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―Nós somos tempo e nada mais, nós somos

como depois de Schopenhauer tantas vezes se repetiu, uma
breve luz irrompendo sem razão no seio de uma vida desprovida
dela e de novo reenviada à pura noite? Pois se assim é, seja
assim. Aceitemos o jogo e joguemo-lo que só nessa aceitação
voluntária «o bem consiste». (…)‖
1


Esta breve análise tem como intuito a constituição de uma comparação, em
meio à multiplicidade poética de Fernando Pessoa, de duas das faces que o poeta
assume. Para tanto, ocorrerá o estudo a partir dos poemas D. Sebastião Rei de
Portugal
2
– do ortônimo Fernando Pessoa – e Nada Fica de Nada. Nada Somos [2]
3

– do heterônimo Ricardo Reis –, convergindo os caminhos da crítica e da história a
partir de correspondências e divergências quanto a questões do ponto de vista e da
formulação estética.
Fernando Pessoa
4
se torna o grande poeta múltiplo da literatura portuguesa
ao se despersonalizar e se fragmentar em autores outros, suas próprias questões
são multiplicadas e redimensionadas, colocando em xeque os fundamentos da
literatura. Deste modo, as faces da heteronímia e da ortonímia pessoana são os
resultados da dissimulação e da tensão do poeta a partir de suas experiências.
O ortônimo Fernando Pessoa se caracteriza na constante tensão entre
características que são, por outro lado, características delimitadoras de seus
heterônimos. Assim, o poeta alterna entre o material e o sonho, a realidade e a
idealidade como parece incapaz de uma auto-definição.(MONTEIRO, 1985)
No poema D. Sebastião Rei de Portugal, Pessoa resgata um personagem
português que é envolvido, comumente, de um misticismo, de forma que o poeta
assume essa identidade folclórica do rei para apresentar uma visão interna dos
acontecimentos e da alma humana. O poema encontra-se entre as Quinas, na
primeira parte – o Brasão – da coletânea de poemas Mensagem
5
–, e é notável em

1
LOURENÇO, Eduardo. Pessoa Revisitado, Gradiva, 2003, Ricardo Reis ou o inacessível
paganismo, págs. 53/54
2
PESSOA, Fernando. Quinta: D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL in: Mensagem. Lisboa: Parceria
António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 42.
3
REIS, Ricardo. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes
Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 168a.
4
Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de
1935)
5
Escritos de 1913-1934
sua constituição a dualidade das questões, seja no gênero que alterna entre épica e
lírica, seja na construção do D. Sebastião de Pessoa, que muito pouco tem a ver
com o rei histórico, sendo antes transfigurado em símbolo da humana aspiração à
transcendência de todo o fado.
Em relação à matriz épica, há um tom de exaltação heróica que transpassa o
poema ao evocar a matéria historio-mítica que envolve o rei. Ainda assim, a matéria
épica se fragmenta e se interioriza, tornando exposto o sujeito poético que pode se
tornar qualquer um, todos sujeitos à loucura. De modo que o sujeito poético, que na
primeira estrofe se caracteriza como ―louco‖, faz na estrofe seguinte uma diáspora
de sua loucura, tornando-a elogiosa e digna de continuidade.
De certa forma, a loucura neste poema tem uma conotação positiva, já que se
liga ao desejo de grandeza digno de reis e sonhadores, no contexto do rei, há uma
referência à figura histórica ―ser que houve‖ que é encoberta pela figura mítica que
perdura do ser que ―há‖. Deste modo, a capacidade do homem de dissimular a
realidade é o que o torna capaz de seguir em frente, fingindo não temer a morte,
ainda que se saiba animal sadio ou reprodutor com a morte adivinhada.
Por outro lado, Ricardo Reis é representante da poética clássica e do
paganismo. O heterônimo prega o pensamento de que, diante do irretorquível
destino na morte, cabe ao homem a sabedoria de não cair em desassossegos ou
grandes alegrias. Para Reis, tudo perde o sentido e passa irrefutavelmente diante
da morte.
Na ode Nada Fica de Nada. Nada Somos [2], a idéia guia de toda obra de
Ricardo Reis é exposta, de que a vida deve ser atravessada com a indiferença
daqueles que sabem que seu fim já está irremediavelmente traçado. Deste modo, o
poeta premedita também a efemeridade de todas as criações humanas, já que ―o
que fazemos é o que somos‖, todas as coisas encontram, ainda que com um atraso
desnecessário, poente.
Logo, o poeta inutiliza a vida, parando de vivê-la amplamente, apenas por ter
consciência da morte, torna-se – ainda que vivo – um sujeito reduzido ao nada, que
se recusa a viver e a aceitar a fastidiosa e inebriante passagem do tempo. Deste
modo, na segunda ode Nada Fica de Nada. Nada Somos
6
, o heterônimo precisa
reafirmar seu distanciamento ilusório perante aos outros que estão sujeitos à vida.

6
REIS, Ricardo. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz Fagundes
Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 168.

Ao retomar à imagem pessoana de ―cadáveres adiados que procriam.‖
7
,
Ricardo Reis ainda a complementa, com sua posição aristocrática defronte à vida,
colocando a si e a toda a humanidade no papel metalingüístico de personagens
manipuláveis e fictícios que contam um conto, tal como fazem parte de um.
Assim, enquanto na obra do ortônimo de Fernando Pessoa o poeta coloca a
loucura como característica fundamental da grandeza, de modo que esta impede
que os homens sejam apenas cadáveres adiados, que em vida agem como mortos;
na obra do heterônimo Ricardo Reis este, ao buscar se afastar da finita realidade
humana, traz para si o fingimento da grandeza que o permite ver os outros como
cadáveres adiados, mas não enxergar a ele próprio também como parte desse
processo, não há, para ele então delineamentos entre passado, presente e futuro,
muito menos entre realidade e sua autoficção.
―Vimos da sombra e vamos para a sombra. Só o presente é
nosso, mas que é o presente senão a linha ideal que separa o
passado do futuro? Assim toda a vida é fragmentária, a
personalidade una é uma ilusão, não podemos apreender em nós
uma constante que nos identifique. O sentimento heraclitiano da
transitoriedade das coisas conduz à negação do eu. Viver no tempo
é depararmo-nos com o vazio de nós próprios: «Quem me dirá quem
sou? (…)‖ COELHO, 1979.
Deste modo, ainda que a partir da mesma imagem, Ricardo Reis é composto
como uma ironia de Fernando Pessoa, pois acoberta o medo e a angústia como um
fingidor, e se protege com uma máscara de tranqüila austeridade quando se afasta
de seu tempo e de seus semelhantes.








7
D. Sebastião Rei de Portugal (Fernando Pessoa); Nada Fica de Nada. Nada Somos [1], Nada Fica
de Nada. Nada Somos [2] (Ricardo Reis).
Anexos

Quinta: D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
20-2-1933

Nada fica de nada. Nada somos. [2]
Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pesa
Da húmida terra imposta.
Leis feitas, estátuas altas, odes findas -
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, porque não elas?
O que fazemos é o que somos. Nada
Nos cria, nos governa e nos acaba.
Somos contos contando contos, cadáveres
Adiados que procriam.
28-9-1932



Referências.

LOURENÇO, Eduardo. Pessoa Revisitado, Gradiva, 2003, Ricardo Reis ou o
inacessível paganismo, págs. 53/54

PESSOA, Fernando. Quinta: D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL in: Mensagem.
Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 42.

REIS, Ricardo. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz
Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 168a.

REIS, Ricardo. Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. (Edição Crítica de Luiz
Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994. - 168.

MONTEIRO, Adolfo Casais. A poesia de Fernando Pessoa. 2ª edição. Lisboa:
Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1985

COELHO, Jacinto do Prado, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa, Editorial
Verbo, 1979.