You are on page 1of 204

HERNANDE S DI AS LOPES

C&PPt
NA ESCOLA DA VIDA
AjxtencLencLo- a pAcdicaA o -l wAinxrnientaA. ôíMíco-í na dia a dia
H H b
VOXLITTIKI
um s e i o p d i r o f i e l h a g no s
A, vida é, uma eA^co&a em que, to-doA, rwA, eAtamoA,
matAicuiadoA,. ïleAAa eA^cala alqutvï, apAeudem tnuito- e
'uxflidamente.j outAo-i, pouco- e, lejvtamenJte.. 0 apAendigado-
neAAa eAcata tem tnaiA, a v~eAcam al liçãeA, co-lfiidai,
daA, e^peAiênciai, da vida, do- que, com a p£A$oAmatvce,
intel&ctuxxl.
Jt eAxuy&a da vida é difaeAerite, da eAcota convencional.
V^imeiAo- paAAamoA, pieJla pAov-a, defioii, apAendemoA, a
lição-. GUiemaMim pAo-cexie, toAna-iue, (fam-auentuAado-.
PoAém, quem be, fiecfia ao- aprendizado- iopie, contequênciai,
deAxvíUboAxxA,. tPá&ioA, ião- oA, que- apAendem tião- íá- com ai,
esxsfieAiÂnciaA. pAÓfiAiaí, mai, tam&ém com ai, esxsp^AiênciaA,
doA, ouÍAoA, e, têm oA. oifivoA, aâeAtoA, pxxAa veA e, coAação-
atento- puAa alAeAvaA a qateAia doA, PieAÓiA, da faie, imitá-loA,.
YleAJte, livAo- encontAaAemoA, vÓAiai, p£AixtnaçenA ßMicai,.
Algumaá, andaAam com Qeui,, outAaA, ie, te&eJtaAam contAa
tie,; alqumcvi, viv^Aam na tuty, outAaA, nai, tAevuA; aJtqumai,
colfteAam o-i, ^AutoA, (fenxtitoA, de, iua leme-aduAa, outAai,
ceifiaAam a maldita ixtpia de, íeu louco- uw-eAtimento-. A, vida
f
nunca i neidAa. 8, (tènção- ou maldição-.
ïloAAaâ, eAcoJWiai, irai, conduzem à vida ou à moAte,. £ na,
eAcala da vida com faíuâ,, tamhém apAendemoA, a px^eA
eAcolhai, íáliaí.
V O X L I T T X K I ^ ^
um selo edtronal hagrtas
ISBN 978-85-63563-38-5
9 788563 563385
Categoria: Espiritualidade
0 afyeJtwo- de todo- e quoique^
apAendifodo OMiao- é a
tAam§oAmação de vidal. 0
conlïecimento inte£ectuat pade leA
a início, mal não é a ßim. Qcuno-
em toda elcola há éfiocal em que
a ciiAMcuèa eltá muito- afieAÍado,
em que não entendemal muito- ftern
a tição, em que al pAooai, fticam
muito- difiíceil.
Ylo- entanto-, quando pxxAxmvo-l
paAa afiAendeA com o YÏLeiJtAe do-l
meiiAel, e ulatnoA. o íioAo tewto-,
noMu itida é modificada. £ elle é o-
oêÿetiuo della elcola.
$ 2 012 por
Htrnindea Dias Lopes
lUvlafio
Prtseila Porcher
Raquel Fleischner
Capa
Maquinaria Studio
Diagramação
Catia Soderi
l a edição - Fevereiro de 2012
Reimpressão - Maio de 2012
Editor
Juan Carlos Martinez
Consultor acadêmico:
Luiz Sayão
Coordenador de produção
Mauro W. Terrengui
Impressão e acabamento
Imprensa da Fé
Todos os direitos desta edição reservados para:
Editora Hagnos
Av. Jacinto Júlio, 27
04815-160 - São Paulo - SP - Tel (11) 5668-5668
hagnos@hagnos.com.br - www.hagnos.com.br
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Lopes, Hemandes Dias
Com Jesus na escola da vida / Hernandes Dias Lopes. —São Paulo : Vox
Litteris, 2012.
Bibliografia.
ISBN 978-85-63563-38-5
1. Bíblia - Biografias 2, Discipulado (Cristianismo) 3. Jesus Cristo - Ensinamentos
I. Título.
12-00729 CDD-232.904
índices para catálogo sistemático:
1. Jesus como mestre: Cristologia 232.904
DEDICATÓRIA
Dedico este livro aos jovens da Primeira Igreja
Presbiteriana de Vitória, com quem tenho
compartilhado a Palavra de Deus e com quem
tenho aprendido grandes lições acerca da
caminhada com Jesus na escola da vida
SUMÁRIO
Prefácio............................................................................................7
1 - Caim, um homem que fingiu
ser um adorador............................................................ 9
2 - Daniel, as marcas de um homem í n t e g r o .............. 17
3 —J ó , um homem provado por D e u s ............................ 25
4 - Estêvão, vida de plenitude............................................35
5 - Pedro, os degraus da queda e a escalada
da restauração............................................................. 45
6 - Noemi, como se libertar dos traumas da vida ... 57
7 - Paulo, o maior bandeirante do cristianismo...... 69
8 - Um jovem anônimo..........................................................81
9 - 0 homem de Gadara, o valor de uma v i d a ............87
10 - Um jovem que tinha tudo para ser f e l i z ............. 101
11 ~ João Marcos, quando o fracasso não tem
a última palavra....................................................... 107
12 —Neemias, um intercessor.......................................... 113
13 - Neemias, o líder que mudou a história
de uma n a ç ã o .............................................................127
14 - Is aí as, um homem que olhou para Deus
no dia da aflição.............................................. 137
15 - Eli, o homem que falhou na sua mais
importante missão.........................................145
16 - Saul, manobras erradas na estrada da vida ... 155
17 - Jabez, como superar as dores do passado .... 165
18 - Mefibosete, a graça restauradora de Deus
em ação............................................................171
1 9 -Timóteo, um jovem fiel...................................... 179
20 - João Batista, um homem a quem Deus usa... 185
2 1 - 0 irmão mais velho do pródigo, perdido dentro
da igreja................................................ ............199
PREFÁCIO
Com Jesus na escola da vida é um livro cujo propósito
é desafiar você a imitar pessoas que andaram com
Deus e evitar os erros cometidos por aqueles que se
rebelaram contra Deus. A vida é uma escola. Todos
nós somos matriculados nessa escola, mas ninguém é
diplomado. Permanecemos como aprendizes até o fim.
Nessa escola não há alunos faltosos nem repetentes.
Alguns aprendem mais rápido, outros quebram
a cabeça e quase nada aprendem. O aprendizado
nessa escola tem mais a ver com as lições colhidas
das experiências da vida do que com a performance
intelectual. Nosso livro-texto não pode ser folheado
numa biblioteca. Precisamos descortiná-lo na dura
caminhada da vida, pelos vales e montes, amaciando
o solo da estrada com nossas próprias lágrimas.
A escola da vida é diferente da escola convencional.
Nesta, primeiro aprendemos a lição, depois fazemos
a prova. Na escola da vida, primeiro passamos pela
prova, depois aprendemos a lição. Os alunos que,
ao passarem pela prova, aprendem a lição tornam-
-se bem-aventurados. Porém, os que se fecham ao
aprendizado e mesmo sendo amassados na prensa
e acrisolados na fornalha não aprendem a viver
Com Jesus na escola da vida
de forma sábia colhem derrotas amargas e sofrem
consequências desastrosas. Os sábios são aqueles que
aprendem não apenas com suas próprias experiências,
mas também com as experiências dos outros. São
aqueles que têm os olhos abertos para ver e o coração
atento para observar a galeria dos heróis da fé, para
imitá-los ou para fugir do caminho dos transgressores.
Neste livro você vai encontrar 21 personagens.
Alguns deles andaram com Deus, outros se rebelaram
contra o Altíssimo; alguns viveram na luz, outros
permaneceram num berço de trevas; alguns colheram
os frutos benditos de sua semeadura, outros ceifaram
a maldita safra de seu louco investimento. Uma
vida nunca é neutra. É bênção ou maldição. Nossas
escolhas nos conduzem à vida ou nos induzem à
morte. Precisamos fazer escolhas sábias. Aconselho
você a escolher a vida e a seguir exemplos dignos de
serem imitados. Que Deus ilumine o seu coração para
que, na escola da vida, você saia aprovado, recebendo
bênçãos e sendo um abençoador.
Hernandes Dias Lopes
8
CAPÍTULO 1
um homem que fingiu
ser um adorador
Caim foi o primeiro filho de Adão e Eva. Ele apren­
deu com os seus pais sobre a necessidade de adorar
a Deus. Ele e Abel, seu irmão, receberam as mesmas
instruções. Foram criados debaixo dos mesmos prin­
cípios e valores. Sugaram o mesmo leite materno e
cresceram sob iguais instruções. Ouviram as mesmas
histórias e aprenderam as mesmas coisas sobre o cul­
to que agrada a Deus. Mas o coração de Caim não era
reto diante de Deus. Ele não se sujeitou aos princípios
de Deus. Ele não se colocou debaixo da autoridade da
Palavra de Deus. Ele quis fazer as coisas de Deus do
9
Com Jesus na escola da vida
seu próprio jeito. Quis mostrar sua própria justiça em
vez de aceitar a justiça que vem de Deus. Caim fingiu
ser um adorador quando, na verdade, era um compe­
tidor. Seu culto apenas escondia a máscara de justiça
própria que ostentava.
Vejamos como Caim utilizou essa máscara.
Em primeiro lugar, Caim afivelou a máscara da jus­
tiça própria ao prestar um culto a Deus sem observar os
princípios de Deus sobre o culto. Desde os primórdios da
história humana, Deus ensinou o princípio de que não
há remissão de pecados sem derramamento de sangue
(Hb 9.22). Quando Adão e Eva pecaram no Éden, Deus
os cobriu com peles de animais. Fez o Senhor Deus ves­
timenta de peles para Adão e sua mulher e os vestiu (Gn
3,21). Para cobrir a nudez de Adão e Eva, um animal foi
sacrificado, e o sangue foi derramado. Toda pessoa que
se chegava a Deus para adorar precisava aproximar-se
por meio do sangue. Não que o sangue de ovelhas e bo­
des pudesse purificar o coração do homem, mas o san­
gue desses animais apontava para o sacrifício perfeito
de Cristo na cruz (Rm 3.24-26). Todos os sacrifícios e
holocaustos apontavam para o Cordeiro de Deus, que
tira o pecado do mundo (Jo 1.29). Quando Caim trouxe
a Deus um sacrifício incruento, ele estava desprezando
o caminho de Deus, a Palavra de Deus, as normas do
culto divino. Ele queria abrir para Deus um caminho
pelos seus próprios esforços, o caminho das obras, dos
seus próprios feitos. O caminho de Caim (Jd 11) é o
caminho do humanismo idolátrico, das obras de justiça
divorciadas da graça, da autopromoção.
10
Caim, um homem que fingiu ser um adorador
Em segundo lugar, Caim usou a máscara da justi­
ça própria ao prestar um culto a Deus sem examinar o
seu próprio coração. O apóstolo João afirma que Caim
era do Maligno ( l J o 3.12). Ele queria cultuar a Deus
sem pertencer a Deus. Ele queria enganar Deus com
a sua oferta, enquanto ele mesmo era do Maligno.
Caim pensou que pudesse separar o culto da vida. Ele
pensou que Deus estivesse buscando adoração, e não
adoradores. Jesus disse para a mulher samaritana que
Deus busca não adoração, mas adoradores que o ado­
rem em espírito e em verdade (Jo 4.23,24). Deus não
se impressiona com a pompa do nosso culto nem com
a nossa performance diante dos homens. Ele busca a
verdade no íntimo. Se a nossa vida não for de Deus
e não estiver certa com Deus, o nosso culto será abo­
minável aos olhos do Senhor. Deus não se agrada de
rituais divorciados da vida. Culto sem vida é uma abo­
minação aos olhos de Deus (Is 1.13,14; Am 5.21-23;
Ml 1.10).
Terceiro, Caim usou a máscara da justiça própria ao
prestar um culto a Deus com o coração cheio de ódio e in­
veja do seu irmão Abel. O apóstolo João ainda nos diz
que Caim [...] era do Maligno e assassinou a seu irmão; e
por que o assassinou? Porque as suas obras eram más, e
as de seu irmão, justas ( l J o 3.12). De nada adianta tra­
zermos ofertas a Deus se o nosso coração é um poço de
inveja e ódio. Nossa relação com Deus não pode estar
certa se a nossa relação com os irmãos está quebrada.
Antes de trazer nossa oferta ao altar, precisamos nos
reconciliar com os nossos irmãos (Mt 5.23,24). Deus
11
não aceita as nossas ofertas se o nosso coração não é
reto diante dele e está cheio de mágoas. Antes de Deus
aceitar a nossa oferta, ele precisa aceitar a nossa vida.
Não podemos separar o culto da vida. Nossas músicas
serão apenas um barulho aos ouvidos de Deus se a
nossa vida não estiver em sintonia com a sua vonta­
de (Am 5.23). Deus vai rejeitar as ofertas de nossas
mãos se não o honrarmos com nossas vidas e atitudes
(Ml 1.10). As obras de Caim eram más porque o seu
coração era mau. Ele era do Maligno. Ele não conhe­
cia a Deus nem cultuava a Deus, cultuava a si mesmo.
Ele afrontava a Deus oferecendo uma oferta errada,
da forma errada, com a motivação errada. Ele queria
enganar Deus e ganhar o status de adorador quando
não passava de filho do Maligno.
Mas o apóstolo João nos informa, ainda, que a raiz
do problema de Caim era a inveja. Em vez de imitar o
seu irmão, ele se desgostou em ver Deus aceitando a
oferta de Abel. Em vez de aprender com o seu irmão,
ele quis eliminá-lo. A inveja de Caim levou-o a tapar
os olhos e os ouvidos para o aprendizado. Ele se en­
dureceu no seu caminho de rebeldia. Ele não apenas
sentiu inveja, mas consumou o seu pecado, levando
o irmão à morte. Ele não apenas odiou o seu irmão,
mas o fez de forma sórdida. Odiou-o não pelo mal que
este praticara, mas pelo bem; não pelos seus erros,
mas pelas suas virtudes. A luz de Abel cegou Caim.
As virtudes de Abel embruteceram Caim. A vida de
Abel gestou a morte no coração de Caim. O culto de
Caim, longe de aproximá-lo de Deus, afastou-o ainda
Com Jesus na escola da vida
12
Cai m, um homem que fingiu ser um azc'czz'
mais. O seu culto não passava de um arremedo, de
uma máscara grotesca para esconder o seu coração in­
vejoso, vaidoso e cheio de justiça própria.
Em quarto lugar, Caim usou a máscara da justiça
própria ao rejeitar a exortação de Deus. Caim não
apenas estava errado, mas não queria se corrigir.
Assim dizem as Escrituras:
Aconteceu que no fim de uns tempos trouxe Caim do
fruto da terra uma oferta ao Senhor. Abel, por sua vez,
trouxe das primícias do seu rebanho e da gordura deste.
Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta; ao passo que
de Caim e de sua oferta não se agradou. Irou-se, pois, so­
bremaneira, Caim, e descaiu-lhe o semblante. Então, lhe
disse o Senhor: Por que andas irado, e por que descaiu o
teu semblante? Se procederes bem, não é certo que serás
aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à
porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre domi­
ná-lo (Gn 4.3-7)
Caim não foi escorraçado por Deus ao trazer a ofer­
ta errada, com a vida errada e com a motivação erra­
da. Deus o exortou. Deus lhe deu a oportunidade de
mudar de vida. Caim teve a chance de se corrigir. Mas
ele era muito orgulhoso para admitir os seus próprios
erros. A máscara da justiça própria estava muito bem
afivelada e engessada para ser arrancada. Ele preferiu
o caminho da rebeldia e da desobediência. Longe de se
arrepender, de tomar novo rumo, Caim deu mais um
passo na direção do pecado. Em vez de virar as costas
para o pecado, ele virou as costas para Deus.
13
Vemos nesse texto alguns fatos dignos de nota:
Primeiro, Deus está mais interessado em quem nós
somos do que naquilo que fazemos. Deus se agradou
de Abel e da sua oferta, ao passo que de Caim e da sua
oferta não se agradou. A vida vem antes do serviço. A
verdade vem antes da adoração. A motivação é mais
importante do que a ação. Segundo, a mesma verda­
de que dirige um endurece o outro. O mesmo sol que
endurece o barro amolece a cera. Abel ouve a Palavra
de Deus e cultua de acordo com o que ela ensina. Caim
ouve a Palavra de Deus, mas a despreza e apresenta a
Deus um culto estranho. A exortação de Deus em al­
guns produz endurecimento, e não quebrantamento.
Caim, em vez de cair em si e arrepender-se, irou-se
sobremaneira. Em vez de voltar-se para Deus, fugiu
de Deus. Em vez de imitar o exemplo de Abel, matou o
seu irmão. Terceiro, a Palavra de Deus em alguns não
produz vida, mas morte. Caim, em vez de beber o leite
da verdade para a restauração da sua vida, descaiu o
seu semblante e entregou-se à ira invejosa e assassina.
Em quinto lugar, Caim usou a máscara da justiça
própria ao intentar contra a vida do seu irmão. Caim
pensou que o seu problema era o seu irmão, e não o
seu próprio pecado. Ele pensou que a única maneira
de ser aceito era eliminar do seu caminho a vida do
irmão. Ele olhou para Abel não como alguém a imitar,
mas como um rival a ser eliminado. Muitas vezes
achamos que o nosso problema é o outro. As virtudes
do outro nos afligem mais do que as nossas próprias
fraquezas. O sucesso dos outros nos atormenta mais
Com Jesus na escola da vida
14
Caim, um homem que fingiu ser um adorador
do que o nosso próprio fracasso. A eliminação do
outro nos recompensa mais do que a possibilidade da
nossa aceitação.
Em sexto lugar, Caim usou a máscara da justiça
própria ao manter as aparências de uma amizade
genuína por Abel enquanto escondia um desejo perverso
no coração. Assim diz o texto bíblico: Disse Caim a
Abel, seu irmão: Vamos ao campo. Estando eles no campo,
sucedeu que se levantou Caim contra Abel, seu irmão, e
o matou (Gn 4.8). Caim era um vulcão efervescente
de ódio por dentro, mas um mar plácido e calmo
por fora. Ele tinha palavras aveludadas e um coração
perverso. Palavras doces e um coração amargo.
Amizade nos gestos e morte nos pensamentos. Ele
enganou Abel, traiu seu irmão e o matou. Assassinou
não um estranho, mas o seu próprio irmão, carne da
sua carne, sangue do seu sangue. Eliminou não um
inimigo, mas alguém achegado. Matou não porque
Abel era perverso e mau, mas porque era piedoso e
bom. Matou não porque era uma ameaça à sua vida,
mas porque era um exemplo digno de ser imitado.
Em sétimo lugar, Caim usou a máscara da justiça
própria ao tentar esconder o seu próprio pecado. Caim
não levou a sério nem a Palavra de Deus nem o juízo
de Deus. Ele pensou que seus atos estivessem fora do
alcance de Deus. Ele não só pecou, mas tentou esca­
par das consequências do seu pecado. Ele não enxer­
gava nada além da sua vaidade e justiça própria. Ele
era o pai de uma geração que adorava o seu próprio
eu, em vez do Deus vivo. Deus não apenas exortou
15
Com Jesus na escola da vida
Caim para não pecar, mas o confrontou depois de pe­
car: Disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão?
Ele respondeu: Não sei; acaso sou eu tutor de meu irmão?
E disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão
dama da terra a mim. Es agora, pois, maldito por sobre a
terra... (Gn 4.9-11). Caim não apenas pecou, mas ten­
tou esconder o seu pecado. Ele pensou que podia fugir
de Deus e da sua justiça. Caim acabou colhendo o que
buscava. Porque na sua insanidade espiritual preferiu
fugir de Deus a obedecê-lo, o Senhor lavrou-lhe a sen­
tença: ... serás fugitivo e errante pela terra (Gn 4.12).
Ao ser confrontado por Deus, longe de arrepender-
se, entregou-se à autocomiseração: Então, disse Caim
ao Senhor: E tamanho o meu castigo, que já não posso
suportá-lo (Gn 4.13). Caim é o protótipo daqueles que
se retiram da presença do Senhor (Gn 4.16), e cuja
descendência se afasta de Deus para mergulhar nas
sombras espessas do pecado e da justiça própria.
16
CAPÍTULO 2
as marcas de um homem íntegro
A maior crise que a sociedade atravessa é a crise de
integridade. Ela tem estado ausente nos palácios,
nas casas de leis, nos tribunais, nas igrejas, nas es­
colas e nas famílias. A integridade precisa passar por
dois testes: Primeiro, o teste da adversidade. Você
permanece íntegro quando enfrenta problemas, ca­
lamidades, perdas, perseguições, injustiça, calúnia e
humilhações? A Bíblia diz: Se te mostras fraco no dia
da angústia, a tua força é pequena (Pv 24.10). Segundo,
o teste da prosperidade. A integridade muitas ve­
zes é forjada na bigorna da prosperidade. Dizem
as Escrituras: Como o crisol prova a prata, e o forno, 0
17
Com Jesus na escola da vida
ouro, assim, o homem é provado pelos louvores que rece­
be (Pv 27.21). Mais pessoas têm caído por causa da
fama do que por causa da calamidade. Muitos ho­
mens que suportaram com heroísmo o sofrimento
fracassaram quando ficaram debaixo dos holofotes
da fama. Daniel saiu vitorioso tanto do vale do sofri­
mento como do apogeu da fama. Ele enfrentou vito­
riosamente tanto a dor do desterro como o sucesso
da carreira política. Permaneceu íntegro no recesso
da solidão e também no palco da popularidade.
O profeta Daniel passou por esses dois testes e
revelou-se um homem íntegro. Sua vida constitui-se
num exemplo clássico de integridade. Seu exemplo
ainda inspira muitas pessoas a buscarem uma vida
íntegra. Daniel não foi um produto do meio. Ele teve
coragem para ser diferente. Ele não se corrompeu.
Manteve sua postura irrepreensível quer nos dias de
adversidade quer no tempo da prosperidade. Ele foi
fiel a despeito das suas qualidades pessoais. Foi fiel a
despeito das colossais oportunidades recebidas e foi
fiel a despeito da pressão sofrida. Wiersbe escreveu
um livro que se tornou muito popular, A crise da inte­
gridade. Nesse livro, ele mostra que a crise de integri­
dade está presente nos palácios e nas choupanas, nas
instituições governamentais e no comércio, na famí­
lia e também na igreja. Aqueles que deveriam ser o
paradigma da integridade tornam-se pedra de trope­
ço e motivo de escândalo, traindo sua vocação. Nesse
mar lodacento de corrupção, Daniel é um exemplo
digno de ser imitado.
18
Daniel, as marcas de um homem íntegro
Vejamos algumas marcas desse homem de Deus:
Em primeiro lugar, Daniel possuía um espírito
excelente no meio de uma geração corrompida (Dn 6.3).
Em virtude da sua fidelidade a Deus, o Senhor o
fez mais sábio do que todos os magos da Babilônia
(Dn 1.19,20); ele tinha discernimento das coisas
espirituais (Dn 2.5); era ousado para dizer a verdade,
mesmo que fosse para confrontar o pecado do próprio
rei (Dn 5.17-30); o rei Dario tinha consciência de que
ele era servo do Deus vivo (Dn 6.20); sua postura era
de fidelidade a Deus e lealdade ao rei (Dn 6.22). Há
muitos homens que galgam os postos mais elevados,
mas não têm um espírito excelente. Chegam ao
topo da fama, mas trafegam por caminhos sinuosos
para chegar a esse topo. Conquistam riquezas, mas
transigem com a consciência e aviltam a ética para
granjear essas fortunas. São condecorados com muitas
medalhas de honra ao mérito, mas tripudiam os fracos
para conquistar essas insígnias. A maior glória de um
homem não é seu dinheiro nem sua fama, mas seu
caráter. É melhor ter um bom nome do que muitas
riquezas. É melhor ter um espírito excelente do que
muitos diplomas. É melhor ser reconhecido no céu do
que ser aplaudido na terra.
Em segundo lugar, Daniel era íntegro no meio da
corrupção (Dn 6.5). Daniel foi nomeado pelo rei Dario
para ocupar um alto posto político. O objetivo do rei era
coibir a corrupção galopante que campeava em todo o
reino. Sua vida irrepreensível e sem mácula, seu caráter
incorrupto e honesto, sua administração eficiente e
19
Com Jesus na escola da vida
vitoriosa suscitaram a inveja de seus companheiros
(Dn 6.3). Astuciosamente, eles orquestraram contra
Daniel. A justiça incomoda os corruptos. A verdade
é intolerável para os que maquinam o mal (Dn
6.4). Investigaram a vida de Daniel. Fizeram uma
devassa em sua vida pública e privada (Dn 6.4). Mas
chegaram à conclusão de que Daniel era um homem
íntegro. Sua inocência foi constatada (Dn 6.4,5). Você
suportaria uma investigação meticulosa em sua vida
pessoal e pública? Daniel suportou e saiu aprovado. A
corrupção é um mal crônico no Brasil. A classe mais
desacreditada em nossa nação é a classe política.
Muitos políticos inescrupulosos se empoleiram no
poder para se abastecer das riquezas da nação, em vez
de servir à nação. São exploradores do povo, em vez
de servidores do povo. Como ratazanas esfaimadas,
mordem com voracidade o erário público, que deveria
ser destinado a construir o progresso da nação.
Desviam para suas polpudas contas nos paraísos
fiscais os recursos que deveriam construir hospitais
e levantar escolas. A corrupção é endêmica. Alastra-
se como um rastilho de pólvora. Infiltra-se como
um gás venenoso pelas frestas do poder. Atinge o
coração da nação e enfraquece a fibra moral do nosso
povo. Nesse meio tão fermentado pela corrupção,
precisamos buscar modelos dignos de serem imitados.
Daniel foi um político impoluto e sem jaça. Um
homem incorruptível e insubornável. Daniel foi um
estandarte que ainda tremula na história, um homem
de bem, um líder de escol, um homem singular.
20
Daniel, as marcas de um homem íntegro
Em terceiro lugar, Daniel foi perseguido por ser
íntegro no meio de uma geração decadente (Dn 6.4-7). Seus
companheiros de trabalho tramaram astuciosamente
contra ele (Dn 6.4). Usaram a arma da orquestração
vil para incriminar Daniel (Dn 6.6). Lançaram mão de
uma mentira para incluir Daniel no rol dos bajuladores
(Dn 6.7). Inflaram o ego do rei, bajulando-o, apenas
para colocar um laço de morte nos pés de Daniel (Dn
6.7). O rei assinou um decreto movido pela vaidade,
mas sem discernir a intenção real que estava por
trás da bajulação de seus homens de confiança. Mas
Daniel mantém sua fidelidade a Deus mesmo sabendo
que seria jogado na cova dos leões. Seus inimigos o
acusam (Dn 6.13) e pressionam o rei a cumprir a lei
que sancionara (Dn 6.14-17), com o objetivo único de
tirar Daniel do seu caminho. A virtude dos bons é um
risco severo à corrupção dos maus. O que incomodava
os políticos esfaimados pelo lucro desonesto no
império medo-persa era a probidade administrativa
de Daniel. Homens que não se vendem são um sério
obstáculo aos interesses mesquinhos e criminosos
dos aproveitadores de plantão. Para afastar esses
ícones da honestidade de seu caminho, os perversos
lançam mão de estratégias covardes. Tornam-se
peritos na adulação hipócrita e na mentira perversa.
Sua desfaçatez não tem limites. Prostram-se diante
daqueles que são famintos de reconhecimento, não
para lhes prestar sincera homenagem, mas apenas para
alcançar seus objetivos nefastos. Foi isso o que fizeram
com Daniel. Encheram o rei Dario de rasgados elogios,
apenas para lhe armar um laço para os pés e apanhar
21
Com Jesus na escola da vida
com esse laço Daniel. Os inimigos de Daniel estavam
convencidos de que não havia nenhuma brecha em sua
vida, nenhum flanco aberto, nenhuma inconsistência
em sua conduta. Já que não puderam encontrar nele
qualquer delito, resolveram matá-lo por causa de suas
virtudes.
Em quarto lugar, Daniel orou mesmo sabendo que
este era o caminho do seu martírio (Dn 6.10,11). Daniel
tinha uma vida abundante e sistemática de oração
(Dn 6.10). Mesmo sendo um homem muito ocupado,
Deus era a prioridade da sua vida. Ele não alterou a
sua vida devocional por causa da perseguição (Dn
6.10). Em vez de capitular ao desespero na iminência
da morte, deu graças a Deus com toda serenidade. Ele
temia a Deus, por isso não tinha medo dos homens. O
único político íntegro do reino foi jogado na cova dos
leões. Hoje escasseiam os líderes que têm intimidade
com Deus, e multiplicam-se aqueles que se julgam
autossuficientes. Poucos homens públicos são homens
de oração. Poucos conhecem a intimidade do altar.
Daniel não se iludiu com o glamour do poder a ponto
de perder a intimidade do altar. Sua maior prioridade
não era buscar fama na terra, mas ser amado no céu.
Seu objetivo de vida não era construir monumentos
para si na história, mas dar glória e honra ao Deus
que dirige a história. Daniel orou nos momentos mais
cruciais da sua vida. Orou quando era jovem e orou
quando estava velho. Orou em secreto e também
em lugares públicos. Orou sozinho e orou com seus
amigos. Orou quando era escravo e depois que chegou
22
ao poder. Orou para buscar sabedoria para viver e orou
quando estava na iminência de morrer. Não teremos
políticos que possam influenciar positivamente a
nação a não ser que tenhamos líderes que conheçam a
Deus. As autoridades constituídas precisam entender
sua vocação. Aqueles que são escolhidos pelo povo
para governar o povo são ministros de Deus para
promover o bem e coibir o mal. Eles recebem o
mandato por meio do povo, mas exercem o poder em
nome de Deus e da parte de Deus. Um governante que
zomba de Deus e escarnece de seus princípios torna­
se um pesadelo para o povo.
Em quinto lugar, Daniel foi protegido por Deus no
meio dos leões ferozes (Dn 6.22,23). Deus não o livrou da
perseguição, mas livrou-o da morte. Deus não o livrou
dos problemas, mas nos problemas. Deus não o livrou
da presença dos leões, mas fechou a boca dos leões.
O rei, ao ver a mão de Deus com ele, o tirou da cova
dos leões e lançou lá aqueles que haviam conspirado
contra a sua vida. Daniel permaneceu íntegro durante
toda a sua vida. Ele começou bem e terminou bem.
Foi íntegro na juventude e íntegro na velhice. íntegro
na adversidade e íntegro na prosperidade. Por isso,
através do seu testemunho, todo o império medo-
persa foi impactado pela proclamação de que o seu
Deus é o único Deus verdadeiro. Daniel foi um líder de
proa tanto na Babilônia como no reino medo-persa. Ele
atravessou incólume a turbulência da Babilônia e sua
queda e influenciou de forma decisiva o novo império
mundial. Daniel permaneceu imperturbavelmente
Daniei, as marcas de um homem íntegro
23
Com Jesus na escola da vida
firme diante das mais barulhentas tempestades da
história, porque estava firmado na Rocha que não se
abala. Seu caráter impoluto direcionou-lhe os passos
na crise, e a verdade divina alumiou-lhe o caminho,
conduzindo-o em triunfo.
24
CAPÍTULO 3
um homem provado por Deus
Então, Jó se levantou, rasgou o seu manto, rapou a cabeça
e lançou-se em terra e adorou; e disse: Nu saí do ventre
de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu e o Senhor o
tomou; bendito seja o nome do Senhor! (Jó 1.20,21)
Horatio G. Spafford (1828-1888) nasceu em North
Troy, Nova York, no dia 10 de outubro de 1828. Foi um
presbiteriano convertido a Cristo pelainstrumentalidade
do evangelista Dwight L. Moody. Tornou-se um
advogado financeiramente próspero na cidade de
Chicago. Mesmo depois de seu sucesso financeiro,
25
continuou mantendo estreito relacionamento com
Moody, bem como profundo interesse pelas campanhas
de evangelização. Tinha apurado gosto pela música e era
devotado ao estudo das Escrituras.
Meses antes do grande incêndio que atingiu a ci­
dade de Chicago em 1871, Spafford tinha feito pesa­
dos investimentos financeiros em uma área que foi
totalmente destruída pelo fogo. Não bastasse esse
terrível abalo financeiro, Spafford passou também
pela dolorosa perda do seu filho. A morte do filho
trouxe grande sofrimento para toda a família. O pie­
doso advogado, procurando um tempo de refrigério
e descanso, resolveu viajar com a esposa e as quatro
filhas para a Europa, onde se uniria a Moody e Sankey
em uma campanha evangelística na Inglaterra em
1873. Em novembro daquele ano, devido a inespe­
rados compromissos de negócio, Spafford precisou
permanecer em Chicago; mas enviou sua esposa e
as quatro filhas, conforme já estava programado, no
navio 5. S. Ville du Havre. Sua expectativa era seguir
viagem dias depois. No dia 22 de novembro daquele
ano, o navio sofreu um acidente e naufragou em doze
minutos. Dias depois, os sobreviventes finalmente
chegaram à cidade de Cardiff, no País de Gales, e a
senhora Spafford mandou um telegrama ao seu ma­
rido: “Salva, porém só”.
As quatro filhas morreram naquele naufrágio.
Imediatamente após receber a mensagem da es­
posa, Spafford tomou um navio e foi ao seu encon­
tro. Próximo ao local do acidente, profundamente
Com Jesus na escola da vida
26
Jó, um homem provado por Deus
comovido, sustentado pelo Deus que inspira canções
nas noites escuras, Spafford começou a escrever: “Se
paz, a mais doce, me deres gozar/Se dor, a mais forte,
sofrer/Oh, seja o que for, tu me fazes saber/Que fe­
liz com Jesus sempre sou”. Spafford escreveu apenas
este hino em toda a sua vida. Entretanto, é um dos
hinos clássicos mais conhecidos e cantados em todo
o mundo. E tremendo perceber que o hino escrito por
Spafford não se concentra em seu sofrimento, mas
na gloriosa obra de Cristo e na promessa bendita da
sua vinda. Humanamente falando, é espantoso notar
que, mesmo depois de tão grande tragédia, Spafford
pudesse escrever no coro: It is well with my soul It is
well with my soul. - Está tudo bem com minha alma.
Está tudo bem com minha alma.
O Deus de Spafford é o nosso Deus. Ele é o
único Deus vivo e verdadeiro. É o nosso refúgio na
angústia, nosso castelo forte na hora da tribulação.
Em nossa dor, ele também pode nos consolar. As
nossas lágrimas, ele também pode enxugar. Em nossa
fraqueza, ele pode nos sustentar. Ainda que prejuízos
financeiros, doença e a própria morte nos atinjam,
podemos dizer: Está tudo bem com minha alma!
Embora o caminho aqui seja estreito, a estrada seja
crivada de espinhos, e haja inimigos nos espreitando,
podemos ter a certeza de que Deus está conosco. Ele
nos toma pela mão, nos guia com o seu conselho
eterno e depois nos recebe na glória.
Essa experiência de Spafford nos lembra a saga do
patriarca Jó. Ele era homem íntegro, reto, temente a
27
Deus e que se desviava do mal (Jó 1.1). Esse homem
sofreu duros golpes na vida. Vamos, aqui, elencar cin­
co deles:
Em primeiro lugar, Jó perdeu todos os seus bens (Jó
1.13-17), Jó era um homem riquíssimo. Tinha mui­
tos rebanhos e grande quantidade de servos. Deus
o havia feito prosperar. Embora fosse tão abastado,
permanecia íntegro. Sua riqueza fora granjeada com
honestidade, trabalho e, sobretudo, com a bênção de
Deus. Satanás, porém, insinuou que Jó servia a Deus
por interesse (Jó 1.9-11). Deus, então, constituiu
Jó seu advogado na terra e permitiu a Satanás tocar
nos bens de Jó (Jó 1.12-17). O homem mais rico do
Oriente perdeu tudo, foi à falência, mas não perdeu a
sua fé (Jó 1.20-22). Jó amava mais a Deus do que ao
dinheiro. A tese de Satanás caiu por terra!
Há muitos hoje que se perdem no caminho por
causa da sedução do dinheiro. Há muitos que vivem e
morrem por causa do amor ao dinheiro. Outros casam-
se e se divorciam por causa da ambição. Não poucos
matam e morrem por causa da ganância. O dinheiro
é mais do que uma moeda, é um ídolo. É Mamom. No
altar dessa divindade, milhões de pessoas se prostram
todos os dias. Muitos vendem a alma ao diabo por
causa do dinheiro. Outras pessoas atormentam a si
mesmas com muitos flagelos, porque fazem da vida
uma corrida desesperada atrás do dinheiro. A Bíblia
diz que aqueles que querem ficar ricos caem em
cilada e tentação e atormentam a si mesmos com
muitos flagelos. Quantas mentiras são mantidas nos
Com Jesus na escola da vida
. 28
Jó, um homem provado por Deus
tribunais como se fossem verdades intocáveis para se
alcançar riquezas ilícitas. Quantos crimes hediondos
são cometidos e quanto sangue é derramado apenas
para se apropriar indebitamente de riquezas mal
adquiridas. Jó não era assim. Sua fortuna foi
granjeada com honra e dignidade. Suas mãos jamais
se apressaram a praticar o mal. Seu coração jamais foi
um nicho para a veneração de Mamom.
Em segundo lugar, Jó perdeu todos os seus filhos (Jó
1.18,19). Jó perdeu todos os seus filhos num único
acidente. Ele era um pai exemplar. Orava pelos filhos e
preocupava-se com a vida espiritual deles (Jó 1.5). Seus
filhos eram casados, mas continuavam unidos. Eram
ricos, mas companheiros. Depois de sofrer um severo
abalo financeiro, Jó amarga a mais lancinante dor, a
dor de sepultar todos os seus dez filhos num único dia.
Esse patriarca volta para casa com o rosto vermelho de
tanto chorar. Sua alma está vestida de tristeza. Mesmo
inundado pelas torrentes da dor mais alucinante,
não se revolta contra Deus, antes se prostra e adora
ao Senhor, dizendo: o Senhor o deu e o Senhor o tomou;
bendito seja o nome do Senhor! (Jó 1.21). Há muitas
pessoas que permanecem de pé na hora da abastança,
mas claudicam na hora da escassez. Há muitos que
entoam louvores a Deus na ventura, mas maldizem
na desventura. Há aqueles que exaltam a Deus nos
tempos áureos de saúde e vida, mas murmuram
amargamente nos dias sombrios da enfermidade e do
luto. Jó compreendeu que seus filhos eram presentes
de Deus. Compreendeu que Deus é poderoso para dar a
29
vida e soberano para tirá-la. Mesmo com a alma vestida
de tristeza e com as lágrimas rolando pela face, esse
patriarca se prostra, não para erguer os punhos contra
Deus, mas para levantar as mãos para o céu e adorar a
Deus.
Em terceiro lugar, Jó perdeu a sua saúde (Jó 2.3­
7). Jó havia provado que amava mais a Deus do que
ao dinheiro e aos filhos. Agora, Satanás dá mais uma
cartada e insinua que ninguém ama mais a Deus do
que a si mesmo. Satanás ataca: Pele por pele, e tudo
quanto o homem tem dará pela sua vida (Jó 2.4). Deus
deu permissão a Satanás para ferir Jó, sem, contudo,
tirar-lhe a vida (Jó 2.6). Satanás feriu Jó (Jó 2.7)
colocando tumores malignos em todo o seu corpo.
Com a pele necrosada, Jó se raspava com cacos de
telha. Sua dor era insuportável. Ele se tornou um
espectro humano. Ficou magro, encarquilhado, o
retrato mais repugnante do sofrimento atroz. Mesmo
nessa situação, Jó não blasfema. Ele levanta ao céu
dezesseis vezes as perguntas: Por que estou sofrendo?
Por que a minha dor não cessa? Por que eu perdi
os meus filhos? Por que eu não morri no ventre da
minha mãe? Por que eu não morri ao nascer? Por que
o Senhor não me mata de uma vez? Jó espremeu todo
o pus de sua ferida, mas permaneceu íntegro e reto!
Jó não sofreu como um estoico. Ele abriu a boca.
Ele gritou e disse para Deus que estava sofrendo.
Sua dor não foi retida na alma. Ele a despejou em
catadupas. Abriu a represa do seu coração e deixou
vazar toda a dor que, como avalanche, inundava
Com Jesus na escola da vida
30
Jó, um homem provado por Deus
a sua vida. Deus não condenou Jó por expressar
de forma contundente a sua dor. Não o censurou
porque pediu explicações. Não o humilhou porque
teve a ousadia de buscar entendimento nesse vale
escuro do sofrimento. Muitos, hoje, ao passarem pelo
drama da enfermidade, se endurecem. Revoltam-se
contra Deus. Abandonam a fé. Viram as costas para o
Altíssimo num gesto de rebelião. Fecham os punhos e
afrontam o Criador. Jó fez diferente. Ele adorou. Ele
chorou. Ele orou. Ele colocou sua dor na presença de
Deus, buscando nele resposta e consolo.
Em quarto lugar, Jó perdeu o apoio de sua mulher
(Jó 2.9,10). A mulher de Jó não suportou a pressão.
Ao ver seu mundo desmoronando sobre sua cabeça;
ao contemplar sua derrocada financeira, a perda
amarga de seus filhos e a condição aviltante de seu
marido, cerrou os punhos contra Deus e, cheia de
mágoa e revolta, dirigiu-se a seu marido nestes
termos: Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoa
a Deus e morre (Jó 2.9). Jó, porém, respondeu: Falas
como qualquer doida; temos recebido o bem de Deus e
não receberíamos também o mal?Em tudo isto não pecou
Jó com os seus lábios (Jó 2.10). A crise conjugal é uma
das crises mais medonhas da vida. Nenhuma área
afeta tanto nossas emoções como uma turbulência
no casamento. Nenhuma relação nos afeta tanto
como a relação conjugal. A mulher de Jó estava a seu
lado nos tempos de vacas gordas, mas agora, depois
que a crise bateu em sua porta, quando a pobreza
invadiu a sua família, quando o luto cobriu de dor a
31
sua casa, quando a doença atormentou a seu marido,
ela se revoltou contra Deus e, em vez de ser aliviadora
de tensões, se tornou flageladora da alma. Mesmo
diante dessa cena dantesca, Jó não perde sua lucidez
espiritual. Ele repreende sua mulher e permanece
inabalável em sua fé.
Em quinto lugar, Jó perdeu a compreensão de seus
amigos (Jó 2.11-13; 22.5-11). Os três amigos de Jó,
Elifaz, Bildade e Zofar, vieram de longe e se condoeram
com ele durante uma semana; porém, quando
abriram a boca, tornaram-se consoladores molestos.
Em vez de serem terapeutas da alma, tornaram-se
flageladores insolentes. Assacaram contra Jó as mais
pesadas e levianas acusações. Insinuaram que Jó
havia enriquecido desonestamente. Acusaram Jó de
graves pecados morais. Questionaram sua piedade.
Encurralaram a pobre vítima prostrada na cinza
com argumentos sofismáticos e impiedosos. Nem
mesmo assim Jó pecou contra Deus. Talvez uma
das angústias mais pesadas que um indivíduo pode
enfrentar na vida é ser acusado de delitos graves sendo
inocente; é ser incriminado de erros tão grosseiros
por aqueles que deveriam ser os maiores defensores
de sua integridade. As críticas doem muito quando
partem daqueles que deveriam estar ao nosso lado,
mas estão contra nós. As críticas nos ferem quando
vêm daqueles que nos conhecem há muito tempo.
As críticas nos afligem quando nossas motivações
são questionadas de forma impiedosa, quando nossa
integridade é negada de forma virulenta, e quando
Com Jesus na escola da vida
32
nossa vida é revirada pelo avesso, apenas para que os
algozes sem compaixão encontrem pretensas razões
para explicar nossos dramas pessoais.
Ao fim, Deus restaurou a sorte de Jó, quando este
orava pelos seus amigos; e devolveu-lhe o dobro de
tudo quanto possuía (Jó 42.10). Os bens de Jó foram
restaurados em dobro. Deus curou sua enfermidade.
Seu casamento foi refeito. Ele teve mais dez filhos,
e seus amigos foram perdoados por Deus. Tudo
quanto Satanás intentou contra ele não prosperou.
Jó saiu daquela arena de provas mais perto de Deus
e mais fortalecido na fé. Ele certamente pôde cantar,
à semelhança de Horatio Spafford: It is well with my
soul. - Está tudo bem com a minha alma.
Jó, um hornem provado por Deus
CAPÍTULO 4
vida de plenitude
Estêvão foi um homem que viveu em plenitude. Sua
vida serve para nós de exemplo e inspiração. Uma das
maiores necessidades do nosso tempo é de homens
que sejam modelos. Vivemos uma época marcada
pela superficialidade. As pessoas estão cheias de si
mesmas e vazias de Deus, Estão cheias de vaidades e
vazias de virtudes. Estêvão não era um homem con­
formado com a mediocridade. Plenitude era a marca
da sua vida e da sua personalidade. Vamos destacar
sete aspectos importantes da vida desse primeiro
mártir do cristianismo.
35
Em primeiro lugar, Estêvão era um homem cheio
do Espírito Santo (At 6.5). Ele era não apenas um
homem regenerado, selado, habitado e capacitado
pelo Espírito, mas também um homem cheio do
Espírito de Deus. Uma das maiores necessidades
da igreja de Deus neste século é ter uma liderança
cheia do Espírito Santo. Temos hoje muitos homens
cultos, eruditos, versados nas ciências, mas poucos
cheios do Espírito. Temos muitos líderes que detêm
o poder nas mãos, mas poucos que se submetem ao
Espírito. Temos líderes cheios de vaidade, cheios de
si mesmos, mas vazios do Espírito. Temos líderes que
exercem uma autoridade imposta pela força ou pela
intimidação, mas poucos que revelam a doçura do
Espírito em suas palavras e atitudes. A igreja precisa
não tanto de homens ricos, poderosos e cultos, mas
de homens cheios do Espírito Santo. Muitos dos
apóstolos eram homens iletrados, mas no poder do
Espírito eles colocaram o mundo de cabeça para baixo.
Não basta ter o Espírito, é preciso ser cheio do
Espírito. Não basta ter o Espírito presente, é preci­
so ter o Espírito presidente. A plenitude do Espírito
não é uma opção, mas uma ordem divina. Não ser um
crente cheio do Espírito Santo é um pecado de deso­
bediência à ordem de Deus: enchei-vos do Espírito (Ef
5.18). O homem sempre está cheio de alguma coisa.
Muitos estão cheios de si mesmos, cheios de vaida­
de, luxúria, avareza e ganância. Há outros que estão
cheios de mágoa e ressentimento. Há aqueles que
estão cheios de soberba e presunção. Devemos estar
Com Jesus na escola da vida
36
cheios do Espírito para que transbordem de nossos lá­
bios hinos de adoração e palavras de comunhão; para
que se vejam em nossas atitudes amor pelo próximo
e disposição para servir. Ninguém está qualificado a
servir às mesas sem a plenitude do Espírito. Quem
não está cheio do Espírito quer ser servido, em vez de
servir. Está procurando uma coroa, em vez de usar a
bacia e a toalha.
Em segundo lugar, Estêvão era um homem cheio de
sabedoria (At 6.3). Sabedoria é usar da melhor forma o
conhecimento para atingir os fins que mais glorificam
a Deus. Sabedoria é ver a vida da perspectiva de Deus.
É reagir nas diversas situações com firmeza e amor,
transmitindo graça às pessoas. Eis a marca distintiva
na vida de todo aquele que deseja viver de modo digno
de Deus. Muitas pessoas confundem conhecimento
com sabedoria. Uma pessoa pode ser culta e ser tola.
Outra pessoa pode ser iletrada e sábia. Sabedoria não
se aprende nos livros. Sabedoria é olhar para a vida
como Deus olha, é agir como Deus age, é ter uma
compreensão clara da vida no meio do nevoeiro da
história. Hoje nosso foco é muito mais no conhecimento
do que na sabedoria. Cultivamos a cultura da cabeça,
e não a cultura do coração. Ensinamos as pessoas
a terem fome de livro, e não fome de Deus. Mas o
conhecimento sem a sabedoria envaidece. A sabedoria
não é ausência de conhecimento, mas a aplicação
correta do conhecimento. Estêvão tinha conhecimento
e sabedoria. Tinha luz na mente e fogo no coração.
Estêvão, vida de plenitude
Olhava para a vida com as lentes do saber humano,
mas interpretava-a pela ótica de Deus.
Em terceiro lugar, Estêvão era um homem cheio de
fé (At 6.5). Estêvão confiava plenamente em Deus.
Andava estribado não em sua lógica humana, mas
na direção divina. Estêvão andava por fé. Seus olhos
estavam sempre fitos em Deus. Não desanimava
diante das refregas da vida. Não perdia o ardor nem a
motivação diante das oposições, Estêvão não andava
guiado pelas circunstâncias. Ele não se envaidecia com
os milagres que Deus realizava por seu intermédio
nem se intimidava diante da ameaça do Sinédrio.
Ele vivia pela fé. Não era guiado pelas leis da terra,
mas pelo comando do céu. Seu propósito na vida não
era proteger-se, mas honrar a Deus. Ele preferiu o
martírio à infidelidade. Ele não naufragou engolido
pelas ondas revoltas do ódio humano que vociferaram
contra ele, porque seus olhos não estavam postos nas
pedras que seus algozes lançavam contra ele, mas no
Rei do Universo, que de pé o recebia na glória. A fé
não olha para baixo, mas para cima. A fé não olha para
a ameaça, mas para a recompensa. Estêvão era um
homem cheio de fé.
Hoje precisamos desesperadamente de líderes que
sejam governados pela fé. Tornamo-nos especialistas
em planejamento estratégico. Somos doutores em
metodologia. Tornamo-nos peritos em administra­
ção. Estamos equipados para assumir o comando de
grandes empresas e julgamos, com isso, que estamos
qualificados para dirigir os destinos da igreja. A igreja
Com Jesus na escola da vida
38
é governada por outro princípio. Ela é uma agência
do reino de Deus na terra. Seus líderes precisam vi­
ver pela fé, lutar pela fé, vencer pela fé e ser homens
de fé. Precisamos aprender a depender mais de Deus
do que dos nossos recursos. Precisamos tirar nossos
olhos das impossibilidades humanas para colocá-los
nas possibilidades infinitas de Deus. Não andamos
pelo que vemos, andamos pela fé. Não agimos apenas
de acordo com os recursos humanos, agimos pela fé.
Pela fé devemos viver e pela fé devemos morrer.
Em quarto lugar, Estêvão era um homem cheio de
graça (At 6.8). A graça abundante de Deus estava sobre a
sua vida. Ele levava uma vida de plenitude não na força
da carne, mas firmado no bordão da graça divina. Por
isso, nunca perdeu a doçura da vida, mesmo diante das
perseguições mais cruéis. Estêvão servia às mesas com
o coração cheio da doçura do Espírito. Ele cuidava dos
pobres com ternura. Vivia de forma atraente. Falava
de forma comovente. Sua vida era irrepreensível.
Sua pregação era irresistível. Em cada palavra, em
cada gesto e em cada atitude, as pessoas viam nele a
graça de Deus. Só aqueles que estavam endurecidos
taparam seus ouvidos para não o ouvirem, porque não
toleravam a verdade nem desejavam a graça de Deus,
que transbordava da vida de Estêvão.
Hoje precisamos de líderes que sejam cheios
de graça. Há líderes que são secos como um poste.
Homens que lideram a igreja de Deus com despotis­
mo. Lideres que se sentem donos do rebanho, em vez
de serem servos do rebanho. Líderes que são como
Estêvão, vida de plenitude
39
Diótrefes, verdadeiros xerifes da igreja, em vez de se­
rem pastores da igreja. É extremamente lamentável
que muitos daqueles que ocupam os postos mais ele­
vados na liderança da igreja sejam aqueles que têm o
mais baixo nível de vida espiritual. São homens que,
em vez de manifestar a graça em suas palavras e ações,
refletem a insensibilidade de um coração duro.
Em quinto lugar, Estêvão era um homem cheio de
poder (At 6.8). Estêvão possuía uma vida irrepreensível,
suas obras eram irrefutáveis, suas palavras eram
irresistíveis. Ele não apenas dizia coisas tremendas,
mas também fazia obras extraordinárias (At 6.8).
Pregava aos ouvidos e aos olhos também. Não apenas
falava de poder, mas experimentava o poder. Ele não
apenas tinha discurso, ele tinha obras. Não somente
dizia grandes coisas, mas também realizava grandes
milagres. Necessitamos hoje de uma liderança que
não apenas fale do poder de Deus, mas também o
conheça e o experimente.
Há muitos líderes que, além de estarem vazios
de poder, negam a possibilidade de Deus realizar
prodígios e maravilhas hoje. São teólogos de gabinete,
que engessaram Deus à sua mediocridade. Pensam que
Deus está circunscrito à sua visão míope. Colocam-
no dentro de uma estrutura fechada e pensam que o
Deus transcendente está restrito apenas à sua crença.
Precisamos saber que Deus é livre e soberano. Ele faz
todas as coisas conforme o conselho da sua vontade.
Não está preso a esquemas teológicos nem sujeito
aos limites impostos por líderes incrédulos. É bem
verdade que Deus não pode negar a si mesmo. Seu agir
não está em oposição ao seu caráter nem contrário à
sua Palavra. Deus é consistente consigo mesmo e com
suas promessas. Porém, Deus é o mesmo ontem, hoje
e eternamente. O que ele fez, ele pode fazer onde quer,
quando quer, com quem quer. Ninguém pode colocar
Deus contra a parede. Ninguém pode pressioná-
lo. Ninguém é dono de sua agenda. Ninguém pode
estabelecer o que ele pode ou não pode fazer.
Um dos maiores problemas que enfrentamos hoje
é que limitamos o poder de Deus à nossa experiência.
Pensamos que tudo o que Deus pode fazer está
delimitado por aquilo que já experimentamos.
Ledo engano. Deus pode fazer infinitamente mais.
O apóstolo, quando estava preso em Roma, orou
assim: para que sejais tomados de toda a plenitude de
Deus (Ef 3.19). Deus é maior do que tudo o que ele
criou. Ele é transcendente, e nem os céus dos céus
podem contê-lo. Porém, o veterano apóstolo estava
orando para que você e eu sejamos tomados de
toda a sua plenitude. Quando pensamos que Paulo
estava indo longe demais no seu pedido, ele diz: Ora,
àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do
que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu
poder que opera em nós, a ele seja a glória na igreja e em
Cristo Jesus (Ef 3.20,21). Não há limitação em Deus;
a limitação está em nós. Podemos ser revestidos com
toda a suprema grandeza do seu poder, o mesmo
poder que ressuscitou Jesus dentre os mortos.
Estêvão, vida de plenitude
41
Em sexto lugar, Estêvão era um homem cheio da
Palavra (At 7.1-60). Estêvão prega, de improviso,
o sermão com o maior número de citações das
Escrituras que temos registrado na Bíblia. Era um
homem que conhecia com profundidade a Palavra de
Deus. Estêvão tinha disposto o coração para conhecer
a Palavra, para vivê-la e para ensiná-la. Ele gastava
tempo com a Palavra. Ele estudava as Escrituras com
zelo. Ele não vivia estribado em sentimentos, em
experiências, em fenômenos extraordinários. Ele
centrava sua espiritualidade na Palavra. Ele pregava
não a si mesmo. Ele exaltava não a si mesmo. Ele
pregava a Palavra. Era um homem cheio da Palavra.
Hoje, infelizmente, há muitos líderes que estão à
frente da igreja, mas são praticamente analfabetos da
Palavra. Governam o povo da plenitude de seu coração
e do vazio de sua cabeça. São líderes inseguros, con­
fusos, jogados de um lado para o outro, à mercê das
novidades do mercado da fé, que, em vez de alimentar
o rebanho de Deus com o trigo da verdade, empantur-
ram-no com a palha tóxica das heresias. Precisamos
de líderes que liderem o povo de Deus com a Bíblia na
mão. Líderes que conheçam a Palavra, que meditem
na Palavra. Líderes que obedeçam à Palavra e que a
ensinem com fidelidade. A igreja evangélica brasileira
precisa de uma nova Reforma. Precisa de um retorno
urgente às Escrituras.
Em sétimo lugar, Estêvão era um homem cheio de
perdão (At 7.60). Mesmo vivendo uma vida de ple­
nitude, Estêvão atraiu muita oposição por parte dos
Com Jesus na escola da vida
42
religiosos de sua época. Seus opositores apresenta­
ram testemunhas falsas contra ele. Ele foi vítima de
acusações mentirosas (At 6.13-15). Todavia, mesmo
em face da morte, não perdeu a paz (At 6.15), e mes­
mo no suplício cruel do apedrejamento, perdoou os
seus algozes (At 7.60). Precisamos de líderes que não
agasalhem no coração mágoas ou ressentimentos,
mas que sejam homens cheios de amor e perdão.
O pecado mais comum na igreja contemporânea
é o pecado da mágoa. Há muitos líderes feridos.
Há muitos crentes machucados emocionalmente.
Há muitas ovelhas doentes. Não há vida saudável,
casamento saudável, família saudável nem igreja
saudável sem o exercício do perdão. Se não perdoarmos,
não poderemos orar nem trazer nossa oferta ao altar.
Se não perdoarmos, não poderemos ser perdoados
nem mesmo adorar a Deus. Se não perdoarmos,
adoeceremos emocional, física e espiritualmente. Sem
o exercício do perdão, viveremos como prisioneiros
na masmorra da mágoa. O perdão cura, liberta e
transforma. O perdão é maior do que o ódio. O perdão
é a assepsia da alma, a faxina da mente, a alforria do
coração. Perdoar é lembrar sem sentir dor.
Estêvão, vida de plenitude
CAPÍTULO 5
os degraus da queda e a
escalada da restauração
Você nunca é tão fraco como quando confia na sua
própria força.
Antes de ser o apóstolo cheio do Espírito Santo,
Pedro desceu vários degraus numa queda vertiginosa
até o ponto de negar a Jesus. Sua queda foi vergonhosa,
suas lágrimas foram amargas, mas sua restauração foi
completa. Vamos ver os degraus da queda e o caminho
da restauração.
OS DEGRAUS DA QUEDA
Vamos, aqui, identificar quais foram os degraus
da queda de Pedro.
Em primeiro lugar, a presunção autoconfiante (Lc
22.33; Mc 14.29,31; Mt 26.35). O primeiro degrau
da queda de Pedro tem dois aspectos. Primeiro, ele se
julgou melhor do que os outros: Disse-lhe Pedro: Ainda
que todos se escandalizem, eu jamais! (Mc 14.29). Pedro
julgou-se melhor e mais fiel do que seus pares. Ele deu
nota baixa para seus condiscípulos e nota máxima
para si mesmo. A maneira mais indevida de elogiar-se
é criticar os outros. O orgulho espiritual é o prelúdio
da queda. Pedro pensava que era melhor do que os
outros; e Jesus lhe disse que seria mais covarde do
que todos. Segundo, ele demonstrou uma exagerada
confiança em si mesmo: Ele, porém, respondeu: Senhor,
estou pronto a ir contigo, tanto para a prisão, como para a
morte (Lc 22.33). Quando Jesus alertou Pedro acerca
do plano de Satanás de peneirá-lo como trigo, Pedro
respondeu que estava pronto a ir com ele tanto para a
prisão como para a morte. Pedro subestimou a astú­
cia do inimigo e superestimou a si mesmo. Ele colocou
exagerada confiança no seu próprio “eu”, e aí começou
sua derrocada espiritual. Este foi o primeiro degrau
da sua queda.
Em segundo lugar, a indolência (Lc 22.45; Mc
14.37-41; Mt 26.40,41,43). O mesmo Pedro que
prometeu fidelidade irrestrita a Cristo e disposição
Com Jesus na escola da vida
46
de ir com ele para a prisão e para a morte agora
está agarrado no sono no jardim do Getsêmani no
aceso da batalha. Aquela era uma hora decisiva para
a humanidade. Cristo estava travando uma luta de
sangrento suor. Era uma noite fria, mas, ainda assim,
Jesus havia suado em sua agônica oração. O inferno
inteiro oprimia Cristo. Em agonia, Jesus se submete
à vontade do Pai. Jesus está com a alma angustiada
até à morte, e Pedro não consegue vigiar nem orar.
Ele dorme no exato momento em que o inferno está
agitado e no exato momento em que Jesus se entrega
nas mãos dos pecadores.
Pedro, que havia prometido morrer com o Senhor,
não foi capaz sequer de vigiar com ele! Pedro dormiu
quando deveria orar, falou quando deveria ouvir e
se vangloriou quando deveria temer. Faltaram-lhe
percepção, discernimento e vigilância espiritual. Sua
fraqueza espiritual o fez dormir e, ao dormir, ele
fracassou no teste da vigilância. Por três vezes Jesus
se volta dos joelhos e das gotas de sangue a Pedro,
e ele está dormindo. Ele não pôde vigiar com Cristo
sequer por uma hora.
Em terceiro lugar, a precipitação (Lc 22.50; Mt
26.51-53; Mc 14.47; Jo 18.10). Quando os soldados
romanos, liderados por Judas Iscariotes e pelos prin­
cipais sacerdotes, prenderam Jesus, Pedro sacou sua
espada e cortou a orelha de Malco. Sua valentia era
carnal. Porque dormiu e não orou, entrou na batalha
errada, na hora errada, com as armas erradas e com a
motivação errada. Pedro agiu de modo insensato ao
Pedro, os degraus da queda e a escalada da restauração
47
atacar Malco (Jo 18.10). Ele desceu mais um degrau
rumo à sua fatídica queda. Se Jesus não tivesse curado
a orelha ferida de Malco, Pedro também seria preso, e
provavelmente haveria quatro cruzes no Calvário, em
vez de três!
Se a batalha fosse física, Cristo teria rogado ao
Pai doze legiões de anjos, ou seja, 72 mil anjos para
defendê-lo. Uma legião para cada discípulo e mais
uma legião para ele. Empregar armas carnais numa
batalha espiritual é insensatez. Nossa luta não é
contra carne e sangue. Não vencemos o pecado com
bravatas e valentia carnal. Ferir as pessoas não é o
caminho da vitória espiritual. Atacá-las com palavras,
atitudes e armas não é o caminho para triunfarmos
espiritualmente.
Pedro cometeu uma série de erros ao atacar
Malco: Primeiro, lutou com o inimigo errado e com
a arma errada. Nossos inimigos não são de carne e
sangue e não podem ser derrotados com armas físicas.
Segundo, Pedro também revelou uma atitude errada
e confiou no tipo errado de energia. Enquanto Jesus
se entregava, Pedro declarou guerra. Terceiro, em vez
de realizar um feito espetacular, trazer do céu 72 mil
anjos, Jesus realizou um gesto de amor curando a
orelha de Malco e, em seguida, apresentou suas mãos
para serem atadas. É preciso decidir se passaremos
a vida fingindo como Judas; lutando como Pedro ou
nos entregando à vontade do Pai como Jesus. O que
escolheremos: o beijo, a espada ou o cálice?
Com Jesus na escola da vida
48
Em quarto lugar, seguir a Jesus de longe (Lc 22.54;
Mt 26.56,58; Mc 14.50,54). Depois que Cristo
foi levado para a casa do sumo sacerdote, Pedro
mergulhou nas sombras da noite e seguiu a Jesus
de longe. Sua coragem desvaneceu. Sua valentia se
tornou covardia. Seu compromisso de ir com Cristo
para a prisão e para a morte foi quebrado. Sua
fidelidade incondicional ao Filho de Deus começou
a enfraquecer. Ele não queria perder Jesus de vista,
mas também não estava disposto a assumir os riscos
do discipulado. Pedro despenca mais um degrau
rumo à fatídica queda! Muitos hoje também seguem
a Jesus de longe. São esporádicos na casa de Deus.
Têm medo ou vergonha de assumir um compromisso
claro e público. Escondem-se atrás de trevas.
Em quinto lugar, as más companhias (Lc 22.55; Mt
26.58; Mc 14.54; Jo 18.18). Pedro dá mais um pas­
so rumo ao fracasso quando se afasta de Cristo e se
aproxima da turba reunida na casa do sumo sacer­
dote. Pedro assentou-se na roda dos escarnecedores.
Tornou-se parte deles. Procurou esquentar-se junto à
fogueira enquanto sua alma estava mergulhada numa
geleira espiritual. Misturou-se com gente que estava
blasfemando o nome de Cristo. Colocou uma másca­
ra e tornou-se um discípulo disfarçado no território
do inimigo. Essa mistura com o mundo lhe custou
muito caro, pois foi nesse terreno escorregadio que
sua máscara foi arrancada e sua queda se tornou mais
vergonhosa. Há muitas pessoas que estão chegan­
do também a esse degrau. Começaram achando que
Pedro, os degraus da queda e a escalada da restauração
49
sabiam até onde podiam ir. Em vez de vigiar, come­
çaram a dormir espiritualmente e agir na força da
carne. Há muitos que hoje estão no mundo, amando
o mundo, sendo amigos do mundo, conformando-se
com o mundo, misturando-se com aqueles que escar­
necem do evangelho.
Em sexto lugar, a negação explícita de Jesus (Lc
22.57; Mt 26.70,72,74; Mc 14.68,70). Um abismo
chama outro abismo. Uma queda leva a outros tom­
bos. Pedro não conseguiu se manter disfarçado no
território do inimigo. Logo foi identificado como
um seguidor de Cristo e, quando interpelado por
uma criada, ele o negou diante de todos, dizendo:
Não sei o que dizes (Mt 26.70). Marcos registra: Não
o conheço, nem compreendo o que dizes (Mc 14.68).
Pedro negou sua fé diante de todos. Ele negou seu
Senhor mesmo depois de advertido pelo Senhor.
Ele quebrou o juramento de seguir a Cristo até a
prisão e até a morte. O medo dominou a fé, e ele
caiu vertiginosamente.
Muitos hoje professam o nome de Cristo, mas
o negam com suas obras. Negam a Cristo com seu
silêncio ou com suas palavras. São testemunhas
mudas que silenciam quando deveriam falar.
Quantas vezes negamos o Senhor e perdemos a
oportunidade de compartilhar o evangelho com ou­
tros. Como Pedro, falamos quando deveríamos ouvir
e discutimos quando deveríamos obedecer, dormi­
mos quando deveríamos orar e lutamos quando deve­
ríamos nos sujeitar.
Com Jesus na escola da vida
50
Em sétimo lugar, a blasfêmia (Mt 26.70,72,74; Mc
14.71). Pedro negou a Cristo três vezes. Ele negou
na primeira vez (Mt 26.70), jurou na segunda vez
(Mt 26.72) e praguejou na terceira vez (Mt 26.74).
A boca de Pedro estava cheia de praguejamento e
blasfêmia, e não de votos de fidelidade. Ele caiu das
alturas da autoconfiança para o abismo da derrota
mais humilhante. Sua queda não aconteceu num
único lance. Foi de degrau em degrau. Ele poderia ter
interrompido essa escalada de fracassos, mas só caiu
em si quando estava com a alma coberta de opróbrio
e com os olhos inchados de tanto chorar.
Não somos melhores do que Pedro. Estamos
sujeitos aos mesmos fracassos e deslizes. A única
maneira de permanecermos de pé é colocarmos
nossos olhos em Cristo e dependermos dele, em vez
de nos escorarmos no frágil bordão da autoconfiança.
A ESCALADA DA RESTAURAÇÃO
Acabamos de ver os sete degraus da queda de Pedro;
agora veremos os sete passos da sua restauração.
Em primeiro lugar, o olhar penetrante de Jesus.
Então, voltando-se o Senhor; fixou os olhos em Pedro, e
Pedro se lembrou da palavra do Senhor, como lhe dissera:
Hoje três vezes me negarás, antes de cantar o galo (Lc
22.61). Jesus olhou para Pedro exatamente no mo­
mento em que este estava insistindo em dizer que
não conhecia a Cristo. Os olhos de Cristo penetraram
Pedro, os degraus da queda e a escalada da restauração
51
na alma de Pedro, devassaram seu coração, radiogra­
faram suas mazelas. A Bíblia diz que seus olhos são
como chama de fogo. Ele tudo vê e tudo sonda. Não
podemos escapar de seu olhar. Ele sabe aonde vamos,
o que fazemos, o que pensamos. Ele segue nossos pas­
sos e penetra os nossos mais profundos pensamentos.
Cristo está olhando para você agora. Onde você
se encontra em sua vida espiritual? Com quem você
anda? O que você está fazendo? Que tipo de máscara
você está usando? Que o olhar restaurador de Cristo
penetre agora em sua vida!
De que maneira o canto do galo encorajou Pedro?
1) Serviu para lhe garantir que, mesmo sendo um
prisioneiro, atado e aparentemente indefeso diante
de seus captores, Jesus continuava no controle de
todas as coisas.
2) O canto do galo foi uma garantia a Pedro de
que ele poderia ser perdoado, pois naquele instante
ele se lembrou da palavra do Senhor (Lc 22.61). Essa
lembrança lhe deu esperança.
3) O milagre do canto do galo mostrou a Pedro
que um novo dia começava. Deus não despreza o co­
ração compungido. Na manhã da ressurreição, o anjo
enviou uma mensagem especial de ânimo para Pedro,
e o próprio Jesus ressurreto lhe apareceu (Lc 24.34).
Em segundo lugar, o choro amargo pelo pecado
(Mt 26.75; Mc 14.72; Lc 22.62). E, saindo dali, cho­
rou amargamente (Mt 26.75). E, caindo em si, desatou
Com Jesus na escola da vida
52
a chorar (Mc 14.72). Então Pedro, saindo dali, chorou
amargamente (Lc 22.62),
Logo que as lágrimas do arrependimento rola­
ram pelo rosto de Pedro, seus pés se apressaram em
sair daquele ambiente. Pedro saiu e chorou. Mas,
antes de desatar em choro, ele caiu em si. Vejamos
então os passos:
•Ele caiu em si.
•Ele saiu dali.
•Ele desatou a chorar.
•Ele chorou amargamente. No original, a palavra
“amargamente” significa água podre. Ele deixou va­
zar toda a lama que estava dentro do seu coração. Ele
havia negado seu nome, sua fé, seu apostolado, seu
Senhor. Ele saiu dali naquela noite chutando pedras
no meio dos olivais. Foi para casa. Alagou seu leito.
Virava-se na cama. Pedro, pedra, fragmento de pedra,
pó. Ele tinha fracassado, mas estava agora arrependi­
do, e suas lágrimas amargas do arrependimento var­
riam toda a sujeira que se acumulara em sua vida.
Em terceiro lugar, o impacto do túmulo vazio. Tais
palavras lhes pareciam um como delírio, e não acredita­
ram nelas. Pedro, porém, levantando-se, correu ao sepul­
cro. E, abaixando-se, nada mais viu senão os lençóis de
linho; e retirou-se para casa, maravilhado do que havia
acontecido (Lc 24.11,12).
Ao receber a notícia do sepulcro vazio, Pedro
correu ao sepulcro com João; enquanto este apenas
Pedro, os degraus da queda e a escalada da restauração
53
olhava de fora os lençóis, Pedro entrou e viu os lençóis
e o lenço que estava sobre o rosto de Cristo. Então eles
compreenderam a verdade gloriosa da ressurreição e
voltaram para casa maravilhados.
O poder da ressurreição foi mais um instrumen­
to que Deus usou para levantar Pedro de sua queda.
Cristo venceu o poder da morte. Ele desbaratou o
inferno na cruz e, pela ressurreição, segura em suas
mãos as chaves da morte e do inferno. Essa mensa­
gem o deixou maravilhado. A mesma mão que abriu o
túmulo de Cristo abriu os olhos de Pedro.
Em quarto lugar, a procura especial de Cristo.
Mas ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro, que ele vai
adiante de vós para a Galileia; lá o vereis, como ele vos
disse (Mc 16.7).
Por que esse recado especial a Pedro? É porque
Jesus sabia que Pedro não se sentia mais discípulo.
Ele estava ainda com o gosto amargo do fracasso e
ainda com os traumas da queda. Jesus não abriu mão
de Pedro. Ele não abdicou do seu direito de ter Pedro
de volta. Ele não desistiu de amá-lo. Pedro desistiu de
Jesus, mas Jesus não desistiu de Pedro.
Cristo também não abre mão da sua vida. Ele não
desiste de procurar você, de ir ao seu encontro, de
arrastá-lo para ele com cordas de amor.
Em quinto lugar, a pergunta especial de Cristo (Jo
21.15-17). Pedro foi para a Galileia. Duzentos quilô­
metros, e a cada passada um golpe na consciência. Ele
volta com medo de ser como cana quebrada. Chega e
Com Jesus na escoía da vida
54
decide voltar às redes. Decide retroceder e recomeçar
sua velha vida. Por sua liderança, arrasta os outros
consigo. Naquela noite, eles nada apanham. De ma­
drugada, Cristo aparece na praia, e de longe eles veem
sua silhueta. De repente ele pergunta: Filhos, tendes aí
alguma coisa para comer? Eles respondem: Não. Então,
ele lhes ordena: Lançai a rede à direita do barco e acha­
reis. Um cardume pula na rede, e João sussurra aos
ouvidos de Pedro: É o Senhor! Pedro salta na água e
corre em direção a Jesus. Este não o humilha. Não o
esmaga. Não o acusa. Depois de alimentá-lo, chama-o
à parte e lhe pergunta: Tu me amas? Pedro responde:
Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Então Jesus lhe per­
gunta pela segunda vez: Pedro, tu me amas? Ele res­
ponde: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Pela terceira
vez Jesus pergunta: Tu me amas? Pedro começa a se
entristecer e responde: tu sabes todas as coisas, tu sa­
bes que eu te amo (Jo 21.5-7; 15-17).
A única condição que Jesus exigiu de Pedro para
recomeçar foi seu amor por ele. Nada de reprimenda.
Nada de humilhação. Quando amamos a Jesus
podemos nos levantar e nos recompor!
Cristo restaurou a cena e perguntou três vezes,
porque três vezes Pedro negara. Cristo trata da psique
e da alma de Pedro!
Em sexto lugar, o comissionamento dado por Cristo
(Jo 21.15-19). Cristo não apenas restaura a vida de
Pedro, mas também o seu ministério. Ele lhe dá duas
ordens: primeira, pastoreia os meus cordeiros e minhas
ovelhas; e segunda, segue-me.
Pedro, os degraus da queda e a escalada da restauração
55
Hoje mesmo Cristo pode lhe devolver seu
ministério. Ele pode colocá-lo de volta naquele posto
do qual um dia você fugiu. Hoje mesmo você pode
seguir a Jesus para fazer sua vontade e cumprir o seu
eterno propósito. O Senhor quer restaurá-lo para que
você volte a fazer toda a sua vontade!
Em sétimo lugar, o enchimento do Espírito (At
2.4,14). Pedro não apenas tem de volta seu ministério,
mas agora é revestido com o poder do Espírito Santo
para realizar o ministério. O Pedro medroso torna­
se intrépido. O Pedro inconstante torna-se firme.
O Pedro que falava sem pensar agora se transforma
no grande pregador. Ao levantar para pregar, os
corações se derretem, e aos milhares as pessoas vão
se convertendo a Cristo. Deus quer hoje enchê-lo do
Espírito Santo. Ele quer que você seja um vaso de
honra, útil e preparado para uma grande obra!
Com Jesus na escoJa da vida
CAPÍTULO 6
SA^eeml,
como se libertar dos
traumas da vida
Noemi tem uma das histórias mais dramáticas que já
li. Seu nome significa ditosa, feliz, mas sua história
é marcada por grandes desalentos, grandes perdas e
grandes traumas.
Ela viveu no período mais turbulento da história
de Israel, o período dos juizes. Tempo de instabili­
dade espiritual e financeira. Tempo de insegurança
para as famílias. Tempo de apostasia religiosa.
57
E nfrentando os dramas da vida
Noemi enfrentou muitos dramas na vida. Vamos
aqui alistar alguns:
Em primeiro lugar, Noemi foi atingida pelo drama
da pobreza (Rt 1.1). Ela fazia parte de uma família
rica de Belém, a terra onde mais tarde Davi nasceu.
O berço onde o próprio Filho de Deus nasceu. Belém
significa “casa do pão”, mas houve um dia em que
faltou pão em Belém. A crise se instalou e atingiu os
pobres e os ricos.
A fome é algo desesperador. Victor Frankl diz que
comida era o assunto principal nos campos de con­
centração nazistas. Houve falta de pão na “casa do
pão”. As pessoas procuravam pão, mas só viam fornos
frios, prateleiras vazias, farelo de pão e receita de pão.
Os tempos áureos haviam ficado para trás.
Em segundo lugar, Noemi foi atingida pelo drama
do desterro (Rt 1.2). Elimeleque e Noemi, com seus
dois filhos, Malom e Quiliom, fugiram de Belém e
foram para Moabe. Eles fugiram da crise, em vez de
enfrentá-la. Nem sempre é prudente fugir. Abraão fu­
giu para o Egito e ali caiu na teia da mentira. Isaque
foi proibido por Deus de descer ao Egito e aonde foi
mentiu também sobre sua mulher.
A família de Noemi buscou a sobrevivência e en­
controu a doença e a morte. Buscaram segurança e
encontraram a perda total. A solução não é fugir na
Com Jesus na escola da vida
58
hora da crise, não é desistir de esperar, não é pedir
o divórcio.
Hoje as famílias desaprenderam a arte da paci­
ência. Muitos não sabem lidar mais com as tensões.
Brigam e se separam ao sinal da primeira crise. O ca­
samento tornou-se descartável. Os casais estão juntos
até a primeira briga, até o primeiro desentendimento.
Em terceiro lugar, Noemi foi atingida pelo drama
das perdas (Rt 1.3-5). Noemi ficou viúva e sem filhos.
Em terra estranha morreram seu marido e, mais tar­
de, os seus dois filhos. Ela saiu para buscar vida e
encontrou a morte. Saiu para encontrar sobrevivên­
cia e encontrou o luto. Saiu para fugir da crise e deu
de cara com ela. Ficou viúva, sem filhos, pobre, em
terra estranha.
Ela sofreu as mais profundas perdas. Perdeu
não apenas coisas, mas pessoas. Perdeu não apenas
dinheiro, mas relacionamentos. Perdeu não apenas o
supérfluo, mas o essencial.
Noemi viveu o drama da solidão. Ela ficou só
em terra estranha. Não tinha a quem recorrer. Não
tinha um parente em quem buscar ajuda. Não tinha
marido, não tinha filhos, não tinha parentes, não
tinha dinheiro. Estava absolutamente só.
Em quarto lugar, Noemi foi atingida pelo drama da
despedida (Rt 1.6-14). Noemi perdeu o que havia le­
vado para Moabe e agora está prestes a perder tudo
o que havia encontrado em Moabe, suas duas no­
ras. Ela está se despedindo das únicas pessoas que
Noemi, como se libertar dos traumas da vida
59
tinham ligação com ela. Ela está se despedindo das
únicas pessoas que podiam lhe dar uma esperança,
uma descendência.
Ela está rompendo laços extremamente impor­
tantes na vida. Está com o coração partido. Sabe que
não tem nada a oferecer e nada a reivindicar. Abriu
mão do marido e dos filhos sem nada poder fazer.
Agora precisa abrir mão das noras voluntariamente.
Sua história está marcada petas perdas involuntárias
e pelas perdas voluntárias.
Em quinto lugar, Noemi foi atingida pelo drama da
amargura contra Deus (Rt 1.13,20,21). Noemi está com
o coração entupido de mágoa. Ela atribui todo o seu
sofrimento a Deus. Afirma que Deus descarregou so­
bre ela a sua mão (v. 13). Diz que Deus lhe deu grande
amargura (v. 20). Que foi Deus quem a deixou pobre
(v.21). Ela diz que Deus, o Todo-poderoso, a afligiu
(v.21) e se manifestou contra ela (v.21).
Essa mulher volta para Belém com perdas profun­
das, e talvez a maior delas seja a perda espiritual. Ela
se sente injustiçada por Deus. Ela se vê vítima não
do inimigo, mas de Deus. Atribui toda a tragédia que
desabou sobre sua vida a Deus.
Ela, como Jó, entende que Deus é quem estava di­
rigindo todas as coisas para atormentar a sua vida.
Ela responsabiliza Deus pela sua tragédia. Está com
raiva de Deus.
Noemi quer trocar de nome. Ela está tomada por
um profundo senso de autopiedade. Quer que todos
Com Jesus na escola da vida
60
saibam que não pode mais ser feliz. Ela olha só para o
passado e não tem motivos para alegrar-se.
L ibertando-se dos traumas da vida
Noemi pôde ver a face sorridente de Deus através
da sua providência carrancuda. Do vale mais profundo
da sua dor, nasceu-lhe a esperança mais bendita.
Destacaremos, aqui, três pontos:
Em primeiro lugar, quando a visão do todo estiver
pessimista, tire os olhos do geral e coloque-os no parti­
cular. Para Noemi, o cenário grande é de pessimismo.
Existe fome, anarquia, desgraça. Ela perdeu bens,
deixou para trás família, sua terra, amizades. Agora,
em terra estranha, ela perde o marido e os filhos. Está
prestes a perder as noras. Ela olha para Deus e pen­
sa que ele está contra ela. Ela se vê completamente
desamparada e sem esperança. Mas nessa saga de
dramas há pequenos eventos incrivelmente maravi­
lhosos. A mão de Deus está nos detalhes da vida.
Algumas pessoas pensam: “Tudo na minha vida
vai mal”. Mas, se alguém lhes perguntar: “Tudo?”,
elas certamente verão que nem tudo vai mal. Coisas
bonitas, eventos carregados de ternura, pessoas
leais muitas vezes passam despercebidos, porque
as circunstâncias maiores se agigantam de forma
avassaladora. Dentro dos traumas da vida há sinais de
esperança. A jornada de Noemi e Rute é do vale para
os montes, da pobreza para a fartura, do anonimato
Noemi, como se libertar dos traumas da vida
61
para o reconhecimento mundial. Olhe para a sua vida
e veja quanta coisa boa está acontecendo: sua vida,
sua família, sua saúde, seus amigos, seus sonhos.
Em segundo lugar, quando seu coração estiver
apertado de dor, olhe para a prodigalidade do amor das
pessoas que estão ao seu lado (Rt 1.16,17). A mais
bela declaração de amor que temos na Bíblia, usada
nas cerimônias de casamento, não é de um noivo
apaixonado para sua amada, nem de uma noiva
romântica para seu amado, mas a declaração de
uma nora viúva para uma sogra estrangeira, viúva,
pobre e sem filhos.
Noemi foi uma sogra que tratou as noras com
respeito e amor. Quem planta amor colhe amor.
Quem semeia amizade colhe amizade. Ela ganhou
suas noras para Deus. Rute abandona seus ídolos para
servir o Deus vivo.
Noemi foi uma sogra que, ao casar os filhos, não
os perdeu para suas noras, mas ganhou duas filhas
que não tinha.
Nesse tempo de perdas, esses relacionamentos
foram a grande âncora da esperança na vida de Noemi.
Ela investiu e agora estava colhendo os frutos doces
do amor. Muitas mulheres, por não cultivarem um
bom relacionamento com as noras, passam a velhice
sozinhas e amargas.
Na hora da crise precisamos ter amigos. De nada
adianta você atropelar as pessoas por causa de seus
interesses. 0 que conta na hora da aflição é ter gente
Com Jesus na escola da vida
62
do seu lado que lhe diz: aonde quer que fores, irei eu e,
onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o
meu povo, o teu Deus é o meu Deus. Onde quer que mor­
reres, morrerei eu e aí serei sepultada; faça-me o Senhor o
que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte
me separar de ti (Rt 1.16,17).
Em terceiro lugar, quando você olhar para a vida e
não enxergar um sentido, atente para o fato de que Deus
é sábio, poderoso e bom o suficiente para transformar os
desastres da vida em vitória. E possível que a vida o
tenha levado por caminhos difíceis, perdas enormes,
sofrimento avassalador. Noemi perdeu sua terra, sua
gente, seu marido, seus filhos. As tragédias vieram
sobre ela como avalanches. Mas quando tudo pare­
cia perdido e sem sentido, Deus estava escrevendo
uma linda história na vida dessa mulher. Aquela fa­
mília estava sendo levantada para ser precursora do
Messias. O momento presente tem desdobramentos
no futuro, os quais mal posso alcançar.
O que Deus fará por meio de um filho seu, de um
neto? O que está projetado no futuro que depende
da sua atitude agora? Quando as coisas parecem
sem sentido, com Deus elas fazem todo sentido. Ele
continua no trono construindo a nossa história!
O grande poeta inglês William Cowper disse: “Por
trás de toda providência carrancuda, esconde-se uma
face sorridente".
A prisão de John Bunyan e o clássico O peregrino
revelam que Deus transforma vales em mananciais.
Noemi, como se libertar dos traumas da vida
63
As prisões de Paulo nos deram suas cartas. A prisão
de João nos deu o livro de Apocalipse.
P rincípios para a vitória diante
DAS INCERTEZAS DO FUTURO
A história de Noemi nos ensina alguns princípios
importantes, que vamos destacar aqui:
Em primeiro lugar, nos momentos imprevisíveis, não
se dê por vencido prematuramente (Rt 1.8). De Rute 1.8
pode-se tirar a lição de não considerar perdida qualquer
luta no primeiro round. No primeiro tempo do jogo,
ainda é cedo para entregar os pontos. O que aconteceu
com Noemi? Ela se deixou abater, se deu por vencida,
quando a luta ainda estava no começo; ela mandou suas
noras embora e disse: “Está tudo terminado, acabou”. O
último capítulo da sua vida ainda não foi escrito. Deus
ainda pode reverter o resultado desse jogo. Espere mais
um pouco, que as coisas mudarão. Alguém poderia
olhar para Abraão com 99 anos, ainda esperando o filho
da promessa, como um perdedor, como um visionário
fracassado. Mas Abraão não foi um fracasso; ele foi o
pai da fé. Alguém também poderia olhar para Moisés,
quarenta anos esperando no deserto. Um homem
que trocou o cetro pelo cajado, o palácio pelo deserto.
Alguém poderia dizer: “Você está sentenciado a uma
aposentadoria precoce”. “Você é um derrotado”. Mas,
com um cajado na mão, Moisés liderou o povo e, com
uma vara, fez dobrar o maior império. Outra pessoa
Com Jesus na escola da vida
64
poderia olhar para Calebe. Aos 85 anos ainda tinha
sonhos. Alguém poderia lhe dizer: “Agora é tarde!”
Quem fala de uma pessoa cujo capítulo final ainda não
foi escrito candidata-se a ter que engolir suas palavras.
No tanque de Betesda havia um paralítico que estava
sentenciado à sua desdita havia 38 anos. Trinta e oito
anos esperando um milagre. Todos pensavam que já não
tinha mais jeito. Mas um dia Jesus chegou lá e escreveu
o último capítulo da sua vida. Foi assim também com
a mulher hemorrágica. Ela ficou doze anos prisioneira
de uma enfermidade. Gastou todos os seus bens. Para
muitos, era um caso perdido. Mas um dia Jesus mudou
a sua sorte. O último capítulo da sua vida ainda não
foi escrito. Não entregue os pontos, não jogue a toalha.
Espere por uma intervenção sobrenatural e milagrosa
de Deus em sua vida.
Em segundo lugar, na tribulação, não perca a es­
perança (Rt 1.12). Noemi perdeu a esperança. Olhar
para o futuro com esperança é dizer: “Vai ser melhor
do que é hoje”. Atravessando a maior luta, a esperan­
ça diz: “Vai melhorar!”
Quando uma pessoa perde a esperança, ela se
abate, porque não encontra mais razão para lutar.
Esperança é a força que nos impulsiona a ir adiante.
Certa feita, um jovem fotógrafo, ao bater a foto de um
velhinho de 80 anos de idade, disse-lhe: “Pois é, va­
mos ver se celebramos os 100!”. O velhinho respon­
deu: “E, pela sua saúde, eu estou achando que você
chega lá, e poderemos celebrar juntos”.
Noemi, como se libertar dos traumas da vida
65
Foi feito um estudo nos Estados Unidos mostran­
do que as pessoas que se aposentam e “vestem o pija­
ma”, ou seja, se acomodam e só assistem à televisão,
morrem dentro de cinco anos. O ser humano precisa
de uma motivação para viver.
O profeta Elias queria morrer. Ele estava numa
caverna. Mas Deus lhe diz: O melhor está pela fren­
te. Nem morrer você vai. Seu trabalho ainda não
acabou.
Jó, mesmo estando nas cinzas, disse: eu sei que o
meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra
(Jó 19.25).
Em terceiro lugar, não creia que a tribulação é
maldição de Deus (Rt 1.13). No versículo 13, Noemi
associou tribulação com maldição de Deus. Mas Tiago
desmente isso: Meus irmãos, tende por motivo de toda
alegria o passardes por várias provações (Tg 1.2).
A vida de Noemi não se encontrava sob maldição.
Deus pretendia operar maravilhas em sua vida. Todos
os acontecimentos, mesmo aqueles difíceis, faziam
parte da direção de Deus.
Deus não é um guarda cósmico, um desmancha-
prazeres, um ser sádico que gosta de nos ver sofrer.
Deus é amor. Ele nos ama com amor eterno. Nem
sempre o amor nos livra da dor, do sofrimento. Não
é fácil ver o rosto de Deus atrás de uma providência
carrancuda.
O grande desafio da sua vida é levantar a cabeça
quando todos estiverem dizendo que você nasceu
Com Jesus na escola da vida
66
para ser desgraçado, e afirmar: “Não, não foi em
vão que meu Jesus sofreu, padeceu e morreu numa
cruz”. Quando começamos a aceitar o fatalismo do
sofrimento, também nos condenamos ao imobilismo.
Em quarto lugar, quando enfrentar circunstâncias
difíceis, creia que Deus está no controle (Rt 1.21). A de­
claração de Noemi no versículo 21 não é verdadeira.
A relação automática entre o sofrimento e uma pu­
nição de Deus foi uma leitura errada que Noemi fez.
Muitas vezes, o sofrimento não é uma ação direta de
Deus, mas consequência direta da quebra da sua lei
moral. O sofrimento é disciplina de Deus? É resultado
do meu pecado?
Davi diz: Esperei confiantemente pelo Senhor; ele se
inclinou para mim e me ouviu quando clamei por socorro
(SI 40.1).
O apóstolo Paulo diz: sei em quem tenho crido e es­
tou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depó­
sito até aquele Dia (2Tm 1.12).
Noemi voltou. Deus abriu uma porta. Rute casou-se
comBoaz, seuremidor. Deus deu a Noemi prosperidade.
Deu-lhe uma nora que se tornou filha. Deu-lhe um neto
que se tornou avô do grande rei Davi e precursor do
Messias. O último capítulo da história de Noemi foi um
capítulo de vitória, de alegria, de vida, de esperança.
Noemi viu que sua descendência cumpriu o projeto de
Deus na história. Quando perdemos o controle, Deus
continua no controle. Quando perdemos a esperança,
Deus nos conduz em triunfo.
Noemi, como se libertar dos traumas da vida
67
CAPÍTULO 7
o maior bandeirante
do cristianismo
A conversão de Paulo é uma prova incontestável do
poder do evangelho. O maior perseguidor do cristia­
nismo tornou-se o seu maior expoente. Aquele que
queria destruí-lo em seu berço tornou-se seu maior
arauto. 0 grande líder do judaísmo tornou-se o maior
desbravador do cristianismo. O homem que perse­
guiu de forma implacável a fé evangélica sofreu ca­
deias e tribulações por essa mesma fé. Aquele que
69
mais afligiu os cristãos tornou-se o motivo da maior
inspiração para os cristãos.
Destacamos cinco verdades sobre sua vida.
Paulo, o perseguidor
Paulo era judeu e também cidadão romano.
Nasceu em Tarso, na Cilicia, importante província
do império e um dos maiores centros culturais do
mundo. Foi criado em Jerusalém, a capital mundial
do saber teológico, aos pés do mestre Gamaliel, so­
brinho do grande rabino Hillel. Procedia da tribo de
Benjamim, uma das mais ilustres tribos de Israel. Era
hebreu de hebreus, um judeu puro-sangue. Foi criado
como um fariseu e tornou-se zeloso da lei, destacan­
do-se dentre os de sua cidade como um portento, no
zelo da tradição de seus pais. Paulo era um homem de
mente peregrina, de cultura invulgar e de personali­
dade prismática (Fp 3.5,6).
Enquanto esse jovem brilhante era instruído aos
pés de Gamaliel em Jerusalém, um outro rabino tam­
bém crescia em Israel. Não na decantada Jerusalém,
mas na pobre, pequena e esquecida cidade de Nazaré.
Não perlustrando os bancos de uma academia teoló­
gica, mas trabalhando duro nas lidas de uma carpin­
taria com as mãos calejadas. Aos 30 anos de idade,
esse rabino da Galileia foi batizado no rio Jordão e
deu início ao seu ministério. As multidões passaram a
ouvi-lo com vívido interesse, pois não ensinava como
Com Jesus na escola da vida
70
os escribas e fariseus. Pregava com autoridade. Falava
aos ouvidos e também aos olhos. Os cegos viam, os
coxos andavam, os leprosos eram purificados, os mor­
tos ressuscitavam, e aos pobres era anunciado o evan­
gelho do reino. Os líderes do judaísmo, por inveja,
passaram a persegui-lo. Espreitaram-no, caçaram-no,
armaram ciladas para prendê-lo e matá-lo. O rabino
da Galileia, o carpinteiro de Nazaré foi preso, julga­
do, condenado à morte, crucificado e sepultado para
alívio do Sinédrio judaico. Mas, três dias depois, uma
notícia explodiu em Jerusalém como uma bomba no
arraial do inimigo. O túmulo do rabi da Galileia estava
aberto de dentro para fora. Jesus havia ressuscitado.
Foi nesse momento que Saulo de Tarso se levan­
tou, como o braço de ferro do Sinédrio, com fúria
assassina, para perseguir de forma implacável os cris­
tãos, os seguidores do Caminho e o próprio Jesus.
Saulo tornou-se um ferrenho perseguidor da igre­
ja (lTm 1.13). Entrava nas sinagogas e arrastava para
a prisão aqueles que confessavam o nome de Cristo
(At 22.4,5). Entrava nas casas, arrastava homens e
mulheres e os lançava na prisão (At 8.3). Entrava nas
sinagogas e açoitava ali os crentes, forçando-os a blas­
femar o nome de Cristo (At 26.10). Não apenas pren­
dia, mas também exterminava aqueles que aderiam à
religião do Caminho (At 22.19,20; 26.9-11). Seu zelo
religioso, agregado à sua cegueira espiritual, fez dele
uma fera selvagem (At 9.1) e um touro enfurecido e in­
domável (At 26.14). Tornou-se um monstro celerado,
um implacável perseguidor, um pesadelo para aqueles
Paulo, o maior bandeirante do cristianismo
71
que abraçavam a fé cristã (Gl 1.13). Alimentou o pro­
pósito de exterminar o cristianismo, usando a força,
a truculência e a perseguição atroz. Com esse deside­
rato é que partiu para Damasco, capital da Síria, com
o fim de manietar os cristãos e levá-los, presos, para
Jerusalém (At 9.2). Seu ódio não tinha limites. Sua
fúria era semelhante à de um animal selvagem quan­
do devora a sua presa.
P aulo, o convertido
A conversão de Paulo já estava sendo trabalhada
por Deus, mas ele ainda recalcitrava contra os agui­
lhões. Era como um boi selvagem e indócil que não se
sujeita ao ferrão do domador (At 26.14). Deus já havia
mostrado a ele que Jesus, o Nazareno, vencera a mor­
te e que os apóstolos, outrora medrosos, anunciavam
com poder sua ressurreição. Ele viu como Estêvão
orou com o rosto brilhando como o de um anjo mes­
mo na hora do martírio (At 22.20). Mas, como esses
aguilhões não amansaram esse boi selvagem, o pró­
prio Jesus apareceu a ele no caminho de Damasco e
jogou-o ao chão (At 26.6-8).
Paulo viu uma luz aurifulgente e ouviu uma voz
poderosa vinda do céu. Ele, então, descobriu que
estava lutando não apenas contra a igreja cristã,
mas contra o próprio Filho de Deus. Sem tardança,
Paulo se humilhou e se submeteu ao comando do
Senhor Jesus. Sua vida foi transformada. Ele saiu
Com Jesus na escola da vida
72
imediatamente da potestade de Satanás e do reino das
trevas e tornou-se nova criatura. Recebeu uma nova
vida, uma nova mente, um novo coração, uma nova
família, uma nova pátria, uma nova missão. Enfim, o
touro selvagem estava subjugado!
A conversão de Paulo é um divisor de águas na
história do cristianismo. Aquele que era seu maior
problema se tomou seu maior instrumento. Aquele
que foi seu maior opressor se tornou seu maior em­
baixador. Lucas, o autor do livro de Atos, deu tanta
ênfase à conversão de Paulo que registrou esse fato
três vezes (At 9; 22; 26). Sua conversão foi um mi­
lagre extraordinário. Paulo foi convertido não quan­
do estava com o coração quebrantado, mas quando
respirava ameaças e morte contra os discípulos de
Cristo. Paulo não foi salvo quando procurava Cristo,
mas no exato momento em que perseguia Cristo. Não
foi Paulo quem achou Cristo, foi Cristo que o buscou
no caminho de Damasco. A conversão de Paulo é uma
prova insofismável da soberania de Deus na salvação.
A salvação não é obra do homem, mas obra de Deus.
Não é iniciativa humana, mas iniciativa divina. Não é
uma mudança operada na terra, mas um nascimento
vindo de cima.
A conversão de Paulo foi abrupta, mas não imediata.
Deus já estava trabalhando em seu coração. Toda vez que
Paulo entrava numa casa e arrastava homens e mulheres
para a prisão; toda vez que Paulo entrava numa sinagoga
para açoitar os crentes, para jogá-los no cárcere, e dava
seu voto para matá-los; toda vez que esses crentes, em
Paulo, o maior bandeirante do cristianismo
73
vez de blasfemarem o nome de Cristo, glorificavam
a Deus na morte, era o Espírito Santo picando a
consciência desse perseguidor implacável. Quando o
diácono Estêvão foi apedrejado e quando seu sangue foi
derramado e Paulo estava lá, guardando as vestes dos
apedrej adores e consentindo na morte desse piedoso
servo de Deus, o Senhor estava ferroando a consciência
desse fariseu, chamando-o ao arrependimento. Paulo
pôde resistir ao chamado da graça por um tempo, mas
não todo o tempo, pois a graça é irresistível, o chamado
de Deus é eficaz. Aqueles que Deus escolhe, ele chama e
chama eficazmente, irresistivelmente!
A conversão de Paulo nos mostra que não há vida ir­
recuperável para Deus. Ele pode transformar monstros
celerados em homens piedosos, perseguidores impie­
dosos em pregadores ungidos, opositores da fé cris­
tã em ministros da reconciliação. Deus transformou
Saulo de Tarso, um implacável perseguidor, em Paulo,
o maior bandeirante do cristianismo. Transformou
Agostinho de Hipona, um homem devasso, no maior
expoente da igreja nos séculos 4 e 5. Deus ainda trans­
forma os párias da sociedade em vasos de honra, ho­
mens sucateados pelo pecado em pregoeiros da justiça,
protagonistas de guerras em embaixadores da paz.
P a ulo, o missionário
Jesus não apenas escolheu Paulo para a salvação,
mas também o chamou para a obra missionária.
Com Jesus na escola da vida
74
Designou-o para pregar aos gentios, aos judeus e aos reis.
Paulo tornou-se o maior bandeirante do cristianismo.
Atravessou mares, cruzou desertos, enfrentou açoites
e prisões para plantar igrejas na Galácia, Macedônia,
Acaia e Ásia Menor. Tornou-se o maior evangelista, o
maior plantador de igrejas, o maior teólogo e o maior
expositor das verdades cristãs de todos os tempos.
Ele escreveu cartas inspiradas que se tornaram
luzeiros para o mundo. Pastoreou igrejas e desbravou
campos inalcançados, abrindo novas fronteiras para a
implantação do reino de Deus na terra.
Os resultados do ministério de Paulo estão além
da nossa capacidade de avaliação. Ele pregou no po­
der e virtude do Espírito (lTs 1.5; ICo 2.4). Pregou
com lágrimas e também com senso de urgência. Ao
mesmo tempo que jamais negociou a verdade absolu­
ta, escolheu sempre os melhores métodos para anun­
ciá-la com eficácia.
Paulo foi o grande líder da obra missionária no
primeiro século. Foi por meio dele que o evangelho se
expandiu, definitivamente, para além das fronteiras
de Israel. O mesmo Deus que o salvou também o co­
missionou e delimitou sua área de ação. É bem verda­
de que Paulo não trabalhou sozinho. Ele não fez uma
carreira solo. Por onde andou, cercou-se de coopera-
dores, que o ajudaram na obra e deram continuidade
a seu trabalho.
Paulo não foi apenas um missionário e plantador
de igrejas. Também foi um pastor zeloso. Embora sua
prioridade fosse lançar os fundamentos e anunciar o
Paulo, o maior bandeirante do cristianismo
75
evangelho onde ainda não haviam sido proclamadas
as boas-novas, ele não abandonava os convertidos
à sua própria sorte. Em suas viagens missionárias,
sempre voltava aos antigos campos para fortalecer
na fé os irmãos. Paulo tinha paixão missionária e zelo
pastoral. Abria novas fronteiras sem deixar de conso­
lidar o trabalho já estabelecido.
P aulo, o perseguido
O Saulo perseguidor tornou-se o Paulo perseguido.
Desde sua conversão, entregou-se de corpo e alma à
pregação do evangelho. Nessa saga bendita, foi preso
em Damasco, rejeitado em Jerusalém, esquecido
em Tarso, apedrejado em Listra, preso em Filipos,
escorraçado de Tessalônica, enxotado de Bereia,
chamado de tagarela em Atenas e de impostor em
Corinto. Paulo enfrentou feras em Éfeso, foi preso
em Jerusalém, acusado em Cesareia, picado por uma
víbora em Malta e, finalmente, foi preso, acusado,
condenado e degolado em Roma. Como um mártir
tombou na terra, mas como um príncipe de Deus foi
recebido no céu. Ainda hoje, nenhum rei, nenhum
filósofo, nenhum pensador jamais teve a mesma
projeção na terra. Sua vida ainda inspira milhões de
pessoas e, mesmo morto, ainda fala com poderosa
eloquência aos ouvidos da história.
A vida desse bandeirante do cristianismo nos mos­
tra que não há casos perdidos para Deus. Revela-nos
Com Jesus na escola da vida
76
que Deus pode transformar o pior inimigo no maior
aliado. Demonstra-nos que, quando Deus age, o faz
eficazmente, e que ninguém pode resistir à graça so­
berana do Deus que predestina, chama, justifica e
glorifica (Rm 8.30). A vida de Paulo nos encoraja a
jamais desistir de esperar a conversão dos nossos en­
tes queridos e dos nossos amigos, ainda que humana­
mente isso pareça impossível. A vida desse gigante da
evangelização nos motiva a crer que Deus reverte as
situações mais desesperadoras, transformando-as em
cenários de gloriosa esperança!
Paulo, o mártir
A vida cristã não é um mar de rosas. Ser cristão
não é viver numa redoma de vidro nem pisar em
tapetes aveludados. A vida cristã é uma guerra sem
trégua contra o mal; é uma luta sem pausa contra
o pecado; é uma batalha contínua contra a carne, o
mundo e o diabo. A vida do apóstolo Paulo retrata
essa verdade de forma eloquente. A despeito de esse
bandeirante da fé ser o maior pastor, evangelista,
teólogo, missionário e plantador de igrejas da história
do cristianismo, ele encerrou sua carreira enfrentando
cinco dramas pessoais. Vejamos quais foram essas
dolorosas experiências:
O drama da solidão (2Tm 4.9,11,21). Paulo estava
preso numa masmorra romana, na antessala do mar­
tírio e no corredor da morte. O tempo da sua partida
Paulo, o maior bandeirante do cristianismo
77
havia chegado. E nesse momento final da vida, em vez
de estar cercado de amigos, estava sozinho, curtindo
dolorosa solidão. Mesmo tendo a assistência do céu,
carecia da solidariedade humana. Mesmo sendo assis­
tido por Deus, desejou ardentemente a presença dos
seus amigos. A solidão é uma dor que dói na alma, e
Paulo não teve vergonha de expressá-la publicamente.
O drama do abandono (2Tm 4.10). Paulo foi aban­
donado por Demas no final da vida. Aquele que de­
veria estar ao seu lado bandeou-se para o mundo e
abandonou o veterano apóstolo. Aquele que deveria
estar encorajando o apóstolo diante da dura realida­
de do martírio que se aproximava amou o presente
século e afastou-se. Paulo não apenas sentiu a dor da
solidão, mas também sentiu na pele o aguilhão do
abandono. Mesmo sabendo que Deus jamais o aban­
donaria, Paulo expressou a dor de ser abandonado
por aqueles que um dia caminharam com ele.
O drama da traição (2Tm 4.14,15). Paulo foi traí­
do por Alexandre, o latoeiro. Esse homem lhe causou
muitos males e também resistiu fortemente às suas
palavras. Os historiadores afirmam que foi Alexandre,
o latoeiro, que delatou Paulo, culminando na sua se­
gunda prisão em Roma e no consequente martírio.
Não é fácil ser traído. Não é fácil lidar com aqueles que
buscam uma oportunidade para puxar o nosso tapete
e nos apunhalar pelas costas. Paulo sentiu de forma
profunda esse drama. Em vez, porém, de guardar má­
goa, entregou para Deus sua causa, dizendo: o Senhor
lhe dará a paga segundo as suas obras (2Tm 4.14).
Com Jesus na escola da vida
78
O drama das privações (2Tm 4.13). Paulo enfrentou
no final da vida três tipos de privações: a privação
emocional, pois sentiu-se só num calabouço úmido,
escuro e insalubre; a privação mental, pois estava
desprovido de seus livros e pergaminhos e, mesmo
no ocaso de sua jornada, estava ainda sedento de
aprofundar-se um pouco mais nas verdades eternas
de Deus; a privação física, pois na chegada do inverno
precisava desesperadamente de sua capa, talvez velha
e surrada, para proteger-lhe o corpo cicatrizado do
frio implacável. O maior expoente do cristianismo
de todos os tempos está abandonado, jogado numa
masmorra, à beira do martírio, sem ter sequer uma
capa velha para vestir.
O drama da ingratidão (2Tm 4.16). Paulo abre o
coração para expressar o seu drama, a dor de enfrentar
o tribunal romano e, na sua primeira defesa, não
ter ninguém a seu favor. Aquele que investiu sua
vida para plantar igrejas nas províncias da Galácia,
Macedônia, Acaia e Ásia Menor foi abandonado por
todos. Quando ele mais precisou de um ombro amigo,
todos o abandonaram à sua própria sorte. Deus,
porém, o assistiu e o revestiu de forças para cumprir a
pregação aos gentios (2Tm 4.17). Deus o livrou não da
morte, mas na morte e o levou a salvo para o seu reino
celestial (2Tm 4.18). Paulo foi retirado da masmorra
e levado ao patíbulo. Ali foi degolado, mas antes de
expirar escreveu: A ele [ao Senhor Jesus], glória pelos
séculos dos séculos (2Tm 4.18).
Paulo, o maior bandeirante do cristianismo
79
CAPÍTULO 8
Um jovem
a /n m ü m /p
Li algures um livró fantástico com o título O perigo
de vestir-se com um lençol. O autor fez uma brilhante
exposição de Marcos 14.51,52. O texto relata o epi­
sódio de um jovem vestido com um lençol. A cidade
de Jerusalém estava vivendo a noite mais dramáti­
ca da sua história. Judas liderava a turba de sacer­
dotes e soldados que iam prender Jesus no jardim
do Getsêmani. Já era noite. Muitas pessoas apenas
olhavam a cena, mas um jovem não se conteve. Do
jeito que estava, enrolado em um lençol, pulou de sua
cama e infiltrou-se no meio da turba que estava levan­
do Jesus preso. Não se apercebeu de que lençol não é
81
roupa. Não se deu conta de que estava indevidamente
vestido e de que poderia ser desmascarado no meio da
multidão e exposto ao vexame.
Esse jovem é um símbolo daqueles que seguem a
multidão sem saber direito o que está acontecendo. Ele
representa os seguidores ocasionais e os discípulos de
plantão. Ele estava seguindo a Jesus, mas sem medir as
consequências. Estava vestido inconvenientemente e
despreparado para enfrentar as dificuldades. O texto
em tela nos enseja algumas lições:
OS QUE SE COBREM COM UM LENÇOL SÃO UM SÍMBOLO
DOS QUE SEGUEM A CRISTO SEM COMPROMISSO
Aquele jovem se tornou um discípulo casual.
Faltava-lhe o compromisso com Jesus. Ele era um
discípulo de improviso. Seguia a Jesus movido apenas
pela curiosidade. Infiltrou-se no meio da multidão,
mas não fazia parte da caravana. Era apenas um
espectador descomprometido. Muitos, ainda hoje,
estão na igreja, mas não seguem a Jesus de verdade.
Estão no meio da multidão, mas não conhecem a
Jesus nem têm qualquer aliança com ele. Há alguns
que nem sabem direito por que estão na igreja e o que
estão fazendo lá.
A multidão parece ser o meio mais seguro para
vivermos no anonimato. Curtimos a solidão do
descompromisso no meio da multidão. A multidão é
apenas uma massa sem nome, sem identidade, sem
Com Jesus na escola da vida
82
aliança. Todos estão juntos, mas não se conhecem nem
se pertencem. Deus não se impressiona com a multidão.
Ele não nos vê como uma massa, mas como indivíduos.
Ele não vê nossa performance, mas nosso coração. Não se
impressiona com nossas ações externas, mas com nossas
atitudes internas. Não se contenta com nossos arroubos
imediatistas, ele busca compromissos perenes. Hoje, há
muitas igrejas cheias de pessoas vazias. Há multidões
lotando templos e praças, mas poucos que estão de fato
seguindo a Cristo com sinceridade.
OS QUE SE VESTEM COM UM LENÇOL SÃO UM
SÍMBOLO DAQUELES QUE VIVEM SUPERFICIALMENTE
O lençol era a única cobertura que aquele jovem
possuía. Era, portanto, um arranjo, uma proteção su­
perficial. Não havia mais nada além daquilo que era
aparente. Quando lhe arrancaram o lençol, não havia
mais nada para lhe proteger a vergonha. Há muitas
pessoas, ainda hoje, que vivem de forma rasa, descom­
prometida e superficial. Têm apenas um verniz, uma
casca de piedade, mas nenhuma essência de santidade.
A superficialidade é a marca registrada da nossa
geração. Essa superficialidade está presente no
casamento. Muitos casais perderam a capacidade de
enfrentar juntos as tensões da vida. Não dialogam
mais, não conversam mais sobre as questões essenciais
da vida. Desistem do casamento ao sinal da primeira
crise. Saltam do barco ao sinal do primeiro ruído
Umjovem anônimo
83
de tempestade. Ao mesmo tempo em que os véus
das noivas estão ficando cada vez mais longos, os
casamentos estão se tomando cada vez mais curtos.
A superficialidade está presente na igreja. Uma
das coisas mais difíceis de se manter atualizadas hoje
é o rol de membros de uma igreja. Com a mesma faci­
lidade com que as pessoas chegam à igreja, elas saem.
Poucos membros têm compromisso de fidelidade com
a igreja e com a denominação. As pessoas trocam de
igreja como se troca de roupa. São membros flutuan­
tes e sazonais, que bebericam em muitas fontes, que
comem em muitas mesas e que buscam pastagens em
muitos campos diferentes.
A superficialidade está presente nas alianças
políticas. Já se foi o tempo em que os políticos tinham
compromisso com o idealismo partidário. Sentimos
saudades daquele tempo em que homens públicos
viviam e morriam por uma bandeira e por uma
convicção nobre. Hoje, os partidos políticos tornaram-
se moeda de troca, cabides de emprego, crivo largo
por onde vasam os recursos suados da nação.
A mais desastrosa superficialidade é aquela
revelada em nossa relação com Deus. O profeta
Oseias denunciou o povo de Israel dizendo que seu
amor por Deus era como névoa, que logo se desfazia.
As mesmas pessoas que juram fidelidade a Deus
viram-lhe as costas. São crentes apenas de rótulo.
Oltantam apenas uma fachada. Vestem-se apenas
epm um lençol,
Com Jesus na escola da vida
84
OS QUE SE COBREM COM UM LENÇOL
SÃO ADEPTOS DO PRAGMATISMO
Os que se vestem com um lençol preferem o
que dá certo ao que é certo. Não era certo sair de
lençol, mas naquele momento deu certo. Era noite,
e o jovem pensou que poderia ficar despercebido.
O lençol enrolado no corpo, à noite, parecia-se com
uma vestimenta decente. A escuridão favorecia esse
tipo de arranjo. Ele pensou: ninguém sabera, então,
eu vou fazer”. Sua ética era a ética do momento, da
conveniência. Muitos, ainda hoje, agem desta mesma
forma. Estão mais preocupados com resultados do que
com a verdade; buscam mais a conveniência pessoal
do que fazer o que é certo diante de Deus.
O pragmatismo é a filosofia mais conhecida e
praticada desde o século 20. Está presente na política,
na economia e na religião. Uma pessoa pragmática não
está interessada na verdade, mas em resultados. Ela
não se preocupa com princípios, mas com vantagens.
Não está comprometida com os valores eternos, mas
com as conveniências imediatas. Esse pragmatismo
filosófico é nocivo. Abre o caminho para o relativismo
moral. Incentiva a decadência dos valores absolutos.
Existe, obviamente, um pragmatismo funcional que
é positivo. Ou seja, devemos escolher os melhores
métodos para atingirmos os melhores fins. O que não
podemos é sacrificar a verdade para alcançarmos os
melhores resultados. A ética jesuíta de que os fins
Um jovem anônimo
85
justificam os meios está em total desacordo com a
verdade divina.
OS QUE SE COBREM COM UM LENÇOL SÃO UM
SÍMBOLO DAQUELES QUE NÃO PODEM SE DEFENDER
O jovem viu-se indefeso quando foi atacado. Ao
precisar usar suas mãos, o lençol caiu, e ele ficou nu.
Eram suas mãos que faziam com que o lençol aderis­
se ao corpo. Ao liberar as mãos, o lençol caiu. Ele fi­
cou vulnerável, exposto, desprotegido, nu. O inimigo
agarrou o lençol, a única coisa que o protegia. Ficou
nu. Fugiu nu. As máscaras podem nos esconder por
um tempo. Mas ninguém consegue afivelar as másca­
ras com segurança. Uma hora, a máscara cai e deixa
a pessoa em maus lençóis, ou melhor, sem lençol. Há
muitas pessoas que se infiltram no meio da multidão,
despreparadas para a luta. Na hora da crise, quem
estiver trajando apenas um lençol ficará exposto ao
opróbrio e à vergonha. Não é sensato vestir-se com
um lençol! Você precisa trajar toda a armadura de
Deus. Você precisa ser um discípulo de verdade, um
seguidor de Cristo pronto a viver e morrer com ele e
por ele, sem precisar fugir envergonhado.
Com Jesus na escola da vida
86
CAPÍTULO 9
o valor de uma vida
Duas perguntas devem ser feitas na introdução deste
estudo: Quanto vale uma vida para Jesus e quanto vale
uma vida para Satanás? Vamos procurar responder a
essas perguntas à luz do texto em tela (Mc 5.1-20).
Em primeiro lugar, quanto vale uma vida para
Jesus? Jesus fez um alto investimento na vida desse
homem gadareno. Ele enfrentou a fúria do mar e
depois a fúria desse homem possesso. O escritor
desse evangelho vai de um mar agitado para um
homem agitado. Humanamente falando, ambos eram
indomáveis, mas Jesus os subjugou.
87
Era noite, depois de uma tempestade, num lugar
deserto, íngreme, cheio de cavernas; um cemitério,
onde havia corpos expostos, alguns deles em decom­
posição. O lugar em si já metia medo nos mais co­
rajosos. Desse lugar sombrio, sai um homem louco,
desvairado, possesso, nu, ferindo-se com pedras, um
pária, um aborto vivo, uma escória da sociedade.
Todos já haviam desistido dele, menos Jesus.
Aquela viagem foi proposital. Jesus vai a uma terra
gentílica depois de um dia exaustivo de trabalho,
depois de uma terrível tempestade, para salvar um
homem possesso. Essa é a expressão do infinito
amor de Jesus.
Em segundo lugar, quanto vale uma vida para
Satanás? Satanás roubou tudo de precioso que aquele
homem tinha: sua família, liberdade, saúde física
e mental, dignidade, paz e decência. Havia dentro
dele uma legião de demônios (Mc 5.9). Legião era
uma corporação de seis mil soldados romanos. Nada
infundia tanto medo e terror como uma legião romana.
Era um exército de invasão, crueldade e destruição.
A legião romana era composta de infantaria e
cavalaria. Numa legião havia flecheiros, estrategistas,
combatentes, incendiários e aqueles que lutavam
com espadas. Por onde uma legião passava, deixava
um rastro de destruição e morte. Uma legião romana
era irresistível. Aonde ela chegava, as cidades eram
assaltadas, dominadas, e seus habitantes, arrastados
como súditos e escravos. Uma legião era a mais
poderosa máquina de guerra conhecida nos tempos
Com Jesus na escola da vida
88
antigos. As legiões romanas formavam o braço forte
com o qual Roma havia subjugado o mundo. Assim
era o poder diabólico que dominava esse pobre ser
humano.
Havia um poder de destruição descomunal dentro
daquele homem, transformando sua vida num verda­
deiro inferno.
Warren Wiersbe diz que podemos ver nesse texto
três forças trabalhando: Satanás, a sociedade e Jesus.
0 que S atanás faz pelas pessoas
O texto de Marcos 5.1-20 nos mostra que Satanás
não faz nada pelas pessoas, mas contra as pessoas.
Ele não dá nada, ele tira tudo. Vejamos alguns pontos:
Em primeiro lugar, Satanás domina as pessoas
através da possessão (Mc 5.2,9). O gadareno estava
possuído por espíritos imundos. Havia uma legião
de demônios dentro dele. A possessão demoníaca
não é um mito, mas uma triste realidade. A posses­
são não é apenas uma doença mental ou epilepsia.
Ainda hoje milhares de pessoas vivem no cabresto
de Satanás. Quais são as características de uma pes­
soa endemoninhada?
Uma pessoa possessa tem dentro de si uma entidade
maligna (Mc 5.2,9). Esse homem não estava no contro­
le de si mesmo. Suas palavras e atitudes eram deter­
minadas pelos espíritos imundos que estavam dentro
0 homem de Gadara, o valor de uma vida
89
dele. Ele era um aparelho, um cavalo dos demônios, um
joguete nas mãos de espíritos ladrões e assassinos.
Uma pessoa possessa manifesta uma força sobre­
humana (Mc 5.3,4). As pessoas não podiam detê-lo,
nem as cadeias, subjugá-lo. A força destruidora com
que despedaçava as correntes não procedia dele, mas
dos espíritos malignos que nele moravam.
Uma pessoa possessa tem frequentes acessos de rai­
va. O evangelista Mateus, narrando esse episódio, diz
que os endemoninhados estavam a tal ponto furiosos
que ninguém podia passar por aquele caminho (Mt
8.28). Normalmente uma pessoa possessa revela uma
fisionomia carregada de ódio e olhos fuzilantes.
Uma pessoa possessa perde o amor próprio (Mc
5.3,5). Esse homem andava nu e feria-se com pedras.
Em vez de proteger-se, feria a si mesmo. Ele era o seu
próprio inimigo. O ser maligno que estava dentro dele
empurrou-o para as cavernas da morte. A legião de
demônios que estava nele tirou-lhe o pudor e queria
destruí-lo e matá-lo. O diabo veio para roubar, matar e
destruir. Ele é ladrão e assassino. Há muitas pessoas que
ceifam a própria vida quando esses espíritos imundos
entram nelas. Foi assim com Judas; Satanás entrou nele
e o levou ao suicídio.
Uma pessoa possessa pode revelar conhecimento so­
brenatural por clarividência e adivinhação (Mc 5.6,7).
Logo que Jesus desembarcou em Gadara, esse ho­
mem possesso correu, cheio de medo, e se prostrou
aos seus pés para adorá-lo. Ele sabia quem era Jesus.
Com Jesus na escola da vida
90
Sftbia que Jesus é o Filho do Deus Altíssimo, que tem
-todo o poder para atormentar os demônios e mandá-
los para o abismo. Os demônios creem na divindade
de Cristo, na sua total autoridade. Eles oram e creem
tias penalidades eternas. A fé dos demônios é mais or­
todoxa do que a fé dos teólogos liberais.
Em segundo lugar, Satanás arrasta as pessoas para
a impureza (Mc 5.2,3a). Gadara era uma terra gentílica,
onde as pessoas lidavam com animais imundos. O
espírito que estava naquele homem era um espírito
imundo. Por isso, levou-o para um lugar impuro, o
cemitério, pare viver no meio dos sepulcros. A impureza
desse homem era tríplice: os judeus consideravam a terra
dos pagãos impura, em seguida o lugar dos túmulos
e, por fim, a possessão. O efeito era uma separação de
Deus sem esperança.
Os espíritos malignos levam as pessoas a se
envolverem com tudo o que é imundo. Há pessoas
chafurdando-se na lama hoje. Quem pratica o
pecado é escravo do pecado. Quem vive na prática do
pecado é filho do diabo. Há pessoas hoje que entram
nos cemitérios e desenterram defuntos para fazer
despacho aos demônios.
A promiscuidade está atingindo patamares insu­
portáveis. A TV Globo encerrou a sua decantada no­
vela América com dois homens beijando-se na boca.
A Inglaterra legitima o casamento de homossexuais.
A pornografia tornou-se uma indústria poderosa. A
promiscuidade dos valores da geração contemporânea
faz de Sodoma e Gomorra cidades muito puritanas.
0 homem de Gadara, o valor de uma vida
91
Em terceiro lugar, Satanás torna as pessoas violen­
tas (Mc 5.3,4). O endemoninhado constituiu-se num
problema para a família e para a sociedade. O amor
familiar e a repressão da lei não puderam domesti­
car aquela fera indomável. Ele era como um animal
selvagem. Resistia a qualquer tentativa de controle
externo. Os vivos não o suportaram mais e o expul­
saram. Ele foi morar com os mortos. Estes não lhe
faziam nenhum mal, mas também não o protegiam
de si mesmo. Ele agora estava nu entre os demônios.
Há um espírito que atua nos filhos da desobe­
diência e torna as pessoas furiosas, violentas e
indomáveis nestes dias. Há seres humanos que
se transformam em monstros celerados, em feras
indomáveis. Nem o amor da família nem o rigor da lei
têm abrandado a avalanche de crimes violentos em
nossos dias. São terroristas que enchem o corpo de
bomba e explodem espalhando morte. São vândalos
que incendeiam ônibus nas ruas. São pistoleiros
de aluguel que derramam sangue por dinheiro. São
traficantes que matam e morrem para alimentar o seu
vício execrado.
Em quarto lugar, Satanás atormenta as pessoas
(Mc 5.5). 0 gadareno estava perturbado mentalmen­
te. Ele andava sempre, noite e dia, gritando por entre
os sepulcros. Não havia descanso para sua mente nem
para seu corpo.
Além da perturbação mental, ele se golpeava
com pedras. Vivia nu e ensanguentado, correndo
pelos montes escarpados, esgueirando-se como um
Com Jesus na escola da vida
92
espectro de horror no meio de cavernas e sepulcros.
Seu corpo emaciado refletia o estado deprimente a
que um ser humano pode chegar quando está sob o
domínio de Satanás.
Há muitas pessoas hoje atormentadas, inquietas
e desassossegadas, vivendo nas regiões sombrias da
morte, sem família, sem liberdade, sem dignidade,
sem amor próprio, ferindo-se a si mesmas e espalhan­
do terror aos outros.
0 QUE A SOCIEDADE PODE FAZER PELAS PESSOAS
A sociedade, por meio de seus poderes constitu­
ídos, tem a responsabilidade de cuidar da ordem pú­
blica. O papel das autoridades é promover o bem e
coibir o mal. Vejamos o que a sociedade fez por esse
homem gadareno.
Em primeiro lugar, a sociedade afastou esse ho­
mem do convívio social (Mc 5.3,4). O máximo que
a sociedade pôde fazer por esse homem foi tirá-lo
de circulação. Arrancaram-no da família e da cida­
de. Desistiram do seu caso e consideraram-no uma
causa perdida. Julgaram-no um caso irrecuperável e
descartaram-no como um aborto asqueroso. O má­
ximo que a sociedade pode fazer por pessoas pro­
blemáticas é isolá-las, colocá-las sob custódia ou
jogá-las numa prisão (Lc 8.29). As prisões não liber­
tam as pessoas por dentro nem as transformam; ao
contrário, tornam-nas ainda mais violentas.
0 homem de Gadara, o valor de uma vida
93
Ainda hoje, é mais fácil e mais cômodo lançar na
caverna da morte, no presídio e no desprezo aqueles
que caem nas garras do pecado e do diabo.
Em segundo lugar, a sociedade acorrentou esse homem
(Mc 5.3,4). A prisão foi o melhor remédio que encontra­
ram para deter esse homem. Colocaram cadeias em suas
mãos e em seus pés. Mas a prisão não o pôde deter. Ele
arrebentou as cadeias e continuou espalhando terror
por onde andava. Embora o sistema carcerário seja um
fato necessário, não é a solução do problema. O índice de
reincidência no crime daqueles que são apanhados pela
lei e lançados num cárcere é de mais de 70%.
A sociedade não tem poder para resolver o
problema do pecado nem para libertar as pessoas das
garras de Satanás. Somente o evangelho transforma.
Somente Jesus liberta. Não há esperança para o
homem, a família e a sociedade à parte de Jesus.
Em terceiro lugar, a sociedade deu mais valor aos
porcos do que a esse homem. A sociedade de Gadara não
apenas rejeitou esse homem na sua desventura, mas
também não valorizou a sua cura nem a sua salvação.
Eles expulsaram Jesus da sua terra e amaram mais os
porcos do que a Deus e a esse homem. Os porcos va­
liam mais que uma vida.
O que J esus faz pelas pessoas
Veremos, agora, o que Jesus fez pelo gadareno:
Com Jesus na escola da vida
94
Em primeiro lugar, Jesus libertou esse homem da es­
cravidão aos demônios (Mc 5.6-15). Jesus se manifes­
tou para destruir as obras do diabo ( l J o 3.8). Diante
dele todo joelho precisa se dobrar; até os demônios
estão debaixo da autoridade de Jesus. Mediante a au­
toridade da palavra de Jesus, a legião de demônios
bateu em retirada, e o homem escravizado ficou livre.
Cristo é o atormentador dos demônios e o liber­
tador dos homens. Onde ele chega, os demônios tre­
mem, e os cativos são libertos. Satanás tentou matar
Jesus na tempestade e agora tenta impedi-lo de en­
trar em Gadara. Ele está usando todas as suas armas
para parar Jesus a qualquer custo. Mas em vez de in­
timidar-se com a legião de demônios, Jesus é quem
espalha terror entre o exército demoníaco.
Em segundo lugar, Jesus devolveu a esse homem a
dignidade da vida (Mc 5.15). Três coisas nos chamam a
atenção nessa libertação:
O homem estava assentado aos pés de Jesus (Mc
5.15; Lc 8.35). Aquele que vivia perturbado, correndo
de dia e de noite, sem descanso para a mente e para o
corpo, agora está quieto, sereno, assentado aos pés do
Salvador. Jesus acalmou o vendaval do mar e também
o homem atormentado. Alguns estudiosos entendem
que a tempestade que Jesus enfrentara para chegar a
Gadara fora provocada por Satanás, visto que Jesus
empregou a mesma palavra para repreender o vento
e o mar e para repreender os espíritos imundos. Seria
uma tentativa desesperada de Satanás de impedir
0 homem de Gadara, o valor de uma vida
95
Jesus de chegar a esse território pagão, onde ele
mantinha tantas pessoas sob suas garras assassinas.
O homem estava vestido (Mc 5.15). Esse homem
havia perdido o pudor e a dignidade. Ele andava nu.
Havia muito que não se vestia (Lc 8.27). Tinha perdi­
do o respeito próprio e o respeito pelos outros. Estava
à margem não só da lei, mas também da decência.
Agora que Jesus o transformou, o primeiro expedien­
te é vestir-se, é cuidar do corpo, é apresentar-se com
dignidade. A prova da conversão é a mudança. A con­
versão sempre toca nos pontos nevrálgicos. Zaqueu, o
homem amante do dinheiro, ao ser convertido, resol­
veu dar metade dos bens aos pobres.
O homem estava em perfeito juízo (Mc 5.15). Jesus
restituiu a esse homem sua sanidade mental. A
diferença entre sanidade e santidade é apenas uma
letra, a letra T, um símbolo da cruz de Cristo. Aonde
Jesus chega, ele restaura a mente, o corpo, a alma.
Esse homem não é mais violento. Ele não oferece mais
nenhum perigo à família nem à sociedade. Não há
outro que pode transformar além do poder de Jesus.
Só ele cura, só ele restaura, só ele salva. Ele continua
transformando monstros em homens santos;
escravos de Satanás em homens livres; abortos vivos
da sociedade em vasos de honra.
Em terceiro lugar, Jesus deu a esse homem uma glo­
riosa missão (Mc 5.18-20). Jesus envia esse homem
como missionário para a sua casa, para ser uma teste­
munha na sua terra. Ele espalhava medo e pavor, ago­
ra anuncia as boas-novas de salvação. Antes era um
Com Jesus na escola da vida
96
problema para a família, agora é uma bênção. Antes
era um mensageiro de morte, agora, um embaixador
da vida.
Jesus revela a ele que o testemunho precisa come­
çar em casa. Nosso primeiro campo missionário deve
ser o nosso lar. Sua família precisa ver a transforma­
ção que Deus operou em sua vida. O que Deus fez por
nós precisa ser contado aos outros.
Esse texto nos fala sobre três pedidos, três
orações. As duas primeiras foram prontamente
atendidas por Jesus, mas a última foi indeferida.
Primeiro, Jesus atendeu ao pedido dos demônios
(Mc 5.10,12). Os demônios pediram e pediram
encarecidamente. Havia intensidade e urgência no
pedido deles. Eles não queriam ser atormentados (Mc
5.7) nem enviados para o abismo (Lc 8.31) nem para
fora do país (Mc 5.10), mas para a manada de porcos
que pastava pelos montes (Mc 5.12). É intrigante que
Jesus tenha atendido prontamente ao pedido dos
demônios. A manada de dois mil porcos precipitou-
se despenhadeiro abaixo, para dentro do mar, onde
se afogou (Mc 5.13). Por que Jesus atendeu aos
demônios? Por cinco razões, pelo menos:
Para mostrar o potencial destruidor que agia naque­
le homem. O gadareno não estava fingindo nem en­
cenando. Seu problema não era apenas uma doença
mental. Não se transfere esquizofrenia para uma ma­
nada de porcos. Os demônios não são seres mitoló­
gicos, nem a possessão demoníaca, uma fantasia. O
. 0 homem de Gadara, o valor de uma vida
97
poder que estava agindo dentro daquele homem foi
capaz de matar dois mil porcos.
Para revelar àquele homem que o poder que o oprimia
tinha sido vencido. Assim como a ação do mal não é
uma simulação, a libertação também não é apenas um
efeito psicológico, mas um fato real, concreto, percep­
tível. A Bíblia diz: Se, pois, o Filho vos libertar, verdadei­
ramente sereis livres (Jo 8.36).
Para mostrar à população de Gadara que, para
Satanás, um porco tem o mesmo valor de um homem. De
fato, Satanás tem transformado muitos homens em
porcos. Jesus está alertando aquele povo sobre o pe­
rigo de ser um escravo do pecado e do diabo.
Para revelar a escala de valores dos gadarenos. Eles
expulsaram Jesus por causa dos porcos. Eles amavam
mais os porcos do que a Deus e ao próximo. O dinheiro
era o seu deus. William Barclay diz que os gadarenos,
ao expulsarem Jesus, estavam dizendo: não pertur­
be nossa comodidade, preferimos que deixe as coisas
como estão; não perturbe nossos bens; não perturbe
nossa religião.
Para mostrar que os demônios estão debaixo da sua
autoridade. Os demônios sabem que Jesus tem poder
para expulsá-los e também para mandá-los para o
abismo. Alguém mais poderoso do que Satanás havia
chegado, e os mesmos demônios que atormentavam
o homem agora estão atormentados na presença de
Jesus. Os demônios só podem ir para os porcos se
Jesus o permitir. Eles estão debaixo do comando e da
Com Jesus na escola da vida
98
autoridade de Jesus. Eles não são livres para agir fora
da autoridade suprema de Jesus.
Segundo, Jesus atendeu ao pedido dos gadare-
nos (Mc 5.17). Os gadarenos expulsaram Jesus da
sua terra. Eles amavam mais os porcos e o dinheiro
do que a Jesus. Essa é a terrível cegueira materialista,
diz Ernesto Trenchard. Lucas registra: Todo o povo da
circunvizinhança dosgerasenos rogou-lhe que se retirasse
deles, pois estavam possuídos de grande medo. E Jesus,
tomando de novo o barco, voltou (Lc 8.37). Jesus não
os constrangeu nem forçou sua permanência na terra
deles. Sem qualquer questionamento ou palavra, en­
trou no barco e deixou a terra de Gadara.
Os gadarenos rejeitaram Jesus, mas Jesus não de­
sistiu deles. Eles expulsaram Jesus, mas Jesus enviou
para o meio deles um missionário. O Senhor não nos
trata segundo os nossos pecados.
Terceiro, Jesus indeferiu o pedido do gadareno
salvo (Mc 5.18-20). O homem liberto, curado e salvo
quer, por gratidão, seguir a Jesus, mas o Senhor não
o permite. O mesmo Jesus que atendeu à petição dos
demônios e dos incrédulos agora rejeita a petição do
salvo. E por quê?
Porque a família precisa ser o nosso primeiro campo
missionário. A família dele sabia como ninguém o que
havia acontecido e agora poderia testificar sua pro­
funda mudança. Não estaremos credenciados a pregar
para os de fora se ainda não testemunhamos para os
da nossa própria família. Esse homem se torna uma
0 homem de Gadara, o valor de uma vida
99
luz no meio da escuridão. Ele prega não só para sua
família, mas também para toda a região de Decápolis.
William Hendriksen diz que esta “Decápolis” era
uma liga de dez cidades helénicas: Citópolis, Filadélfia,
Gerasa, Pela, Damasco, Kanata, Dion, Abila, Gadara e
Hippo. Esse homem anuncia não apenas uma mensa­
gem teórica, mas o que Jesus fez por ele, a sua própria
experiência. Ele é um retrato vivo do poder do evan­
gelho, um verdadeiro monumento da graça.
Porque Jesus sabe qual o melhor lugar onde devemos
estar. Devemos submeter nossas escolhas ao Senhor.
Ele sabe o que é melhor para nós. O importante é estar
no centro da sua vontade. Esse homem se tornou um
dos primeiros missionários entre os gentios. Jesus
saiu, mas ele permaneceu dando um vivo e poderoso
testemunho da graça e do poder de Jesus.
Com Jesus na escola da vida
CAPÍTULO 10
que tinha tudo para ser feliz
O jovem rico tinha tudo para ser feliz, mas foi o único
indivíduo que foi a Jesus e saiu pior do que chegou.
Mesmo sendo amado por Jesus, desperdiçou a maior
oportunidade da sua vida. A despeito de ter vindo à
pessoa certa, ter abordado o tema certo e recebido a
resposta certa, ele tomou a decisão errada. Ele amou
mais o dinheiro do que a Deus, mais os prazeres tran­
sitórios desta vida do que a salvação da sua alma.
Podemos elencar várias coisas boas que o jovem
rico possuía:
101
Em primeiro lugar, ele era jovem (Mt 19.20). Esse
jovem estava no alvorecer da vida. Tinha toda a vida
pela frente e toda oportunidade de investir seu futuro
no reino de Deus. Tinha saúde, vigor, força e sonhos.
Os jovens têm entusiasmo, projetos e oportunidades.
As dobras do futuro reservam-lhes muitas aventuras.
Juventude não é sinônimo de imaturidade. Os jovens
podem ser fortes. Neles, a Palavra de Deus pode per­
manecer. Eles podem vencer o Maligno. Eles podem
ser cheios do Espírito e ter gloriosas visões acerca da
obra de Deus.
Em segundo lugar, ele era riquíssimo (Lc 18.23).
Esse jovem possuía tudo o que este mundo podia lhe
oferecer: casa, bens, conforto, luxo, banquetes, fes­
tas e dinheiro. Ele era dono de muitas propriedades.
Muitas pessoas trabalham arduamente a vida toda e
não conseguem amealhar riquezas. Esse jovem, no
alvorecer da vida, já era riquíssimo. A graça comum
de Deus despejara sobre sua cabeça privilégios sem
conta. A riqueza bem adquirida é um sinal da bênção
de Deus. A bênção do Senhor enriquece e com ela não
tem desgosto. E Deus quem fortalece nossas mãos
para adquirirmos riquezas. Isso é muito diferente da
teologia da prosperidade. A teologia da prosperidade
coloca a riqueza como a prova insofismável da bên­
ção de Deus. E preciso entender que há pobres ricos
e ricos pobres. Há pessoas que são pobres, mas mui
abençoadas por Deus. A riqueza sem integridade, po­
rém, é maldição. A riqueza adquirida com violência
está em total desacordo com o propósito de Deus. O
Com Jesus na escola da vida
102
jovem rico era riquíssimo, mas tudo nos faz crer que
ele adquiriu esses valores com trabalho honrado e ho­
nesto e, sobretudo, com a bênção de Deus.
Em terceiro lugar, ele era proeminente (Lc 18.18).
Era um homem de posição. Possuía um elevado status
na sociedade. Ele tinha fama e glória. Apesar de ainda
ser jovem, já era muito rico. Além de ser rico, tam­
bém era um líder famoso e influente na sociedade.
Tinha reputação e grande prestígio. Esse jovem tinha
dinheiro e inteligência. Tinha prestígio e influência.
Tinha poder e destaque. Apesar de jovem, era cerca­
do de honras. Estava no topo da pirâmide. Havia al­
cançado o zénite da fama e do sucesso. Havia galgado
todos os degraus da glória. Sua vida era um porten­
to. Sua projeção, um fenômeno raro. Estava na frente
dos seus pares. Era uma pessoa singular.
Em quarto lugar, ele era virtuoso (Mc 10.20; Mt
19.20). Esse jovem tinha alcançado nota máxima
não apenas na opinião popular, mas também em sua
própria avaliação. Ele se considerava portador de ex­
celentes predicados morais. Ele se olhava no espe­
lho e dava nota máxima a si mesmo. Considerava-se
um observador da lei. Não vivia em orgias e farras,
mas pautava sua conduta pelos mais rígidos padrões
morais. Sua vida exterior parecia ser irrepreensível.
Certamente devia ser um religioso conhecido na sina­
goga. Era um jovem que muitas mulheres cobiçavam
como genro.
Em quinto lugar, ele era sedento espiritualmente
(Mt 19.20). Depois de dizer para Jesus que era um
Um jovem que tinha tudo para ser feliz
103
observador da lei, perguntou: que me falta ainda? Seu
coração não estava satisfeito com coisas. Ele que­
ria algo mais. Ele tinha sede das coisas eternas. Seu
dinheiro, sua reputação e sua liderança não preen­
cheram o vazio da sua alma. Ser rico não basta; ser
honesto não basta; ser religioso não basta. Nossa
alma tem sede de Deus.
Em sexto lugar, ele era sedento da salvação (Mc
10.17). Sua pergunta para Jesus foi enfática: Bom
Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Ele estava
ansioso por algo mais, que não havia encontrado no
dinheiro. Ele sabia que não possuía a vida eterna, a
despeito de viver uma vida aparentemente corre­
ta aos olhos dos homens. Ele queria mais do que as
riquezas da terra, ele queria os tesouros do céu. Ele
queria ser salvo.
Em sétimo lugar, ele foi à pessoa certa da maneira
certa (Mc 10.17). Ele foi a Jesus, o único que pode
salvar. Não buscou atalhos, mas o único caminho que
podia levá-lo a Deus. Ele foi a Jesus com pressa. Ele
correu ao encontro de Jesus. Ele tinha urgência para
salvar a sua alma. Ele foi a Jesus de forma reveren­
te. Ele se ajoelhou diante do Senhor. Ele se humilhou
e demonstrou ter um coração quebrantado. Ele foi
amado por Jesus (Mc 10.21). Jesus viu seu conflito,
seu vazio, sua necessidade e o amou.
Mas, a despeito de tudo isso, o jovem rico demons­
trou que estava enganado sobre a salvação. Pensou
que era uma questão de mérito. Estava enganado a
respeito de si mesmo. Julgava-se um observador da
Com Jesus na escola da vida
104
lei, e não um transgressor dela. Estava enganado
também a respeito da lei de Deus. Pensou que, obser­
vando determinados preceitos externos, estava quite
com a lei. Mas Jesus viu não apenas seus atos, mas
o seu coração. Aquele jovem não apenas possuía di­
nheiro, mas era possuído por ele. O dinheiro era seu
deus. Jamais poderia servir a Deus e a Mamom. Ele
deu mais valor à riqueza que se ajunta na terra do que
aos tesouros do céu. Ele rejeitou a salvação por amor
ao dinheiro. Ele saiu triste da presença de Jesus por­
que amou mais a terra do que o céu, mais o dinheiro
do que a vida eterna, mais a si mesmo do que a Jesus!
Um jovem que tinha tudo para ser feliz
vez de subir, descem; em vez de crescer no conheci­
mento e na graça de Deus, retrocedem na fé.
Mas, graças a Deus, muitos também fazem o ca­
minho inverso. Estes caminham para frente. Estes
aprendem com os fracassos e se levantam na força do
Onipotente para prosseguir firmes e resolutos nas ve­
redas da justiça. Citamos, aqui, o exemplo do jovem
João Marcos. Quem foi esse jovem?
J oão M arcos foi um cooperador
João Marcos era um jovem humilde e prestativo.
Ele foi auxiliar de Barnabé e Paulo (At 13.5). Nesse
tempo, João Marcos era ainda muito jovem e inex­
periente, mas sentiu o desejo de acompanhar os dois
missionários rumo à região da Galácia. Seu propósito
era servir aos dois missionários separados por Deus
para tão sublime tarefa. Nesse tempo, João Marcos
era um jovem idealista e corajoso. Dispôs-se a deixar
o conforto da sua casa em Jerusalém (At 12.12) para
enfrentar as agruras de uma viagem missionária por
regiões inóspitas e perigosas.
A palavra grega hupereta, traduzida aqui por “au­
xiliar”, demonstra a atitude de humildade de João
Marcos. Havia três termos gregos que enfatizavam
a mesma verdade: diáconos (diácono ou aquele que
serve aos outros); doulos (escravo ou aquele que serve
ao seu senhor com fidelidade, pois pertence a seu se­
nhor); e hupereta (auxiliar, aquele que ocupa a posição
Com Jesus na escola da vida
108
mais inferior de serviço). Esta palavra era emprega­
da, por exemplo, para os remadores de galés, que,
sentenciados à morte, ainda precisavam prestar um
serviço antes de morrer. Um hupereta está desprovido
de qualquer vaidade. Não busca grandes coisas para
si mesmo. Seu único propósito é servir, e servir com
esforço até a morte.
J oão M arcos foi um desertor
Não sabemos os motivos, mas, no meio do cami­
nho, João Marcos desistiu da viagem, apartou-se de
Paulo e Barnabé e voltou para sua casa em Jerusalém.
Faltaram-lhe coragem e maturidade para prosse­
guir. Faltou-lhe perseverança para não retroceder.
Faltaram-lhe forças para continuar servindo aos
dois missionários da igreja. Aquele foi um capítulo
sombrio na vida desse jovem. Ele foi um desertor.
Capitulou diante das dificuldades. Não teve coragem
de seguir adiante.
Podemos apenas especular as razões que levaram
João Marcos a abandonar seus companheiros de via­
gem em Perge da Panfília. A primeira delas é que, a par­
tir de Pafos, o líder da viagem missionária deixou de ser
seu primo Barnabé para ser Paulo. Possivelmente João
Marcos não sentiu segurança em viajar debaixo da lide­
rança de Paulo. Então, ressentido, retornou à sua casa
em Jerusalém. A segunda especulação é que Paulo e
Barnabé estavam para fazer uma incursão nas regiões
João Marcos, quando o fracasso não tem a última palavra
109
montanhosas da Galácia, deixando assim a região cos­
teira. Isso representava um risco muito maior. O jovem
João Marcos deve ter imaginado que era muito moço
ainda para enfrentar desafios tão perigosos. Por isso,
resolveu voltar para Jerusalém. A terceira e última es­
peculação é que aquela região pantanosa de Perge da
Panfília estava infestada de doenças, especialmente
de malária. Possivelmente foi nessa região que Paulo
contraiu uma doença, doença essa que o levou a pre­
gar o evangelho a primeira vez na região da Galácia (G1
4.14). Mais tarde, o apóstolo disse que essa doença foi
um espinho na sua carne (2Co 12.7). Provavelmente,
ao ver esse perigo, João Marcos retrocedeu em seu pro­
pósito e retornou à sua casa.
J oão M arcos foi um missionário
Era tempo de voltar à segunda viagem missioná­
ria. Barnabé queria levar João Marcos consigo (At
15.37). Paulo, porém, se recusou terminantemente a
dar uma segunda chance ao jovem desertor. Barnabé
contendeu com Paulo, mas não desistiu de João
Marcos (At 15.38,39). Levou-o consigo para Chipre e
fez dele um missionário. João Marcos tornou-se um
homem valoroso nas mãos de Deus. Além de Barnabé,
o apóstolo Pedro também investiu na vida de João
Marcos, a ponto de chamá-lo de filho (IPe 5.13).
Esse jovem mais tarde se tornou o autor do primeiro
evangelho a ser escrito, o evangelho segundo Marcos,
Com Jesus na escola da vida
110
destacando nessa obra preciosa as gloriosas obras de
Cristo, apresentando-o como servo perfeito.
A vida de João Marcos é uma prova insofismável
de que não devemos desistir daqueles que fracassam
numa empreitada. Barnabé, o filho da consolação,
tomou a atitude certa quando continuou investindo
na vida desse jovem. Não podemos abandonar os
soldados feridos no meio do caminho. Não podemos
desistir daqueles que tropeçam e caem. Não podemos
ser intolerantes com aqueles que desejam se reerguer.
João Marcos é uma prova de que o justo pode até
cair, mas não fica prostrado. Sua história é um incentivo
para investirmos na vida daqueles que caíram. O pecado
de João Marcos não foi moral, mas ele precisava de um
ombro amigo para ajudá-lo a recomeçar seu ministério.
Ele encontrou esse ombro em seu tio Barnabé. Mais tar­
de, o apóstolo Pedro lhe passou, de primeira mão, as in­
formações precisas que se tomaram o conteúdo de seu
evangelho. Deus restaurou esse jovem e instrumentali­
zou sua vida para realizar uma grande obra. O evangelho
que escreveu, mais do que suas viagens missionárias,
imortalizou sua vida. Ele foi um vaso de honra, um ins­
trumento precioso nas mãos de Deus, e sua influência
tem cruzado os séculos e abençoado gerações.
J oão M arcos foi um homem útil
Paulo estava preso numa masmorra romana.
A hora do seu martírio havia chegado. Do interior
m
João Marcos, quando o fracasso não tem a última palavra
desse cárcere insalubre e frio, Paulo escreve a seu fi­
lho Timóteo, rogando-lhe que vá rapidamente vê-lo
em Roma. Chama-nos a atenção uma recomendação
do apóstolo a Timóteo: Toma contigo Marcos e traze-o,
pois me é útil para o ministério (2Tm 4.11). O jovem
rejeitado por Paulo é agora prezado por ele. Aquele
que um dia desertou e foi rejeitado é agora desejado.
Paulo muda de opinião acerca de João Marcos e deseja
tê-lo ao seu lado antes de morrer. João Marcos fra­
quejou um dia na vida, mas se levantou. Ele nos pro­
va que é possível recomeçar quando colocamos nossa
vida nas mãos de Deus.
Com Jesus na escola da vida
CAPÍTULO 12
um intercessor
Neemias, governador de Jerusalém, é um clássico
exemplo de um homem intercessor. Ele foi um homem
de oração e ação. Tinha intimidade com os céus e grande
destreza na terra. Ele vivia perto de Deus e também
das pessoas. Como consolador, Neemias viveu perto
das pessoas; como intercessor, perto de Deus.
Neemias era, acima de tudo, um homem de
oração. Sempre foi um homem muito ocupado, mas
não tão ocupado a ponto de não ter tempo para Deus.
Você encontrará dez de suas orações em seu livro (Ne
1.4ss; 2.4; 4.4; 5.19; 6.9,14; 13.14,22,29,31). Um dos
truques do diabo é manter-nos tão ocupados que não
113
encontremos tempo para orar. Se Neemias não fosse
um homem de oração, o futuro de Jerusalém teria
sido outro.
A força da oração é maior do que qualquer
combinação de esforços na terra. A oração move o céu,
aciona o braço onipotente de Deus, desencadeia grandes
intervenções de Deus na história. Quando o homem
trabalha, o homem trabalha, mas quando o homem ora,
Deus trabalha. Neemias começa seu ministério orando.
Sua oração é uma das mais significativas registradas na
Bíblia. Vemos nela os elementos da adoração, petição,
confissão e intercessão.
Um intercessor é alguém que se levanta diante
do trono de Deus em favor de outrem. Ésquilos foi
condenado à morte pelos atenienses e estava para ser
executado. Seu irmão Amintas, herói de guerra, tinha
perdido a mão direita na batalha de Salamis, defen­
dendo os atenienses. Ele entrou na corte exatamente
na hora em que seu irmão estava para ser condena­
do e, sem dizer uma palavra, levantou o braço direi­
to sem mão na presença de todos. Os historiadores
dizem que quando os juizes viram as marcas do seu
sofrimento no campo de batalha e relembraram o que
ele tinha feito por Atenas, por amor a ele, perdoaram
o seu irmão.
Precisamos fazer um movimento em nossa nação
para despertar homens de oração. A intercessão pelos
filhos não é apenas uma responsabilidade das mães.
Os homens precisam entrar nessa brecha. Os pais são
os responsáveis diante de Deus pela educação de seus
Com Jesus na escola da vida
114
filhos e, como o patriarca Jó, devem dedicar o melhor
do seu tempo para orar em favor de seus filhos.
Quais são os atributos de um intercessor?
Um intercessor é alguém que sente o
FARDO DOS OUTROS SOBRE SI (Ne 1.4)
Um intercessor torna-se responsável diante do
conhecimento de uma necessidade. O conhecimento
de um problema nos responsabiliza diante de Deus e
dos homens. O conhecimento dos problemas do seu
povo levou Neemias a orar a respeito do assunto.
Ninguém conhece os filhos mais do que os pais.
O conhecimento de suas lutas, carências e sonhos
deveria colocar-nos de joelhos diante do Pai.
Um intercessor sente a dor dos outros em sua
própria pele. Um egoísta jamais será um intercessor.
Só aqueles que têm compaixão podem sentir na pele
a dor dos outros e levá-la ao trono da graça. Neemias
chorou, lamentou, orou e jejuou durante quatro meses
pela causa do seu povo. Sua oração foi persistente e
fervorosa. Se Neemias foi capaz de chorar e jejuar por
pessoas que ele não conhecia pessoalmente, quanto
mais nós, pais, temos motivos para orar, jejuar e
chorar em favor de nossos filhos!
Cyril Barber diz que um líder sábio coloca bem
alto em sua lista de prioridades o bem-estar daqueles
com quem trabalha. Ele se assegura de que os
Neemias, um intercessor
. 115
problemas dos seus liderados sejam resolvidos antes
de cuidar de seus próprios problemas. Montgomery1
acertadamente disse: “o início da liderança é uma luta
pelos corações e pelas mentes dos homens”.
Nós, pais, somos os líderes constituídos pelo pró­
prio Deus em nossa família. Precisamos carregar os
fardos da nossa família e levar esses fardos aos pés
do Salvador. Precisamos ser não apenas provedores,
mas, sobretudo, intercessores. Não apenas estar na
frente da batalha da manutenção do lar, mas, sobre­
tudo, na trincheira da oração em favor do lar.
U m intercessor é alguém que reconhece
A SOBERANIA DE ÜEUS SOBRE SI
Um intercessor aproxima-se de Deus com um
profundo senso de reverência. Neemias começa a
sua intercessão adorando a Deus. Você adora a Deus
por quem ele é: Ah! Senhor, Deus dos céus, Deus grande
e temível! (Ne 1.5). Neemias entende que Deus é o
governador do mundo. Ele focaliza sua atenção na
grandeza de Deus, antes de pensar na enormidade
do seu problema. Um intercessor aproxima-se de
Deus sabendo que ele é soberano, onipotente, diante
de quem precisamos nos curvar cheios de temor e
reverência.
Com Jesus na escoia da vida
1Oficial do exército britânico que lutou na 2a Guerra Mundial - http://
thinkexist.com/quotation/discipline_strengthens_the_mind_so_that_
it/343567.html.
116
Um intercessor aproxima-se de Deus sabendo
que, para ele, não há impossíveis. Quanto maior Deus
se torna para você, menor se torna o seu problema.
Daniel disse que o povo que conhece a Deus é forte
e ativo (Dn 11.32). Precisamos entender que os nos­
sos filhos são filhos da promessa. Não geramos filhos
para a morte. Não geramos filhos para o cativeiro.
Não geramos filhos para serem escravos do diabo.
Nossos filhos devem ser santos ao Senhor. Devemos
consagrá-los no altar de Deus. Deus é soberano e fiel
para cumprir a promessa de que, se ensinarmos nos­
sas crianças no caminho em que devem andar, quan­
do forem velhas jamais se desviarão dessas veredas.
U m intercessor é alguém que se
FIRMA NA FIDEUDADE DE DEUS
Um intercessor sabe que Deus é fiel à sua aliança.
Neemias expressou isso claramente em sua oração: ...
que guardas a aliança e a misericórdia para com aqueles
que te amam e guardam os teus mandamentos (Ne 1.5).
Somos o povo de Deus. Ele firmou conosco uma
aliança eterna de ser o nosso Deus, e nós, o seu povo.
Ele vela por nós e prometeu estar conosco sempre.
Ele prometeu nos guardar, nos conduzir em triunfo e
nos receber na glória. Quando oramos, podemos nos
agarrar nas promessas dessa aliança. Deus prometeu
ser o nosso Deus e o Deus dos nossos filhos. O projeto
de Deus inclui a família. Não podemos abrir mão da
nossa família. Não podemos desistir dos nossos filhos!
Neemias, um intercessor
117
Um intercessor fundamenta-se não nos seus mé­
ritos, mas na fidelidade de Deus. Neemias tinha dis­
posição para interceder porque conhecia o caráter fiel
e misericordioso de Deus. Quanto mais teologia você
conhece, mais comprometido com a oração você deve
ser. Deus responde às orações. Ele é o Deus que vê,
ouve e intervém. Sendo soberano, Deus escolheu agir
por intermédio da oração de seus filhos.
Um intercessor é alguém que importuna
D eus com suas súplicas
Um intercessor é alguém que não descansa nem
dá descanso a Deus. Neemias foi incansável em
sua importunação. Ele orou continuamente, com
perseverança. Ele disse: estejam, pois, atentos os teus
ouvidos, e os teus olhos, abertos, para acudires à oração
do teu servo, que hoje faço à tua presença, dia e noite,
pelos filhos de Israel, teus servos... (Ne 1.6). Muitas
vezes, começamos a interceder por uma causa e logo
a abandonamos. Neemias orou 120 dias com choro,
com jejum, dia e noite. Ele insistiu com Deus. Mônica
orou por Agostinho durante trinta anos. Depois
da conversão de Agostinho, que veio a ser o maior
expoente da igreja no século 5, Ambrósio2disse: “um
filho de tantas lágrimas jamais poderia se perder”. Não
podemos desistir de orar pelos nossos filhos. Como
Ana, devemos insistir com Deus. Como Jó, devemos
2Ambrósio de Milão foi um iíustre pai da Igreja do século IV, que
evangelizou Agostinho.
Com Jesus na escola da vida
118
levantar de madrugada e apresentá-los junto ao trono
da graça.
Um intercessor é aquele que se coloca na brecha
em favor de alguém. Ele ora em favor do povo de
Deus e se preocupa com a honra de Deus. Esse povo
são os servos de Deus. E o nome de Deus que está em
jogo. Ele sente esse fardo e o coloca diante de Deus
em fervente oração.
Um intercessor é alguém que reconhece os
SEUS PECADOS E OS DO POVO E OS CONFESSA
Três verdades nos chamam a atenção acerca do
ministério de intercessão de Neemias:
Em primeiro lugar, um intercessor tem consciên­
cia das causas da derrota do povo. O pecado foi a cau­
sa do cativeiro. Deus entregou o povo nas mãos do
rei da Babilônia. O pecado foi a causa da miséria dos
que voltaram do cativeiro. O pecado produz fracasso,
derrota, vergonha, opróbrio. A história está eivada
de exemplos de homens que colheram frutos amar­
gos como consequência de seus pecados. Acã foi ape­
drejado com sua família. Hofni e Fineias morreram
e levaram à morte mais de trinta mil homens. Davi
trouxe a espada sobre a sua própria casa. O pecado é
uma fraude, oferece prazer e paga com a escravidão;
parece gostoso ao paladar, mas mata. Nada conspira
mais contra a oração do que o pecado. Um homem
rendido ao pecado jamais será um intercessor. Um pai
Neemias, um intercessor
119
acomodado no pecado jamais se colocará na brecha
em favor dos seus filhos.
Em segundo lugar, um intercessor identifica-se
com os pecados do povo. Neemias orou: ... e faço con­
fissão pelos pecados dos filhos de Israel, os quais temos
cometido contra ti; pois eu e a casa de meu pai temos
pecado (Ne 1.6b). Neemias não ficou culpando o
povo, mas identificou-se com ele. Um intercessor
não é um acusador, jamais aponta o dedo para os
outros, antes, levanta as mãos para o céu em fer­
vente oração. Os pais precisam se identificar com
seus filhos. A dor de seus filhos é a sua dor. As lá­
grimas de seus filhos são as suas lágrimas. Os dra­
mas de seus filhos são os seus dramas. Certa feita,
Jesus foi a Tiro e Sidom. Lá estava uma mãe gentia.
Ela buscou Jesus com insistência em favor de sua
família. Seu clamor não foi: “tem misericórdia de
minha filha”, mas “tem misericórdia de mim”. Ela
se identificou com sua filha. A causa de sua filha
era a sua causa. E assim que os pais devem orar por
seus filhos!
Em terceiro lugar, um intercessor faz confissões
específicas. Muitas confissões são genéricas e ines-
pecíficas, por isso sem convicção de pecado e sem
quebrantamento. Neemias foi específico: Temos pro­
cedido de todo corruptamente contra ti, não temos guar­
dado os mandamentos, nem os estatutos, nem os juízos
que ordenaste a Moisés, teu servo (Ne 1.7). Para que a
oração tenha efeito, precisa ser acompanhada de con­
fissão. Quem confessa seus pecados e os deixa alcança
Com Jesus na escola da vida
120
misericórdia (Pv 28.13). Não podemos agir com irres­
ponsabilidade espiritual em relação aos nossos filhos.
Não podemos fazer vistas grossas aos seus pecados.
O sacerdote Eli amava mais a seus filhos do que a
Deus. Por isso, deixou de corrigi-los. Não podemos
contemporizar os erros dos nossos filhos. Precisamos
confrontá-los e, ao mesmo tempo, clamar a Deus em
favor deles, rogando-lhe sua misericórdia.
U m intercessor é alguém que se estriba
nas promessas da Palavra de D eus
A Palavra de Deus e a oração andam de mãos dadas.
Um intercessor precisa conhecer a Palavra. E o combus­
tível da Palavra que alimenta o ministério da interces­
são. Quatro verdades devem ser destacadas aqui:
Em primeiro lugar, um intercessor sabe que Deus
tem zelo em cumprir sua Palavra (Ne 1.8). Neemias
começou sua oração dizendo para Deus: Lembra-te.
A memória de Deus é infalível, pois ele é onisciente,
mas ele ama ser lembrado de suas promessas. Quem
ora com base na Palavra ora segundo a vontade de
Deus. As maiores orações da Bíblia foram fundamen­
tadas nas promessas da Palavra de Deus. A oração efi­
caz é aquela que se baseia nas promessas de Deus. R.
C. Trench 3diz que “a oração não é vencer a relutância
de Deus; é apropriar-se de sua mais alta disposição”.
Neemias, um intercessor
3 Richard Chenevix Trench - arcebispo anglicano e poeta (1807-1886)
http://www.tracts.ukgo.com/r_c_trench.htm.
121
Deus prometeu ser o nosso Deus e o Deus dos nossos
filhos. Nossos filhos são filhos da promessa. Eles são
herança de Deus. Não geramos filhos para a morte.
Não geramos filhos para o cativeiro. Nossos filhos de­
vem ser vasos de honra nas mãos do Senhor.
Em segundo lugar, um intercessor compreen­
de que a disciplina de Deus vem sobre a desobediência
(Ne 1.8b). Deus prometeu bênçãos e alertou acerca
da maldição causada pela desobediência. O povo de
Israel desobedeceu e sofreu nas mãos de seus inimi­
gos. A dispersão e o cativeiro foram juízos de Deus
contra o seu povo por causa do pecado. O pecado
sempre atrai juízo, derrota, dispersão. Nossos filhos
precisam ser alertados acerca da justiça de Deus.
O pecado sempre produz consequências amargas.
Deus não é um ser bonachão. Ele é santo e fogo con­
sumidor. Só os loucos zombam do pecado. Nossos
filhos precisam saber disso!
Em terceiro lugar, um intercessor compreende
que o arrependimento sempre redunda em restauração
(Ne 1.9). Deus é compassivo. Ele é o Deus de toda
graça, aquele que restaura o caído e não rejeita o
coração quebrantado. Neemias sabe que, se o povo
se arrepender, virá um tempo novo de restauração
e refrigério. Esta é a confiança do intercessor, o
conhecimento do caráter misericordioso de Deus.
A misericórdia de Deus nos impulsiona a orar. Ele
é o Deus de toda graça. Ele não rejeita o coração
quebrantado. Ele não despede aqueles que se chegam
a ele com o coração contrito. Há esperança para a
Com Jesus na escola da vida
122
família. Há esperança para os filhos desviados. Há
esperança para os pródigos que estão perdidos no
país distante. Há esperança para os feridos que
chegam em casa arrebentados emocionalmente.
Deus é o Pai de misericórdias. Ele é rico em perdoar!
Em quarto lugar, um intercessor compreende que
os pecados do povo de Deus não anulam a aliança de
Deus com ele (Ne 1.10). Neemias ora fundamenta­
do na perseverança do amor de Deus pelo seu povo.
Ainda que sejamos infiéis, Deus continua sendo fiel.
Neemias fala de um lugar escolhido e de um povo
escolhido. As nossas fraquezas não anulam a eleição
da graça. Mesmo quando pecamos, não deixamos de
ser o povo remido por Deus nem deixamos de ser
servos de Deus. O povo da aliança é disciplinado,
mas não rejeitado para sempre. Devemos nos agar­
rar nessa verdade bendita e encontrar alento para
prosseguirmos nessa empreitada da intercessão por
nossos filhos.
U m intercessor é alguém que
ASSOCIA DEVOÇÃO E AÇÃO
Um intercessor ora e age. Neemias orou, jejuou,
lamentou e chorou por 120 dias. Ele colocou essa
causa diante de Deus, mas também colocou a mes­
ma causa diante do rei. A oração não é um substituto
para o trabalho. Ela é o maior trabalho. Neemias ora
e toma medidas práticas: vai ao rei, informa-o sobre a
Neemias, um intercessor
123
condição do seu povo, faz um pedido, solicita cartas,
verifica o problema, mobiliza o povo e triunfa sobre
dificuldades e oposição.
Um intercessor compreende que o coração do rei
está nas mãos de Deus. Neemias compreende que o
maior rei da terra está debaixo da autoridade e do
poder do Rei dos reis. Neemias compreende que o mais
poderoso monarca da terra é apenas um homem. Ele
sabe que só Deus pode inclinar o coração do rei para
atender ao seu pedido. Neemias compreende que a
melhor maneira de influenciar os poderosos da terra
é ter a ajuda do Deus Todo-poderoso. Ele vai ao rei
confiado no Rei dos reis. Ele conjuga oração e ação. Os
pais precisam também orar e agir. Precisam falar com
Deus acerca de seus filhos e de Deus para seus filhos.
Pela oração de Neemias, um obstáculo aparen­
temente intransponível foi reduzido a proporções
domináveis. O coração do rei se abriu, os muros
foram levantados, e a cidade, reconstruída. A oração
abre os olhos a coisas antes não vistas. Nossas
orações diárias diminuem nossas preocupações
diárias. Que Deus levante um exército de homens
santos a levantar aos céus mãos santas, em fervente
oração, em favor da família. Precisamos de um
reavivamento na família. Precisamos ver nossos
filhos se levantando, no poder do Espírito Santo,
para restaurar nossa nação. Nossos muros também
estão quebrados, e nossas portas, queimadas a fogo.
Que o Deus dos céus ouça o nosso clamor, e que
os pais sejam desafiados, como o foi Neemias, a se
Com Jesus na escota da vida
124
CAPÍTULO 13
o líder que mudou a
história de uma nação
Neemias foi copeiro de Artaxerxes e governador de
Jerusalém. Foi o reconstrutor da cidade de Davi,
a cidade que passou mais de um século debaixo de
escombros. Ele levantou os muros da cidade em apenas
52 dias, apesar da escassez de recursos, do desânimo
do povo e dos constantes ataques do inimigo. Qual foi
o segredo desse grande líder?
N eemias CONJUGAVA PIEDADE COM ESTRATÉGIA
Quando soube que a cidade de Jerusalém estava
assolada por grande miséria e que o seu povo estava vi­
vendo debaixo de opróbrio, Neemias chorou, orou, je­
juou, mas também se dispôs a agir e, ao agir, fê-lo com
refinada sabedoria. Ele falou com Deus e com o rei da
Pérsia. Ele buscou os recursos do céu e os tesouros da
terra. Precisamos de líderes piedosos e de líderes sá­
bios, de líderes íntegros e também relevantes. Homens
que tenham intimidade com os céus e sabedoria para
lidar com os intrincados problemas da terra.
E lamentável que muitas pessoas pensem que a
piedade nos priva da praticidade. A busca da piedade
não é uma alienação. Os homens mais ágeis na terra
são os que têm mais intimidade com os céus. Os
piedosos são os mais práticos. Vida com Deus não é
fuga da realidade. Neemias tinha os joelhos dobrados
e os olhos erguidos. Fazia introspecção, mas tinha a
visão do farol alto. Confiava em Deus, mas tinha metas
claras. Orava a Deus, mas fazia planos. Curvava-se
diante do Rei dos reis, por isso tinha confiança para
se levantar diante do rei.
Há muitos indivíduos que, quando começam
a buscar a Deus, perdem a conexão com as causas
urgentes da terra. Desenvolvem uma espiritualida­
de individualista e intimista. Entram nos labirintos
de seu próprio egoísmo e perdem sua conexão com a
história. Outros atiram-se de tal maneira nas causas
Com Jesus na escola da vida
128
políticas e sociais que perdem a intimidade com Deus,
deixam de orar e se tornam ativistas.
Neemias nos prova que é possível conjugar
piedade com estratégia, oração com ação, vigor
espiritual com trabalho articulado. Aqueles que
exerceram maior influência na terra foram os que
tiveram mais intimidade com o céu. Os que mais
influenciaram os homens foram aqueles que mais
conheceram a intimidade de Deus.
N eemias conjugava discrição com encorajamento
Quando Neemias chegou à devastada cidade
de Jerusalém, nada disse ao povo até fazer uma
meticulosa avaliação da situação. Somente depois
compartilhou seu plano e conclamou o povo a unir-se
a ele na reconstrução da cidade. Antes de desafiar o
povo para o trabalho, o líder precisa saber a dimensão
da obra a ser feita. Antes de falar ao povo, o líder
precisa ter uma estratégia clara em sua mente. Um
líder sábio analisa os problemas discretamente antes
de encorajar seus liderados publicamente. Quando o
líder sabe o que precisa ser feito, aonde quer chegar e
como chegar, seus liderados são encorajados a realizar
a obra.
O livro de Neemias é um dos mais importantes ma­
nuais de gestão de todos os tempos. Neemias foi um
administrador singular. Ele teve uma percepção da si­
tuação de Jerusalém à distância que os que conviviam
Neemias, o líder que mudou a história de uma nação
129
com o problema não tinham alcançado. Ele vislum­
brou uma solução que outros não tinham concebido.
Ele se afligiu com a condição deplorável da cidade de
seus ancestrais de uma forma que os que conviviam
com o problema não haviam sentido. Neemias chorou
pela cidade como seus habitantes ainda não tinham
feito. Neemias tomou medidas práticas para a solução
do problema que ninguém havia tomado até então.
Porém, Neemias não foi apressado. Ele agiu com
prudência e discrição até receber todos os sinais
favoráveis para a obra. Ele não atropelou o processo.
Senso de urgência não dispensa prudência. Ele falou
primeiro com Deus, depois com o rei e só então
mobilizou o povo. Só falou com o povo depois de
diagnosticar o problema da cidade e estabelecer um
plano concreto para a solução do problema.
Neemias encoraja o povo com argumentos fortes.
Mostra evidências de como a boa mão de Deus
estava com ele. Dá provas insofismáveis de que a
reconstrução da cidade era possível. Conclama o povo
a colocar a mão na obra e não se intimidar por causa
das dificuldades. O exemplo de Neemias é um farol
que brilha na escuridão do desânimo. Sua sabedoria
em lidar com o povo e enfrentar os inimigos foi
decisiva para o êxito do projeto.
Neemias não só encorajou o povo a fazer a obra,
mas fez um organograma do trabalho e nomeou as
pessoas certas para os lugares certos. Convocou todo
o povo para o trabalho. Nem mesmo as mulheres fica­
ram de fora da reconstrução dos muros. Até mesmo
Com Jesus na escola da vida
130
aqueles que lidavam com coisas mais sofisticadas
colocaram a mão na massa. Ele otimizou recursos e
também o tempo do povo. Colocou cada pessoa junto
de sua família e trabalhando perto de sua casa. Assim,
tinham mais tempo, mais segurança e mais confiança
no caso de um ataque dos inimigos. Neemias valori­
zava todos. Conhecia todos pelo nome e reconhecia
tanto aqueles que tinham potencial para fazer um
trabalho mais extenso como os que podiam apenas
restaurar uma porta. Todos eram importantes. Todos
tinham algo para fazer. Todos podiam contribuir com
a reconstrução da cidade. Neemias é um líder estra­
tégico e também encorajador. Sua comunicação com
o povo é clara. Sua eficiência é notória. Os resultados
alcançados são exponenciais.
N eemias conjugava integridade com exortação
Os governadores que precederam Neemias explo­
raram o povo. Eram líderes que se serviam das pes­
soas em vez de servi-las. Neemias interrompe essa
cultura de corrupção e exorta os abastados a socorrer
os necessitados. Ele exortou com autoridade, porque
sua integridade era a base da sua liderança. Por temor
a Deus, não usou seu posto de liderança para auferir
vantagens pessoais, mas para servir o povo com maior
abnegação. A vida do líder é a vida da sua liderança.
A integridade do líder é a base da sua autoridade para
exortar seus liderados.
Neemias, o líder que mudou a história de uma nação
131
Uma das realidades mais sombrias da nação
brasileira é a corrupção crônica, endêmica e sistêmica
de nossa classe política. Entram governos e saem
governos. Partidos descem do poder e outros sobem
ao poder, mas os esquemas de corrupção não recuam.
Com raras e honrosas exceções, a maioria dos políticos
se empoleira no poder para explorar o povo, e não
para servi-lo. São sanguessugas que chupam o sangue
do povo. São dráculas criminosos que deixam o povo
anêmico de esperança. São ratazanas esfaimadas
que mordem com voracidade o erário público e se
enriquecem rapidamente, enquanto o povo acumula
suas lágrimas nas filas dos hospitais sem receber um
atendimento digno.
A cultura do levar vantagem em tudo está no
DNA da nossa nação. Desde nossa colonização temos
visto essa roubalheira grudar em nós seus tentáculos.
Somos esfolados. Explorados. Roubados. Pagamos
impostos pesados para manter esse sistema corrupto.
Trabalhamos a meia com o governo para sustentar
esses exploradores de plantão, que se apresentam
como beneméritos da nação, mas assaltam seus cofres
e escapam de suas leis.
Neemias foi um governador que pôs um ponto
final nesse esquema de corrupção. Ele acreditou na
mudança. Não ficou apenas num discurso cheio de
frases de efeito para impressionar a massa ignorante.
Neemias saltou para o interior da arena e confrontou
os ricos avarentos. Denunciou a cultura da explora­
ção. Abriu os fossos fétidos do passado político de
Com Jesus na escola da vida
132
Jerusalém e mostrou as cavernas escuras da corrup­
ção que levaram aquela cidade à falência. Neemias
tapou as brechas. Fechou os ralos. Estancou a hemor­
ragia que drenava a seiva da nação. Impediu que os
escalões do seu governo se pervertessem numa cor­
rida louca e insaciável pela riqueza ilícita. Neemias
teve coragem de denunciar publicamente os ricos que
exploravam os pobres com uma política econômica
perversa. Constrangeu esses ricaços a devolver aos
pobres o que havia sido tirado deles em tempos de
opressão. Neemias restabeleceu a justiça, trouxe de
volta a esperança e colocou a cidade novamente nos
trilhos do progresso.
N eemias conjugava oração com trabalho
Neemias foi um homem de oração e de ação. Ele
orava e agia. Ele confiava em Deus e trabalhava. Ele
orou ao saber do problema de Jerusalém. Ele orou ao
falar com o rei Artaxerxes. Ele orou diante dos ataques
do inimigo. A oração era a atmosfera em que realizava
sua obra. Ele entendia que a obra de Deus precisa
ser feita na força de Deus, de acordo com a vontade
de Deus e para a glória de Deus. Neemias acreditava
que Deus é quem abre as portas, provê os recursos,
desperta o povo, livra do inimigo e dá a vitória. A
intensa agenda de oração de Neemias, entretanto,
não fez dele um líder contemplativo, mas um homem
dinâmico, um gestor competente, um estadista que
reergueu sua cidade dos escombros.
Neemias, o líder que mudou a história de uma nação
133
Os políticos que mais influenciaram positivamente
o mundo foram homens de oração. José do Egito foi
chamado de salvador do mundo, pois não só discerniu
a chegada iminente da crise, mas apontou as medidas
práticas para enfrentá-la. Davi foi um rei que
engrandeceu seu reino e conquistou grandes vitórias
porque governou na dependência de Deus. Daniel
tornou-se maior do que a Babilônia e influenciou o
império medo-persa porque tinha consciência de
que a sabedoria para governar vem do próprio Deus.
Neemias restaurou Jerusalém e levantou a cidade de
seus pais dos escombros não apenas porque pôs a mão
na obra e conclamou o povo a juntar-se a ele nesse
arrojado projeto, mas, sobretudo, porque entendeu
que a força, os recursos e as estratégias para realizar
essa grande obra vinham do próprio Deus.
N eemias conjugava o ensino da Palavra
COM PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO
Neemias foi um líder fiel às Escrituras. Ele
convocou o povo para voltar-se para a lei de Deus e fez
não apenas uma reforma estrutural e política em sua
cidade, mas também uma reforma espiritual. É mais
fácil levantar muros quebrados e restaurar portas
queimadas do que restaurar a vida espiritual do povo.
E mais fácil lidar com coisas do que com gente. É
mais fácil tirar a cidade dos escombros do que tirar
o povo da incredulidade e do desânimo. É mais fácil
fazer uma reforma estrutural do que conseguir uma
Com Jesus na escola da vida
134
reforma espiritual. Neemias era um homem sábio o
suficiente para saber que não bastava apenas uma
reforma política e econômica sem uma restauração
espiritual. Ele não se satisfez apenas em levantar os
muros de Jerusalém e restaurar suas portas. Ele não
ficou satisfeito apenas em ver o retorno da justiça
social e estancar o fluxo da corrupção. Ele queria
mais. Ele lutou por uma reforma espiritual. Trouxe de
volta a Palavra para o centro da nação. Levou o povo
a fazer uma aliança com Deus e a voltar-se para Deus.
Uma nação rica que vê seu povo se afastando dos
princípios da ética é uma nação vulnerável. Feliz é a
nação cujo Deus é o Senhor, e não apenas uma nação
opulenta financeiramente.
Neemias foi absolutamente estratégico no proje­
to da restauração estrutural e da restauração espiritu­
al. Ele colocou cada pessoa no lugar certo, para fazer
a coisa certa, com a motivação certa. Ele motivou e
mobilizou todas as pessoas: homens e mulheres, po­
bres e ricos, sacerdotes e comerciantes, agricultores e
ourives. Ninguém ficou de fora. No seu planejamen­
to havia trabalho para todos, e foi a união de todos,
trabalhando na mesma direção, com a mesma moti­
vação, que redundou em vitória tão esplêndida. Os
muros da cidade foram reerguidos em apenas 52 dias.
A cidade que estava debaixo de escombros havia mais
de cem anos ressurgiu das cinzas. Os inimigos que
zombavam da cidade havia décadas tiveram que co­
brir a cara de vergonha. O que parecia impossível ao
povo era agora uma realidade notória para o mundo.
Neemias, o líder que mudou a história de uma nação
135
A cidade de Jerusalém voltava a ser o centro do palco.
Um tempo novo estava raiando; tempo de prosperi­
dade, crescimento e santificação; tempo de reforma e
reavivamento.
Que Deus levante entre nós lideres da estirpe de
Neemias!
Com Jesus na escola da vida
136
CAPÍTULO 14
um homem que olhou para
Deus no dia da aflição
Isaías está encurralado pela dor. O trono da sua nação
está vazio. A nação está de luto. O rei Uzias está morto.
O cenário de sua nação é sombrio. Quatro crises
assolam o país:
A crise política. Depois de 52 anos de sólido governo,
Uzias está morto. O vácuo no trono trouxe insegurança
à nação e um futuro incerto na política. A alternância
no governo de Judá foi desastrosa. Levantaram-se em
Jerusalém muitos homens que oprimiram o povo e
fizeram desviar a nação da presença de Deus. Estamos
137
vivendo uma crise política profunda. A corrupção
está instalada dentro do palácio, do congresso
nacional e da câmara de deputados. Os políticos
são hoje a classe mais desacreditada da nação. As
instituições democráticas estão desacreditadas. Há
fortes evidências de corrupção instalada nos poderes
constituídos. Aqueles que foram eleitos para legislar,
governar e julgar estão, muitas vezes, mancomunados
com esquemas nefastos de corrupção, roubando o
dinheiro que deveria alimentar os pobres e trazer
progresso à nação.
A crise econômica. Em Judá, os ricos ficavam cada
vez mais ricos, e os pobres, cada vez mais miseráveis.
Os reis edificavam seus palácios com sangue. Os ricos
oprimiam os fracos e faziam alianças espúrias com
os juizes para assaltar o direito dos inocentes. Judá
entrou em crise por causa dos impostos abusivos,
por causa dos tributos escorchantes que a nação
pagava aos reis estrangeiros. O povo trabalhava,
mas os lucros fugiam-lhe das mãos. Isso trouxe uma
riqueza para uma minoria que juntava casa a casa e
campo a campo, jogando o povo na miséria. O poder
legislativo de Judá decretava leis injustas para negar
justiça aos pobres e para arrebatar o direito dos
aflitos, despojando as viúvas e roubando os órfãos
(Is 10.1,2). Nós também convivemos com a trágica
realidade dos mensalões, dos milhões desviados para
paraísos fiscais, do enriquecimento rápido e imoral de
um bando de homens perversos e inescrupulosos que
Com Jesus na escoía da vida
138
vendem a alma da nação, enquanto os impostos são
abusivos, os salários são achatados, os lucros para os
trabalhadores são minguados, e as grandes instituições
financeiras nadam em lucros estratosféricos.
A crise moral O povo se corrompeu. Perdeu seus
absolutos. Abraçou uma ética flácida e situacional.
Perderam a noção de moralidade: chamavam luz de
trevas e trevas de luz; o doce de amargo e o amargo
de doce (Is 5*20). Judá caiu pelos seus pecados. Roma
caiu pelos seus pecados. Os impérios caíram pelos
seus pecados. Deus disse para Israel: Volta, ó Israel,
para o Senhor teu Deus, porque pelos teus pecados estás
caído (Os 14.1). O Brasil está na lama da imoralida­
de. Políticos corruptos. Campeão mundial de consu­
mo de cachaça. As drogas e o narcotráfico ditam leis
no submundo do crime. A sensualidade é desenfrea­
da. Somos o país da maior parada gay do planeta. O
país de dois milhões de abortos criminosos por ano.
O país do carnaval, dos estádios megalomaníacos, do
samba. O reino da pinga, o império da desonestidade
e da mentira; o país das mães adolescentes, do crime
organizado, dos sequestros criminosos.
A crise espiritual. O povo de Judá era como filhos
rebeldes. Era pior do que o animal irracional. O boi
conhece o seu dono, mas Judá não conhecia o Senhor.
Judá estava doente: com feridas dos pés à cabeça. A
despeito desse marasmo, o povo ainda mantinha
Isaías, um homem que olhou para Deus no dia da aflição
139
as aparências e fazia sacrifícios ao Senhor. Mas
Deus estava cansado desse culto hipócrita. O Brasil
é o país que adora um ídolo pescado no rio Paraíba
do Sul como sua padroeira e protetora. O Brasil é o
país que adora e obedece a espíritos enganadores. O
Brasil é o país que' multiplica seus ídolos e santos de
devoção. O Brasil é o país que vê crescer uma igreja
evangélica que prega outro evangelho: sincrético,
místico, semipagão. O Brasil é um país que vê a igreja
evangélica transformando-se num mercado, onde
floresce uma igreja sem doutrina, sem moral, sem
compromisso, sem ética. O Brasil é um país que tem
uma igreja ortodoxa, mas desprovida de piedade.
Uma igreja que tem conhecimento, mas não fervor.
Tem doutrina, mas vive cheia de arrogância.
0 QUE FAZER NESSE TEMPO DE CRISE?
Em primeiro lugar, na crise precisamos olhar para
cima e saber que Deus reina (Is 6.1-3). O texto em apre­
ço destaca algumas verdades importantes:
Precisamos saber que Deus está no trono. As nos­
sas crises não apanham Deus de surpresa. As nossas
crises não abalam o trono de Deus. Deus reina. Os
céus governam a terra. Deus dirige a história. Quem
dirige os destinos da humanidade não são os pode­
rosos, mas o Todo-poderoso. Esta é a grande men­
sagem de Isaías. Esta é a grande mensagem do livro
de Apocalipse. Deus está no trono. Não importam
Com Jesus na escola da vida
140
as crises. Não importam a fúria do dragão, o ódio do
anticristo, a sedução do falso profeta, os encantos da
grande meretriz. Deus reina. Ele está no comando e
vai colocar todos os seus inimigos debaixo dos seus
pés. Não se desespere, nenhum fio de cabelo da sua
cabeça pode cair sem que ele o permita. Ele reina!
Precisamos saber que Deus é santo, santo, santo.
Quando a Bíblia diz santo, ela define. Quando diz santo,
santo, ela enfatiza. Quando diz santo, santo, santo, ela
coloca no grau superlativo. Deus é majestoso. Ele é
glorioso. Ninguém jamais pode ver a Deus..Ele habita
em luz inacessível. A maior necessidade da igreja hoje
é ter uma percepção da majestade de Deus em seu
meio. Precisamos ter um senso da glória de Deus. E
impossível ter uma visão da glória de Deus sem se
humilhar no pó.
Precisamos saber que os seres mais exaltados adoram
a Deus da maneira mais reverente. Os serafins cobrem
o rosto e os pés num gesto de profunda reverência.
E voam para cumprir suas ordens. Das seis asas, eles
usam quatro para adorar e duas para servir. Se os pró­
prios serafins se prostram, nós poderemos nos man­
ter altivos na sua presença?
Precisamos saber que os seres mais exaltados procla­
mam quem Deus é e o que Deus faz. Deus é santo, e
toda a terra está cheia da sua glória. Ele é o Senhor
dos Exércitos, o Deus que luta por nós, que guerreia
as nossas guerras, que se manifesta e que age
poderosamente em favor do seu povo.
Isaías, um homem que olhou para Deus no dia da aflição
141
Em segundo lugar, na crise precisamos olhar para
dentro e saber que necessitamos da misericórdia de Deus
(Is 6.4-7). Examinemos alguns pontos importantes:
Precisamos ter uma visão pessoal da nossa real con­
dição aos olhos de Deus. Antes de Isaías contemplar a
Deus, ele distribuiu uma série de Ais: 1) Ai dos ganan­
ciosos (Is 5.8); 2) Ai dos beberrões (5.11); 3) Ai dos
injustos (5.18); 4) Ai dos corrompidos moralmente
(5.20); 5) Ai dos soberbos (5.21); 6) Ai dos farristas
(5.22). Mas, agora, quando vê o Senhor, ele se vol­
ta para dentro de si e diz: 7) Ai de mim (6.5). Russel
Shedd diz que o maior pecado da igreja hoje é a dure­
za de coração. É falta de quebrantamento. É ausência
de choro pelo pecado.
Precisamos ter uma visão de profunda angústia
pelo nosso pecado. Este Aí de Isaías é um Az de dor, de
lamento, de angústia, de tristeza profunda. Ele não
chora apenas as consequências do seu pecado, mas
lamenta porque seus lábios são impuros. Só quem tem
um verdadeiro encontro com Deus consegue enxergar
a malignidade do seu pecado. Quanto mais perto de
Deus, mais se vê a hediondez do pecado.
Precisamos ter uma visão do pecado que nos rodeia.
Isaías disse: habito no meio de um povo de impuros
lábios (Is 6.5). Isaías se incomoda com o pecado do
seu povo. Ele chora pelo pecado da nação. Ele geme de
dores por causa da transgressão do seu povo. Ele não
é um homem alienado espiritualmente. As feridas do
seu povo estão doendo no seu coração.
Com Jesus na escola da vida
142
Precisamos ter uma visão da graça perdoaãora de Deus
(Is 6.6,7). Não há perdão onde não há confissão. Hoje
pregamos a fé sem o arrependimento, a salvação sem
a conversão. Deus é Deus de perdão. Você pode ser
transformado hoje. Seu vocabulário pode mudar. Seu
coração pode mudar. Uma fonte de vida pode brotar
do seu interior. Você pode ter uma mente pura, um
coração puro, um namoro puro, um casamento santo.
A mulher samaritana recebeu uma nova vida; Zaqueu
achou paz para o seu coração; a mulher pecadora foi
perdoada; Bartimeu teve seus olhos abertos; o leproso
foi purificado; o ladrão foi recebido no paraíso. Cristo
pode agora mesmo libertá-lo também. Pode perdoar o
seu pecado e fazer de você uma nova criatura.
Em terceiro lugar, na crise precisamos olhar para
fora, ouvir o desafio de Deus e ver a necessidade do mun­
do (Is 6.8). Três pontos nos chamam a atenção:
O envio de Deus nunca precede a restauração
espiritual Vida com Deus é mais importante do que
vida para Deus. A vida vem antes do trabalho. A
consagração vem antes do ministério. Só depois que
Isaías viu a Deus e foi perdoado é que pôde ouvir o
desafio de Deus para fazer sua obra. Deus trabalha em
nós antes de trabalhar por meio de nós. Adoração vem
antes de missão. Santificação vem antes de serviço.
O chamado é dirigido a todos aqueles que foram per­
doados. O Deus que salva é o mesmo que chama para
o serviço. Deus não nos salvou para a indolência,
mas para o serviço. Somos todos membros do corpo.
Somos todos ramos da videira. Somos todos ovelhas.
Isaías, um homem que olhou para Deus no dia da aflição
143
Somos todos ministros da reconciliação. Não feche
os ouvidos. Não endureça seu coração. O campo é o
mundo. Não chegue diante de Deus de mãos vazias.
Deus não o salvou apenas para levá-lo para o céu, mas
para que você fosse um vaso de honra em suas mãos, a
fim de levar esse evangelho aos pecadores. Uma mis­
sionária disse: “eu não recebi um chámado, eu obede­
ci a uma ordem”.
A disposição de atender ao chamado para fazer a ohra
de Deus. Isaías se coloca nas mãos de Deus. O fogo
começou a arder em seu peito. A brasa havia queima­
do em seus lábios. Ele se levantou. Ele se dispôs. Ele
atendeu. Isaías denunciou o pecado. Apontou com fir­
meza os desmandos do rei Acaz. Atacou a exploração
dos pobres. Denunciou a ganância insaciável dos ri­
cos. Interferiu nos pactos internacionais com o Egito,
que substituíam a confiança no Senhor. Denunciou a
religião sem vida. Hoje temos muitos desafios: na fa­
mília, na escola, na empresa, no trabalho. Deus está
chamando você para ser uma bênção em sua nação.
Deus está chamando você para se levantar e pôr a
mão no arado. O clamor dos céus cruza os séculos e
cai nos nossos ouvidos: A quem enviarei, e quem há de ir
por nós? [...] Eis-me aqui, envia-me a mim (Is 6.8).
Com Jesus na escota da vida
CAPÍTULO 15
o homem que falhou na sua
mais importante missão
Há sinais de desintegração da família por todos os lados:
• O índice de divórcio chega a 50% em alguns
países. De cada cem casamentos, cinquenta terminam
em divórcio.
•A infidelidade conjugal está se tornando uma
epidemia perigosa. Em 2001, num relatório sobre fa­
mília, constatamos que 75% dos maridos e 63% das
mulheres são infiéis aos seus cônjuges4.
4 1997:23:1034-1045 and E.M. Brown. Patterns of infidelity and their
treatment. New York: Brunner/Mazel: 1991. '
145
• Uma pesquisa realizada recentemente com
3.600.000 crianças concluiu que 14% das crianças são
filhos de pais solteiros e 40% viverão em um lar de
pais separados antes de atingirem 18 anos de idade.
Nos últimos trinta anos, o número de pais solteiros
cresceu 450%5.
•A pornografia escraviza hoje mais de 30% da
população.
• O homossexualismo está ultrapassando a
fronteira dos 10% da população.
•Os pais estão cada vez mais ocupados, e os filhos,
cada vez mais distantes de um relacionamento estável
com a família. Estamos assistindo a morte do diálogo
na família.
A família de Eli é um exemplo de uma família que
tinha tudo para dar certo, mas desintegrou-se, Eli era
um grande homem, mas fracassou como pai. Eli era
famoso fora dos portões, mas um perdedor dentro
de casa. Eli cuidava dos outros, mas esqueceu a sua
própria casa.
Um homem que tinha tudo para ser um grande pai
Quatro fatos podem ser destacados sobre Eli:
Com Jesus na escola da vida
5OTTEN, Alan. Baby boomer people: make less, but make do. In Wall Street
Journal. 1990. 5 July.
146
Em primeiro lugar, Eli tinha uma posição mui­
to respeitada (ISm 4.18). Eli ocupava uma função
que exigia muito do seu tempo. Ele era sacerdote
e também juiz de Israel. Eli manteve uma posição
respeitável por quarenta anos. Ele era um homem
muito ocupado com os negócios do povo e com as
coisas de Deus.
Em segundo lugar, Eli era um homem crente (ISm
2.11). Eli era um sacerdote. Ele representava o povo
diante de Deus. Era um homem que instruía o povo
na Palavra e intercedia pelo povo. Seu nome significa:
“Jeová é o meu Deus”. Ele era um homem de fé. Era
a boca de Deus. Ele disse para Ana: Vai-te em paz, e o
Deus de Israel te conceda a petição que lhe fizeste (ISm
1.17), e Ana concebeu e deu à luz Samuel.
Em terceiro lugar, Eli era um homem espiritualmen­
te sensível (ISm 3.8,9). Quando Deus falou ao jovem
Samuel, Eli sentiu que era o Senhor e disse-lhe o que
fazer. Eli discerniu a presença de Deus nessa noite.
Sabia o que significava contatar-se com Deus. Ele era
um homem capaz de discernir a voz de Deus. Era um
homem de poder espiritual.
Em quarto lugar, Eli era um líder estável em seu
trabalho (ISm 4.18b). Eli não foi um homem incons­
tante. Ele ministrou em Siló por quarenta anos como
sacerdote e, como juiz, julgou Israel durante todo esse
tempo. Era um homem estável em seu trabalho, um
líder entre o seu povo.
Eli, o homem que falhou na sua mais importante missão
147
F ilhos que tinham tudo para ser uma bênção
•Eles tinham um pai crente.
•Eles tinham um pai líder e experiente.
•Eles nasceram numa família sacerdotal e cresce­
ram num ambiente sagrado.
•Eles mesmos eram sacerdotes do Senhor (ISm
1.3). MAS...
Eles eram sacerdotes, mas absolutamente profanos
(ISm 2.12). Eles eram incrédulos, rebeldes, blasfemos
e filhos de Belial. Eram sacerdotes profissionais, mas
não se importavam com Deus. Conviviam com o
sagrado, mas não tinham respeito por Deus, nem pela
lei de Deus, nem pelo povo. Eles cresceram na igreja,
mas não no Senhor. Quanto mais perto da igreja,
mais longe do Senhor. Eles lideravam e ensinavam o
povo, mas eram ímpios.
Eles eram sacerdotes, mas desprezavam o culto di­
vino (ISm 2.17), Eles não respeitavam a orientação
da Palavra de Deus quanto às ofertas trazidas à casa
de Deus (Lv 7.30-34; 3.16; 7.23-25). Eles exerciam o
sacerdócio apenas para satisfazer seus apetites. Não
davam honra ao nome do Senhor. Para eles, o ritual
era apenas uma tarefa pública para levar comida ao
seu estômago. Eles estavam na igreja, trabalhavam
na igreja, mas não conheciam a Deus. Desrespeitar as
coisas de Deus era o seu costume (ISm 2.13).
Com Jesus na escola da vida
148
Eles eram sacerdotes, mas viviam escandalosamente
na imoralidade (ISm 2.22). Eles adquiriram má fama e
nem trataram de ocultar suas imoralidades. Eles peca­
vam contra aquelas pessoas de quem deveriam cuidar
e pastorear. Eles pecaram dentro da própria casa de
Deus. Eles eram homens casados, mas adúlteros. Não
respeitavam a Deus, nem suas esposas, nem a Palavra
de Deus, nem o sacerdócio, nem o povo.
Eles eram sacerdotes, mas faziam o povo tropeçar
(ISm 2.24). Os pecados dos líderes são mais graves,
mais hipócritas e mais danosos: mais graves, porque
eles pecam contra um maior conhecimento; mais
hipócritas, porque combatem aquilo que praticam;
e mais danosos, porque os pecados do mestre
são os mestres do pecado e, assim, fazem o povo
tropeçar. Eles não eram neutros. Eram uma pedra de
tropeço. Charles Spurgeon diz que não há um maior
instrumento do diabo dentro da igreja do que um
ministro ímpio e impuro.
Eles eram sacerdotes, mas não ouviam conselhos nem
advertências (ISm 2.23-25). Eles não honravam nem
a Eli nem a Deus. Quem desobedece aos pais desobe­
dece a Deus. O pecado da rebeldia é como o pecado
da feitiçaria. Filhos rebeldes são a vergonha dos pais.
U m HOMEM QUE FRACASSOU NO MAIOR
DE TODOS OS MINISTÉRIOS
Há alguns pontos que destaco sobre esse fracasso
de Eli.
Eli, o homem que falhou na sua mais importante missão
149
Em primeiro lugar, Eli foi um pai AUSENTE, que
não tinha tempo para os filhos (ISm 4.18). Eli era um
pai que nunca estava em casa. Ele sempre esteve mui­
to ocupado cuidando dos filhos dos outros, ouvindo
e aconselhando famílias, ajudando a resolver os pro­
blemas alheios e esqueceu-se de seus filhos. Os outros
pais podiam sempre contar para os filhos as histórias
de Abraão, Isaque e Jacó, mas Eli estava assoberbado
com muitas outras coisas e não tinha tempo para os
filhos. Hofni e Fineias não tinham um pai disponível.
Eles moravam dentro da igreja, mas não tinham um
pai presente.
Quando os filhos são pequenos, eles querem brin­
car com os pais e ficar com eles; quando crescem,
os pais querem ficar com os filhos, mas estes já não
querem mais. Muitos pais hoje inventam ocupações
desnecessárias. Os pais estão sempre dizendo para os
filhos: “Um dia desses teremos mais tempo”. Esse dia
nunca chega.
O diálogo está morrendo dentro dos lares. Um
exemplo: O filho chega em casa e diz: “Pai, fiquei
em segundo lugar da minha turma na prova de
Matemática”. O pai, em vez de celebrar com o filho,
ainda reclama de seu desempenho. Imagine um
filho que chega em casa e diz que tirou 90 na prova
de Ciências, e o pai lhe diz: “Menino, quando você
vai tirar 100?”. O pai que age assim está dizendo
indiretamente que ama o filho pelo seu desempenho.
E melhor o pai dizer: “Meu filho, estou feliz com o seu
sucesso. Penso até que você tem potencial para mais.
Com Jesus na escola da vida
. 150
Mas, mesmo que você tivesse fracassado nessa prova,
amaria você do mesmo jeito”.
Nenhum sucesso compensa o fracasso do seu lar.
O problema é que, muitas vezes, os filhos não têm o
mesmo crédito com os pais que têm a empresa, o fu­
tebol, a televisão e o dinheiro. Há pais que substituem
presença por presentes. Um pai disse, certa feita, no
funeral de seu filho: “Eu daria tudo para começar tudo
de novo”.
Em segundo lugar, Eli foi um pai OMISSO, que não
abriu os olhos para ver os sinais de perigo dentro do seu
lar (ISm 2.22-24; 2.29-34; 3.11,12,17,18). Eli teve
três advertências:
A primeira advertência veio do público em geral
(ISm 2.22-24). A situação vergonhosa dos filhos de
Eli era de conhecimento popular. O povo não ocultava
de Eli os pecados dos seus filhos. O povo dizia para
Eli: “Os seus filhos são motivo de tropeço para o povo.
Eles estão vivendo de forma escandalosa. O que eles
fazem é mau. Você, Eli, fica com a imagem arranhada
por causa dos seus filhos. A obra de Deus é prejudica­
da por causa dos seus filhos.” Mas a advertência de Eli
é frouxa. Ele exorta os filhos, mas não os disciplina,
nem os pune, nem os afasta do sacerdócio. Ele exorta
com palavras, mas não com ação.
A segunda advertência veio por um profeta anôni­
mo (ISm 2.27-34). Deus denuncia a ingratidão deles.
Lavra a sentença de que o ministério deles iria cessar.
O profeta aponta a autoridade da sentença: Assim diz
Eli, o homem que falhou na sua mais importante missão
151
Mas, mesmo que você tivesse fracassado nessa prova,
amaria você do mesmo jeito”.
Nenhum sucesso compensa o fracasso do seu lar.
O problema é que, muitas vezes, os filhos não têm o
mesmo crédito com os pais que têm a empresa, o fu­
tebol, a televisão e o dinheiro. Há pais que substituem
presença por presentes. Um pai disse, certa feita, no
funeral de seu filho: “Eu daria tudo para começar tudo
de novo”.
Em segundo lugar, Eli foi um pai OMISSO, que não
abriu os olhos para ver os sinais de perigo dentro do seu
lar (ISm 2.22-24; 2.29-34; 3.11,12,17,18). Eli teve
três advertências:
A primeira advertência veio do público em geral
(ISm 2.22-24). A situação vergonhosa dos filhos de
Eli era de conhecimento popular. O povo não ocultava
de Eli os pecados dos seus filhos. O povo dizia para
Eli: “Os seus filhos são motivo de tropeço para o povo.
Eles estão vivendo de forma escandalosa. O que eles
fazem é mau. Você, Eli, fica com a imagem arranhada
por causa dos seus filhos. A obra de Deus é prejudica­
da por causa dos seus filhos.” Mas a advertência de Eli
é frouxa. Ele exorta os filhos, mas não os disciplina,
nem os pune, nem os afasta do sacerdócio. Ele exorta
com palavras, mas não com ação.
A segunda advertência veio por um profeta anôni­
mo (ISm 2.27-34). Deus denuncia a ingratidão deles.
Lavra a sentença de que o ministério deles iria cessar.
O profeta aponta a autoridade da sentença: Assim diz
Eli, o homem que falhou na sua mais importante missão
151
o Senhor (ISm 2.27). E mostra o princípio sobre o qual
Deus exerce a autoridade: aos que me honram, honrarei
(ISm 2.30). No versículo 29, o profeta fala sobre a re­
preensão de Deus; no versículo 30, sobre a rejeição de
Deus; e nos versículos 31-34, sobre o castigo de Deus.
A terceira advertência veio do próprio Deus através
de Samuel (ISm 3.11,12,17,18). Para os critérios de
avaliação de Deus, a prova de fogo da liderança de um
pai não reside no âmbito de suas habilidades sociais,
relações públicas, mas em casa (Um 3.1-5). Eli foi
omisso em corrigir os seus filhos diante de tantas
advertências. Ele foi débil, frouxo. Faltou autoridade.
Faltou pulso. Faltou firmeza. Exemplo: Quando
alguém adverte você a respeito de sua família, de seus
filhos, como você reage? Quando a professora manda
um bilhete, como você reage?
Em terceiro lugar, Eli foi um pai BONACHÃO (ISm
2.29b). Eli honrou mais aos seus filhos do que a Deus
ao permitir que eles continuassem na prática de todos
esses pecados no exercício do sacerdócio. Provérbios
19.18 diz: Castiga a teu filho enquanto há esperança. O
rei Davi também não tinha coragem de confrontar os
seus filhos e os perdeu. Hoje há filhos mandando nos
pais. Os pais são reféns dos filhos.
Em quarto lugar, Eli foi um pai CONIVENTE (ISm
2.29). Eli não apenas deixou de corrigir seus filhos,
ele se tornou participante dos pecados dos filhos.
A Bíblia diz que ele morreu pesado. E por quê? ...
para tu e eles vos engordardes das melhores de todas as
ofertas do meu povo de Israel (ISm 2.29). Eli comeu
Com Jesus na escola da vida
152
também a carne que seus filhos haviam tomado
inescrupulosamente do sacrifício. Eli aceitou o estilo
de vida que eles levavam. Eli se tornou parceiro dos
pecados de seus filhos.
Em quinto lugar, Eli foi um pai PASSIVO AO
FATALISMO (ISm 3.18). Eli aceitou passivamente a
decretação da derrota sobre a sua casa. Ele não rea­
giu. Ele não clamou por misericórdia. Ele não orou.
Ele entregou os pontos. Eli não tinha mais forças para
lutar pela salvação da sua casa. Não entregue os pon­
tos. Não desista. Não abra mão da sua família. Você
não gerou filhos para a morte. Você não gerou filhos
para o cativeiro. Ore, lute, chore e jejue pela salvação
dos seus filhos.
L ições práticas:
O perigo de cuidarmos dos outros e não da nossa
própria família.
O perigo de sermos famosos fora dos portões e
não termos autoridade dentro de casa.
O perigo de nos acostumarmos com as coisas
sagradas e perdermos o temor do Senhor.
0 perigo de nos conformarmos com os pecados dos
nossos filhos ao ponto de estarmos mais preocupados
em agradá-los do que em honrar a Deus.
O perigo de aceitarmos passivamente a decreta­
ção da derrota em nossa família.
Eli, o homem que falhou na sua mais importante missão
153
O perigo de não estarmos atentos para o fato de
que o cálice da ira de Deus pode encher-se, e então
não haverá mais esperança para a nossa casa.
A plicação:
A família de Eli acaba em tragédia porque pensou
que podia fazer a obra de Deus sem santidade. Eles
enfrentam os filisteus. Quatro mil homens morrem.
Hofni e Fineias trazem a arca, símbolo da presença de
Deus, mas a arca é roubada, eles morrem, e trinta mil
homens caem mortos.
Eli recebe a notícia da tragédia, cai da cadeira,
quebra o pescoço, e a nora dá à luz um filho a quem
chama de Icabode, “foi-se a glória de Israel”. Eles só
reconheceram que Deus estava longe deles depois
da tragédia.
Será que a glória de Deus está se ausentando da
sua casa, da sua família? E hora de agir. Vamos fazer
uma grande cruzada pela salvação da nossa família.
Nenhum sucesso compensa a perda da nossa família.
Com Jesus na escola da vida
CAPÍTULO 16
manobras erradas na
estrada da vida
Saul tinha tudo para ser um homem de sucesso e foi
um fracasso. Começou bem e terminou mal. Suas
decisões foram desastradas. Ele tropeçou nas suas
próprias pernas. Foi derrotado não pelos inimigos
nem pelas circunstâncias, mas por si mesmo.
A vida de Saul é uma trombeta a alertar-nos para
o perigo de começar bem a carreira e perder-se na ca­
minhada. O perigo de transigir com os absolutos de
Deus e praticar o que um dia se condenou.
155
A vida de Saul nos ensina que podemos desper­
diçar as oportunidades da vida. Ela nos ensina o que
não devemos fazer. Ela nos aponta para o perigo de
receber em si mesmo a merecida punição do seu erro.
UM HOMEM QUE TINHA TUDO PARA SER UMA BÊNÇÃO
Há cinco verdades sobre Saul que quero destacar:
Em primeiro lugar, quanto à sua apresentação
pessoal (ISm 9.2; 10.23). Ele era moço: tinha saúde,
vigor, força, disposição. Era o mais belo de Israel. Era
como um astro de Hollywood. Era um jovem bem-
aceito, cobiçado, bom partido, que tinha excelentes
predicados físicos e também fortes qualidades morais.
Em segundo lugar, quanto à sua condição financeira
(ISm 9.1). Seu pai era homem de bens. Saul tinha
estabilidade financeira. Era um jovem com futuro
promissor. Era bonito e rico.
Em terceiro lugar, quanto ao seu privilégio (ISm
9.15-17). Saul foi escolhido para ser rei em Israel em
resposta ao clamor do povo. Um novo capítulo na his­
tória da sua nação estava sendo escrito. Ele era o pro­
tagonista desta nova fase. Antes de ser aclamado pelo
povo, foi escolhido por Deus. Ele foi a resposta à ora­
ção do povo. Ele estava no coração de Deus antes de
estar no coração do povo. Estava nos planos de Deus
antes de ser ungido rei sobre Israel.
Com Jesus na escola da vida
156
Mais do que isto, Saul foi ungido por mandado de
Deus como rei sobre Israel (ISm 10.1). Ele não am­
bicionou ser rei, mas Deus o escolheu. Não foi eleito
pela terra, mas pelo céu; não por homens, mas por
Deus. A legitimidade do seu governo foi dada pelo
próprio Deus. Ele foi ungido como príncipe de Deus
sobre o seu próprio povo.
Em quarto lugar, quanto ao seu caráter. Ele era um
jovem humilde. Podemos identificar a humildade de
Saul em três situações. Primeira, ele se sente indigno
de ocupar a posição de rei (ISm 9.21). Quando Samuel
lhe revela o plano de Deus, longe de vangloriar-se, Saul
se sente indigno da sublime honra. Coloca-se no seu
lugar. Não busca holofotes. Reconhece sua origem.
Humilha-se sob a poderosa mão de Deus. Segunda,
no dia da coroação, ele se esconde no meio da baga­
gem (ISm 10.20-22). A festa estava pronta para a
coroação. Era o dia da posse. As bandas tocavam. As
bandeiras drapejavam esvoaçando ao vento. As tri­
bos estavam reunidas para aclamá-lo rei (ISm 10.24),
mas o rei estava escondido por não se achar digno.
Terceira, ele enfrentou a primeira oposição dos filhos
de Belial com humildade e mansidão (ISm 10.26-27).
Ele não os esmagou, usando sua força. Ele entregou
sua causa a Deus com profundo senso de humildade.
Em quinto lugar, quanto ao seu relacionamento com
Deus (ISm 10.6,10; 11.6). Saul foi um homem trans­
formado, possuído e usado pelo Espírito de Deus. Ele
teve o privilégio de desfrutar da intimidade de Deus.
Saul, manobras erradas na estrada da vida
157
Ele sabia o que era o poder de Deus na sua vida. Ele
tinha intimidade com o sagrado.
Um homem que destruiu sua vida
com as próprjas mãos
Saul tinha tudo para triunfar. Tinha a unção de
Deus e o apoio do povo. Deus era com ele (ISm 10.7).
Saul era líder. Tinha carisma. Mas terminou sua
vida em tragédia. Fez opções erradas. Não escutou
conselhos. Endureceu seu coração.
Saul perdeu a comunhão com Deus. Não buscava
mais a face de Deus na crise. Sempre tentava se justi­
ficar. Tinha medo das consequências do seu pecado,
mas não do pecado. De queda em queda, foi descendo
a um profundo abismo.
Saul fez uma série de manobras erradas na estrada
da vida. Quando chegava numa encruzilhada, sempre
tomava a direção errada. Vejamos quais foram essas
manobras erradas:
A primeira manobra errada foi a impaciência
(ISm 10.8; 13.8-14). Há vários passos dados rumo
à impaciência. 1 Samuel 10.8 - Na batalha contra
os filisteus, Samuel se ausentou e deixou ordem
para Saul esperá-lo sete dias para fazer o sacrifício.
1 Samuel 13.5 - Os filisteus eram 30 mil carros e 6
mil cavaleiros, povo em multidão. Passou o primeiro
dia. Todos estavam ficando nervosos. Os capitães
Com Jesus na escola da vida
158
das tropas vinham dizer a toda hora que o moral dos
soldados estava baixando. Será que Saul não podia
tomar nenhuma providência? ISamuel 13.6 —Os
homens de Israel ficaram em apuros e se esconderam
nas cavernas. Segundo, terceiro, quarto, quinto dias, o
inimigo achava-se ali perto. A tensão tomava conta do
arraial. No sexto dia, alguns dos homens começaram
a abandonar Saul, voltando para casa. Saul estava
nervoso. “Onde está Samuel, por que ele não vem?”
Saul ficou impaciente e resolveu fazer alguma coisa. 1
Samuel 13.9 —No setimo dia, ao raiar do dia, outros
soldados foram embora. Saul, então, não aguentou
esperar mais e disse: Trazei-me aqui o holocausto e
ofertas pacíficas. E ofereceu o holocausto. Quando estava
terminando, chegou Samuel, e Saul tentou dar suas
desculpas (ISm 13.11,12): o povo ia se espalhando;
você não vinha; o inimigo já se armara; precisava
urgentemente de uma bênção a qualquer custo, fui
forçado pelas circunstâncias. Mas Samuel repreendeu
Saul e chamou-o de tolo (ISm 13.13,14).
A impaciência é uma confissão de que não
acreditamos que Deus se acha no controle de tudo.
Impaciência é incredulidade. Às vezes somos tentados
a agir por nós mesmos, ainda que o sinal de Deus
esteja vermelho para nós.
A segunda manobra errada foi um juramento
insensato (ISm 14.24-30,39). Sem comunhão com
Deus, confiando em si mesmo, Saul, em plena guerra,
sacrifica seus soldados, fazendo um juramento
néscio (ISm 14.24,39,44). Jônatas, não sabendo
Saul, manobras erradas na estrada da vida
' 159
do voto, come mel e recobra as forças, mas seu pai
acha que ele deveria morrer. Não fora a intervenção
do povo, Saul teria matado o seu próprio filho. Há
pais que criam leis tão rígidas para seus filhos que
eles ficam sufocados. Saul se achava o dono da vida
das pessoas. O poder havia subido à sua cabeça, e ele
começou a agir insensatamente.
A terceira manobra errada foi a obediência parcial
(ISm 15.3,5-7,10). Saul não seguiu a Deus nem exe­
cutou sua Palavra (ISm 15.11). Saul poupou Agague
e o melhor dos rebanhos. Obedeceu parcialmente.
Depois, Saul mentiu, dizendo que tinha executado a
ordem de Deus (ISm 15.13). Ele tentou racionalizar.
Em vez de se curvar, ele buscou meios de justificar
o seu erro. Ademais, Saul deu desculpas infundadas
(ISm 15.14,15). Disse que desobedeceu à ordem de
Deus para fazer sacrifícios a Deus. Deus não aceita
culto associado à desobediência. Finalmente, Saul
bateu o pé dizendo que tinha obedecido (ISm 15.19­
21). Ele queria obedecer do seu jeito, ao seu modo.
Samuel diz a Saul que Deus quer obediência (ISm
15.22). Deus não busca adoração, mas adoradores; ele
não quer sacrifício, mas obediência.
Samuel diz a Saul que sua rebelião é como feitiçaria,
e sua obstinação, como idolatria (ISm 15.23). Não
obedecer a Deus é rebelião, ocultismo. Não obedecer
é como idolatria.
Então, Saul usa a máscara de uma confissão fin­
gida sem arrependimento (ISm 15.24-30). Pequei;
Com Jesus na escola da vida
160
honra-me, porém, agora diante dos anciãos (ISrci 15.30).
Ele estava preocupado com a sua posição.
Samuel se afasta de Saul, e este não mais o pro­
cura (ISm 15.35). Saul não quer mais ouvir a Palavra
de Deus. Ele prefere o caminho da fuga ao caminho
do confronto.
A quarta manobra errada foi construir um monumen­
to para si mesmo (ISm 15.12). Saul fez exatamente o
contrário de Davi. O grande sonho de Davi era cons­
truir um templo para Deus. O grande sonho de Saul
era construir um monumento ao seu próprio nome.
Quais são os monumentos que você está construin­
do? São à sua própria pessoa? São para atender aos
seus próprios desejos? Você está buscando a glória de
Deus ou a glória do seu próprio nome?
A quinta manobra errada foi o ciúme doentio (ISm
18.6-9). Uma música de sucesso em Israel inferni­
zou a vida de Saul (ISm 18.7). As meninas cantavam
nas ruas. Os soldados assobiavam em suas fileiras.
As mulheres entoavam em suas casas. Isso indignou
Saul (ISm 18.8,9). Que resultados isso provocou em
Saul? Primeiro, ódio (ISm 18.8,9). O ódio é um fogo
destruidor. É uma porta aberta à ação do diabo (Ef
4.26,27). Segundo, um espírito maligno se apossou
dele (ISm 18.10; 19.8,9). A vida de Saul passou a ser
controlada por um espírito maligno. Seu coração se
tornou um poço de ódio. Terceiro, em vez de se arre­
pender, ele endureceu. Saul queria destruir Davi, não
por causa dos erros de Davi, mas por suas virtudes.
Ele queria matar Davi não porque este era mau, mas
Saul, manobras erradas na estrada da vida
161
porque era bom. Ele preferia matar Davi a imitá-lo.
Saul atirou a lança no ungido de Deus para matá-lo
(ISm 18.11; 19.10). Saul tentou matá-lo com astúcia
pelas mãos dos filisteus, usando o casamento das fi­
lhas (ISm 18.17,21,25). Saul perseguiu Davi de forma
aberta e incansável (ISm 19.1,5,11,15; 20.3). Saul,
como louco, matou 85 sacerdotes e a cidade inteira
de Nobe (ISm 22.18,19). Porém, mesmo diante de
tantas atrocidades, o ciúme de Saul não passou. Ele
buscou matar Davi todos os dias (ISm 23.14). Saul
não se arrependeu de seus pecados (ISm 26.21; 27.4).
A sexta manobra errada foi consultar uma feiticeira
(ISm 28.7). Saul não buscou a Deus através do profe­
ta Samuel em vida, agora quer buscar Samuel morto
pela feitiçaria (ISm 28.11). Saul torna-se um homem
incoerente. Ele busca o que ele mesmo combateu,
pois havia desterrado os necromantes. Saul não se ar­
rependeu, por isso, em vez de buscar a Deus, busca o
próprio diabo. Saul torna-se tolo, desorientado, cré­
dulo, massa de manobra nas mãos do inimigo.
A sétima manobra errada foi o suicídio (ISm 31.4,5).
Saul caiu nos próprios laços do seu pecado. A Bíblia
diz em Provérbios 29.1: O homem que muitas vezes re­
preendido endurece a cerviz será quebrantado de repente
sem que haja cura. A Bíblia diz que Deus matou Saul
porque ele consultou uma necromante. Mas Saul ti­
rou a sua própria vida, visto que se atirou sobre sua
espada. Seu fim foi trágico porque ele jamais se dis­
pôs a arrepender-se. Em vez de voltar-se para Deus,
Com Jesus na escola da vida
162
sempre fez manobras para afastar-se cada vez mais
de Deus.
O que distinguiu Saul de seu sucessor Davi não foi
o pecado. Ambos pecaram contra Deus. A diferença
é que Davi, quando foi confrontado, arrependeu-se;
Saul tornou-se mais endurecido. Saul pensava na sua
própria glória; Davi buscava a glória de Deus.
Saul, manobras erradas na estrada da vida
CAPÍTULO 17
como superar as dores do passado
O passado pode nos influenciar mais do que gosta­
ríamos. Há dores do passado que, muitas vezes, não
conseguimos superar. Há feridas na alma que demo­
ram a sarar, há traumas que se recusam a ir embora
e se levantam como fantasmas para nos atormentar.
No livro de lCrônicas 4.9,10, lemos a história de
Jabez, um homem que superou as dores do seu passado.
Ele foi mais nobre do que seus irmãos porque não se
conformou com a decretação da derrota em sua vida.
Sua mãe lhe deu esse nome porque com dores o deu
à luz. Muito embora Jabez estivesse carimbado por
um passado de dor, reagiu a essa situação e superou
165
esses traumas. A solução não veio da psicologia de
autoajuda, mas da ajuda do alto. Ele invocou o Deus
de Israel, e dos céus brotou a sua cura.
Jabez fez quatro coisas para superar as dores do
seu passado:
Em primeiro lugar, ele clamou pela bênção de Deus.
Seu pedido foi: Oh! Tomara que me abençoes... Em vez
de olhar pelas lentes do retrovisor, ferido pelas lem­
branças amargas do seu passado, Jabez olhou para o
alto e rogou a bênção de Deus. Em vez de viver pre­
so no cipoal da amargura, curtindo os traumas da
sua infância, ele buscou a Deus e rogou sua bênção.
Jabez reagiu. Ele não se conformou com o caos. Ele
sacudiu o jugo do passado. Ele entendeu que sua vida
não precisaria ser uma jornada de dor, mas uma ca­
minhada sob a bênção de Deus. De modo semelhante
podemos, também, buscar a bênção de Deus em vez
de vivermos prisioneiros de um passado de dor. Deus
é o galardoador daqueles que o buscam. Aqueles que
pedem recebem. Aqueles que se chegam a ele com o
coração quebrantado não sairão de mãos vazias. Deus
é a fonte de todo bem. Dele procede toda boa dádiva.
Na lida pastoral tenho encontrado muitas pessoas
que não conseguem se libertar das peias do passado.
Passam a vida chorando e lamentando porque
foram feridas em algum momento da caminhada.
Tornam-se prisioneiras de suas mágoas. Deixam de
viver o presente por causa das amarras do passado.
Levantam monumentos à sua dor. São como
Noemi, mulher de Elimeleque: trocam de nome para
Com Jesus na escola da vida
relembrar seus infortúnios. Não podemos morar no
passado. Não podemos morar na saudade. Devemos
levantar os olhos e buscar um tempo novo da parte
de Deus, superando nossas crises, triunfando sobre
as angústias que assolam o nosso peito. Jabez é,
para nós, um exemplo. Sua vida é uma inspiração.
Seu testemunho é um estímulo para não ficarmos
presos pelas grossas correntes da dor do ontem, mas
alçarmos voos rumo às novas conquistas do hoje.
Talvez você precise ter essa mesma postura agora
mesmo. Talvez haja feridas ainda abertas em seu co­
ração. Talvez haja ainda reminiscências amargas em
sua alma que precisam ser curadas. Talvez haja turbu­
lências em sua vida que precisam ser serenadas pela
graça de Deus. Não viva mais prisioneiro de seus sen­
timentos. Esprema todo o pus da ferida. Deixe que o
bálsamo de Gileade cure suas emoções. Experimente
um tempo novo da parte de Deus. Rogue aos céus que
o abençoe. Volte-se para Deus, pois nele há copiosa
redenção. Prostre-se aos seus pés, pois aí há uma fon­
te abundante de consolo. É tempo de recomeçar!
Em segundo lugar, ele clamou pela prosperidade de
Deus. Jabez prosseguiu:... e me alargues as fronteiras.
Jabez não se encolheu diante de um passado de dor,
mas olhou para a frente e avançou com mais ousadia.
Ele não quis ser influenciado pelos acontecimentos
dolorosos do ontem, mas ser um influenciador no
futuro. Jabez quer mais espaço, mais influência,
mais oportunidade para ser uma bênção nas mãos de
Deus. Jabez é um homem com a visão do farol alto.
Jabez, como superar as dores do passado
Em vez de ficar lamentando seus pesares nos vales da
vida, ele sobe nos ombros dos gigantes para divisar
horizontes ainda mais largos. Não podemos limitar
os recursos ilimitados de Deus aos nossos horizontes
limitados. Deus pode nos levar além. Ele pode nos
conduzir a uma vida mais altaneira. Podemos ser
cheios do Espírito. Podemos tomar posse da vida
eterna. Podemos experimentar a paz que excede todo
o entendimento. Podemos usufruir a alegria indizível
e cheia de glória. Podemos conhecer a suprema
grandeza do seu poder que opera em nós. Podemos
ser tomados de toda a plenitude de Deus. Podemos
transbordar da Palavra. Podemos ser mais usados nas
mãos do Altíssimo.
Em terceiro lugar, ele clamou pela presença de
Deus. Jabez continuou: ... que seja comigo a tua mão.
Jabez não quer apenas as bênçãos de Deus, ele quer,
sobretudo, o Deus das bênçãos. O doador é mais im­
portante do que suas dádivas. O abençoador é mais
importante do que suas bênçãos. Mais do que coisas,
Jabez ansiava por Deus. Mais do que a ajuda dos ho­
mens, ele queria a mão de Deus conduzindo sua vida.
Para superar as dores do passado, nós precisamos da
presença de Deus e da fortaleza do seu braço para nos
sustentar. Hoje vivemos uma espiritualidade focada
no homem, antropocêntrica. As pessoas correm atrás
das bênçãos de Deus, mas não querem Deus. Buscam
a Deus não por quem ele é, mas pelo que ele pode
dar. Jabez ansiava pela presença de Deus. Ele supli­
cava pela direção de Deus. Ele sabia que somente a
Com Jesus na escola da vida
168
presença de Deus poderia reverter o quadro sombrio
da sua vida.
Em quarto lugar, ele clamou pela proteção de Deus.
Jabez concluiu, dizendo: ... e me preserves do mal, de
modo que não me sobrevenha aflição! Jabez entende que
a vida é cheia de perigos. Vida cristã não é uma estufa
espiritual. Não somos blindados nem estamos numa
redoma de vidro. Estamos cercados de perigos. Há
inimigos de fora e temores de dentro tentando nos
manter prisioneiros no calabouço do medo. A vida
não se processa num parque de diversões, mas num
campo de batalha. Jabez anseia pela proteção divina.
Ele deseja proteção tanto do Maligno como da aflição
provocada por ele. A breve mas intensa biografia de
Jabez termina dizendo: E Deus lhe concedeu o que lhe
tinha pedido. Como Jabez, você também pode superar
as dores do seu passado.
Jabez, como superar as dores do passado
CAPÍTULO 18
a graça restauradora
de Deus em ação
A graça de Deus sempre realizou grandes milagres.
Transformou o cruel Saulo de Tarso no maior pregador
do evangelho. Mais tarde, ele testemunhou: “Sou o que
sou pela graça de Deus” (ICo 15.10 ). A graça de Deus
arrancou Manassés da depravação mais repugnante:
ele era um rei criminoso, cruel, feiticeiro, implacável e
demoníaco, e Deus o transformou.
Quero falar sobre um outro milagre da graça de
Deus: Mefibosete - vergonha destruidora.
N asceu como príncipe rico, viveu
como um pobre fugitivo
Mefibosete era neto do rei Saul. Era filho de
Jônatas. Era membro da família real. Nasceu em
berço de ouro, cercado de riqueza, pompa e glória. Seu
avô e seu pai morreram numa batalha. Davi assumiu
o trono. Era costume dos povos orientais o novo rei
matar todos os membros da dinastia anterior. Foi
por isso que os membros da família de Saul fugiram
quando souberam que Davi era o novo rei. Mefibosete
tinha apenas 5 anos quando começou a sua vida de
fuga, medo, dor e humilhação (2Sm 4.4). Na pressa
da fuga, ele caiu e ficou coxo o resto da sua vida. Ele
era aleijado de ambos os pés. Seu nome significa
'Vergonha destruidora”. Esse menino viveu escondido
cerca de quinze a vinte anos, curtindo sua dor, sua
vergonha, seus conflitos. Mefibosete é um retrato do
homem ferido, em fuga, caído em seu pecado.
A INTERVENÇÃO DA GRAÇA EM SUA VIDA (2Sm 9.1 ~4)
Destacamos, aqui, três coisas:
Em primeiro lugar, uma pergunta (2Sm 9.1).
Os anos se passaram. Mefibosete agora é adulto.
Davi sobe ao trono. Deus abençoa seu reinado.
Ele prospera, expande seu reino. Tem um exército
poderoso. Davi anda com Deus. Ele se lembra de
Jônatas e então recorda a aliança feita com ele,
Com Jesus na escola da vida
172
de ser bondoso com a sua descendência. 2Samuel
9.1 diz: Disse Davi: Resta ainda, porventura, alguém
da casa de Saul, para que use eu de bondade para
com ele, por amor de Jônatas? É uma pergunta de
graça! Ele usa a palavra hebraica chesed (graça). Ele
não pergunta: Há alguém merecedor? Há alguém
qualificado? Há alguém sábio que eu possa usar nos
assuntos do governo? Há alguém forte que eu possa
usar no exército? Não, ele simplesmente indaga: Há
alguém...? É um desejo incondicional de ser gracioso.
Ziba responde com preconceito (2Sm 9.2,3). Claro
que sim, rei Davi, mas é um aleijado, é um coxo, é al­
guém indigno, imprestável. Ele não tem nenhuma im­
portância nem aparência real.
A resposta cheia de bondade de Davi: E onde está?
Em Lo-Debar, ou seja, lugar árido, seco, deserto.
Em segundo lugar, a busca (2Sm 9.5-7). Mefibosete
estava com medo quando foi encontrado. Pensou que
iria morrer. Mas Davi não ministra medo ou morte,
mas graça. Davi não queria humilhá-lo, mas exaltá-lo.
Jesus, aquele que se manifestou cheio de graça e de
verdade, veio para salvar você. Veio para colocá-lo de
pé. Ele não esmaga a cana quebrada. A frase que ele
mais repetiu foi: Não temas. Jesus veio não para es­
magar, julgar, condenar, humilhar. Ele veio de braços
abertos para salvar, perdoar, curar, libertar.
Em terceiro lugar, a bênção recebida (2Sm 9.8-13).
Mefibosete reconhece que nada merece; ele se com­
para a um cão morto (2Sm 9.8). Ele recebe as terras,
Mefibosete, a graça restauradora de Deus em ação
173
a herança de seu pai (2Sm 9.9). Recebe provisão com
fartura (2Sm 9.10). Recebe a bênção de sentar-se sem­
pre à mesa do rei com o rei (2Sm 9.7,10,11,13). Ele é
tratado como um filho (2Sm 9.11). Imagine os filhos
de Davi assentados ao redor da mesa: Amnon, Tamar,
Salomão, Absalão e o comandante Joabe. Ouvem-se
as batidas surdas das muletas...
A RESTAURAÇÃO DA GRAÇA
Destacamos, aqui, alguns pontos importantes:
Em primeiro lugar, Mefibosete nasceu para ser
príncipe. Em certa ocasião, Mefibosete gozou da
companhia do pai, como o pródigo antes de sair de
casa. Mas sua história depois foi marcada pelo medo,
pela doença, pela miséria.
Em segundo lugar, Mefibosete era aleijado dos dois
pés. O homem sem Cristo também está coxo, não
pode andar direito. Ele cai, tropeça, não consegue
andar em veredas retas. O homem sem Cristo não fica
de pé, não caminha na direção de Deus.
Em terceiro lugar, Mefibosete caiu. Ao ocorrer a
tragédia, veio também o medo, e Mefibosete levou um
tombo que afetou toda a sua vida. O mesmo aconteceu
com você por causa do pecado. Você caiu em Adão.
Você é um ser caído. Sua inclinação é para o mal. A
carne é inimiga de Deus. Você é permanentemente
aleijado na terra.
Com Jesus na escola da vida
174
Em quarto lugar, Mefibosete morava em Lo-Debar.
Mefibosete morava num lugar árido, seco, deser­
to, sem vida, morto. Você também, longe da graça
de Deus, vive num mundo morto. Sua vida é árida,
seca. Não há alegria. Não há paz. Existe só medo, só
escravidão.
Em quinto lugar, Mefibosete foi amado incondicio­
nalmente. Assim como Mefibosete foi alvo do amor
e da bondade de Davi por causa do amor a Jônatas,
Deus também nos aceita incondicionalmente e nos
salva por causa da obra de Cristo em nosso favor.
Assim como Davi estendeu sua bondade a alguém sem
méritos, Deus nos dá sua graça sem merecimentos.
Em sexto lugar, Mefibosete nada tinha, nada fez e
nada merecia. Ele nem sequer tentou ganhar o favor
do rei. Só pôde aceitá-lo humildemente. Efésios 2.8,9
diz que somos salvos pela graça. Nós, também, peca­
dores sem esperança e totalmente sem merecimento,
indignos da graça, humildemente aceitamos o favor
do Rei.
Em sétimo lugar, Davi removeu Mefibosete de sua
miserável existência. Lo-Debar era um lugar de aridez
e desolação. Davi o tirou de lá para um lugar de co­
munhão e honra. Deus fez o mesmo por nós. Ele nos
resgatou do nosso Lo-Debar pessoal de escravidão e
miséria. Ele nos tirou do tremedal de lama. Ele nos
tirou de uma vida árida e nos levou para sua casa,
onde temos comunhão com ele e nos assentamos à
sua mesa com os seus filhos.
Mefibosete, a graça restauradora de Deus em ação
175
Em oitavo lugar, Davi adotou Mefibosete na família
real Restituiu suas terras (2Sm 9.7), deu-lhe provi­
são ininterrupta (2Sm 9.9), deu-lhe dignidade (2Sm
9.11). Nós, também, fomos adotados na família de
Deus. Somos filhos, herdeiros. Temos intimidade, li­
berdade. Temos o nome do Pai, a natureza do Pai, a
herança do Pai. Agora, assentamo-nos à mesa do Pai
em comunhão com os seus outros filhos.
Em nono lugar, o coxear de Mefibosete era uma lem­
brança constante da graça do rei. Somos pó, somos cinza,
somos indignos, somos pecadores. Nada merecemos.
Nossa condição imperfeita nos impede de esquecer
que onde abunda o pecado, a graça superabunda.
Q uem vive no reino da graça
ENFRENTA OPOSIÇÃO DO INIMIGO
Destacamos quatro verdades:
Em primeiro lugar, quem sai do império da morte
sempre atrai um inimigo forte (2Sm 16.1-4). Ziba trai
Mefibosete e o acusa de rebelião contra Davi. Nosso
adversário nos acusa de dia e de noite. Quando você é
restaurado por Deus, isso provoca a fúria do inimigo.
Em segundo lugar, se eu assumo uma vida santa, cai
por terra a trama do inimigo (2Sm 19.24-27). Nenhum
dardo do Maligno poderá atingi-lo se você está na
presença de Deus.
Com Jesus na escola da vida
176
Em terceiro lugar, Mefibosete mostra que o seu maior
prazer não está na riqueza nem na cura física, mas em
estar na presença do rei, na casa do rei (2Sm 19.29,30).
Quando encontramos a vida eterna, a graça, a alegria
da intimidade com Deus, não procuramos mais a Deus
para ter riquezas ou saúde. O que mais ansiamos é
a comunhão com ele. Não são as bênçãos de Deus,
mas o Deus das bênçãos. Na intimidade com Deus,
o próprio Deus se torna a nossa maior necessidade,
nosso maior desejo, maior aspiração.
Em quarto lugar, no final da jornada Mefibosete foi
poupado da morte e do juízo por causa da fidelidade do rei
ao pacto (2Sm 21.7). Quando você entrega sua vida a
Jesus, você é liberto da morte, do juízo, da condenação.
Mefibosete, a graça restauradora de Deus em ação
CAPÍTULO 19
um jovem fiel
Timóteo era filho de Berenice e neto de Loide.
Procedia da cidade de Listra (At 16.1). Era um
jovem que desfrutava de bom testemunho em sua
cidade, bem como em Icônio (At 16.2). Ele era filho
espiritual de Paulo e companheiro do apóstolo (At
16.3). Para este jovem pastor, Paulo escreveu duas
cartas, inclusive sua última carta. No interregno da
primeira para a segunda prisão de Paulo em Roma,
o apóstolo o deixa em Efeso, capital da Ásia Menor,
onde foi pastor.
Em Filipenses 2.19-23 destacam-se seis verdades
importantes acerca desse jovem ministro:
179
T imóteo, o enviado de P aulo
Quem era esse mensageiro de Paulo chamado
Timóteo? Sua mãe e sua avó eram crentes (2Tm 1.5),
e seu pai, grego (At 16.1). Ele conhecia a Palavra de
Deus desde a infância (2Tm 3.15). Foi convertido na
primeira viagem missionária de Paulo e cresceu espiri­
tualmente, pois passou a ter bom testemunho em sua
cidade antes de unir-se ao apóstolo em sua segunda
viagem missionária (At 16.1,2). Timóteo era filho na fé
de Paulo (lTm 1.2), seu cooperador (Rm 16.21) e seu
mensageiro às igrejas (lTs 3.6; ICo 4.17; 16.10,11; Fp
2.19). Ele esteve preso com Paulo em Roma (Fp 1.1; Hb
13.23). Ele era jovem (lTm 4.12), tímido (2Tm 1.7,8)
e doente (lTm 5.23). Tinha um caráter provado (Fp
2.22) e cuidava dos interesses de Cristo (Fp 2.21) e dos
interesses da igreja de Cristo (Fp 2.20).
É ainda digno de nota que Timóteo esteve pre­
sente quando a igreja de Filipos foi estabelecida (At
16.11-40; lTs 2.2); subsequentemente ele também os
visitou, mais de uma vez (At 19.21,22; 20.3-6, ICo
1.1). Portanto, ele era a pessoa indicada para ser en­
viada novamente à igreja de Filipos.
Longe de proceder de forma egoística, procurando
manter perto de si o maior contingente possível de ami­
gos, Paulo enviou Tíquico a Éfeso, Crescente à Galácia e
Tito à Dalmácia (2Tm 4.10-12). Wemer de Boor diz que
Com Jesus na escola da vida
6 DE BOOR, Werner. Carta aos Efésios, Filipenses e Colossenses, p. 226
180
é maravilhoso saber que Paulo pretende, agora, enviar
a Filipos Timóteo, o melhor colaborador de que dispõe.
T imóteo, um homem singular
Havia muitos cooperadores de Paulo, mas Timóteo
ocupava um lugar especial no coração do velho após­
tolo. Ele era um homem singular pela sua obediência e
submissão a Cristo; para o apóstolo, era como um filho.
A palavra grega que Paulo usa para igual sentimento só
aparece aqui em todo o Novo Testamento. É a palavra
isopsychos, que significa “da mesma alma”. Esse termo
foi usado no Antigo Testamento como “meu igual” e
“meu íntimo amigo”(LXX Sl 55.13). F. F. Bruce, citando
Erasmo, diz que ele parafraseia essa passagem assim:
“Eu o enviarei como o meu alter ego”\
T imóteo, um homem que cuida
dos interesses dos outros
Timóteo aprendeu o princípio ensinado por Paulo
de buscar os interesses dos outros (Fp 2.4), princípio
esse exemplificado por Cristo (Fp 2.5) e pelo próprio
apóstolo (Fp 2.17).
Timóteo, de igual modo, vive de forma altruísta, pois o
centro da sua atenção não está em si mesmo, mas na igreja
de Deus. Ele não busca riqueza nem promoção pessoal.
7BRUCE, F. F. Filipenses, 1992. p. 101.
Timóteo, um jovem fie!
181
Ele não está no ministério em busca de vantagens; ele tem
um alvo: cuidar dos interesses da igreja.
É uma pena que os cristãos de Roma estivessem
tão envolvidos com os próprios problemas e desavenças
(Fp 1.15,16) a ponto de não terem tempo para a obra
importante do Senhor. Warren Wiersbe diz que essa é
uma das grandes tragédias causadas pelos problemas
internos das igrejas; eles consomem tempo, energia
e preocupação que deveriam estar sendo dedicados a
coisas mais essenciais.8
Jacó, depois de convertido, passou a ter uma grande
sensibilidade para lidar com os outros (Gn 33.13,14).
Timóteo era assim também. Você se preocupa com o
povo de Deus? Você trata as pessoas de forma gen­
til? Você conduz sua família, seus filhos, sua classe de
Escola Dominical, seus irmãos em Cristo de forma gen­
til? Concordo com Robertson quando afirma: “O me­
lhor caminho para ser feliz é fazer os outros felizes”9.
T imóteo, um homem que cuida
dos interesses de C risto
Só existem dois estilos de vida: o daqueles que
vivem para si mesmos (Fp 2.21) e o daqueles que vi­
vem para Cristo (Fp 1.21). Estamos em Filipenses
8 WIERSBE, Waren W. Comentário bíblico expositivo. Rio de Janeiro: Central
Gospel, v 6,2006.p.106.
9ROBERTSON, A.T. Paul's joy in Christ: Studies in Phillipians. New York:
Fleming H. Revell Company. 1917.p. 170.
Com Jesus na escola da vida
182
1.21 ou, então, estaremos em Filipenses 2.21.
Timóteo queria cuidar dos interesses de Cristo, e
não dos seus próprios. Sua vida estava centrada em
Cristo (Fp 1.21) e nos irmãos (Fp 2.20b), e não no
seu próprio eu (Fp 2.21).
Corretamente Werner de Boor afirma: “Quem
busca o que é seu, sua própria fama, seu próprio con­
forto, esquiva-se do esforço e da dor de ir a fundo nas
questões em uma igreja e solucionar as mazelas com
mão paciente, afetuosa, e por isso também firme”10.
James Montgomery Boyce diz que é fácil
colocarmos outras coisas em primeiro lugar em
nossa vida11. Você pode colocar sua própria reputação
primeiro. Pode colocar seus prazeres em primeiro
lugar. Pode colocar em primeiro lugar seus planos, sua
família, seu sucesso ou qualquer outra coisa. Mas, se
você fizer isso, todas essas coisas ficarão distorcidas, e
você perderá a maior de todas as bênçãos da sua vida.
Porque Timóteo colocou Cristo em primeiro lugar, as
outras coisas se estabeleceram naturalmente.
Havia muitos que colocavam seus interesses aci­
ma e antes dos interesses alheios, ou estavam muito
preocupados buscando mais o que é seu próprio, não
o que é de Cristo Jesus (Fp 2.21). Embora alguns em
Roma estivessem pregando o evangelho por amor (Fp
1.16), de todos quantos estavam disponíveis perante
Paulo, nenhum era tão destituído de egoísmo como
10DE BOOR, Werner. Carta aos Efésios, Filipenses e Colossenses. 2006.p. 226.
1! BOYCE, James Montgomery. Philippians:An ExpositionalCommentary.
Grand Rapids: Zondervan, 1971. p.185.
Timóteo, um jovem fiel
183
Timóteo. Para Timóteo, como para Paulo, a causa de
Cristo Jesus envolvia o bem-estar de seu povo.
T imóteo, um homem de caráter provado
Timóteo tinha bom testemunho antes de ser
missionário (At 16.1,2); agora, quando Paulo está para
lhe passar o bastão como continuador da sua obra, dá
testemunho de que ele continua tendo um caráter
provado (Fp 2.22). É lamentável que muitos líderes
religiosos que são grandes em fama e riqueza sejam
anões em caráter. Vivemos uma crise avassaladora de
integridade no meio evangélico brasileiro. Precisamos
urgentemente de homens íntegros, provados, que
sejam modelo do rebanho.
T imóteo, um homem disposto a servir
É digno de nota que Timóteo serviu ao evangelho.
Ele serviu com Paulo, e não a Paulo. Embora a relação
entre Paulo e Timóteo fosse de pai e filho, ambos esta­
vam engajados no mesmo projeto. Hoje, muitos líderes
se colocam acima de seus colaboradores. A relação não é
de parceria no trabalho, mas de subserviência pessoal.
Com Jesus na escola da vida
184
J oão B atista, um homem com uma missão
Vamos levantar aqui algumas perguntas acerca
desse homem com uma missão.
Em primeiro lugar, por que Deus usou João
Batista? Respondemos: Porque ele não era um caniço
balançado pelo vento (Mt 11.7-11). Hoje estamos
vendo líderes vendendo seu ministério, negociando
valores absolutos, mercadejando o evangelho. João
não transigia com a verdade. Ele denunciava o pecado
na vida do rei, dos religiosos, dos soldados e do povo.
Ele não era um profeta da conveniência. Seus inimigos
diziam: Tem demônio; Jesus dizia: É profeta!
Porque ele era uma lâmpada que ardia e alumia­
va (Jo 1.6-9). Ele não era a luz, mas uma lâmpada
que ardia e alumiava. Ele apontou para Jesus: Eis o
Cordeiro de Deus (Jo 1.29). Ele não buscou glórias para
si mesmo. Disse: Convém que ele cresça e eu diminua (Jo
3.30). Ele era como uma vela: iluminou com a mesma
intensidade enquanto viveu.
Porque ele não era um eco, mas uma voz (Jo
1.22,23). João não apenas proferia a verdade, ele era
a boca de Deus. Ele falava com poder. Hoje, há muitas
palavras, mas pouco poder; as pessoas escutam belos
discursos, mas não veem vida. João pregava o que co­
nhecia e o que experimentava. Ele não era da elite sa­
cerdotal. Não estava no templo. Mas havia poder em
sua vida. Não basta ser um eco, é preciso ser uma voz.
Não basta carregar o bastão profético como Geazi,
Com Jesus na escola da vida
186
é preciso ter poder como Eliseu. Não basta falar aos
homens, é preciso conhecer a intimidade de Deus. Vi
uma frase lapidar no púlpito de uma igreja: “Se Deus
não falou com você, não fale a nós”.
Porque ele era um homem humilde (Mt 3.11).
João Batista disse: não sou digno de desatar-lhe as
correias das sandálias (Jo 1.27). Disse ainda: Convém
que ele cresça e que eu diminua (Jo 3.30). Lata vazia é
que faz barulho. Espiga chocha é que fica empinada.
Pássaros que têm o papo muito grande não fazem
voos altaneiros. Aqueles que estão com o papo cheio
de soberba não podem ser usados por Deus, pois Deus
resiste aos soberbos.
Porque ele era um homem corajoso (Lc 3.19). João
Batista não aplaudiu Herodes quando este se casou
com Herodias, mulher do seu irmão. Corajosamente
denunciou o pecado do rei. Ele preferiu ser preso e
degolado a transigir com a verdade. Preferiu a morte
à infidelidade. Hoje, há pastores que bajulam os
políticos corruptos e adúlteros. Tecem-lhes os mais
rasgados encómios e elogios, mesmo sabendo que
esses líderes têm uma vida fermentada pela corrupção.
São pregadores governados pela conveniência, que
vendem o ministério e a própria alma por dinheiro.
Em vez de denunciar o mal, tornam-se coniventes
com ele e até mesmo o praticam em secreto.
Porque ele era um homem cheio do Espírito
Santo (Lc 1.15). João Batista era um homem cheio
do Espírito Santo desde o ventre materno. Aos seis
meses, estremeceu de alegria no ventre da sua mãe.
João Batista, um homem a quem Deus usa
187
Aos seis meses, já vibrava por Cristo. Há muitos que
envelhecem frios e indiferentes ao Salvador. Não
basta ser habitado pelo Espírito, é preciso ser cheio do
Espírito. Não basta ter o Espírito residente, é preciso
ter o Espírito presidente.
Em segundo lugar, como Deus usou João Batista?
Voltemos novamente nossos olhos para a Palavra
para encontrarmos a resposta:
Deus usou este homem para aterrar os vales (Lc
3.5). Vale é uma depressão, um buraco. Há abismos
na vida do povo: impureza, desânimo, comodismo,
mundanismo. Um vale separa dois montes: falta de
comunhão, mágoa, contendas, maledicência. João
Batista preparou o caminho do Senhor. Ele era um
engenheiro espiritual que construiu estradas para o
Mestre alcançar os corações. Pregou sobre a urgência
do arrependimento. Colocou o dedo na ferida e não se
intimidou diante dos poderosos.
Deus usou este homem para nivelar os montes (Lc
3.5). Montes falam de soberba: o orgulho e a soberba
são montanhas que impedem a passagem do Senhor.
Onde há soberba Deus não se manifesta, pois Deus re­
siste ao soberbo, declara guerra aos altivos de coração.
Por causa de sua megalomania, Nabucodonosor foi
comer capim com os animais do campo. Por causa de
sua vaidade, Herodes foi comido por vermes. Montes
falam também de incredulidade. A incredulidade nos
afasta de Deus e de suas bênçãos. João Batista procla­
ma a necessidade de nivelar os montes, de passar o
trator de Deus e colocar esses outeiros abaixo.
Com Jesus na escola da vida
188
Deus usou este homem para endireitar caminhos
tortos (Lc 3.5). Caminho torto fala de duplicidade,
hipocrisia e desonestidade. Muitas pessoas são
impedimento para a manifestação de Cristo porque
têm vida dupla. São uma coisa na igreja e outra em
casa. Vivem com máscaras. Professam uma coisa e
vivem outra. Há um divórcio entre sua teologia e sua
ética, entre sua profissão de fé e sua conduta, entre
sua crença e seu comportamento. É conhecida a frase
de Stanley Jones (missionário inglês do século XIX,
que serviu a Deus na índia) que diz, com razão, que o
subcristianismo é pior do que o anticristianismo. Um
cristão incoerente é pior do que um ateu. O ateísmo
prático é mais nocivo do que o ateísmo teórico. Aqueles
que professam o nome de Deus mas vivem como se
Deus não existisse causam mais danos para o reino de
Deus do que aqueles que o hostilizam abertamente.
Se quisermos ver a manifestação da glória de Deus,
precisaremos endireitar os caminhos tortos. Deus é
luz, e aqueles que vivem nas trevas não podem ter
comunhão com ele.
Deus usou este homem para aplainar os caminhos
escabrosos (Lc 3.5). Caminho escabroso fala de algo
que está fora do lugar. Há algo fora do lugar em sua
vida? Como está sua vida devocional? Como anda o seu
namoro? Que avaliação você faz do seu casamento?
Como você lida com dinheiro? Qual é o grau de sua
fidelidade a Deus em relação aos dízimos e ofertas?
João Bátista usou seu ministério para colocar no
lugar esses terrenos escabrosos.
João Batista, um homem a quem Deus usa
189
J oão B atista, um homem com uma mensagem
Que mensagem João Batista pregou?
Em primeiro lugar, a Palavra que ele prega é a Palavra
de Deus, e não palavras de homens (Lc 3.2). Depois de
400 anos de silêncio profético, João aparece pregando
sobre arrependimento. A nação havia se desviado de
Deus. A religião estava corrompida. Os palácios esta­
vam rendidos à violência e à promiscuidade. Os que
trabalhavam na secretaria da fazenda estavam domi­
nados pela ganância insaciável e mancomunados com
a corrupção. Os soldados estavam aderindo a uma
rede de extorsão, oprimindo o povo para engordar o
orçamento. Foi nesse contexto e para esse público que
João Batista ergueu sua voz e conclamou todos ao ar­
rependimento. A mensagem do arrependimento não
é popular. Não é palatável. Mas João não quer agra­
dar a homens, mas a Deus. Nossa nação está vivendo
um tempo de crise sem precedentes. Estamos de luto.
Nossas instituições estão doentes. A corrupção está
no DNA da nação. O contexto em que João Batista
viveu e pregou lança luz para interpretarmos nosso
tempo. Qual era o pano de fundo que marcou a vida e
o ministério de João Batista?
Era uma época de crise moral na nação. Os líderes
religiosos estavam corrompidos: Anás e Caifás eram
sumo sacerdotes, mas não conheciam a Deus. A po­
lícia extorquia o povo para engordar o salário e fazia
denúncias falsas. Herodes era um homem devasso
Com Jesus na escola da vida
190
e adúltero. Semelhantemente, nosso país atravessa
uma aguda crise moral: lares estão sendo destruídos;
o tráfico de drogas cresce espantosamente, com a
omissão de uns e a conivência de outros; nossa classe
política nos deixa rubros de vergonha. Nosso parla­
mento está cada vez mais sem crédito, chafurdando-
se num lodaçal pestilento de corrupção. A corrupção é
um câncer que atingiu o cérebro e o coração da nação.
Era uma época de crise social na nação. O povo
trabalhava, mas Roma ficava com o lucro. Reinavam
a pobreza, a fome e o desespero. O Brasil é a sétima
economia do mundo, mas somos, segundo alguns
economistas, o segundo país do mundo com a pior
distribuição de renda. Vivemos a crise da pobreza, da
fome, da violência, da impunidade. Temos um país
rico e uma grande massa de gente pobre. Políticas as-
sistencialistas mantêm o povo na miséria, oferecen­
do-lhe uma pequena ração diária para roubar-lhe os
sonhos do progresso.
Era uma época de crise política na nação. A na­
ção estava nas mãos de homens maus. Pôncio Pilatos
e Herodes, aqueles que detinham o poder, eram um
espelho da nação. Esses homens não eram governa­
dos pelos preceitos da justiça, mas pela conveniência.
Sacrificavam a verdade e a justiça para se manter no
poder. Condenavam o inocente para tirar vantagens
políticas. Hoje, dois mil anos depois, nossa represen­
tação política agoniza num dos níveis mais baixos de
credibilidade. A desmoralização da classe política é
João Batista, um homem a quem Deus usa
191
notória, o aviltamento da honra por parte daqueles
que ocupam as posições de maior honra é vergonhoso.
Era uma época de crise espiritual na nação. O
povo era religioso, mas não convertido. Eles não
produziam frutos dignos de arrependimento. O
povo estava descansando numa falsa segurança (Lc
3.8). O povo estava indo para o juízo sem se preparar
(Lc 3.7,9). Hoje, a igreja evangélica cresce, mas a na­
ção não muda. As pessoas estão entrando num outro
evangelho, o evangelho da conveniência. Augustus
Nicudemus escreveu um livro intrigante, com um tí­
tulo intrigante, Ateísmo cristão. 0 título parece con­
traditório e paradoxal. Há indivíduos que se dizem
cristãos, mas fabricam para si um deus conforme sua
crença e conveniência. Desconstruíram a fé cristã.
Repaginaram sua religião e criaram para si um deus
pequeno, limitado, que não conhece o futuro nem
tem as rédeas da história em suas mãos. Assistimos
hoje à paganização do cristianismo. Igrejas que
introduzem em seus cultos práticas retiradas do
paganismo. Igrejas que tentam reintroduzir as ceri­
mônias judaicas, que eram apenas sombras da reali­
dade que se cumpriu em Cristo. Igrejas que andam
de mãos dadas com o sincretismo religioso, apenas
para atrair multidões e mantê-las prisioneiras de sua
cegueira espiritual.
Em segundo lugar, o cenário em que ele prega e quem
ele é demonstram que Deus pode trazer restauração para
a nação a partir do próprio caos (Mt 3.5). Vejamos al­
guns pontos:
Com Jesus na escola da vida
192
O local parecia impróprio. João Batista pregava no
deserto. João não pregava no templo, nas sinagogas,
nas praças floridas de Jerusalém, mas no deserto
árido da Judeia, um lugar de montes e vales, de pedras
e areias escaldantes.
A apresentação pessoal parecia imprópria. João
Batista vestia-se não com roupas de grife, mas de peles
de camelo. Não comia nos restaurantes requintados
de Jerusalém, mas alimentava-se de gafanhotos e mel
silvestre. João Batista não operou sequer um milagre,
mas sua vida, seu testemunho e sua mensagem
produziram resultados extraordinários. João Batista
não se assentou aos pés dos grandes mestres. Não se
apresentava como o excelentíssimo, senhor, doutor,
professor João. Mas ele abalou uma nação! Fez tremer
o palácio de Herodes.
Mesmo com uma apresentação pessoal tão mo­
desta, estando num lugar tão rude e pregando uma
mensagem tão contundente, a multidão foi atraída
para ouvi-lo. Multidões vinham a ele de Jerusalém, de
toda a Judeia e de toda a circunvizinhança do Jordão.
Oh, que Deus levante homens nesta nação com a fibra
de João! Que as multidões possam ser confrontadas!
Em terceiro lugar, as pessoas que ele chama ao arre­
pendimento revelam sua ousadia espiritual Qual era o
público de João Batista?
Os fariseus e saduceus (Mt 3.7-9). João Batista
denunciou os conservadores fariseus e os liberais
saduceus. A religião judaica estava tomada por um
João Batista, um homem a quem Deus usa
193
bando de homens não convertidos. Havia diferenças
políticas e teológicas entre fariseus e saduceus. Os
fariseus eram opositores de Roma, e os saduceus,
aliados. Os fariseus eram conservadores, e os saduceus,
liberais. Os saduceus criam apenas no Pentateuco,
e os fariseus, em todo o Antigo Testamento. Os
fariseus eram zelosos da lei, e os saduceus, amantes
do dinheiro. Os fariseus criam na ressurreição, os
saduceus negavam essa possibilidade. Fariseus e
saduceus compunham o Sinédrio, o supremo tribunal
dos judeus, mas João Batista não se intimida e
conclama todos ao arrependimento.
A multidão (Lc 3.10,11). Que havemos, pois,
de fazer? Respondeu-lhes: Quem tiver duas túnicas,
reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça
o mesmo. João Batista não crê em arrependimento
apenas sentimental. O arrependimento tem
implicações práticas. Atinge mente e coração e
depois desemboca em ação prática. A solidariedade
com os que têm necessidade é uma evidência do
genuíno arrependimento. Não estamos dizendo com
isso que ação social é sinônimo de arrependimento.
O exercício da misericórdia não é a causa, mas a
consequência do verdadeiro arrependimento.
Os publicanos (Lc 3.12,13). Não cobreis mais do
que o estipulado. Os publicanos eram os cobradores
de impostos. Tinham autorização para cobrar as ta­
xas e repassar parte do valor aos cofres de Roma. O
problema é que esses publicanos acabavam cobrando
mais do que o estipulado. Eles extorquiam o povo,
Com Jesus na escola da vida
194
cobrando impostos abusivos para embolsar parte do
dinheiro. João Batista mostra que o arrependimen­
to verdadeiro passa pela honestidade nas transações
comerciais. Um homem verdadeiramente convertido
deixa de lado as superfaturações.
Os soldados (Lc 3.14). A ninguém maltrateis, não
deis denúncia falsa e contentai-vos com o vosso soldo. Os
soldados foram confrontados em três áreas: A primeira
delas eram os maus-tratos. Quando um homem veste
uma farda, pode sentir-se mais forte e mais poderoso
do que de fato é. Muitos pensam que podem exorbitar
e exercer seu trabalho com truculência. Mesmo
que amparados pela lei e mesmo sob a proteção do
Estado, aqueles que usam de sua posição para oprimir
os outros ferem o coração de Deus e precisam se
arrepender. A segunda área eram as denúncias falsas.
A palavra de um soldado tem peso. Quando ele fala,
as autoridades escutam. Muitos soldados, para
alcançar benefícios financeiros, prestavam-se a esse
serviço sujo de dar denúncias falsas para incriminar
inocentes e inocentar culpados. A terceira área eram
esquemas de corrupção para melhorar o salário.
Ainda hoje essas práticas estão presentes. Muitos
soldados ainda aceitam suborno e até pedem propina
para fazer vistas grossas ao crime. Essas atitudes são
indignas de um filho de Deus. Essas pessoas precisam
se arrepender de tais pecados para alcançar o perdão
divino.
Herodes (Lc 3.19). João denunciou o pecado do
rei. Chamou-o de adúltero. Herodes era um homem
João Batista, um homem a quem Deus usa
195
truculento e também adúltero. Seu casamento com
Herodias estava em desacordo com a Palavra de Deus.
Ele estava vivendo em adultério, mesmo sob o manto
de um casamento. Herodias era mulher do irmão
de Herodes. Na verdade, a relação de Herodes com
Herodias era também um incesto. João Batista não
calou sua voz. Ele denunciou o pecado do rei, mesmo
sabendo que estava diante de uma raposa, de um
homem vil, perverso e truculento.
Precisamos entender que o arrependimento é a
grande manchete de Deus: a) Na preparação, João
Batista diz: Arrependei-vos; b) Na inauguração, Jesus
vem e conclama: Arrependei-vos; c) No Pentecostes,
Pedro prega: Arrependei-vos. O arrependimento en­
volve: generosidade no dar (Lc 3.10,11); honestidade
nos negócios (Lc 3.12,13); justiça nos relacionamen­
tos (Lc 3.14); integridade na palavra (Lc 3.14) e au­
sência de ganância (Lc 3.14).
J oão B atista, um homem com uma convicção
A Palavra de Deus é categórica: já está posto o
machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não
produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo (Lc 3.9).
Destacaremos alguns pontos:
Em primeiro lugar, a mensagem de Deus é arrepen­
der-se e viver ou não se arrepender e morrer. A Palavra
de Deus é espada de dois gumes. A mensagem do
evangelho traz salvação e condenação. O ímpio não
Com Jesus na escola da vida
196
permanecerá na congregação dos justos. Quem não
estiver trajado de vestes nupciais será lançado fora,
onde haverá choro e ranger de dentes. A figueira sem
fruto foi amaldiçoada e secou desde a raiz. A figueira
estéril será cortada. Aqueles que não se arrependem
vão despertar tarde demais, quando não haverá mais
tempo para se voltarem para Deus.
Em segundo lugar, a mensagem de Deus é um apelo
urgente a todos. O apelo de Deus alcança os religiosos,
a multidão, os soldados, os publicanos. Deus desnuda
a todos. As máscaras caem. Deus diz que o machado já
está posto na raiz, e não nos galhos. Não dá mais para
esperar. O tempo é agora. O reino já chegou. Deus
espera agora frutos dignos de arrependimento! Você
tem produzido frutos dignos de arrependimento?
Em terceiro lugar, a mensagem de Deus mostra
o juízo inevitável para quem deixa de se arrepender. O
tempo em que João Batista viveu foi marcado por
uma profunda crise espiritual. Os próprios líderes
eram homens ímpios, e não regenerados. A multidão
estava perdida. Havia crise na política, no comércio e
na polícia. João Batista diz que a ira vindoura chegaria
inevitavelmente. Os que escapam dos tribunais da
terra jamais escaparão da ira de Deusí
0 arrependimento prepara o caminho para uma
grande bênção:
Uma bênção sem limites - toda a carne verá a sal­
vação de Deus (Lc 3.6). Quando o povo se arrepende,
o mundo vê a salvação de Deus. Quando a igreja se
João Batista, um homem a quem Deus usa
197
volta para Deus, o mundo experimenta uma poderosa
visitação do Altíssimo.
Umabênçãoinequívoca-todaacarneverá. Quando
a igreja se arrepende, a salvação de Deus irrompe
além das quatro paredes. Multidões vêm a Cristo.
O avivamento que alcança o mundo com a salvação
começa com a igreja, através do arrependimento.
Uma bênção indizível - toda a carne verá a salvação
de Deus. Quando a igreja acerta sua vida com Deus,
algo tremendo e extraordinário acontece no mundo.
Se quisermos ver nossa cidade impactada, precisare­
mos acertar nossa vida com Deus. Precisaremos apli­
car os princípios de Deus em nossa própria vida.
CAPÍTULO 21
i r m ã o m a l á v e m o
do pródigo, perdido
dentro da igreja
Jesus contou três parábolas sobre a alegria do encon­
tro: A ovelha perdida que foi encontrada; o pastor
chama todos para se alegrarem. A moeda perdida que
foi encontrada; a mulher chama seus vizinhos para se
alegrarem. O filho perdido que voltou para casa; o pai
oferece uma festa e se alegra. Nessas três parábolas, a
única pessoa que não está alegre e feliz é o irmão mais
velho do pródigo.
No meio dessa festa do encontro, do resgate, da sal­
vação, há uma voz que destoa. O filho mais velho está
triste porque o pai recebeu o filho pródigo com alegria.
199
O filho mais velho está irado porque o pai é misericor­
dioso. O filho mais velho está do lado de fora, enquan­
to o filho pródigo está dentro da casa do pai.
Èxiste um grande perigo de se estar na casa do Pai,
dentro da igreja, e ainda estar perdido. Esse filho, na
parábola contada por Jesus, representa os escribas e
fariseus, que se consideravam santos e desprezavam os
outros. Esse filho representa aqueles que estão dentro
da igreja, obedecendo a leis, cumprindo deveres, sem
se enveredar pelos antros do pecado, pelos corredores
escuros do mundo e que, ainda assim, estão perdidos.
V ive dentro da igreja, mas desobedece aos
DOIS PRINCIPAIS MANDAMENTOS DA LEI DE DEUS
Jesus ensinou que os dois principais mandamen­
tos da lei são amar a Deus sobre todas as coisas e amar
o próximo como a si mesmo. Esse filho quebrou esses
dois mandamentos: ele nem amou a Deus, represen­
tado pelo pai, e nem o seu irmão. Ele não perdoou o
pai por haver recebido o filho pródigo, nem perdoou o
irmão pelos seus erros. Há pessoas que estão na igre­
ja, mas não têm amor por Deus nem pelos perdidos.
Estão na igreja, mas não amam os irmãos. Sem amor,
nossa fé é vazia. Sem amor, nossos dons são inúteis.
Sem amor, nossas obras são desprovidas de valor. O
amor é a evidência do discipulado. O amor é a apologé­
tica final. Não nos tornamos conhecidos como discípu­
los de Cristo pelo conhecimento, mas pelo amor. Não
Com Jesus na escola da vida
200
provamos nossa conversão pelo discurso rebuscado,
mas pelo amor ao próximo, pois aqueles que não amam
nunca viram a Deus e ainda permanecem nas trevas. O
amor não é apenas um sentimento, é uma atitude.
V ive dentro da i g r e j a , mas está
CONFIADO NA SUA PRÓPRIA JUSTIÇA
O irmão do filho pródigo era veloz para ver o peca­
do do seu irmão, mas não enxergava os seus próprios
pecados. Ele era cáustico para condenar o irmão, en­
quanto via a si mesmo como o padrão da obediência.
Os fariseus definiam pecado em termos de ações ex­
teriores, e não atitudes íntimas. Eles eram orgulhosos
de si mesmos. Como o profeta Jonas, esse filho mais
velho obedecia ao pai, mas não de coração. Ele traba­
lhava com intensidade, mas não por amor. Há mui­
tas pessoas que estão na igreja, mas cujo coração está
duro como uma pedra. Vivem no reduto evangélico,
mas são duras no trato. Trabalham na obra, mas são
motivadas pelo egoísmo. Obedecem aos preceitos ex­
ternos da lei, mas nada conhecem acerca do espírito
da lei. São peritas em guardar preceitos e mais precei­
tos, mas não passam no teste dos relacionamentos.
Preferem esmagar os fracos a dar-lhes uma chance de
restauração. Preferem esmagar a cana quebrada a tra­
tar os feridos com sensibilidade. Preferem apagar a
torcida que fumega a alimentar as chamas do amor
e investir na vida das pessoas. Vivem na casa do Pai,
mas não conhecem o coração do Pai.
0 irmão mais velho do pródigo, perdido dentro da igreja
201
V ive dentro da igreja, mas não é livre
Ele não vive como uma pessoa livre, mas como um
escravo. E um jornaleiro, e não um filho. Pega pesado na
labuta, mas não desfruta daquilo que pertence ao pai.
E dono de tudo, mas não usufrui de nada. E herdeiro
do pai, mas sente-se como um escravo. A espiritualida­
de desse filho mais velho é timbrada por um legalismo
doentio. Sua religião é rígida. Ele obedece por medo ou
para receber elogios. Faz as coisas certas com a motiva­
ção errada. Sua obediência não provém do coração. Ele
anda como um escravo (Lc 15.29). O verbo grego que
aparece no texto é douleo, que significa “servir como
escravo”. Ele nunca entendeu o que é ser filho. Nunca
usufruiu nem se deleitou no amor do pai. Servir ao pai,
para ele, é um peso, um fardo, uma obrigação pesada.
Ele vive sufocado, gemendo como um escravo. Está na
igreja, mas não tem prazer. Obedece, mas não com ale­
gria. Está na casa do Pai, mas vive como escravo.
V ive dentro da igreja, mas está com
o coração cheio de amargura
Vamos destacar alguns pontos:
Em primeiro lugar, ele tem um complexo de santi­
dade. Por isso rejeita os marginalizados (Lc 15.29,30).
Ele estava escorado orgulhosamente em sua religio­
sidade, arrotando uma santarronice discriminatória.
Só ele presta; o pai e o irmão estão debaixo de suas
Com Jesus na escola da vida
202
acusações mais veementes. Sua mágoa começa a va­
zar. Para ele, quem erra não tem chance de se recupe­
rar. O seu vocabulário não tem a palavra perdão. Na
sua religião, não existe a oportunidade de restauração.
Em segundo lugar, ele se sente injustiçado pelo pai.
Acusa o pai de ser injusto com ele só porque perdoou
o irmão. Na religião dele não havia espaço para a mi­
sericórdia, o perdão e a restauração. Ele se achava
mais merecedor que o outro. Sua religião estava fun­
damentada no mérito pessoal, e não na graça. E a reli­
gião da lei, do legalismo, e não da graça nem da fé que
opera pelo amor.
Em terceiro lugar, ele não perdoa nem restaura o
relacionamento com o irmão (Lc 15.30). Ele não se re­
fere ao pródigo como irmão, mas diz: esse teu filho. A
Bíblia diz que quem não ama a seu irmão até agora está
nas trevas ( l J o 2,11). Ele desconhece o amor. Ele
vive mergulhado no ressentimento. Ele vê seu irmão
como um rival. Na sua espiritualidade não há espa­
ço para o perdão. No seu coração não há lugar para
celebrar a restauração do caído. Para ele, não existe
recuperação para o caído, não existe festa para o que
retorna ao lar.
Em quarto lugar, o ódio que ele sente pelo irmão não
é menos grave que o pecado de dissolução que o pródigo
cometeu fora da igreja (Gl 5.19-21). Quando trata das
obras da carne, a Bíblia fala sobre três pecados na área
da imoralidade e nove na área de mágoa, ressentimen­
tos, ira. A falta de amor é um pecado tão grave como
o pecado da vida imoral e dissoluta. Jesus disse que
0 irmão mais velho do pródigo, perdido dentro da igreja
203
os publicanos e pecadores vão preceder os escribas
e fariseus no reino dos céus. Isso porque, ao serem
confrontados, aqueles se arrependem, mas os que se
orgulham de sua justiça não se sentem pecadores e
pensam que nada têm de que se arrepender.
Em quinto lugar, o ressentimento o isola do pai e
do irmão. Quando uma pessoa guarda ressentimento
no coração pelo irmão que falhou, perde também a
comunhão com o Pai. Ele se recusa a entrar, fica fora
da celebração. Mergulha num caudal de amargura. Ele
diz para o Pai: esse teu filho. Mas o Pai o corrige e lhe
diz: esse teu irmão (Lc 15.30-32).
Vive d e n t r o da igreja, na presença do
Pai, mas a n d a c o m o s o l i t á r i o
Ele anda sem alegria, sem amor, sem prazer. Vive
na casa do pai, mas sente-se escravo. Está na casa do
pai, mas não tem comunhão com ele. Quantos estão
na igreja, mas nunca sentem o amor de Deus, a alegria
da salvação, o prazer de pertencer a Jesus, a doçura
do Espírito Santo. Vivem como órfãos: sozinhos,
curtindo uma grande solidão e insatisfação dentro
da casa do Pai. Quantas pessoas não têm amigos na
igreja. Não se relacionam. A única coisa que sabem
fazer é acumular cargos e mais cargos, assumir
compromissos e mais compromissos, confundindo
ativismo religioso com piedade. Precisamos entender
que a nossa maior prioridade não é fazer a obra de
Com Jesus na escola da vida
204
Deus, mas ter intimidade com o Deus da obra. O Deus
da obra é mais importante do que a obra de Deus. Ter
comunhão com o Deus da obra é mais importante
do que fazer a obra de Deus, porque Deus está mais
interessado em quem nós somos do que no que nós
fazemos. Trabalho para Deus sem vida com Deus não
agrada o coração de Deus.
V ive dentro da igreja, mas não se
SENTE DONO DO QUE É DO P aí
Ele era rico, mas estava vivendo na miséria.
Muitos hoje estão vivendo um cristianismo pobre.
Vivem sem alegria, sem banquete, sem festa na alma,
só trabalhando e servindo. Deus tem uma vida abun­
dante (Jo 10.10); Deus tem rios de água viva (Jo
7.38); Deus tem as riquezas insondáveis do evange­
lho (Ef 3.14); Deus tem a suprema grandeza do seu
poder (Ef 1.19); Deus tem a paz que excede todo o
entendimento (Fp 4.7); Deus tem alegria indizível e
cheia de glória (IPe 1.8); Deus tem vida de delícias
para a sua alma. Esse filho não tem nenhum proveito
na herança do pai. Ele nunca fez uma festa. Nunca ce­
lebrou com seus amigos. Nem sequer um cabrito ele
comeu. Nunca saboreou as riquezas do pai. Ele não
tem comunhão com o pai: é como Absalão, está em
Jerusalém, mas não pode ver a face do rei. Ele está
na igreja por obrigação. Ele não toma posse do que é
seu. É como o homem que fez um cruzeiro de navio
e levou o seu lanche. Vendo as pessoas comendo os
0 irmão mais velho do pródigo, perdido dentro da igreja
205
pratos mais deliciosos, guardou dinheiro para comer
uma boa refeição no último dia. Só então ficou saben­
do que todos aqueles banquetes já estavam incluídos
na passagem.
O mesmo pai que saiu ao encontro do filho pró­
digo para abraçá-lo sai para conciliar este filho (Lc
15.31). O remédio para este filho é o mesmo do ou­
tro: confessar o seu pecado. Mas ele ficou do lado de
fora. Perdido dentro da casa do pai. Não fique do lado
de fora. Venha e desfrute da festa que Deus preparou!
Com Jesus na escola da vida
UeArumdeA, QLai.iíofieA. é caiado-
com Udemiita ‘PimenteZ £apeA
i
e pai de. Ohia^o- e YJfLaAiana. £
BacPvaAeJÍ em, Oeoíoqia peto-
fernuvá/áo- PtejrfiteAiano- do-
ifuí, em Gampinaí, iPP e í)outoA
em fllUuAtéAío- peio- Re^oAmed
JPlcoXo^ícoÍ tfeminaAfy de. faeÂAxm.,
MLb&LbAifepi, SAtadoA, UnidoA,.
Eíe. é pailoA da <P'úmeiAa 9gAefa
'P^eAÂiteAiana de. VitÓAia, EApxAxto-
/
fardo-, de&de, 1985. £ confi&iencUta,
eúcAitaA, com maií de. 100 iiuAod,
puMicado4. e. cÜAeíoA eaecuiiuo- de.
f
£w%. paAa a GaminAo-, £ tnemêAo- da
Academia Evurvgéíica de, £eJtAai do-
)3àaãit.
Gontatoá:
iMUUÁ*-.PieAMmd&ldUtAtofl£A.com.ftA.
fuiío^2eA@u^£o^xmai£.com.0à.