PROVA DE ACIDENTE DE TRABALHO

Presunção legal faz prova de doença oupa!onal
Sidnei Machado
(*)
"# O reg!$e da presunção legal
O regime da prova é fundamental para o sistema de
reparação dos acidentes de trabalho e doenças ocupacionais. A
preocupação com a proteção jurídica dos trabalhadores contra os
riscos profissionais inerentes ao trabalho fe evoluir! ao longo de
"uase um século! a legislação e a jurisprud#ncia a fim de propiciar a
efetiva reparação do dano $ sa%de e $ integridade física do
trabalhador. A técnica da presunção legal é um dos mecanismos
utiliados pela lei e pela jurisprud#ncia para indicar! de partida! "ue
deve haver sempre a presunção de "ue toda e "ual"uer lesão
ocorrida durante o trabalho e no local de trabalho constitui um
acidente imput&vel ao trabalho. 'rata(se de presunção favor&vel $
vítima de risco calcul&vel do acidente de trabalho! um dos flagelos
mais emblem&ticos da nossa sociedade.
A )ei n. *+.,-+! de ./.*...++/! ao ampliar o regime
da presunção legal! introduiu substancial alteração no critério de
prova do acidente de trabalho por doença ocupacional. A )ei
*+.,-+0.++/ acrescentou o art. .*(A na )ei n. 1..*-02*! para
adotar o sistema da presunção da doença ocupacional "uando
demonstrado o ne3o técnico epidemiol4gico. 5mbora o seu
objetivo principal tenha sido o de tornar mais f&cil a prova das
doenças ocupacionais perante a 6revid#ncia 7ocial! esse singelo
(*)
Advogado! professor do 8nicen6! mestre e doutor em direito pela 896:. 5(
mail; sidnei<machadoadvogados.com.br
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artigo tra profunda inovação nos mecanismos de prova das
doenças ocupacionais.
6ara a caracteriação do acidente de trabalho pela
6revid#ncia 7ocial! segundo os artigos *2 a .* da )ei n. 1..*-02*!
além da lesão e da incapacidade para o trabalho! é re"uisito
essencial a demonstração do ne3o causal. Biferentemente dos
acidentes típicos! em "ue o ne3o causal é de f&cil verificação! as
doenças ocupacionais! pela sua pr4pria naturea! oferecem enormes
dificuldades pr&ticas para se estabelecer com precisão científica a
relação causal entre a moléstia e o trabalho. Os laudos médicos
periciais! em regra! não conseguem fi3ar em suas conclusCes! com
certea e e3atidão! a relação de causalidade e! assim! tendem a
rejeitar a caracteriação do acidente justamente pela falta de
evid#ncia de ne3o causal. Os movimentos sociais de promoção da
sa%de do trabalhador e organismos internacionais ligados $
proteção social h& muito tempo denunciam os e"uívocos
interpretativos da 7eguridade 7ocial e! muitas vees! do pr4prio
judici&rio! "ue condicionavam a caracteriação da doença
ocupacional $ prova ine"uívoca do ne3o casual! com o pesado Dnus
para a vítima. Be fato! a aus#ncia de um tratamento e"Eitativo!
específico para a prova das doenças ocupacionais tem levado $
dram&tica situação de toda uma legião de vitimados pelo trabalho
"ue! justamente por dificuldades de prova! não t#m acesso ao
seguro dos acidentes de trabalho e! como conse"E#ncia! não
conseguem responsabiliar os seus empregadores pelos danos
suportados. O instituto da presunção do acidente de trabalho é
agora introduido e3pressamente no art. .*(A com a seguinte
redação;
“A perícia médica do INSS considerará caracterizada
a natureza acidentária da incapacidade quando
constatar ocorrência de nexo técnico epidemiológico
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entre o traalho e o agra!o" decorrente da rela#$o entre
a ati!idade da empresa e a entidade mórida
moti!adora da incapacidade elencada na %lassi&ica#$o
Internacional de 'oen#as ( %I'" em con&ormidade
com o que dispuser o regulamento)*
Fsso significa "ue o acidente de trabalho por doença
ocupacional pode ser provado por meio da presunção! um dos
mecanismos legais de prova dos fatos jurídicos admitidos no nosso
ordenamento jurídico (art. .*.! FG do >4digo >ivil). A presunção
legal introduida é a +uris tantum" relativa e! assim! admite prova em
contr&rio. Has a finalidade da presunção acolhida pela lei é
justamente a de facilitar a prova da doença ocupacional pela vítima.
7endo relativa a presunção legal! pode a autar"uia previdenci&ria
produir prova em contr&rio! no entanto! dever& demonstrar de
modo ine"uívoco a possibilidade dessa prova para afastar a regra da
presunção legal.
A e"uiparação legal das doenças ocupacionais aos
acidentes de trabalho foi introduida no Irasil pela )ei n.
/.-/A0A/. Bepois tivemos a criação da presunção de doenças
profissionais e as doenças do trabalho catalogadas atualmente na
e3tensa! porém insuficiente relação do ane3o FF do Becreto n.
-.+,1022! cujo ne3o etiol4gico j& é presumido (+uris et de +ure). As
doenças não catalogadas! todavia! apesar de poderem ser
e"uiparadas $s doenças ocupacionais! dependiam de prova do ne3o
causal (art. .+! J .K). 6or isso! a fi3ação da presunção legal de
acidente para as demais doenças ocupacionais! pelo critério
epidemiol4gico! é medida normativa decisiva para superar a
precariedade de condiçCes de prova da vítima da moléstia
ocupacional.
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&# A f!'ação do ne'o ()n!o ep!de$!ol*g!o pelo IN++
O primeiro efeito pr&tico da presunção legal
estabelecida no art. .*(A é o de inverter o Dnus da prova da doença
ocupacional! pois se a lei presume o fato jurídico (acidente de
trabalho)! transfere(se a outra parte o Dnus da prova. 'rata(se da
concreção do princípio constitucional da isonomia! na medida em
"ue a vítima do acidente de trabalho! a parte mais fraca e com
menores condiçCes de produção de prova − diante da debilidade
técnica! econDmica e jurídica − merece tratamento diverso na
distribuição do Dnus da prova.
A fi3ação do ne3o técnico nas doenças ocupacionais
e nos acidentes de trabalho é dirigido aos peritos médicos da
6revid#ncia 7ocial (FL77). 6ara a regulamentação da )ei
*+.,-+0.++/ foi editado o Becreto n. /.+,.! de ./.+...++A! o "ual
promoveu substancial alteração na redação original do art. --A do
Becreto n. -.+,1022. Bi doravante o caput do referido artigo "ue;
“, acidente do traalho será caracterizado tecnicamente pela perícia
médica do INSS" mediante a identi&ica#$o do nexo entre o traalho e o
agra!o*. O par&grafo -K do art. --A! por sua ve! esclarece "ue;
“%onsidera(se estaelecido o nexo entre o traalho e o agra!o quando se
!eri&icar nexo técnico epidemiológico entre a ati!idade da empresa e a
entidade mórida moti!adora da incapacidade" elencada na %lassi&ica#$o
Internacional de 'oen#as -%I'. em con&ormidade com o disposto na /ista
0 do Anexo II deste 1egulamento)*)
O Le3o 'écnico consiste no vínculo entre o
diagn4stico da doença com as condiçCes e o ambiente de trabalho
com risco potencial. M&! por hip4tese! ne3o técnico epidemiol4gico
entre uma tendinite e um risco ergonDmico presente na
organiação e no ambiente de trabalho de digitadores. A partir do
ne3o técnico é "ue se permite ao perito fi3ar o ne3o causal.
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Além de definir "ue o ne3o causal ser& caracteriado
pela identificação entre o Ntrabalho e o agravoO! o art. --A e3plicita
"ue o ne3o é identificado por meio de uma relação estabelecida
entre a atividade da empresa e a entidade m4rbida motivadora da
incapacidade (J-K do art. --A). Ou seja! o Le3o 'écnico
5pidemiol4gico! "ue fa uma relação (ne3o) entre as atividades
econDmicas (pela >lassificação Lacional de Atividades 5conDmicas
P >LA5) e os agravos descritos no >4digo Fnternacional de
Boenças (>FB(*+). A Atividade da empresa é definida na >LA5 e
a entidade m4rbida no ane3o FF! I! do Becreto n. -.+,1022. O
"uadro indica as doenças e os correspondentes agentes etiol4gicos
ou fatores de risco de naturea ocupacional! ou seja! entre a
entidade m4rbida e as classes de >LA5 indicadas.
O rol de ane3o FF! I do Becreto n. -.+,1022 é
meramente e3emplificativo! como o pr4prio "uadro indica. M&
também previsão legal no J .K do art. .* da )ei 1..*-02* de "ue as
atividades listadas como doenças ocupacionais são e3emplificativas.
6ara "ue a perícia da previd#ncia realie a identificação do L'5
basca um re"uerimento de prestação acident&ria pelo segurado ou
pelo empregador! "uando se designar& a realiação da perícia.
Quando re"uerido au3ílio(doença ou aposentadoria por invalide é
obrigat4ria a informação do >4digo Fnternacional de Boença (
>FB! devendo! no caso de segurado empregado! informar também
a Bata do Rltimo Bia de 'rabalho P B8'. Assim! a realiação do
en"uadramento do ne3o casual não depende mais da emissão da
>omunicação do Acidente de 'rabalho P >A' pelo empregador! o
sindicato ou o pr4prio trabalhador. O mecanismo da >A' foi
mantido! bem como a sua obrigatoriedade de emissão! mas a
aus#ncia de emissão não gera multa administrativa para a empresa.
O chamado ne3o epidemiol4gico amplia
substancialmente a noção de doenças ocupacionais para fins de
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acidentes de trabalho. Antes definidas e catalogadas apenas como
doenças profissionais ou do trabalho (art. .+ da )ei n. 1..*-02*)! o
critério da presunção permite a inclusão de um n%mero indefinido
de patologias ocupacionais! muitas delas antes ocultadas ou
dissimuladas como simples patologias. 9i3ado o ne3o técnico
epidemiol4gico − agregado $ demonstração dos re"uisitos da lesão
e da incapacidade tempor&ria ou permanente do trabalhador − tem(
se como comprovado o ne3o causal! confirmando a prova do
acidente de trabalho.
8m primeiro avanço normativo nessa direção veio
com a :esolução n. *.,11! de **.+..*221 do >onselho 9ederal de
Hedicina P >9H! "ue impunha a obrigação dos laudos médicos! na
investigação do ne3o! relacionarem o diagn4stico $ hist4ria clínica!
o estudo do local de trabalho e da organiação do trabalho e! ainda!
os dados epidemiol4gicos (art. .K). O Hinistério da 7a%de também
passou a orientar os agentes do sistema %nico de sa%de P 787 para
fi3ar o ne3o técnico como ponto de partida para o diagn4stico dos
acidentes de trabalho.
*
A introdução da presunção na lei! pelo
critério do ne3o técnico epidemiol4gico! certamente constitui
enorme avanço! na medida em "ue torna clara a obrigação legal de
médicos peritos do FL77 de faer uma ampla investigação das
1
NO estabelecimento do nexo causal ou nexo técnico entre a doença e a atividade
atual ou pregressa do trabalhador representa o ponto de partida para o
diagn4stico e a terap#utica corretos! mas! principalmente! para a adoção de açCes
no Smbito do sistema de sa%de! detalhadas no capítulo .! como a vigilSncia e o
registro das informaçCes em outras instituiçCes! como! por e3emplo! nas esferas
dos ministérios do 'rabalho e 5mprego (H'5)! da 6revid#ncia e Assist#ncia
7ocial! da empresa! sob a responsabilidade do empregador! do sindicato da
categoria $ "ual pertence o trabalhador e do Hinistério 6%blicoO (Boenças
:elacionadas ao 'rabalho; Hanual de 6rocedimentos Hédicos P Hinistério da
7a%de).
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suspeitas das doenças ocupacionais a partir do ambiente de
trabalho.
A literatura especialiada tem apontado "ue a causa
primeira das doenças ocupacionais são as condiçCes e o ambiente
de trabalho! onde os trabalhadores são submetidos aos velhos e
novos fatores de risco! resultando no drama do sofrimento!
adoecimento e morte. T o ambiente de trabalho "ue melhor retrata
os riscos individuais e coletivos! "ue revelam a relação indissoci&vel
entre sa%de(trabalho(doença. As doenças ocupacionais assumiram
proporçCes epid#micas nas %ltimas duas décadas! em grande
medida pela precariedade crescente do meio ambiente de trabalho
"ue! para além dos riscos físicos! "uímicos e biol4gicos! submete o
trabalhador $s condiçCes mais adversas de trabalho. A presunção
legal da doença ocupacional! nessa perspectiva! encontra ampla
recepção das e3ig#ncias para um ambiente de trabalho
ecologicamente e"uilibrado! tal como assegurado pela nossa
>onstituição (art. ..?).
,# Efe!(os do s!s(e$a da presunção na prova da reparação !v!l
5mbora o ne3o técnico epidemiol4gico seja dirigido
$ 6revid#ncia 7ocial! a caracteriação do acidente de trabalho pelo
critério da presunção! repercutir& na prova do acidente de trabalho
para fins de reparação de dano pelo regime da reparação civil. 8ma
ve admitida pela 6revid#ncia 7ocial "ue a doença caracteriadora
do acidente foi desencadeada pelas condiçCes ambientais de
trabalho de risco! certamente "ue os elementos de convicção da
6revid#ncia 7ocial servirão como prova da efetiva ocorr#ncia do
acidente de trabalho (ne3o causal) e! em algumas situaçCes! da
culpa do empregador.
M& uma tend#ncia na jurisprud#ncia brasileira (em
"ue pese ainda minorit&ria)! "ue! compreendendo as dificuldades
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de prova por parte da vítima! j& vem! gradativamente! adotando
critérios abertos e amplos de interpretação da ocorr#ncia do
acidente e da e3ist#ncia de culpa! "uer para afastar a e3ig#ncia da
prova robusta! "uer para inverter o Dnus da prova. A e3ist#ncia de
certo grau de probabilidade entre a doença e o ambiente de
trabalho! segundo esse entendimento! é o suficiente para a
convicção da caracteriação da relação da causalidade. A capacidade
de prova! por outro lado! é muito maior do empregador! pois
detém todas as informaçCes ambientais do local de trabalho (laudos
periciais) e! assim! tem melhores condiçCes de prova. A inversão do
Dnus da prova ganhou reforço também com a redação do art. 2.A!
par&grafo %nico! do >4digo >ivil.
.

A presunção da doença ocupacional permite
compreender "ue! tanto nas açCes acident&rias contra autar"uia
"uanto nas açCes reparat4rias! a prova por presunção não é
somente um meio admissível de prova! mas um valor jurídico
fundamental. A presunção tem! neste particular! uma importante
diretri interpretativa dos fatos pelo jui! para "ue o dever de
reparar o acidente alcance situaçCes antes indefinidas e ambíguas
de delimitação do ne3o causal. T uma nova política social de
proteção afirmativa assumida pelo 5stado para propiciar uma maior
efic&cia dos direitos sociais correlatos! promovendo assim a justiça
social de car&ter distributivo. A sa%de do trabalhador é um bem
fundamental "ue reclama um critério de igualdade (justiça
comutativa)! "ue esteja em harmonia com a necess&ria socialiação
do risco social dos acidentes de trabalho.
5mbora a convicção do julgador nas demandas
judiciais dependa do au3ílio técnico da prova pericial ("ue é apenas
2
NMaver& obrigação de reparar o dano! independentemente de culpa nos casos
especificados em lei! ou "uando a atividade normalmente desenvolvida pelo
autor do dano implicar! por sua naturea! risco para os direitos de outremO.
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um meio de prova)! nas açCes em "ue envolvam a "uestão da
fi3ação do ne3o causal! para "ue possa a perícia subsidiar o julgador
no seu convencimento! deve necessariamente traer elementos
técnicos da atividade e do ambiente de trabalho "ue possam indicar
a e3ist#ncia ou não de ne3o técnico epidemiol4gico. T a partir
desses elementos "ue o jui ter& condiçCes de faer uma an&lise da
presença de ne3o técnico! ou seja! da relação de presunção entre a
atividade e doença. >omo a nossa legislação admite também a
concausa como acidente de trabalho! o ne3o causal de naturea
eminentemente epidemiol4gica pode ainda ser fator agravador de
doença pree3istente. Ainda podemos lembrar "ue o sistema do
processo civil dispensa a prova de fatos "ue podem ser provado por
mera presunção legal (>6>! art --,! FG). Assim! evidenciado o
ne3o técnico não h& se"uer a necessidade de outra dilação
probat4ria! pois a presunção da doença ocupacional j& estaria
firmada.
-# Conlusão
O novo regime da presunção legal introduido pela
)ei *+.,-+0.++/ tem a vantagem de tornar mais precisa a lei!
apro3imando(a da realidade. Lo entanto! a compreensão da
dimensão da regra da presunção legal certamente provocar& a
melhor distribuição do Dnus da prova dos acidentes de trabalho! e
contribuir& para o combate $ lament&vel ocultação das doenças
ocupacionais (subnotificaçCes).
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