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Migração feminina e trabalho doméstico: As construções de

gênero na cultura dos lavradores do Norte de Minas Gerais
Rosana de Jesus dos Santos
1
Resumo: O objetivo norteador do presente texto foi o de analisar a migração feminina de
diversas áreas rurais do Norte de Minas para a cidade de Montes Claros e o conseqüente
ingresso no trabalo dom!stico" como um aspecto da cultura dos lavradores pobres"
calcado nas construç#es de g$nero%O trabalo dom!stico remunerado na cidade"
representaria para esses grupos familiares uma estrat!gia de sobreviv$ncia e por ser
considerado como uma aptidão natural da muler não a desviaria de seu destino &natural' o
exerc(cio futuro da função de mãe e dona de casa%
)uscando dados sobre o cotidiano das empregadas dom!sticas em Montes Claros"
cidade situada na região Norte de Minas *erais" para elaboração da Monografia de conclusão
de curso" tornou+se percept(vel que a maioria das muleres que se ocuparam da função de
dom!sticas entre as d!cadas de ,-./ e ,-0/ na cidade" eram provenientes da 1ona rural ou
dos munic(pios vi1inos%
2urante a reali1ação das entrevistas foi poss(vel perceber que a migração de
meninas ou muleres jovens para se empregarem em casas de fam(lias na cidade era uma
prática comum no per(odo% 3 migração era voluntária ou indu1ida pelos pais" ambas as formas
aparecerem nos relatos" ora as muleres migravam por iniciativa pr4pria" ora" eram enviadas
na inf5ncia pelos pais% 6nterpretei essa origem comum das dom!sticas como fruto de uma
prática cultural das fam(lias pobres da região do Norte de Minas *erais" se configurando
tamb!m" como uma estrat!gia de sobreviv$ncia dos grupos familiares pobres da 1ona rural%
7uando me refiro a uma prática Cultural espec(fica de um grupo" tomo como
refer$ncia o conceito de cultura definido por )ur8e em Cultura Popular na Idade Moderna%
9egundo o autor Cultura ! um sistema de significados, atitudes e valores compartilhados, e as
formas simbólicas (apresentaçes, artefatos! nas "uais eles se e#pressam ou se incorporam$
3rtefatos" segundo )ur8e deveriam ser compreendidos num sentido amplo" que inclu(sse
construçes culturais tais como as categorias de doença, su%eira, g&nero e pol'tica$
(
2efinindo Cultura :opular o mesmo autor a classifica como uma cultura n)o oficial, a
,
Mestranda em ;ist4ria Cultural pela <niversidade =ederal de <berl5ndia sob a orientação da :rof%a 2r%a >era
?@cia :uga%
A
)<BCD" :eter% Cultura :opular na 6dade Moderna% Duropa" ,E//+,0//% ,-0-% pg%A,
cultura da n)o*elite, das +classes subalternas,($$$! o con%unto da n)o elite, incluindo
mulheres, crianças, pastores, marinheiros, mendigos e os demais grupos sociais
-
$
:artindo dessa definição de Cultura :opular" pretendo nesse texto" analisar a
migração feminina com destino ao trabalo dom!stico na cidade de Montes Claros" como um
aspecto da cultura dos lavradores pobres da região Norte de Minas *erais% 3nalisarei ainda o
paternalismo e as construç#es de g$nero presentes nas relaç#es entre empregadas e suas
patroas e patr#es%
O conceito de g$nero definido como construç)o social e cultural das
diferenças se#uais
.
será utili1ado para possibilitar a compreensão da naturali1ação do trabalo
dom!stico como um trabalo feminino" o que explicará a inserção das muleres ainda crianças no
of(cio de empregadas dom!sticas% 3 desvalori1ação social da atividade passa a ter uma explicação
a partir das construç#es culturais de g$nero" pois sabemos que muitos g&neros de trabalho s)o
definidos como femininos ou masculinos apenas por relaçes metafóricas com o "ue se concebe
como de status superior ou inferior
/
$
Como fontes serão utili1adas cinco das oito entrevistas reali1adas entre Outubro
de A//E e 3bril de A//.% =oram entrevistadas muleres que atuaram como empregadas
dom!sticas entre ,-./ e ,-0/" apenas duas delas ainda se ocupam da função" a maioria
atualmente se dedica á pr4pria fam(lia% Famb!m serão analisados trecos de dois processos crime
do mesmo per(odo" em que aparecem empregadas e patr#es em inter+relação%
Emrego doméstico: Est!gio ara o casamento
3s muleres focali1adas por esse estudo em sua maioria migraram do campo
para a cidade e ingressaram no trabalo dom!stico remunerado% :arece ter sido um costume das
fam(lias pobres da 1ona rural encaminarem suas filas para a atividade dom!stica remunerada%
Dsse encaminamento se dava mediante pessoas pr4ximas G fam(lia que serviam de ponte de
transição entre as muleres e a cidade% 3 9r%a M%*%3%H"I0 anos
.
que migrou da 1ona rural para
Montes Claros em ,-J0" narrou sua vinda para a cidade assim: 0uem me trou#e foi minha
professora da "uarta s1rie, a' eu vim morar com a amiga dela ($$$! 2um deu certo a' eu fui
K
3p$cit$pg$(/$
I
B3*O" Margaret% 2escobrindo istoricamente o g$nero% 6nL Cadernos paguM,,N ,--0%pg% -/
E
M3C;32O" ?ia Oanotta% *$nero" um novo paradigmaP% 6nL Cadernos paguM,,N ,--0% pg% ,,.%
.
Optamos por colocar apenas as iniciais das entrevistadas por sugestão das mesmas%
trabalh4(sic! com uma cunhada de minha irm), o esposo dela tinha uma fa5enda l4 perto da
casa do meu pai
6
%
Dxistem nas fontes" refer$ncias G interação entre fam(lias pobres da 1ona rural e
fam(lias ricas da cidade ao longo de geraç#es" sendo que as primeiras geravam mão+de+obra
feminina Gs segundas% Dssa tradição fica vis(vel na transcrição da fala de um patrão em um dos
processos+crime analisado: a citada menor 1 filha de um antigo empregado do declarante e a sua
m)e foi criada e casada na casa do declarante
7
$
3 atração exercida pela cidade e suas novidades" somando+se G necessidade
dessas muleres conquistarem uma relativa autonomia econQmica e ao mesmo tempo fugir aos
trabalos rurais considerados pesados" são as poss(veis explicaç#es para esse movimento
migrat4rio de muleres% Dm suas falas elas explicitam ainda uma ambição pessoal atraindo+as
para a cidade:
=oi tipo um coque" que eu já vina assim prá morar mesmo% :rá mim foi ruim"
porque eu não conecia ningu!m" eu ficava isolada M%%%%N eu queria ficar" eu
sempre tive uma opinião" eu queria vencer e vencer" ai eu queria ficar%M%%%Neu
tina vontade de vir eu não conecia cidade nenuma" no lugar que eu morava
era pequeno" nem tina nada" nada mesmo%%%
-
O fato de a maioria das muleres que migraram da 1ona rural para Montes
Claros terem ingressado no trabalo dom!stico" pode ter como poss(veis explicaç#es a
naturali1ação do trabalo dom!stico como atividade feminina" e a crença de que ! uma atividade
que não exige qualificação% Dssa primeira está ligada G segunda" já que culturalmente acredita+se
na aptidão natural das muleres Gs atividades ligadas ao espaço dom!stico%
3ssim" desde a inf5ncia a muler ! sociali1ada para o exerc(cio da maternidade
e para o cuidado dos filos e da casa% Nos grupos mais empobrecidos da sociedade o trabalo
dom!stico remunerado aparece para as muleres" como uma estrat!gia de sobreviv$ncia que ao
mesmo tempo n)o($$$! representa ($$$! uma agress)o ao seu caminho,natural, se%a se preparando
para ser dom1stica ou uma dona* de *casa
89

J
H% M%*%3% Montes Claros" AA de 3bril de A//.% , fita casseteM./ min%N% Dntrevista concedida a Bosana de Hesus dos
9antos%
0
2:2OB% :rocesso criminal lesão corporal nR///%//A%I/J% B!u: H%F%9% >(tima: O%H%9% ,-.0%
-
3%9%=% Montes Claros" AA de Outubro de A//E% , fita cassete M./ min%N% Dntrevista concedida a Bosana de Hesus dos
9antos%
,/
=DBBD6B3" Horget5nia da 9ilva% Mem4ria" ;ist4ria e Frabalo: Dxperi$ncias de trabaladoras dom!sticas em
<berl5ndia+,-J/+,---% A/// pg% E0
3l!m dessas explicaç#es ! necessário ressaltar que o trabalo dom!stico
emergia tamb!m como um meio de satisfaçãoSreali1ação dos interesses das muleres" ao
representar uma oportunidade de trabalo ligada G possibilidade de moradia e subsist$ncia% ?%3"
K0 anos" que migrou para Montes Claros em ,-JI" lembra que os patr#es:
M%%%N davam roupa" calçado" quando eu ia praMsicN 9alinas elas pagavam mina
passagem" entendeuP 3( aquele dineiro que era de eu pagáMsicN passagem já
levava praMsicN elesMos paisN n!P Dles mandavam um agrado" mesmo em
dineiro" eles mandavam uma quantia" que era assim bem significativa mesmo
,,
%
3 migração de muleres e o conseqüente ingresso no trabalo dom!stico"
conforme Cláudia Maia ! parte de um sistema de reprodução social utili1ado pelas fam(lias do
meio rural
,A
% Dsse tipo de reprodução social consiste na &expulsão' de um dos seus membros%
Conforme a autora" as mulheres +e#pulsas, dei#am de depender diretamente dos recursos da
unidade familiar, bem como da partilha e e#ploraç)o da terra "ue na maioria das ve5es 1
insuficiente para todo o grupo familiar
8-
$ Na cidade al!m de se constitu(rem em intermediárias na
migração de outros membros do grupo familiar" essas muleres podem ajudar suas fam(lias em
tempos de necessidade" a função de membro assalariado que socorre a unidade familiar" destaca+
se na fala de 9% quando em entrevista" disse:
Du ganava poco" de1 na mão dela" com aquele de1 era assim" quando comprava
o sapato eu num comprava ropa% 9e sobrasse sobrava muito poco num dava pra
comprar nada% Du ajudava meus pais" mandava as coisa prá lá" então era assim"
que as ve1 eu ficava um m$s ou dois sem mandá nada prá eles%
,I
3s muleres ouvidas iniciaram sua vida de trabalo muito jovens" a maioria
entre nove e de1enove anos% Nesse treco de sua fala ?%3 narra sua migração ainda na inf5ncia:
:4 eu morava na roça e com de5 ano, nove ano(sic! eu sa' da minha casa e fui p4 cidade
8/
$
3 prefer$ncia das fam(lias empregadoras por meninas oriundas de outras
localidades" provavelmente reside na possibilidade de um maior controle e exploração do trabalo
,,
3% ?% Montes Claros" AA de 3bril de A//.% , fita casseteM./ min%N Dntrevista concedida a Bosana de Hesus dos
9antos%
,A
M363" C%H%T ?O:D9" M% =% ; migraç)o de mulheres do Je"uitinhonha% Oi8os% Bevista brasileira de economia
dom!stica% >içosa" v%,I" n%A" p%,/-+,AA" A//K
,K
Id$ Ibid$ p%/-
,I
3%9%=% Montes Claros" AA de Outubro de A//E% , fita cassete M./ min%N% Dntrevista concedida a Bosana de Hesus dos
9antos%
,E
3% ?% Montes Claros" AA de 3bril de A//.% , fita casseteM./ min%N Dntrevista concedida a Bosana de Hesus dos
9antos%
das mesmas% Dssa exploração intensa fica evidenciada na fala de =%9%3" IA anos" ao descrever sua
rotina de trabalo:M %%%N era de Segunda a <omingo trabalhano ($$$! no <omingo eu fa5ia ban"uete
por "ue arreunia a fam'lia todinha duas, tr&s horas da tarde era hora de almoço, a' "uando eu
terminava de arrum4 a co5inha tava dano cinco, cinco e meia
8=
$
3 pouca idade das meninas propiciava aos patr#es a possibilidade de pagar
menores salários e explorar mais eficientemente" mediante a justificativa de que eram
responsáveis pelas mesmas% U recorrente a entrega dessas meninas diretamente aos patr#es
pelos pais% ?%3 a respeito dessa ocorr$ncia" disse: >les falaram com meus pais "ue mesmo
durante eu tivesse com eles "ue eles n)o tinham "ue preocupar comigo com nada, n1?
;chavam "ue eram respons4veis por mim e o "ue acontecesse comigo en"uanto eu estivesse
com eles
86
.
Dsse costume constitui uma das bases do paternalismo" uma das caracter(sticas
encontrada neste estudo" na relação entre patr#es e empregadas%
"aternalismo e deferência nas relações entre domésticas e emregadores
3 conviv$ncia entre patr#es e empregadas dom!sticas em Montes Claros no
per(odo estudado era entrecortada por traços de relaç#es paternalistas e personalistas% U
percept(vel que tanto por parte dos empregadores" quanto das dom!sticas existia a ideali1ação
de uma relação pautada por obedi$ncia" ami1ade e proteção% O paternalismo presente nessas
relaç#es no entanto" não significa aus$ncia total de resist$ncia por parte das dom!sticas diante
da exploração vivenciada% 3 resist$ncia se dava dentro da teia do paternalismo e da
defer$ncia% Dsse aspecto das relaç#es paternalistas ! discutido por Fompson" quando este
situa a Cultura popular dentro de um e"uil'brio particular de relaçes sociais, um ambiente
de trabalho, e#ploraç)o e resist&ncia @ e#ploraç)o, de relaçes de poder mascaradas pelos
ritos de paternalismo e da defer&ncia ($$$!
87
$ 9tuart ;all se referindo ao V:ovãoW do s!culo
,.
9%3% =" Montes Claros" K/ de 3bril de A//.% , fita cassete M./ minN% Dntrevista concedida a Bosana de Hesus dos
9antos%

,J
3% ?% Montes Claros" AA de 3bril de A//.% , fita casseteM./ min%N Dntrevista concedida a Bosana de Hesus dos
9antos%
,0
F;OM:9ON" D%:% Costume e Cultura% 6NLLL Costumes em Comum: estudos sobre a cultura popular tradicional%
9ão :aulo: ,--0 pg%
X>66" mostra tamb!m" que as ameaças de eclosão eram constantes sem" no entanto romper os
fios do paternalismo e da defer&ncia($$$!
8A

Num treco de um dos processos criminais utili1ados" a dom!stica fala acerca das
promessas feitas pelos patr#es antes de tra1$+la da 1ona rural" onde morava para trabalar em sua
resid$ncia: YPrometeram pagar bem, "ue lhe tratariam com dignidade e lhe dariam roupas$B
(9
3
promessa de doação de roupas e tratamento digno al!m do pagamento de salário ! caracter(stica
de uma relação paternalista em que patr#es" na medida em que cumprissem suas
responsabilidades" pretendiam exercer autoridade sobre os que o serviam% 3s responsabilidades
dos patr#es consistiam em proporcionar condiç#es básicas de sobreviv$ncia Gs empregadas%
9andra ?audernale *raan acerca das relaç#es paternalistas entre patr#es e criadas escreveu:
Os patr#es eram responsáveis por prover os cuidados básicosL comida" abrigo"
alguma roupa" rem!dios na doença% Dm troca do que eles descreviam como o
dever paternal de ministrar uma Yeducação moral e religiosa"Y eles exigiam que
os dependentes retribu(ssem com obedi$ncia%
A,
O per(odo estudado pela autora vai de ,0./ a ,-,/" esse per(odo compreende os anos
que antecedem a abolição e os anos subseqüentes G mesma% 3 conviv$ncia patr#es e empregadas
ora estudado" possui traços que se assemelam G relação entre criadas e seus patr#es no Bio de
Haneiro no per(odo estudado por *raan% Ou seja" nesse per(odo em Montes Claros" percebe+se
perman$ncias de práticas já existentes no passado dentro do trabalo dom!stico remunerado%
;á evid$ncias que em Montes Claros existia o costume de manter+se criadas
para a execução dos trabalos dom!sticos% Dram meninas criadas pelos patr#es que executavam o
trabalo dom!stico sem remuneração" sendo punidas em caso de insubordinação% Nesse treco de
um processo por lesão corporal" acerca das acusaç#es que le eram feitas um patrão se justifica:
7ue de então para cá a menina tem se desenvolvido normalmente" pois tem boa
alimentação" roupas e anda sempre limpaT que contudo ao ficar crescida" passou
a demonstrar rebeldia" desobedi$ncia" embora bem tratadaT que na verdade bateu
algumas ve1es por casa de sua irresponsabilidade e rebeldia$
AA
Nessa fala as identidades de pai e patrão se confundem" a agredida" uma jovem
com tre1e anos era criada pelo agressor" mas executava todas as atividades dom!sticas em casa

,-
;3??" 9tuart% 2a diáspora: 6dentidades e mediaç#es culturais%);: A//K% pg AI-
A/
2:2OB% :rocesso crime% ?esão corporal% //A%KJ0% B!u: 3%F%O% >(tima: *%?%=%,-.J% pg%/-
A,
*B3;3M" 9andra ?audernale% Proteç)o e obedi&nciaC Criadas e seus patres no Rio de Janeiro de 87=9 a 8A89$
AA
2:2OB%:rocesso crime por lesão corporal nR//A%I/J% B!u:H%F%9%>(tima:O%H%9%,-.0" pg%,/%
deste% Dssa parece ser uma prática comum em Montes Claros não s4 no per(odo desse estudo"
2arcZ Bibeiro em Confisses se refere a esse costume:
O motor que realmente movia as casas eram as criadas% Meninas tra1idas das
fa1endas que cresciam encarregadas de todo o serviço: co1inar" lavar" passar"
varrer% Não tinam salário% *anavam restos de roupas e sapatos% O pior ! que
não tinam nenum contato externoM%%%N% Dnveleciam e morriam no serviço"
aparentemente muito queridas como pessoas da fam(lia mas de fato escravas
vital(cias%
AK

Dssa observação de 2arcZ em conjunto com as demais fontes" nos ! @til G
medida em que reafirma a ocorr$ncia desse tipo de relação% No entanto seu olar sobre a prática
já citada" desconsidera a subjetividade das criadas e a estrutura social em que figuravam" ! mais
um julgamento pessoal" parte da mem4ria do autor sobre a sociedade montesclarense%
O contato com as fontes nos revelou não ser poss(vel apreender a complexidade
dessas relaç#es com um olar simplificado% 3 relação ! tão peculiar que os pr4prios atores sociais
divergem quando tentam classificá+la" alguns consideram essas muleres como YcriadasY" outros
como YempregadasY" 2arcZ fala em Yescravas vital(ciasY% :or parte das empregadas a definição
tamb!m varia como veremos no desenrolar desse texto% Não queremos com isso negar que
muitas muleres viveram e trabalaram em condiç#es precárias e at! subumanas" mas o objetivo
! lançar um olar amplo sobre essas práticas buscando compreend$+las%
;á mudanças na forma de conceber a relação conforme a necessidade dos
patr#es e das dom!sticas% 3 relação trabalista que oje concebemos como válida" no per(odo
estudado ! ainda indefinida% Dla ! pautada pelo paternalismo o patrão assume caracter(sticas de
um pai cabendo a ele proteger e corrigir seus subordinados% 2a dom!stica era esperada
subservi$ncia e respeito" em alguns casos quando esta não supria a expectativa" os patr#es se
viam no direito de pun(+las: >u fi"uei com raiva e rispundia(sic! e ele veio para cima de mim
como se "uisesse me bater$
(.
:or parte das dom!sticas ! percept(vel uma ideali1ação de relação pautada pelo
paternalismo% O desejo de se sentir parte da fam(lia e a proteção aparente proporcionada por esse
AK
B6)D6BO"2arcZ% Confisses% 9ão :aulo: Cia% das letras",--J%pg ,J%
AI
9% 9% :% Montes Claros" AA de Outubro de A//E% , fita cassete M./ minN% Dntrevista concedida a Bosana de Hesus dos
9antos%
tipo de interação aparece nessa fala de uma das entrevistadas: >la parece "ue gostava de mim,
demonstrava preocupaç)o comigo
(/
$
Os pap!is de patroa e de mãe se confundem nessa fala de M%H%:%9" EK anos: Dui
trabalhar na casa de <a$($$$! essa foi uma m)e "ue eu arrumei, "ue era muito boa pr4 mim e me
dava muito bem com ela e com os filho dela, eu e os menino dela nós era como se fosse irm)o
A.
$
Belaç#es nitidamente personalistas e paternalistas são apontadas em pesquisas
acerca do trabalo dom!stico no )rasil% 3pesar da dist5ncia temporal e geográfica em que se
situam esses estudos" o trabalo dom!stico aparece entrecortado por traços paternalistas e
personalistas% Dssas perman$ncias são pr4prias da ;ist4ria" as rupturas dos modelos sociais não
acontecem de forma brusca" sendo que alguns traços de determinados sistemas permanecem"
mesmo ap4s o fim do referido modelo de organi1ação social M! at! questionável falar em l4gica
social" já que" as sociedades umanas são caracteri1adas pela diversidade e pela multiplicidade de
formas de relaç#esN%
O contato com os trabalos de outras pesquisadoras que abordam o mesmo
tema" permitiu questionar a relação paternalista" uma das caracter(sticas do trabalo dom!stico
remunerado" como unilateral" ou seja" tendo os patr#es como @nicos interessados% <m dos
trabalos ! o estudo etnográfico de Hurema )rites" acerca do trabalo dom!stico no Dsp(rito
9anto% Nesse trabalo" a autora não nega a posição desfavorável das dom!sticas em relação aos
patr#es" mas percebe que dentro dessas condiç#es desfavoráveis " as relaç#es paternalistas
representam uma forma de Ytirar o melor proveitoY da situação
AJ
%
3o dirigir nosso olar sobre as relaç#es entre patr#es e dom!sticas" tentamos
despindo+nos de pr!+julgamentos% :ois" a tend$ncia ! analisar uma relação de trabalo a partir da
forma com que as concebemos" ou seja" de forma racional% [ medida que não se enquadram no
modelo que consideramos válidos" essas formas peculiares de interação entre patr#es e
dom!sticas são taxadas como erradas% Ou seja" ao estabelecermos crit!rios de julgamento a partir
de nossas concepç#es de certo e errado para uma relação de trabalo do passado" acabamos por
ser anacrQnicos e pior" perdemos a especificidade dessas relaç#es%
AE
A.
9% M% H%:%Montes Claros ,, de 3bril de A//.%, fita cassete M./ minN Dntrevista concedida a Bosana de Hesus dos
9antos%
AJ
)B6FD9" Hurema% Serviço dom1sticoC um campo desprovido de iluses%A///% dispon(vel em:
\ttp:SScalvados%cKsl%ufpr%br] acesso em A- de Huno de A//.%
3 análise das fontes possibilitou+nos ouvir a vo1 das dom!sticas falando sobre
os significados que as mesmas dão Gs suas experi$ncias no passado% O sentido dado pelas
mesmas para as relaç#es ditas paternalistas ! diferente do que concebemos como válido% Onde
enxergamos apenas exploração e aviltamento elas v$em possibilidade de melorias nas suas
condiç#es de sobreviv$ncia% Beparemos na fala de uma das entrevistadas quando compara o
trabalo dom!stico na atualidade com a forma com que se organi1ava no passado:
M%%%N Naquela !poca eles ia compráMsicN um armário ou um guarda+roupa $sMsicN
pegava e dava a gente" oje não" roupa muita ropa%MsicN ;oje esMsicN pegaMsicN as
ropaMsicN tudo e p#e no ba1ar" antigamente ceMsicN ganava ropaMsicN demais%
CeMsicN ganava mais pocoMsicN mas por!m" ! igual eu toMsicN falanoMsicN" ceMsicN
ganava mais coisa que desapertava" oje não" ceMsicN gana o salário" mas !
dificiMsicN patroa que fala assim: vou pegar um m4vel e te dar%
A0
Nessa fala a entrevistada aponta como vantagem na relação trabalista do
passado as doaç#es feitas pelas patroas de roupas usadas e m4veis usados% Dla contrap#e a forma
que consideramos mais justa e racional de pagamento" ou seja" assalariamento" com os
pagamentos usuais no passado" em que a insignific5ncia do valor monetário dos salários era
contrabalançada por doaç#es de bens que a seu ver sanava as necessidades%
3 formalidade institu(da pela racionali1ação das relaç#es trabalistas para essa
muler e para muitas de suas contempor5neas" não representa a solução para a desigualdade
social% O pagamento de salário m(nimo e o cumprimento de outras formalidades legais" não
sanam suas necessidades% 3s antigas práticas personalistas são vistas de forma favorável por elas%
Hurema )rites percebeu no já citado estudo etnográfico"
<m descompasso entre as análises acad$micas e as perspectivas das
empregadas dom!sticas quanto Gs relaç#es de trabalo e a perspectiva pol(tica
decorrente dessa leitura% 3s empregadas encontraram vantagens no serviço
dom!stico" inexistentes no mercado de trabalo formal% Dstas coincidiam
justamente com aqueles fatores que os pesquisadores da condição feminina
consideram como as ra(1es da subordinação que o serviço dom!stico acarreta%
A-
U de fundamental import5ncia que em nossas análises captemos a forma com
que os sujeitos ist4ricos significam determinadas situaç#es% 3o relembrar o passado" a
A0
*% M%M% Montes Claros" ,J de =evereiro de A//.% , fita cassete M./ min%N% Dntrevista concedida a Bosana de Hesus
dos 9antos%
A-
)B6FD9" Hurema% Serviço dom1sticoC um campo desprovido de iluses%A///%pg%/, dispon(vel em:
ttp:SScalvados%cKsl%ufpr%br acesso em A- de Huno de A//.%
entrevistada relaciona+o com a realidade por ela vivida no presente" já que ainda atualmente
trabala como dom!stica:
;oje paga salário" antigamente era mel4MsicN sabe por queP 3s pessoas
reconecia" dava oc$MsicN alguma coisa" pegava dineiro te dava" te dava
ropaMsicN" oje não" oje oc$MsicN gana sim o salário digno" mas as pessoa não
te dá nada" ceMsicN não tem direito% 9e oc$MsicN sai $sMsicN vai te cobrar pasta" vai
cobrar sabonete" antigamente não fa1ia isso não" oje se oc$MsicN sai cobra a
comida" ! oje !" a lei ! bom% Mas ao mesmo tempo ruim" discontaMsicN%
K/
U costumeiro olarmos a relação personalista de forma vertical% O superior"
atrav!s de presentes ou doaç#es" acaba por dominar a relação% O que recentes estudos prop#em !
uma abordagem diferenciada dessas relaç#es" em que se perceba o sentido dado pelos
subalternos a essa forma de interação% O subordinado Mnesse caso a dom!sticaN estabelece relação
de poder com seus superiores Mpatroas e patr#esN tirando proveito da situação desfavorável em
que se encontram ora resistindo com a mesma intensidade" ora burlando a vigil5nciaT a exemplo
da dom!stica 9% =%3" ao relatar o seu conv(vio com a patroa: >la gritava comigo, implicava
comigo, eu tamb1m gritava com ela$ 0ue eu tamb1m num era +flor "ue se cheira n)o, num ficava
calada n)o$
-8
O fato de participar da intimidade da fam(lia ao mesmo tempo em que tole as
dom!sticas e as submete a condiç#es p!ssimas" como já expusemos anteriormente" por outro lado
possibilita+les desenvolverem estrat!gias de negociação com suas patroas" tornando+se suas
confidentes% 9%=%3" relembrando seu passado" narrou: >las conversava assim comigo, as ve5 me
contava as coisa, as ve5 at1 coisa "ue nem me interessava saber da vida deles, as ve5 me
contava, as ve5 es tinha segredo tamb1m a' eu ficava curiosa "uereno saber, descobrir, roubava
fruta na geladeira
-(
$
2urante a narrativa percebe+se que 9% =%3 ao lembrar que servia de confidente G sua
patroa amarrou a essa lembrança a de que tamb!m tentava descobrir fatos que le eram omitidos%
Novamente percebe+se que uma recordação puxa outra relacionada" quando Gs lembranças
anteriores 9%=%3 junta G de que roubava frutas na geladeira% Nesse entrelaçamento de lembranças"
K/
*% M%M% Montes Claros",J de =evereiro de A//.% , fita cassete M./ min%N% Dntrevista concedida a Bosana de Hesus
dos 9antos%
K,
3%9%=% Montes Claros" AA de Outubro de A//E% , fita cassete M./ min%N% Dntrevista concedida a Bosana de Hesus dos
9antos%
KA
3%9%=% Montes Claros" AA de Outubro de A//E% , fita cassete M./ min%N% Dntrevista concedida a Bosana de Hesus dos
9antos%
percebe+se o sentido que 9%=% 3% dá Gs suas atitudes como formas de resist$ncia encontradas para
reverter a condição de subordinação em que vivia% U uma relação dial4gica" pode ser que a patroa
ao falar de seus problemas buscava inconscientemente ou estrategicamente a adesão da
empregada para fa1$+la sentir+se parte da fam(lia e" como tal" cooperar melor na manutenção do
lar%
Maria 6silda 9antos de Matos " acerca desse aspecto das relaç#es paternalistas" di1:
Consciente ou inconscientemente" procurava+se estabelecer dispositivos
estrat!gicos que deveriam estreitar os v(nculos de patr#es e criados% Mesclando
gratidão" adesão e envolvimento" procurava+se sutilmente a cooptação"
sugerindo uma relação mutuamente admitida" mas com pressupostos
normativos que" supondo noç#es valorativas" necessitavam da adesão dos
criados
KK
%
O objeto de estudo de Matos se situa no fim do s!culo X6X e in(cio do 9!c% XX
em 9ão :aulo% Nesse trabalo ela mostrou as transformaç#es operadas nas relaç#es entre amos e
criados a partir da 3bolição e do advento da migração% Muitas das caracter(sticas por ela descritas
nessas relaç#es foram encontradas no trabalo dom!stico em Montes Claros relativo ao per(odo
de ,-./ e ,-0/% 3ssim ! poss(vel afirmar que o paternalismo presente no emprego dom!stico !
uma caracter(stica que permanece" malgrado as transformaç#es pelas quais a atividade passou ao
longo dos anos%
#onclusão
Dsse breve texto objetivou a compreensão da migração feminina com destino G cidade
de Montes Claros e o conseqüente ingresso no trabalo dom!stico remunerado como um aspecto
da cultura dos trabaladores rurais pobres do Norte de Minas *erais% Dssa prática cultural está
articulada ás construç#es de *$nero dos grupos" situando+se num universo de luta pela
sobreviv$ncia%
3 muler ao ingressarem no trabalo dom!stico" atividade esta" simbolicamente
significada como parte de uma aptidão natural feminina" estariam se preparando para o futuro
desempeno da função de mães e donas+de+casa al!m de se encontrarem protegidas em um
ambiente familiar sobre a guarda de um pai de fam(lia de onde sairiam apenas para o casamento%
KK
M3FO9" Maria 6silda 9antos de% Cotidiano e CulturaC Eistória, cidade e trabalho$ A///%pg ,J-
Nas relaç#es tecidas entre as empregadas dom!sticas e seus patr#es o paternalismo !
bem vis(vel" contrariando análises do emprego dom!stico no )rasil" esse aspecto das relaç#es foi
significado positivamente pelas empregadas dom!sticas entrevistadas%
Dsses dados nos fa1em pensar na representação simb4lica do trabalo dom!stico
como um não+trabalo" uma função naturalmente desempenada por muleres% 3 partir dessa
construção simb4lica de um status inferior para o trabalo dom!stico ter(amos um ponto de
partida para a análise da atual configuração da profissão na atualidade%
$%$&%'GRA(%A
)B6FD9" Hurema% Serviço dom1sticoC um campo desprovido de iluses%A///% dispon(vel em:
\ttp:SScalvados%cKsl%ufpr%br] acesso em A- de Huno de A//.%
)<BCD" :eter% Cultura :opular na 6dade Moderna% Duropa" ,E//+,0//% 9ão :aulo: Cia das
?etras" ,---%A^%ed% K0E p%
=DBBD6B3" Horget5nia da 9ilva% Mem4ria" ;ist4ria e Frabalo: Dxperi$ncias de trabaladoras
dom!sticas em <berl5ndia+,-J/+,---% A/// pg% E0
*B3;3M" 9andra ?audernale% Proteç)o e obedi&nciaC Criadas e seus patres no Rio de Janeiro
de 87=9 a 8A89$ 9ão :aulo: Cia das ?etras" ,--A%
;3??" 9tuart% 2a diáspora 6dentidades e mediaç#es culturais% )elo ;ori1onte: ;umanitas" A//K%
IKI%
M3C;32O" ?ia Oanotta% *$nero" um novo paradigmaP% 6nL Cadernos paguM,,N 9ão :aulo:
,--0% pg% ,,.
M363" C%H%T ?O:D9" M% =% ; migraç)o de mulheres do Je"uitinhonha% Oi8os% Bevista brasileira
de economia dom!stica% >içosa" v%,I" n%A" p%,/-+,AA" A//K
M3FO9" Maria 6silda 9antos de% Cotidiano e CulturaC Eistória, cidade e trabalho$ A///%pg ,J-
B3*O" Margaret% 2escobrindo istoricamente o g$nero% 6nL Cadernos paguM,,N 9ão :aulo
,--0% 0- a --%
B6)D6BO"2arcZ% Confisses% 9ão :aulo: Cia% das letras",--J%pg ,J%
F;OM:9ON" D%:% Costume e Cultura% 6NLLL Costumes em Comum: estudos sobre a cultura
popular tradicional% 9ão :aulo: Compania das ?etras" ,--0%
('N)E*
Entrevistas
H% M%*%3% Montes Claros" AA de 3bril de A//.% , fita casseteM./ min%N% Dntrevista concedida a
Bosana de Hesus dos 9antos%
3%9%=% Montes Claros" AA de Outubro de A//E% , fita cassete M./ min%N% Dntrevista concedida a
Bosana de Hesus dos 9antos%
3% ?% Montes Claros" AA de 3bril de A//.% , fita casseteM./ min%N Dntrevista concedida a Bosana
de Hesus dos 9antos%
9%3% =" Montes Claros" K/ de 3bril de A//.% , fita cassete M./ minN% Dntrevista concedida a
Bosana de Hesus dos 9antos%
"rocessos crime
2:2OB% :rocesso criminal lesão corporal nR///%//A%I/J% B!u: H%F%9% >(tima: O%H%9% ,-.0%
2:2OB% :rocesso crime% ?esão corporal% //A%KJ0% B!u: 3%F%O% >(tima: *%?%=%,-.J%