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Correio Brasiliense, Caderno C, Brasília, 08 de março de 2009.

ANOTAÇÕES
COLETIVAS
Artes Cênicas
Debruçada sobre os estudos teóricos e práticos do dramaturgo alemão Bertolt
Brecht, Companhia do Latão completa 10 anos com lançamento de livros que
sistematizam o método e o pensamento.
Sérgio de Carvalho/Divulgação

NEY PIACENTINI E DEBORAH LOBO NO ESPETÁCULO CÍRCULO DE GIZ CAUCASIANO:


BRECHT DE PRIMEIRA, NO COMBATE À IDEOLOGIA DOMINANTE.

Sérgio Maggio
Da Equipe do Correio

Há 10 anos, a obra de Brecht ganhou referência internacional no Brasil. A Companhia do


Latão não só montou textos caros da dramaturgia do alemão como fez reacender a chama teórica
que envolve o teatro dialético. No palco ou em debates, o grupo paulistano espantou a poeira
que insistia em apontar certo “envelhecimento” daquele que foi um dos mais contundentes
homens de teatro do mundo. Sem argumentos diante da produtiva atividade intelectual e prática
desse coletivo, os detratores de Brecht calaram-se diante de montagens viscerais como O Círculo
de Giz Caucasiano, que, lamentavelmente, nunca se apresentou no DF.
“Para nós, que iniciávamos um trabalho teatral no centro da cidade de São Paulo, um
laboratório do capitalismo mundial, com seus empresários que vão para o trabalho transportados
por helicópteros e suas multidões de crianças e velhos nas ruas, a aposta de Brecht parecia mais
realista. O capitalismo é onipresente, mas nele, muitas contradições explodem”, avalia o diretor,
dramaturgo e professor Sérgio de Carvalho em palestra pronunciada na Casa Brecht de Berlim. O
texto abre a publicação Introdução ao teatro dialético- experimentos da Companhia do Latão,
que acaba de ser editado junto com Atuação crítica, ambos pela editora Expressão Popular e com
patrocínio da Petrobras.

Improvisações
Importante arsenal de idéias para pensar o teatro brechtiano, os livros reúnem escritos
teóricos, entrevistas, críticas e peças teorizantes. São artigos sobre dramaturgia contemporânea
e teatro colaborativo, base do processo de criação. “Mesmo trabalhando com o texto já pronto,
como ocorreu com O círculo de giz caucasiano, a tarefa do ator ainda é dramaturgica. Não lemos
o texto no início dos ensaios. Sabíamos das relações da história da peça que nos eram contadas.
Improvisamos sobre elas ou sobre roteiros. Inventados por nós, de situações análogas”, analisa a
atriz Helena Albergaria, que assina o texto “Sobre uma atitude realista” em parceria com ator
Ney Piacentini. “Nos processo de criação da Companhia do Latão, existe um cuidado de não
bloquear o trabalho intuitivo, uma tentativa de gerar situações em que o acaso nos ajude.
Abusando de improvisações e exercícios experimentais, procuramos adquirir uma confiança no
processo que nos permita trabalhar na incerteza para gerar resultados mais inusitados”, completa
Piacentini.
Um dos materiais mais instigantes das duas publicações, a série de entrevistas traz
conversas com a pesquisadora Iná Camargo Costa, o crítico Décio de Almeida Prado e o teatrólogo
Gianni Ratto, por exemplo. Diretora do Théâtre du Soleil, a francesa Ariane Mnouchkine é dona
de uma das melhores conversas de Atuação crítica, publicadas originalmente na revista Vintém.
“Eu não posso imaginar um teatro que conte a história dos homens, sem que o próprio grupo de
atores se interesse por essa história. Ninguém se interessa por uma história abstrata, sem
conexões com a vida atual. Por outro lado, nós somos artistas, não políticos. Passamos nosso dia
no teatro. Mesmo assim, há momentos em que precisamos conjugar a arte e a cidadania”, ensina.

Atuação Crítica
Sérgio de Carvalho e colaboradores.
Editora Expressão Popular
(www.expressaopopular.com.br). 224 páginas, R$15,00.

Introdução ao teatro dialético


Organização de Sérgio de Carvalho.
Editora Expressão Popular, 300 páginas, R$15,00.

O pensamento do Latão // Por Sérgio de Carvalho


“Um dos aspectos mais importantes da atitude dialética de Brecht é seu combate à ideologia
dominante, tanto nos discursos como nas formas sensíveis da representação.”

“É na sala de ensaio que tem início o processo de politização do teatro. O modo como se
organizam as relações de trabalho entre os integrantes do grupo determina o caráter político da
encenação.”

“Como uma sandália que não se destina mais ao pé, mas feita para ser vendida, o artista passa a
trabalhar para ser reconhecido como artista, gasta a sua energia produtiva e econômica para
aparecer nos jornais, para ser valorizado como mercadoria de cultura. Torna estética não sua
obra, mas sua condição de mercadoria.”

“Algumas pessoas consideram ultrapassado encenar peças com temas políticos. Talvez cansadas
de um certo dogmatismo doutrinário ou de muita arte ruim feita em nome de boas intenções,
elas tendem a considerar ultrapassada qualquer arte com conteúdos sociais manifestos, qualquer
arte que apresente algum engajamento. No entanto, as mesmas pessoas que cometem esse
equívoco valorizam em nós a liberdade do jogo formal como se fosse novidade cênica. Porque a
nossa forma de espetáculo é que é muito antiga.”

“Em cena, não temos apenas atores, mas uma equipe de narradores, que se utilizam do canto, da
fala, das ações, dos gestos, dos meios concretos e comuns para que a história seja representada.”

“O ator só tem prazer em cena quando compreende a finalidade do seu trabalho. E, sem prazer
artístico, não se faz bom teatro”

“A nossa forma de improvisar, e assim adaptar e escrever uma peça, não tem aquele espírito de
contracultura, nem a procura de um estado livre de abertura do inconsciente. Todos os nossos
improvisos almejam o acaso com bases lógicas da história. Seguem uma lógica da ação. Têm
procedimentos semelhantes ao método das ações físicas tal como foi desenvolvido por
Stanislavski nos anos finais de sua vida. Improvisar faz parte da ciência do teatro. È o caminho da
tentativa e erro da arte.”