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PERFIL
A cura como missão
Conheça a história de Lúcia Braga, neurocientista que virou
referência mundial em sua área, tornando-se a mulher por trás das
onze unidades do grupo Sarah
A doutora no hospital do Lago Norte: endereço procurado por celebridades e anônimos (Foto: Michael Melo)
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23.mai.2014 11:09:29 | por Clara Becker e Lilian Tahan
Em maio de 2010, Mozah bint Nasser Al Missned, a elegantérrima sheika do Catar, foi
ao Rio de Janeiro participar da Aliança das Civilizações, evento ligado às Nações
Unidas. Envolvida em projetos sociais do seu país, ela quis visitar a unidade carioca
do Hospital Sarah Kubitschek. Para a presidente da instituição, Lúcia Willadino
Braga, que já havia recebido figuras como a princesa Diana e a primeira-dama
Michelle Obama, aquela seria só mais uma missão oficial. O encontro, contudo,
revelou-se surpreendente para as duas. As afinidades eram tantas que ambas
suspenderam o resto da agenda naquela tarde. Trocaram confidências em inglês e,
sem que notassem, o papo seguiu em francês. Dias depois, Lúcia recebeu pelo
correio um jogo de porcelana pintado a mão. Com o presente, veio um convite para a
gestora do Sarah conhecer o mundo árabe. Ela aceitou, e, em outubro de 2011,
embarcou na primeira classe da Qatar Airways em companhia do marido. Com
motorista à sua disposição 24 horas por dia, foi a hospitais, deu palestras e deixou
sugestões de organização do sistema médico local. Após uma semana, a sheika fez
uma proposta milionária para que Lúcia largasse tudo no Brasil e ficasse no Catar. A
quantia, mantida em segredo, estava completamente fora da órbita de uma
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neurocientista que dedicou a carreira ao serviço público nacional. Mas não o
suficiente para tirá-la de sua grande missão. “Tenho um compromisso com a saúde
do meu país”, justificou a doutora Lucinha, como é carinhosamente tratada por
pacientes e colegas.

Ao declinar a inusitada e sedutora oferta da sheika, Lúcia renovou os votos de um
casamento com o Hospital Sarah que já dura três décadas. Uma história que
começou na época em que essa gaúcha de Porto Alegre tinha apenas 17 anos e
tomou uma iniciativa ousada para uma estudante. Em um dia de visitação de
voluntários no Sarah, ela tocava flauta para as crianças da enfermaria e percebeu a
chance de abordar o então presidente do hospital, Aloysio Campos da Paz — hoje
cirurgião-chefe da rede. Queria lhe apresentar as conclusões de sua pesquisa como
bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Embora fosse uma menina diante do renomado idealizador do Sarah, Lúcia não se
intimidou. Relatou a Campos da Paz que a música poderia ser uma ferramenta na
reabilitação de crianças com danos cerebrais. A proposta impressionou o cirurgião,
um estudioso das melodias e entusiasta dos instrumentos de sopro. Naquele
momento, brotava a empatia entre os dois e se iniciava uma parceria que se estende
até hoje.


Pacientes famosos

Eles provaram a terapia baseada no amor e se encantaram

Herbert Vianna Em 2001, o cantor sofreu um acidente de ultraleve e perdeu os
movimentos das pernas e dos braços, assim como parte da memória. O uso da
música foi a linha condutora para a recuperação dele. “Esqueci um monte de
coisas, mas me lembrava de algumas letras. A partir daí, Lucinha fez milagre”,
diz Vianna. (Foto: Rafael Conzaga)


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Lúcia foi convidada por Campos da Paz a testar com as crianças do Sarah a técnica
que havia descoberto, e nunca mais se desvinculou da instituição. Usar notas e
sinfonias para tratar enfermidades cerebrais inaugurou uma série de achados que
hoje projetam o nome dessa doutora em neuropsicologia e Ph.D. em neurociências
no cenário internacional. Lúcia formou-se em música e, durante sua graduação, fez
dupla opção, cursando também psicologia pela Universidade de Brasília. Uma
combinação de experiências que a transformou na regente de onze unidades da
rede Sarah no país, dez das quais implantadas em sua gestão como diretora. No
rebuscado universo das descobertas científicas, o notório legado dela hoje parece
óbvio. Mas, em um passado recente, rompeu paradigmas. Ela defendia a ideia de
que o acompanhamento da família era determinante na cura dos enfermos, até então
entregues somente aos cuidados médicos e praticamente isolados do convívio com
os parentes. A tese chegou a ser hostilizada em congressos de saúde, porém Lúcia
seguiu persistente. Com o tempo, conseguiu se fazer entender cientificamente. Para
isso, separou dois grupos durante um ano. Em um deles, os pacientes foram
acompanhados pela mãe. No outro, o contato praticamente se limitava aos
profissionais. A diferença de resultado em favor daqueles abastecidos de carinho
maternal foi sensível, e o Sarah começou a adotar o método de participação da
família como regra. Ao novo procedimento, Lúcia aliou o que chama de reabilitação
ecológica, baseada em uma terapia menos agressiva e que privilegia as habilidades
e funções preservadas dos pacientes, sem nunca ressaltar as limitações causadas
por um trauma. Se as pernas já não andam, então que os braços sejam o caminho.
Tirar o foco do defeito pode, surpreendentemente, significar uma melhora no
conjunto. A unidade do Sarah Lago Norte, por exemplo, foi criada em 2003 para que
os pacientes com lesões mais baixas, aquelas que comprometem os movimentos de
pernas e pés, pudessem estar mais perto da água. Lúcia percebeu que oferecer
musculação entre quatro paredes espelhadas nunca daria o mesmo resultado que
colocar essas pessoas para remar no lago, uma das terapias que trabalham o
equilíbrio e ajudam a fortalecer os membros superiores.


Uma vida de entrega

Momentos marcantes na trajetória profissional e pessoal

Lúcia toca xilofone com um de seus pacientes nos anos 70: a música é usada
como ferramenta para estimular as conexões cerebrais (Foto: Arquivo Pessoal)

Com Campos da Paz, em 1994:no dia em que foi nomeada diretora da rede,
depois de uma década de convivência com o seu mentor (Foto: Arquivo Pessoal)

Em 1999 torna-se doutora honoris causa pela Universidade de Reims
Champagne-Ardenne (França): a primeira mulher a receber o título dado a três
personalidades a cada cinquenta anos (Foto: Arquivo Pessoal)

Ao lado do arquiteto Lelé, projetista das unidades do Sarah, que morreu na
quarta (21), e de Campos da Paz: visita ao hospital do Rio de Janeiro,
inaugurado em 2009 (Foto: Arquivo Pessoal)

Em companhia da sheika Mozah Al Missned no Sarah Rio, em 2010: elas
voltaram a se encontrar no Catar, quando Mozah fez uma proposta milionária
para convencer Lúcia a ficar por lá (Foto: Arquivo Pessoal)

Cercada pelo marido, o arquiteto Pedro Braga, e pelos filhos, Raquel, Filipe e
Rafael (em pé, de azul): paixão pelo Lago Paranoá (Foto: Arquivo Pessoal)


Foi a combinação de música, afeto e a tal reabilitação ecológica o remédio que
devolveu ao vocalista de Os Paralamas do Sucesso, Herbert Vianna, boa parte da
energia que tinha antes da queda do seu ultraleve, em fevereiro de 2001. A
recuperação do artista foi testemunhada por todo o Brasil. Uma vitória que ele dedica
a Lúcia. Depois do acidente, Vianna perdeu os movimentos dos braços e das pernas
e teve sua memória afetada pelo trauma na cabeça. O ponto de partida da
caminhada que o levou de volta aos palcos foi a paixão pela música. “Muitas coisas
ele já não lembrava. Só não esquecia as letras de algumas canções. Esse acabou
sendo o nosso fio condutor”, conta Lúcia. A força de vontade para que os braços
atendessem ao desejo de voltar a tocar impulsionou o cérebro a desenvolver áreas
alternativas àquelas danificadas pelo desastre. De volta à rotina de cantor, até hoje
Vianna se consulta com a doutora, a quem considera uma amiga. “Ela me deu a mão
no meu caminho de volta. É um anjo na minha vida”, disse a VEJA BRASÍLIA. O líder
dos Paralamas mandou fazer para a neurocientista uma guitarra mais leve, sob
medida para as suas econômicas proporções. Ela tem 1,60 metro e, aos 56 anos,
mãe de três filhos e já avó, conserva os 46 quilos da adolescência.

O segredo da doutora para manter a forma e dar conta de em média catorze horas
de trabalho por dia está na opção por uma vida leve. Ela é adepta das saladas, não
faz questão dos doces, adora velejar e, quando o tempo favorece, vai para o
consultório (no Sarah Lago) a bordo de uma canoa. Embora acorde cedo e durma
tarde, não é vista com frequência nas badalações. Passa o tempo livre com a família,
geralmente em compromissos que incluem exposições de arte, cinema, teatro e
música. Seu ritmo é admirado pelos colegas do Sarah. “Quando paro para pensar
em tudo o que ela fez e faz, eu me pergunto se lhe dou o devido valor”, afirma
Luciana Rossi, diretora executiva adjunta da rede, que convive com Lúcia Braga há
35 anos. Ela avalia que a chefe não é autoritária e adotou um sistema de comando
em que todos são chamados a contribuir — inclusive os pacientes.


O gigante da reabilitação

Os números da rede Sarah Kubitschek em 2013

Sarah Brasília: o centro de onde Lúcia administra todos os outros hospitais
(Foto: Divulgação)


São Luís: aberta em 1993, a unidade deu início ao processo de expansão (Foto:
Divulgação)


Rio de Janeiro: inaugurada em 2009, foi a última sede a ficar pronta (Foto:
Divulgação)


Se para Herbert Vianna a terapia teve como lastro a forte ligação dele com a música,
no caso de Jorge Amado o tratamento ganhou impulso no estreito vínculo do baiano
com as letras. Quando Lúcia Braga o conheceu, o escritor já quase não falava com
ninguém, estava com problema cardíaco e em profunda depressão. Internado no
Sarah, a neurocientista o abordou em francês. E ele respondeu bem ao estímulo.
Conversaram muitas outras vezes, a ponto de Amado ditar para ela um romance que
ainda tinha guardado na cabeça. Algumas frases ele próprio digitou em um teclado
feito de letras gigantes, do tamanho que o mestre conseguiria enxergar. Adaptar
instrumentos às deficiências dos pacientes é um dos tesouros desse hospital, que,
por força da excelência e do acesso democrático (confira no quadro abaixo), tornou-
se referência em todas as esferas sociais. “Papai teve um fim de vida muito difícil,
mas Lucinha puxou dele um novo romance. Delicadeza é a palavra que a define”, diz
Paloma Amado, filha do escritor. Essa sensibilidade foi demonstrada, por exemplo, no
fim do tratamento do antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997). Na véspera do seu
falecimento, ele disse que precisava dar aula a uma criança. Era quase madrugada.
Lúcia foi em casa buscar o filho mais novo, Filipe, na época com 9 anos. Durante
duas horas, o menino ouviu as últimas palavras de Darcy. Não havia mais jeito de
cura. Mas lições como essa são guardadas para sempre.




Em seu livro Percorrendo Memórias, publicado em 2010, Campos da Paz registrou
como evoluiu a centelha de admiração por aquela menina da flauta que conheceu na
década de 70. “Um dia, em Oxford, lá no passado, Trueta (Josep Trueta, cientista e
médico espanhol morto em 1977) me disse: ‘Você vai se sentir professor somente
quando formar alguém melhor que você’. O destino se cumpriu.” Campos da Paz se
referia a Lúcia. No mês de março, a cientista abriu o centenário da Universidade de
Goethe, em Frankfurt. Na sequência, foi a São Francisco para assumir a diretoria do
International Brain Injury Association. No último dia 16, viajou à Inglaterra, onde
palestrou na Universidade de Londres. Para junho, já confirmou presença na
inauguração de um hospital na Dinamarca, que adotará o seu método. É o mundo
querendo beber na fonte que brotou em Brasília.


Leia detalhes sobre os estudos mais importantes da pesquisadora em
abr.ai/estudosluciabraga

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