Formação “Práticas e modelos de auto-avaliação das BE”

Desafios e oportunidades no contexto da mudança – 2ª parte da tarefa Paula Morgado

COMENTÁRIO AO TRABALHO DE UM COLEGA
Para elaborar o meu comentário optei pelo trabalho da colega Francisca Monteiro porque a sua BE tem o mesmo tempo de existência da minha e, como tal, quis analisar a sua tabela para perceber quão semelhantes ou distintos são os percursos dos dois estabelecimentos de ensino no trabalho desenvolvido até ao momento. Fiz um apanhado de algumas ideias apontadas pela Francisca e que, de uma forma geral, representam anseios e grandes desafios para bibliotecas escolares com poucos anos de integração na RBE: - “O professor bibliotecário ainda não é encarado como um recurso valioso no processo de ensino /aprendizagem”; - “A articulação e planificação não é feita com todos os Departamentos”; - “O ensino continua centrado na sala de aula”. A este respeito lembro um autor que exprime com grande clareza estas três afirmações: “Longe, simbolicamente longe da sala de aula, há outra escola. Livros bem arrumados em prateleiras, CD e vídeos, jornais, alguns computadores. O problema é que não existe qualquer ligação entre os dois mundos…” SAMPAIO, Daniel (2005) «Longe da sala de aula», in XIS (Jornal Público), 19 de Março Na base desta resistência à colaboração entre bibliotecário e professores, resistência ainda tão enraizada nas escolas, estarão, como afirmam Montiel-Overall (2008), Dubazana e Karlsson (2006) factores como a cultura do individualismo e a incapacidade de fazer cedências para aceitar outras práticas pedagógicas, por vezes o fraco conhecimento dos currículos por parte do bibliotecário, o clima de escola, a falta de comunicação entre pares, uma liderança (órgão de gestão) pouco direccionada para a articulação curricular/ inovação pedagógica e a motivação de todos os envolvidos num processo que exige um grande empenho. Dubazana e Karlsson (2006) propõem formas de abordagem para efectivamente promover a integração dos recursos da Biblioteca Escolar no currículo e a articulação curricular entre os responsáveis pelas bibliotecas e os restantes docentes. O desenvolvimento de um programa ou plano de acção, elaborado com base em ideias partilhadas e consenso entre os vários elementos do contexto escolar, promoverá, segundo os autores, a planificação conjunta e a utilização do espaço e colecção da BE. Na abordagem colaborativa proposta pelos autores considera-se que

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docentes e bibliotecário trabalham em conjunto para planificar actividades de aprendizagem, dar orientação e trabalhar diferentes aspectos do currículo, estipulando desde o início que o docente é especialista numa determinada área científica e o bibliotecário é especialista em recursos informacionais. O trabalho colaborativo pressupõe planificação, concretização e avaliação conjunta de actividades para a construção do saber. Ainda de acordo com os autores referidos, será importante fazer uma abordagem ao líder da Escola, pois é essencial que este conheça o potencial da biblioteca e a sua missão e se identifique com ela, tornando-se desta forma um aliado valioso no estabelecimento de parcerias entre bibliotecário e docentes. Por último, referem os autores, é fundamental que o PB desenvolva junto do corpo docente um eficiente trabalho de promoção dos serviços da BE, já que promover os serviços que a biblioteca apoia e disponibiliza, bem como as suas áreas de intervenção, poderá ser uma boa aposta para a integração da biblioteca na Escola. Convém não esquecer que a identidade de uma escola nunca está definida, está em constante transformação e passa por um processo de incessante construção, pelo que depende de professores e bibliotecários a ruptura com a tradição do passado, com as suas práticas individualistas, e a substituição destas por uma prática colaborativa e inovadora. A Francisca refere ainda três outros aspectos que estão presentes nos trabalhos de vários colegas e que, nas nossas escolas, dificultam a concretização de boas práticas na BE: - “Os professores da equipa têm poucas horas de apoio à BE”; - “Não há horas para professores colaboradores”; - “Orçamento reduzido para actualização da colecção”. A este respeito, julgo que a solução para os dois primeiros pontos assenta no bom senso e num grande esforço para conseguir trabalho de voluntariado. Parece disparatado mas não é! É verdade que os elementos das equipas têm poucas horas para apoio à BE e, por isso mesmo, uma boa gestão do tempo e a selecção das actividades a desenvolver serão palavras de ordem para definir o rumo de viagem da biblioteca. Por vezes, por exemplo, perdemos tempo a assinalar efemérides em vez de desenvolvermos projectos a longo prazo. No que respeita ao trabalho de voluntariado, posso dizer que tenho experiências positivas nesse sentido e que a Associação de Pais poderá ser um excelente aliado para combater as poucas horas que a equipa da BE tem. Apesar de tudo, ainda temos colegas e encarregados de educação que sobrepõem às situações adversas a vontade de colaborar com a BE. Nos países anglo-saxónicos é muito comum encontrarem-se pais, avós ou jovens voluntários a dar apoio

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às bibliotecas, sobretudo nas "primary schools" (até ao 6º ano). Por que não apelar ao voluntariado da comunidade onde as nossas escolas se inserem e tentar desenvolver trabalho desta forma? Tentar não custa e até pode ser que resulte! A propósito do “orçamento reduzido para actualização da colecção”, a meu ver a solução passa por recolher evidências que convençam o órgão de gestão de que a BE é, efectivamente, parceira no ensino-aprendizagem e local de construção do saber, devendo por isso ser contemplada com a atribuição de uma verba anual. Por outro lado, há uma grande quantidade de recursos digitais online, gratuitos e de qualidade, que podem enriquecer a colecção e vêm ao encontro da inovação que se pretende para a biblioteca. Posso dizer que, sempre que encontro um destes recursos, acrescento-o aos separadores que coloquei na barra lateral do blogue porque, tal como em Campo Maior, na escola em que exerço funções o orçamento é bastante reduzido… Para terminar, e uma vez que no ano passado apliquei o modelo de auto-avaliação na “minha” BE, chamou-me a atenção o facto de afirmares que “a recolha de evidências é baseada apenas em relatórios de actividades”. Não é correcto e, a esse respeito, o modelo de auto-avaliação indica uma série de elementos, fontes e instrumentos de recolha de evidências: registos de observação; questionários aos professores, alunos e encarregados de educação; checklists; registos estatísticos; informação contida em documentação que rege e estrutura a vida da escola e da BE; planificações; análise de trabalhos dos alunos; registo de reuniões/contactos; materiais de apoio produzidos e editados… No meu caso pessoal analisei durante o mês de Julho os projectos curriculares de turma, as actas de CT, DC e CP, os trabalhos de pesquisa que os alunos da amostragem elaboraram, os inquéritos por questionário aplicados a alunos e docentes e os registos estatísticos, de onde retirei evidências para fundamentar o meu relatório. Concluo este comentário frisando o empenho que revelas no preenchimento da tabela matriz e desejando-te um bom trabalho ao longo deste teu primeiro ano enquanto professora bibliotecária da tua escola. Paula Morgado
(Professora Bibliotecária na EBI c/JI Dr. Manuel magro Machado – Santo António das Areias, Marvão)

BIBLIOGRAFIA: Dubazana, K. e Karlsson, J. (2006). Integration of the School Library into the Curriculum. Innovation, No.33, December. Montiel, P. (2008) Teacher and Library&Information Science Research. Librarian Collaboration: A Qualitative Study.