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UNIESP – LETRAS - LITERATURA NORTE-AMERICANA 1

PROFA: ADRIANA SILENE VIEIRA
GUERRA CIVIL AMERICANA (1861-5)

As diferenças entre o norte e o sul tornaram-se acentuadas, os dois pólos se opunham. O norte era manufatureiro, vendia seus produtos para
o sul e deste comprava matérias-primas. O sul era agrícola e escravocrata, sua principal riqueza era a cultura de algodão.
Nas indústrias do norte, a falta de mão de obra resultou numa aceleração do processo técnico. Os empresários exigiam uma política de
tarifas altas, mas o sul se opunha.
A partir do final do século XVIII, a cultura de algodão desenvolveu-se no sul, organizando grandes fazendas baseadas no trabalho escravo.
Após inúmeras crises, a secessão dos estados do sul foi precipitada pela eleição de Abrahan Lincoln à presidência no ano de 1860. Esta
vitória de Lincoln representava uma derrota definitiva para o sul na questão do escravismo, pois ele era radicalmente contra a escravidão nos novos
estados.
No dia 12 de abril de 1861, as tropas confederadas (estados do sul) atacavam o Forte Sumter, uma guarnição federal, em frente ao porto de
Charleston. Desencadeava-se um conflito que depois de 4 anos, terminou pela total derrota do sul.
Quando a guerra terminou o sul estava arrasado, ocupado pelas forças da União, enquanto o norte iniciava uma fase de intenso
desenvolvimento capitalista.

ABRAHAM LINCOLN
Estadista norte-americano. Abraham Lincoln foi o décimo sexto Presidente dos Estados Unidos. Nasceu em Hardin Country, a 12 de fevereiro de
1809 e foi assassinado em Washington a 14 de abril de 1864. Descendente de imigrantes ingleses pobres, estudou por conta própria enquanto
trabalhava em ofícios diversos.
Interessando-se pela política, foi derrotado numa eleição para a assembléia estadual. Em 1836 aprovado em exames de Direito, transferiu-se
para Springfield onde tornou-se influente advogado.
Lincoln, filiado ao partido Whig, conseguiu, entre 1834 e 1840, eleger-se quatro vezes para assembléia estadual, onde dedicou-se à defesa
de um grande projeto para a construção de ferrovias, rodovias e canais. Em 1860, seu nome era suficiente para candidatá-lo à presidência. A divisão
entre os democratas favoreceu-o e Lincoln venceu o pleito com 40% dos votos.

WALT WHITMAN
Walt Whitman nasceu em 1819 e morreu em 1892, foi um dos grandes inovadores da Literatura Americana. No conjunto de poemas, que ele chamou
de Leaves of Grass, publicado em 1855, deu à América o genuíno poema épico. O estilo poético que inventou é agora chamado verso livre.
Whitman pensou que a voz da democracia não deveria ser amarrada pelas formas tradicionais do verso. Quando estava escrevendo, sua
influência em escritores foi pequena, mas hoje elementos de seu estilo aparecem em trabalhos de muitos poetas.
Walt Whitman cresceu em Brooklin, Nova York, e trabalhou lá como professor, como um aprendiz de impressor e como editor de vários
jornais.

Leaves of Grass

A obra Leaves of grass teve, em sua primeira edição 12 poemas. Já na última, teve mais de 400 poemas.
“Song of myself” é a autobiografia poética de Whitman e a suprema declaração de seu espírito.
Ralf Valdo Emerson: influenciou seu pensamento, especialmente a atenção à natureza.
Seus poemas eram muito francos e liberais para alguns leitores, e muitos críticos denunciaram o trabalho de Whitman como caótico.
Em 1840, trabalhou em jornais, fracas imitações dos estilos populares na Inglaterra.
Depois se transformou: Walter – Walt, de bem para mal vestido, de New Orleans para Chicago.
Sua poesia também mudou drasticamente. Whitman descartou muitos dos artifícios do seu tempo e escreveu em seu lugar em um ritmo
solto e ondulante, sem rimas. O que causou a mudança é um mistério (dizem que foi a leitura da Bíblia do Rei Jaime)
Houve talvez outras influências, mas está claro que W. Whitman havia criado um novo tipo de poesia.
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O autor e seu trabalho eram amplos e entusiásticos e cheios de vigor. A democracia americana não encontrou nenhum outro publicista tão
apaixonado.
Durante a guerra entre os Estados, Whitman inclinou-se a cuidar dos feridos em hospitais e nos campos de batalha. Os poemas em Drum-
Taps (depois incorporados a Leaves of grass) mostram a face da guerra. O lamento de Whitman por Lincoln em “O Captain! My Captain!” e “When
Lilacs Last in the Dooryard Bloom’d”, deram voz a um lamento nacional.
Em sua poesia, Whitman tenta abraçar toda a América, talvez uma tarefa impossível para um poeta. Mas Whitman se aproxima mais desta
tarefa que qualquer outro escritor americano. Whitman, em suma, ajudou os americanos a entender sua nação, sua destinação, e o vigor de sua vida. E
ajudou a expandir a visão de sua arte influenciando muitos poetas que o seguiram.
Assim como Edgar Allan Poe, foi melhor reconhecido no exterior. Entretanto, nos últimos anos de sua vida, foi reconhecido por seus
conterrâneos. Eles perceberam afinal que ele era um dos grandes poetas americanos.
“Song of myself”, forma o núcleo de Leaves of grass. Depois de muitas revisões em diferentes edições, agora permanece como a
declaração da independência do homem como um ser individual. O poema não é fácil de ler, mas compensa ser relido amplamente.
Whitman descreve seus poemas como:

“The vehemence of pride and audacity of freedom necessary to loosen the mind of still-to-be-form’s America from the folds, the
superstitions, and all the long, tenacious and stifling anti-democratic authorities of Asiatic and European past.”1

Whitman foi provavelmente o mais liberto da Europa e mais otimista com relação à América que qualquer poeta anterior. Whitman
acreditava que a realidade era um contínuo fluir sem começo nem final. Entretanto, sua repetição freqüente de palavras e sintaxe, seus modelos de
descrição contêm certa musicalidade.
Whitman anuncia: “Eu sou o poeta do corpo e da alma”. Como “poeta do corpo”, traz o sexo para a área da poesia.2
Para a mente independente e audaz de Walt Whitman, o verso romântico parecia não ser mais do que uma expressão inevitável da América
moderna, moderna e democrática. Ele considerava a rima, por exemplo – “formas celestiais e veneráveis de encadear versificação” – adequada para
uma ordem feudal e não uma ordem democrática.
Já observamos como Whitman sentia que o gênio dos Estados Unidos estava “mais no povo comum”, como declarou em seu prefácio de
1855. O verdadeiro significado da simplicidade, a “arte da arte”, era-lhe talvez sugerido pelo homem natural, “a indescritível pureza e inconsciência
de uma pessoa analfabeta”. Mas a simplicidade era sugerida ainda mais, em seu prefácio (como no título Leaves of Grass), pelas ordens inferiores da
vida. “Falar em literatura com a perfeita retidão e despreocupação dos animais e a inatacabilidade do sentimento das árvores nos bosques e da relva
ao longo das estradas é o triunfo perfeito da arte”. Para tal simples comunicação, ele necessitará de “novas formas livres” de expressão: “A mais
límpida expressão é aquela que não encontra esfera digna de si mesma e cria uma. Em seus próprios poemas, Whitman começou (com sugestão de
várias fontes, incluindo versos bíblicos) a criar uma nova forma que veio a ser chamada de verso livre, dispensando declaradamente a dicção poética,
personificação, rima, estrofe e métrica. Ele manteve apenas a linha de verso que, no princípio orgânico, devia marcar a substância expressa. O
resultado podia ser uma poesia sem enfeites, desembaraçada, adequadamente ilustrada pelo daguerreótipo usado na primeira edição – Walt Whitman,
em roupas de trabalhador despreocupado e auto-suficiente, imperturbável.

Aqui estava realmente uma poesia destinada a ser a fala natural de homem falando a homens, um meio sublime de conversação.
Experiências similares deveriam ser feitas mais tarde por Robert Frost, Carl Sandburg, T. S. Eliot.

O poema “O CAPTAIN! MY CAPTAIN!”

O Captain! My Captain!

1
(A veemência do orgulho e audácia da liberdade necessária para desprender a mente da América – ainda em construção
– das marcas, das superstições, e todas as autoridades do passado asiático e europeu – duradouras, tenazes, repressoras e
anti-democráticas)
2
A literatura como imagem, p. 129.
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The ship has weather’d every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

O Captain! My Captain! rise up and hear the bells;
Rise up — for you the flag is flung — for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon’d wreaths — for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
The arm beneath your head!
It is some dream that on the deck,
You’ve fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor’d safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won:
Exult O shores, and ring O bells!
But I with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

O trecho abaixo, tirado da internet, com algumas modificações, trata do poema “O Captain! My Captain!” 3

Walt Whitman, morto em 1892, foi um dos maiores poetas da América e considerado um bardo a serviço da democracia. Ninguém como
ele até então enalteceu, com versos soberbos, o regime dos Estados Unidos da América, além de ter iniciado a emancipação da literatura do seu país
do costume de imitar os europeus.

Esta manhã, antes do alvorecer, subi numa colina para admirar o céu povoado,
E disse à minha alma: Quando abarcarmos esses mundos e o conhecimento e o prazer que encerram, estaremos finalmente fartos e
satisfeitos?
E minha alma disse: Não, uma vez alcançados esses mundos prosseguiremos no caminho.
(Walt Whitman)

O estranho sonho de Lincoln
Uns dias antes de ser baleado, o Presidente Lincoln, que estava longe de ser o caipira santarrão da lenda popular, contou a seu secretário
John Hay um estranho sonho. Na verdade, um pesadelo. Nele vira várias pessoas correndo em direção ao Salão Leste da Casa Branca, onde foi
encontrar seu próprio corpo estirado e ouviu vozes dizendo "Lincoln está morto”. Nas vésperas do atentado, na noite de 13 de abril de 1865, teve
ainda outro. Aparecia como o comandante de um navio que, em meio a uma tormenta, se aproximava do porto de destino, mas sua sensação é
que não concluiria a viagem.

A morte do capitão
Não se sabe como o poeta Walt Whitman tomou conhecimento desse sonho, mas serviu de mote para que compusesse uma das mais belas
elegias da língua inglesa moderna. O poeta se coloca como integrante da tripulação de um barco que, depois de terríveis desafios - a dolorosa guerra
civil entre o Norte e o Sul, de 1861 a 1865 - consegue finalmente se aproximar do cais. Mas, justamente no momento da euforia, verifica que o
capitão sucumbira repentinamente. Lá estava ele envolto em gotas de sangue vermelho: “Where on the deck my Captain lies / Fallen cold and dead.”
Por mais que tente reanimá-lo, não mais lhe responde. Não escuta mais a multidão que exulta lá fora. Ignora o toque dos clarins e os ramalhetes de
flores, nem vê a bandeira içada em sua honra. Enquanto o povo ainda desconhece o ocorrido e comemora o fim da aventura, o poeta-marinheiro
Whitman anda com tristeza pelo convés onde jaz seu capitão, caído, frio e morto.

3
Fonte: http://educativa.terra.com.br/voltaire/mundo/whitman.htm
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Outros poemas de Whitman:

A NOISELESS PATIENT SPIDER

A noiseless patient spider,
I mark’d where on a little promontory it stood isolated,
Mark’d how to explore the vacant vast surrounding,
It launch’d forth filament, filament, filament, out of itself.
Ever unreeling them, ever tirelessly speeding them.

And you O my soul where you stand,
Sorrounded, detached, in measureless oceans of space,
Ceaselessly musing, venturing, throwing, seeking the spheres to connect them,
Till the bridge you will need be form’d, till the ductile anchor hold,
Till the gossamer tread you fling catch somewhere, O my soul.

SONG OF MYSELF
Walt Whitman, a kosmos, of Manhattan the son,
Turbulent, fleshy, sensual, eating, drinking and breeding,
No sentimentalist, no stander above men and women or
apart from them,
No more modest them immodest.

Unscrew the locks from the doors!
Unscrew the doors themselves from their jambs!

Whoever degrades another degrades me.
And whatever is done or said returns at last to me.

I speak the pass-word primeval, I give the sign of democracy,
By God! I will accept nothing which all cannot have their
counterpart of on the same terms.

(...)
Through me forbidden voices,
Voices of sexes and lusts, voices veil’d and I remove the veil,
Voices indecent by me clarified and transfigur’d.

I do not press my fingers across my mouth,
I keep as delicate around the bowels as around the head and heart,
Copulation is no more rank to me than death is.

(from Leaves of Grass)
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PROFA: ADRIANA SILENE VIEIRA
EMILY DICKINSON
Emily Dichinson nasceu em Amhest, Massachussets, a 10 de dezembro de 1830 e faceceu a 15 de maio de 1886.
Suas formas de vida foram a solidão e a poesia. Seus relacionamentos eram por correspondência com Thomas Higginson, com a família
Bowles, com Helen Hunt Jachson e outros raros, pois Emily tinha poucos conhecidos fora da família.
Com o passar do tempo, ela transformou-se em uma eremita, não saindo de casa.
Emily estudou durante sete anos na “Amhrest Academy” e durante um ano no “Mount Holyoke Female Seminary”, mas dizia que sua
verdadeira instrução foi na biblioteca da família, onde teve contatos com Shakespeare e John Keats entre outros.
Poemas de E. Dickinson:
NOT EM VAIN

"If I can stop one heart from breaking,
I shall not live in vain;
If I can ease one life the aching,
Or cool one pain,
Or help one fainting robin
Up to his nest again,
I shall not live in vain."

Não terei vivido em vão4
(Trad de m. c. ferreira)
se eu puder impedir a dor
de um coração ruindo
ou minorar minha dívida
dando alívio a uma vida
não terei vivido em vão

recobrando a um passarinho
seu sol bemol sustenido
também não

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A CHARM5

A Charm invests a face
Imperfectly beheld –
The Lady dare not lift her Veil
For fear it be dispelled –

But peers beyond her mesh –
And whishes – and denies –
Lest Interview – annul a want –
That Image – satisfies –

(Encanto veste um rosto / Não mais do que entrevisto – /
Erguer o véu não ousa a dama / Por medo que lhe fuja – // Mas olha
além da trama – / Deseja – e logo nega – / Teme que a vista anule a
falta – / Que a imagem satisfaz)

5
Poema retirado do livro Conhecimento Proibido. Cia das
Letras.
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I FELT A FUNERAL, IN MY BRAIN

I felt a Funeral, in my Brain,
And Mourners to and fro
Kept treading – treading – till it seemed
That Sense was breaking through –

And when they all were seated,
A service, like a Drum –
Kept beating – beating – till I thought
My Mind was going numb –

And then I heard them lift a Box
And creak across my Soul
With those same Boots of Lead, again,
Then Space – began to toll,

As all the Heavens were a Bell,
And Being, but an Ear,
And I, and Silence, some strange Race
Wrecked, solitary, here –

And then a Plank in Reason, broke,
And I dropped down, and down –
And hit a World, at every plunge,
And Finished Knowing – then –

Tradução 6
Senti um funeral no cérebro
os parentes andavam de um lado para o outro
em arrasto – em arrasto – até chegar um parecimento
de que o sentido perecia totalmente –
quando todos se sentaram
uma liturgia como um tambor –
começou a bater – batentes – até pensar
que a minha mente tinha ficado muda –
depois ouvi-os levantar o caixão
rangendo-me através da alma
com as mesmas botas de chumbo, de novo,
o espaço – começou a repicar
como se todos os céus fossem de sinos
e houvesse uma única orelha
e eu, e o silêncio, uma raça esquisita
náufraga, solitária, aqui –
depois um vazio na razão, partiu-se,
caí, caí –
e dei com um mundo, em cada mergulho,
e fiquei a saber – então –
[trad: aam]

CINCO POEMAS DE EMILY DICKINSON TRADUZIDOS POR MANUEL BANDEIRA

À porta de Deus Ladrão, banqueiro, pai,
Duas vezes perdi tudo Estou pobre mais uma vez.
E fui debaixo da terra.
Duas vezes parei mendiga Beleza e verdade
À porta de Deus. Morri pela beleza, mas apenas estava
Acomodada em meu túmulo,
Duas vezes os anjos, descendo dos céus, Alguém que morrera pela verdade
Reembolsaram-me de minhas provisões. Era depositado no carneiro contíguo.

6
http://incomunidade.blogspot.com/2007/07/silvina-ocampo-versa-emily-dickinson.html
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PROFA: ADRIANA SILENE VIEIRA

Perguntou-me baixinho o que me matara:
– A beleza, respondi.
– A mim, a verdade – é a mesma coisa,
Somos irmãos.

E assim, como parentes que uma noite se encontram,
Conversamos de jazigo a jazigo,
Até que o musgo alcançou os nossos lábios
E cobriu os nossos nomes.

Nunca vi um campo de urzes
Nunca vi um campo de urzes.
Também nunca vi o mar.
No entanto sei a urze como é,
Posso a onda imaginar.

Nunca estive no Céu,
Nem vi Deus. Todavia
Conheço o sítio como se
Tivesse em mãos um guia.

Cemitério
Este pó foram damas, cavalheiros,
Rapazes e meninos;
Foi riso, foi espírito e suspiro,
Vestidos, tranças finas.

Este lugar foram jardins que abelhas
E flores alegraram.
Findo o verão, findava o seu destino...
E como estes, passaram.

Minha vida acabou duas vezes
Já morri duas vezes, e vivo.
Resta-me ver enfim
Se terceira vez na outra vida
Sofrerei assim

Dor tão funda e desesperada,
O pungir quotidiano e eterno.
Só sabemos do Céu o que é adeus,
Basta a saudade como inferno.
Mark Twain7

William Dean Howells afirmou uma vez que o Oeste Americano poderia ser descrito “sem o sentido de nenhuma civilização mais velha
que ele. O Leste, por sua vez, “sempre olhando com medo sobre seus ombros, para a Europa” Por causa desta liberdade, os escritores do Oeste foram
capazes de criar a primeira literatura totalmente americana, representando toda a nação. O trabalho de MARK TWAIN (1835-1910; cujo nome
verdadeiro era Samuel Clemens) é o melhor exemplo deste novo panorama.
Charles Dickens, o romancista inglês, descreveu o rio Mississippi como um horrível lamaçal. Com Twain, entretanto, ele tornou-se “toda a
existência” e um símbolo importante da “jornada humana”. Ele cresceu próximo a um rio, em Hannibal, Missouri. Embora a pequena cidade fosse
longe dos centros da cultura da costa Leste, foi o lugar perfeito para o jovem Twain crescer. Ali, ele pôde ouvir muitas lendas dos índios e ouvir as
histórias dos escravos negros. Mas a vida no rio também o influenciou bem mais. A chegada dos grandes navios a vapor excitou os sonhos de
aventura de sua infância.
Por quatro anos, a partir de 1857, Twain trabalhou como piloto de um destes barcos. Mais tarde, ele escreveu o famoso Life in Mississippi
(Vida no Mississipi, 1883), baseado em suas românticas memórias. Quando a Guerra Civil acabou com os negócios com os navios, ele foi para
Nevada com seu irmão. De lá ele foi para a Califórnia, onde trabalhou em um jornal. Em 1865, Twain tornou-se nacionalmente famoso com seu
conto The Celebrated Jumping Frog (A célebre rã saltadora do condado de Caraveras). Baseado em histórias que ele ouvia nas minas da Califórnia, o
conto trata de um estrangeiro aparentemente inocente que engana o dono de uma famosa rã competidora. O estranho enche o estômago da rã
saltadora com bolas de metal pesado. Esta é uma típica história de humor do Oeste chamada “hoax” (enganação/ludibrio). Assim como o de outros
humoristas do Oeste, o trabalho de Twain é cheio de histórias sobre como pessoas comuns mostram-se espertas, ou como os fracos vencem
“engambelando” os fortes. A personagem mais famosa de Twain, Huck Finn, é um mestre nisso.
Em 1867, o jornal de Twain enviou-o para a Europa e a Terra Santa. Quando suas cartas foram publicadas, ele tornou-se um herói literário
americano. As cartas se transformaram em seu primeiro grande livro The Innocents Abroad (Os inocentes no exterior, 1869). O livro mostra
claramente a “democrática” aversão da aristocracia européia. Quando ele é levado a ver as grandes e antigas pinturas, ele se recusa a exaltá-las. O que
ele faz, de fato, são gozações a seu guia, fazendo questões tremendamente estúpidas. Embora critique os europeus, Twain é muito mais crítico aos
turistas americanos na Europa. Ele ri dos turistas que fingem estar maravilhados com os tesouros da arte que eles vêem lá. Eles só estão maravilhados
porque seus guias de viagem dizem a eles que devem ficar desse jeito. Ele ataca também os turistas em Jerusalém que mostram falsos sentimentos
religiosos. Em 1880, Twain tenta escrever outro livro humorístico sobre a viagem à Europa, A Tramp Abroad (Um vagabundo no exterior), mas este
acaba não sendo tão original e nem tão divertido quando o primeiro.
The Innocents Abroad criou o modelo para o próximo livro importante de Twain, Roughing lt (1872), sobre suas viagens ao distante Oeste.
Este livro também se inicia como uma série de artigos de jornal. Ele nos dá uma clara imagem das pessoas que ele encontra; os cowboys, os
motoristas, os criminosos e os homens da lei. Embora este não seja um dos grandes livros de Twain, é muito engraçado. Ele faz muitas gozações e
mostra outra forma de humor ocidental, o "tall tale" (alto conto). Em um episódio, um búfalo enfurecido sobe em uma árvore para caçar um caçador,
e em outro um camelo choca-se com a morte (em uma das anotações de Twain).
O período da Guerra Civil foi um tempo em que um pequeno número de negociantes milionários conquistou grande poder na sociedade
americana. As casas das pessoas ricas pareciam palácios e muitas pessoas pensavam nesse período como a “Era do Ouro”. Mas o ouro estava apenas
na superfície. Por dentro, a sociedade americana estava cheia de crime e injustiça social. Esta era, de fato, uma “Era dourada”: o ouro estava apenas
na superfície. Mark Twain criou esta frase para seu próximo romance, The Gilded Age (1873), em co-autoria com Charles Warner. Este foi um dos
primeiros romances que tentaram descrever a nova moralidade (ou imoralidade) da América pós Guerra Civil. Um dos novos elementos deste
romance é que ele cria uma representação de toda a nação e não apenas de uma única região. Embora tenha um pouco dos personagens humorísticos
de Twain, o tema real é a perda, pela América, de seu velho idealismo. O livro descreve como um grupo de jovens é moralmente destruído pelo
sonho de enriquecer.
As Aventuras de Tom Sawyer (1876), de Twain, é uma história sobre “maus meninos”, um tema popular na literatura Americana. Os dois
heróis, Tom e Huck Finn, são “maus” apenas porque eles lutam contra a estupidez do mundo adulto. No final, eles vencem. Twain cria um alto
realismo para sua história. Ele parece conhecer a vila muito bem, com muitas personagens cheias de cor, seu cemitério e a casa em que se acredita
que exista um fantasma. Embora haja muitas semelhanças entre Tom e Huck, há também diferenças importantes. Twain estuda a psicologia dos
personagens cuidadosamente. Tom é muito romântico. Sua visão de mundo vem dos livros sobre os cavalheiros da Idade Média. Um assobio de
Huck do lado de fora da Janela de Tom chama-o para uma noite de aventuras. Além disso, Tom sempre pode voltar para a casa de sua Tia Polly.
Huck não tem um lar de verdade. Mas no final do romance, podemos ver Tom crescendo. Logo ele fará parte do mundo adulto. Huck, entretanto, é
um “de fora”. Ele teve uma vida dura e nunca viu o mundo da maneira romântica como Tom vê.
Alguns críticos reclamam dizendo que Twain escreve bem somente quando trata de pessoas jovens. Eles dizem que sua psicologia é apenas
uma psicologia de criança. Isto pode ser verdade. Mas em seu melhor romance, The Adventures of Huckleberry Finn (Aventuras de Huclebery Finn,
1884), Twain dá a seu jovem herói verdadeiros problemas de adultos. Huck e um escravo fugido, Jim, descem pelo Rio Mississipi em uma jangada.
Durante a viagem, nas várias cidades e vilas do caminho, Huck aprende sobre a maldade do mundo. Huck, entretanto, está em face de um grande
problema moral. As leis da sociedade dizem que ele deve restituir Jim para seu “dono”. Mas, na parte mais importante do livro, ele decide que o
escravo é um homem, não uma “coisa”. Ele pensa profundamente sobre a moralidade e então decide infringir a lei. Depois disso, ele deixa de ser uma
criança. Muitos vêem The Adventures of Huckleberry Finn como um grande romance sobre a democracia americana. Ele mostra a bondade básica
que tem sido também denominada “a sabedoria de vida de pessoas comuns. O romance tem sido chamado também de “escola de muitos escritores do
oeste”. Um destes escritores, Sherwood Anderson, utilizou este romance como um modelo para seu Winesburg, Ohio (1919). Ernest Hemingway,
cujo estilo é baseado no de Twain, disse uma vez, que “Toda a moderna literatura norte-americana vem de Huckleberry Finn.”
Em seu último romance, Twain parece menos esperançoso sobre a democracia. Em A Connecticut Yankee in the King Arthur’s Court
(1889), o herói é o chefe de uma fábrica. Ele é atingido na cabeça e acorda na Inglaterra do século dezesseis. Por ser um inventor do século dezenove,
começa a modernizar aquele mundo, e, por causa de seu grande conhecimento, acaba se tornando uma espécie de ditador, chamado “o patrão”. Aqui,
Twain parece estar louvando de várias maneiras, tanto a tecnologia quanto a liderança dos empresários americanos durante a “Era Dourada”. Como
os heróis de Twain, os empresários achavam que sabiam mais que as pessoas simples.
O pessimismo de Twain tornou-se mais e mais profundo. Em The Man That Corrupted Hadleyburg (1900), ele descreve uma cidade que
era famosa por sua honestidade. No final, todo mundo na cidade começou a mentir para obter uma grande mala de ouro. A obra The $30,000 Request
(1904) é outra história com o mesmo tema. Em The Mysterious Stranger (publicado em 1916, depois da morte de Twain, um anjo visita três garotos

7
Outline, p. 79-83. Tradução Adriana Silene Vieira.
em uma vila inglesa da Idade Média. Ele se torna amigo dos garotos e mostra a eles a maldade dos seres humanos. Depois de acabar com sua
felicidade, ele finalmente revela que é Satan. Twain via a humanidade como uma espécie de máquina. “Eu não vejo grande diferença entre um
homem e um relógio, exceto o fato de que o homem é consciente e o relógio não.” A maldade do mundo vem do fato de algo estar errado com a
máquina.
De um extremo ao outro dos escritos de Twain, vemos os conflitos entre os ideais dos americanos e seu desejo de dinheiro. Twain nunca
tenta resolver o conflito. Ele não é um intelectual. Ele é como um jornalista que relata o que vê. Seu humor é freqüentemente mais que infantil.
Depois de você ler um dos trabalhos de Twain, veja se você concorda com a opinião de um crítico. (P. Abel): “Twain foi sempre um menino e um
velho, mas nunca foi um homem”.