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arte nas sociedades primitivas? E posso também ser levado
a concluir que toda arte tornou-se inútil para nós? Q!Je
alguma coisa está para nascer e que talvez não seja unia
arte? Ou que, ao contrário, a exiinção da arte é natural e
que ninguém se aperceberá?
C. L.-S. - Não me encarrego de fazer previsões, someu'e
queria chamar sua atenção para uma lacuna no que eu disse
há pouco, e que nos permite, em certo sentido, ampliar o
problema: dizia que havia, em toda criação estética, unia
espécie de disparidade entre os meios técnicos à disposicào
do artista e a resistência do processo da criação - digamos,
a resistência do material - e que essa disparidade, maior
ou menor segundo as sociedades, mas sempre real, impunha
à arte uma função essencialmente significativa. Quando não
se pode obter um "fac-similado" do modelo, contenta-se,
ou escolhe-se significá-lo. Diria também que essa disparidade
não diz respeito somente aos meios. Pode haver insuficiência
de meios, e essa situação é comum às artes que chamamos
primitivas no sentido mais amplo, isto é, os primitivos italianos
assim como os povos primitivos: ou poderia haver o que
chamaria de um "excesso de objeto", e isso me pare.:e
bastante surpreendente nas artes dos povos primitivos, dos
quais não podemos dizer que seja sempre por causa de urna
insuficiência técnica que a função significativa aparece, pois
há populações que chamamos de primitivas que chegaran
a um extaordinário domínio técn ico de seus procediment :)S
de criação; você sabe que a cerâmica peruana pré-colornbiaua
está entre as mais perfeitas que jl foram fabricadas, que a
tecelagem arcaica peruana representa um dos picos das artes
têxteis. Mas sempre há, nos povos que chamamos primitivos,
um excesso de objeto que recria essa margem, essa distância,
e que se relaciona com o fato de que o universo no qual
vivem esses povos é largamente sobrenatural. Sendo
sobrenatural, é irrepresentávcl por definição, pois é impossível
fornecer o li f'ac-similado " e o modelo; assim, seja por fatia
ou por excesso, o modelo transborda sempre sua imagem,
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as exigências da arte transbordam sempre os meios do artista.
Com rcs.ieito a isso, parece-me que há alguma coisa muito. _.
enfim .. inquietante, talvez, para (1 futuro da arte na evotucão
de nossa ,;sociedades contemporâneas: gracas ao connecimc:u ()
cientific.i, conseguimos "reduzir" os objetos a um ponto
bern conidcrávcl. Tudo o que podemos apreender dos objetos.
pelo conhecimento científico, é 8) mesmo tempo retirado,
roubado à apreensão estética. enquanto que para os
primitivos ... I
G. C. _... É certo.
C. L.-S. - que não têm conhecimento científico ou têm
muito pouco .
G. C. -- A zona do artista reduz-se,' quero aliás chegar aí ...
C. L.-S. - Sim, sim, o objeto é muito mais considerável.
os objetos são mais pesados, mais densos, são carregados
de .uma quantidade de coisas das quais conseguimos
expurgá-tos.
G. C. _'. Vocês descamaram a matéria do artista.
C. L.-S_ - "Nós", quem?
G. c. _. Os homens de ciência.' [' isso, J UI?!l! o qUI! pense!
Mas V(J"ê disse que a função significativa: se compreendi
bem seus lermos, nasceu da existência de uma dispa/idade.
Pergunto-me-se ela não mais se mantém graças à existência
de uma impossibilidade, que reside principalmente no [ato
de que vocês reduzem a margem da qual dispõe () artista:
reduzem seu; domlnio, e ele é levado a constatar uma
impossibílidade cada vez maior, a de existir, e o 110\'0
desespero do artista - pols existe um muito mais sólido
do que aquele do qual se falava vinte anos atrás, c,-eio-
é justamente :de mio se sentir legitimado, de mio sentir que
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