UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE - UFS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA







HÚDSON KLÉBER PALMEIRA CANUTO











SEMINÁRIO
LEIBNIZ: O SIGNIFICADO DAS PALAVRAS

























Aracaju - SE
2014

HÚDSON KLÉBER PALMEIRA CANUTO
















SEMINÁRIO
LEIBNIZ: O SIGNIFICADO DAS PALAVRAS








Seminário solicitado pelo prof. William de Si-
queira Piauí como parte integrante do processo
de desenvolvimento da disciplina Conheci-
mento e linguagem, no 1.º semestre de 2014.

















Aracaju - SE
2014
3
FILOSOFIA: CONHECIMENTO E LINGUAGEM
SEMINÁRIO: LEIBNIZ
A SIGNIFICAÇÃO DAS PALAVRAS
ORIENTADOR: PROF.DR. WILLIAM SIQUEIRA PIAUÍ
ALUNO: HÚDSON CANUTO

No início do capítulo II do livro III dos Novos Ensaios, Leibniz pretende resolver
a questão proposta por John Locke sobre a significação das palavras
1
. Segundo Locke (2005,
p. 545)
2
, «a função das palavras é serem marcas sensíveis das ideias, e as ideias que elas re-
presentam constituem a sua significação própria e imediata.» Mas também pode-se plantear a
questão de como as palavras receberam um sentido determinado.
Leibniz aduz que se ensina geralmente que a significação das palavras é arbitrária
(ex īnstitūtō, κατὰ σσνθήκην
3
), isso quer dizer que o significado delas não é determinado por
uma necessidade natural. Conquanto, às vezes, possa determinar-se por motivos naturais, en-
tendendo também o acaso
4
, e que também, às vezes, entram na baila motivos morais, tendo
aqui espaço a escolha. O acaso e a escolha são, pois, elementos acidentais na formação do
sentido das palavras.
Começando a explicar pelos motivos morais, Leibniz considera que «talvez exis-
tam algumas línguas artificiais» cujas palavras e significações sejam fruto de escolha e intei-
ramente arbitrária
5
. Exemplificando isso, Leibniz apõe a língua chinesa, conforme se pensava
à época teria sido «inventada por um homem inteligente», citando Gólio (LEIBNIZ, 2004, p.
262).
Considera, outrossim, a gíria, que partindo da língua comum, tão somente modifi-
ca-lhe «a significação tradicional das palavras por metáforas
6
», mas também cunhando novos

1
LOCKE, J. Ensaio sobre o entendimento humano. Vol. II (Livros III e IV). Lisboa: Edição da Fundação
Calouste Gulbenkian, 2005, pp. 545-551. Cotejado com o texto inglês: An Essay concerning human unders-
tanding. Volume I. Londres: J. Johnson et alii. 1805.
2
The use then of words is to be sensible marks of ideas; and the ideas they stand for are their proper and imme-
diate signification. (LOCKE, 1805, p. 430.)
3
ARISTÓTELES, Peri Hermeneias, 2,16a20.
4
«Où le hasard a quelque part», na tradução do sr. Luiz João Baraúna (Col. Pensadores. Nova Cultural, 2004)
traduziu por caso.
5
Aqui se segue o texto francês (1846, p. 287): Il y a peut-être quelques langues artificielles, que sont toutes de
choix et entièrement arbitraires.
6
Metáfora: Figura de linguagem que consiste em estabelecer uma analogia de significados entre duas palavras
ou expressões, empregando uma pela outra (Caldas Aulete eletrônico, verbete: Metáfora)
4
termos por composição ou por derivação, que são dois dos tantos processos de formação das
palavras nas línguas
7
.
Ademais, o relacionamento e o contacto entre vários povos , segundo Leibniz
(2004, p. 268), «…tomando uma por base, estropiando e alterando-a, mesclando e corrom-
pendo-a, negligenciando e mudando o que ela observa como próprio, e mesmo acrescentando-
lhe outras palavras».
Refere-se ele a uma lingua franca, mais claramente simplificações do italiano e
do latim, que se mostravam aptas para a comunicação exatamente por conta da simplicidade.
Afirma sobre a língua cunhada a partir do latim: «esta língua é mais fácil e tem menos com-
plicações que o nosso latim.»
Quanto às línguas antigas, Leibniz considera que já não há mais nenhuma que
mantenha sua pureza original, posto que, segundo diz, «não existe nenhuma que não esteja
hoje profundamente alterada
8
». Parece que nosso filósofo considera as línguas como elemen-
tos estanques, que não se desenvolvam nem evoluam. Que a língua antiga e, quiçá, mais ori-
ginal está reclusa nos livros, inscrições e monumentos antigos. Disso dá provas de várias ver-
sões feitas de livros bíblicos para línguas antigas, excetuando, claramente, o grego e o latim,
que têm literatura própria e independente dos códices bíblicos.
Segue a partir daqui com uma comparação feita entre as línguas antigas e suas va-
riações modernas, mostrando que houve muita mudança da forma mais antiga da língua ao
que se pode ver e ouvir nos tempos de nosso filósofo.
Refere-se a línguas que têm muitas raízes comuns entre si e com as europeias e
acha «que seria impossível atribuí-las ao mero acaso, nem mesmo exclusivamente ao comér-
cio, mas antes à migração dos povos
9
.» De sorte que, para Leibniz, os povos transformam,
enriquecem e mudam as línguas saindo de suas terras e indo assentar-se em terras estrangei-
ras.
Partindo da suposição de que as línguas têm algo de mais primitivo nelas, chega à
conclusão que a essas línguas «lhes sobreveio com relação a palavras radicais e radicais no-
vos
10
» (LEIBNIZ, 2004, p. 270), afirmando que essas palavras e radicais foram formados nas
línguas ao acaso, tendo como base razões de ordem física. Trata detidamente das onomatopei-

7
Composição: por justaposição: passatempo; por aglutinação: aguardente. Derivação: prefixal: infeliz; sufixal:
felizmente; mista: infelizmente; parassintética: engarrafar; regressiva: combate → combater; imprópria: o cantar
dos pássaros…
8
2004, p. 268.
9
LEIBNIZ, 2004, p. 270.
10
O autor deste texto não seguiu a tradução brasileira de Luiz João Baraúna, que a seu ver não reflete o que se lê
no texto francês: mots radicaux et nouveaux radicaux, optando por fazer uma versão direta.
5
as, primeiramente das vozes dos animais, comparando no latim e no alemão. E analisando sua
evolução semântica. Disso dá exemplo a latina coaxāre, som emitido pela rã, com o alemão
quaken e a evolução semântica dessa palavra onomatopeica em quakeler que designa aos dis-
cursos vazios e tagarelices ou verborragias.
Há algo muito interessante a ser notado nesse parágrafo. Leibniz começa a fazer
uma distinção no uso das palavras francesas mot e parole
11
, referida por ele mesmo (2004, p.
270-1) no seguinte texto: «…esta mesma palavra (mot) quaken era outrora tomada em bom
sentido, significando toda sorte de sons que se produzem com a boca, sem excetuar a própria
palavra (parole)».
A partir daqui, Leibniz começa a fazer uma análise fonológico-semântica, segun-
do a qual, parece haver uma séria conexão entre alguns sons/letras a sentidos. Principia com a
letra/som R, que segundo ele serve «para exprimir um movimento violento e um ruído que
corresponde ao que se produz pronunciando esta letra» (2004, p. 271). Aduz uma série de
exemplos de várias línguas (grego, latim e alemão) e, inclusive, faz notar como certos apelati-
vos são cunhados com tal letra/som para representar sua natureza. De fato, diz mais adiante:
«… o R significa naturalmente um movimento violento…
12
» (grifo do nosso).
Do mesmo modo que considerou o R como sendo um movimento violento, Leib-
niz passa a tratar do L, vendo nele a expressão de um movimento mais doce. Trata inclusive
do problema de fala (e também um metaplasmo
13
), chamado lambdacismo, que consiste na
troca, na pronúncia, do R pelo L.
Segue depois tratando da vogal A (primeira letra do alfabeto) seguida dum aspira-
ção fraca (spīritus lenis), que parece indicar uma emissão de ar e, como sói fazer, apresenta
diversos exemplos que sustentam sua afirmação. Considerando o ar como um fluido, passa à
água, outro fluido, e liga a vogal A também a ela, novamente seguida da aspiração que cada
povo expressará ou escreverá segundo suas características particulares. Leibniz, não se pôde
saber a razão, cometeu um deslize em citar uma língua não indo-europeia, pois refere-se ele à
palavra ilha, em hebraico, dizendo ser Ai
14
, mas nessa língua a palavra ilha é ‘i, representada

11
Mot: elemento de base da língua; som ou grupo de sons articulados ou representados graficamente, que cor-
responde a um sentido ligado à representação de algo (ser, objeto etc.).
Parole: elemento da linguagem falada, faculdade de falar. (www.le-dictionnaire.com consultado em 28/3/2014.)
12
Leibniz, 2004, p. 271.
13
«Várias são as alterações que se operam nos vocábulos, tendo por base o som, a vogal. Algumas palavras
recebem novos sons, novas sílabas; outras perdem alguns dos que já possuíam; outras enfim podem mudar a
posição desses sons. Tais modificações são operadas por meio de determinados fenômenos fonéticos a que se dá,
geralmente, o nome de metaplasmos.» (BUENO, s/d, p.30)
14
Do texto em francês, deduz-se que a pronúncia seja é e não ai, como preferiu o sr. Luiz João Baraúna. Isso se
vê pelo fato de não se encontrar na escrita o sinal de diérese sobre o i (aï) que indicaria a pronúncia separada dos
sons.
6
pelas letras álef e yod (יא), a letra álef (א) em hebraico não representa um som, mas sempre
assume o som da vogal. E a vogal em que questão é o yod (י), que tanto pode ser vogal quanto
consoante (semelhante ao i e ao v latinos). Nesse caso, parece que a aposição dum som a à
palavra hebraica, tem por fito justificar a afirmação de que o A designa algo fluido.
Leibniz afirma que não se deve dar crédito às etimologias, a não ser no caso de
haver uma suficiente quantidade de exemplos que as asseverem e corroborem. Dá ele o nome
de goropisação (em francês: goropiser), em referência ao douto médico Goropius Becanus,
que escrevera um livro de etimologias, segundo Leibniz não muito sérias. Para o nosso filóso-
fo o essencial da pesquisa etimológica é descobrir as harmonias vigentes entre elas, contribu-
indo, destarte, especialmente, ao esclarecimento da origem das nações.
Das palavras sempre se compreende algo de geral, «por mais irracional e destituí-
do de inteligência que seja o pensamento» (LEIBINIZ, 2004, p. 275). O filósofo de Leipzig
parece achar que há pessoas que não passam de reprodutores de falas e pensamentos alheios,
sem jamais ter produzido algo de inteiramente seu.
Segundo o dito de Locke (2005, p. 548): «… as palavras significam também a rea-
lidade das coisas» e nos dizeres de Leibniz (2004, p. 275): «… as pessoas ligam seus pensa-
mentos mais às palavras que às coisas», e segue ainda dizendo que (id. ibid.) «…as pessoas
pretendem, via de regra, assinalar as suas próprias ideias» visto que a pessoa com quem se
trava uma conversa deve ter as mesmas noções que o interlocutor, doutra sorte pareceria esta-
rem falando em línguas estrangeiras. Diz Locke, segundo Leibniz (2005, p. 276): «isto se ve-
rifica em particular quanto às ideias simples e aos modos, mas, quanto às substâncias, acredi-
ta-se mais particularmente que as palavras significam também a realidade das coisas».
As substâncias, pensa Leibniz, são representadas por ideias, ao passo que as coi-
sas e as ideias mesmas por palavras (mots). Ele, portanto, estabelece uma diferenciação: que
as ideias das coisas substanciais e das qualidades sensíveis são ideias mais fixas. E que as
ideias e pensamentos constituem-se em matéria de discursos e perfazem (font) a coisa mesma
que querem significar.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARISTÓTELES, Peri hermeneias (Περὶ ἑρμηνέιας) 2,16a20.

BUENO, F. da S. Gramática normativa da língua portuguesa: com suplemento literário e a
Nomenclatura gramatical brasileira. Rev. e atual. São Paulo: Editora Meca Ltda.

CALDAS AULETE, dicionário digital.

LEIBNIZ, G. W. Nouveaux essais sur l’entendement humain (Oeuvres de Leibniz). Paris:
Charpentier, Libraire-Éditeur, 1846.

_____. Novos ensaios sobre o entendimento humano. Trad.: Luiz João Baraúna. São Paulo:
Editora Nova Cultural, 2004.

LOCKE, J. An essay concerning human understanding. Volume I. Londres: J. Johnson et
alii. 1805.

_____. Ensaio sobre o entendimento humano. Volume II, Coordenação da trad.: Eduardo
Abranches de Soveral. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2005.

PEREIRA, I. Dicionário Grego-Português e Português-Grego. 6.ª ed. Porto: Livraria Apos-
tolado da Imprensa, 1984.

PERKINS, F. Compreender Leibniz. Trad.: Marcus Penchel. Petrópolis: Vozes, 2007.

REALE, G. ANTISERI, D. História da filosofia: Do Humanismo a Kant. Volume 2. 3.ª ed.
São Paulo: Paulus, 1990 (Coleção Filosofia).

www.le-dictionnaire.com consultado em 28/3/2014.

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