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LÍBANO

LÍBANO

P
ara a especialista amal-saad
Manifestante segura imagem de Libanesas em trajes de banho no Pôster perfurado por Máscaras dos principais
Ghorayeb, do Carnegie Endow-
Hassan Nasrallah, o secretário-geral porto em Byblos – uma das mais tiros do líder supremo do líderes libaneses à venda
do Hezbollah, em protesto contra o antigas cidades do mundo – que em shopping da cidade ment for Peace e autora de Hez-
Irã, o aiatolá Ali Khamenei
primeiro-ministro da Inglaterra, fica no norte do Líbano bollah: Politics and Religion, um
Tony Blair, em setembro de 2006 dos livros mais vendidos sobre o grupo,
“o Hezbollah não busca objetivos reli-
giosos, mas estratégicos, políticos e so-
ciais”. De fato, o Partido de Deus é mais
racional do que o nome sugere. E fica difí-
cil saber dessa racionalidade fora do
Líbano. Uma das celebrações religiosas
mais singulares no mundo é a Ashoura,
quando os xiitas relembram o assassinato
em 680 de Hussein, neto do profeta
Mohammed. Todos os anos, fiéis xiitas se
reúnem em várias cidades do Oriente
Médio e simulam o sofrimento de
Hussein em um ritual de autoflagelação.
Em Nabatieh, no sul do Líbano, o
espetáculo é mais grotesco do que em
lugares como o Iraque, e é reservado para
aqueles que não têm problema com
sangue alheio. Homens de várias idades,
inclusive crianças, se enfileiram para ter a
testa cortada por um facão, em geral de
um golpe só, numa parte da cabeça de
onde o sangue jorra com mais facilidade.
O banho de sangue supostamente denota
a fé, mas o que eu notava mesmo era o
velho exibicionismo machista tomando
Crianças brincam em campo Plantação de cannabis – um dos por 1,5, com um espelho em uma das rante “Saiah”, um nome próprio, e acabei guerra civil por um movimento xiita (não uma forma que eu ainda não conhecia –
de refugiados palestinos principais produtos de exportação paredes, duas caixas de som pequenas perguntando onde ficava o “Sahioun”. o Hezbollah, mas a Islamic Jihad no quanto mais sangue, mais orgulho. O que
do Líbano, agora substituído pelo
cultivo do tomate – na região
perto do teto, um banquinho de plástico Diante dos olhares mais esquisitos do Líbano). Em cativeiro por quatro anos, muita gente não sabe é que, apesar de
conhecida como Bekaa Valley em frente ao espelho e um acessório que mundo, alguém ali me explicou que difi- Brian Keenan foi usado como moeda de ser uma tradição xiita milenar, todos os
por alguma razão desencadeou o meu cilmente existiria um restaurante no troca entre grupos fundamentalistas e anos o líder Hassan Nasrallah vai à TV e
medo: um cinzeiro. “Pode entrar”, o Líbano chamado “sionista”). Não tinha governos estrangeiros envolvidos na pede aos fiéis a mesma coisa: condenan-
homem diz, educadamente, como quem muito o que fazer naquele cubículo. guerra civil. Em uma das passagens mais do o ritual, ele recomenda que, em vez
convida pra sala de visitas. “Não, obriga- Fiquei me olhando no espelho, olhando, aterrorizantes do livro, o autor é procu- de derramar, os fiéis doem sangue aos
da, eu espero aqui”, eu respondo, como olhando, me cansei da minha cara, e rado por um dos guardas do seu hospitais libaneses.
uma visita que não quer atrapalhar. durante o infinito interminável dos cativeiro. Simpático, o guarda pede para Em um país onde pensamento crítico e
“Não, não, senta aí.” “Não, obrigada, tô próximos minutos, comecei a fazer care- que Keenan lhe ensine inglês. Feliz por dogma religioso andam juntos, mas evi-
bem aqui.” “Madame, a senhora tem que ta no espelho, para o caso de ter alguém ter uma função, e por fazer um amigo na tam a mesma calçada, contradições

MOHAMED AZAKIR/REUTERS/LATINSTOCK (GAROTA COM IMAGEM E PLANTAÇÃO DE CANNABIS); AFP (GAROTO COM SANTA E REFUGIADOS);
sentar.” “Mas eu não quero.” Dava pra atrás dele tão entediado quanto eu. solidão daquele porão úmido, Brian extremas acontecem mesmo em áreas
ver que o Ali estava suando frio. Alguém Enquanto eu fazia careta e não via nada, Keenan ensina inglês todos os dias para onde os moradores são praticamente
fala algo pra ele. Ele vira pra mim e diz estava tudo bem. Até que por trás do o guarda. Mas à noite, o mesmo homem todos da mesma religião. Baalbeck, cidade
“entra, Paula, é melhor”. Eu entro, e espelho uma porta se abriu, e com a luz que era dócil durante o dia visitava a cela predominantemente xiita onde o Hez-
assim que ponho o pé para dentro a que entrou eu consegui ver dois homens, do autor e, gritando palavrões em inglês bollah tem a maioria dos votos, está cada
com uma voz forçadamente diferente, vez mais parecida com o Irã, e mais e mais
dizia “você, aids, fuck, América, diabo”, mulheres se cobrem com o chador. Na
e o enchia de porrada. Na hora em que cidade que tem o maior templo do mundo
Nessa hora, entre as mais de mil fotos que
cabem no meu cartão de memória vejo
quarters.” Gelei. Mas tentei manter a
calma. Respirei fundo. Tentei achar algo
de um prédio bem simples. A porta se
abre. Um homem, com voz calma, sem
Até que o oficial do Hezbollah insiste de
novo, “me dá a câmera”. A essa altura nem
“Gays e lésbicas têm uma liberdade eu vi os dois gárgulas rindo, aquilo me
veio à cabeça e a minha reação foi uma
dedicado a Bacchus, é quase impossível
achar álcool além do hotel Palmira, e o
uma que poderia me ajudar: lá estava eu,
de hijab cobrindo o cabelo, sentadinha
pra fazer. Abri minha câmera e fui vendo
as fotos, relembrando os bons momen-
sapatos, e com a mão no peito, diz “salam
aleikom”. “Wa aleikom salam”, eu respon-
mentalmente eu assobiava mais. Comecei
a ficar com medo de estar lidando com um
que não se vê em nenhum outro só: comecei a esmurrar a porta, bati
tanto e com tanta força que a minha mão
consumo de droga é visto como anátema,
mesmo o do haxixe local, o famoso Red
com o Hassan Nasrallah, uma foto que tos, minha casa de praia, o casamento da do. “Sua câmera”, ele me diz em inglês, fundamentalista islâmico, que, na falta de país do Oriente Médio” começou a sangrar. Transferindo a tare- Lebanese – em áureos tempos, a expor-
sempre deixei na câmera para o caso de minha amiga Dushanka na Itália, onde a antes de me deixar entrar. Pausa para pen- poder me acusar de ser espiã israelense, fa para o pé, eu chutava a porta e grita- tação de haxixe era uma das maiores
precisar. Mas a foto não fez diferença – gente acabou nadando pelada de madru- sar. Não veio nada. “Não posso”, eu iria me prender por falta de pudor. Ele George Azzi, coordenador da Helem – va “mouhkabaratak khara” – o serviço fontes de moeda estrangeira do Líbano.
ou talvez tenha feito pra pior. Para os gada num lago vulcânico... Quê!!!!??? respondo. “A câmera, por favor”, ele insistiu, “Que fotos são essas?”. E não Fundação para Proteção de Homossexuais de inteligência de vocês é uma merda!”. Hoje, com produção praticamente proibi-
seguranças do Hezbollah, eu imagino, se Pausa para evitar o desmaio. Eu não repete, já mais sério. “Perdão, moço, mas agüentei mais o suspense e mandei: “São Naquele estresse todo, eu, tolinha, da pelos Estados Unidos através da

AMMAR AWAD/REUTERS/LATINSTOCK (POSTER); AFP (MÁSCARAS)
eu fosse espiã, aquilo só seria mais uma acreditava. Logo ao lado da minha foto não posso dar a câmera”. “Por quê? O que fotos minhas, pelada”. Choque. Silêncio. cheguei a ‘ameaçar’ o Hezbollah, dizen- pressão de órgãos como o Usaid e Banco
evidência de que eu estava fazendo um com o Nasrallah, lá estavam as fotos de tem aí?”, ele pergunta. “Fotos pessoais”, Começou a dar pena do Ali. Foi aí que tive do que a partir de então eles teriam em Mundial, mais a ameaça de inclusão em
ótimo trabalho. Eu já tinha lido o livro oito amigos, inclusive eu, saindo do lago arrisco. “Pessoais?”. “É, privadas, particu- a grande surpresa: o oficial põe de novo a porta se tranca atrás de mim. O Ali tam- que gargalhavam como gárgulas malig- mim uma inimiga. Certamente não listas negras como “Eixo do Mal”, o
By Way of Deception, de um provável ex- vulcânico de dois em dois, de mãos lares”. “Eu preciso da sua câmera. Que mão no peito, pede desculpas e diz que eu bém foi trancado em outro comparti- nas, bwaahahahaha – isso, claro, era a assustei ninguém, e a essa altura os gár- Líbano vem destruindo as plantações – e
agente do Mossad contando a maneira dadas, completamente nus, cada um com fotos são essas?” A tensão era meio geral. posso ficar com a câmera. “Me dá só o seu mento. Vendo que aquilo era inevitável, minha mente reinterpretando o que gulas deveriam estar rolando no chão de a pobreza vem aumentando. A cultura
como eles trabalham, e depois disso, a a roupa de baixo indevidamente coloca- O Ali, sem saber o que fazer, com os olhos telefone”, ele diz. Não o número, o apare- eu sentei, e quase relaxei. Comecei a can- provavelmente eram risos inofensivos, rir, mas depois de uns eternos dez minu- que substituiu o haxixe, o tomate, infeliz-
paranóia fazia sentido. O livro, infeliz- da na cabeça... Meu Deus. Como é que bem abertos, quase vidrados, não se lho. Eu dei. tarolar uma bossa-nova em árabe, que provocados pelas minhas próprias care- tos (é, foi só isso mesmo), a porta se mente não consegue o mesmo preço por
mente, não é vendido no Brasil. Quando eu apago isso? Será que ajuda eu ter mexia. Os outros seguranças pareciam Mas meu pesadelo não tinha acabado. apesar da estranheza do idioma, é talvez tas. Mas a mente é algo realmente fasci- abriu e o homem voltou com o meu tele- quilo. Enquanto isso, nos Estados Unidos
parecia que tudo ia terminar, e Ali e eu coberto a cabeça? O pior é que as fotos estar esperando alguma ordem. E eu, não Ali e eu fomos conduzidos a um corredor a versão mais linda já gravada de “Sabiá”, nante, e a mente com medo, mais ainda. fone, pedindo desculpas, de novo com a já são 12 os estados em que o consumo
estávamos achando que íamos embora, estavam com aquele maldito sinalzinho me lembro direito, acho que na falta de com várias portas, todas com a mesma do Chico e do Tom, transformada em Em questão de segundos, eu relembrei mão no peito, dobrando-se em atitude médico de cannabis é legalizado, e em um
um dos seguranças entra no carro com a de chave, protegidas, e eu não sabia uma solução comecei a assobiar mental- distância entre uma e outra, com um “Min Zaman” pelo libanês Paul Salem. os detalhes mais sórdidos do livro An de respeito. E eu, como criança que se deles, Novo México, uma lei determina
gente. “Que é isso, Ali?”, eu pergunto, já como apagar aquilo. Comecei a ficar trê- mente, olhando para os lados, tipo assim, número em árabe em cada uma. Não Esqueci a letra, e parei de cantar, com Evil Craddling, a história real de um pro- dá conta de que alguém se deu conta de que o próprio estado plante e distribua a
não achando muita graça naquilo tudo. mula. Chegamos. “eu tô avisando, não toca nisso, o senhor gostei. O oficial do Hezbollah abre uma medo de falar algo errado (como o dia em fessor da Universidade Americana de que ela levou um tombo, finalmente maconha. Para o economista libanês
“Estamos sendo levados para os head- Subimos os três num mesmo elevador vai ter que lavar a mão pro resto da vida”. delas. Era um quartinho de uns 2 metros que eu queria saber onde ficava o restau- Beirute que foi seqüestrado durante a comecei a chorar. Marwan Iskandar, “é estranho que o

104 ROLLING STONE BRASIL, AGOSTO 2007 ROLLING STONE BRASIL, AGOSTO 2007 105