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1/6/2014 drops 067.

08 crítica: Arquitetura no Urbanismo, Urbanismo na Arquitetura | vitruvius
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067.08 crítica ano 13, abr. 2013
Arquitetura no Urbanismo, Urbanismo na Arquitetura
A arquitetura como um campo único e multidisciplinar
Lutero Proscholdt Almeida
Arquitetura e Urbanismo se constituem de
características em comum, porém são
usualmente atribuídas em escalas
diferentes no espaço. Devido uma
estratificação ocorrida ao longo da
história da arquitetura esses
conhecimentos configuraram-se em áreas
diferentes, na maior parte das vezes
pouco relacionadas entre si. O
desenvolvimento da arquitetura começa
quando o homem neolítico busca a
independência da natureza construindo o
seu próprio abrigo, logo, os sumerianos
aperfeiçoaram esses abrigos atribuindo
valores simbólicos, estéticos e
ambientais, e enfim interligaram esses
abrigos de forma organizar o coletivo de
abrigos, cunhando a forma de viver em
conjunto que hoje denominamos de
cidades. Tais relações nasceram da
Comércio de Salvador - Série “Sobreposições” de fotografia, que
busca expor diferentes escalas de arquitetura se sobrepondo e
formando um cotidiano múltiplo e difuso
Foto Lutero Proscholdt
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associação de desejos no espaço, desejos
de: se abrigar, se relacionar, de se
locomover, de se alimentar, de viver...
A Arquitetura e Urbanismo são
intervenções no espaço almejadas por
nossos desejos. Em um contexto onde
nossa vida está hibridamente atrelada
aos meios de comunicação e desejos
emaranhados, restringir o campo da
arquitetura a um edifício é um erro.
Se tratarmos a arquitetura como
intervenções no espaço pode-se elevar
esse conceito a outro patamar, agora,
não mais a uma estética edificativa, mas
uma arquitetura do cotidiano, dos
cheiros, dos sons, dos pequenos
obstáculos urbanos, das texturas, dos
prazeres, dos movimentos..., já a
segmentação em geral (em
arquitetura/urbanismo, carro/pedestres,
rua/avenida, público/privado...) é uma
das principais responsáveis pela perda
das experiências urbanas. Christopher
Alexander, em “A Cidade Não é uma
Árvore”, mostra matematicamente como a
racionalidade do projetista pode
diminuir as experiências urbanas:
“Então, cada uma dessas
estruturas é uma 'árvore'.
Ademais, cada unidade, em cada
uma das 'árvores' descritas, é a
resultante fixa e imutável de
algum sistema existente na vida
da cidade, assim como uma casa é
a resultante das interações entre
os membros de uma família, suas
emoções e seus pertencimentos; e
uma autopista é a resultante do
movimento e do intercâmbio
comercial. No entanto, em toda e
qualquer cidade, há milhares, ou
mesmo milhões de sistemas
funcionando e produzindo
resultantes físicas que, no
entanto, não aparecem como
'unidades' nessas estruturas 'em
árvore'. E mais: nos piores
exemplos, as 'unidades'
inventadas fracassam no
estabelecimento de
correspondências com as
realidades da vida enquanto, de
outra parte, os sistemas reais –
cuja existência é o que de fato
torna as cidades vivas –, são
providos sem que nenhum
receptáculo físico os
suporte.”(1)
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O texto sugere que o sistema segmentado
da cidade é como uma árvore, ela possui
uma hierarquia de caminhos, passando da
raiz aos galhos, que estão muito aquém
às nossas relações vividas
cotidianamente. Com isso, busca-se
promover não mais uma arquitetura
segmentada, mas sim uma arquitetura
ilimitante que quebre os limites dessas
segmentações e promova novas
experiências no espaço.
O primeiro abrigo construído pelo homem
não foi uma cabana, mas sim a roupa, as
vestimentas de pele que o protegeu do
frio e dos inimigos; ainda antes do
abrigo temos as coisas, espaços, móveis,
janelas, utensílios, meios de
transporte, coisas que sempre foram
tratadas como acessórios da arquitetura,
mas possuem uma interação intensa com o
nosso corpo, e que não podem ser
desprezadas; E por fim, temos o abrigo
como arquitetura e o seu coletivo como
cidade. Deste modo, tem-se a moda como
arquitetura do corpo, o design como
arquitetura das coisas, a arquitetura
como arquitetura dos abrigos e o
urbanismo como arquitetura de uma
cidade. Tais arquiteturas agem no espaço
interagindo com nossos corpos e se
moldando aos nossos desejos. Logo,
arquitetura e urbanismo tratam de uma
mesma manifestação, um agir no espaço
fruto de nossos desejos. A divisão em
dois ou mais segmentos, como se a
arquitetura e urbanismo fossem ciências
separadas, é um modelo perigoso por
criar especialistas em áreas distintas.
O problema do especialista é o fato dele
comumente não se ater a um campo
multidisciplinar. Não é raro ver
especialistas em patrimônio abstraindo a
realidade social de um lugar a favor de
uma estética. Não é raro ver
planejadores criando e construindo
grandes estruturas viárias e não se
atendo a realidade das pessoas que vivem
ali, como também não é raro ver um
arquiteto planejando a favor da estética
esquecendo-se de preceitos regionais,
sociais e ambientais. Arquitetura e
Urbanismo devem ser tratados como um
campo multidisciplinar, percorrendo as
esferas micro e macro, tensionando os
campos de trabalho de forma expor as
múltiplas realidades existentes. Pois o
espaço possui uma dinamicidade que
jamais será ordenado em um campo
técnico, e estar sensível a essa
multiplicidade é um grande dever a ser
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evidenciado.
A divisão do ensino e da profissão em
vários segmentos (como uma faculdade de
arquitetura, uma faculdade de urbanismo,
uma faculdade de patrimônio...) só
beneficia uma burocracia destinada a
retirar poder dessas divisões através de
novos cursos, fiscalizações e taxas.
Devido a vasta multiplicidade de temas e
assuntos tratados no âmbito da
Arquitetura e Urbanismo, um curso por
maior que ele seja nunca irá suprir
todas as suas lacunas, para isso pode-se
acoplar o mesmo sistema já empregado no
campo da medicina (residência, pós-
graduações e especializações). Como
ocorre na arquitetura, o campo da
medicina é vasto, várias especializações
que poderiam formar cada uma delas um
curso a parte, porém, a profissão não se
segmenta, pois há uma consciência que o
profissional deve ter contato com o
todo, com toda a multiplicidade que é o
corpo humano, o curso de arquitetura
como o da medicina não pode perder esse
contato com o todo, pois a divisão
desses conhecimentos em vários segmentos
pode não voltar a se unir.
nota
1
Tradução do texto de “A city is not a
tree” de Christopher Alexander da
Magazine Design, London: Council
of Industrial Design, N° 206, 1966].
Disponível em
www.abc.polimi.it/fileadmin/docenti/TEPAC/2012/FONTANA/A_City_is_not_a_Tree.pdf,
acessado em 25/03/2013.
sobre o autor
Lutero Proscholdt é arquiteto e
urbanista pela Universidade Federal do
Espírito Santo (2007). Mestrado pela
Universidade Federal da Bahia (2011).
Tem experiência em projeto, com
participação em diversos concursos de
projetos de arquitetura. Atualmente é
doutorando da Faculdade de Arquitetura
da Universidade Federal da Bahia e
pesquisa o espaço urbano como um campo
partilhado.