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NEM SEMPRE OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS: O TRIBUNAL PENAL

INTERNACIONAL E A CONSTITUIÇÃO PORTUGUESA
1
Prof. Doutor Jorge BACELAR GOUEIA
!
SUM"RIO:
I # O TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL NO DIREITO
INTERNACIONAL P$BLICO
% 1& A '()ort*+,'- .- re/)o+/-0'1'.-.e )e+-1 '+ter+-,'o+-1
1. A afirmação da pessoa humana como sujeito do Direito Internacional
Público
2. A afirmação progressiva da responsabilidade penal internacional
. !raços fundamentais da responsabilidade penal internacional
% !& A ,r'-23o .o Tr'0u+-1 Pe+-1 I+ter+-,'o+-1 e -/ /u-/ .'f',u1.-.e/
". # $statuto de %oma de 1&&'
(. #utros documentos internacionais relevantes
). A dif*cil efectivação do $statuto de %oma
% 4& A/ o)25e/ /u0/t-+t'6-/ e -.7e,t'6-/ fu+.-(e+t-'/ .o Tr'0u+-1 Pe+-1
I+ter+-,'o+-1
+. #s crimes previstos e as penas aplic,veis
'. # -mbito da jurisdição penal e a articulação com as jurisdiç.es nacionais
% 8& A)re,'-23o ,r9t',- .o Tr'0u+-1 Pe+-1 I+ter+-,'o+-1
&. !r/s cr*ticas fundamentais
10. # desejo da implantação de uma jurisdição uniforme
11. A preocupação pela aplicação de uma justiça imparcial
1
!e1to2s*ntese da palestra proferida em 3uritiba 4Paran,56 no 7rasil6 em 12 de 8ovembro de
200)6 no -mbito do I9 3ongresso Ibero2Americano de Direito 3onstitucional e do :II ;imp<sio
8acional de Direito 3onstitucional.
2
Doutor em Direito e Professor da =aculdade de Direito da >niversidade 8ova de ?isboa
4jbg@fd.unl.pt5.
12. A amplitude da configuração das penas aplic,veis
II # O TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL NA CONSTITUIÇÃO
PORTUGUESA
% :& A 6'+,u1-23o .o D're'to Portugu;/ -o E/t-tuto .e Ro(-
1. # forte interesse portugu/s pela ratificação e os seus problemas
1". A opção por uma cl,usula geral de constitucionaliAação
% <& A '+,o+/t'tu,'o+-1'.-.e .o Tr'0u+-1 Pe+-1 I+ter+-,'o+-1 = f-,e .-
Co+/t'tu'23o Portugue/-
1(. !<picos de diverg/ncia entre o $statuto de %oma e a 3onstituição
Portuguesa
1). A proscrição da prisão perpBtua em CualCuer circunst-ncia
1+. As e1ig/ncias do princ*pio da legalidade penal
1'. A relev-ncia interna das imunidades dos titulares dos <rgãos
constitucionais
1&. A protecção da independ/ncia do poder judicial e do princ*pio do caso
julgado
20. >ma incoerente derrogação constitucional em nome dos direitos humanos
2
I
O TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL NO DIREITO
INTERNACIONAL P$BLICO
% 1& A '()ort*+,'- .- re/)o+/-0'1'.-.e )e+-1 '+ter+-,'o+-1
1. A -f'r(-23o .- )e//o- >u(-+- ,o(o /u7e'to .o D're'to I+ter+-,'o+-1
P?01',o
I. No seio das preocupações destinadas à relativização da
posição hegemónica dos Estados na cena internacional, insere-se o
reconhecimento da pessoa humana como sujeito internacional,
ainda que restritamente a alguns âmbitos

!
3
;obre a pessoa humana como sujeito de Direito Internacional6 v. DI>;$PP$ ;P$%D>!!I6
L’individu et le Droit International6 in Recueil des Cours de l’Académie de Droit International6 1&()6
II6 pp. + e ss.E A8!#8I# 3A;;$;$6 Individuo (Diritto Internazionale)6 in Enciclopedia del Diritto6
99I6 1&+16 pp. 1'" e ss.6 International Law in a divided World6 #1ford6 1&')6 pp. && e ss.6 e
International Law, #1ford6 2006 pp. "& e ss.E A8!F8I# A>D>;!# 3A8GAD# !%I8DAD$6 rinc!pios
de Direito Internacional Contempor"neo6 7ras*lia6 1&'16 pp. 222 e ss.E AA::6 As dimens#es
internacionais dos direitos do $omem 4redactor2geral HA%$? :A;AH56 ?isboa6 1&'E II%$ ;JA7#6
%undamentos $ist&ricos e desenvolvimento dos direitos do $omem6 in AA::6 As dimens#es
internacionais dos direitos do $omem 4org. de HA%$? :A;AH56 ?isboa6 1&'6 pp. ) e ss.E K#;L
3A%?#; :I$I%A D$ A8D%AD$6 Direitos 'umanos6 in Pol.6 II6 ?isboa6 1&'"6 pp. )1( e ss.E 8>8# =I?IP$
7%I!#6 (otas para o estudo da posi)*o do indiv!duo perante o Direito Internacional +,lico6 ?isboa6
1&'"E II3MA$? AH$M>%;!6 Introdu)*o ao Direito Internacional, 3oimbra6 1&'(6 pp. &" e ss.E ;MID$%>
#DA6 El individuo en el Derec$o Internacional6 in AA::6 -anual de Derec$o Internacional +,lico
4org. de IA9 ;#%$8;$856 3idade do IB1ico6 1&'(6 pp. "+" e ss.E P$D%# 8IHH$86 La protecci&n
internacional de los derec$os $umanos. su desarrollo pro/resivo6 Iadrid6 1&'+E A?7I8# D$ AJ$:$D#
;#A%$;6 Li)#es de Direito Internacional +,lico6 "N ed.6 3oimbra6 1&''6 pp. "00 e ss.E AA::6 Les
dimensions universelles des Droits de l’'omme 4dir. de A. ?AP$O%$6 =. D$ !I8D>O e HA%$? :A;AH56 I6
7ru1elles6 1&&0E A%IA8D# I. IA%P>$; D>$D$;6 Direito Internacional +,lico6 2N ed.6 ?isboa6 1&&26
pp. 200 e ss.E PI$%%$2IA%I$ D>P>O6 Droit International u,lic6 Paris6 1&&26 pp. 1"1 e ss.E A8D%L
D#8GA?:$; P$%$I%A e =A>;!# D$ P>AD%#;6 -anual de Direito Internacional +,lico6 N ed.6
3oimbra6 1&&6 pp. +' e ss.E IA%IA K#;L I#%AI; PI%$;6 As reservas 0 Conven)*o Europeia dos
Direitos do 'omem6 3oimbra6 1&&+6 pp. ') e ss.E K#;L =%A83I;3# %$J$H6 Direito Internacional
+,lico 1 Curso Elementar6 'N ed.6 ;ão Paulo6 20006 pp. 210 e ss.E 8D>O$8 P>#3 DI8M6 PA!%I3H
DAI??I$% e A?AI8 P$??$!6 Droit International u,lic6 +N ed.6 Paris6 20026 pp. )(' e ss.E KF8A!A; $. I.
IA3MAD#6 Direito Internacional, 3oimbra6 2006 pp. 2)& e ss.E Q?ADIII% 7%I!#6 Direito
Internacional +,lico6 7raga6 2006 pp. 2&( e ss.E =%A83I;3# =$%%$I%A D$ A?I$IDA6 Direito
Internacional +,lico6 2N ed.6 3oimbra6 2006 pp. 2' e ss.E AA::6 Direitos do 'omem 4org. de
A8D$?A M$DA%!MO e ;I#7MA8 ?$#8A%D56 ?isboa6 200E K#AP>II DA ;I?:A 3>8MA e IA%IA DA
3
Esse não "oi um percurso sempre clarividente, embora v#rios
sinais pr$vios "ossem dando conta do problema "undamental
sub%acente, que era de"ender os seus direitos e interesses mais
elementares, "rente à desproporção do poder dos Estados!
&este %eito, "oi a seguir à '' (uerra )undial que apareceu a
protecção internacional dos direitos do homem, alçando-se ao plano
do &ireito 'nternacional a de"esa das posições %ur*dicas sub%ectivas
de cada pessoa humana, contra o Estado e contra todas as outras
mani"estações de poder, a pouco e pouco perdendo o seu car#cter
inicialmente e+cepcional
,
!
)as não se pense que a re-e+ão em torno dos direitos humanos
se cristalizou. bem pelo contr#rio, continua viva e actuante
/
,
incidindo sobre novos aspectos, de entre eles se "risando os direitos
das minorias $tnicas e religiosas
0
!
II. Este seria o culminar de progressivas apro+imações ao
conceito de protecção internacional dos direitos do homem, que
integram a sua pr$-história, sendo de evidenciar como mecanismos
mais e+pressivos
1
.
R a protecção diplomática2
R a protecção humanitária2 e
R a protecção dos refugiados e asilados!
3 protecção diplomática pressupõe sempre a intermediação do
Estado relativamente ao qual a pessoa carecida de protecção $
cidadã
4
! )as quem e"ectivamente concede a protecção $ o Estado
A;;>8GS# D# :A?$ P$%$I%A6 -anual de Direito Internacional +,lico6 2N ed.6 3oimbra6 200"6 pp.
") e ss.E K#%D$ II%A8DA6 Curso de Direito Internacional +,lico6 2N ed.6 3ascais6 200"6 pp. 20' e
ss.E $D>A%D# 3#%%$IA 7AP!I;!A6 Direito Internacional +,lico6 II6 3oimbra6 200"6 pp. "& e ss.E
K#%D$ 7A3$?A% D#>:$IA6 -anual de Direito Internacional +,lico6 2N ed.6 3oimbra6 200(6 pp. (1 e
ss.
4
3ontra6 A?7I8# D$ AJ$:$D# ;#A%$;6 Li)#es...6 p. "00.
5
3om algumas interessantes e lúcidas refle1.es6 v.6 por todos6 A8!T8I# A>D>;!# 3A8GAD#
!%I8DAD$6 Dilemas e desa2ios da prote)*o internacional dos direitos $umanos6 in AA::6 Educando
para os Direitos 'umanos6 7ras*lia6 200"6 pp. 2+ e ss.
6
3fr. as refer/ncias de PA!%I3H !M#%87$%%O6 International Law and t$e Ri/$ts o2 -inorities6
#1ford6 1&&"6 pp. (+ e ss.E AA::6 Droit des minorités et des peuples autoc$tones 4dir. de 8#%7$%!
%#>?A8D56 Paris6 1&&)6 pp. 1(+ e ss.
7
Para a respectiva dilucidação6 A8D%L D#8GA?:$; P$%$I%A e =A>;!# D$ P>AD%#;6
-anual...6 pp. &2 e ss.E =A>;!# D$ P>AD%#; e K#%D$ 7A3$?A% D#>:$IA6 As rela)#es e3ternas de
ortu/al 1 aspectos 4ur!dico5pol!ticos6 ?isboa6 20016 pp. )( e ))E K#AP>II DA ;I?:A 3>8MA e IA%IA
DA A;;>8GS# D# :A?$ P$%$I%A6 -anual...6 pp. ") e ss.E K#%D$ II%A8DA6 Curso...6 pp. 2+( e ss.
8
8o -mbito da protecção diplom,tica6 o !ribunal Internacional de Kustiça igualmente se
pronunciou operando a distinção entre esse tipo de protecção e a protecção dos direitos do homem6 em
o,iter dictum6 diAendo2se no Caso 6arcelona 7raction Cue dessa separação decorrem efeitos distintosU
deveres er/a omnes no -mbito dos direitos do homem6 V escala da comunidade internacionalE e deveres
4
interlocutor, por vontade própria, não podendo o Estado agressor
ser directamente demandado pela pessoa, nem sequer entre ele e a
v*tima se estabelecendo qualquer relação %ur*dico-internacional,
sendo necess#rio o concurso de duas condições para que esta
protecção diplom#tica se torne operativa. em primeiro lugar, um
v*nculo de nacionalidade da pessoa em relação ao Estado de
protecção2 por outra parte, a necessidade de ter havido o
esgotamento dos meios internos que se o"erecem à pessoa atingida
pelo acto il*cito
5
!
3 protecção humanitária desenvolve-se em tempos de con-ito
militar, de acordo com os parâmetros do &ireito 'nternacional
6umanit#rio! Não tem lugar no tempo da normalidade, o que
representa a maioria das vezes a sua necessidade, nem mesmo
o"erecendo protecção de todos os bens %ur*dicos da pessoa,
unicamente daqueles que se inscrevam numa lógica de protecção
humanit#ria, e+tremamente restrita à vida, à integridade pessoal e
à liberdade individual!
3 protecção dos refugiados e asilados, que $ mais pró+ima da
protecção humanit#ria, implica uma maior latitude, acolhendo os
Estados re"ugiados para cu%o território se deslocam em busca de
uma situação de paz e liberdade! 3 protecção dos asilados tem um
sentido pol*tico-ideológico e respeita ao dese%o de garantir as
liberdades das pessoas que reclamem mudanças pol*ticas no
sentido da protecção da liberdade e da democracia nos Estados que
oprimam esses valores2 vigora, por$m, uma óptica limitada aos
valores pol*tico-institucionais, nunca chegando a uma "aceta pessoal
e social que inelutavelmente deve estar presente nos direitos
humanos!
III. &esde que a protecção dos direitos do homem se tornou
uma realidade, após a proclamação da &eclaração 7niversal dos
&ireitos do 6omem, tem-se assistido a um movimento 8 %ur*dico e
pol*tico 8 que não tem parado de crescer!
9or isso, $ ho%e mesmo aconselh#vel estudar a protecção
internacional dos direitos do homem com base nos diversos
sistemas que se "oram instalando no )undo, cristalizando-se em
cinco
:;
.
espec*ficos bilaterais no seio da protecção diplom,tica concedida a estrangeiros. 3fr. %AOI#8D D#O6
La Cour Internationale de 8ustice et les droits de l’$omme6 7ru1elles6 20026 p. 1".
9
3fr. K#;L =%A83I;3# %$J$H6 Direito...6 pp. 2)& e ss.
10
Para uma consulta dos respectivos te1tos6 v. K#%D$ II%A8DA6 Direitos do 'omem 1
principais te3tos internacionais6 2.N ed.6 ?isboa6 1&'&6 pp. 11 e ss.E K#%D$ 7A3$?A% D#>:$IA6 Direito
da I/ualdade 9ocial 1 2ontes normativas6 ?isboa6 20006 pp. 1" e ss.6 e Direito Internacional +,lico R
5
R o sistema universal2
R o sistema europeu2
R o sistema comunit#rio2
R o sistema americano2 e
R o sistema a"ricano!
'n"elizmente, a <sia e a =ceânia ainda não despertaram para
uma protecção mais e"ectiva dos direitos do homem. a protecção
con"erida ao n*vel do sistema universal, e que se lhes aplica, $, a
muitos t*tulos, de>ciente, limitação que $ tanto mais gritante quanto
$ certo terem sido recentemente dados passos muito signi>cativos
nalguns dos sistemas regionais e+istentes!
3ssim se tem a>rmado como cap*tulo do &ireito 'nternacional o
Direito Internacional dos Direitos do Homem, com o propósito de
consagrar direitos sub%ectivos, em "avor das pessoas, ao n*vel do
&ireito 'nternacional
::
, suscitando problemas cada vez mais
espec*>cos. ao n*vel das "ontes normativas aplic#veis, ao n*vel dos
direitos "undamentais substantivamente reconhecidos e ao n*vel dos
mecanismos ad%ectivos de de"esa processual desses direitos!
9articularmente do ponto de vista das respectivas "ontes, a
protecção internacional de direitos do homem tem um cunho
bastante convencional, quase todas as suas normas tendo
proveni?ncia em tratados e sendo, de um modo geral, tratados
multilaterais, ora gerais ou regionais, em "unção da amplitude do
sistema em que estão inseridos!
)erece uma especial alusão o sistema americano, que nasceria
no âmbito da =rganização dos Estados 3mericanos
:@
, havendo a
7e3tos %undamentais6 3oimbra6 200(6 pp. & e ss.E 3?$O;#8 D$ I#%A$; I$??# e !M$?IA A%AWK#
$;!$:$; =%ADA6 Direitos 'umanos 1 Colect"nea de Le/isla)*o6 %io de Kaneiro6 2006 pp. )( e ss.
11
X luA de uma outra perspectiva6 de teor jur*dico2cristão6 pode ainda consultar2se a
interessante compilação de DI#%DI# =I?I7$3H6 Direitos do 'omem 1 de 8o*o ::III a 8o*o aulo II6
3ascais6 20006 pp. "1 e ss.
;obre o Direito Internacional dos Direitos do Momem no seu enCuadramento sistem,tico
espec*fico6 v. AA::6 La protection internationale des Droits de l’'omme 4org. 3entro Menri %olin56
7ru1elles6 1&++E K#%D$ 3AIPI8#;6 Direito Internacional dos Direitos do 'omem 1 te3tos ,;sicos6
3oimbra6 1&'"6 pp. + e ss.E KA3P>$; 7A??A?#>D6 Droits de l’'omme et <r/anisations Internationales6
Paris6 1&'"E A8D%L D#8GA?:$; P$%$I%A e =A>;!# D$ P>AD%#;6 -anual...6 pp. &2 e ss.E IA%IA
K#;L I#%AI; PI%$;6 As reservas...6 pp. '( e ssE ADM$%7A? I$I%A IA!!#;6 Direito Internacional
+,lico6 2N ed.6 %io de KaneiroY;ão Paulo6 20026 pp. 22+ e ss.E K#AP>II DA ;I?:A 3>8MA e IA%IA DA
A;;>8GS# D# :A?$ P$%$I%A6 -anual...6 pp. ") e ss.E =%LDL%I3 ;>D%$6 Droit Européen et
International des Droits de l’'omme6 )N ed.6 Paris6 2006 pp. 21 e ss.E A8!F8I# I$8$J$; 3#%D$I%#6
7ratado de Direito Civil ortu/u=s6 vol. I6 tomo III6 3oimbra6 200"6 p. '(.
12
;obre o sistema americano plasmado na 3arta Interamericana de Direitos do Momem6 v.
M$3!#% D%#;; $;PI$??6 Le s>st?me interaméricain comme ré/ime ré/ional de protection
internationale des droits de l’$omme6 in Recueil des Cours de l’Académie de Droit International6 1&+(6
II6 pp. 1 e ss.6 e A <r/aniza)*o dos Estados Americanos6 in AA::6 As dimens#es internacionais dos
6
oportunidade para a aprovação da Aarta 'nteramericana de &ireitos
do 6omem
:
, de @@ de Novembro de :505, ela igualmente criando o
Bribunal 'nteramericano de &ireitos do 6omem! Este tribunal tem
desempenhado um relevante papel, similar ao Bribunal Europeu dos
&ireitos do 6omem, sendo aquele documento muito pró+imo dos
te+tos universais e dos te+tos europeus, numa visão ampla dos
direitos do homem que são protegidos!
!. A -f'r(-23o )rogre//'6- .- re/)o+/-0'1'.-.e )e+-1 '+ter+-,'o+-1
I. A Cuestão da personalidade jur*dica internacional da pessoa igualmente pode ser
focaliAada na perspectiva de ela se submeter a deveres6 ma1imamente no caso de ser
sujeita a responsabilidade penal internacional6 tendo cometido crimes internacionais e
sendo condenado por isso.
Brata-se de punir aqueles que tenham in"ringido os mais altos
valores protegidos pelo &ireito 'nternacional, su%eitando-os, assim, a
penas de prisão, por terem cometido crimes internacionais!
Esta $ ainda 8 sempre o tem sido 8 uma responsabilidade
individual, que recai sobre as pessoas que, em cada momento,
tenham tido comportamentos criminalmente depreciados, avultando
a pessoa humana como su%eito passivo 8 e não %# activo 8 do &ireito
'nternacional!
C certo que o &ireito 9enal 'nterno vai sendo cada vez mais
perme#vel à responsabilidade penal das pessoas colectivas! )as
tamb$m $ seguro que essa responsabilidade ainda não atingiu o
patamar do &ireito 'nternacional 9enal
:,
!
direitos do $omem 4org. de HA%$? :A;AH56 ?isboa6 1&'6 pp. (+" e ss.E A. M. %#7$%!;#86 7$e
American Convention on 'uman Ri/$ts and t$e European Convention. a comparative stud>6 in
Annuaire Européenne6 1&'6 pp. (0 e ss.E P$D%# 8IHH$86 La protecci&n...6 pp. "1 e ss.6 e Le s>st?me
interaméricain des droits de l’$omme6 in Revue @niverselle des Droits de l’'omme6 1&&06 pp. &+ e ss.E
K#;L A. PA;!#% %ID%>$K#6 Curso de Derec$o Internacional > <r/anizaciones Internacionales, .N ed.6
Iadrid6 1&'&6 pp. 22" e ss.E =%LDL%I3 ;>D%$6 Droit InternationalAAA, pp. +& e ss.E !M#IA;
7>$%D$8!MA?6 %#7$%! $. 8#%%I; e DI8AM ;M$?!#86 La protecci&n de los derec$os $umanos en las
Americas6 Iadrid6 1&&06 pp. 1 e ss.E H8>! IP;$86 Individualsc$utz im BClDerrec$t, in AA::6
BClDerrec$t 4org. de H8>! IP;$856 .N ed.6 IZnchen6 1&&06 pp. )(+ e ss.E IA?3#?I 8. ;MAQ6
International Law6 N ed.6 3ambridge6 1&&16 pp. 2 e ss.E 8D>O$8 P>#3 DI8M6 PA!%I3H DAI??I$% e
A?AI8 P$??$!6 Droit...6 p. ))(E KF8A!A; $. I. IA3MAD#6 Direito Internacional...6 pp. 2&" e ss.E
K#%D$ II%A8DA6 Curso...6 p. 1(.
13
!arefa Cue j, constava6 originalmente6 da 3arta da #rganiAação dos $stados Americanos6 no
seu art. 111.[6 n.[ 2.
14
;obre a responsabilidade penal do indiv*duo em geral6 v. A8!F8I# 7?A83 A?!$II%6 La
violaci&n de los derec$os $umanos 2undamentales como crimen internacional6 7arcelona6 1&&0E
K#AP>II DA ;I?:A 3>8MA6 Direito Internacional +,lico6 III6 ?isboa6 1&&06 pp. 1( e ss.E K$A8
7
II. 3 a>rmação da responsabilidade penal internacional, assim
de>nida, não tem sido, contudo, um movimento paulatino, nem
sequer uma sequ?ncia regular no conte+to das mudanças que "oram
ocorrendo no &ireito 'nternacional!
Aurioso $ veri>car que o desenvolvimento desta
responsabilidade penal internacional est# indelevelmente associado
ao aparecimento, em diversos momentos, de estruturas %udiciais de
%ulgamento dos crimes internacionais, para al$m do reconhecimento
que se lhes tem "eito no plano do &ireito 9enal aplicado pelos
Estados!
Eis um percurso atribulado, desde o >m da '' (uerra )undial at$
aos dias de ho%e, suscitando-se mesmo a conveni?ncia de se
perspectivar cinco fases di"erenciadas, assim se elaborando uma
importante lista de delicta iuris gentium.
R uma primeira fase de afrmação costumeira geral. a
criação consuetudin#ria de alguns crimes internacionais,
com a possibilidade do seu %ulgamento pelas %urisdições
nacionais2
R uma segunda fase de afrmação circunstancial,
substantiva e processual. a criação dos primeiros tribunais
penais internacionais, de Nuremberga e de Bóquio, com a
concomitante de>nição de alguns crimes internacionais
pela via convencional2
R uma terceira fase de afrmação substantiva geral. a
celebração de alguns relevantes tratados internacionais
sobre crimes internacionais2
R uma quarta fase de afrmação processual efectiva e
pontual. a criação dos tribunais penais internacionais ad
hoc para o Duanda e para a e+-Eugosl#via2 e
!#>;3#J6 Direito Internacional6 ?isboa6 1&&6 pp. 1&0 e ss.E A8!#8I# 3A;;$;$6 Los derec$os
$umanos en el mundo contemporaneo6 7arcelona6 1&&6 pp. &( e ss.E IID>$? DA?:S# !$?$;6 7imor
Leste6 in Dicion;rio 8ur!dico da Administra)*o +,lica6 2\ suplemento6 ?isboa6 20016 pp. )"& e ss.E
K#;L =%A83I;3# %$J$H6 Direito...6 pp. 1"+ e ss.E I;A7$? %AII>8D#6 Imperativo $umanit;rio e n*o
in/er=ncia6 ?isboa6 1&&&6 pp. 12' e ss.E A?=%$D# ML3!#% QI?$8;HO e %>I KA8>]%I#6 Direito
Internacional +,lico Contempor"neo6 ?isboa6 2006 pp. (0 e ss.E Q?ADIII% 7%I!#6 Direito...6 pp. 2&+
e ss.E =%A83I;3# =$%%$I%A D$ A?I$IDA6 Direito...6 pp. 2 e ss.E A8D%$A; ?. PA>?>;6 Do Direito
dos Estados ao Direito da 'umanidadeE 1 a institui)*o de um 7ri,unal enal Internacional e o
desenvolvimento do Direito Internacional6 in AA::6 Direito enal Internacional para a protec)*o dos
direitos $umanos6 ?isboa6 2006 pp. '1 e ss.E K#%D$ II%A8DA6 Curso...6 pp. 2 e ss.
8
R uma quinta fase de afrmação global, substantiva e
processual. a criação do Bribunal 9enal 'nternacional, no
Estatuto de Doma
:/
!
III. 3 primeira "ase $ de *ndole costumeira e apenas se re-ecte
na quali>cação esparsa de algumas condutas como crimes
internacionais.
R a pirataria no alto mar2
R o tr#>co de escravos2
R o tr#>co de estupe"acientes2
R a pirataria a$rea2
R o terrorismo!
3 sua perseguição >caria sempre na órbita dos Estados, que
podiam %ulgar internamente as pessoas que "ossem encontradas
nessas circunstâncias
:0
!
9or outro lado, nestes casos, ressume a dimensão e+terna da
cidadania do indiv*duo implicado, que não pertence ao Estado que o
vai %ulgar, nem sequer agindo nessa qualidade!
IV. 3 segunda "ase $ protagonizada pela criação, no rescaldo da
'' (uerra )undial, dos Bribunais de Nuremberga e de Bóquio, que
tiveram a missão de condenar penalmente os militares vencidos
nesse con-ito b$lico, o primeiro regulado na Aarta de Fondres do
Bribunal 'nternacional )ilitar, de 4 de 3gosto de :5,/, e o segundo
previsto na Aarta do Bribunal 'nternacional )ilitar para o E+tremo
=riente, de :5 de Eaneiro de :5,0
:1
!
15
Puanto a esta evolução6 v. K#;L ?>^; %#D%ID>$J2:I??A;A8!$ O P%I$!#6 La 4usticia penal
internacional > el Estatuto de Roma6 in Direito e Cidadania6 ano I:6 n
os
10Y116 Kulho de 2000 a
=evereiro de 20016 Praia6 pp. 2& e ss.E IID>$? DA?:S# !$?$;6 7imor Leste6 pp. )(0 e ss.E KF8A!A;
IA3MAD#6 Direito Internacional...6 pp. 2&+ e ss.E Q?ADIII% 7%I!#6 Direito...6 pp. "& e ss.
16
# !ratado de :ersalhes j, previa a e1ist/ncia de um tribunal para julgar Duilherme II6 mas
nunca funcionaria por a 8eerl-ndia6 pa*s de refúgio do e12monarca6 se ter recusado a e1tradit,2lo. 3fr.
8D>O$8 P>#3 DI8M6 PA!%I3H DAI??I$% e A?AI8 P$??$!6 Droit...6 p. +1'E Q?ADIII% 7%I!#6
Direito...6 pp. (+ e ('E K#;L D$ IA!#; 3#%%$IA6 7ri,unais penais internacionais 1 colect"nea de
te3tos6 ?isboa6 200"6 pp. 12 e ss.
>m pouco antes6 outro e1emplo consistiu na criação6 em 1&0+6 no -mbito da II 3onfer/ncia da
Maia6 do !ribunal Internacional das Presas6 com a finalidade de penalmente julgar pessoas implicadas
na captura de barcos e da respectiva mercadoria. 3fr. Q?ADIII% 7%I!#6 Direito...6 pp. (( e ().
17
Puanto aos tribunais de 8uremberga e de !<Cuio6 v. 8>8# =I?IP$ D$ 7%I!#6 (otas...6 pp.
+& e ss.E K#AP>II DA ;I?:A 3>8MA6 Direito Internacional...6 III6 pp. 1(" e ss.E IA%I# 7$!!A!I6 <
direito de in/er=ncia 1 muta)*o da ordem internacional6 ?isboa6 1&&+6 pp. 2+2 e ss.E 8D>O$8 P>#3
DI8M6 PA!%I3H DAI??I$% e A?AI8 P$??$!6 Droit...6 pp. +1& e +20E Q?ADIII% 7%I!#6 Direito...6 pp.
(' e (&E %I3MA%D #:$%O6 7$e (urem,er/ trials. international law in t$e maDin/6 in AA::6 %rom
(urem,er/ to 7$e 'a/ue 1 t$e 2uture o2 international criminal 4ustice 4ed. de PMI?IPP$ ;A8D56
3ambridge6 2006 pp. 1 e ss.E A8!F8I# I$8$J$; 3#%D$I%#6 7ratado...6 I6 III6 p. ')E K#;L D$ IA!#;
9
=s crimes que viriam a ser de>nidos eram de tr?s categorias
:4
.
R os crimes contra a paz. a utilização da guerra "ora do
quadro da leg*tima de"esa e da segurança colectiva
:5
2
R os crimes de guerra. as violações mais graves cometidas
contra as leis e costumes da guerra
@;
2 e
R os crimes contra a Humanidade. os crimes, praticados
durante o tempo de guerra, contra as populações civis, ou
com "undamentos discriminatórios, como o assassinato, a
e+terminação, a escravatura e a deportação
@:
!
3 novidade consistiria não apenas na erecção de uma estrutura
%udicial de condenação, no plano internacional, mas tamb$m na
aceitação de que o e+erc*cio de "unções pGblicas poderia levar a
incriminações, não valendo aos criminosos escudar-se na obedi?ncia
às leis militares internas
@@
!
Himplesmente, estes dois tribunais >cariam ensombrados na sua
legitimidade material por terem sido criados posteriormente ao
cometimento dos crimes que viriam a %ulgar, pondo em causa o
sacrossanto princ*pio do %uiz legal e, no lado substantivo, o tamb$m
não menos sacrossanto princ*pio da não aplicação retroactiva da lei
penal incriminadora!
3"ora este problema de "undo, subsistiu ainda a InuvemJ de que
se trataria apenas de uma %ustiça dos vencedores e que se o
des"echo da guerra tivesse sido outro, tudo teria sido di"erente,
numa escassa homenagem à %ustiça internacional
@
, embora se
tivesse re"utado essas cr*ticas com base na ideia de que tais normas
mais não eram do que &ireito 'nternacional consuetudin#rio e
obrigatório
@,
!
V. Esta m# e+peri?ncia, ao contr#rio do que se pudesse pensar,
não "ez esmorecer a esperança e a validade da utilização dos
tribunais internacionais na incriminação de crimes mais graves,
perpetrados ao n*vel internacional!
3#%%$IA6 7ri,unais penais...6 pp. 1( e ss.
:. e1certos dos respectivos te1tos em K#;L A?7$%!# AJ$%$D# ?#P$;6 7e3tos 'ist&ricos do
Direito e das Rela)#es Internacionais6 Porto6 1&&&6 respectivamente6 pp. "&' e ss.6 e pp. (0) e ss.6 e em
K#;L D$ IA!#; 3#%%$IA6 7ri,unais penais...6 pp. (( e ss.
18
A 3arta do !ribunal Internacional Iilitar para o $1tremo #riente6 Cue criou o !ribunal de
!<Cuio6 reproduAiria estes crimes no seu art. (.[
19
3fr. a al. a5 do art. ).[ da 3arta de ?ondres.
20
3fr. a al. b5 do art. ).[ da 3arta de ?ondres.
21
3fr. a al. c5 do art. ).[ da 3arta de ?ondres.
22
3fr. 8D>O$8 P>#3 DI8M6 PA!%I3H DAI??I$% e A?AI8 P$??$!6 Droit...6 p. +11.
23
3fr. K#%D$ II%A8DA6 Curso...6 p. 2".
24
3fr. K#;L D$ IA!#; 3#%%$IA6 7ri,unais penais...6 pp. 1& e 20.
10
C assim que se passou a uma terceira "ase, em que se visou
en"rentar as ob%ecções que contra aqueles tribunais tinham sido
dirigidas, por causa da aus?ncia de um te+to internacional
codi>cador dos crimes internacionais, a serem reprimidos no âmbito
das relações internacionais!
Koi com esse propósito que, logo depois da '' (uerra )undial, se
tomaram um con%unto de medidas tendentes à "ormalização de um
&ireito 9enal 'nternacional, de que cumpre re"erir.
R as Desoluções n!L M'N e nO 5/ M'N, respectivamente, de :
de Kevereiro e de :: de &ezembro de :5,0, da 3ssembleia
(eral da =rganização das Nações 7nidas M=N7N,
rea>rmando as orientações de Nuremberga e Bóquio, e
incitando a Aomissão de &ireito 'nternacional MA&'N à
respectiva codi>cação e sistematização2
R a Aonvenção sobre a Depressão do (enoc*dio, de 5 de
&ezembro de :5,42
R a ,!P Aonvenção de (enebra, de :@ de 3gosto de :5,52
R a Aonvenção sobre a 'mprescritibilidade dos Arimes de
(uerra e dos Arimes contra a 6umanidade, de @0 de
Novembro de :504
@/
2
R a Aonvenção sobre o Arime de 3partheid, de ; de
Hetembro de :51!
VI. He com esta terceira "ase dei+ou de poder reclamar-se do
ponto de visto substantivo, o certo $ que esses crimes
internacionais, assim enunciados, careciam de uma estrutura
%udicial internacional capaz de proceder ao respectivo %ulgamento,
na certeza de que as %urisdições nacionais não davam garantias de
um total ?+ito nessa aplicação
@0
, não esquecendo >nalmente que os
tribunais de Nuremberga e de Bóquio, pela sua natureza pontual,
dei+aram de se tornar e"ectivos!
25
$mbora j, a 3arta de ?ondres estabelecesse parecida cl,usula. 3fr. o te1to em K#%D$
II%A8DA6 Direitos do 'omem 1 te3tos...6 pp. ' e ss.
26
;obre estes tribunais internacionais penais ad $oc6 v. IA%I# 7$!!A!I6 < direito...6 pp. 2') e
ss.E Q?ADIII% 7%I!#6 7ri,unais penais internacionais6 in Revista do -inistério +,lico6 n\ '16 20006
pp. ' e ss.6 e Direito...6 pp. )2 e ss.E K#;L =%A83I;3# %$J$H6 Direito...6 p. 1"&E 8D>O$8 P>#3 DI8M6
PA!%I3H DAI??I$% e A?AI8 P$??$!6 Droit...6 pp. +21 e ss.E 3A!A%I8A ;AIPAI# :$8!>%A6 <
si/ni2icado do 7ri,unal enal Internacional para a e358u/osl;via na edi2ica)*o de um sistema de
4usti)a penal internacional6 in AA::6 Direito enal Internacional para a protec)*o dos direitos
$umanos6 ?isboa6 2006 pp. 1)+ e ss.E P$D%# 3A$I%#6 Claros e escuros de um auto5retrato. ,reve
anota)*o 0 4urisprud=ncia dos 7ri,unais enais Internacionais para a anti/a 8u/osl;via e para o
Ruanda so,re a pr&pria le/itima)*o6 in AA::6 Direito enal Internacional para a protec)*o dos
direitos $umanos6 ?isboa6 2006 pp. 20& e ss.E K#;L D$ IA!#; 3#%%$IA6 7ri,unais penais...6 pp. 22 e
ss.
11
=s dram#ticos acontecimentos do Duanda e Qurundi e da e+-
Eugosl#via, em que o ódio $tnico deu origem à morte indiscriminada
de milhares e milhares de pessoas, impeliram à passagem a uma
quarta "ase, com a previsão de dois tribunais penais internacionais
espec*>cos para %ulgar os respectivos crimes cometidos, sendo
ainda de re"erir a situação dram#tica da Herra Feoa, que igualmente
conduziu à criação de um tribunal penal internacional
@1
.
Estes tribunais "oram criados por resolução do Aonselho de
Hegurança da =N7, em tr?s ocasiões.
R Desolução n!L 4@1 M:55N, de @@ de )aio de :55, para a
e+-Eugosl#via, com alterações posteriores2
R Desolução n!L 5// M:55,N, de 4 de Novembro de :55,, para o
Duanda, com alterações posteriores2
R Bratado entre a =N7 e a Herra Feoa, de :0 de Eaneiro de
@;;@, na sequ?ncia da Desolução nO ::/, de :, de 3gosto
de @;;;!
= aparecimento de tribunais penais internacionais ad hoc, só
para en"rentar situações mais graves de crimes cometidos no
âmbito do &ireito 'nternacional, representou um novo "Rlego, agora
de tipo processual, na e"ectividade da responsabilidade penal
internacional!
VII. 3 quinta "ase, sendo a actual, $ %# um passo rumo a um
relevante amadurecimento do problema da %urisdição penal
internacional e consistiu na criação do Bribunal 9enal 'nternacional
MB9'N, no âmbito do Estatuto de Doma do Bribunal 9enal 'nternacional
MEDB9'N, assinado em Doma a :1 de Eulho de :554!
3inda que só bem recentemente tenha visto a luz do dia, a
verdade $ que o B9' "ora h# muito idealizado e logo na sequ?ncia
das Aonvenções de (enebra de :5,5! Bodavia, sucessivos
adiamentos e pro%ectos da A&' apenas permitiriam o seu
aparecimento por essa altura
@4
!
Aom a preocupação de tornar mais e"ectivo este tipo de %ustiça
internacional, o B9', diversamente do que aconteceria nas "ases
anteriores, reveste-se de duas novas caracter*sticas.
R $ uma justiça permanente2 e
27
3omo bem salienta K#;L D$ IA!#; 3#%%$IA6 7ri,unais penais...6 pp. "( e ss.6 ainda Cue
este tribunal possa ter uma peculiar configuração internacionalU _=undado 4...5 num tratado
internacional e actuando no Cuadro por ele delimitado6 o !ribunal para a ;erra ?eoa não deve ser
considerado como um tribunal internacionaliAado6 mas como um tribunal internacional sui /eneris`.
28
%elatando algumas vicissitudes desse percurso6 I;A7$? %AII>8D#6 Imperativo
$umanit;rio...6 pp. 1"0 e ss.E 8D>O$8 P>#3 DI8M6 PA!%I3H DAI??I$% e A?AI8 P$??$!6 Droit...6 p.
+2(E K#;L D$ IA!#; 3#%%$IA6 7ri,unais penais...6 pp. e ss.
12
R $ uma justiça independente!
C uma justiça permanente porque não "unciona com
intermit?ncia, antes integra uma estrutura duradoura, com a
natureza de organização internacional, que e+iste e que est# activa,
independentemente das violações que venham a ser cometidas ao
&ireito 'nternacional 9enal!
C uma justiça independente porque a sua criação repousa no
acordo de vontades da generalidade dos Estados, sob os ausp*cios
da =N7, não sendo o "ruto de uma vontade restrita! 'sso bem ao
inv$s do que sucedeu nas "ases anteriormente assinaladas, ora
como o resultado das pot?ncias que venceram a '' (uerra )undial,
ora como o produto da vontade dos membros do Aonselho de
Hegurança, quando criou os tribunais ad hoc para o Duanda e e+-
Eugosl#via! 9ena $ que o mesmo diapasão não tivesse sido adoptado
para outras regiões do (lobo, como seria %usto "azer em Bimor
Feste, depois das atrocidades cometidas nos momentos seguintes à
realização do re"erendo que decidiu a sua independ?ncia pol*tica!
= B9' tamb$m se tornou relevante por via do aper"eiçoamento
substantivo das regras aplic#veis de &ireito 9enal 'nternacional e de
&ireito 9rocessual 9enal 'nternacional, num con%unto de disposições,
que constam do EDB9', sem qualquer precedente na 6istória do
&ireito 'nternacional!
4. Tr-2o/ fu+.-(e+t-'/ .- re/)o+/-0'1'.-.e )e+-1 '+ter+-,'o+-1
I. 3 responsabilidade penal internacional tem como >gura
central, em cu%o cimento ela se constrói, uma conduta que se%a
considerada criminosa, no caso necessariamente um crime
internacional!
C necess#rio que se trate de um comportamento, humano e
volunt#rio, que este%a proscrito, sendo considerado desvalioso ao
mais alto n*vel da perspectiva criminalmente punitiva!
&iga-se ainda que a "eição internacional lhe adv$m do "acto de
ser descrito no plano do &ireito 'nternacional, de acordo com as
"ontes que podem produzir as respectivas normas e princ*pios!
II. 3 responsabilidade penal internacional 8 con%ugando a
enunciação de condutas criminosas internacionais 8 mani"esta-se na
aplicação de penas privativas de liberdade contra aqueles que
venham a ser responsabilizados nessa sede!
13
Hendo n*tido que as sanções aplic#veis correspondem
"undamentalmente à pena privativa de liberdade, não pode
descurar-se a possibilidade da aplicação de outras penas, de tipo
acessório, que au+iliam na m#+ima repressão que se e+ige neste
tipo de in"racção!
Nos dias de ho%e, tem-se revalorizado uma dimensão económica
em aditamento à dimensão psicológica da pena, sendo as penas
materiais acessórias do mesmo modo e"ectivas na repressão dos
crimes internacionais!
III. &o prisma das pessoas que são alvo das sanções penais a
aplicar, a responsabilidade penal internacional assenta no
paradigma de ser uma responsabilidade individual porque são essas
pessoas, em si consideradas, que vão so"rer a aplicação destas
penas!
Este $ um aspecto que tem suscitado alguma di>culdade porque
muitas vezes a perseguição %udicial esbarra no regime das
imunidades constitucionais que protegem os eventuais criminosos,
que, sendo Gteis na protecção dos regimes internos leg*timos,
podem nalguns casos revelar-se prete+tos óptimos para impedir o
"uncionamento da %ustiça internacional!
9or outra parte, tamb$m não $ de e+cluir que a responsabilidade
penal internacional venha a evoluir no sentido da responsabilização
dos Estados e de outras estruturas, aplicando-se-lhes outro tipo de
sanções, onde obviamente não "azem sentido as penas privativas
de liberdade!
IV. &i"erentemente do que por vezes se possa entender, a
aplicação da responsabilidade penal internacional não est# apenas
ligada às instâncias internacionais a quem possa competir, no "oro
%udicial, o %ulgamento dos crimes internacionais!
Bão importante quanto essas instâncias internacionais, que se
t?m consolidado, são as instâncias internas ou estaduais, as quais
t?m recebido a incumb?ncia de %ulgar os crimes internacionais!
Note-se a particularidade de a responsabilidade penal
internacional não >car desvitalizada por vir a ser aplicada ao n*vel
dos &ireitos 'nternos, ainda que nesse conte+to a sua e"ectividade
se%a bem menor!
14
% !& A ,r'-23o .o Tr'0u+-1 Pe+-1 I+ter+-,'o+-1 e -/ /u-/ .'f',u1.-.e/
8. O E/t-tuto .e Ro(- .e 1@@A
I. L por tudo isto Cue se justifica uma alusão espec*fica ao !PI
2&
6 o Cual não s< B
pouco R e6 Vs veAes6 mal R estudado como sobretudo por este conte1to da sua
acrescida relev-ncia na consolidação da justiça penal internacional.
!rata2se de uma instituição permanente6 Cue visa a aplicação do Direito Penal
Internacional mais grave6 em complemento das jurisdiç.es nacionaisU _L criado6 pelo
presente instrumento6 um !ribunal Penal Internacional 4...5. # !ribunal ser, uma
instituição permanente6 com jurisdição sobre as pessoas respons,veis pelos crimes de
29
;obre o !ribunal Penal Internacional em geral6 v. IA%IA ?$#8#% A;;>8GS#6 < 7ri,unal
Internacional enal permanente e o mito de 9!si2o6 in Revista ortu/uesa de Direito Criminal6 1&&'6
pp. 2+ e ss.E K$A82=%A8G#I; D#7$??$6 La Convention de Rome portant 9tatut de la Cour énale
Internationale6 in Annuaire %ran)ois de Droit International6 1&&'6 pp. () e ss.E Q?ADIII% 7%I!#6
7ri,unal enal Internacional. uma /arantia 4urisdicional para a protec)*o dos direitos da pessoa
$umana6 in 6oletim da %aculdade de Direito da @niversidade de Coim,ra6 20006 pp. '1 e ss.E IID>$?
DA?:S# !$?$;6 7imor Leste6 pp. )( e ss.E PA>?A $;3A%AI$IA6 Fuando o mundo das so,eranias se
trans2orma no mundo das pessoas. o Estatuto do 7ri,unal enal Internacional e as Constitui)#es
nacionais6 in Revista da %aculdade de Direito da @niversidade (ova de Lis,oa6 ?isboa6 ano II6 n.[ de
20016 pp. 1" e ss.6 e Re2le3#es so,re temas de Direito Internacional6 ?isboa6 20016 pp. 2(( e ss.E K#S#
IA8>$? DA ;I?:A IID>$?6 7ri,unal enal Internacional. o ap&s Roma e as conseGu=ncias da
rati2ica)*o6 in Revista do -inistério +,lico6 ano 226 Abril2Kunho de 20016 n\ ')6 pp. 2+ e ss.6 e <
7ri,unal enal Internacional6 in Revista do -inistério +,lico6 ano 26 n\ &06 AbrilYKunho de 20026 pp.
(+ e ss.E K#;L D$ 3AIP#; AI#%II6 < 7ri,unal enal Internacional. um novo sistema de 4usti)a
universal6 in Lus!ada (orto)6 n
os
1226 20016 pp. 10 e ss.E K#;L ?>^; %#D%ID>$J2:I??A;A8!$ O
P%I$!#6 La 4usticia penal6 pp. 2") e ss.E 8D>O$8 P>#3 DI8M6 PA!%I3H DAI??I$% e A?AI8 P$??$!6
Droit...6 pp. +2( e ss.E =$%8A8D# A%AWK#6 < 7ri,unal enal Internacional e o pro,lema da 4urisdi)*o
universal6 in Revista da %aculdade de Direito da @niversidade de Lis,oa6 9?III6 n.[ 1 de 20026 ?isboa6
pp. + e ss.E A?7$%!# 3#;!A6 7ri,unal enal Internacional6 ?isboa6 2002E A8!F8I# D>L:a? 7%A83#6
< 7ri,unal enal Internacional 1 estatuto6 ?isboa6 20026 pp. 1+ e ss.E PMI?IPP$ ;A8D;6 A2ter inoc$et.
t$e role o2 national courts6 in AA::6 %rom (urem,er/ to 7$e 'a/ue 1 t$e 2uture o2 international
criminal 4ustice 4ed. de PMI?IPP$ ;A8D;56 3ambridge6 2006 pp. +" e ss.E A8A7$?A II%A8DA
%#D%ID>$;6 rinc!pio da 4urisdi)*o penal universal e 7ri,unal enal Internacional 1 e3clus*o ou
complementaridadeE6 in AA::6 Direito enal Internacional para a protec)*o dos direitos $umanos6
?isboa6 2006 pp. (+ e ss.E KAI$; 3%AQ=#%D6 7$e dra2tin/ o2 t$e Rome 9tatute6 in AA::6 %rom
(urem,er/ to 7$e 'a/ue 1 t$e 2uture o2 international criminal 4ustice 4ed. de PMI?IPP$ ;A8D;56
3ambridge6 2006 pp. 10& e ss.E K#;L D$ IA!#; 3#%%$IA6 7ri,unais penais...6 pp. ) e ss.E K#%D$
II%A8DA6 Curso...6 pp. 2+ e 2'E K#%D$ 7A3$?A% D#>:$IA6 < 7ri,unal enal Internacional. uma
perspectiva de Direito Internacional e de Direito Constitucional, In 8uris oiesis 1 Revista do Curso
de Direito da @niversidade Est;cio de 9;, ano +6 n\ )6 200"6 pp. 2+ e ss.E A8A ?>^;A %IP>I!#6 <
Direito Internacional enal entre o risco de Cila e o de Car!,es6 in AA::6 < 7ri,unal enal
Internacional e a <rdem 8ur!dica ortu/uesa6 3oimbra6 200"6 pp. 1)2 e ss.
15
maior gravidade com alcance internacional6 de acordo com o presente $statuto6 e ser,
complementar das jurisdiç.es penais nacionais`
0
.
II. # !PI foi criado pelo $%!PI6 Cue B um tratado internacional6 negociado sob
os ausp*cios da #8>6 e aberto V assinatura atB 1 de DeAembro de 2000
1
6 dele sendo
apenas partes os $stados6 podendo do mesmo retirar2se com um aviso prBvio de um
ano6 embora mantendo2se vigentes alguns deveres de natureAa financeira e de
cooperação judici,ria
2
.
Desde Cue foi conclu*do em 1&&'6 j, obteve o número m*nimo de instrumentos
de vinculação6 Cue são )0

6 tendo entrado em vigor em 1 de Kulho de 2002 e estando
sediado na cidade neerlandesa da Maia
"
.
III. # $%!PI
(
tomou a forma de tratado internacional solene6 contando com 12'
artigos6 Cue sistematicamente se distribuem por 1 cap*tulos6 assim agrupadosU
R 3ap*tulo I R Cria)*o do 7ri,unal
R 3ap*tulo II R Compet=ncia, admissi,ilidade e Direito aplic;vel
R 3ap*tulo III R rinc!pios /erais de Direito enal
R 3ap*tulo I: R Composi)*o e administra)*o do 7ri,unal
R 3ap*tulo : R InGuérito e procedimento criminal
R 3ap*tulo :I R < 4ul/amento
R 3ap*tulo :II R As penas
R 3ap*tulo :III R Recurso e revis*o
R 3ap*tulo I9 R Coopera)*o internacional e au3!lio 4udici;rio
R 3ap*tulo 9 R E3ecu)*o da pena
R 3ap*tulo 9I R Assem,leia dos Estados artes
R 3ap*tulo 9II R %inanciamento
R 3ap*tulo 9III R Cl;usulas 2inais
Para alBm disso6 o $%!PI mostra2se particularmente blindado6 porCuanto no seu
percurso de vinculação não aceita a formulação de CualCuer reserva
)
6 o Cue tem
suscitado não poucos problemas de efectividade.
:. Outro/ .o,u(e+to/ '+ter+-,'o+-'/ re1e6-+te/
30
Art. 1.[ do $statuto de %oma do !ribunal Penal Internacional 4$%!PI5.
31
3fr. o art. 12(.[ do $%!PI.
32
3fr. o art. 12+.[ do $%!PI.
33
3fr. o art. 12).[ do $%!PI.
34
3fr. o art. .[ do $%!PI.
35
3fr. o respectivo te1to6 na versão oficial portuguesa6 em K#%D$ 7A3$?A% D#>:$IA6 Direito
Internacional +,lico R 7e3tos...6 pp. 11 e ss.
36
3fr. o art. 120.[ do $%!PI.
16
I. 8o tocante ao edif*cio normativo2penal6 o $%!PI B apenas uma sua parte
porCue esse documento remete para outras inst-ncias R como a Assembleia dos
$stados Partes R a definição de dois outros importantes te1tos normativos6 Cue assim
não alcançam o valor de tratado internacionalU
R os elementos constitutivos dos crimes6 Cue são a especificação dos tipos
de crimes Cue ficam sendo abrangidos pela jurisdição do !PI
+
E e
R os elementos processuais penais6 nos mesmos termos a definir
posteriormente.
II. A modificação posterior do $%!PI pode ter lugar segundo tr/s esCuemas
paralelos6 com alcances distintos
'
U
R a alteração de disposiç.es de natureAa institucional6 Cue pode acontecer
em CualCuer momentoE
R a alteração do $%!PI6 para CualCuer matBria6 ao fim de sete anos de
vig/ncia6 por iniciativa dos $stados6 no seio da reunião da Assembleia dos
$stados PartesE
R a revisão do $%!PI6 para CualCuer assunto6 sob proposta do ;ecret,rio2
Deral da #8>6 no -mbito de uma confer/ncia de revisão.
<. A .'f9,'1 efe,t'6-23o .o E/t-tuto .e Ro(-
I. $mbora j, se encontre em vigor6 a colaboração dos $stados ao $%!PI tem sido
polBmica6 dado o passo e1tremamente significativo Cue implica num dom*nio Cue tem
sido pertença absoluta da soberania estadualU o ius puniendi.
;ão v,rios os importantes $stados Cue j, manifestaram a vontade de não vir a
estar abrangidos pelo $%!PI6 o Cue se afigura muito negativo para o /1ito desta
jurisdição6 de entre eles se salientando a oposição dos $stados >nidas da AmBrica
&
.
Apesar da bondade de algumas das soluç.es contidas no $%!PI6 não dei1a o
mesmo de neste momento representar a linha de fronteira em relação ao e1erc*cio
daCuela soberania6 ao Cue tambBm não serão alheios os diversos erros em Cue
soçobram v,rios dos seus preceitos.
37
3fr. o art. &.[ do $%!PI.
38
3fr. os arts. 121.[6 122.[ e 12.[ do $%!PI.
39
3fr. a dura cr*tica formulada por A8!F8I# D>L:a? 7%A83# 4< 7ri,unal...6 p. 2256 ao diAer
o seguinteU _$sta posição não B minimamente aceit,vel porCuanto o $statuto do !ribunal Penal
Internacional prev/ no seu art. +\ Cue as organiAaç.es terroristas podem ser perseguidas por crimes
contra a Mumanidade6 nos Cuais se incluem os actos terroristas Cue os $>A pretendem continuar a
perseguir. L de facto preocupante Cue no momento em Cue a impunidade aos criminosos começa a cair6
não e1ista uma maior unanimidade em torno da criação do !ribunal Penal Internacional`.
17
II. >ma das principais dificuldades com Cue o $%!PI se debate B o facto de
poder não vir a ser uma jurisdição universal6 não obstante ser um tratado multilateral
geral6 Cue se vocaciona para a vinculação volunt,ria de todos os $stados
"0
.
$videntemente Cue sempre poder, restar a via costumeira6 j, tendo sucedido6 atB
mais do Cue uma veA6 Cue um tratado multilateral6 durante muito tempo sem vigorar a
t*tulo convencional6 se tenha tornado eficaA por força da formação de costumes6
alguns mesmo de criação instant-nea
"1
.
8ão se cr/ Cue essa seja uma hip<tese plaus*vel porCue assentaria numa suma
ironiaU ser o $%!PI globalmente vinculativo por via consuetudin,ria Cuando ele
pr<prio não se cansa de proclamar o princ*pio da legalidade criminal6 Cue tem como
vertente mais significativa R no conte1to constitucionalista em Cue nasceu e depois
passando para o -mbito internacional R proscrever a formação de costumes penais6
não se esperando6 assim6 Cue venha a ser o pr<prio $%!PI um desses e1emplos.
A dificuldade R Cue provavelmente se converter, em impossibilidade R de se
atingir uma jurisdição universal6 Cue seja vinculativa dos $stados6 B sempre um risco
Cue se deve correr6 devendo ser sobretudo visto como um caminho Cue levar, muitos
anos a atingir6 e1igindo porventura recuar nalgumas precipitadas soluç.es Cue foram
adoptadas
"2
.
40
3fr. A8A7$?A II%A8DA %#D%ID>$;6 rinc!pio...6 pp. )+ e ss.
41
Mip<tese e1pressamente ponderada6 mas depois rejeitada6 por =$%8A8D# A%AWK# 4<
7ri,unal...6 p. 1115U _8ão parece6 assim6 Cue o $statuto do !ribunal Penal Internacional 4!PI5 tenha
dado instantaneamente origem a uma nova jurisdição assente em direito consuetudin,rio6 ou Cue tenha
por essa via tido a virtualidade de vincular V sua jurisdição $stados terceiros`.
42
3omo escreve A8A7$?A II%A8DA %#D%ID>$; 4rinc!pio...6 p. +56 _PorCue baseada
primariamente nas jurisdiç.es penais dos $stados6 a combinação da jurisdição penal nacional universal
com a jurisdição penal internacional B um sistema realiA,vel e adeCuado nas presentes circunst-ncias
internacionais6 com uma ordem jur*dica de soberanias estaduais altamente descentraliAadas Cue
_Cuerem` e _devem` garantir um m*nimo de valores comuns`.
18
% 4& A/ o)25e/ /u0/t-+t'6-/ e -.7e,t'6-/ fu+.-(e+t-'/ .o Tr'0u+-1 Pe+-1
I+ter+-,'o+-1
B. O/ ,r'(e/ )re6'/to/ e -/ )e+-/ -)1',C6e'/
I. #lhando ao Direito Internacional Penal6 o !PI não se aplica V totalidade
daCuele sector jur*dico2internacional6 pois Cue6 atB de acordo com a respectiva
definição6 apenas se dedica aos crimes mais graves
"
.
;e se fiAer uma representação gr,fica6 conclui2se Cue o Direito substantivo Cue o
!PI aplica B um c*rculo conc/ntrico menor dentro de um c*rculo maior6 Cue representa
o Direito Internacional Penal total.
Autonomamente enunciando os crimes e as penas aplic,veis6 o $%!PI contBm
uma cl,usula geral Cue apela para outras fontes normativas aplic,veis6 com diversas
gradaç.es6 a faAer lembrar o j, nosso bem conhecido art. '.[ do $!IKU
R o $%!PI6 os elementos do crime e o %egulamento ProcessualE
R o Direito Internacional Penal e o Direito Internacional dos 3onflitos
ArmadosE
R os princ*pios gerais do Direito Interno
""
.
II. Ao observar directamente o $%!PI6 e dentro dos _crimes mais graves Cue
afectam a comunidade internacional no seu conjunto`6 h, uma selecção Cue abrange
os seguintes tipos
"(
U
R o crime de genoc*dio
")
E
R os crimes contra a MumanidadeE
R os crimes de guerraE e
R o crime de agressão.
Puanto Vs sanç.es punitivas a aplicar6 B de realçar a primaAia Cue deve ser dada
Vs penas privativas de liberdade6 Cue podem ser de duas categorias6
alternativamente
"+
U
43
3fr. K#%D$ II%A8DA6 Curso...6 p. 2+.
44
3fr. o art. 21.[6 n.[ 16 do $%!PI.
45
3fr. o art. (.[ do $%!PI. 3fr. a definição mais pormenoriAada destes crimes nos arts. ).[ e
ss. do $%!PI. 3fr. IA%IA ?$#8#% A;;>8GS#6 Apontamento so,re o crime contra a 'umanidade6 in
AA::6 Estudos em 'omena/em a Cun$a Rodri/ues6 3oimbra6 20016 pp. +1 e ss.E K#;L D$ IA!#;
3#%%$IA6 7ri,unais penais...6 pp. + e ss.
46
;obre o crime de genoc*dio em particular6 numa e1celente an,lise6 simultaneamente
internacional6 estadual e cultural6 I:# IID>$? 7A%%#;#6 < acordo com vista 0 pr;tica de /enoc!dio,
in AA::6 Estudos em 'omena/em ao ro2essor Doutor Inoc=ncio Halv*o 7elles6 :6 3oimbra6 2006
pp. 21( e ss.
47
3fr. o art. ++.[6 n.[ 16 als. a5 e b56 do $%!PI.
19
R a pena de pris*o por um n+mero determinado de anos, até ao limite
m;3imo de IJ anosE ou
R a pena de pris*o perpétua6 se o elevado grau de ilicitude do facto e as
condiç.es pessoais do condenado o justificarem.
# $%!PI prev/ igualmente6 ao lado destas duas penas principais6 privativas de
liberdade6 a e1ist/ncia de penas acess<rias6 em duas modalidades
"'
U
R a pena de multaE e
R a perda de produtos, ,ens e $averes provenientes, directa ou
indirectamente, do crime.
III. A aplicação destas penas V pr,tica dos crimes descritos submete2se ainda a
um importante conjunto de orientaç.es materiais Cue t/m permitido a construção6 no
Direito Interno6 da !eoria da ?ei Penal e da !eoria da Infracção Penal6 do mesmo
modo aCui estando presentes6 Cue nos Direitos Penais Internos se assumem atB
constitucionalmente relevantes.
Ao n*vel da !eoria da ?ei Penal6 B de frisar a afirmação de v,rios importantes
princ*pios
"&
U
R o princ*pio da legalidadeE
R o princ*pio da determinaçãoE
R o princ*pio da tipicidadeE e
R o princ*pio da irretroactividade.
Ao n*vel da !eoria da Infracção Penal6 são tambBm v,rias as orientaç.es a levar
em consideração
(0
U
R o princ*pio da culpaE
R o princ*pio da relev-ncia das causas de e1clusão da ilicitude e da culpaE e
R o princ*pio da imprescritibilidade dos crimes.
I. !odo este novo e comple1o Direito Internacional Penal não dei1a de suscitar
a maior das perple1idades na sua relação com os Direitos Penais $staduais6 Cuanto
mais não seja porCue se lhes oferece numa linha de complementaridade6 processual e
substantiva.
#ra6 B e1actamente desta complementaridade substantiva Cue cura um dos mais
estranhos e misteriosos preceitos do $%!PI6 localiAando2se depois da definição das
penas Cue considera aplic,veisU _8ada no presente cap*tulo prejudicar, a aplicação6
pelos $stados6 das penas previstas nos respectivos Direitos internos6 ou a aplicação da
legislação de $stados Cue não preveja as penas referidas neste cap*tulo`
(1
.
# motivo para essa ininteligibilidade reside no seguinteU se o $%!PI B
complementar das penas aplic,veis pelo Direito Interno6 cedendo perante estas6 e sem
Cue haja um mecanismo de verificação da respectiva raAoabilidade6 então para Cue
48
3fr. o art. ++.[6 n.[ 26 do $%!PI.
49
3fr. os arts. 22.[ e ss. da $%!PI.
50
3fr. os arts. 2(.[ e ss. do $%!PI.
51
Art. '0.[ do $%!PI. 3fr. A8A ?>^;A %IP>I!#6 < Direito Internacional...6 pp. 1+0 e ss.
20
serve todo o aparato do $%!PI6 se ele não pode funcionar no caso em Cue os $stados
apliCuem penas simb<licas ou6 pura e simplesmente6 não prevejam nenhumas penas6
isentando os <bvios criminosos de CualCuer responsabilidade penal ao n*vel internob
Percebe2se Cue o $%!PI pretende6 cautelosamente6 não contrariar o sentido
interno6 mas não sendo esse prop<sito regulativamente plasmado6 bem pode o $%!PI
engrossar o conjunto das _inutilidades jur*dico2internacionais` porCue se auto2contBm
perante o Direito Interno Cue se alinhe num objectivo contr,rio6 na defesa da
impunidade interna frente aos crimes internacionais.
A. O *(0'to .- 7ur'/.'23o )e+-1 e - -rt',u1-23o ,o( -/ 7ur'/.'25e/ +-,'o+-'/
I. # !PI B do mesmo modo relevante no plano do Direito Processual Penal6
contendo inúmeras disposiç.es nessa matBria6 e absorveu v,rias influ/ncias dos
sistemas judici,rios internos.
Ias B incomum Cue o principal instrumento desse ordenamento jur*dico2
processual penal não conste tanto do $%!PI Cuanto do %egulamento Processual6 a
aprovar pela Assembleia dos $stados Partes6 podendo os ju*Aes6 atB V sua aprovação6
adoptar normas provis<rias6 nas situaç.es de justificada urg/ncia
(2
.
8outra perspectiva6 tambBm o !PI deve aprovar o %egimento do !ribunal6
_...necess,rio ao normal funcionamento do !ribunal`
(
.
II. 8a sua organiAação interna6 o !PI6 em rigor6 não B somente um tribunalU B
mais um comple1o de justiça penal internacional6 onde se localiAam diversas
estruturas6 formalmente consideradas como <rgãos do !ribunal
("
U
R a presid/nciaE
R as secç.es de recurso6 de julgamento e de instruçãoE
R o procuradorE
R a secretaria.
>m outro <rgão Cue deve ser autonomamente considerado R mas Cue
erroneamente não consta da aludida enumeração R B o pr<prio plen,rio dos ju*Aes do
!PI6 a Cuem cabem importantes compet/ncias regulativas6 como a da aprovação de
normas provis<rias6 enCuanto não seja aprovado o %egulamento Processual6 ou a
elaboração do seu pr<prio %egimento6 para alBm da compet/ncia de impulsão de
outros procedimentos6 como do pr<prio %egulamento Processual6 em relação ao Cual
tem poder de iniciativa.
III. Do ponto de vista das suas compet/ncias6 o !PI e1erce o respectivo poder em
tr/s circunst-ncias6 tendo um total de 1' ju*AesU
52
3fr. o art. (1.[6 n.
os
1 e 26 do $%!PI.
53
Art. (2.[6 n.[ 16 in 2ine6 do $%!PI.
54
3fr. os arts. ".[ e ss. da $%!PI.
21
R a compet=ncia de instru)*o6 no -mbito da investigação dos processosE
R a compet=ncia de 4ul/amento6 Cuando decide se alguBm deve ser
condenado ou absolvidoE
R a compet=ncia de revis*o6 Cuando aprecia6 em recurso6 uma decisão
anterior.
I. # itiner,rio jur*dico2processual assenta na e1ist/ncia de uma estrutura
acusat<ria6 em Cue se separa a entidade Cue acusa da entidade Cue julga6 sendo de
enCuadrar diversas fases
((
U
R o inGuéritoE
R a instru)*oE
R o 4ul/amentoE
R a e3ecu)*oE
R o recurso.
# inGuérito6 perante a not*cia da pr,tica de um crime abrangido pela compet/ncia
do tribunal
()
6 engloba um conjunto de actividades e iniciativas destinadas V
investigação preliminar da e1ist/ncia de crimes6 das suas circunst-ncias e da
respectiva autoria6 podendo terminar de duas maneirasU
R com o arGuivamento6 situação em Cue6 afinal6 nada se apurou6 ap<s a
conclusão da actividade investigat<riaE
R com a acusa)*o6 tendo havido a descoberta de elementos suficientes para
uma convicção acerca da probabilidade da pr,tica de certo crime6 de certa
autoria.
A instru)*o
(+
implica Cue ao juiA dessa fase incumba uma apreciação preliminar
relativamente aos factos de Cue alguBm B imputado na acusação6 podendo decidir
declar,2la procedente ou não.
# 4ul/amento
('
6 Cue s< faA sentido se a primeira fase tiver terminado com a
acusação6 implica Cue o acusado se submete a um ju*Ao final6 perante um grupo de
ju*Aes de outra secção6 a* sendo o momento da produção de prova definitiva6 no
sentido de permitir ao !ribunal uma decisão relativamente ao facto de o arguido dever
ser condenado ou absolvido.
A e3ecu)*o
(&
6 s< naturalmente faAendo sentido no caso de ter havido a
condenação6 destina2se a concretiAar a aplicação da pena de prisão6 Cuer do ponto de
vista do local6 Cuer do ponto de vista da respectiva duração e regime de reclusão.
# recurso
)0
tem o objectivo de permitir um ree1ame de uma primeira sentença
definitiva6 vivenciando2se o duplo grau de jurisdição em matBria penal. Importa6
55
3fr. A8!F8I# D>L:a? 7%A83#6 < 7ri,unal...6 pp. 2' e ss.E K#;L D$ IA!#; 3#%%$IA6
7ri,unais penais...6 pp. " e "".
56
3fr. os arts. 1.[ e ss. e os arts. (.[ e ss. do $%!PI.
57
3fr. os arts. )0.[ e )1.[ do $%!PI.
58
3fr. os arts. )2.[ e ss. do $%!PI.
59
3fr. os arts. 10.[ e ss. do $%!PI.
60
3fr. os arts. '1.[ e ss. do $%!PI.
22
contudo6 dele distinguir a revisão de sentença
)1
6 Cue tem um cariA e1traordin,rio6
sempre Cue6 depois do tr-nsito em julgado6 haja elementos novos Cue determinem a
alteração da condenação6 Cue j, não B poss*vel levar a cabo atravBs do processo de
recurso.
. # e1erc*cio desta jurisdição por parte do !PI submete2se a alguns aspectos rectores
Cue condicionam a segregação do correspondente poder jurisdicional6 de entre elas se
frisando os seguintes princ*piosU
R o princ*pio do juiA legal
)2
E
R o princ*pio do ne ,is in idem
)
E
R o princ*pio da irrelev-ncia das imunidades constitucionais dos arguidos
)"
E
R o princ*pio da presunção de inoc/ncia do arguido
)(
E
R o princ*pio da cooperação com o tribunal
))
E
R o princ*pio da jurisdição complementar relativamente Vs jurisdiç.es
internas.
;em dúvida Cue se trata de um poder jurisdicional6 uma veA Cue a jurisdição B
independente e as suas decis.es t/m força de caso julgado material
)+
.
I. $ste último princ*pio6 pela sua relev-ncia nuclear na afirmação do !PI6
merece uma atenção especial6 j, Cue se posiciona no dif*cil eCuil*brio de impor sem
desconsiderar a efectividade das jurisdiç.es nacionais.
De acordo com o pre-mbulo6 o !PI ser, _...complementar das jurisdiç.es penais
nacionais`
)'
6 igualmente aplicando o princ*pio do ne ,is in idem6 tanto para crimes j,
julgados pelo pr<prio tribunal como para os mesmos crimes julgados por outro
tribunal
)&
.
3ontudo6 o pr<prio $%!PI B muito claro nos casos em Cue desvaloriAa o anterior
ou concomitante e1erc*cio de poder jurisdicional sobre um mesmo crime Cue tambBm
entenda por bem julgarU _# !ribunal não poder, julgar uma pessoa Cue j, tenha sido
julgada por outro tribunal por actos tambBm punidos pelos artigos ).[6 +.[ ou '.[6 a
menos Cue o processo nesse outro tribunalU a5 !enha tido por objectivo subtrair o
arguido V sua responsabilidade criminal por crimes da compet/ncia do !ribunalE ou b5
8ão tenha sido conduAido de forma independente ou imparcial6 em conformidade com
as garantias de um processo eCuitativo reconhecidas pelo Direito Internacional6 ou
61
3fr. o art. '".[ do $%!PI.
62
3fr. o art. 12.[ do $%!PI.
63
3fr. o art. 20.[ do $%!PI.
64
3fr. o art. 2+.[ do $%!PI.
65
3fr. o art. )).[ do $%!PI.
66
3fr. os arts. ').[ e ss. do $%!PI.
67
3fr. 8D>O$8 P>#3 DI8M6 PA!%I3H DAI??I$% e A?AI8 P$??$!6 Droit...6 p. +2).
68
c 10.[ do pre-mbulo do $%!PI.
69
3fr. o art. 20.[ do $%!PI. 3fr. A8!F8I# D>L:a? 7%A83#6 < 7ri,unal...6 p. 2+.
23
tenha sido conduAido de uma maneira Cue6 no caso concreto6 se revele incompat*vel
com a intenção de submeter a pessoa V acção da justiça`
+0
.
$ste vem a ser um melindroso aspecto do !PI porCue se tenta faAer a _Cuadratura
do c*rculo`U ao mesmo tempo Cue pretende aceitar a validade das jurisdiç.es
nacionais6 determina a sua irrelev-ncia em certos casos
+1
. $ note2se o modo bastante
eCu*voco como aCuele preceito est, redigido6 tudo se resumindo V descoberta de uma
_intenção` R do foro puramente psicol<gico e sem se e1igir um CualCuer *ndice do
foro objectivo6 Cue por si seja naturalmente mais seguro R de subtrair a pessoa em
causa V acção da justiça6 partindo2se tambBm do pressuposto de Cue as jurisdiç.es dos
$stados partes neste tratado internacional podem revelar essas _malBficas
intenç.es`
+2
.
70
Art. 20.[6 n.[ 6 do $%!PI.
71
3fr. a dura cr*tica de =$%8A8D# A%AWK#6 < 7ri,unal...6 pp. +& e ss. 3fr. tambBm 8D>O$8
P>#3 DI8M6 PA!%I3H DAI??I$% e A?AI8 P$??$!6 Droit...6 p. +2+.
72
# Cue6 alBm do mais6 dei1a muitas dúvidas acerca da aplicação do princ*pio da boa fB na
actividade de contratação internacional6 instalando a desconfiança no funcionamento das justiças
internas dos $stados Cue se pretende Cue sejam partes no $%!PI.
24
% 8& A)re,'-23o ,r9t',- .o Tr'0u+-1 Pe+-1 I+ter+-,'o+-1
@. Tr;/ ,r9t',-/ fu+.-(e+t-'/
Para alBm dos seus ineg,veis mBritos6 o !PI sem dúvida Cue tem ainda um outro
mBrito6 decerto imprevisto pelos seus fautores6 Cue foi o de ter ressuscitado muitos
ferverosos debates na 3i/ncia do Direito Internacional6 h, muito adormecida
nalgumas falsas unanimidades.
As principais cr*ticas Cue lhe t/m sido dirigidas respeitam aos seguintes tr/s
t<picos6 sem contar ainda com a apreciação Cue se possa faAer do ponto de vista do
Direito Portugu/s6 as Cuais inelutavelmente conduAirão a Cuebras sistem,ticas e
valorativas dificilmente repar,veisU
R a vontade de esta,elecer uma 4urisdi)*o uni2ormeE
R a preocupa)*o com a consa/ra)*o de uma 4usti)a imparcialE e
R a a,ran/=ncia da moldura das penas apresentadas e a sua re/ula)*o.
1D. O .e/e7o .- '()1-+t-23o .e u(- 7ur'/.'23o u+'for(e
I. $m relação ao primeiro problema6 percebe2se Cue a valia intr*nseca do !PI est,
muito dependente de poder valer universalmente. 8inguBm compreenderia Cue s< se
aplicasse a alguns e Cue outros pudessem escapar ao seu dom*nio regulador.
=acilmente se compreende Cue o $%!PI tenha nascido sob os ausp*cios da #8>6
num objectivo Cue mergulha as suas ra*Aes j, na dBcada de Cuarenta6 mas cujos trabalhos
s< recentemente se conclu*ram.
3omo tambBm se compreende o desejo de ter sido elaborado um tratado
internacional o mais poss*vel defendido de intuitos _divisionistas` 4havendo6 recorde2
se6 a proibição da aposição de reservas56 Cue facilmente pudessem esfrangalhar a
unidade l<gico2tem,tica do !PI6 sem a Cual o mesmo nunca poderia levar a bom porto
a sua missão no novo Direito Internacional Penal.
II. Ias B o pr<prio $%!PI a desferir um rude golpe nessa unidade sistem,tica6
admitindo Cue os $stados possam negociar aspectos processuais atinentes V entrega de
suspeitos6 no -mbito de acordos celebrados e no -mbito de imunidades internacionais6
de acordo com duas hip<teses
+
U
73
Art. &'.[ do $%!PI6 sob a ep*grafe _3ooperação relativa V renúncia6 V imunidade e ao
consentimento na entrega`.
25
R _# !ribunal não pode dar seguimento a um pedido de entrega ou de
au1*lio por força do Cual o $stado reCuerido devesse actuar de forma
incompat*vel com as obrigaç.es Cue lhe incumbem V luA do Direito
Internacional em matBria de imunidade dos $stados ou de imunidade
diplom,tica de pessoa e de bens de um $stado terceiro...`E
R _# !ribunal não pode dar seguimento V e1ecução de um pedido de entrega
por força do Cual o $stado reCuerido devesse actuar de forma
incompat*vel com as obrigaç.es Cue lhe incumbem em virtude de acordos
internacionais V luA dos Cuais o consentimento do $stado de envio B
necess,rio para Cue uma pessoa pertencente a esse $stado seja entregue ao
!ribunal...`.
III. $m resumoU o $%!PI d, com a mão esCuerda aCuilo Cue evitou com a mão
direitaU aceita Cue os $stados6 na e1ecução do $%!PI6 possam estabelecer acordos no
sentido de6 na pr,tica6 desvirtuar a sua aplicação. #ra6 eis uma solução no m*nimo
absurda e não pode ser abonat<ria para Cuantos estiveram na gBnese de uma solução
deste jaeA.
11. A )reo,u)-23o )e1- -)1',-23o .e u(- 7u/t'2- '()-r,'-1
I. 8o tocante ao segundo t<pico mencionado6 B ineg,vel Cue a criação do !PI6 em
comparação com as soluç.es anteriores6 ine1istentes ou circunstanciais6 marca um
assinal,vel passo em frente na jurisdicionaliAação da repressão dos crimes
internacionais mais graves.
;< Cue essa B uma solução Cue tambBm encontra as suas limitaç.es6
capciosamente assumidas na economia global de um te1to Cue se ufana de ter
alcançado um novo paradigma na evolução do Direito Internacional.
II. $stamos a pensar no esdrú1ulo mecanismo de intervenção do 3onselho de
;egurançaU _# inCuBrito ou o procedimento criminal não poderão ter in*cio ou
prosseguir os seus termos6 com base no presente $statuto6 por um per*odo de 12
meses a contar da data em Cue o 3onselho de ;egurança assim o tiver solicitado em
resolução aprovada nos termos do disposto no cap*tulo :II da 3arta das 8aç.es
>nidasE o pedido poder, ser renovado pelo 3onselho de ;egurança nas mesmas
condiç.es`
+"
.
L muito dif*cil aceitar a interfer/ncia de um <rgão pol*tico no coração do
e1erc*cio do poder público de uma inst-ncia Cue se Cuer jurisdicional6 intervenção
Cue6 alBm do mais6 não s< pode acontecer em CualCuer momento processual como
pode inclusivamente repetir2se6 embora tenha a favor a sua temporariedade e o
conte1to adstringente do cap*tulo :II da 3arta das 8aç.es >nidas 438>5.
74
Art. 1).[ do $%!PI. 3fr. A8!F8I# D>L:a? 7%A83#6 < 7ri,unal...6 p. 2".
26
1!. A -()1'tu.e .- ,o+f'gur-23o .-/ )e+-/ -)1',C6e'/
I. Puanto V matBria referida em terceiro lugar6 no conjunto das penas Cue $%!PI
prev/ aplicar aos crimes Cue descreve6 foi j, um passo importante ter sido afastada a
pena de morte.
8este ponto6 importa saudar as soluç.es a Cue se chegou no final das respectivas
negociaç.es6 sendo certo Cue múltiplos $stados participantes6 atB do Iundo ocidental6
por admitirem a pena de morte no seu seio6 tentaram a respectiva e1portação para o
$%!PI.
II. ;e foi bom Cue o resultado final não tivesse adoptado a pena de morte pelos
crimes internacionais previstos no $%!PI
+(
6 não dei1a de causar sBrias apreens.es a
amplitude das penas previstas ser ainda e1cessiva do ponto de vista de um critBrio de
justiça material6 a Cue o Direito Internacional6 como CualCuer Direito6 jamais pode
ficar alheio e6 pelo contr,rio6 Cuer certamente aspirar.
L Cue6 por um lado6 consagra2se a pena de prisão perpBtua6 o Cue est,6 nos dias de
hoje6 em total desarmonia com as mais recentes tend/ncias6 não se apresentando numa
perspectiva preventiva6 mas unicamente retributiva6 e encontrando2se abandonada
pelos $stados Cue mais avançados estão nos respectivos estudos criminol<gicos e
jur*dico2penais.
Ias6 por outro lado6 mesmo nos casos em Cue a pena B da outra categoria menor6
ela pode ir atB aos 0 anos6 numa moldura e1ageradamente e1tensa6 coibindo2se R e6 a
nosso ver6 mal R o $%!PI de conferir *ndices seguros Cue pudessem limitar uma
ampla discricionariedade jurisdicional na definição da pena aplic,vel a cada
criminoso julgado pelo !PI6 Cuando se sabe Cue o desvalor desses crimes não B todo
igual
+)
.
75
Puanto a alguns dos pormenores desta negociação6 em Cue a delegação portuguesa foi
actuante6 IA%IA ?$#8#% A;;>8GS#6 7I e lei penal e processual penal portu/uesa6 in AA::6 <
7ri,unal enal Internacional e a <rdem 8ur!dica ortu/uesa6 3oimbra6 200"6 p. ((6 nt. 1&.
76
8um tom menos agressivo e mais complacente para com o $%!PI6 K#;L D$ IA!#;
3#%%$IA 47ri,unais penais...6 pp. "" e "(5 suaviAa tal resultado em face da gravidade dos actos
perpetrados6 a merecerem bem essa dura pena de prisão perpBtuaU _$stão em causa comportamentos
revelando da barb,rieU destruição de grupos nacionais6 Btnicos6 r,cicos ou religiosos6 ataCues
sistem,ticos ou generaliAados a populaç.es civis envolvendo homic*dios6 e1term*nio6 escravidão6
deportação6 tortura6 gravideA ou esteriliAação forçadas6 apart$eid6 etc. Actos Cue6 pela sua especial
gravidade6 Cuestionam de forma inaceit,vel os pilares fundamentais em Cue a comunidade
internacional assenta6 nomeadamente no Cue diA respeito aos direitos inalien,veis e V pr<pria dignidade
do ser humano`.
Ias estes não são argumentos Cue nos impressionem em atenção ao facto de o Direito Penal
estar h, muito tempo desprovido de uma dimensão e1clusivamente retributiva6 sendo igualmente
sens*vel V prevenção e V ressocialiAação6 não se podendo ainda esCuecer Cue estes mesmos crimes não
t/m sempre o dram,tico resultado da prisão perpBtua6 mas podem desembocar em penas bem mais
27
II
O TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL NA
CONSTITUIÇÃO PORTUGUESA
% :& A 6'+,u1-23o .o D're'to Portugu;/ -o E/t-tuto .e Ro(-
14. O forte '+tere//e )ortugu;/ )e1- r-t'f',-23o e o/ /eu/ )ro01e(-/
I. ?ogo Cue o $%!PI foi conclu*do6 o $stado Portugu/s manifestou o interesse de
pdr em marcha o procedimento de vinculação ao mesmo6 dando seCu/ncia Vs fases6
em Cue directamente participou6 da negociação e da adopção do respectivo te1to
++
.
=oi assim Cue este tratado internacional viria a incorporar2se no Direito
Portugu/s6 sendo publicado no Di,rio da %epública de 1' de Kaneiro de 20026 não sem
Cue antes tivesse motivado uma pontual revisão constitucional
+'
.
L Cue a vinculação de Portugal ao $%!PI levantava R e6 tristemente6 continua a
levantar R graves dificuldades por algumas das soluç.es nele vertidas se apresentarem
problem,ticas diante do patrim<nio portugu/s do Direito Penal e do Direito
Processual Penal
+&
6 em grande medida constitucionalmente relevante.
II. 3om o especioso objectivo de bem adeCuar o te1to do $%!PI V 3onstituição
da %epública Portuguesa 43%P56 o legislador de revisão sentiu então necessidade de
proceder a uma revisão e1traordin,ria daCuele te1to constitucional R procedimento
Cue desabrocharia na (.N revisão constitucional6 aprovada pela ?ei 3onstitucional n.[
suaves6 não sendo no tipo de crime Cue reside o problema da valoração da pena a aplicar.
77
;obre a articulação do !ribunal Penal Internacional com a 3onstituição da %epública
Portuguesa 43%P56 v. IA%IA =$%8A8DA PA?IA6 7ri,unal enal Internacional e Constitui)*o enal6 in
Revista ortu/uesa de Direito Criminal6 vol. 116 20016 pp. + e ss.E K#%D$ 7A3$?A% D#>:$IA6
Re2le3#es so,re a KAL revis*o da Constitui)*o ortu/uesa6 in AA::6 (os MK Anos da Constitui)*o da
Rep+,lica ortu/uesa de NOPQ 1 evolu)*o constitucional e perspectivas de 2uturo6 ?isboa6 20016 pp.
)" e ss.E PA>?A $;3A%AI$IA6 FuandoAAA, pp. 1"& e ss.E K#%D$ II%A8DA6 Curso...6 pp. 2' e 2&E
=$%8A8D# A%AWK#6 < 7ri,unal...6 pp. '" e ss.E :I!A? I#%$I%A6 < 7ri,unal enal Internacional e a
Constitui)*o6 in AA::6 < 7ri,unal enal Internacional e a <rdem 8ur!dica ortu/uesa6 3oimbra6
200"6 pp. 1& e ss.
78
_=oi essa6 ali,s6 a única motivação literalmente apresentada no projecto de resolução Cue
viria a transformar2se na %esolução da Assembleia da %epública n.[ 2+Y20016 a Cual dotaria o
Parlamento portugu/s de poderes e1traordin,rios de revisão constitucional`. 3fr. K#%D$ 7A3$?A%
D#>:$IA6 Re2le3#es so,re a KAL Revis*oAAA, p. )".
79
%eflectindo sobre hom<logos problemas na ratificação do $%!PI por parte de Angola6 V luA
do seu te1to constitucional6 3A%?#; =$IKF6 ro,lemas actuais de Direito +,lico An/olano 1
contri,utos para a sua compreens*o6 3ascais6 20016 pp. "( e ss.
28
1Y20016 de 12 de DeAembro R Cue pudesse alterar2lhe o sentido e6 assim6 permitir Cue
a vinculação VCuele tratado não escorregasse numa CualCuer dúvida de
constitucionalidade6 ainda Cue essa mesma revisão tivesse sido aproveitada para
efectuar outras cirúrgicas alteraç.es na 3%P
'0
.
As opç.es Cue foram abstractamente colocadas relacionaram2se com o modo de
contornar as eventuais objecç.es de inconstitucionalidade Cue surgiam Cuanto a v,rias
Cuest.esU
R a pena de prisão perpBtua como uma das penas poss*veis a aplicar por
crimes abrangidos pela jurisdição do !PIE
R a e1tradição de pessoas do territ<rio portugu/s com vista V hipotBtica
aplicação da pena de prisão perpBtuaE
R a elevada indeterminação da moldura da pena de prisão6 podendo ir atB 0
anos6 numa valoração a faAer pelo !PIE
R o car,cter indeterminado e at*pico de muitas prescriç.es penais6
colocando em crise os princ*pios penais sagrados da tipicidade e da
determinação da respectiva leiE
R a possibilidade de outras fontes R alBm da convenção R serem igualmente
admitidas para a punição de crimes a julgar pelo !PIE
R a irrelev-ncia das imunidades constitucionais6 ao contr,rio do Cue se
afirma na 3%P.
18. A o)23o )or u(- ,1Cu/u1- ger-1 .e ,o+/t'tu,'o+-1'E-23o
I. # novo preceito Cue foi introduAido6 para afeiçoar o te1to constitucional ao
te1to do $%!PI6 passou a diAer Cue _Portugal pode6 tendo em vista a realiAação de
uma justiça internacional Cue promova o respeito pelos direitos da pessoa humana e
dos povos6 aceitar a jurisdição do !ribunal Penal Internacional6 nas condiç.es de
complementaridade e demais termos estabelecidos no $statuto de %oma`
'1
.
?ateralmente6 tambBm se fiAeram peCuenos ajustes no tocante ao preceito relativo
ao regime da e1tradição6 por forma a melhor acomod,2lo Vs orientaç.es decorrentes
do $%!PI6 bem como V possibilidade de se intensificar a cooperação judici,ria
comunit,ria
'2
.
II. 8o seio das v,rias opç.es poss*veis6 o legislador da revisão constitucional
acabou por perfilhar a solução da cl;usula /eral de aceita)*o da 4urisdi)*o do 7I6
nos mesmos termos em Cue se encontra regulado pelo $%!PI.
80
;obre o sentido geral desta (.N revisão constitucional6 v. K#%D$ 7A3$?A% D#>:$IA6
Re2le3#es so,re a KAL Revis*o...6 pp. )1 e ss.
81
Art. +.[6 n.[ +6 da 3%P.
82
3fr. K#%D$ 7A3$?A% D#>:$IA6 Re2le3#es so,re a KAL Revis*o...6 pp. )" e )(.
29
Pretendeu2se assim6 de um modo genBrico e f,cil6 como se de um acto de
_m,gica constitucional` se tratasse6 colocar o $%!PI globalmente de acordo com o
te1to constitucional6 evitando2se no futuro CualCuer situação de conflito.
Pelo contr,rio6 e1cluiu2se uma intervenção pontual nos diversos preceitos
constitucionais Cue concretamente entrassem em colisão com os preceitos do $%!PI6
Cue certamente teria a enorme vantagem de ser mais eficaA na prevenção de uma
potencial relação de incompatibilidade6 mas tambBm comportaria o inconveniente de
ser menos segura na abrang/ncia com Cue se pretendia faAer descer o manto da
constitucionalidade sobre o $%!PI
'
.
III. A partir do aditamento Cue foi realiAado no art. +.[ da 3%P6 Cue se
transcreveu6 passou a constar do te1to constitucional uma cl,usula de recepção interna
do !PI6 Cue se pode apreciar de acordo com alguns par-metrosU
R a introdução da opção de permitir aceitar ou não aceitar o !PI6 sendo certo
Cue nesta matBria a 3%P não Cuis obliterar a vontade de celebrar tratados
internacionais6 Cue entendeu atribuir aos <rgãos da função pol*tica de
poder público6 e1ercida ao n*vel dos <rgãos estaduais6 não sendo ela
pr<pria a definitivamente constitucionaliAar tal incorporação6 a seguir o
seu curso normal no -mbito da conclusão dos tratados internacionais por
parte de PortugalE
R a inde1ação teleol<gica da hipotBtica vinculação V jurisdição do !PI
sempre na perspectiva da realiAação de _...uma justiça internacional Cue
promova o respeito pelos direitos da pessoa humana e dos povos`E
R a remissão constitucional especificamente dirigida ao $%!PI6 na sua
Cualidade de tratado internacional formalmente fi1ado nas suas cl,usulas6
e em todo o respectivo clausulado.
I. A observação dos termos da aceitação da jurisdição do !PI realça uma
remiss*o Gue vale a t!tulo material6 na medida em Cue a 3%P se refere a um tratado
espec*fico R o $%!PI R e não a CualCuer outro regime6 te1to internacional Cue fica
definitivamente relevante na sua cone1ão constitucional.
$sta B uma Cuestão6 porBm6 Cue não dei1ar, de suscitar dúvidas na hip<tese de
mais tarde se adoptar uma revisão do $%!PI Cue venha a alterar substancialmente a
sua identidade6 uma veA Cue se pretendeu acolher um conteúdo material fi1o6 não
tanto uma fonte Cue possa posteriormente modificar2se e continuar a ser assim
relevante
'"
.
83
Puanto a estas duas opç.es6 tal como colocadas noutros $stados.6 v. a descrição de :I!A?
I#%$I%A6 < 7ri,unal enal...6 pp. 1( e ss.
84
:amos assim mais longe em relação V pergunta Cue dei1,ramos formulada. 3fr. K#%D$
7A3$?A% D#>:$IA6 Re2le3#es so,re a KAL Revis*o...6 p. )(. 3ontra6 :I!A? I#%$I%A6 < 7ri,unal
enal...6 p. 1+.
30
Iais comple1a vem a ser a possibilidade de a nova cl,usula constitucional poder
ter operado a constitucionaliAação do $%!PI6 na medida em Cue se refere a aspectos
intimamente associados a dom*nios constitucionais6 como os direitos fundamentais.
8ão B de crer Cue o art. +.[6 n.[ +6 da 3%P seja6 por si s<6 um factor de
constitucionaliAação6 pois Cue se limita a conferir V função pol*tica pública a
faculdade de vincular o $stado a esse tratado6 da sua parte arredando o obst,culo de
uma inconstitucionalidade material Cue eventualmente surgisse6 por se conservarem as
restantes disposiç.es constitucionais Cue aCuele pudesse contrariar
'(
.
De tal não resulta Cue o $%!PI seja insuscept*vel de constitucionaliAaçãoU isso
acontecer,6 no entanto6 não por este preceito6 mas atravBs da cl,usula aberta de
direitos fundamentais at*picos6 se e enCuanto os respectivos pressupostos forem
respeitados.
A partir de agora6 foi o te1to constitucional Cue se harmoniAou ao $%!PI6 ainda
Cue o tivesse proclamado em nome do respeito pelos direitos fundamentais das
pessoas.
85
3omo tivemos ocasião de escrever6 _;e a intenção era vincular o te1to constitucional R e6
por maioria de raAão6 o restante #rdenamento Kur*dico Portugu/s R a tal tratado6 essa revelou2se uma
intenção estBril6 pois Cue o te1to constitucional não fica sujeito V adopção desse procedimento.
$1pressamente se diA no novo artigo +.[6 n.[ +6 Cue _pode` R isso depende da vontade dos <rgãos Cue
interv/m na fase de conclusão interna dos tratados internacionais na #rdem Kur*dica Portuguesa`. 3fr.
K#%D$ 7A3$?A% D#>:$IA6 Re2le3#es so,re a KAL Revis*o...6 p. )).
31
% <& A '+,o+/t'tu,'o+-1'.-.e .o Tr'0u+-1 Pe+-1 I+ter+-,'o+-1 = f-,e .-
Co+/t'tu'23o Portugue/-
1:. TF)',o/ .e .'6erg;+,'- e+tre o E/t-tuto .e Ro(- e - Co+/t'tu'23o
Portugue/-
I. 3om surpresa6 a an,lise do preceito Cue foi redigido pode bem conduAir a um
resultado altamente perverso e Cue6 em pr<1ima revisão constitucional6 s< tem de ser
corrigidoU uma permissão de vinculação internacional a um tratado Cue6 no fim de
contas6 vem confrontar o te1to constitucional com um conjunto de contradiç.es
internas6 Cue não ficam assim resolvidas.
# apelo V ratificação do $%!PI não dei1a de ser altamente inconcili,vel com um
importante conjunto de disposiç.es e de princ*pios constitucionais6 Cue se julga ter
superado e1actamente por via da criação do art. +.[6 n.[ +6 da 3%P.
$ este resultado B tanto mais grave Cuanto B certo afirmar2se Cue o apelo ao
$%!PI B feito com vista V _...realiAação de uma justiça internacional Cue promova o
respeito pelos direitos da pessoa humana e dos povos`.
II. Puais são6 então6 os aspectos Cue determinam a inadmissibilidade
constitucional do $%!PI6 ao contr,rio do Cue pretendeu o novo art. +.[6 n.[ +6 da 3%P6
Cue assim se inscreve numa nova categoria de disposiç.es6 Cue são as _disposiç.es de
ilusão constitucional`b
;ão os seguintesU
R a pena de pris*o perpétuaE
R o princ!pio da le/alidade criminalE
R as imunidades constitucionais dos pol!ticosE e
R a complementaridade 4urisdicional
')
A
1<. A )ro/,r'23o .- )r'/3o )er)Gtu- e( Hu-1Huer ,'r,u+/t*+,'-
I. 8o plano da 3onstituição Penal6 o te1to constitucional portugu/s B certamente
um dos mais ricos do Iundo6 consagrando importantes e modernas orientaç.es na
matBria.
86
!ambBm levantando alguns pontos de dúvida6 mas não detectando problemas de
constitucionalidade6 :I!A? I#%$I%A6 < 7ri,unal enal...6 pp. 20 e ss.
32
>ma das mais relevantes6 Cue tambBm se insere no nosso patrim<nio
civiliAacional6 juntamente com a da abolição da pena de morte6 B a da proscri)*o da
pris*o perpétua6 o Cue o te1to constitucional faA em dois momentos distintosU
R _8ão pode haver penas nem medidas de segurança privativas ou
restritivas da liberdade com car,cter perpBtuo ou de duração ilimitada ou
indefinida`
'+
E
R _;< B admitida a e1tradição por crimes a Cue corresponda6 segundo o
direito do $stado reCuisitante6 pena ou medida de segurança privativa ou
restritiva da liberdade com car,cter perpBtuo ou de duração indefinida6 em
condiç.es de reciprocidade estabelecidas em convenção internacional e
desde Cue o $stado reCuisitante ofereça garantias de Cue tal pena ou
medida de segurança não ser, aplicada ou e1ecutada`
''
.
II. 8a tentativa de contornar essa proibição6 a 3%P passou a admitir6 a contrario
sensu6 a possibilidade da entrega judicial fora dos casos em Cue se d, a proibição da
e1tradição havendo prisão perpBtua ou pena corporal Cue provoCue les.es
irrevers*veis na integridade f*sica. # certo6 porBm6 B Cue o te1to da 3%P manteve
aCuelas duas relevantes disposiç.es Cue condenam a prisão perpBtua.
$ntra pelos olhos dentro Cue e1iste aCui uma relação de incompatibilidade6 Cue
não pode ser resolvida por uma auto2contenção do $%!PI6 Cue precisamente pretende
actuar na uniformiAação das penas aplic,veis6 sendo certo Cue a complementaridade B
limitada.
III. 8outra perspectiva6 B tambBm despropositado diAer Cue as penas do $%!PI
não são abrangidas pelas normas constitucionais Cue impedem a prisão perpBtuaU com
a ratificação6 e agora com a permissão constitucional directa6 não ficam essas normas
internacionais a integrar a ordem jur*dica portuguesa6 atB para empenhar o $stado
Portugu/s na repressão dos crimes internacionais Cue são confiados V jurisdição do
!PIb
;< um e1erc*cio de _esCuiAofrenia constitucional` R Cue não B para todos e Cue
tambBm não ser, para n<s R B Cue poderia alguma veA admitir _duas velocidades` no
Direito Penal6 o interno sem prisão perpBtua6 e o internacional admitindo2a6 como se o
mundo da punição do Direito Internacional se pudesse sujeitar a regras
diametralmente opostas VCuelas Cue são boas e justas no Direito 3onstitucional.
I. Do mesmo modo B improcedente o argumento R Cue tem tanto de ingBnuo
Cuanto de c*nico6 para alBm de s< ter valia numa <ptica f,ctica das relaç.es
internacionais6 cuja actividade cient*fica se distingue bem da 3i/ncia do Direito
3onstitucional e da 3i/ncia do Direito Internacional R segundo o Cual a pena de
87
Art. 0.[6 n.[ 16 da 3%P.
88
Art. .[6 n.[ "6 da 3%P.
33
prisão perpBtua não seria aplic,vel porCue haveria sempre um mecanismo de ree1ame
de pena6 ao fim do per*odo de 2( anos
'&
.
Puanto a esta perspectiva6 basta lembrar Cue não se est, perante um CualCuer
direito material V não aplicação da pena de prisão perpBtua6 atravBs da sua redução6
mas apenas de um direito procedimental no sentido de a situação do recluso poder ser
reapreciada6 podendo manter2se a condenação no formato da prisão perpBtua6 pois
Cue6 nos termos do $%!PI6 o _...!ribunal poder, reduAir a pena...`
&0
6 a tanto não
estando nunca obrigado.
1B. A/ eI'g;+,'-/ .o )r'+,9)'o .- 1eg-1'.-.e )e+-1
I. #utro dom*nio e1tremamente relevante diA respeito ao modo como o te1to
constitucional limita a formulação6 pelo legislador ordin,rio ou internacional6 das
normas penais incriminadoras6 numa relevante orientação6 agora no dom*nio da !eoria
da ?ei PenalU o princ!pio da le/alidade criminal.
$is um princ*pio Cue6 todavia6 se pode aceitar com diversos corol,rios6 de entre
eles se assinalando os seguintes
&1
U
R a e1clusividade da fonte legalE
R o princ*pio da não retroactividadeE
R o princ*pio da tipicidadeE
R o princ*pio da determinação.
II. A verdade6 porBm6 B Cue a vinculação ao $%!PI não evita Cue muitas dessas
garantias sejam atropeladas. 7asta ler aCuele documento e a* deparar com disposiç.es
Cue são normas penais em branco ou normas penais de incid/ncia Cue cont/m
conceitos indeterminados e cl,usulas gerais6 para alBm de admitirem tipologias
e1emplificativas ou fontes penais costumeias
&2
.
1A. A re1e6*+,'- '+ter+- .-/ '(u+'.-.e/ .o/ t'tu1-re/ .o/ Frg3o/
,o+/t'tu,'o+-'/
89
3fr. o art. 110.[ do $%!PI. Argumento invocado6 vA /A6 por :I!A? I#%$I%A 4< 7ri,unal
enal...6 p. 2"56 ao referir como _atenuante` Cue _...o facto de no pr<prio conte1to do $statuto do !PI
essa pena ser uma punição de última inst-ncia6 estando por outro lado sujeita a revisão obrigat<ria ao
fim de 2( anos para efeitos de eventual redução...`.
90
Art. 110.[6 n.[ "6 proBmio6 do $%!PI.
91
3fr. os arts. 2&.[ e ss. da 3%P.
92
3fr. K#%D$ 7A3$?A% D#>:$IA6 Re2le3#es so,re a KAL Revis*o...6 p. )'.
34
I. IatBria em Cue ainda se regista uma dif*cil compatibilidade entre o te1to
constitucional e o $%!PI diA respeito ao re/ime das imunidades constitucionais dos
titulares dos car/os p+,licos.
;abe2se Cue o $%!PI estabelece a irrelev-ncia geral dessas imunidades internas6
enfaticamente prescrevendo Cue _As imunidades ou normas de procedimento
especiais decorrentes da Cualidade oficial de uma pessoa6 nos termos do Direito
interno ou do Direito Internacional6 não deverão obstar a Cue o !ribunal e1erça a sua
jurisdição sobre essa pessoa`
&
.
II. ;< Cue este B um resultado Cue pode revelar2se e1cessivo do ponto de vista da
defesa do estatuto do poder público.
$ssas imunidades e1istem de um modo geral
&"
R tanto na veste da
irresponsabilidade como na veste da inviolabilidade R e atB ao momento6 a despeito de
os seus contornos poderem ser alvo de reponderação6 ninguBm ousou diAer Cue elas
são dispens,veis ou Cue estão a mais no sistema democr,tico.
Por outra parte6 no caso da pr,tica de crimes6 est, previsto um procedimento Cue
visa o seu levantamento6 Cue B assim totalmente ignorado
&(
6 e Cue tambBm deveria ter
sido considerado naCuela disciplina6 Cue se apresenta divorciada de um instituto
secular de Direito 3onstitucional.
1@. A )rote,23o .- '+.e)e+.;+,'- .o )o.er 7u.','-1 e .o )r'+,9)'o .o ,-/o
7u1g-.o
I. 3umpre finalmente referir a configuração do princ!pio da complementaridade
da 4urisdi)*o do 7I6 especificamente referido no art. +.[6 n.[ +6 da 3%P6 Cue B um dos
pilares da l<gica inerente ao funcionamento daCuela novel instituição judicial
internacional.
A complementaridade do !PI estriba2se no facto de os crimes internacionais6 em
Cue B competente6 não serem julgados no plano do Direito Interno ou6 sendo2o6 o
resultado não ser considerado devidamente justo.
II. L a segunda modalidade referida6 pelo menos6 a Cue suscita a maior das
reservas6 tolhendo um dos princ*pios basilares do $stado de Direito6 Cue B o princ!pio
93
Art. 2+.[6 n.[ 26 do $%!PI6 sendo o n.[ 1 daCuele mesmo artigo ainda mais e1pl*citoU _#
presente $statuto ser, aplic,vel de forma igual a todas as pessoas6 sem distinção alguma baseada na
Cualidade oficial. $m particular6 a Cualidade oficial de 3hefe de $stado ou de Doverno6 de membro de
Doverno ou do Parlamento6 de representante eleito ou de funcion,rio público em caso algum e1imir, a
pessoa em causa de responsabilidade criminal6 nos termos do presente $statuto6 nem constituir, de per
si motivo de redução de pena`.
94
3fr. os arts. 10.[6 1(+.[ e 1&).[ da 3%P6 respectivamente6 para o Presidente da %epública6
para a Assembleia da %epública e para o Doverno.
95
3fr. K#%D$ 7A3$?A% D#>:$IA6 Re2le3#es so,re a KAL Revis*o...6 p. )&.
35
da independ=ncia do poder 4udicial e, mais especi2icamente, o princ!pio do caso
4ul/ado.
;e aceit,ssemos a complementaridade acima referida6 dever*amos suportar o
resultado de os ac<rdãos proferidos pelos nossos tribunais poderem ser
desconsiderados pelo !PI com base na alegação de Cue a justiça portuguesa não tinha
sido boa ou eficiente.
$ste B um resultado imposs*vel de aceitarU se o princ*pio do caso julgado atB pode
ser resistente a alguns efeitos da invalidade por inconstitucionalidade6 imagine2se o
Cue seria admitir Cue pudesse baCuear Vs mãos de uma jurisdição internacional6 de
n*vel infra2constitucional.
!D. U(- '+,oere+te .errog-23o ,o+/t'tu,'o+-1 e( +o(e .o/ .'re'to/ >u(-+o/
I. Detectadas estas diversas e graves situaç.es de incompatibilidade material
entre disposiç.es constitucionais e disposiç.es internacionais6 alguns dirão Cue foi
precisamente para as superar Cue se realiAou a aceitação constitucional da jurisdição
do !PI.
!al entendimento parece ser procedente no tocante Vs e1ig/ncias de
harmoniAação tBcnica Cue sempre decorrem de esCuemas de judicialiAação das
relaç.es internacionais6 não esCuecendo6 neste caso6 todo o melindre Cue envolve o
Direito Penal6 numa <ptica internacional6 em Cue B preciso combinar e conciliar
sistemas jur*dico2internos tão diferenciados.
II. ;< Cue neste caso se foi muito mais longe e colocou5se em 3eGue a coer=ncia
material do Direito Constitucional ortu/u=s6 Cue eleva V m,1ima protecção certos
valores Cue considera supremos6 na senda da nossa tradição6 j, muito antigaU e por
muito Cue isso custe ao mais infrene dos internacionalistas6 para Cuem certamente o
pr<1imo passo ser, abolir a pr<pria realidade estadual6 diluindo a Mumanidade numa
massa informe de pessoas sem ligaç.es institucionais6 sem hist<ria6 sem p,tria6 sem
l*ngua6 no fundo6 sem aCuilo Cue lhes d, a sua identidade e Cue nenhum poder pode
suprimir.
Do Cue verdadeiramente se tratou nesta revisão constitucional6 nas alteraç.es Cue
ela impds nos arts. +.[ e .[ da 3%P6 foi da ocorr/ncia de uma /rav!ssima Gue,ra
valorativa ou de uma auto5ruptura material da ordem constitucional
&)
.
;omos mesmo da opinião de Cue al/umas das altera)#es constitucionais
e2ectuadas s*o inconstitucionais
&+
6 a,alando n*o s& normas e princ!pios
96
3fr. K#%D$ 7A3$?A% D#>:$IA6 Re2le3#es so,re a KAL Revis*o...6 p. )&.
97
Aceitando a inconstitucionalidade de normas constitucionais supervenientes6 sendo esse o
caso claro da cl,usula do art. +.[6 n.[ +6 da 3%P6 nalguns dos seus sentidos6 K#%D$ 7A3$?A% D#>:$IA6
< estado de e3cep)*o no Direito Constitucional6 II6 3oimbra6 1&&'6 pp. 1"'" e ss.E K#%D$ II%A8DA6
-anual de Direito Constitucional6 :I6 2N ed.6 3oimbra6 200(6 pp. 1 e ss.
36
constitucionais ori/in;rios como essencialmente o2endendo valores transcendentes,
em rela)*o aos Guais os te3tos constitucionais s*o unicamente declarativos e n*o
constitutivos.
Pelo Cue s< resta proceder V sua eliminação da nossa ordem constitucional
&'
6 na
esperança de Cue uma futura e corajosa intervenção do !ribunal 3onstitucional
Portugu/s resolva definitivamente o problema
&&
.
3uritiba6 12 de 8ovembro de 200).
98
3fr. K#%D$ 7A3$?A% D#>:$IA6 Re2le3#es so,re a KAL Revis*o...6 p. )"0.
99
;< podemos veementemente contestar a conclusão de :I!A? I#%$I%A 4< 7ri,unal enal...6
p. "56 para Cuem não se verifica CualCuer problema de violação dos limites materiais de revisão
constitucionais6 porCue _Apesar de tudo6 a prisão perpBtua não B a pena de morte...`6 ainda invocando
Cue a prisão perpBtua não est, protegida contra o estado de e1cepção6 argumento tanto mais inoperativo
Cuanto B certo o estado de e1cepção ser de feição e1traordin,ria6 alBm de inaplic,vel porCue transit<rio6
ao contr,rio da prisão perpBtua6 a mais definitiva das penas.
Ias a raAão profunda para repudiarmos este entendimento _pouco amigo dos direitos
fundamentais` radica na concepção transpersonalista Cue lhe est, subjacente6 acreditando Cue a pessoa
humana deve ser protegida6 não tanto no seu car,cter irrepet*vel6 mas apenas enCuanto _elo` de uma
colectividade mais vasta6 cujos interesses gerais6 em certos casos6 podem sacrificar os mais b,sicos e
importantes valores individuais.
8um plano mais geral6 esta posição do ilustre professor de 3oimbra nem est, seCuer conforme
com o sentido Cue R isoladamente ou em conjunto com K. K. D#I$; 3A8#!I?M# R tem atribu*do V
cl,usula do art. 2''\ da 3%P Cue _petrificaria` os direitos6 liberdades e garantias6 referindo2se a cada
um deles e não meramente ao sistema geral6 neste caso estando a proibição da aplicação da prisão
perpBtua claramente defendida não s< por uma garantia espec*fica como pelo direito V liberdade.
8ão podemos dei1ar de recordar estas fortes palavras de :I!A? I#%$I%A 4Constitui)*o e
revis*o constitucional6 ?isboa6 1&'06 p. 10(5 a prop<sito da cl,usula de irrevisibilidade dos direitos6
liberdades e garantias6 diAendo Cue a mesma _...não pro*be Cue se toCue nos artigos da 3onstituição Cue
os garantemE pro*be Cue se eliminem ou se restrinjam os direitos actualmente reconhecidos na
3onstituição6 mas não impede Cue se acrescentem outros`. 8o mesmo sentido6 K. K. D#I$; 3A8#!I?M#
e :I!A? I#%$I%A6 Constitui)*o...6 pp. 10)( e 10)).
A respeito de v,rios problemas Cue se suscitam a este prop<sito6 v. ainda K#%D$ 7A3$?A%
D#>:$IA6 < estado de e3cep)*o no Direito Constitucionl6 I6 3oimbra6 1&&'6 pp. (&& e ss.
37