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O Gato Preto

Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante
doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus
próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não
sonho. Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito
imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples
acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram,
torturaram e instruíram.

No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror _
mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja
alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum _ uma inteligência mais serena, mais
lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com
terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.

Desde a infância, tomaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de
meu coração era tão evidente, que me tomava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava,
especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com
eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os
acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu caráter e, quando me tomei adulto, fiz
dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz,
não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter
com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca
diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões freqüentes de comprovar a amizade mesquinha
e a frágil fidelidade de um simples homem.

Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o
meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais
agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um
gato.

Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade.
Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto
supersticiosa, fazia freqüentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são
feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque
aconteceu lembrar-me disso neste momento.

Pluto _ assim se chamava o gato _ era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o
alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me
acompanhasse pela rua.

Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu
temperamento _ enrubesço ao confessá-lo _ sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma
modificação radical para pior. Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente
aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher.
No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança
operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava.
Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de
maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o
cão, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho. Meu mal, porém, ia tomando conta de
mim _ que outro mal pode se comparar ao álcool? _ e, no fim, até Pluto, que começava agora a
envelhecer e, por conseguinte, se tomara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os
efeitos de meu mau humor.

Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a
impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha
violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se,
instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma
abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar
todas as fibras de meu ser.Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e,
friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos! Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao
referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.
Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão _ dissipados já os vapores de minha orgia noturna,
experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas
não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível.
Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera.

Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um
aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume,
mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-
me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente
aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se
transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito
da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como
existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano - uma
das faculdades, ou sentimentos primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu,
centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia
cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do
nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse
espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondável desejo da
alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio
mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo
animal. Uma manhã, a sangue frio, meti-lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no
galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais
amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera
motivo algum para que me voltasse contra ele. Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um
pecado _ um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era
possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.

Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de "fogo!". As
cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que
minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os
meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero.

Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito - entre o desastre e a atrocidade por
mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos
dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com
exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino
tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O
reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo _ coisa que atribuí ao fato de ter sido ele
construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas
examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela, As palavras "estranho!",
"singular!", bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me
e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A
imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em tomo do pescoço do
animal.

Logo que vi tal aparição, pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa, o assombro e
terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O
gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos de alarma, o jardim
fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter retirado o animal da árvore, lançando-o,
através de uma janela aberta, para dentro do meu quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a
intenção de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vítima de minha
crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de pé. A cal do muro,
com as chamas e o amoníaco desprendido da carcaça, produzira a imagem tal qual eu agora a via.

Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira
completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de
causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do
gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia
remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos
sórdidos lugares que então freqüentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante
que pudesse substituí-lo.

Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção
despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de
genebra ou rum, que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos
que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que
havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era um gato preto, enorme _ tão grande
quanto Pluto _ e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um
único pêlo branco em todo o corpo _ e o bichano que ali estava possuía uma mancha larga e branca,
embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do peito.

Ao acariciar-lhe o dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em minha
mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. Era, pois, o animal que eu procurava. Apressei-
me em propor ao dono a sua aquisição, mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não o
conhecia; jamais o vira antes.

Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição de
acompanhar-me. Permiti que o fizesse _ detendo-me, de vez em quando, no caminho, para acariciá-
lo. Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse a casa, tomando-se, logo, um
dos bichanos preferidos de minha mulher.

De minha parte, passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que
eu esperava. Mas a verdade é que - não sei como nem por quê _ seu evidente amor por mim me
desgostava e aborrecia. Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais
amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como a lembrança da crueldade que
praticara, impediam-me de maltratá-lo fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati nem
pratiquei contra ele qualquer violência; mas, aos poucos - muito gradativamente _ , passei a sentir
por ele inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de sua odiosa presença, como se fugisse de uma
peste.

Sem dúvida, o que aumentou o meu horror pelo animal foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao
que o levei para casa, que, como Pluto, também havia sido privado de um dos olhos. Tal
circunstância, porém, apenas contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois,
como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos que constituíra, em outros
tempos, um de meus traços principais, bem como fonte de muitos de meus prazeres mais simples e
puros.

No entanto, a preferência que o animal demonstrava pela minha pessoa parecia aumentar em razão
direta da aversão que sentia por ele. Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente
poderia fazer com que o leitor compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava-se embaixo de
minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas odiosas carícias. Se me levantava para
andar, metia-se-me entre as pernas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas
garras em minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de
matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior,
mas, sobretudo _ apresso-me a confessá-lo _ , pelo pavor extremo que o animal me despertava. Esse
pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira.
Quase me envergonha confessar _ sim, mesmo nesta cela de criminoso _ , quase me envergonha
confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais
puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o
aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele
estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal,
embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase
imperceptível _ que a minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa _,
adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja
menção me faz tremer... E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e
repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma
coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de
agonia e de morte!

Na verdade, naquele momento eu era um miserável _ um ser que ia além da própria miséria da
humanidade. Era uma besta-fera, cujo irmão fora por mim desdenhosamente destruído... uma besta-
fera que se engendrara em mim, homem feito à imagem do Deus Altíssimo. Oh, grande e insuportável
infortúnio! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do descanso! Durante o
dia, o animal não me deixava a sós um único momento; e, à noite, despertava de hora em hora,
tomado do indescritível terror de sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme
peso _ encarnação de um pesadelo que não podia afastar de mim _ pousado eternamente sobre o
meu coração!

Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. Pensamentos maus
converteram-se em meus únicos companheiros _ os mais sombrios e os mais perversos dos
pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas e por toda a
humanidade _ e enquanto eu, agora, me entregava cegamente a súbitos, freqüentes e irreprimíveis
acessos de cólera, minha mulher - pobre dela! - não se queixava nunca convertendo-se na mais
paciente e sofredora das vítimas.
Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o porão do velho edifício
em que nossa pobreza nos obrigava a morar, O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada
abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror
pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que teria sido mortal, se
atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria
demoníaca, livrei o braço do obstáculo que o detinha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha
mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido.

Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que
não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos.

Ocorreram-me vários planos. Pensei, por um instante, em cortar o corpo em pequenos pedaços e
destruí-los por meio do fogo. Resolvi, depois, cavar uma fossa no chão da adega. Em seguida, pensei
em atirá-lo ao poço do quintal. Mudei de idéia e decidi metê-lo num caixote, como se fosse uma
mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o retirasse da casa. Finalmente, tive
uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges
da Idade Média com as suas vítimas.

Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com
muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a
umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por
alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei
de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo
modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita. E não me enganei
em meus cálculos. Por meio de uma alavanca, desloquei facilmente os tijolos e tendo depositado o
corpo, com cuidado, de encontro à parede interior. Segurei-o nessa posição, até poder recolocar, sem
grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como estavam anteriormente. Arranjei cimento, cal e
areia e, com toda a precaução possível, preparei uma argamassa que não se podia distinguir da
anterior, cobrindo com ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao terminar, senti-me satisfeito, pois
tudo correra bem. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido rebocada. Limpei o chão com o
maior cuidado e, lançando o olhar em tomo, disse, de mim para comigo: "Pelo menos aqui, o meu
trabalho não foi em vão".

O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera,
finalmente, matá-lo. Se, naquele momento, tivesse podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à
sua sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de minha cólera, e procurava
não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele estado de espírito. Impossível
descrever ou imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão detestável
felino. Não apareceu também durante a noite _ e, assim, pela primeira vez, desde sua entrada em
casa, consegui dormir tranqüila e profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso daquele assassínio
sobre a minha alma.

Transcorreram o segundo e o terceiro dia _ e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente,
como homem livre. O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa. Não tomaria a vê-lo! Minha
felicidade era infinita! A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava. Foram feitas algumas
investigações, mas respondi prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria
em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como coisa certa a
minha felicidade futura.

No quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou,
de novo, rigorosa investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em
que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais pediram-me que os
acompanhasse em sua busca. Não deixaram de esquadrinhar um canto sequer da casa. Por fim, pela
terceira ou quarta vez, desceram novamente ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse. Meu
coração batia calmamente, como o de um inocente. Andei por todo o porão, de ponta a ponta. Com os
braços cruzados sobre o peito, caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia estava
inteiramente satisfeita e preparava-se para sair. O júbilo que me inundava o coração era forte demais
para que pudesse contê-lo. Ardia de desejo de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de
triunfo, e também para tomar duplamente evidente a minha inocência.

_ Senhores _ disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada _ , é para mim motivo de grande
satisfação haver desfeito qualquer suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco
mais de cortesia. Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída...
(Quase não sabia o que dizia, em meu insopitável desejo de falar com naturalidade.) Poderia, mesmo,
dizer que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes _ os senhores já se vão? _ , estas
paredes são de grande solidez.
Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na
mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração.

Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma
voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os
soluços de uma criança; depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo,
completamente anormal e inumano. Um uivo, um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo,
como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos
demônios exultantes com a sua condenação.

Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede
oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror.
Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já
em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos
dos presentes.

Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o
animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco.
Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!

Por; FERNANDO PESSOA
(1888-1935)

O CORVO
Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.
É só isso e nada mais.»

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão) a amada, hoje entre hostes celestiais —
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,
«É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isso e nada mais».

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
«Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi...» E abri largos, franquendo-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isto só e nada mais.

Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
«Por certo», disse eu, «aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.»
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
«É o vento, e nada mais.»

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
«Tens o aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.»
Disse-me o corvo, «Nunca mais».

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome «Nunca mais».

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, «Amigo, sonhos — mortais
Todos — todos lá se foram. Amanhã também te vais».
Disse o corvo, «Nunca mais».

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
«Por certo», disse eu, «são estas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este «Nunca mais».

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele «Nunca mais».

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-me então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
«Maldito!», a mim disse, «deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

«Profeta», disse eu, «profeta — ou demónio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

«Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!, eu disse. «Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!»
Disse o corvo, «Nunca mais».

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demónio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,
E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!

Edgar Allan Poe.In: Histórias Extraordinárias.

a filosofia da composição, de Edgar Allan Poe

Charles Dickens, numa nota que agora está à minha frente, aludindo a
uma análise que fiz, certa vez, do mecanismo do Barnaby Rudge, diz:
"De passagem, sabe que Godwin escreveu seu Caleb Williams de trás
para diante? Envolveu primeiramente seu herói numa teia de
dificuldades, que formava o segundo volume, e depois, para fazer o
primeiro, ficou procurando um modo de explicar o que havia feito."

Não posso imaginar que esse seja o modo preciso de proceder de
Godwin, e, de fato, o que ele próprio confessa não está
completamente de acordo com a idéia do Sr. Dickens. Mas o autor de
Caleb Williams era muito bom artista para deixar de perceber a
vantagem procedente de um processo pelo menos um tanto semelhante.
Nada é mais claro do que deverem todas as intrigas, dignas desse
nome, ser elaboradas em relação ao epílogo antes que se tente
qualquer coisa com a pena. Só tendo o epílogo constantemente em
vista poderemos dar a um enredo seu aspecto indispensável de
conseqüência, ou casualidade, fazendo com que os incidentes e,
especialmente, o tom da obra tendam para o desenvolvimento de sua
intenção.

Há um erro radical, acho, na maneira habitual de construir-se uma
ficção. Ou a história nos concede uma tese ou uma é sugerida por um
incidente do dia; ou, no melhor caso, o autor senta-se para formar
simplesmente a base da narrativa, planejando, geralmente, encher de
descrições, diálogos ou comentários autorais todas as lacunas do
fato ou da ação que se possam tornar aparentes, de página a página.

Eu prefiro começar com a consideração de um efeito. Mantendo sempre
a originalidade em vista (pois é falso a si mesmo quem se arrisca a
dispensar uma fonte de interesse tão evidente e tão facilmente
alcançável), digo-me, em primeiro lugar: "Dentre os inúmeros efeitos
ou impressões a que são suscetíveis o coração, a inteligência ou,
mais geralmente, a alma, qual irei eu, na ocasião atual, escolher?"
Tendo escolhido primeiro um assunto novelesco e depois um efeito
vivo, considero se seria melhor trabalhar com os incidentes ou com o
tom – com os incidentes habituais e o tom especial ou com o
contrário, ou com a especialidade tanto dos incidentes quanto do tom
– depois de procurar em torno de mim (ou melhor, dentro) aquelas
combinações de tom e acontecimento que melhor me auxiliem na
construção do efeito.

Muitas vezes pensei quão interessantemente podia ser escrita uma
revista por um autor que quisesse – isto é, que pudesse –
pormenorizar, passo a passo, os processos pelos quais qualquer uma
de suas composições atingia seu ponto de acabamento. Por que uma
publicação assim nunca foi dada ao mundo é coisa que não sei
explicar, mas talvez a vaidade dos autores tenha mais
responsabilidade por essa omissão do que qualquer outra causa.
Muitos escritores – especialmente os poetas – preferem ter por
entendido que compõem por meio de uma espécie de sutil frenesi, de
intuição extática, e positivamente estremeceriam ante a idéia de
deixar o público dar uma olhadela, por trás dos bastidores, para as
rudezas vacilantes e trabalhosas do pensamento, para os verdadeiros
propósitos só alcançados no último instante, para os inúmeros
relances de idéias que não chegam à maturidade da visão completa,
para as imaginações plenamente amadurecidas e repelidas em
desespero, como inaproveitáveis, para as cautelosas seleções e
rejeições, as dolorosas emendas e interpelações, numa palavra: para
as rodas e rodinhas, os apetrechos de mudança do cenário, as
escadinhas e os alçapões do palco, as penas de galo, a tinta
vermelha e os disfarces postiços que, em noventa e nove por cento
dos casos, constituem a característica do histrião literário.

Bem sei, de outra parte, que de modo algum é comum o caso em que um
autor esteja absolutamente em condições de reconstituir os passos
pelos quais suas conclusões foram atingidas. As sugestões, em geral,
tendo-se erguido em tumulto, são seguidas e esquecidas de maneira
semelhante.

Quanto a mim, nem simpatizo com a repugnância acima aludida nem, em
qualquer tempo, tive a menor dificuldade em relembrar os passos
progressivos de qualquer de minhas composições; e, desde que o
interesse de uma análise ou reconstrução, tal como a que tenho
considerado um desideratum, é inteiramente independente de qualquer
interesse real ou imaginário na coisa analisada, não se deve encarar
como falta de decoro de minha parte o mostrar o modus operandi pelo
qual uma de minhas próprias obras se completou. Escolhi O Corvo,
como a mais geralmente conhecida. É meu desígnio tornar manifesto
que nenhum ponto de sua composição se refere ao acaso ou à intuição,
que o trabalho caminhou, passo a passo, até completar-se, com a
precisão e a seqüência rígida de um problema matemático.
Deixamos de parte, por ser sem importância para o poema per se, a
circunstância ou, digamos, a necessidade que em primeiro lugar deu
origem à intenção de compor um poema que, a um tempo, agradasse ao
gosto do público e da crítica.

Comecemos, pois, a partir dessa intenção.

A consideração inicial foi a da extensão. Se alguma obra literária é
longa demais para ser lida de uma assentada, devemos resignar-nos a
dispensar o efeito imensamente importante que se deriva da unidade
de impressão, pois, se se requerem duas assentadas, os negócios do
mundo interferem e tudo o que se pareça com totalidade é
imediatamente destruído. Mas, visto como, ceteris paribus, nenhum
poeta pode permitir-se dispensar qualquer coisa que possa auxiliar
seu intento, resta a ver se há, na extensão, qualquer vantagem que
contrabalance a perda de unidade resultante. Digo logo que não há. O
que denominamos um poema longo é, de fato, apenas a sucessão de
alguns curtos, isto é, de breves efeitos poéticos. É desnecessário
demonstrar que um poema só o é quando emociona, intensamente,
elevando a alma; e todas as emoções intensas, por uma necessidade
psíquica, são breves. Por essa razão, pelo menos metade do Paraíso
Perdido é essencialmente prosa, pois uma sucessão de emoções
poéticas se intercala, inevitavelmente, de depressões
correspondentes; e o conjunto se vê privado, por sua extrema
extensão, do vastamente importante elemento artístico: a totalidade
ou unidade de efeito.

Parece evidente, pois, que há um limite distinto no que se refere à
extensão: para todas as obras de arte literária, o limite de uma só
assentada; e que, embora em certas espécies de composição em prosa,
tais como Róbinson Crusoé (que não exige unidade), esse limite possa
ser vantajosamente superado, nunca poderá ser ele ultrapassado
convenientemente por um poema. Dentro desse limite a extensão de um
poema deve ser calculada para conservar relação matemática com seu
mérito; noutras palavras: com a emoção ou elevação; ou ainda em
outros termos: com o grau de verdadeiro efeito poético que ele é
capaz de produzir. Pois é claro que a brevidade deve estar na razão
direta da intensidade do efeito pretendido, e isto com uma condição:
a de que certo grau de duração é exigido, absolutamente, para a
produção de qualquer efeito.

Tendo em vista essas considerações, assim como aquele grau de
excitação que eu não colocava acima do gosto popular nem abaixo do
gosto crítico, alcancei logo o que imaginei ser a extensão
conveniente para meu pretendido poema: uma extensão de cerca de cem
versos. De fato, ele tem cento e oito.

Meu pensamento seguinte referiu-se à escolha de uma impressão ou
efeito a ser obtido; e aqui bem posso observar que, através de toda
a elaboração, tive firmemente em vista o desejo de tornar a obra
apreciável por todos. Seria levado longo demais meu assunto imediato
se fosse demonstrar um ponto sobre o qual tenho repetidamente
insistido e que, entre poetas, não tem a menor necessidade de
demonstração; refiro-me ao ponto de que a Beleza é a única província
legítima do poema. Poucas palavras, contudo, para elucidar meu
verdadeiro pensamento, que alguns de meus amigos tiveram a
inclinação para interpretar mal. O prazer que seja ao mesmo tempo o
mais intenso, o mais enlevante e o mais puro é, creio eu, encontrado
na contemplação do belo. Quando, de fato, os homens falam de Beleza
querem exprimir, precisamente, não uma qualidade, como se supõe, mas
um efeito; referem-se, em suma, precisamente àquela intensa e pura
elevação da alma – e não da inteligência ou do coração – de que
venho falando e que se experimenta em conseqüência da contemplação
do "belo". Ora, designo a Beleza como a província do poema
simplesmente porque é evidente regra de arte que os efeitos deveriam
jorrar de causas diretas, que os objetivos deveriam ser alcançados
pelos meios melhor adaptados para atingi-los. E ninguém houve ainda
bastante tolo para negar que a elevação especial a que aludi é mais
prontamente atingida num poema. Quanto ao objetivo Verdade, ou a
satisfação do intelecto, e o objetivo Paixão, ou a excitação do
coração, são eles muito mais prontamente atingíveis na prosa, embora
também, até certa extensão, na poesia. A Verdade, de fato, demanda
uma precisão, e a Paixão uma familiaridade (o verdadeiramente
apaixonado me compreenderá) que são inteiramente antagônicas daquela
Beleza que, asseguro, é a excitação ou a elevação agradável da alma.
De modo algum se segue, de qualquer coisa aqui dita, que a paixão, e
mesmo a verdade, não possam ser introduzidas, proveitosamente
introduzidas até, num poema, porque elas podem servir para elucidar
ou auxiliar o efeito geral, como as discordâncias em música, pelo
contraste; mas o verdadeiro artista sempre se esforçará, em primeiro
lugar, para harmonizá-las na submissão conveniente ao alvo
predominante e, em segundo lugar, para revesti-las, tanto quanto
possível, daquela Beleza que é a atmosfera e a essência do poema.

Encarando, então, a Beleza como a minha província, minha seguinte
questão se referia ao tom de sua mais alta manifestação, e todas as
experiências têm demonstrado que esse tom é o da tristeza. A beleza
de qualquer espécie, em seu desenvolvimento supremo, invariavelmente
provoca na alma sensitiva as lágrimas. A melancolia é, assim, o mais
legítimo de todos os tons poéticos.

Estando assim determinados a extensão, a província e o tom,
entreguei-me à indução normal, a fim de obter algum efeito artístico
agudo que me pudesse servir de nota-chave na construção do poema,
algum eixo sobre que toda a estrutura devesse girar. Passando
cuidadosamente em revista todos os efeitos artísticos usuais – ou,
mais propriamente, situações, no sentido teatral – não deixei de
perceber de imediato que nenhum tinha sido tão universalmente
empregado como o do refrão. A universalidade desse emprego bastou
para me assegurar de seu valor intrínseco e evitou-me a necessidade
de submetê-lo à análise. Considerei-o, contudo, em relação à sua
suscetibilidade de aperfeiçoamento e vi logo que ainda se achava num
estado primitivo. Como é comumente usado, o refrão poético ou
estribilho não só se limita ao verso lírico, mas depende, para
impressionar, da força da monotonia, tanto no som como na idéia. O
prazer somente se extrai pelo sentido de identidade, de repetição.
Resolvi fazer diversamente, e assim elevar o efeito, aderindo, em
geral, à monotonia do som, porém continuamente variando na idéia;
isto é, decidi produzir continuamente novos efeitos pela variação da
aplicação do estribilho, permanecendo este, na maior parte das
vezes, invariável.

Assentados tais pontos, passei a pensar sobre a natureza de meu
refrão. Desde que sua aplicação deveria ser repetidamente variada,
era claro que esse refrão deveria ser breve, pois haveria
insuperáveis dificuldades na aplicação de qualquer sentença extensa.
Em proporção à brevidade da sentença estaria, naturalmente, a
facilidade da variação. Isso imediatamente me levou a uma só palavra
como o melhor refrão.

Suscitou-se, então, a questão do caráter da palavra. Tendo-me
inclinado por um refrão, a divisão do poema em estâncias surgia,
naturalmente, como corolário, formando o refrão o fecho de cada
estância. Não cabia dúvida de que tal fecho, para ter força, devia
ser sonoro e suscetível de ênfase prolongada e tais considerações
inevitavelmente me levaram ao o prolongado, como a mais
aproveitável.
Ficando assim determinado o som do refrão, tornou-se necessário
escolher uma palavra que encerrasse esse som e, ao mesmo tempo, se
relacionasse o mais possível com a melancolia predeterminada como o
tom do poema. Em tal busca teria sido absolutamente impossível que
escapasse a palavra nevermore. De fato, foi ela a primeira que se
apresentou.

O desiderato seguinte era um pretexto para o uso contínuo da palavra
nevermore (nunca mais). Observando a dificuldade que já encontrara
em inventar razão suficientemente plausível para sua contínua
repetição, não deixei de perceber que essa dificuldade nascia
somente da presunção de que a palavra devia ser contínua ou
monotonamente pronunciada por um ser humano. Não deixei de perceber,
em suma, que a dificuldade estava em conciliar essa monotonia com o
exercício da razão por parte da criatura que repetisse a palavra.
Daí, pois, ergueu-se imediatamente a idéia de uma criatura não
racional, capaz de falar, e muito naturalmente foi sugerida, de
início, a de um papagaio, que foi logo substituída pela de um corvo,
como igualmente capaz de falar e infinitamente mais em relação com o
tom pretendido.

Eu já havia chegado à idéia de um corvo, a ave do mau agouro,
repetindo monotonamente a expressão "nunca mais" na conclusão de
cada estância de um poema de tom melancólico e extensão de cerca de
cem linhas. Então, jamais perdendo de vista o objetivo – o
superlativo, ou a perfeição em todos os pontos –, perguntei-me: "De
todos os temas melancólicos, qual, segundo a compreensão universal
da humanidade, é o mais melancólico?" A Morte – foi a resposta
evidente. "E quando – insisti – esse mais melancólico dos temas se
torna o mais poético?" Pelo que já explanei, um tanto
prolongadamente, a resposta também aí era evidente: "Quando ele é,
inquestionavelmente, o mais poético tema do mundo e, igualmente, a
boca mais capaz de desenvolver tal tema é a de um amante despojado
de seu amor."

Tinha, pois, de combinar as duas idéias: a de um amante lamentando
sua morta amada e a de um corvo continuamente repetindo a locução
"nunca mais". E tinha de combiná-las tendo em mente meu propósito de
variar, a cada vez, a aplicação da palavra repetida; mas a única
maneira inteligível de tal combinação era a de imaginar o corvo
empregando a palavra em resposta às perguntas do amante. E então aí
vi, imediatamente, a oportunidade concedida para o efeito do qual eu
tinha estado dependente, isto é, o efeito da variação da aplicação.
Vi que poderia fazer da primeira pergunta apresentada pelo amante –
a primeira pergunta a que o corvo deveria responder "nunca mais" –,
que poderia fazer dessa primeira pergunta um lugar-comum; da segunda
uma expressão menos comum; da terceira ainda menos, e assim por
diante, até que o amante, arrancado de sua displicência primitiva
pelo caráter melancólico da própria palavra, pela sua freqüente
repetição e pela consideração da sinistra reputação da ave que a
pronunciava, fosse afinal excitado à superstição e loucamente
fizesse perguntas de espécie muito diversa, perguntas cuja resposta
lhe interessavam apaixonadamente ao coração, fazendo-as num misto de
superstição e daquela espécie de desespero que se deleita na própria
tortura, fazendo-as não porque propriamente acreditasse no caráter
profético ou demoníaco da ave (que a razão lhe diz estar apenas
repetindo uma lição aprendida rotineiramente), mas porque
experimentaria um frenético prazer em organizar suas perguntas para
receber do esperado "nunca mais" a mais deliciosa, porque a mais
intolerável, das tristezas. Percebendo a oportunidade que assim se
me oferecia – ou, mais estritamente, que se me impunha no desenrolar
da composição –, estabeleci na mente o clímax ou a pergunta
conclusiva: aquela pergunta de que o "nunca mais" seria, pela última
vez, a resposta, aquela pergunta em resposta à qual o "nunca mais"
envolveria a máxima concentração possível de tristeza e de
desespero.

Aí, então, pode-se dizer que o poema teve seu começo: pelo fim, por
onde devem começar todas as obras de arte; porque foi nesse ponto de
minhas considerações prévias que, pela primeira vez, tomei do papel
e da pena para compor a estância:

"Prophet!", said I, "thing of evil! – prophet still, if bird or
devil!
By that heaven that bends above us – by that God we both adore –
Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore –
Clasp a rare and radiant maiden whom the angels name Lenore."
Quoth the Raven, "Nevermore".

Compus essa estância, nesse ponto, primeiramente porque,
estabelecendo o ponto culminante, melhor poderia variar e graduar,
no que se refere à seriedade e importância, as perguntas
precedentes, do amante; e, em segundo lugar, porque poderia
definitivamente assentar o ritmo, o metro, a extensão e o arranjo
geral da estância, assim como graduar as estâncias que a deviam
preceder, para que nenhuma delas pudesse ultrapassá-la em seu efeito
rítmico. Tivesse eu sido capaz na composição subseqüente, de
construir estâncias mais vigorosas, não teria hesitações em
enfraquecê-las propositadamente, para que não interferissem com o
efeito culminante.

E aqui bem posso dizer algumas palavras sobre versificação. Meu
primeiro objetivo, como de costume, era a originalidade. A amplitude
com que esta tem sido negligenciada na versificação é uma das coisas
mais inexplicáveis do mundo. Admitindo-se que haja pequena
possibilidade de variedade no ritmo, permanece claro, porém, que as
variedades possíveis do metro e da estância são absolutamente
infinitas; e, contudo, durante séculos, nenhum homem, em verso,
jamais fez ou jamais pareceu pensar em fazer uma coisa original. A
verdade é que a originalidade (a não ser em espíritos de força muito
comum) de modo algum é uma questão, como muitos supõem, de impulso
ou de intuição. Para ser encontrada, ela, em geral, tem de ser
procurada trabalhosamente e, embora seja um mérito positivo da mais
alta classe, seu alcance requer menos invenção que negação.

Sem dúvida, não pretendo que haja qualquer originalidade, quer no
ritmo, quer no metro de O Corvo. O primeiro é trocaico, e o segundo
octâmetro acatalético, alternando-se com um heptâmetro catalético
repetido no refrão do quinto verso, e terminando com um tetrâmetro
catalético. Falando menos pedantescamente, o pé empregado no poema
(troqueu) consiste de uma sílaba longa, seguida por uma curta; o
primeiro verso da estância compõe-se de oito desses pés; o segundo,
de sete e meio (de fato, dois terços); o terceiro de oito; o quarto
de sete e meio; o quinto de sete e meio; o sexto de três e meio.
Ora, cada um desses versos, tomado separadamente, tem sido empregado
antes, mas a originalidade que O Corvo tem está em sua combinação na
estância, nada já havendo sido tentado que mesmo remotamente se
aproximasse dessa combinação. O efeito dessa originalidade de
combinação é ajudado por outros efeitos incomuns, alguns
inteiramente novos, oriundos de uma ampliação da aplicação dos
princípios de rima e de aliteração.

O ponto seguinte a ser considerado era o modo de juntar o amante e o
corvo, e o primeiro ramo dessa consideração era o local. Para isso,
a sugestão mais natural seria a de uma floresta, ou a dos campos;
mas sempre me pareceu que uma circunscrição fechada do espaço é
absolutamente necessária para o efeito do incidente insulado e tem a
força de uma moldura para um quadro. Tem indiscutível força moral
para conservar concentrada a atenção e, naturalmente, não deve ser
confundida com a mera unidade de lugar.

Determinei, então, colocar o amante em seu quarto – num quarto para
ele sagrado pela recordação daquela que o freqüentara. O quarto é
apresentado como ricamente mobiliado, isso na simples continuação
das idéias que eu já tinha explanado a respeito da Beleza como a
única verdadeira tese poética.

Tendo sido assim determinado o local, tinha agora de introduzir a
ave, e o pensamento de introduzi-la pela janela era inevitável. A
idéia de fazer o amante supor, em primeiro lugar, que o tatalar das
asas da ave contra o postigo é um "batido" à porta originou-se dum
desejo de aumentar, pela prolongação, a curiosidade do leitor, e dum
desejo de admitir o efeito casual surgindo do fato de o amante abrir
a porta, achar tudo escuro e depois aceitar a semi-fantasia de que
fora o espírito de sua amada que batera.

Fiz a noite tempestuosa, primeiro para explicar por que o corvo
procurava entrar e, em segundo lugar, para efeito de contraste com a
serenidade (física) que reinava dentro do quarto.

Fiz o pássaro pousar no busto de Minerva, também para efeito de
contraste entre o mármore e a plumagem – sendo entendido que o busto
foi absolutamente sugerido pelo pássaro; escolhi o busto de Minerva,
primeiro, para combinar mais com a erudição do amante e, em segundo
lugar, pela sonoridade da própria palavra Minerva.

Pelo meio do poema, também, aproveitei-me da força do contraste,
tendo em vista aprofundar a impressão derradeira. Por exemplo, um ar
do fantástico – aproximando-se o mais possível do burlesco – é dado
à entrada do corvo. Ele entra "em tumulto, a esvoaçar".

Not the least obeisance made he – not a moment stoped or stayed he
But with mien of lord or lady, perched above my chamber door,
Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door.

Nas duas estâncias que se seguem, esse desígnio é ainda mais
evidentemente salientado:

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling
By the grave and stern decorum of the countenance it wore,
"Though thy crest be shorn and shaven thou", I said, "art sure no
craven
Ghastly grim and ancient Raven wandering from the nightly shore –
Tell me what thy lordly name is on the Night’s Plutonian shore?"
Quoth the Raven "Nevermore".

Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly
Though its answer little meaning – little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blessed with seeing bird above his chamber door –
Bird or beast upon the aculptured bust above his chamber door,
With such name as "Nevermore".

Sendo assim assegurado o efeito do desenvolvimento, imediatamente
troquei o fantástico por um tom da mais profunda seriedade,
começando esse tom na estância imediatamente seguinte à última
citada, com o verso:

But the Raven, sitting lonely on that placid bust spoke only, etc.

Daí para a frente, o amante não mais zomba, não mais vê qualquer
coisa de fantástico na conduta do Corvo. Fala dele como "horrendo
torvo, ominoso e antigo", sentindo "da ave, incandescente, o olhar"
queimá-lo "fixamente". Essa revolução do pensamento ou da imaginação
da parte do amante, destina-se a provocar uma semelhante da parte do
leitor, levar o espírito a uma disposição própria para o desenlace,
que é agora completado tão rápida e diretamente quanto possível.

Com o desenlace conveniente, com a resposta do corvo "Nunca mais" à
pergunta final do amante sobre se ele encontraria sua amada em um
outro mundo, o poema, em sua fase evidente, que é a da simples
narrativa, pode ser considerado como completo. Até aí, tudo está
dentro dos limites do explicável, do real. Um corvo, tendo aprendido
rotineiramente a dizer apenas a palavra Nevermore, e tendo escapado
à vigilância de seu dono, é levado à meia-noite, em meio à violência
de uma tempestade, a buscar entrada numa janela pela qual se vê
ainda a luz brilhar: a janela do quarto de um estudante ocupado
entre folhear um volume e sonhar com uma adorada amante morta. Sendo
aberta a janela, ao tumultuar das asas da ave, esta pousa no sítio
mais conveniente e fora do alcance imediato do estudante que,
divertido pelo incidente e pela extravagância das maneiras do
visitante, pergunta-lhe, de brinquedo e sem esperar resposta, por
seu nome. O corvo interrogado responde com seu costumeiro Nevermore,
palavra que logo encontra eco no coração melancólico do estudante
que, dando expressão, em voz alta, a certos pensamentos sugeridos
pelo momento, é de novo surpreendido pela repetição do Nevermore do
corvo. O estudante adivinha então a real causa do acontecimento, mas
é impelido, como já explanei, pela sede humana de autotortura e, em
parte, pela superstição, a propor questões tais à ave que só lhe
trarão, ao amante, o máximo da volúpia da tristeza, graças à
esperada palavra "Nunca mais". Levando até o extremo essa
autotortura, a narração, naquilo que denominei sua fase primeira ou
evidente, tem um fim natural e até aí não ultrapassou os limites do
real.

Mas nos assuntos assim manejados, por mais agudamente que o sejam,
por mais vivas riquezas de incidentes que possuam, há sempre certa
dureza ou nudez que repele o olhar artístico. Duas coisas são
invariavelmente requeridas: primeiramente, certa soma de
complexidade ou, mais propriamente, de adaptação; e, em segundo
lugar, certa soma de sugestividade, certa subcorrente, embora
indefinida, de sentido. Esta última, afinal, é que dá a uma obra de
arte tanto daquela riqueza (para tirar da conversação cotidiana um
termo eficaz) que gostamos demais de confundir com o ideal. É o
excesso do sentido sugerido, é torná-lo a corrente superior em vez
da subcorrente do tema que transforma em prosa (e prosa da mais
chata espécie) a assim chamada poesia dos assim chamados
transcendentalistas.

Mantendo essas opiniões, ajuntei duas estâncias que concluem o
poema, sendo sua sugestividade destinada a penetrar toda a narrativa
que as precede. A subcorrente de significação torna-se primeiramente
evidente no verso.

Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my
door!"
Quoth the Raven "Nevermore".

Deve-se observar que as palavras "o peito" envolvem a primeira
expressão metafórica no poema. Elas, com a resposta "nunca mais",
dispõem a mente a buscar uma moral em tudo quanto foi anteriormente
narrado. O leitor começa agora a encarar o corvo como simbólico; mas
não é senão nos versos finais da última estância que se permite
distintamente ser vista a intenção de torná-lo um emblema da
Recordação lutuosa e infindável:

And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting,
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon’s that is dreaming,
And the lamplight o`er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted – nevermore.

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