You are on page 1of 7

Fundação CECIERJ / Consórcio CEDERJ

Curso de Extensão: Introdução à Filosofia
O Nascimento da Filosofia
Marcos André Reis de Amorim
Introdução: somos ocidentais somos !re!os
Diôgenes Laêrtios, em sua obra Vida e doutrinas dos filósofos ilustres, afirma
que “Pitágoras foi o primeiro a usar o termo e a chamarse de fi!"sofo#$
%ambém &'cero, %usc$ (, ), *, citado por P+%+R,, -$ +$ em Termos filosóficos
gregos, p$ .*/, confirma o re!ato de Diôgenes$ A pa!a0ra philo quer di1er
“aque!e que tem um sentimento amigá0e!#2 e shofía significa “sabedoria#2
portanto, o fi!"sofo é um “amigo da sabedoria, possui 3amor ao saber4#$
5 6rasi! é um pa's que 0em sendo constru'do há cerca de 788 anos pe!as
cu!turas mais 0ariadas do p!aneta, mas se fosse poss'0e! quantificar a presen9a
de a!gumas de!as, a do dominador português tem marca preponderante, pe!o
menos em a!guns dos nossos pi!ares: a !'ngua e a presen9a do cristianismo,
por e;emp!o$ Por isso podemos ser 0istos como “ocidentais# <cu!tura!mente,
“europeus#=, que por sua 0e1 têm um ber9o: a cu!tura da >récia Antiga$
? dif'ci! mensurar a presen9a da cu!tura grega na 0ida do 5cidente, mas saiba
que é muito grande@ Dos Aogos o!'mpicos ao regime democrático, ficar'amos
muito tempo aqui nesta missBo$ Co fina! das contas, estudar o pensamento
grego é des0endar parte importante de nossa forma de 0er o mundo2 por isso,
estudar -i!osofia é também um processo de conhecimento de si e de sua forma
de pensar o mundo$
O nascimento da Filosofia
A >récia é considerada o pai e a mBe da -i!osofia, ainda que tenham e;istido
a!gumas inf!uências de outros po0os$ ,abese que os gregos, principa!mente
Fundação CECIERJ / Consórcio CEDERJ
Curso de Extensão: Introdução à Filosofia
por suas ati0idades comerciais, esta0am em contato constante com outras
cu!turas da época, mas mesmo assim podemos destacar a sua origina!idade:
uma importante marca está no fi!osofar de prop"sito, no uso intenciona!,
consciente dessa arma da inte!igência para interpretar, dar um sentido D 0ida, e
tudo isso por conta pr"pria, e0itando o discurso pronto da re!igiBo$
A frequência com que 0iam raciona!mente o mundo nBo era usua! entre os
metecos <“estrangeiros#=$ ? c!aro que estamos a fa!ar de uma cu!tura que
in0entou uma forma de pensar e a denominou “fi!osofia#, o que nBo e;c!ui a
ideia de que outros po0os também “pensa0am#, s" que de outras maneiras$
5s gregos parecem ter tido as condi9Ees hist"ricas para o aparecimento dessa
forma de pensar que nenhuma outra sociedade te0e, pois está !igada a uma
série de antecedentes e circunstFncias que cu!minaram no per'odo chamado
“>récia &!ássica# <entre os sécu!os (G e G( a$&$=, podendo ser considerado um
dos momentos mais criati0os da hist"ria do 5cidente$ CBo parece ser
coincidência a in0en9Bo do regime democrático e da -i!osofia na mesma
época, pois a democracia necessita0a <e ainda necessita@= da prática fi!os"fica
na constru9Bo de cidadBos cr'ticos dispostos a aperfei9oar a sociedade$ A
!iberdade de cria9Bo dessa época foi proporciona! D !iberdade de pensamento
do cidadBo, que desde cedo aprendia -i!osofia na esco!a$
Mais precisamente, a -i!osofia nasceu nas co!ônias gregas da Hônia <hoAe é
parte do territ"rio turco, no 5riente Médio= e na Pen'nsu!a Gtá!ica <também
conhecida como “Magna >récia#=, no sécu!o (G a$&$, estabe!ecendose em
Atenas mais tarde <meados do sécu!o ( a$&$=, com os sofistas e os fi!"sofos
chamados socráticos <,"crates, P!atBo e Arist"te!es=$
" #assa!em do mito ao logos
Iá muitas possibi!idades de tradu1ir logos2 dependendo do conte;to, pode ser
entendido como “ra1Bo#, “pa!a0ra#, “propor9Bo#, “!"gica#$
+;iste a!guma inf!uência do discurso m'tico na cria9Bo do discurso
propriamente fi!os"ficoJ +sta dif'ci! pergunta nos !e0a a responder em forma de
parado;o: sim e nBo$ ,erá poss'0e! e;tirpar da consciência grega o seu cu!to
re!igioso para poder entBo criar um !'mpido pensamento raciona! e assim criar a
-i!osofiaJ Afina!, a -i!osofia nascente procura respostas Ds suas dK0idas no
reino dos deuses ou 0ai in0estir nos pr"prios fenômenos naturais para tirar da',
por si mesma, as suas conc!usEes sobre o funcionamento da 0idaJ
,egundo a tese de -$ M$ &ornford <Principium Sapientiæ=,há uma grande
inf!uência do mito!"gico entre os primeiros fi!"sofos, contrariando a ideia de
uma ruptura radica! entre a 0isBo do mito e o surgimento da ra1Bo <tese
defendida por H$ 6urnet, em A aurora da filosofia grega, p$ LM=$ N$ Haeger,
em La Teologia de los primeros filosofos griegos, p$ .L, e em Paideia, p$ .ML,
Fundação CECIERJ / Consórcio CEDERJ
Curso de Extensão: Introdução à Filosofia
parece concordar com &ornford, quando afirma que “de0emos encarar a
hist"ria da -i!osofia grega como processo de raciona!i1a9Bo progressi0a da
concep9Bo re!igiosa do mundo imp!'cita nos mitos#$ Podemos citar ainda
>iorgio &5LLG, em O nascimento da filosofia, p$ OOO*, em que confirma os
!a9os entre o m'tico e o fi!os"fico$
(eAamos uma pergunta que parece ser genuinamente grega: como surgiu, do
estado primiti0o das coisas, este mundo mu!tiforme e ordenadoJ +ssa questBo
poderia ter sido posta tanto para os sacerdotes quanto para os que se
con0encionou chamar de fi!"sofos, Aá que suas diferen9as nBo se encontram
naqui!o que é perguntado, mas no que responderia cada um$ 5 fato é que os
gregos souberam fa1er a ra1Bo incidir sobre sua heran9a re!igiosa,
transformandoa numa transi9Bo sua0e até a -i!osofia, o que torna dif'ci! saber
se o nascente pensamento fi!os"fico conseguiu se des0enci!har inteiramente do
discurso m'tico$
Gnf!uência das re!igiEes "rficas, com muitos adeptos entre os sécu!os (GG e (G
a$&$, que acredita0am na imorta!idade da a!ma e te0e o fi!"sofo présocrático
Pitágoras como um de seus adeptos$
De qua!quer forma, se há a!guma pro;imidade, há também grandes diferen9as:
entre outras coisas, os primeiros pensadores se distinguiam dos 0identes,
poetas e ;amBs por descre0er o cosmos sem se amparar em partos sagrados,
bata!has di0inas, procurando no mundo “0is'0e!# as ra1Ees para o uni0erso ser
o que é$ Mas, seguindo tri!ha aberta pe!o discurso re!igioso, possu'am a
preocupa9Bo com as origens do uni0erso, em suas cosmo!ogias fa!am
daimorta!idade, da eternidade daqui!o que ampara o mundo, temas comuns
também para os sacerdotes$
Mas, se no discurso re!igioso a Arché <ou Arqué, e!emento primordia! da 0ida= é
dada para os ;amBs e poetas, que recebiam a 0erdade pronta dos deuses, a
-i!osofia será in0estigada na pr"pria nature1a, demandando esfor9o
unicamente do fi!"sofo, sem o au;'!io de for9as “sobrenaturais#$
5utro dado importante é que, em re!a9Bo ao re!ato m'tico, nBo ha0ia espa9o
para questionamentos, pois a 0erdade dos deuses é abso!uta, mas no campo
fi!os"fico a procura da 0erdade é permeada de dK0idas e contro0érsias, e por
isso nBo é imune a debates e discussEes$ Co per'odo do dom'nio do discurso
re!igioso como produtor da 0erdade, quem di1 é quem dá !egitimidade ao que é
dito <ob0iamente se for dito pe!os “intermediários# entre o “céu e a terra#, como
um imperador ou um sacerdote=, enquanto na “era da ra1Bo#, do discurso
fi!os"fico, o que importa é o conteKdo do que é dito, que por sua 0e1 pode ser
a!0o de cr'ticas e oposi9Ees <o que nBo caberia no primeiro discurso=,
independente de quem o pronunciou$
Fundação CECIERJ / Consórcio CEDERJ
Curso de Extensão: Introdução à Filosofia
Dos #oetas aos filósofos
+m que momento Aá podemos 0is!umbrar o discurso raciona! se espa!har pe!a
>réciaJ 5 he!enista Nerner Haeger <.MM7= 0ê sementes na poesia mito!"gica
de Iomero <(GGG a$&$= e Ies'odo <(GG a$&$=$ 5 discurso poético foi a forma
narrati0a uti!i1ada por esses poetas para re!atar os tempos de g!"ria dos her"is
<a epopeia, em Iomero= e o surgimento dos deuses <a teogonia de Ies'odo=
produ1indo as bases inte!ectuais da ci0i!i1a9Bo grega$ Muito importantes na
constitui9Bo do imaginário grego, eram dotados de grande capacidade de
organi1ar hist"rias e !endas dispersas na tradi9Bo ora!, rai1 de conhecimento de
qua!quer po0o$ 5s gregos atribu'am aos praticantes da poesia inspira9Bo
di0ina, pois teriam acesso pri0i!egiado Ds “musas#, fi!has deMnemósine <deusa
da mem"ria=, e por isso sBo especia!istas em re!atar o passado$ Iomero e
Ies'odo conseguiram rea!i1ar em pa!a0ras as informa9Ees, por 0e1es
minuciosas, dos grandes acontecimentos dos prim"rdios da hist"ria grega$ Há
no ato de narrar, pe!a escrita, o mito tornase “mito!ogia#, em que se pode
perceber um logos ainda que as !endas que descre0em seAam ricas em
ambiguidades P quando fa!am dos fenômenos naturais como se ti0essem uma
e;istência em si <uma 0ida pr"pria= e, ao mesmo tempo, cria9Bo dos deuses$
&hama aten9Bo também que, a!ém da sequência narrati0a, Iomero procurou
apresentar as causas e moti0a9Ees que produ1em os atos descritos em suas
epopeias, o que refor9a a ideia de que o e;erc'cio raciona! Aá esta0a presente
a'$ Ies'odo, ao descre0er a cosmogonia, de certa forma p!antou uma semente
da cosmo!ogia que está por 0ir$
-ina!mente, no sécu!o (G a$&$, apareceu aque!e que será chamado de primeiro
fi!"sofo <Di"genes Laércio, .M*/=: %a!es, de Mi!eto$ Mas o que fe1 para ser
reconhecido assimJ Quando afirma a água como arché Aá indica que buscou na
pr"pria nature1a a sua “essência#, marcando sua diferen9a em re!a9Bo ao
discurso re!igioso$
Refer$ncias
A66A>CAC5, C$ !icion"rio de #ilosofia$ RS ed$ ,Bo Pau!o: Martins -ontes,
L88L$
ARG,%T%+L+,$ Metafísica$ LS ed$ Madrid: >redos, .MM8$
6URC+%, H$ A aurora da #ilosofia grega$ Rio de Haneiro: +ditora PU&
RioV&ontraponto, L88O$
&IAUW, M$ %ntrodu&'o ( história da #ilosofia) dos pré*socr"ticos a Aristóteles$
LS ed$ ,Bo Pau!o: &ompanhia das Letras, L88L$
&5LLG, >$ O nascimento da #ilosofia$ &ampinas: +d$ Unicamp, .MML$
Fundação CECIERJ / Consórcio CEDERJ
Curso de Extensão: Introdução à Filosofia
&5RC-5RD, -$ M$ Principium sapientiæ$ LS ed$ Lisboa: -unda9Bo &a!ouste
>u!benXian, .M*.$
YYYYYY$ Antes e depois de Sócrates$ ,Bo Pau!o: Martins -ontes, L88.$
D+%G+CC+, M$ Os mestres da +erdade$ Rio de Haneiro: Horge Zahar, .M**$
HA+>+R, N$ La Teologia de los primeros filosofos griegos$ Mé;ico: -ondo de
&u!tura +con"mica, .M7L$
YYYYYY$ Paideia$ )S ed$ ,Bo Pau!o: Martins -ontes, .MM7$
LA[R%G5,, D$ Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres$ LS ed$ 6ras'!ia: +d$
Uni0ersidade de 6ras'!ia, .M*/$
MAR&5CD+,, D$ %ntrodu&'o ( ,istória da #ilosofia$ MS ed$ Rio de Haneiro:
Horge Zahar, L887$
CG+%Z,&I+, -$ A filosofia na idade tr"gica dos gregos$ Lisboa: +di9Ees /8,
.M*/$
P+%+R,, -$ +$ Termos filosóficos gregos$ Lisboa: -unda9Bo &a!ouste
>u!benXian, .M/R$
,C+LL, 6runo$ A cultura grega e as origens do pensamento europeu$ ,Bo
Pau!o: Perspecti0a, L887$
(+RCAC%, HeanPierre2 (GDALCAQU+%, Pierre$ Mito e tragédia na -récia
antiga$ (o!$ G$ ,Bo Pau!o: Duas &idades, .M//$
(+RCAC%, H$P$ Mito e pensamento entre os gregos$ ,Bo Pau!o: Dife!V+dU,P,
.M/)$
YYYYYY$ Origens do pensamento grego$ .RS ed$ ,Bo Pau!o: Dife!, L88R$
CRONO%R"&" D" 'I()*RI" %RE%" N" "N)I%+ID"DE
o ,écu!o ,, a-C$: Gn'cio do per'odo da forma9Bo da !'ngua grega$
o ,écu!os ,.I/,I a-C-: &i0i!i1a9Bo micênica <\Gdade do 6ron1e\=$
o ,écu!os ,I./,I a-C$: &i0i!i1a9Bo cretense <minoica=$
o ,écu!o ,I a-C-: Pro0á0e! >uerra de %roia$ Gn0asBo d"rica que
pro0ocou a destrui9Bo do Gmpério Micênico$
o ,écu!os ,I/.III a-C$: Gdade Média he!ênica <\Gdade do -erro\=, também
conhecida como \Gdade das %re0as\$ ,urgem as primeiras cidades$
Fundação CECIERJ / Consórcio CEDERJ
Curso de Extensão: Introdução à Filosofia
o ,écu!os .III/.II a-C-: \?poca arcaica\$ ,urgimento da cidade+stado e
do a!fabeto, adaptado do a!fabeto fen'cio$ %ranscri9Bo da G!'ada e da
5disseia, poemas t'picos atribu'dos a Iomero$ Primeiros Aogos em
5!'mpia <séc$ (GG=$ ,Bo fundadas co!ônias na Magna >récia <Pen'nsu!a
itá!ica=$
o ,écu!os .II/.I a-C-: ?poca dos tiranos$ -unda9Bo das co!ônias na
Hônia <atua! %urquia asiática=$
o ,écu!o .I a-C-: ,urgem os primeiros fi!"sofos$ Gn'cio dos concursos de
%ragédia <o teatro= em Atenas$
o ,écu!os .I/I. a-C-: \?poca c!ássica\$ +ra da democracia$
o ,écu!o . a-C-: >uerras com os persas$ Apogeu ateniense, com
Péric!es <RM7RLM=$ >uerra do Pe!oponeso$ Cascimento de ,"crates
<R/8=, época dos sofistas$ P!atBo <RL/)R/=, disc'pu!o de ,"crates$
o ,écu!o I. a-C-: Processo e morte de ,"crates <)MM=$ Arist"te!es <)*R
)LL=, disc'pu!o de P!atBo$ -e!ipe da Macedônia conquista a >récia <))*=$
o ,écu!o III a-C-: +ra he!en'stica, per'odo de domina9Bo da Macedônia
e, depois, do Gmpério Romano$
MAPA DA GRÉCIA ANTIGA
Fundação CECIERJ / Consórcio CEDERJ
Curso de Extensão: Introdução à Filosofia
Última atualização: quarta, 12 fevereiro 2014, 00:16