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As Relações entre o Brasil e os Estados Unidos

Parte II
Antônio Carlos Viard

SURGE NOVO PARADIGMA NAS RELAÇÕES EXTERIORES DO BRASIL
Neste tópico, onde se examina a evolução do relacionamento Brasil-EUA a partir do governo
Juscelino Kubistchek, de início cabe mencionar o
trabalho muito competente de Alexandra de Mello e
Silva, quando pesquisadora do CPDOC, intitulado
Política externa de JK: operação pan-americana
1
, ora
resenhado.
A Operação Pan-Americana caracterizou um período de
transição no qual a diplomacia brasileira buscava novo
paradigma em seu relacionamento com os EUA, ao
mesmo tempo respeitoso e franco, que conciliasse a
realidade política e militar com as imposições ditadas
pelo desenvolvimento econômico e social.
Desenvolvimento, diga-se de passagem, de difícil
promoção, caso seguido à risca o receituário imposto
pela “tróica” FMI, Banco Mundial e Departamento de Estado dos EUA.
Alexandra de Mello e Silva toma como síntese do período do imediato pós-guerra a expressão
muito feliz de David Green, segundo a qual as Américas viveriam a situação de “um hemisfério
fechado num mundo aberto”
2
.
Mundo aberto porque os capitais e as mercadorias nele deveriam circular sem barreiras.
Hemisfério fechado porque estaria a América Latina sujeita a uma doutrina Monroe
exacerbada, que assegurasse a hegemonia ideológica, política, militar e econômica da Grande
Potência do Norte, convertida em “guardiã do mundo livre” e para quem a América Latina era
seu “quintal”.
Comenta a Autora que, sob os pontos-de-vista ideológico, político e militar, as elites locais não
tinham muito a reclamar do “guarda-chuva” oferecido e, menos ainda, das cláusulas do já
mencionado TIAR e das normas de convívio ditadas pela OEA. “Muitos países latino-
americanos viam a criação de um sistema político e militar interamericano, com regras de
conduta estáveis, como a melhor forma de conter os eventuais impulsos intervencionistas dos
EUA e, por conseguinte, defender suas respectivas soberanias nacionais”. Mesmo com essas
regras e todo seu ritual de aplicação, os “marines” não se sentiram constrangidos em caçar

1
Rio: CPDOC, 1992.
2
Vide David Green: “The Cold War becomes to Latin America” in Bernstein, B. J. Politics and Policies of
the Truman administration. Chicago, Quadrangle Books, 1970, p. 165.

UM HEMISFÉRIO FECHADO
A “IDEOLOGIAS EXÓTICAS”
2

Noriega no Panamá, ou em invadir República Dominicana e Granada para “salvá-las do
comunismo”. Portanto, pensavam e ainda pensam as autoridades latino-americanas: se essas
regras são ruins, muito pior sem elas!
A política dos EUA, como ocorre até hoje,
«se revelava incapaz de reconhecer as causas internas que emprestavam força política
ao nacionalismo e populismo latino-americanos. Estas residiam nos graves problemas
econômicos e sociais da região, que a orientação política e econômica dos EUA, com sua
ênfase exclusiva no investimento privado e no anticomunismo, não só era incapaz de
solucionar, como inclusive tendia a agravar. O resultado é que se acentuou a tendência,
iniciada ainda na administração Truman, mas que teria plena continuidade com
Eisenhower, de prestar apoio político e militar a diversos regimes ditatoriais que se
instalaram na região (Peru, Venezuela, Colômbia, Cuba), vistos como mais "confiáveis"
no sentido de neutralizar a agitação social e garantir o ambiente de "estabilidade"
política e econômica preconizado pelo governo norte-americano»
3
.
Os “blogs” mais irreverentes dizem que, há muito, faz parte das orientações do Departamento
de Estado a seguinte máxima, originalmente atribuída a Cordell Hull, que o dirigiu entre 1933 e
1944:«Many would say that, "He may be a son-of-a-bitch, but he is our son-of-a-bitch," is still
a major consideration behind US foreign policy decisions»
4
.
Não é de se admirar o ódio que gerava – e ainda gera – uma política assim tão obtusa. Esse
ódio estava latente quando Richard Nixon, então vice-presidente dos Estados Unidos, foi
escalado para fazer uma “viagem de boa vizinhança” à América Latina e encontrou forte
rejeição popular, tanto no Peru quanto, sobretudo, na Venezuela, país no qual correu real
perigo de vida
5
. Não por acaso, esses dois países haviam recentemente sacudido o jugo de
ditaduras impostas com apoio estadunidense: Pérez Jiménez na Venezuela e Manuel Odría no
Peru.
Adicionem-se a isso mais dois fatos:
 a idéia estadunidense de que “visitas de boa-vizinhança” pudessem servir para “acalmar
ânimos”, repetindo-se em cada visita o receituário do Departamento de Estado para
promoção do “desenvolvimento sadio”; e
 a designação de gente de “segundo time” para visitar “países irmãos”, quando – nesses
países – sabe-se muito bem que vice-presidente de República ou, pior, mulher de
presidente, além de não decidir, só atrapalha
6
.

3
Mello e Silva, op. cit., p. 6.
4
Vide http://everything2.com/title/He+may+be+a+son-of-a-bitch%252C+but+he+is+our+son-of-a-bitch.
5
Vide, sobre a viagem, http://youtu.be/nvigX1doz2U.
6
Vide “blog” de Elio Gaspari, de 15/01/2014, sobre a viagem que Rosalynn, a mulher do presidente Jimmy
Carter, fez ao Brasil em 1976 e surpreendeu a todos visitando dois padres estadunidenses que “viviam com
mendigos e foram metidos numa enxovia pela polícia pernambucana. A cena foi para a primeira página dos
jornais brasileiros e americanos”. Leia mais em http://oglobo.globo.com/opiniao/robert-pastor-um-atrevido-
campeao-11299705#ixzz34NvVNWoj.
3

São bofetadas dadas por aqueles “necessitados de se afirmarem ostensivamente superiores a
povos de outras raças e de outras culturas” a que se referiu Gilberto Freire. Bofetadas dirigidas
justamente aos políticos mais
comprometidos com a ânsia popular
por melhores condições de vida e que
lutavam por atendê-la, numa situação
de “perda de dinamismo do setor
primário-exportador e de diversificação
da estrutura produtiva”.
“De fato”, prossegue Mello e Silva,
“vários países latino-americanos se
encontravam, no pós-guerra, sob
condições que favoreciam um novo
modelo de crescimento econômico, baseado na aceleração do processo de industrialização via
substituição de importações e na ampliação do mercado interno. Tratava-se do ‘crescimento
para dentro’, no qual o setor primário-exportador, ainda fundamental para garantir as receitas
que financiavam a industrialização, ia cedendo lugar a uma base industrial cada vez mais
diversificada”
7
.
E essa base diversificada que surgia nada possuía de “revolucionário”. O que surgia era um
setor industrial sob liderança do capital estrangeiro e pequena participação minoritária
nacional, cabendo ao empresariado brasileiro o papel de fornecedor da cadeia produtiva.
Exemplos mais acabados desse modelo foram a indústria automobilística, implantada pelo
Plano de Metas de JK, e a indústria petroquímica, durante a ditadura militar, com seu famoso
“tripé” de capital estrangeiro, capital nacional e capital estatal, sob o comando do primeiro.
Por outro lado, as crises dos balanços de pagamentos dos países latino-americanos eram mero
reflexo da necessidade de importar mais bens de capital, matérias primas e produtos
semiacabados dos países desenvolvidos, bem como pagar serviços e efetuar remessas de
lucros, juros e dividendos, sobretudo aos EUA. Enquanto isso, o Departamento de Estado, o
FMI e o Banco Mundial a deitar falação impertinente a respeito da desordem das contas
externas da América Latina!
Na crise da visita à Venezuela, com rapidez e senso de oportunidade, Juscelino Kubitschek
escreveu – ainda no mês de maio de 1958 – uma carta ao presidente Eisenhower
solidarizando-se com Nixon, mas observando que a crise poderia ser uma oportunidade para
melhorar, definitivamente, o relacionamento entre os países das Américas. Avisado o aliado
preferencial, Juscelino lançou um mês depois, urbi et orbi, a Operação Pan-Americana - OPA,
seguindo três linhas principais, conforme comenta Mello e Silva:
(1ª) o Brasil aceitava o fato de pertencer à civilização ocidental e a liderança dos EUA, mas
“não pode ele continuar aceitando passivamente as orientações e os passos de uma política
com a qual não ... seja apenas solidário de modo quase automático, solidário por hábito ou
simples consequência de posição geográfica";

7
Op. cit., p. 12.

JUSCELINO KUBISTCHEK NA INAUGURAÇÃO DA FÁBRICA DA
WOLKSWAGEN, EM 1953
4

(2ª) “o objetivo central da OPA é definido como o combate ao subdesenvolvimento econômico
da América Latina, visto como o principal problema do continente, inclusive em termos de
segurança... Os países latino-americanos têm feito tudo a seu alcance para cooperar na tarefa
de defesa do Ocidente, mas não estarão em condições de atuar com a necessária eficácia
enquanto frações consideráveis de suas populações não forem libertadas do espectro da fome
e da miséria"; e
(3ª) a OPA é apresentada como uma iniciativa de caráter e objetivos multilaterais; ao Brasil
coube o lançamento da proposta, mas "sem qualquer pretensão de assumir liderança no
continente" e visando apenas dar expressão a "um sentimento que pertence a toda a
América".
Essa iniciativa foi recebida com desconfiança pelo governo dos EUA, mas acabou gerando uma
consequência positiva que foi a criação do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID.
Enquanto Juscelino buscava alertar Eisenhower para o perigo que corria o sistema
interamericano, um furacão sobre Cuba fazia estragos muito maiores que o imaginado. Já foi
comentado que, após a Guerra Hispano-americana, Cuba se transformara num virtual
protetorado dos EUA, cujos cidadãos e empresas dominavam grande parte das terras e dos
negócios da Ilha. Dentre os mais famosos “investidores” em Cuba, destacavam-se os
gangsteres Meyer Lanski, Frank Costelo, Vito Genovese, Moe Dalitz e Santo Trafficante Jr., que
monopolizavam os cassinos, as drogas e a prostituição. Fulgencio Batista, o ditador local, era
ativo sócio desses gangsteres, com uma participação de 30%, a título de “proteção”.
– Seria esse o tipo de investimento privado que o Departamento de Estado tinha
em mente para toda a América Latina?
Por outro lado, depois da invasão de Cuba ocorrida entre 1898 e 1903, foi inserida na
Constituição cubana a chamada Emenda Platt, mediante a qual os EUA teriam o direito de
desembarcar tropas em Cuba e administrar a Ilha, caso assim decidissem, de modo unilateral.
Por força dessa Emenda, os EUA ocuparam Cuba cinco
vezes, entre 1906 e 1933.
A Revolução Cubana começou como uma revolta de jovens
bem-nascidos contra esse estado de coisas, até se
encontrarem com as forças tectônicas que movimentavam
a indignação das massas e por elas serem levadas de
roldão. Fidel Castro não era originalmente um militante
comunista; tornou-se comunista, inclusive por força da
inabilidade (ou impossibilidade) dos EUA em influenciar o
movimento vitorioso.
Para tornar mais difícil as coisas, o governo Kennedy,
decidiu criar a Aliança para o Progresso, com foco em ações
meramente assistencialistas. Para os críticos da época,
tratava-se de trocar fidelidade política por vasos sanitários.

REVISTA DE DIVULGAÇÃO DA
ALIANÇA PARA O PROGRESSO.
5

Com a Aliança, a América Latina como um todo tomou consciência que – para si – o verdadeiro
problema não era o conflito “Mundo Livre x Cortina de Ferro”, mas o conflito “Norte x Sul”.
Esvaíram-se as esperanças de um apoio dos EUA nos moldes do Plano Marshall, como ocorrera
na Europa no final dos anos 1940, assim como se esvaiu a imagem positiva que os Estados
Unidos haviam mantido no imediato pós-guerra.
O fato é que a Revolução Cubana mudou substancialmente a forma como a América Latina
encarava seu relacionamento com os EUA.
De acordo com Mello e Silva, “o tom novo do discurso do Itamaraty... [ficou] por conta de uma
ênfase particular na necessidade de se implementarem as relações econômicas internacionais
do pais com vistas à expansão das exportações e à conquista de novos mercados, inclusive
pondo de lado constrangimentos de ordem político-ideológica que haviam vigorado até
então”.
Nas palavras de Horácio Lafer, que assumiu o ministério em agosto de 1959, oito meses depois
da conquista do poder por Fidel Castro: "De minha parte, proponho-me a dar especial relevo
ao tema do desenvolvimento nas relações internacionais. É do nosso dever não ficarmos
prisioneiros de um círculo limitado por nós próprios traçado e que nos impeça de expandir
nossas exportações e recolher as colaborações que forem mais úteis ao desenvolvimento do
Brasil. Sem esquecer um só problema de natureza política ou cultural, deverá este Ministério
colocar-se cada vez mais ao serviço da conquista de mercados novos para as exportações
brasileiras... Não concordo que... fujamos do
intercâmbio com zonas cujos povos também precisam
importar e exportar
8
”. Antes mesmo do final daquele
ano, em rápida sucessão, o Brasil iniciou o reatamento
de suas relações diplomáticas com os países socialistas.
O passo seguinte à OPA viria a ser a Política Externa
Independente, cujas bases foram consolidadas e
lançadas por San Tiago Dantas, chanceler entre
setembro de 1961 e julho de 1962. Uma das mais
profícuas administrações, num espaço de tempo tão
reduzido!
San Tiago Dantas conta que encontrara iniciada no
Itamaraty a política exterior independente e que só
fizera desenvolvê-la e sistematizá-la. Era, com efeito, a
mais pura expressão da verdade. Às voltas com severas restrições em sua incapacidade de
importar, tal política era antes de tudo um imperativo econômico, esse de procurar mercados
onde quer que existissem para as poucas “commodities” que o Brasil podia exportar. Não se
tratava de uma iniciativa de esquerda, mas de uma autêntica “modernização conservadora”
procedida pelos partidos políticos de direita que tinham vencido com a eleição de Jânio
Quadros. Segundo San Tiago, a política “não foi concebida como doutrina ou projetada como
plano antes de vertida para a realidade. Os fatos precederam as ideias. As atividades, depois

8
Op. cit., p.36.

SAN TIAGO DANTAS (*1911-†1964) POR
LIELZO AZAMBUJA
6

de assumidas em face das situações concretas que se depararam à Chancelaria, patentearam
uma coerência interna, que permitiu sua unificação em torno de um pensamento central de
governo
9
.”


Em sua essência, nas palavras de San Tiago Dantas, esses os princípios que norteavam a
política externa independente que o Brasil buscava seguir:
A. “contribuição à preservação da paz, através da prática da coexistência e do apoio ao desarmamento
geral e progressivo”;
B. “reafirmação e fortalecimento dos princípios de não intervenção e autodeterminação dos povos”;
C. “ampliação do mercado externo brasileiro mediante o desarmamento tarifário da América Latina e
a intensificação das relações comerciais com todos os países, inclusive os socialistas”;
D. “apoio à emancipação dos territórios não autônomos, seja qual for a forma jurídica utilizada para
sua rejeição à metrópole.”
10

Embora a descolonização política esteja quase concluída, esses quatro princípios continuam
válidos até hoje, mas só puderam ser formulados e servir de guia para o Brasil depois que os
Estados Unidos perderam o monopólio nuclear, a coexistência pacífica começou a instaurar-se
e existiam forças ativas comprometidas com a liquidação dos impérios coloniais, dentre elas –
cumpre ressaltar – os próprios EUA.
Esta primeira fase da Política Externa Independente durou pouco. Os acordos de cooperação
entre Cuba e União Soviética, a crise dos mísseis e a expulsão de Cuba da OEA estimularam um
período de repressão ensandecida dos EUA sobre a América Latina. Um a um, mesmo os
grandes países da América do Sul foram caindo sob golpes militares, com dezenas de milhares
de mortos e torturados, desrespeito sistemático aos direitos humanos e abjeto
enquadramento dos regimes-títeres às determinações do Departamento de Estado dos EUA,
como foi o caso do envio de soldados brasileiros à República Dominicana, em 1965.
Um dos pressupostos que condicionaram
a “aliança não escrita” a que se referiu
Bradford Burns foi a relativa distância
entre o Brasil e os EUA e a convicção de
que os estadunidenses ficariam muito
tempo ocupados, às voltas com os países
da América Central. Após a II Guerra
Mundial, com a transformação dos EUA
em potência global, esse pressuposto
desapareceu. A máxima de Porfirio Díaz,
que era válida apenas para o México, um
século depois acabou valendo para toda a
América Latina: “tan lejos de Dios y tan
cerca de los Estados Unidos!”.

9
Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2011, Política Externa Independente, Edição Atualizada,
Prefácio, p.10.
10
Op. cit., p.10.

7

Outro pressuposto era o papel dos EUA como indutor dinâmico do desenvolvimento brasileiro,
via importações de café, borracha, cacau e outros produtos primários. Esse papel de indutor
havia cessado em 1930 e, depois da II Guerra, as exportações brasileiras estagnaram, a ponto
de o coeficiente de abertura da economia brasileira reduzir-se, de 14,6% em 1947, para 6,8%
em 1960
11
, o que caracterizava uma verdadeira involução econômica.
O saldo comercial se revelava insuficiente para pagar os serviços de fretes, seguros e as
remessas de juros, lucros e dividendos. Como resultado, compreensível alarme: a dívida
externa brasileira, consolidada em torno de 500 milhões de dólares em 1950, passou a crescer
rapidamente, chegando a 3,3 bilhões em 1964:






FONTE: IPEADATA
O crescimento da dívida se convertera em fonte de atritos do FMI com o Brasil, que chegou a
romper relações com esse órgão, e numa das principais críticas da oposição interna ao
“descalabro econômico” dos governos Getúlio, JK e Jango, que – em 15 anos – teriam
multiplicado por seis vezes o
endividamento.
Instaurado o governo militar, a
despeito de toda sua subserviência
a Washington, o endividamento
não só continuou a aumentar, mas
o fez com ainda maior velocidade:
decuplicou-se em 10 anos.
O problema, pois, independia da
qualidade do relacionamento com
os EUA ou de sua sensibilidade em
relação aos problemas brasileiros.
Tratava-se de uma questão
estrutural, conforme foi percebido
em 1974, ao iniciar-se o governo
Geisel: ou o Brasil ampliava suas

11
Bresser Pereira. Economia brasileira: uma introdução crítica. São Paulo: Editora 34, 1998, p. 54.

0.0
1.0
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3.0
4.0
1950 1952 1954 1956 1958 1960 1962 1964

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BRASIL - Dívida Externa - 1950-1964

FONTE: A MESMA
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1965 1967 1969 1971 1973
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BRASIL - Dívida Externa - 1965-1974
8

exportações, ou teria seu crescimento econômico estrangulado. E, sem esse crescimento,
qualquer governo perderia a legitimidade política.


UMA ECONOMIA NÃO COMPLEMENTAR, MAS CONCORRENTE
Alexandra de Mello e Silva comenta na obra aqui referida que “a América Latina exportava
café, açúcar, petróleo, cobre e estanho, entre outros produtos básicos, e importava dos EUA
máquinas, automóveis, produtos alimentícios, equipamento agrícola e elétrico, têxteis,
produtos químicos, ferro e aço, - constituindo-se no segundo maior mercado para o comércio
e o investimento externo americanos, atrás apenas da Europa”.
Trata-se de uma simplificação que leva a um equívoco: a relação “clássica” que existiu entre a
Inglaterra e seus fornecedores de matérias primas não foi repetida pelos EUA, os quais nunca
deixaram de ser um poderoso exportador de matérias primas e produtos intermediários.
Os EUA eram e ainda são concorrentes dos países da AL em diversos produtos primários, entre
eles algodão, milho, soja, suco de laranja, carnes e trigo, assim como no passado foi grande
exportador mundial de petróleo e de minério de ferro. E exporta produtos primários juntando
desde coerção política a uma complexa rede de subsídios e “programas de ajuda” para escoar
os excessos de produção.
À frente do Itamaraty, revelou-se radicalíssimo, ao forçar o imediato rompimento
diplomático com Havana. Nisso contrariou até a posição do ditador Castelo Branco e de
outros ministros, que manifestaram certos pudores com o açodamento do chanceler.
Durante sua gestão, o ministro promoveu uma “correção de curso” na política externa
brasileira, pretendendo retornar ao “alinhamento automático” com Washington. Seu
posicionamento se revelou tão anacrônico que, em 1966, teve de ser substituído.


Em 2009, Juanita Castro lançou um livro de memórias
intitulado Fidel y Raúl, mis hermanos – La historia
secreta, na qual confessa ter sido espiã da CIA, recrutada
por Virgínia, mulher de Vasco Leitão da Cunha, então
embaixador brasileiro em Havana. A informação é
confirmada por uma fonte de peso: as memórias póstumas
de “Ted” Schackley, ex-chefe de operações da CIA naquela
época. Essas memórias foram publicadas no livro
Spymaster. My life in the CIA.

Interessante trajetória, esta do casal Leitão da Cunha: de
Havana foi transferido para Moscou, de onde retornou em
janeiro de 1964. Três meses depois, com o golpe de 1964,
o marido assumiu o Ministério das Relações Exteriores.


9

Mesmo no caso de não existirem vantagens comparativas por parte dos EUA, elas são
artificialmente fabricadas, via “dumping”, tarifas e barreiras sanitárias ou não, além de
negociações bilaterais.
Vejam-se alguns exemplos:

a) Algodão
Comentou-se, no início deste texto, que o rápido crescimento das exportações de café ao
longo século XIX veio acompanhado de uma diminuição também rápida na participação do
algodão nas exportações brasileiras. Isto porque os EUA eram – e ainda são – o maior produtor
mundial dessa fibra e gozavam de franco acesso ao mercado inglês. No século XIX, o Brasil só
teve papel de relevo nas exportações de algodão quando da Guerra de Secessão ocorrida nos
Estados Unidos entre 1861 a 1865. Depois dessa guerra, restabelecidas as antigas relações de
comércio, o Brasil foi virtualmente alijado do mercado internacional de algodão:
BRASIL – PARTICIPAÇÃO DO ALGODÃO NA PAUTA DE EXPORTAÇÕES
1821-1900
DECÊNIO % NA PAUTA
DE
EXPORTAÇÕES
1821-1830 20,6
1831-1840 10,8
1841-1850 7,5
1851-1860 6,2
1861-1870 (*) 18,3
1871-1880 9,5
1881-1890 4,2
1891-1900 2,7
(*) Guerra da Secessão – 1861-1865
FONTE: SERVIÇO DE ESTATÍSTICA ECONÔMICA E FINANCEIRA DO
MINISTÉRIO DA FAZENDA, 1953
A partir da segunda metade do século XIX, com o desenvolvimento da indústria têxtil nacional,
a maior parte da produção brasileira passou a ser absorvida pelo mercado interno. Com a
praga do bicudo, que devastou as plantações do Nordeste na década de 1980 e a drástica
redução tarifária geral procedida no início do governo Collor, tornou-se o Brasil importador
líquido de algodão a partir dos anos 1990. Eis que o desenvolvimento, pela EMBRAPA, de
variedades altamente produtivas para plantio no Cerrado permitiu a recuperação das
exportações brasileiras a partir da safra de 1997-98, aumentando as exportações de 175.000 t
para 440.000 t.
Esse foi o ensejo para a retaliação dos EUA, concedendo subsídios tão generosos, a ponto de
os produtores daquele país aumentarem, na safra 2002-03, sua participação no total mundial
de exportações de 13% para 40%. O Brasil recorreu à OMC e esta arbitrou em quatro bilhões
10

de dólares o prejuízo sofrido pelo País com a prática anticomercial estadunidense
12
, a ser
ressarcido mediante retaliações brasileiras. Provavelmente, o prejuízo não será coberto, pois é
pouco prudente recorrer a retaliações no relacionamento com os EUA.
Compare-se, aqui, a safra prevista entre os maiores produtores no ano agrícola 2013/14 para
perceber o peso específico dos EUA:
ALGODÃO – PREVISÃO DA SAFRA 2013-2014
PRINCIPAIS PRODUTORES
PAÍS 1.000 t
Estados Unidos 2.269
Índia 1.432
Austrália 1.033
Zona CFA (*) 888
Brasil 814
Uzbequistão 719
(*) ex-colônias francesas na África
FONTE: ABRAPA

b) Milho
Na atualidade, a produção dos EUA é seguida pelo Brasil e pela Argentina:

MILHO – 2012-2013
PRINCIPAIS EXPORTADORES
PAÍS 1.000 t
Estados Unidos 22.900
Brasil 19.000
Argentina 19.000
Ucrânia 13.000
FONTE: FIESP
O volume de exportações dos EUA é fortemente influenciado pela política daquele país de usar
o milho como insumo para o etanol.
Se essa política sofrer modificações, poderão desabar as cotações do mercado internacional e
o peso relativo dos atuais exportadores.

c) Soja
É um mercado no qual os Estados Unidos e o Brasil concorrem ativamente:




12
Hélio Tollini. O contencioso do algodão: a experiência pelo olhar do setor.Revista Pontes, 07/11/2008.
International Centre for Trade and Sustainable Development.
11

SOJA – 2013-2014
PRINCIPAIS EXPORTADORES
PAÍS 1.000 t
Brasil 44.500
Estados Unidos 43.500
Argentina 9.000
Paraguai 4.300
FONTE: FIESP
Também aqui tem sido constante a concessão de subsídios do governo dos EUA a seus
agricultores.
d) Carnes
Há três grandes mercados, nos quais são marcantes as presenças brasileira e estadunidense,
com algumas características próprias.
No caso da carne bovina, lideram as exportações:
CARNE BOVINA – 2013
PRINCIPAIS EXPORTADORES
PAÍS 1.000 t
Brasil 1.524
Austrália 1.407
Índia 1.411
Estados Unidos 1.113
Nova Zelândia 517
Canadá 335
Argentina 164
FONTE: USDA

Quanto à carne suína, a posição brasileira ainda é reduzida, concorrendo os EUA de perto com
a União Europeia:
CARNE SUÍNA – 2013
PRINCIPAIS EXPORTADORES
PAÍS 1.000 t
Estados Unidos 2.292
União Europeia (*) 2.204
Canadá 1.245
Brasil 600
China 235
México 110
(*) exceto comércio intra-UE
FONTE: USDA

No caso dos frangos, novamente Estados Unidos e Brasil disputam a liderança do mercado:

12

CARNE DE AVES – 2013
PRINCIPAIS EXPORTADORES
PAÍS 1.000 t
Brasil 3.775
Estados Unidos 3.692
União Europeia(*) 1.235
Tailândia 540
China 415
(*) exceto comércio intra-UE
FONTE: USDA
e) Suco de Laranja
O suco de laranja, na qual os EUA assumem – ao mesmo tempo – o papel de grande
exportador e importador, tem sido objeto de acerbas disputas entre esse país e o Brasil.
Recentemente, a Organização Mundial de Comércio deu ganho de causa aos exportadores
brasileiros, por conta de falsas acusações de “dumping” por parte dos produtores
estadunidenses.
Sucessivas geadas e a crescente falta de competitividade vêm comprometendo os laranjais da
Flórida, permitindo ao Brasil assumir uma posição dominante nesse mercado.
SUCO DE LARANJA – 2013
PRINCIPAIS EXPORTADORES

(*) Importam 17% do total mundial
FONTE: USDA

Notícias como esta são muito comuns nos jornais especializados:


PAÍS %
Brasil 81
Estados Unidos (*) 9
México 4
Espanha 1
África do Sul 1
– 09/06/2014
Brasil perde para EUA nas vendas de suco à Coreia
A Coreia do Sul importa principalmente suco concentrado congelado, que é misturado com água em marcas como Minute
Maid, da Coca-Cola.
Os sul-coreanos não estão bebendo mais suco de laranja - apenas estão comprando mais dos EUA. O Brasil era o principal
fornecedor de suco para o país asiático graças ao seu menor custo de produção. A vantagem desapareceu em 2012, quando
EUA e Coreia do Sul assinaram um acordo eliminando as tarifas de importação para muitos produtos, incluindo a de 54%
sobre o suco de laranja americano.
No início de 2013, porém, o governo sul-coreano passou a suspeitar que o suco exportado pelos EUA pudesse conter
também frutas originárias do Brasil, ainda sujeita a tarifas. Em março, uma delegação de autoridades alfandegárias da
Coreia do Sul viajou até a Flórida para discutir o assunto durante uma visita a quatro processadoras de suco.
O grupo buscava evidências que laranjas brasileiras eram usadas na fabricação do suco exportado para a Coreia do Sul. O
Ministério do Comércio coreano havia alertado que, se laranjas brasileiras fossem encontradas, os milhões de litros
importados dos EUA seriam taxados retroativamente. Pouco depois de um mês, o governo sul-coreano notificou os
fabricantes de suco dos EUA que não havia achado irregularidades.


13

f) Trigo
Por final, em relação trigo, os EUA são, de longe, o maior exportador mundial:
TRIGO – 2013
PRINCIPAIS EXPORTADORES
PAÍS 1.000 t
Estados Unidos 28.071
Austrália 23.041
Rússia 21.627
Canadá 17.603
União Europeia (*) 16.569
Argentina 11.949
(*) exceto comércio intra-UE
FONTE: USDA

No caso desse cereal, são comuns as práticas de “dumping”, por conta dos elevados subsídios
que percebem os produtores estadunidenses. Por diversas vezes, o Brasil se beneficiou dessas
práticas, importando trigo dos EUA a preços inferiores aos praticados pelo Canadá e pelo seu
mais tradicional fornecedor que é a Argentina.
* * *
No caso das “commodities” aqui examinadas, a notícia a seguir mostra que as práticas de
“dumping” têm sido uma constante nas relações comerciais, embora caiba esclarecer que os
EUA não são – de forma alguma – os únicos a recorrer a tais práticas
13
:

13
Na mesma época, o Brasil teve dois contenciosos por “dumping” praticado pela União Europeia: o do
açúcar em 2004 e o do frango, em 2005.

EUA ainda praticam dumping

Paula Puliti / São Paulo/AE - 12 de fevereiro de 2004


Um novo levantamento realizado pelo Instituto de Agricultura e Política Comercial (IATP, na sigla em inglês)
sobre a prática de dumping agrícola nos Estados Unidos revela que os cinco maiores setores exportadores de
commodities continuam a fazer uso desse instrumento de competição proibido pela Organização Mundial
do Comércio (OMC). O estudo conclui que a larga utilização de dumping (venda de commodities abaixo dos
custos de produção) prejudica tanto os produtores rurais norte-americanos quando os estrangeiros.

O estudo avaliou cinco commodities agrícolas. O algodão encabeça a lista, com preço médio de exportação
61% inferior aos custos de produção. No caso do trigo, o IATP verificou dumping de 43%. No arroz, o
percentual é de 35%. Para a soja, de 25%, e para o milho, de 13%. "O dumping é uma das mais graves
distorções comerciais. Os Estados Unidos são uma das maiores fontes de dumping agrícola do mundo", diz
Kristin Dawkins, vice-presidente dos Programas Globais da IATP. O levantamento do IATP é uma atualização
de trabalho prévio lançado no ano passado.

14

Parece ter ficado claro que os EUA não repetem o esquema “clássico” de país importador de
“commodities” e exportador de produtos industriais, como foi aquele desempenhado pela
Inglaterra no século XIX.
A Inglaterra, a partir de 1848, promoveu a “liberalização unilateral do comércio”, de tal forma
que “nos vinte anos seguintes, quase um terço das exportações do resto do mundo se dirigiam
para a Grã-Bretanha”. Assim procedendo, “forneceu os meios de pagamento para que outros
países comprassem seus manufaturados”
14
.
Quanto aos Estados Unidos, dada a dotação de fatores de um território continental, ele
sempre teve muito para vender e pouco para comprar. No caso específico, sempre foi um ativo
concorrente na exportação de produtos primários e não poderia ser diferente, por dispor de
grandes extensões de terras aráveis, uma grande rede logística e um ativo empresariado rural,
além de liderar as pesquisas agrícolas e outras práticas de aumento de produtividade.
Essa realidade ajuda a explicar porque, ao contrário dos países de pequeno porte, sobretudo
europeus, o coeficiente de abertura da economia dos EUA sempre foi pequeno. Os dados a
seguir permitem comparar a situação de diversos países:
COEFICIENTE DE COMÉRCIO EM RELAÇÃO AO PIB – 2009-2013
PAÍS % PAÍS %
Países Baixos 161,4 China 53,1
Malásia 139,0 Índia 42,1
República da Coreia 94,5 Austrália 33,8
Alemanha 75,1 Argentina 31,5
França 47,6 Estados Unidos 23,9
Reino Unido 47,2 Brasil 21,1
FONTE: BANCO MUNDIAL

Os dados acima mostram:
 o peso do comércio exterior em um país europeu desenvolvido, como a Alemanha e o caso
de “bases exportadoras” típicas, a exemplo dos Países Baixos, da Malásia e da Coreia do
Sul, com elevado teor de importação em suas economias, mas sem escala para impactar o
comércio internacional, via importações maciças;
 a situação intermediária de países de grande extensão territorial com vigorosa
participação do comércio internacional, em se tratando da China, Índia, Austrália e
Argentina; e
 o baixo coeficiente que ocorre nos casos dos EUA e do Brasil.
Ao se considerar o índice acima como um indicador da capacidade de uma economia
“arrastar” as demais, via comércio internacional, vê-se que os Estados Unidos não possuem o
poder de induzir o desenvolvimento geral, no ritmo exigido pela economia mundial.

14
Giovanni Arrighi. Adam Smith em Pequim: origem e fundamentos do século XXI. S. Paulo: Boitempo,
2008, p.251.
15

Com efeito: suponha-se que, por conta do déficit crônico de sua Balança Comercial, as
importações dos EUA representem 0,60 de seu coeficiente de comércio no PIB.
Logo, se ∆m for o incremento das importações, então ∆m = 0,60 x 23,9% = 14,3%. Portanto,
para cada aumento de 1% em seu PIB, as importações estadunidenses aumentarão em ∆m x
1% = 0,14%. Pressupondo um crescimento sustentado de 2% ao ano para o PIB estadunidense,
então o aumento da demanda por importações dos EUA será de 0,28% ao ano. Esse “índice de
arrasto” certamente não é capaz de caracterizar uma locomotiva a puxar vagões; menos ainda
a puxar vagões carregados de “commodities” alheias.

A POLÍTICA EXTERNA ATIVA E ALTIVA
Celso Amorim e Luiz Feldman afirmam que “a redemocratização trouxe um aggiornamento em
alguns temas da agenda externa. Brasil e Argentina iniciaram um processo de aproximação que
redundaria na criação do MERCOSUL, sob o olhar cético dos cultores da geopolítica
tradicional
15
”. E prosseguem, comentando que “as relações com Cuba foram reatadas e visitas
bilaterais importantes ocorreram em Pequim e em Moscou. Em certo sentido, o Brasil voltava
à cena mundial
16
”.
Ao ver desses Autores, faltou ousadia em tal retorno à cena mundial, evitando o Brasil
qualquer ação que pudesse desagradar os EUA, inclusive em assuntos comerciais. Isso,
sobretudo, após o governo Collor e diante da onda avassaladora do neoliberalismo, que
envolveu parcela ponderável das elites brasileiras, convencidas da oportunidade de conquistar
“competitividade na economia internacional, tornando-se um parceiro comercial ‘pequeno,
mas global’ (como foi dito à época)
17
”.
Essa ideia esdrúxula de um país continental poder ser “pequeno” trazia consigo o vergonhoso
estigma de exclusão associado à “Belíndia”: privilegiar ainda mais os 20 milhões que viviam
bem na “Bélgica” e esquecer-se dos mais de 100 milhões que viviam na “Índia”. Assim
projetado no cenário internacional, o estigma confundia a dimensão territorial do Brasil com a
dimensão moral das pessoas que o lideravam.
O auge dessa pequenez foi a gana com a qual certos segmentos internos aderiram à proposta
da ALCA, a Associação de Livre Comércio das Américas, na ânsia de transformar em fato a ideia
parida no governo Collor, do “pequeno, mas global”.
A ALCA fora proposta pelo presidente Bush em dezembro de 1994, quase um ano depois do
início de vigência do NAFTA, seu homólogo da América do Norte, ficando acertado que as
negociações teriam dois co-presidentes, o Brasil e os EUA.

15
Para esses cultores, continuava válida a recomendação feita por Joaquim Nabuco, primeiro
embaixador brasileiro em Washington, no sentido de se evitar a aproximação do Brasil com qualquer
país sul-americano, sem o envolvimento ou a prévio aviso aos Estados Unidos.
16
Celso Amorim e Luiz Feldman, A política externa do governo Lula em perspectiva histórica in San Tiago
Dantas, A Política Externa Independente. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2011, edição
atualizada, p.282.
17
Ibidem, p. 285.
16



O NAFTA e o México
O NAFTA, “North American Free Trade Agreement”,
ou Tratado Norte-Americano de Livre Comércio,
começou a ser negociado entre os Estados Unidos e
o Canadá em 1988, com a posterior adesão do
México. O início de vigência do tratado foi em 1º de
janeiro de 1994. Mesma data em que, em protesto,
se iniciou a Revolta de Chiapas, tendo à frente o
subcomandante Marcos.
Nesses 20 primeiros anos, não se pode dizer que o NAFTA tenha sido muito favorável ao México.
Em 1994, 52,3% dos mexicanos viviam abaixo do índice de pobreza; em 2012, o índice permanecia
o mesmo, com um agravante: no período, aumentou em mais de 10 milhões o número absoluto
de mexicanos pobres. Enquanto isso, em toda a América Latina, a pobreza caiu, de 48,4% em
1990, para 27,9% em 2013.

Em 1997, os salários pagos pela indústria de transformação mexicana correspondiam a 15%
daqueles pagos nos EUA. Em 2012, essa percentagem aumentara para 16%.

O milho é um cereal originário do México, onde foi domesticado há cerca de 10.000 anos, e que se
espalhou por todo o mundo. Por isso, existem no México mais de 30 variedades nativas de milho,
diversas das quais tradicionalmente cultivadas há milhares de anos pelos agricultores mexicanos.
Por conta dos subsídios pagos pelo governo dos EUA a seus produtores, o México se tornou
importador de milho, assim como de arroz e trigo do vizinho do Norte. Em consequência, a
agricultura mexicana foi profundamente desorganizada, vendo desaparecer por volta de dois
milhões de postos de trabalho.

A despeito das draconianas restrições à imigração para os EUA, lá se encontram mais de quatro
milhões de imigrantes mexicanos ilegais. Grande parte das famílias rurais depende, hoje, de
remessas desses imigrantes. Estima-se que o total das remessas monte, anualmente, a 12 bilhões
de dólares.

Cerca de 800.000 pessoas chegaram a trabalhar nas maquilas, as “empresas maquiladoras” que
agregam um mínimo de produto local e exportam sua produção sobretudo para os Estados
Unidos. A concorrência chinesa acabou com 250.000 desses empregos, a despeito das maquilas
remunerarem 51% de sua força de trabalho com salários iguais ou inferiores ao mínimo. Calcula-se
que o valor dos insumos mexicanos agregados por essas fábricas corresponda no máximo a 2% do
valor do produto.

Quase 98% das exportações mexicanas se destinam aos EUA, os quais fornecem 83% das
importações. Com isso, se o gigante do Norte espirra, o México vai para a UTI. Com efeito, as
oscilações da conjuntura estadunidense se refletem, ampliadas, no PIB do México. Os gráficos a
seguir mostram como a economia mexicana reagiu, em 2003 e 2009, a oscilações de conjuntura
nos Estados Unidos. A grande queda ocorrida em 1994 foi a Crise Mexicana, de triste memória.

0.0
200.0
400.0
600.0
800.0
1,000.0
1,200.0
1,400.0
1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2012
U
S
$

m
i
l
h
õ
e
s

PIB do México

-40.0
-30.0
-20.0
-10.0
0.0
10.0
20.0
30.0
1995 1997 1999 2001 2003 2005 2007 2009 2011 %
Crescimento Anual do PIB do México
17







Desde o início, foi grande a grande pressão para que a ALCA fosse rapidamente implantada,
seja pelos EUA, seja pelos segmentos políticos latino-americanos alinhados aos interesses
estadunidenses, seja por segmentos econômicos diretamente beneficiados, a exemplo das
finanças e determinados ramos da indústria de transformação e de serviços. Porém, dada a
existência de áreas sensíveis, especialmente as relacionadas com subsídios e “dumpings” de
produtos agrícolas, propriedade intelectual, compras governamentais e outros serviços, o
Itamaraty propôs – para consternação de muitos – um período de negociação de 10 anos.
Nesse prazo, seria possível fortalecer a economia interna do Brasil e dos outros países da
América do Sul, aprofundar a experiência do MERCOSUL e, sobretudo, observar quais os
efeitos do NAFTA sobre o México.
Entre 1994 e 2004, mudou muita coisa, a começar pela eleição – em diversos países da
América do Sul – de presidentes comprometidos com as causas que, 40 anos antes, San Tiago
Dantas já esposara: (1) a promoção da paz e do desarmamento; (2) a não-intervenção e a
autodeterminação dos povos; (3) o comércio livre de constrangimentos políticos; e (4) a
repulsa a quaisquer formas de hegemonia,
Além disso, ficou claro no discurso de posse do presidente Lula qual seria a prioridade
brasileira em termos de política externa:
«A grande prioridade da política externa durante o meu Governo será a
construção de uma América do Sul politicamente estável, próspera e unida, com
base em ideais democráticos e de justiça social ... [Visamos] a estimular os
incipientes elementos de multipolaridade da vida internacional contemporânea. A
democratização das relações internacionais sem hegemonias de qualquer espécie
é tão importante para o futuro da humanidade quanto a consolidação e o
desenvolvimento da democracia no interior de cada Estado.»
18

Ou seja, já estava decidido que a ALCA não seria uma boa solução para a América do Sul.
Foram necessários alguns anos de negociações, adiamentos e tergiversações para que todos se
convencessem, sem desgastes, que não haveria clima para a extensão do NAFTA.

18
Ibidem, p. 285.
Como se constata, é muito difícil administrar e ainda mais difícil planejar uma economia
sujeita a oscilações sobre as quais não se tem a menor influência para prevenir seus
efeitos, ou mitigar os danos.

Nota: Além de sítios de informações gerais, a exemplo do Banco Mundial, foram
consultados: (1) Mark Stevenson/AP. México conta poucos ganhos com Nafta. Valor,
06/01/2014; (2) Marcos Costa Lima. México: os efeitos perversos do Nafta, in
http://www.acessa.com/gramsci/?id=536&page=visualizar; (3) Osvaldo Biz. O México no
NAFTA: negociação de igualdade entre desiguais? in Revista da ADPPUCRS, mº5, pp.101-
109, dez. 2004
18

Cabe aqui enunciar uma tese cuja comprovação será tentada em outro momento: o
empresariado rural brasileiro é, em sua essência, nacionalista, possuindo uma visão mais
ampla de Brasil do que o empresariado financeiro e, mesmo, o industrial.
O futuro D. Pedro I sabia disso, quando foi buscar apoio para proclamar a Independência junto
aos cafeicultores do Vale do Paraíba. Não foi por acaso que proclamou a Independência às
margens do Ipiranga.
Idem, D. Pedro II, com sua política de distribuição de títulos nobiliárquicos e as visitas que fazia
aos cafeicultores e aos senhores de engenho.
Aqui foi comentada, en passant, a visão nacionalista de um Artur Bernardes, em sua luta
contra Percival Farquhar, visando reservar a brasileiros a exploração do minério de ferro do
Quadrilátero Ferrífero. Não precisa ser lembrado como pensavam os estancieiros Getúlio
Vargas e João Goulart a respeito de o que entendiam como interesse nacional.
Pois bem: durante as discussões sobre a ALCA, foi do empresariado rural que partiram as
maiores críticas ao acordo e não poderia ser diferente, ao se lembrar o que a política de
subsídios e “dumping” dos EUA fez com a agricultura mexicana. E, mais importante, o embate
cotidiano dos produtores brasileiros com práticas desleais, a exemplo daquelas aqui relatadas
sobre o algodão e o suco de laranja.
Daí, também não é de estranhar porque Dilma Roussef e Kátia Abreu se gostem tanto e
porque ande a passos de cágado a demarcação das terras indígenas. Alvissareiro é que a face
mais reacionária do empresariado rural parece amainar, como foi demonstrada na recente
aprovação pelo plenário da Câmara de Deputados – por unanimidade – da PEC 57A/1999, que
prevê a expropriação de imóveis rurais e urbanos nos quais ocorra a prática de trabalho
escravo. Claro que a regulamentação da lei irá demorar; mas é um avanço...
Pode ser que, mais adiante, incentivos para o uso agrícola de terras degradadas venham a
tornar mais fácil o trabalho de demarcação de reservas indígenas e quilombos. Mas esta é
outra história, a ser tratada em algum momento, se tempo houver.

Em paralelo às tratativas sobre a ALCA, prosseguiram
as negociações voltadas para fortalecer os laços com a
América do Sul, a saber: (1) a criação da UNASUL, que
está assumindo as funções de coordenação política dos
países da América do Sul e junto à qual irá funcionar
um parlamento sul-americano; (2) a coordenação entre
o MERCOSUL e o Bloco Andino, com vistas à promoção
do comércio multilateral; (3) o fortalecimento do
MERCOSUL, estimulando o intercâmbio comercial entre os países-membros, aí incluída a
Venezuela, recentemente admitida.
Não faltam críticos para essa opção pela América do Sul. Porém, conforme será visto adiante,
os países da América do Sul e, em particular, do MERCOSUL são hoje os maiores parceiros

BANDEIRA DA UNASUL
19

comerciais do Brasil, superando – por ampla diferença – as exportações brasileiras para os
Estados Unidos.
Outra prioridade da diplomacia brasileira foi privilegiar o diálogo Sul-Sul, inicialmente com a
África do Sul e a Índia, sem descurar a atenção com os países africanos. “O Fórum de Diálogo
IBAS (Índia, Brasil e África do Sul)... foi proposto em reunião bilateral com a Chanceler da África
do Sul, Nkosazana Zuma, já no dia seguinte à Cerimônia de Posse do Presidente Lula” e, em
junho de 2003, a Declaração de Brasília criava formalmente esse grupamento, “a reunir três
democracias multiétnicas e multiculturais
19
”.
Outro passo foi a aproximação com a China e a Rússia, contribuindo para transformar a sigla
BRICS em algo mais que um acrônimo. Esse grupamento levou bastante tempo a ganhar
existência formal, pois só ocorreu quando da Declaração de Ecaterinemburgo em 2009.
E, durante todo o período 2003 a 2010, os contatos com os países africanos foram uma
constante, registrando-se incomum abertura de representações diplomáticas brasileiras
naquele Continente.
No início do século passado, o Brasil se limitara a explorar as virtualidades de um grande e
dinâmico mercado importador, que era os Estados Unidos. No início deste século, em um
mundo crescentemente multipolar e multifacetado, era preciso explorar várias oportunidades
simultaneamente, em especial uma que era impensada há 100 anos: a Ásia e, particularmente,
a China. Eis os resultados:
EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS – 2012
PRINCIPAIS COMPRADORES

PAÍS/ÁREA US$
10
6

América Latina e Caribe 50,5
MERCOSUL 27,9
China 41,4
Ásia (exceto China) 33,9
Estados Unidos 26,8
África 12,2
Oriente Médio 11,5
Europa Oriental 4,3
FONTE: MDIC/SECEX

Também notável é constatar que o crescimento das vendas para a América Latina e o Caribe e,
em particular para a América do Sul, não são um “sonho vão” alimentado por visionários, mas
uma sólida realidade comercial.

19
Ibidem, p. 286.
20


O gráfico abaixo, da mesma fonte, mostra como foi rápida a ascensão da China, relativamente
aos EUA, na condição de maior comprador individual das exportações brasileiras:

Como resultado da diversificação dos compradores e do aumento das vendas, o Brasil
começou a gerar saldos crescentes em suas reservas internacionais, superando o óbice que o
perseguia desde a Independência; qual seja, a necessidade de endividar-se externamente para
equilibrar seu Balanço de Pagamentos. O gráfico em continuação mostra como essas reservas
cresceram no período de 1989 a 2012:

Daí porque, realizando o sonho que talvez Juscelino Kubitscheck nem tenha sonhado 50 anos
antes, o Brasil antecipou a liquidação da dívida de 15 bilhões de dólares do Brasil com o FMI,
tornando-se – pela primeira vez – credor daquele Fundo:



0
5,000
10,000
15,000
20,000
25,000
30,000
35,000
40,000
45,000
1989 1991 1993 1995 1997 1999 2001 2003 2005 2007 2009 2011
U
S
$

1
,
0
0
0
,
0
0
0
.
0
0


EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS PARA CHINA E EUA
1989-2012
EUA CHINA
0
50,000
100,000
150,000
200,000
250,000
300,000
350,000
400,000
1989 1991 1993 1995 1997 1999 2001 2003 2005 2007 2009 2011
U
S
$
1
,
0
0
0
,
0
0
0
.
0
0


BRASIL - CRESCIMENTO DAS RESERVAS INTERNACIONAIS - 1989-2012
21


Como essa realidade contrasta com aquela a qual se referiu o chanceler Luiz Felipe Lampreia,
prestes a deixar seu posto, ao afirmar:
«O Brasil tem um papel adequado a seu tamanho. O
Brasil não pode querer ser mais do que é, mesmo
porque tem uma série de limitações, a principal das
quais é seu déficit social.
20
»
O ex-chanceler tinha absoluta razão: no momento em que, no “front interno”, começaram a
ter sucesso as medidas de combate à fome e à miséria, o Brasil cresceu de tamanho lá fora. E
como ensinou Thomas Hobbes, “o sucesso é poder, porque traz reputação de sabedoria ou
boa sorte, o que faz os homens recearem ou confiarem em quem o consegue”
21
.







ACV
As relações entre o Brasil e os Estados Unidos parte II
18/06/2014

20
Citado por Marco Aurélio Garcia in Como a política interna permitiu a política externa brasileira, no
livro Brasil, entre o passado e o futuro. Publicado no blog VIOMUNDO, em 17/05/2010.
21
Leviatã ou Matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. S. Paulo: Abril Cultural, 1979,
e.ed., p. 53.


_________________________________________________________________________________________
BC aplicou 75% das reservas internacionais em títulos dos EUA
Por EDUARDO CUCOLO - Folha Online – 22 de outubro de 2008

O Banco Central possui hoje US$ 152,8 bilhões das reservas internacionais aplicadas em títulos do governo dos
EUA. Isso representa cerca de 75% das reservas totais, que estão em cerca de US$ 205 bilhões.

Segundo o presidente do BC, Henrique Meirelles, outros US$ 24,7 bilhões estão aplicados em entidades
supranacionais, sendo a principal delas do BIS (o banco central dos bancos centrais). Há ainda US$ 9,3 bilhões
em agências governamentais, entre elas o KFW (banco alemão de investimento).