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HOGGART, Richard.

As utilizações da cultura: aspectos da vida da classe trabalhadora com
especiais referências a publicações e divertimentos. isboa: !resença, "#$%.
Prefácio
A obra tenta entender as modificações &ue se deram na cultura das classes prolet'rias nos (ltimos
trinta ou &uarenta anos com a influência das publicações de massa. Tenta mostrar como a partir de
sua e)periência, n*o pretendendo uma verdade cient+fica e sociol,-ica, . poss+vel fa/er um outro
desenho do &ue se entende por 0povo1, compreendendo &ue em outras e)periências . poss+vel se ter
leituras diferentes. Ainda nesse parte fala &ue tenta escrever para &ue se2a compreens+vel para todos
e isso n*o si-nifica bai)ar o n+vel da lin-ua-em, mas n*o utili/ar banalmente uma lin-ua-em
e)tremamente t.cnica.
PRIMEIRA PARTE – UMA ORDEM “MAIS ANTIGA”
Capítulo I – ue! "#o “a" cla""e" tra$al%a&ora"”'
A( Po)to" &e *i"ta
3i/ &ue houve uma melhoria nas condições de vida das classes inferiores do povo in-lês e
&ue isso tem sido propa-ado por muitos como uma 0revoluç*o sem san-ue1, o &ue, para eles,
&uebra a ideia de classes trabalhadoras. 4ritica a leitura rom5ntica sobre as classes trabalhadoras
&ue n*o compreendem as mudanças e acham sempre &ue o tradicional est' se enfra&uecendo. O
autor acha &ue isso . um misto de romantismo com frustraç*o por uma ima-em pro2etada de uma
classe por uma classe m.dia en-a2ada e consciente &ue tamb.m a-e com uma certa piedade diante
da potencialidade dos trabalhadores.
4ompadecer6se por e admirar s*o as duas manias das classes m.dias ao analisar as classes
trabalhadoras:
0Re-ra -eral, acaba por encarar as pessoas das classes prolet'rias com um sentimento semi6apiedado, semi6protetor, &ue
nada tem a ver com a realidade dessa classe1 7p. "#8.
4omenta &ue a literatura, como em a9rence, che-a a lu-ares &ue a sociolo-ia n*o
conse-ue. A :ociolo-ia precisa compreender a multiplicidade e saber &ue os n(meros sobre a classe
trabalhadora precisam ser vistos dentro do &ue esses n(meros si-nificam para ela. Ou se2a, a&uilo
&ue os h'bitos representam para al.m dos h'bitos.
;ala sobre sua condiç*o como vindo da classe trabalhadora e a preocupaç*o com a nostal-ia:
0:ou oriundo das classes prolet'rias e, mesmo ho2e, sinto6me a um tempo pr,)imo afastado delas. 3entro de mais
al-uns anos . poss+vel, suponho &ue essa dupla relaç*o n*o se2a, para mim, t*o evidente< mas . sempre suscet+vel de
afetar o &ue eu disser. !oder' a2udar6me a transmitir uma sensaç*o mais ver+dica da vida do proletariado e evitar al-uns
dos riscos de m' interpretaç*o, em &ue o homem de fora facilmente incorre. !or outro lado, o pr,prio fato de estar
pessoalmente em causa apresenta peri-os consider'veis. Afi-ura6se6me &ue as modificações descritas na se-unda
metade desse livro tendem, at. este momento, a fa/er com &ue as classes prolet'rias este2am a perder muito do &ue na
sua cultura havia de v'lido, lucrando pouco com essa evoluç*o. Tanto &uanto me . poss+vel 2ul-ar ob2etivamente o
assunto, . essa a minha opini*o. 4ontudo, ao escrever, encontro6me constantemente na obri-aç*o de resistir a uma forte
press*o interior &ue me leva a encarar o anti-o como muito mais admir'vel &ue o novo, e o novo como al-o de
conden'vel, sem &ue para tal me baseie na minha compreens*o consciente do material de &ue disponho. =stou pois a
olhar esse material atrav.s da lente deformadora da nostal-ia: fi/ o &ue me foi poss+vel para obstar aos seus efeitos1 7p.
>"8.
?ais um pouco do desafio de Ho--art de fu-ir de um romance na escrita:
0@m escritor tem obri-aç*o de resolver estes problemas como lhe for poss+vel e durante o pr,prio processo de escrever,
en&uanto luta por descobrir o &ue verdadeiramente tem para di/er. A*o me parece poss+vel &ue ele consi-a al-uma ve/
atin-ir uma ob2etividade absoluta1 7p. >>8
+( U! e"$o,o &e &efi)i,#o
=studou os oper'rios de eeds, sem casas pr,prias, sendo a maioria arrendada e de
ar&uitetura simples. Recebem semanalmente. 3i/ &ue n*o d' pra se basear pelo &ue -anham, pois
h' um desn+vel muito -rande, inclusive trabalhadores do aço podem -anhar mais do &ue
professores. H' ainda os &ue tem pe&uenos com.rcios e prestam serviços para os membros da
mesma classe.
@ma pe&uena definiç*o dos seus ob2etivos a partir dos pormenores da vida cotidiana:
0@ma ve/ &ue este meu ensaio estuda a modificaç*o cultural, interessam6me sobretudo outros aspectos mais sutis do
estilo de vida &ue caracteri/a o proletariado. A lin-ua-em ser' de -rande utilidade, e em particular o con2unto de frases
do uso comum. As maneiras de falar, a utili/aç*o de determinados dialetos urbanos, sota&ues e entoações, seriam
provavelmente ainda mais (teis1 7p. >B8.
4onsidera &ue embora ha2a uma caracteri/aç*o da classe, h' sempre sutis distinções dentro
do seio da classe trabalhadora, o &ue representa al-o na comunidade. Csso desde uma casa com uma
co/inha maior ou al-u.m &ue mora no e)tremo do &uarteir*o. H' tamb.m uma hierar&uia fruto da
especiali/aç*o de cada um, tendo o homem &ue . conhecido por ser bom em leitura ou outro em
trabalhos manuais.
0D l+cito procedermos a -enerali/ações no &ue se refere Es atitudes caracter+sticas do proletariado, o &ue n*o implica
&ue todos os indiv+duos dessas classes pensem ou procedam dessa maneira em relaç*o ao trabalho, ao casamento ou E
reli-i*o. FGH As -enerali/ações a &ue procedo ao lon-o deste livro si-nificam apenas &ue a maioria das pessoas do
proletariado consideram &ue assim se deve pensar ou a-ir neste ou na&uele caso1 7p. >$8.
4omeça a contar a hist,ria da sua fam+lia. Cniciando por seus av,s, &ue eram primos, se
casaram e foram tentar a vida na cidade, mas nunca abandonando os h'bitos da vida rural, como as
e)pressões, as superstições, as crenças, as formas de or-ani/ar a casa e de ver o mundo 7lembrando
bastante as fam+lias sertane2as &ue vem para a cidade e n*o abandonam totalmente suas
impressões8. =m se-uida, fala da primeira -eraç*o de citadinos, &ue seriam seus pais e seus tios.
=)plica &ue elas tamb.m mantinham muitos dos h'bitos, mas mais num tom de nostal-ia e com
uma e)pectativa de n*o dei)ar morrer esses h'bitos. A vida para eles 2' era mais f'cil 7empre-os,
carros el.tricos, etc.8 e por compreender o modelo de or-ani/aç*o da cidade, tamb.m 2' tinham
menos filhos. Os da terceira -eraç*o, &ue en-loba o autor, seus irm*os e primos 2' n*o tem o campo
como lu-ar de ori-em e nem como o de seus pais, mas apenas como fundo es&uecido e &ue se
lembra Es ve/es. A-ora, estes s*o os filhos 2' dos funcion'rios da cidade.
Capítulo II – A pai"a-e! e "ua" fi-ura" – U! ce)ário
“O)&e e"t#o a" raí.e" $e! a-arra&a" / terra((('”
A( U!a tra&i,#o oral0 re"i"t1)cia e a&apta,#o2 u!a *i&a for!al
Tenta ver &ue h' sim uma forte influência da comunicaç*o em massa via imprensa e cinema,
mas &ue o mais forte . a tradiç*o oral &ue se inspira nas falas e nas crenças. Auma passa-em do
livro o autor tra/ a e)periência &ue acumulou em filas de espera de atendimento m.dico, onde tra/
diversas e)pressões populares ditas pelo povo como 03epois do bolo cortado, uma fatia a mais ou
uma fatia a menos vem a dar no mesmo1 7falando da promiscuidade de certas mulheres casadas1 ou
0A*o se abre o forno para tirar s, um p*o1 7uma m*e falando para o 2ovem m*e &ue s, tinha um
filho e n*o &ueria ter mais8. =ssas e)pressões tra/em uma tradiç*o de pensamento sobre a vida
7nascimento, casamento, c,pula, filhos, morte, se)o, etc.8.
;ala tamb.m da &uest*o da 0sorte1 e do 0a/ar1, como cru/ar com um -ato preto ou ver a
noiva vestida antes do casamento. 3i/ &ue h' toda uma l,-ica das novas revistas em provar &ue as
tradições s*o falsas, mas as pessoas continuam a fa/er. Assim como o caso de todas possu+rem
hor,scopo e isso che-ar massivamente num movimento em &ue se acredita e n*o se acredita ao
mesmo tempo. A tradiç*o oral vem mantendo a sua força.
4onclui essa parte do te)to:
0=m conse&uência do &ue ficou e)posto, os novos meios de comunicaç*o &ue a elas se diri-em n*o tem conse-uido
afetar -randemente as classes prolet'rias, sobretudo se tivermos em conta a vastid*o e e)pans*o desses novos meios de
comunicaç*o. As referências Es Ivastas massas anJnimas e suas reações amortecidasI s*o talve/ prof.ticas, e mais nada.
!ois at. ho2e as classes prolet'rias n*o foram de modo al-um t*o -ravemente afetadas, uma ve/ &ue nem se&uer
prestam -rande atenç*o a esses meios de comunicaç*o< vivem de outra forma, intuitivamente, verbalmente, de acordo
com anti-os h'bitos, inspirando6se no mito, no aforismo e no ritual. D isso &ue os salva da&uilo &ue h' de pior nos
atuais meios de comunicaç*o de massas. = se foram, nal-uns aspectos, afetados pelas condições da vida moderna,
foram6no nos pontos fracos, em pontos &ue a anti-a tradiç*o tornava vulner'veis1 7p. K"8.
+( 3ar4 &oce lar(
Cnicia assim:
0Luanto mais atentamente considerarmos a vida das classes prolet'rias, e tentarmos compreender o &ue h' de essencial
nas atitudes &ue assumem, mais nos salta E vista &ue esse elemento essencial consiste num sentido pessoal, do concreto,
do local: da+ a import5ncia das ideias de fam+lia e de bairro. =sses fatores permanecem imut'veis, se bem &ue se2am
combatidos por todos os lados e talve/ por essa mesma ra/*o1 7p. K"8.
Ho--art destaca &ue as revistas tra/em muito comumente, principalmente direcionadas Es
2ovens e Es donas de casa, a palavra 0pecado1, como tudo &ue pode ferir o lar e o casamento, pois
estes s*o o porto6se-uro. 3a+ o medo do a/ilo de velhos, por a &ualidade de vida no lar . (nica e
ini-ual'vel. As mulheres vi(vas &ue preferem se matar do &ue ter &ue trabalhar e dei)ar seus filhos
no orfanato, o &ue implicaria na sua fam+lia assumindo as crianças a e as dividindo entre si.
;ala da import5ncia da sala de estar como um lu-ar de conforto, calor e tamb.m de boa
comida e menciona &ue a casa ainda . um dos espaços preferidos para se passar o tempo livre,
receber a fam+lia e os ami-os. Luase nunca h' sosse-o em silêncio, a televis*o sempre li-ada, as
pessoas conversando e o barulho dos animais compõem o cen'rio das casas. :obre a comida,
sempre deve ser a 0caseira1, pois a dos caf.s est' &uase sempre estra-ada e n*o tem o &ue os
maridos chamam de 0subst5ncia1, o &ue obri-ado as mulheres a preparar uma vasta &uantidade de
sandu+ches. O detalhe interessante . &ue os padeiros oferecem 0p*es e bolos caseiros1 para vender
mais a esse p(blico.
O autor se dedica a contar as hist,rias da sua pr,pria vida e n*o d' ênfase por e)emplo no
&ue, se-undo ele, a maioria fa/ &ue . mostrar como o aumento do poder de compra tem
influenciado impactando na vida das classes prolet'rias. Ao contr'rio, ele tenta frisar at. &ue ponto
os padrões b'sicos de vida das classes prolet'rias tem permanecido praticamente imut'veis com
passar de todos esses anos.
;inali/a o t,pico do se-uinte modo:
0Aas casas, essas novidades s*o inte-radas no todo &ue instintivamente se pretende criar. Aeste ponto, como em muitos
outros, a anti-a tradiç*o tem sofrido al-umas alterações. ?as um sentido muito forte da import5ncia do lar fa/ com &ue
as mudanças se processem lentamente: as in(meras -erações &ue aprenderam a resistir ao principal fator destrutivo do
lar M o alcoolismo M conse-uiram criar uma resistência s,lida a todos os outros poss+veis elementos destrutivos1 7p. B"8.
C( A !#e
;ala das historias de sua m*e e de outras mulheres prolet'rias, como trabalhadoras e
utili/ando das suas ru-as para contar suas hist,rias. Al.m disso, fortes relatos de submiss*o aos
homens e &ue tiravam a comidade suas bocas para alimentar seus filhos.
D( O Pai
O homem prolet'rio definido fisicamente e tamb.m associado ao chefe da casa, Es ve/es as
mulheres os chamam de 0patr*o1. =m al-uns lu-ares, o homem bom . o &ue n*o -rita e n*o bate na
mulher, mas em outros . valori/ado por ser o homem de verdade. A mesma situaç*o ocorre com a
&uest*o da lida com a casa, &ue, em tese, n*o seria funç*o do homem. D institu+do tamb.m o direito
ao pra/er de -astar uma parte do &ue -anha com ci-arros e cerve2as e isso n*o pode ser trocado por
nada, nem &ue se tire da verba de mercearia.
E( O +airro
Ho--art di/ &ue &uem visita um bairro prolet'rio acha muito horr+vel, pois as casas s*o
prec'rias, h' li)o nas ruas, os terrenos baldios, as crianças mal cuidadas brincando, falta de 'rvores,
etc. !or.m, para os moradores h' um car'ter de aldeia. A vida fa/6se dentro do bairro e tudo est'
perto. 4ompara o merceeiro do bairro com o lo2ista de classe m.dia e aponta &ue esse primeiro n*o
tem relaç*o hier'r&uica, pois . da mesma classe dos demais e ilustra o e)emplo do 0n*o vendo
fiado1 &ue . &uebrado em tempos de crise, pois n*o h' outra forma. ;ala das criações de -ato e
cachorro, &ue tem em todas as casas, al.m dos ratos nos terrrenos baldios e os peri&uitos em -aiolar
improvisadas. Tamb.m menciona as atividades das ruas como os funeiras &ue passam ou as
brincadeiras dos 2ovens &ue, assim como os passeios, s*o definidos pelas estações do ano.
CAP5TU3O III 6 “N7S” E “E3ES”
A( “E3ES”( “DIGNIDADE”(
O -rupo . reforçado pela noç*o de isolamento, onde e)iste o n,s e eles 7sendo o &ue est' de
fora8. H' vis*o &ue l' fora n*o h' acolhimento e n*o d' para sobreviver. O mundo deles . o dos
patrões, e)ceto em casos isolados dos &ue a2udam o 0n,s1, como um m.dico. =les 0nos tratam
como se fossemos animais1. A pol+cia tamb.m est' como 0eles1 e o 0n,s1 sempre sente6se
monitorado e percebendo mais de perto o controle e a repress*o. =les satiri/am os 0eles1 para se
divertir.
A ideia de limpe/a, poupança e di-nidade n*o representa uma vontade de 0subir1
socialmente, mas um medo, -erado desde a crise, de n*o 0cair1 novamente. N' com respeito aos
filhos, os pais dese2am &ue eles subam, principalmente atrav.s dos estudos, o &ue n*o si-nificaria
uma traiç*o de classe.
+( “N7S” 6 UA3IDADES E DE8EITOS
A*o utili/a o termo comunidade, pois pensa &ue isso pode ameni/ar as tensões e as sanções
do -rupo. Oê &ue h' crises tamb.m, embora ressalte o car'ter positivo de serem uns pelos outros e
0a uni*o fa/ a força1. =les se põem em -rupo por saber &ue a cooperaç*o . necess'ria pela dure/a
da vida. Ho--art conta &ue &uem conse-ue uma ascens*o social e sai do bairro sempre sente falta
do calor humano e ser' da&ueles &ue sempre vai preferir a ar&uibancada ao camarote. Tem a
filosofia de &ue dinheiro n*o . tudo, embora incentivem os filhos a -anhar. O -rupo . fechado e
opõe6se E ideia de mudança.
Ho--art em v'rios momentos busca as informações de sua mem,ria do passado e utili/a
e)pressões como 0eu acho1 para e)plicar suas colocações. 4omenta sobre as bri-as 7casais,
mulheres, por dinheiro em bebida, por traiç*o, etc.8 e os suic+dios &ue eram tratados como casos
p(blicos.
C( “AGUENTAR”2 “9I9ER E DEI:AR 9I9ER”
@m mundo sem perspectivas de -randes melhorias, onde os homens tem trabalhos
desinteressantes e as mulheres vivem tentando f,rmulas para esticar o dinheiro. A*o h' hero+smo e
0o &ue n*o tem rem.dio, remediado est'1 e para viver 0. preciso fa/er das tripas coraç*o1.
;ala bastante da relaç*o problem'tica do proletariado com o 'lcool, pelo dinheiro investido
nisso e pela &uantidade de bri-as, o alcoolismo virou um terror Es fam+lias. Houve uma diminuiç*o
substancial do consumo do 'lcool, or-ulhando os filhos pelos pais &ue paravam. Apesar disso, beber
ainda era bom, mesmo &ue me menores &uantidades.
CAP5TU3O I9 – O MUNDO DAS PESSOAS TAIS COMO E3AS S;O
A( O E3EMENTO PESSOA3 E CONCRETO

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