Índice

Apresentação .......................................................3 Avança a crise política na Bolívia ..........................7
Radiografia das condições do país e chegada de Evo à presidência....................................................................8 Política do governo MAS ..............................................11 Dificuldades de governabilidade.................................12 Explorados lutam por suas reivindicações .................14 Crise mundial ampliará a crise política.......................17 Agudização da crise ....................................................18 Intervencionismo externo.............................................21 A chave da solução se encontra na classe operária ...23 Fontes utilizadas.........................................................25

Artigos do Massas brasileiro sobre a crise na Bolívia Massas 362 Referendo na Bolívia Posição do POR boliviano trotskista e das esquerdas que se dizem trotskistas ......................................28
A CUT/PT arrastou a Corrente O Trabalho .................30 O PSTU e o Referendo .................................................30 PO da Argentina chama a votar em Evo .....................32 Evo saiu vitorioso. E agora? ........................................32

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Avança a crise na Bolívia: Evo se mostra incapaz de enfrentar a direita

Massas 363 PSTU e a Bolívia..................................................34 Massas 364 Bolívia: Intervencionismo externo Lula pressionou Evo a ceder................................39
Evo recua e a Oposição dita as regras........................41 A solução se encontra na classe operária ...................42

Anexos: artigos do jornal Masas boliviano
Consumada a Descomunal Farsa Cívico-Masista ......44 Os Masistas impostores zombam dos camponeses fazendo-os marchar por uma Constituição que consolida o latifúndio. ................................................44 A Marcha do Engano e a Traição às Massas .............45 O acordo entre governadores e governo .....................47 Como dissemos, o sangue não chegou ao rio..............49 O MAS em um impasse sem saída..............................52 Basta de Enganos: Marchemos Para a Libertação de Nosso Povo.............54 Tanto o Governo como a “Meia-Lua” temem a rebelião dos explorados ............................................................56 Só a luta revolucionária das massas mandará para a lata do lixo a luta inter-burguesa ................................58 Expulsão do embaixador ianque .................................59

Anexo: Resolução sobre a Bolívia 9º Congresso do POR-Argentina ..........................62

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Apresentação

Este folheto foi escrito no momento em que Evo Morales, por meio do referendo revogatório, de 10 de agosto, obteve a vitória de 67% contra os setores da direita fascista, comandados pelos departamentos da região da Meia Lua. As disputas entre o governo do MAS e a oposição se agravaram, resultando no massacre de 18 camponeses em Pando pela oposição fascista no dia 11 de setembro. Isso obrigou Evo a convocar o estado de sítio na região e armar a farsa em torno da prisão do governador, responsável direto pela chacina. A crise se aguçou. Os presidentes dos países que compõem a Unasul convocaram Evo para que aceitasse um acordo com os oposicionistas. Lula teve a função de servir de comandante para impor a orientação imperialista sobre a Unasul e sobre o governo da Bolívia. O folheto analisou a crise boliviana até a capitulação plena de Evo às decisões da Unasul. Depois de um mês, Evo materializou o acordo com os oposicionistas de direita modificando 100 dos 411 artigos do projeto de Constituição. Entre eles:

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a)sobre o tamanho dos latifúndios. Por meio de um novo referendo (outra farsa) a população dirá se as propriedades terão 5 mil ou 10 mil hectares. Pelo acordo, o governo não poderá mexer nos latifúndios existentes. Portanto, a medida só vale para impossibilitar juridicamente a formação de novos. No projeto de Lei, havia uma caracterização (embora demagógica) de que toda propriedade deveria ter uma função social. Isso foi retirado para reafirmar a propriedade privada e favorecer os investidores estrangeiros e não dar margem à expropriação. b)Sobre a reeleição. O texto constitucional mantém o artigo da reeleição do presidente da república. Porém, pelo acordo, Evo poderá se candidatar para as eleições antecipadas de 2009, mas não terá o direito em 2014. A oposição pretende em 2014 retomar o poder do Estado, para isso era preciso limitar por meio de uma lei o tempo de permanência de Evo. c)Sobre as autonomias. Evo aceitou a exigência dos oposicionistas de conceder aos Departamentos (estados) maior autonomia como “espaço de planejamento e gestão”. d)Sobre a exploração do gás e petróleo. Evo admitiu que metade da exploração permaneça sob o comando de empresas privadas, multinacionais. e)Sobre a privatização dos serviços públicos. Setores fundamentais como saúde, educação e previdência estão fora da lei que proíbe a privatização. Permanecem estatais somente os setores de água e telefone. Além das concessões à burguesia nacional e estrangeira, Evo usou o aparelho do Estado e as organizações sindicais, populares e camponesas pró-governo para uma marcha de milhares de camponeses e população pobre, exigindo a convocação de um referendo sobre a nova Constituição. Tudo não passou de uma farsa, pois o acordo com a direita já estava selado.
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Destacamos, nesta apresentação, as posições do Partido Operário Revolucionário da Bolívia sobre o episódio da marcha e o acordo:
“Consumada a descomunal farsa cívico-masista” “Como já havíamos assinalado desde o início o final de tanto teatro: cívicos e governo acabaram ajustando suas “diferenças” em uma Constituição que não é mais do que um espantalho de conteúdo burguês, na qual “todos se sentem representados” (entendam-se burgueses). Isso explica porque o governo reformista do MAS e a oposição de direita são iguais: expressões políticas burguesas que defendem a ordem capitalista e sua base material: a propriedade privada dos meios de produção”. “Os masistas (MAS) impostores enganam os camponeses fazendo-os marchar por uma Constituição que consolida o latifúndio”. “É a marcha do embuste e da traição às massas. O MAS não pôde ser fiel nem sequer àquilo que aprovaram em sua Constituinte. O destino político de Evo Morales e do MAS dependerá de quanto tempo levarão os camponeses e indígenas do país para descobrir a traição”. “Derrotaremos a impostura do MAS com a luta revolucionária dos explorados, sob a bandeira proletária por uma revolução social que acabe com a raiz do poder burguês e da opressão imperialista: a propriedade privada sobre os meios de produção”. “O governo operário-camponês, que a revolução instaurará, estabelecerá a propriedade social, que permitirá satisfazer as necessidades de conjunto da sociedade oprimida e não o interesse de uns poucos exploradores”1
1 Extraído do Jornal Massas nº 2104, de 24 de outubro de 2008,
órgão central do Partido Operário Revolucionário da Bolívia
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Cabe assinalar também que, em meio às negociatas entre governo e oposicionistas, a comissão da Unasul, que supostamente investigaria o massacre de camponeses de Pando, concluiu o que já era óbvio: não há provas para incriminar os assassinos burgueses. Portanto, os responsáveis continuarão sem rosto. O objetivo do folheto é o de compreender a política burguesa de Evo Morales, das direções sindicais e camponeses que apóiam o governo em detrimento da luta pelas reivindicações dos explorados, mostrar a capitulação das correntes de esquerda diante do governo do MAS e assinalar as posições críticas do POR-Bolívia e sua estratégia diante de um governo em crise. 27 de outubro de 2008

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Avança a crise política na Bolívia

Escrevíamos este artigo quando a crise política na Bolívia atingiu seu ponto mais alto. Fomos obrigados, inclusive, a acrescentar os fatos mais recentes e avaliá-los. Notamos que confirmaram ainda mais a linha de nossa análise. Uma crise de tal magnitude ganha importância para a classe operária internacional e para a maioria oprimida. Está em confronto um processo de lutas sociais que expressam a revolução e contra-revolução. Ou a classe operária e os camponeses pobres derrotarão a oligarquia burguesa, ou esta os esmagará. É no fogo dos acontecimentos mais brutais que verificamos a impossibilidade do governo Evo encarnar a revolução. As posições aqui expressas são de nossa responsabilidade, mas procuramos nos fundamentar na imprensa do Partido Operário Revolucionário da Bolívia (POR), Jornal Massas. Não se pode ter uma análise consistente e uma crítica sólida sem que se parta do processo histórico da formação dos partidos políticos na Bolívia e dos grandes acontecimentos da luta de classes, do qual o POR boliviano é parte constitutiva. Des-

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de antes da eleição de Evo, o Jornal Massas indicou que o MAS constituiria um governo incapaz de derrotar a oligarquia e o imperialismo, que seria de crise, débil frente à violência dos bandos fascistas da oligarquia e repressivo frente ao legítimo movimento das massas oprimidas. Nosso texto tem a função de não só criticar, mas, sobretudo, de defender a transformação da grande propriedade capitalista em propriedade coletiva. É no campo da propriedade e do poder do Estado que se decidirá a crise atual.

Radiografia das condições do país e chegada de Evo à presidência
A Bolívia é um país capitalista atrasado, de economia combinada (capitalista e pré-capitalista) e submetido à ordem imperialista. Teve sua história marcada pelo saque colonialista das riquezas minerais, adquiriu uma independência formal e se conformou num Estado republicano dependente das potências capitalistas e assentado numa débil democracia, correspondendo às relações econômicas existentes no país. Não pôde modificar sua condição na divisão internacional do trabalho de país exportador de matéria prima. Como reflexo dessa situação, estruturou-se uma burguesia (quase que inteiramente comercial) dependente do imperialismo e conformada por interesses oligárquicos distintos. Sequer a democracia republicana se estabilizou. Os golpes militares sangrentos (Hugo Bánzer, Garcia Meza etc) indicaram a fragilidade e a caricatura da democracia republicana. Depois de duas décadas de aplicação da política neoliberal, as conseqüências foram terríveis para o país e o povo, já empobrecido. As empresas estatais foram privatizadas, os recursos naturais entregues às multinacionais, as empresas mineradoras (como a Comibol) fechadas e as parcas conquistas trabalhistas e sociais foram pisoteadas. Em nome da “estabilidade da economia”, golpeou-se a mai8

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oria explorada por meio do desemprego massivo e do arrocho salarial. Mas a resistência dos trabalhadores foi intensa: greves, bloqueios, ocupações, constituição de cabildos (assembléias populares). É nesse quadro de miséria e de revolta dos oprimidos que ganharam força os movimentos camponeses e suas direções, entre elas a de Evo Morales. É preciso reconhecer que a base fundamental das revoltas foi constituída pelo campesinato e artesãos urbanos. A classe operária, nesse processo, não se destacou como a força principal das lutas. Destacou-se um levante geral no país nos dois anos que antecederam as eleições de 2005. A Bolívia foi sacudida por uma revolta popular que depôs o presidente Sanchez de Lozada – do MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário), que aplicou severamente as medidas neoliberiais. Eleito em 2002, na disputa com Evo Morales, impôs a decisão dos Estados Unidos de comprar o gás, que seria exportado pelo norte do Chile a preços irrisórios. A revolta dos camponeses, operários mineiros, professores, estudantes e oprimidos em geral ganhou projeção nacional. O ódio da maioria da população era a expressão do rechaço à entrega do gás ao país imperialista. O movimento ganhou força por meio da bandeira da nacionalização do gás e de derrubada do governo. A repressão militar foi violenta, com muitos mortos, mas os explorados insurretos tomaram a capital e bloquearam as principais rodovias e aeroportos. Não restou alternativa para Lozada senão desfazer o acordo de venda de gás aos Estados Unidos e aceitar as decisões da burguesia e da Igreja de renunciar, uma saída pacífica para deter o movimento dos oprimidos. O acordo de conter a ação das massas contou com a colaboração dos dirigentes camponeses, entre eles Evo Morales. A negociação que levou o vice-presidente Carlos Mesa à presidência foi uma tentativa da burguesia de retomar o controle do Estado, às custas do recuo do levante popular.
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Para isso, as direções sindicais e camponesas tiveram papel fundamental no estabelecimento do Acordo Nacional, uma frente burguesa para ajustar a Lei dos Hidrocarbonetos aos limites estabelecidos pelas empresas multinacionais. Mas as condições objetivas de miséria e saque das riquezas naturais ditaram novo ascenso do movimento de massa. Em janeiro de 2005, os protestos ganharam as ruas e os bloqueios voltaram com toda intensidade. A aprovação da Lei dos Hidrocarbonetos, que aumentou os impostos sobre a exploração do petróleo e do gás, provocou descontentamento generalizado, porque não assegurava o controle do Estado sobre a riqueza mineral, exigência do movimento social. A reivindicação de nacionalização do petróleo e do gás impulsionou a luta de classes e obrigou a renúncia de Mesa e sua substituição por Eduardo Rodríguez, homem de confiança dos Estados Unidos e indicado pela burguesia e a Igreja. Esse episódio também contou com o apoio de Evo Morales e sindicalistas. As promessas – calendário de eleições, convocação da Constituinte e rediscussão da Lei dos Hidrocarbonetos – foram usadas para refluir o movimento social. Evo deveria suspender os bloqueios e convencer os camponeses e direções sindicais e populares de que era preciso dar uma trégua para que Rodríguez pudesse cumprir o acordo. Rodriguez, contando com a trégua, convocou as eleições. É nesse quadro de refluxo do movimento dos explorados que Evo foi eleito com 53,7% dos votos, derrotando o candidato da oligarquia Jorge Quiroga Ramírez, do Poder Democrático e Social (Podemos), com o programa de reformas sociais e de nacionalização dos hidrocarbonetos. A revolta das massas exploradas que desbancou Lozada e Mesa foi desviada para o campo da democracia burguesia, eleição, constituinte e referendo. O programa do MAS de “uma revolução capitalista andi10

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na-amazônica democrática e pacífica” arrastou direções sindicais e populares, que se postaram entre a ação direta e a legalidade burguesa. As reivindicações que as massas empunhavam passaram a depender as instituições estatais e das forças políticas burguesas.

Política do governo MAS
Uma de suas primeiras medidas foi o decreto de maio de 2006, que instituía o controle acionário por parte do Estado sobre as empresas estrangeiras que exploravam o petróleo e o gás. Tratava-se de uma pretensa nacionalização sem tocar na propriedade das multinacionais, que barganharam a permanência no país em troca de alguns benefícios ao Estado. Logo se verificou que o programa de nacionalização do MAS não passava de constituir uma sociedade entre Estado e multinacionais. Outra decisão, anunciada em junho do mesmo ano, foi a da compra de terras e a distribuição entre as comunidades indígenas e camponeses sem-terra, bem como estabelecer constitucionalmente delimitação de área das propriedades. A isso se denominou “revolução agrária”. O governo declarou reconhecer o direito da propriedade capitalista, pretendendo apenas fazer uma redistribuição limitada que incorporasse uma parcela dos camponeses miseráveis. Com estas medidas que não violam a estrutura de relações econômicas capitalistas e com a pressão dos explorados, esperava-se alcançar um acordo com a oligarquia em torno da reforma constitucional e das novas regulamentações governamentais. Evidenciou-se, assim, que Evo Morales procurou, desde o início, conciliar os interesses da oposição burguesa (empresários e fazendeiros das localidades mais prósperas do país) e das multinacionais. O compromisso de combater o plantio da coca é uma exigência dos Estados Unidos, que dá ao governo Evo cerca de US$ 30 milhões por ano. Na realidade, o imperialismo
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utiliza a questão do narcotráfico para intervir na semicolônia. O maior consumidor de droga são os Estados Unidos. No entanto, aí nada é resolvido. O cultivo da coca aumentou (8% em 2006 e 5% em 2007). O direito de plantio de coca se assenta numa cultura milenar e cabe ao país decidir o que fazer com ela. Ocorre que Evo – ex-plantador de coca de Chapare -, pisa em corda bamba. Procura conciliar com os camponeses e com os Estados Unidos. Nos primeiros passos do governo, as dificuldades de centralização dos interesses da burguesia nacional e imperialista se manifestaram, embora Evo não ameaçasse a propriedade privada dos meios de produção e não demonstrasse intransigência em negociar o alcance das reformas pretendidas com os adversários. A oposição direitista intensificou o movimento pelas autonomias, por meio dos Comitês Cívicos, principalmente no pólo mais desenvolvido – a chamada “Meia Lua”: Santa Cruz, Pando, Tarija e Beni. O fato é que o MAS, nascido como partido camponês, propõe-se a executar reformas sem transformar a base do sistema econômico, que é capitalista. Por isso, o governo Evo foi moldado para implementar algumas medidas que amenizassem a pobreza extrema da maioria da população, que compareciam por meio das bandeiras de pão, trabalho. Mas as condições objetivas do país demonstram a inviabilidade de reformas sociais. A bandeira governista de transformação pacífica e democrática da Bolívia na busca da unidade de todos os bolivianos e no marco do respeito mútuo traduziu muito bem o caráter de classe do governo do MAS.

Dificuldades de governabilidade
Os setores identificados como oposição – empresários, latifundiários etc – travam uma luta intestina contra o governo com o objetivo de golpear Evo. Atuam por meio dos Comitês Cívicos da Meia Lua, desenvolvendo uma oposição
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radical direitista com características fascistas e racistas. Se levarmos em conta o caráter de classe do governo do MAS e as medidas tomadas, parece descabida a existência de uma oposição tão ferrenha. Ocorre que a oligarquia boliviana e o imperialismo não admitem que o governo estabeleça qualquer limitação aos seus negócios e à grande propriedade. A resistência burguesa da Meia Lua, com seu estatuto autonômico, objetiva desgastar e inviabilizar o governo reformista. A oligarquia de Santa Cruz, pilar da Meia Lua, aposta na impossibilidade de tais reformas impulsionarem o desenvolvimento capitalista e na fraqueza de um governo submetido às instituições da própria oligarquia, que é o Estado. As exigências de autonomia de parte do país expressam a debilidade da burguesia enquanto classe dominante, incapaz de expandir seu sistema econômico por todo o país. Da mesma forma, Evo/MAS não tem como constituir um vigoroso governo burguês que cumpra tarefas democráticas pendentes, próprias do país atrasado e semicolonial. O desenvolvimento capitalista desigual e combinado partilhou o país: de um lado, uma ilha de prosperidade (Meia Lua) e, de outro, um mar de miséria com predominância de comunidades índias, camponeses sem-terra e uma massa de desempregados e subempregados. O eixo econômico se concentrou na região oriental, favorecendo a agroindústria. Essa fração da burguesia se sente marginalizada de seu próprio Estado. O governo Evo/MAS não é seu representante orgânico e se arvora ser o fundador de uma nova Bolívia. As exigências de autonomias e as disputas em torno da Constituinte acirraram os choques entre o governo e a oposição direitista. Ambos procuram ganhar apoio das massas empobrecidas, provocando choques entre os miseráveis. O recente desfecho do referendo revogatório testemunha a crise política que se instalou no país. De um lado, os parti13

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dários de Evo que votaram pela sua permanência e, de outro, os que se aliaram à oposição reacionária. O resultado do plebiscito, cerca de 70% dos votos pelo SIM, foi a expressão de que a maioria não aceita ser governada pelos exploradores e que o mal menor era manter Evo. Certamente, o desfecho do referendo (que atingiu os governadores direitistas Reyes Villa e Paredes), o fracasso das últimas ações tomadas pelos Comitês Cívicos (bloqueio de estradas) e as discórdias entre os empresários de Cochabamba e os do Comitê Cívico do oriente deixaram os oposicionistas momentaneamente em situação mais difícil para levar a cabo seus intentos separatistas. A governabilidade de Evo, embora sob ameaça constante da oposição burguesa, dependerá em muito do avanço da crise econômica. Uma crise política dessa magnitude não desestabilizou o governo porque vem contando com os resultados positivos de sua balança comercial.

Explorados lutam por suas reivindicações
Assim que Evo chegou ao poder do Estado enfrentou um grave choque entre os mineiros de Huanuni, que travaram uma batalha cuja conseqüência foi a morte de dezenas de trabalhadores. De um lado, os cooperativistas, no afã de explorar as ricas jazidas minerais e, de outro, o proletariado mineiro na luta pelo emprego e pela preservação do patrimônio estatal. O governo procurou conciliar interesses opostos – propriedade estatal e formas de propriedades individuais (cooperativas). Ocorre que as cooperativas são controladas por capitalistas. No entanto, a brutal batalha compareceu como se fosse simplesmente de mineiros contra mineiros. A posição do governo acabou acobertando a real disputa e favoreceu a continuidade da exploração privada. Mostrou-se incapaz de se colocar do lado dos mineiros estatais e tomar medidas estatizantes. As medidas para reativar a Comibol foram insuficien14

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tes. Os recursos técnicos são obsoletos e as promessas de compra de novas máquinas e melhores condições de trabalho aos mineiros não se efetivaram. Ao invés de aproveitar a atual conjuntura dos preços internacionais para resolver os problemas estruturais da exploração das riquezas minerais, Evo se submeteu aos interesses das multinacionais, que atuam de maneira direta (como em São Cristóvão) e disfarçada (nas pequenas e médias empresas mineradoras). A tendência é de acirrar o choque entre governo e os trabalhadores. Em janeiro de 2007, os camponeses de Chapare e os trabalhadores do campo de Cochabamba iniciaram uma mobilização pela renúncia do governador Reyes Villa. Tratava-se de uma pressão para afastar a oposição direitista do controle político local, pela via dos métodos pacíficos. Mas o movimento se transformou com o apoio de setores radicalizados que, em poucos dias, caminhou para a tomada da sede do governo. A repressão policial sobre a multidão concentrada provocou fissuras no governo de Evo Morales. O movimento se ampliou e novas bandeiras foram assumidas, como a de derrotar a direita, acabar com o latifúndio, nacionalizar toda mineração e constituir os cabildos (assembléias populares). A oposição direitista organizada combateu as massas rebeldes, causando mortes e feridos. Diante dos rumos do movimento, os dirigentes pró-governo atuaram para impedir seu avanço. Ludibriaram as massas concentradas de que era preciso pôr fim aos bloqueios de estradas para a chegada de mais camponeses, que a luta pela derrubada da Reyes deveria continuar pela via pacífica, que a violência enfraquecia Evo e ajudava a direita, e outras falácias da mesma natureza. Apesar da enorme potencialidade da luta social, os camponeses não puderam romper com governo, fator essencial para o avanço da consciência de classe. Mas, por outro lado, expôs contradições de um governo que carrega o peso
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do campesinato e é obrigado a usar o aparato estatal para discipliná-lo. O movimento do Camiri (2008), que reivindicava uma verdadeira nacionalização dos hidrocarbonetos e a tomada de poços controlados por multinacionais, ganhou projeção e obrigou o governo a contê-lo. É nesses embates que o governo expõe suas debilidades e sua determinação em não afetar as relações de propriedade capitalista. No último período, as lutas dos explorados vêm se potenciando em função do aumento da inflação, da elevação dos preços dos produtos da cesta básica e do anúncio de reajuste nos preços das tarifas dos transportes. Esses elementos da conjuntura recente, resultantes das tendências de crise mundial, somados aos baixos salários que perderam seu poder de compra em mais de 80%, levaram a manifestações e greves. A revolta dos assalariados se avolumou com o decreto de Evo que modificou a Lei das Pensões, consolidando o sistema de capitalização individual. Esse processo social e político evidencia que na fase imperialista não se pode esperar o desenvolvimento capitalista integral da economia boliviana. O que implicaria solucionar tarefas democráticas próprias do país semicolonial. A burguesia já não pode cumpri-las sob o regime de produção dominado pelo capital financeiro e por um punhado de potências. Certamente, essa condição histórica não impede que emerjam governos apoiados nas tarefas democráticas e nas aspirações dos explorados, como é o caso de Evo. As experiências demonstram que tais governos se chocam com o grande capital, mostram-se impotentes diante dele, restringem ao máximo as tentativas reformistas, tornam-se caricaturas de governos populares e terminam se voltando contra a maioria explorada. Isso explica por que Evo não pode dar um passo em favor da superação da miséria. As reivindicações de emprego a todos, salário mínimo real, terra aos camponeses e garantia
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de conquistas sociais, entre elas uma Lei de Pensão (aposentadoria) inteiramente sustentada pelos patrões e pelo Estado têm sido rejeitadas e combatidas pelo governo. A tendência é aprofundar a crise econômica, que dá seus primeiros passos. Diante dela só há duas saídas: a de descarregar a crise sobre os trabalhadores, reduzindo os baixos salários, aumentando o trabalho precarizado e eliminado conquistas sociais, ou da luta dos explorados contra a burguesia, as multinacionais e seu governo.

Crise mundial ampliará a crise política
Nesses primeiros dois anos de governo, Evo teve a seu favor o crescimento econômico mundial, o aumento da receita com hidrocarbonetos, o que permitiu um superávit fiscal de 4,6% (2006) e o aumento de reservas de 3,9 bilhões de dólares. Isso lhe permitiu destinar recursos para o assistencialismo, fundamental para manter sob sua políticas as camadas empobrecidas. A concessão do bônus Juancito Pinto (2006), que dá 200 bolivianos para cada criança na idade escolar do 1º ao 5º ano, serviu de instrumento para ludibriar milhares de famílias no momento em que o governo estabelecia os contratos de exploração do gás e petróleo com as multinacionais. O bônus destinado aos idosos e o bônus de ajuda às famílias miseráveis da região de El Alto (periferia de La Paz) vieram no mesmo sentido. São medidas paliativas que não resolverão a pobreza dos milhões de bolivianos. Dados indicam que a taxa oficial de pessoas abaixo da linha da pobreza passou de 63% para quase 60%, o que demonstra que a pobreza continua imperando. A propaganda em torno desses índices, voltada a demonstrar que a pobreza está sendo combatida e que será gradualmente erradicada, não condiz com a realidade social da Bolívia. A vigência do assistencialismo de Evo dependerá das condições econômicas, das “negociações” que se estabelecem
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com as multinacionais e da pressão da oligarquia fascistizante sobre o governo. Tudo indica que o assistencialismo e as promessas de reformas terão fôlego curto. As recentes convulsões na economia dos Estados Unidos provocaram reações em cadeia por todo o mundo. A elevação dos preços dos alimentos em nível internacional foi o suficiente para que encarecessem os alimentos e a inflação se manifestasse. Seja uma recessão (diminuição do PIB) nos Estados Unidos, seja uma depressão econômica (alguns economistas falam em diminuição da produção em mais de 25%), suas conseqüências afetarão a Bolívia, que se empobrecerá ainda mais.

Agudização da crise
A Bolívia está sob violenta convulsão política e social. Os bloqueios de estradas, ocupação de repartições públicas, saques e mortes tomaram conta das regiões da Meia Lua. De um lado, a Oposição burguesa, sitiada em quatro departamentos (estados), Santa Cruz, Beni, Tarija e Pando; e, de outro, os partidários do governo. Evo Morales, que venceu o referendo com cerca de 67% dos votos, está em meio a um enorme conflito com os setores oposicionistas, que não aceitam o referendo de 7 de dezembro para legitimar a nova Constituição. A oposição, no momento da Constituinte, ativou um movimento pela autonomia em relação ao governo central. Promoveu um referendo, em 2007. O “Não”, defendido por Evo, venceu com 57,5% dos votos. Mas o “Sim” saiu vitorioso nos quatro departamentos da chamada “Meia Lua”. O pleito foi considerado ilegal por Evo. As discussões na Constituinte acirraram a crise política. A oposição não aceitou os critérios impostos pelos governistas, de maioria simples para aprovação das leis. Evo, por sua vez, legitimou a Carta Constitucional, sob protestos da ala da Meia
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Lua. Após o resultado favorável à sua governabilidade, consulta de 10 de agosto de 2008 (referendo), anunciou novo referendo a ser realizado em 7 de dezembro. O setor oposicionista desfechou um profunda ataque ao governo, utilizando métodos radicais, como os bloqueios, saques e destruição de repartições públicas nos departamentos que estão sob o comando dos Comitês Cívicos, em particular de Santa Cruz. Contesta o projeto de Constituição do governo, qualificando-o de “ditatorial” pelo fato de ter sido aprovado em um quartel. Critica a lei que imporá limites ao tamanho do latifúndio (5 mil ou 10 mil hectares). Reivindica a restituição do imposto sobre os recursos de petróleo e gás que foram repassados ao governo e denuncia que Evo irá utilizá-los no pagamento de pensão aos idosos. E exige maior autonomia a seus departamentos. O estatuto autonômico dá à região da Meia Lua maior controle sobre os lucros com as exportações das riquezas minerais. Em Tarija, concentram-se 85% das reservas de gás do país e há dois campos operados pela Petrobrás. Há uma propaganda da ala oposicionista de que a Constituição legitima o “socialismo indigenista” de Evo e, por isso, põe em risco a propriedade privada dos meios de produção e a iniciativa econômica da classe capitalista. Mas a realidade demonstra o inverso. O projeto de Constituição do governo não poderia se contrapor aos fundamentos do Estado, que é capitalista. Por isso, inicia defendendo todas as formas de propriedade privada – pequena, média e a grande. Faz considerações sobre a propriedade comunal, tradição milenar da população índia. Não há nenhuma lei ou artigo que imponha a expropriação da propriedade privada e a nacionalização da terra. O que existe é uma limitação ao tamanho da grande propriedade agrícola, que será submetida ao referendo. Ao impor limites à exploração e concentração da terra, acabou atingido os interesses dos fazendeiros da região da Meia Lua, exportadores de soja,
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gado etc. O que ocorre é o choque entre duas políticas: a da grande propriedade, da Meia Lua; e a de Evo, que procura manter a pequena propriedade. A consolidação do latifúndio depende da destruição das formas menores de propriedade, inclusive a comunal. Fato que vem ocorrendo na região de Santa Cruz e vizinhanças. Evo Morales, diante da interferência do embaixador dos Estados Unidos em favor da Oposição, deu um ultimato para que deixasse o país. Por sua vez, os Estados Unidos responderam com a mesma ação ao diplomata da Bolívia. Evo acusou a Oposição de conspirar contra o Estado, de ser golpista. O venezuelano Hugo Chavez – aliado de Evo, tratou de responder com as mesmas armas, expulsando o embaixador norte-americano de seu país e se colocando em favor da proteção militar à governabilidade de Evo. Frente a esses acontecimentos, em um primeiro momento, o presidente boliviano recusou a interferências de outros países. Procurou conter a onda de violência, anunciou a disposição ao diálogo com quatro governadores da Meia Lua. Chegou a dizer que estava autorizado “pelos movimentos sociais” a modificar o projeto de autonomia previsto na Constituição e outros aspectos, a exemplo da restituição do imposto sobre os hidrocarbonetos. Evo decretou o estado de sítio em Pando em função da brutal violência dos bandos contratados pela oposição, que já mataram 30 índios. As denúncias comprovam a formação de bandos fascistas pagos com o dinheiro da oligarquia para executar índios e população pobre. Os acontecimentos de Santa Cruz expõem o ódio racista da oligarquia branca contra os índios. No artigo Índios se enfrentam em reduto evista”, o enviado do jornal Folha de São Paulo a Santa Cruz transcreve a seguinte idéia de Andrés Gómez, um editor que defende as posições da Meia Lua: “São gente horrorosa. As collas (índias) fazem cocô nas ruas e se limpam nas próprias saias. O cheiro é horrível. É um povo de
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não-cristãos. Não compartilham conosco os valores ocidentais e o amor ao capitalismo”. Continua Carlos Ortiz Cizendo, adolescente pobre, de cor escura e que se diz “camba”, que recebe R$ 40,00 por noite para defender os oligarcas de Santa Cruz: “Sou católico, uso banheiro, sou limpo e ocidental”. Os bandos racistas e fascistas estão a serviço dos capitalistas para invadir, atear fogo e eliminar os moradores das favelas. O Plán 3000 é a maior favela de Santa Cruz e é vitima diária da ação criminosa desses bandos. Mesmo que venha a ocorrer a suspensão da ação dos fascistas da Meia Lua e que Evo se coloque pelas mudanças constitucionais exigidas pela oligarquia, não haverá a erradicação dos conflitos entre a classe dos poderosos e a maioria oprimida. A oligarquia não consegue arregimentar a população pela via do convencimento ideológico e está obrigada a usar os métodos fascistas. Os bandos armados e pagos constituídos de jovens e pobres expressam tais métodos. A oligarquia instrumentaliza e financia os bandos para praticarem a violência reacionária contra a população indígena e demais miseráveis que apóiam o governo Evo. Nada tem a ver com a luta de classe, que é a materialização da violência revolucionária da maioria oprimida contra a minoria exploradora e tem como essência a tarefa de transformar da propriedade privada dos meios de produção em propriedade coletiva.

Intervencionismo externo
Frente ao agravamento da crise, armou-se a reunião da União Sul-Americana (Unasul), organização recém-constituída, para a burguesia sulamericana intervir como se fosse neutra. Na realidade, pretendeu-se utilizar a chamada mediação para obrigar Evo Morales a fazer concessões aos governadores da Meia Lua. Os atos de sabotagem à economia e a violência reacionária desfechada por bandos acuaram o governo do MAS.
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Avança a crise na Bolívia: Evo se mostra incapaz de enfrentar a direita

Dessa forma, a atuação da Unasul foi uma vitória da reação. Evo participou acatando determinadas condições impostas pelos governos que compõem a Unasul, entre eles estava presente com exigências o presidente da Colômbia, porta-voz dos Estados Unidos. O Jornal espanhol El Pais intitulou sua matéria Lula toma as rédeas da crise boliviana. Relata que “Lula pôs algumas condições para viajar a Santiago e as conseguiu”. Eis o relato: “Pediu uma trégua prévia entre Morales e a Oposição, o que ocorreu. Exigiu aceitação expressa de La Paz para que ele intercedesse na crise, e a obteve. Além disso, os rivais de Morales celebraram a mediação brasileira, apesar de Lula os ter reprovado por utilizarem a violência para desafiar o governo. Brasília também pretende que a cúpula conclua com uma clara mensagem contra toda ingerência externa na Bolívia e que não haja comentários acima do tom contra os Estados Unidos” (16/8/2008) Está claro que Evo foi arrastado a Unasul por pressão interna dos opositores e externa da burguesia sulamericana, particularmente a brasileira. Por cima de tudo estão os Estados Unidos. A única forma de derrotar a oligarquia fascista e racista é a revolução social, que por seu caráter tem de ser proletária e se assentar na aliança operária e camponesa. Como o governo Evo está comprometido com a preservação da propriedade capitalista, tem de se sujeitar à via que a burguesia internacional ditar; caso contrário, terá seus dias contados. O imperialismo e seus lacaios da Unasul deram um ultimato no sentido de disciplinar o caos político e social. Ao contrário, poderão potenciar a Oposição fascista e isolar o governo do MAS. A exigência de Lula de que não haja “ingerência externa” e que não se ataque os Estados Unidos está dirigida não só a Evo, como também a Hugo Chávez. O intervencionismo dos governos sulamericanos tem por essência evitar que a crise leve as massas oprimidas a ultrapassarem os limites
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do controle do MAS, assumirem o programa da luta antiimperialista e anticapitalista. Tanto a Oposição fascista quanto o governo reformista de Evo sabem que este é o grande problema da divisão interburguesa.

A chave da solução se encontra na classe operária
O governo Evo está mergulhado numa profunda crise política. Tudo indica que não terá como derrotar a oposição oligárquica e a ação do imperialismo. O referendo, por si só, não deu ao governo uma supremacia que liquidasse a capacidade de combate da oposição. A rejeição a um pacto e a retomada do movimento de sabotagem alimentam as contradições no seio do Estado. Que desfecho poderá ter a crise? Enquanto as massas estiverem sob a direção pequeno-burguesa do MAS, a crise política se arrastará por mais ou menos tempo, dependendo do desenvolvimento da crise econômica, mas seu desfecho fatalmente será a favor da oligarquia. A divisão interburguesa sofre pressão do imperialismo e de governos como o do Brasil, Venezuela etc. no sentido de um acordo. Esta saída é a desejada pelo governo do MAS. Para isso, é preciso um grande recuo de Evo, que por sua vez se vê amarrado às pressões do campesinato. O governo não pode se indispor com sua base de apoio. A oposição direitista tem em conta essa situação e trabalha pelo esgotamento do governo, de forma que possa derrubá-lo pela via golpista ou removê-lo pelo recurso eleitoral. A probabilidade de Evo abrir uma nova etapa de desenvolvimento econômico e social da Bolívia, que garantiria um certo período de estabilidade, é nula. O que está colocado para as massas oprimidas é uma mudança da política de classe. Há que se constituir uma aliança operária e camponesa, sob um programa de transformação da grande propriedade dos meios de produção
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Avança a crise na Bolívia: Evo se mostra incapaz de enfrentar a direita

em propriedade social e emancipação do país do jugo imperialista. A chave da solução está na classe operária tomar a frente da luta contra a oposição oligárquica e o capital internacional, independizar-se do governo do MAS e combater pela conquista do Estado. Essa possibilidade existe devido à presença do Partido Operário Revolucionário (POR), que tem uma longa existência e encarna o programa da revolução social. Não só o MAS é um obstáculo para a transformação estrutural de que a Bolívia necessita. A direção da Central Operária Boliviana (COB) tem desviado as reivindicações e objetivos da classe operária para a sustentação da governabilidade e da caricatura da democracia burguesa. Dois fatos testemunham bem a política da direção da COB. Em 2005, diante da crise instalada, o MAS se colocou por novas eleições determinadas pelo presidente da Suprema Corte e convocação da Constituinte. A direção da COB, da mesma forma, sufocou o movimento de massa em nome das eleições. Era sabido que as eleições e constituinte serviriam para preservar o poder do Estado nas mãos da classe dominante e conter o ódio do povo oprimido. Em 2008, o MAS impôs a Lei das Pensões, cujo conteúdo central é a capitalização individual. O país se convulsionou por meio da greve dos mineiros e professores. A resistência dos trabalhadores e a violenta repressão do governo ocasionaram a morte de 2 mineiros e quase uma centena de feridos. Quando a luta estava no seu auge de radicalização, a COB aceitou a trégua em nome do referendo de Evo. E como parte do acordo, o dirigente da COB, Pedro Montes, concordou em dar um prazo de 45 dias para elaborar um nova Lei de Pensões. O objetivo foi claro: desmontar as mobilizações. É evidente que, da negociação de cúpula, não saírá nenhuma Lei de Pensão em favor dos interesses dos trabalhadores. Concretamente, o governo Evo demitiu de seus cargos os professores da região de Cocha24

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bamba, líderes da greve geral e dos bloqueios, decretados pela COB. No governo Evo, não há direitos elementares como o de se manifestar pela greve, o que a repressão ao movimento dos mineiros e professores comprovam. A severidade do governo contra os grevistas ganha relevo diante da complacência de Evo em relação aos opositores, que chega ao ponto de impedi-lo de pisar os pés nos estados conflagrados. A direção da COB acoberta sua política de conciliação com o governo repressor e manobra os trabalhadores para conter a radicalização. Reafirmamos que a situação política na Bolívia, durante o governo Evo, caracterizou-se pela presença dos mineiros, camponeses, professores, estudantes e demais oprimidos nas ruas, nas greves e nos bloqueios. O que se choca com o governo que promete reformas populares e esbarra nos diques montados pelas direções. A classe operária é extremamente reduzida, concentrada no setor mineiro, não pôde ainda comparecer como força aglutinadora da luta pelas reivindicações e de resistência às medidas de Evo. A maioria da população é camponesa. O campesinato, pelo lugar que ocupa nas relações de produção, não é o dirigente do programa da expropriação dos meios de produção e da implantação da propriedade coletiva. Não há outra via para tirar a Bolívia do atraso e da submissão imperialista senão pela luta revolucionária. Essa tem sido a tese do Partido Operário Revolucionário da Bolívia.

Fontes utilizadas
• Jornais: O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e El País – artigos sobre a crise atual na Bolívia • Jornais Massas, imprensa do Partido Operário Revolucionário da Bolívia, nºs 2084, 2085, 2090, 2092, 2095, 2096, 2097, 2098 e 2099 Folhetos editados pelo Jornal Massas, Brasil
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• As lições da luta revolucionária na Bolívia -2003 • A situação da Bolívia em 2005 • O governo do MAS e a nacionalização dos hidrocarbonetos Documento: As tarefas do POR na conjuntura atual: balanço e perspectivas • LORA, Guilhermo. Obras Completas, ediciones Massas, La Paz, Bolívia, 2002

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Artigos do Massas brasileiro sobre a crise na Bolívia

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Massas 362 Referendo na Bolívia Posição do POR boliviano trotskista e das esquerdas que se dizem trotskistas

O Partido Operário Revolucionário da Bolívia (POR) caracterizou, desde o início, o governo Evo/MAS como burguês e incapaz de enfrentar as multinacionais. Criticou a farsa das nacionalizações e de sua política de reformas. Dizia que o governo do MAS faz todos os esforços para conseguir se “associar” com as multinacionais e, com isso, continua entregando os recursos naturais do país ao capital imperialista. Denunciou a conduta de Evo de querer dar a impressão de que executa um processo de mudança estrutural, quando na verdade não toca no regime de propriedade dos meios de produção. Levantou a bandeira de rechaço à manobra eleitoral, aos estatutos separatistas da direita e à Constituição reformista burguesa do MAS.

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Chamou os explorados a não acreditar na Constituição ou nos estatutos (leis), porque não mudarão a realidade econômica e social do país. Dizia assim: “A lei do voto, em última instância, a “democracia”, que na Bolívia não existe, nunca solucionou nada e as leis servem unicamente para as classes dominantes, nunca para os pobres”. Denunciou o plano conspirativo da burguesia fascista e racista, que atua por meios dos Comitês Cívicos e dos governadores da “Meia Lua”, que usam os argumentos das autonomias, para tentar derrubar o governo. Mostrou o desespero de Evo para conseguir um acordo com os governadores, sobre a base do respeito à propriedade privada, à legalidade e à democracia burguesas, chegando ao ponto de se dispor a compatibilizar o Projeto de Constituição aprovado na Constituinte com os Estatutos Autonômicos feitos pelas oligarquias regionais, vinculadas aos interesses do imperialismo. Denunciou que a disposição de Evo ao diálogo com os governadores direitistas a confirmava a posição porista de que o governo masista é burguês pela política que desenvolve, entre ele a oposição direitista não existem discrepâncias de fundo, são irmãos de sangue, defensores do sistema de exploração e opressão capitalistas. Afirmava, em fevereiro de 2008, que estava aberta a possibilidade de um acordo entre os aparentemente irreconciliáveis inimigos: o governo e a burguesia nativa da região oriental da Bolívia. E conclamava os explorados a esmagar a direita fascista e passar por cima dos lacaios reformistas do MAS, para materializar a revolução social, que acabe com o poder da burguesia e das multinacionais eliminado a propriedade privada sobre os meios de produção e instaurando a propriedade social. O POR realizou uma campanha contra o Referendo Revogatório. Ergueu a bandeira: “Com a Revolução Social ganharemos! Com a democracia dos ricos sempre
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perderemos!. Propagandeou de que a política de diálogos e referendos é a política da incapacidade para esmagar a burguesia entreguista. Dizia que o caminho da derrota são os referendos, constituintes, diálogos, enfim tudo o que significa a “revolução pacífica na democracia”. E que para liquidar a Meia Lua fascista e toda burguesia entreguista e expulsar o imperialismo é preciso organizar-se, armar-se para fazer a revolução social, para impor o governo operário camponês. Repetiu, insistentemente, que o reformismo de Evo/MAS, está condenado ao fracasso, ou será engolido pela direita, ou ele mesmo terá de se direitizar, para preservar a integridade da ordem social burguesa. Coerente com o programa revolucionário, o POR foi categórico ao não apoiar o governo Evo no referendo. Ao contrário, ampliar a luta direta pelas reivindicações das massas exploradas e pelo fim do regime burguês.

A CUT/PT arrastou a Corrente O Trabalho
A burocracia da CUT, em sua 12ª Plenária Nacional, convidou a cônsul geral da Bolívia, Shirley Orozco, para se solidarizar com o governo de Evo Morales. A consulesa enalteceu o assistencialismo de Evo e conclamou a solidariedade para “isolar os golpistas e fascistas”. O resultado foi a realização de um ato, dias antes do referendo. A Corrente O Trabalho tomou a frente e cravou suas tintas na defesa de Evo/MAS. O Trabalho, que se reivindica do trotkysmo, vinculada internacionalmente às posições do falecido Pierre Lambert, causa asco em qualquer militante classista com sua adesão à burocracia petista, que se posta em defesa de um governo que autoriza a polícia a atacar mineiros, camponeses e professores em luta.

O PSTU e o Referendo
O PSTU, em seu jornal Opinião Socialista, de nº 347,
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criticou organizações (citou a CSUTCB, Fejuve, COR-El Alto, Federação Bartolinas etc) e partidos de esquerda (citou o Partido Comunista) que saíram em apoio ao governo Evo. Dizia assim: “Esta posição nos parece errada, porque não se propõe a enxergar o que vai ocorrer após 10 de agosto, não denuncia a intenção do governo de voltar a negociar com a direita e não propõe nenhuma exigência ao governo... “. O leitor poderia concluir que o PSTU era contra o apoio a Evo no referendo. Mas logo vê que está sendo enganado. Eis a conclusão: “ Não estamos com o Não a Evo proposto pela oligarquia. Também não estamos em prol do voto em branco ... porque significa não se pronunciar nesta batalha contra a direita, na prática acaba sendo um apoio silencioso a ela”. E termina assim: “Chamamos os operários, os camponeses e a juventude a revogar os prefeitos, porque não melhoraram as condições de vida dos trabalhadores e o povo de suas províncias, e dar um voto crítico a Evo”. Quem não conhece e vive na prática a política centrista do PSTU, acha que está diante de uma corrente confusa ou que não sabe o que está falando. Ataca o Evo, diz que voltará a negociar com a direita, critica as correntes que apóia o Sim sem fazer exigências e acaba se juntando a eles com o argumento de que é preciso derrotar a direita. Que exigência se pode fazer a um governo que já se mostrou mais do que suficientemente ser incapaz de combater a direita burguesa, o imperialismo e que, por isso, convoca os adversários dos camponeses, das nacionalidades índias e dos operários ao diálogo, à negociação e constituir um pacto? Qualquer exigência a Evo para justificar apoio a seu governo não passa de uma grosseira manobra. O argumento mais significativo é o de que votando em Evo se pretende derrotar a direita. No entanto, também nesse caso estamos diante de uma falsa formulação. Não se derrotará a direita pelo referendo; não se derrotará os governadores da Meia
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Avança a crise na Bolívia: Evo se mostra incapaz de enfrentar a direita

Lua mantendo um governo disposto ao diálogo; não se derrotará os inimigos dos explorados fazendo exigência ao governo Evo e se arrastando atrás de sua política de referendos.

PO da Argentina chama a votar em Evo
O POR boliviano denunciou o Agrupamento Marxista Revolucionário, dirigido politicamente pelo Partido Obrero da Argentina, e as conferências realizadas por Coggiola e Rath, ligados ao PO, de se enfileirarem por detrás de Evo. Eis aqui: “Na Bolívia, dizem, as massas não superaram Evo, então há que se colocar ao nível delas e chamar a votar em Evo”. Não bastando isso, os seguidores de PO, apresentaram uma plataforma pequeno burguesa nacionalista. Entre os pontos está a defesa de uma “Nova Constituição e nova Constituinte, convocada pelas organizações operárias e camponesas”. Estamos diante de um apoio em que se faz exigências ao governo Evo. Exigências que o PSTU consideram como necessárias para se votar no Sim. Certamente, o PSTU poderia apresentar outro tipo de exigências e até criticar as do PO. Ocorre que o apoio ao referendo constitui uma posição oportunista frente a um governo que se sujeita às condições políticas ditadas pela direita e pelo imperialismo. Não se derrotará a reação fascista por essa via e sustentando um governo que ataca as greves e os bloqueios com a polícia e o exército.

Evo saiu vitorioso. E agora?
O MAS sabia que a possibilidade de derrota seria mínima. O referendo, que foi um desafio dos governadores da Meia Lua lançado a Evo, serviu de instrumento para o MAS mostrar que o melhor caminho para superar a divisão interburguesa era o diálogo. No fundo, para o governo, quem votou no Sim estava votando pela solução democrática do
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conflito. O que é a solução democrática? É um reordenamento das forças burguesas em choque por meio das instituições do Estado. As massas foram enganadas com a propaganda de que estaria votando contra os fascistas e os racistas de Santa Cruz, Tarija etc. Se se quer derrotar um movimento fascistizante, golpista e divisionista do país, é necessário organizar as massas oprimidas, com seus próprios métodos, e armá-las contra a violência reacionária da direita. É exemplar o fato dos governadores e seus bandos impedirem Evo de realizar simples discursos eleitorais em seus estados. Esse ato de força ocorreu justamente no momento em que Evo estava agarrado nas ilusões do SIM e do NÃO. O governo se mostrou acovardado. Terminado o pleito com sua vitória, Evo convocou os inimigos que o enxotaram de seus estados a compor uma negociação. Está claro que as massas famintas que enfrentam os exploradores não votaram pelo SIM para que o governo dê às mãos àqueles que querem derrubá-lo. As correntes de esquerda – PO, O Trabalho, PSTU – que se lançaram pelo SIM obscureceram o sentido fundamental do referendo: reconstituir a unidade burguesa contra a maioria oprimida. Alerta: são essas correntes ditas trotskistas que difamam o POR boliviano com a pecha de nacionalista.

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Massas 363 PSTU e a Bolívia

“Opinião Socialista”, edição 349, publicou o artigo “Referendo Confirmou Evo Morales e os Prefeitos da Meia Lua”, assinado por Nericilda Rocha, de La Paz, quando os votos ainda estavam sendo contados. Mas já estava clara a vitória de Evo e dos prefeitos da Meia Lua de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando, bem como a derrota dos prefeitos de La Paz e Cochabamba. Por isso, o artigo de Nericilda é uma espécie de balanço do significado político. Refere-se à possibilidade dos mineiros voltarem à luta, ocorrida em pleno referendo, por suas reivindicações; e a uma possível frustração dos camponeses que apóiam Evo. O que virá depois do referendo, além dessa possibilidade? Diz o artigo: “É que, passado o referendo, novamente Evo e toda cúpula de seu partido retomam com força a velha toada da necessidade de um pacto com a direita como única forma de pacificar o país”. Não era preciso passar o referendo para se ter essa previsão. O “Sim” e o “Não” foi um jogo bem calculado pelo go34

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verno do MAS, justamente para demonstrar força institucional e acenar para a direita golpista da Meia Lua que era preciso um acordo de pacificação. Assim ocorreu uma reunião entre o governo e a oposição, que fracassou e mostrou que a votação não modificou o conflito no seio de Estado burguês. O pacto pretendido se daria em torno da aprovação da nova Constituição. A Meia Lula rejeitou um acordo e Evo convocou um novo referendo para decidir sobre a Carta Magna, previsto para dezembro. São acontecimentos recentes que indicam a vontade do governo massista de alcançar um pacto e a rejeição dos governadores autonomistas. O referendo não soldou as rachaduras no seio da política burguesa, aspiração conciliadora que dependia do MAS aceitar as imposições da oligarquia. Essa possibilidade estava clara há muito tempo, havendo ou não referendo de confirmação de Evo no poder. Em todo instante, o governo procurou aproximação com os governadores. Não deu certo porque a direita está convencida de que não deve compactuar com um governo que acredita ser possível, no âmbito do capitalismo, dar autonomia às nacionalidade índias, impor alguma restrição ao tamanho do latifúndio e transformar o Estado em sócio das multinacionais do petróleo e gás. Mesmo deixando completamente claro que a grande propriedade capitalista está assegurada e que o que se pretende é implantar algumas medidas limitadas que imitem uma reforma, a fração oligárquica da burguesia boliviana e o imperialismo não aceitam. Como o governo se mostrou comprometido com a manutenção do capitalismo e age como obstáculo à revolução proletária, e como a fração oligárquica não reuniu forças suficientes para se desfazer do débil governo, sem ter de enfrentar imediatamente um levante revolucionário de operários e camponeses, a oposi35

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ção mantém sua trincheira, desgasta Evo e aguarda as condições para retomar o poder. Por que adiantamos essa explicação? Por que “Opinião Socialista”, com a maior candura, omite que o PSTU chamou o voto em Evo, participou do jogo entre o MAS e a Meia Lua e, depois de que tudo permaneceu como estava, fez a luminosa previsão de que Evo iria utilizar o Sim para chamar a direita a um pacto nacional. Nericilda deveria explicar o significado do voto do PSTU no governo do MAS. No “Opinião Socialista” anterior, n. 347, comentado criticamente por nós no Massas 362, o PSTU fixa a posição: “Chamamos os operários, os camponeses e a juventude a revogar os prefeitos (governadores), porque não melhoraram as condições de vida dos trabalhadores e o povo de suas províncias, e dar um voto crítico a Evo”. Não encontramos uma só linha no balanço do PSTU sobre o referendo que avalie o acerto ou erro desta posição. Nericilda apresenta sua previsão como se fosse uma possibilidade a ser conhecida somente depois do referendo. Diz o artigo: “Às vésperas do referendo revogatório de 10 de agosto, a Bolívia fervia com a greve dos mineiros que exigia o fim do sistema neoliberal de aposentadoria e uma nova lei mais justa”. E conclui (...), “mas foram duramente reprimidos pela polícia de Evo Morales”. Ora, como o PSTU explica seu voto em Evo, quando os operários estavam sendo golpeados pelo governo, cuja repressão acaba por servir à posição reacionária da Meia Lua? Ao avaliar as tendências de luta após o referendo, Nerecilda afirma:“As direções são decisivas para isso, principalmente a COB, que recentemente resolveu voltar a dar uma trégua de 45 dias ao governo, depois de dois mineiros mortos pela repressão de Evo”. Há, na afirmação, uma branda e disfarçada censura à COB. A redatora está obrigada a se referir à trégua e ao mesmo tempo limitá-la à simples constatação. Por que não
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se vai ao fundo do significado da trégua? Ocorre que o PSTU tem trabalhado pela constituição do Elac (Encontro Latino-Americano de Trabalhadores). A presença da COB dá-lhe um peso, importante para a política de aparatos dos centristas, que encabeçam a divisão da CUT e se empenham em constituir uma nova central, a Conlutas. Eis o que diz Eduardo Almeida, no Opinião Socialista 342, por ocasião da realização do 1º Cogresso da Conlutas e do Elac: “Só a presença das entidades que convocam o encontro já indica seu caráter amplo. A COB é, talvez, a central sindical de maior tradição em toda América Latina”. Está claro o exitismo do PSTU. Almeida se esquece de dizer que a “maior tradição” da COB tem sido pisoteada e manchada com as traições da burocracia sindical, na qual a presença do estalinismo é marcante. Nem bem a Elac foi cantada como um encontro que aprovou um plano de luta para a América Latina, a burocracia da COB decretou uma trégua ao governo repressor e assassino de operários mineiros. A presença da COB no Elac dá prestígio ao objetivo do PSTU de formar um aparato próprio com a Conlutas. Por essa razão, o PSTU não reconhece que a COB está sob o comando de uma burocracia corrompida e colaboracionista. Burocracia que apóia Evo Morales, que defendeu o Sim, que fechou os olhos frente à responsabilidade do governo pela repressão aos mineiros. O PSTU convive com a burocracia traidora da COB e a embeleza no Elac. Não poderia, portanto, dizer toda a verdade sobre ela, atacá-la e expulsá-la imediatamente do Elac. No momento exato da repressão aos operários, eis o que diz o Partido Operário Revolucionário da Bolívia: “Repressão contra os mineiros de Ksihuasi, para levantar o bloqueio, deixou um morto e vários feridos. Viva a luta independente dos trabalhadores! Abaixo o circo demo37

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crático-burguês do referendo revogatório” Está ai a posição marxista-leninista-trotskista do POR, completamente antagônica à do PSTU, que esconde o papel traidor e contra-revolucionário da burocracia da COB.

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Massas 364 Bolívia: Intervencionismo externo Lula pressionou Evo a ceder

Diante do agravamento da crise na Bolívia, a burguesia sul-americana interveio. Para isso, armou-se a reunião da União Sul-Americana (Unasul). O objetivo foi o de utilizar a chamada mediação para obrigar Evo Morales a fazer concessões aos governadores da Meia Lua. O imperialismo e seus lacaios da Unasul deram um ultimato no sentido de disciplinar o caos político e social. Lula coordenou a reunião e conduziu a Unasul a rejeitar toda e qualquer qualificação do movimento da oposição direitista de “golpe de Estado civil”. Aceitou a exigência de Evo de criar uma comissão para investigar os “incidentes” (massacre de 30 camponeses) em Pando. Usou da velha demagogia ao se dirigir a Evo: “Você tem de nos dizer, porque ninguém aqui vai interferir na crise interna da Bolívia”. Em

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seguida, foi categórico: “Cabe ao Estado constituído induzir ao diálogo”. Os atos de sabotagem à economia e a violência reacionária desfechada por bandos acuaram o governo do MAS. Dessa forma, a atuação da Unasul foi uma vitória da reação. Evo participou acatando determinadas condições impostas pelos governos que compõem a Unasul, entre eles estava presente com exigências o presidente da Colômbia, porta-voz dos Estados Unidos. O Jornal espanhol El Pais intitulou sua matéria Lula toma as rédeas da crise boliviana. Relata que “Lula pôs algumas condições para viajar a Santiago e as conseguiu”. Eis o relato: “Pediu uma trégua prévia entre Morales e a Oposição, o que ocorreu. Exigiu aceitação expressa de La Paz para que ele intercedesse na crise, e a obteve. Além disso, os rivais de Morales celebraram a mediação brasileira, apesar de Lula os ter reprovado por utilizarem a violência para desafiar o governo. Brasília também pretende que a cúpula conclua com uma clara mensagem contra toda ingerência externa na Bolívia e que não haja comentários acima do tom contra os Estados Unidos” (16/8/2008) Evo foi arrastado a Unasul por pressão interna dos opositores e externa da burguesia sul-americana, particularmente a brasileira. Por cima de tudo estão os Estados Unidos. A única forma de derrotar a oligarquia fascista e racista é a revolução social, que por seu caráter tem de ser proletária e se assentar na aliança operária e camponesa. Como o governo Evo está comprometido com a preservação da propriedade capitalista, tem de se sujeitar à via que a burguesia internacional ditar. A exigência de Lula de que não haja “ingerência externa” e que não se ataquem os Estados Unidos estava dirigida não só a Evo, como também a Hugo Chávez. O intervencionismo dos governos sul-americanos tem por essência evitar que a crise leve as massas oprimidas a ultrapassarem
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os limites do controle do MAS, assumirem o programa da luta antiimperialista e anticapitalista. Tanto a Oposição fascista quanto o governo reformista de Evo sabem que este é o grande problema da divisão interburguesa.

Evo recua e a Oposição dita as regras
A abertura do diálogo significa que o governo terá de fazer concessões à Oposição assassina. Evo nunca foi refratário ao “diálogo” (às concessões) com os oposicionistas. Quem se manteve intransigente foi a oligarquia, comandada pelos governadores da Meia Lua, que usaram as ameaças, as sabotagens, a suspensão de alimentos à região do altiplano, o desabastecimento de gás de cozinha, as invasões por bandos contratados às sedes das organizações indígenas etc para golpear o governo. Evo acreditou que a aprovação de seu governo (referendo) por 67,4% da população se garantisse poder sobre a Oposição, mas o contrário se deu. A Oposição desfechou a violência fascista, criando mais uma das enormes crises pela qual atravessou a Bolívia. A Oposição fez nova gritaria contra Evo, quando da prisão do governador de Pando, Leopoldo Fernández, mandante do massacre dos camponeses. O Supremo Tribunal exigiu que Evo coloque fim ao “estado de sítio” em Pando, em um claro apoio aos governadores de Meia de Lua. Para a Oposição direitista, um acordo pressupõe incluir medidas na Constituição que garantam o cumprimento do Estatuto Autonômico, a devolução da porcentagem do imposto sobre os hidrocarbonetos e exigem mais tempo para encaminhar a convocação do referendo da nova Constituição, anunciado por Evo para 7 de dezembro. Na realidade, os conflitos interburgueses (governo e Oposição) estão longe de serem resolvidos, mesmo que Evo capitule plenamente diante de seus opositores. O que confirma as posições do Partido Operário Revolucionário da
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Bolívia (POR) do fracasso do governo reformista de Evo.

A solução se encontra na classe operária
O governo Evo está mergulhado numa profunda crise política. Que desfecho poderá ter a crise? Enquanto as massas estiverem sob a direção pequeno-burguesa do MAS, a crise política se arrastará por mais ou menos tempo, dependendo do desenvolvimento da crise econômica, mas seu desfecho fatalmente será a favor da oligarquia. A divisão interburguesa sofre pressão do imperialismo e de governos como o do Brasil, Venezuela etc. no sentido de um acordo. Esta saída é a desejada pelo governo do MAS. Para isso, é preciso um grande recuo de Evo, que por sua vez se vê amarrado às pressões do campesinato. A oposição direitista tem em conta essa situação e trabalha pelo esgotamento do governo, de forma que possa derrubá-lo pela via golpista ou removê-lo pelo recurso eleitoral. A probabilidade de Evo abrir uma nova etapa de desenvolvimento econômico e social da Bolívia, que garantiria um certo período de estabilidade, é nula. O que está colocado para as massas oprimidas é uma mudança da política de classe. Há que se constituir uma aliança operária e camponesa, sob um programa de transformação da grande propriedade dos meios de produção em propriedade social e emancipação do país do jugo imperialista. A solução está na classe operária tomar a frente da luta contra a oposição oligárquica e o capital internacional, independizar-se do governo do MAS e combater pela conquista do Estado. Essa possibilidade existe devido à presença do POR, que tem uma longa existência e encarna o programa da revolução social. Não só o MAS é um obstáculo para a transformação estrutural de que a Bolívia necessita. A direção da Central Operária Boliviana (COB) tem desviado as reivindicações e objetivos da classe operária para a sustentação da gover42

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nabilidade e da caricatura da democracia burguesa. Dois fatos testemunham bem a política da direção da COB. Em 2005, diante da crise instalada, o MAS se colocou por novas eleições determinadas pelo presidente da Suprema Corte e convocação da Constituinte. A direção da COB, da mesma forma, sufocou o movimento de massa em nome das eleições. Era sabido que as eleições e constituinte serviriam para preservar o poder do Estado nas mãos da classe dominante e conter o ódio do povo oprimido. Em 2008, o MAS impôs a Lei das Pensões, cujo conteúdo central é a capitalização individual. O país se convulsionou por meio da greve dos mineiros e professores. A resistência dos trabalhadores e a violenta repressão do governo ocasionaram a morte de 2 mineiros e quase uma centena de feridos. Quando a luta estava no seu auge de radicalização, a COB aceitou a trégua em nome do referendo de Evo. E como parte do acordo, o dirigente da COB, Pedro Montes, concordou em dar um prazo de 45 dias para elaborar um nova Lei de Pensões. O objetivo foi claro: desmontar as mobilizações. A direção da COB acoberta sua política de conciliação com o governo repressor e manobra os trabalhadores para conter a radicalização. A classe operária é extremamente reduzida, concentrada no setor mineiro, não pôde ainda comparecer como força aglutinadora da luta pelas reivindicações e de resistência às medidas de Evo. A maioria da população é camponesa. O campesinato, pelo lugar que ocupa nas relações de produção, não é o dirigente do programa da expropriação dos meios de produção e da implantação da propriedade coletiva. Não há outra via para tirar a Bolívia do atraso e da submissão imperialista senão pela luta revolucionária, apoiada no programa da revolução e ditadura proletárias.

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Anexos: artigos do jornal Masas boliviano

Consumada a Descomunal Farsa Cívico-Masista
Tal como já falávamos desde o início, no final de tanto teatro, cívicos e governo acabaram resolvendo as suas “diferenças” numa Constituição que não é senão uma comédia de conteúdo burguês em que eles se sentem “todos representados” (entenda-se, os burgueses). Isso ocorre porque tanto o governo reformista do MAS como a oposição direitista são a mesma coisa: manifestações políticas burguesas que defendem a ordem capitalista e sua base material: a propriedade privada dos meios de produção.

Os Masistas impostores zombam dos camponeses fazendo-os marchar por uma Constituição que consolida o latifúndio.
No momento em que escrevemos, Evo celebrada na Praça Murillo a promulgação da Lei de Convocatória do Refe-

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rendo Constitucional. Descaradamente, discursa para uma multidão de iludidos marchistas esfarrapados, pequenos produtores minifundiários sedentos de terra, cuspindo-lhes na cara, sem nenhuma modéstia, que a sua Constituição respeita a grande propriedade privada dos ricaços exploradores. A Constituição vai definir a extensão máxima da propriedade agrícola em 5.000 ou 10.000 hectares, mas não é retroativa. Nos latifundiários atuais (como os de Marincovic e companhia), não se mexe. Além disso, estarão incluídas as autonomias departamentais “consensuadas” na forma como queriam os oligarcas latifundiários do oriente. Derrotemos a mentira Masista com a luta revolucionária dos explorados sob a bandeira proletária, por uma Revolução Social que acabe com a raiz do poder burguês e opressão imperialista: a propriedade privada sobre os meios de produção. O Governo Operário e Camponês que instaurará a revolução estabelecerá a propriedade social para satisfazer as necessidades do conjunto da sociedade e não apenas o interesse de um número reduzido de exploradores. (Extraído do Masas boliviano nº 2104, de 24/10/2008)

A Marcha do Engano e a Traição às Massas
V.M Evo Morales e o MAS ficarão conhecidos na história como os responsáveis pela maior enganação às massas, especialmente as camponesas. Eles levaram os explorados e oprimidos do país a acreditar que, com a redação de uma “nova” Constituição Política, o país poderia se transformar e acabar com a exploração e opressão dos povos indígenas e dos camponeses, que, a partir da aprovação da “Nova” Constituição no país, terminaria a discriminação e opressão dos índios. A mentira é tamanha que os camponeses
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Avança a crise na Bolívia: Evo se mostra incapaz de enfrentar a direita

acabaram eles mesmos se auto-enganando, ao extremo de, pensando alcançar a futura felicidade, milhares de camponeses marcharem de Caracollo em direção à sede do governo para cercar o Parlamento e forçar os parlamentares a aprovar a convocatória do “referendo constitucional”, mais um referendo. Em sua enganação, o MAS levou as massas camponesas a acreditar que, ao marcharem para cercar o Congresso, estariam fazendo uma ação radical, convicção alimentada pela gritaria da direita que vê na marcha uma ação antidemocrática de “hordas assassinas”. Evo Morales e o MAS subordinaram a ação de massas à decisão do Parlamento, ao extremo de que a oposição possa dizer o que der na telha, certa de que nada vai lhe acontecer. Elas são, ao lado do MAS, os protagonistas do maior engano do povo, juntos organizaram o maior show, burlando o sentimento e o desejo de mudança dos indígenas e camponeses, que foram uma vez mais tratados como índios. Foram nas comissões interpartidárias formadas por militantes do MAS, PODEMOS, UN e MNR o lugar onde “por tempo e matéria” foi revisto o texto aprovado por uma Constituinte, que nas palavras do MAS foi aprovada pelos sem-voz e que o MAS permite que seja revista por aqueles que sempre tiveram voz e viveram empoleirados no aparelho estatal. Na realidade, pouco importa tal revisão porque não havia nada importante para revisar, algo que até mesmo coloque em questão o caráter burguês da “nova” sociedade que Evo Morales e o MAS pretendem dar à luz. Como evidenciado pelo silêncio dos observadores estrangeiros. A “nova” Constituição foi o texto mais lido por representantes de outros países, europeus, americanos ou organismos internacionais, UNASUL, OEA, e assim por diante. E ninguém, absolutamente ninguém, encontrou algo que viole qualquer princípio democrático burguês, confirmando a observação que fez o Secretário Geral da OEA, Insulza. Como informaram, tanto os oficialistas como os opositores,
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tudo foi “consensuado”, o que significa que eles apararam ou eliminaram todas as arestas que foram observadas pela oposição e pela burguesia, exceto quando convocar as novas eleições. Para o MAS, aprovada a “nova” Constituição, deve-se a convocar novas eleições, pois consideram que ganharão de lavada, o que permitiria obter uma maioria absoluta no Congresso e mudar a “nova” Constituição como bem entenderem. Para a oposição, a eleição deveria ser convocada no término da gestão de Evo Morales, em seu cálculo está o desgaste do governo nos próximos dois anos de crise mundial. Em suma, tudo se resume a uma luta pelo controle do aparelho do Estado, em termos simples, em uma luta pela reeleição, justificada com o argumento de que “uma gestão é muito pouco tempo para consolidar as mudanças no país” ou que “Evo Morales quer perpetuar-se no governo”. Dessa magnitude é a traição do MAS às massas. Milhares de camponeses marchando pela convocatória do referendo constitucional que prometeu transformar o país, mas, na realidade, tudo se reduz a uma luta politiqueira para ver quem fica no topo do Estado. É a Marcha do Engano e da Traição. O MAS não pôde ser fiel nem sequer ao que aprovaram os seus constituintes. O destino político de Evo Morales e do MAS dependerá de quanto tempo levarão os camponeses e indígenas do país para descobrirem a traição; agora só resta ver com dor a marcha de centenas de milhares de camponeses, operários e sindicatos que continuam reivindicando a transformação do país. Esta será uma obra do POR. (Extraído do Masas boliviano nº 2104 de 24/10/2008)

O acordo entre governadores e governo
Depois do circo, bolivianos são confrontados com a dura realidade. Ao retornarem da Marcha, os iludidos marchistas en47

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contraram em suas casas a pobreza, a fome, e a miséria, já como efeitos da crise internacional. Para a classe dominante oriental, o problema fundamental é a terra, a preservação da posse do latifúndio, sem o perigo da persistente ameaça de desmembrar suas propriedades. Nas últimas negociações, em Cochabamba, atingiram duas conquistas muito importantes para eles: a) o critério para o tamanho do latifúndio produtivo se aplicará a partir da promulgação da nova Constituição e não retroativamente, ou seja, não afeta em nada as atuais possessões e, b) dentre os atributos da autonomia departamental, se estabelece que estas serão encarregadas de organizar a utilização territorial dos solos em coordenação – que seja bem entendido; somente em coordenação – com as autonomias indígenas. Assim, os governadores colocaram dois cadeados, um para proteger o que eles já possuem e o outro para continuar controlando o território no futuro. Além disso, a caracterização do Estado boliviano, a reeleição do presidente, a delimitação da justiça comunitária etc., passam a ter uma importância secundária. A pergunta é: por que não assinar o acordo? Porque cada uma das partes, governadores e governo, tem atrás de si setores radicais que estão prontos para cortar a cabeça do adversário e não toleram qualquer concessão para a outra parte. Então dão a aparência de que deslocam a discussão para o parlamento onde, de maneira curiosa, se dão os consensos, utilizando de vez em quando a aparente pressão social como na marcha de Caracollo a La Paz, ou os chamados “radicais” (uma fração de PODEMOS) que não conseguem engolir a reeleição de Evo Morales adiando por um longo tempo suas ambições partidárias. Toda esta farsa termina em uma “festa democrática”, onde todos saem satisfeitos por haverem “salvo a democracia”.
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O que vem depois do circo? Os poucos cooperativistas mineiros que entraram na marcha, ao regressarem às suas casas, encontram as minas fechadas, porque já não podem continuar produzindo com os baixos preços do minério no mercado mundial; alguns elementos da classe média, que acreditavam que a nova Constituição teria de mudar estruturalmente o país para proporcionar bem-estar ao seu povo, comprovaram na própria carne que nada mudou e, por outro lado, aumenta a miséria causada pela crise internacional; os camponeses vão descobrir que Evo Morales e sua gangue, às suas costas, fizeram um pacto com a Meia-lua para se preservarem os latifúndios etc. Ao se concluir o circo, os bolivianos retornarão à dura realidade e os tormentos da fome e do desemprego irão forçá-los a sair novamente às ruas e estradas, agora, para acertar as contas com os impostores que fizeram com que eles vivessem uma ficção. A nova Constituição não muda nada. O que nós explorados precisamos é de uma verdadeira revolução social, que acabe com o poder burguês, liquidando a propriedade privada dos os meios de produção e instaurando a propriedade social para atender as necessidades de todos os explorados. Isto não se consegue nas urnas, conquista-se pela via insurrecional. (Extraído do Masas boliviano nº 2104, de 24/10/2008)

Como dissemos, o sangue não chegou ao rio
O conflito governo/oposição desenvolve-se no quadro do respeito à ordem social estabelecida, ou seja, ao modo de exploração capitalista. É por isso que tudo acaba em bravata, em alguns momentos tensos e até violentos que fazem as pessoas que não acompanham de perto exclamar que esta vindo uma guerra civil ou que está em gestação um
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golpe civil-departamental impulsionado pelos EUA. Que Evo não é santo de devoção do governo norte-americano é evidente, que a embaixada ianque incentiva a oposição de direita, não existem dúvidas, mas, por isso, afirmar que pode prosperar um golpe de Estado fascista sustentado pelo imperialismo é uma grande estupidez. Evo continua sendo para os norte-americanos a melhor carta apesar da sua postura “anti-imperialista”. Devemos entender que cívicos e governo são irmãos de sangue e que, embora um deles se imponha sob pressão sobre o outro, isso não terá nenhum efeito sobre a continuidade da ordem burguesa.

O levante do cerco à Santa Cruz e a rebelião dos setores radicais
Dirigentes do MAS fazem esforços para encobrir os verdadeiros objetivo dos explorados do campo. Já dissemos que a luta dos camponeses contra a “Meia-Lua” é o choque da pequena propriedade de terra contra os grandes latifúndios, agora nas mãos da classe dominante oriental. Não é um movimento isolado do problema central indígena neste país, que está sintetizado no problema da terra, ainda que teóricos indigenistas façam esforços para desviá-la para componentes puramente culturais ou de outros tipos de reivindicações. O atual movimento camponês está ligado à longa luta dos explorados do campo para liquidar o latifúndio que sobrevive à reforma agrária “movimentista” e que se tornou a base material que sustenta a existência de uma classe dirigente despótica pré-histórica. Se assim entendermos o problema, é certo que a militância que sitiava a cidade, embora inicialmente mobilizada e organizada pelos limitados objetivos (que encarnam os interesses) do governo do MAS, levavam em suas entranhas, como potencial, a sua tradição (sua história é a história da luta pela ancestral posse da terra). Sobre esta
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premissa se baseia a possibilidade de que o cerco poderia levar a uma diminuição do controle político do MAS da ala mais radical do movimento e poderia levar não só à ocupação da cidade, mas também dos latifúndios e dos grandes empreendimentos industriais claramente identificados como posses dos chefes cívicos e políticos da região. Ocorreu realmente o fenômeno da rebelião das alas mais radicais, o governo perdeu o controle sobre elas (apesar das pressões exercidas contra eles) e elas continuaram com as ações até 24 horas depois. Estes setores formados principalmente pelos colonos exigiram tomar a cidade e acabar definitivamente com a “Meia-Lua”. A rebelião não teve força suficiente e esteve ausente uma liderança capaz de dar uma clara perspectiva política, acabou diluindo-se pela pressão da grande maioria que já se desmobilizara e pelas suas necessidades materiais, como os mantimentos que o governo já não garantia. É compreensível que os colonizados se tornassem a vanguarda da rebelião. Este setor está em constante atrito com os grandes proprietários de terras e, por sua origem ocidental, desde o início, foram vítimas da arrogância dos oligarcas (que permanentemente dilapidam as suas posses de terras), além da discriminação racial. Os caciques camponeses oficialistas têm se esforçado para encobrir os verdadeiros objetivos dos explorados com reivindicações que interessavam ao governo para se potenciar nas negociações com a “Meia-Lua”, em Cochabamba. Aparentemente, os camponeses não foram além da exigência de respeito ao texto integral da Constituição oficialista, exigindo a devolução dos bens do Estado, tomados pelas hordas da “Meia-Lua”, a prisão de Leopoldo Fernadez pelo massacre de Porvenir, etc. Os mais recentes informes sobre estes setores radicais indicam que existe uma sensação de frustração, para muitos o fim do cerco por pressão do oficialismo foi uma trai51

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ção, embora tentassem disfarçar a manobra como uma simples “suspensão” até 15 de Outubro. (Extraído do “Masas” boliviano nº 2101, de 03/10/2008)

O MAS em um impasse sem saída
A limitação da política do MAS reside na sua abordagem sobre a possibilidade de realizar grandes mudanças no quadro do capitalismo e sujeito às leis burguesas a isso chamou “revolução democrática e cultural”. Concebe como “mudanças estruturais” pequenos ajustes nas atuais formas de propriedade existentes, como a redução do tamanho dos latifúndios, sendo esta sua abordagem mais ousada. No entanto, consegue que grandes camadas de explorados acreditem que a sua política é revolucionária e que a Constituição do MAS é o instrumento de sua libertação. É por isso que as chamadas “Organizações Sociais” realizam mobilizações contra a direita em diferentes regiões do país. Além disso, a crise política na Bolívia tem suscitado preocupação nos países membros da UNASUL, OEA, ONU, frente à possibilidade de que as posições irredutíveis poderiam levar a ações armadas que terminem por desestabilizar a região e pôr em perigo o regime burguês. Assim, enviaram famosos representantes para fazer o papel de “fiador” das negociações que foram instaladas em Cochabamba, sem que formalizasse qualquer acordo. Para estas organizações internacionais, “a preservação da democracia” significa respeito à ordem burguesa. Neste cenário, o governo aparece como prisioneiro de sua própria política burguesa (defesa do legalismo burguês e da propriedade privada), das organizações sociais (a ação direta é absolutamente ilegal), da direita que continua sobrevivendo graças às limitações da política governamental e da pressão internacional. Cada um destes fatores atua para se impor no cenário e obrigar o governo a adotar atitu52

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des contraditórias e muitas vezes estúpidas, atitudes que inevitavelmente o condenam a se chocar com uns ou com outros. Ceder à pressão da direita, abrindo um debate sem limites sobre a Constituição do MAS, implicaria colidir com as “suas” organizações sociais, cujos setores radicais já ameaçam fugir da influência governamental; ceder à ação direta como o cerco ao Parlamento, fatalmente o empurraria a colidir com a pressão internacional e a oposição de direita. Temos de concordar que não é nada “democrático” ocupar um dos braços do Estado. Ceder à direita no que diz respeito a limitar os processos dos cívicos ou expandir estes processos para agradar os líderes das “organizações sociais”, que também têm ocupado instituições públicas e causaram mortes como em Cochabamba e Sucre, por exemplo, significaria voltar contra si um poderoso movimento social que o próprio governo gerou. A única solução lógica para este impasse seria que, de uma vez, definisse uma política coerente: ou joga no lixo as leis burguesas e assume a ação direta das massas para transformar radicalmente o país, ou se toma o caminho oposto, se choca com as organizações sociais e impede suas ações. Pela natureza burguesa deste governo, não é difícil resolver o dilema colocado. O respeito pela grande propriedade privada dos meios de produção, o submetimento às leis burguesas e à pressão internacional, o empurram inevitavelmente a se chocar com as organizações sociais mobilizadas. Poderá controlar alguns setores, mas há outros mais radicais, como aconteceu no cerco de Santa Cruz, que tendem a escapar ao controle do governo. Não está longe a possibilidade de que o Estado utilize a repressão e rios de sangue para submeter os descontrolados. A forma como as negociações terminaram em Cochabamba mostra que a única coisa que fez foi mover o con53

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fronto para o parlamento. A “Meia-Lua” e a direita como um todo, entrincheirados em sua “maioria do Senado”, continuará sobrevivendo e as “organizações sociais” não terão outro caminho senão ocupar o Legislativo com um custo político muito elevado para o governo frente à opinião de seus aliados internacionais. Então continuará a disputa sobre se a futura convocatória para o referendo resolutivo é legal, ou ilegal. Em suma, o governo é uma vítima da sua política incoerente e contraproducente. (Extraído do Masas Boliviano nº 2102, de 09/10/2008)

Basta de Enganos: Marchemos Para a Libertação de Nosso Povo
Vamos pôr as coisas em seu lugar: nós revolucionários e explorados somos contra o capitalismo degenerado que causa todos os nossos males em nossa casa e no país. O problema é: como liquidamos o capitalismo em decomposição? A prática, a experiência histórica e a teoria revolucionária baseada na ciência social nos ensinaram que, para liquidar o capitalismo (uma espécie de vampiro que se alimenta do sangue dos explorados), temos de atacar seu coração, e o coração desse vampiro é a grande propriedade privada dos meios de produção. A diferença fundamental entre os revolucionários e o MAS - que diz ser antiimperialista e fala da “revolução democrática” - é que nós revolucionários orientamos toda nossa luta e a dos explorados na perspectiva de enfiar a estaca da revolução no coração desse vampiro e sobre seu cadáver converter a grande propriedade privada das fábricas, latifúndios, dos bancos etc. (meios de produção hoje nas mãos da burguesia, fonte de toda a exploração e corrupção), em propriedade social. Pelo contrário, a estupidez histórica de pretender reformar o capitalismo corrompido, embonecando seus cabelos
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e unhas, fazendo manicure no inimigo, deixando intacto seu coração (e mais, com o capitalismo andino do impostor Limeira) é a política do MAS. O pior é que esta política conduz as massas exploradas ao matadouro. Os masistas que dirigem hoje os “movimentos sociais” (eufemismo com o qual designam os setores populares não proletários) não são revolucionários, são cabeleireiros e manicures do capitalismo (pintado de vermelho). Com discursos de radicalidade sobre unhas e cabelos, mas são os mais fiéis defensores do coração do chupa-sangue (a grande propriedade privada dos meios de produção), a isso os falsários chamam de que a “processo de mudanças”. A verdadeira luta contra o coração do capitalismo será dada pelos explorados e revolucionários nos campos, nas ruas, nas estradas: os camponeses, para conquistar toda a terra cultivável; os desempregados, por trabalho, impondo a escala móvel das horas de trabalho; os estudantes, por unir a teoria à prática na produção social; operários e professores, pelo salário mínimo vital com escala móvel; e todos para que as minas, o petróleo e o ferro, as matérias-primas naturais, estejam verdadeiramente nas mãos de um governo operário e camponês. Esta é a política revolucionária que deve guiar a luta dos explorados bolivianos. A falsa guerra entre o governo do MAS e os cívicos fascistas não toca no coração do problema. A burguesia decadente (expressada na “Meia-Lua”), não quer nem que se lhe cortem as unhas (de ratazanas), nem o cabelo (de degenerado). Os masistas, enganando as massas, estão empenhados nesta estúpida tarefa. Nossa melhor homenagem aos explorados sacrificados na guerra dos masistas e cívicos: gritar esta verdade aos quatro ventos Nem fascismo da Meia-Lua, nem o reformismo de maquiadores, revolução operária e camponesa!
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Morra a mentira e o engano do governo capitalista. Viva a revolução proletária! (Extraído do “Masas” boliviano nº 2099, de 19/09/2008)

Tanto o Governo como a “Meia-Lua” temem a rebelião dos explorados
A direita reacionária impõe um regime de terror para manter os famintos disciplinados, utilizando para isso os bandos armados de facínoras e contratando mercenários. A tomada das instituições do Estado foi executada por essa gente, que tem carta branca para assaltar e roubar. Por exemplo, em Santa Cruz, a população vive aterrorizada buscando uma forma de salvar a pele da ação dos vândalos da União Juvenil Cruzenha. A conspiração direitista (que sem nenhuma dissimulação mostra seu rosto fascista carregado de ódio racista) é expressão do pânico na mentalidade despótica e primitiva da burguesia latifundiária da “Meia-Lua” frente ao perigo latente de que as massas exploradas (passando por cima do reformismo) assumam elas próprias a luta pela terra. O massacre dos camponeses em Pando é a prova contundente do conteúdo bárbaro da política das autonomias que pretendem impor em suas regiões para se erigirem como déspotas indiscutíveis, donos das terras e das vidas. Por seu lado, o governo em sua queda de braços com a “Meia-Lua” utiliza os “movimentos sociais” (mas sem armá-los) somente para ameaçar. Não vai além das posturas demagógicas, recriminando acremente as massas que saem em seu apoio ao menor excesso que cometem. O Ministro do Interior acusou membros do “Comitê Cívico Popular” de El Alto, que ameaçaram alguns repórteres da imprensa burguesa e arrancaram alguns letreiros das agências de bancos consideradas da “Meia-Lua”, de serem uns “provocadores iguais aos da União Juvenil Cruzenha”. Na Frente de Trabalho Três Mil, os explorados fizeram
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um esforço para se organizar sem nenhuma ajuda do MAS e de seu governo. Uma de suas representantes, em um fax ao Governador de Cochabamba, assinala que se sentem abandonados pelo governo e que estão lutando por sua sobrevivência. Teve que ocorrer o massacre de Porvenir, em Pando, contra os camponeses, com mais de 30 mortos executados pelos grupos do poder regional, para que tardiamente o governo covarde decretasse o Estado de Sítio nessa cidade, procurando controlar a situação. Os explorados começam a percorrer seu próprio caminho, passando por cima dos controles do governo e da classe dominante oriental. Quando escrevíamos estas linhas, setores dos cocaleiros e dos colonizadores assumiam atitudes radicais, tomando a iniciativa de cercar a cidade de Santa Cruz e de marchar sobre ela para ajustarem contas com os fascistas. O governo se encarregará de frear estas ações em nome do diálogo que já está em marcha para conciliar posições com os fascistas. Se a situação chegar ao nível das massas passarem por cima dos diques de contenção do governo, salta imediatamente ao primeiro plano o problema de fundo, o enfrentamento da pequena propriedade contra o latifúndio. Chegado este momento, nem governo, nem cívicos poderão parar a fúria dos explorados, que podem marchar até a completa destruição do latifúndio. No marco da políticagem burguesa, cívicos e governantes estão interessados em defender a grande propriedade privada e, nesta medida, constitui-se um perigo a rebelião dos pequenos proprietários e dos despossuídos de toda forma de propriedade contra os interesses dos grupos de poder do Oriente. Essa é a causa material do “Por Que ?” governantes e opositores de direita estão obrigados a precipitar uma saída de acordo e “democrática” ao atual conflito. O objetivo central é impedir que os explorados atuem
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fora do controle da políticagem burguesa em seu conjunto e terminem fazendo estragos na grande propriedade privada da terra, hoje nas mãos de latifundiários, pecuaristas e produtores industriais. (Extraído do “Masas” boliviano nº 2099, de 19/09/2008)

Só a luta revolucionária das massas mandará para a lata do lixo a luta inter-burguesa
A luta que se dá na atualidade é pelo controle dos recursos econômicos pelo Estado, a propriedade privada dos empresários nativos e estrangeiros está absolutamente garantida. A “Meia-Lua” expressa os interesses de parte do empresariado nacional boliviano que sempre mamou nos recursos do Estado. Para não perder totalmente o controle desses recursos, entrincheirou-se nos governos departamentais. A nova distribuição dos recursos, segundo o índice do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), sem dúvida os afeta e não podem deixar que o governo imponha essa distribuição. Quanto à nova Constituição, o que mais os preocupa é o regime das Autonomias que atribui ao governo nacional a descentralização dos recursos para as províncias. Além dessa, existe a questão da terra, cujas medidas do governo são tímidas, mas o suficiente para exaltar os latifundiários.

As reformas do MAS em nenhum momento colocam acabar com propriedade
Dessa forma, os dois bandos se enfrentam a cada instante, em alguns momentos pela farsa “democrática” dos referendos e eleições e em outros pela violência. Os cívicos são os mais atrevidos no uso da força. Nesta luta inter-burguesa, os cívicos têm mais vantagens já que estão respaldados pelo regime de propriedade. Os fatos diários constatam que existe uma tendência
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das massas a se tornarem independentes do governo reformista pró-burguês do MAS, não se deslocando para a direita. Isso é demonstrado nas manifestações dos mineiros e dos professores urbanos e rurais, estes últimos, até bem pouco tempo, eram muito próximos do MAS. O principal obstáculo para a via revolucionária das massas é o próprio MAS. Pois, quando a direita pré-histórica ataca o governo, ou golpeia os trabalhadores mais humildes, faz paralisações etc., acaba na realidade potenciando o governo. Quando acabará essa luta? Enquanto o proletariado e as massas não atacarem o regime da propriedade privada e porem em perigo o Estado atual (para dar lugar a um Estado Operário), a luta continuará por um motivo ou outro, de uma forma ou outra. A ameaça da revolução proletária obrigará os bandos a se unirem, como aconteceu em 1971, quando a Assembléia Popular obrigou os emenerristras (militantes do MNR, partido nacionalista burguês) e os falangistas (militantes da Falange Socialista Boliviana, direita) a fazer um bloco contra-revolucionário, chamado Frente Popular Nacionalista, na direção da qual foi colocado o gorila Banzer. A tendência atual é que os setores populares, e entre eles o proletariado, ganhem paulatinamente as ruas para exigir suas reivindicações. Se o proletariado politicamente organizado tomar a direção, então a luta inter-burguesa será jogada à margem do caminho. (Extraído do “Masas” boliviano nº 2099, de 19/09/2008)

Expulsão do embaixador ianque
A relação de domínio do imperialismo sobre os países capitalistas atrasados é uma relação econômica. O capital financeiro determinou e determina nossa condição de país capitalista atrasado, provedor de matérias-primas (minerais, gás natural etc.) para o mercado mundial, subordinada
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aos interesses das nações imperialistas. O antiimperialismo revolucionário é inseparável da luta pela revolução social, que sepulte a burguesia nativa e se projete internacionalmente para sepultar o capitalismo.

Até onde vai o anti-imperialismo do governo?
Quando o conflito com a meia-lua estava mais intenso, na véspera do massacre de Porvenir (Pando), o governo fez o anúncio espetacular da expulsão do embaixador ianque do país, com argumentos de que este diplomata conspirava contra o governo boliviano junto à oposição de direita, medida que foi acompanhada pela Venezuela e que gerou uma cadeia de apoios em outros países do continente. O problema é saber até onde chega o suposto anti-imperialismo do governo. É uma besteira acusar o embaixador de conspirador, como se fosse uma atitude absolutamente pessoal do diplomata. Não devemos esquecer que o gringo é uma peça a mais na imensa maquinaria diplomática do imperialismo. Se seu representante conspira contra o governo de Evo Morales, é de se esperar que o faça no marco da política diplomática oficial de Washington. Se for assim, porque o governo boliviano não rompe relações diplomáticas com os Estados Unidos. Essa seria uma política coerentemente antiimperialista; mas o governo, através de Choquehuanca, faz esforços para mostrar que expulsar o embaixador não significa uma ruptura com a potência do norte, posição que mostra a política dirigida pelo governo frente ao imperialismo. Como tudo na política burguesa reformista do governo, a expulsão de embaixador Goldberg não passa de uma pose antiimperialista e nada mais. Não existe dúvida, a resposta do imperialismo às besteiras do governo boliviano dependerá muito do momento eleitoral em que estão vivendo os ianques. Os candidatos de ambos os setores já responderam sobre o assunto e Oba60

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ma, supostamente o menos duro, assinalou que o que ocorre na América do Sul é conseqüência da equivocada política internacional republicana, que tem provocado para os Estados Unidos a perda da liderança no continente e que seu governo restabelecerá a autoridade da potência imperialista entre satélites de seu quintal. A experiência das birras dos governos nacionalistas de conteúdo burguês contra o imperialismo se mostra conclusiva, que seu famoso antiimperialismo acaba no real acomodamento de suas relações políticas e comerciais. Buscando, no melhor dos casos, conseguir alguma pequena vantagem. Só a política revolucionária do proletariado poderá colocar uma verdadeira política antiimperialista, que leve à efetiva expulsão do imperialismo do país, de seus tentáculos que são as multinacionais e a expropriação de seus investimentos. As bravatas demagógicas de Evo Morales e de seu governo não chegarão a este ponto. (Extraído do “Masas” boliviano nº 2099, de 19/09/2008)

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Anexo: Resolução sobre a Bolívia 9º Congresso do POR-Argentina

1.O Congresso do POR da Argentina reivindica a linha de intervenção do POR da Bolívia na crise, linha que se baseia na independência política do proletariado. 2.Os referendos, as eleições e as constituintes são armadilhas que preparam o terreno para a conciliação entre o governo massista e a direita da chamada “Meia Lua”, destinados a conter e derrotar o movimento de massas. 3.Existe uma unidade de princípios entre o governo do MAS e a direita: a defesa da propriedade privada capitalista, base do atraso e da miséria. 4.Não é com o estado de sítio, nem com a repressão militar, nem com a Constituição que se derrotará a direita. Mas sim ocupando os latifúndios, as minas, as jazidas, expropriando-os, atacando sua base material e transformando-os em propriedade social. É armando as massas para derrotar a direita fascista, racista.

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5.A direção da COB tem abandonado todas as reivindicações dos trabalhadores e abandonado toda política independente, somando-se ao comando político do Governo. A burocracia corrupta da COB não deve ser chamada a dirigir nenhum processo de rebelião e centralização das lutas, devem ser expulsos por serem traidores. 6.Os revolucionários se colocam no terreno das resoluções da Federação dos Trabalhadores da Educação Urbana de La Paz, da COD de Chiquisaca, da COD de Oruro e outras organizações operárias que repudiam o acordo de cúpula da COB com a CONALCAM. A COB deve recuperar suas teses programáticas principistas, que são tradição do movimento operário boliviano. 7.Repudiamos o massacre de Pando e todas as atrocidades cometidas pela direita e repudiamos também a matança de dois mineiros de Huanuni pelo governo do MAS, ocorrida no bloqueio de Kaihuasi em 5 de agosto, dois dias antes do referendo. Repudiamos a perseguição aos professores poristas de Cochabamba e as ameaças contínuas aos militantes trotskistas. 8.A direita, encurralada pela mobilização das bases, pelo repúdio ao massacre de Pando, isolada internacionalmente, cercada em Santa Cruz, não foi derrotada pela decisão política do governo do MAS, que vem sendo sustentado por governos burgueses da América Latina. Evo Morales age sobre o terreno do terreno do diálogo, do consenso e de novas concessões feitas à direita no âmbito da nova Constituição. 9.Os movimentos sociais se dirigiam instintivamente com sua ação direta para esmagar as bases da direita. O MAS procurou orientar essas ações para a exigência de um novo referendo, frustrando os setores mais radicais. 10.A política de “defesa da democracia e do governo de Evo” é contrária à política da classe operária. O governo Evo é um governo burguês submetido ao imperialismo que
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Avança a crise na Bolívia: Evo se mostra incapaz de enfrentar a direita

defende insistentemente, em todos os terrenos, o regime da propriedade privada. 11.Chamamos todos os revolucionários a difundir e defender a política dos revolucionários que atuam na Bolívia, solidarizando-nos efetivamente com eles. Não há que construir nenhum “instrumento” ou “ferramenta” partidária, destinada a bloquear o trabalho dos revolucionários embelezando os burocratas de todo tipo que continuam negando a luta pelas reivindicações sociais. 12. Os auto-proclamamos trotskistas argentinos mantêm uma atitude miserável diante da luta de classe na Bolívia, ocultando ou deformando as posições do POR. Aliam-se a setores burocráticos, embelezam a direção da COB, chamam a formar organizações políticas sob estratégia alheia à trotskista, chamam a votar em Evo no referendo (PO), apesar da repressão sangrenta do governo contra os mineiros. 13.A política dos revolucionários é a revolução social que instaure o governo operário e camponês, varrendo toda mancha da direita, as multinacionais, pondo fim à propriedade privada dos meios de produção, expressando as tendências mais profundas que se abrigam nas massas, que há tempo se manifestam em rebelião contra toda forma de dominação. Somente a classe operária pode dirigir os camponeses à vitória, armados sob a estratégia da revolução e ditadura proletárias, somente defendida pelo POR da Bolívia

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