Asrevoltas dejunho noBrasil eoanarquismo 5

Artigo retirado do blog da Revista Espaço Acadêmico:
http://espocoilcademico.wordpress.com/201J/07/17 / as-reyo!tas-de-junho-no-brasil-e-
o-anarquismo/
Violência, Democracia eblack blocs 13
Retirado da Revista ALEGRAR n"12dez/2013 ISSN18085148www.alegrar.com.br
Nildo Avelino é doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), professor no
Departamento de Ciências Sociais e no Progtama de Pós-
Graduação em História da Universidade Federal da Paraíba
(UFPB),campus JoãoPessoa.
2014 - (C) Copyleft
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As revoltas de junho no
Brasil e o anarquismo
As forças
Os fatos tornaram-se mundialmente conhecidos: após o
aumento da tarifa de ônibus de R$3,00 para R$3,20 a cidade
de São Paulo foi palco de uma série de manifestações. A
primeira delas ocorrida no dia 6de junho, quatro dias após o
aumento, reuniu 2.000manifestantes (dados oficiais); apolícia
responde com aviolência que lhe épeculiar. No dia seguinte,
mais uma manifestação reuniu 5.000pessoas enovas cenas de
violência se repetem nas ruas e avenidas mais importantes da
cidade. Frente ao aumento vertiginoso de manifestantes, o
prefeito, que inicialmente havia justificado a ação da polícia,
silencia-se; o governador, entretanto, continua defendendo a
ação da sua polícia earotular os manifestantes de vândalos e
baderneiros. No dia 10 e11 de junho será a vez da cidade do
Rio deJaneiro presenciar manifestações eaviolência da policia.
Na terceira manifestação ocorrida em São Paulo, em 11
de junho, calcula-se que mais de 5.000 pessoas saíram às ruas
deixando um saldo de 19 pessoas presas, a maioria delas
acusadas de crime inafiançável (formação de quadrilha), as
demais com fianças estipuladas entre R$ 6.000,00 a R$
20.000,00. Na quarta manifestação do dia 13 de junho outras
5.000 pessoas saíram às ruas, mas dessa vez a violência da
polícia ganhou uma visibilidade inesperada: imagens de
manifestantes, jornalistas e simples cidadãos desavisados
foram exibidas juntamente comas feridas produzidas por balas
deborrachas, bombas de efeito moral, de gás lacrimogênio ede
pimenta, epelos golpes de cassetete. As cenas inundaram as
páginas dos principais jamais dopaís edas redes sociaiscom
imagens derostos ensanguentados, olhos perfurados, cabeças
rompidas, corpos rasgados; além de infinitas cenas de
humilhação, truculência e arbitrariedade policial.
Imediatamente produz-se uma vasta onda de indignação
conferindo àsmanifestaçõesumnovoímpeto.
Tudo indicaqueamanifestação do dia13tenhacriado o "
clima de adesão e simpatia que atraiu para as ruas de São
Paulo, e de outras cidades, dezenas de milhares de
manifestantes para seu quinto ato. Napágina do Facebookdo
MPL (MovimentoPasseLivre) as confirmações depresençajá
ultrapassavam acasados 200.000apenas para acidadedeSão
Paulo. Sabia-sequeeraumnúmero improvável; porém, jamais
se imaginou possível que 65.000pessoas lotassemas ruas de
SãoPaulo no dia17dejunho, alémdos 100.000manifestantes
da cidade do Rio deJaneiro emais centenas de milhares em
outras 10diferentes cidades brasileiras. Calcula-sequecercade
215.000pessoas saíramàs ruas emtodo país. Oacontecimento
fazia sua entrada na história: há décadas o cenário político
brasileiro nãoconheciamanifestações detamanha envergadura
cujo registro remontava aos anos 1970 nas lutas contra a
ditadura. Emtodo caso, no diaseguinte, outras 50.000pessoas
invadiram novamente as ruas de São Paulo e desta vez
investindo contraomaior símbolo depoder dacidade: asede
da prefeitura - na manifestação anterior o alvo tinha sido a
Assernbleia Legislativa. Era o que faltava para colocar de
joelhos as duas maiores autoridades do Estado: prefeito e
governador anunciam a suspensão do aumento no dia 19de
junho, e o mesmo foi feito por autoridades de outras seis
cidades.
Apesar da "vitória" manifestações continuaram
ocorrendo por todo Brasil ecommaisvigor: nodia20dejunho
cerca de 1 milhão de pessoas tomaram as ruas de várias
cidades. Em Brasília, o palácio do Itamaraty (sede do
Ministério das Relações Exteriores) é atacado e incendiado
durante manifestação que reuniu 30.000.No RiodeJaneiro o
impressionante número de 300.000 manifestantes
transformaram as ruas do centro da cidade num campo de
batalha; emSãoPaulo 110.000tomaramasruas. Autoridades,
mídia eintelectuais detodas as tendências políticas assistiram
atônitos o país ser engolido por um. furor até então
desconhecido. Na vertigemdos acontecimentos, a autoridade
máximado Estadoreúne seus ministros decidindo pronunciar
emcadeianacional umpatético eevasivo apelo à ordemeà
paz social.
Os sentidos
Alémda impressionante e surpreendente manifestação
de força que dobrou a autoridade das principais capitais
brasileiras, outro aspecto extraordinário das revoltas dejunho
foi sua lógica do sentido. As manifestações retomaram um
sentido político desdemuito tempo banido docenáriopolítico
brasileiro: o anarquismo. É preciso ser tolo ou mal
intencionado paranãoadmitir queomodus operandi acionado
nas manifestações possua forte analogiacomaquele utilizado
historicamentepelosmovimentos anarquistas. Opróprio MPL,
grupo responsável pela convocaçãodas manifestações, é uma
organização horizontal e apartidária; adota o princípio da
rotatividade para evitar acristalizaçãodeestruturas depoder,
epraticaaautogestãodeseus trabalhosinternos. Alémdisso, o
queémaisimportante, nãopossui chefe,nemlíder, nemporta-
vozes. OMPL rejeita, portanto, o princípio da representação
política e, consequentemente, recusa o jogo da democracia
liberal que, aocontrário doquesepensa, nãofoi neméaúnica
modalidade de democracia possível na história, Agrade ou
não, é um fato que na história das sociedades modernas foi
precisamente essa postura política a adotada pelo movimento
anarquista, emâmbito internacional, desde oséculo XIX.
Não poucos analistas têm se referido ao movimento
francês de maio de 1968 para traçar paralelos que permitam
tonar inteligível as revoltas brasileiras dejunho. Mas talvez não
seja um bom exemplo. Um sentimento que atravessou as
manifestações no Brasil foi a forte aversão às instituições de'
maneira geral. Não somente partidos políticos, mas também
sindicatos e grupos da esquerda com forte grau de_
institucionalização, como o MST; além da Assembleia'
Legislativa de São Paulo edo Rio de Janeiro, Prefeitura de São
Paulo, Banco Central e Palácio do Itamaraty em Brasília, Nas
revoltas de junho o alvo foram as instituições. As instituições
são responsáveis por conectar os indivíduos àlógica do poder:
tomado no interior de uma instituição o indivíduo deve se
dobrar as regras da sua organização e é dominado por suas
finalidades em nome das quais decisões são tomadas em
conformidade com a ordem do Estado. As instituições,
portanto, articulam aexistência do indivíduo com aordem do
poder. Atacar as instituições é colocar em questão o próprio
regime de legalidades.
Ao que parece nas jornadas de maio de 1968 o
sentimento presente era diferente: oil est interdit d'interdire [ê
proibido proibir] não passava por uma rejeição das instituições
e assumia IlLUitO mais a forma do intolerável quanto ao
patrulhamento ideológico de partidos e universidades. Em
uma lúcida análise daqueles acontecimentos, Maurice Joyeux
dizia que, terminada "a festa", os principais atores foram ~
recuperados pelos partidos ou assimilados em cargos
importantes. "Após terem atirado sua cólera na cara do papai,
do professor e da sociedade, [...] foram reconverter-se nos
partidos e nas organizações do Estado nas quais haviam
vomitado". [1]
Neste aspecto, as revoltas brasileiras de junho parecem
estabelecer maior grau de exterioridade emrelação ao Estado
do que asjornadas demaio, o que nos levaria asugerir outra
analogia na história. Na história das lutas sociais brasileiras
existe um acontecimento que poderia servir como ponto de
inteligibilidade: são as "jornadas de julho" de 1917em São
Paulo. A greve geral anarquista que mobilizou 100.000na
capital paulista foi provocada pelo custo de vida e agravada
pela violência policial eaestupidez governamental: apalavra
de ordem dos grevistas era parar a cidade e a do governo
reprimir. Contra a truculência da polícia e governo, os
operários erguerambarricadas, destruíram fábricas, saquearam
armazéns, depredaram a iluminação pública, apedrejaram
bondes. O governo tenta sem êxito atribuir a violência dos
grevistas a uma minoria de anarquistas. Porém, estava claro
que arevolta damultidão não eraimpulsionada por nenhuma
grande utopia, mas pelo sentimento do intolerável que
resultava da rmsena econômica combinada com o
autoritarismo governamental. Após uma semana de conflitos
abertos, a repulsa dos grevistas emrelação à legalidade era
tamanha que se recusam negociar com governo e patrões
quando esses decidem ceder. Foi somente graças a
intermediação deuma comissão dejornalistas que foi possível
oacordo quepôsfimàgreve.[2]
Omesmo pode ser observado nas revoltas dejunho: de
simples atodeprotesto contraoaumento dotransporte público
[1]Maurice Ioyeux, «Mai 68par eux-mêrnes ", Paris, LeMonde Iibertaire, n. 707,
12/05/1988. Ver também: L'anarchie et Iasociété rnoderne, Paris: Éditions LeMonde
Libertaire, 1969.
[2]Cf. YaraAun Khoury, Asgreves de1917emSão Paulo. São Paulo: Cortez, 1981;
Christína Roquette Lopreato, Oespírito da revolta: agreve geral anarquista de1917. São
Paulo: Annablume, 2000.
logo abrutalidade eaestupidez governamental transformaram
no intolerável que fez suspender a eficácia da legitimidade da
ordem das leis. E éa suspensão da legalidade que, ameu ver,
constitui o elemento original edecisivamente anarquista deste
acontecimento. Sob esse aspecto, o ganho econômico é
irrelevante: será sempre preferível qualquer redução arrancada
àforça, mesmo de R$0,01centavo, que a grahüdade da tarifa
sob aforma deconcessão governamental. Apenas uma redução
forçada eimposta pela força, ou por medo dela, às autoridades
é capaz de produzir uma transformação ético-políticâ:-
liberdade ejustiça seadquirem apenas lutando contra opressão
e injustiça. Quem não paga o transporte por concessão _
governamental obedece uma ordem do governo; mas quem"
paga menos emvirtude de uma redução arrancada do governo
com o espírito de quem retoma do inimigo o terreno ocupado
para proceder sempre mais adiante, está desfrutando de um
direito conquistado. E em toda história política de nossas
sociedades a uruca garantia contra a arbitrariedade
governamental sempre foi a firme percepção dos governados
quanto aos direitos conquistados.
oslogan "R$3,20 éroubo!" foi suficiente para mostrar o
quanto éfrágil aautoridade do Estado ao colocá-Ia faceafaceà
indisciplina eao guestionamento da hierarquia: ocupar arua e
parar acidade contra o movimento controlado eo imobilismo
do laissez-passer atingiu a própria lógica estatal. É o Estado
quem controla eproduz omovimento, inspeciona as estradas e
policia as ruas. Sua mobilidade é confinamento: define os
trajetos, fixaos pontos aserem percorridos, limita avelocidade,
determina direções, distribui homens e coisas num espaço
fechado e territorializado, sedentariza os indivíduos. Por isso,
torna-se vital para o Estado vencer o nomadismo. A prática.
nômade quebra sua mobilidade disciplinada produzindo uma
dinâmica de ocupação do espaço exterior ao Estado. Ao liberar
os espaços, o nomadismo torna-se um ato transgressor
fundamental, uma máquina de guerra contra o aparelho de
Estado.[3] As revoltas de junho foram capazes de produzir
muitos nomadismos,
Do que foi exposto, ainda é preciso
abordar dois pontos:
1) a violência: é preciso rejeitar o moralismo liberal e
admitir que não apenas ademocracia como tambémaprópria
letra da lei não passam de formas objetivadas da dominação
política, eque a única violência que o assimchamado Estado
dedireito não suporta éaquefunda umsentido oposto à sua
dominação. Violento é sempre o Estado: aumentar a tarifa é
violência, do mesmo modo como sãoviolências a"cura gay" e
oestatuto donascituro. Manifestar-secontraeleséautodefesa.
2) sem partidos: engana-se quem vê liberdade de
expressão sob a bandeira de partidos políticos. São soldados
obedecendo palavras de ordem. Partidos einstituições ou são
estruturas oligárquicas oudeverão tornar-se para seinstalarem
no poder. Não háexemplo nahistória que diga o contrário. E
não existetolicemaior supor, comofez opresidente do PT de
SP, que a negação dos partidos leve à manifestações
autoritárias. Nenhum dos Estados totalitários conhecidos na
história foi apartidário: foram"hiperpartidários" no sentido de
pretenderem o partido único sob a forma do "superpartido"
(PNF italiano, NSDAP alemão, PCUS soviético, ARENA
brasileiro). Assim, ao rejeitarem os partidos os manifestantes
mostraram não querer ser confundidos comeles; mostraram
ter consciênciadolugar queocupamnaprática política, desua
[3] Cf. Gilles Deleuze; Félix Guattari, "Tratado denomadologia: amáquina deguerra".
Mil Platós,

01. 5. São Paulo: Ed. 34, 2002.
dignidade e de seu
singularidade e, como
capacidade política.[4]
valor próprio; expressaram sua
diria Proudhon, sustentaram sua
Conta será possível defender as energias liberadoras que
foram desencadeadas pelas grandes manifestações do mês de
junho? Como garantir que essas energias escapem aos
processos de sedentarização e de imobilismo de partidos,
sindicatos, instituições e do Estado? Arriscando uma resposta,
diria que para continuar nornadizando os espaços, (}3-
revoltosos de junho deverão saber fazer duas coisas: de um
lado, deverão saber parar sem perder a velocidade, isto é, _
transformar o movimento em intensidade para que sua .
próxima reaparição emcena seja mais uma vez turbilhonar. E,
de outro lado, deverão saber continuar suas lutas pontuais sem
incorrer nas estruturas olígárquicas eburocráticas dos partidos
e das instituições do Estado. Em outras palavras, deverão
continuar sendo como os "seres imprevisíveis" de que fala
Nietzsche: aqueles que "vêm como o destino, sem motivo,
razão, consideração, pretexto, [que] surgem como o raio, de
maneira demasiado terrível, repentina, persuasiva, demasiado
"outra", para serem sequer odiados." [5]
[4]Cf. Pierre-joseph Proudhon, Lacapacidad política deIac1aseobrera. Buenos Aires:
Proyección, 1974,
[5]Pricdrich Nietzschc, Genealogia da moral, SãoPaulo: Brasiliensc, '1988,p. 92
Violência, Democracia e
black blocs
Paraogregodaeraclássica, ascidades possuíamfunção
ética: obemdo indivíduo era idealmente obemda cidade, a
virtude de um era a inspiração do outro. Corno associação
ética, acidadenãoexistiaapenas para oviver juntos, maspara
o bem viver juntos - dizia Aristóteles (2006, p. 53). É
significativoqueamodernidade tenhasubstituído oproblema
éticodacidadeantigapor ummodelourbano queestabelecea
mobilidade como paradigma. Obstinado emregulamentar a
circulação a partir do espaço aberto pelo mercado, o
mercantilismocolocouemoperação, nas cidades comerciaisdo
século 17, controles sociais infinitos sobre os fluxos
migratórios, de mendicantes, vagabundos, criminosos etc. O
viver juntos torna-seobjetodepolícia.
Desdeentão, aexpansão comercial passou aproduzir a
dissolução do espaço urbano enquanto lugar do bemviver:
relações pessoais dão lugar a transações monetárias, rios são
transformados em esgotos, vegetações são destruídas,
construções históricas demolidas para a abertura de grandes
avenidas; o tráfego torna-se rastejante, o ar pestilento e
venenoso, as habitações superlotadas e favelizadas, a vida
social atravessada por violências. Segundo Munford, a
industrialização, saudada como a principal força criadora do
século19,"produziu omais degradado ambienteurbano queo
mundo jamais vira; na verdade, até mesmo os bairros das
classes dominantes eram imundos e congestionados"
(Munford, 1998,p. 484).Alémdo escurovômito das chaminés
noscéusedascorrentes dedejetoslíquidos nosrios, ascidades
industriais tambéminstauraram enormes chiqueiros humanos.
Um relatório de 1845 sobre a condição urbana da cidade
inglesa de Manchester dizia que' as necessidades de 7.000
habitantes eramatendidas por apenas 33latrinas - uma latrina
para cada212pessoas.
Nesses novos galinheiros, criou-se uma raça de indivíduos
defectivos. A pobreza e oambiente de pobreza produziram
modificações orgânicas; raquitismo nas crianças, por causa da
ausência de sol, deformações da estrutura óssea e dos ô rgã oe,
funcionamento defeituoso das glândulas endô crinas. por causa dC F
uma dieta mesquinha; doenças epidêmicas por falta de higiene
elementar da água; varíola, febre tifoide, escarlatina, septicemia
da garganta, por causa da sujeira e dos excremenios; tuberculose, -
estimulada por uma combinaçã o de dieta pobre, falta de sol e
congestionamento habitacional, para nã o falar das doenças
ocupacionaie, também parcialmente ambientaie. (Munford, 1998,
p.505).
Estas foram algumas consequências provocadas pela
aventura comercial moderna ao sacralizar nas cidades a
circulação, renunciando a outras funções urbanas essenciais à
coexistência social. Tais consequências foram, no entanto,
imediatamente percebidas pela economia política como
li obstáculo positivo ao crescimento da população". Malthus,
por exemplo, sustentou li que apressão da miséria sobre uma
parcela da comunidade [os pobres] é um mal tão
profundamente arraigado que nenhuma habilidade humana
pode atingi-Ia" (Malthus, 1983,p. 297).Impedir amisériaentre
os pobres estava, portanto, "além do poder do homem"
(Malthus, 1983,p. 297).Mas oque aeconomia apresentava em
termos defatalidade, os anarquistas logo denunciaram como a
"organização do homicídio". Proudhon chamou o princípio
econômico deMalthus deteoriado "assassinato político": para
ele acondenação àmorte de quemnada possui deveria ser a
conclusão necessária efatal, não damiséria, mas dos princípios
teóricos da economia política (Proudhon, 1996,p. 118).Ao ser
investida do direito de deixar morrer uma parte da população
para aumentar no conjunto o número de pessoas felizes [1], a
economia política produziu a inversão do antigo direito
soberano de fazer morrer (Foucault, 1993, p. 127-149).
Não apenas a economia, mas a urbanização e o direito
produziram uma reorganização e, em certa medida, uma
intensificação da violência política na modernidade. Processo
de remanejamento do regime normativo e não, como se crê
frequentemente, de pacificação. Na modernidade, se o
encarceramento e o policiamento substituíram amplamente as
possibilidades de confronto aberto e armado entre os
indivíduos (Giddens, 2008, p. 205), foi também para inaugurar
esse Ugrande internamente" que colocou 1% da população
parisiense no interior do Hospital Geral, poucos anos após sua
fundação, e atingiu bruscamente Useu limiar de manifestação
na segunda metade do século XVII" sob a forma da exclusão
pelo internamente como fato maciço (Foucault, 1999, p. 55). É
sob essa perspectiva que é preciso compreender as revoltas
ocorridas recentemente no Brasil: foram respostas diretas à
intensificação da violência produzida pelo assalto privado dos
lugares públicos. Respostas à capitalização dos lugares e ao
poder de polícia sobre o espaço urbano. As revoltas brasileiras
indicam uma situação intolerável, um ponto de saturação.
Muitas análises as descreveram em termos de "crise da
representação". Ora, a palavra crise induz a considerar como
falha aquilo que, no fundo, deveria ser visto como a
emergência ea culminância da dominação política. Crise éum
termo inadequado na medida em que simplifica aanálise enos
impede de perceber aefetiva eficácia das relações de poder.
As manifestações que têm ocorrido no Brasil não são o
sintoma da crise da democracia, mas de seu excesso. Sustentar
[lJ Seos princípios daeconomia tivessem sido praticados, diz Malthus, "embora pudesse
ter havido vários momentos decruel miséria, oconjunto depessoas felizes na população,
entretanto, teri, sido muito maior do que éatualmente." (Malthus, 1983, p. 302)
o contrário seria supor que na demokratia o kratos, isto é, o
poder do demos, desarma sua violência apenas por estar a
serviço do povo. Tal suposição foi uma quimera que as últimas
manifestações de rua desfizeram dolorosamente. Que a
violência do poder na democracia seja a mesma que a de
qualquer regime, basta lembrar-se do que diz Hobbes aos que
identificaram seu deus mortal de poder ilimitado, o Leviatã,
apenas com o Estado Monárquico: "*...+o poder é sempre o
mesmo, sob todas as formas de governo, se estas forem
suficientemente perfeitas para proteger os súditos." (Hobbes,
2003, p. 157, grifo meu). E o grande Locke confirmaria a tese íJ
hobbesiana ao definir o poder político como "o direito de fazer
leis com pena de morte [...] e de empregar a força da
comunidade na execução de tais leis" (Locke, 1973, p. 40).
Poder-se-ia insistir e dizer que mesmo teorias corno as de
Benjamin Constant e de Thomas Paine confirmam a sentença
de Hobbes sob pretexto de contestá-Ia. Em se tratando de
segurança pública, diz Constant, a autoridade política segue
ilimitada tanto na "punição das transgressões" quanto na
/I resistência àagressão". Ou seja, dentro dos limites ofensivos e
defensivos, o poder da autoridade política segue ilimitado: é
investido de força policial para impor leis penais contra os
inimigos internos, de força armada contra os inimigos externos
e de força fiscal para exigir dos indivíduos o sacrifico de suas
riquezas individuais para financiar as despesas (Constant,
2007, p. 92).
Teve razão Proudhon ao dizer que os "pacíficos" Estados
Constitucionais organizaram aletra de suas constituições sob a
forma de uma "aliança ofensiva e defensiva", isto é, como
"pacto de raiva" e"sermão de guerra social" (Proudhon, 1979, I'
p. 95). É que aletra da lei ealinguagem do direito são também
formas de violência. Sabemos, desde os sofistas, que a
linguagem não foi feita para ser acreditada, mas obedecida. A
linguagem não comunica, emite ordens, ela é performativa.
Durante as manifestações de junho, a professora da Faculdade
de Direito da Universidade de São Paulo e conselheira da
Ordem dos Advogados do Brasil, [anaína Paschoal, fez a
seguinte declaração ao jornal Folha de São Paulo: "Resistência
e manifestação devem ser feitos através da palavra. Não
acredito no direito de pegar em armas. Crime político é ser
perseguido pelo que se fala e pensa." O argumento é
kelseniano: na medida em que as sociedades modernas não
vivem mais sob o domínio de pessoas, mas sob o domínio de
constituições dotadas de poderes que são intelectuais e
impessoais; e visto que o Direito não é nem força nem
violência, mas letra, então, conclui Paschoal, aúnica resistência
cabível éatravés da palavra, jamais por meio da violência.
A questão é, em todo caso, mais complexa. Se éverdade
que a instauração da lei não responde à violência de uma
dominação, isso se deve ao fato de que sua instauração em si já
é uma forma de violência sem fundamento. É preciso ser
wittgensteiniano eadmitir que a fala não émera comunicação:
é ordem, afirmação, interrogação. A linguagem possui uma
força que perfonna, que constrói seu objeto; não é jamais
meramente representação do objeto. Uma linguagem violenta
faz mais do que representar a violência: ela é uma forma de
violência. Do mesmo modo que os discursos da dominação não
são apenas o reflexo de relações de dominação: são erealizam
uma forma de dominação. Discursos de poder não são
simplesmente significações verbais do poder, são modos de ser
do poder. Judith Butler enfatizou a dimensão somática da
linguagem emrelação aos discursos de ódio: são discursos que
produzem feridas corporais. Certas palavras, como as racistas
ou sexistas, produzem feridas físicas, atingem o bem-estar
corporal contra quem são dirigidas. É como a ameaça de
agressão que sempre prefigura um ato corporal e estabelece
sobre o corpo ameaçado um ato que virá: a ameaça afirma a
iminência do ato (Butler, 2004). Assim éo Direito: sua violência
deve ser procurada na própria letra da lei, na própria palavra
da lei como força performativa, como potência do agir. Uma
história do Direito faria ver que sua lei não foi destinada a
apaziguar; ao contrário, como diria Foucault, o Direito é /I o
sangue prometido", /I permite relançar ininterruptamente o
jogo da dominação; *...+encena uma violência minuciosamente
repetida" (Foucault, 1993, p. 24). Como resistir pela. palavra se
éprecisamente a palavra o que domina? Como protestar pela
palavra seapalavra éelamesma o suporte por meio do qual o
Direito exerce violência?
Ainda que variável emrelação aoseu objeto, aviolência é
endêmica ao poder governamental. E a democracia pode ser
tão ou mais letal que aditadura. Uma crítica meramente moral
da violência, além de ingênua, éjustificadora do Estado. Como
observou Benjamin (2011), não é a violência em si que é
condenável pelo Estado, mas apenas aquela orientada contra
seu Direito. Já a violência conforme o Direito, ao contrário, é
sancionada como meio justificado. Derrida (2007) retomou a
proposição de Benjamim para afirmar a existência de urna
essência jurídica em toda violência. Mas para percebê-Ia seria
preciso distinguir entre o que seria uma violência fundadora e
outra violência conservadora: a primeira instaura um sentido,
um direito; a segunda conserva o direito anteriormente
instaurado [2]. A violência do Estado éda ordem desta última.
SeoEstado separou cuidadosamente violência edireito foi por
saber que aviolência fora do Direito tende aportar comelaum
sentido político' oposto ao seu. Aquilo que o Estado teme
efetivamente não éaviolência, mas o fato da violência fundar
uma visão de mundo não estatal ou antiestatal. Oque ameaça o
Estado éaviolência revolucionária, fundadora deoutro direito:
violência efetivamente incompatível com a existência do
Estado que não tem outra escolha anão ser eliminá-Ia, pura e
[21Urna distinção que aparece também emRené Girard, para quem aviolência
Fundadora éinvisível (Girard, 1990).
simplesmente, por meio de sua violência conservadora.
ofato. de ainda não possuirmos instrumentos teóricos
para pensar a coimplicação entre Direito e violência atesta o
quanto pensamos conforme o Estado. Em todo caso, épreciso
rejeitar o moralismo liberal e admitir que não apenas a
democracia como também aprópria letra da lei não passam de
formas objetivadas da dominação política, e que a única
violência que oassim chamado Estado de Direito não suporta. é
a que funda um sentido oposto à sua dominação. Em última
análise, violento é sempre o Estado. Hannah Arendt
mencionou" o abismo entre os meios de violência do Estado eo
que o povo consegue juntar por si mesmo - de garrafas de
cerveja a coquetéis Molotov e revólveres" (Arendt, 2006, p.
126). Um abismo que, segundo ela, "sempre foi tão grande que
melhorias técnicas não fazem quase nenhuma diferença. [...]
Num confronto de violência com violência a superioridade do
governo sempre foi absoluta" (Arendt, 2006, p. 126).
Pior ainda: na violência estatal se encontram unidas as
duas violências. No Estado desaparece a fronteira entre
violência fundadora econservadora. A violência estatal é, neste
sentido, ilimitada, pois os limites que a separa são
indetermináveis. É o que faz sua ignomínia, segundo Derrida.
Essa ausência de fronteira entre as duas violências, essa
contaminaçã o entre fundaçã o e conservaçã o é ignóbil, é a
ignomínia (das Schmackolle) da polícia. Antes de eer ignóbil em
seus procedimentos, na inquisiçã o inominéoel à qual se entrega,
sem nenhum respeito, a violência policial, a polícia moderna é
estruturalmente repugnante, imunda por essência, em razã o de
sua hipocrisia consiituiiua. Sua ausência de limite nã o lhe vem
apenas de uma tecnologia de vigilância e de repressã o [... ]. Ela
provém igualmente do fato de que a polícia é o Estado, é o
espectro do Estado, e que nã o se pode, rigorosamente, atacá-Ia
sem declarar guerra à ordem da res publica. (Derrida, 2007, p.
98-99, grifo do autor).
19
A políciaéparaoEstadooqueocorpoéparaaalma, éo
. Estado emação. Mas comumaparticularidade: éoEstadoem
sua face ignóbil, agindo fora de toda justiça e impondo-se
comonecessidadepara alémdequalquer ordemlegaL É aação
estatal no momento emqueaalteraçãodanormalidade fizer a
eficácia da lei escapar ao judiciário para ser garantida com
exclusividade pela tropa dechoque. A manifestação do poder
de políciaserásempre a suspensão da legalidade, do direito
civil, dos direitos fundamentais. A políciaéessemomento em
que o Estado ageextraordinariamente e.contra todo o direito
comum para a salvação da ordem estatal e em nome da
segurança pública. Como o cirurgião que amputa braços e
pernas para salvar o doente, a polícia deve atua:
permanentemente para decepar do corpo do Estado c5
membros enfermos a fim de conservar o todo saudáve..
excessus juris communis propter bonum commune, coee
definiu Gabriel Naudé no século 17[3].A políciaé, emUITcê.
palavra, o golpe de Estado permanente. O que Maquiave.
havia pensado como resposta extraordinária do Príncipe acs
acasos da fortuna - mentir, dissimular, enganar, praticar toei:
tipo demaldade - oEstado das democraciasmodernas tornei;
ordinário pelopoder depolícia.
É preciso saber distinguir a violência conservadora e
ignóbil do Estado e do Direito das múltiplas formas de
violência fundadoras de direitos. Recentemente, a professora
AlbaZaluar, reagindo aomeuartigosobreasrevoltasdejunl-c
[4], afirmou na sua página pessoal do facebook ser uma
perspectiva que "pode acabar com o pouco que temos ue
democracia" [5). Ora, não seria precisamente o contrário? Se
[3]"Suspensão do direito comum para o bemcomum". CL Thuau, 2000, p. 324.
[4]Nildo Avelino. "As revoltas dejunho no Brasil eoanarquismo", Blog daRevista
Espaço Acadêmico, Ano Xl. Disponível em:
<http://espacoacademico.wordpress.com/2013/07/17/ as-revoltas-de-junho-no-brasil-e-
o-anarquismo>. Consultado emoutubro/2013.
[5] Disponfvel em<httpso' /wwwJacebookcom/alba,zaluar(pDsts(770902369592937
>. Consultado emoutubro/2013
,ji
por democracia entendermos o regime no qual os cidadãos
participamdapolítica, paraqueessaparticipaçãonãosejauma
mentira ou um devaneio não há outra garantia fora do
fortalecimento ético de seus partícipes. E por mais que se
estremeça de vertigem, fato é que emtoda luta política, em
todo conflito social, há sempre uma dimensão irredutível de
impulso e estímulo para ação que emseguida transforma-se
semdesaparecer. Trata-sedaquele momento, como enfatizou
Guyau, emquealuta"passadodomíniodascoisasfísicaspara
odomínio intelectual, semnada perder do seuardor edasua
embriaguez" (Guyau, 1919, p. 125). Na luta se adquire
consciência da sublimidade da própria vontade e se
experimentaoprazer doperigoedorisco. Essaintrepidez que
seapodera do maishumilde edo mais médio dos indivíduos
quando colocadofaceaoperigo, exigirádelequasesempreatos
sublimes. Daí Guyau afirmar que" dever-se-iaoferecer sempre
um certo número de empresas perigosas àqueles que estão
desalentados deviver" (Guyau, 1919,p. 133-134).
Pode-se dizer o mesmo a respeito das recentes
manifestações no Brasil: quando jovens aceitamo perigo de
oporemseuscorpospálidos àsbalaseàsbombas dapolícia, se
estádiantedeumatransformaçãoéticadegrandes proporções,
capaz de inaugurar um novo movimento da história que
escapa às determinações da política. Trata-se de um
movimento irredutível no qual osindivíduos passamaaceitar
os riscos das ruas emvez do conforto eda tranquilidade de
uma obediência segura. Camus tinha razão ao falar da
existênciade uma "ascesena revolta" (Camus, 1999). É que
nelaseencontramimplicadasduasformasderecusa:
[... ] recusa-se um estado de coisas, uma exploraçã o etc.; mas
recusa-se igualmente e ao mesmo tempo papéis, funções,
percepções e afetos que organizam o estado de coisas. A Ilscese,
portanto, provoca urna dobra, abre uma fenda na subjetividade
dos mdiuiduoe suspendendo no si aquilo que é habitual e já
constituído. Nesta fratura reside as possibilidades do devi!'
revolucionário: no momento em que o indivíduo éarrancado de si
mesmo e em que cessa a tirania do eu; neste momento de vitória
sobre a própria subjetividade, é ali que se abre um processo de
singutarizaçã o 110 qual a açã o política se dá nã o como simples
reconhecimento, imitaçã o ou filiaçã o, mas C0ll10 processo de
invençã o que rompe com as normas, regras c hábitos que
conformam os indivíduos e a sociedade. (Avelino, 2010, p. 160).
Foi tambémnessa direção que, emumescritoinstigante,
Daniel Colson chamou a atenção para os aspectos darevolta.
Tomando o acontecimento da Revolução de 1848, emParis,
analisou astransformações subjetivasapartir dasnarrativas de
três escritores que vivenciaram seus efeitos: Proudhon,
BakunineCoeurderoy. Segundo Colson, astrêsnarrativas:
[...] falam da perda de si mesmo, ou melhor, no fogo dos
acontecimentos, da perda de sua individualidade em proveito de
subjetividades novas e indetetminadas que têm como tripla
característica, primeiramente, a de impulsionar sua potência e
sua realidade para um fora e uma alterídade desconcertante e
assustadora; segunda camctctistica, a de ser, ao mesmo tempo,
um interior e um outro de si mesmo; c, terceiro, de abolir todos os
limites e todos os quadros de açã o e de identidade até entã o
constitutivos do ser dos narradores. (Colson. 2013, p. 228).
omais importante, portanto, estánatransformação ética
dos indivíduos que a revolta é capaz de provocar: nela, a
revolução deixa de ser promessa estéril e imobilizadora para
tornar-se devir, Ignorar isso é desconhecer adinâmicapolítica
darevolta. Emtaisacontecimentos, comoassinalouKant, oque
importa é o entusiasmo ou, na sua definição, aquele tipo de
participação conforme o desejo cuja manifestação coloca o
participante em perigo. Para ilustrar esse entusiasmo, Kant
utilizou o seguinte verso da Eneida: diante dele a espada
mortal quebra-secomofrágil gelo(Kant,1993).Parecequeesse
aspecto aintelligentsia brasileira foi incapaz decompreender,
ora chamando os black blocs de fascistas ora vendo neles
apenas uma tática de destruição. Foi ocaso do célebre cientista
político Wanderley Guilherme dos Santos ao afirmar, emartigo
publicado no jornal Valor Econômico, que as ações dos black
blocs - ou as crises de identidade mencionadas por Colson -
estabelecem urna "atração fatal à anomia, ao niilismo, ao
negativismo militante" propugnados por "minorias insidiosas
de sempre: um nazismo renascente, protofascistas" que têm
infestado as manifestações. Essa "informal coalização de
celerados", diz Santos, são os defensores de urna semântica
política que ."é niilista, reacionária, antídemocrática". "A
conjuntura é fascistoide", alardeia o prestigioso politólogo
(Santos, Valor econômico, 26/07/2013). O juízo de Marilena
Chaui não foi menos implacável. Falando para urna audiência
de cadetes eoficiais da Academia da Polícia Militar do Rio de
Janeiro, a célebre filósofa de esquerda não se constrangeu em
apresentar os black blocs corno fascistas. "Ternos três formas de
se colocar. Coloco os 'blacks' na fascista. Não é anarquismo,
embora se apresentem assim. Porque, no caso do anarquismo,
ooutro [indivíduo] nunca éseu alvo. Com os 'blacks', as outras
pessoas são o alvo, tanto quanto as coisas" (Chaui, Folha de
São Paulo, 27/08/2013). Além disso, diz Chaui, tampouco sua
violência seria uma violência revolucionária, ou fundadora no
sentido que empreguei aqui. "Ela *aviolência revolucionária]
só se realiza se há um agente revolucionário que tem uma
visao do que é inaceitável no presente e qual a
institucionalidade futura que se pretende construir" (Chaui,
Folha de São Paulo, 27/08/2013). Conhece-se bem a imagem
do revolucionário de Chaui: é o velho missionário do Partido
empenhado em divulgar a promessa de esperança do novo
evangelho da Revolução. Trata-se da retomada do slogan
leninista, segundo o qual sem estratégia revolucionária não há
Revolução. O problema é que toda estratégia necessita de um
estrategos, um general, que no leninismo será a vanguarda,
responsável por .elaborar a teoria revolucionária mais eficaz na
tomada do Estado para a construção da "institucionalidade
futura". Conhece-se o final dessa história... Não há maior
insensatez eirresponsabilidade política do que apresentar os
blackblocscomofascistas. Fazê-lo, alémdeir contratodorigor
analítico, étambémlegitimar afúria repressiva ejudicial que
temseabatido sobrecentenas dejovens. Queumjovemcasal
de manifestantes tenha sido enquadrado recentemente na Lei
deSegurançaNacional pelapolíciapaulista, esteéumfatoque
deveria sensibilizar aracionalidade de açodos nossos doutos
ilustres. Emtodo caso, quero argumentar queaspráticas black
blocs não sendo obviamente fascistas, tampouco são simples
táticas deviolência. Trata-sedeuma atitude, deumgestocuja
história seriapossível retraçar apartir deumtipo deaçãoque
foi muito praticada pelos anarquistas nas últimas décadas do
século 19: achamada propaganda pelo fato. Umamodalidade
de ação que surge para suprir certa insuficiência da
propaganda oral e escrita num contexto em que a prática
eleitoral ganhava cadavez mais influênciaeatraia atémesmo
velhos militantes socialistas eanarquistas. A propaganda pelo
fato respondeu a umprocesso de colonização da linguagem:
naquela ocasião, "propagar pelofato" não eraumamensagem
ideológica, não era a linguagem presa no interior de uma
representação; era uma multiplicidade maciça de atos que
apresentavam afalabruta semmediação erepresentação das
coisas. A propaganda pelo fatofoi arealizaçãodeumgestona
maioria das vezes extremamente dramático, comoopraticado
pelo anarquista francês Auguste Vaillant ao atirar uma
marmita cheia de pólvora e pregos durante uma sessão da
Câmera dos Deputados deParis em1893.Nenhum deputado
seferiu, mas Vaillant foi decapitado. No dia 18dejaneiro de
1894, sua jovemfilha, Sidonie, envia para a primeira dama
francesa, Sra. Carnot, uma carta suplicando pela vida do pai.
Mas o presidente da república, Sr. Sadi Carnot, recusa
clemência, eVaillant éguilhotinado em5defevereiro de1894,
aos 33anos, esob o grito de "Vivaaanarquia! Minhamorte
.1
será vingada" [6]. O gesto de Vaillant inaugurou o que ficou
conhecido pelos historiadores como a If era da dinamite" do
anarquismo, quando a espiral dos atentados atinge o próprio
vértice da pirâmide política pelas mãos de um jovem
anarquista italiano de vinte anos, Sante Geronimo Caserio.
Padeiro emSete, no sul de Montpellier, na manhã do dia 23 de
junho de 1894, Caserio provoca inexplicavelmente sua
demissão erecebe do seu patrão o pagamento de 20 francos.
Pouco depois, compra um punhal pelo valor de 5francos ese
dirige a Lyon. O pouco dinheiro que lhe resta não era
suficiente para alimentar-se e pagar a viagem, decide então
fazer parte do trajeto a pé, de Vie1U1ea Lyon, cerca de 27
quilômetros. Alcança finalmente Lyon na noite de 24de junho.
A cidade está em festa por ocasião da visita do presidente da
República, Sadi Carnot, à Exposição Universal de Lyon.
Caserio mistura-se na multidão portando no bolso o punhal
envolvido por um jornal. O presidente, que tinha dado ordem
expressa para deixar a população aproximar-se, estava ébrio
com o entusiasmo popular. No seu depoimento à polícia, diz
Caserio:
[...] no momento em. que os últimos homens da escolta passaram
por mim, desabotoei a jaqueta, o punhal estava com cabo para
cima no bolso direito. O agarrei com a mã o esquerda; nU1Il único
movimento desloquei os dois jovens que estavam ií minha frente
e, num salto, colocando a mã o sobre a janela da tnaiura, golpeei
gritando: Viva a Revoluçã o! A minha mã o tocou a roupa do
Presidente, a lâmina eeiaua afundada até o cabo. [... ] O
Presidente me olhou, em seguida aoanâonei a viatura e gritei:
Vivna anarquia' Certo de que seria finalmente preso. (Maitron,
1975, p. 158).
[6]Condescendente, aduquesa deUzes seoferece para adotar Sidonie, mas Vaillant
recusa, entregando-a aoanarquista Sebastién Faure que aeducou atéajuventude. A
tumba deVaillant, no cemitério deIvry, foi local de grande peregrinação. Umpoema,
deixado entre asfolhas deuma palmeira, dizia: "Porque fizeram beber aterra/Na hora
do Sol nascente/Rosa do, augnsto esalutar/ As santas gotas do teu sangue/Sob as folhas
desta palma/Que teoferece odireito ultrajado/Dormes leu sono soberbo ecalmo/Ó
mártir! ... Tuserás vingado". Cf. Maitron, 1975, 235
Comefeito, foi esseúltimo gesto que causou sua prisão,
pois, até então, imaginava-se que o jornal no qual havia
envolvido opunhal continhafloresouumpedido desúplica. O
golpe de Caserio perfurou emonze centímetros o fígado de
Sadi Carnot, quemorreu três horas depois. No diaseguinte, a
viúva, Sra. Carnot, recebe uma carta contendo urna foto do
anarquista guilhotinado Ravachol, onde se lia: "devidamente
vingado". Anosdepois, foi avez doRei Umberto Primo, morto
emMilãopelos disparos do anarquista Caetano Bresci,no ano
de 1900. E no ano seguinte, o presidente americano William
McKinley morre assassinado, em Buffalo, pelo anarquista
polonês radicado nos EUA, LeonCzolgosz (Masini, 1981).Não
se trata de exaltar a violência nesses gestos dramáticos. Os
anarquistas bem sabiam, ao contrário de Sorel, dos perigos
resultantes de urna apologia à violência. Basta ler o que
escreveu ErricoMalatesta apropósito do regicídio deMilão, e
quepodeser considerado ocoraçãodatáticaanarquista:
Sabemos que o essencial, o indiscutivelmente útil é, nã o matar a
pessoa de um rei, mas matar todos os reis - das cortes,
parlamentos e fábricas - no cora.çã o e na mente das pessoas; isto
é, erradicar a fé no princípio de autoridade a qual presta culto
uma enorme parcela do povo. (Ma/atesta, 1900).
Em todo caso, nada seria mais tolo e estéril que a
condenação moral de tais gestos supondo que não há neles
nada mais alémde simples violência. São, sobretudo, atos de
resistência ao poder, nos quais o indivíduo passa por urna
transformação ética importante. Revelamesse momento que
Foucault chamou de1/0 ponto mais intenso davida, aqueleem
queseconcentra suaenergia, [...J ali onde elasechocacontrao
poder, debate-se contra ele, tentautilizar suas forçaseescapar
de suas armadilhas" (Foucault, 2001, p. 241). Pode-se
compreender o que Malatesta chamou de 11 erradicar a féno
princípio de autoridade" como suspensão da legalidade.
Quando seolhaascoisasforadoâmbito moral, percebe-seque
se trata bem mais do que vandalismo. Não é a ode ao crime
tampouco a apologia ao delito. É uma disposição que se
apodera dos ânimos e se torna o alimento mais precioso da
vida política. A legalidade não é uma ordem exterior aos
indivíduos, ela integra sua própria subjetividade por meio da
qual opera esemanifesta. Elaseinstala nos espíritos antes de
erguer fortalezas. Romper comaordem da legalidade éumato
político da maior importância. No limite, não hátransformação
política concreta fora dessa ruptura. Na tática da propaganda
pelo fato dos anarquistas do século 19existe essegesto corajoso
de enfrentamento comopoder ao qual parece possível remeter
a ação dos black blocs do século 21, e que se poderia resumir
nas seguintes palavras: não seimpõe alei aquem está disposto
aarriscar avida. Hoje, trata-se de responder especialmente aos
processos de apodrecimento da linguagem e da comunicação
que produzem uma degradação da subjetividade sem
precedentes por meio de violências semióticas televisivas e
jornalísticas. O poder político não produz apenas a miséria
econômica dos trabalhadores: impõe igualmente uma miséria
subjetiva, é produtor de subjetividades: ele produz os
indivíduos, seu pensamento, seus corpos, as formas pelas quais
sentem epercebem o mundo. Sedurante todo o século 18atéo
século 20opoder político produziu uma ordem econômica que
atirava na miséria milhões de trabalhadores, a partir da
segunda metade do século 20, parece-me que o processo de
pauperização do capitalismo se deslocou da ordem da
economia para a ordem da subjetividade. Hoje o capitalismo
não produz, ao menos nas mesmas proporções, os mesmos
níveis de miséria material do passado. Porém, produz uma
miséria subjetiva atroz e que é, tanto quanto era a miséria
econômica, extremamente violenta. Talvez aquilo que estarnos
assistindo possa ser lido, também, como revoltas contra a
pauperização da subjetividade. Não seria por acaso que um
dos alvos preferidos, senão o mais visado pelos manifestantes,
alémdos bancos, tenha sido agrande mídia: TV Globo, Record,
FolhadeSãoPaulo etc. Seisso.ocorreépor quehojeagrande
mídia éa principal responsável por essa violência simbólica
destinada adegradar asubjetividade daspessoas. Masnão só:
emnossos dias, quase tudo seencontra configurado como se
fosse um programa de auditório. Basta pensar nas
comemorações do 1
0
demaio comdireito ashow decantores
populares e sorteio de bens de consumo. Os sindicatos se
transformaram em vetores de pauperização subjetiva, como
tambémospartidos políticos, asinstituições governamentais e
muitas outras organizações da esquerda. Oque seencontra é
sempre a disseminação desse modelo do programa de
auditório, comsua plateia interagindo comaplausos ou vaias
conformeorientaçãodaassistência. Tudoissonoslevaapensar
queamisériaquetocaointolerável hoje,paragrandepartedas
pessoas, nãosejamaisproduto deumaeconomiamaterial, mas
de uma economia subjetiva que provoca a pauperização da
subjetividade.
Face ao apodrecimento da semântica político-
democrática épreciso, eeu diria que émesmo urgente, criar
novas formas de comunicar. Os black blocs podem ser uma
delas, desde que saibamevitar que aviolênciasetransforme
emretóricaeemteoria. A histórianos mostra queaviolência
pode ter umefeitoinverso ao pretendido, na medida emque
ela torna o poder ao qual se dirige ainda mais tirânico. No
fundo, poder e violência vivem uma espécie de eterna
simbiose, seadmitirmos, comDeleuzeeGuattari (1999),queé
precisamente aimpotência do poder queo faz tãoperigoso: a
perseguição meticulosa, a desmedida das pumçoes, a
grandiloquência judiciária, a magnitude da repressão, a
onipresença dos controles etc., tudo issonão énada alémdo
poder buscandotomar, fixar, deter aquiloqueoameaça.
Portanto, seráfundamental saber transformar aviolência
conservando o que nela pode haver de estímulo para a luta
contraopoder.
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Related Interests

01. 5. São Paulo: Ed. 34, 2002.
dignidade e de seu
singularidade e, como
capacidade política.[4]
valor próprio; expressaram sua
diria Proudhon, sustentaram sua
Conta será possível defender as energias liberadoras que
foram desencadeadas pelas grandes manifestações do mês de
junho? Como garantir que essas energias escapem aos
processos de sedentarização e de imobilismo de partidos,
sindicatos, instituições e do Estado? Arriscando uma resposta,
diria que para continuar nornadizando os espaços, (}3-
revoltosos de junho deverão saber fazer duas coisas: de um
lado, deverão saber parar sem perder a velocidade, isto é, _
transformar o movimento em intensidade para que sua .
próxima reaparição emcena seja mais uma vez turbilhonar. E,
de outro lado, deverão saber continuar suas lutas pontuais sem
incorrer nas estruturas olígárquicas eburocráticas dos partidos
e das instituições do Estado. Em outras palavras, deverão
continuar sendo como os "seres imprevisíveis" de que fala
Nietzsche: aqueles que "vêm como o destino, sem motivo,
razão, consideração, pretexto, [que] surgem como o raio, de
maneira demasiado terrível, repentina, persuasiva, demasiado
"outra", para serem sequer odiados." [5]
[4]Cf. Pierre-joseph Proudhon, Lacapacidad política deIac1aseobrera. Buenos Aires:
Proyección, 1974,
[5]Pricdrich Nietzschc, Genealogia da moral, SãoPaulo: Brasiliensc, '1988,p. 92
Violência, Democracia e
black blocs
Paraogregodaeraclássica, ascidades possuíamfunção
ética: obemdo indivíduo era idealmente obemda cidade, a
virtude de um era a inspiração do outro. Corno associação
ética, acidadenãoexistiaapenas para oviver juntos, maspara
o bem viver juntos - dizia Aristóteles (2006, p. 53). É
significativoqueamodernidade tenhasubstituído oproblema
éticodacidadeantigapor ummodelourbano queestabelecea
mobilidade como paradigma. Obstinado emregulamentar a
circulação a partir do espaço aberto pelo mercado, o
mercantilismocolocouemoperação, nas cidades comerciaisdo
século 17, controles sociais infinitos sobre os fluxos
migratórios, de mendicantes, vagabundos, criminosos etc. O
viver juntos torna-seobjetodepolícia.
Desdeentão, aexpansão comercial passou aproduzir a
dissolução do espaço urbano enquanto lugar do bemviver:
relações pessoais dão lugar a transações monetárias, rios são
transformados em esgotos, vegetações são destruídas,
construções históricas demolidas para a abertura de grandes
avenidas; o tráfego torna-se rastejante, o ar pestilento e
venenoso, as habitações superlotadas e favelizadas, a vida
social atravessada por violências. Segundo Munford, a
industrialização, saudada como a principal força criadora do
século19,"produziu omais degradado ambienteurbano queo
mundo jamais vira; na verdade, até mesmo os bairros das
classes dominantes eram imundos e congestionados"
(Munford, 1998,p. 484).Alémdo escurovômito das chaminés
noscéusedascorrentes dedejetoslíquidos nosrios, ascidades
industriais tambéminstauraram enormes chiqueiros humanos.
Um relatório de 1845 sobre a condição urbana da cidade
inglesa de Manchester dizia que' as necessidades de 7.000
habitantes eramatendidas por apenas 33latrinas - uma latrina
para cada212pessoas.
Nesses novos galinheiros, criou-se uma raça de indivíduos
defectivos. A pobreza e oambiente de pobreza produziram
modificações orgânicas; raquitismo nas crianças, por causa da
ausência de sol, deformações da estrutura óssea e dos ô rgã oe,
funcionamento defeituoso das glândulas endô crinas. por causa dC F
uma dieta mesquinha; doenças epidêmicas por falta de higiene
elementar da água; varíola, febre tifoide, escarlatina, septicemia
da garganta, por causa da sujeira e dos excremenios; tuberculose, -
estimulada por uma combinaçã o de dieta pobre, falta de sol e
congestionamento habitacional, para nã o falar das doenças
ocupacionaie, também parcialmente ambientaie. (Munford, 1998,
p.505).
Estas foram algumas consequências provocadas pela
aventura comercial moderna ao sacralizar nas cidades a
circulação, renunciando a outras funções urbanas essenciais à
coexistência social. Tais consequências foram, no entanto,
imediatamente percebidas pela economia política como
li obstáculo positivo ao crescimento da população". Malthus,
por exemplo, sustentou li que apressão da miséria sobre uma
parcela da comunidade [os pobres] é um mal tão
profundamente arraigado que nenhuma habilidade humana
pode atingi-Ia" (Malthus, 1983,p. 297).Impedir amisériaentre
os pobres estava, portanto, "além do poder do homem"
(Malthus, 1983,p. 297).Mas oque aeconomia apresentava em
termos defatalidade, os anarquistas logo denunciaram como a
"organização do homicídio". Proudhon chamou o princípio
econômico deMalthus deteoriado "assassinato político": para
ele acondenação àmorte de quemnada possui deveria ser a
conclusão necessária efatal, não damiséria, mas dos princípios
teóricos da economia política (Proudhon, 1996,p. 118).Ao ser
investida do direito de deixar morrer uma parte da população
para aumentar no conjunto o número de pessoas felizes [1], a
economia política produziu a inversão do antigo direito
soberano de fazer morrer (Foucault, 1993, p. 127-149).
Não apenas a economia, mas a urbanização e o direito
produziram uma reorganização e, em certa medida, uma
intensificação da violência política na modernidade. Processo
de remanejamento do regime normativo e não, como se crê
frequentemente, de pacificação. Na modernidade, se o
encarceramento e o policiamento substituíram amplamente as
possibilidades de confronto aberto e armado entre os
indivíduos (Giddens, 2008, p. 205), foi também para inaugurar
esse Ugrande internamente" que colocou 1% da população
parisiense no interior do Hospital Geral, poucos anos após sua
fundação, e atingiu bruscamente Useu limiar de manifestação
na segunda metade do século XVII" sob a forma da exclusão
pelo internamente como fato maciço (Foucault, 1999, p. 55). É
sob essa perspectiva que é preciso compreender as revoltas
ocorridas recentemente no Brasil: foram respostas diretas à
intensificação da violência produzida pelo assalto privado dos
lugares públicos. Respostas à capitalização dos lugares e ao
poder de polícia sobre o espaço urbano. As revoltas brasileiras
indicam uma situação intolerável, um ponto de saturação.
Muitas análises as descreveram em termos de "crise da
representação". Ora, a palavra crise induz a considerar como
falha aquilo que, no fundo, deveria ser visto como a
emergência ea culminância da dominação política. Crise éum
termo inadequado na medida em que simplifica aanálise enos
impede de perceber aefetiva eficácia das relações de poder.
As manifestações que têm ocorrido no Brasil não são o
sintoma da crise da democracia, mas de seu excesso. Sustentar
[lJ Seos princípios daeconomia tivessem sido praticados, diz Malthus, "embora pudesse
ter havido vários momentos decruel miséria, oconjunto depessoas felizes na população,
entretanto, teri, sido muito maior do que éatualmente." (Malthus, 1983, p. 302)
o contrário seria supor que na demokratia o kratos, isto é, o
poder do demos, desarma sua violência apenas por estar a
serviço do povo. Tal suposição foi uma quimera que as últimas
manifestações de rua desfizeram dolorosamente. Que a
violência do poder na democracia seja a mesma que a de
qualquer regime, basta lembrar-se do que diz Hobbes aos que
identificaram seu deus mortal de poder ilimitado, o Leviatã,
apenas com o Estado Monárquico: "*...+o poder é sempre o
mesmo, sob todas as formas de governo, se estas forem
suficientemente perfeitas para proteger os súditos." (Hobbes,
2003, p. 157, grifo meu). E o grande Locke confirmaria a tese íJ
hobbesiana ao definir o poder político como "o direito de fazer
leis com pena de morte [...] e de empregar a força da
comunidade na execução de tais leis" (Locke, 1973, p. 40).
Poder-se-ia insistir e dizer que mesmo teorias corno as de
Benjamin Constant e de Thomas Paine confirmam a sentença
de Hobbes sob pretexto de contestá-Ia. Em se tratando de
segurança pública, diz Constant, a autoridade política segue
ilimitada tanto na "punição das transgressões" quanto na
/I resistência àagressão". Ou seja, dentro dos limites ofensivos e
defensivos, o poder da autoridade política segue ilimitado: é
investido de força policial para impor leis penais contra os
inimigos internos, de força armada contra os inimigos externos
e de força fiscal para exigir dos indivíduos o sacrifico de suas
riquezas individuais para financiar as despesas (Constant,
2007, p. 92).
Teve razão Proudhon ao dizer que os "pacíficos" Estados
Constitucionais organizaram aletra de suas constituições sob a
forma de uma "aliança ofensiva e defensiva", isto é, como
"pacto de raiva" e"sermão de guerra social" (Proudhon, 1979, I'
p. 95). É que aletra da lei ealinguagem do direito são também
formas de violência. Sabemos, desde os sofistas, que a
linguagem não foi feita para ser acreditada, mas obedecida. A
linguagem não comunica, emite ordens, ela é performativa.
Durante as manifestações de junho, a professora da Faculdade
de Direito da Universidade de São Paulo e conselheira da
Ordem dos Advogados do Brasil, [anaína Paschoal, fez a
seguinte declaração ao jornal Folha de São Paulo: "Resistência
e manifestação devem ser feitos através da palavra. Não
acredito no direito de pegar em armas. Crime político é ser
perseguido pelo que se fala e pensa." O argumento é
kelseniano: na medida em que as sociedades modernas não
vivem mais sob o domínio de pessoas, mas sob o domínio de
constituições dotadas de poderes que são intelectuais e
impessoais; e visto que o Direito não é nem força nem
violência, mas letra, então, conclui Paschoal, aúnica resistência
cabível éatravés da palavra, jamais por meio da violência.
A questão é, em todo caso, mais complexa. Se éverdade
que a instauração da lei não responde à violência de uma
dominação, isso se deve ao fato de que sua instauração em si já
é uma forma de violência sem fundamento. É preciso ser
wittgensteiniano eadmitir que a fala não émera comunicação:
é ordem, afirmação, interrogação. A linguagem possui uma
força que perfonna, que constrói seu objeto; não é jamais
meramente representação do objeto. Uma linguagem violenta
faz mais do que representar a violência: ela é uma forma de
violência. Do mesmo modo que os discursos da dominação não
são apenas o reflexo de relações de dominação: são erealizam
uma forma de dominação. Discursos de poder não são
simplesmente significações verbais do poder, são modos de ser
do poder. Judith Butler enfatizou a dimensão somática da
linguagem emrelação aos discursos de ódio: são discursos que
produzem feridas corporais. Certas palavras, como as racistas
ou sexistas, produzem feridas físicas, atingem o bem-estar
corporal contra quem são dirigidas. É como a ameaça de
agressão que sempre prefigura um ato corporal e estabelece
sobre o corpo ameaçado um ato que virá: a ameaça afirma a
iminência do ato (Butler, 2004). Assim éo Direito: sua violência
deve ser procurada na própria letra da lei, na própria palavra
da lei como força performativa, como potência do agir. Uma
história do Direito faria ver que sua lei não foi destinada a
apaziguar; ao contrário, como diria Foucault, o Direito é /I o
sangue prometido", /I permite relançar ininterruptamente o
jogo da dominação; *...+encena uma violência minuciosamente
repetida" (Foucault, 1993, p. 24). Como resistir pela. palavra se
éprecisamente a palavra o que domina? Como protestar pela
palavra seapalavra éelamesma o suporte por meio do qual o
Direito exerce violência?
Ainda que variável emrelação aoseu objeto, aviolência é
endêmica ao poder governamental. E a democracia pode ser
tão ou mais letal que aditadura. Uma crítica meramente moral
da violência, além de ingênua, éjustificadora do Estado. Como
observou Benjamin (2011), não é a violência em si que é
condenável pelo Estado, mas apenas aquela orientada contra
seu Direito. Já a violência conforme o Direito, ao contrário, é
sancionada como meio justificado. Derrida (2007) retomou a
proposição de Benjamim para afirmar a existência de urna
essência jurídica em toda violência. Mas para percebê-Ia seria
preciso distinguir entre o que seria uma violência fundadora e
outra violência conservadora: a primeira instaura um sentido,
um direito; a segunda conserva o direito anteriormente
instaurado [2]. A violência do Estado éda ordem desta última.
SeoEstado separou cuidadosamente violência edireito foi por
saber que aviolência fora do Direito tende aportar comelaum
sentido político' oposto ao seu. Aquilo que o Estado teme
efetivamente não éaviolência, mas o fato da violência fundar
uma visão de mundo não estatal ou antiestatal. Oque ameaça o
Estado éaviolência revolucionária, fundadora deoutro direito:
violência efetivamente incompatível com a existência do
Estado que não tem outra escolha anão ser eliminá-Ia, pura e
[21Urna distinção que aparece também emRené Girard, para quem aviolência
Fundadora éinvisível (Girard, 1990).
simplesmente, por meio de sua violência conservadora.
ofato. de ainda não possuirmos instrumentos teóricos
para pensar a coimplicação entre Direito e violência atesta o
quanto pensamos conforme o Estado. Em todo caso, épreciso
rejeitar o moralismo liberal e admitir que não apenas a
democracia como também aprópria letra da lei não passam de
formas objetivadas da dominação política, e que a única
violência que oassim chamado Estado de Direito não suporta. é
a que funda um sentido oposto à sua dominação. Em última
análise, violento é sempre o Estado. Hannah Arendt
mencionou" o abismo entre os meios de violência do Estado eo
que o povo consegue juntar por si mesmo - de garrafas de
cerveja a coquetéis Molotov e revólveres" (Arendt, 2006, p.
126). Um abismo que, segundo ela, "sempre foi tão grande que
melhorias técnicas não fazem quase nenhuma diferença. [...]
Num confronto de violência com violência a superioridade do
governo sempre foi absoluta" (Arendt, 2006, p. 126).
Pior ainda: na violência estatal se encontram unidas as
duas violências. No Estado desaparece a fronteira entre
violência fundadora econservadora. A violência estatal é, neste
sentido, ilimitada, pois os limites que a separa são
indetermináveis. É o que faz sua ignomínia, segundo Derrida.
Essa ausência de fronteira entre as duas violências, essa
contaminaçã o entre fundaçã o e conservaçã o é ignóbil, é a
ignomínia (das Schmackolle) da polícia. Antes de eer ignóbil em
seus procedimentos, na inquisiçã o inominéoel à qual se entrega,
sem nenhum respeito, a violência policial, a polícia moderna é
estruturalmente repugnante, imunda por essência, em razã o de
sua hipocrisia consiituiiua. Sua ausência de limite nã o lhe vem
apenas de uma tecnologia de vigilância e de repressã o [... ]. Ela
provém igualmente do fato de que a polícia é o Estado, é o
espectro do Estado, e que nã o se pode, rigorosamente, atacá-Ia
sem declarar guerra à ordem da res publica. (Derrida, 2007, p.
98-99, grifo do autor).
19
A políciaéparaoEstadooqueocorpoéparaaalma, éo
. Estado emação. Mas comumaparticularidade: éoEstadoem
sua face ignóbil, agindo fora de toda justiça e impondo-se
comonecessidadepara alémdequalquer ordemlegaL É aação
estatal no momento emqueaalteraçãodanormalidade fizer a
eficácia da lei escapar ao judiciário para ser garantida com
exclusividade pela tropa dechoque. A manifestação do poder
de políciaserásempre a suspensão da legalidade, do direito
civil, dos direitos fundamentais. A políciaéessemomento em
que o Estado ageextraordinariamente e.contra todo o direito
comum para a salvação da ordem estatal e em nome da
segurança pública. Como o cirurgião que amputa braços e
pernas para salvar o doente, a polícia deve atua:
permanentemente para decepar do corpo do Estado c5
membros enfermos a fim de conservar o todo saudáve..
excessus juris communis propter bonum commune, coee
definiu Gabriel Naudé no século 17[3].A políciaé, emUITcê.
palavra, o golpe de Estado permanente. O que Maquiave.
havia pensado como resposta extraordinária do Príncipe acs
acasos da fortuna - mentir, dissimular, enganar, praticar toei:
tipo demaldade - oEstado das democraciasmodernas tornei;
ordinário pelopoder depolícia.
É preciso saber distinguir a violência conservadora e
ignóbil do Estado e do Direito das múltiplas formas de
violência fundadoras de direitos. Recentemente, a professora
AlbaZaluar, reagindo aomeuartigosobreasrevoltasdejunl-c
[4], afirmou na sua página pessoal do facebook ser uma
perspectiva que "pode acabar com o pouco que temos ue
democracia" [5). Ora, não seria precisamente o contrário? Se
[3]"Suspensão do direito comum para o bemcomum". CL Thuau, 2000, p. 324.
[4]Nildo Avelino. "As revoltas dejunho no Brasil eoanarquismo", Blog daRevista
Espaço Acadêmico, Ano Xl. Disponível em:
<http://espacoacademico.wordpress.com/2013/07/17/ as-revoltas-de-junho-no-brasil-e-
o-anarquismo>. Consultado emoutubro/2013.
[5] Disponfvel em<httpso' /wwwJacebookcom/alba,zaluar(pDsts(770902369592937
>. Consultado emoutubro/2013
,ji
por democracia entendermos o regime no qual os cidadãos
participamdapolítica, paraqueessaparticipaçãonãosejauma
mentira ou um devaneio não há outra garantia fora do
fortalecimento ético de seus partícipes. E por mais que se
estremeça de vertigem, fato é que emtoda luta política, em
todo conflito social, há sempre uma dimensão irredutível de
impulso e estímulo para ação que emseguida transforma-se
semdesaparecer. Trata-sedaquele momento, como enfatizou
Guyau, emquealuta"passadodomíniodascoisasfísicaspara
odomínio intelectual, semnada perder do seuardor edasua
embriaguez" (Guyau, 1919, p. 125). Na luta se adquire
consciência da sublimidade da própria vontade e se
experimentaoprazer doperigoedorisco. Essaintrepidez que
seapodera do maishumilde edo mais médio dos indivíduos
quando colocadofaceaoperigo, exigirádelequasesempreatos
sublimes. Daí Guyau afirmar que" dever-se-iaoferecer sempre
um certo número de empresas perigosas àqueles que estão
desalentados deviver" (Guyau, 1919,p. 133-134).
Pode-se dizer o mesmo a respeito das recentes
manifestações no Brasil: quando jovens aceitamo perigo de
oporemseuscorpospálidos àsbalaseàsbombas dapolícia, se
estádiantedeumatransformaçãoéticadegrandes proporções,
capaz de inaugurar um novo movimento da história que
escapa às determinações da política. Trata-se de um
movimento irredutível no qual osindivíduos passamaaceitar
os riscos das ruas emvez do conforto eda tranquilidade de
uma obediência segura. Camus tinha razão ao falar da
existênciade uma "ascesena revolta" (Camus, 1999). É que
nelaseencontramimplicadasduasformasderecusa:
[... ] recusa-se um estado de coisas, uma exploraçã o etc.; mas
recusa-se igualmente e ao mesmo tempo papéis, funções,
percepções e afetos que organizam o estado de coisas. A Ilscese,
portanto, provoca urna dobra, abre uma fenda na subjetividade
dos mdiuiduoe suspendendo no si aquilo que é habitual e já
constituído. Nesta fratura reside as possibilidades do devi!'
revolucionário: no momento em que o indivíduo éarrancado de si
mesmo e em que cessa a tirania do eu; neste momento de vitória
sobre a própria subjetividade, é ali que se abre um processo de
singutarizaçã o 110 qual a açã o política se dá nã o como simples
reconhecimento, imitaçã o ou filiaçã o, mas C0ll10 processo de
invençã o que rompe com as normas, regras c hábitos que
conformam os indivíduos e a sociedade. (Avelino, 2010, p. 160).
Foi tambémnessa direção que, emumescritoinstigante,
Daniel Colson chamou a atenção para os aspectos darevolta.
Tomando o acontecimento da Revolução de 1848, emParis,
analisou astransformações subjetivasapartir dasnarrativas de
três escritores que vivenciaram seus efeitos: Proudhon,
BakunineCoeurderoy. Segundo Colson, astrêsnarrativas:
[...] falam da perda de si mesmo, ou melhor, no fogo dos
acontecimentos, da perda de sua individualidade em proveito de
subjetividades novas e indetetminadas que têm como tripla
característica, primeiramente, a de impulsionar sua potência e
sua realidade para um fora e uma alterídade desconcertante e
assustadora; segunda camctctistica, a de ser, ao mesmo tempo,
um interior e um outro de si mesmo; c, terceiro, de abolir todos os
limites e todos os quadros de açã o e de identidade até entã o
constitutivos do ser dos narradores. (Colson. 2013, p. 228).
omais importante, portanto, estánatransformação ética
dos indivíduos que a revolta é capaz de provocar: nela, a
revolução deixa de ser promessa estéril e imobilizadora para
tornar-se devir, Ignorar isso é desconhecer adinâmicapolítica
darevolta. Emtaisacontecimentos, comoassinalouKant, oque
importa é o entusiasmo ou, na sua definição, aquele tipo de
participação conforme o desejo cuja manifestação coloca o
participante em perigo. Para ilustrar esse entusiasmo, Kant
utilizou o seguinte verso da Eneida: diante dele a espada
mortal quebra-secomofrágil gelo(Kant,1993).Parecequeesse
aspecto aintelligentsia brasileira foi incapaz decompreender,
ora chamando os black blocs de fascistas ora vendo neles
apenas uma tática de destruição. Foi ocaso do célebre cientista
político Wanderley Guilherme dos Santos ao afirmar, emartigo
publicado no jornal Valor Econômico, que as ações dos black
blocs - ou as crises de identidade mencionadas por Colson -
estabelecem urna "atração fatal à anomia, ao niilismo, ao
negativismo militante" propugnados por "minorias insidiosas
de sempre: um nazismo renascente, protofascistas" que têm
infestado as manifestações. Essa "informal coalização de
celerados", diz Santos, são os defensores de urna semântica
política que ."é niilista, reacionária, antídemocrática". "A
conjuntura é fascistoide", alardeia o prestigioso politólogo
(Santos, Valor econômico, 26/07/2013). O juízo de Marilena
Chaui não foi menos implacável. Falando para urna audiência
de cadetes eoficiais da Academia da Polícia Militar do Rio de
Janeiro, a célebre filósofa de esquerda não se constrangeu em
apresentar os black blocs corno fascistas. "Ternos três formas de
se colocar. Coloco os 'blacks' na fascista. Não é anarquismo,
embora se apresentem assim. Porque, no caso do anarquismo,
ooutro [indivíduo] nunca éseu alvo. Com os 'blacks', as outras
pessoas são o alvo, tanto quanto as coisas" (Chaui, Folha de
São Paulo, 27/08/2013). Além disso, diz Chaui, tampouco sua
violência seria uma violência revolucionária, ou fundadora no
sentido que empreguei aqui. "Ela *aviolência revolucionária]
só se realiza se há um agente revolucionário que tem uma
visao do que é inaceitável no presente e qual a
institucionalidade futura que se pretende construir" (Chaui,
Folha de São Paulo, 27/08/2013). Conhece-se bem a imagem
do revolucionário de Chaui: é o velho missionário do Partido
empenhado em divulgar a promessa de esperança do novo
evangelho da Revolução. Trata-se da retomada do slogan
leninista, segundo o qual sem estratégia revolucionária não há
Revolução. O problema é que toda estratégia necessita de um
estrategos, um general, que no leninismo será a vanguarda,
responsável por .elaborar a teoria revolucionária mais eficaz na
tomada do Estado para a construção da "institucionalidade
futura". Conhece-se o final dessa história... Não há maior
insensatez eirresponsabilidade política do que apresentar os
blackblocscomofascistas. Fazê-lo, alémdeir contratodorigor
analítico, étambémlegitimar afúria repressiva ejudicial que
temseabatido sobrecentenas dejovens. Queumjovemcasal
de manifestantes tenha sido enquadrado recentemente na Lei
deSegurançaNacional pelapolíciapaulista, esteéumfatoque
deveria sensibilizar aracionalidade de açodos nossos doutos
ilustres. Emtodo caso, quero argumentar queaspráticas black
blocs não sendo obviamente fascistas, tampouco são simples
táticas deviolência. Trata-sedeuma atitude, deumgestocuja
história seriapossível retraçar apartir deumtipo deaçãoque
foi muito praticada pelos anarquistas nas últimas décadas do
século 19: achamada propaganda pelo fato. Umamodalidade
de ação que surge para suprir certa insuficiência da
propaganda oral e escrita num contexto em que a prática
eleitoral ganhava cadavez mais influênciaeatraia atémesmo
velhos militantes socialistas eanarquistas. A propaganda pelo
fato respondeu a umprocesso de colonização da linguagem:
naquela ocasião, "propagar pelofato" não eraumamensagem
ideológica, não era a linguagem presa no interior de uma
representação; era uma multiplicidade maciça de atos que
apresentavam afalabruta semmediação erepresentação das
coisas. A propaganda pelo fatofoi arealizaçãodeumgestona
maioria das vezes extremamente dramático, comoopraticado
pelo anarquista francês Auguste Vaillant ao atirar uma
marmita cheia de pólvora e pregos durante uma sessão da
Câmera dos Deputados deParis em1893.Nenhum deputado
seferiu, mas Vaillant foi decapitado. No dia 18dejaneiro de
1894, sua jovemfilha, Sidonie, envia para a primeira dama
francesa, Sra. Carnot, uma carta suplicando pela vida do pai.
Mas o presidente da república, Sr. Sadi Carnot, recusa
clemência, eVaillant éguilhotinado em5defevereiro de1894,
aos 33anos, esob o grito de "Vivaaanarquia! Minhamorte
.1
será vingada" [6]. O gesto de Vaillant inaugurou o que ficou
conhecido pelos historiadores como a If era da dinamite" do
anarquismo, quando a espiral dos atentados atinge o próprio
vértice da pirâmide política pelas mãos de um jovem
anarquista italiano de vinte anos, Sante Geronimo Caserio.
Padeiro emSete, no sul de Montpellier, na manhã do dia 23 de
junho de 1894, Caserio provoca inexplicavelmente sua
demissão erecebe do seu patrão o pagamento de 20 francos.
Pouco depois, compra um punhal pelo valor de 5francos ese
dirige a Lyon. O pouco dinheiro que lhe resta não era
suficiente para alimentar-se e pagar a viagem, decide então
fazer parte do trajeto a pé, de Vie1U1ea Lyon, cerca de 27
quilômetros. Alcança finalmente Lyon na noite de 24de junho.
A cidade está em festa por ocasião da visita do presidente da
República, Sadi Carnot, à Exposição Universal de Lyon.
Caserio mistura-se na multidão portando no bolso o punhal
envolvido por um jornal. O presidente, que tinha dado ordem
expressa para deixar a população aproximar-se, estava ébrio
com o entusiasmo popular. No seu depoimento à polícia, diz
Caserio:
[...] no momento em. que os últimos homens da escolta passaram
por mim, desabotoei a jaqueta, o punhal estava com cabo para
cima no bolso direito. O agarrei com a mã o esquerda; nU1Il único
movimento desloquei os dois jovens que estavam ií minha frente
e, num salto, colocando a mã o sobre a janela da tnaiura, golpeei
gritando: Viva a Revoluçã o! A minha mã o tocou a roupa do
Presidente, a lâmina eeiaua afundada até o cabo. [... ] O
Presidente me olhou, em seguida aoanâonei a viatura e gritei:
Vivna anarquia' Certo de que seria finalmente preso. (Maitron,
1975, p. 158).
[6]Condescendente, aduquesa deUzes seoferece para adotar Sidonie, mas Vaillant
recusa, entregando-a aoanarquista Sebastién Faure que aeducou atéajuventude. A
tumba deVaillant, no cemitério deIvry, foi local de grande peregrinação. Umpoema,
deixado entre asfolhas deuma palmeira, dizia: "Porque fizeram beber aterra/Na hora
do Sol nascente/Rosa do, augnsto esalutar/ As santas gotas do teu sangue/Sob as folhas
desta palma/Que teoferece odireito ultrajado/Dormes leu sono soberbo ecalmo/Ó
mártir! ... Tuserás vingado". Cf. Maitron, 1975, 235
Comefeito, foi esseúltimo gesto que causou sua prisão,
pois, até então, imaginava-se que o jornal no qual havia
envolvido opunhal continhafloresouumpedido desúplica. O
golpe de Caserio perfurou emonze centímetros o fígado de
Sadi Carnot, quemorreu três horas depois. No diaseguinte, a
viúva, Sra. Carnot, recebe uma carta contendo urna foto do
anarquista guilhotinado Ravachol, onde se lia: "devidamente
vingado". Anosdepois, foi avez doRei Umberto Primo, morto
emMilãopelos disparos do anarquista Caetano Bresci,no ano
de 1900. E no ano seguinte, o presidente americano William
McKinley morre assassinado, em Buffalo, pelo anarquista
polonês radicado nos EUA, LeonCzolgosz (Masini, 1981).Não
se trata de exaltar a violência nesses gestos dramáticos. Os
anarquistas bem sabiam, ao contrário de Sorel, dos perigos
resultantes de urna apologia à violência. Basta ler o que
escreveu ErricoMalatesta apropósito do regicídio deMilão, e
quepodeser considerado ocoraçãodatáticaanarquista:
Sabemos que o essencial, o indiscutivelmente útil é, nã o matar a
pessoa de um rei, mas matar todos os reis - das cortes,
parlamentos e fábricas - no cora.çã o e na mente das pessoas; isto
é, erradicar a fé no princípio de autoridade a qual presta culto
uma enorme parcela do povo. (Ma/atesta, 1900).
Em todo caso, nada seria mais tolo e estéril que a
condenação moral de tais gestos supondo que não há neles
nada mais alémde simples violência. São, sobretudo, atos de
resistência ao poder, nos quais o indivíduo passa por urna
transformação ética importante. Revelamesse momento que
Foucault chamou de1/0 ponto mais intenso davida, aqueleem
queseconcentra suaenergia, [...J ali onde elasechocacontrao
poder, debate-se contra ele, tentautilizar suas forçaseescapar
de suas armadilhas" (Foucault, 2001, p. 241). Pode-se
compreender o que Malatesta chamou de 11 erradicar a féno
princípio de autoridade" como suspensão da legalidade.
Quando seolhaascoisasforadoâmbito moral, percebe-seque
se trata bem mais do que vandalismo. Não é a ode ao crime
tampouco a apologia ao delito. É uma disposição que se
apodera dos ânimos e se torna o alimento mais precioso da
vida política. A legalidade não é uma ordem exterior aos
indivíduos, ela integra sua própria subjetividade por meio da
qual opera esemanifesta. Elaseinstala nos espíritos antes de
erguer fortalezas. Romper comaordem da legalidade éumato
político da maior importância. No limite, não hátransformação
política concreta fora dessa ruptura. Na tática da propaganda
pelo fato dos anarquistas do século 19existe essegesto corajoso
de enfrentamento comopoder ao qual parece possível remeter
a ação dos black blocs do século 21, e que se poderia resumir
nas seguintes palavras: não seimpõe alei aquem está disposto
aarriscar avida. Hoje, trata-se de responder especialmente aos
processos de apodrecimento da linguagem e da comunicação
que produzem uma degradação da subjetividade sem
precedentes por meio de violências semióticas televisivas e
jornalísticas. O poder político não produz apenas a miséria
econômica dos trabalhadores: impõe igualmente uma miséria
subjetiva, é produtor de subjetividades: ele produz os
indivíduos, seu pensamento, seus corpos, as formas pelas quais
sentem epercebem o mundo. Sedurante todo o século 18atéo
século 20opoder político produziu uma ordem econômica que
atirava na miséria milhões de trabalhadores, a partir da
segunda metade do século 20, parece-me que o processo de
pauperização do capitalismo se deslocou da ordem da
economia para a ordem da subjetividade. Hoje o capitalismo
não produz, ao menos nas mesmas proporções, os mesmos
níveis de miséria material do passado. Porém, produz uma
miséria subjetiva atroz e que é, tanto quanto era a miséria
econômica, extremamente violenta. Talvez aquilo que estarnos
assistindo possa ser lido, também, como revoltas contra a
pauperização da subjetividade. Não seria por acaso que um
dos alvos preferidos, senão o mais visado pelos manifestantes,
alémdos bancos, tenha sido agrande mídia: TV Globo, Record,
FolhadeSãoPaulo etc. Seisso.ocorreépor quehojeagrande
mídia éa principal responsável por essa violência simbólica
destinada adegradar asubjetividade daspessoas. Masnão só:
emnossos dias, quase tudo seencontra configurado como se
fosse um programa de auditório. Basta pensar nas
comemorações do 1
0
demaio comdireito ashow decantores
populares e sorteio de bens de consumo. Os sindicatos se
transformaram em vetores de pauperização subjetiva, como
tambémospartidos políticos, asinstituições governamentais e
muitas outras organizações da esquerda. Oque seencontra é
sempre a disseminação desse modelo do programa de
auditório, comsua plateia interagindo comaplausos ou vaias
conformeorientaçãodaassistência. Tudoissonoslevaapensar
queamisériaquetocaointolerável hoje,paragrandepartedas
pessoas, nãosejamaisproduto deumaeconomiamaterial, mas
de uma economia subjetiva que provoca a pauperização da
subjetividade.
Face ao apodrecimento da semântica político-
democrática épreciso, eeu diria que émesmo urgente, criar
novas formas de comunicar. Os black blocs podem ser uma
delas, desde que saibamevitar que aviolênciasetransforme
emretóricaeemteoria. A histórianos mostra queaviolência
pode ter umefeitoinverso ao pretendido, na medida emque
ela torna o poder ao qual se dirige ainda mais tirânico. No
fundo, poder e violência vivem uma espécie de eterna
simbiose, seadmitirmos, comDeleuzeeGuattari (1999),queé
precisamente aimpotência do poder queo faz tãoperigoso: a
perseguição meticulosa, a desmedida das pumçoes, a
grandiloquência judiciária, a magnitude da repressão, a
onipresença dos controles etc., tudo issonão énada alémdo
poder buscandotomar, fixar, deter aquiloqueoameaça.
Portanto, seráfundamental saber transformar aviolência
conservando o que nela pode haver de estímulo para a luta
contraopoder.
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