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Universidade Federal da Paraíba UFPB

Centro de Ciências Sociais Aplicadas CCSA
Relações Internacionais P2 Noturno / 2013.2
Disciplina: Teoria Política Moderna
Docente: Gills Lopes
Discentes: Bruna Silva Santos
Mayrlon Carlos Silva de Souza
UM ESTUDO SOBRE A INSTITUIÇÃO DO ESTADO CIVIL
(A STUDY ON THE INSTITUTION OF CIVIL STATUS)
João Pessoa, dezembro de 2013.
RESUMO
A partir do momento que o homem decide fazer uma mudança racional saindo
de seu estado de natureza para o estado civil, uma série de políticas revolucionárias
começou a surgir de vários filósofos e teóricos que tentaram esclarecer, explicar e
justificar esse episódio. A ideia do pacto social entre os indivíduos foi o instrume
nto
principal para a criação do Estado Civil de acordo com alguns dos principais filósofos

que fundamentaram o assunto, sendo assim chamados de contratualistas. O presente

artigo tem por finalidade apresentar o pensamento de quatro teóricos que firmaram
a
teoria do Estado, sendo eles, Baruch Espinosa, Thomas Hobbes, John Locke e Jean-
Jacques Rousseau, comparando as idéias que são semelhantes e as que são divergentes
entre eles.
PALAVRAS-CHAVE: Estado de natureza; Estado Civil; Pacto Social; Liberdade.
ABSTRACT
From the moment that the man decides to make a rational change out of his
state
of nature to the civil state, a series of revolutionary politics began to emerge
from
various philosophers and theorists who have tried to clarify, explain and justif
y this
episode. The idea of the social contract between individuals was the main cause
for the
creation of the State Civil instrument according to some of the leading philosop
hers that
underlie the subject, so called contractualists. This article aims to present th
e thought of
four theorists who signed the theory of the state, namely, Baruch Spinoza, Thoma
s
Hobbes, John Locke and Jean-Jacques Rousseau, comparing the ideas that are simil
ar
and which are different between them.
KEYWORDS: State of nature; Marital Status; Social Pact; Freedom.
VIDA E OBRA DOS AUTORES
Espinosa (1632-1677)
Baruch de Espinosa (1632-1677) foi um filósofo holandês. É considerado um
dos pensadores filósofos da linha racionalista, da qual faziam parte Leibniz e Des
cartes.
Baruch de Espinosa nasceu em Amsterdã, descendente de judeus aprendeu a
língua hebraica na nova escola judaica. Viveu numa época em que a Holanda
presenciava um grande crescimento econômico. Porém, suas ideias eram consideradas
nocivas pelos teólogos e religiosos. Foi acusado de blasfemador e afastado da Sina
goga
de Amsterdã, sendo deserdado pela família. Para sobreviver, teve que trabalhar como
polidor de lentes para lunetas. Espinosa publicou poucas obras em vida. Sofreu m
uitas
perseguições da imprensa. O conservadorismo religioso e filosófico fez com que
vivesse no ostracismo em boa parte de sua vida. Somente no século XX que as ideias
de
Espinosa foram reconhecidas.
As obras de Espinosa mais conhecidas: O Breve Tratado, "O Tratado da
Correção do Intelecto e a ética, que estão inclusas na primeira parte de sua Filosofia
(1660-1663); Os Princípios (1663), Tratado Teológico-Político (1670), quando foi
obrigado a sair da cidade onde vivia, Voorsburg. Faleceu em Haia, em 1677. No me
smo
ano, foi publicada a maior parte de suas obras, Obras Póstumas .

Hobbes (1588-1679)
Primeiro materialista moderno Hobbes corajosamente sustentou, numa época
profundamente religiosa, que não existia substância espiritual. É mais conhecido por s
ua
filosofia política, que afirma que é racional indivíduos se submeterem a um soberano
forte para assegurar a ordem e a paz. HOBBES, Thomas nasceu na Inglaterra. Após se

formar em Oxford foi preceptor do conde de Devonshire e viajou muito pela Europa
,
conhecendo os intelectuais da época, como Descartes, Galileu e Gassendi. Mal volta
ra à
Inglaterra, teve que fugir para a França em 1640, antes da deflagração da Guerra Civil

inglesa, durante a qual apoiou os realistas. Nesse período, foi preceptor do futur
o rei
exilado, Carlos II. Iniciou sua trilogia filosófica com O Cidadão (1642).
Sua grande obra, Leviatã, foi publicada em 1651, mas atraiu a atenção
desfavorável das autoridades francesas, e Hobbes teve que retornar à Inglaterra no
momento em que a Commonwealth de Oliver Cromwell chegava ao fim. Hobbes
continuou a escrever e gozou de uma vida intelectual ativa até morrer, aos 91 anos
.

Locke (1632-1704)
Como o primeiro dos grandes filósofos empiristas ingleses, Locke quis
determinar os limites do conhecimento humano. Uma vez que isso se dá através dos
sentidos, sua aquisição deve ser gradual, limitada pela natureza finita de nossa
experiência, que deixa algumas coisas fora do nosso alcance. Locke nasceu na
Inglaterra. O pai de Locke lutou ao lado dos parlamentaristas na Guerra Civil in
glesa.
Locke permaneceu fiel à idéia de que o povo, não o monarca, é o soberano supremo.
Estudou na Westminster School e em Oxford, onde se formou em medicina e, mais
tarde, tornou-se professor. Nessa época, seu contato com a escolástica aristotélica não
o
atraiu para a filosofia. A partir de 1675, porém, passou alguns anos na França, onde

estudos da filosofia de Descartes provocaram nele um duradouro impacto.
Em 1681, pouco após seu protetor, o conde de Shaftesbury, ser julgado por
traição, partiu para a Holanda, onde trabalhou em seu Ensaio sobre o entendimento
humano. Defendeu ativamente a ascensão de Guilherme de Orange e retornou à
Inglaterra após a Revolução Gloriosa de 1688. Em 1690, Locke publicou o Ensaioe
os Dois tratados sobre o governo, as obras que lhe valeram sua reputação .

Rousseau (1712-1778)
Jean-Jacques Rousseau é conhecido como o primeiro filósofo do Romantismo e
por seu Contrato social, em que afirma que o ser humano é inatamente bom e tem seu

comportamento corrompido pela sociedade. Produziu também peças, poesia, música e
uma das mais notáveis autobiografias da literatura européia.
Ao fugir de casa aos 16 anos, Rousseau foi para a França, onde ele se tornou

protegido de senhora de Warens, que o converteu ao catolicismo e se tornou sua a
mante.
Rousseau ganhou a vida como preceptor, músico e escritor, primeiro em Lyon e, após
1742, em Paris. Ali viveu com uma mulher com quem teve cinco filhos ilegítimos,
todos entregues a um orfanato. Colaborou com a Enciclopédia de Diderot.
Em 1750, seu Discurso sobre as ciências e as artes ganhou o prêmio da Academia

de Dijon. No subseqüente Discurso sobre a origem da desigualdade, desenvolveu suas

idéias sobre a influência corruptora da sociedade. Em 1762 publicou Emilio, em que
expõe sua teoria educacional, e esboçou sua teoria política em O contrato social. Foi
perseguido por essas obras e teve seus livros queimados em sua Genebra natal. El
e
entrou em um período conturbado, e em certa altura hospedou-se com David Hume na
Inglaterra, mas suas acusações paranóicas ao seu anfitrião o levaram de volta a Paris .
1. ESTADO DE NATUREZA HUMANA
O homem é o lobo do homem, diz Hobbes. Sendo todos iguais, não há como
um indivíduo exercer poder sobre outro, mas a partir dessa igualdade gera a
desconfiança, que dela advém a guerra.
Seja para atacar ou defender, a guerra é absurda e há muitas injustiças, pois pe
la
ausência de leis é impossível definir o que é justo, não havendo possíveis vencedores. A
propriedade também se torna impossível de defender dentro do estado de natureza.
Segundo Hobbes a origem do Estado ocorre a partir do momento em que o
homem procura uma maior satisfação e cuidado com sua própria vida, ou seja, o mesmo
busca fugir da guerra e das situações precárias vividas em seu estado de natureza, sen
do
necessário que haja um poder comum a todos capaz de defender a sociedade e garanti
r-
lhes uma segurança suficiente .
A natureza humana ama a liberdade e o domínio sobre os outros, mas o desejo
de ter uma vida satisfeita faz o homem abdicar de sua liberdade para prestar obe
diência
ao soberano, soberano este que foi estabelecido por meio do pacto em decorrência d
e
sua segurança. E por viver em meio a uma guerra de todos contra todos, o homem sen
te
a necessidade de instituir o Estado.
A única maneira de instituir um tal poder comum, capaz de defendê-los das
invasões dos estrangeiros e das injúrias uns dos outros, garantindo-lhes assim
uma segurança suficiente para que, mediante seu próprio labor e graças aos
frutos da terra, possam alimentar-se e viver satisfeitos, é conferir toda sua
força e poder a um homem, ou a uma assembléia de homens, que possa
reduzir suas diversas vontades, por pluralidade de votos, a uma só vontade.
(HOBBES, Thomas, p.61)
Para Hobbes o homem não é um animal naturalmente social, o mesmo se
encontra dentro de uma sociedade artificial que precisa ser mantida artificialme
nte e
racionalmente, no entanto, o pacto deve ser garantido e renovado a todo o moment
o,
para que assim haja uma sociedade. A partir disso se discorre o poder político pod
endo
apenas ser mantido por meio da força. Esse monopólio da força faz com que aconteça a
união de todos em um único indivíduo, sendo este o garantidor da segurança a todos,
para Hobbes isso se chama Estado.
Cedo e transfiro meu direito de governar-me a mim mesmo a este homem, ou
a esta assembléia de homens, com a condição de transferires a ele teu direito,
autorizando de maneira semelhante todas as suas ações. Feito isto, à multidão
assim unida numa só pessoa se chama Estado, em latim civitas. (HOBBES,
Thomas, p.61)
Sendo assim, o medo da morte em guerra e o desejo de uma vida satisfatória e
de
posse, faz com que os indivíduos atuem de forma racional, e através do pacto social
instituam um poder político, que os garantirá a sua segurança em troca de sua liberdad
e.
Àquele que é portador dessa pessoa se chama soberano, e dele se diz que possui poder

soberano. Todos os restantes são súditos. (HOBBES, Thomas, p.61).
Conseqüentemente, a fundação do Estado Civil faz criar uma desigualdade
dentro do estado de natureza, por meio da transferência de direito o soberano torn
a-se
mais poderoso que todos os outros, sendo estes os súditos. O soberano mantém seu
direito natural, permanecendo assim em seu estado de natureza, ao qual não faz par
te do
contrato social. O soberano, o grande Leviatã, é assim caracterizado por deter o mai
or
poder vivente na terra. Ele não é submetido à ordem jurídica, nem a qualquer outro tipo
de restrição, pois conserva seu direito natural.
É esta a geração daquele grande Leviatã, ou antes [] daquele Deus Mortal, ao
qual devemos, abaixo do Deus Imortal, nossa paz e defesa. (HOBBES, Thomas, p.61)
.
Espinosa afirma que o indivíduo não necessariamente age de acordo com a
razão, mas que muitas vezes as paixões são o que determinam as ações humanas, e o
filósofo ao contrário de Hobbes não faz uma separação entre a razão e a natureza
humana. Quando o homem age em comunhão com a razão, ele está agindo de acordo
com as leis da natureza, ou seja, a ação que o homem realiza racionalmente é a que mai
s
se ajusta com as leis da verdadeira natureza humana.
Para Espinosa, os homens não são motivados apenas pelas leis da natureza, mas
os afetos também os motivam. E ao desenvolver da verdadeira teoria dos afetos,
Espinosa irá retratar que a mente não se para do corpo, pois a mente nada mais é que a

idéia do corpo .
Já Locke afirma que a condição natural dos homens é estabelecida através de um
estado de total liberdade de ações e escolhas, além de desfrutar integralmente de seus

bens e de suas pessoas, ou seja, direito a propriedade privada, obviamente que e
ssas
garantias estejam sempre dentro dos limites do direito natural, porém não é necessário
autorização de nenhum outro homem e sem dependência de sua vontade.
Esse estado, marcado pela igualdade e pela ausência de subordinação ou
sujeição, pode ser chamado de estado de liberdade, mas definitivamente não pode ser
confundido com um estado de permissividade, o homem tem a sua liberdade de agir,
mas desde que não atente a sua própria vida, nem de outrem que esteja sobre os seus
cuidados, exceto se existir um objetivo mais nobre que a sua própria conservação. Sobr
e
esse assunto o autor fala que:
O estado de Natureza é regido por um direito natural que se impões a
todos, e com respeito à razão, que é este direito, toda a humanidade aprende
que, sendo todos iguais e independentes, ninguém deve lesar o outro em sua
vida, sua saúde, sua liberdade ou seus bens; todos os homens são obra de um
único Criador todo-poderoso e infinitamente sábio, todos servindo a um
único senhor soberano, enviados ao mundo por sua ordem e a seu serviço;
portanto sua propriedade, daquele que os fez e que os destinou a durar
segundo sua vontade e de mais ninguém. (LOCKE,20--?, p.36)
Para Locke o indivíduo não deve apenas se preocupar em zelar pela sua própria
vida, e também não abandonar o seu ambiente, ele deve velar pela conservação do
restante da humanidade, ou seja, a própria população que tem que assegurar a
execução da lei da natureza o que significa que eles estão aptos para punir aqueles qu
e
não a seguem, pois segundo o autor:
Nada valeria a lei da natureza, assim como todas as outras leis que dizem
respeito aos homens nesse mundo, se não houvesse ninguém que, no estado
de natureza, tivesse poder para executar essa lei e assim preserva o inocente e
refrear os transgressores. E se qualquer um no estado de natureza pode punir
o outro por qualquer mal que ele tenha cometido, todos podem fazer o
mesmo. (LOCKE, 20--?, p.37)
Ao contrário de Hobbes e Locke onde o estado de natureza é um ambiente
totalmente hostil, marcado pela selvageria onde o mais forte é quem manda, e que s
eria
necessário um pacto entre eles para estabelecer um estado mais civilizado, igualitár
io.
Rousseau vai afirmar o oposto, para ele, aquela fase (estado de natureza)
tinha
características positivas, uma dessas características, seria que o ambiente natural
era
bastante abundante e acolhedor, o que coincidentemente teria sido criado exatame
nte
para o homem.
Outra característica é a ausência da vida em conjunto, ou seja, é uma época
marcada pelo isolamento, exceto para reprodução, contrariando outros pensadores que
dizem que o estado de natureza é um cenário onde os homens vivem em conjunto,
segundo o autor nessa época o homem não tinha.
casa, nem cabanas, nem propriedade de nenhuma espécie, cada qual se
abrigava a esmo e em geral por uma única noite; os machos e as fêmeas
uniam-se fortuitamente conforme o caso, a ocasião e o desejo (...). Logo que
tinham forças para procurar seu alimento, [os filhos] não tardavam em deixar
a própria mãe e, como quase não havia outro meio de encontrar-se senão o de
não se perder de vista, logo chegavam ao ponto de nem sequer se
reconhecerem uns aos outros. (ROUSSEAU, 1993, p.58)
Quanto ao processo de natureza humana à sociedade civil, Espinosa não é tão
radical quanto Hobbes em suas afirmações. De acordo com Espinosa, a potência da
natureza é maior que a potência do homem, o indivíduo que não juntar a sua potência
com a do outro estará condenado à solidão e à morte. Dessa forma, o estado de natureza
humana na visão espinosana não é uma natureza desfavorável a sociedade civil, mas é,
pelo contrário, adequado ela. A partir disso, afirma o autor que os homens por nat
ureza
almejam o Estado Civil e nunca o diluirão por completo.
2. CRIAÇÃO DAS LEIS
Assim como Locke, Rousseau acredita que a aplicação das leis só é legítima
com a participação de todos os cidadãos do Estado, ou seja, um parlamento.
nem se o príncipe se encontra acima das leis, pois ele é membro do Estado;
nem se a lei pode ser injusta, pois que ninguém é injusto consigo mesmo;
nem em que sentido somos livres e sujeitos às leis, pois que estas são apenas
registros de nossas vontades. (ROUSSEAU, 2002, 53-54)
Ele ainda diz que as leis são condições de associação civil e que devem ser
regidas pelo povo, pois só eles sabem o que a sociedade necessita. Nem tudo o que
um
homem ordena mesmo que ele seja um soberano pode ser considerado uma lei, mas si
m
um decreto, e também essa ordem não constitui um ato de soberania, mas de
magistratura.
Diferentemente Hobbes diz que apenas o soberano é quem legisla, ou seja, só el
e
que dita as regras e sem a presença dele as leis não são validas .
Entendo por leis civis aquelas leis que os homens são obrigados a respeitar,
não
por serem membros deste ou daquele Estado em particular, mas por serem membros
de
um Estado. (HOBBES, Thomas, p. 90)
Hobbes ainda comenta que há apenas um aspecto que diferencia as leis naturai
s
das leis civis, isso acontece quando o soberano aprova uma lei e esta por sua ve
z não
está correspondendo com a lei permanente de Deus. Mesmo que o soberano seja a maio
r
autoridade, ele não tem capacidade para mudar as leis que são determinadas por Deus,

pois as leis naturais são imutáveis.
O homem tende a desobedecer a lei, e a única forma de garantir obediência é
quando o soberano estabelece punições e castigos aos que violarem as leis civis, ou
seja,
o medo da punição garante a obediência das leis e o desconhecimento da mesma não é
desculpa, diz Hobbes.
Para Espinosa as leis que são expressas no direito civil, é a condição da
existência real no direito natural, onde o homem apenas realiza e concretiza sua
potência, preservando no ser a expressão da potência coletiva, quando vivem em
decorrência das leis civis.

3. CONATUS E LIBERDADE
Na questão do conatus, em termos genéricos, tanto Hobbes quanto Espinosa
compreende o conceito sendo o empenho de preservar a existência, ou seja, os homen
s
se esforçam em permanecer na existência.
De acordo com os autores o conceito de conatus admite duas distinções, e a
primeira é fundamentada em conceitos físicos de movimento e potência. Em Hobbes, o
conatus é um poder infinito de movimento, podendo ser apenas limitado por um
impedimento externo, onde expressa uma analogia de movimento e repouso entre um
corpo e um ambiente exterior. Para Espinosa, o conatus também pode ser interrompid
o
por forças externas, mas tal evento não é caracterizado pelo simples fato do movimento

contínuo. Contudo, Espinosa diz que o conatus não vem de uma analogia de movimento
e inércia, mas que ele parte de uma noção de intensidade, ou seja, parte de uma potência

de agir.
A outra distinção é a acepção positiva ou negativa do conatus. No pensamento
hobbesiano, o conatus se esforça em preservar buscando sempre mais, pois tem medo
da falta, ou seja, o que mobiliza o homem não é o desejo de vida, mas sim o medo da
morte violenta. E o conatus da filosofia espinosana não é caracterizada pela idéia de
falta ou qualquer tipo de negatividade, ele traz consigo o desejo de vida, para
muito
além de uma procura por mais potência.
O conceito de conatus e o conceito de liberdade estão diretamente ligados.
Hobbes admite uma idéia negativa de liberdade, assim como na concepção de conatus.
Para ele a liberdade é colocada em forma de movimento se opondo a obstáculos
externos, ou seja, a liberdade é caracterizada pela perpetuação de movimento.
Espinosa retrata que a liberdade é a ação dentro dos conformes da razão,
portanto deve-se agir apenas quando for uma necessidade de sua própria natureza em

conjunto com as leis de sua natureza, ou seja, buscando o que é útil de forma racion
al.
Ao agir racional, o homem está também se conservando na existência e aumentando sua
potência de agir, e a concepção positiva de Espinosa no conatus leva a compreender
também a liberdade de forma positiva.
A maior diferença existente entre os dois autores, é que, para Hobbes, os home
ns
são livres no estado de natureza porque não há impedimentos quanto ao seu movimento
e porque eles têm uma liberdade de ação. Já Espinosa, ao contrário, diz que os homens
são conduzidos pelas paixões, e que eles são servos dessas mesmas paixões.

4. ESCRAVIDÃO X LIBERDADE
A respeito da escravidão, tanto Locke quanto Rousseau possui idéias parecidas
em suas afirmações, Locke fala que a liberdade natural é não submissão a qualquer
obrigação exceto a da lei da natureza e que a escravidão nada mais é do que o estado de
guerra continuado entre um conquistador legítimo e seu prisioneiro. Rousseau diz q
ue é
nulo o direito de escravizar, não só porque é ilegítimo, mas também porque é algo
absurdo e que não resulta em nada positivo.
Hobbes fala que a negação do livre arbítrio está ligado ao ponto de vista
mecânico da natureza, pois liberdade seria o sentido de movimento. Porque de tudo o

que estiver amarrado ou envolvido de modo a não poder mover-se senão dentro de certo

espaço, sendo esse espaço determinado pela oposição de algum corpo externo, dizemos
que não tem liberdade de ir mais além. (HOBBES, Thomas, p. 73)
Assim, direito a liberdade é todo aquele que tem a capacidade de produzir co
isas
pela força e engenho de suas próprias mãos sem ser impedido de fazer o que tem
vontade e quando tiver vontade, diz Hobbes.
Mas ele diz ainda que, a submissão é uma obrigação em conjunto com a
liberdade e aquele que desobedecer ao soberano estará indo de encontro com a própria

vida, pois ao renunciar ao soberano e as suas leis automaticamente ele retorna a
o estado
de natureza. É perceptível que Hobbes é a favor da servidão, para ele o homem deve ser
submisso ao soberano, para que o soberano cumpra com o seu dever, que é garantir a

segurança de todos dentro da sociedade.
Espinosa fala da liberdade como livre arbítrio dentro da teologia do pecad
o e
também a identifica com o poder de escolher o que é bom ou ruim dentro dos valores d
e
ética e moral que são postos. Tanto uma quanto consideram o corpo a causa das
paixões da alma e julgam as paixões vícios em que caímos por nossa culpa contrariando
as leis da natureza e a vontade de Deus. (ESPINOSA, Baruch, p. 53)
O autor fala que a servidão não é fruto dos afetos, mas sim das paixões e que a
passividade é ter vontade, pensar, existir, desejar. Alienados, não só não reconhecemos
o poderio externo que nos domina, mas o desejamos e nos identificamos com ele. A

marca da servidão é levar o apetite-desejo à forma limite: a carência insaciável que
busca interminavelmente a satisfação fora de si, num outro que só existe
imaginariamente. (ESPINOSA, Baruch, p. 67)
A servidão além de seus efeitos tem duas grandes conseqüências, a primeira é
que ela o coloca em contradição consigo mesmo, fazendo com que seu conatus perca a
referência por estar confuso entre o exterior e interior, e a segunda é a intersubje
tividade
que faz com que cada um se oponha a todos os outros, havendo uma luta de todos
contra todos .
5. ESTADO DE GUERRA
Sobre o estado de guerra Locke define como sendo um estado de inimizade e
de destruição, se alguém vir a atentar de modo explícito contra a vida do próximo isto
o coloca em um estado de guerra com aquele que foi atentado, e com isso coloca a
sua
vida em poder do próximo ou ele mesmo podendo retirá-la, ou qualquer outro que
venha a se juntar em sua defesa. É razoável e justo que eu tenha o direito de destrui
r
aquele que me ameaça com a destruição (LOCKE, 20--?,p.39), com isso o autor afirma
que qualquer um é autorizado a matar um ladrão que não lhe faz mal fisicamente, mas
só de ter a intenção de lhe roubar o dinheiro ele já se coloca em um estado de guerra
com você.
Esse estado de guerra só termina quando se há o recurso da lei, tanto para
reparar o mal sofrido quanto para prevenir todo mal futuro.
... onde não existe tal recurso, como no estado de natureza, devido à
inexistência de leis positivas e de juízes competentes com autoridade para
julgar, uma vez iniciado o estado de guerra ele continua, e a parte inocente
tem o direito de destruir a outra quando puder, até que o agressor proponha a
paz e deseje a reconciliação em tais termos que possa reparar quaisquer erros
que já tenha cometido a assegurar o futuro da vítima. (LOCKE, p. 40)
Além disso, quando a justiça por algum motivo distorce as leis, para proteger
alguém ou algum partido isso também o coloca em estado de guerra com seus cidadãos.
Para Rousseau o estado de guerra, não pode existir, já que os homens no estado

de natureza como vivem no isolamento e não possuem relações freqüentes com outros,
possa estabelecer tanto um estado de guerra quanto um estado de paz, ou seja, el
es não
são inimigos. No estado social como já está presente uma autoridade soberana capaz de
aplicar leis o estado de guerra também não seria possível.
Para Hobbes, o estado de natureza é um estado de guerra, e explica que quand
o o
homem está na condição de simples natureza, sendo esta uma liberdade absoluta, não
existem soberanos e nem súditos, então vivem uma anarquia e em condição de guerra
podendo ser levados a evitar tal condição pelas leis da natureza. E mesmo vivendo em

condição de natureza, é preciso conhecer as leis divinas antes mesmo das leis civis.
Quer os homens queiram, quer não, têm de estar sempre sujeitos ao divino poder.
(HOBBES, Thomas, p. 118).
Espinosa afirma que quanto ao estado de guerra, os homens estão sempre
querendo sua auto-preservação, vivendo em constante luta pela sobrevivência para
garantir sua existência.
Nessa condição de guerra a liberdade do homem, é quando ele tem a capacidade
de se defender dos outros indivíduos impondo os seus interesses para a sua própria
sobrevivência. Para garantir sua sobrevivência o homem irá utilizar de todos os meios
possíveis que estão ao seu alcance, podendo até utilizar dos meios mais brutais.
Dentro dessa condição natural, para Espinosa, não existe moral, impossibilitando

a noção de justiça que é caracterizada pela ausência de leis e de religião.
6. SOCIEDADE CIVIL
Locke diz que a sociedade civil foi iniciada quando Deus decidiu que o hom
em
não deveria mais ficar sozinho e submeteu-o a uma sociedade, logo a primeira
sociedade civil foi entre mulher e homem (Adão e Eva), para daí ser iniciada outras
formas de sociedade como a de pais e filhos, e com o tempo patrão e servidor.
Esta sociedade se acompanhada de uma ajuda e de uma assistência mútuas
e, além disso, também de uma comunhão de interesses, necessária não
somente para unir seu cuidado e sua afeição, mas também a sua descendência
comum, que tem o direito de ser alimentada e mantida por eles até ser capaz
de prover suas próprias necessidades. (LOCKE, p.56)
Para Rousseau a sociedade civil, criou no homem a moralidade e a razão, que
antes era inexistente no estado de natureza, porém, além de perder diversas vantagen
s
encontradas na natureza ao se estabelecer uma sociedade civil ele vai ganhar out
ras
equivalentes.
... suas faculdades se exercitam e desenvolvem, suas idéias se estendem, seus
sentimentos se enobrecem, toda a sua alma se eleva a tal ponto, que, se os
abusos dessa nova condição, não o degradassem com frequência a uma
condição inferior aquela de que saiu, deveria abençoar incessantemente o
ditoso momento em que foi dali desarraigado para sempre, o qual
transformou um animal estúpido e limitado num ser inteligente, num homem.
(ROUSSEAU, 2002, p.30)

Em relação ao Estado Civil Hobbes fala que a sociedade política é um resultado
artificial de um pacto firmado voluntariamente e deixa bem explícito que sua
preferência é a monarquia, mas independente de qualquer forma de governo seja ela,
monarquia, democracia ou aristocracia, a partir do momento em que homens firmam
um
pacto, estes entregam seus direitos naturais absolutos ao representante, ao sobe
rano e
imediatamente ficam submetidos a uma soberania indivisível. Com isso, Hobbes
acredita que a separação de poder é a causa que leva à dissolução de um Estado.
Para Hobbes o poder político possui algumas características:
1) O poder tem que ser absoluto e o representante não está submetido as leis qu
e
cria;
2) O poder tem que ser centralizado em legislativo, executivo e judiciário;
3) O poder tem que ser autoritário para colocar ordem e controlar as rebeliões
(políticas, culturais) da sociedade;
4) O poder tem que ser mediador e dominador de todo o campo econômico.
Mesmo que a essência do pacto firmado seja voluntária, o Estado tem um papel
fundamental para garantir que o contrato seja respeitado e que haja paz no convívi
o
entre os homens, essa ordem só é alcançada pela presença de força do Estado.
Assim como os direitos naturais foram passados para o soberano, a propried
ade
também passou a ser regulamentada pelas leis do Estado, e só ele possui a legitimação e
uma relação jurídica com a propriedade, bem como na justiça, o Estado é o único que
tem direito de julgar e ouvir quanto ao que se trata das leis e as ocorrências.
Em Espinosa, o contrato social é controverso. Alguns comentadores dizem que
ele é contratualista, quando fala do pacto social e transferência de direitos no Tra
tado
Teológico-Político, no capítulo XVI. Outros dizem que ele não é contratualista, pois
tanto no Tratado Teológico-Político quanto no Tratado Político ele afirma que pela
palavra dada o indivíduo não se obriga, que o contrato social é vinculado à sua
utilidade, e partir do momento em que Espinosa trata isso ele estaria assegurand
o que o
contrato não é totalmente eficaz quanto à constituição do Poder Político. Outra
afirmação é de que Espinosa é contratualista no Tratado Teológico-Político, mas
extingue a idéia de contrato no Tratado Político.
No Tratado Político, quanto à idéia de que o direito é a potência, sendo essa
potência a essência atual, Espinosa leva esse pensamento ao extremo, de forma a dize
r
que a transferência de direito de um homem para outro é inviável, porque este ao
transferir seu direito teria que abrir mão da sua essência.
O Estado civil vem para ultrapassar o Estado de Natureza, ou seja, os indi
víduos
fazem suas próprias leis conforme seus interesses e suas próprias forças, seria então um
a
guerra de todos contra todos. A vida social e política no Estado Civil têm como
finalidade estabelecer a paz, a segurança e a liberdade individual. O direito Civi
l e
Estado Civil nasce a favor do direito natural e do estado de natureza, para que
juntos
exerçam sua função na garantia de liberdade e segurança.
Ao contrário de Hobbes, Espinosa tem preferência pela democracia, pois esta
garante os direitos naturais e o desejo natural de governar e não ser governado, e
que ao
cumprir com as leis, cada um acaba por obedecer a si mesmo, pois é o agente da
legislação.
Espinosa ainda comenta sobre a dominação dos espíritos e a liberdade política,
regimes políticos violentos são conservados por meio da superstição, do medo de
castigos, da esperança de benefícios, da censura do pensamento e da palavra, da
submissão aos poderes religiosos e teológicos (ESPINOSA, Baruch, p.78)
Ele fala em garantir três condições sem as quais nenhuma forma política pode
conservar-se:
1) A legislação deve se referir excepcionalmente as ações externas dos cidadãos, e
nunca se referir ao que se passa no íntimo de suas consciências;
2) Nos momentos de tensão e dificuldade nenhum particular nem qualquer grupo
de particulares pode se apresentar como advogado das leis;
3) A legislação e as instituições não podem estar em contradição com as ideologias,
costumes políticos dos cidadãos .






7. CONCLUSÃO

Partimos de um Estado que era impossível haver paz estando numa condição
natural, as únicas leis existentes eram as leis do estado de natureza, onde sobrev
iver e
suprir as próprias necessidades era o interesse de todos os indivíduos. Para protege
r a
vida, o homem estava em constate luta pela sobrevivência, numa guerra de todos con
tra
todos. A única alternativa encontrada por parte dos autores e abordada ao longo da

pesquisa foi por meio do pacto social.
O homem já não queira mais viver com medo de perder a vida e a propriedade,
então estabelece um contrato entre os indivíduos, com o intuito de eleger um
representante que tenha a força capaz de defendê-los da guerra, garantindo assim sua

segurança, o homem, por sua vez, abandona sua liberdade, prestando serviços ao
soberano que por eles foi eleito. A partir disso, o Estado Civil é constituído, mas
para
sua manutenção são expostas diversas recomendações e filosofias diferentes de acordo
com cada teórico.
Contudo, conclui-se que no estado de natureza o homem estava insatisfeito
com
a sua vida e resolve mudar para o Estado Civil almejando a segurança, propriedade
e
liberdade, mas ao mesmo tempo em que ele migra para a sociedade, automaticamente

ele perde sua liberdade, tendo que se adequar as leis do Estado Civil.
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