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2925. Suan<J em_ sesO-Jodro2. Bloco D. !<JIidoO!ca
NOlme"". _ 2010 203 fane< (011) 321·1212 - Fa>< (011)22f>.
4)52. SeMço ao _ _...00
otencldo5. condIc:Ic:lnOOo 6 c:Ispc:lr'djade emEl$f(QJe e 00
preçoda ecIçõo atua . Osaterdmetos \'ta Correioseroo ocres-
ddos dOs d&sPesOs de envk>. 1. Por cono: Ao Grupo de ANER

lIIlllIlI __ •
C I I Cll l ç II
4
ISTOÉ-O BRASILEIRO 00 SÉCULO-I O-EMPREENDEooR
A fotografi a que publ icamos na
ca pa de O Cientist a do Sécul o,
fascíc ulo encartado na edição
1557 de ISTOÉ (abaixo, à dir.),
não é de Oswaldo
Cruz. Par a corri-
gir o equívoco, es-
tamos reproduzin-
do (à es q.) a mes-
ma capa, dest a
vez, co m a foto-
grafia correta do
pesquisador.
ERRATA
Dívida social
O
Conde Francesco Ma- I
tarazzo - eleito o Em-
preendedor do Século
pelos leitores de ISTOÉ - urbanizou bair-
ros operários em torno de suas fábricas na capital
.paulíst a, Nos anos 10, no sertão de Alagoas , Delmi-
ro Gouvei a ergueu a Vila de Pedra. Eram 256 casas
com energia elétrica e água encanada, regalia que a
maior parte dos moradores das cidades não conhe-
cia. Na cri se de 1929, quando a Bolsa de Nova York
foi a pique e levou junto a economia mundial, em
São Paulo o industrial Luiz Dumont Villares redu-
ziu os salários e equilibrou a empresa no fio da
navalha, mas não despediu ninguém. Nos anos 70,
o empresário e intelectual José Mindlin garantia
aos funcionários de sua indústria de autopeças far-
ta refeição. "Queria que tivessem do bom e do me-
lhor, mas nunca de graça. Cobrava uma quantia
ínfima, caso contrário, não dariam valor", explica.
As lições documentad as neste fascículo deveriam
inspirar um País que, às vésperas do século XXI,
teima em ignorar as desigualdades. Além do arro-
jo e da perspicácia para reali zar bons negócios, a
consciência das mazelas
sociais é uma das virtu-
des essenciais dos gran-
des empreendedores.
WALTHER MOREIRA SALLES: Banqueiro
e embaixador. 22
OLAVO SETÚBAL: Transformou o Itaú
no segundo maior banco do País...24
NORBERTO ODEBRECHT: Descentrali zou
para aumentar o lucro 26
JORGE GERDAU JOHANNPETER:
Gigante do aço 28
RUBEN BERTA: Fez da Varig a
maior empresa aérea do Brasil ... 30
DELMIRO GOUVEIA: Apostou no
progresso do Norde ste 32
LUIZVILLARESIndustri al ideali sta
e arroj ado 36
CLÁUDIO BARDELLA: Um empresário
com consciência políti ca 38
ABRAHAM KASINSKI: Ex-dono da
Cofap, recomeçou aos 82 anos... 39
LEON FEFFER: Revolucionou a
tecnol ogia do setor de papel ....... 40
ALOYSIO FARIA: Levou o Banco Real
ao topo do ranking financeiro ..... 41
HORÁCIO LAFER: Ideólogo da política
industrial 42
ISTOÉ·O BRASILEIRO DOSÉCULO· IO.EMPREENDEDOR
5
Francesco ~ t r z z  
CD
caba (SP). Meses depoi s es-
creveu para a família que dei-
xara na Itália - a mãe Mari-
ângela, a esposa Filomena,
oito irmãos e do is filhos:
"Abri uma venda em Soroca-
ba e não procurei , nem jamais
procurarei, ter o que se cha-
ma de patrão. " Empréstimos
ajudaram-no a abrir o peque-
no empreendimento. Na mer-
cearia, as estantes vi viam
abarrotadas de produtos de to-
dos os tipos - ele cismava em
importar tudo o que apareces-
se. Se a clientela pedisse al-
guma coi sa que ele não tinha,
tratava de arrumar mais que
depressa. Por ironia, o cam-
peão de vendas era a banha
de porco importada, o mes-
mo produto que ele trouxera
da Itália e repousava no fun-
do do mar. Era ingrediente
de primeira necessidade para
a conserva de alimentos.
"Ele não estava morrendo
de fome na Itália. A idéia de
tentar a sorte demonstra que
tinha um temperamento in-
quieto e visionário", disse a
ISTOÉ Andrea Matarazzo,
atual secretário de Comuni-
cação Social da Presidênci a
cas registradas. Além do por-
te físico que lhe beneficiava
- era difícil não se resignar
diante de homem tão altivo -,
impunha respeito com pou-
quí ssimas palavras. Ninguém
acreditava quando dizia que
só concluiu o ensino funda-
mental. O pai morreu quan-
do ele tinha 18 anos e, sendo
o prirnogênito, abandonou os
estudos para sustentar a fa-
mília. No Brasil, encarnou a
figura do "imigrante que deu
certo", transformou-se num
mito e foi idolatrado pela co-
lônia italiana, à qual defen-
dia com unhas e dentes.
No entanto, ao desembar-
car no Rio de Janeiro, em
1881, tinha tudo para se de-
sesperar. A tonelada de ba-
nha de porco que trazia da
terra natal para comercializar
aqui afundou com a embar-
cação que levava a carga do
navio, por puro azar, pouco
ante s de aportar no Brasil.
Sem perspecti vas e com pou-
co dinheiro no bolso, a única
esperança de se manter vivo
era encontrar um velho ami-
go e conterrâneo, Fernando
Gradin o, que vivia em Soro-
ment a Nacional do Café e o
Estado de São Paulo.
Se desejássemos dar uma
pincelada ainda maior de rea-
lidade ao nosso exercício de
imaginação, poderíamos situ-
ar esta família de consumido-
res da marca Matarazzo no
Brás, bairro paulistano nasci-
do justamente para abrigar os
trabalhadores das IRFM. Ha-
via pelo menos sete mil lares
que, nos anos 20, dependiam
dos salários do industrial. Con-
siderando que cada um de seus
empregados tinha mais quatro
bocas para sustentar, chegaram
a depender de Matarazzo cer-
ca de 35 mil pessoas, nada
menos que 6% da população
da capital paulista na época.
Com quase 1,90 metro de
altura, Francesco Matarazzo
era daquel es homen s de ele-
gância nata. Ficava bem em
qualquer roupa que vestisse,
mas durant e a vida usou pou-
cas coisas que não fossem
temos impecáveis. A fisiono-
mia era típica dos homen s do
sul da Itália (nasceu em Cas-
tellabate , a 9 de março de
1854) e a cal vície e o bigode
sempre alinhado eram mar-
D
á para imaginar a cena
de uma típica família
paulistana da década de
20. Na mesa do café da ma-
nhã, a banha enlatada, o açú-
car e o presunto cozido servi-
dos pela dona de casa ao ma-
rido e à numerosa prole ti-
nham no rótulo um só emble-
ma: "IRFM - Indústrias Reu-
nidas Francesco Matarazzo."
Na prateleira da cozinha, ela
guardava amido Brilhante,
arroz Iguape, azeite para sa-
ladas Sol Levante "o prefe-
rido pela sua pureza", lixí-
via São Jorge "sem rival para
limpar cristais e panelas" e
Licor Brasil , todos produzi-
dos pelo imigrante italiano
Francesco Matarazzo. Na es-
tante do banheiro, um vidro
de água de col ônia Mimi , o
sabonete Rex "que deixa sua
pele acetinada" e ainda um
frasco de perfume Sedução.
69,55% DOS VOTOS
Onipresente Enfeitava a
cama do casal a colcha Prin-
ceza, que a dona de casa só
lavava com sabão de coco
"des tinado para tecidos fi-
nos". A família usava rou-
pas feitas com cortes da te-
cel agem Mari ângel a, uma
das 365 fábricas que forma-
vam o império das IRFM. À
noite, as velas acendidas na
casa eram da marca Progres-
so e o jantar era sucedido de
uma dose de conhaque de
gengibre Matarazzo. A oni-
presença da marca do imi-
grante no dia-a-di a dos bra-
sileiros dá bem a idéia de seu
poderio econômico. Nos
anos 30, a renda brut a do
conglomerado era a quarta
maior do Brasil. Faturavam
mais que Matarazzo apenas
a União Federal, o Departa-
, f
6
7
"Deve haver outra igual a
esta, em estado melhor, na-
quele armário ali." O funci-
onário, duvidando que o che-
fe conhecesse tanto assim os
milhões de armários de suas
fábri cas, foi conferir. E en-
controu a peça. Matarazzo ti-
nha uma só explicação para
a proe za: "Intuição." Quem
não sabe o que é dirigir um
imenso complexo industrial
e milhares de funcionários
durante quase três décadas
que duvide.
Se como administrador
era um exemplo de sociabi-
lidade - perdia tempo pro-
seando com os empregados
e tinha sempre uma história
para contar nas reuni ões de
diretoria - , como chefe de
famíli a não se pode dizer a
mesma coisa. Austero e pou-
co afável com os 13 filhos,
fazia questão de manter a or-
dem em casa. A educação vi-
nha em primei ro lugar e ai
ISTOÉ·O BRASILEIRO 00 SÉCULO- O-EMPREENDEooR
GRANDE FAM(UA Com
o filho Francisco Júnior
là esq.) e na tecelagem
com os operários -
chegou a ter 15 mil
eram de origem italiana. Ele
próprio trata va de provar a
tese. Por mais de 30 anos,
foi o primeiro a chegar, às
sete horas, e o último a sair
da fábrica, 14 horas depoi s.
"Era rígido e tinha compor-
tamento exemplar para os
funcionários. Considerava-se
o oper ário número um", diz
Andrea. Com muito sacrifí-
cio, a esposa Filomena con-
seguia impedi-lo de sai r às
cinco para pegar no batente,
argumentando que nem só de
traba lho vive o homem. Reza
a lenda que, quase octoge-
nário, numa de suas visitas
diári as às indús trias, o velho
OuVIU de um operári o a re-
clamação de que uma ferra-
menta qualquer estava inuti-
lizada. Mat arazzo resolveu:
las, pregos e outra dezena de
indústrias, que funcionavam
com a energia de uma usina
própria. Nos anos 30, abriu
filiai s em Ponta Grossa (PR),
João Pessoa, Rio de Janeiro,
Sant os e Curitiba.
Dizendo que o povo de
sua terr a possuía "i nig ual á-
veis força e capaci dade de
produção", nove entre dez
trabalhadores que contratava
da Repúbl ica e sobrinho-bis-
neto do imigrante. "Vei o obs-
tinado com a idéia de ganhar
dinheiro e estava à frente de
seu tempo." Na rabeira do su-
cesso de vendas da banha em
seu armazém, decidiu fabri-
car o produto, já que porcos
não faltavam. O método era
simples: bastava um caldei -
rão no fundo do quint al para
derreter a banha. "O segredo
está na compra e não na ven-
da", dizia o comerciante aos
amigos, com a propriedade de
quem sabia negociar no ata-
cado como ninguém. Com-
prou quase todos os porcos
da região e, além de baratear
a produção, também reven-
dia o animal. No início, en-
tregava pessoalmente os bar-
ris, que eram devolvidos e re-
postos após a utilização. Mais
tarde, veio a grande sacada:
enlatar o produt o.
8
Intuição aguçada o ne-
gócio prosperou e, em 1890,
suas pretensões já não cabiam
mais em Sorocaba. Quando
partiu para a capital pauli sta,
já tinha mandado buscar a es-
posa, os filhos e três irmãos
- Guiseppe, Luigi e Andrea
- em Castellabate. A intui-
ção aguçada de bom empre-
endedor não lhe abandonava
nunca. Quando a farinha de
trigo faltou no País, Matara-
zzo não pensou duas vezes.
Foi pedir aj uda ao London
and Brazilian Bank par a
construir um moinho, em São
Paulo, e seu faturamento cres-
ceu absurdamente. Em 1887,
a cifra chegava a 20 contos
de réis, e em 1900, possuía
2.020 contos - um crescimen-
to de 9.950% em 13 anos. Em
1920, ergueu o primeiro gran-
de parque industrial do Bra-
sil, na Agua Branca, zona oes-
te de São Paulo. Numa área
de 100 mil metros quadra-
dos, reuniu serraria, refinaria,
destilaria, frigorífico, fábrica
de carroças, de sabões, perfu-
mes, adubos e inseticidas, ve-
9
os gastos passavam dos limi-
tes. Pudera, a mansão na
Avenida Paulista estava lá,
imponente, numa área de 12
mil metros quadrados, para
quem quisesse ver. No por-
tão principal, o brasão da fa-
mília intimidava qualquer um
que passasse em frente. A
casa foi demolida nos anos
80 e parte do terreno hoje
abriga um estacionamento.
Ruína Antes dela ruíra a
maioria das indústrias do pa-
tr iarca. Os sucess ores do
Conde, o filho Franci sco Jú-
nior e a neta Maria Pia, não
suportaram a concorrência
que chegou com os anos 50.
"A falha foi não ter percebi -
do a mudança no cenário in-
dustrial. Era preciso se es-
pecializar. De que adiantava
fabricar uma imensa varie-
dade de produtos sem lide-
rar as vendas de nenhum?",
analisa Cunha Lima. Menos
mal que o Conde não viveu
para assi sti r à bancarrota.
Morreu a IOde dezembro de
1937, aos 83 anos, de uma
crise de uremia (bloqueio re-
pentino da circulação do san-
gue). Tinha o hábito de visi-
tar diariamente pelo menos
uma empre sa de seu impé-
rio. E só não con ver sava
com todos os funcionários
porque era tarefa impossível
- o exército de trabalhado-
res era formado por 15 mil
homens, em 365 fábricas,
uma para cada dia do ano.
Os operários, numa homena-
gem ao chefe, acompanha-
ram o cortej o com uma fai-
xa na lapel a onde se lia:
"Vida eterna ao Conde."
ele iria passar. A rotina era
tão metódica que alfaiates,
barbeiros, sapateiros e comer-
ciantes em geral acertavam os
ponteiros de seus relógios de
acordo com as passagens do
velho. Figura folclórica na ci-
dade, foi personagem da cé-
lebre frase "Pensa que eu sou
o Matarazzo?", resposta co-
mum que os chefes de famí-
lia davam às esposas quando
Acertando os ponteiros
Se o sangue azul não o fazia
sentir-se orgulhoso, também
não o incomodava. Homem
de poucas ostentações, sua
única veleidade era a paixão
por carros. Há quem jure que
o primeiro Ford a circular na
capital paulista foi o dele, que
parava multidões quando cir-
culava. Mas não surpreendia
ninguém, porque o rigor dos
horários do Conde fazia com
que os populares soubessem
exatamente quando e onde
xão pela Itália que recebeu o
título de Conde." Durante a
Primeira Guerra Mundial, o
industrial mudou-se para o
país de origem, onde foi aju-
dar no abastecimento das ci-
dades mais atingidas. Pelos
serviços prestados à nação,
recebeu o título, embora a fa-
mília, cuj a tradição remonta
ao século XII, carregue a no-
breza no sangue.
de quem ousasse desobede-
cer o patriarca.
Mas o carisma não se dei-
xava ofuscar pela eterna bra-
veza. Símbolo da elite indus-
triai paulista, Matarazzo lide-
rou os empresários das pri-
meiras décadas deste século.
Em 1928, fundou o Centro
das Indústrias do Estado de
São Paulo (Ciesp), do qual
foi o primeiro presidente. No
entanto, nunca concorreu a
cargos eletivos - detestava
discursar. Nas poucas vezes
em que falou em público, o
fez em italiano, mesmo por-
que nunca quis dominar o
nosso idioma. A ligação com
a Itália era muito maior do
que a língua. "Ele teve dois
amores na vida: a pátria onde
nasceu e as Indústrias Mata-
razzo", disse a ISTOÉ Jorge
da Cunha Lima, presidente da
Fundação Padre nchieta e
autor do livro Matarazza 100
anos. iEo' por causa da pai-
COMEÇO Inaugurando o Bradesco, em 1943, em Marília (último à esq.)
Amador Aguiar
VIDA DURA Pose
aos 12 anos de
idade, em
Sertãozinho,
quando largou a
escola para pegar
a enxada na roça
desco. No dia da inaugura-
ção, a morte repentina do
sócio escolhid o para dirigir
o novo negóci o fez de
Amador Aguiar o diretor-
presidente. Além de plenos
poderes, foi agraciado com
um terço das ações do ban-
co, que , por sinal, naquele
momento, nada valiam. O
Bradesco era tão insignifi-
cante que o próprio Aguiar
fazia piada da sigla da ins-
tituição nascente. "Banco
Brasileiro dos Dez Contos,
se há?", alguém pergunta-
va, e ele respondia às gar-
galhadas: "Não há !"
Em 1946, ele transferiu a
sede do banco de Marília
para a rua 15 de Novembro,
no centro de São Paulo - sete
anos depois, a administração
do Bradesco seria instalada
em Osasco, na Grande São
Paulo, de onde nunca mais
saiu. "Foi o pioneiro em se-
parar a administração das
agências", disse a ISTOÉ
Lázaro Brandão, sucessor de
Aguiar e presidente do Bra-
desco até pouco tempo atrás
- atualmente , preside o Con-
selho de Admini stração. Se-
gundo Brandão, a idéia de .
Aguiar era afastar os altos
executivos do Bradesco dos
problemas corriqueiros das
agências. Com isso, sobra-
SOo Dois anos depois, numa
carreira fulminante, ele já
ocupava o cargo de gerente .
Mais do que à ambição, ele
atribuía o êxito a um deta-
lhe aparentemente secundá-
rio. "Todo o meu sucesso
profi ssi onal eu atribuo à
asma. Eu não dormia à noite
e, por isso, lia tudo sobre as
atividades bancárias. Assim,
superei muitos funcionário s
mais letrados do que eu."
Dez contos Em 1943, o
projeto de virar banqueiro
começou a se concretizar
quando, com amigos, ad-
quiriu a Casa Bancária Al-
meida, um banco falido de
Marília (SP). A instituição
ganhou de imediato um
novo nome : Banco Brasi-
leiro de Descontos, o Bra-
(SP), Amador Aguiar ainda
estava sem rumo em Bebe-
douro quando entrou num
restaurante. O dono olhou
para o rapazote de mãos ca-
lej adas e perguntou se ele
queria comer alguma coisa.
"Não, primeiro eu quero tra-
balhar e só depois vou acei-
tar o prato de comida", dis-
se Aguiar. Não demorou
para que ele encontrasse em-
prego numa tipografia, na
qual perdeu o dedo indica-
dor da mão direita numa má-
quina de impressão.
Em 1926, aos 22 anos,
Aguiar era office-boy na fi-
lial de Birigui (SP) do Ban-
co Noroeste do Estado de
São Paulo. Foi nessa época
que começou a acalentar a
idéia de subir na vida e, al-
gum dia, tornar-se podero-
VOCÊ S 81 ? Num hotel em Manaus,
esqueceram de colocar toalhas no quarto.
Não quis incomodar acamareira ese
e I go com acamisa. No restaurante, o
garçom não oreconheceu epediu para ele
mudar de mesa. "Ele está só fazendo oseu
trabalho", aceitou Aguiar sem recla a
58,22% DOS VOTOS
O
fundador do Bradesco,
o maior banco priva-
do da América Latina,
com patrimônio líquido de
R$ 6 bilhões e 67 mil fun-
cionários, dormiu um dia
num banco de praça . Tinha
16 anos e acabara de fugir
da fazenda de café onde
empunhava a enxada, em
Sert ãozinh o (SP). Quatro
anos antes, quando cursava
o quar to ano primário, o
pai, o lavrador João Antô-
nio Aguiar, que tinha 13 fi-
lhos, o tirara da escola para
que ele o ajudasse na plan-
tação. Aos 16 anos, ele es-
capuliu (revoltado com o
comportame nto do pai, que
beb ia demai s e era t ido
como mulherengo) e pegou
no sono, ao relento, naque-
le banco de praça em Be-
bedouro (SP). De madruga-
da, foi acordado por um
mendigo, que lhe pedi u um
troca do. Aguiar revirou os
bolsos e só achou uma moe-
da. "Então, ele pensou: pa-
rece mentira, mas existe gen-
te que tem menos do que
eu", contou a ISTOÉ a neta
Denise Aguiar.
Nascido a II de fevereiro
de 1904, em Ribeirão Preto
10
ISTOÉ .O BRASILEIRO 00 SÉCULO. I O.EMPREENDEooR
CONTINUIDADE
O fundador (acima,
à dir. ) com Lázaro
Brandão, que o
sucedeu no comando
do maior banco
da América Latina
ria tempo para eles se dedi-
carem aos grandes negócios.
Outra inovação: o Bradesco
foi o primeiro banco a acei-
tar o pagamento das contas
de luz. "Com sua visão agu-
çada, ele fez com que o Bra-
desco se transformasse, já
em 1959, no maior banco
privado da América Latina,
posição que nunca mais per-
deu", disse Brandão. Na fa-
chada do prédio do Brades-
co em Osasco ainda hoje se
lê a frase que sempre inspi-
rou Aguiar: "Só o trabalho
pode produzir riquezas. "
Em seu caso, gerou uma
fortuna pessoal avaliada em
US$ 860 milhões. Mas
Aguiar - que teve três filhas
e 13 netos - foi um homem
de hábitos simples até o fim
da vida. Fazia questão de di-
rigir seu próprio carro, um
Fusca. A maior diversão era
cortar lenha em uma das fa-
zendas espalhadas pelo País.
Gostava de dormir em rede
e, curiosamente, nunca usou
talão de cheques. Tampouco
guardava dinheiro no bolso.
Afastou-se da administração
do Bradesco, em 1990, e
morreu a 24 de janeiro de
1991 de parada cardíaca. Fi-
cou a lenda de uma das mais
bem-sucedidas carreiras de
self made man do País.
ISTOÉ.o BRASILEIRO DOSÉCULO- lO-EMPREENDEDOR
11
(
) f
O
ímpeto guerreiro, que o
fez construir um dos
maiores impérios in-
dustriais do País, associado
à fabricação de cimento, alu-
mínio, ferro, aço e zinco, se
forjou na vida de provações
do menino nascido no solo
seco do sertão pernambuca-
no. José Ermírio de Moraes,
que desembarcou neste mun-
do a 21 de janeiro de 1890,
pertencia a uma típica famí-
lia da aristocracia rural do
Nordeste. O pai , Ermírio
Barroso de Moraes , era um
senhor de engenho já deca-
dente ao morrer - o garoto
tinha apenas dois anos de
idade. A mãe, Francisca Je-
suína Pessoa de Albuquer-
que, ou dona Chiquinha,
como todos a chamavam,
passou a administrar os ne-
gócios familiares na peque-
na Nazaré da Mata, a 60 qui-
lômetros do Recife.
Ladrões de cavalo Além
de espantar os cangaceiros
que tentavam roubar os ca-
valos, dona Chiquinha esme-
rava-se em viabilizar o so-
nho do falecido esposo, que
desejava dotar o único filho
homem sobrevivente na fa-
mília de sólida formação in-
telectual e técnica . Não que-
ria ver o moço enredado no
bacharelismo em voga na
época. Aos 16 anos, José
Ermírio embarcou para os
Estados Unidos para for-
mar-se engenheiro de minas
na Colorado School of Mi-
nes. "Cresci ouvindo meu
pai elogiar a coragem de
vovó Chiquinha", disse a
ISTOÉ o filho e também
empresário, Antonio Ermí-
rio de Moraes.
Alguns meses após a par-
tida, José Ermírio tratou de
enviar uma carta para dona
Chiquinha. Estava di spen-
sando a mesada porque ha-
via conseguido um trabalho
fora do horário das aulas. Lá,
pegou no cabo da pá nas mi-
nas de chumbo para se sus-
tentar. Quando retornou ao
Brasil , em 1921, tornou-se
um profissional disputado a
peso de ouro e foi contrata-
do pela Secretaria da Agri-
cultura de Minas Geais para
percorrer em lombo de mula
todo o Estado, com a incum-
bência de mapear as rique-
zas minerai s da região . De-
sistiu de ser funcionário pú-
blico porque ficou sem re-
ceber salário - os cofres pú-
blicos estavam raspado s.
Em 1924, conheceu a
VOCÊ SABIA? Amie
tinha sonhos de
premonição. Num
deles, recebeu o
aviso da morte de
um dos filhos,
Ermírlo. Omarido
morto apareceu
edisse: "O José
12
ISTOÉ·O BRASILEIRO DOSÉCULO.IO.EMPREENDEDOR
do da Votorantim para con-
correr a uma vaga de sena-
dor pelo PTB de Pernambu-
co. Teve a campanha boico-
tada, mas conseguiu eleger-
se. Os tecidos das faixas usa-
das para sua propaganda
eleitoral eram de alta quali-
dade e, por isso, a popula-
ção carente passou a roubá-
las para a confecção de rou-
pas. Em 1963, foi nomeado
ministro da Agricultura do
presidente João Goulart, car-
go que ocupou durante ape-
nas cinco meses. Veio o gol-
pe militar, em 1964, e o in-
dustrial foi atacado por suas
posições tidas como exces-
sivamente progressi stas,
como a defesa da reforma
agrária. No término de seu
mandato de senador, em
1971, retomou ao comando
do grupo Votorantim.
Sem favorecimentos A
esta altura, um médico par-
ticular o acompanhava para
todos os lugares - estava
com a saúde debilitada em
virtude de um derrame cere-
bral - e tratou de preparar
os filhos José Ermírio, An-
tonio Ermírio, Maria Helena
e Ermírio para passar o co-
mando do império, hoje for-
mado por 46 empresas. Mor-
reu de isquemia cerebral a 9
de agosto de 1973. Num dis-
curso no Senado, afirmou:
"Como jamais pedi favores
ou privilégios, tenho provo-
cado a ira dos pobres-diabos
que não acreditam se possa
vencer sem negócios fáceis
ou favorecimentos. Minha
vida tem sido de trabalho,
trabalho e mais trabalho."
OBSTINAÇAO
José Ermlrlo
....pou,
H.IeIUl, .m
porbt·retrlltos -
....... fllhádo
portu.....
Ant6n1o P.relr.
IpjcIo, dono
d8 m.lor
tec:eIq.m do
P".",
de 20,
.m
CSP). Ao
.uumlr os
n..6cIosdo
S08fO, José
Ermlrlo criou
umv.to
Império
Industrl8l.
Ao '-do, os
primórdiosdo
con8lomer8do,
que .b8rc8r18
merc8dos como
os do clm.nto,
"umlnlo, IIÇO
• de tecidos
nhia Nitroquímica. Mas o
grande salto aconteceu em
1938, quando criou a Usina
Siderúrgica da Barra Man-
sa. O industrial pernambu-
cano acreditava, por pura in-
tuição, que o alumínio - até
então importado - seria o
metal do futuro. No início
dos anos 50, abriu a Com-
panhia Brasileira de Alumí-
nio (CBA) para suprir a de-
manda no mercado brasilei-
ro, com pleno êxito.
Em 1962, José Ermírio
decidiu se afastar do coman-
em São Paulo, em 1925. No
mesmo ano, José Ermírio as-
sumia a diretoria dos negó-
cios do sogro e transformou
a tecelagem num conglome-
rado de empresas com ten-
táculos em vários segmentos
de mercado. Em 1933, ini-
ciou sua audaciosa estraté-
gia para expandir os negó-
cios da empresa. Abriu uma
indústria de cimento, cuja
produção inicial foi destina-
da à construção do Viaduto
do Chá, em São Paulo. Em
1935, ele fundou a Compa-
paulistana Helena e seu pai,
o industrial português Antô-
nio Pereira Ignácio, dono do
maior complexo industrial de
tecelagem do País na época,
em Sorocaba (SP), a Socie-
dade Anônima Fábrica Vo-
torantim. Quando o portu-
guês pôs os olhos naquele ra-
paz elegante e cheio de boas
maneiras, sentiu instatânea
afinidade. José Ermírio era
o estereótipo do genro e só-
cio que todo pai procura. O
casamento foi celebrado no
sofisticado Hotel Esplanada,
éseu, mas oErmírlo
émeu." Aprevldo
se confirmou e,
quando José se
crismou, amie
agregou-lhe onome
do irmlo morto. Ele
passou ase chamar
José Ermírlo
ISTOÉ.O BRASILEIRO DOSÉCULO. IO.EMPREENDEDOR
13
AbUio Diniz
VOCÊ SABIA? Às quartas-feiras de manhã,
os funcionários estão sempre preparados
para suas visitas-surpresa. Abílio verifica
os preços, observa,o atendimento eserve
cafezinho para as senhoras que esperam
na fila da carne. Mas fica uma fera se
encontra algum caixa sem atendente
anos em Administração de
Empresa s pel a Fundação
Getúlio Vargas. Fazia pla-
nos de seguir carreira aca-
dêmica - cursou pós-gradu-
ação na Michigan State Uni-
versity -, mas a missão de
aj udar na direção da empre-
sa falou mais alto. Come-
çou como gerente de ven-
das, quando o Pão de Açú-
car era uma locomotiva que
se expandia a todo vapor.
Os supermercados ganhá-
vam os clientes dos antigos
açougues e mercearias de
bairro. Com Abílio à fren-
te do negócio, o grupo tor-
nou- se um dos maiores
conglomerados do Brasil e
abriu filiais em Portugal.
O inferno astral veio no"
final dos anos 80. Primogê-
nito de seis herdeiros, Abí-
lio só se tomou sócio majo-
ritário da empresa após uma
série de desavenças familia-
res. O assunto se resolveu
co m a redistribuição das
ações - Abílio ficou com
51%, seu pai com 41% e sua
irmã Lucília com 8%. Mas
aí vieram os planos econô-
mi co s congelando preços
qu e col ocaram o Pão de
Açúcar à beira da insolvên-
cia, sem dinheiro sequer
para pagar os fornecedores.
Para completar, em dezem-
bro de 1989, Abílio foi se-
questrado em São Paulo e
libertado depois de 153 ho-
ras no cativeiro.
340 lojas e fatura R$ 5,47
bilhões por ano. "Chegamos
até aqui com trabalho e hu-
mild ade, mas agradeço pri -
meirament e a Deus", disse
a ISTOÉ es te devot o de
Sant a Rita de Cássia.
Inferno astral Pauli stano
nascido a 28 de dezembro de
1939, Abílio cresceu entre os
fregueses da confeitaria do
pai e as barras de ferro da
academia onde começou a
praticar capoeira e levanta-
mento de peso. Dividindo-
se entre o estudo e o espor-
te, o esbelto rapaz de 1,80 m
de altura formou-se aos 20
54,43% DOS VOTOS
unidades da rede haviam
sido fechadas e mais de 30
mil funcionários, demi tidos.
Parecia não restar alternati-
va senão esperar o grupo de-
finhar até morrer. Abílio não
se conformou. Vendeu imó-
veis, tomou empréstimos e
anunciou a venda dos car-
ros cedidos aos gerentes e
diret ores. Depoi s, extinguiu
braços do Pão de Açúcar,
co mo os supe rmercados
Jumbo e Minibox, contami-
nados pela imagem de ca-
reiros. A tacada final foi se-
duzir as donas de casa com
promoções irresistíveis. Deu
certo. Hoj e, o grupo tem
A
história do Grupo Pão
de Açúcar pode ser di-
vidida em duas partes.
A primeira remete a 1929,
quando Valentim, o patriar-
ca dos Diniz, hoje octoge-
nário, embarcou num navio
com o sonho de começar
vida nova na América. O
imigrante português acabara
de cruzar o Atlântico e en-
cantou- se com a beleza de
um maciço de pedra no ho-
rizonte. "É o Pão de Açú-
car", avisou um passageiro.
A partir de uma discreta pa-
daria , o jovem lusitano er-
gueu, em 1948, um estabe-
lecimento que se tomou pon-
to de encontro das madames
paulistanas na época: a do-
ceira Pão de Açúcar. Dez
anos depoi s, foi aberto o pri-
meiro supermercado. Logo
seriam dezenas espalhados
País afora. A segunda parte
da história da empresa tem
como marco a recupe ração
do abismo em que ela se en-
contrava no final dos anos
80. É aí que entra o ímpeto
empresarial de Abílio dos
Santos Diniz . Quatrocentas
,
J
14
ISTOÉ-oBRASILEIRO DOSÉCULO- lO-EMPREENDEDOR
ISTOÉ.O BRASILEIRO00 SÉCULO. IO·EMPREENDEooR
Os tempos de vacas ma-
gras fazem parte do passa-
do. Nos últimos anos, o Gru-
po Pão de Açúcar incorpo-
rou alguns de seus principais
concorrentes - Paes Men-
donça, Extra, Peralta e Ba-
rateiro. "Nosso desafio ago-
ra é penetrar na periferia
com as marcas que adquiri-
mos", anuncia Abílio. A saú-
de do grupo se estende aos
funcionários. Abílio se dá ao
luxo de manter uma acade-
mia de ginástica para qual-
quer empregado disposto a
malhar. Pelo menos 800
usam e abusam da regalia.
"Quem faz esporte aprende
a lidar com a competição no
trabalho", afirma.
Goleiro Na verdade, ele
mesmo irradia bons hábi-
tos. Acorda às cinco hora s
da manhã para correr dez
quilômetros. Evita almoços
de negócios, pois reserva o
horário para nadar ou fa-
zer musculação. A jornada
esporti va é complementada
pelo jogo de squash no fi-
nal da tarde . "Fui goleiro
no clube dos advogados de
São Paulo e, se quisesse,
poderia ter virado profis-
sional", jura Abílio. A jul-
gar pela quantidade de tro-
féus e medalhas em sua
sala de trabalho (ele já pra-
ticou halterofilismo, moto-
  e triatlo, entre ou-
tras modalid ades) não se
trata de nenhum exagero.
Aos 59 anos, está ca-
sado pela segunda
vez e tem quatro fi-
lhos. Os dois mai s
novo s não que-
rem saber de
en vol vimento
nos negócio s.
Adri ana man-
tém di stânci a
da empresa e
Pedro Paul o
. ,
conti nua ga-
nhando seu es-
paço nas pista s
da Fórmul a 1.
" Fi co nervo so
quando acontece
algum acidente,
mas garanto que
nunca vou pedir
para ele parar de
correr." Já os fi-
lhos mai s velhos,
Ana Maria e João
Paulo, contribuíram
decisi vamente na re-
construção do Grupo
Pão Açúcar. Ele s cos-
tumam participar das
tradicionais reuniões que
Abílio faz com cerca de
40 diretores todas às se-
gundas-feiras de manhã
na sede em São Paulo. Es-
tampada na parede, uma
frase do dramaturgo fran-
cês Jean Cocteau dá uma
pista do espírito empreen-
dedor do patrão: "Não sa-
bendo que era impossível ,
ele foi lá e fez."
CORRIGINDO A
ROTA Apaixonado
pelas pistas,
Abllio ganhou
as Mil Milhas
de Interlagos ,
em 1970 (à esq. I ]
depois de
reerguer o Pão
de Açúcar
fechando alguns
de seus braços,
como o Jumbo
(centro), ele
recebeu dos pais
(ao lado) as ações
que o fizeram
dono do grupo
Antonio Ermírio de Moraes
49,89% DOS VOTOS (jf)
U
ma lição Ant onio Er-
míri o j amai s esque-
ceu. "Era garoto quan-
do ameacei matar uma an-
dorinha. Meu pai tinha um
vizinho alemão, robusto e
defensor da natureza, que
tomou o estilingue da mi-
nha mão. Nunca mais pen-
sei em matar uma mosca se-
quer", contou ele a ISTOÉ.
Sort e de poucos, um impé-
rio j á o esperava quando
nasceu, a 4 de j unho de
1928, em São Paul o. Alfa-
betizado no tradici onal co-
légio Rio Branco, decidiu
seguir a trilha do pai, José
Ermíri o de Moraes. Em
1945, partiu para o Colora-
do, nos EUA, para se for-
mar engenheiro metalúrgi-
co na mesma faculdade do
patri arca, a Colorado Scho-
01of Mines. "No dia da mi-
nha viagem chovia muito .
Os passage iros estavam
com os pés lambuzados de
lama e o avião decolou com
o chão forr ado de jornal."
Da temp orada americana,
ele se lembra com nostal-
gia. "No Nat al fui convi-
dado para jantar na casa do
profe ssor que eu mais gos-
tava. Isso foi a maior hon-
raria que j á recebi na vida."
Apelidado de Tony pel os
colegas americanos, viveu
quatro anos num quarto de
16
ISTOÉ.O BRASILEIRO00 SÉCULO.1O· EMPREENDEOOR
VOCÊ SABIA? Tomou banho num hotel
de beira de estrada em Juazeiro (BA).
O"chuveiro" era uma lata com furos por
onde escorria aágua eochão limboso
exigia que ele usasse meias. Ao desligar
o"chuveiro", cortou amão. Sem hospital
por perto, um senhor costurou oferimento
com linha eagulha. "Ficou uma perfeição"
pensão ao preço de US$ 10
ao mês. Para economizar,
comeu muito sanduíche.
Certo dia, um amigo veio
correndo lhe contar que ele
havia tirado a maior nota
da turma, 97. No único dia
em que provou uísque na
vida, o empresário desco-
briu que havia nascido com
um rim só. Foi socorrido no
hospital americano e saiu de
lá com a seguinte recomen-
dação: beber muita água.
O retorno ao Brasil , em
1949, não foi tão amisto-
so como ele esperava. As-
ARTE E POLITICA Na
década de 80, ao lado de
Ruth Escobar, Bruna
Lombardi e Fernando
Henrique Cardoso, então
senador (acima); ao lado,
trocando o sapato em meio
à campanha para o governo
de São Paulo, em 1986,
quando era o candidato do
PTB e foi derrotado por
Orestes Quércia, do PMDB
sim que o pai pôs os olhos
no filho em casa, alertou:
"Há muito trabalho pela
frente. Vou lhe dar um sa-
lário e fazer uma expe-
riênci a com você . Se não
der certo, não vou lhe con-
tratar." No mesmo dia An-
toni o Ermírio encarou seu
primeiro di a de trabalho
numa das fábri cas do gru-
po Vot orantim.
Bastaram seis anos para
ele anunciar sua primeir a
vitória, a fundação de sua
própri a firma, a Companhia
Brasileira de Alumínio, em
1955. Em 1962, Antonio
Ermínio assumiu todas as
empresas e o grupo não pa-
rou de crescer. Inaugurou
fábricas de ci mento, zinco
e níquel. Sem reclamar, ele
diz que desde que pisou na
Votorantim não tira fér ias.
"Mas minhas viagens de
t rab alho tê m sa bo r de
aventura." Nos anos 70, es-
tava no Ceará em busca de
jazidas de cobre. A ausên-
cia de restaurantes o obri-
gou a passar 15 dias co-
mendo fruta-de-conde.
Terno surrado Em 1986,
abocanhou I, I milhão de
eleitores concorrendo ao go-
verno do Estado de São Pau-
lo pelo PTB - perdeu para
Orestes Quércia. "Meu pai
dizia que política é suja para
um homem de empresa e eu
o desobedeci", disse o em-
presário, que se desculpou
ajoelhado ao túmulo do pai.
Há dez anos investe no tea-
tro. Brasil S/A, peça de sua
autoria que estreou em 1996,
foi escrita quando ele viaja-
va para Londres, nas 18 ho-
ras do voo. Pediu alguns guar-
danapos de papel e em cima
do cardápio escreveu a peça
que já estava em sua mente
há tempos. "Para escolher o
nome de umdos personagens,
abri o cardápio. A primeira
palavra que li foi camarão. É
isso, o meu personagem se
chama Camarão!"
Casado com Maria Regina
e pai de nove filhos, é um
homem de hábitos simples.
Costuma ouvir atento os pe-
didos de emprego que recebe
ao ser reconhecido nas ruas.
Dispensa seguranças, não usa
carro blindado e - dizem as
más-línguas - veste sempre o
mesmo temo surrado. Nem
aparenta o empresário que,
em 1996, foi apontado pela
revi sta americana Forbes
como um dos mais ricos do
mundo, com uma fortuna es-
timada em US$ 5 bilhões.
ISTOÉ ·0 BRASILEIRO DO SÉCULO. IO.EMPREENDEDOR
17
VOCÊ SABIA? Deu um tapa com luva de
pelica num passageiro cara-de-pau que
surrupiara uma garrafa de uísque no avião.
"Vou levar para casa. Foi omelhor que já
Até conquistar o céu, en-
frento u dificuldades. Uma
delas foi a descoberta de
um tumor na garganta, em
1992, extirpado em três ci-
rurgias nos Estados Unidos.
A segunda o deixou depri-
mido por qua se um ano .
Em 1996, a queda de um
das. "As mulas eram droga-
das e tinham as patas amar-
radas. Depois entravam na
aeronave e ficavam com me-
tade do corpo para fora. Se
durante o vôo alguma delas
acordava, tinha que jogá-la.
Era a mula ou o avião." Para
engrossar o orçamento, ven-
dia roupas e radinhos de pi-
lha num armazém em São
José do Xingu (região do
Araguaia), de onde coman-
dava a empresinha que mon-
tara. "Em dois anos comprei
dez monomotores, mas de-
sisti quando tive a sétima cri-
se de malária. Já perguntava
aos passageiros qual das
duas pistas que eu enxerga-
va era a verdadeira."
O empresário Rolim deco-
lou em 1972, ao adquirir me-
tade das ações da TAM -
compraria a outra metade
quatro anos depois. Entrou na
onda de um mercado em
franca expansão, mas nin-
guém duvida que foi o olho
do dono que fez o boi engor-
dar. Dirige uma companhia
aérea que fatura R$ 800 mi-
lhões por ano e faz 550 pou-
sos e decolagens diários.
me para piloto privado, o ae-
roclube inventou uma taxa
de dez cruzeiros. Sem um
tostão, ele viajou 200 quilô-
metros de trem e de carona
para recorrer a outro tio, fa-
zendeiro no interior pauli s-
ta. Teve que dar meia-volta.
"O sonho de sua mãe era vê-
lo como balconista das Ca-
sas Pernambucanas e você
desistiu. Preferiu ir atrás da
aviação, coisa de vagabun-
do e louco. Vá trabalhar."
Tomou, enfim, o dinhei-
ro emprestado de um ami-
go, o que permitiu ao co-
mandante trabalhar na TAM
(Táxi Aéreo Marília) e na
Vasp, até receber uma pro-
posta tentadora, em 1966.
."Fui para a Amazônia ser pi-
loto particular. Em troca, re-
cebi financiamento para a
compra do meu primeiro
Ces sna" , lembra. De um
pouso emergencial numa es-
trada em Minas ao transpor-
te de uma tribo de xavantes
para um lugar perdido na sel-
va, Rolim realizou uma sé-
rie de façanhas. Na falta de
estradas, até os animais eram
levados de avião às fazen-
"Coisade vagabundo"o
carregado sotaque caipira re-
mete à tranquilidade de Pe-
reira Barreto, cidade do oes-
te paulista onde ele nasceu a
15 de setembro de 1942. Aos
seis anos, Rolim j á ganhava
os ares no colo do tio, dono
de um monomotor. Menos
afeito a peripéci as, o pai to-
cava a vida com o armazém
de secos e molhados em São
José do Rio Preto, para onde
se mudara. O rapazote aban-
donou a escola na sétima sé-
rie para aj udar nas despesas
de casa . Foi assistente de
mecânico, aprendiz de escre-
vente em cartório e entrega-
dor de sanduíches, mas o ví-
rus da aviação estava no or-
ganismo. A lambreta com-
prada com o salário mingua-
do serviu para pagar o curso
de piloto, que ele concluiu
aos 18 anos. Se o primeiro
brevê Rolim nunca esquece,
o segundo quase não saiu.
Às vésperas de fazer o exa-
O
crachá na lapela do pa-
letó indica, em letras
grandes e na foto bem
visível, quem está chegando.
Fala alto e desliza as mãos
sobre os cabelos alinhados,
que escondem um arrepen-
dimento. "Certa vez, alguém
gozou a minha calva na pra-
ça da República, no centro
de São Paulo. Arrisquei um
implante capilar, mas a ci-
rurgia doeu demais. Foi uma
bobagem" , di sse ele a
ISTOÉ. No melhor estilo in-
teriorano, que confessa ado-
rar, Rolim Adolfo Amaro -
ou simplesmente o coman-
dante Rolim - vai narrando
seus causos, uma infindável
sucessão de aventuras.
18
ISTOÉ.O BRASILEIRODOSÉCULO.IO. EMPREENDEDOR
bebi." Holim enviou-lhe uma carta junto
com meia dúzia de garrafas da bebida:
"Isto é para osenhor tomar antes de cada
viagem conosco. Grato pela preferência."
Fokker-IOO que fazia a
ponte Rio- São Paulo cau-
sou a morte de 99 pes soas.
Nove meses depoi s, outro
passageiro morreu quando
uma bomba explodiu no
avião que fazia o trajeto
São José dos Campos-São
Paulo (um professor é o
principal suspeito do supos-
to atentado).
Em todos os momentos,
Rolim encontra o amparo de
Noemi , sua esposa há 34
anos. O caçula dos três fi-
lhos, Marcos, 15anos, é fru-
to de um romance furti vo.
"Todo homem está suj eito a
um acidente de percurso,
mas eu seria um calhorda se
não assumi sse o menino." A
família não desfruta de mui-
to tempo para vê-lo. Ger al-
mente , o comandante chega
em casa só às dez da noite ,
toma uma sopa de aveia e
vai para a cama. Nas rarfs-
simas horas vagas, compõe
modas de viola, gravadas,
entre outros, por Fafá de
Belém. "Não gosta de ba-
dalações, mas não resiste a
um convite para andar de
moto", contou a ISTOÉ o
amigo Luciano do Valle. AÍ
INCANSÁVEL Às seis da
manhã está recebendo os
passageiros: "Se descanso
um pouco no avião, eles me
perguntam se já enriqueci"
o locutor esportivo pegou
em seu ponto fraco . Dono
de 13 maquinões de duas ro-
das, Rolim às vezes vai ro-
dando à fazenda em Ponta
Porã (MS) e se atreveu até
a cruzar a Cordilheira dos
Ande s em cima de uma mo-
tocicleta. Para quem desde
os seis anos de idade vive
nas nuvens, isso é brinca-
deira de criança.
ISTOÉ ·0 BRASILEIRO 00 SÉCULO-IO-EMPREENDEooRES
19
Sebastião Camargo
37,56% DOS VOTOS CD
S
ebastião Camargo, o
fundador da construto-
ra Camargo Corrêa, vi-
veu umbilicalmente ligado à
terra e preservou os cost u-
mes sertanejos . Sempre com
um cachimbo na boca, reser-
vava os fins de semana para
se atirar no mato. Não era
raro ele se aventurar em ca-
çadas no Mato Grosso. Po-
dia-se medir a paixão obser-
vando a coleção particular de
animais empa lhados na fa-
zenda em Jaú (SP), cidade
em que nasceu a 25 de se-
tembro de 1909. Pelo menos
uma vez por ano embrenha-
va-se em alguma selva afri-
cana. Tudo mudou radical-
mente em 1988, quando o
caçador quase virou caça. Ao
deparar com um leão, ele mi-
rou a fera e errou o alvo. O
felino correu em direção ao
empresá rio e, não fosse a
providencial ajuda do guia,
que liquidou o animal famin-
to com um tiro certeiro, a
diversão teria terminado em
tragéd ia. "E le dedi cou- se
ainda à criação de j avalis,
patos, gado e cavalos", dis-
se a ISTOÉ o amigo e ex-
funcionário João Mattos.
Sebastião Ferraz de Ca-
margo Penteado era filho de
agricultores e estudou só até
o terceiro ano primário. Aos
17anos, aprendeu a transpor-
tar terra retirada de constru-
ções usando uma carroça pu-
xada por um burro. Tomou
gos to pelo negócio e, em
1939, comprou duas carroças.
Com a pá em punho e as ré-
deas nas mãos, Camargo aju-
dou a construir as estradas
que se multiplicavam pelo in-
terior de São Paulo na época.
Logo aprendeu a técnica
da terraplenagem e se trans-
formou num modesto em-
preiteiro. Quando conheceu
o advogado Sylvio Corrêa,
ainda em 1939, abriu com
ele uma pequena construto-
ra, a Camargo Corrêa & Cia
Ltda. Engenheiros e Cons-
trutores, com um capital de
200 contos de réis. Como
eles nada entendiam de en-
genharia, a palavra "enge-
nheiros" foi usada para sali-
20
ISTOÉ . O BRASILEIRO DO SÉCULO· IO.EMPREENDEDOR
para as obra s da ponte Rio-
Niterói e tirou o segundo
lugar. Até parece que ro-
gou uma praga. Morte de
pedreiros e desmoronamen-
tos em meio à construção
da ponte obrigaram o pre-
sidente Emílio Garrastazu
Médici a pedir ao audacio-
so empreiteiro que assumi s-
se a obra. "Pois não, senhor
presidente, mas vou fazer
do meu jeito. Vou começar
derrubando tudo e partir do
zero", respondeu Camargo.
Bilionário A empresa foi
responsável por mais de mil
obras (incluindo as rodovias
Imigrantes e Bandeirantes, o
gasoduto Brasil-Bolívia,
além da usina nuclear de An-
gra I e as hidrelétricas de
Ilha Solteira, Itaipu e Tucu-
ruí). A partir dos anos 90,
Camargo passou a fazer par-
te da lista de bilionários da
revista Forbes e sua fortu-
na pessoal foi avaliada em
US$ 1,3 bilhão. Era casado
e tinha três filhas e II ne-
tos. O controle da holding
Morro Vermelho, que
abrangia 34 empresas dos
mai s variados setores, inclu-
indo agricultura, siderurgia,
têxtil, alumínio e transpor-
te, passou para os genros
logo após sua morte por in-
suficiência respiratória, a 26
de agosto de 1994.
queria proporcionar trabalho
a seus conterrâneos. Conse-
guiu mai s do que isso -
transformou a empresa numa
grande produtora de tecidos.
Nos anos 50, a constru-
ção de Brasília era o sonho
maior do empreiteiro. Ao
participar da licitação, ou-
viu de um assessor do pre-
sidente Ju scelino Kubit s-
chek que a Camargo Cor-
rêa não tinha máquinas em
número suficiente para en-
carar as obras da nova ca-
pital. "Pois então me dê três
dias e eu provo que o se-
nhor está eng anado", res-
pondeu, contrariado. Quan-
do o prazo expirou, o em-
presári o desfil ou pelo cer -
rado com mai s de 100 tra-
tores vindos de seus cantei-
ros de São Paulo, Rio de
Janeiro e Goiá s. Resultado:
coube à Camargo Corrêa a
abertura de várias estradas
que possibilitaram o acesso
à capital federal. Em 1960,
JK sugeriu que Camargo
constru ísse um moinho de
trigo para abastecer Brasí-
lia. Preocupado com o ri-
gor técnico que a tarefa exi-
gia, ele tratou de "impor-
tar" um especialista em mo-
inho da Suíça para garantir
a qualidade do serviço. Ba-
tizou-o de Moinho de Tri-
go Jauense. Em 1962, quan-
do a empreiteira construiu
a hidrelétrica Usina de Ju-
piá, no rio Paraná, uma das
maiores do Brasil , concluí-
da em 1968, a imponência
da obra obrigou que uma ci-
dade fosse construída ao
seu redor para alojar os 12
mil funcionári os.
Nos anos 70, a con stru-
tora entrou na licitação
admitia homem barbudo, ca-
beludo ou desquitado na fir-
ma. Certa vez, um engenhei-
ro que não fizera a barba,
sem saber da implicância do
seu Bastião, candidatou- se a
uma vaga na construtora e foi
reprovado. Inconformado,
procurou um psicólogo para
entender a importância da
barba num processo de sele-
ção. Em Jaú, Camargo fun-
dou a tecelagem Companhi a
Jauense Indu strial porque
entar que os empreendedo-
re s estavam di spostos a
qualquer empreitada. E tra-
balho não faltava. Em 1940,
Camargo adquiriu um tra-
tor, o que significou grande
vantagem tecnológica em re-
lação à concorrência. Os
contratos se avolumaram. O
astuto "Bastião", como era
chamado pelos mais ínti-
mos, ou "China ", para a
maioria, devido aos traços
orientai s de seus olhos , não
VOCÊ SABIA? Na construção de Itaipu, quase provocou um atrito diplomático. ACamargo
Corrêa não havia sido aceita para aobra do lado brasileiro. Oditador paraguaio Alfredo
Stroessner, amigo de pescaria do construtor, protestou: "Onde está Don Sebastián?"
Ameaçou melar onegócio, obrigando ogoverno brasileiro acontratar aCamargo Corrêa
ISTOÉ·0 BRASILEIRO DO SÉCULO.IO.EMPREENDEDORES
21
Walther
Moreira Salles
29,73% DOS VOTOS
Q
uando fez a primeira
viagem aos Estados
Unidos, aos 27 anos,
Walther Moreira Salles era
diretor da Companhia Bra-
sileira de Café, recém-cria-
da pelo pai, João Salles, em
1938. A intenção era vender
o produto aos clientes ame-
ricanos, mas ele estava mais
interessado em experimen-
tar a última palavra em
tran sportes: o hidroavi ão,
um monstrengo que voava
a cerca de 500 metros de al-
tura e mal chegava aos 150
quilômetros por hora . Do
Rio de Janeiro a Miami fo-
ram cinco dias de viagem,
com esca las em outras 15
cidades. O resultado da via-
gem não poderia ter sido
mais desastroso, do ponto de
vista dos negócios. Walther
não conseguiu fecha r ne-
nhuma transação porque as
operações da Bolsa de Café
americana haviam sido sus-
pensas. O mot ivo? Do ou-
tro lado do Atlântico, os es-
trondos de bombas denun-
ciavam o início da Segun-
da Guerra Mundial.
O episódio é curioso por-
que esta foi uma das raras
vezes em que não deram
certo os negócios de Wal-
ther, mineiro de Poços de
Caldas, nascido a 28 de
maio de 1912. Pudera, ele
foi acostumado a lidar com
o comércio desde criança,
quando passava as tardes
atendendo clientes e arru-
mando prateleiras no arma-
zém do pai. O velho João
mandou o filho estudar em
São Paulo, no Colégio Li-
ceu Fra nco Brasilei ro. Fi-
cou co ntente quando, al-
guns anos depois, Walt her
informou que pretendia es-
tudar Direito. Ma s sabia
que o futuro do rapaz esta-
va em dar prosseguimento
aos negócios familiares.
Walther não havia se for-
mado ai nda quando viro u
sócio do pai na Casa Ban-
cár ia Moreira Salles, o
novo ramo em que João se
havia ave nturado pensando
exclusivamente em financiar
os produtores de café. Nas
mãos de Walther, o banco
prosperou e, em pouco tem-
po, virou um banco respei-
tável, com clientela até no
Rio de Janeiro. Faltava en-
frentar os grandes bancos da
capital paulista, cidade que
centralizava já na época o
mercado financeiro, o que
não demorou a acontecer.
Negociando com o FMI
o suce sso do banco nas
principais capitais do País
foi a alavanca para a entra-
da na cena política. Com a
posse do presidente Getúlio
Vargas, em 1951, Horácio
Lafer foi nomeado ministro
da Fazenda e convidou Wal-
ther para dirigir a Superin-
tendê ncia da Moeda e do
Crédito (Sumoc), embrião do
atual Banco Central. No ano
seguinte, assumiu o posto de
embaixador em Washington
(EUA) e, em sintonia com
Horácio Lafer, tentou obter
mais financia mento para o
País. O resultado foi desa-
nimador. Em 1953, o gover-
no americano declarou que
não concederia empréstimos
para o Brasil. Abalado pelo
insucesso das negociações,
não restou a Walther outra
alternativa senão retomar
suas ativi dades como em-
presário, que, afinal, iam de
vento em popa.
As incursões diplomáticas
lhe renderam a fama de con-
ciliador e Juscelino Kubits-
chek não pensou duas vezes
em chamá-lo para assumir,
novamente, a emba ixada
brasileira em Washington,
em 1959. Com Jânio Qua-
dros no Palácio do Planal-
to, o nome do banqueiro mi-
neiro voltou a ser lembr a-
do. Desta vez não para ocu-
par qualquer pasta, mas para
auxiliar na renegociação da
dí vida externa brasileira.
Mesmo fora do governo, fir-
22
ISTOÉ .o BRASILEIRO 00 SÉCULO· l0- EMPREENDEooR
VOCÊ SABIA? Quase teve um
ataque de nervos porque um
vendedor de bilhetes de
loteria gritava ensandecido
na porta do banco. Para se
livrar logo do homem, mandou
comprar todas as cartelas
edistribuiu como brinde
natalino aos funcionários
rnou, ao lado do então em-
baixador Roberto Campos,
um dos melhores acordos
que o País já vira até então.
Além de prorrogar os pra-
zos de pagamento, ainda ar-
rancou dos americanos no-
vos financiamentos.
Em 1961, Walther visita-
va um amigo numa fazenda
em Itatiba (SP) quando sou-
be, pelo rádio, que Jânio ha-
via renunciado. Estabeleceu-
se o impasse: os militares
não aceitavam a posse do
vice, João Goulart. A solu-
ção foi costurada com a saí-
da parlamentarista - Tancre-
do Neves seria o primeiro-
mini stro. Em agosto, em
meio à confusão, o presiden-
te da Varig, Ruben Bert a,
veio ao encontro de Walther.
"O presidente faz questão de
ter uma conversa com você",
disse Berta. "Qual presiden-
te?", qui s saber o banqueiro.
Referi a-se a Jan go, que aca-
bara de aceitar o parlamen-
tari smo. Todos os aeropor-
tos estavam fechados e Ber-
ta prec isou mont ar uma ope-
ração de guerra para chegar
a Jango em Porto Al egre.
Embarcaram escondidos em
um hang ar e, sob o pretexto
de socorrer um avi ão em
(lane, conseg uiram decolar.
As dez da noite , a aeronave
pousa va às escuras, numa
pi sta iluminada por far ói s
de aut omóvei s. "Quero que
tu aceites ser o mini stro da
Fazenda" , di sse Jango. O
banqueiro relutou, mas
acabou -aceitando. "Você
me arruma um avi ão para
voltar a Itatiba?", pergun-
tou a Berta. "Agora é im-
pos sível , a Aeronáuti ca
est á derrubando todo o
aparelho que segue para o
Norte. Mas coloco-o num
avião para Buenos Aires e
de lá você parte para São
Paulo num vôo internacio-
nal ", sugeriu o presidente da
Varig. "Só há um problema,
estou sem dinheiro", retru-
cou Walther. Foi preci so que
Jango pusesse a mão no bol-
so e emprestasse US$ 250
para o banqueiro.
Amante das artes De vol-
ta à ati vidade empresarial,
após deixar o governo, arti-
culou a compra do banco
Predial e do Agrícola e
Mercantil. Em 1967 , o gru-
po passou a se denominar
Uni ão de Bancos Brasilei-
ros e, finalmente, em 1975 ,
ganhou sua cara mai s famo-
sa: Uni banco. Quando o pai
morreu, em 1968 , Walther
assumiu em definiti vo o co-
mando da instituição. Hoje
com 87 anos, casado e pai
de quatro filhos - um deles
é o cineasta Walter Sall es
Jr. , de Central do Brasil - ,
é um amante das arte s. Des-
ligou-se do banco em 1991
para dedicar- se exclusi va-
mente às ati vidades cultu-
rai s à frente do In stituto
Moreira Salles.
ISTOÉ.O BRASI LEIRO 00 SÉCULO·IO.EMPREENDEooR
23
24
v
oz grossa, semblante
fechado, olhar impo-
nent e. Não há quem
não se intimide, num primei-
ro momento, com a serieda-
de do banq ueiro Olavo Se-
túbal. A impressão se des-
faz, porém, com as gargalha-
das vibrantes acompanhadas
de sonoros bofetões na mesa
-cv
de trabalho. Sen-
9 tado entre fotos
da família e uma
esc ultura de Aleijadinho em
sua sala no Centro Empre-
sarial ltaú, em São Paulo, ele
se alegra ao contar como
pretende atravessar o milê-
nio. "Vou passar o réveillon
num cruzeiro em águas cari-
benhas. Comprei a passagem
há dois anos", delicia-se em
di zer. Ol avo acredita que
planejar com antecedência os
compromissos é o segredo
de seu negócio. ' Todo mês
de novembro edito uma cir-
cular interna em que marco
as datas das reuniões inter-
nas, asse mbléias e as minhas
viagens durante o ano se-
guinte", afirmou a ISTOÉ.
"Cumpro pelo menos 80%
da age nda e sugiro que todo
mundo faça o mesmo." Vin-
do do homem que transfor-
mou uma frágil instituição fi-
nanceira no segundo maior
banco do País, o conselho
não é de se jogar fora.
Último pedido Paulistano
nascido a 16 de abril de
1923, Ol avo Egydio Setúbal
(o sobrenome tem origem na
cidade homônima em Portu-
gal, onde nasceu o tataravô)
nunc a deu o braço a torcer.
Nem o apelo do pai, que so-
fria de tuberculose, o demo-
veu da escolha de ser enge-
nheiro. Escr itor de sucesso
e boêmio, Paulo Setúbal quis
ter uma conversa com o fi-
lho antes de morrer. "Enge-
nhari a é uma carreira de se-
gunda. Você deve ser advo-
gado porque a eles compete
a di reção do Brasil", disse .
ISTOÉ-oBRASILEIRO DOSÉCULO-lO-EMPREENDEDOR
Philco, fabr icante de com-
putadores - , do qual é o pre-
sidente. Aos 76 anos, traba-
lha dez horas por dia e vol-
ta para casa a tempo de as-
sistir a todos os telejornais
da noite. É um de seus víci-
os incur áveis, assim como a
leitura de revi stas sobre fi-
nança s - pouco antes de fa-
lar a ISTOÉ, devorava três
publicações es tra ngeiras
quase ao me smo tempo.
Para quem pensa que ele se
contenta em ficar com a se-
gunda posição no ranking do
sistema bancário, o empre-
sário lembra uma conversa
que te ve com Amador
Aguiar. O falec ido presi-
dente do Bradesco lhe dis-
se: "Você vai passar todos
os bancos, mas a mim não!"
Depoi s de comprar recen-
temente o Banerj e o Bemge
(Banco do Estado de Minas
Gerai s), agora o Itaú olha de
soslaio para a venda do
Banespa, que deve acontecer
no ano que vem. E Olavo ar-
risca um desafio: "O Brades-
co é fruto daquele gênio cha-
mado Amador Aguiar. O Itaú
é fruto de uma lógica racio-
nal. Essa é a grande diferen-
ça entre os dois. O futuro dirá
se os frutos dos gênios resis-
tem a várias gerações. A ló-
gica sobrevive."
mais trabalho do que presi-
dir um banco. E a remune-
ração é muito mais baixa",
completa às gargalhadas. A
breve carrei ra pol ítica ga-
nhou sobrevida com a no-
meação, no início do gove r-
no do presidente José Sar-
ney, para o Mini stério das
Rel ações Exteri ores (Ta n-
credo Neves o havia chama-
do para ser ministro da Fa-
zenda) . Derrotado numa
convenção interna do PFL,
desistiu da idéia de concor-
rer ao gove rno de São Pau-
lo em 1986 e retirou -se da
vida pública.
Casado pela segunda vez
(a primeira esposa morreu
em 1977 dei xando -lhe sete
filhos), está aposentado da
diret or ia do banco há 11
anos. Mas continua envol-
vido até o fio de cabelo no
conselho de administração
da Itaúsa - holding contro-
lador a do grupo, que hoje
também engloba a Itautec
,--- ---, DIPLOMÁTICO Com
o príncipe Charles (à
esq ,) e os presidentes
Fi gueiredo e Tancredo
Noites de insônia Se na
ju ventude ele acompanhava
a distância o movimento nos
grêmios estudanti s, o suces-
so no meio empresarial es-
treitou sua relação com a po-
lítica. Em 1975, o governa-
dor Paulo Egydio Martins o
convidou para assumir a
Prefeitura de São Paul o.
"Foi um dos raros períodos
em que tive insôni a e preci-
sei tomar remédi o para dor-
mir", di z Olavão, como o
chamam os amigos. Ele ocu-
pou o cargo até 1979. "Ad-
ministrar a cidade é uma coi-
sa fant ástic a, da qual me
honro muit o, mas dá bem
compra do Itaú, que tinha
enorme clientela rural , o
banco se tornou o 16
2
maior
do Br asil. Novas fusões
acontecera m e, de grão em
grão, Olavo se transformou,
antes que acabassem os anos
70, no segundo maior ban-
queiro do País.
A mãe, dona Franci sca, as-
sumiu a educação do garoto
de 13 anos com mãos de fer-
ro. "Que grande mulher! Ti-
nha valores éticos e morais
rígidos, mas uma visão mui-
to ampla", lembra. Em 1945,
ele diplomou-se pela Escola
Politécnica da Universidade
de São Paulo e passou a tra-
balhar como professor-assis-
tente no Instituto de Pesqui -
sas Tecnológicas.
Com os US$ 10 mil que
j untou, Olavo e um antigo
amigo de escola compraram
duas máquinas e fundaram a
Deca, que fabricava peças de
fechadura e de torneiras e
contava com dez emprega-
dos. Os primeiros anos fo-
ram difícei s, mas em 1953 a
empresa deu sinais de recu-
peração ao incorporar uma
indústria de válvulas de des-
carga. Como a Deca ia de
vento em popa, ele foi cha-
mado para reestruturar os ne-
gócios do tio, Alfredo, dono
da Duratex e do pequeno
Banco Federal de Crédito -
e tirou as duas instituições
do vermelho.
Com a morte do tio, ele
assumiu de vez a direção-ge-
ral do Federal de Crédito em
1959. Saiu à caça de gran-
des clientes e obteve recur-
sos que permitiram financiar
operações de maior vult o.
Uma das primeiras medidas
foi estabelecer que todos os
gerentes deveriam ter, pelo
menos, curso ginasial com-
pleto. Nos anos 60, consta-
tou que não havia outro ca-
minho para a expansão dos
negócio s senão incorporar
outras instituições. Com a
VOCÊ SABIA? Uma vez por mês reúne os amigos da época de solteiro para um jantar
no Casserole, restaurante de cozinha francesa no centro de São Paulo. "Éramos 15,
mas cinco já morreram", conta OIavo, esclarecendo que osaudosismo nunca se senta
àmesa do grupo durante aconfraternização. "Umade minhas características é
que custo afazer amizades. Quando isso acontece, costuma durar indefinidamente"
ISTOÉ ·0 BRASILEIRO 00 SÉCULO·IO.EMPREENDEooRES
25
Nascido a 9 de dezembro
de 1920, no Recife, Ode-
brecht mudou- se para Salva-
dor aos seis anos de idade.
Aqui é necessário abrir um
parêntesis: os primeiros Ode-
brecht que migraram da Ale-
manha para o Brasil se ins-
talaram em Itajaí (SC) por
volta de 1850, desbravando
o Sul do País em lombo de
burro e enfrentando onças
nas florestas. O pai, Emílio,
transferiu-se para o Rio de
Janeiro em meados dos anos
I°para estudar Engenharia.
Quando se formou, foi para
o Nordeste, onde estava sen-
do construída a hidrelétrica
de Paulo Afonso, em Ala-
goas. Emílio abriu uma cons-
trutora e acabou fixando-se
no Recife aproveitando os
bons ventos do ciclo do açú-
car. Em 1926, as exportações
de açúcar despencaram e se
iniciou o ciclo do cacau na
Bahia, para onde a família
se mudou.
Aulas nas ladeiras Resul-
tado de um choque cultural,
a formação de Norberto
Odebrecht combina a rigidez
luterana e a flexibilidade bai-
ana. Aos 12 anos, quando
entrou no ginásio Ipiranga,
de Salvador, não sabia falar
português, porque o idioma
em casa era o alemão. "Fi-
quei impressionado ao ver os
meninos que tinham babás,
mamãezinhas para fazer a
mala. Eram pessoas acostu-
madas a serem servidas, e eu
a servir." A disciplina foi en-
VOCÊ SABIA? Um militar fez
severas críticas àconstrução
da sede da Petrobras, a
cargo da Odebrechl. "As
informações são falsas",
garantiu oempresário ao
general Ernesto Geisel,
a gente percebe se o suj ei-
to é empresário ou não.
Tudo é uma que stão de en-
foque", afirma ele.
No intervalo entre um
pico e outro de febre alta ,
Odebrecht traçou o novo
perfil da empresa com ên-
fase na descentralização.
Cada funcion ário a partir de
então seria tratado como
um sócio, compartilhando a
responsabilidade pelo êxi-
to da empreitada. Mai s di-
fícil foi negociar com os
credores. Mandou um reca-
do aos banqueiros: "Arran-
jem-me obras que eu pago
as dívidas." Logo ele redu-
ziu o tempo de construção
de um edifício residencial
na capital baiana de três
anos para nove mese s. Em
quatro anos, os débitos es-
tavam zerados. E hoje a
holding Odebrecht fatura
R$ 4,5 bilhões por ano , es-
tando presente em 24 paí-
ses de quatro continentes.
A receita do sucess o está
em não se deixar sucumbir
em nenhuma circunstância.
"Empresário que só se
queixa só tem uma coi sa a
fazer : decidir como dar um
fim na vida dele, porque
está atrapalhando mui-
ta gente."
re s qu e batiam à porta,
Odebrecht tinha ainda de
dar satisfação aos clientes
cujas obras estavam para-
lisadas. "Aprendi na vida
a transformar problemas
em oportunidades. É aí que
Norberto Odebrecht
26,19% DOS VOTOS @
A
fatalidade de uma do-
ença que o deixou 47
dias de cama - a malá-
ria - mudou os planos de
Norberto Odebrecht, dono de
uma construtora em graves
dificuldades financeiras no
longínquo ano de 1944,
em Salvador. Não
bastassem
os credo-
SUCESSAO Norberio recebeu o comando da empresa do
pai (no retrato da parede) e o passou ao filho Emllio (de pé)
presidente da estatal na época. "Volte em
15 dias eprove que está certo. " Ele provou
eGeisel demitiu omilitar que oacusara.
Após assumir aPresidência da República,
quando havia obra importante arealizar,
Geisel recomendava: "Entreguem àquele
nordestino malcriado." Era um elogio
União Soviética - uma pro-
va de que, no mundo capi -
talista, as parcerias obede-
cem à necessidade do lucro
e não têm fronteiras ideoló-
gicas . Foram os russos que
indicaram a Odebrecht para
a construçã o de uma hidre-
elétr ica em Angol a, em
1986, então sob o comando
de um governo de esquer-
da. Lá, a empresa ergueu
uma cidade com escri tóri os,
aloj amentos, escolas e clu-
bes. A segurança era feit a
por tropas ferozmente arma-
das, já que o país vivia uma
sangrenta guerra civil.
Escândalo político A cum-
plicidade com os políticos (o
Estado é o cliente número 1
das empreiteiras) levou Ode-
brecht a ter sua empresa en-
volvida, no início dos anos
90, no escândalo do impea-
chment de Fernando Collor,
Foi citada como financiado-
ra da campanha eleitoral do
presidente afastado. Na épo-
ca , Odebrecht de cl arou:
"Nossa companhia é uma
das mais éticas do País. Con-
tribuiímos para a campanha
de vários presidenciáveis,
porque nossos líderes gozam
de autonomia e cada qual
ofereceu apoio ao candidato
com quem mais se afinava."
Passou o bastão ao filho Emí-
lio, em 1991, e há dois anos
deixou o Conselho de Admi-
nistração para dedicar-se aos
13 netos e três bisnetos, sem
se descuidar das fazendas de
cacau na Bahia e da organi-
zação não-governamental
que criou para proteger os
manguezais.
Em meados dos anos 70,
entretanto, Odebrecht perce-
beu que o chamado milagre
econômico dava sinais de
desgaste. As obras gigantes-
cas , marca registrada do go-
verno militar, eram cada vez
me nos fre quentes. Mais
uma vez, se viu obrigado a
repensar a estratégia dos ne-
gócios, como fizera 30 anos
antes. Odebrecht olhou para
o mercado externo como so-
lução, num tempo em que a
palavra globalização não era
moda e não era abundante-
mente citada na seção de
economia de jornais e revis-
tas. Em 1979, construiu uma
hidrelétrica no Peru em par-
ceria com estatais da ex-
Odebrecht construiu o edi -
fíc io-sede da Petrobras, no
Ri o. O bom relac ionamen-
to com os militares valeu à
construtora a realização de
obras importantes como o
aeroporto internacional do
Galeão (atual Antônio Car-
los Jobim) e a usi na nucle-
ar de Angra dos Reis, além
da ponte Colombo Sales,
em Florianópolis, sem fa-
lar na expansão da Usimi -
nas, em Mi nas Gerais.
de salto que deu no final
dos ano s 60, quando trat ou
de conquistar o mercado da
região Sudest e. Os milita-
res haviam tomado o po-
der em 1964 e se dedica-
vam a grandes obras de in-
fra-es trutura. Em 1969 , a
empresa - e recuperar-se da
malária que o fez ter a visão
do futuro que desej ava para
a empresa -, Odebrecht usu-
fruiu do ciclo de desenvol-
vimento da Bahia, nos anos
40, que propiciou a constru-
ção de pontes, edifícios, in-
dústrias e barragens. Na dé-
cada seguinte, ele se torna-
ria parceiro da Petrob ras,
construindo oleo dutos no
Recôncavo. Essa parceria se-
ria fundamental para o gran-
sinada desde cedo pela mãe,
dona Hertha, que lhe incum-
bia tarefas diárias como ar-
rumar a cama, rachar lenha
e engraxar os sapatos. Dos
sete aos 12 anos, foi educa-
do pelo pastor Arnold, que,
ao chegar da Alemanha, pas-
sou a morar com a família.
Os ensinamentos eram trans-
mitidos em longos passeios
pelas ladeiras da capital bai-
ana e durante pescarias à bei-
ra de lagoas. Aos 14 anos, o
rapazote começou a trabalhar
como pedreiro na construto-
ra do pai. Conviver cum os
peões, respirar nuvens de cal,
cimento e areia, ficar ensur-
decido com o som das brita-
de ir as, serra s-elétri cas e
bate-estacas, tudo isso foi tão
importante para a sua forma-
ção quanto as aulas teóricas
do pastor Arnold.
Tudo ia bem até a eclo-
são da Segunda Guerra Mun-
dial , cujos estilhaços causa-
ram estragos nos negócios da
construção civil do lado de
cá do Atlântico. Agastado
também com a hostilidade
aos de scendentes de ale -
mães, intensificada com .a
entrada do Brasil na guerra,
o 'pai resol veu arrumar as
malas e retornar para Santa
Catarina, onde ainda vivia
parte do clã dos Odebrecht.
Em 1943, entregou o coman-
do da construtora ao jovem
Norberto, que nem sequer
era engenheiro formado, já
que ainda cursava a Escola
Politécnica da UFBA. Após
retomar a saúde financeira da
ISTOÉ.O BRASILEIRO DOSÉCULO·IO.EMPREENDEDORES
27
Jorge Gerdau
Johannpeter
24,86% DOS VOTOS @
A
praia deserta próxima a
Garopaba, no litoral de
Santa Catarina, é o re-
fúg io do homem de aço.
Quando o mar é favorável,
Jorge Gerdau Johannpeter,
62 anos, dono de 16 siderúr-
gicas que faturam R$ 2,27
bilhões por ano, produzindo
6,6 milhões de toneladas de
aço no Brasil, na Argentina,
no Uruguai, no Chile e no
Canadá, pode ser visto que-
brando as ondas no paraíso
particular. Não é um surfis-
ta desajeitado. Pelo contrá-
rio, j á que - na década de 50
- , juntamente com o irmão
Frederico, Gerdau foi um
dos pioneiros do surfe no Sul
do País. "Eram pranchões de
madeira que mandávamos
trazer de Copacabana, no
Rio de Janeiro. Pegávamos
o impulso da onda com um
pé só", contou ele a rSTOÉ.
"O esporte prepara para en-
frentar desafios. É a psicose
de bater recorde s. Sou um
ser competitivo e fanático
pela qualidade."
Os Gerdau que saíram de
Hamburgo, na Alemanha,
com destino ao Brasil, em
1869, eram igualmente faná-
ticos pela superação. "Exis-
tia a disposição de tomada
de risco, de aventura", afir-
ma o empresário. O bisavô
João era agricultor e dono de
um armazém que abastecia
a colônia alemã fixada em
Santo Ângelo, no Rio Gran-
de do Sul. Em 1901, João
abriu em Porto Alegre uma
fábrica de pregos com o fi-
lho Hugo . Era uma empresa
familiar estável que só pas-
sou a enfrentar dificuldades
para obter matéria-prima
nos anos 40 por causa da
Segunda Guerra Mundi al.
Nessa altura, o comando
estava nas mãos do alemão
Curt Johannpeter, genro de
Hugo, que num lance auda-
cioso comprou a Siderúrgi-
ca Riograndense para solu-
cionar o suprimento de aço
e produzir os pregos. Para
isso, vendeu vários imóvei s
acumulados em dezenas de
anos. "Foi um passo bastan-
te corajoso, porque rompeu
o conceito histórico de em-
presa pobre-família rica", re-
lata Gerdau.
Visão pragmática o ve-
lho Curt era um sujeito gen-
til, mas inflexível. Negava-
se a assinar uma cart a se a
datilografi a não fosse impe-
cável. Para preencher os pos-
tos importantes, mais do que
o parentesco, import ava a
VOCÊ SABIA? Ohipismo éuma das paixões
do empresário. Pratica oesporte desde
os nove anos de idade. Como criador de
cavalos da raça holstiner, orgulha-se de
ter sido oúnico acolocar três animais
eganhar duas medalhas (de bronze) nas
Olimpíadas de Atlanta, em 1996. Um dos
cavaleiros vencedores era ofilho André
dedicação profissional.
"Quem os desejar que apre-
sente suas credenciais. Ven-
cerão os mais capazes", di-
zia. Jorge Johannpeter Ger-
dau, terceiro filho de Curt - ,
nasceu a 8 de dezembro de
1936 - entendeu o recado .
Aos 14 anos, no período de
férias escolares, debutou na
fábrica operando as máqui-
na s de produzir prego s.
"Construí uma visão extre-
mamente pragmática graças
ao convívio com os operári-
28
ISTOÉ ·0 BRASI LEIRO 00 SÉCULO- IO-EMPREENDEooR
os." Depois, passou a estu-
dar contabilidade à noite, en-
quanto trabalhava à tarde no
escritório aprendendo a tirar
notas fiscais. Com 20 e pou-
cos anos, estudante de Di-
reito, já integrava a Federa-
ção das Indústrias gaúchas.
Formou-se em 1961 - "Fui
o único sucateiro da turma,
os demais saíram desembar-
gadores", brinca - e passou
por todas as áreas da empre-
sa até assumir a presidência
do grupo em 1983. LEILÃO da Aços Finos Piratini : crescer para não definhar
ISTOÉ. O BRASILEIRO DOSÉCULO. IO. EMPREENDEDOR
Desde a década de 60,
quando auxili ava o pai na
condução dos negócios, tinha
claro que o dilema era cres-
cer ou definhar. A expansão
iniciou com a compra da Fá-
brica de Arames São Judas
(SP). Depois, foi a vez da Si-
derúrgica Açonorte (PE). Em
1972, assumiu a Companhia
Siderúrgica da Guanabara
(Cosigua). A partir daí , o
grupo não parou mais. "As-
sim como, há 30 anos, en-
tendia que era preciso sair
do Rio Grande, hoje estou
convencido de que é neces-
sário ultrapassar a fronteira
do País para não perder a
competitividade ." A Gerdau
é hoje a 35
9
no ranking mun-
dial da siderurgia.
Busca de eficiência Ger-
dau lidera a Associ ação
Qualidade RS, movimento
que tenta agregar eficiên-
cia a institui çõe s públicas
e pri vadas. Reduziu , por
exemplo, o tempo de espe-
ra para at endi mento na
Santa Casa de Miseri córdia
de Port o Alegre de oito ho-
ras para 13 minut os. Inves-
te ainda em arte, "pelo pra-
zer que me dá", especi al-
ment e na Fund ação Iberê
Camar go, pr eservando a
obra do artista plástico gaú-
cho. Sobra tempo ai nda
par a tocar a Ação Empr e-
sarial Brasileira, que pre-
tend e achar uma saí da eco-
nômi ca para o País. Tarefa
difícil ? Não para um sur-
fi st a acos tumado ao mar
bravo. "Depois de enfre n-
tar as ondas, não há plano
econômico que ass uste. "
29
• J
Ruben Berta
24,73% DOS VOTOS @
O
ale mão Ott o Ernst
Meyer tinha um méto-
do que j ulgava infalí-
vel para saber em quem po-
dia confiar: a firmeza do
aperto de mão, a franqueza
do olhar e os sapatos lim-
pos. Usou a regra para sele-
cio nar os candidatos que
apareceram em resposta ao
anúncio que publicou nos
jornais de Porto Alegre, em
1927, oferecendo emprego
na companhia que pretendia
abrir, a Viação Aérea Rio-
grandense (Varig). Um moço
de 19 anos - Ruben Martin
Berta nasceu a 5 de novem-
bro de 1907 - , neto de ale-
mães e húngaros, foi o que
mai s o impressionou. Era
inquieto, curioso e de me-
mória espantosa. E o prin-
cipal: nem discutiu o salá-
rio, que não era dos melho-
res. Também não se impor-
tou com o fato de ser o úni-
co funcionário da empre sa.
Para completar, tinha os sa-
patos engraxados!
DINAMO Trabalhava 16
horas por dia; acima, em
raro momento de lazer,
comemora 57 anos, com
o neto Raul no colo
Até então, jamais passara
pela cabeça de Berta embar-
car em tal avent ura. Até os
13 anos, enquanto os dois ir-
mãos brincavam na calçada,
ele sumia da vista da mãe e
escondia-se na biblioteca de
um vizinho. Tinha até pla-
nos de ser médico. Aí o pai
contrai u tuberculose e se
afastou da fábrica de fogões
e cofres. Ele empregou-se na
loja de tecidos de um padri-
nho para ajudar o sustento
da casa. Era um serviço sem
perspectiva e, por isso, al-
guns anos depois, quando leu
o anúncio da companhia aé-
rea, entusiasmou- se. Contu-
do, a mãe, dona Helena, fi-
cou furiosa ao saber que ele
pretendia trocar o certo pelo
duvidoso. "Não tem cabi-
mento largar a loja para se
meter nessa maluqui ce de
voar." Berta dormiu três noi-
tes no escritório da Varig até
a mãe se acalmar.
30
ISTOÉ -o BRASI LEIRO 00 SÉCULO-IO-EMPREENDEooR
I > I
I
gurou a linha de Porto Alegre
a Montevidéu. Em 1946, che-
gou ao Rio de Janeiro. Em
1955, no vôo inaugural Rio-
Nova York, Berta passou a
maior parte do tempo (a via-
gem durava 22 horas, com três
escalas) na copa-cozinha su-
pervi sionando o serviço de
bordo. "Não é favor atender
bem o passageiro. É ele que
presta um grande favor quan-
do nos procura." Em 1965, as-
sumiu as linhas para a Euro-
pa, a África e o Oriente Mé-
dio da falida Panair.
Extremo Oriente Ao sofrer
o primeiro infarto, em 1950,
tratou de estudar doenças
cardíacas a fundo. "O obje-
tivo era convencer o médico
de que não precisava redu-
zir o ritmo de trabalho", lem-
bra a filha Ivone. O segundo
infarto o pegou em seu ga-
binete , a 14 de dezembro de
1966. Sentiu-se mal, mas
continuou a ditar tarefas en-
quanto o médico o atendia.
O "Velho", como era cari-
nhosamente chamado, mor-
reu 20 minutos depois de
ataque do coração, sem ver
a Varig dar a volta ao mun-
do, como sonhara. Em 1972,
um jato da companhia pou-
saria suavemente no aeropor-
to de Tóquio, no Extremo
Oriente. A utopia se trans-
formara em realidade.
BALDEAÇAo
Nos anos 20,
os passageiros
eram levados
de barco até o
hidroavião, no
rio Gualba, em
Porto Alegre;
o aparelho
voava a 140
km por hora.
A Varlg fazia
conexões com
navios para
viagens longas
a ISTOÉ Ivone, a filha mais
nova. A confiança em seus
comandados se consolidaria
em 1945, quando - inspira-
do no papa Leão XIII , que
sugeria repart ir a proprieda-
de em nome da bondade e
da justiça - convenceu os
acionistas a doarem 50% da
Varig à Fundação dos Fun-
cionários. Hoje , rebatizada
Fundação Ruben Berta, ela
control a 87,5% da empresa.
Traçou o plano de voo para
conquistar o mundo no início
dos anos 40. Em 1942, inau-
VÔOS SEMANAES ,
SERV IÇO MUTUO
   
RIO GRANDE - RIODEJANEIRO
EM COMBI NAÇA"b COM
T RA TlANTl CO
che para Berta e se afastou
da empresa. Berta era tão de-
dicado à companhia que a
mulher , Wilma - que lhe deu
duas filhas e sete netos - ,
brincava: "Sei que ele tem
uma amante, não precisa me
dizer . É a Varig." Impressio-
nava o pessoal da manuten-
ção ao dar palpites certeiros
em assunto tão complexo.
"Cansei de vê-lo sair de casa,
à uma hora da manhã, levan-
do uma cesta de sanduíches
que minha mãe preparava
para os mecânicos", contou
Na Varig, além de varrer o
chão, foi guarda-livros, dati-
lógrafo, caixa e carregador de
malas. A origem da empresa
foi épico. Meyer, observador
aéreo no front da Primeira
Guerra Mundial, ao chegar ao
Brasil, em 1921, percebera
que, dada a dimensão conti-
nental do País, a aviação co-
mercial por essas bandas ha-
veria de ser um bom negócio.
Em 1925, convenceu o gover-
nador gaúcho Borges de Me-
deiros a lhe conceder isenção
fiscal por 15anos.
Animais na pista Era a
época do s hidroaviões.
Meyer e Berta arregaçavam
as calças até os joelhos e re-
mavam para levar os passa-
geiros até a aeronave. O bar-
co ia ziguezagueando, a bor-
do homens de temo e cha-
péu e mulheres de vestido
longo, a lata de combustível
a seus pés, até alcançar o
avião, que voava a 140 km
por hora sobre a Lagoa dos
Patos. Em 1932, a Varig pas-
sou a operar com aviões ter-
restres, que flanavam sobre
as coxilhas sem rádio, guian-
do-se pelas estradas lá em-
baixo em meio à neblina e
dando rasantes para afastar os
animais dos campos de pou-
so. Quando nem existia Mi-
nistério da Aeronáutica, a
Varig implantou por conta
própr ia equipament o de rá-
dio que abrangia 130 loca-
lidades e instalou luzes de
pista em 19 aeroportos par a
viabilizar os vôos noturnos.
Em 1941, com os estron-
do s da Segunda Guerra,
Meyer, que temia ser alvo
de violência por causa da
origem alemã, passou o man-
VOCÊ SABIA? Autodidata, estudou botânica, mineralogia eagricultura. Suas idéias
avançadas lhe valeram dois convites para ser ministro de Juscelino Kubitschek.
"Foi oúnico homem que não nos pediu nada e, quando convidado para ministro, deixou
opresidente três dias àespera de uma resposta para, afinal, recusar", escreveu JK
lSTOÉ·O BRASILEIRO DOSÉCULO.IO.EMPREENDEDOR
31
J /
(
Delmiro Gouveia
VOCÊ SABIA? Apesar de fluente na língua
inglesa, fazia-se de desentendido quando
algum estrangeiro oprocurava na indústria
ou no comércio. Dizia insistentemente que
não estava compreendendo uma palavra.
Oobjetivo era se livrar dos clientes
britânicos que insistiam em pechinchar
merciante respeitado pelos
tradicionais donos do poder.
Vestia- se com elegantes ter-
nos brancos e transformava
a casa onde morava em pal-
co para festas noturnas me-
morávei s. De dia , encontra-
vam-no sempre se declaran-
do apaixonado para a espo-
sa - er a um beijoqueiro
compulsivo. Em 1899, vol-
tou da Expo sição Universal
de Chicago com a idéia de
construir um enorme mer-
cado onde se pudesse en-
contrar de tudo. O Mercado
do Derb y não demorou a fi-
car pronto. Era o primeiro
estabelecimento comercial
da capital pernambucana
com energia elétrica , ven-
dia produtos pela metade
do preço e funcíonava 24
por dia . Também contava
com hotel, parque de di ver-
sões e restaurante.
Recomeçar do zero Ini-
migo declarado do prefeito
recifense, Delmiro tornou- se
alvo das campanhas de difa-
mação movida s pelos j or-
nai s. Sem dar bola para
ameaças, viu que não esta-
vam brincando quando o
mercado foi incendiado. Os
negócio s iam mal e ele in-
sistia em torrar dinheiro em
viagens ao Exterior. Não deu
outra: as empre sas faliram
se para o Recife e viu a mãe
falecer quando ele tinha 15
anos . Analfabeto e sem di-
nheiro, foi atrás dos primei-
ros trocados como bilhetei-
ro na estação ferro viária de
Olinda. Aos 18 anos, em-
pregou -se na Alfândega,
mas os despacho s burocrá-
ti cos nunca o seduziram.
Ante s que morresse de té-
dio, Delmiro foi trabalhar
no comércio de " cour i -
nhos", artigos de pele de
bode e carnei ro popularíssi-
mos no Nordeste da época.
Em 1891, fundou, com um
amigo de origem inglesa, a
Levy & Delmiro.
Aos 35 anos, era um co-
saber que ela existiu na lon-
gínqua década de 10. Seu ide-
alizador acreditava que a edu-
cação era a única maneira de
acabar com a praga do can-
gaço e da fome no Nordeste.
Beijoqueiro compulsivo
Del miro Augusto da Cruz
Gouveia nasceu a 5 de ju-
nho de 1863, no interior do
Ceará, 14 anos antes de uma
grande seca vitimar 500 mil
nordestino s. O pai morreu
lutando na Guerra do Para-
guai. Oficialmente, deixou
uma viúva e seis filhos . O
sétimo rebento, Delmiro,
veio de um caso extraconju-
gal. Ainda criança, mudou-
23,69% DOS VOTOS
o
s mora dores das 256
casinhas de alvenaria
encravadas no sertão
alagoano eram o mais autên-
tico ret rat o da felici dade.
Trabalhavam para Delmiro
Gouveia e tornavam reali da-
de o devaneio de industriali-
zar o Nordes te. Na Vila da
Pedra, uma espécie de co-
muna criada pelo patrão, os
operários - todos com j or-
nada de oito horas por dia -
tinham casa, escola e assis-
tência médica gratuitas. As
mulheres iam para a fábrica
tran quilas, pois deixavam
seus filhos numa creche. En-
quanto a poucos quil ômetros
a seca castigava a terra ra-
chada, ali os trabalhadores
recebiam água encanada. O
banho diário era obrigatório.
Os adultos aprendiam a ler e
escrever à noite. E faziam
planos para o futuro, garan-
tindo a aposentadoria à custa
de contribuições de três tos-
tões semanais. Se a Vila da
Pedra dá a impressão de ter
sido um cantinho do Primei-
ro Mundo no Brasil, assusta
32
ISTOÉ.o BRASILEIRO DOSÉCULO-lO-EMPREENDEDOR
em 190I, com uma dívida
de 1,7 milhão de réis. O em-
pree ndedor recomeçou do
zero. Sem gastar nada - dois
sócios entraram com o capi -
tal -, montou uma fábrica de
"courinhos", Recuperou a
confiança dos credores, mas
tropeçou nas coisas do amor.
Separado da primeira espo-
sa, apaixonou-se pela afi-
lhada do governador do
Estado, Segismundo
Gonçalves. Às vés-
peras de completar
40 anos, raptou a
menina, de 16, e
a levou para o
interior de Per-
nambuco (el a
lhe daria três
filhos) . Com a
pri são de cre-
t ad a, fugiu
para a minús-
cula ci dade de
Água Branca,
no sertão alago-
ano, onde cons-
titu iu seu impé-
rio industrial.
Instal ado numa
fazenda da periferia,
ao lado de uma grande ca-
choei ra, ele bot ou na ca-
beça que construiria uma
grande hidrelétrica. Im-
portou equipamentos e,
em 1911, trouxe para a
"terrinha" um grupo de
engenheiros ameri ca-
nos, que elaboraram um
proj eto de aproveita-
ment o e exploração do
rio São Francisco. Nas-
cia a Hidrelétrica de
Paulo Afonso . Para
construi-la, o coronel
do progresso enfren-
CORONEL DO
PROGRESSO Para
industrializar o
Nordeste, Delmiro
construiu açudes
(à esq. , em
Olinda), levou
água encanada ao
sertio (à dlr.) e
montou uma
companhia fabril
tou o pa vor dos operários
em descer os 80 metros de
profundidade da queda-
d ' água. Para desfazer o
medo do s sert anej os, o
próprio Delmiro se aven-
turou no penhasco, amar-
rado a uma corda. Em se-
guida, obrigou-os a imitá-
lo. Pre cavido contra qual-
quer demonstração de
co vardia, po sicio-
nou-se na beira da
cachoeira, revól-
ver em punho. Ai
de quem se atre-
vesse a recuar!
Ousadia Em
1913, ele
pro va va
que o Nor-
deste tinha
potencial in-
dustriai, sim.
Com a hidre-
létrica em fun-
cionamento, a
luz e a água fi-
nalmente chega-
ram às fábricas , a
400 quilômetros de
centros como Reci fe e
Sal vador. No comér-
cio , o coronel passou
a exportar 1,5 milhão
de toneladas de peles.
E, em mai s um arroubo
de ou sadia, fundou a
Companhia Agro Fabril
Mercantil, que logo nos pri-
meiros meses de vida já pro-
duzia 216 mil carretéis de
linha de algodão - ramo do-
minado pelos ingleses da
Machine Cottons. Ao tocar
em monopólios tradicionais,
Delmiro se metera numa en-
crenca das piores. Mandou
cercar sua casa-grande e
contratou guardas armados ,
mas costumava sair para se
deitar com suas amantes.
Numa dessas vezes , no dia
10 de outubro de 1917, três
tiros à queima-roupa acaba-
ram com o sonho de cobrir o
sertão de máquinas. Apesar
das suspeitas recaírem sobre
a Machine Cottons, o crime
jamais foi solucionado. No
processo judi cial - em que
ninguém nunca acreditou -
o acusado de disparar os ti-
ros foi condenado a 30 anos
de prisão. Era um ex-operá-
rio da Companhia Agro Fa-
bril - comprada em 1929 pe-
los ingleses - que morava
justamente na Vila da Pedra.
33
A
cabar com a paciência
de José Mindlin não é
tarefa das mais fáceis.
Sujeito de extrema cordiali-
dade, gosta mais de ouvir do
que falar. Se alguém retruca
um de seus comentários, ele
se aproxima do rosto do in-
terlocutor e levanta as sobran-
celhas. Logo abre um som-
soo Sem que se dê conta, já
foram duas horas de conver-
sa sobre sua atividade empre-
sarial. E ele se sente terrivel-
mente incomodado por não
conseguir explicar o que é um
pistão - peça que sua indús-
tria chegou a exportar para
mais de 50 países. "Acho que
você já tem material sufici-
ente sobre a empresa Metal
Leve, não é?", pergunta aca-
nhado ao repórter, em tom de
apelo, esperando um ar de
) I aprovação para que possa fa-
lar sobre sua biblioteca parti-
cular - a maior da América
Latina, com 30 mil volumes,
grande parte raríssima.
Atrás da relíquia Quando
o assunto é livro, difícil é
conter sua euforia. Cada
exemplar, uma história. A
primeira edição de O gua-
rany (José de Alencar, 1857)
foi um teste de paciência.
Nos anos 60, um leiloeiro
grego o ofereceu a amigos
do empresário por US$ 1
mil, mas nenhum deles se in-
teressou. Mindlin fez a en-
comenda para um livreiro de
Londres, que deixou o volu-
me escapar por achá-lo caro
demais. Em 1977, finalmen-
te ele se viu frente a frente
com a relíquia num sebo pa-
risiense. Pagou um preço es-
tratosférico, mas ao desem-
barcar em São Paulo perce-
beu que deixara o livro caí-
do no tapete do avião. Para
seu alívio, a Air France o en-
controu três dias depois, em
Buenos Aires.
Como um bom romance,
a vida de José Ephim Min-
dlin esconde uma surpresa
em cada página. "Virei em-
presário por acaso", disse a
ISTOÉ. Antes, aos 15 anos
(nasceu a 8 de setembro de
1914, na capital paulista), foi
cont ratado como repórter de
O Estado de S.Paulo e par-
ticipou da Revol ução de
1930. Como era um dos pou-
cos no jornal que falavam in-
glês, o dono de O Estado,
Júlio de Mesquita Filho, o
encarregava de passar infor-
mações por telefone aos re-
volucionários no Rio de Ja-
neiro, driblando os censores
monoglotas.
34
ISTOÉ·0 BRASILEIRO DOSÉCULO.10·EMPREENDEDOR
do o câmbio sobrevaloriza-
do reduziu bruscamente as
exportações e abriu o mer-
cado brasileiro para as auto-
peças importadas. Após três
anos amargando prejuízo,
Mindlin vendeu suas ações
em 1996. "Do ponto de vis-
ta emocional, foi muito di-
fícil. Mas, ra-
cionalmente,
deveria ter ven-
dido antes ."
Sempre com
um livro de-
baixo do bra-
ço, agradece a
Deus - embora
seja agnóstico - ao ficar
preso em congestionamento
no trânsito, para poder de-
vorar bons romances. Acre-
dita ter lido, em cálculo oti-
mista, oito mil volumes.
"Gostaria de viver 300 anos,
o que me permitiria ler de
25 a 30 mil livros." No fun-
do, Mindlin sabe que não é
qualquer um que chega aos
85 anos com tanta disposi-
ção. Todo dia caminha qua-
tro quilômetros no quintal da
casa onde mora no Brook-
lin, na zona sul de São Pau-
lo. Dá 40 voltas no pátio de
100 metros. E se dá ao luxo
de não evitar suas gulosei-
mas preferidas: chocolate,
marzipã e bala de ovo. "Não
tenho nenhuma pressa em
me separar da biblioteca",
brinca. Em caso de surpre-
sa, no entanto, já adiantou
aos filhos que gostaria de
descansar em paz num túmu-
lo que tivesse o seguinte epi-
táfio: "José Mindlin - Fabri-
cou pistões a maior parte da
vida sem saber o que eram."
HUMANISTA
Com mãe,
tio e irmãos
Ceie é o
primeiro de
chapéu à
esq.) ; acima,
a carteira de
jornalista do
Estado; após
vender a
Metal Leve,
dedica-se
inteiramente
à biblioteca
Mindlin chegou a empregar
seis mil pessoas. "Posso di-
zer, sem pretensão e água-
benta, que ajudamos a de-
senvolver o País. E sem ti-
rar um tostão dos cofres pú-
blicos." A prosperidade du-
rou até o início do Plano
Real, na década de 90, quan-
OCÊ S BI ? Filho de imigrantes judeus russos, recebeu ameaças
telefônicas de ne lstas, Estremeceu ao ver um jovem tirando
fotos de sua casa. Anotou aplaca do carro do rapaz econstatou:
odono tinha sobrenome ge â ico. "Para minha surpresa, era
apenas um estudante de Arquitetura especialista em fachadas"
teira do desenvolvimento da
indústria automobilística, a
Metal Leve se tomasse uma
potência no setor de autope-
ças. A sólida estrutura finan-
ceira, cujo segredo era evi-
tar endividamentos, permitiu
a abertura de filiais no Exte-
rior. Presidindo a empresa,
ojornalismo perdeu o ta-
lento de Mindlin quando ele
entrou ' na Faculdade de Di-
reito do Largo São Francis-
co, em 1932. Enquanto os
professores liam monótonas
preleções, o jovem estudan-
te sentava-se ao fundo da
classe para devorar a obra
do francês Montaigne - o
amor pela leitura começou
aos 13 anos , ao entrar num
sebo pela primeira vez. Nos
primeiros dias de aula do
quinto ano de curso, cru-
zou nos corredores com
uma caloura que vinha sen-
do assediada pelos vetera-
nos para entrar nos partidos
políticos da época. Ele to-
mou coragem: "Olha, tudo
isso é uma bobagem, por-
que o melhor partido sou
eu!" O casamento com dona
Guita aconteceu poucos me-
ses depois e completará 61
anos em dezembro (têm
quatro filhos e 11 netos).
Defendendo imigrantes
Formado, ele atuou 15 anos
como advogado. Durante o
Estado Novo, defendeu imi-
grantes europeus que tenta-
vam ingressar no Brasil, fu-
gindo da Segunda Guerra,
mas tinham sua entrada ne-
gada pelo governo. Em
1950, alguns clientes o pro-
curaram para redigir um con-
trato de sociedade com uma
fabricante alemã de pistões
- em tempo: são peças ci-
líndricas que "sugam" o
combustível permitindo o
funcionamento do motor.
Como os clientes desistiram
do negócio, Mindlin não per-
deu a oportunidade e assu-
miu o compromisso. Juntou-
se a outros quatro empreen-
dedores e fundou a Metal
Leve - nome escolhido em
homenagem ao alumínio,
matéria-prima do produto.
Começou com 50 funcio-
nários. Não demorou até que
Juscelino Kubitschek che-
gasse à Presidência e, na es-
ISTOÉ-o BRASILEIRO 00 SÉCULO-IO-EMPREENDEooR
35
Luiz Dumont Villares
23,32% DOS VOTOS @
P
ara domar o stress,
Luiz Dumont VilIares
- dono das Indústrias
VilIares, que fabricavam os
elevadores Atlas - recorri a
a um antídoto: voar. O tem-
perament o audac ioso era he-
rança famili ar. Corria no
sangue do "tio Alberto", ou
Sant os Dumont , o inventor
do avi ão, irmão de sua mãe.
Luiz era metido a piloto des-
de a época de estudante de
Engenharia em Zurique, na
Suíça, nos anos 20. Em
1947, comprou um mo-
nomotor que ele própri o
diri gia par a ir de São
Paul o a São José dos
Campos no inverno. Outra
diver são eram os automó-
veis. Num final de tarde, j á
na década de 60, aco mpa-
nhou o filho Paul o quando
este foi apanhar o Fusca que
dei xara na ofici na. Na volta,
ao volante de seu Jaguar, o
velho Luiz aproveitou a pa-
rada no semáforo para abrir
a janela e propor um pega:
"E um, é dois e é três..." E
pisou fundo. Só no semáfo-
ro seguinte se deu conta de
que o Fusca em seu calca-
nhar não era o do filho. Pau-
lo Diederichsen VilIares re-
lembra em depoimento a IS-
TOÉ: "Fiquei at ônito ao ver
papai passar em frent e à casa
sem entrar na garagem e um
carro a persegui-lo. Depois,
contou que o desconhecido
resolveu tirar satisfações e
ele simplesmente mandou o
sujeito lamber sabão."
Órfão duas vezes Nasci-
do na cidade do Porto (Por-
tugal) a 28 de dezembro de
1899, Lu iz foi registrado
como brasileiro no consula-
do, como revela o livro iné-
dito de Ignácio de Loyola
Brandão e Deonísio Silva,
em co me mo ração aos 80
anos das Indústrias VilIares
(completados em 1998), ao
qual ISTOÉ teve acesso. O
pai, Carlos, construiu ferro-
vias no interior do Brasil an-
tes de voltar para Portugal,
em 1894. Cantava ópera, to-
cava violino e apresentava-se
em circos por distração. Em
1911, foi encontrado morto
na cabine de um trem notur-
no que ia para Paris, episó-
dio até hoje não esclarecido.
A partir daí, outro Carlos, o
irmão mais velho, assumiu
para Luiz a figura paterna.
Em 1917, o irmão veio para
o Brasil, enquanto Luiz estu-
dava na Suíça. Carlos virou
sócio da Pirie, VilIares &
Cia., firma de São Paulo
que importava peças para
mon tar elevadores e
passou a produzi r
componentes elétri-
'" ,.. .... --olnl 11Iltl1l '1 · ...... ...... . Ui'''' • IICIt'I• aLI• • talH"
_ ·..-ut ·... . .... .__ ...
)
J
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• •   ... _ooltoocW ... dow
..
C-..e-. , Ptoc-I ..... POdo. -.-
-..- N_ ..
cIot_IéCfticOlo
Em 1966, sentiu-se mal no
metrô de Nova York. Eram
os primei ros sintomas dos
problemas circulatórios que o
matariam a 14 de junho de
1979. As dificuldades leva-
ram a empresa, em 1995, a
associar-se à Acesita e ao
grupo Sul América. E foi jus-
tamente o desinteresse dos
sócios em prosseguir no ramo
dos elevadores que levou a
holding a vender a Atlas, em
maio de 1999. "Como a em-
presa ia bem, era hora boa
para vender. A família tinha
apenas 16% da companhi a e
ficou em posição fragilizada
para tocá-Ia sozinha", afirma
Paulo Villares. Um instante
depois, como se lembrasse a
trajetória do pai, ele acres-
centa: "Vender a Atlas doeu
muito, doeu demais."
PASSEIO DE DOMINGO Era andar de
escada rolante, novidade do início dos
anos 50 (Villares produziu as primeiras
no País), como a da 24 de Maio em SP
A partir daí, o crescimento
foi vertiginoso. Batizou de
Atlas a fábrica de elevadores
e criou a Aços Villares. Eram
tempos mais amenos. Quan-
do pediu à Light um acrésci-
mo de energia elétrica, não
houve assinatura de contrato.
O presidente da Light, Odi-
lon de Souza, puxou um fio
da barba para selar o com-
promisso, que foi cumprido.
Nos anos 50, a Atlas era a
terceira do mundo e ele ga-
nhou a concorrência para ins-
talar elevadores em todos os
prédios oficiais de Brasília.
Em 1963, aceitou ser presi-
dente da Cosipa (estatal do
aço) e, quando os militares
tomaram o poder, instaura-
ram inquérito contra ele. Em
1965, a denúncia foi rejeita-
da pelo Ministério Público.
cerca em que as máquinas
eram ligadas por correias de
couro a um motor central dis-
tante. Às vezes, o rio Tietê
subia e tudo se transformava
em várzea. Então, o guarda
noturno virava barqueiro .
Fio do bigode Luiz pros-
seguia irredutível com a in-
tenção de implantar a indús-
tria, apesar das intempéries.
Passou a fabricar motores,
cabinas e portas de elevado-
res. Quando percebeu que os
fornecedores não tinham fô-
lego para acompanhá- lo, re-
solveu ele próprio produzir
peças fundidas em aço. Em
1941 , recebeu a visita do pre-
sidente Getúli o Vargas ao
inaugurar a primeira prensa
de forjamento de aço de 500
toneladas da América Latina.
cos e mecânicos. Tinha uma
companheira fiel: a motoci-
cleta. Em 1922, derrapou nos
trilhos do bonde da avenida
São João e bateu a cabeça
contra o meio-fio. Morreu aos
29 anos. Luiz sentiu-se órfão
pela segunda vez.
A princípio como funcio-
nário e logo como sócio, Luiz
ocupou o lugar do irmão na
empresa que fun cionava
numa casa apertada no cen-
tro de São Paulo. Parte da
montagem dos elevadores era
feita na calçada sob o viadu-
to de Santa Efigênia. Os cli-
entes eram conquistados no
corpo a corpo. Ao avistar um
prédio em construção, per-
guntava: "Tem elevador?"
Acontecia de, ao instalar o
equipamento, descobrir que
não cabia no poço. Na épo-
ca, usavam-se fitas métricas
importadas com medidas di-
ferentes em cada face. De um
lado, polegadas inglesas e, de
outro, polegadas portuguesas.
Em 1926, casou com Leo-
nor e aproveitou a lua-de-
mel nos Estados Unidos para
visitar a fábrica da Westing-
house. Ficou surpreso quan-
do os americanos ofereceram
a representação de um pro-
duto revolucionário, a gela-
deira elétrica. Na volta, ado-
tou agressiva e primitiva
mala direta: pegava a lista
telefônica e oferecia a Frigi-
daire a padarias, açougues e
sorveterias. "O sucesso da
geladeira permitiu a ele acu-
mular o pé-de-meia necessá-
rio para montar a fábrica do
Canindé, onde tudo come-
çou", cont a o filho Paul o.
Era um galpão sem portas ou
VOCÊ SABIA? Tinha visão futurista eintroduziu no País idéias como ada garagem
automática. "Vai chegar um momento em que estacionar será impossível eaí
precisaremos estocar carros em prédios", previu no início dos anos 50. Custou aser
entendido esó em 1960 construiu aGaragem Araújo, em São Paulo, com 25 andares para
322 automóveis. Também fabricou os primeiros trólebus (ônibus elétricos) nacionais
ISTOÉ .O BRASILEIRO 00 SÉCULO- \O.EMPREENDEOOR
37
Cláudio Bardella
indústria nacional, que cri -
tica va a crescente estatiza-
ção. "O Paí s virou um feu-
do de estatais associ adas a
multinacionais, enquanto a
nossa iniciativa pri vada fi-
cou a ver navios."
Quem o ouve falando
manso nem sequer imagi-
na as inúmeras cri ses que
suportou no comando da
empresa durante 40 anos.
Paulistano nascid o a 23 de
novembro de 1938, ass u-
miu a Bardell a S.A. ante s
de concluir o cur so de En-
genharia Indu strial Mecâ-
nica na PUC de São Paulo.
Qui s ajudar o pai , Aldo
Bardella, a passar por mai s
uma etapa difícil. "Ainda
bem que eu não vivi a pior
das cri ses, em 1929 . Se
hoje faço acupuntura para
suportar a barra, não teria
aguentado naquele tempo. "
A Bardella S.A. mant ém-
se firme e forte até hoje ,
embora as perspectivas não
sejam das melhores. "Do
jei to que as coisas vão,
tudo tende a piorar", afir-
ma. Cl áudio se queixa do
atual momento político do
Paí s, mas não esconde que
votou em Fernando Henri -
que . Arr ependido ou não,
disposição para discutir os
rumos da indústri a nacio-
nal não lhe falta. É mem-
bro do Instituto de Estudos
de Desenvolvimento Indus-
triai (Iedi), mas não ali-
menta ilusões. "Não temos
força para vender nossas
idéias porque o Brasil caiu
no cant o da sereia. Ainda
não es t amos pr ep ar ados
para a globalização."
política", diz. No entanto,
sabe bem como criar polê-
micas. Em 1977, por exe m-
plo, foi um dos aut ores do
Document o dos Oit o, ass i-
nado por pesos pesados da
22,82% DOS VOTOS
era respeitado e dificilmen-
te eu sofreria represáli as.
Assumi uma certa lideran -
ça, defendendo a abertura
para o bem das classes pro-
dutoras, mas não sei fazer
Liderança As li ções de
democr aci a ele aprendeu
na marr a. Até as vésperas
do golpe milit ar de 1964,
não queri a nem saber de
política. Estava mai s preo-
cupado em tirar do buraco
a Bardella S.A. - a mai s
antiga indústri a mecâni ca
do País, fundada em 1911
por seu avô, Ant ôni o Bar-
della. Mas após o golpe,
passou a di zer o que bem
entendesse. " Nosso setor
U
m repórter perguntou
a Cl áudi o Bard ell a,
durante uma coleti va,
em 1974, se ele era a favor
da legali zação do Partido
Comuni sta. Como se esti-
vesse dizendo a coi sa mais
óbvia do mundo, respondeu
que sim, "pois, se queremos
democracia, ela tem de ser
para todos." Na fase mais
dura do regime militar, era
a primeira vez que um em-
presár io brasil eiro ousava
dar tais declarações. "No
j antar depois da entre vista,
as pessoas desviavam de
mim, como se eu fosse um
mau elemento e tivesse li-
gações com o Partidão, o
que não era verdade", disse
ele a lSTOÉ. A fama de es-
querdi sta vinha desde 1972,
quando governav a Emílio
Garrastazu Medi ei . O em-
presário liderou a visita de
uma delegação brasilei ra à
Repúbli ca Popular da Chi -
na e ficou marcado pela li-
nha dura dos militares. Mas
a visita foi o primeiro pas-
so para que as relações di-
plomáticas entre os dois pa-
íses melhorassem.
38
ISTOÉ-o BRASILEIRO 00 SÉCULO- IO-EMPREENDEooR
AbrahamKasinski
VOCÊ SABIA? Corintiano roxo, num jogo
entre São Paulo ePalmeiras torceu para
otricolor, claro. "Me enganei efui parar
na torcida palmeirense. OSão Paulo fez
um gol , comemorei eme olharam feio. No
segundo, avisei que era corintiano enão
são-paulino. Foi pior: me quebraram todo"
NEGÓCIO NOVO
Kasinski : "Venci
todos os desafios"
contados se continuasse de-
pendendo de produtos im-
portados. Con venceu um
dos irmãos - o pai já fale-
cera - a investir numa fá-
brica e com ele criou a Co-
fap. "Ninguém queria com-
prar peça nacional. Corri o
Brasil, cidade por cidade,
para catequizar os mecâni -
cos", lembra. No início dos
anos 90, a Cofap chegou a
empregar 18 mil trabalhado-
res e exportar para 97 paí-
ses, com faturamento anual
de US$ 1 bilhão.
Briga de famOia Nem a re-
cente aber tura econômica
afetou os balanços positivos
da empresa. Para o industri-
aI - que mantém um parque
ecológico e uma fundação
com escola e centro de pes-
quisa -, o problema eram as
desavenças com os dois fi-
lhos e os sobrinhos pela su-
cessão na presidência. Um
dia, cansou das brigas e ven-
deu sua participação de II %
nas ações. Casado pela se-
gunda vez, só agora começa
a se reaproximar da família.
O empresário octoge nário
não pl anej a sossegar tão
cedo. "Quando o ' patrão'
me chamar eu espero estar
sentado atrás da mesa de
trabalho. Mas não vou acei-
tar um convite Dele tão fa-
cilmente", diz este jovem
senhor que, até dez anos
atrás, fumava três maços de
cigarro por dia e hoje não
suporta cheiro de tabaco.
que ele garante ter sido a
primeira do Brasil - , o em-
presário "aumentou" a ida-
de em dois anos para poder
cursar a faculdade de Eco-
nomia. "A carteirinha tam-
bém servia para ver filme
proibido para menores." Em
1951, ele pressentiu que a
empresa estava com os dias
sou a produzir motocicletas
e emprestou o sobrenome
para dar credibilidade aos ve-
ículos de duas rodas.
Nascido a 11 de julho de
1917 , na capital pauli sta,
Kasinski é o caçula de qua-
tro filhos de um casal de
imigrantes russos. Criado na
loja de autopeças do pai -
A
os 82 anos, Abraham
Kasinski esbanja a dis-
posição de um inician-
te no meio empresarial. Pas-
sa 12 horas por dia no escri-
tórioem São Pauloe, nos fins
de semana, respira trabalho.
Liga para a casa dos funcio-
nários e chama os assessores
para o batente. Depois de fim-
dar e presidir durante quatro
décadas a Cofap, maior in-
dústria de autopeças brasilei-
ra, ele vendeu suas ações da
empresa em 1997. Com US$
25 milhões no bolso, bem que
tentou curtir a aposentadoria.
"Lia três jornais por dia. No
final da tarde, estava lendo
até obituário e classificados
sexuais, disse ele a ISTOÉ.
Como dar fim ao tédio?
Comprou uma fábrica na
zona franca de Manaus, pas-
17,7% DOS VOTOS
ISTOÉ.o BRASILEIRO 00 SÉCULO-lO-EMPREENDEooR
39
INOVAÇÃO Descobriu a vantagem da celulose de eucalipto
laranjas para a Inglaterra.
"Nunca vendi laranja para ne-
nhum lugar", retrucou o rus-
so. Como o negócio era lu-
crativo, aceitou a empreita-
da. "No primeiro ano ganhei
bem e no segundo perdi uma
parte. Então parei com o ne-
gócio dois anos depoi s."
Eureka! Sua tipografia não
podia ir melhor, mas a pos-
sibi lidade de faltar papel no
mercado nacional deu um
frio na barriga em Feffer. Em
1940, optou por construir
uma fábrica do produto.
Como não dispunha do ca-
pital necessário, vendeu a
loj a e a casa para conseguir
dinheiro e construir um novo
negócio, que ganhou o nome
de Companhia Suzano de
Papel e Celulose, por estar
. localizado em Suzano, na
Grande São Paulo. Utilizava
celulose importada, mas logo
quis livrar-se dos fornecedo-
res estrangeiros. Depoi s de
pesquisar durante um ano
qual matéria-prima daria um
bom produto final, descobriu
as vantagens da celulose de
eucalipto.
Em 1956, Feffer exerceu
o cargo de cônsul de Israel
no Brasil. A ligação com a
comunidade judaica não pa-
rou por aí. Foi ele quem
idealizou o Hospital Albert
Einstein, em São Paulo. Em
1995, a revista Forbes o ci-
tou como o quinto homem
mais rico do planeta, com
patrimônio de US$ 1,6 bi-
lhão. Morreu a 7 de feverei -
ro de 1999, deixando dois fi-
lhos e oito netos, e empre-
sas que se estendem aos se-
tores petroquímico e de te-
lecomunicações.
Feffer preferiu alugar uma
loja no Brás, bairro de São
Paulo. Em 1930, ele resol-
veu construir um prédio para
montar uma loja e uma tipo-
grafia, dando início à produ-
ção de papéis e envelopes. O
progresso do empreendimen-
to lhe valeu até um convite
para sair do ramo e exportar
15,11% DOS VOTOS
Feffer , que comprava papel
das grandes empresas para
vender nas papelarias de São
Paulo. Visitava os clientes de
bonde e armazenava a mer-
cadoria no porão da casa alu-
gada em que morava com os
pais. O cubículo ficou pe-
queno demais para uma em-
presa com sede de crescer, e
LeooFeffer
L
eon Feffer tinha 15 anos
quando o pai, fugindo
da guerra na Rússia,
partiu para o Brasil , em
1910, e como legado deixou
sob seus cuidados a mãe e
os irmãos. Para dar de sus-
tento à família, começou a
vender nas ruas as velas e
os cigarros que fabrica va em
casa. Nascido em Rovno, na
Rússia, a 27 de novembro de
1902, aos 18 anos foi con-
tratado pelo governo comu-
nista para distribuir alimen-
tos aos flagelados da guerra.
A carta que apareceu debai-
xo da porta, certo dia, trouxe
uma novidade: o pai havia re-
metido para a embaixada bra-
sileira em Varsóvia as passa-
gens e o dinheiro para que a
família pudesse recomeçar a
vida nos trópicos. Antes de
enfrentar a viagem de 31 dias,
ele sofreu com o anti-semi-
tismo. "Na noite em que fui
a Varsóvia, alguns alemães
fugiam da cidade. Como todo
judeu, me levaram para aju-
dar a carregar armas nos va-
gões", disse certa vez.
A liberdade que faltava na
Rússia foi a principal moti-
vação. Aqui, não teve difi-
culdades para aprender o
português e soltar a boa lá-
bia de comerciante. Em
1923, com um capital de 272
contos de r éis, fundou a sua
primeir a empresa, a Leon
VOCÊ SABIA? Presidente do colégio judaico Renascença, em1940foi procurado pelos
jovens interessados em montar um clube. Feffer entusiasmou-secom aidéia eacabou
fundando omaior clube da colônia do mundo, aHebraica, em São Paulo. Consagrou-se
como patriarca da comunidade no País, tendo lutado pela criação do Estado de Israel
40
ISTOÉ .O BRASILEIRO DO SÉCULO. IO.EMPREENDEDOR
Aloysio
14,20% DOS VOTOS
o
s vidros blindados do
luxuoso Omega azul
denunciam que o pas-
sageiro não é qualquer um.
Quatro imponentes carrões
fazem a escolta, carregan-
do seguranças prontos para
reagir a uma tentativa de
assalto ou sequestro. Pare-
ce exagero, mas quando se
trata de Aloysio Faria, um
dos empresários mais bem-
sucedidos do País, é me-
lhor prevenir do que reme-
diar. Ele vendeu no ano
passado o Banco Real por
US$ 2 bilhões para o ho-
landês ABN-Amro. Além
de aplicar a bolada no mer-
cado financeiro, o que re-
sulta em ganhos astronômi-
cos num país onde os ju-
ros costumam alcançar a
estratosfera, Faria cuida do
Banco Alfa e mais 18 em-
presas, entre elas, a rádio
Transamérica e a rede de
sorveterias La Basque.
VOCÊ SABIA? Olazer do banqueiro écuidar dos cavalos. Aloysio
Faria tem ulJI haras efoi ofundador da Associação dos Criadores
de Cavalos Arabes de São Paulo, em 1964, àqual ainda se dedica
Medicina Aloysio de An-
drade Faria nasceu a 9 de
novembro de 1920, em
Belo Horizonte. Em 1925,
o pai, Clemente Soares Fa-
ria , fundou com alguns
amigos a Cooperativa de
Crédito, num a modest a
casa da capital mineira, que
no futuro ganharia a di -
mensão do próspero Ban-
co da Lavoura de Mina s
Gerai s. O rapazote poderia
simplesmente ocupar um
posto privilegiado no ban-
co do pai, mas preferiu cur-
sar Medicin a na Universi-
dade Federal de Minas Ge-
rais. Formou- se em 1944 e
chegou a cur sar p ós-gra-
duação nos Estados Uni-
dos, mas ao retornar ao
Brasil desistiu de exercer
a profissão de dout or.
Com o intuit o de dispu-
tar o bol so dos cl ientes
pauli stanos, Clemente Fa-
ri a tran sfer iu a sede do
banco da capital mineira
para São Paul o, em 1945.
Os depósitos se multiplica-
ram de tal forma que a ins-
tituição financeira se trans-
formou na quinta maior do
País. Em 1948, a morte do
patri arca fez de Aloysio,
que já ocupava uma cadei-
ra na diret or i a, o novo
manda-chuva. Como acre-
ditava que as palavras "ru-
ral" e "lavoura" poderiam
restringir a clientela unica-
mente a faze ndeiros, sua
primeira medida foi mudar
o nome do empreendimen-
to para Banco Real.
Ainda nos anos 40, o
banco financiou a constru-
ção do port o de Vitória, no
Espírito Santo. Em meados
dos anos 50, a desapropria-
ção de terra s para a cons-
trução de Brasília também
foi viabilizada pela institui-
ção. O Real foi o primeiro
banco a se instalar na ci-
dade que surgia no cerra-
do. O pioneiri smo se repe -
tiu quando Aloysio abriu a
primeira agência de um
banco brasileiro em Nova
York, em 1964. Foi ai nda
o responsável por uma ino-
vação do sistema bancário:
criou uma esc ola para a
formação de gerentes e co-
meçou a conceder empr és-
timos de Natal para os fun-
cionários. Em 1998, ven-
deu o Banco Real, com 1,4
mil agências e 17 mil fun-
cionários. O grupo finan-
ceiro remanescente tem pa-
trimôni o líquido de R$ 700
milhões, ati vos de R$ 5 bi-
lhões e administra recur sos
de R$ 4 bilhões.
ISTOÉ.o BRASILEIRO DOSÉCULO-lO.EMPREENDEDOR
41
Horácio Lafer
e desenvolveu a fabricação
de celulose, fibras têxteis e
outros produtos.
Com o crescimento da
empresa, nos anos 40, Ho-
rácio retornou à vida pú-
bl ica. Const itu inte em
1946, criticava a estrut ura
inchada do funcionalismo
público. Em 1951, Getúlio
Vargas o nomeou ministro
da Fazenda. No cargo, ele
arquitetou um plano de in-
tervenção estatal nos seto-
res em que a iniciativa pri-
vada se mostrava sem inte-
resse. No entanto, o con-
gelamento de preços como
medida de combate à infla-
ção não funcionou e Horá-
cio caiu na reforma minis-
terial de 1953 - mais tar-
de, seria ministro das Re-
lações Exteriores no go-
verno de Juscelino Kubits-
chek . Sem nunca ter se
afastado da atividade em-
presarial, morreu a 29 de
j unho de 1965, pouco de-
pois de eleito presidente
emérito da Fiesp, em re-
conhecimento pelos servi-
ços prestados à indústria.
Hoje, o grupo Klabin, Ir-
mãos & Cia. fatura R$ 1,2
bilhão por ano e tem 8,3
mil funcionários.
ISTOÉ.o BRASILEIRO DOSÉCULO-lO-EMPREENDEDOR
VOCÊ SABIA? Numa conferência sobre
economia no México, foi entrevistado
por jornalistas americanos, franceses,
espanhóis, italianos, alemães e
israelenses. Respondeu às perguntas
no idioma de cada um dos repórteres,
esbanjando expressões típicas
pois, os dois produziriam
as primeiras bobinas brasi-
leiras de papel de j ornal.
Filho de imigrantes j u-
deus lituanos, quando Ho-
rácio Lafer nasceu (a 3 de
maio de 1900, na capital
paul ista) j á encontrou uma
oficina tipográfica funda-
da pelo pai e três primos
dele, os irmãos Klabin.
Bacharel pel a Faculdade
de Direito do Largo de São
Francisco, bem que arru-
mou alguns clientes como
advogado, mas não lhe ca-
bia outro destino senão as-
sumir a fabriqueta de pa-
pei da família.
Incentivos à indústria
Respeitado nos meios em-
presariais, ele fez parte da
primeira diretoria do Centro
das Indústrias do Estado de
São Paulo, fundado em
1928, e da Confederação In-
dustriai do Brasil, de 1933
(transformada na atual CNI).
Eleito deputado federal, Ho-
rácio pautou-se pela defesa
de medidas protecionistas à
indústria nacional, mas de-
sanimou da atividade parla-
mentar com a instauraçãodo
Estado Novo. Voltou a cui-
dar dos negócios da Klabin
13,61 %DOS VOTOS
Klabin e Horácio Lafer te-
rão condições de cumprir
os prazos estabelec idos.
São os únicos que fazem
pesquisas na área e já têm
seis milhões de pés de arau-
cária plantados no Paraná."
Getúlio gostou da sugestão:
"A fábrica será deles. Que-
ro falar com essa klabinza-
da amanhã." No dia seguin-
te, o empreendimento foi
acertado. Cinco anos de-
TEMPOS DA
BRILHANTINA
Era conhecido
por trajar-se
impecavelmente
Q
uando explodiu a Se-
gunda Guerra Mun-
dial, o preço do pa-
pei subiu 40% em poucos
dias. Para enfrentar a crise,
os jornais tiveram de redu-
zir sua tiragem. Disposto a
estancar a sangria de divi-
sas provocada pela impor-
tação do produto, o presi-
dente Getúlio Vargas deci-
diu financiar uma grande
fábrica de papel. O primei-
ro cogitado para imple-
mentá-Ia foi o dono
dos Diários Associ-
ados, Assis Cha-
teaubriand, que re-
cusou a proposta.
Mas ele disse ao
presidente: "Só
os primos Wolf
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