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UNIVERSIDADE FEDERAL DA INTEGRAÇÃO

LATINO AMERICANA

HISTÓRIA – AMÉRICA LATINA – TURMA 2012





A Construção da Modernidade
Japonesa








FOZ DO IGUAÇU- 2014



UNIVERSIDADE FEDERAL DA INTEGRAÇÃO
LATINO AMERICANA
HISTÓRIA – AMÉRICA LATINA – TURMA 2012






A Construção da Modernidade
Japonesa

ALUNAS: ISADORA LUIZA FRANCISCA ALVES FLORES E
LETICIA CONSALTER

Trabalho apresentado para
avaliação na disciplina de
Modernidade e identidades da
Ásia Contemporânea do curso
de História – América Latina
turno noturno da Universidade
Federal da Integração Latino-
Americana ministrado pela
professora Dra. Mirian Santos
Ribeiro de Oliveira


FOZ DO IGUAÇU- 2014




I. Introdução

O presente ensaio tem como objetivo apresentar algumas considerações a respeito
do processo de construção da modernidade Japonesa. Partindo da premissa de que a
modernidade é uma experiência histórica que influencia diferentes âmbitos de uma
sociedade, inclusive no que diz respeito à cultura e a subjetividade, esse trabalho
também visa algumas exposições a respeito da constituição da identidade coletiva
nipônica e sua relação com a legitimação da estrutura de poder Meiji. Postulando assim,
a imersão do Japão no sistema mundo não apenas como resultado da abertura dos portos
japoneses em 1853, mas de um processo cujas bases se estabeleceram já no regime do
Xogunato.

II. O Xogunato
O ano de 1192 ficou marcado na história nipônica como o ano em que a classe
guerreira japonesa destituiu o poder imperial. Na época, o Japão experimentava uma
profunda fragmentação política, seu território era dividido em Hans, unidades político-
administrativas controladas por clãs que frequentemente se envolviam em turbulentas
disputas por terras. (CRÉ, SARRAFF, LACERDA, 2011)
Foi após um período de intensa guerra entre os poderosos clãs de Taira e
Minamoto, que se institui o Xogunato, regime no qual o governo passou a ser
controlado por um representante da classe militar, o Xogum, ao passo que o Tenno,
Imperador, passou a cumprir o papel de autoridade simbólica. O Xogunato perdurou até
o ano de 1868, sendo interrompido por guerras civis nos anos de 1335-1392 e 1467-
1568. (OTA, 1984) No decorrer de sua existência foi liderado por três dinastias:
Minamoto (1192-1333), Ashikaga (1338-1573) e Tokugawa (1603-1868).
O primeiro Xogunato ficou conhecido como „Xogunato Kamakura‟ devido à
localização da sua sede administrativa na cidade de Kamakura. Nesta dinastia o Xogum
responsável pela administração do Império foi Minamoto no Yoritomo (1147-1199)
representante do vitorioso Clã Minamoto.
A segunda dinastia foi conhecida como „Xogunato Ashikaga‟, e foi marcada pela
instabilidade. O governo do clã Ashikaga foi conturbado por rebeliões e guerras civis e


antecedeu a última fase desse regime antes da Restauração Meiji, o Xogunato
Tokugawa.
III. O Xogunato de Tokugawa e o Tratado de Kanagawa
O Xogunato Tokugawa ficou particularmente conhecido por seus esforços pela
unificação do país e pela adoção, em 1639, de uma política de isolamento, a Sakoku,
que implicou no fechamento dos portos japoneses ao comércio estrangeiro- à exceção
dos Países Baixos, China e Coreia. Essa medida, que tinha como objetivo o combate às
influencias ocidentais sobre a cultura nipônica, além de fortalecer o mercado interno
Japonês, também proibiu a entrada e saída de estrangeiros do país. Segundo Dra. Ota
Mishima, professora do Centro de Estudos Asiáticos e Africanos de El Colegio de
México, durante esse período de isolamento “(...) el pueblo disfrutó de (…) siglos de
paz, que le sirvieron para su enriquecimiento interno en las ciencias y las artes, dando
nacimiento a la cultura del samurai.” (OTA, 1984. Pág. 161).
Durante os mais de 200 anos de vigência desta política, o Japão, já
consideravelmente mais unificado, sofreu com uma grande pressão internacional pela
reabertura dos portos. Porém isso só ocorreu em 1853, quando uma missão
estadunidense comandada pelo Comodoro Mattehew C. Perry (1794-1858) foi enviada
ao Japão com o objetivo de exigir a reabertura sob a ameaça de ataque.
Como resultado, o Tratado de Kanagawa de cooperação de comércio foi assinado
entre Estados Unidos e Japão em 1853, resultando na abertura de dois portos japoneses
(Shimoda e Hakodate) para o comércio estadunidense. Esse acordo foi estratégico para
o governo norte-americano, uma vez que possibilitou aos seus navios locais seguros
para o aporte, reparo e reabastecimento, em uma época em que os Estados Unidos
viviam um momento de franca expansão. Em 1856, foi assinado com os Estados
Unidos outro tratado pouco vantajoso para o Japão, o Tradado de Amizade e Comércio.
(MURAI, 2000)
A ameaça do crescente interesse de potencias imperialistas ocidentais belicamente
superiores na região asiática, somada à demanda de alguns setores da elite japonesa pela
modernização do país, configuraram um cenário de insatisfação com o Xogunato. A
corrente científica nacional, ou clássica da literatura japonesa, Kokugaku, alimentou


uma forma de nacionalismo embrionário no Japão, a partir do qual, segundo a Dra. Ota
Mishima:
“(…) surgieron movimientos en favor de la Casa Imperial y en contra del
shogunato. Esto permitió que en 1868 el shogunato entregara pacíficamente
el poder político y militar al tenno (Emperador) Meidyi. No hay que olvidar,
sin embargo, que Japón, en más de dos siglos de su política aislacionista,
sakoku, se había preparado internamente en todos los campos de la cultura,
la ciencia, la economía y el comercio, lo que le permitió enfrentarse con
confianza la modernización.” (OTA, 1984. Pág. 160-161)

IV. Restauração Meiji e a Construção da Modernidade Japonesa.

Ao analisar a modernidade nipônica, partimos da perspectiva de que a modernidade
não é um processo múltiplo apenas por influenciar diferentes ambitos de uma sociedade,
mas também, e uma vez que, suas instituições não se desenvolveram de modo uniforme
ao redor do globo (EISENSTADT, 2010). Não limitando assim, a análise da experiência
histórica da modernidade em países não europeus nem a abordagens tecnicistas, atidas
exclusivamente a avanços técnico-científicos, ou a interpretações eurocentradas, que a
reduzem esses processos a movimentos de pura “ocidentalização”.

A partir dessa perspectiva é interessante à análise da reconfiguração político-social
inaugurada no Japão com o declínio do Xogunato e a o inicio da Era Meiji.
Proclamada em 3 de janeiro de 1868 a Restauração Meiji implicou em uma renovação
na anatomia do exercício de poder japonês. Se fazendo da conformação da identidade
coletiva japonesa a princípios modernizadores, consolidou-se um processo que
resultaria nas bases para a transformação do país de uma autarquia rural em uma das
maiores potencias capitalistas mundiais.

Majoritariamente, as lideranças Meiji, ao derrubarem o Xogunato Tokugawa e
reestabelecerem a autoridade Imperial, não tinham como o objetivo ocidentalizar o
Japão, mas o desenvolver de forma que o país fizesse frente às potências ocidentais
(OMENA, SILVA, 2008). Entretanto, demorou pouco mais de duas décadas para que
os grupos extremistas que clamavam por uma ocidentalização efetiva e completa fossem
subjulgados por neotradicionalistas japoneses, consolidando o projeto japonês por uma


modernização diferente da ocidental e que posteriormente alguns teóricos
caracterizariam como uma “modernização seletiva”. Como coloca Hobsbawn:

“No lapso de duas décadas surgiu uma reação contra os extremos da
ocidentalização e do liberalismo, parcialmente com a ajuda da tradição crítica
ocidental do liberalismo, como a alemã, que ajudou a inspirar a constituição
de 1889, (...). Foi essa combinação de neotradicionalismo e modernização
seletiva (...) que prevaleceu.” (HOBSBAWM, 2005, p. 219)

E embora seja possível estabelecer alguns paralelos entre os processos de
modernização e industrialização da Europa Ocidental com a experiência japonesa, é
importante destacar como muitos dos componentes estruturais da modernização
nipônica, tais como a composição da identidade coletiva japonesa, suas premissas de
autoridade, ordem e política, se distanciaram dos modelos ocidentais. (EISENSTADT,
2010). A própria interação com potências imperialistas ocidentais com projetos de
modernidade já consolidados implicou na constituição de um programa de modernidade
que, em muitos aspectos, se distinguiu do modelo europeu.

A adoção de medidas modernizadoras como a criação de infraestrutura, ferrovias e
portos, a instalação de indústrias de bens de produção, a reformulação da educação e o
estímulo aos investimentos na indústria por grupos familiares, os Zaibatsus, foram todas
práticas concebidas pela elite nipônica como uma forma de adaptar-se ao passo dos
novos tempos. Tais práticas tinham como objetivo o domínio da tecnologia ocidental
como meio de estabelecer o lugar do Japão no cenário mundial junto às outras potências
capitalistas. Essa experiência histórica não foi, no entanto, determinada como no
Ocidente, como um processo histórico definido por valores e visões transcendentais e
universalistas, mas sim como um ajuste, uma apropriação do próprio movimento do
tempo. (EISENSTADT, 2010)

V. A Identidade Coletiva Japonesa e a Autoridade Imperial na Era Meiji

A constituição de uma identidade coletiva específica entre os japoneses e a
fomentação de um sentimento de pertença a uma comunidade imaginada de âmbito
nacional, foram processos diretamente relacionados à legitimação do regime Meiji. A


reorganização política e estrutural do Japão em um viés centralizador deflagrou a
necessidade pela apropriação de um arcabouço de tradições e signos que formassem os
habitantes do arquipélago enquanto japoneses. Como coloca Josefa Valderrama Lopéz.

“Before Japan opened to the World in the Meiji Period (...) Japanese had no
need to identify themselves as Japanese. During the Edo Period, Japan was
organized into a system of Land Lords ( 大名 daimyou) and each of them
owned a land and ruled its people. Due to this system in which people had to
obey to a land lord, no specific “identity” existed in Japan before Meiji.
Though all of them had to respect the Bakufu‟s (Government) rules, this did
not make a “Japanese identity” strong enough to be considered as so.
Considering this “lack of Japanese identity”, the Meiji restorers decided to
create one like “other modern nations had”, using the existing elements in
their culture to create an appropriate one.” (VALDERRAMA LÓPEZ, 2006,
pg. 127)

Contrariando a tendência das identidades coletivas ocidentais, a coletividade
japonesa moderna não foi formulada em relação a uma civilização universal da qual
fizesse parte. (EISENSTADT, 2010). O japonês moderno pôde se diferenciar do outro,
estabelecendo suas noções de alteridade, baseando-se em concepções oriundas do
período Tokugawa e ligadas à ideia de Kokutai. Conceituação entendida como
“essência nacional japonesa”, a Kokutai caracterizava a nação nipônica como uma
espécie singular de coletividade sagrada e primordial. Segundo John S. Brownlee,
historiador do departamento de história da Universidade de Toronto:

“The most original political idea ever developed in Japan was that of kokutai
[National Essence]. It served from the Meiji Restoration to 1945 as an
inspiring and unifying ideology, and provided the national political
framework within which to place the system of constitutional monarchy
borrowed from the West under the Meiji Constitution of 1889”
(BROWNLEE, 2000. Pg.1)

Ou seja, essa ideologia não apenas legitimou a autoridade imperial, associando sua
figura a uma consciência coletiva primordial, mas também configurou sob o seu
comando um Estado Nacional que, de forma geral, recusava premissas universalistas
advindas de outras sociedades. O incentivo a práticas sociais em sincronia com os
discursos hegemônicos Meiji, reforçaram não só o sentimento de pertencimento a uma


coletividade, baseando-se em crenças elementares da sociedade japonesa, mas também
conferiram autoridade aos representantes da nova estrutura de poder. Como exprimem a
Dra. Luciane Munhoz de Omena e o mestrando em história, Altino Silveira Silva:

“No Japão o discurso político evocava as vitórias do país como sendo
derivadas do imperador e os japoneses comuns deveriam vê-lo como o pai-
sagrado de todos ou um onjin (benfeitor). Isto posto, numa visão idealizada,
os japoneses deviam a ele a felicidade de todos e os deveres de filho e súdito
fiel. Essa impressão descrita era reforçada pelo sentimento de obrigação
social/moral (giri) decorrente do fato que todas as políticas implementadas
pelos oligarcas meiji eram divulgadas como vontade do próprio imperador ou
associadas a ele.” (OMENA, SILVERA SILVA, 2008. pg.7)

Garantindo assim, certa coesão nacional e a subjugação de focos de resistência à
modernização, com especial destaque aos Samurais, que resistiram até 1877 e que,
desde 1873, haviam perdido o monopólio militar com a instituição do serviço militar
obrigatório.

VI. Conclusão

Ao longo deste ensaio buscamos traçar um panorama do processo pelo qual se
constitui o programa de modernização japonês. Interpretando essa experiência histórica
a partir de uma perspectiva contrária aquelas que associam a modernização japonesa
exclusivamente á influência ocidental, ou a teorias tecnicistas limitadas a avanços
científicos, buscamos estabelecer uma análise que evidenciasse suas especificidades
enquanto processo vivido em uma realidade não ocidental.

Contrariando também a visão que atribui à elite Meiji todos louros da
modernização japonesa, esse ensaio também buscou evidenciar como muitos dos
processos desencadeados durante o regime militar do Xogunato, como os esforços pela
unificação do país empregados pela dinastia Tokugawa e o fortalecimento do mercado
interno resultado dos 200 anos de Isolamento Nipônico (1636- 1853), resultaram na
constituição de um contexto sociocultural favorável a instituição do programa de
modernização da Restauração, conferindo assim, toda uma nova complexidade a essa
experiência histórica.


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