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IX — Sol de Inverno

(Entre Cós e Alpedriz, José Cipriano Catarino)

Anos antes, quando uma trombose acamou o sogro, comen-


tou o Jaime que era essa a lei da vida; como disse então, nasce-
mos para morrer, hoje uns, amanhã outros — calha a todos, só
as mulheres vivem mais, mas nem mesmo elas cá ficam para a
semente.
Chegou também a sua vez. Ei-lo preso a uma cama, sem
qualquer autonomia, sem conseguir sequer falar com mulher e
filha que, cada vez mais impacientemente, o limpam e alimen-
tam, já secretamente desejosas de que se vá, para o poderem
chorar condignamente, aliviadas do pesado fardo que por ora
carregam.
Por vezes, quando o Sol de Inverno consegue romper entre
as nuvens, sentam-no à porta de casa, num mocho em frente às
sardinheiras, apoiado num cajado nodoso, entrouxado em agasa-
lhos. Segue com olhar mortiço os passos dos raros passantes,
que interrompem a caminhada para contender com ele: —
Então, Tio Jaime, está melhorzinho? Apenas os olhos estreme-
cem, a mão direita agita-se, num gesto que o vizinho interpreta
como uma despedida: — Coitadinho, já cá não anda a fazer
nada... Antes acabasse de vez!, comenta, mesmo que apenas o
Jaime o escute e indiferente ao facto de o poder compreender.
Quando fica só, levanta os olhos, procurando avistar ao longe
um pouco do campo que só tardiamente aprendeu a amar. Pela
sua cabeça perpassam então memórias e pensamentos cada vez
mais confusos, misturando passado longínquo e recente, mas
sempre sem qualquer esperança no futuro: sabe que é só uma
questão de tempo; como árvore que o raio fulminou, tendo seca-
do, mas em que viceja ainda um ou outro ramo verde, que
sobreviverá até que o machado do lenhador lhe ponha a raiz ao
Sol, também ele aguarda a foice da Velha, que o segará quando
Ela assim o entender.
Como a cobra que sai do torpor invernal despertada pelo
calor, não tanto para procurar alimento, antes para se aquecer ao
Sol entre ervas secas, e vagamente se apercebe da proximidade
de presas, assim também nos olhos do Jaime cintila um reflexo
de vida: sabe, sente, que é o tempo da poda, e quase tem outra
vez vontade de sorrir ao lembrar-se do provérbio Tempo da
poda, tempo da foda, e das interpretações, uma apontando para a
vida arrastada do camponês, outra para o renascer da seiva, nas
plantas e nos corpos, natureza e humanos pulsando num mesmo
frenesim reprodutivo. Ah, cumpriu bem a sua obrigação, susten-
tando a mulher o melhor que pôde, substituindo outros maridos
se, acaso, as parceiras o requisitavam, iniciando jovens, como a
Catafona — que terá sido feito dela?, dando a provar o bem-
bom a uma ou outra solteirona, como a Tia Júlia Latoeira. Não
se arrepende. Não julga ter pecado, como não pecará o cão que
cobre cadela atrás de cadela. Fez, está feito, prestará contas ao
Criador, se lhas pedir, embora duvide de que tal aconteça, que
certamente terá mais com que se preocupar, com tanto mal que
vai pelo Mundo. Não matou, não roubou, honrou pai e mãe e se
há outros mandamentos para além destes também ele se não
recorda deles, tal como apenas se lembra de uma oração, o Pai-
Nosso, e nada nessa prece o faz sentir culpado do que quer que
seja. Nem precisa de perdoar aos inimigos. Todas as querelas,
todas as brigas, todas as animosidades, estão já enterradas
debaixo de uma camada de tempo tão profunda como a de terra
que em breve lhe servirá de agasalho e de resguardo e é mesmo
com carinho que recorda zangas antigas, relações cortadas
durante anos... Para quê tudo isso, se acabamos assim ou pior, se
desta vida nada levamos, nem sequer os bons momentos, inter-
rogar-se-ia se a clareza de ideias lho permitisse e se achasse que
a reflexão valia a pena. Não, não são reflexões que lhe perpas-
sam por detrás dos olhos, são imagens como as dos filmes que
uma vez por outra cinemas ambulantes passam no barracão da
Tia Elisa, projectadas num lençol que faz as vezes de ecrã, e as
imagens que lhe enchem a retina são da vinha coberta de vege-
tação verdejante — margaças floridas, com o seu odor incon-
fundível, roxas candeias que cresceram entre elas, serralhas em
flor — e, esvoaçando livres por cima, longas vides que a tesoura
de poda atarraca em cliques sucessivos, deixando talões de três
olhos e varas de seis, gemendo seiva dos sarmentos cortados,
são as nuvens fugidias que vindas do mar correm pelo céu sabe-
se lá para onde — como a sua vida.
Nem amores ardentes, nem brigas, nem patuscadas, nem
bebedeiras de caixão à cova — apenas a terra a que nasceu gru-
dado, apesar de a mãe bem o ter tentado evitar, se cola às suas
recordações como o barro dos Montes se colava às suas botas.
Vê, vê distintamente as vinhas descavadas, podadas, empadas,
os cachos que despontarão e que a calda bordalesa azulará, o
cinzento do oídio queimado pelo amarelo do enxofre, as tinas
cheias e bem calcadas a caminho da adega transportadas em
carro de bois cujo eixo de madeira chia alegremente apesar do
óleo queimado com que o carreiro o lubrifica, o aguilhão que
espevita os animais de dorso luzidio... Vê-se a si próprio na for-
ça da idade, um cavalão cheio de força, fazendo rodar a roda de
ferro maciço do esmagador que moverá os rolos dentados que
transformarão a polpa das uvas em sumo, sente outra vez o chei-
ro do mosto, não apenas na sua adega mas perfumando toda a
aldeia, mexe outra vez as uvas que fermentam nas tinas, no lagar
e nos tonéis remexendo com o tridente de ferro até ao fundo das
vasilhas e aspira o perfume do líquido que borbulha enquanto
aguarda a sinfonia das prensas cantantes, tlim, tlim, dirá uma, e
logo outras responderão, emancipando o jovem mosto do pé, e
escorrerá então definitivamente livre pelo ralo do lagar enchen-
do a pia, como filho já adulto que deixa a casa paterna para
seguir o seu rumo vida fora... Abençoa a Deus, agradecendo
finalmente, mas antes tarde do que nunca, a força que lhe deu
para apertar a prensa, para despejar almude após almude lá no
alto, pelo batoque do vasilhame...
Revive o São Martinho, quando com uma verruma abria um
pequeno orifício na madeira do tonel, de onde prontamente jor-
rava um jacto de vinho cantante. Cheio o copo, tapava o buraco
com um pau aguçado, o espicho, e contemplava pela primeira
vez nesse ano o produto não de um ano de labuta, mas de uma
vida inteira, a sua, e de tantas outras que o antecederam. Rega-
lar-se-á mais uma vez com a recordação da sua limpidez crista-
lina, com o aroma inconfundível, com o paladar incomparável.
Adorá-lo-á como a um deus a quem servisse toda a sua vida,
amá-lo-á como à sua maior criação e inchado de orgulho dá-lo-á
a provar aos compadres: — Este ano está ainda melhor do que
de costume! e eles confirmarão, não sem inveja: — É da sua
Salgueira, aquela encosta é abençoada!
— E do saber, rematará, e eles contestá-lo-ão, mas para o que
conta, todos estarão de acordo: o seu vinho é do melhor que se
faz nos Montes, terra de muito vinho e poucas fontes — diz o
povo, exagerando um pouco, como é seu costume, que se todos
abrissem em simultâneo os tonéis e os depósitos, lá em baixo —
em Alpedriz, em Cós, na Ribeira do Pereiro — tudo ficaria ala-
gado!
Sem que saiba porquê, vem-lhe à ideia o cunhado Asdrúbal,
que um dia, tantos anos atrás, mas parece que foi ontem, lhe
bateu na tasca do Ameixa por dizer mal da Joaquina em público.
Sofre, como então sofreu, a morte do rapaz, atropelado por um
camião numa noite, quanto remendava na berma da estrada um
furo na roda de trás da bicicleta. Passado o luto, quando a dor da
perda já se tinha atenuado, souberam que uma jovem da Cumei-
ra estava possessa com o espírito do cunhado. Duvidou e arran-
jou coragem para, na companhia da sogra, ir tirar a prova dos
noves. Afinal assistira à autópsia do moço, nada poderia ser
pior, pensava ele, a quem as coisas do Oculto apenas assustavam
na escuridão da noite.
Recebeu-os com estranheza uma rapariga na adolescência,
que não conhecia, dizia, o Asdrúbal nem qualquer outra pessoa
dos Montes. Foram os pais, ansiosos por se livrarem e por livra-
rem a filha daquele pesadelo, que insistiram para que entrassem.
À volta da mesa, na penumbra daquela sala de janelas fechadas
e cortinas corridas, tentaram saber porque é que o espírito do
defunto assombrava a filha. Então a voz da miúda mudou,
engrossou como a de um homem, começou a falar com as pau-
sas, a entoação e os tiques do Asdrúbal, identificou o Jaime e a
mãe da Joaquina, suplicou que não chorassem mais por ele para
poder ter paz no Além, arrotou da morcela que tinha comido à
ceia na noite em que morreu, o que a mãe confirmava, entre o
terror e a alegria de ouvir de novo a voz do filho falecido...
Desaparecida a incredulidade, mãe e cunhado teriam continuado
com as perguntas, se o pai da medium à força, querendo ver-se
livre e livrar a filha daquele purgatório, não tivesse perguntado
ao espírito do defunto o que é que ele queria e porque é que
assombrava a filha em vez de atentar a mulher. A voz roufenha
falou e disse, para surpresa de todos menos do Jaime, que já
tinha ouvido uns zunzuns, que a mulher era uma cabra, ele mor-
to há tão pouco e ela já metida com outros; quanto à família
dele, queria que deixassem de sofrer por sua causa, para que
pudesse ter o descanso eterno, para o que precisava ainda que
pagassem uma promessa sua, feita em momento de aflição: ofe-
recer à Virgem Maria uma vela do seu tamanho, promessa a
pagar em Fátima, no 13 de Agosto. Foi o Jaime que levou a vela
e a queimou, acendendo-a vez após vez, que um vento endiabra-
do, estranho naquele dia de canícula, persistia em a apagar e,
mais estranhamente ainda, acalmou logo que a promessa foi
paga. Conforme apuraram depois, a miúda da Cumeira ficara
nesse mesmo dia livre das assombrações, de que, aliás, se não
recordava e em que recusava acreditar. Também o Jaime, sem-
pre tão receoso das coisas do oculto, procurou explicações plau-
síveis que não envolvessem o sobrenatural, não por duvidar do
que viu e ouviu, mas por descrer da interpretação que então
todos fizeram dos factos, como se tudo não tivesse passado de
um daqueles sonhos em que julgamos estar despertos e acorda-
mos com dificuldade em aceitar que tudo o que vivemos tenha
sido mera ilusão... Agora que tinha já um pé na cova, bem gosta-
ria de poder acreditar que o esperava outra vida, esta eterna e
perfeita; mas, com a lucidez de camponês que ainda lhe restava,
não percebia porque é que seriam aproveitados tantos velhos e
velhas, falecidos desde o início dos tempos, já sem préstimo
algum... Só uma divindade pouco prática encontraria utilidade
para tanta gente decrépita, inválida, idiota, à mistura com crian-
ças mortas antes de tempo e uns tantos adultos, não raro cheios
de doenças e de mazelas... Logo, logo, as ideias lúcidas lhe
fugiam como as nuvens que corriam pelo céu e o que via agora
eram os primeiros meses de casado e a forma estúpida como se
portara com a mulher, os tempos que se seguiram, marcados
pela paixão primeiro, pela camaradagem depois, quando ela
dava desconto às suas infidelidades. Via os filhos, ora crianças
ora adolescentes, ora adultos e casados... Via, e tudo se confun-
dia, toda a terra, a das boas e a das más colheitas, todos anos, de
abundância e de Inferno, toda a vida, de sofrimento e de prazer,
tudo se misturava, como se o Tempo fosse um ió-ió nas mãos de
uma criança, subindo, descendo, avançando, recuando — e ele e
todos os outros camponeses dos Montes meros servos servindo
o roxo e aromático deus Vinho.
Vê-se a jogar ao pião, desandando-o na própria palma da
mão, habilidade que deixava os outros miúdos maravilhados,
incapazes de o imitarem naquele gesto intransmissível que lhe
permitia lançar a pioninha num movimento de vaivém para a
receber em voo na palma da mesma mão que a lançara, rodando
tão depressa que parecia adormecida... Ou à roda bota-fora, um
círculo desenhado no chão, onde pião que ficasse serviria de
alvo para todos os jogadores, o proprietário procurando retirá-lo,
os adversários querendo atingi-lo: — O meu racha cavacas!
Não admirava que fendesse em dois pião em que acertasse,
que tinha por bico, não a craveira de origem, mas um longo
prego de aço... Por isso, alguns cachopos traziam sempre consi-
go uma minúscula pioninha de rija azinheira, que colocavam no
lugar do pião que ficara na roda — se, acaso, alguém a conse-
guisse atingir directamente, ela saltaria para fora do círculo e
ficava livre do massacre.
Recorda, sem que saiba por que é que essas imagens lhe
enchem agora os olhos, o curral dos porcos da comadre Cica
escorrendo mijaceira para a estrada e o desconsolo da vizinha
quando o seu porco apareceu morto, sem que tivesse antes mos-
trado sinais de doença. Vê tão distintamente como se fosse hoje
chegar um grupo de ciganos: — Vizinha, soubemos que lhe
morreu um porco de doença. Vai comê-lo? Não ia. — Então, se
o der à gente... Que o levassem, poupavam-lhe o trabalho de o
enterrar. Mas não receavam a doença? — Ora, cigano resiste a
tudo e só tem medo de fome, de facada ou de tiro! Soube-se
depois que eram os ciganos a matar os animais deitando na vés-
pera vidro moído no masseiro... — Ah, se eu tivesse desconfia-
do, tinha enchido a barriga do porco de petróleo antes de o leva-
rem, que haviam de se queimar todos!, lamentará a solteirona,
que levará uma vida parcimoniosa até ao final dos seus dias.
Também ela chegará a velha, tendo como finalidade na vida
zelar pela casa que os avós construíram para os pais quando se
casaram e onde ela própria viveu quase até aos noventa anos: —
Nossa casa, nossa brasa, dir-me-á como justificação para o seu
comportamento, quando a encontrar carregando areia para junto
do arrebate da porta, tentando impedir em vão que a água da
chuva entre, que a Junta subiu a rua ao alcatroá-la; ei-la velhi-
nha, já muito corcovada e treslendo um pouco, zelando pela sua
brasa às escondidas dos sobrinhos, que fecharam a porta com
corrente e cadeado e trancaram as janelas, receando que o telha-
do desabe sobre a velhota e o povo os censure por não tomarem
conta da tia, apesar de terem herdado as suas terras. A Menina
Cica tentará entrar por janela do rés-do-chão, acabará arrastada
pelo Ildefonso, que lhe ralhará, em berros e gritos que se espa-
lham pela aldeia, censurando a loucura benigna da velhinha que
não tem outra razão para viver senão esta: conservar de pé a sua
casinha, que a protegeu, que a aconchegou, durante quase um
século.
Nuvens baixas correm pelo céu, das Sesmarias para a Santa
Rita e, muito mais acima, outras vogam lentamente em sentido
contrário, vagas, fluidas, incertas, indiferentes às vinhas perdi-
das que sobrevoam. Já o Sol de Inverno se esconde por detrás do
Alto Casal, o dia arrefece, a luz intensa desaparece, fundindo-se
com as sombras do crepúsculo. Ah, se estivesse agora nas Tojei-
ras, vê-lo-ia mais uma vez desaparecer ao fundo entre os pinhais
que ocultam da vista o mar, onde se afundará tingindo-o de
rubro. Mar, mar, tão próximo e tão distante, mar gelado no
Verão, afagando-lhe os pés descalços, mar cinzento no Outono,
cheiroso do mexilhão com que enchia saca de serapilheira para
patuscada na adega, mar violento no Inverno, quebrando-se con-
tra molhes e penhascos, mar azul na Primavera, mar das sardi-
nhas e dos chicharros, onde lavram pescadores em ceroulas de
flanela, mar que chega aos Montes trazido pela maresia quando
o vento sopra de feição ou nas canastras das peixeiras, as pexi-
nas, correndo para evitar que outra chegue primeiro a casa da
freguesa, sempre apregoando o pescado com a musicalidade do
falar da Nazaré...
Mar — vê-o nitidamente, tal como o avistou do Sítio quando
levou o filho Francisco pela primeira vez à praia, teria o moço
então uns seis anos. Ah, como lamentava agora o rigor com que
tratara a criança, surra em cima de surra, ralhos sobre ralhos,
proibições de fazer isto, de andar com este ou com aquele, e
nem a desculpa de ter procedido como todos os outros pais,
como o seu próprio pai procedera para consigo, lhe servia já de
atenuante. Fora brutidade, fora ignorância, fora maldade, e ainda
bem que já havia quem começasse a quebrar o costume que se
arrastava há tantas gerações que parecia perder-se na origem dos
tempos; vê crianças semi-nuas, vestindo apenas uma camisola
interior que já não lhes tapa a barriga inchada pela subnutrição,
descalças sobre geadas de Fevereiro, arrancando lâminas de gelo
da superfície de poças de água, o ranho escorrendo pelas faces
— para “enrijar”, dirão rindo cinicamente as bestas dos pais,
tentando assim justificar a crueza com que tratam a prole...
Logo, logo, o remorso cede lugar à imagem da água do mar
espelhada nos olhos do moço enquanto caminhavam ambos pela
beira-mar, os pés finalmente livres das botas que todo o ano os
aprisionavam, o perfume da maresia enchendo-lhes o peito, o
céu azul cortado pelo voo branco das gaivotas, as sardinhas pra-
teadas palpitando nas redes, a alegria resplandecendo no rosto
dos pescadores, como camponeses após abundante vindima — e
lamentava novamente todos os momentos desperdiçados por não
ter reparado que os dias desfilavam velozmente como os cavali-
nhos do carrossel na Feira de São Bernardo, sempre correndo,
ora subindo, ora descendo, — Mais uma volta! 'Tá a andar!
Entravam crianças, saíam adultos, aqueles que de fora olhavam
viam apenas rostos e corpos que rodavam, bem agarrados ao
cavalo de pau ou rodopiando em banco rotativo, e na vertigem
que as voltas causavam, não sabiam já se os velhos que de lá
saíam, — O quê, já acabou? Passou tão depressa!, não seriam as
crianças que tinham visto pouco antes a entrar...
Perdera os primeiros sorrisos dos filhos, os primeiros passi-
nhos, desprezara o aparecimento do buço do Chico, ralhara ao
saber do primeiro namoro da filha, coisa inocente de crianças
ainda na primária... Como a água que corre inconsciente, sem
açude que a afrouxe e lhe dê préstimo, assim fora a sua vida.
Que contas daria ao Criador, se lhas exigisse, que poderia argu-
mentar a seu favor que o distinguisse de um boi de trabalho,
cumpridor e às vezes cobridor, se a ocasião o propiciasse, que
tinha ele acrescentado ao Mundo? As lágrimas corriam então
pela face, comovendo vizinhos e passantes, julgando que chora-
va o seu destino futuro, quando, na verdade, lastimava o passado
vão.
Chia um carro de bois que passa carregado de esterco, é o
José Emílio que o guia, uma mão na canga outra segurando o
aguilhão às costas, sempre, sempre assobiando alegremente a
mesma melodia; por isso, ele que sempre foi um ás na bicicleta,
reprovou no exame: acrobacias como as que então fez, sempre a
assobiar, não agradaram aos examinadores, que o julgaram tonto
e por isso lhe recusaram a carta de velocípede. Mete-se com o
Jaime, rapaz do seu tempo, e, na ausência de resposta, segue o
seu rumo, trauteando a mesma música, sem deixar transparecer a
tristeza que o invadiu — hoje tu, amanhã eu, toca a todos. Mor-
rerá de acidente, já bem velhinho, quando um carro embater
com a motoreta em que seguia a caminho da Póvoa, andava
então no negócio da fruta. As duas rodas, em que sempre fora
exímio, acabariam assim por ser a sua perdição, evitando-lhe,
talvez, passar por calvário idêntico ao do Jaime, preso à cama
ou, nos dias bonitos, ao mocho.
A mulher e a filha, que uma só não pode com ele, levam-no
para dentro de casa, deitando-o no divã onde dorme só. Ocorre-
lhe, então, que toda a sua vida foi apenas um dia que agora che-
ga ao fim, embora a agonia se possa arrastar por meses ou mes-
mo anos, como sucedeu ao avô, acamado durante seis anos. Até
lá, pelo seu cérebro enevoado como o de recém-nascido conti-
nuarão a desfilar imagens, sensações, fragmentos de histórias,
que não raro se amalgamam numa outra maior — e as persona-
gens desmenti-la-iam se a ouvissem, dizendo que pessoas, tem-
po e acontecimentos estão baralhados, mas isso não importa —
que é um nome, que é uma data mais do que um açude efémero
que tenta deter por um momento que seja Vida e Tempo? O pas-
sado mais longínquo e o presente mais recente fundem-se e vê
novamente jovens rostos que morreram velhos — Aquele é o
Mitadá, e o velho tem agora oito anos, e ambos ouvem a bisavó
contar como fugiram dos franceses para a Mata da Castanheira e
como por lá sobreviveram, era ela uma menina e os franceses
emboscaram-nos: — Matamo-los?, perguntou um. — Não, dei-
xa-os ir, são apenas crianças, respondeu outro, sem que nenhum
dos miúdos estranhasse que a avó tivesse compreendido o Fran-
cês, é o deslumbramento da descoberta de um ninho de melro
num vergueiro na cova da Silveirinha, e as avezinhas implumes
e cegas abrem novamente os bicos enormes relacionando o ruí-
do da folhagem afastada com a chegada dos progenitores, é a
cabaça de água-pé que leva à boca em dia de estiagem, e a bebi-
da faz novamente gluglu enquanto lhe escorre pelas goelas abai-
xo, é a satisfação do estrume nos poceirões da burra a caminho
do chão-de-horta que depressa fará crescer enormes pepinos e
tomates, patarecos e melancias e sempre, sempre, a água que
corre livre pelas regueiras e que ele captura numa folha de couve
para sorver deliciado matando a sede em dia de Verão escaldan-
te...
Como o vento que em certos dias de Inverno sopra de todas
as direcções, dando-nos a sensação de o ter sempre pela frente,
assim são as suas memórias, surgindo sem causa, por vezes
indesejadas, impondo a sua própria lógica, que, a bem dizer, não
é nenhuma, pois talvez nem mesmo o Sol, que nasceu bem antes
da humanidade e certamente morrerá bem depois dela desapare-
cer, saiba porque se levanta todos os dias a Nascente para se
deitar a Poente.
Porque se lembra agora dos ninhos? Porque sofre novamente
como quando os rouxinóis-pais o seguiram durante toda uma
tarde, piando dolorosamente, por lhes ter tirado os filhos ainda
implumes, sonhando, na sua ingenuidade infantil, criá-los e
impressionar toda a aldeia ao ser o único possuidor de rouxinóis
cantantes? Morreriam pouco depois, nesse mesmo dia, tendo-os
antes abandonado já moribundos sobre um muro velho, na espe-
rança vã de que os pais cuidassem deles e deixassem de o perse-
guir piando de forma tão dorida que a recordação lhe dói hoje
como lhe doeu então.
Cai a noite sobre a aldeia, mas não cai ainda a noite sobre o
Jaime, pondo fim ao seu definhar lento, qual candeia a que o
azeite vai faltando, tresandando a ranço ardido e nauseabundo…

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