F l orenl i no de ( arval ho


n a r q u l s m o e
Si ndi ~aI i smo
apresenl a~ão e nol as
R oàéri o B . i: N asti menl o
Florentino de Carvalho
AnarqlislDll SindicalislIl
A presentação eNotas por
R o g é r i o H . Z . N a s c i m e n t o
I mprensa M argi nal
2008
3
A p r e s e n t a ç ã o
Rogério H. Z . Nascimento
Gostari a de me expressar, nas pri mei ras l i nhas desta apresentação, de
um modo i nconfundível . M ai s que i sto. Quem me dera que as l etras pudessem
mani festar, de uma manei ra bastante i ntensa e contundente, meus
pensamentos e senti mentos em rel ação ao texto abai xo, afi rmando ter o l ei tor
em mãos um escri to que, defi ni ti vamente, não é para ser l i do! "Como assi m?
N ão estou entendendo nada! Como é possível que, l ogo de i níci o, no pri mei ro
parágrafo, o própri o apresentador não recomende a l ei tura do texto que
deveri a ter mai or i mportânci a e para a qual a 'apresentação', por el e redi gi da,
deveri a necessari amente conduzi r?" poderá al guém, com razão de sobra,
perpl exo, questi onar.
Peço um pouco de paci ênci a e entenderá mi nhas ponderações. Exi stem
escri tos que podem ser abordados de uma forma mai s descontraída e mesmo
pouco atenta sem grandes prejuízos para sua compreensão. As narrati vas
comportam graus di ferentes de densi dade, requi si tando abordagens também
di ferenci adas. Esta di versi dade deve-se a vári os fatores entre el es destaco,
pel o menos, os objeti vos do escri tor ou a compl exi dade da matéri a. O tema
aqui proposto pel o autor - anarqui smo e si ndi cal i smo -, apesar do rel ati vo
conheci mento nos mei os anarqui stas atuai s, é um destes assuntos de
si gni fi cati va compl exi dade, a depender da perspecti va do arti cul i sta.
Por i sto afi rmei que este texto não é pra ser l i do. Este é um escri to a ser
estudado tal é a profundi dade, abrangênci a e densi dade com que o autor
aborda o assunto. O autor arti cul a di versas áreas do conheci mento neste
escri to. Por i sso o estudo atento deste documento possi bi l i ta ao estudi oso do
assunto um mai or aprovei tamento do pensamento do autor. Com esta
di sposi ção, o texto toma-se ao l ei tor de mel hor apreensão, favorecendo-l he um
mel hor entendi mento de suas concepções e perspecti va anal íti ca.
*
Logo no pri mei ro parágrafo encontramos anunci ada a di sposi ção do
escri tor: expor seu pensamento sem a preocupação de ser bem recebi do na
soci edade ou entre os mai s próxi mos. Esta ati tude expressa bem o grau de
al ti vez e de consci ênci a de si nutri do pel o autor. O segundo parágrafo como
que i ntensi fi ca sua i ntenção i conocl asta i ni ci al , rel aci onando o "desejo de
saber" com a pri mei ra transgressão humana, segundo o rel ato exposto no texto
do mi to de ori gem cri stão.
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Ai nda em suas pal avras i ni ci ai s, o autor refl ete sobre a exi stênci a de
uma si gni fi cati va fartura de escri tos e debates em tomo do assunto por el e
proposto, o que poderi a l evar uns e outros a acredi tarem ser este apenas mai s
um texto tratando do tema. Afi rmando seu respei to a todas as demai s opi ni ões,
o autor sustenta preferi r conti nuar encarando a vi da como al go em constante
mutação. Com esta asserti va enfati za o senti do da novi dade que pode aparecer
quanto se debate temas conheci dos e aparentemente esgotados. N esta al tura o
autor apresenta sua concepção de anarqui smo ao mesmo tempo em que
apresenta a exi stênci a de múl ti pl as defi ni ções do anarqui smo possi vel mente
na mesma medi da de quantos anarqui stas exi stam. Entende, porém, ter si do o
anarqui smo frequentemente apresentado de manei ra uni l ateral . de acordo com
as i ncl i nações, apti dões e preferênci as de uns ou de outros.
O autor não l evanta a bandei ra de exi sti r uma pretensa verdade unívoca
ou um grau mai or de veraci dade em al guma de suas expressões. Sustenta,
outrossi m, serem todas as defi ni ções possui doras de uma parcel a da verdade,
de uma verdade restri ta, parci al , sobre o si gni fi cado, extensão e profundi dade
do mul ti verso do anarqui smo. N esta di reção apresenta o anarqui smo como
consti tuído pel o conjunto de suas expressões parti cul ares, esboçando um perfi l
mai s vasto e mai s adensado. O ensejo para o surgi mento do anarqui smo,
assevera o arti cul i sta, é o resul tado da "l uta mi l enári a contra a i ni qüi dade
soci al , da i nsurgênci a permanente do débi l contra o forte, do opri mi do contra
o opressor, do deserdado contra o monopol i zador dos mei os de trabal ho e da
ri queza acumul ada por este ... "
Com o objeti vo de mel hor construi r um quadro de sua exposi ção, o
autor se propõem a percorrer a H i stóri a, i ncorporando em suas ponderações,
vári as mani festações das l utas crescentes pel a l i berdade, como provas do
aumento, di fusão e mai or cl areza entre os segmentos popul aci onai s, acerca da
concepção de l i berdade. N este senti do começa por apresentar uma críti ca a
Tomas Carl yl e, segundo o qual a H i stóri a deveri a comportar excl usi vamente
si mpl es descri ções dos fei tos dos homens notávei s. Para Carl y l e, através
destes grandes homens o deus cri stão agi ri a na Terra, A críti ca el aborada pel o
autor a Car1yl e se sustenta na i déi a de que este esquecera compl etamente de
consi derar em seus estudos a i nequívoca exi stênci a hi stóri ca de uma
pl ural i dade bastante consi derável de movi mentos de resi stênci a a poderosos e
de l i bertação da opressão. Estes aconteci mentos foram desconsi derados pel a
perspecti va de hi stóri a carl yl i ana, tendo si do esta a referênci a a grandes fei tos
de homens da pátri a, os beneméri tos da nação ou i l ustres patri otas. O autor
consi dera em seus estudos e anál i ses, a qual i dade vol i ti va da ação humana e
encen-a a segunda parte de seu escri to com sugestões, apel os, propostas,
encorajamento à ação di reta.
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Depoi s de, ai nda na segunda parte, arrol ar no espaço e no tempo
epi sódi os i nsurgentes, e de ter regi strado o surgi mento da bandei ra negra no
sécul o XVI , o autor i nti tul a, no i níci o da tercei ra parte, sua perspecti va -
i nédi ta se consi derarmos o predomíni o da abordagem carl yl i ana nos estudos
hi stóri cos - como "F i l osofi a das ações humanas". Ao l ado deste enfoque
vol tado para um necessári o conheci mento das l utas popul ares ao l ongo da
hi stóri a, o autor evi denci a também a i mportânci a de se conhecer, na mesma
medi da de rel evânci a, o que denomi nou de "evol ução das ci ênci as",
"progresso do pensamento fi l osófi co", "hi stóri a das i nvesti gações ci entífi cas"
e "hi stóri a da fi l osofi a". Estas di mensões da vi da soci al dos povos se
apresentam em rel ações compl exas, i mbri cadas, i mpl i cadas, contagi adas,
mi sturadas. Por vezes se justapondo, por vezes se sucedendo.
O soci al i smo surge como resul tado do cal deamento destes fenômenos
soci ai s. Procede, na quarta parte, a anál i se das "mai s próxi mas raízes que
deram ori gem ao seu nasci mento." N este senti do apresenta os profetas
bíbl i cos, Demócri to, Epi curo, os pri mei ros cri stãos, os essêni os, os
anabati stas, Eti ene de La B ncti e, ami go de M ontai gne, Thomas M orus.
Campanel l a entre outros. H obbes, os enci cl opedi stas, Quesnay e Tugot,
cri adores da escol a fi si ocrata e Comte aportaram outras i mportantes
contri bui ções ao surgi mento dos pri mei ros ensai os soci al i stas no sécul o
XVI I I . A esta al tura a questão evi denci ada pel o autor era: para a i nstauração
de uma nova soci edade, se deveri a reformar ou destrui r o "Estado hi stóri co e
todas as i nsti tui ções de natureza autori tári a"? Para responder a esta questão, o
autor se propõe anal i sar as duas respostas possívei s col ocadas no sécul o XI X:
o cami nho marxi sta perante o anarqui smo. N a qui nta parte compara estas duas
expressões do soci al i smo. Estas ponderações estabel ecem como si gni fi cati vas
à qual i dade vol i ti va da ação humana. O soci al i smo, portanto, comporta
real i zações e concepções possívei s por conta da vontade e não por fatal i dades
soci ai s, hi stóri cas ou econômi cas. Soci al i smo consi ste numa "doutri na
econômi co-fi l osófi ca que consti tui o expoente de um desejo de equi dade
soci al ".
O autor questi ona: é possível "real i zar-se a soci al i zação anunci ada sem
destrui r as formas orgâni cas da soci edade capi tal i sta?" O marxi smo e o
anarqui smo deram respostas antagôni cas a esta i ndagação. Sobre o marxi smo
o autor probl emati za seu caráter pretensamente ci entífi co. Economi ci smo,
fatal i smo e o "desconheci mento da vontade i ndi vi dual no desenvol vi mento da
vi da col eti va" são aspectos cri ti cávei s no marxi smo. Aqui o autor evi denci a
uma grave contradi ção no pensamento de M arx. I sto porque ao reduzi r o l argo
espectro da vi da soci al às causas econômi cas e ao estabel ecer a nul i dade da
ação humana como fator rel evante do desenrol ar das transformações soci ai s,
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M arx teri a apel ado para a vontade no acel eramento e conseqüente
esgotamento do modo de produção capi tal i sta.
Depoi s de enumerar três concl usões críti cas sobre o pensamento soci al
de M arx, o autor sustenta enfati camente que "o soci al i smo não podi a caber
dentro das quatro paredes de tão acanhado edi fíci o". Passa à refutação dos
el TOS do marxi smo destacando a i mportânci a da vontade humana "como
agente cri ador de um mundo novo". F i nal i za esta qui nta parte afi rmando
taxati vamente não ser possível a "real i zação da i déi a e da vontade soci al i stas
sem que o ensai o duma nova vi da soci al tenha por base o pri nci pi o
associ aci oni sta e federal i sta da l i berdade". A l i berdade e não a autori dade
caracteri za as modal i dades da vi da soci al humana. Enquanto a pri mei ra remete
à compl exi dade, di versi dade e transformação, a segunda, pel o contrári o,
remete à si mpl i fi cação, i mobi l i zação e estagnamento. O Estado consti tui a
máxi ma expressão da vi da soci al ori entada pel o pri ncípi o de autori dade.
Qual quer modal i dade de Estado representa di ferentes gradi entes da
central i zação do poder e, assi m, da di mi nui ção do grau de l i berdade i ndi vi dual
e col eti va. A guerra de 1914 surge, em sua anál i se, como fruto da
soci abi l i dade e da educação estati sta, cri stã, marxi sta e naci onal i sta que
di ssemi naram na soci edade a vontade de servi r.
A ruptura deste ci cl o vi ci oso só é possível através do contági o de
"homens e mul heres para a rei vi ndi cação i medi ata da l i berdade pessoal e para
a causa da justi ça". A sua proposta é bastante di reta e radi cal : "H á que
começar desde já a vi ver a vi da à margem de toda a noção autori tári a". I greja,
Estado e Capi tal i smo consti tuem numa tríade retrógrada, atual i zando anti gos
procedi mentos de escravi zação dos povos. Di ante desta tri ndade, sustenta o
autor, os anarqui stas são "materi al i stas e ateus perante todas as rel i gi ões.
anti autori tári os contra o Estado e soci al i stas em frente ao capi tal i smo:'
A noção de l i berdade vei o sendo mai s bem defi ni da ao l ongo do tempo
e em di versas l ocal i dades. O anarqui smo surge como corol ári o de i déi as e
movi mentos. N o sécul o XVI I I surge o pri mei ro forrnul ador das i déi as
anarqui stas, Wi l l i am Godwi n. As i déi as anarqui stas foram recebendo
contri bui ções di versas ao l ongo dos doi s sécul os segui ntes. O autor i ni ci a a
séti ma pal i e de seu escri to expondo sua proposta: refl eti r sobre o soci al i smo,
comuni smo, si ndi cal i smo e anarqui smo. N este senti do reafi rma, de i níci o, o
pri nci pi o de l i berdade por comportar vari edade, mul ti pl i ci dade e a di mensão
vol i ti va da ação pessoal na confi guração das formas soci ai s. R ejei ta
termi nantemente concepções homogenei zantes e uni formi zantes de vi da
soci al . Para el e "A uni formi dade não exi ste nem na natureza nem na vi da; este
fenômeno só se dáno cérebro anqui l osado das mental i dades autori tári as.".
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N a perspecti va anal íti ca do autor, o capi tal i smo só é possível l adeado
pel o cri sti ani smo e pel o estati smo. Consti tuem a já referi da tri ndade
escravi zadora de consci ênci as e corpos. Descri sti ani zar e descapi tal i zar a
soci edade sem remover o Estado resul ta em procedi mento equi vocado, poi s
esta i nsti tui ção se tornari a em novo deus e em patrão úni co, i naugurando
novas formas de domi nação e expl oração. O marxi smo, por sua vez, aparece
em sua anál i se enquanto i greja, com seus expedi entes de anátemas e
excomunhão dos di scordantes.
Di ante das concepções autori tári as de vi da soci al , o anarqui smo
confi gura noções i mpermeávei s à central i zação do poder. Suas pal avras neste
parti cul ar, encerrando a séti ma parte, são bem mai s el oqüentes. Vejamos:
I nfere-se de tudo que fi ca di to que o anarqui smo não é
uma doutri na de gabi nete, que as doutri nas anarqui stas
não consti tuem fórmul as el aboradas para que si rvam de
decál ogo às gerações do futuro.
O anarqui smo é o postul ado i deal que trata de i nterpretar
a vi da em toda a sua di versi dade. A anarqui a será a
soci edade futura em que, l i vre a humani dade, ou uma
parte desta, dos grandes obstácul os que i mpedem a l i vre
canal i zação das pai xoes humanas e o rnaxrmo
desenvol vi mento das apti dões do homem, será começado
um novo ci cl o de verdadei ra ci vi l i zação.
De nenhuma manei ra será um si stema cerrado e uni forme
a organi zação da vi da que os anarqui stas preconi zam.
Logo a associ ação do homem na federação das
agrupações l i vres não pode estar exposta à fal ênci a como
esteve e estará sempre desti nado à bancarrota o "Estado-
pri são".
Destaquei esta defi ni ção por entender ser el a si gni fi cati va da
contri bui ção pessoal do autor no conjunto do pensamento anarqui sta. Do que
ci rcul a atual mente sobre o pensamento anarqui sta, reverbera uma
homogenei dade de manual . de recei tuári o. Os autores anarqui stas mai s
referi dos desenham em seus escri tos um anarqui srno uni versal i sta, catequi sta e
messi âni co. Em que pese à i mportânci a no anarqui smo de fi guras como, por
exempl o, El yseo de Carval ho, N eno Vasco, Edgar Leuenroth e J osé Oi ti ci ca,
suas concepções do anarqui smo e da soci abi l i dade humana encerram o oposto
do que afi rmado pel o autor deste escri to. I sto porque seus escri tos estabel ecem
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uma di mensão central , seja o i ndi víduo, o si ndi cato ou a cornuna, enquanto
uni dades defi ni ti vas da vi da soci al humana.
A oi tava parte é i ni ci ada com uma referênci a ao pensamento de R ecl us.
Para este i mportante personagem do anarqui srno, a transformação consti tui
uma constante na vi da natural e soci al . O anarqui sta francês conci l i a as noções
de evol ução e de revol ução, o que consti tuía num sacri l égi o para os
evol uci oni stas vi tori anos e para demai s posi ti vi stas. As mudanças quando
l entas são por el e denomi nadas "evol ução" e quando rápi das "revol ução". O
Estado retoma nas anál i ses de F l orenti no de Carval ho como "a i ni qüi dade
menos humana que cabe i magi nar, a mai or monstruosi dade que se pode
conceber". I sto porque o Estado é "tri pl i cemente monopol i zador - monopól i o
das ri quezas, de tudo que foi cri ado pel o esforço produtor, das l i berdades e das
i ni ci ati vas". De manei ra não menos contundente o autor afi rma que "O Estado
é para a soci edade o que para o i ndi vi duo é a pri são.".
N a nona parte deste seu escri to o autor i ni ci a afi rmando ser o
anarqui smo não apenas o resul tado de exercíci o de abstração i ntel ectual e
cerebral , mas antes "pensamento, senti mento e ação: é o movi mento de
vontades e a fi l osofi a de todas as potenci as i ndi vi duai s e soci ai s postas em
di nami smos tendentes à consecução da máxi ma l i berdade para o i ndi víduo e
ao aumento constante do bem estar geral ." N este senti do recusa
veementemente a pretensa noção de l i vre arbítri o dos teól ogos como também
as i déi as de determi nação soci al pel o econômi co como defendi do pel os
"i deól ogos do 'soci al i smo ci enti fi co". Para el e "o anarqui smo é, antes que um
postul ado doutri nári o, um movi mento vol untari sta." Para o autor cabe então
mel hor ori entar as vontades numa di reção l i bertári a. Anal i sou o soci al i smo e o
comuni smo com esta i ntenção. Debruça-se nesta parte sobre o si ndi cal i smo.
Depoi s de propor uma vi são em panorama do i ndustri al i smo e a
formação do operari ado como um de seus resul tados. o autor cri ti ca o novo
vocábul o cri ado por mi l i tantes operári os franceses - si ndi cal i smo. O
movi mento operári o consti tuía uma expressão orgàni ca desde, pel o menos,
1864 com a cri ação da Associ ação I nternaci onal dos Trabal hadores em
Londres. O autor ao mesmo tempo em que reconhece a i mportânci a do
surgi mento desta associ ação, aponta nel a uma grave l i mi tação exposta
cl aramente na máxi ma el abora por M arx: "Trabal hadores do mundo, uni -vos!"
Trata-se da natureza corporati va das agremi ações operári as, acentuada em
al guns segmentos do movi mento operári o de fi ns do sécul o XI X.
Para esta associ ação concorreu a ação de M arx. M as nesta mesma
associ ação a ci são acontecera quando não se tomara mai s vi ável a convi vênci a
entre uma al a autori tári a com uma outra l i bertári a. M arx e B akuni n encamam
estes atri tos. Acusa os si ndi cal i stas franceses Pouget, I vevot, Thei l i er,
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Pel l outi er, Torti l i er entre outros de prati carem desnecessári as "aparatosi dades
l i ngüísti cas e compl i cações i nobjeti vas da vi da e do pensamento". Sua críti ca
não procura al cançar apenas o "defei to da l ogomaqui a i nfi l trado na esfera do
pensamento revol uci onári o", mas antes "as compl i cações l evadas ao terreno
das determi nações e da ati vi dade quoti di ana." Sua anál i se estende as
i mpl i cações desta práti ca para os tempos do medi evo.
Para que, então, novas cl assi fi cações gramati cai s? O
verbal i smo em nossas ati vi dades i ntel ectuai s é uma
funesta herança do cul to l ati no à R etóri ca e do tri buto
rendi do na I dade M edi a à M etafísi ca, cujas
conseqüênci as confusi oni stas haveremos de suportar por
mui to tempo ai nda.
I ni ci a a déci ma parte al udi ndo ao si ndi cal i smo como um i nstrumento
ausente de natureza própri a. O si ndi cato pode ser soci al -democrata, fasci sta,
catól i co, bol chevi que ou anarqui sta, tendo a ori entação que a el e for dada pel a
'mental i dade' e 'temperamento' das "mi nori as ati vas que o ori entam". N o
entanto o movi mento operári o sofreu, no entender do autor, um processo de
i nvol ução em todos os pai ses quando os franceses cri aram este novo vocábul o
- si ndi cal i smo. A concepção de si ndi cato, segundo os franceses, defi ni u-se
como uma agremi ação de resi stênci a puramente econômi ca, al hei a às questões
pol íti cas e fi l osófi cas. M ai s al ém, o si ndi cato consti tuía para el es o
i nstrumento da revol ução como também o novo centro de gravi dade regul ador
da vi da soci al da chamada soci edade futura.
O autor cri ti ca aci damente tanto o automati smo como o neutral i smo
si ndi cal . Esta sua críti ca vem de l onga data. Desde os anos dez do sécul o XX
que tomou o si ndi cato como um campo de anál i ses e refl exão, sempre
apontando no si ndi cal i smo estas i nsufi ci ênci as: corporari vi smo, excl usi vi smo,
reduci oni smo, fruto do i ndustri al i smo, fator de gestão da mão de obra
favorável ao capi tal i smo e ao estati smo, fomentador de senti mentos
excl usi vi stas como o espíri to de corpo ou o naci onal i smo. Em sua opi ni ão,
haveri a antes que i ncenti var a todos a agi rem di retamente e di l uírem as
frontei ras cri adas no i ndustri al i smo para mel hor submeter e expl orar a
popul ação. O autor encerra esta parte cri ti cando veementemente os
si ndi cal i stas e suas pretensões de neutral i dade na questão soci al .
F al ar aos trabal hadores da necessi dade de traçar-se o
propósi to deci si vo de evadi r-se deste i menso cárcere -
destrui ndo-o - tem equi val i do para os si ndi cal i stas
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i macul ados a uma fantasmagori a fi l osófi ca que di strai aos
trabal hadores sem que a possam compreender.
N a déci ma pri mei ra pal i e conti nua apresentando severas críti cas ao
si ndi cal i smo. N a verdade, i ntensi fi ca seu tom de recusa aos postul ados do
si ndi cal i smo francês. Antes di sso demonstra como os si ndi catos tomam a
forma que I hes são dadas pel as mi nori as ati vas. Se estas mi nori as têm
concepções autori tári as, os si ndi catos serão ori entados de manei ra favorável
ao capi tal i smo, segundo, pel o marxi smo, ou, por fi m, de acordo com os
sacramentos de al guma rel i gi ão ou Estado. Ci ta como exempl os do pri mei ro a
"F ederação Ameri cana do Trabal ho", do segundo as "Trade-Uni ons i ngl esas,
si ndi catos vermel hos da R ússi a" e dos tercei ros as "Corporações gremi ai s
catól i cas, fasci stas, etc.", Di ferentemente destas, o anarqui smo ori entou, entre
outras, a C.N .T. espanhol a, a F .O.R .A. ( Argenti na) e a F .O.S.P. do B rasi l .
O autor é ci ente de que a médi a dos si ndi cal i zados possuem uma
percepção bastante estrei ta das possi bi l i dades de transforrnaçâo através das
associ ações operári as, procurando apenas mi ni mi zar a crueza de sua condi ção
de trabal hador. Daí a i mportânci a da ação de mi nori as ati vas para reverter este
quadro desal entador. M as antes desta questão, o autor evi denci a sua críti ca do
cul to ao mundo do operári o, como fei to pel os si ndi cal i stas. Em seu
entendi mento, o operari ado deveri a ser abol i do junto do i ndustri al i smo e do
capi tal i smo.
A cada si ndi cato profi ssi onal concorrem os operanos
consi derados como el ementos de um ofíci o determi nado:
al fai ates, sapatei ros, pi ntores, padei ros, tecel ões, etc. M as
haveri am de ser subjugados na ofi ci na e na fábri ca, pel a
profi ssão, e escravos fora del a por uma sempi terna mani a
profi ssi onal ?
Lopes Arango di sse com grande acerto: o i ndi víduo val e
pel o que pensa e não pel o que produz. Quer di zer, seu
val or di sti nti vo está no que o homem supõe como
uni dade consci ente e detenni nante do progresso e não
como fator cego e forçado da produção.
N ão terão os operári os padei ros, por exempl o, um val or
nem i ndi vi dual nem col eti vo para a marcha ascendente de
um povo, pel o fato de prepararem as massas do pão, de
trabal har até ao esgotamento, atendendo com seu esforço
uma necessi dade i ni l udível da popul ação. M esmo
senti ndo o orgul ho de el aborar o manjar mars
11
i ndi spensável à vi da, não passari a, quem tal necessi dade
sofrera ~ se não ti vesse outra vi rtude ~ de i nstrumento de
trabal ho, de motor de sangue, de ani mal de ti ro no carro
da produção.
H oje, na época do maqui ni smo gal opante, o trabal ho,
para quem aspi ra a uma soci edade sem parasi tas, é um
ti mbre de di gni dade; mas para o autômato de cérebro e de
coração, é envi l ecedor.
Outra i nterpretação equívoca do si ndi cal i smo em rel ação ao anarqui smo
é, segundo o autor, a que defi ne o pri mei ro como estando vol tado para a ação
e o segundo vol tado para o pensamento. Esta di sjunção surge na anal íti ca do
autor como um absol uto despropósi to.
Tem-se di to: o si ndi cal i smo é a doutri na da ação como o
anarqui smo o é do pensamento.
O si ndi cal i smo é o braço, enquanto que o anarqui smo é o
cérebro da revol ução.
O si ndi cal i smo l i bertári o será, é já de fato, o veícul o em
que devemos embarcar-nos; a anarqui a é o l ongínquo e
l umi noso ponto do hori zonte ao qual nos devemos di ri gi r.
Ungüento de retóri ca, i ncenso l i terári o, verborragi a!
Por acaso a doutri na da verdadei ra ação revol uci onári a
não é o pensamento anarqui sta, e este não se traduz em
senti mentos e em fatos como já temos di to e provado
mai s de uma vez?
O anarqui smo não é um tl uído etéreo que se corrompe
em contato com as coi sas dos mortai s e se converte em
pó e l odo quando desce das al turas.
Em segui da o autor se refere a um "dever dos anarqui stas".
O descontentamento momentâneo e ci rcunstanci al dos
expl orados deve ser converti do em raci ocíni o cri ti co, em
senti mento cri ador, e projetado em aspi rações de
l i berdade: deve traduzi r-se no desejo constante de chegar
a uma fundamental transformação das rel ações
econômi cas e morai s. Ei s ai o dever dos anarqui stas.
Ao que pergunta em segui da, já respondendo na própri a i ndagação:
12
Onde deverão cumpri r esse dever senão em todos os
l ugares em que prestem o concurso de sua ati vi dade
pessoal ?
o anarqui sta é convi dado a ser anarqui sta onde el e esti ver e não nuns
espaços específi cos e noutros não. A abol i ção constante da noção de
autori dade deve se dar i ntensamente em cada ocasi ão que surjam
autori tari smos. Se o si ndi cal i smo francês preconi zava um pretenso campo de
neutral i dade, i sto se apresentava para o autor enquanto embuste favorável à
manutenção do estado atual das coi sas. Para os si ndi cal i stas franceses uma
organi zação operári a não poderi a se afi rmar anarqui sta, mesmo que a
esmagadora mai ori a de seus i ntegrantes o tosse, por macul ar i deol ogi camente
um organi smo puramente de resi stênci a econômi ca. O autor di scorda
profundamente deste raci ocíni o l embrando que todo e qual quer agrupamento
humano será i ncompl eto e fal ho dentro de quai squer que sejam seus
referenci ai s.
Que tai s i nsti tui ções têm defei tos equi val entes cada um a
uma negação das i déi as? M as, por acaso, não os há
i gual mente no grupo em mai s ou menos quanti dade? N ão
é também defei tuoso cada i ndi vi duo ai nda que se chame
e de fato seja anarqui sta?
N ós não coi nci di mos com os que em nome do real i smo
l evantam al tares a Sancho Pança, nem comparti l hamos o
pensamento dos que, fazendo da anarqui a uma dei dade,
substi tuem vel hos absurdos com dogmas novos.
Parece-nos que as persi stentes i nvocações da i déi a pura,
não representam senão uma l i tani a l i bertári a que converte
o anarqui smo em doutri na rel i gi osa.
E de i gual modo às especul ações anti fi l osófi cas de al guns
aspi rantes a fi l ósofos, soam-nos como as úl ti mas
sal modi as do marxi smo decadente postas em sol fa
si ndi cal i sta, tal o ensi no negati vo que nos oferecem em
Espanha os teóri cos do possi bi l i smo, os devotos do
prati ci smo, os "tri nta" semi deuses destronados.
N a déci ma segunda parte o autor encami nha o encerramento de suas
ponderações, com o adendo de ter parado por questões de espaço no jornal ,
mas que retomari a quando a ocasi ão se desse. N esta parte concl usi va
13
ci rcunscreve as di vi sões de opi ni ões sobre a matéri a proposta em doi s pól os:
um representado por N eno Vasco e outro pel a Uni ão Anarqui sta Portuguesa-
UAP. Para o pri mei ro '''o anarqui smo é si ndi cal i sta desde o berço' e que
'quanto mai s anarqui sta, mai s si ndi cal i sta. '"
A UAP vai à di reção oposta da mani festa por N eno Vasco, sal i enta o
autor. O si ndi cal i smo, segundo esta uni ão, fomenta o egoísmo nos
trabal hadores, estando "i mbuído de autori dade!" As opi ni ões e apreci ações
sobre o si ndi cal i smo são di versas entre os trabal hadores, havendo quem veja
no si ndi cato o pri ncípi o, mei o e fi m da revol ução, como também quem
condene total mente o si ndi cato como mei o i ncompatível com uma pretendi da
transformação soci al no senti do da justi ça, da l i berdade e da equi dade soci al .
Apesar de suas reservas com o si ndi cal i smo, o autor não converge com
nenhum dos doi s pól os em questão. Para el e, neste como noutros campos da
refl exão e da ação soci al , não exi stem manuai s nem códi ces absol utos.
As di sti ntas tendênci as sobre o assunto têm si do
atenuadas e também eX,ageradas. Al guns vi ram no
si ndi cato atual o Al fa e Omega da revol ução soci al , a
panacéi a do presente e do porvi r, como os si ndi cal i stas
franceses Pi erre B esnard e H uart; e outros, ao contrári o,
como al guns dos el ementos conheci dos em nosso mei o
soci al - repetem constantemente, até à saci edade. que
cada núcl eo de organi zação gremi al deve si gni fi car
qual quer coi sa assi m como asi l o de i nvál i dos. como um
refugi o de mendi gos, como se fossem monturos de ex-
homens.
N ão coi nci di mos nem com os segundos e mui to menos
com os pri mei ros. Ai nda que i ncorramos no peri go de ser
exagerados, i nsi sti remos em que não temos fé nal guma
pal i ngenesi a soci al ; não acredi tamos que possa haver ou
que chegam a descobri rem-se cami nhos úni cos ou
fórmul as sal vadoras.
Parece-nos que não dei xa de ser uma i l usão
desconcertante o pensar que determi nada corrente, grupo
ou opi ni ão i ndi vi dual se crei a estar no mesmo pl ano
daquel a i déi a com que um l ouco estampava na capa de
um l i vro seu: - "A fórmul a justa do B em estar Soci al ".
N ão seri a mai s vi ável entender que a verdade é sempre
rel ati va, e que, sobretudo, não devemos ter a pretensão de
querer monopol i zá-I a?
14
Em vez de ofi ci armos no papel de dominós e afi rmarmos
com ênfase que os outros estão errados, mel hor seri a que,
com modésti a e tol erânci a exal tássemos as outras
vontades para que, na mul ti pl i ci dade das mani festações,
l utassem sem cessar e cada di a mai s i ntensa e
ampl amente, pel a l i berdade e pel o bem estar de todos os
progressos soci ai s, contra o autori tari smo e contra o mal .
N eno Vasco, mui to mai s os si ndi cal i stas franceses e
espanhói s contemporâneos que se esforçam por fazer do
si ndi cal i smo uma nova i greja, afi rmam que a mi ssão das
organi zações é mai s pós que pré-revolucionária. N ós
opi namos o contrári o.
Assi m como a vi da econômi ca e soci al presente revasa os
l i mi tes das l ei s convenci onai s e dos códi gos absurdos, do
mesmo modo e com mai ores proporções nos parece que a
convi vênci a futura dos homens não poderá ser encai xada
nos mol des acanhados que os engenhei ros do
si ndi cal i smo preparam na atual i dade para as gerações
vi ndouras.
Por i sso mesmo é que o l i vro de B esnard, "Os si ndi catos
e a R evol ução Soci al ", nos parece al gumas vezes um
"cateci smo si ndi cal i sta" - expressão fel i z de um mestre
das i déi as - e outras uma i nfanti l i dade, própri a de uma
cri ança próxi ma aos 50 anos, enérgi co defensor das suas
opi ni ões.
O autor se encami nha para o fi m deste seu escri to evi denci ando ser o
si ndi cato um campo possível de atuação anarqui sta não por conta de al guma
sua qual i dade i manente, mas antes porque se as pessoas nos si ndi catos agi rem
de manei ra l i bertári a, os si ndi catos terão uma fei ção anarqui sta. O autor i nsi ste
em recusar "tudo o que si gni fi que uni l ateral i dade". Por esta razão não condena
a ação nas associ ações de cl asse como não faz a apol ogi a do si ndi cal i smo.
Para el e, a ação anarqui sta, venha ou não com este rótul o, se caracteri za por
ter como objeti vo a l i berdade, mas também por se real i zar através de mei os
l i bertári os.
*
Duas pal avras a mai s sobre al gumas questões rel ati vas ao texto
apresentado. Pri mei ro, sobre a autori a. Seguramente o autor deste texto é
15
Pri mi ti vo R aymundo Soares ( 1883-1947), mai s conheci do por F l orenti no de
Carval ho. Vári os i ndíci os apontam para esta concl usão. Apresentarei al guns.
Antes de mai s nada o uso do pseudôni mo consi sti u em recurso ampl amente
uti l i zado pel os trabal hadores i ndi vi dual mente como em col eti vi dade. N o caso
de Pri mi ti vo Soares, desde o ano de 1910, quando de sua pri mei ra deportação,
adotou o pseudôni mo F l orenti no de Carval ho, pel o qual fi cou conheci do no
B rasi l e no exteri or. Outros pseudôni mos por el e uti l i zados foram Anhaguerra,
J oão Cri spi m, Graco, G. de M orti l l et, C. Denoy, entre mui tos outros.
Quando fora deportado a segunda vez, no ano de 1912, para Portugal ,
vol tou cl andesti namente para o B rasi l . Enquanto atuava no movi mento
operári o e anarqui sta, escrevi a na i mprensa assi nando com seu nome,
Pri mi ti vo Soares, anunci ando ter escri to de Portugal . Ao mesmo tempo
escrevi a arti gos assi nando como F l orenti no de Carval ho dei xando evi dente
estar no B rasi l . Este estratagema assegurou sua i ntegri dade fi si ca por um bom
período de tempo, uma vez ser el e al vo sel eto aos ol hos di scri ci onári os dos
governantes.
N os anos tri nta adotou procedi mento semel hante. Escreveu em 1933
uma "Carta aberta aos trabal hadores", assi nada por F l orenti no de Carval ho, na
qual anunci ava sua saída dos mei os si ndi cai s e expl i cava sua ati tude.
Encontrei este arti go recortado dentro de seu prontuári o i ndi vi dual na seção do
DOPS no Arqui vo Públ i co do Estado de São Paul o. Seu prontuári o é o de
número 144. O servi ço de i ntel i gênci a da pol íci a acompanhava a i mprensa
operári a a fi m de mel hor control ar questões rel ati vas ao movi mento operári o e
à manutenção da "ordem soci al ". Após este epi sódi o, rarei am cada vez mai s
arti gos assi nados por F l orenti no de Carval ho.
Esta estratégi a parece ter funci onado. N o entanto arti gos com uma
i denti dade i mpressi onante com as i déi as, categori as, termos e vocabul ári o
uti l i zados por F l orenti no de Carval ho surgem ao l ongo da década de tri nta
assi nados com outros nomes ou com i ni ci ai s. Este é o caso da séri e de arti gos
aqui apresentada. Todo o arcabouço concei tual exposto, sobretudo nas
ci tações i ncorporadas no texto desta apresentação como nas endentadas, são
i dênti cas ao pensamento de Pri mi ti vo Soares como encontrado em outras
ocasi ões.
Ci to, a títul o de exempl o, a anál i se el aborada por r. M . quanto ao
si ndi cal i smo em face do anarqui smo. Debates deste teor e nesta mesma
di sposi ção, Pri mi ti vo Soares travou com o anarcossi ndi cal i sta N eno Vasco no
ano de 1913 através de uma séri e de arti gos publ i cados em al guns números do
jornal anarcossi ndi cal i sta cari oca A Voz do Trabalhador. Aqui Pri mi ti vo
Soares assi nou como J oão Cri spi m. Em 1916 Pri mi ti vo Soares, com o
pseudôni mo F l orenti no de Carval ho, estabel ece pol êmi ca com Ângel o
16
B andoni , seu companhei ro no col eti vo edi tori al do jornal anarqui sta La
Guerra Sociale de São Paul o. Ângel o B andoni defendi a termi nantemente a
saída i medi ata dos anarqui stas dos si ndi catos por conta das i nsufi ci ênci as
i nerentes ao si ndi cal i smo, como afi rmei mai s aci ma. Essas i nsufi ci ênci as já
ti nham si do apontadas por Pri mi ti vo Soares. A di scordânci a se dari a por conta
de Pri mi ti vo Soares ser avesso ao que chamou de "uni l ateral i dade", ou seja, a
confecção de fórmul as, códi gos e normas absol utas.
Também a defi ni ção de anarqui smo, soci al i smo e comuni smo é i dênti ca
no texto assi nado por 1. M . e nos escri tos de Pri mi ti vo Soares. A anál i se
extremamente áci da do marxi smo é outro aspecto presente neste escri to
exi stente também no pensamento de Pri mi ti vo Soares. Tratar da ausênci a de
um centro na N atureza, como encontrado no atual texto, remetendo a sua
ausênci a também na vi da soci al consti tui um outro ponto a favor da asserti va
de autori a deste escri to atri buída a Pri mi ti vo Soares. O concei to de "vi da de
rel ação" presente no texto de L M . e nos escri tos anteri ores de Pri mi ti vo
Soares col oca em foco a i nexi stênci a de central i dade à ação e à refl exão;
também enquanto forma de arrui nar anál i ses e atuações reduci oni stas,
excl usi vi stas, si mpl i stas, determi nantes. Por fi m. sua ênfase ao que chamou de
"detenni ni srno psi col ógi co", consi derando a vontade pessoal enquanto
di mensão rel evante nas transformações soci ai s. também serve de i ndi cati vo da
autori a de Pri mi ti vo Soares para o texto aqui apresentado.
Poderi a segui r apresentando outros i ndíci os desta afi rmati va, mas
acredi to ser por demai s enfadonho e desnecessári o. O l ei tor, caso quei ra
proceder a uma anál i se por si só. poderá fazê-I o tomando o seu pri mei ro l i vro,
"Da Escravidão à Liberdade", escri to em 1927, o seu segundo l i vro, "A
Guerra Civil de J 932 em São Paulo", escri to em 1932. ou mi nha di ssertação
de mestrado tornada l i vro no ano de 2000. Seu títul o é "Florentino de
Carvalho, pensamento sacia! de um anarquista" e foi publ i cado pel a Edi tora
Achi amé do R i o de J anei ro.
O trabal ho de reuni r arti gos ao l ongo dos jornai s é mai s custoso para o
l ei tor casual . Este trabal ho de gari mpagem é rel ati vamente l ento e mai s
exi gente. M as seri a o i deal , enquanto não exi stem publ i cações mai s acessívei s
de l i vros e col etâneas de arti gos da i mprensa. Organi zar col etâneas de arti gos
destes anarqui stas segundo cri téri os temáti cos com textos de apresentação,
medi ando aspectos rel evantes na l ei tura dos escri tos com o mundo do l ei tor
contemporâneo, faci l i tari a em mui to o conheci mento de um pensamento soci al
ori gi nal e ri quíssi mo como o el aborado no movi mento operári o no B rasi l em
seus pri mei ros períodos. Estes escri tos consti tuem atual mente documentos
hi stóri cos de val or i nesti mável di sponívei s em di versos arqui vos públ i cos.
17
Quero dei xar bastante cl aro que apesar de serem documentos hi stóri cos,
são antes emanações de pessoal i dades. N este senti do, não estão condenados a
fi carem presos num passado pretéri to, mas antes podem atual mente ter al go a
nos comuni car. Por exempl o, se o mundo atual mente cami nha cada vez mai s
i ntensamente num di apasão di sci pl i nar e di sci pl i nador, cri ando um ambi ente
crescentemente sufocante com um conservadori smo exarcebado, estes
documentos hi stóri cos nos dei xam entrever soci abi l i dades i ndi sci pl i nadas,
cul ti vando l i berdades através de múl ti pl os experi mentos, fomentando a
di versi dade e a i medi ata ruína da hi erarqui a e das fi ·ontei ras.
M ui tos dos probl emas vi venci ados na soci edade contemporânea foram
vi stos anteci padamente em mui to destes escri tos, numa tentati va de provocar
si gni fi cati vo desl ocamento no crescente rumo na central i zação soci al do
poder. Os ri scos para as l i berdades i ndi vi dual e col eti va com o crescente
processo de faci sti zação da soci edade no B rasi l e no mundo fora denunci ado
veementemente pel os anarqui stas através de pal estras, jornai s, revi stas e l i vros
publ i cados ao l ongo das décadas i ni ci ai s do sécul o XX.
Acredi to que uma rel ei tura destes escri tos pode auxi l i ar numa
compreensão mai s l arga das opções i ncrementadas pel a soci edade ao l ongo
das décadas do sécul o passado e no i níci o deste. O movi mento operári o, por
exempl o, foi reduzi do a quê expressão depoi s de décadas sob a i njunção da
pol íti ca i nsti tuci onal e do anêmi co si ndi cal i smo vi gente? Observe bem l ei tor e
acompanhe a envergadura do texto que se segue e veja como, desde a vi rada
do sécul o XI X até hoje, os movi mentos soci ai s no B rasi l e no mundo deram
i ncrívei s sal tos ... para trás!
Apenas um consel ho: abandonar a perspecti va di sci pl i nar, di sci pl i nada
e di sci pl i nadora natural i zando a i déi a de tempo, procedendo canhestramente
homegenei zando o anarqui smo e que parte da supersti ção ci enti fi ci sta
defendendo a exi stênci a de i déi as obsol etas, anacrôni cas ou ul trapassadas. Em
mi nha tese de doutoramento i nti tul ada Indisciplina: experimentos libertários e
emergência de saberes anarquistas no Brasil, sobre jornai s e revi stas
operári as, refl i to mai s deti damente sobre estas questões. Para quem quei ra
saber mai s sobre o tema conforme tenho abordado, el a está di sponível nos
si tes <www.sapi enti a.puc.sp> e <www.domi ni opubl i co.gov.br>.
A segunda pal avra que gostari a de dar sobre o texto trata dos ajustes
real i zados. N este senti do, procurei i nterferi r o menos possível , mas corri gi
al guns erros de concordânci a, de grafi a de pal avras e nomes pessoai s. À
época, era comum traduzi r os pri mei ros nomes das pessoas. Atual i zei a
manei ra de referi r-se a pessoa usando sempre o nome tal qual se encontra em
sua l íngua. Atual i zei também al guns poucos vocábul os anti quados em
demasi a. .
18
*
Para fi nal i zar, gostari a apenas de l embrar terem si do estes escri tos
publ i cados num jornal operári o! A séri e de arti gos aqui apresentados foi
publ i cada em São Paul o, nos números 25, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 33, 36, 38
e 39 no que os edi tores denomi naram 'nova fase' do jornal anarqui sta A Plebe.
I sto se deu entre os meses de mai o a setembro do ano de 1933. Este jornal fora
cri ado no ano de 1917, tendo atravessado di versas fases até i níci o dos anos
ci nqüenta do sécul o passado. Consi derando o edi tori al do pri mei ro número em
que Edgar Leuenroth afi rma ser A Plebe a conti nuação do jornal anti cl eri cal A
Lanterna, fundado em 190I , A Plebe remonta ao i níci o do sécul o XX. Este
peri ódi co foi sem sombra de dúvi da o mai s i mportante jornal operári o
publ i cado no B rasi l . Em suas di versas fases foi semanal e qui nzenal , chegando
a ser publ i cado di ari amente no ano de 1919.
A Plebe foi um i mpresso publ i cado a parti r da i ni ci ati va vol untári a e
dos esforços dos própri os trabal hadores, sem subsídi o estatal nem i mposto
si ndi cal . Lembro deste "detal he" para que o l ei tor contemporâneo tenha uma
i déi a da modal i dade de convi vênci a experi mentado entre os trabal hadores, do
nível de di scussão. da densi dade das l ei turas como também da ampl i dão de
hori zontes cul ti vados entre si mpl es "operári os". Esta observação serve como
avi so sobre os l i mi tes estrei tos da escol ari zação atual . uma vez que é a parti r
del a que os pesqui sadores contemporâneos têm se debruçado sobre este
campo. Como dar conta de um cal deamento de experi mentos e concepções
que transbordam com os referenci ai s di sci pl i nares uti l i zados, vi a de regra,
enquanto aporte concei tual na esmagadora mai ori a das pesqui sas sobre o
anarqui smo desde os anos ci nqüenta?
19
A n a r q u i s m o e S i n d i c a l i s m o
Estamos certos de que se o nosso pensamento tivesse de bater sempre
em consonância com o último eco que nos chega das opiniões alheias, nos
faríamos credores do infeliz qualificativo de bons cidadãos e algumas vezes
até de... bons amigos.
Afortunadamente, porém, aprendemos a reivindicar a nossa pequena
porção da herança coletiva do pecado original: alenta-nos incessantemente o
desejo de saber e para realizá-I o não nos sujeitamos a cânones. Convencidos
de que arebeldia é condição indispensável para pôr emprática o método mais
eficaz de investigação, consideramos funesto, atingida a maioridade,
submetermo-nos voluntariamente à tutela mental de qualquer pensamento
estranho.
Uma circunstância de exíguo mérito nos determinou a formular as
considerações que antecedem e a concluí-Ias com esta ret1exão: adependência
intelectual que revelam os exegetas de opiniões que não lhes pertencem,
parece-nos uma expressão de escravidão voluntária, tão odiosa como qualquer
outra. A nossa independência de ajuizar deixa de existir quando é aplicada à
consideração geral ou, o que é pior ainda, quando é vendida ao mísero preço
de alguma amizade pessoal.
E para evidenciar que a obcecação e o hermetismo não é o que nos
move, passamos a opinar do terreno da tertúlia pessoal para a tribuna, onde
tem acolhida as mais diversas expressões do pensamento anarquista.
Temos ouvido afirmar repetidas vezes emtom de apótema de que "nada
há de novo debaixo do sol". E costumam acrescentar alguns dos nossos que
pelo que respeita às manifestações dapropaganda, já tudo foi dito eescrito.
Com a tolerância que devemos às apreciações divergentes, declaramos
que não partilhamos da mesma opinião. Não porque nos sintamos capazes de
dizer alguma coisa de novo, de acrescentar uma só vírgula a quanto já foi
escrito. Pensamos modestamente que se avida é mutação constante, as idéias
anarquistas menos que quaisquer outras não escaparão à lei universal de
transformação. Eis aí, pois, a manifestação do novo, senão na natureza e
essência das coisas, pelo menos nas mudanças ininterruptas destas, na
mutabilidade das instituições humanas, dos costumes, das correntes e esferas
dos pensamentos contrapostos, de idéias encontradas empugna perene, etc.
O tema que hoje, por exemplo, nos ocupa foi já estampado e em tomo
desses dois tópicos fizeram-se infinidade de considerações em nossos diários,
periódicos erevistas.
20
Estamos persuadidos de que nós, ao tratá-Io outra cousa não lograremos
que mais uma vez dar voltas ànora.
Mas teríamos de interromper a propaganda para fugir à repetição de
tópicos enão incorrer emredundâncias?
Há, a nosso ver, quase tantas maneiras de definir o anarquismo e de
expressar a natureza das suas idéias, como indivíduos o interpretam e se
chamam anarquistas. E cada definição tem o caráter e a orientação que são
peculiares aos homens que a exteriorizam. É em virtude desta e também à
parte do temperamento, segundo o grau de cultura de cada propagandista, que
se incorre muitas vezes em apresentar o anarquismo como um postulado de
justiça e um anelo de liberdade, ora como um movimento de luta provocado
fatalmente pela divisão da espécie humana em classes e castas. Outros como
um produto da evolução da ciência e do progresso mecânico ou, para não nos
estendermos mais, como resultado final ou superação da filosofia e de uma
interpretação dia a dia menos transcendente, mas inspirada na natureza dos
modernos sistemas de ética.
Tais apreciações concebidas em tão diversíssimos casos determinam
naturalmente que a idéia anarquista seja apresentada aquantos a desconhecem
demaneira unilateral eincompleta.
É emrazão da influência de fatos devidos ao temperamento, à educação
e à cultura, que se ouve repetir por um lado que o anarquismo éum problema
de escolas racionalistas, a outros que é uma questão de multiplicação de
grupos afins, de difusão de publicações, de edições de livros, do fomento de
um movimento operário inspirado emnossos propósitos, etc., etc.
Recordamos a este respeito às objeções atiladas que no prólogo de uma
edição espanhola de "A Ciência e a Anarquia" fez o camarada Ricardo Mella
ao autor da mencionada obra, P. Kropotkin. Considera o prologuista e expõe
ao velho mestre que a sua qualidade de homem de ciência, evidencia no livro
em questão uma concepção excessivamente mecanicista da história do
pensamento filosófico edas idéias anarquistas.
Há, inclusive, no concurso das interpretações pessoais, os que sem
deter-se nas definições, afirmam com Bóvio que "anárquico éo pensamento e
para aanarquia caminha ahistória".
Não faltam materiais de documentação que possam ser aproveitados
para argumentar em favor de qualquer tendência que se costuma criar e
fomentar inspirada emuma das referidas definições fragmentárias.
Deve-se isto indubitavelmente a que, como sempre se disse e se repete,
a verdade não é patrimônio de nenhuma escola nem de nenhuma tendência
determinada.
21
E a verdade anarquista, como as restantes verdades, não pode ser
exclusiva de nenhuma tendência, nem monopólio dos que intentam orientar o
movimento revolucionário prefixando-lhe uma trajetória única.
O anarquismo é simultaneamente tudo o que de uma maneira parcial,
monofásica, querem que seja os distintos homens e os diversos grupos
humanos que pelo seu conhecimento e pelas inquietudes que ele irradia.
ininterruptamente ativam etrabalham.
É um sentimento de justiça que pugna por traduzir-se em realidade na
convivência das agrupações humanas. Por conseqüência não pode deixar de
manifestar-se como um movimento de vontades, como uma corrente de
energias que combate em aberta luta contra a injustiça, contra todas as formas
de explorações etiranias.
É nesta luta milenária contra a iniqüidade social, da insurgência
permanente do débil contra o forte, do oprimido contra o opressor, do
deserdado contra o monopolizador dos meios de trabalho e da riqueza
acumulada por este, onde o anarquismo encontra as suas premissas mais
fundamentais.
11
Quase todos os espíritos independentes coincidem emque ahistória tem
sido feita em todos os povos e em todas as épocas de maneira deficientíssima:
prevaleceu quase sempre um critério carliliano' na mentalidade dos analistas e
narradores. Apesar de todas as investigações de caráter histórico tecidas
infinidades de vezes em t01110das grandes ações dos heróis felizmente
também foram feitos estudos interessantíssimos informando-nos sobre os
grandes gestos dos povos. E inspirando-se nestes movimentos foi analisado o
processo das idéias de liberdade e da rebelião dos oprimidos frente a frente
dos seus tiranos.
Cento e vinte anos antes da era vulgar já se conhece o movimento
agrário dos Gracos. Caio foi assassinado em um motim produzido por estas
lutas no ano 121. Quase dois séculos depois Espártaco é o personagem
insubmisso que começa como protagonista o primeiro capitulo na história das
atitudes edas idéias subversivas.
I Referência a Thomas Carlyle (1795 • 1881), historiador e ensaísta nascido na Escócia. Para ele, a
história expressava a vontade de Deus. Vontade esta manifesta na vida dos chamados homens notáveis,
Conservador ao extremo. defendeu a instituição da escravidão. Religioso fervoroso combateu o
liberalismo ao mesmo tempo em que propunha o retorno à Idade Média. Escreveu vários livros entre eles
um sobre a revolução francesa, interpretando este acontecimento como um castigo de Deus por conta
dos pecados da França.
22
A partir de então a pugna dos povos pela liberdade manifesta-se
intermitentemente, porém, com continuidade ininterrupta.
Como resultado conseqüente de conscienciosas investigações.
historiadores modernos há que assinalaram como precursores dos anarquistas
contemporâneos aos anabatistas centro-europeu.
São conhecidos os movimentos de grande envergadura social
sustentados no século XVI pelos camponeses alemães, austríacos e boêmios
contra os príncipes germânicos eos senhores da Igreja Católica.
O nosso camarada R. Rocker publicou há alguns anos, no "Suplemento"
de "La Protesta" de Buenos Aires, uma magnífica monografiaapologética da
personalidade mais vigorosa daqueles grandes episódios: Tomaz Munzer.
Posteriormente à grande cruzada em que se içou como símbolo
revolucionário o lábaro das reivindicações econômicas e morais em que se
liam os expressivos termos de Bunchuad (Sapatorra de camponês) Quoese
Breder (Pão e Queijo) e em que ondeou pela primeira vez abandeira negra, a
historia registra inúmeras insurreições.
O estado aristocrático e a sociedade cristão-capitalista rivalizaram sem
cessar perpetrando contra os rebeldes insurgi dos as mais ferozes repressões.
O frade Agostinho - justamente vituperado como traidor por Munzer, -
Martinho Lutero, ante Deus. descarrega de remorsos a sua consciência por ter
feito "servir debainha aseu punhal os pescoços dos camponeses".
Todas as insurreições são estranguladas pela força, afogados todos os
gestos manumissores pelo ferro e pelo fogo. Mas, malgrado as mais
ignominiosas crueldades. a luta dos povos por suas reivindicações nunca foi
totalmente interrompida, eavontade rebelde das multidões e dos heróis jamais
pode ser definitivamente aniquilada.
Da cinza de todos os incêndios e de entre os escombros das mais brutais
destruições. ressurgiu, esvoaçando serena sobre os campos e cidades de cem
povos distintos, aave Fênix do pensamento livre.
E não é evidente que este anelo de independência, de vida sempre mais
livre, se expressou antes na luta quotidiana, na ação dinâmica das vontades,
que na concepção filosófica da idéia?
* * *
Todo o batalhar incessante da humanidade através de mais de cem
séculos (incluímos civilizações anteriores á cristã) tem eclosão numa epopéia
culminante na história: agrande Revolução Francesa.
Os servos do campo subjugados pelo trabalho excessivo, pelas gabelas
crescentes de dia para dia e pela fome. levantados em armas contra os
23
senhores dos castelos feudais; os descamisados dos bairros de Paris,
acicatados pela miséria e em rebeldia contra uma monarquia oprobriosa e
decrépita, os J acques de toda a França, em um gesto enérgico, em uma ação
decisiva, iniciam no ano de 1789 um novo ciclo de vida social para o mundo
ocidental dos povos europeus eamericanos.
A partir dessa data, sobre a base da nova estrutura política de um povo,
uma nova fase de vida coletiva começa no desenvolvimento da economia, nas
expressões da literatura, na evolução das ciências, na conexão destas com as
atividades do trabalho pela aplicação da técnica.
E o pensamento filosófico, que havia pressentido toda a multiplicidade
de realizações, confirmando-se pela realidade de diversos fatos concretizados,
nutre-se destes, e, por indução do presente, esboça um ideal de futuro todavia
não verificado.
Daquele grande caudal de energias consagradas a esmagar o infame,
daquela erupção gigante de vontades, surge uma legião de espíritos
clarividentes (Roux, Chaumette, o mesmo Bafeuf, etc.) que pretendem
impulsar para mais longe os acontecimentos e cortar mais pela raiz as
instituições pretéritas. Os bons anelos não prosperam, mas que importa? A
semente da ação para realizar um propósito ficou no sulco e aplanta do ideal
insinuado brotará amanhã mais vigorosa.
Sucede à era das lutas pela liberdade a desforra das forças cegas do
autoritarismo. O mundo da reação, levantando sobre as cabeças o sabre e a
cruz, lança-se arrogante uma vez mais sobre os povos. Não há mal, porém,
que perdure indefinidamente.
Assim em 1830 as vontades aferrolhadas começam de novo a
desprender-se das suas cadeias, e com elas a ciência e a filosofia tornam a
reconquistar passo apasso com perseverança o terreno perdido.
E a partir de então, em 1848, em 1871, na ultima década do século
passado e no que decorreu do presente, não mantêm os povos inusitada pugna
para plasmar nos fatos uma transformação verdadeiramente fundamental nos
costumes, nas idéias enos métodos de convivência coletiva?
Resulta, portanto, um fato convincente que o conteúdo substancial das
lutas mencionadas e das mil e uma que o espaço não nos permite sequer
enumerar, tem tido em infinidade de ocasiões uma significação profundamente
progressiva, eminentemente revolucionária.
O coeficiente moral das contendas humanas a que temos feito alusão,
expressou sempre através de todos os tempos e em todos os lugares, (a
sublevação dos cipaios na Índia em 1857. a dos taipings na China, a guerra
dos boers insurretos em fins do século passado contra a dominação inglesa
24
etc., entre outros exemplos), um desejo de equidade social nunca satisfeito,
uma aspiração manumissora deprojeções abarcativas.
*
*
*
Urge reagir contra uma sociedade que fez a história mais ou menos
defeituosa das elucubrações do pensamento - não do pensamento fecundo e
construtivo - etem feito o panegírico epretendido assegurar aperpetuidade da
paralisia das vontades.
Hoje mais que nunca devemos consagrar o máximo empenho em
libertar-nos dojugo funesto dametafísica.
É preciso estimular nos outros e em nós mesmos a vontade renovadora,
em todos os terrenos, nas mais diversas manifestações da vida. O edifício do
progresso material e moral têm sido levantados, invertendo nisso um
manancial enorme de energias revolucionárias.
Em frente da avalanche autoritária que invade todos os campos
estrangulando as iniciativas espontâneas é necessária uma reação vigorosa das
vontades progressivas.
Propiciemos um movimento social tão vasto e multiforme no qual
possam ter ubiquação todos os espíritos independentes.
Importa sobremaneira que cada um creia em suas próprias forças e
confie. educando-as simultaneamente, emsuas faculdades pessoais.
Alegremo-nos de que os temperamentos e as inclinações sejam
múltiplas. O que interessa, acima de tudo. é que aumente sem interrupção à
vontade de fazer, seguindo sempre as diretivas anarquistas.
Reivindiquemos a atividade beligerante pelas boas causas das gerações
predecessoras mais heróicas.
É tempo já de deixar escrita com fatos a verdadeira história das ações
criadoras.
III
Temos falado apenas duma maneira demasiado sumária,
excessivamente resumida. de uma só das expressões da atividade humana
entre todas as que contribuíram à elaboração do progresso e da cultura: foi
esta, como tentamos consignar, a inversão constante, por parte das minorias
ativas, de ingentes esforços e de ações criadoras, evidenciando-se sempre no
curso dahistória num sentido demais liberdade ede superação constante.
As considerações expostas correspondem ao que sendo a verdadeira
história, inédita todavia, poderia chamar-se Filosofia das ações humanas.
25
É inegável que a vida da humanidade é complexíssima e que não há
solução de continuidade entre todas as suas múltiplas e distintas
manifestações.
É assim que, paralelamente ao processo das lutas por um
desenvolvimento dia a dia mais amplo na organização das sociedades
humanas, se produz outro movimento também de importância transcendental
que é o da evolução das ciências. E simultaneamente, ainda que algumas vezes
precedendo-o e outras o seguindo, elabora-se, identificando-se com todas as
restantes atividades sociais, oprogresso do pensamento filosófico.
* * *
É fecunda em ensinamentos a história das investigações científicas e a
história da filosofia que, inspirando-se sempre na experimentação e ajustando-
se aos métodos indutivos, mantêm, à medida que a cultura da razão avança,
mais estreitos vínculos com aprimeira.
Assim constatamos como nascem ao mesmo tempo na Grécia e entre os
árabes as ciências físicas e as exatas, ejustamente nestas duas civilizações é
iniciada também a concepção das idéias filosóficas expurgadas de fantasias
espiritualistas e tendendo em seus princípios e em seus postulados morais a
uma aproximação às leis da natureza.
Mentalidades geniais da sociedade helênica são as que, recolhendo a
herança das verdades e experiências adquiridas pelos povos do Oriente,
colocam em um esforço atrevido a primeira pedra do edificio do saber
humano.
Sócrates coloca ao homem mesmo como fim da filosofia e esta,
despojada de toda a finalidade teista, deve consagrar-se a estudar as normas da
moral eas regras da conduta.
Aristóteles é o fundador daPsicologia edaLógica.
Euclides ePitágoras começam o trabalho das ciências matemáticas, sem
cujo poderoso auxilio não teríamos chegado ao portentoso desenvolvimento
técnico da cultura moderna.
Arquimedes é o obreiro infatigável que estabelece os alicerces da
Física.
Heródoto empreende longas viagens pelos povos antigos, obtendo
copiosas observações e recolhendo as suas tradições e lendas é o criador da
História.
Ao meritíssimo trabalho deste no referido estudo, seguiu-se em
importância amonumental obra "Vidas Paralelas" de Plutarco.
26
As atiladas sugestões do mestre de Platão foram fundamentadas num
amplo sistema de filosofia natural e em uma Ética antiteológica por Zenon e
Epicuro.
E para não estendermos a inquirição das fontes do progresso tão
remotas. acrescentaremos com Reclus que outro homem genial, Diógenes o
Cínico, dois mil antes da Internacional, foi o primeiro precursor das idéias
anarquistas.
Também poderíamos mencionar a Sófocles, Esquilo e Eurípides; a
Fidias, etc., na literatura, no teatro ena arte, na ação sempre perseverante eno
pensamento cada vez mais metódico, que constituíram um impulso vigoroso
para ulteriores desenvolvimentos do progresso humano.
Poderíamos fazer semelhantes considerações, se não temêssemos
incorrer em redundâncias e roubar espaço a estas colunas, acerca da cultura
romana, se bem que esta não haj atido tanta originalidade, nem fosse, emgrau
igual, fundamental evigorosa.
Com a invasão dos Godos e Vândalos no mundo latino produz-se um
fato tristemente notável: desarticula-se o aparelho de dominação do cesarismo
romano e esta derrota do seu antigo rival é convertida em uma de suas mais
significativas vitórias pela Igreja Católica. Quebrou-se, pois, só um dos dois
grandes males que ambicionavam perpetuar-se através da história na "Cidade
Eterna".
O selvagem Atarico, o saqueador de cidades, o digno antecessor de
Átila, éum convertido à fé nos novos deuses e, portanto, um fiel instrumento
do catolicismo. Tudo então, se produziu de maneira favorável para impor ao
mundo o domínio absoluto daIgreja dePedro.
Depois da queda de Rôrnulo Augusto depressa se converte em fato
brutal o desejo cristão de submeter a um silêncio de túmulo a todos os povos
do Ocidente europeu.
O sonho, porém, de imobilizar a estrutura política dos grupos humanos
e muito menos o empenho de paralisar o pensamento no cérebro de cada
individuo não podiam ser alcançados.
Porém o império do fanatismo, da morte decretada contra a iniciativa
pessoal quebra-se da mesma forma que havia perdido sua férula sobre os
homens o absolutismo dos césares. E o renascimento surge exuberante
proclamando aliberdade do pensamento e"a reabilitação da carne".
27
Roger Bacon e depois Francis Bacon proclamaram o método
experimental' na ciência. A estes se segue Descartes com igual método mais
evoluído ecompleto.
Posteriormente reforçam a heresia antiaristotélica'. Copémico que é
anatematizado por discrepar das Sagradas Escrituras. Galileu morto no
presídio com os olhos arrancados. Campanela que sofre 27 anos, enterrado
vivo em um calabouço imundo. Kepler cuja perseguição alcança à própria
mãe. Pirre Ramus que é degolado na famosa "noite de S. Bartclomeu", sob o
reinado da devotadíssima Catarina de Médicis.
E definitivamente alcança a sua primeira vitória o pensamento da
liberdade expressado na ciência, na filosofia e na arte, contra as atrocidades da
Inquisição epor cima dos pregadores da morte.
Depois daquele grande impulso dado à evolução dos conhecimentos por
homens como os citados, por mentalidades fortes como Newton, por
pensadores e humanistas como Erasmo, por moralistas austeros como
Espinosa, as idéias que levam aos espíritos um fermento de rebeldia se
depuram e adquirem maior impulso em outro grande crisol que se denomina
na história com aqualificação de Reforma.
Wiclef, J oão Huss, Tomaz Munzer, J oão de Leidêr, emuitos outros são
as novas vitimas.
A rebelião de um frade provoca este importante movimento: o
interessante, porém, é que a rebelião alarga-se, adquirindo contornos das
maiores projeções naqueles que são determinados por motivos mais sérios que
as intrigas ou as subtilezas religiosas ..
(Não devemos esquecer que a feroz intolerância de S. Paulo está
presente no espírito dos reformadores cristãos. Calvino queimou a Servet e,
como já dissemos, Lutero. o atormentado, pelo íàntasma de Belzebu, degolou
emmassa aos camponeses).
Realizado este grande ciclo de esplendor em todos os departamentos
mentais, novamente éhumilhado por sua altivez o pensamento.
Mas já não se consegue escurecer as fontes da idéia rebelde: esta corre
sem cessar por entre as montanhas do autoritarismo como as águas geradoras
da vida de um arroio fecundo.
2 Em franco combate à explicação teológica do mundo fisico e humano, o pensamento científico opôs à
revelação divina a razão humana. O conhecimento do mundo passaria pela capacidade humana de
observação e experimentação e não pelos dogmas do cristianismo .
.1 Aristóteles (384-322 a. c.) forjou a noção de causa para explicar o movimento. Quatro seriam as causas;
material, f 0I111a L eficiente e final. A causa primeira de tudo seria Deus. a f o r m a pura, privada de matéria.
Aristóteles afirmava ser Deus 'motor imóvel' de onde partiria, encadeando-se, todos os movimentos e
toda a existência tinha como objetivo chegar a Deus.
28
* * *
Como continuadores da pugna incessante na atividade do pensamento e
no trabalho paciente da elaboração da ciência, sucede aos fautores dos grandes
movimentos mencionados, uma geração de potentes mentalidades no século
XVIIl.
Com Buffon começa a escola naturalista, cujos trabalhos são
prosseguidos depois por Lamarck, Geofroy de Saint-Hilaire, Darwin, Lubok,
Russell, Wallace, etc.
Herbert Spencer é o cérebro abarcativo que edifica a filosofia
evolucionista com os materiais oferecidos por esta escola.
Laplace e Euler - este homem abnegado que continua consagrado ao
trabalho depois de cego aos sessenta anos - completam a obra de seus
predecessores na astronomia enas matemáticas.
Franklin, J aime Watt, Volta, Faraday, etc., são posteriormente os que
cumprem a missão importantíssima de aplicar as investigações do saber ao
trabalho eàtécnica.
Ao mesmo tempo, os economistas ingleses, os Mill, Smiles, Bentham,
etc., e os enciclopedistas franceses', Diderot, D'Alernbert, Voltaire, Rousseau,
Montesquieu, Morelli, Mably, e tantos outros dão um novo impulso aos
conhecimentos humanos abrindo o caminho àprimeira República burguesa.
E como corolário da revolução de si, do desenvolvimento científico e
filosófico e do progresso geral humano, aparece no cenário da vida social. das
idéias, o pensamento socialista.
A partir da primeira metade do século passado começou, pois, o mundo
chamado civilizado a elaborar metodicamente um novo conceito da vida
associativa e do direito a que deve ser credor o individuo no seio do novo
grupo.
No capitulo seguinte ocupar-nos-emos da moderna idéia e da estrutura
social que neste ideal se inspira eos militantes damesma proj etam.
IV
.j Enciclopédia ou Dicionário Lógico das Ciências, Artes e Oficias foi publicada na França em 28
volumes entre 1751 e 1772. Denis Diderot (1713-1784) e J ean Le Rond dAlembert (1717-1783)
dirigiram a realização desta iniciativa bastante significativa para o pensamento ocidental, coordenando a
colaboração de nomes expressivos do iluminismo francês. Inicialmente pensado para ser um simples
dicionário, a Enciclopédia se tomou uma importante obra de combate ideológico.
29
Ainda que de modo rapidíssimo tenhamos ensaiado nos trabalhos
precedentes um inventário exato, melhor diremos, um resumo, um sumário
dos esforços criadores da vontade e das atividades diversas do pensamento,
consagrados uns e outras ao desenvolvimento da idéia de liberdade e ao
engrandecimento do progresso.
De todas essas energias canalizadas para o bem comum, as gerações
posteriores obtiveram o fruto de uma nova idéia: o pensamento econômico-
moral denominado Socialismo.
Examinemos, todavia as mais próximas raizes que deram origem ao seu
nascimento.
* * *
Como já mencionamos, tem já uma história remota a reivindicação do
direito àterra.
Os chamados profetas da civilização da J udéia, Isaias, Malaquias, etc.,
já falaram de um reinado de igualdade para os seres humanos, sem que em sua
linguagem se fizesse referência - como se pretendeu falsear depois - a um
paraíso de ultratumba.
Sabe-se também que entre os Essênios era desconhecida apropriedade.
De diversas iní1uências recebidas neste mesmo sentido, toma seu
caráter e natureza comunista a propaganda social da primeira e segunda
geração dos militantes e adeptos do cristianismo.
É igualmente conhecido a este respeito o pensamento dos denominados
primeiros pais da Igreja Católica.
Este sentimento. reivindicado mais tarde pelos anabatistas e por outros
movimentos de rebelião, e - o que é mais importante - praticado por muitos
povos contra a cobiça dos príncipes e sacerdotes e contra as prédicas
usurpadoras do código romano, sobreviveu, apesar de todos os embates
recebidos, até aos tempos modernos.
E chega a incorporar-se mais vigoroso porque se associa ao pensamento
livre emnovas lutas que são travadas por ambos.
Assim encontramos, pela metade do século XVI, a um pensador
original que advoga energicamente para que emnome dajustiça cheguem ater
realização um e outro. Pode-se obter comprovação deste asserto em Etiene de
La Boetie no seu "Discurso sobre aservidão voluntária".
Referindo-se ao modo como deveríamos viver em sociedade e em
harmonia com as leis naturais, escreveu o amigo de Montaigne: "Esta boa mãe
deu-nos a todos a terra por morada, e fez-nos do mesmo barro, a fim de que
cada um se possa mirar e reconhecer no seu semelhante; e, por último tendo
30
querido unificar-nos, não resta a menor dúvida de que todos somos livres por
natureza, porque todos somos companheiros, e não pode caber em humano
entendimento que a natureza haja colocado a determinados homens em
servidão, tendo-os atodos posto na sociedade".
Simultaneamente, na época de haver formulado este principio de ordem
geral, Tomaz Mórus dá a conhecer a sua famosa "Utopia", livro em que
apresenta com caráter de fato concreto a idéia de igualdade. Ao utopista
decapitado por Henrique VIII, sucede outro atrevido pensador, como este
também vítima das iras de um rei fanático e cruel. Tomaz Campanella, o
rebelde atormentado durante tantos anos pelo sombrio Felipe Il, concebe
também asua não menos interessante "Cidade do Sol".
A estas ideações de uma vida igualitária segue-se o "Telêmaco" de
Fenelón.
E após estes aparecem entre os enciclopedistas, os homens que com
especial predileção, com mais precisos conhecimentos e com maior
profundeza de conceito, começam a elaborar o que, em termos não bem
precisos ainda, se entende por filosofia social.
Até aqui, mesmo que o pensamento haja tido sempre um fermento
Iibertário, quase sempre foi exposto partindo deprincípios autoritários.
Mas. por fim. as energias impetuosas da idéia renovadora chegaram a
quebrar os artificiosos canais, os rígidos moldes do autoritarismo.
Em suas duas obras "Brasiliada" e "Codigo da Natureza", concebe e
expõe Morel1y um novo sistema de convivência social em que cada membro
integrante do mesmo encontre o "livre exercício das paixões, encaminhadas
para o bem". Proclama, entre outros, estes princípios: "A unidade indivisível
do solo e da habitação comum". "Estabelecimento do uso comum das
ferramentas do trabalho".
"Uma educação completa a todos acessível". "Distribuição dos
empregos e funções segundo os gostos e as aptidões, o trabalho segundo as
forças eos produtos segundo as necessidades".
Semelhantes afirmações também às faz Mably ainda que, usando uma
linguagem em que invoca o Estado, revelando, às vezes, por conseqüência. um
espírito menos amplo.
Porém emoutros momentos, transpondo estes limites, que sem dúvida a
educação lançou na sua mente. estabelece que as causas do mal estar social
residem na desigualdade de condições econômicas, nos governos com os seus
males deles derivados: a política e as leis. E assinala duma maneira bem
precisa que a mais funda raiz da árvore funesta que deverá ser cortada, é a
propriedade privada.
31
Assim como estes, outros reforços recebeu até agora a idéia do
socialismo incipiente, como "Nova Atlântida" de Bacon, etc., e igualmente
receberá a seguir concrcções mais firmes pelo concurso de mentalidades ainda
mais videntes epela contribuição de vontades laboriosas.
* * *
À luz da Enciclopédia e aproximando-se
revolucionária, a idéia socialista adquiriu contornos
conhecer com linhas de mais relevo.
Sem embargo. não saiu ainda de seus primeiros começos.
Estão-se agora adquirindo novos materiais para uma elaboração mais
completa. Quesnay e Turgot da escola fisiocrata', assentam uma nova
premissa em matéria política: Diderot e Holbach retomam a rota materialista'
do pensamento, aberta 20 séculos antes por Demócrito eEpicuro.
À anterior escola segue-se o Positivismo? de Comte eseus discípulos.
O desenvolvimento destas escolas, juntamente com o novo conceito da
moral imanente" estabelecido por Hobbes e outros, as investigações
etnográficas, da biologia, da antropologia e da psicologia modernas oferecem,
por fim. uma base incomovível para alicerçar sobre ela a sociologia
verdadeira.
da viva experiência
mais precisos e fez-se
* * *
5 François Quesnay (1694-1774) nascido na França e renomado médico da corte de Luis XV. é
considerado por muitos economistas como o criador da primeira escola de economia, em que pese
alguns economistas atribuírem este fato à Escola Clássica. Talvez este entendimento se deva ao fato da
influência dos fisiocratas ter sido breve, ao contrário da Escola Clássica. Fisiocracia significa governo da
natureza. Os quatro postulados desta escola são: ordem natural, laissez-faire e laissez-passer, ênfase na
agricultura e reforma tributária. "Quadro Econômico" é o título do livro escrito em 1758, em que expõe
suas idéias para uma organização da economia. Pierre Sarnuel du Pont de Nemous publicou em 1767
uma coleção dos textos de Quesnay com o título "A Fisiocracia ou a constituição natural do governo a
mais vantajosa para o gênero humano". Anne-Robert-J acques Turgot, um dos principais seguidores de
Quesnay, enquanto ministro das finanças da França, procurou aplicar em 1774, as idéias de seu mestre.
Com a recusa dos proprietários, Turgot foi exonerado, ocasião para o fim da fisiocracia.
(. Para estes filósofos, a matéria era composta por pequenas partículas indivisíveis, os átomos. Suas
reflexões se dirigiram na direção de explicações materiais dos fenômenos naturais, discordando da
orientação transcendental defendia por outros filósofos.
7 O Positivismo do francês August Comte tI 789-1857), personagem importante na constituição da
Sociologia, possui como uma de suas características mais destacadas a ênfase na razão e, por
conseguinte, na observação e exame humano como forma de conhecer os fenômenos naturais e os
fenômenos humanos .
xO inglês Thomas Hobbes (1588-1679) foi rejeitado por monarquistas e republicanos. Recusava a idéia
de direito divino como base da monarquia, no que desagradou aos monarquistas ao mesmo tempo em
que era crítico da idéia republicana. Para ele as instituições humanas eram resultados da vontade humana
e não frutos de algum ser transcendental.
-
32
Uma vez esboçado em seus princípios easpirações, mais ou menos bem
determinadas, o socialismo começa a manifestar-se em um propósito de
realizações efetivas.
Encontramos emprimeiro lugar os conspiradores contra aRepública de
93, chamados "Os Iguais"; Graco Babeuf. Silvain Marechal, Miguel Angelo
Buonarroti e os seus amigos que propagavam doutrinas niveladoras e
quiseram levá-Ias aefeito pela revolução,
Ouçamos o que neste sentido disse o sábio historiador Max Nettlau: "A
Revolução francesa foi a primeira sacudida social de grande envergadura, e
daí em diante as concepções socialistas inspiram-se na esperança de
verdadeira realização, quer pela via revolucionária - pois a revolução tinha
demonstrado a possibilidade disso mediante grandes golpes que saltaram
etapas - quer por meio do raciocínio - cujo caminho tinha sido assinalado
pelo período dos filósofos ingleses e franceses do século XVIII, pensadores
intrépidos que diziam todo o seu pensamento e exerciam influencia nos
espíritos livres de todos os paises - já por experimentações e realizações que
este período havia também tornado viáveis ao atacar a uma parte do número
de crueldades legadas pelos séculos (tortura, escravidão, prisões, casas de
alienados, sistema eleitoral inglês), inspirando vontades para combatê-Ia,
Babeuf, Godwin eRobert Owen representam estes três gêneros de esforço, ea
vida de cada um deles retlete em seus planos (Babeuf), suas concepções
(Godwin), suas realizações (Owen)".
O segundo destes não sabemos que haja intentado sair do terreno da
teoria, mas tem o mérito de expurgar de suas concepções socialistas toda a
intromissão autoritária: éo primeiro expositor das doutrinas anarquistas.
Sucede a estes Saint-Simon que "auxiliado pela sua experiência da
América e os seus conhecimentos das grandes ações políticas, industriais e
financeiras do período deNapoleão I, formou o seu socialismo tão adequado a
estas origens e a este meio ..." (Refere-se M. Nettlau ao "pensamento social
francês, modelado no quadro da utopia cezarista realizada naquela época". ("O
Socialismo individualizado eaciência social". "Revista Blanca" n° 180).
Charles Fourier e Estevam Cabet continuam elaborando as teorias
socialistas e fazendo cada qual um ensaio construtivo em seu falansterio de
Conde-Sul-Vesgres, (França) e o segundo nas margens do Mississipi, em
Nabuco, Estados Unidos).
O trabalho dos mencionados e de seus discipulos, como os
sansimonianos Considérant, Blanqui, Leroux, etc., foi prosseguido pelo
grande economista Karl Marx, auxiliado eficazmente por Engels e outros da
escola alemã.
33
E simultaneamente e ainda antecipando-se-lhes, Pierre-J oseph
Proudhon foi a mentalidade formidavelmente abrangedora e profunda que
havia de demolir os princípios todos por imutáveis, inspirados no terreno da
ética em absurdas sugestões religiosa, e, no aspecto econômico, no brutal e
anticientífico direito romano.
A partir desta fase da evolução das ciências, da filosofia e do espírito
dos povos, apresenta-se às vontades e ao pensamento universal o seguinte
dilema:
Deve reformar-se o velho sistema social mudando as suas formas
tradicionais, ou, pelo contrário, deverá ser destruído o Estado histórico etodas
as instituições de natureza autoritária construindo, com o concurso de todas as
iniciativas pessoais e com todos os conhecimentos adquiridos uma nova
sociedade em sua essência ena sua estrutura externa?
No seguinte capitulo exporemos em face à concepção marxista da vida
e da história, o significado das idéias anarquistas como tendência e como
doutrina emresposta àinterrogação formulada.
v
Todas as revoluções através da história têm sido feitas depois de ter-se
operado previamente uma transformação mais ou menos fundamental nos
costumes enas idéias.
Pois bem: essa mudança foi eficaz e resultou verdadeira em maior ou
menor grau na medida em que recebeu a sua inspiração em anelos de
liberdade eemdesejos de progresso.
É por isto que emvirtude de tantos fracassos e após muitas observações
e experiências, os povos, tantos séculos oprimidos e os espíritos emancipados
teriam de sentir a necessidade e apresentá-Ia de mudar o rumo da história para
destinos de superior convivência.
Ao socialismo que se tinha nutrido de todas as investigações do
conhecimento e constituiu, ao incorporar-se à vida do pensamento, a
expressão das vontades humanas, lutando sem cessar pela redenção dos
oprimidos, devia caber a enunciação e a solução teórica, no principio pelo
menos, de tão magno problema.
*
*
*
Expostas as origens da idéia socialista, definamos a sua significação
para melhor compreensão do assunto que tratamos.
34
o Socialismo é a doutrina econômico-filosófica que constitui o
expoente de um desejo de equidade social, afirmado pelos povos através do
tempo e deunidade moral através do espaço.
Expressado de outro modo: O socialismo é a idéia moderna que
propicia perante os homens e ante os grupos humanos a realização de uma
nova convivência, cuja base associativa terá de ser a socialização de todas as
riquezas obtidas pelo esforço comum, de todas as fontes destas, de todos os
meios de trabalho edos utensílios de distribuição ede intercâmbio.
O processo da cultura em todas as suas manifestações valorizou a firme
consistência desta idéia e o desenvolvimento da técnica contemporâneo veio a
confirmar apraticidade ea excelência racional damesma.
Mas apresenta-se, ante a precedente afirmação, a interrogação seguinte:
pode realizar-se a socialização enunciada sem destruir as formas orgânicas da
sociedade capitalista?
Desta consideração tiveram origem duas correntes distintas.
A partir de Marx e de suas teorias econômicas e pretendidamente
cientificas, têm-se vindo elaborando e reafirmando uma concepção que até ao
aparecimento desta escola foi julgada como empírica.
Estabelecendo como premissa fundamental o conceito materialista a
que temos feito referência e limitando este, não sabemos em virtude de que
razões científicas, a uma exegese meramente econômica. Marx e seus
cooperadores chegam aalicerçar as suas teorias sobre um silogismo falso.
Depois de estudos conscienciosos em que foi analisado detidamente o
influxo da vida econômica dos povos sobre as restantes manifestações ativas,
termina-se tão pouco sabemos em razão de que ciência infusa - por deduzir
uma conclusão mais extensa que as premissas.
Restabelece-se como principio o seguinte apótema: não é a maneira de
ser social aque determina o processo eas contingências davida econômica, se
não que esta éadeterminante do desenvolvimento ede todas as alternativas da
vida. política. Daqui deriva o principio errôneo do marxismo, consistente na
interpretação materialista, ou dito mais exatamente, da explicação economista
da história. De tal forma de compreender o desenvolvimento da vida social da
espécie ininterrupta e quotidiana, haviam de desprenderem-se inevitavelmente
outros erros fundamentais: o fatalismo introduzido na filosofia social e
aplicado à realidade da história e o menosprezo do homem, o
desconhecimento da vontade individual no desenvolvimento davida coletiva.
Infere-se do que fica exposto que, sociologicamente falando, o
importante para o marxismo teria de consistir em acelerar (primeiro paradoxo,
ou melhor, ainda, contradição flagrante, posto que ao formular esta expressão,
se apela abertamente para avontade dos homens) a marcha da produção, para
~ ~ - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - --
35
que esta por sua vez impusesse uma evolução forçosa às instituições políticas
que lhe são consubstanciais, ainda que sempre superposta emcada época.
Dos primeiros marxistas tão enfaticamente qualificados pelos seus
próprios autores e divulgadores, de científicos, inferem-se os primeiros
corolários: I ° O homem éproduto e instrumento cego do meio; este influi nos
sentidos e orienta em todos os momentos e circunstâncias as faculdades e
inclinações volitivas do indivíduo, sem que nunca possa produzir-se o
fenômeno inverso. (Cremos que é Sorel quem afirma que "as invocações ao
direito eàjustiça não farão adiantar um só passo no caminho da historia.").
2° - Que emmaior grau que o meio material, é o ambiente econômico e
os órgãos criados pelas necessidades do mesmo, os que fazem do individuo
um prisioneiro, impondo-lhe um cometimento inevitável e obrigando-o a ser
servo voluntário ou involuntário para a realização iniludível dos fins de cada
ciclo histórico. (Idéia mecanicista esta última, tomada emparte de Comte e de
Spencer e requentada para ser encaixada em um molde ou sistema mais
estreito ).
3° - Que os males existentes reconhecidos como tais, engendrados pela
estrutura social de cada período, só podem ser superados por um processo de
tempo durante o qual se opera o desgaste natural dos mesmos em virtude das
mudanças trazidas pelo progresso que é a negação constante do ponto de
partida. (Filiação hegeliana do marxismo).
Pois bem: daquilo que laconicamente deixamos dito, não se toma já
presumível que haveria de ser demasiado estreita a base filosófica onde os
teóricos do determinismo econômico" quiseram levantar o seu sistema
pretensamente cientifico?
Vejamos como o socialismo não podia caber dentro das quatro paredes
de tão acanhado edificio.
*
* *
Negar a independência - sempre relativa, como todas as demais coisas
da vida - do homem ante o meio circunstancial que o rodeia, apagar duma
penada a sua autodeterminação, o fator denominado determinismo
') Os autores detenninistas explicam o conjunto da experiência humana a partir da primazia de alguma
instância social sobre as demais. Desta maneira os detcrministas geográficos explicam as criações
humanas a partir do meio ambiente; os detenninistas biológicos elaboram seus estudos dos grupos
humanos a partir dos caracteres do fenótipo e da idéia de raça; os deterministas religiosos o fazem a
partir do pensamento como elemento intrinsecamente religioso. O deterrninismo econômico procura
elaborar explicações da vida social humana a partir da dimensão econômica da sociedade. Assim, as
instituições jurídicas, políticas e ideológicas da sociedade humana seriam abordadas enquanto frutos de
sua base econômica.
36
psicológico, desconhecer que o indivíduo, além de motivos externos, também
émovido por suas paixões, idéias esentimentos, implica tanto como anulá-lo,
ante amais elevada consideração, como agente criador de ummundo novo.
E se o individuo não há de constituir o alicerce firme de uma nova
ordem social; a pedra angular duma sociedade renovada, muito perto
estaremos de pronunciar sem esforço que a sociedade, segundo o ritmo fatal
da sua metamorfose, étudo eacélula, o átomo integrante dela, nada significa.
Não deveremos concluir então, sendo lógicos com os raciocínios do
fatalismo econômico, que se deve geral reconhecimento e servidão voluntária
ao capitalismo e ao Estado como instituições históricas impostas aos homens
pelo processo material dahistória nas diversas latitudes do globo terrestre?
Assim o admitiu o marxismo e seguem-no reafirmando as suas distintas
escolas e tendências políticas ao render tributo ao postulado que considera
iniludível a transitoriedade do Estado, não somente durante o "período de
supercapitalização" mas também depois da revolução expropriadora, para os
que olvidando as suas doutrinas aceitam àpriori autilidade deste fato.
É por isto que os senhores marxistas, sendo conseqüentes com o seu
falso principio de sacrificar à sociedade o individuo, não podiam deixar de
seguir a tradição histórica da sociedade autoritária que, com imperturbável
obstinação, desconhecem sempre a autonomia de cada um de seus membros,
estrangulou a existência soberana da individualidade e conspirou em todos os
momentos e circunstâncias contra tudo que significasse direito
individualizado, independência do homem no conjunto social, afirmação da
consciência particular.
Porém, ante as reflexões precedentes, é possível que se nos objete:
"Perdeste-vos numa bizantina digressão, estais em absoluto fora do lugar,
porquanto o socialismo não passa de ser uma noção econômica que apresenta
àconsideração geral anecessidade de organizar aprodução ea distribuição de
forma que o resultado de suas vantagens e beneficios seja de proveito
comum".
Refutamos esta objeção respondendo: não é possível a realização da
idéia e da vontade socíalistas sem que o ensaio duma nova vida social tenha
por base o princípio associacionista efederalista da liberdade.
VI
De quanto temos argumentado pode já obter-se uma conclusão geral:
que o progresso foi mais efetivo emtodos e em cada um dos povos na medida
em que a vontade coletiva e o sentimento de cada individuo pode, com a
menor interposição de obstáculos, traduzir-se em ação. O nível progressivo e,
37
portanto, a verdadeira vida associativa da humanidade, estão na razão direta
da liberdade e, por conseqüência, na razão inversa do principio de autoridade.
Afirmar o primeiro destes postulados é ter da vida uma compreensão
ampla, diversa, multiforme e complexa; implica tanto como concebê-Ia com
um critério dinâmico, reconhecer que tudo na natureza, coisas e seres viventes
e homens, se movem seguindo um ritmo de transformação constante, que a
vida do homem em sociedade deve ajustar-se igualmente à mesma lei
universal de mutação eterna.
A autoridade, ao contrário, encarnada em seus representantes, nos
sacerdotes, nos magistrados, emtodas as organizações estatais, tem pretendido
sempre opor diques ao progresso, interromper as correntes da energia humana
com uma muralha de baionetas; anular com leis humanas de imobilidade a lei
natural do movimento; opor à iniciativa pessoal a violência organizada, ao
esforço criador a doutrina cristã e todas as máximas religiosas do
renunciamento; sempre opuseram o dogma contra o gênio inventivo: em face
à atividade espontânea que é a vida, a disciplina do pensamento e das ações
humanas que éamorte.
E terá que seguir-se sucessivamente este caminho? É isso o que,
segundo temos conseguido demonstrar, ----- -------- a 10 universal,
medida por séculos de experiência e medida em suas convicções por todas as
fontes do conhecimento.
O próprio Marx, antes de enveredar, impelido pelo método dialético",
na rigidez de seu simplismo econômico, conveio em admitir, com lúcidos
raciocínios, que enquanto a espécie continue enclaustrada nos velhos sistemas
autoritários, não poderão ser apagadas da face da terra aservidão e amiséria.
Pois bem: não foi e não continua sendo o Estado a mais forte entidade
representativa da força, atravessada eternamente ante a marcha progressiva do
gênero humano eobstaculizando as vontades rebeldes na atividade construtiva
de uma verdadeira civilização?
Concluamos, pois, afirmando definitivamente: nem um minuto mais,
nem uma palavra, nem uma linha pela defesa nem sequer pela justificação do
](I Palavras ilegíveis.
IIDialética é uma palavra grega, dialegein, que significa discutir. Marx tomou de empréstimo a Hegel o
seu sistema di al ético, afirmando fazer deste um uso inverso de seu mestre. Hegel entendia ser o mundo
uma expressão da idéia e Marx afirmava exatamente o oposto. Para Marx, portanto, as idéias eram antes
frutos do mundo material. Em sua dialética a noção de embate de contrários é fundamental, saindo desta
luta uma síntese superior ao estado anterior. Este método utilizado para o estudo da sociedade
estabelecia que as mudanças aconteceriam apenas na medida em que todas as capacidades de urn certo
estágio social fossem esgotadas. No caso, com a primazia da infra-estrutura econômica sobre as demais
dimensões sociais, haveria que ocorrer o esgotamento de um modo de produção para que o seguinte
fosse estabelecido.
38
autoritarismo, nem em suas formas orgânicas conhecidas, nem em qualquer
outra das suas exteriorizações possíveis edistintas.
* * *
oEstado foi através de todas as épocas e emtodos os povos aresultante
nos fatos dos impulsos violentos da animalidade no homem primitivo; a
consagração do fato brutal, como fenômeno natural e como realidade
iniludível e insuperável da divisão em castas e do predomínio duma minoria
sobre o conjunto da espécie humana.
Claro está que as classes beneficiárias de tão absurdas situações
históricas, enquanto elaboravam a teoria da dominação do homem pelo
homem, viram-se sempre obrigadas a conter os embates da evolução e do
progresso pela efusão de sangue e pela moral do escarmento, para fixar na
mentalidade das criaturas a mais irracional e cega fé na invulnerabilidade das
tradições passadas e dos princípios herdados. Daqui as lutas intermitentes
entre aliberdade eo autoritarismo.
O Estado, como instituição orgânica, tem sido, pois, o Ideal convertido
em principio de realidade, da violência organizada, e os modernos sistemas,
intitulados fascista e comunistas, representam o supremo esforço do
trogloditismo sobrevivente para plasmar nos fatos autopia autoritária.
Eis aqui a senha de Moscou e a palavra de ordem do histrião de camisa
preta: "tudo para o Estado, nada contra o Estado ou fora do Estado".
Até 1914, excetuando alguns instantes turbulentos na história moderna,
não se havia tido a pretensão brutal, o propósito ousado, de desconhecer ao
individuo de modo absoluto, de estrangular tudo o que fosse autonomia na
ação, liberdade do pensamento erespeito à exteriorização do mesmo.
Depois, porém, da mais sangrenta e desapiedada das guerras, o
autoritarismo ressurgiu agigantado e impetuoso: uma grande calamidade,
talvez amaior do século XX, serão as ditaduras sem exceção, como resultado
fatal e lógico da educação cristã, marxista, da cultura estatista, do fomento da
servidão voluntária nas multidões e da exaltação da força nas trincheiras,
durante a bestial matança de 1914-18.
Apesar disso, como se se tratasse de uma ironia cruel, segue-se não
obstante oferecendo o incenso da cultura epedindo o tributo das energias e o
holocausto das vidas humanas para alimentar e render culto a esse monstro
feroz que as mais equilibradas individualidades humanas têm vindo
abominando.
39
Não sejamos, porém, impenitentes na necessidade de viver eternamente
surpreendidos: devemos descontar por demasiado sabido que os chacais se
alimentam das vísceras fumegantes eas hienas se alimentam de cadáveres.
Permaneçamos firmes em o nosso verdadeiro centro de convencidos
revolucionários: alimentemos em nosso peito e no coração de todos os
oprimidos a chama viva da confiança em nossos próprios destinos.
Em frente ao capitalismo que esgota em seu proveito todas as energias
criadoras; em frente ao Estado estuprador de todas as potências da vontade e
das faculdades do intelecto, perseveremos em atrair a um número cada vez
mais crescente de homens e mulheres para a reivindicação imediata da
liberdade pessoal epara acausa dajustiça.
Há que começar desde já a viver a vida à margem de toda a noção
autoritária. A Igreja, o Estado e o Capitalismo constituem a fatídica trilogia
que impediu a marcha no caminho sem fim do progresso. Em rebeldia contra
cada uma dessas instituições do passado levantou-se o anarquismo, advogando
pela emancipação moral, pela independência intelectual epela libertação física
do escravo moderno.
É por essas considerações bem meditadas que os anarquistas se
definiram ante a sociedade: materialistas e ateus perante todas as religiões,
antiautoritarios contra o Estado e socialistas emfrente ao capitalismo.
*
*
*
É de uma comprovação evidente que em mais de uma centúria de
hesitações democráticas, a luta social dos povos, longe de interromper-se ou
atenuar-se, tem sido, pelo contrário, intensificada ealargada.
Nesse período de tempo, justamente, é que se desenvolveu a filosofia
libertária.
Desde Godwin a Proudhon, desde Dejacques e Courderoy a Kropotkin,
desde Most, Parsons, Spies, Ling, etc., a Ferrer e Landauer, desde Stirner e
Tucker a Reclus e Louise Míchel, durante a vida larga e austera de
Dumartheray, fecunda e dinâmica deMeIla eMalatesta; de Bakunin aBertoni,
Rocker e Max Nettlau'" (e quantos nomes, símbolos de laboriosidade,
II Existem atualmente disponíveis no Brasil poucos escritos de alguns destes autores. Proudhon,
Kropotkin, Bakunin e MaJatesta são os que mais foram publicados, sem que isto signifique existir uma
publicação próxima de ser completa da produção de cada um deles. Proudhon, por exemplo, publicou
cerca de quarenta livros dos quais apenas dois foram publicados completamente no Brasil. Suas
correspondências foram publicadas na França em catorze volumes. A editora L&PM de Porto Alegre
publicou nos anos oitenta do século passado uma coleção chamada "Biblioteca Anarquista" com artigos
e extratos do pensamento de Proudhon, Mal atesta, Kropotkin e Bakunin. A mesma editora publicou
também outra coletânea intitulada "Grandes Escritos Anarquistas." contendo extratos do pensamento de
diversos anarquistas, alguns deles presente na referência acima. Esta antologia foi introduzida por
40
abnegação e heroismo haveria que citar!) veio-se concebendo com uma
percepção dia adia mais clara eprecisa eapresentando com uma compreensão
mais exata as idéias inspiradas nos princípios de que fizemos menção.
A ação, pois, persistente na multiplicidade das manifestações do
trabalho há de romper indefectivelmente tudo quanto seja centralização e
moldes únicos; o livre curso das iniciativas espontâneas há de acabar com o
monopolismo na inversão e no aproveitamento das energias produtoras; o
exercício pleno dos direitos individuais há de terminar definitivamente com a
mecanização autoritária do homem e com todos os dogmas impostos pelo
catecismo epela lei escrita.
VII
Existe uma confusão lamentavelmente errônea na mentalidade da
maioria das pessoas quanto à interpretação das quatro denominações genéricas
com que é hoje enunciado o problema social: socialismo, comunismo,
sindicalismo e anarquismo.
Temos tentado demonstrar que sem o livre jogo das paixões do
individuo, sem as condições necessárias para o desenvolvimento pleno das
faculdades e das inclinações particulares, toda a organização não passará dum
conglomerado sem verdadeiros vinculos de conexão entre os seus
componentes; sem os estreitos laços da solidariedade não haverá possibilidade
de uma sociedade harmônica eestável.
George Woodcock. De Reclus apenas o livro "A Evolução, a Revolução e o Ideal Anarquista" foi
editado no Brasil em 2001 pela Editora Imaginário de São Paulo. Antes disso a Editora Ática publicou,
nos anos oitenta na Coleção Grandes Cientistas Sociais, uma coletânea de textos de Rec1us com uma
apresentação elaborada pelo geógrafo Manuel Correia de Andrade. Nesta mesma coleção há um volume
com textos de Proudhon introduzidos por Edson Passetti e Paulo-Edgar Resende. Verve - Revista do
Núcleo de Sociabilidade Libertária da PUC-SP tem publicado tanto artigos de alguns destes anarquistas
- como Proudhon, Bakunin, Stirner - como sobre estes e outros anarquistas. Em seu número cinco (maio
de 2004), Verve publicou de William Godwin o Livro VII de seu "Um Inquérito Concernente à J ustiça
Política" publicado em 1793. A Editora Imaginário de São Paulo tem publicado Proudhon, Bakunin.
Kropotkin, Malatesta e Stirner, A Editora Achiamé publicou um livro com os depoimentos dos
chamados Mártires de Chicago na ocasião de seu julgamento, com uma introdução feita por Ricardo
Mella, Se atualmente, entre interessados pelo tema como por anarquistas, o- conhecimento do
pensamento destes pensadores é bastante restrito, é fácil observar nos jornais operários anarquistas do
período aqui tratado haver por parte dos trabalhadores um conhecimento mais largo em t01110das obras
dos referidos autores. Nas colunas dos jornais e revistas anarquistas havia sempre uma seção intitulada
"Leituras Recomendadas", "O que se deve ler", "Leituras sugeridas" ou algum termo equivalente. Havia
assim a possibilidade de o leitor adquirir os livros comprando-os junto ao coletivo de editores. Para tanto
os editores estampavam, em geral, a listagem dos livros da biblioteca do grupo com os respectivos
preços. Português. espanhol e italiano eram os idiomas mais divulgados nos jornais do eixo Rio-São
Paulo. Muitos jamais, sobretudo em São Paulo, publicavam a maioria dos artigos em português. mas
com seções em italiano e espanhol. Alguns jornais foram publicados todos em italiano, tamanho era o
número de operários oriundos da Itália.
41
A uniformidade não existe nem na natureza nem na vida; este fenômeno
só se dá no cérebro anquilosado das mentalidades autoritárias. Por
conseguinte, as diretivas únicas em qualquer ensaio de convivência, serão
sempre impositivas eforçosamente falsas.
Decorre daqui que o socialismo embutido no sapato duro do Estado,
não nos ofereça outra evidencia que a comprovação de uma solene mentira e
que o comunismo de quartel ou de convento constitua a negação mais
redonda, o atentado mais iníquo ao respeito do individuo e aos interesses da
comunidade.
* * *
o regime cristão-estatal-capitalista deu à humanidade uma terrível
lição: a demonstração de que a escravização das consciências, o predomínio
sobre o pensamento ea dominação corporal, aexploração do esforço muscular
dos homens, sempre converterá num inferno dantesco avida social eapressará
cada vez mais adegradação progressiva da espécie.
O Estado é uma entidade que se converte sempre emhorrível realidade
quando temos à vista e podemos examinar detidamente qualquer de seus
agentes ou representantes: o juiz, o burocrata, o gendarme, o político
profissional.
Descristianizai e descapitalizai a atual ordem de coisas e convertei o
Estado emDeus eempatrão único.
Obtido este propósito, terá sido resolvida agrande questão?
Toda a gama de tipos autoritários, dogmáticos, cegos executores da lei,
autômatos obrigados a cumprir inexoravelmente o dever de sua função, ficam
de pé. O mal que se pretende eliminar, longe de conjurar-se, aumentou-se,
porque a instrução estatal emonopolista estenderam aos membros ativos que a
sustentam suas atribuições omnimodas.
Suponhamos por um instante que tivesse sido realizado na Rússia o
mentido comunismo do Estado. Haveria quem fascinado ante este fato tivesse
a ousadia de afirmar que simultaneamente teria mudado a sorte do povo?
Conseguir-se-á quando muito, seguindo esta via, solucionar em mais ou
menos tempo o problema econômico. Mas poderiam, no fim de contas, os
doutores da ciência econômica, os catedráticos da economia política, afirmar
seriamente que a felicidade do homem há de concretizar-se no que poderíamos
chamar o ideal do porco, que consiste emsó engordar?
O homem não é um animal indômito ao que há que domesticar e cujas
necessidades se reduzem à satisfação apenas de simples instintos biológicos.
42
Não o tendes assim admitido e estipulado para vós mesmo, senhores
super-homens de todos os matizes do autoritarismo, traficantes da cultura e
profissionais da indústria da legislação.
O ser humano emgeral - não só o que pertence auma casta privilegiada
- é um ente moral que tem necessidades superiores além dos imperativos
fisiológicos de nutrição. E não terá efetividade na manifestação das idéias e
dos fatos a personalidade humana enquanto que, ajustando-se à natureza
intrínseca e complexa do homem, não haja sido estabelecido e organizado,
segundo as situações mutáveis, o meio social correspondente.
Não estamos vendo. como última experiência cruel na história, de que
modo a sombra da Rússia se ostenta ameaçadora sobre as cabeças do mundo
revolucionário?
Dentro dos limites até onde alcança o poder do Estado bolchevista, é
demasiado sabido que pela ameaça de Solowiezky ede Sibéria epela sugestão
da boca dos mausers foi obtido peremptoriamente o sonho que acompanhou
até o túmulo o inválido Tamerian: o acatamento absoluto dos dogmas do
Kremlin. E para os que mais além das fronteiras do Soviete, não queiram
submeter-se voluntariamente à sua bestial ditadura, fica reservado, imitando o
sistema de todas as igrejas, o anátema fulminante da excomunhão,
Os césares romanos eNapoleão intentaram conquistar o mundo levando
aguerra atodos os povos que não quiseram submeter-se àsua vontade. Assim
aIgreja "comunista" de Moscou. que deu àhumanidade a impostura vermelha
e a quem cabe a triste primazia de proclamar a excelência da ditadura sobre o
valor da idéia de liberdade, condenou à morte, por agonia lenta, ou ao exílio
perpétuo, aos anarquistas russos e estrangeiros de todos os seus domínios, aos
heterodoxos do pensamento oficial e a todos os suspeitos de heresia. E com o
mesmo espírito dominador e jesuítico, Lênin e Trotzky aconselharam a
calúnia da qualidade de anátema contra os inimigos do exterior.
Não são arautos da discórdia em todas as reuniões a que assistem os
catecúmenos da investidura vermelha?
É como todos os autoritários do presente e do passado têm acontumácia
de impor ao conjunto social as suas fórmulas estreitas, a sua orientação
unilateral eexclusivista,
Não podemos crer, em conclusão. que pelo meio consistente no
atentado máximo de expropriar à humanidade de todos os bens. se possa
chegar ao fim dajustiça.
Só, unicamente pelo resgate e avolta do solo e do subsolo, das matérias
primas, dos instrumentos do trabalho edos produtos elaborados, às mãos do
povo, que é o seu proprietário legitimo, poderão ter consagração eficiente o
socialismo, o comunismo etodas as formas imagináveis de socialização.
43
* * *
Infere-se de tudo que fica dito que o anarquismo não éuma doutrina de
gabinete, que as doutrinas anarquistas não constituem fórmulas elaboradas
para que sirvam de decálogo às gerações do futuro.
O anarquismo é opostulado ideal que trata de interpretar avida emtoda
a sua diversidade. A anarquia será a sociedade futura em que, livre a
humanidade, ou uma parte desta, dos grandes obstáculos que impedem a livre
canalização das paixões humanas e o máximo desenvolvimento das aptidões
do homem, será começado um novo ciclo de verdadeira civilização.
De nenhuma maneira será um sistema cerrado euniforme aorganização
da vida que os anarquistas preconizam. Logo a associação do homem na
federação das agrupações livres não pode estar exposta á falência como esteve
eestará sempre destinado àbancarrota o "Estado-prisão".
VIII
O grande geógrafo Elisée Reclus':' representou a evolução e arevolução
com uma figura simples e completa: o progresso nas sociedades humanas é
um rio caudaloso que deve correr sempre. As suas águas não deixam de
caminhar; se um obstáculo se interpõe à sua marcha, será arrastado se não
tiver suficiente firmeza estática, e, emcaso contrário, mais tarde ou mais cedo,
as águas sairão do leito etransbordarão. Assim é o rio crescente das energias
humanas; quando os engenheiros de diques, quando os arquitetos de muros
para contê-Ias tenham julgado realizada a sua idéia quimérica de estancá-Ias,
sobrevirá a catástrofe inevitável; serão arrasados os estreitos canais do
capitalismo esaltará feita empedaços avelha muralha do Estado.
lJ Apesar da importância de Reclus no pensamento social, os cursos de humanidades, sobretudo Ciências
Sociais e Geografia, nada vêem sobre sua contribuição particular. Ainda mais pelo fato dele ter sido
também um homem de ação, tendo participado, de armas na mão, na Comuna de Paris em 1871. Os
cursos de Ciências Sociais, por exemplo, quando apresentam os pensadores evolucionistas, limitam-se
aos "evolucionistas vitorianos'' deixando de lado os "evolucionistas revolucionários", como Reclus e
Kropotkin se definiam. Estes evolucionistas discordavam das concepções de evolução linear, da idéia de
progresso necessariamente lenta recusando revoluções e retrocesso como estabelecido pelos vitorianos.
Para Reclus a evolução não exclui a revolução, constituindo apenas no mesmo dinamismo transformador
dado em ritmos diferentes. Eles não concebem a estagnação na vida social humana. Assim a evolução e
a revolução traduzem mudanças que podem ser lentas e podem ser rápidas. A evolução não é unilinear e
comporta possibilidades de retrocesso. Ainda mais, a evolução pode ser violenta ou pacífica, do mesmo
modo que a revolução. Suas monumentais obras intituladas "Geografia Universal" e "O Homem e a
Terra" não tem publicação no Brasil.
44
Três necessidades fundamentais, inerentes à sua própria natureza e
sentida dia a dia de maneira mais intensa e categórica há de o homem
satisfazer em sociedade: a manutenção da própria unidade humana, a de
continuidade no tempo e no espaço e a do domínio que incessantemente deve
ser mais completo do mundo exterior em suas adversas condições. Diremo-lo
de outro modo, empenhados como estamos em ser entendidos:
Este animal que há em cada um de nós sente e deve atender, sob pena
de atentar contra a sua própria natureza, o imperativo insubornável de dois
instintos fisiológicos: a necessidade de nutrição e a de reprodução. E como
racional que é, como animal de costumes superiores, se agrada mais esta
expressão, sente também o desejo natural antiteológico, de superação
intelectual emoral.
Permita-se-nos agora perguntar: pode o animal humano, o homo
sapiens, acanalhados herdeiros da Metafisica, 14 - recitadores autômatos da
Retórica! - exercer sem freio na sociedade atual ou em qualquer regime
autoritário, seu pleno direito à subsistência no amplo sentido requerido pela
dignidade humana?
Por conseguinte essa pirâmide egípcia, com absurdos biológicos e
morais que osjacobinos 15 de todas as escolas intentam edificar, esse engendro
estatal - sonhado por comtistas e marxistas - triplicemente monopolizador -
monopólio das riquezas, de tudo que foi criado pelo esforço produtor, das
liberdades e das iniciativas, - esse estado elevado à máxima potencia,
constituiria, se chegasse a sê-lo, a iniqüidade menos humana que cabe
imaginar, amaior monstruosidade que sepode conceber.
Antes de impor a todos esse ignominioso truste, esperamos de todos os
estadistas que nos resolvam em teoria o seguinte problema moral: a
compatibilidade do Estado "perfeito" com averdadeira soberania individual.
*
*
*
oEstado épara asociedade o que para o individuo éaprisão.
Nesta o homem deforma-se psiquicamente; para a imensa maioria
degenera progressivamente a sua fisionomia moral. E quanto mais metódica
seja a sua disciplina, quanto mais rígidos os seus regulamentos, quanto mais
l.f Aristóteles elaborou sua obra dividida em Filosofia primeira e Filosofia segunda. Tratam as duas,
respectivamente, de deus e do imutável e do mundo físico. No século I Andrônico de Rodes classificou a
obra de Aristóteles colocando a parte da Filosofia primeira depois da Filosofia segunda. Desde então
metaflsica é a parte da filosofia que trata do que está além do mundo físico.
15 Os jacobinos compunham um grupo de conspiradores que, durante a Revolução Francesa de 1789,
defendiam uma reforma da sociedade a partir de concepções centralizadoras e autoritárias.
45
sábios os cálculos dos seus diretores para prever o desconhecido e submeter a
vida à ideal uniformidade, tanto mais se extinguirá a dignidade dos seres que
ali sentem e pensam, em maior grau terão sido exterminadas a consciência e a
personalidade. De modo igual acontecerá à atividade e ao pensamento sociais,
vertida aquela em moldes inventados por uns poucos e sujeitos este a padrões
exclusivos.
Na vida e na Natureza não se registra o menor sintoma de estatismo: se
se persiste no extravio mental de encerrar em sistemas estáticos, autoritários à
humanidade, esta após uma agonia lenta, estará condenada irremediavelmente
aperecer.
É necessário que insistamos, porém, ainda mais: seriam capazes os
sacerdotes da sociologia oficial de oferecer-nos as provas daquilo que Hobbes
não pôde provar?
Se o homem éum ser sociável como a ciência demonstra e eles mesmos
tiveram que admitir porque há de ser submetido para viver em comunidade a
um contrato social arbitrário e violento, concebido e estabelecido por meia
dúzia para que seja acatado e cumprido desde o berço até à tumba, sem análise
nem objeção, por toda a coletividade?
A melhor demonstração de falsidade do "homo, hominis Iupus", como
tipo comum na mesma humanidade de hoje. podemos encontrá-Ia no fato
incontestável de que, com desconhecimento de legislações e códigos, saibam
ainda os homens viver na solidariedade que permite a exaltação do
utilitarismo burguês e na esfera de harmonia não quebrada de qualquer modo
pela violência estatal.
A solidariedade é uma lei universal que se mantém por cima das
caprichosas conveniências. de sórdidas ambições e de convencionalismos
absurdos, impostos no passado eno presente com caráter de lei.
A ajuda mútua é um fato mais extenso e universal que a cobiça e a
pirataria.
Kropotkin demonstrou-o até a saciedade aos doutores apergaminhados
de economia política eaos catedráticos do tresnoitado direito de espoliação.
Quereis convencer-vos, inquisidores de todas as igrejas religiosas e
políticas, de como os povos são capazes de remover e colocar em seu
verdadeiro centro o mundo social? Deixai que apóiem a alavanca de seus
sentimentos solidários e de suas positivas faculdades cultivadas no exercício
do trabalho; concedei-lhes, ao menos por uma semana, completa liberdade.
Ficai com a sabedoria dos vossos códigos, com as maravilhas devossos
inventos mortíferos, com o cretinismo de vossas cerimônias, com a sarna
moral de vossas almas, com a hipocrisia das vossas relações, com a
degenerescência dos vossos costumes, com a vossa obsessão de espíritos
46
dominantes, com avossa impotência deventrudos sibaritas. Deixai-nos passar,
deixai-nos fazer eagir.
Assim não haverá revolução, deste modo não correrá sangue; com
diferente atitude vossa, tereis aumentado o terrorífico fantasma da guerra. A
tal atitude de tolerância de vossa parte, prometemo-vos corresponder
apagando da face da terra o roubo e a violência glorificados em vossos
símbolos: aáguia eabalança, aespada eacruz.
Permiti-nos nada mais que experimentar, para não reivindicarmos com
aforça o direito de iludira vossa opressão.
Convidamos-vos, inclusive, a colaborar na nova organização racional a
que aspiramos.
Se no prazo de um ano não tivermos conseguido mais bem estar geral,
superior ao nível econômico e moral das condições presentes - atrevemo-nos
a interpretar a vontade coletiva de todos os anarquistas: - ficai certos de que
declinaremos da atitude que tendes qualificado de louca pretensão. E quase
vos asseveramos também que solicitaremos a vossa tutela sempiterna, a que
até à data ninguém vos ofereceu no sufrágio universal.
Recusais o que vos temos proposto, estais obcecados em seguir
explorando e oprimindo?
Quereis então arevolução.
Não vos restam mais que duas perspectivas: ou matais os
revolucionários à medida que forem aparecendo no campo social ou o
cataclismo cuja idéia vos atormenta, privilegiados eautoritários, sobrevirá.
* * *
Não temos podido fazer mais sincera confissão.
O Anarquismo, ao contrário do que dizem os corações mesquinhos da
classe média, ao contrário do que dizem as almas taradas pelo vicio
hereditário da submissão, não é um ideal de vingança nem uma paixão
mórbida de inveja ou de terror.
É a idéia universal de justiça contida em todos os movimentos de
rebelião, é a ânsia reparadora da multidão. É a liberdade do individuo e do
gênero humano cujo extermínio a Santa Inquisição não conseguiu com as suas
fogueiras; é averdade da ciência, o fruto do trabalho, a luz do pensamento que
hão de ser convertidos emcomum patrimônio de toda ahumanidade.
47
IX
A idéia anarquista não é, segundo temos podido constatar, uma simples
abstração de intelecto, não éuma quimera sem possibilidade de admitir sequer
o menor contato com arealidade.
O anarquísmo, na mesma hora que vivemos, é de fato e pensamento,
sentimento e ação: é o movimento de vontades e a filosofia de todas as
potências individuais e sociais postas em dinamismo tendentes à consecução
da máxima liberdade para o individuo e ao aumento constante do bem estar
geral.
No mundo, porém, não há somente fatos fatais, produzidos pela
mecânica universal e complexa da vida. Nem as idéias que põem em
movimento as energias humanas são sempre um resultado forçoso imposto à
consciência individualizada eseguindo uma direção unilateral.
No cosmos social são igualmente absurdos o livre arbítrio dos teólogos
e o fatalismo econômico proclamado pelos rastejantes ideólogos do
"socialismo científico". Existe como fenômeno subseqüente às leis
inexoráveis da Natureza, a vontade humana como fator importantíssimo da
evolução e criação.
As energias cósmicas agem sobre o homem como ente natural que é, e
este, pelo poder da sua consciência e do seu raciocínio, transforma em ações
reflexas aquelas forças, aplicando-as à vida em suas três grandes
manifestações, natural, social emoral.
Um dos grandes fundamentos da filosofia anarquista é constituído pelo
principio cientificamente comprovado que se denomina determinismo
psicológico.
Negada a possibilidade de uma relativa autodeterminação da vontade
em cada um dos seres pensantes, não poderá ser concebida uma sociologia da
liberdade.
Tenhamos, pois, em conta esta premissa, depois de estabelecida a sua
veracidade, como um fato cientificamente aceitado.
* * *
Temos confirmado que o anarquismo é, antes que um postulado
doutrinário, ummovimento voluntarista.
Vejamos de que modo orientar com mais acerto esta vontade, quais
meios práticos e que métodos serão mais eficazes para que as vontades
socialista-anárquicas possam influir sobre as presentes condições sociais como
uma potência de transformação.
48
Ao expormos as idéias anarquistas numa síntese geral, mencionamos as
quatro grandes denominações com que é enunciado e conhecido o problema
social na Europa ena América.
Formulamos uma breve cntica das duas primeiras correntes
enumeradas, das duas escolas mal qualificadas de socialista ecomunista.
Analisamos agora a terceira dessas grandes manifestações: o
sindicalismo.
* * *
Desde meados do século passado. em que o capitalismo - aproveitando
invenções mecânicas, novos e mais técnicos processos dos métodos de
produção - iniciou um novo ciclo de prosperidade, um novo tato social se
apresenta na vida moderna: o aparecimento do proletariado.
Os operários industriais, aglomerados nas grandes fábricas dos centros
de população, vitimas de uma maneira cada vez mais intensa da "férrea lei do
salário", tosquiados e oprimidos dum modo sem cessar crescente em
celeridade e em extensão, chegam por fim, depois de cruéis sofrimentos, a
sentir-se irmanados pela dor.
Determinados por esta situação econômica emoral, os trabalhadores da
Europa ocidental realizaram no período de 1830 a 1860 a primeira etapa de
um movimento associativo que depois se tomaria geral. Organizações de
proletários de diversas profissões foram constituindo-se neste decurso de
tempo com fins de apoio mútuo edefesa comum.
Como resultado deste processo de fatos e de vontades, sobreveio em
1864 à formação daAssociação Internacional dos Trabalhadores.
A partir daqueles anos, o movimento operário que associa aos
explorados para resistir aos embates da exploração, seguiu com incremento e
demonstrando constantemente mais vigor emseus vínculos de solidariedade.
Mas note-se bem: a velha A. L T. foi edificada sobre uma base
puramente corporativa. Karl Marx pronuncia a famosa expressão:
"Trabalhadores do mundo, uni-vos". Esta proclamação oferece-nos, com uma
face bem clara, a fisionomia moral da 1a Internacional.
O mesmo homem. alentador deste grande movimento unionista,
quebrantará depois o propósito indefinido da associação. querendo
encaminhar as ações que aintegram pela estrada do refonnismo eda conquista
do poder.
Tal orientação que implicava num desvio flagrante, numa claudicação
da rebeldia exteriorizada contra o jugo patronal e contra a dominação
autoritária, devia encontrar uma resistência. Os operários espanhóis,
49
jurassianos, italianos, etc., possuindo uma compreensão mais ampla dos fins
que o proletariado organizado devia traçar-se, expressaram a sua rebeldia, a
sua inconformidade contra o pensamento tortuoso do Conselho Geral daquela
entidade. Mikhail Bakunin sustentou, interpretando o pensamento de todos, a
oposição mais rude etenaz.
É indubitável que toda agrupação humana, cujos membros se
associaram determinados por uma vontade sentida, deverá traçar-se também
uma finalidade. Lógico era, pois, que sendo um desejo revolucionário o que
unia aos trabalhadores de todos os países, se propusessem como objetivo
comum chegar a uma transformação profunda, preparar as condições
indispensáveis para uma revolução social.
O movimento orgânico dos trabalhadores que se tem inspirado, com
declarações mais ou menos precisas, em um ideal inovador, cujos
componentes aspiram a uma mudança fundamental das bases e da estrutura
orgânica da sociedade, éo que se tem qualificado com o termo sindicalismo.
Pois bem; permita-se-nos perguntar: este nome vai mais além de uma
simples econvencional denominação?
Ninguém ousará negar que antes de conhecer-se este termo - antes que
os camaradas anarquistas da França prestassem, inventando-o, um fraco
serviço às idéias - não existisse o movimento operário, as organizações
proletárias, ou bem seguindo uma trajetória reformista ou inspirada num anelo
de revolução.
Para que, então, novas classificações gramaticais? O verbalismo em
nossas atividades intelectuais éuma funesta herança do culto latino àRetórica
e do tributo rendido na Idade Media à Metafisica, cujas conseqüências
confusionistas haveremos de suportar por muito tempo ainda.
É de lastimar que os nossos companheiros franceses, Pouget, Ivevot,
Theílier, Pelloutier, Tortilier, etc., não tivessem em conta as lições de sadia
reação contra tudo que significa aparatosidades lingüísticas e complicações
inobjetivas davida e do pensamento, seguindo o exemplo do mestre das letras
francesas enosso grande precursor François Rabelais!
Temos impugnado nas linhas precedentes, não só o defeito da
logomaquia infiltrado na esfera do pensamento revolucionário, mas também -
e o que é pior - as complicações levadas ao terreno das determinações e da
atividade quotidiana.
Que esta observação corresponde auma lamentável verdade comprová-
lo-emos ao examinar as direções que tem seguido a vontade de fazer,
inspirada ealentada pelo pensamento anarquista, que por sua vez - não há que
esquecê-lo - foi concebido e elaborado recolhendo experiências e consultando
fatos.
50
x
Que o sindicalismo não tem natureza própria - ao contrário do que não
há muito afirmava um camarada - prova-o o fato de que pode ser social-
democrata ou bolchevista, fascista ou católico, anarquista, etc. Não sendo mais
que o nome dado ao movimento operário, ele terá o caráter que lhe infundam
com a sua mentalidade e o seu temperamento as minorias ativas que o
orientam.
As discrepâncias de pensamento suscitadas no seio da Internacional
motivadas pela orientação que devia dar-se às "sociedades de resistência"
apresentaram um importante problema aos militantes das mesmas: a escolha
dos meios conducentes ao fimcomum detransformar asociedade.
É conhecida a diferença de critério a este respeito, quanto aos métodos
de luta a seguir entre os chamados marxistas e bakuninistas, entre autoritários
elibertários.
O congresso anti-autoritário, celebrado em Setembro de 1872 em Saint-
Imier, representa a rebeldia da liberdade - que inspirou a fundação da A. r. T.
- contra o dogma autoritário e o espírito de dominação, encarnado em Karl
Marx eos seus amigos.
Desde então até hoje, a separação das organizações proletárias em todos
os países, seguiram direções diferentes, éinevitável.
Muito empenho foi posto e muito boas intenções têm sido consagradas
ao propósito deretomar àunidade.
Grande número de companheiros anarquistas tem sofrido,
obsessionados por esta idéia, de excessiva ingenuidade.
Felizmente, parece que as duras lições oferecidas pelo tempo chegaram
a dissuadi-I os do intento vão de estabelecer um acordo dentro dum mesmo
marco de luta para alcançar o ideal comum de emancipação.
É sabido que, quando estava pra fazer-se a luz, uma nova corrente de
vontades fez a sua aparição, pretendendo incorporar às idéias socialistas, com
adenominação de Sindicalismo, uma nova doutrina social.
Cerrando os olhos ante a investigação serena do passado, ante a
realidade instrutiva do presente e em face aos verdadeiros destinos do futuro,
anunciou-se ao mundo operário, a descoberta de uma nova orientação. Para
alcançar o fim, em cuja direção tinha que se encaminhar, rotas diferentes às já
conhecidas haveria que seguir. E para não sofrer extravio, dispor-se-ia
também deuma bússola especial.
51
o novo horizonte de onde, a seguir, viria à luz e ao qual havia que se
dirigir, era o sindicalismo como fim, as organizações corporativas como
órgãos da revolução eda futura sociedade.
O mundo distinto constituí-Io-ia a precedência absoluta, o isolamento
de toda a influência política. filosófica e religiosa; e como bússola infalível.
como pedra filosofal, a consciência de classe.
Pretendiam conjurar em principio o perigo de que se repetissem sem
cessar as velhas disputas tendenciosas e intentava-se, como máxima
finalidade, conseguir de novo o irrealizável: a fusão dos trabalhadores em um
só movimento intemacional.
Acreditou-se, portanto, se haver encontrado um novo centro para
equilibrar sobre ele toda a ação revolucionária mundial: a luta de classe sem a
pressão extema, sem o influxo perturbador de ideologias estranhas.
Que significação tem tido no movimento revolucionário a intitulada
escola sindicalista?
Em nossa opinião, provocou em quase todos os países um processo de
involução, cujas projeções alcançam às lutas atuais e cujas conseqüências
irremediáveis até hoje seria dificil calcular.
Perante ojuízo e a comprovação de todos oferecem-se, por exemplo, a
situação do proletariado francês e as tortuosas atitudes do bloco possibilista
espanhol durante quinze anos, se não se quer dar crédito ànossa opinião.
Segundo o nosso entender, o sindicalismo, malgrado as suas pretensões
de nova teoria, não representou senão a volta ao primitivo e estreito conceito
corporativista da A. L T.
Posteriormente estudaremos as suas pretendidas concepções e o seu
sistema para o futuro, com mais extensão.
* *
*
Temos lido e ouvido repetidíssimas vezes definições expostas neste
teor: ;;0 sindicalismo é o movimento corporativo das classes trabalhadoras em
luta permanente contra o seu inimigo natural, o capitalismo".
"Sindicalismo é a denominação com que se conhecem as lutas da classe
operária na defesa de seus interesses contra o capital. É o resultado fatal da
concentração de jornaleiros nas grandes fábricas dos centros de população
industrial. A passagem do artesanato à manufatura e a transmissão desta aos
estabelecimentos de dispositivos mecânicos, facultaram as condições de
dissociação entre produtores legítimos e produtores nominais: a máquina
quebrou os velhos vínculos morais que caracterizavam a vida da oficina; o
52
binômio patrão e assalariado expressa a característica da moderna face
econômica da sociedade".
A pugna biológica. de defesa instintiva dos interesses encontrados de
cada setor inimigo, entenderam, os sindicalistas neutros, que era a única
manifestação atendível da guerra social contemporânea.
A beligerância das idéias. das opiniões, do pensamento, que cada
cérebro pode conceber e expor, relacionados com os fins e com a atividade
conseqüente das coletividades gremiais, em nada poderia perturbar o rígido
curso do sindicalismo IOOxl00.
O ponto ideal em que devia situar-se o "sindicato" era, pois, o da
eqüidistância entre o socialismo e o anarquismo. Dilucidar questões de
doutrina, propagar os princípios de socialização da terra e da riqueza emgeral,
aconselhar a luta impostergável contra aburguesia e o Estado sob qualquer de
suas formas, manifestar-se contra aautoridade do sacerdote, do legislador edo
patrão no templo sindical, era - Pestana, de cabeça já encanecida, assegura-
nos doutoralmente que é, apesar de tudo, - fazer política, desviar com
sugestões do intelecto, arealidade econômica, do seu leito natural.
Falar aos trabalhadores da necessidade de traçar-se o propósito decisivo
de evadir-se deste imenso cárcere - destruindo-o - tem equivalido para os
sindicalistas imaculados a uma fantasmagoria filosófica que distrai aos
trabalhadores sem que apossam compreender.
XI
Convenhamos ante o exposto em que o sindicalismo - o movimento
operário considerado como tal - é algo muito semelhante ao que foi o corpo
de Adão antes de infundir-lhe o padre eterno o sopro vital; um montão de
barro dutil emaleável, suscetível de submeter-se a qualquer aplicação eforma.
Examinemos oproblema.
Em anteriores capítulos temos constatado que a humanidade não vive
com os regimes atualmente imperantes no melhor dos mundos.
Por esta causa os escravos modernos procuram atenuar o seu mal-estar
somando e elevando a potência coletiva às vontades individuais para a defesa
comum.
Dito de outra maneira: uma organização social sustentada pela violência
e pelo engano para a exploração e a servidão teria de provocar fatalmente a
desconforrnidade explícita dos explorados e servos com as causas que os
submetem àcondição detais.
Tal descontentamento constitui o primeiro motivo gestor das
associações proletárias.
53
Pois bem; dita atitude de rebeldia incipiente poderá projetar-se numa
reta sem limites, ou poderá ser desviada numa curva que volva ao ponto de
partida. Neste caso, estão os sindicatos orientados por tendências autoritárias,
bem como os submetidos à égide do capitalismo (Federação Americana do
Trabalho) ou sob a int1uência do Marxismo (Trade-Unions inglesas,
Sindicatos vermelhos da Rússia); ou patrocinados por qualquer religião ou
qualquer Estado. (Corporações gremiais católicas, fascistas, etc.).
Distintamente, na primeira de tais situações, as organizações inspiradas
pelo anarquismo e propulsionada a sua atividade por vontades anarquistas
(Confederação N. do Trabalho de Espanha, F. O. R. Argentina, Federação
Operária de S. Paulo, Brasil, etc.)
* * *
J á o temos insinuado: cada proletário que se agrupa aos demais nas
sociedades gremiais, faze-o, na maioria dos casos, alentados por um propósito
defensivo. Não se propõe destruir a cadeia da exploração, libertar o pescoço
da gargalheira do salário; crê religiosamente que aquela será eterna e aspira
simplesmente a conseguir maiores forças para que lhe resulte menos pesada;
deseja unicamente não ser estrangulado por este. Conforma-se empermanecer
jungido ao carro damiséria, desejando apenas não suportar ojugo da fome.
É esta aque poderíamos qualificar de matéria prima, com que em suas
bases estão formados os sindicatos.
A cada sindicato profissional concorrem os operários considerados
como elementos de um oficio determinado: alfaiates, sapateiros, pintores,
padeiros, tecelões, etc. Mas haveriam de ser subjugados na oficina e na
fábrica, pela profissão, e escravos fora dela por uma sempiterna mania
profissional?
Lopes Arango disse com grande acerto: o indivíduo vale pelo que pensa
e não pelo que produz. Quer dizer, seu valor distintivo está no que o homem
supõe como unidade consciente e determinante do progresso enão como fator
cego e forçado daprodução.
Não terão os operários padeiros, por exemplo, um valor nem individual
nem coletivo para a marcha ascendente de um povo, pelo fato de prepararem
as massas do pão, de trabalhar até ao esgotamento, atendendo com seu esforço
uma necessidade iniludível da população. Mesmo sentindo o orgulho de
elaborar o manjar mais indispensável à vida, não passaria, quem tal
necessidade sofrera - se não tivesse outra virtude - de instrumento de
trabalho, de motor de sangue, de animal de tiro no carro da produção.
54
Hoje, na época do maquinismo galopante, o trabalho, para quem aspira
a uma sociedade sem parasitas, é um timbre de dignidade; mas para o
autômato de cérebro ede coração, é envilecedor.
O fato de rebelar-se como explorado e de pensar numa sociedade mais
humana, de lutar por um principio de equidade, constituirá, sem dúvida, um
verdadeiro mérito social; não de igual modo a ação mais ou menos mecânica
deproduzir.
Por ventura a maioria dos trabalhadores não se submete à situação de
tais porque as circunstâncias não lhes são propícias para mudar o seu papel
pelo do mais vulgar e desumano explorador?
* * *
São incontáveis as tolices que se têm intentado fazer passar por
princípios filosóficos.
Calino pretendeu, às vezes, valorizar as de menos sentido e de menos
bom gosto, ilustrando-as, para maior compreensão, com alguma estupidez.
Algo disto ocorreu com respeito ao assunto de que nos estamos
ocupando.
Tem-se dito: o sindicalismo éa doutrina da ação como o anarquismo o é
do pensamento.
O sindicalismo é o braço, enquanto que o anarquismo é o cérebro da
revolução.
O sindicalismo libertário será, éjá de fato, o veículo em que devemos
embarcar-nos; a anarquia éo longínquo e luminoso ponto do horizonte ao qual
nos devemos dirigir.
Ungüento deretórica, incenso literário, verborragia!
Por acaso a doutrina da verdadeira ação revolucionária não é o
pensamento anarquista, e este não se traduz em sentimentos e em fatos como
já temos dito eprovado mais de uma vez?
O anarquismo não é um fluído etéreo que se corrompe em contato com
as coisas dos mortais ese converte empó elodo quando desce das alturas.
O descontentamento momentâneo e circunstancial dos explorados deve
ser convertido em raciocínio critico, em sentimento criador, e projetado em
aspirações de liberdade: deve traduzir-se no desejo constante de chegar auma
fundamental transformação das relações econômicas e morais. Eis ai o dever
dos anarquistas.
Onde deverão cumprir esse dever senão em todos os lugares em que
prestem o concurso de sua atividade pessoal?
55
Apresenta-se na vida, tanto aos indivíduos como às coletividades um
dilema de cujos termos não émuito fácil escapar: ou se está com a reação ou
pela revolução. (Claro que isto não quer dizer que estejam contra nós quantos
não nos acompanhem na ação. Não se deve esquecer que são muitos os
paralíticos da vontade).
E se há sindicatos, organizações proletárias que estão pela revolução,
que mantêm uma beligerância revolucionária, e cuj os militantes são
anarquistas, por que não hão de serem anarquistas em maior ou menor grau
tais agrupações gremiais?
Que tais instituições têm defeitos equivalentes cada um a uma negação
das idéias? Mas, por acaso. não os há igualmente no grupo em mais ou menos
quantidade? Não étambém defeituoso cada individuo ainda que se chame e de
fato seja anarquista?
Nós não coincidimos com os que emnome do realismo levantam altares
a Sancho Pança, nem compartilhamos o pensamento dos que, fazendo da
anarquia uma deidade, substituem velhos absurdos com dogmas novos.
Parece-nos que as persistentes invocações da idéia pura, não
representam senão uma litania libertária que converte o anarquismo em
doutrina religiosa.
E de igual modo às especulações antifilosóficas de alguns aspirantes a
filósofos, soam-nos como as últimas salmodias do marxismo decadente postas
em solfa sindicalista, talo ensino negativo que nos oferecem em Espanha os
teóricos do possibilismo, os devotos do praticismo, os "trinta" semideuses
destronados.
*
* *
Quer-se um materialismo grosseiro e rastejante, senhores sindicalistas
catalães?
Em resposta atão mesquinha pretensão, aconselhamos - permita-se-nos
este atrevimento - a leitura do folheto de R. Rocker "A maldição do
praticismo". Entretanto, aplaudimos aos anarquistas espanhóis que. depois de
repelir o marxismo pela porta, não permitiram que penetrasse no movimento
operário pela janela.
Pelo contrário vós, anarquistas, quereis a idéia sem mancha?
A posse desta só pode ser privilégio de raras individualidades: de um
Reclus, de Louise Michel, Fermino Salvochea, E. Malatesta. Poderá
encontrar-se integra em um Max Netlau, mas nunca em agrupamentos
humanos.
Não estejamos iludidos.
56
XII E ÚLTIMO (*)
No movimento revolucionário de língua portuguesa encontra-se, como
nos demais países uma considerável diversidade de opiniões sobre a atitude
dos anarquistas ante os sindicatos operários. Poderemos polarizar em dois
extremos as diversas e distintas opiniões:
Neno Vasco de um lado ea União Anarquista Portuguesa de outro.
O primeiro disse que "o anarquismo é sindicalista desde o berço" e que
"quanto "maisanarquista, mais sindicalista".
Para o camarada desaparecido, o sindicalismo era o Centro coligador de
todas as vontades revolucionárias, de todos os elementos de produção,
enquanto desempenham somente esta função. Mas até aqui, é, todavia mínima
asua importância.
Traduzindo o pensamento de Varlin, um dos elementos assassinados
pelos versalhêses da Comuna de Paris, e identificando-se com ele, diz: "...
pois são elas que formam os elementos naturais da edificação social do futuro:
são elas que poderão facilmente transformar-se em associações de produtores;
são elas que hão de poder utilizar a ferramenta social eorganizar aprodução".
Refere-se às sociedades corporativas e de resistência, como naquele
tempo se dizia.
Posteriormente os anarquistas portugueses fizeram afirmações
contrárias.
Vejamos o que dizia, há dez anos aU. A. P., com respeito à sua atitude
em face do sindicalismo:
"O anarquista, homem livre e inteligente, culto e idealista, não suporta
naturalmente o meio" criado nas organizações sindicais; e se lá dentro pretende
exercer asua ação, ou é absorvido ou édeslocado ..."
Depois de algumas considerações deste teor, chega a conclusões como
estas: "O sindicalismo revolucionário, que apenas possui objetivos materiais e
exclusivos, desenvolve o egoísmo natural das massas"; "o sindicalismo
revolucionário, pela sua estrutura orgânica e processos de luta, está imbuído
de autoridade!"
Como acabamos de comprovar, as corporacões gremiais, mesmo sendo
de caráter abertamente revolucionário, tem tido as mais diversas apreciações,
quanto ao seu valor.
Para alguns anarquistas constituem os atuais sindicatos as células
embrionárias da Sociedade futura ...
57
o IV Congresso da A. r. T., realizado em Basiléia em 1869, deu
impulso e expansão àidéia de que as "sociedades deresistência" criadas desde
já por uma necessidade da luta contra o atual mundo de monopólio e
exploração, seriam os órgãos deuma nova estrutura social no porvir.
As distintas tendências sobre o assunto têm sido atenuadas e também
exageradas. Alguns viram no sindicato atual o Alfa e Ômega da revolução
social, a panacéia do presente e do porvir, como os sindicalistas franceses
Pierre Besnard e Huart; e outros, ao contrário, como alguns dos elementos
conhecidos em nosso meio social - repetem constantemente, até à saciedade,
que cada núcleo de organização gremial deve significar qualquer coisa assim
como asilo de inválidos, como um refugio de mendigos, como se fossem
monturos de ex-homens.
Não coincidimos nem com os segundos e muito menos com os
primeiros. Ainda que incorramos no perigo de ser exagerados, insistiremos em
que não temos fé nalguma palingenesia social; não acreditamos que possa
haver ou que chegam a descobrirem-se caminhos únicos ou fórmulas
salvadoras.
Parece-nos que não deixa de ser uma ilusão desconcertante o pensar que
determinada corrente, grupo ou opinião individual se creia estar no mesmo
plano daquela idéia com que um louco estampava na capa de um livro seu: -
"A fórmula justa do Bem estar Social", Não seria mais viável entender que a
verdade é sempre relativa, e que, sobretudo, não devemos ter a pretensão de
querer monopolizá-Ia?
Em vez de oficiarmos no papel de dominós e afirmarmos com ênfase
que os outros estão errados, melhor seria que, com modéstia e tolerância
exaltássemos as outras vontades para que, na multiplicidade das
manifestações, lutassem sem cessar e cada dia mais intensa e amplamente,
pela liberdade e pelo bem estar de todos os progressos sociais, contra o
autoritarismo econtra o mal.
Neno Vasco, muito mais os sindicalistas franceses e espanhóis
contemporâneos que se esforçam por fazer do sindicalismo uma nova igreja,
afirmam que a missão das organizações é mais pós que pré-revolucionária.
Nós opinamos o contrário.
Assim como a vida econômica e social presente revasa os limites das
leis convencionais e dos códigos absurdos, do mesmo modo e com maiores
proporções nos parece que a convivência futura dos homens não poderá ser
encaixada nos moldes acanhados que os engenheiros do sindicalismo
preparam na atualidade para as gerações vindouras.
Por isso mesmo é que o livro de Besnard, "Os sindicatos e a Revolução
Social", nos parece algumas vezes um "catecismo sindicalista" - expressão
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feliz de um mestre das idéias - e outras uma infantilidade, própria de uma
criança próxima aos 50 anos, enérgico defensor das suas opiniões.
* * *
Insistamos pela última vez: o sindicato - ou como se queira chamar -
enquanto está no seu papel de agrupação de homens que estão vinculados
estreitamente à vida social, como elementos indispensáveis à sociedade
capitalista, julgamo-Io um dos meios mais eficazes de atividade
revolucionária.
Naturalmente quando homens de pensamento e de temperamento
revolucionário edinâmico influam na sua orientação.
Vejamos: se os assalariados agrupados nas associações proletárias; se os
escravos do capitalismo, ligados pelo interesse comum e estimulados pela
solidariedade na luta, se declaram em rebeldia contra o capital, não será
afetado o seu equilíbrio de uma forma mais real dentro das atuais condições de
vida?
Se o Estado quer impor aos trabalhadores uma lei mais ignominiosa que
as demais, com as mesmas forças de ação anti-capitalista poderá ser travada a
luta anti-estatal.
Assim que seja à torça, estamos ligados, como trabalhadores que
somos, ao regime que pretendemos destruir.
O vínculo que nos une (o Trabalho) - quem o ignora? - pode ser
convertido numa ferramenta utilíssima de luta defensiva e ofensiva, sabendo-a
esgrimir.
O que nos une e confunde com o mundo atual na qualidade de
anarquistas?
No primeiro caso, ainda que tentássemos por de lado uma das partes, ou
mesmo que tentássemos por simultaneamente as duas, não haveria
possibilidade de solução de continuidade entre nós e o nosso inimigo.
Que atitude negativa equivalente à greve, por exemplo, poderíamos
assumir no caso de uma luta defensiva num movimento anarquista
especificado contra o capitalismo ou contra oEstado?
Contam os anarquistas e simpatizantes nalguma parte do mundo em
nalgum pais com forças para declarar a guerra ao mundo burguês e incitar
depois atodos os que o não são à luta pela Revolução Social?
Mesmo que os anarquistas pudessem sozinhos fazer a revolução e por
temor ao fracasso ou por negligência não se decidissem acomeçá-Ia, que outra
coisa poderão fazer hoje - enquanto não se descubram novos métodos e
59
procedimentos mais profícuos de propaganda e combatividade - do que aquilo
quejá fizeram ontem?
Se nos vimos repelidos pelos que vivem satisfeitos com a sua
escravidão, aonde iremos senão aonde se encontram os descontentes e
predomina mais ou menos o estado de revolta, ainda que os rebeldes não
saibam explicar-nos O PORQUÊ da sua rebeldia?
Camaradas que acusais aos sindicatos de não ser cada um deles mais
que uma fábrica de lágrimas: esperamos que algum dia nos tire deste atoleiro
onde nos colocam as interrogações que acabamos de formular.
* * *
Cremos que se haverá compreendido, pelo que acabamos de expor, que
a nossa intenção é somente expressar o nosso descontentamento por tudo que
signifique unilateralidade.
Ao contrário, entendemos que é preciso seguir todos os caminhos,
recusando-nos, claro está, a seguir aqueles que por experiência ou por razões
de consciência temos acerteza de que nos irão extraviar.
Não poderemos resistir a este respeito, à tentação de dar a palavra ao
nosso mestre esábio Max Netlau.
Ouçamos o que ele diz com mais profundidade de conceitos e com
maior beleza de expressão:
"Uma idéia viva não pode ser nunca acabada, aperfeiçoada, sublimada
em quintessência, numa fórmula, num programa ou numa plataforma,
encarnada num homem.
Isto significa precisamente encerrá-Ia numa prisão onde languescesse
emvez de florescer, abrir-se eestender-se. A idéia libertária tem necessidade a .
cada instante de ser alimentada em terrenos novos e amplos, pela experiência
de aplicações novas; imaginar-se que partindo de alguns grupos e periódicos
ela irá um belo dia, em linha reta, a regenerar a humanidade, é de um
simplismo apergaminhado. Não; a sua missão e trabalho a defrontam no
grande mundo, onde ainda há, apesar dos maus tempos, uma grande
quantidade de homens cheios de vitalidade, que saberão ser-lhe tão úteis fiéis
guardíões, mas que não devem converter-se em seus seqüestradores,
pretendendo monopolizar as idéias.
Levemo-Ia ao grande mundo dos progressos humanos que é o seu
ambiente fraternal efavorável.
Não devemos recear que se desnaturalize ao contato do ar livre; teria
mui pouco valor se qualquer contato pudesse prejudicá-Ia".
Identificamos o anelo comum de estabelecer um mundo novo?
60
É nosso fimaLiberdade e são libertários os nossos meios? Isso basta.
Sem nos perdermos em doutrinarismos artificiosos, sem contradizer o
nosso pensamento com atitudes de criticômanos e de dogrnáticos,
empenhemo-nos em somar cada dia maior número de vontades para a causa
do progresso.
É'mais urgente a multiplicação das consciências livres e a formação de
caracteres fortes que a superprodução de aparatos sindicais, ou de utopias
anárquicas.
Sem nos perdermos em doutrinarismos artificiosos, sem contradizer o
nosso pensamento com atitudes de criticômanos e de dogmáticos,
empenhemo-nos em somar cada dia maior número de vontades para a causa
do progresso.
Anarquismo? Sindicalismo? Prescindi, se assim o quereis, de vos
definirdes por qualquer destes termos.
Lutai para que o homem seja mais humano, mais tolerante emais digno.
Trabalhando todos neste sentido. a Anarquia não será amanhã um belo
sonho euma esperança vã.
(*) N. do A.: Era nosso propósito comentar e opinar sobre outros aspectos em tomo deste tema, que, de
maneira improvisada, temos vindo analisando. Mas a limitação das possibilidades para a saída regular de
"A Plebe" nos obriga a desistir. Não devemos ocupar com um escrito pesado, por extenso, wn espaço
que se torna indispensável, agora mais do que nunca, para tratar de assuntos de maior atualidade. Em
todo o caso voltaremos a dar nossa opinião, quando as circunstâncias o requeiram, sobre estes problemas
que oferecem - quanto se criticam ao menos opiniões desatinadas - algum interesse.
Impren
M a r J ! i n a l