultério espiritual. Deus
ama seu povo como um noivo ama sua noiva. Em lugar de amá-lo como
nosso cônjuge, nós nos voltamos a ídolos e cometemos adultério.
O pecado só pode ser perdoado por meio do derramamento de san-
gue – na era do Antigo Testamento o sangue de animais prefigurava o de
Cristo. Na era do Novo Testamento, o pecador é limpo por meio do san-
gue de Cristo derramado no Gólgota. Como o escritor da Epístola aos
Hebreus tão bem o coloca: “sem derramamento de sangue, não há per-
dão” (Hb 9.22).
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 8.9-13
Versículos 9,10
µ -,eucta u¡æ| au:µ – a ordem de palavras dessa frase é enfática:
“este direito seu”. O substantivo -,eucta refere-se à liberdade de alguns
coríntios para comer carne sacrificial (comparar também com 9.4-6, 12,
18; 11.10).
-a| ,a¡ :t, teµ c- – a sentença condicional com o subjuntivo aoristo
expressa probabilidade: “se alguém o vir”. Mas o contexto dessa passa-
gem parece indicar que comer numa sala de jantar do templo era uma
ocorrência freqüente.
eu,t – com essa partícula negativa, Paulo faz uma pergunta retórica
que exige uma resposta positiva. A cláusula em si revela um quê de ironia.
-t, :e...-còt-t| – esse presente do infinitivo de propósito expressa o
efeito sobre o irmão fraco, “dar-lhe coragem para comer”.
Versículo 12
a¡a¡:a|e|:-, – o tempo presente desse particípio (‘pecando”) com o
tempo presente de :ui:e|:-, (ferindo) e o presente do verbo a ¡a¡:a |a:-
(você está pecando), todos transmitem uma impressão de freqüência
sat – essa conjunção é usada no sentido explicativo para particulari-
zar e explicar aquilo que foi dito.
35
35. Friedrich Blass e Albert Debrunner, A Greek Grammar of the New Testament and
Other Early Christian Literature, trad. e rev. por Robert Funk (Chicago: University of
Chicago Press, 1961), #442.9.
1 CORÍNTIOS 8.9-13
392
acò-|euca| – observe que Paulo usa não o adjetivo acò-|µ, (fraco),
mas o particípio presente ativo no acusativo feminino singular do verbo
acò-|-æ (ser fraco). O particípio mostra ação descritiva.
Versículo 13
etei-¡ – uma combinação de ete (portanto) e da partícula enclítica
-i-¡ que acrescenta força intensiva ou extensiva. Aqui ela enfatiza a cone-
xão das cláusulas envolvidas.
36
-t ¡¡æ¡a – a partícula introduz uma sentença condicional de simples
fato que expressa realidade e certeza. O substantivo é escolhido proposi-
talmente para indicar qualquer tipo de comida sólida.
Resumo do Capítulo 8
A carta que Paulo havia recebido dos coríntios continha muitas
perguntas. Ele responde à pergunta sobre a comida oferecida a ídolos e
mostra como é insuficiente declarar que um ídolo nada é. Os coríntios
sabem que há um só Deus, o Pai, que criou todas as coisas, e sabem que
há um Senhor Jesus Cristo. Embora Deus e Jesus Cristo sejam conhe-
cidos, o fato de que ídolos nada são não é plenamente conhecido. Al-
gumas pessoas ainda estão sob o peso da idolatria, dos ídolos e da
comida oferecida a eles. Essas pessoas têm a consciência fraca, que se
torna contaminada. Contudo a comida por si só não tem nenhum valor
religioso.
A liberdade que alguns coríntios exercitam, no entanto, poderá ser
pedra de tropeço para os fracos. Paulo os avisa que não desencami-
nhem nenhum irmão quando comem alimento no templo de um ídolo.
Se eles esmagam a consciência de um irmão fraco, eles pecam contra
seus irmãos e contra Cristo. O próprio Paulo está pronto para abster-se
de comer carne a fim de evitar que um irmão fraco caia em pecado.
36. C. F. D. Moule, An Idiom-Book of New Testament Greek, 2d ed. (Cambridge:Cambridge
University Press, 1960), p. 164.
1 CORÍNTIOS 8
393
9
Apóstolos e Direitos
(9.1-27)
394
ESBOÇO (continuação)
9.1-27
9.1-12
9.1,2
9.3-6
9.7-12
9.13-18
9.13,14
9.15-18
9.19-27
9.19-23
9.24-27
C. Apóstolos e Direitos
1. Direitos Apostólicos
a. Marcas do Apostolado
b. Defesa
c. Serviço
2. Capitulação de Direitos
a. Remuneração
b. Recompensa
3. Liberdade Apostólica
a. A Estratégia de Paulo
b. As Ilustrações de Paulo
395
CAPÍTULO 9
9
1. Não sou eu livre? Não sou um apóstolo? Eu não vi Jesus nosso Senhor?
Vocês não são meu trabalho no Senhor? 2. Se não sou um apóstolo para ou-
tros, pelo menos para vocês eu sou. Pois vocês são o selo de meu apostolado no
Senhor.
3. Minha defesa diante daqueles que me examinam é esta: 4. Nós não temos
o direito de comer e beber? 5. Não temos o direito de levar conosco uma esposa
crente como os outros apóstolos e os irmãos do Senhor e Cefas fazem? 6. Barnabé
e eu não temos o direito de abster-nos de trabalho físico?
7. Quem presta serviço no exército à própria custa? Quem planta um vinhedo
e não come do seu fruto? Ou quem cuida de um rebanho e não bebe leite dele? 8.
Não falo estas coisas como homem, falo? Ou a lei não diz estas coisas? 9. Porque
na lei de Moisés está escrito:
“Não atarás a boca ao boi quando debulha”.
Deus não se preocupa com bois, não é? 10. Ou ele está realmente falando por
causa de nós? Pois por causa de nós está escrito, porque o lavrador deve arar com
esperança, e o debulhador deve debulhar com esperança de compartilhar da co-
lheita. 11. Se semeamos coisas espirituais para vocês, será grande coisa se rece-
bermos de vocês uma colheita de coisas materiais? 12. Se outros compartilham
desse direito [de sustento] sobre vocês, será que não o possuímos ainda mais?
Contudo, nós não usamos desse direito, mas suportamos todas as coisas para não
criarmos obstáculos ao evangelho de Cristo.
13. Vocês não sabem que aqueles que ministram os santos cultos comem a
comida do templo? E aqueles que servem no altar regularmente participam das
ofertas que estão sobre o altar? 14. Assim também o Senhor orientou aqueles que
pregam o evangelho a obterem seu sustento do evangelho.
15. Mas eu não tenho usado nenhum desses privilégios. E não escrevo estas
coisas para que desta maneira saiam em meu beneficio. Pois eu preferiria antes
morrer do que.... Ninguém invalidará meu motivo de me gloriar. 16. Porque se
prego o evangelho, não tenho nada de que me gabar. Sou obrigado a pregar, pois
ai de mim se não pregar o evangelho. 17. Se faço isso por escolha própria, eu
tenho uma recompensa. Mas se o faço por peso da obrigação, eu simplesmente
396 1 CORÍNTIOS 9.1
cumpro o serviço de despenseiro que me foi confiado. 18. Qual é, então, minha
recompensa? Quando prego o evangelho, eu o ofereço de graça para que não faça
uso pleno de minha autoridade no evangelho.
19. Porque embora seja livre de todos os homens, eu fui escravo de todos
para ganhar tantas pessoas quanto possível. 20. Com os judeus eu me conduzi
como judeu para ganhar os judeus; com aqueles que estão sob a lei eu me tornei
como alguém sob a lei, embora eu mesmo não esteja sob a lei, para ganhar aqueles
que estão sob a lei. 21 Com aqueles que estão sem a lei eu me tornei como alguém
sem a lei, embora eu não esteja sem a lei de Deus, mas sob a lei de Cristo, para
ganhar os que estão sem a lei. 22. Para aqueles que são fracos eu me tornei fraco
para ganhar os fracos. Eu me tornei todas as coisas para todos os homens para que
por todos os meios eu possa salvar alguns. 23. E eu faço todas as coisas por amor
ao evangelho para que eu possa compartilhar nele juntamente.
24. Vocês não sabem que aqueles que correm em uma corrida estão todos
correndo, mas só um recebe o prêmio? Assim corram a corrida para que possam
vencer. 25. E todos os que competem nos jogos exercem o autocontrole em todos
os aspectos. Fazem isso para receber uma coroa perecível, mas nós uma coroa
imperecível. 26. De fato, eu corro de maneira a não perder a meta; eu esmurro de
forma a não bater no ar. 27. Mas eu trato meu corpo duramente e o escravizo, para
que depois de ter proclamado o evangelho a outros, eu mesmo não fique desqua-
lificado.
C. Apóstolos e Direitos
9.1-27
O capítulo 9 parece ser um interlúdio ou uma parte de uma discus-
são do capítulo 8 e 10.14-30, mas examinando a questão mais de perto
observamos que em 8-10 Paulo desenvolve o conceito de liberdade de
escolha ou direito, que ele havia mencionado explicitamente no capí-
tulo anterior (8.9). O tema desse capítulo é a liberdade de escolha cris-
tã, e nele Paulo relaciona o conceito a seu apostolado, vida social (9.4,5)
e trabalho na igreja (9.12, 18). Paulo possui a liberdade cristã de esco-
lha, porque ele tem direitos apostólicos. Mas pela causa do evangelho
ele muitas vezes se recusa a exercer sua liberdade. Ele quer que os
crentes em Corinto ajam de modo semelhante e vivam de tal maneira
que o Senhor seja honrado e seus irmãos na igreja sejam edificados.
Paulo também quer evitar que seus leitores digam que ele está des-
ligado dos problemas da comunidade e não fala sobre eles. Para ser
preciso, alguns dos coríntios até chamaram suas palavras de insignifi-
cantes (2Co 10.10).
397 1 CORÍNTIOS 9.1
1. Direitos Apostólicos
9.1-12
a. Marcas do Apostolado
9.1,2
1. Não sou eu livre? Não sou um apóstolo?
1
Eu não vi Jesus
nosso Senhor? Vocês não são meu trabalho no Senhor?
Paulo propõe uma série de quatro perguntas que se relacionam à
sua vida e apostolado e que exigem respostas positivas. A pergunta
inicial, “Não sou eu livre?”, forma uma ponte natural entre o último
versículo do capítulo anterior (8.13) e esse versículo.
2
Essa pergunta
nada tem que ver com a questão do escravo e do homem livre (7.21-
23). Antes, trata da liberdade que Paulo gozava em Jesus Cristo. Fa-
zendo uma pergunta que exige resposta positiva, ele se defende contra
qualquer pessoa que discordasse dele. Pelos relacionamentos de Paulo
com os coríntios no passado, eles precisavam reconhecer sua liberda-
de, particularmente quanto a comer e beber com eles (comparar com
Gl 2.11-16).
“Não sou um apóstolo?” (comparar com 1.1). Indignado, Paulo
enfrenta a crítica à sua posição de apóstolo. Desde sua conversão, ele
sabia que seus opositores o haviam criticado. Diziam que ele não podia
satisfazer as exigências apostólicas delineadas quando os apóstolos ti-
raram sortes para escolher Matias como sucessor de Judas. Um apósto-
lo precisava ter seguido Jesus do tempo de seu batismo no Rio Jordão
até sua ascensão no Monte das Oliveiras e tinha de ter testemunhado a
ressurreição de Jesus (At 1.21-26). Paulo não fazia parte dos Doze e
lhe faltava o ensino que Jesus lhes tinha dado. Mas ele sabia que Jesus
o havia chamado para ser um apóstolo aos gentios (At 9.15; 22.21;
26.16-18).
“Eu não vi Jesus nosso Senhor?” Paulo defende seu apostolado
com base na sua experiência na estrada de Damasco, uma experiência
1. Os principais manuscritos gregos têm a leitura: “Não sou eu livre, não sou um apósto-
lo?” O Texto Majoritário inverte a ordem (ver KJV, NKJV).
2. Gordon D. Fee sugere que o contexto do capítulo 9 é uma parte integral da resposta de
Paulo à carta escrita a ele pelos coríntios. The First Epistle to the Corinthians, New Interna-
tional Commentary on the New Testament series (Grand Rapids: Eerdmans,1987), p. 393.
398
que confirmou a ressurreição de Jesus. Ninguém em Corinto podia
afirmar ser ignorante da experiência de conversão de Paulo e de como
Jesus lhe apareceu pessoalmente (15.8; Gl 1.12, 15,16). Presumimos
que eles conheciam muito bem esse relato.
Nessa sentença, Paulo escolhe as palavras cuidadosamente. Ele
escreve a palavra Jesus, não Cristo, para se referir ao Jesus histórico
de Nazaré.
3
Quando Paulo usa um nome apenas, ele retrata o Jesus
terreno (por ex., 12.3; 2Co 4.10-14; Ef 4.21; Fp 2.10; 1Ts 4.14). E
Paulo acrescenta o título descritivo nosso Senhor para enfatizar que só
o Senhor pode nomear alguém ao apostolado. O pronome nosso de-
monstra que Paulo e os coríntios têm um elo comum em Jesus.
“Vocês não são meu trabalho no Senhor?” Os próprios coríntios
tinham de admitir que se Paulo não tivesse proclamado o evangelho de
Cristo, eles ainda estariam vivendo em trevas espirituais. Como cris-
tãos gentios, eles próprios eram uma prova positiva de que Paulo era
um apóstolo aos gentios. A obra de fundar uma igreja não é empreendi-
mento humano que possa ser executado à parte do Senhor; só pode ser
feita “no Senhor”.
2. Se não sou um apóstolo para outros, pelo menos para vocês
eu sou. Pois vocês são o selo de meu apostolado no Senhor.
Como ex-perseguidor da igreja, Paulo reconhecia que a Igreja Cristã
poria em dúvida seu apostolado (ver, por ex., 2Co 10.1-11; 12.11-21;
13.1-10; Gl 1.1, 22,23). Durante sua ausência da congregação coríntia,
a questão sobre se ele era um apóstolo ou um impostor tinha sido le-
vantada.
Quem eram essas pessoas que semeavam dúvida no coração dos
crentes? Eram os judaizantes que instigavam a tensão entre os corínti-
os e se recusavam a reconhecer o apostolado de Paulo?
4
Teríamos es-
perado que Paulo fornecesse mais detalhes (comparar, por ex., com Gl
1.6,7; 5.10), mas falta evidência conclusiva. Quem quer que tenham
sido, aqueles que Paulo chama de “outros” não são membros da igreja
3. O Texto Majoritário apresenta o nome duplo Jesus Cristo, mas a palavra Cristo não tem
apoio dos manuscritos.
4. Consultar Derk W. Oostendorp, Another Jesus: A Gospel of Jewish-Christian Superio-
rity in II Corinthians (Kampen: Kok, 1967), p. 82.
1 CORÍNTIOS 9.2
399
de Corinto. Ele não é um apóstolo para eles, mas decididamente ele é
um apóstolo aos coríntios. João Calvino faz uma paráfrase do objetivo
de Paulo: “Se há alguns que têm dúvidas sobre meu apostolado, isso
não deve acontecer no caso de vocês, contudo; porque desde que fun-
dei sua igreja por meu ministério, ou vocês não são crentes, ou vocês
são obrigados a reconhecer-me como sendo um apóstolo”.
5
A certeza de Paulo se acha no selo do seu apostolado que ele rece-
beu do Senhor. Com a palavra selo, ele identifica a igreja de Corinto.
Seus membros confirmam sua autoridade apostólica e são o selo de
seu apostolado autêntico. Na verdade, eles são sua carta de recomen-
dação (2 Co 3.2).
6
As credenciais de Paulo são válidas porque a própria
comunidade coríntia as atesta. Além do mais, com uma sentença con-
dicional – “Se não sou um apóstolo para outros, pelo menos para vocês
eu sou” – Paulo declara a realidade da situação.
Mais uma vez Paulo usa a expressão preposicional no Senhor
(ver v. 1). Ele observa que os crentes coríntios habitam na esfera do
Senhor. Por inferência, se o Senhor nomeia Paulo para ser um apósto-
lo, então aqueles que estão no Senhor inevitavelmente validam seu
apostolado.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 9.1,2
eu,t – em lugar da partícula negativa eus, que ele usou para as duas
primeiras perguntas, Paulo agora escreve eu,t para acentuar um tom mais
incisivo na terceira pergunta.
-| su¡tæ – a preposição não é instrumental; é locativa e indica rela-
cionamento.
aììa ,- u¡t| -t¡t – a adversativa a ììa e a partícula ,- modificam o
tom da apódose nessa sentença condicional de fato simples “para vocês
pelo menos eu sou”.
5. João Calvino, The First Epistle of Paul the Apostle to the Corinthians, série Calvin’s
Commentaries, trad. por John W. Fraser (reedição: Grand Rapids: Eerdmans, 1976), p. 184.
6. Reinier Schippers, NIDNTT, vol. 3, p. 499; Gottfried Fitzer, TDNT, vol. 7, pp. 948-49.
1 CORÍNTIOS 9.1, 2
400
b. Defesa
9.3-6
3. Minha defesa diante daqueles que me examinam é esta: 4
Nós não temos o direito de comer e beber?
a. Divisão textual. A palavra esta pode referir-se ou aos dois versí-
culos anteriores (vs. 1,2) ou aos dois versículos seguintes (vs. 4,5). Os
estudiosos que ligam o versículo 3 aos que antecedem aplicam o termo
esta ao apostolado de Paulo que está selado pela igreja de Corinto.
7
Inversamente, aqueles que vêem o versículo 3 como começo de um
novo parágrafo colocam dois pontos depois de “esta” e o aplicam aos
direitos apostólicos de Paulo.
8
Das duas interpretações, a segunda é a
preferida porque o contexto geral enfatiza os direitos de Paulo.
b. Defesa. Uma segunda dificuldade tem que ver com as palavras
de Paulo minha defesa. Será que está escrevendo sobre um tribunal ao
qual foi chamado para prestar contas (ver 4.3; At 22.1)? O fato de que
o vocabulário é emprestado do campo legal parece exigir uma resposta
afirmativa. Mas tendo em vista a distância geográfica que separava
Paulo de seus interrogadores (de Éfeso a Corinto), imaginamos que
Paulo tenha falado de modo figurado.
No contexto da epístola, por que Paulo fala de defesa? Por Paulo
ser judeu e não gentio, os cristãos gentios consideravam que ele estava
preso às leis alimentares de Moisés. Declarando que ele se privaria de
comer carne, ele efetivamente barrou a possibilidade de consumir car-
ne sacrificial. Ele defende sua liberdade de não exercer seus direitos.
Os versículos seguintes fornecem a resposta que Paulo tem o direito à
comida, à bebida, ao companheirismo e ao sustento (vs. 4,5, 12). Mas
ele se recusa a reivindicar esse direito porque deseja incrementar a
causa do evangelho. Ele estimula a comunhão cristã à mesa, mas se
recusa a comer carne sacrificial para evitar ferir a consciência de um
irmão. Como cristão remido por Jesus Cristo, ele está livre da lei mo-
saica, mas escolhe não se valer dessa liberdade. Ele tem o direito de ter
7. Entre outros, ver Leon Morris, The First Epistle of Paul to the Corinthians: An Intro-
duction and Commentary, série Tyndale New Testament Commentary, 2ª ed. (Leicester:
Inter-Varsity; Grand Rapids: Eerdmans, 1985), p. 130. Ver TNT, Phillips.
8. Por exemplo, John C. Hurd, Jr., The Origin of I Corinthians (Macon, Ga.:Mercer Uni-
versity Press, 1983), p. 109.
1 CORÍNTIOS 9.3, 4
401
uma esposa para acompanhá-lo, mas opta por ficar solteiro para que
nada o impeça de pregar e ensinar o evangelho.
Segundo a ordem do Senhor, que um trabalhador merece seu salá-
rio (Lc 10.7; 1Tm 5.18), os coríntios que receberam os ensinos de Pau-
lo eram obrigados a sustentá-lo financeiramente. Mas quando Paulo
morou em Corinto, na casa de Áqüila e Priscila, ele exerceu seu ofício
de fabricar tendas para sustentar-se (At 18.2,3). Com respeito a pregar
o evangelho de Cristo, Paulo informou aos coríntios claramente que
ele oferecia seus préstimos de graça (v. 18).
c. Dúvidas. O fato de que Paulo se recusou a exercer seus direitos
fez com que alguns crentes levantassem dúvidas acerca de sua condu-
ta. A resposta de Paulo a essas perguntas era que ele, por assim dizer,
enfrentava um processo durante o qual os interrogadores faziam per-
guntas sobre seu comportamento. Talvez esses críticos estivessem pro-
curando um apóstolo cuja conduta preenchesse todas as suas expecta-
tivas. Tratava-se de uma minoria que tinha voz na congregação, mas
essas pessoas não conseguiam intimidar Paulo, que apresentou sua
defesa com ousadia e promoveu a causa de Cristo.
Paulo pergunta aos adversários se ele tem o direito de comer e
beber. Essa pergunta exige resposta afirmativa, isto é, a igreja tinha de
providenciar cama e mesa para ele como recompensa pelos trabalhos
que ele realizava em seu meio.
9
Embora haja razão para ligar esse ver-
sículo (v. 4) a 8.9, onde a palavra direito ocorre numa discussão sobre
liberdade de comer carne, somos inclinados a ver o contexto seguinte
em vez do contexto antecedente. Paulo não fala mais de alimento sa-
crificado, e sim de comer e beber à custa da igreja de Corinto. Nos
versículos seguintes, ele informa aos leitores que não usou seu privilé-
gio de ter apoio financeiro (vs. 15-18).
Falta-nos suficiente informação sobre as acusações específicas que
os adversários de Paulo estavam fazendo contra ele. Nossas explica-
ções, então, se baseiam em conjunturas, não em evidências específicas.
5. Não temos o direito de levar conosco uma esposa crente como
os outros apóstolos e os irmãos do Senhor e Cefas fazem?
9. Ver Wilhelm Pratscher, “Des Verzicht des Paulus anf Finanziellen Unterhalt Durch
Seine Gemeinden: Ein Aspeld Seiner Missionsweise”, NTS 25 (1979):284-98.
1 CORÍNTIOS 9.5
402
a. “Não temos o direito de levar conosco uma esposa crente?”.
Uma tradução literal do grego é “uma irmã (no Senhor), uma esposa”,
que numa tradução elegante se torna “uma esposa crente”. Paulo per-
gunta aos coríntios se ele tem o direito de viajar com uma esposa cren-
te. Terão de concordar que ele tem o direito de casar-se e ter uma espo-
sa como companheira de viagem.
10
Se Paulo havia sido casado em al-
guma época, é difícil determinar. Mas, à vista de seu conhecimento das
intimidades da vida de casado (ver o comentário sobre 7.1-9), é plausí-
vel supor que ele já havia sido casado.
A intimidade entre marido e mulher é fortalecida pelo elo comum que
o casal possui como crentes em Jesus Cristo. E um casal missionário se dá
completamente à obra de expandir a Igreja. Se Paulo tivesse uma esposa
para acompanhá-lo, ela teria sofrido naufrágio, ela teria vivido a falta de
comida e bebida e teria tido roupa insuficiente (ver 2Co 11.23-28).
b. “Como os outros apóstolos e os irmãos do Senhor e Cefas fa-
zem.” Mesmo sendo Atos conhecido como Atos dos Apóstolos, o livro
só tem relatos de dois apóstolos, Pedro e Paulo (João é mencionado
incidentalmente). Não sabemos nada pela Escritura sobre a vida e as
viagens dos outros que pertenciam aos Doze. Quando Paulo menciona
“os outros apóstolos”, ele dá a entender que estava bem informado
sobre suas viagens e circunstâncias familiares, assim como os corínti-
os. À parte da tradição, que diz que Tomé viajou chegando até à Índia,
sabemos pouco sobre a obra dos apóstolos. Imaginamos que Paulo es-
teja pensando nos Doze, e não num círculo maior de apóstolos que
incluísse Barnabé, Andrônico e Júnias (At 14.3, 14; Rm 16.7; 1Ts 3.6).
Os irmãos do Senhor são aqueles que Mateus e Marcos mencio-
nam em seus evangelhos: Tiago, José, Simão e Judas (Mt 13.55; Mc
6.3). Eles são meio-irmãos de Jesus, os quais, como João conta, não
criam em Jesus durante seu ministério terreno (Jo 7.5). Mas depois de
sua ressurreição, Jesus apareceu para Tiago (1Co 15.7). No dia da as-
censão de Jesus, seus irmãos, com sua mãe, Maria, e as outras mulhe-
res se reuniam com os onze apóstolos no cenáculo (At 1.14). Fora do
livro de Atos e das epístolas de Tiago e Judas, nada sabemos a respeito
do trabalho dos irmãos de Jesus.
10. Johannes B. Bauer, “Uxores Circumducere” (1Kor 9.5)”. BibZ 3 (1959): 94-102.
1 CORÍNTIOS 9.5
403
O nome Cefas, naturalmente, é o nome aramaico de Pedro (Jo 1.42).
Os escritores dos Evangelhos descrevem Jesus curando a sogra de Pe-
dro em Cafarnaum (Mt 8.14,15; Mc 1.29-31; Lc 4.38,39). Agora Paulo
relata que Pedro levava sua esposa consigo nas viagens missionárias.
Não temos como verificar se Pedro tinha estado em Corinto em qual-
quer época. Por Paulo mencioná-lo repetidamente nessa carta,
11
e aqui
ainda referir-se à sua esposa, presumimos que Pedro havia visitado a
igreja em Corinto.
6. Barnabé e eu não temos o direito de abster-nos de trabalho
físico?
Se interpretarmos a primeira pergunta de Paulo a respeito de comi-
da e bebida como tendo o sentido de que a igreja era obrigada a forne-
cer comida e bebida aos apóstolos, então ela corresponde a essa tercei-
ra pergunta. Aqui Paulo pergunta se Barnabé e ele têm o direito de
fazer exclusivamente trabalho espiritual, e a resposta à pergunta é um
sonoro sim. Se Paulo e Barnabé estão ocupados nisso, a igreja terá de
sustentá-los financeiramente. Mas como se encaixa nesse contexto a
segunda pergunta? Estivesse Paulo casado, a igreja seria obrigada a
sustentar ambos, ele e a esposa – um peso financeiro extra para a igreja.
Por que Paulo menciona Barnabé? Paulo tinha tido um desentendi-
mento com Barnabé em Antioquia da Síria (At 15.39,40), o que causou
uma separação entre os dois cooperadores. Contudo, Paulo menciona
Barnabé em sua carta às igrejas na Galácia (ver Gl 2.1-13). Se disser-
mos que Paulo escreveu essa epístola depois do episódio infeliz em
Antioquia, inferimos que o relacionamento de Paulo com seu colega
Barnabé estava restaurado. Barnabé foi o companheiro de Paulo em
sua primeira viagem missionária até Chipre e sul da Ásia Menor, Ma-
cedônia e Grécia. (Durante a segunda viagem de Paulo à Ásia Menor,
Macedônia e Grécia, Silas o acompanhou). Não temos prova de que
Barnabé tenha visitado a igreja de Corinto. Mas temos toda razão para
crer que, uma vez resolvido o rompimento entre esses dois amigos,
eles se encontraram outra vez, talvez até mesmo em Corinto.
Tanto Barnabé como levita e Paulo como fariseu tinham aprendido
um ofício para poderem se sustentar. Sabemos que Paulo fabricava
11. 1Coríntios 1.12; 3.22; 9.5; 15.5.
1 CORÍNTIOS 9.6
404
tendas, mas não temos informações sobre o ofício de Barnabé. Sabe-
mos que a cultura grega desprezava o trabalho físico; contudo, Paulo,
que tinha o nível de professor, trabalhava com suas próprias mãos para
gerar sustento financeiro. Não é de admirar que o choque de cenários
culturais diferentes tenha feito com que as pessoas de Corinto fizes-
sem perguntas sobre a conduta de Paulo. Ele tinha o direito de pedir
sustento, mas se recusava a valer-se desse direito.
12
Considerações Práticas em 9.3-6
Quando Deus instituiu o sacerdócio em Israel, ele também instituiu o
dízimo. Os sacerdotes e levitas não receberiam nenhuma herança na terra
prometida. Eles tinham de coletar um dízimo dos outros israelitas para
seu sustento e para a manutenção do tabernáculo e seus trabalhos.
13
Em
toda a era do Antigo Testamento, os descendentes de Levi foram sustenta-
dos pelos dízimos do povo de Deus. Nos dias de Jesus, a prática do dízi-
mo era observada rigorosamente, de modo especial pelos fariseus (Mt
23.23). Até mesmo a viúva pobre lançou no gazofilácio do templo suas
duas moedinhas (Mc 12.41-44) e assim deu tudo quanto ela possuía.
Quando Jesus enviou seus discípulos dois a dois, ele os instruiu a não
levarem dinheiro, comida ou sacola (Mt 10.5-9; Mc 6.7-11; Lc 9.3-5).
Disse-lhes que o trabalhador é digno de seu salário, o que era a sua segu-
rança de que Deus providenciaria para eles o suprimento de todas as suas
necessidades. Ele deu a regra de que um trabalhador no reino de Deus
deve receber sua renda do povo de Deus (Lc 10.7).
Sempre que possível, os pastores e missionários devem trabalhar em
tempo integral na pregação e no ensino da Palavra de Deus. Por sua vez,
as pessoas a quem eles servem devem sustentá-los financeiramente, para
que estes pastores e missionários possam cobrir suas necessidades cotidi-
anas. Embora ministérios de confecção de tendas tenham seu lugar e seu
propósito, o povo de Deus deve levantar os fundos necessários para cui-
dar das necessidades dos seus pastores e missionários.
E, para concluir, os membros da igreja expressam seu amor e gratidão
12. Consultar H. P. Nasuti, “The Woes of the Prophets and the Rights of the Apostle: The
Internal Dynamics of 1 Corinthians 9”, CBQ 50 (1988): 246-64.
13. Ver Levítico 27.30-33; Números 18.21, 24, 26-29; Deuteronômio 12.17-19; 14.22-
29; 26.12-15.
1 CORÍNTIOS 9.3-6
405
ao Senhor quando dão com alegria seus dízimo e ofertas (2Co 9.7). De
domingo em domingo apresentam suas dádivas ao Senhor como ato de
culto e esperam que estas sejam usadas para a glória de seu nome.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 9.3-6
Versículo 3
-¡µ – esse adjetivo possessivo (de mim) é mais forte e mais expressi-
vo do que o enclítico ¡eu (meu/minha), especialmente quando colocado
entre o artigo definido µ e o substantivo ieìe,ta (defesa).
au:µ – a posição desse pronome demonstrativo (“esta”) no final do
versículo favorece a interpretação de que ele se refere aos versículos se-
guintes.
Versículos 4,5
¡µ – a partícula negativa no início de cada versículo introduz pergun-
tas retóricas que normalmente pedem uma resposta negativa. No entanto,
nos dois versículos o verbo principal é negado pela partícula eu, de modo
que com a negativa dupla as perguntas retóricas recebem respostas afir-
mativas.
a e-ì|µ | ,u|at sa – a aposição de dois substantivos significa que o
primeiro descreve o segundo: “uma irmã (no Senhor) como esposa”.
Versículo 6
¡e|e, – no singular, o adjetivo se aplica gramaticalmente apenas a
Paulo. Por extensão, contudo, também se aplica a Barnabé.
¡µ -¡,a,-còat – A partícula nega o presente do infinitivo trabalhar.
Não obstante, por causa da partícula comparativa µ no começo do versí-
culo, a sentença depende da negativa ¡µ do versículo anterior (v. 5) e é
uma pergunta retórica. As duas negativas anulam-se mutuamente, de modo
que a pergunta recebe uma resposta positiva.
14
14. Friedrich Blass e Albert Debrunner, A Greek Grammar of the New Testament and
Other Early Christian Literature, trad. e rev. por Robert Funk (Chicago: University of
Chicago Press, 1961), #431.1.
1 CORÍNTIOS 9.3-6
406
c. Serviço
9.7-12
Os estudiosos não são unânimes em determinar as divisões em pa-
rágrafos nessa parte do capítulo. Alguns incluem o versículo 7 com o
segmento anterior (vs. 3-6), outros o colocam no contexto maior (vs. 3-
12), e ainda outros o têm no início de um novo parágrafo (vs. 7-12).
A seção anterior (vs. 3-6) lista três perguntas retóricas que pedem
respostas afirmativas. E, inversamente, o versículo 7 apresenta três per-
guntas que pedem respostas negativas. Nós incluímos o versículo 7
com os versículos 8-12 porque é introdutório para esses versículos. As
perguntas relacionadas à agricultura são reforçadas por uma citação da
lei de Moisés (Dt 25.4) no versículo 9, e Paulo argumenta a partir des-
ses exemplos para falar aos coríntios sobre seu direito de esperar deles
sustento material.
7. Quem presta serviço no exército à própria custa? Quem plan-
ta um vinhedo e não come do seu fruto? Ou quem cuida de um
rebanho e não bebe leite dele?
a. “Quem presta serviço no exército à própria custa?” Essa é a pri-
meira de três perguntas nesse versículo que exigem resposta negativa.
Um soldado recebia provisões de seu superior, que tinha de suprir suas
tropas com as necessidades da vida – suprimentos que conseguia de
estoques do governo ou das nações vencidas. Se falhasse nessa tarefa,
suas tropas se revoltariam. Nenhum soldado prestaria serviço num exér-
cito à sua própria custa.
15
Isso seria impensável.
Paulo não está pedindo aos coríntios um salário, mas com esse
exemplo ele defende seu direito às necessidades básicas. “Salário” não
é uma boa tradução [nesse texto] porque... ninguém pode pagar um
salário para si próprio”.
16
b. “Quem planta um vinhedo e não come do seu fruto?”. Essa per-
gunta também recebe uma resposta negativa. O exemplo é tirado do
cenário agrícola, que era bem conhecido pelos leitores da epístola. As
15. Bauer, p. 602.
16. Chrys C. Caragounis, “OYWNION: A Reconsideration of Its Meaning”, NovT 16 (1974):
52. Ver também Oswald Becker, NIDNTT, vol. 3, pp. 144-45; Hans Wolfgang Heidland,
TDNT, Vol. 5, P. 592.
1 CORÍNTIOS 9.7
407
palavras lembram um ditado proverbial da lei mosaica: “Qual o ho-
mem que plantou uma vinha e ainda não a desfrutou?” (Dt 20.6).
c. “Ou quem cuida de um rebanho e não bebe leite dele?”. Todos
responderão: ninguém. O pastor desfruta de um suprimento diário de
leite de seus animais e ele pode alimentar-se e também sua família com
os produtos derivados do leite.
Esses três exemplos, o do soldado, do lavrador e do pastor não têm
que ver só com a cultura do tempo apostólico; na Escritura, o povo de
Deus é muitas vezes retratado como sendo um exército, uma vinha e
um rebanho.
17
Com essas três ilustrações da vida diária, Paulo prova o
claríssimo fato de que ele merece sustento financeiro por seu trabalho
entre os coríntios.
8. Não falo estas coisas como homem, falo? Ou a lei não diz
estas coisas? 9a. Porque na lei de Moisés está escrito:
“Não atarás a boca ao boi quando debulha”.
a. “Não falo estas coisas como homem, falo?”. O versículo 8 refe-
re-se ao mundo no qual nos movemos no dia a dia e lembra aos leitores
dos exemplos que Paulo deu no versículo 7. Exemplos da vida são
instrutivos, mas Paulo não baseia seu argumento somente nas observa-
ções auto-evidentes.
b. “Ou a lei não diz estas coisas?” Como faz repetidamente nessa
epístola, Paulo se volta para a Escritura.
18
A Palavra de Deus é funda-
mental; portanto, quando Paulo ensina, ele cita a Bíblia com freqüên-
cia. A expressão lei é explicada aqui como sendo a lei de Moisés. As-
sim, da lei mosaica Paulo tira as palavras: “Não atarás a boca ao boi
quando debulha” (Dt 25.4; ver 1Tm 5.18).
c. “Porque na lei de Moisés está escrito.” Calvino pergunta por que
Paulo não apelou para uma ilustração mais clara da lei mosaica, e apre-
senta o exemplo de um assalariado que vive na pobreza e precisa de
seu salário. Deus diz ao empregador do homem: “No seu dia, lhe darás
o seu salário, antes do pôr-do-sol” (Dt 24.15).
19
Mas Paulo argumenta
17. Frederic Louis Godet, Commentary on First Corinthians (1886; reedição, Grand Ra-
pids: Kregel, 1977), p. 438.
18. 1 Coríntios 1.19,31;2.9, 16; 3.19, 20; 5.13; 6.16; 9.9; 10.7, 26; 14.21; 15.27, 32, 45,
54, 55.
19. Calvino, 1 Corinthians, p. 187.
1 CORÍNTIOS 9.8, 9a
408
do menor para o maior: se Deus quer que o fazendeiro tome conta de
seu animal, ele não requer que o homem cuide melhor ainda de seu
semelhante?
d. “Não atarás a boca ao boi quando debulha.” O fazendeiro israe-
lita espalhava seu grão num terreiro de debulho ao ar livre, que fosse
duro, liso e nivelado. Uma tábua, cujo peso era aumentado com pedras
ou pessoas, era puxada em cima do grão por uma junta de bois ou
cavalos que caminhava em círculo em volta de um poste (comparar
com 2Sm 24.22-24). Às vezes o fazendeiro punha os bois ou cavalos
para pisar o grão com os próprios pés (comparar com Mq 4.12, 13). O
boi podia comer tanto grão quanto quisesse enquanto estava puxando
aquele peso todo. Se um judeu amordaçasse o boi, ele correria o risco
de ser açoitado na sinagoga local.
20
9b. Deus não se preocupa com bois, não é? 10 Ou ele está real-
mente falando por causa de nós? Pois por causa de nós está escrito
que o lavrador deve arar com esperança, e o debulhador deve de-
bulhar com esperança de compartilhar da colheita.
Note estas observações:
a. Preocupação. “Deus não se preocupa com bois, não é?”. A inter-
pretação dessa pergunta deve ser entendida no contexto das Escrituras.
Como Criador deste universo, Deus mantém de momento em momen-
to tudo o que ele fez. Ele dá alimento a todas as suas criaturas, grandes
e pequenas. “Faz crescer a relva para os animais e as plantas, para o
serviço do homem.... Os leõezinhos rugem pela presa e buscam de Deus
o sustento” (Sl 104.14, 21). “Dá o alimento aos animais e aos filhos
dos corvos, quando clamam” (Sl 147.9). Portanto, quando Paulo per-
gunta se Deus está preocupado com bois, ele não está dizendo que
Deus só cuida de pessoas e negligencia os animais.
Deus dá aos homens a ordem de permitir que um boi coma grão. O
homem põe o animal para trabalhar para ele, mas Deus estipula que o
homem deve cuidar do boi porque ele pertence à grande criação de
Deus (ver Pv 12.10; 27.23).
21
Deus está preocupado com o comporta-
20. SB, vol. 3, p. 382.
21. Walter C. Kaiser, Jr., “The Current Crisis in Exegesis and the Apostolic Use of Deute-
ronomy 25.4 in 1 Corinthians 9:8-10”, JETS 21 (1978): 17. Ver G. M. Lee, “Studies in
1 CORÍNTIOS 9.9b, 10
409
mento do homem para com sua criação, porque ele quer que o homem
seja um bom mordomo.
b. Endereçamento. Deus está falando de homens, não de animais.
Paulo pergunta a seus leitores: “Ou ele está realmente falando por cau-
sa de nós?”. A resposta a essa pergunta é enfaticamente afirmativa.
Isso não quer dizer que Paulo não leva em consideração a intenção de
Deus de não amordaçar um boi enquanto ele está debulhando os grãos.
Ao contrário disso, ele ensina que se o homem não cuida adequada-
mente do animal, ele não poderá esperar que ele providencie adequada-
mente para o trabalhador. Mais especificamente, como a Igreja cuida de
seus ministros? A expressão realmente significa que se Deus ordenou
que o homem cuidasse de seus animais, num nível mais elevado, ele
instrui os membros da Igreja a cuidarem dos ministros do evangelho.
c. Argumento. “Pois por causa de nós está escrito.” Com a palavra
pois, Paulo confirma o que esteve ensinando nas frases anteriores. Ele
enfatiza que as Escrituras foram escritas para o homem e dirigidas a
ele; por isso ele repete a expressão por causa de nós. Deus fala ao
homem e ordena que ele escute de modo obediente. No entanto, Paulo
diz que a expressão está escrito se refere à citação do Antigo Testa-
mento do versículo que antecede (v. 9), e não às palavras seguintes.
Quando escreve “porque o lavrador deve arar com esperança, e o de-
bulhador deve debulhar com esperança de compartilhar da colheita”,
ele não está mais citando. As Escrituras não contêm essas palavras.
22
Nós presumimos que Paulo esteja pensando num dito popular que
tenha tido origem numa comunidade rural agrícola. Mas o que Paulo
está tentando dizer? Ele aplica essas palavras figuradamente ao obrei-
ro cristão que, como resultado de trabalho diligente, tem prazer em
compartilhar o produto. Este trabalhador prega e ensina o evangelho e
espera a recompensa de uma colheita. Arar e semear normalmente são
seguidos por debulhar e colher.
Observe a ênfase na expressão com esperança, que ocorre duas
Texts: 1 Corinthians 9.9-10”, Theology 71 (1968): 122-23; D. Instone Brewer, “1 Corinthians
9.9-11: A Literal Interpretation of ‘Do Not Muzzle the Ox’”, NTS 38 (1992): 555-65.
22. Eclesiástico, referindo-se à sabedoria, diz: “Vá a ela como um lavrador que ara e
semeia; então espere os bons frutos que ela fornece. Se você cultivá-la, você trabalhará por
um pouco, mas logo estará desfrutando a colheita [Sir. 6.19, REB].
1 CORÍNTIOS 9.9b, 10
410
vezes.
23
Aquele que ara e semeia deve fazer isso com a esperança de
uma colheita no final. Nessa colheita, tanto ele como aquele que debu-
lha terão parte. Em termos do aguardo esperançoso, o lavrador está no
começo do tempo de lavoura, e o debulhador no final. Ambos estão
cheios de esperança de que possam participar da colheita e apreciar
sua recompensa. No final, a esperança do lavrador torna-se realidade
quando ele colhe a produção e se alegra. O crescimento na natureza
ocorre numa estação em que os meses geralmente podem ser contados
nos dedos de uma mão. O crescimento espiritual, no entanto, leva mais
tempo e exige paciência e cuidados extras. As recompensas são infin-
das e satisfazem além de qualquer medida terrena.
11. Se semearmos coisas espirituais para vocês, será grande
coisa se [nós] recebermos de vocês uma colheita de coisas materiais?
À primeira vista, as palavras do versículo anterior parecem acres-
centar muito pouco ao discurso. Mas o presente texto oferece a neces-
sária explicação. Paulo não está falando sobre o lavrador e o debulha-
dor em si. Ele tem em mente os trabalhadores espirituais na Igreja de
Deus, que devem participar das bênçãos materiais que vêm aos mem-
bros da igreja.
Paulo aplica as palavras desse texto a si mesmo e a seus compa-
nheiros ao usar o pronome pessoal nós. Além disso, ele escreve uma
sentença condicional que reflete um fato verdadeiro. Ele e seus com-
panheiros têm de fato semeado a Palavra espiritual de Deus entre os
coríntios. E agora eles esperam uma resposta espiritual e material dos
membros dessa igreja. A comparação entre coisas que são eternas e
coisas que são temporárias é óbvia, pois os coríntios são, sem dúvida,
beneficiários dos maiores dons (ver Rm 15.27). Se de fato Paulo se-
meou semente espiritual, ele não pode esperar algum bem material em
troca? A pergunta exige uma resposta afirmativa.
12. Se outros compartilham desse direito [de sustento] sobre
vocês, será que não o possuímos ainda mais? Contudo, nós não
usamos desse direito, mas nós suportamos todas as coisas para não
criarmos obstáculos ao evangelho de Cristo.
24
23. O Texto Majoritário tem uma leitura ampliada na segunda parte desse ditado: “E
aquele que debulhar com esperança, deve ser participante de sua esperança” (NKJV).
24. Tradutores diferem aqui quanto às divisões em versículos e parágrafos. Muitos se-
1 CORÍNTIOS 9.11, 12
411
a. “Se outros compartilham desse direito [de sustento] sobre vocês,
será que não o possuímos ainda mais?”. O primeiro ponto que notamos
é que Paulo escreve uma sentença condicional para afirmar as circuns-
tâncias existentes em Corinto. Ele está dizendo que outros estão exer-
cendo seu direito de pedir sustento financeiro. O verbo compartilhar é
uma tradução direta do grego (ver v. 10), que na linguagem comum
pode significar “apreciar”, “gozar”.
25
Depois, o texto grego tem a ex-
pressão pura o direito, mas o contexto exige a explicação adicional de
sustento. E, por último, a palavra vocês significa não um genitivo do
sujeito (“seu, de vocês”), mas um genitivo objetivo (“sobre vocês”).
Quem são as pessoas às quais Paulo se refere indiretamente? A
palavra outros revela que são pessoas que estão na mesma categoria
que Paulo, a saber, aqueles que proclamam o evangelho. Talvez qui-
sesse que pensássemos em Apolo e Pedro, que também ministram. Paulo
escreve que esses homens compartilham do direito de esperar remune-
ração por seu trabalho diário de pregar e instruir.
Ao fazer essa comparação, Paulo está perguntando se ele não de-
veria ter a primeira parte no direito de sustento. Nem Apolo nem Pedro
fundaram a igreja de Corinto. Paulo sim, e os coríntios o consideram
seu pai espiritual (4.15). Se os outros usam o direito a sustento finan-
ceiro, então certamente Paulo pode requerê-lo para si.
b. “Contudo, nós não usamos desse direito.” Quando chegou em
Corinto em sua visita inicial, Paulo ficou com Áqüila e Priscila. Estes
eram fabricantes de tendas como Paulo (At 18.2,3), e portanto habilita-
dos no trabalho em couro. Durante a semana, Paulo ganhava o sufici-
ente para pagar suas despesas. Aos sábados, porém, ele pregava na
sinagoga local. Durante o período de um ano e meio, Paulo pregava e
ensinava os coríntios. Ele havia se recusado a valer-se do direito de ser
sustentado pela igreja que ele fundou e à qual servia. Ao contrário, ele
trabalhava para não ser pesado aos coríntios.
26
À medida que procura-
guem as divisões UBS (GNB, NIV, NRSV, REB) e começam um novo parágrafo com o
versículo 12b. Mas outros terminam o parágrafo atual ou com o versículo 12 (TNT) ou o
versículo 14 (NAB, NJB). Eu sigo Nes-Al.
25. Bauer, p. 514.
26. Comparar com Atos 20.34,35; 2 Coríntios 12.13; 1 Tessalonicenses 2.9, 11; 2 Tessa-
lonicenses 3.8.
1 CORÍNTIOS 9.12
412
va formular diretrizes que promoveriam a causa do evangelho, ele viu
que não poderia escapar à crítica. Se Paulo se recusasse a exercer seu
direito de ser sustentado, seus críticos o acusariam de ser desinteressa-
do, distante. Mas se aceitasse ser sustentado, eles o chamariam de ga-
nancioso.
27
Quando Silas e Timóteo afinal chegaram, Paulo se tornou um pre-
gador do evangelho de tempo integral (At 18.5). Sabemos que esses
homens haviam trazido dádivas financeiras para Paulo das igrejas da
Macedônia, porque ele mesmo escreve: “E quando eu estava entre vo-
cês, e precisava de algo, não me fiz pesado para ninguém, pois os ir-
mãos, quando vieram da Macedônia, supriram o que me faltava; e em
tudo me guardei e continuarei a me guardar de ser pesado para vocês”
(2Co 11.9). A igreja em Filipos o supriu repetidas vezes com ofertas
em dinheiro para ajudá-lo em seu trabalho (Fp 4.14-16). Essa igreja
macedônia foi exemplo para outros com respeito a dádivas voluntári-
as. Paulo não procurava dádivas, mas prontamente deu o crédito devi-
do a essa igreja pelo apoio que ela lhe deu.
c. “Mas nós suportamos todas as coisas para não criarmos obstácu-
los ao evangelho de Cristo.” A adversativa mas dá força a e explica a
adversativa contudo na cláusula anterior.
Com o pronome nós, Paulo sem dúvida inclui seus cooperadores
Silas e Timóteo, que também podem ter trabalhado num ofício para
suprir suas necessidades. Ele e seus cooperadores suportaram todas as
coisas, Paulo escreve. No grego, o verbo suportar tem como primeiro
sentido o ficar quieto por amor a outros (comparar com 13.7, onde o
mesmo verbo grego aparece). Eles agüentaram muitas inconveniênci-
as em benefício do evangelho de Cristo. Eles próprios fariam o máxi-
mo para não se tornarem pedras de tropeço para ninguém que desejas-
se conhecer Jesus Cristo.
Paulo e seus associados fariam qualquer coisa por amor ao evange-
lho. Eles não desejavam que nenhum possível convertido a Cristo pu-
desse jamais dizer que os apóstolos estavam interessados no dinheiro
dele. Seu estilo de vida, então, nunca deveria se tornar impedimento
27. William Hendriksen, Exposition of I and II Thessalonians, série New Testament Com-
mentary (Grand Rapids: Baker, 1955), p. 66.
1 CORÍNTIOS 9.12
413
para os coríntios. A palavra impedimento é um termo militar que tem a
conotação de quebrar uma estrada para impedir o avanço do inimigo
que o está perseguindo.
28
A palavra representa uma interrupção no cur-
so de uma ação, que nesse caso significa a divulgação do evangelho de
Cristo (2Co 6.3). Este evangelho pertence a Cristo e ao mesmo tempo
o proclama.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 9.9-12
Versículos 9,10
ga,r – a partícula afirma a resposta positiva às perguntas retóricas
anteriores (vs. 9b, 10a) no sentido de “com toda a certeza”.
29
sµ¡æc-t, – “você amordaçará”. A evidência de manuscritos para essa
leitura é mais fraca do que para |t¡æc-t,; contudo, com base transcritu-
ral, os estudiosos preferem o texto mais fraco.
30
e:t – essa palavra pode ser ou a conjunção que, o recitativo ou o
causal. A conjunção pode ser explicada no sentido de “isto é” (NEB). Difi-
cilmente podemos transformá-lo em recitativo quando não há na Escritu-
ra nenhuma referência. A maioria dos tradutores dá à palavra uma conota-
ção causal.
31
Versículo 11
-t – três vezes em três cláusulas sucessivas, essa partícula introduz
fatos que são verdadeiros.
µ¡-t, u¡t| – note a justaposição desses dois pronomes pessoais nessa
cláusula e na seguinte (ver também v. 12a). A posição de u¡æ| parece dar
ênfase à idéia possessiva (“suas coisas materiais”).
ca¡stsa – esse adjetivo descreve a aparência e as características da
carne (ver 3.3), isto é, matéria, e se refere a objetos materiais.
28. Thayer, p. 166. Comparar com Archibald Robertson e Alfred Plummer, A Critical and
Exegetical Commentary on the First Epistle of St. Paul to the Corinthians, International
Critical Commentary, 2ª ed. (1911; reedição, Edimburgo: Clark,1975), p. 186.
29. Blass e Debrunner, Greek Grammar, nº 452.2.
30. Bruce M. Metzger, A Textual Commentary on the Greek New Testament, 3ª ed. corri-
gida (Londres e NovaYork: United Bible Societies, 1975), p. 558.
31. Entre as edições do Novo Testamento Grego, somente Nes-Al apresenta o versículo
10b como uma citação. Contudo, a fonte dessa citação não foi localizada, pois Sir 6.19 é
apenas um leve eco.
1 CORÍNTIOS 9.9-12
414
Versículo 12
a ììet – ”outros” da mesma categoria; caso contrário, Paulo poderia
ter usado o adjetivo -:-¡et (diferente).
u¡æ| – o substantivo -,eucta, rege o caso genitivo do pronome, sendo
o sentido resultante “este direito [de sustento] sobre vocês”.
32
O substan-
tivo em si é genitivo por causa do verbo ¡-:-,æ (eu compartilho de).
:eu X¡tc:eu – o genitivo é tanto subjetivo (“de Cristo”) como objeti-
vo (“para Cristo”).
2. Renúncia a Direitos
9.13-18
a. Remuneração
9.13,14
Para os apóstolos e seus auxiliares, a revelação de Deus formava
uma unidade. Admitidamente, o escritor de Hebreus nota que de mui-
tas maneiras e em muitas formas, Deus falou aos pais pelos profetas, e
nesses últimos dias nos falou por intermédio do Filho. Mas é Deus
que, pelos apóstolos, está revelando sua verdade redentora a seu povo
(Hb 1.1, 2).
Quando Paulo escreve sobre receber sustento financeiro do povo
de Deus, ele considera o sistema levítico que Deus havia instituído em
conexão com o templo. Ele vê semelhança entre a ordem de Deus para
o sustento de sacerdotes e levitas e a ordem com respeito à compensa-
ção para os mensageiros do evangelho.
13. Vocês não sabem que aqueles que ministram os santos cul-
tos comem a comida do templo? E aqueles que servem no altar
regularmente participam das ofertas que estão sobre o altar?
a. “Vocês não sabem?”
33
Essa pergunta – uma repreensão – ocorre
em outra parte da primeira carta aos coríntios (3.16). Os leitores deve-
riam ter tido melhor percepção, mas, pelo contrário, revelavam em sua
vida religiosa uma incongruência perturbadora. Paulo lhes tinha dado
32. A. T. Robertson, A Grammar of the Greek New Tetament in the Light of Historical
Research (Nashville: Broadman, 1934), p. 500.
33. Ver 1 Coríntios 6.2, 3, 9, 15,16, 19. Ver também 3.16; 5.6; 9.24.
1 CORÍNTIOS 9.13
415
os ensinos do Antigo Testamento e a mensagem do evangelho. Mas
será que nós podemos esperar que os cristãos gentios de Corinto esti-
vessem familiarizados com as ordens do Antigo Testamento sobre os
sacerdotes e levitas?
34
À vista da comparação do próximo versículo (v.
14), “assim também o Senhor orientou aqueles”, a resposta é afirmati-
va. Os coríntios já deveriam conhecer das Escrituras as prescrições
divinas relacionadas às providências para aqueles que lhes ministra-
vam no serviço de Deus. E já à parte de ensinos da Escritura, os corín-
tios gentios sabiam que os sacerdotes nos templos pagãos recebiam
sua renda das pessoas que vinham para cultuar, embora acontecesse de
essa renda ser usada para fins que não eram comida e roupa.
b. “Que aqueles que ministram os santos cultos comem a comida
do templo?”. Essa parte da sentença expressa uma afirmação geral so-
bre o trabalho e ministério de todos aqueles que estão ligados aos ser-
viços dos templos. Os dízimos e ofertas que as pessoas traziam ao tem-
plo em Jerusalém eram para os sacerdotes e levitas. Como a tribo de
Levi não tinha herança em Israel, Deus estipulou que os descendentes
de Levi recebessem sua renda das ofertas que o povo trazia ao santuá-
rio de Deus (Dt 18.1). A palavra comida se refere às necessidades da
vida e a expressão templo faz referência aos cultos divinos de adora-
ção, especificamente em Israel. Calvino, com perspicácia, observa a
diferença entre o culto nos templos pagãos e no templo em Jerusalém:
“Um argumento derivado do costume dos pagãos certamente teria sido
fraco, pois as rendas dos sacerdotes não eram dedicadas a necessida-
des como comida e roupa, mas sim a mobília e acessórios dispendio-
sos, aparato esplendoroso e luxo extravagante”.
35
c. “E aqueles que servem no altar regularmente participam das ofer-
tas que estão sobre o altar?”. Será que Paulo está intencionalmente
distinguindo entre aqueles que trabalham no pátio e aqueles que ser-
vem no altar? Dificilmente. Como em outros lugares nessa epístola
(por ex., 7.2, 3, 21, 22, 27; 8.6), Paulo faz uma declaração paralela. Ele
se refere ao altar no pátio dos sacerdotes no templo em Jerusalém. Ali
os sacerdotes recebiam uma parte do que era oferecido no altar. Os
34. Ver Levítico 6.8-7.38; Números 18.8-31; Deuteronômio 18.1-5. Ver também SB, vol
3, pp. 300-301.
35. Calvino, I Corinthians, p. 190.
1 CORÍNTIOS 9.13
416
coríntios tinham conhecimento desses regulamentos do templo, mas
reconheciam que os cristãos gentios não precisavam observar essas
leis cerimoniais (comparar com At 15.19-21). Assim mesmo, eles de-
veriam entender que as provisões para os sacerdotes e levitas são as
mesmas para os pregadores do evangelho. Não a forma, mas o princí-
pio por trás dessas providências precisa ser observado. Não deveria
haver diferença nenhuma.
14. Assim também o Senhor orientou aqueles que pregam o
evangelho a obterem seu sustento do evangelho.
Paulo apela para uma palavra do Senhor que ele põe no mesmo
nível das estipulações da lei mosaica. Seu apelo é para uma autoridade
superior à dos apóstolos, isto é, o próprio Jesus. Nos Evangelhos, Je-
sus disse aos discípulos que um trabalhador é digno do seu salário (Mt
10.10; Lc 10.7; comparar com 1Tm 5.18). Paulo amplia o ensino de
Jesus dizendo que aqueles trabalhadores que se dedicam completamente
à pregação e ao ensino do evangelho devem ser sustentados pela igreja
(Gl 6.6).
Paulo escreve que Jesus ordenou que seus discípulos ganhassem a
vida das pessoas a quem ministravam o evangelho. Essa ordem pede
obediência, não dos apóstolos, e sim dos membros da igreja. Do mes-
mo modo, Deus havia dado suas instruções para sustentarem a tribo de
Levi, não para os sacerdotes, e sim para o povo de Israel.
Esse versículo define claramente a fonte de sustento para o minis-
tro da Palavra. O pregador que proclama o evangelho fielmente pode
esperar receber seu sustento do evangelho. “Mas ai daquele homem
que afirma viver do evangelho sem que ao mesmo tempo viva pelo
evangelho”.
36
Considerações Práticas em 9.13,14
Um pregador é um ministro do evangelho. Embora ministre a Palavra
aos membros da igreja, ele é um servo não da igreja, e sim da Palavra de
Deus. Na verdade, ele serve à igreja, que provê seu salário anual; não
obstante, ele permanece um servo da Palavra de Deus. Essa é uma distin-
36. Godet, First Corinthians, p. 451.
1 CORÍNTIOS 9.14
417
ção significativa, porque o Senhor envia seu embaixador para pregar essa
Palavra como ministro de tempo integral onde quer que seja possível.
Ninguém negará que um ministro pode ser empregado e remunerado
no mundo ordinário do trabalho e distinguir-se por seus dons. Mas um
servo da Palavra precisa dedicar seu tempo à pregação e ao ensino do
evangelho. Ele foi chamado para essa gloriosa tarefa, e foi ordenado para
consagrar-se completamente ao ministério da Palavra.
O Senhor instruiu os beneficiários desse ministério a suprirem as ne-
cessidades do pregador. O sustento que eles estendem ao pastor, no entan-
to, pode ir além das necessidades básicas da vida. De seu salário, por
exemplo, o ministro deles deve poder liquidar suas dívidas de estudante,
comprar livros para sua biblioteca pastoral e assinar periódicos teológicos
e pastorais para que o ajudem em seu trabalho. Um pastor deve receber
um salário adequado para sustentar-se juntamente com os membros de
sua família.
Palavras, Expressões e Construções em Grego em 9.13,14
Versículo 13
eus etea:- – a partícula negativa introduz uma pergunta retórica que
espera uma resposta positiva. Os leitores sabiam, porque Paulo e seus
companheiros de trabalho lhes haviam ensinado as Escrituras.
:a t -¡a – o adjetivo no plural neutro significa “as coisas santas” e
refere-se a tudo que era ligado ao templo.
37
:a -s :eu t-¡eu – o Texto Majoritário omite o artigo definido :a, que
na tradução tem de ser fornecido (KJV, NKJV). A evidência de testemunhas
textuais tanto pela omissão como pela inclusão é forte. A escolha de Paulo
de :e t-¡e| (complexo do templo) difere da preferência dele por |ae,
(templo – o edifício em si). Ver 3.16; 6.19.
Versículo 14
:et, – o dativo expressa vantagem, e não o objeto indireto. A ordem
não é dada aos missionários, e sim em benefício deles.
38
- s – seguido pelo caso genitivo, essa preposição indica causa ou origem.
37. Bauer,p. 372. Consultar Gottlob Schrenk, TDNT, vol. 3, p. 232.
38. Fee, First Corinthians, p. 413 n. 95.
1 CORÍNTIOS 9.13, 14
418
b. Recompensa
9.15-18
15. Mas eu não tenho usado nenhum desses privilégios. E não
escrevo estas coisas para que desta maneira saiam em meu benefi-
cio. Pois eu preferiria morrer do que.... Ninguém invalidará meu
motivo de me gloriar.
a. “Mas eu não tenho usado nenhum desses privilégios.” Paulo sus-
tentou-se com seu próprio trabalho durante as três viagens missionári-
as. Sua menção de Barnabé, que se ocupava de trabalho manual para
suprir suas próprias necessidades (9.6), refere-se à primeira viagem. O
trabalho físico de Paulo em Tessalônica (1Ts 2.9), Corinto (At 18.3) e
Éfeso (At 20.34) realizou-se durante a segunda e terceira viagens (ver
também 2Co 12.14).
39
Paulo afasta a possibilidade de os coríntios pagarem-no por seus
préstimos durante uma visita futura. Ele afirma categoricamente que
não reivindicou para si o direito de sustento financeiro (ver 4.12). E
continuará a observar o princípio de não aceitar dinheiro ou gêneros
pelo seu trabalho espiritual. Paulo não está dizendo que outros são
obrigados a seguir seu exemplo de se recusar a aceitar ser sustentado
pelas pessoas. E as dádivas da igreja de Filipos não devem ser entendi-
das como remuneração por serviços prestados, mas antes como sinais
de amor por Paulo (Fp 4.14-18).
b. “E não escrevo estas coisas para que desta maneira saiam em
meu beneficio.” Ao compor sua carta aos coríntios, presume-se que
Paulo dependeu dos préstimos de um escriba. Enquanto está em pro-
cesso de formar suas sentença