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41036 – Introdução às Ciências

Sociais

Apontamentos de: Jorge Loureiro
E-mail: jorgel@sapo.pt
Data: 11.06.2008

Livro: Introdução às Ciências Sociais – Vol. I (Óscar Soares Barata)

Nota: Matéria referente ao ano lectivo 2007-2008 (Dr.ª Ana Paiva)
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1. O DOMINIO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
1.1. A especificidade do social como campo
de estudo
1.1.1. Características dos factos sociais no
conjunto da acção humana
As ciências sociais interessam-se especificamente pelos modos de
actuar que andam associados à vida em grupo, embora possam
manifestar-se por intermédio dos indivíduos.
Isto pressupõe naturalmente a possibilidade de identificar e separar com
rigor na vida dos homens o social do individual, o que constitui um
problema que tem sido enfrentado por diversas formas na literatura
especializada.
No critério de Emile Durkheim devem considerar-se como factos sociais
os modos de agir e as representações que são exteriores ao indivíduo, e
com os quais este tem de conformar-se por efeito da vida em grupo.
Apresentam-se como modelos de acção e valores em que a pessoa é
criada e educada pelo grupo e em relação aos quais apenas se toleram
desvios limitados.
• Exterioridade – Os factos sociais são preexistentes ao indivíduo e
como tal devem considerar-se exteriores a si próprio.
• Coacção – Os factos sociais são coercivos porque visam canalizar os
impulsos espontâneos do indivíduo no sentido aprovado pela
sociedade.
Por isso, em As Regras do Método Sociológico, Durkheim caracteriza os
factos sociais nos termos seguintes: «Aqui temos pois uma ordem de
factos que apresentam características muito especiais: consistem em
maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores ao indivíduo e são
dotados de um poder de coerção em virtude do qual se lhe impõem.
Constituem, pois, uma espécie nova, e é a eles que deve ser dada e
reservada a qualificação de sociais. É a que lhes convém; pois é claro
que não tendo o indivíduo por substrato não podem ter outro que não
seja a sociedade, quer seja a sociedade política no seu todo, quer seja
um dos grupos parciais que ela engloba, confissões religiosas, escolas
políticas, literárias, corporações profissionais, etc. Eles são, pois, o
domínio próprio da sociologia. É verdade que esta palavra coacção, pela
qual os definimos, corre o risco de afrontar os partidários zelosos de um
individualismo absoluto. Como professam que o indivíduo é
perfeitamente autónomo, parece-lhes que o diminuímos cada vez que
lhe fazemos sentir que não depende apenas de si próprio. Mas pois que
é hoje incontestável que a maior parte das nossas ideias e das nossas
tendências não são elaboradas por nós, mas nos vêm de fora, elas não
podem penetrar em nós senão impondo-se-nos; é tudo o que significa a
nossa definição.»
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1.1.2. Determinação de factos sociais
Um exemplo privilegiado parece decorrer da noção de papel social, que
é hoje um conceito básico da análise em sociologia, em psicologia social
e em antropologia social.
• Papel social – por analogia com o papel ou a parte desempenhada
pelo actor na representação teatral, expressão que designa um
conjunto de comportamentos que anda associado à posição de cada
pessoa na teia das relações sociais. É certo que cada um integra os
seus vários papéis segundo o estilo que resulta das suas próprias
tendências individuais, mas todos têm ao mesmo tempo de se
conformar com o modelo que lhes é proposto em cada teia de
relações.
O que se tem em vista com esta noção entende-se facilmente se
pensarmos que cada um de nós é simultaneamente participante em
certa actividade, membro de uma família, companheiro em vários grupos
de amigos, e assim por diante. O mesmo indivíduo que num lugar é
professor ou aluno, em casa é chefe de família ou dependente, noutros
lugares exerce uma actividade política ou desportiva, noutros ainda
participa em círculos de amigos com características diversas em que
pode ocupar posições várias consoante o seu dinamismo e prestígio. É
sabido que o sexo e a idade implicam papéis sociais específicos, mas
também é fácil de ver que os comportamentos que se esperam do pai ou
do chefe de família são diferentes dos do filho, como o são os do
professor e do aluno, e assim por diante. É claro que existem para cada
caso modelos de comportamento que os outros aguardam que cada um
observe. Por isso também facilmente se vê que há na teia das relações
sociais modelos ou padrões de comportamento correspondentes às
situações de cada um e que são substancialmente independentes dos
indivíduos que as ocupam.
Ralf Dahrendorf, que dedicou a este tema um ensaio justamente famoso,
Homo Sociologicus, salienta que há que distinguir a posição social e o
papel social.
• Posição social – Qualquer lugar num campo de relações sociais.
Escreve assim: «Toda a posição leva consigo certos modos esperados
de comportamento; toda a posição que a pessoa ocupa requer que ela
faça certas coisas e exiba certas características; a toda a posição social
pertence um papel social». As expectativas da sociedade em relação a
cada papel analisam-se em dois tipos:
• as expectativas de comportamento (o que chama role behaviour ou
comportamento de cada papel); e
• as expectativas de apresentação e características (o que chama role
attributes ou atributos de cada papel).
O papel de chefe de família compreende as expectativas de
comportamento em relação aos diversos membros da família (mulher,
filhos, parentes mais idosos, parentes afastados, etc.), em relação aos
vizinhos da família, em relação à colectividade, e assim por diante. A isto
chama os role segments, ou segmentos do papel.
As diversas expectativas do papel implicam em regra diferentes graus de
conformidade. Umas são de observância rigorosa e não podem deixar de
respeitar-se, sob pena de sanções pesadas para o infractor. Dahrendorf
distingue três tipos, que, na versão inglesa do seu ensaio, designa
respectivamente por
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• must-expectations (obrigatórias),
• shall-expectations (que devem cumprir-se) e
• can-expectations (que podem cumprir-se).
As must-expectations, que constituem a base do papel, estão em regra
codificadas. No caso dos exemplos que temos vindo a usar, a lei define
os deveres do chefe de família ou do professor, deveres com que, em
caso de desrespeito persistente, pode ser obrigado a conformar-se, quer
por via legal, quer pela censura da opinião colectiva. As shall-
expectations estão próximo das expectativas obrigatórias e a sua
observância integra o comportamento necessário para ser tido por
elemento efectivamente respeitável do grupo. Quanto às can-
expectations, integram os comportamentos que podem ou não seguir-se,
mas que na verdade não podem desrespeitar-se sistematicamente sob
pena de marginalização. O que as não respeita é o que «não coopera»,
«não liga», «não se interessa», enquanto aquele que as respeita é
considerado como tendo boa vontade, o que «faz mais do que a sua
parte», e que por isso é geralmente estimado.
A constelação de papéis sociais indicam muito sobre o indivíduo e
circunscrevem de facto, pela definição consensual que lhes corresponde,
a área em que pode afirmar-se a sua individualidade, que, como
veremos, é ela própria substancialmente vazada pela educação em
moldes definidos colectivamente.
Assim a sociedade espera do pai que dedique algum do seu tempo livre
aos filhos. Mas a forma de ocupar esse tempo pode ser resolvida por
diversos modos: conversa, jogos, passeios, etc. Mas a verdade é que as
diversas formas que podem ser seguidas são realmente definidas por
aquilo que «é costume os pais fazerem com os filhos» nas horas livres,
coisa que tem um conteúdo cultural substancialmente bem delimitado.
Dahrendorf identifica, aliás, três componentes do elemento de liberdade
deixado pela constelação de papéis sociais a que o indivíduo tem de
corresponder:
a) a liberdade que resulta de o papel não estar definido com rigor na
sua totalidade;
b) a liberdade que decorre do facto de as exigências do papel serem
definidas sobretudo por exclusão, como coisas a não fazer;
c) a possibilidade que o indivíduo tem de influenciar o meio social em
que vive e por aí de modificar o conteúdo do papel.
Os papéis sociais resultam das posições sociais e estas são, para
Dahrendorf, basicamente de dois tipos:
• as ascribed positions, ou posições atribuídas – Quase todas as que
resultam de características físicas ou acidentes de nascimento. É-se
de um sexo, de sucessivas classes etárias, de certa família, de uma
dada classe social, cidadão de certo país e assim por diante, e
• as achieved positions, ou posições alcançadas – Decorrem do
trabalho, dos estudos, do mérito de cada um. De facto, a distinção
nem sempre é clara e a mesma posição pode ser nuns casos
atribuída e noutros alcançada. Assim a posição de Chefe de Estado
pode ser atribuída, como acontece nas monarquias hereditárias, ou
pode ser alcançada por reconhecimento de méritos próprios,
segundo uma das diversas fórmulas concretas estudadas pelo Direito
Constitucional.
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O papel social é o ponto de encontro do indivíduo e da sociedade. É
através dele que se afirma o que Dahrendorf chama the vexatious fact of
society, o carácter coercivo do social, que, como se viu, já Durkheim
identificava como característico. É claro que por ser coercivo não
significa que seja desagradável ao indivíduo. A integração numa teia de
posições e papéis sociais pode ser na verdade sentida como uma
restrição a uma desejada liberdade de movimentos, mas também pode
ser experimentada como um apoio que dá o conforto da segurança.
O que parece certo é que o conteúdo do social não resulta da média dos
comportamentos individuais, mas sim de certos modelos com que esses
comportamentos têm, em larga medida, de conformar-se. O conteúdo do
social tem de encontrar-se pela identificação do homo sociologicus,
definido em termos de posição social e de papel social, e que é para
Dahrendorf a unidade básica da análise sociológica. Escreve, com efeito:
«Não há maneira de chegar, a partir do que o indivíduo faz, ou até faz
regularmente, ao facto da sociedade, o qual é em princípio independente
do indivíduo. A soma e a média das acções individuais é tão incapaz de
explicar a realidade da lei e do costume como o consenso verificado por
entrevistas. A sociedade é um facto, e na verdade um facto coercivo,
precisamente porque não é criada nem pelos nossos impulsos nem pelo
nosso comportamento habitual.»
É claro que isto significa que para chegar ao entendimento dos papéis
sociais é necessário identificar os grupos a que se reportam as
expectativas de comportamento. Como a cada segmento de um papel
corresponde um ou mais grupos, a dificuldade apenas se transfere para
outro plano, pois é necessário graduar os diversos grupos com base na
sua importância na definição dos papéis.
As normas e sanções relevantes são definidas por grupos diferentes
consoante os vários tipos de expectativas de comportamento. As
expectativas obrigatórias, que correspondem a comportamentos
codificados nos textos legais, implicam uma definição pela sociedade no
seu conjunto. As outras expectativas, que implicam maior liberdade de
observância, podem ser definidas pelo costume ou pelo consenso no
seio de grupos com maior ou menor latitude, desde a associação
profissional aos grupos de camaradagem ou vizinhança.
O que é claro é que o entendimento das posições e papéis sociais é
dado pelo sentido de que se revestem em referência às normas e
sanções em vigor na sociedade em que as pessoas se integram.
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2. CONHECIMENTO E EXPLICAÇÃO NAS
CIÊNCIAS SOCIAIS
2.1. A acção social e a sua interpretação
2.1.1. Características da acção social e as
condições da sua interpretação
Max Weber explica que o significado das acções sociais, que são
aquelas que têm em conta o comportamento dos outros, pode entender-
se por duas formas:
1) Pode ser o próprio significado ou sentido inerente à acção de um
indivíduo ou à média das acções de um conjunto de indivíduos;
2) O sentido subjectivo atribuído pela interpretação teórica aos
movimentos dos actores na análise hipotética de um certo tipo de
comportamento.
Esclarece logo que «em caso nenhum se refere a um significado
objectivamente “correcto” ou um que seja “verdadeiro” em algum sentido
metafísico. É isto que distingue as ciências empíricas da acção, como a
sociologia e a história, das disciplinas dogmáticas desse campo, tais
como a jurisprudência, a lógica, a ética e a estética, que procuram
determinar os significados “verdadeiros” e “válidos” ligados aos seus
objectos de estudo». È, pois, evidente que se trata de um sentido social
e não de um sentido absoluto. A acção dotada de sentido compreende
todos os comportamentos, quer sejam «intervenções positivas» ou
omissões, ou simples posições de passividade, quer se trate de actos
exteriores ou de reacções interiores. Mas nela não se compreendem as
acções que correspondem ao que Max Weber designa por
«comportamento meramente reactivo», que é o simples efeito de uma
reacção a um estímulo exterior. Tem naturalmente o cuidado de
esclarecer que muitos comportamentos sociais são de tipo intermédio,
especialmente aqueles que resultam das tradições existentes, e que por
isso nem sempre é fácil separar com rigor as acções dotadas de um
sentido subjectivo daquelas que não possuem tal sentido.
Entendidas por esta forma as acções sociais podem ser classificadas em
quatro tipos segundo «o modo de orientação»:
a) acções racionalmente orientadas «para um sistema de fins
individuais discretos», ou seja, aquelas que se orientam em função
de expectativas relativas a objectos exteriores ou a outros indivíduos,
e que por isso implicam a consideração dos meios para alcançar um
dado fim;
b) acções racionalmente orientadas para um valor absoluto, que são
aquelas que resultam puramente de convicções «éticas, estéticas ou
religiosas»;
c) acções orientadas por considerações afectivas, de que são exemplo
privilegiado as que resultam de estados emocionais ou de
sentimentos;
d) acções orientadas pela tradição, a qual, através da prática
continuada, define determinados comportamentos.
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O que mostra que são todas acções que podem reconduzir-se ao
conceito de comportamentos dotados de sentido por referência às
normas e sanções colectivas. Que estes sejam os tipos de acções
dotadas de sentido que principalmente interessam à ciência social não
exclui que também tenham de ter-se em conta no estudo social os
numerosos tipos de acções meramente reactivas, e destituídas por isso
de significado. Escreve, com efeito, Max Weber: «Em todas as ciências
da acção humana têm de ter-se em conta os processos e fenómenos
que são destituídos de significado, sob a forma de estímulos, resultados,
circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis». Ser destituído de
significado não é idêntico com ser destituído de vitalidade ou não
humano; qualquer artefacto, como por exemplo uma máquina, só pode
ser entendido em termos do sentido que a sua produção e uso tiveram
ou terão para a acção humana; um significado que pode derivar de uma
relação com propósitos extremamente variados. O que nele é inteligível
ou compreensível é assim a sua relação com a acção humana, quer
como meio, quer como fim; uma relação de que pode dizer-se que o
actor ou actores estão conscientes e em função da qual a sua acção foi
orientada. Só em termos de tais categorias é possível entender objectos
desta espécie. Por outro lado, processos ou condições, animados ou
inanimados, humanos ou não humanos, são neste sentido destituídos de
significado na medida em que não possam ligar-se com um objectivo
consciente. Quer dizer, são destituídos de sentido se não podem ser
relacionados com a acção sob a forma de meios e fins, mas constituem
apenas estímulos, circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis.»
É óbvio, pois, que a ciência que, na definição de Max Weber, procura o
entendimento das acções com vista a encontrar «uma explicação causal
do seu desenvolvimento e dos seus efeitos», tem de dedicar o principal
dos seus cuidados ao sentido ou significado dessas acções. A
compreensão pode realizar-se por duas formas:
1) a compreensão por entendimento observacional directo de certas
ideias ou comportamentos. É a que se verifica quando nos damos
conta de um estado de zanga de outrem pela sua expressão facial;
2) a compreensão explicativa que resulta do entendimento dos motivos
que guiam o agente. É a que consiste em ligar um acto observado a
uma certa constelação de motivos. Assim o estado de zanga de que
se dá conta pela expressão facial é explicado por se ter verificado
certo acontecimento que o originou.
É claro que há que destrinçar de entre as várias compreensões
explicativas que podem enunciar-se aquela que efectivamente
corresponde aos factos observados. Isto é em si difícil, quer porque
muitas vezes nem o próprio agente tem consciência dos motivos que o
guiam, quer porque acções que podem parecer ao observador inspiradas
por motivos análogos podem, ao nível do agente, enraizar em «vários
complexos motivacionais», quer ainda porque os agentes podem estar
na verdade influenciados por motivos diversos e opostos. Por isso é
necessário controlar a hipótese interpretativa por meio de uma
observação renovada dos factos, que corresponde basicamente a uma
experiência. Como tal não é muitas vezes possível, tem de partir-se da
análise de um número suficiente de casos concretos comparáveis.
Para haver uma boa explicação requer-se que seja adequada ao nível
do significado e causalmente adequada.
Como explica Max Weber, «aplicamos o termo adequada ao nível do
significado à interpretação subjectiva de um processo coerente de
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conduta quando e na medida em que, de acordo com os nossos modos
habituais de pensar e sentir, as suas partes componentes tomadas nas
suas relações mútuas se reconhecem constituir um complexo “típico” de
significado. É mais comum dizer “correcto”. A interpretação de uma
sequência de acontecimentos será, por outro lado, designada por
causalmente adequada na medida em que, de acordo com
generalizações formuladas a partir da experiência, há a probabilidade de
que sempre ocorrerá na prática da mesma maneira».
No exemplo dado por Max Weber adequada ao nível do significado é a
interpretação que, de acordo com as regras correntes do raciocínio
lógico, se dá à solução pelo agente de um problema aritmético.
Causalmente adequada é a explicação que assenta na determinação
concreta a partir de um número suficiente de casos da probabilidade de
o mesmo problema vir a ser resolvido por forma certa ou errada.
O que é de qualquer modo necessário para haver interpretação causal
adequada é simultaneamente que a interpretação se ajuste às
sequências e regularidades reveladas pelos factos e seja capaz de
evidenciar o significado das relações verificadas. Como observa ainda
Max Weber, a qualquer generalização, «se faltar o ajustamento ao
significado, então, embora possa ser muito alto o grau de uniformidade e
embora possa determinar-se numericamente com muita precisão a
probabilidade, continua a ser uma probabilidade estatística
incompreensível, quer lide com processos manifestos ou com processos
subjectivos. Por outro lado, mesmo o mais perfeito ajustamento ao nível
do significado só tem relevância causal de um ponto de vista sociológico
na medida em que haja alguma forma de prova da existência de uma
probabilidade de que a acção de facto normalmente toma o caminho que
se sustenta ser significativo.
«As uniformidades estatísticas só constituem tipos de acções
compreensíveis no sentido adoptado nesta análise, e por aí só
constituem “generalizações sociológicas”, quando podem ser olhadas
como manifestações do significado subjectivo compreensível de um
processo de acção social. Reciprocamente, as formulações de um
processo racional de acção subjectivamente compreensível só
constituem tipos sociológicos de processos empíricos quando podem ser
empiricamente observadas com um grau de aproximação significativo.
Infelizmente não é certo que a probabilidade efectiva da ocorrência de
um dado processo de acção aparente seja sempre directamente
proporcional à clareza da interpretação subjectiva.»
Para Max Weber a certeza ou evidência do entendimento da realidade
que se observa pode alcançar-se por duas vias:
a) ou pelo entendimento racional, que pode ser lógico ou matemático;
b) ou pela determinação «emocionalmente empática ou artisticamente
apreciativa».

2.1.2. Problemas na interpretação da acção
social
O primeiro problema é o saber o que realmente se tem em vista quando
se fala de explicações causais. O segundo é o de saber em que medida
o estudo da realidade social pode conduzir a um conhecimento objectivo.
É visível, com efeito, por um lado, que nas ciências sociais as
explicações causais têm de ser menos seguras do que é corrente nas
ciências da natureza. As relações entre fenómenos naturais podem ser
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em regra determinadas com rigor e, uma vez adequadamente
formuladas, verificam-se todas as vezes que se reunam as mesmas
circunstâncias em que inicialmente se observaram. Ora, no domínio
social não apenas é difícil desmontar inteiramente os obscuros
complexos motivacionais que podem encontrar-se na base da acção,
como também não são em regra seguras as conclusões sobre as
regularidades de comportamento que podem observar-se, em virtude da
substancial autonomia dos intervenientes em cada processo de
comportamento. O que tudo põe obviamente em causa a regra da
generalidade que está na base do conhecimento científico.
Por outro lado, também é visível que o tipo de explicação da realidade
próprio das ciências sociais passa pelo entendimento do significado
subjectivo das acções humanas nas suas diversas formas. O que quer
dizer que o estudioso não apenas tem de lidar com complexos
motivacionais em si difíceis de analisar, e até variáveis por efeito da
relação social que naturalmente pode estabelecer-se entre observador e
o observado, como também que o observador pode com facilidade ser
afectado no seu entendimento dos factos, pela própria qualidade
«emocionalmente empática» a que é necessário recorrer com frequência
para lhes explicar o sentido.
Este é propriamente um problema básico da epistemologia das ciências
sociais, pois que a primeira condição da ciência empírica é ser objectiva,
o que significa justamente que ela visa um conhecimento expresso sob a
forma de relações entre pessoas ou coisas que resultem somente das
circunstâncias em que estas se encontrem e por isso em termos de
independência das preferências ou inclinações do observador. O que
desde sempre a ciência procura é ir, para além das noções imediatas da
experiência dos homens, até aos mecanismos subjacentes que
determinam os factos. Não será em todos os casos passar de
impressões qualitativas a constatações quantificadas, mas é sempre
passar das opiniões aos factos rigorosamente verificados. Ora que pode
esperar-se como objectividade na rigorosa verificação dos factos em
ciências em que o observador está tão profundamente envolvido no
significado dos próprios factos?

2.2. Condições do valor científico do
conhecimento das ciências sociais
2.2.1. Posições relativas às condições de
cientificidade das ciências sociais
A atitude de base de que parte a crítica é a que tem sido designada por
cientismo ou naturalismo, por entender que o único modelo que pode
tomar o conhecimento científico é o das ciências da natureza. É o que
tinha em vista Auguste Comte quando, com o seu Curso de Filosofia
Positiva (1830-1842), se lançou à obra de implantar o método positivo no
estudo dos factos sociais.
Para Wilhelm Dilthey as ciências sociais são Geisteswissenschaften,
ciências do espírito, que requerem um estudo a partir da experiência
interna, apoiada na própria vivência, ao invés das ciências da natureza,
nas quais se parte da experiência externa. As ciências do espírito
distinguem-se pela historicidade, ou seja, pelo facto de a realidade com
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que lidam ser definida por uma combinação de circunstâncias, que é
fruto de um processo histórico, e ser ao mesmo tempo feita de
combinações únicas, particulares, não repetidas. A historicidade está,
com efeito, sempre presente nos actos dos homens, que se inscrevem
numa sucessão de acontecimentos anteriores que lhes delimitam o
sentido. Por isso as ciências do espírito devem apoiar-se na
inteligibilidade histórica, que se realiza por duas formas.
1. através do estudo dos factos como combinações singulares de
acontecimentos, procurando explicar as condições que lhes deram
origem e apurar as regras e fins do seu desenvolvimento.
2. analisando os actos e instituições que são objecto de estudo no
contexto das intenções que os inspiram e por aí dos valores que lhes
servem de referência, eles próprios com conteúdo constituído
historicamente.
O objecto das ciências do espírito não é para Dilthey descortinar o
sentido profundo do devir humano, à imagem do que se tem procurado
fazer com a filosofia da história, mas sim explicar os factos pelos
acontecimentos que os precedem e pelas circunstâncias sociais em que
se verificam. O sentido interno da história só pode ser dado pelo homem,
cuja psicologia é finalmente a raiz de todos os comportamentos.
Como explica Julien Freund, na sua síntese do pensamento de Dilthey,
«pelo contrário, a realidade é única, mas não se deixa apreender de uma
maneira única, como pretende o naturalismo. Ela é acessível, por um
lado, à experiência externa e, por outro, à experiência interna, as duas
formas sendo igualmente legítimas, sem que uma possa abolir a outra.
Se a natureza está sujeita às condições da consciência, esta, por seu
lado, está sujeita às condições da natureza».
Julien Freund é de parecer que é errado considerar Dilthey como
expositor do estudo do individual, por contraste com o objectivo, que
geralmente se reconhece à ciência, de chegar a generalizações, e como
teórico de uma distinção rígida entre a explicação e a compreensão.
Nota na verdade que a análise de tipos individuais tem em Dilthey
implícita a procura de uma teoria geral que abranja vários tipos e que a
compreensão é um instrumento da explicação, na medida em que
ultrapassa o simples apoio que esta possa encontrar nas manifestações
exteriores dos fenómenos.
A verdade é que o longo e copioso debate sobre o problema do
conhecimento nas ciências sociais pode realmente reconduzir-se a duas
teses fundamentais: o naturalismo e o historicismo.
• Naturalismo – Tese (no sentido epistemológico) de que não existem
outras formas de conhecimento científico válido do que as definidas a
pouco e pouco pela experiência das ciências da natureza.
Como observa von Hayek, «os métodos que os cientistas ou os homens
fascinados pelas ciências naturais têm tantas vezes tentado impor às
ciências sociais não são sempre necessariamente aqueles que os
cientistas de facto seguem no seu próprio campo, mas mais aqueles que
eles julgam ter empregado. Isto não é necessariamente a mesma coisa.
O cientista reflectindo e teorizando acerca do seu procedimento nem
sempre é um guia digno de confiança».
• Historicismo – Tese (no sentido metodológico) de que o objecto das
ciências sociais é o estudo de acontecimentos que são, na sua real
complexidade, factos individuais, combinações de circunstâncias que
se não repetem.
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O que traz consigo o repúdio da ideia comum de que o único objecto do
conhecimento científico é o estudo do geral, como aliás quer o
naturalismo. Para esta corrente é também um objecto legítimo da ciência
o estudo e reconstrução pensada e interpretativa dos complexos únicos
de factos que constituem os acontecimentos sociais.
Heinrich Rickert, que foi um dos principais expositores do historicismo e
teve substancial influência na orientação metodológica de Max Weber,
nota que o conhecimento humano procede em regra por dois caminhos
na abordagem do real:
1) Ou considera várias coisas diversas pelos seus aspectos comuns,
procurando constituir géneros,
2) ou considera várias coisas pelos seus aspectos particulares, pondo
em evidência o que as torna diferentes e únicas.
A forma generalizante é a das ciências da natureza. A forma
individualizante é a das ciências que Dilthey chamava ciências do
espírito e que Rickert prefere designar por ciências da cultura.
As primeiras são nomotéticas, visam chegar à formulação de leis gerais
sobre os factos. As segundas são ideográficas, interessam-se pela
descrição do que é único.
O real é infinito tanto intensiva como extensivamente, e por isso
inesgotável.
O que unicamente pode fazer a ciência é isolar certos aspectos para fins
de interpretação com a ajuda de um sistema de conceitos. Em qualquer
dos dois grandes tipos de ciências os dois procedimentos podem ser
utilizados, pois é possível no domínio das ciências da natureza
considerar um facto pelos seus aspectos únicos, assim como é possível
no domínio das ciências da cultura considerar diversos factos pelos seus
aspectos comuns. Que uma ou outra orientação predomine é uma
questão de conveniência definida pelas exigências de uma adequada
explicação em cada caso.
As ciências da cultura acentuam em regra o aspecto único dos
acontecimentos, embora possam por vezes preferir o caminho da
generalização. Como tal, é método que não está excluído do seu âmbito.
O critério orientador terá de ser o que resulte das exigências da
explicação.
Para que um acontecimento possa considerar-se relevante no âmbito
das ciências da cultura carece de caracterizar-se simultaneamente pela
unicidade, pela originalidade e por constituir uma totalidade indivisível.
Assim, uma personagem histórica ou um acontecimento como a
Revolução Francesa constituem uma unidade neste sentido. Com a
originalidade definida por constituírem em cada caso singularidades
culturais distintas de outras singularidades culturais. E, ainda, uma
personalidade histórica, nos diversos elementos que a conformam e nos
actos em que se afirma, ou um acontecimento integrado por diversos
factos e relações, como é a Revolução Francesa, constituem uma
totalidade indivisível, um conjunto que perde o sentido se for repartido
nos diversos elementos que o integram.
Mas também é claro que uma análise adequada de tais casos únicos
requer a sua inserção numa série de factos que os precedem.
O que finalmente caracteriza os factos com que lidam as ciências da
cultura é estarem ligados a valores. E por isso aí a explicação consiste
numa referência dos factos observados aos valores que efectivamente
são postos em causa nas circunstâncias concretas em que se verificam.
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Como explica Julien Freund na sua exposição das concepções de
Rickert, «estes valores não têm, pois, de ser inventados pelo estudioso,
mas ele recolhe-os com o fenómeno que constitui o objecto da sua
pesquisa. A referência aos valores desempenha assim um triplo papel:
1. constitui o critério da escolha entre o essencial e o acessório;
2. é o princípio da individualização, pois que todo o fenómeno cultural
se define por referência aos valores;
3. permite dar um sentido ao objecto analisado, por o integrar num
conjunto».

2.2.2. As formas da explicação científica
A teoria hipotético-dedutiva sustenta que a explicação científica tem de
apoiar-se na formulação de leis gerais, entendidas como hipóteses
acerca da ordem natural das coisas, das quais se deduzem as
consequências que podem esperar-se dadas certas condições. O que
significa que a explicação a que chega é do tipo seguinte: verificado
certo acontecimento, dada a lei geral aplicável, têm de esperar-se
necessariamente certas consequências.
De modo que uma explicação científica da forma hipotético-dedutiva
deve satisfazer a três condições:
a) que a proposição que define a lei geral e as condições iniciais seja tal
que acarrete a conclusão;
b) que as premissas sejam verdadeiras ou pelo menos suficientemente
fundamentadas;
c) que a explicação seja verificável empiricamente, para que possa ser
desmentida se for caso disso.
O que por sua vez conduz a que qualquer explicação deva ser formulada
com respeito de três regras:
a) a explicação deve ter forma dedutiva;
b) as razões indicadas devem ter aplicação geral a todos os casos
idênticos;
c) as leis gerais invocadas devem ser regularidades observadas de
facto.
Como mostra Alan Ryan, isto tem implícito dois outros pontos.
1. que as generalizações sejam nomotéticas e não enumerativas, ou
seja, que possam aplicar-se a todos os casos idênticos e não se
limitem a enumerar as características do caso em estudo.
2. que se trate de relações causais e não de relações lógicas,
entendendo-se por relação causal aquela que afirma que dada uma
mudança em certa propriedade se verificará necessariamente
mudança em outra propriedade dela logicamente independente.
A regra de que as explicações devem reportar-se a regularidades
observadas de facto tem a maior importância para decidir do valor da
explicação em ciências sociais, e por isso é relevante notar que pode
razoavelmente entender-se que não é necessária para haver explicação
científica. Com efeito, como mostra Alan Ryan, em primeiro lugar muitas
regularidades de facto mostram apenas como os factos se verificam,
indicam que dados certos acontecimentos outros se seguem, não
indicam porque se verificam, e nessa medida não são, pois, condição da
explicação. Mostrar que certo fenómeno se verifica segundo certa
regularidade estatística não é explicá-lo, é apenas fornecer um elemento
para a sua eventual explicação. Em terceiro lugar as afirmações de
regularidades de facto não são na verdade explicações causais, mas
14

podem apenas tomar-se como ponto de partida para a formulação de
narrativas causais, ou seja, descrições de sucessão de fenómenos que
possam conduzir a eventuais fórmulas de explicação.
Uma condição da explicação científica que não pode ser afastada é,
porém, a de que a explicação seja formulada em termos tais que possa
ser verificada empiricamente, para que possa ser desmentida se for caso
disso. Uma explicação empírica, que tem de ser geral para os factos do
tipo a que se refere, será aceite sempre condicionalmente, como
hipótese sujeita à confirmação da experiência. Quando surgir um facto
em que as consequências que dela decorrem se não verifiquem terá de
ser substituída ou completada com outra explicação que se ajuste
melhor aos factos.
É claro que esta condição ignora uma outra forma da explicação
científica que é a explicação probabilística, cuja lógica é talvez menos
rigorosa do que a da teoria hipotético-dedutiva mas que tem hoje larga
aplicação tanto nas ciências da natureza como nas ciências sociais.
Pode dizer-se, com efeito, que a explicação probabilística não é
dedutivamente válida porque as premissas em que assenta não são de
comprovada universalidade. Mas nem por isso é inteiramente inaplicável.
A explicação probabilística, que não é válida para todos os casos
individuais, é válida para certas classes de casos no seu conjunto.
Não parece razoável recusar-lhe a qualidade de científica, pois toda a
ciência parte de aproximações que vão sendo tornadas cada vez mais
rigorosas à medida que melhor se esclarecem as relações entre os
factos.

2.2.3. Condições da explicação nas ciências
sociais
Não pode contestar-se que o comportamento é afectado por elementos
psicológicos, mas a verdade é que pode mostrar-se que as explicações
psicológicas apoiam-se mais em motivos, isto é, em razões para fazer ou
não fazer certas coisas, do que em causas actuando mecanicamente.
Ora é muito relevante para a lógica da explicação notar, como aponta
Alan Ryan, que «uma importante diferença entre razões e causas é que
as razões podem ser avaliadas como boas ou más, próprias ou
impróprias, enquanto uma causa enunciada só pode ser ou não ser a
causa do que quer que se estiver a explicar».
Por outro lado, não parece poder negar-se a margem de escolha que a
todos é deixada na orientação das suas próprias acções.
Uma forma de abordar o problema é ter em conta que os
comportamentos sociais são resultantes de regras colectivas e não
procedentes de regularidades causais. As regras e valores são
interiorizadas com a própria aprendizagem de uma língua e com a
criação em dado meio social. Explicar as acções é esclarecer-lhes o
sentido em relação às regras e valores colectivos e pôr à luz as regras e
valores colectivos subjacentes aos comportamentos. O sentido das
regras e valores que, por sua vez, precisa de ser esclarecido reporta-se
naturalmente às características do conjunto formado pela sociedade em
que os indivíduos se inserem. Por isso são hoje correntes em algumas
das ciências sociais, como a sociologia ou a antropologia cultural,
explicações que se dizem holistic (do inglês whole, que significa
totalidade) por serem relativas à totalidade social. Noutras ciências
15

sociais, como a demografia ou a econometria, tal preocupação é
naturalmente menos dominante, pois tomam como dados as concepções
da vida e do mundo que podem ter as pessoas cujos comportamentos
estudam.

2.2.4. Convergências e particularidades entre
as ciências sociais e as outras ciências
É claro que explicar o sentido das acções por regras e valores colectivos
e o sentido das regras e valores pelo sentido do conjunto social supõe
uma última fase na explicação científica que é a procura das causas e
consequências da configuração que tomou o conjunto social. Problema
que tem sido enfrentado por diversas formas nas ciências sociais, mas
cuja solução não parece poder afastar-se da fórmula geral do
estabelecimento da causalidade. Para o entender basta citar o destino
das concepções funcionalistas da totalidade social, que agora se
avalizam com o modelo de conjunto auto-regulado de que é apontado
como exemplo o modelo cibernético. Ora o modelo cibernético é ele
próprio uma construção apoiada em analogias com o funcionamento
auto-regulado dos grupos humanos. Como nota Alan Ryan, «é uma
verdade necessária que os sistemas auto-regulados têm numerosas
analogias com as sociedades, porque a noção de auto-regulação deriva
inicialmente do paradigma dos seres humanos organizando-se em
grupos, definindo regras para serem seguidas, e modificando mais tarde
as instruções à luz da experiência. Objectos outros que os grupos de
homens são olhados como sistemas por analogia com tais grupos; por
isso é pouco de surpreender que noções tais como retorno (feedback) da
informação e contrôle flexível sejam aceitáveis para a vida social,
quando essa foi a fonte onde foram inicialmente tomadas. Aplicar a
cibernética ao entendimento da sociedade é quase anedota, quando se
recorda que o termo cibernética provém da palavra que designava um
controlador humano».
Isto leva finalmente à conclusão de que a explicação nas ciências sociais
reconduz-se em larga medida a processos lógicos que são comuns às
ciências sociais e às ciências da natureza.
A experimentação é pouco frequente nas ciências humanas devido à
escala em que se verificam os fenómenos. Também a forma como se
usam os métodos de processamento quantitativo de dados nas ciências
humanas é análoga à seguida nas ciências da natureza, embora seja
visível que neste aspecto as ciências humanas estão menos avançadas.
Por outro lado, as diferenças de domínio não podem considerar-se
decisivas na medida em que o estudo das ciências humanas vai
finalmente desembocar no domínio das ciências da natureza, e estas
podem, em certa medida, aproveitar dos progressos das ciências
humanas. É o caso, em particular, do estudo do comportamento dos
animais.
Finalmente, ao nível dos conceitos, é certo que o estudo das regras,
valores e sinais que é o objecto das ciências humanas procede pela
determinação de relações de implicação, segundo as quais uma norma
arrasta a outra, ou por «relações de designação» no que respeita à
relação entre os sinais que resultam de tais implicações, e não por
relações de causalidade. Mas nota logo que também aqui a oposição
entre os dois grupos de ciências é menos fundamental do que parece.
Escreve: «Por outro lado, a consciência individual e as representações
16

colectivas são encarnadas em organismos que dependem da
causalidade, de modo que a explicação de todo o comportamento ou é
global e causal ou então faz intervir duas séries paralelas: uma de
implicação outra de causalidade. Toda a “intenção”, em particular, é
causalmente uma auto-regulação e, do ponto de vista da consciência,
implicação entre valores e conhecimentos. Toda a ciência do homem é,
pois, simultaneamente implicante e causal nas suas análises da pessoa
humana, enquanto toda a ciência natural é causal do ponto de vista dos
seus objectos materiais e implicante do ponto de vista da pessoa que
organiza matematicamente o saber».

2.2.5. O problema da objectividade nas
ciências sociais
A observância das regras da imparcialidade científica é na verdade outro
grande problema do conhecimento no domínio das ciências sociais.
Com efeito, por um lado, o observador corre o risco de ser afectado no
seu entendimento do sentido interno das acções sociais de outrem pela
sua própria condição social, pelos próprios termos em que se define a
sua posição na constelação das relações sociais, pela rede dos papéis
sociais que delimitam a sua acção social.
Ora, em primeiro lugar, é da maior importância saber distinguir a
actividade que visa apurar o que é, que é o objectivo que pode propor-se
à ciência empírica, de outras actividades que se ocupem do que deve
ser e que se situam noutros níveis do conhecimento. Com o que se não
pretende sustentar que os juízos de valor estão excluídos do âmbito da
ciência empírica. Trata-se somente de não esquecer em que termos tais
juízos de valor são válidos no contexto das regras em que se deve
movimentar a ciência empírica.
Max Weber, que se ocupou longamente do problema, nota que mesmo
no plano das opções referidas a valores é lícito à ciência empírica intervir
desde que saiba distinguir-se o que respeita aos meios do que se reporta
aos fins.
Decidir em última instância dos fins últimos da actividade humana não é
tarefa da ciência empírica, mas da própria pessoa à luz da sua
consciência, guiada pelas normas éticas a que presta homenagem.
No ensaio sobre «A Objectividade do Conhecimento nas Ciências e na
Política Sociais», em que explicava os critérios que se seguiriam, por um
lado, no estudo científico dos factos económicos e sociais e, por outro,
na crítica política e social, na revista Archiv für Sozialwissenschaft und
Sozialpolitik para cuja direcção acabava de entrar em 1904, Max Weber
escrevia justamente: «Trata-se simplesmente de uma ingenuidade
quando por vezes até alguns especialistas continuam a acreditar que é
preciso estabelecer antes de mais “um princípio” para a ciência social
prática e consolidá-lo cientificamente como verdadeiro, para poder
deduzir em seguida, e de forma unívoca, as normas para a solução dos
problemas particulares da praxis. Por muito necessárias que sejam nas
ciências sociais as discussões “de princípio” em torno de problemas
práticos – isto é, reduzir ao seu denominador comum os juízos de valor
que se nos impõem irreflexamente –, e por muito que a nossa revista se
proponha interessar-se por elas com especial cuidado, o
estabelecimento de um denominador comum prático para os nossos
problemas, sob a forma de uns ideais superiores de validade universal,
17

não pode ser de modo algum a tarefa da revista nem de nenhuma
ciência empírica.»
Não é a ciência empírica que pode conferir a dignidade de imperativo
ético a um qualquer sistema de valores. Mas dado um sistema de
valores, a ciência pode ajudar a entender se um certo caminho, um certo
meio, é mais ou menos apto para os alcançar. Realmente, perante uma
qualquer hipótese de acção concreta a realizar, a ciência empírica pode
ajudar a esclarecer as questões seguintes:
a) quais os fins últimos que podem estar em causa e o valor ou valores
que podem vir a ser afectados pela realização de tais fins;
b) em que medida os meios propostos permitem ou não alcançar tais
fins últimos;
c) quais as consequências que podem resultar do emprego dos meios
propostos.
No âmbito dos valores que se procuram alcançar é por aí possível
apreciar a razoabilidade dos fins à luz das circunstâncias em que se
querem realizar, estimar a idoneidade dos meios, mostrar a sua aptidão
ou inaptidão para atingir os fins, sugerir outros meios, pôr em evidência
os diversos tipos de consequências que podem resultar da realização
dos fins e do recurso aos vários meios, e assim por diante. Mas é claro
que optar por uma das diversas alternativas em face de um conflito de
valores não é já uma decisão que possa resultar apenas de um critério
científico, mas uma decisão da consciência guiada por certa concepção
do mundo.
Como escreve ainda Max Weber no ensaio de 1904, «a ciência empírica
não é capaz de ensinar a ninguém o que “deve”, mas apenas o que
“pode” – e, em certas circunstâncias, o que “quer”». O que deve é do
domínio dos valores; o que pode resulta das circunstâncias e da eficácia
dos meios disponíveis; o que efectivamente quer é a consequência
necessária e por vezes não prevista dos meios escolhidos para chegar a
certo fim.
Tudo isto não significa que é vedado ao estudioso das ciências sociais
defender as suas próprias preferências em matéria de valores, em
obediência a uma certa concepção da vida e do mundo.
A verdade, porém, é que é fácil encontrar na literatura publicada no
âmbito das ciências sociais abundantes exemplos de juízos de valor
subjacentes ao que se apresenta como um puro tecido de elementos de
facto. Não são apenas as fórmulas relativamente grosseiras da
sociologia da ordem ou da sociologia do progresso, em que se
repartiram os estudiosos das ciências sociais no século XIX, ou ainda a
sociologia do conflito, que se tem revelado dotada de maior capacidade
de duração. Mesmo ao nível mais modesto das análises ou explicações
parciais, feitas com espírito prático explicitamente sem compromissos
teóricos, é fácil detectar critérios de escolha e de apreciação que são
basicamente juízos de valor. É justamente o que caracteriza muita da
literatura sobre os chamados «problemas sociais». Pois que, como
escreve com lucidez C. Wright Mills, «detectar problemas práticos é fazer
juízos de valor. Muitas vezes o que é tomado pelos liberalmente práticos
como sendo um “problema” é tudo o que
1) se desvia dos modos de vida da classe média, da cidade pequena,
2) o que não alinha com os princípios rurais de estabilidade e ordem,
3) o que não se harmoniza com os slogans optimisticamente
progressivos do cultural lag, e
18

4) o que não está em conformidade com o justo “progresso social”. Mas
de muitas maneiras a bossa da praticalidade liberal é revelada
5) pela noção de “ajustamento” e o seu oposto “desajustamento”».
Mais geralmente a experiência mostra que no domínio das ciências
sociais todos os temas e conceitos adquirem facilmente um sentido
valorativo, pelo que o simples facto de estudar ou escrever sobre um
dado assunto, mesmo com as possíveis cautelas da objectividade, é
assumir sobre ele uma posição prática susceptível de influenciar as
atitudes e comportamentos e de assumir um conteúdo ideológico. O que
também significa que qualquer estudioso das ciências sociais está
sujeito às pressões do meio no sentido de dar às suas observações e
interpretações uma orientação que corresponda aos juízos de valor
dominantes.
Pode de certo sustentar-se que é razoável ter em conta neste campo de
investigação tão particular o possível impacte social do que se conclui,
se publica e se ensina.
Mas é talvez mais razoável tentar manter distintos o «dever cientifico de
ver a verdade dos factos» e o «dever prático de defender os nossos
próprios ideais», guardando ao mesmo tempo uma justa modéstia
quanto ao valor social dos resultados que a ciência pode alcançar. A
abundante experiência dos frutos dolorosos que a ciência também pode
produzir mostrou já que a ciência, como diz C. Wright Mills, is not a
technological Second Coming, não é um Novo Messias. Mas não pode
esquecer-se que a racionalidade para que as ciências sociais podem
contribuir também é parte do processo que conduziu ao homem
unidimensional, que para Marcuse é o fruto da irracionalidade profunda
de uma sociedade industrial edificada com recurso aos instrumentos
mais perfeitos que a razão até hoje pôde conceber.
É por isso um sentido em que a ciência é igualmente apta para o Bem e
para o Mal. Pertence ao plano do instrumental cujo uso deve ser
subordinado a valores superiores. Valores que na tradição ocidental se
devem orientar para a melhor realização da liberdade do homem. «A
liberdade», como nota também C. Wright Mills, que «não é a mera
possibilidade de fazer o que se quer; nem é a mera oportunidade de
escolher entre alternativas fixas. A liberdade é, primeiro do que tudo, a
possibilidade de formular as opções realizáveis, de arguir sobre elas – e,
então, a oportunidade de escolher. É por isso que a liberdade não pode
existir sem um mais lato papel da razão nos negócios humanos. No
âmbito da biografia do indivíduo e no âmbito da história da sociedade, a
tarefa social da razão é formular as opções, alargar o âmbito das
decisões humanas na construção da história. O futuro dos negócios
humanos não é mero conjunto de variáveis a prever. O futuro é o que
tem de ser decidido – dentro dos limites, é claro, da possibilidade
histórica. Mas tal possibilidade não é fixa; no nosso tempo os limites
parecem realmente muito largos».
Ajudar a delimitar as opções possíveis é o que cabe no âmbito da tarefa
profissional do técnico.
Está em causa o outro dos problemas postos pela objectividade científica
que de início se referiu e que respeita à forma como o observador
interpreta o sentido subjectivo das acções que estuda. Trata-se agora de
ter em conta que há que reportar as acções aos valores que
efectivamente estão em causa no espírito do agente e não aqueles que
podem eventualmente preocupar o observador. É claro que muitas vezes
19

o agente não tem consciência perfeita dos valores que determinam a sua
acção. Por esse caminho é possível formular um tipo ideal, porque
construído teoricamente, de acção racional relativa a um valor, o qual
serve como termo de comparação aferidor das acções reais na medida
em que com ele se conformam ou dele se desviam. Construir um tipo
ideal é já identificar o caminho que deve seguir a acção no quadro do
esquema de valores relevante para o grupo que se estuda. Apurar em
que medida as acções reais se conformam com o tipo ideal é abrir
caminho para o entendimento dos diversos factores que actuam sobre o
comportamento efectivo, para além dos valores a que se presta
homenagem. Um exemplo disto mesmo é a análise económica toda
construída sobre um tipo ideal de comportamento racional orientado para
a maior satisfação face à raridade dos bens.

2.2.6. Teorias e paradigmas nas Ciências
Sociais
Qualquer hipótese ou lei empírica ou sistema de hipóteses ou leis
empíricas requer a mais geral delimitação do campo a que se aplica e
uma certa concepção geral das condições em que se verifica. É por isso
que tais hipóteses e leis sempre se acompanham de teorias sobre o
conjunto dos fenómenos a que respeitam. São as teorias que
esclarecem as relações gerais entre os fenómenos que tornam
relevantes as hipóteses e leis empíricas.
Com efeito, as teorias são realmente explicações gerais das hipóteses e
leis empíricas, interpretações das razões que estão na base da
existência das relações que as hipóteses e leis empíricas enunciam.
Tem-se podido mostrar que em muitos casos as teorias não resultam
directamente dos factos observados e de que procuram dar conta as
hipóteses e leis empíricas. São antes concepções gerais que procuram
dar sentido a um conjunto de factos muito diversos.
Enunciada uma teoria é possível deduzir dela as relações que deverão
observar-se entre factos particulares no campo em que ela se aplica. As
teorias da fórmula hipotético-dedutiva são frequentes nas ciências da
natureza. São, porém, menos comuns nas ciências sociais. Raymond
Boudon salienta que nas ciências sociais é mais corrente o caminho de a
partir de certas concepções iniciais tirar certas concepções explicativas
sem ser rigorosamente por via dedutiva. A este tipo de explicações
parece-lhe convir melhor a designação de paradigmas do que a de
teorias.
Boudon nota que na literatura actual das ciências sociais podem
encontrar-se pelo menos três grandes tipos de paradigmas:
a) os paradigmas teóricos ou analógicos;
b) os paradigmas formais;
c) os paradigmas conceptuais.
Os paradigmas teóricos ou analógicos são as interpretações gerais que
se apoiam em fórmulas experimentadas noutros ramos do conhecimento
e aplicadas por analogia no domínio das ciências sociais. Um exemplo é
o emprego que se tem feito em muitos domínios da teoria de jogos de I.
Von Neumann e O. Morgenstern, que, formulada a partir de situações de
jogo definidas com precisão, tem servido para o estudo das relações
entre intervenientes num mercado ou das relações internacionais, e por
20

aí em circunstâncias bem menos rigorosamente delimitadas por regras
bem definidas e conhecidas dos intervenientes.
No caso dos paradigmas formais e dos paradigmas conceptuais, não se
procede por analogia mas por subsunção, operação lógica que consiste
em fazer entrar um caso individual num género ou um facto no âmbito de
uma lei. Os paradigmas formais são quadros de referência que permitem
formular explicações seguindo certas regras sintácticas. É, para Boudon,
o caso do funcionalismo de Merton, ele próprio uma formalização do
funcionalismo organicista de Radcliffe-Brown. Para Merton os fenómenos
sociais devem, em regra, ser explicados pelas suas funções. De modo
que, identificada uma certa relação funcional entre um conjunto de
fenómenos, é possível por subsunção situar o papel de um dado facto ou
conjunto de factos no âmbito dessa relação funcional.
É claro que o valor de uma explicação deste tipo depende basicamente
da validade do paradigma formal.
A validade, para Boudon, depende da generalidade e do poder
heurístico. A generalidade respeita ao conjunto das questões que o
paradigma permite explicar. O poder heurístico, ou capacidade de ajudar
a descobrir o sentido dos factos, respeita à possibilidade que oferece o
paradigma formal de detectar os factos relevantes num dado problema.
Os paradigmas conceptuais são sistemas de conceitos que permitem,
ainda por subsunção, enquadrar uma dada explicação dos factos.
Lembra assim como Parsons, num artigo sobre General Theory in
Sociology, abre a análise da organização da estrutura social pela
definição de dois eixos de diferenciação
1. em interno e externo e
2. em instrumental e consumatório,
ou seja entre meios e fins, cobrindo quatro níveis que se encontram em
qualquer organização:
a) o nível primário ou técnico – respeita ao output do sistema;
b) o nível de gestão – respeita à regulação dos inputs necessários
ao output;
c) o nível institucional – respeita à supervisão e direcção superior do
sistema; e
d) o nível societal – respeita à articulação com os objectivos da
sociedade no seu conjunto.
Um exemplo de paradigma conceptual largamente usado nas ciências
sociais é a distinção de Tönnies da comunidade e da sociedade ou ainda
a noção de anomia introduzida por Durkheim. Este tipo de paradigmas
parecem a Boudon ter na literatura das ciências sociais uma «função de
detecção de factores explicativos» e uma «função de generalização».
Como nota ainda Boudon, os paradigmas são por sua vez susceptíveis
de uma certa transmutação que permite, quer a sua generalização, quer
a transformação de paradigmas analógicos em paradigmas formais, quer
a transformação de paradigmas conceptuais em paradigmas formais.
A verdade é que as teorias e paradigmas parecem situar-se muitas
vezes a meio caminho entre a ciência empírica e as concepções gerais
do mundo e da vida. É sabido que no domínio das ciências sociais
muitas teorias se mostram afectadas por considerações ideológicas.
Como escreve Alan Ryan, «os cientistas agarram-se às teorias mesmo
muito depois de estas terem sido refutadas, no sentido de deixarem de
se ajustar a largo número de factos, e os atractivos de uma “boa” teoria
parecem depender muito de considerações extracientíficas, tais como as
suas qualidades estéticas, a sua coerência com atitudes religiosas e
21

assim por diante. O processo de mudança é na verdade como o de uma
revolução, no sentido de que a nova teoria não explica simplesmente os
mesmos velhos factos por forma melhor e mais rigorosa mas sobretudo
torna a antiga teoria totalmente destituída de sentido».
22
23

3. OS FACTORES DE EXPLICAÇÃO DO
SOCIAL
Toda a tentativa de explicação empírica dos factos sociais pode reconduzir-se aos
quatro factores seguintes:
a) hereditariedade;
b) meio físico;
c) cultura;
d) relações sociais.
São mais frequentes as explicações que fazem apelo aos quatro factores
conjuntamente embora tenha variado o grau de importância que finalmente se atribui
a cada um deles.
Na literatura de outras épocas atribuía-se à raça ou ao sangue a causa do destino
brilhante ou obscuro de certos indivíduos ou de certas famílias ou de certas
categorias de pessoas ou de certos povos. Com maior esforço de exposição
sistemática a mesma ideia desenvolveu-se no século passado e no presente século
segundo quatro correntes de pensamento, que podem talvez em síntese designar-se
pela forma seguinte:
a) a teoria racial da história;
b) a teoria das selecções sociais;
c) a teoria eugénica de base biométrica;
d) a teoria da formação selectiva de fundos raciais superiores.

3.1. A relevância social da hereditariedade
3.1.1. Genética e transmissão hereditária
As várias teorias raciais acima referidas não deixaram de ser objecto de
abundantes refutações nos próprios termos em que foram formuladas.
A verdade é que toda a explicação social assente no factor
hereditariedade teve de reformular-se inteiramente à luz da ciência da
genética, que, embora remonte à hoje famosa comunicação de Gregorio
Mendel à Sociedade de Ciências Naturais de Brünn, na Áustria (hoje
Brno, na Checoslováquia), em 1866, apenas se tornou conhecida do
mundo científico a partir de 1900, ou seja, depois de formuladas três das
teorias raciais acima resumidas. Mesmo Galton, que poderia ser mais
receptivo às novas ideias e que morreu em 1911, e pôde por isso já
tomar conhecimento das novas concepções sobre a hereditariedade
decorrentes das leis genéticas, manteve-se, como aparentemente
também Karl Pearson, fiel à sua ideia inicial de uma lei da
hereditariedade que explicava as semelhanças entre os filhos e os pais
na base de uma certa continuidade de características.
Mendel mostrou que a hereditariedade é definida pela combinação de
genes realizada no momento da fecundação. Os genes são em regra
unidades independentes e estáveis, que se combinam segundo as leis
do acaso, constituindo os caracteres hereditários que «são transmitidos
de uma geração à outra como unidades distintas, independentes e não
fragmentáveis – conceito fundamentalmente oposto ao de uma
hereditariedade contínua, que era geralmente aceite naquela época e
24

subsistiu em expressões da linguagem corrente tais como “sangue puro”
e “sangue misto”».
Os progressos posteriores da genética mostraram que a regra das
combinações ao acaso pode conhecer excepções no caso dos genes
ligados, que tendem a manter-se associados de uma geração para a
outra, reduzindo por aí o número de recombinações genéticas possíveis,
e que a estabilidade dos genes pode ser afectada por mutações.
A combinação genética própria de cada indivíduo é o seu genótipo. As
características efectivamente observadas no indivíduo constituem o seu
fenótipo. O mesmo genótipo pode corresponder a diferentes fenótipos
em virtude de os caracteres genéticos poderem ser recessivos ou
dominantes. Assim, na experiência inicial de Mendel, que foi realizada
com cruzamentos de linhagens puras de ervilhas, umas com flores
brancas e outras com flores vermelhas, verificou-se que as ervilhas
resultantes do primeiro cruzamento mostravam todas flores vermelhas.
Em caso nenhum, qualquer que fosse o número de cruzamentos,
surgiram flores de cores intermédias entre o vermelho e o branco.
Donde quatro conclusões importantes:
1. a cor das flores, assim como, aliás, todas as outras características
genéticas, é transmitida integralmente como a dos progenitores;
2. o elemento que determina a cor vermelha destas flores é dominante
e o que determina a cor branca é recessivo;
3. sugere a lei das combinações genéticas que permite apurar a
proporção de descendentes de cada tipo nos sucessivos
cruzamentos;
4. o mesmo fenótipo, ou seja, neste caso as mesmas flores vermelhas,
pode traduzir um genótipo de linhagem pura ou, no caso de uma
geração de híbridos, um genótipo de linhagem mista.
Isto também significa que a partir do fenótipo não é fácil fazer previsões
sobre a hereditariedade provável, salvo conhecimento pormenorizado da
linhagem, o que é um facto da maior importância tanto para as
aplicações práticas da genética na reprodução de plantas e animais,
como no plano mais complexo da hereditariedade humana que aqui nos
interessa.
Neste caso, a cor das flores é definida pela junção de um elemento
genético ou alelo proveniente de cada progenitor. Quando os alelos são
idênticos o indivíduo diz-se homozigótico para este carácter. Quando os
alelos são diferentes, um dominante e o outro recessivo, o indivíduo diz-
se heterozigótico. No caso do primeiro cruzamento do presente exemplo
todos os indivíduos são heterozigóticos. Nos cruzamentos subsequentes
entre híbridos aparece uma proporção determinável de indivíduos
homozigóticos – é o que são todas as plantas com flores brancas e uma
parte das que têm flores vermelhas.
Os genes de um organismo estão assentes em estruturas, que são os
cromossomas. Cada gene ocupa no cromossoma um lugar determinado,
que é um locus. Nos animais e nas plantas selvagens, em regra as
células contêm dois cromossomas de cada tipo. São por isso ditas
células diplóides. Isto significa que há dois exemplares de cada locus. E
por isso, genericamente, se diz quando os dois exemplares do mesmo
locus são ocupados por alelos idênticos que o indivíduo é homozigótico
para esse carácter e quando são ocupados por alelos diferentes que o
indivíduo é heterozigótico.
No decurso dos fenómenos que precedem a redução cromática [a
separação dos pares de cromossomas homólogos para a formação dos
25

gâmetas] acontece que dois cromossomas homólogos se cortem no
mesmo lugar e troquem um dos seus troços; os genes que se
encontravam de um lado e do outro são então separados e arrastados
para gâmetas diferentes, é o crossing over. Ele é tanto mais frequente
entre dois loci quanto estes estão mais afastados um do outro.
Segregação e recombinação fazem-se ao acaso: a transmissão dos
genes à descendência é questão de probabilidades, os resultados não
são previsíveis senão em grande número de casos semelhantes e
exprimem-se por proporções estatísticas.
Os genes são portadores de elementos que determinam a sua
duplicação, que está na base de todo o processo de crescimento e
reprodução dos organismos. Sabe-se hoje, a partir de uma teoria
formulada pela primeira vez em 1953, que o mecanismo de conservação
e duplicação das informações genéticas assenta no ácido
desoxiribonucleico, designado correntemente pelas iniciais ADN, que é o
elemento constituinte dos genes e é o portador de certas informações
que definem um código genético segundo o qual se faz a duplicação das
células. Tais informações são definidas pelo ordenamento no espaço dos
diferentes constituintes da molécula de ADN, que se recopia
sucessivamente. Ora no decurso deste processo de cópia podem dar-se
erros que modificam os caracteres hereditários e dão origem a
mutações, as quais podem depois ser transmitidas à descendência,
provocando a diversificação dos organismos. Como explica David
Paterson, «as mutações são de dois tipos:
1. As mutações genéticas. A mutação genética afecta a estrutura
interna de um gene. Pode ser a substituição de uma base por outra
numa molécula de ADN e
2. Os remanejamentos cromossómicos. Um remanejamento
cromossómico é uma modificação que afecta o conjunto de um
cromossoma.
Um ou outro destes acontecimentos tem repercussões sobre a estrutura
do organismo, que podem ser menores, mas podem também pôr em
causa a sua sobrevivência». Possuem-se actualmente certas
informações sobre a frequência dos erros na cópia do ADN, que
permitem supor que uma célula humana que conta cerca de um milhão
de genes tem uma possibilidade em cem de ser afectada por uma
mutação em cada ciclo de divisão. De facto parece que o risco de
mutação é diferente nos diversos genes embora as causas sejam mal
conhecidas. A mutação pode dar-se nas células somáticas, e então
apenas as partes do indivíduo que provêm das células que sofreram a
mutação serão afectadas. Estes indivíduos são chamados mosaicos.
Sabe-se, por exemplo, que no homem a doença designada por
mongolismo é o resultado da presença de 3 cromossomas em vez de 2
no par cromossomático do grupo 21 ou da translocação de um elemento
deste grupo para outro cromossoma.
Umas mutações são favoráveis, e aumentam o poder de sobrevivência e
de reprodução dos portadores dos caracteres genéticos delas
resultantes, e outras mutações são, pelo contrário, desfavoráveis. O
último juiz do valor de sobrevivência de uma mutação é finalmente o
meio ambiente, e por isso pode dizer-se que as características genéticas
de uma população traduzem sempre um certo equilíbrio com o meio
ambiente.
26

Certos processos biológicos conhecidos tendem de facto a preservar a
variabilidade potencial. Assim, a recessividade no estado heterozigótico,
que protege os caracteres mal adaptados a certo ambiente e permite que
sejam transmitidos de geração em geração. A poligenia, que é a
dependência de um carácter hereditário da combinação de vários genes,
e que permite preservar todos os genes desde que os seus efeitos
positivos e negativos se equilibrem numa graduação que se ajuste ao
ambiente. A heterose, que é a superioridade na selecção natural que a
experiência mostra terem os heterozigóticos sobre os homozigóticos.
Como nota Eugène Binder, «a estabilização do fenótipo normal não é
uma lei absoluta, pois nas espécies ou nas populações que têm de fazer
face a condições muito diversas nem sempre existe um fenótipo óptimo
único, mas acontece, pelo contrário, que em condições diferentes sejam
fenótipos diferentes que representem cada um o óptimo. Nesses casos a
selecção de segunda ordem tende, não a estabilizar um fenótipo, mas a
elaborar dispositivos adaptativos complexos em que as reacções organo-
formativas são influenciadas de forma precisa pelos factores externos e
podem conduzir a toda uma gama de fenótipos correspondendo a uma
gama de condições do meio».

3.1.2. Problemas da relação entre
hereditariedade e ambiente na
determinação de características
individuais e grupais
3.1.2.1. Raça e genética das populações
Ora tudo isto, que é de observação genérica entre os seres vivos, é
da maior importância para avaliar devidamente o significado das
diferenças somáticas entre os grupos humanos e das diferenças de
aptidões ou de inclinações entre os indivíduos.
A diversidade somática dos grandes grupos humanos é um facto
incontroverso, mas a experiência tem mostrado que é
extremamente resistente à classificação e interpretação científica.
São muito antigas as tentativas de classificação dos homens em
raças, mas não parece até agora ter-se resolvido de forma
satisfatória o problema dos tipos intermédios.
O antropólogo francês Henri V. Vallois, que é autor de uma das
classificações de raças hoje em uso, distingue por seu lado 27
raças, que reúne nos quatro grupos raciais seguintes:
1.º Raças primitivas;
2.º Raças negras ou negróides;
3.º Raças brancas ou leucodermes;
4.º Raças amarelas ou xantodermes.
Henri V. Vallois adopta a seguinte definição das raças humanas:
«São agrupamentos naturais de homens que apresentam um
conjunto de caracteres físicos hereditários comuns, quaisquer que
sejam as suas línguas, costumes ou nacionalidades». Por
características físicas hereditárias comuns entende «os caracteres
que respeitam à própria natureza dos homens:
 são pequenos ou grandes, de pele clara ou pigmentada;
27

 têm cabelos lisos ou crespos, braços compridos ou membros
curtos;
 o seu sangue mostra a presença ou ausência de certas
substâncias;
 a sua inteligência é flexível ou ágil ou, pelo contrário, lenta e
preguiçosa, etc.
Em resumo, temos aí uma série de disposições devidas quer
– à estrutura do corpo, e são os caracteres anatómicos;
– ao funcionamento dos órgãos, são os caracteres fisiológicos;
– ao mecanismo do cérebro, são os caracteres psicológicos;
– à forma como reagimos às doenças, são os caracteres
patológicos.
É o conjunto formado por estas quatro ordens de factos que é
utilizado para definir as raças. Há somente que precisar que todos
estes caracteres só têm valor se forem hereditários. Disposições
que se tenham desenvolvido sob a acção do meio em que vive um
indivíduo e que desapareceriam nos descendentes, não poderiam
naturalmente ser considerados como raciais. Como adiante se
verá, um dos pontos mais controversos de toda esta questão é a
ligação entre as características somáticas e as características
mentais.
Na verdade, do ponto de vista da explicação nas ciências sociais, o
que principalmente interessa é averiguar em que medida a
diversidade dos caracteres morfológicos acarreta necessariamente
diversidade das reacções sociais. E por isso é relevante apurar se
existe efectivamente grande diferença entre as raças humanas
para além do que se refere à pigmentação da pele, textura dos
cabelos ou configuração do crânio, da face e do nariz.
Ora o que a ciência da genética mostra no seu estado presente é a
substancial semelhança dos homens. Geneticamente todos os
homens pertencem à mesma espécie, isto é, formam um grupo
cujos membros podem cruzar-se entre si e gerar filhos capazes,
por sua vez, de se reproduzirem. Facto da maior importância, pois
é sabido que a regra é que os animais podem cruzar-se e
reproduzir-se apenas dentro da mesma espécie, embora se
conheçam casos em que é possível obter em catividade ou por
fecundação artificial híbridos viáveis e fecundos. A especiação é o
fruto da evolução separada de certos grupos animais, que provoca
o seu isolamento genético de outros. O exemplo clássico é o das
espécies Equus caballus e Equus asinus, cujos cruzamentos
produzem animais resistentes mas estéreis.
Biologicamente, as raças podem tomar-se como subespécies,
formadas como resultado de um isolamento geográfico que nunca
foi inteiramente estanque por longo tempo. O que varia, em regra,
são as frequências relativas de certos elementos genéticos de
população para população.
O facto está comprovado para diversas características. Assim o
sangue humano pode ser classificado, de acordo com certas
regras, em tipos segundo diversos sistemas. Um dos sistemas
mais usados é o ABO. Demonstra-se que todos os homens são ou
A ou B, ou AB ou O. O que varia são as proporções ou frequências
com que aparecem os diversos tipos. Por isso Boyd propôs a
seguinte definição de raça: é «uma população que difere de
maneira significativa das outras populações humanas pela
28

frequência de um ou de vários genes que ela possui. A escolha dos
loci sobre que repousa a distinção de uma “constelação”
significativa é, e muito, uma decisão puramente arbitrária; parece
preferível, por um lado, não distinguir uma multiplicidade de raças
diferindo somente umas das outras por um único par ou uma única
série de alelos e, por outro lado, não exigir que todas as raças que
se definam difiram umas das outras pelo conjunto dos seus
genes.» Combinando vários sistemas de classificação dos tipos
sanguíneos e certos outros caracteres que se sabem
geneticamente determinados1, Boyd, segundo a variação das
frequências, propôs o agrupamento dos homens em seis raças:
1.ª Grupo europeu primitivo (hipotético) representado
actualmente pelos Bascos;
2.ª Grupo europeu (caucasóide);
3.ª Grupo africano (negróide);
4.ª Grupo asiático (mongolóide);
5.ª Grupo ameríndio;
6.ª Grupo australóide.
As teorias mais aceites neste campo, seguindo a regra genética do
ajustamento dos caracteres das populações às características do
meio, explicam a variação das raças humanas substancialmente
em função dos meios geográficos em que se consolidaram,
embora, dada a lentidão da reprodução das sucessivas gerações
humanas, muitos caracteres possam permanecer mesmo quando o
habitat deixou de ser aquele em que o carácter se estabilizou.
Assim W. Farnsworth Loomis propôs recentemente uma teoria que
explica o grau de pigmentação da pele a partir do ajustamento às
necessidades da síntese da vitamina D. A vitamina D, que governa
a absorção do cálcio pelo organismo, é sintetizada pela pele com a
ajuda da exposição aos raios solares ultravioletas. O excesso de
vitamina D pode, por seu lado, também ser nocivo. Nas zonas
muito ensolaradas durante todo o ano, a pele é escura, a fim de
evitar excessiva acumulação de vitamina D. Nas zonas onde a
exposição ao sol é menor, a pele é mais clara, até ser translúcida
nos países mais ao norte, a fim de facilitar a síntese de vitamina D.
Ideia análoga foi já avançada a respeito de outro carácter
associado às diferenças raciais, a configuração do nariz, que
representaria uma adaptação ao clima, traduzindo um mecanismo
de contrôle das perdas de calor e humidade pelo aparelho
respiratório, assim como de ajustamento do ar inspirado às
condições do equilíbrio interno do organismo.
A verdade, porém, é que o debate sobre a incidência social da
raça, e genericamente da hereditariedade, não se tem formado em
torno da cor da pele ou da configuração do nariz, mas sim naquilo
que não respeita puramente à preocupação médica com a
incidência e possível tratamento de certas doenças, em torno de
duas grandes questões:
a) a relação entre a raça ou a hereditariedade e a inteligência;
b) a relação entre a hereditariedade e o crime ou o
comportamento marginal.
________________________________
1
A sensibilidade ao composto químico P.T.C. (feniltiocarbamida), que para uns é amargo e para outros
não tem gosto, e ainda a presença de um gene «secretor» que se manifesta na saliva consoante o tipo
sanguíneo do sistema A B O.
29

3.1.2.2. Inteligência e testes de inteligência
A questão da ligação entre a hereditariedade ou a raça e a
inteligência tem sido posta sobretudo em face dos resultados
diferentes que dão aos testes de inteligência as crianças de
diversos tipos somáticos.
Pode dizer-se que a investigação das causas deste fenómeno se
fez segundo três caminhos principais:
a) a procura da influência que podem ter nas características
mentais dos indivíduos, respectivamente, a hereditariedade e o
meio ambiente;
b) a crítica do valor de medida da inteligência real que têm os
testes em uso;
c) a avaliação dos efeitos que pode ter no próprio
desenvolvimento do cérebro dos indivíduos o meio ambiente
em que são criados.
Em particular a relação entre a hereditariedade, a inteligência e o
sucesso social foi objecto de muitos estudos desde começos do
presente século, como reacção às teses racistas e especialmente
às teorias hereditaristas de Galton e dos seus discípulos. De modo
geral, avançou-se uma teoria de que é ao meio ambiente social e
educacional, mais do que à hereditariedade, que é justo atribuir o
sucesso educacional e social das pessoas. Explica-se, com efeito,
que os jovens não têm à partida as mesmas oportunidades. Uns
são criados em famílias prósperas e educadas e beneficiam de
todo um ambiente favorável à aquisição das qualidades
necessárias para alcançarem uma posição de distinção social.
Outros são criados em ambientes modestos, marcados quer pela
mediocridade do conforto e da alimentação, quer pela
mediocridade educacional, pelo que têm necessariamente mais
dificuldades em adquirir as qualidades necessárias a uma carreira
a um nível social superior ao da sua família.
É claro que é difícil resolver o debate em termos rigorosamente
científicos, pois tal supõe que se verifique como se comportam em
meios diferentes pessoas com hereditariedade idêntica. Ora já se
viu que, dada a forma como se processa a lotaria genética no
momento da fecundação, é raro encontrar pessoas com
hereditariedade idêntica. Os únicos casos de hereditariedade
idêntica são os de gémeos monozigóticos, que resultam de um
único ovo que se cindiu para dar origem a mais de um indivíduo.
Ora sendo assim relativamente raros os casos de hereditariedade
idêntica, tão-pouco são frequentes os casos de pessoas com
hereditariedade idêntica criadas em meios diversos. Os gémeos
são naturalmente criados na mesma família, que tende ainda
muitas vezes a acentuar a semelhança entre eles pela compra de
roupas iguais, educação idêntica e assim por diante. Para
comprovar a tese fez-se, no entanto, um esforço para descobrir
casos de gémeos que por qualquer acidente tivessem vindo a ser
criados longe um do outro (abandonado pelos pais, orfandade,
etc.). Foi assim possível mostrar que, embora a hereditariedade
seja importante no que respeita à conformação de certas aptidões,
o meio ambiente influencia sensivelmente muitas das capacidades
que é possível medir através dos testes de inteligência.
30

Tratando-se os EUA de um país profundamente marcado pelas
atitudes raciais, estas experiências não foram sempre vistas com
bons olhos. Das várias reacções verificadas a com maior impacte
no mundo científico parece ter sido o artigo com o título de «How
Much Can we Boost IQ and Scholastic Achievement», publicado
em 1969 na Harvard Educational Review por Arthur R. Jensen,
professor de Psicologia da Educação na Universidade da Califórnia
(Berkeley), que designadamente sustenta a necessidade de
reconhecer o que decorre das observações que mostram que as
diferenças de inteligência têm um largo conteúdo hereditário, e por
aí também racial, e que é que o que se impõe em matéria de
educação não é criar um sistema educacional idêntico para todos,
mas um sistema adaptado às faculdades próprias de cada grupo.
O mesmo debate passou à Grã-Bretanha, onde uma posição
análoga à de Jensen foi defendida por H. J. Eysenck. Aliás, um
debate público sobre o assunto foi organizado na Grã-Bretanha
pela Cambridge Society for Social Responsability in Science, em
que Jensen defendeu as suas ideias.
Os testes correntes, que são derivados dos testes concebidos por
Binet em começos deste século para a selecção escolar das
crianças, com vista a separar as atrasadas das com
desenvolvimento normal, visam medir o quociente de inteligência,
ou quociente intelectual, em termos de relação entre a idade
mental e a idade cronológica por uma fórmula do tipo seguinte:

Idade mental
QI= x 100
Idade cronológica

De modo que se a criança estiver avançada em relação à média da
sua idade surge com um QI elevado, se estiver atrasada surge com
um QI baixo. O teste é, pois, construído segundo uma certa ideia
do que é o nível médio em cada idade, ideia depois confirmada por
validação experimental através da administração a um número
representativo de indivíduos. Como os testes foram sobretudo
concebidos como instrumentos de selecção escolar, aceita-se em
regra que são uma boa medida da educabilidade, isto é, da aptidão
de um indivíduo para se adaptar a certo sistema escolar. Mas,
como muitos elementos dos testes se relacionam com o nível de
conhecimentos, duvida-se de que os testes sejam capazes de
medir a capacidade inata como coisa distinta do potencial definido
em certo ambiente social. Como explica Joanna Ryan, «há várias
razões para supor que é em princípio impossível medir “o potencial
inato” e também que essa própria noção não faz sentido. A razão
principal resulta do facto de que no processo de medida algum
aspecto do comportamento corrente do indivíduo tem de ser usado
– isto é, algumas das perícias que se desenvolvem durante uma
vida. Isto porque o potencial se exprime necessariamente no
comportamento efectivo; e não há nada extra “por detrás” do
comportamento correspondente ao potencial que possa ser
observado independentemente do próprio comportamento»...
«Nada disto é negar que há tanto determinantes genéticas como
ambientais da aptidão cognitiva. Nem é negar que há limites à
31

extensão em que a variação ambiental pode influenciar a
performance individual e que estes limites podem em parte ser
determinados por uma variedade de factores genéticos e
constitucionais. O que se afirma é que é impossível separar e
medir com um teste de comportamento só as determinantes não
ambientais da aptidão, uma vez que interactuam com o meio
ambiente por forma a garantir que qualquer teste de aptidão tem
inevitavelmente de envolver ambos os aspectos».
As características ambientais penetram ainda fortemente os testes
a partir dos processos de normalização a que são sujeitos antes de
adoptados para uso rotineiro. A normalização consiste em aplicar o
teste a uma amostra que se procura tão representativa quanto
possível das pessoas de certa idade a fim de definir o que é normal
em cada idade. Acresce, e isto é da maior importância para a
questão que aqui nos ocupa, que os testes de Stanford-Binet e
Wechsler, muito em uso nos Estados Unidos da América, foram
normalizados com base apenas na população branca. Por isso,
como nota Joanna Ryan, quando se usam testes deste tipo para
medir o QI de negros o que se averigua é a aptidão destes para
fazerem em certa idade as mesmas coisas que fazem os brancos
nessas idades e não propriamente a sua posição relativamente às
médias de desenvolvimento da população a que pertencem. Para
medir com objectividade análoga a inteligência dos negros seria
necessário normalizar os testes em relação à sua própria
população.
Isto, que põe já em causa muito do que se escreve a partir dos
mais baixos resultados médios dos testes de inteligência entre os
negros, é ainda relevante para a presente questão sob outro
aspecto. Mostra-se, com efeito, a partir dos testes, que há uma
acentuada correlação entre os resultados obtidos pelos pais e os
obtidos pelos filhos, o que se usa para afirmar a hereditariedade da
inteligência, embora deva ser temperado no que respeita à ideia de
hereditariedade de potencial inato pelo facto decisivo da
semelhança de ambiente em que vivem pais e filhos. Ora a partir
desta constatação é excessivo tirar a conclusão de que há
analogamente uma hereditariedade rácica da inteligência. Como
escreve W. F. Bodmer, «a extrapolação das estimativas existentes
da hereditabilidade às diferenças raciais pressupõe que as
diferenças ambientais entre as raças são comparáveis às
variações ambientais dentro delas»... «Que sejam ou não as
variações de QI dentro de qualquer das raças inteiramente
genéticas ou inteiramente ambientais não tem relevância para a
questão da relativa contribuição dos factores genéticos e
ambientais para as diferenças entre as raças».
Pode, em síntese, dizer-se que o cérebro e o sistema nervoso
adquirem as características que têm no estado de formação
completa por efeito de duas características fundamentais:
1. a especificidade, que respeita às reacções geneticamente
programadas, embebidas no sistema por efeito da evolução
anterior da espécie, e
2. a plasticidade, que permite a aprendizagem.
Ora o cérebro é, talvez mais do que qualquer outro órgão,
influenciado pelas condições em que se passam os primeiros anos
de vida. E esse desenvolvimento, se é basicamente a expressão
32

de um programa genético, só pode efectivar-se em reacção com o
meio ambiente. Como explica o biólogo Steven Rose, «o programa
genético do indivíduo é uma expressão do conteúdo em ADN (os
genes) do óvulo e do esperma de que se desenvolve. Mas este
programa genético não pode nunca ser expresso sem um ambiente
em que a expressão tem de ocorrer. Se o ambiente é inadequado,
o indivíduo simplesmente morre. Mesmo diferenças marginais no
ambiente externo podem induzir uma variedade de mudanças na
natureza e quantidade das proteínas que estão a ser expressas
nos genes».
É, pois, claro que um ambiente mais ou menos favorável, quer sob
a forma nutricional, quer sob a forma da interacção mental, pode
ter efeitos decisivos sobre o desenvolvimento das faculdades
naturais da pessoa. Efeitos análogos são sugeridos por outras
observações do impacte do ambiente sobre o desenvolvimento
mental. Assim, tem podido verificar-se que os gémeos têm em
regra um QI que é inferior em cinco pontos ao dos não gémeos,
facto que se mostra independente da condição social dos pais, da
ordem de nascimento, tempo de gestação, dimensão da família e
outros factores que poderiam ser relevantes.

3.1.2.3. Antropologia criminal
O médico italiano Cesar Lombroso publicou em 1876 um livro
sobre o Homem Delinquente (traduzido em francês com o título de
L’Homme Criminel) em que estudava minuciosamente as
características anatómicas dos criminosos, mostrando a presença,
em grande número de casos, de anomalias, umas como fruto das
marcas da vida, outras resultado da hereditariedade. Vinha a
concluir que se estava em presença de estigmas físicos que
indicavam uma predisposição para o crime. Podia por isso falar-se
de atavismo criminal ou, noutras palavras, da existência de tipos
humanos que indicavam criminosos natos, e que seriam
sobrevivências na sociedade actual do homem primitivo, selvagem,
sem respeito pelas vidas e haveres dos seus semelhantes. O livro
de Lombroso teve um enorme sucesso. Foi traduzido em diversas
línguas e alimentou toda uma volumosa corrente de pesquisas e
comentários, marcados, aliás, por profundas divergências em
virtude da grande importância prática de quaisquer conclusões que
pudessem abonar-se com o aval da ciência, tanto no que se refere
à administração da justiça, como à prevenção e repressão do crime
e ao tratamento a dispensar aos delinquentes. A ideia de uma
hereditariedade associada à propensão para a marginalidade
social, a delinquência ou o crime foi igualmente difundida por
outras obras célebres, como o estudo de Dugdale sobre os Jukes,
(The Jukes, a Study in Crime, Pauperism, Disease and Heredity,
Nova Iorque, 1877), uma família de que tinham podido identificar-
se 709 membros, entre os quais 106 vagabundos, 206 mendigos,
181 imorais e 76 criminosos, e o estudo de Goddard sobre os
Kalikaks, família com características análogas.
Pierre Grapin, num livro recente, em que tenta sintetizar as
tendências da antropologia criminal depois de Lombroso, identifica
as correntes seguintes:
33

a) as tendências neurocerebralistas, que procuram relacionar os
actos delituosos com certas anomalias da configuração
neurocerebral responsáveis por determinadas propensões
psicológicas ou psicopatológicas, como resultado de lesões
congenitais ou de doenças ou traumatismos posteriores ao
nascimento;
b) as tendências biotipológicas, que procuram reconduzir a
diversidade dos indivíduos a um número restrito de tipos
morfológicos (na base da conformação exterior do corpo) ou de
tipos constitucionais (na base de características fisiológicas ou
psicológicas) que depois tentam correlacionar com os actos
delituosos ou criminais;
c) a genética criminal, que procura identificar a relação entre
certas anomalias genéticas e a propensão para o crime;
d) a tendência neo-antropológica, que procura redefinir o problema
tendo em conta os actuais conhecimentos sobre a interacção
entre a hereditariedade e o meio ambiente na conformação das
personalidades individuais.
Nas pessoas normais as mulheres são portadoras de
cromossomas XX e os homens de cromossomas XY. A anomalia
que com mais frequência tem sido associada a comportamentos
criminosos é o chamado síndroma YY.
Alguns homens portadores de uma constituição dos cromossomas
sexuais XYY têm sido, na verdade, responsáveis por crimes de
assassínio particularmente horrorosos. O caso mais espectacular
parece ter sido o de Richard Speck, que, em 1966, matou em
Chicago 8 enfermeiras.
Como escreve John H. Heller, «a evidência até à data é
insuficiente para provar por forma conclusiva a validade do
síndroma e para atribuir tendências inatas agressivas ou
criminosas a todos os 5 milhões de indivíduos do sexo masculino
do tipo XYY que se estima existirem no Mundo»... «A teoria de que
uma anormalidade genética pode predispor um homem para o
comportamento anti-social, incluindo crimes violentos, é
enganadora e atractivamente simples, mas será difícil de provar.
Uma extensa verificação da composição cromossómica e
observação continuada dos indivíduos do sexo masculino de tipo
XYY é essencial para determinar o rigoroso risco do
comportamento deste grupo. Ainda não é de modo nenhum
universalmente aceite. Muitos especialistas da genética acentuam
que devemos ser prudentes em aceitar a interpretação de que a
condição duplo Y está especificamente associada com o
comportamento criminal, e particularmente no que se refere à
validade médico-legal destes conceitos».
Por isso a tendência da neo-antropologia criminal é para situar o
problema da delinquência no seu contexto social. Como escreve
Pierre Grapin, «nesta perspectiva e por razões tiradas somente do
progresso científico o crime é visto não como a consequência de
tal ou tal “factor” (hereditariedade ou meio ambiente), mas como a
resultante de coeficientes componentes, coagindo somente em
proporções definidas que se trata de apurar».
Quer dizer, aqui também, tal como se viu a propósito da
inteligência, as propensões que possam decorrer da
hereditariedade não serão indiferentes. Mas trata-se de apurar
34

como tais propensões podem ser canalizadas e moldadas pelo
meio social em que os indivíduos nascem e são educados.
Com data de 8 de Junho de 1951 foi divulgada pela UNESCO uma
declaração de um grupo de antropólogos e geneticistas destinada
a completar a declaração de 1950 em certos pontos que tinham
sido objecto de crítica por parte de alguns especialistas.
Passados alguns anos sentiu-se necessário actualizar esta
declaração, e em Agosto de 1964 uma nova declaração sobre os
aspectos biológicos da raça foi aprovada por um grupo de
especialistas reunidos em Moscovo a convite da U.N.E.S.C.O.
«Nenhuma diferença foi até agora detectada por forma convincente
nas dotações hereditárias dos grupos humanos em relação ao que
é medido por testes psicológicos.
O estudo desta questão é prejudicado pela grande dificuldade de
determinar que parte desempenha a hereditariedade nas
diferenças médias observadas nos chamados testes de inteligência
geral entre populações de diferentes culturas.
A capacidade genética para o desenvolvimento intelectual, tal
como certos traços anatómicos principais peculiares à espécie, é
um dos traços biológicos essenciais da sua sobrevivência em
qualquer meio natural ou social.
Certos traços psicológicos são por vezes atribuídos a povos
particulares. Quer tais asserções sejam ou não válidas, não
encontramos qualquer base para atribuir tais traços a factores
hereditários, até prova em contrário».

3.2. A relevância social do meio físico
Ao meio físico vem sendo tradicionalmente reconhecida uma influência
relevante na forma que toma a estruturação das sociedades.
A permanência, que foi, para além da mobilidade ocasional, a experiência de
séculos até ao recente desencadear dos efeitos do êxodo rural associado ao
desenvolvimento industrial e urbano, explica que a marca do meio tenha
embebido profundamente a cultura tradicional em todas as suas formas. Como
observa Maximilien Sorre, reportando-se à experiência europeia que neste
particular é análoga à de todas as áreas de povoamento antigo, «a
estabilidade pareceu-nos durante muito tempo um dos atributos essenciais das
nossas velhas sociedades agrícolas da Europa Ocidental».
Por isso e em harmonia com o regime económico dominante é no seguimento
dos acidentes do meio físico que se estabelecem e consolidam os laços entre
os diversos grupos implantados num mesmo espaço geográfico.

3.2.1. Eficiência climática
Ellsworth Huntington, que dedicou grande parte da sua vasta bibliografia
à análise deste problema, pode talvez tomar-se como exemplo. Tendo
observado que num país tão vasto como os Estados Unidos, que se
estende à escala de um continente, o número de pessoas por divisão
das habitações, o número de nascimentos por mil habitantes, o número
de homicídios, a proporção de famílias possuidoras de rádio e a
presença de diversos outros elementos associados à vida moderna com
melhores condições de conforto, variavam de zona para zona segundo
um mesmo padrão, foi levado a procurar os factores subjacentes a tal
35

diversidade, que lhe pareceu deverem encontrar-se sobretudo em
diferenças em dois aspectos intimamente ligados, o estado geral de
saúde e de vigor físico, por um lado, e a inclinação para trabalhar e a
capacidade de trabalho, por outro. Embora ambos dependam
naturalmente do vigor hereditário dos grupos e do seu nível de cultura,
parece-lhe que também são, em muito, tributários do meio físico e
especialmente do clima. Vê, pois, subjacente à diversidade regional do
nível de vida nos Estados Unidos, assim como às grandes diversidades
verificadas no mundo inteiro, a presença de um factor que designa por
eficiência climática. Explica que «a eficiência climática significa a relativa
eficiência que as pessoas em qualquer estado de civilização teriam nos
vários climas se a sua eficiência variasse somente em reacção ao tempo
e ao clima, e se as pessoas em toda a parte fossem exactamente
semelhantes em todos os outros aspectos». «Toda a gente sabe que
sentimentos humanos, saúde e actividade são extremamente sensíveis
ao tempo e ao clima».
É na verdade, em seu entender, a temperatura que explica que todas as
grandes civilizações tenham surgido em primeiro lugar nas latitudes de
25º a 35º. Os casos que se conhecem de vestígios de grandes
civilizações em zonas muito quentes são realmente criações de povos
que aí se estabeleceram no decurso de migrações, trazendo consigo
culturas formadas em áreas de clima mais estimulante.

3.2.2. Determinismo e Possibilismo
geográficos
«Onde a temperatura do Inverno está abaixo do óptimo as concepções
que resultam em nascimentos vivos têm normalmente um máximo
quando a temperatura se aproxima ou atinge o óptimo na Primavera ou
no Verão. Nos países quentes, como o Norte da Índia, este máximo está,
todavia, associado aos meses de Inverno, os únicos em que a
temperatura baixa até ao óptimo. O significado disto parece ser que o
homem primitivo, como os animais em torno dele, tinha maiores
possibilidades de sobreviver se os jovens nascessem no final do Inverno
ou começos da Primavera. Os animais nascem na Primavera porque
tanto o tempo como a alimentação são então favoráveis à sobrevivência.
O mesmo era indubitavelmente verdadeiro para o homem primitivo».
E. Huntington procura afastar a acusação de determinismo geográfico
que foi feita a algumas das suas obras anteriores. Na verdade o
determinismo geográfico de alguns autores antigos está agora
substituído pela posição que tem sido designada por possibilismo, que
vê no meio físico sobretudo um conjunto de possibilidades que o homem
pode aproveitar e modificar de modo diverso consoante as tendências da
sua cultura.

3.3. A cultura
3.3.1. Natureza e cultura
Na definição famosa de Melville J. Herkovits, «a cultura é a parte do
ambiente feita pelo homem». Cultura é a palavra que no sentido técnico
se usa para cobrir o que noutros tempos se designava genericamente
por civilização. Importada no século XVIII do francês para o alemão com
36

o sentido de formação e polimento, civilidade, educação, aparece pela
primeira vez com o sentido que hoje tem na obra de Gustav K. Klemm
Allgemeine Culturgeschichte der Menschkeit (10 vols., 1843-1852), que é
uma história geral da cultura, e a que se seguiu uma tentativa de
elaboração da ciência da cultura publicada em dois volumes, em 1854 e
1855, com o título de Allgemeine Culturwissenschaft.

3.3.2. Cultura (em geral) e culturas
(particulares)
Foi na obra de Klemm que Tylor parece ter recolhido o novo sentido da
palavra, que na Primitive Culture (1871) define por esta forma: «Cultura
ou civilização ... é o todo complexo que inclui o conhecimento, a crença,
a arte, a lei, a moral, o costume e quaisquer outras capacidades e
hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade.»
A aptidão para criar cultura é o que finalmente distingue o homem dos
animais. A cultura, consolidada ao longo de sucessivas gerações, é
transmitida aos mais jovens e molda todos os comportamentos, e até as
atitudes e as visões das coisas e das pessoas que lhes estão
subjacentes. Cada grupo humano implantado em certa área e
relativamente diferenciado de grupos vizinhos semelhantes tem a sua
própria cultura. Mas muitas vezes essas culturas são parte de uma
mesma família cultural que abrange uma área vasta, compreendendo os
diversos grupos.

3.3.3. Subculturas
Pode acontecer que certas fracções de uma mesma sociedade tenham
em comum uma visão específica do mundo suficientemente distinta para
que se possa falar de subcultura. A ideia tem sido avançada por alguns
antropólogos até para descreverem o ambiente social que caracteriza os
bairros pobres de algumas grandes cidades, sobretudo quando a
pobreza coincide com a marginalidade étnica.

3.3.4. Traços, complexos e padrões e
instituições culturais
Para os estudiosos é útil, para melhor esclarecimento dos factos
individuais e das relações observadas entre eles, proceder por
decomposição da cultura em elementos componentes. Trabalhando com
os materiais etnológicos mais abundantes na altura, que respeitavam em
larga parte aos índios do continente americano, Clark Wissler propôs que
se distinguissem em cada cultura os traços componentes, entendidos
como as menores unidades culturais individualizáveis. Os traços
agrupam-se naturalmente em complexos de cultura. Os complexos de
traços, que se combinam, por sua vez, em cada caso segundo formas
que, em larga medida, são próprias a cada cultura, permitem identificar
padrões de cultura. Enfim, como a observação mostra que muitos
padrões culturais são comuns a povos vizinhos e se estendem por
regiões extensas, pode por aí chegar-se à noção de área cultural, que é
a área delimitada pela presença de padrões culturais substancialmente
37

idênticos. Foi assim possível identificar em relação às culturas de índios
americanos um certo número de áreas culturais.
A verdade, porém, é que na aplicação estes conceitos deparam com
diversas dificuldades. Não se fez facilmente acordo sobre que condições
mínimas deve reunir um elemento da cultura para ser identificável como
traço cultural. A noção de complexo de traços tem sido muitas vezes
substituída pela noção de instituição, que não tem, aliás, sido objecto de
menores controvérsias.

3.3.5. Universais de cultura
A. L. Kroeber e C. Kluckhohn, na sua análise, que cobre o principal dos
trabalhos publicados até 1952, reúnem 164 definições do conceito de
cultura e mostram certa dificuldade em chegar a uma visão de síntese.
Na revisão final de alguns aspectos da sua própria posição sobre o
problema retêm como especialmente importantes os aspectos seguintes:
a) «a cultura é uma categoria geral da natureza, e expressamente da
natureza humana» e nesse sentido é uma categoria que
simultaneamente serve para classificar e explicar;
b) «a totalidade da cultura humana inclui os fenómenos culturais de
todos os povos, tempos e lugares na medida em que estes
fenómenos são conhecidos ou cognoscíveis»;
c) «pode arguir-se que a totalidade da cultura humana é padronizada
somente no sentido de uma larga semelhança em todos os tempos
e lugares de algumas das suas grandes categorias, como a
transmissibilidade, e na posse de valores mais ou menos
universais»;
d) «no entanto, a cultura total é uma generalização como “a matéria
viva” ou a vida total na terra; e é da natureza das generalizações,
que, como tais, não podem mostrar os contornos nítidos de
fenómenos particulares»;
e) «é correcto, por isso, falar tanto da cultura em geral – quer de um
modo descritivo, quer explicativo – como de culturas particulares»;
f) «a cultura é produzida e mudada, concretamente, por indivíduos, e
cada modo de vida distinto é também o produto de um grupo.
Todavia, a cultura não está necessariamente ligada pelo tempo fora
a uma sociedade particular»;
g) «esta é uma das muitas razões pelas quais a cultura deve ser
olhada como um sistema ou categoria autónoma, e na verdade –
pelo menos para certos fins – pode ser tratada francamente com
relativa abstracção das personalidades e sociedades»;
h) «nunca deve esquecer-se que há uma constante interacção entre a
personalidade (ou a variabilidade individual) e a cultura»;
i) a cultura só pode ser entendida como totalidade, pois, embora
sejam os indivíduos e os grupos os criadores da cultura, «o nosso
conhecimento das pessoas – e muito largamente também o nosso
conhecimento das sociedades de pessoas – falhou
significativamente na explicação das formas culturais: no derivar
efeitos culturais específicos de causas específicas psíquicas ou
sociais. De facto os conceitos ou mecanismos psicológicos e sociais
nem sequer são muito bons para descrever as formas culturais»;
j) «as culturas são sistemas (isto é, são organizadas) porque as
variáveis são interdependentes»;
38

k) «a cultura não é o comportamento nem a investigação do
comportamento na sua totalidade concreta.
Finalmente toda a cultura inclui largos princípios gerais de selectividade
e ordenamento (“os mais altos factores comuns”) em termos dos quais
padrões de, e para, e acerca do comportamento em muito variadas
áreas de conteúdo cultural são redutíveis a generalização
parcimoniosa».
Aos aspectos que aparecem com frequência em quase todas as culturas
conhecidas têm-se chamado os «universais da cultura». Mas também
aqui está longe de se ter alcançado o acordo dos antropólogos, embora
se individualizem em quase todos os casos as formas culturais relativas
à vida material e económica, à formação dos jovens, à família e
parentesco, à constituição de grupos e associações, ao contrôle social e
governo, ao saber, arte e religião, à língua, e assim por diante.
A dificuldade que têm encontrado os antropólogos em chegar a um
modelo comum de sistematização dos factos observados traduz no
fundo a complexidade e diversidade das sociedades tribais e tradicionais
de que sobretudo se têm ocupado. E é uma dificuldade que, aliás, se
tem feito sentir genericamente nas ciências sociais, pois é inerente ao
estudo da cultura, que nos seus diferentes aspectos constitui muito do
seu objecto.
Que a cultura, que absorve toda a vida dos homens e se encontra,
embora com formas várias, em todos os grupos, constitua muito do
objecto principal das ciências sociais não tem tão-pouco de ser motivo
de surpresa. Pois à luz do que se sabe hoje sobre o caminho que segue
a conformação do organismo, como fruto de uma íntima e continuada
interacção do fundo genético da espécie e do meio ambiente, de que a
cultura é talvez a parte dominante, parece evidente que o ser humano,
mesmo naqueles aspectos da sua conformação que podem dizer-se
biológicos, está profundamente marcado pelo meio cultural onde nasceu
e se fez o seu treino social.
Emile Durkheim procurou mostrar isto mesmo num estudo célebre sobre
O Suicídio (1897), que ainda hoje é digno de meditação, apesar de
superado em diversos aspectos. Pois além do valor que ainda tem de
análise exemplar, subsiste a tese central, que é a de que até numa
decisão tão pessoal como o suicídio pode ver-se menos o fruto de
motivos individuais ou de causas atribuíveis à constituição hereditária ou
ao meio físico do que a expressão das grandes correntes sociais.

3.4. As relações sociais
3.4.1. Especificidade e autonomia das relações
sociais
3.4.1.1. Formas de Solidariedade
Este estudo de Durkheim sobre o suicídio mostra, pois, claramente
a incidência social de um factor que não pode reconduzir-se a
nenhum dos outros, que nem mesmo numa concepção ampla da
cultura pode inteiramente incluir-se, e que é a forma das relações
sociais que, como se viu, umas vezes estimulam o suicídio pela
excessiva coesão social e outras o estimulam pelo excessivo
relaxamento. Há assim necessidade de individualizar um quarto
39

factor da explicação social, que são as relações sociais, e que com
o nome de «formas da solidariedade» constitui o tema central do
livro De la Division du Travail Social (1893), o primeiro dos grandes
livros de Durkheim.
Abordando o problema da formação dos laços sociais, Durkheim
nota que as pessoas podem sentir-se atraídas umas pelas outras
pelas suas semelhanças ou pelas suas diferenças, embora nem
todas as diferenças sejam causa de atracção, pois se o homem de
reflexão pode ser atraído pelo homem de acção, o fraco pelo forte,
ou o tímido pelo resoluto, não se verifica que os pródigos se sintam
atraídos pelos avarentos, ou os espíritos francos pelos hipócritas, e
assim por diante.

3.4.1.2. Solidariedade mecânica e orgânica
A atracção e a interdependência entre as pessoas pode
estabelecer-se por forma a que estas se movam em bloco, como
um só corpo, e a esse tipo de solidariedade chama Durkheim
mecânica. Como explica Durkheim, «há em cada uma das nossas
consciências... duas consciências: uma, que nos é comum com
todo o grupo, que, por consequência, não é nós próprios mas a
sociedade vivendo e agindo em nós; outra, que não representa,
pelo contrário, senão a nós naquilo que temos de pessoal e
distinto, no que faz de nós um indivíduo. A solidariedade que
deriva das semelhanças atinge o seu máximo quando a
consciência colectiva recobre exactamente a nossa consciência
total e coincide em todos os pontos com ela; mas, nesse momento,
a nossa individualidade é nula»... «no momento em que essa
solidariedade exerce a sua acção, a nossa personalidade
desaparece, por assim dizer, por definição, porque já não somos
nós próprios mas o eu colectivo. As moléculas sociais que não
fossem coerentes senão desta maneira não poderiam, pois, mover-
se num conjunto senão na medida em que não tivessem
movimentos próprios, como fazem as moléculas dos corpos
inorgânicos. É por isso que propomos chamar mecânica esta
espécie de solidariedade».
A atracção e a interdependência entre as pessoas pode, pelo
contrário, levar a que cada um se mova independentemente, na
sua própria esfera de acção, embora ligado ao todo por um
processo de complementaridade assente na divisão do trabalho
social. A este tipo de solidariedade chama Durkheim orgânica.
Explica que, ao contrário da solidariedade mecânica, esta só é
possível «se a consciência colectiva deixar descoberta uma parte
da consciência individual, para que aí se estabeleçam essas
funções especiais que ela não pode regulamentar; e quanto mais
extensa for esta região mais forte é a coesão que resulta desta
solidariedade. Com efeito, por um lado, cada um depende tanto
mais estreitamente da sociedade quanto mais dividido for o
trabalho e, por outro, a actividade de cada um é tanto mais pessoal
quanto mais especializada for»... «Cada órgão, com efeito, tem a
sua fisionomia especial, a sua autonomia, e no entanto a unidade
do organismo é tanto maior quanto mais marcada é a
individualização das partes. Em razão desta analogia propomos
40

chamar orgânica à solidariedade que é devida à divisão do
trabalho».
A solidariedade mecânica tem uma primeira expressão na massa
homogénea, que se encontra em determinadas circunstâncias,
sobretudo entre os povos primitivos, em que os elementos
componentes não estão dispostos ou organizados de nenhuma
maneira definida. A isto chama Durkheim a horda, agregado de
onde teriam saído todos os tipos sociais. Á horda que deixou de
estar isolada para se encaixar num conjunto mais vasto chama clã
e aos povos que resultam do agregado de clãs designa por
sociedades segmentares à base de clã. O clã é ao mesmo tempo
um grupo familiar e político. A autoridade política é no clã exercida
por um chefe que emerge igualmente numa base familiar. Os
componentes de uma estrutura deste tipo, como nota Durkheim,
não podem ser tão semelhantes que se percam na massa nem tão
diferentes que comprometam a homogeneidade do todo.
Pelo contrário, a solidariedade orgânica exprime-se numa estrutura
social que é um sistema de órgãos diferentes, com funções
individualizadas, compostos eles próprios de partes diferenciadas,
coordenadas e subordinadas em torno de um órgão central
moderador. Na verdade o que julga ver é a presença de uma
organização segmentar à base de clãs entre os povos mais
primitivos, que evolui progressivamente para se tornar uma
organização segmentar de base territorial, em que as regiões,
assento das comunidades locais, se substituem aos clãs como
elemento organizador da sociedade. O que se verifica é que, com
a diminuição da importância dos clãs, se alargam as superfícies de
contacto entre os indivíduos e por aí multiplicam-se as relações
entre os membros dos diferentes segmentos, dando-se o
fenómeno que Durkheim designa por aumento da densidade
dinâmica ou moral, e ao mesmo tempo um fenómeno de
aproximação natural, quer por concentração da população, quer
por melhoria das comunicações, e que descreve como aumento da
densidade material. Na verdade a evolução de uma e outra estão
intimamente ligadas, uma vez que o aumento da densidade moral
depende da densidade material. O fenómeno atingiu a sua forma
mais elevada com o aparecimento das cidades, tudo se traduzindo
no que se chama uma «condensação da sociedade». Esta
acompanha-se de modo geral também de um alargamento da
massa populacional que descreve como elevação do volume
social. É como resultado da afirmação deste processo que a pouco
e pouco se impõe a necessidade de uma divisão de trabalho, que
se vai tornando cada vez mais complexa.
A solidariedade orgânica está ligada à aceitação da diferença, a
laços sociais de natureza contratual, à especialização de
actividades e a um direito restitutivo, que traduz manos o peso da
censura colectiva sobre os culpados de desvios das práticas
comuns que a preocupação de definir e regular adequadamente as
várias funções sociais.
41

3.4.1.3. Conteúdos e formas (das relações
sociais)
Georg Simmel levou mais longe ainda esta ideia, mostrando que
era possível e mais correcto distinguir nas relações sociais o
conteúdo da forma e fazer desta última o objecto de um ramo
especial da sociologia, a sociologia pura ou formal. Explicava que
«tudo o que está presente nos indivíduos (que são os dados
imediatos, concretos de toda a realidade histórica) sob a forma de
um impulso, interesse, propósito, inclinação, estado psíquico,
movimento – tudo o que está presente neles de maneira a
engendrar ou provocar efeitos em outros ou a receber tais efeitos
designo por conteúdo, por assim dizer o material da associação
(sociation). Em si próprios, estes materiais com que se preenche a
vida, as motivações que a impulsionam, não são sociais.
Rigorosamente falando, nem a fome, nem o amor, nem o trabalho,
nem a religiosidade, nem a tecnologia, nem as funções e os
resultados da inteligência são sociais. São factores de sociation
apenas quando transformam a mera agregação de indivíduos
isolados em formas específicas de estar com e para os outros –
formas que estão incluídas no conceito geral de interacção.
Sociation é assim a forma (realizada de inumeráveis maneiras
diferentes) como os indivíduos desenvolvem juntos unidades que
satisfazem os seus interesses». Estas formas, explica ainda
Simmel, existem «por si próprias e pela fascinação que na sua
própria libertação destes laços (com o conteúdo) difundem. É
precisamente o fenómeno a que chamamos sociabilidade». Estas
formas, para além do seu conteúdo específico, são caracterizadas
pelo sentimento que os que nela participam têm de estar
associados e o prazer que daí retiram. A constituição da relação
social é assim um valor em si próprio, independentemente de
qualquer conteúdo, que está exemplificado por forma privilegiada
na reunião social em que as pessoas normalmente se esforçam
por manter as conversações e as diferentes actividades em nível
neutro para não comprometerem o sucesso da reunião, que é
representado sobretudo pelo gozo do prazer de estarem juntas.
Por isso são relevantes no trato social, nesse contexto o tacto, a
sensibilidade, a simpatia e a cordialidade. Como exemplos deste
estar junto apenas pelo prazer da ligação social sem qualquer
outro objectivo, e que exprime a forma mais pura da sociabilidade,
Simmel aponta os jogos ditos de sociedade, a coquetterie, a
conversação, e assim por diante.

3.4.1.4. Estrutura social e funções sociais
Esta mesma tomada de consciência da necessidade de distinguir
no âmbito da vida colectiva o que respeita às relações sociais do
que se reporta à cultura está na origem da individualização, no seio
da antropologia, de uma antropologia social, que se desenvolveu
especialmente na Inglaterra sob o impulso de Radcliffe-Brown e
dos seus discípulos. Nesta orientação, à antropologia cultural cabe
estudar a cultura, que é conteúdo ou a «essência» da vida social, e
à antropologia social cabe estudar as relações sociais, que
constituem um processo de acções e interacções. Explica
42

Radcliffe-Brown, num dos seus últimos escritos (1952) que, em seu
entender, «a realidade concreta com que lida a antropologia social
na observação, descrição, comparação e classificação não é, de
modo nenhum, uma essência mas um processo: o da vida social.
O objecto primeiro da investigação é constituído pela vida social de
uma região particular do globo, durante um certo período de
tempo: o processo consiste ele próprio em uma multidão de acções
e de interacções de seres humanos, agindo individualmente ou em
relação uns com os outros, quer dizer, em grupos. Na diversidade
dos acontecimentos particulares aparecem regularidades, de modo
que é possível expor ou descrever certos traços gerais da vida
social de uma região determinada, quer dizer, o que podemos
chamar uma forma da vida social.
No seu conjunto, os vários elementos da vida social estão ligados
entre si por certas «relações de interconexão e interdependência»
constituindo um sistema social, e por isso compreender um
qualquer «traço constante de uma forma social» é situá-lo em
relação ao sistema de que faz parte. O sistema é um processo em
evolução, caracterizado simultaneamente por certas relações mais
estáveis e outras em via de mais acentuada transformação.
No fundo um sistema social é um sistema adaptativo que se
manifesta em três aspectos:
a) uma adaptação ao meio físico, que é a adaptação ecológica;
b) um ordenamento dos vários componentes institucionais da
vida social, que é a adaptação institucional; e
c) um processo de aquisição pelos indivíduos dos
comportamentos próprios da cultura do grupo e que é a
adaptação cultural.
O ordenamento particular das partes que constitui o todo social é a
estrutura social . A relação entre um traço social e a estrutura é a
sua função. Por isso, escreve Radcliffe-Brown, «os três conceitos
de processo, de estrutura e de função são assim os componentes
de uma teoria única, os elementos de um esquema de
interpretação dos sistemas sociais humanos. Estão ligados por
uma relação lógica, na medida em que o termo “função” define as
relações do processo e da estrutura. Deste modo, esta teoria é
aplicável ao estudo da permanência das formas da vida social e
igualmente aos processos de mudança dessas formas».
Esta preocupação com as relações sociais como realidade própria
tem sido, aliás, fonte de desacordos ainda não apagados no seio
da antropologia. A antropologia social vem a ser para essa corrente
concebida como um ramo da sociologia que se preocupa
sobretudo com as sociedades primitivas, e por isso se vê procurar
os seus antecedentes teóricos na obra de Spencer e Durkheim,
que surgem assim simultaneamente como fundadores da
sociologia e da antropologia.

3.4.1.5. Sociedade e cultura
Esta concepção, assim como, aliás, os reflexos da polémica com
os antropólogos americanos, transparece bem da forma como
Evans-Pritchard, figura eminente da escola britânica, apresenta o
objecto da antropologia num texto que foi parte de uma série de
palestras pronunciadas em 1950 na B.B.C.: «Entre os primeiros
43

antropólogos, Morgan, Spencer e Durkheim concebiam o objecto
do que agora se convencionou chamar antropologia social como a
classificação e análise funcional das estruturas sociais. Este ponto
de vista é ainda o dos adeptos de Durkheim, em França. Por outro
lado, Tylor e um certo número de outros investigadores, mais
particularmente inclinados à etnologia, pensam que o objecto da
antropologia é classificar e analisar as culturas. Este ponto de vista
dominou durante muito tempo a antropologia americana e explica-
se, penso eu, pelo facto de que eles estudavam sociedades índias
que, fraccionadas ou desintegradas, se prestavam mais facilmente
a investigações culturais que a investigações sobre as relações
sociais; é preciso ajuntar que os investigadores americanos não
tinham o hábito do trabalho intensivo de campo, lacuna devida à
sua ignorância das línguas vernáculas (ao contrário dos
investigadores britânicos), e que tinham mais inclinação para
estudarem a cultura e os costumes que as relações sociais.
Se são problemas de estrutura social, ele deve antes considerar o
conjunto das relações sociais dos indivíduos a que respeita o
inquérito do que entrar no pormenor da expressão cultural.»

3.4.1.6. Formas de sociabilidade e tipos de
unidade colectivas
No esquema de interpretação sociológica proposto por Georges
Gurvitch inclui-se uma sistematização das formas de sociabilidade,
como elemento central do que se designa correntemente por
«relações sociais» e «interacção social», que aspira justamente a
marcar um passo em frente sobre os diversos conceitos propostos
para exprimir a essência dos laços sociais e de que se tornaram
correntes:
• o in-group e o out-group de Summer;
• os grupos primários e secundários de Cooley;
• a distinção de Tonnies em sociedade e comunidade;
• a solidariedade orgânica e a solidariedade mecânica de
Durkheim;
e assim por diante. Trata-se de encontrar os tipos sociais que
efectivamente se combinam nos fenómenos mais complexos, os
tipos sociais mais gerais e mais abstractos. Explica assim o seu
pensamento: «Consideramos que os componentes mais
elementares da realidade social são constituídos pelas múltiplas
maneiras de estar ligado pelo todo e no todo, as formas de
sociabilidade que, em diferentes graus de actualidade e de
virtualidade, se combatem e equilibram em cada unidade colectiva
real. As formas da sociabilidade são fenómenos sociais totais, o
que pressupõe que elas contém, pelo menos virtualmente, todos
os escalões em profundidade, mas são fenómenos sociais totais a-
estruturais, o que não as impede de serem utilizadas pelas
unidades colectivas reais macrossociológicas no seu processo de
estruturação.» São tipos microssociológicos cuja repetição e
combinação ajuda a entender as outras duas «escalas de grupos
sociais»,
• os tipos de unidades colectivas particulares (grupos de
actividade, localidade, parentesco, etc.) e
44

• os quadros estruturais da sociedade – tipos que resultam da
sua combinação hierárquica, da sua integração e
desintegração na sociedade global.
Distingue em primeiro lugar
• a sociabilidade espontânea; e
• as expressões organizadas da sociabilidade,
o que visa diferenciar o rígido, cerimonial, preestabelecido, do mais
propriamente espontâneo.
Analisando, depois, as formas de sociabilidade espontânea,
considera
• a sociabilidade espontânea por interpenetração, participação e
fusão parcial no Nós (Nous) e
• a sociabilidade espontânea por oposição parcial e ligação
mútua entre Eu, Tu, Ele (Moi, Toi, Lui, Il), constituindo as
relações com outrem (rapports avec autrui).
O Nous «constitui um todo irredutível à pluralidade dos seus
membros, uma unidade nova indecomponível onde, todavia, o
conjunto tende a ser imanente às suas partes e as partes
imanentes ao conjunto». O sentimento de relação conjunta, de
ligação a um mesmo todo, não está ausente das «relações com
outrem», mas aqui, ao elemento comum que definiria um Nós,
sobrepõe-se o elemento de delimitação e diferenciação dos
participantes. Esta heterogeneidade parcial, que admite toda uma
escala de graus e de tonalidades, estende-se a todas as formas de
relações com outrem. Não se aplica apenas às relações com
outrem que comportem lutas, conflitos, reservas, delimitações
recíprocas de interesses e de direitos, ou mais largamente
implicando um recurso necessário à comunicação por sinais e
símbolos; é igualmente válida para as mais íntimas relações com
outrem, para as que se fundam sobre intuições actuais, e que,
todavia, não suprimem de modo nenhum o elemento de oposição
parcial «entre os parceiros».
Os vários graus de intensidade que pode apresentar a
sociabilidade por interpenetração, participação e fusão parcial no
Nós permitem distinguir como tipos, seguindo a tradição da
literatura sociológica,
• a massa,
• a comunidade e
• a comunhão.
Massa – o grau de participação no Nós é fraco, limitando-se ao
aspecto superficial das relações e mantendo-se reservado o
mundo mais íntimo e pessoal das pessoas.
Comunidade – traduz uma situação intermédia, em que o grau de
participação no colectivo vai muito além dos aspectos superficiais
actuantes no caso da massa, mas observando-se ainda uma certa
independência de determinados aspectos do Eu das pessoas em
presença.
Comunhão – representa o ponto máximo da fusão no Nós, cuja
influência e atracção penetra até ao mais íntimo do Eu dos
participantes.
A intensidade e o volume da fusão no Nós variam inversamente,
dado que é difícil estender um grau de adesão muito íntimo a um
grande número de pessoas.
45

Paralelamente, a sociabilidade por oposição parcial pode levar a
graus diversos de intensidade nas relações com outrem, podendo
distinguir-se
• as relações de aproximação,
• as relações de afastamento e
• as relações mistas.
Recobrindo estas formas de sociabilidade por fusão parcial e
sociabilidade por oposição parcial aparecem na análise de
Gurvitch,
• a sociabilidade activa e
• a sociabilidade passiva,
distinguindo-se cada caso conforme o ascendente que as obras
comuns são susceptíveis de tomar sobre os próprios sentimentos
de participação, ou de oposição, suscitados pelos fenómenos de
sociabilidade. Distingue ainda nos Nós activos, conforme
• realizam uma só obra comum – Nós unifuncionais,
• ou várias – Nós multifuncionais,
• ou têm funções múltiplas difíceis de enumerar – Nós
suprafuncionais.
Abordando o problema da sociabilidade organizada, que se liga
com o número de funções que se procura servir, salienta a
necessidade de distinguir os diferentes casos conforme o grau de
abertura às formas de sociabilidade espontânea. Trata-se
essencialmente de considerar os casos de sociabilidade
organizada segundo
• o princípio de domínio e
• o princípio de colaboração.
Distingue, por fim, entre os Nós, organizados ou não,
• os que servem o interesse geral e
• os que servem interesses particulares.

3.4.2. Grupos e sociedade
3.4.2.1. Grupo, Associações, Organizações e
Sociedade global
As formas de sociabilidade são um elemento importante da
realidade dos grupos, mas há neles algo mais do que um certo
tipo ou tipos de formas de sociabilidade. Os grupos situam-se no
plano macrossociológico e estão mais perto dos níveis mais rígidos
e organizados do social do que as formas de sociabilidade, muito
ligadas aos níveis onde o elemento de espontaneidade é mais
nítido. Os grupos não se confundem com a sociedade global em
que se inscrevem, a qual decerto os penetra e os impregna de
algum modo da coloração particular que lhe é própria, nem se
esgotam inteiramente nas relações de interacção e de
interdependência que ligam os indivíduos. Cada pessoa é membro
de numerosos grupos, a cada um dos quais dão uma
individualidade própria as relações estabelecidas entre os
membros no seu seio.
Gurvitch, procurando formular uma definição do grupo, sentiu por
isso a necessidade de situar as suas ideias em relação às teorias
conhecidas e começou assim por elaborar uma lista daquilo que os
grupos não são ou não são necessariamente, lista que se afigura
46

de algum interesse para situar as concepções mais recentes sobre
estes fenómenos.
1º Os grupos não são uma quantidade ou uma colecção de
indivíduos semelhantes nem simples categorias sociais, pelo
menos enquanto agregado puramente nominal.
2º Os grupos não são médias estatísticas. É possível, de facto,
estudar por processos matemáticos apropriados um padrão
provável das relações entre os membros de um grupo constituído
de certa maneira hipotética, mas a observação social revela nos
grupos situações consideravelmente diferentes, ao ponto de o
contraste entre a situação teórica e a situação de facto ter podido
ser utilizada pela escola sociométrica americana como teste da
realidade do grupo.
3º Os grupos não são, além disso, simples ajuntamentos
(assemblages) de pessoas reunidas e justapostas. Muitas vezes os
grupos podem ser formados por pessoas distantes umas das
outras, embora ligadas de certo modo.
4º Os grupos não são simples relações sociais, nem relações
sociais positivas e complementares, nem sistemas ou unidades de
interacções humanas. Neste caminho se têm orientado os mais
influentes sociólogos americanos, que, insistindo no aspecto
relações com outrem da sociabilidade têm desconhecido o papel
desempenhado pela participação num mesmo Nós, aliás até como
elemento implícito nas próprias relações com outrem.
5º Os grupos não são simples conjuntos de estatutos e de papéis
sociais.
6º Os grupos não podem reduzir-se às associações, no sentido de
grupos formados para a satisfação de diversos tipos de interesses,
conforme a análise de MacIver.
7º Os grupos não podem ser reduzidos às organizações, pois
como fenómeno social total podem actualizar-se a todos os níveis
de manifestação dos fenómenos e como combinação particular de
formas de sociabilidade não podem exprimir-se apenas num dos
aspectos dessas formas. Subjacente ao grupo, por mais importante
que no seu seio seja o papel da organização, existe sempre uma
realidade espontânea que pode ter papel decisivo no equilíbrio de
tensões que efectivamente define a realidade do grupo.
8º Os grupos não podem ser reduzidos às formas de sociabilidade
nem às sociedades globais, pois constituem eles próprios um
equilíbrio de formas de sociabilidade e inscrevem-se a par de
outros grupos, em ligação com eles, num meio social mais vasto
que os enquadra e influencia – a sociedade global, de que hoje a
nação organizada em Estado é o exemplo mais frequente.
Tudo isto permite agora situar na sua realidade própria o grupo que
Gurvitch define como uma unidade colectiva real mas parcial,
directamente observável e assente em atitudes colectivas,
contínuas e activas, tendo uma obra comum a realizar, unidade de
atitudes, de obras e de comportamentos, a qual constitui um
quadro social estruturável tendendo para uma coesão relativa das
formas de sociabilidade.
Os grupos são unidades colectivas, englobando uma multiplicidade
de formas de sociabilidade, integrando-se nas sociedades globais,
de que são um dos elementos constitutivos. A obra comum e a
47

unidade de comportamentos dá por sua vez uma certa coesão ao
conjunto, levando-o a sobrepôr-se ao sistema de Nós e de
relações com outrem que se actualizam no seu seio, por forma a
estabelecer-se um equilíbrio, mais ou menos precário, na medida
em que se trata de uma realidade em constante evolução, dos
múltiplos elementos do social, que por sua vez pode permitir uma
estruturação, ou seja, uma certa organização, das múltiplas
hierarquias que se actualizam no seio do grupo, e uma certa
definição do grupo em relação ao meio em que se inscreve,
estruturação essa que pode ou não vir a traduzir-se numa ou em
mais organizações, conforme as tendências do grupo que
procurem exprimir-se por esse meio.

3.4.3. O “Suicídio” de Dürkheim como exemplo
do estudo da incidência dos factores de
explicação do social
Durkheim parte, em boa lógica, de uma análise do que deve entender-se
por suicídio, facto de que todos falam correntemente, mas que poucos
são capazes de definir com exactidão. Na verdade, o seu intento é incluir
entre os suicídios não apenas aquelas mortes que resultam directamente
«de um acto de que o paciente é o autor», mas de todos os actos em
que aquele que os pratica possui a consciência de que tem de resultar a
morte, mesmo que esta seja realmente um acto de outrem.
Pretende mostrar que «a taxa dos suicídios constitui, portanto, uma
ordem de factos una e determinada; é o que mostram juntamente a sua
permanência e a sua variabilidade».
É uma ordem de factos que pode, por isso, ser propriamente objecto de
estudo pelo sociólogo. Ora, tratando-se de lhe encontrar as causas pode
recorrer-se a duas ordens de factores:
1. Factores extra-sociais:
a) Efeitos dos estados psicopáticos. Examinando em primeiro lugar
os possíveis efeitos de estados psicopáticos, postos na origem do
suicídio por alguns autores do tempo, é levado à conclusão de
que «a taxa social dos suicídios não tem nenhuma relação
definida com a tendência para a loucura, nem, por via de indução,
com a tendência para as diferentes formas de neurastenia. Não é
porque uma sociedade contem mais ou menos neuropatas ou
alcoólicos que ela tem mais ou menos suicidas»;
b) Efeitos da raça e da hereditariedade. Abordando as possíveis
relações da taxa de suicídios com factores ligados à constituição
física hereditária, que igualmente tinham sido postos na base das
diferenças do fenómeno de país para país e de região para
região, começa por criticar as definições de raça que têm sido
propostas;
c) Efeitos dos factores cósmicos. Observa, com efeito, que o factor
subjacente à evolução do fenómeno é a duração do dia. Os
suicídios são mais frequentes nas épocas do ano em que os dias
são mais longos. E o que determina, ainda, as maiores
frequências de suicídios nestes períodos não é naturalmente a
luz, mas a maior intensidade da vida colectiva. Escreve assim, em
conclusão, que, «se as mortes voluntárias se tornam mais
numerosas de Janeiro para Julho não é porque o calor exerça
48

uma influência perturbadora sobre os organismos, é porque a vida
social é mais intensa. Sem dúvida que, se ela adquire essa
intensidade, é que a posição do Sol sobre a elíptica, o estado da
atmosfera, etc., lhe permitem desenvolver-se mais facilmente que
durante o Inverno. Mas não é o meio físico que a estimula
directamente; sobretudo não é ele que afecta a marcha dos
suicídios;
d) Efeitos da imitação, que para Durkheim deve ser vista como um
fenómeno da psicologia individual.
Com este entendimento parece-lhe incontestável que a imitação é
responsável por diversos casos de suicídio. Mas entrando mais
profundamente nas variações regionais e nacionais do fenómeno,
é levado a sustentar que não pode descortinar-se nenhuma
tendência de propagação de uma corrente de suicídios dentro de
uma sociedade ou de um grupo de indivíduos.
2. Factores sociais
a) Factores que conduzem a uma excessiva separação do indivíduo
do corpo social, uma excessiva individualização, e que dão
origem a um tipo de suicídio que designa por suicídio egoísta;
b) Factores que provocam uma excessiva subordinação do indivíduo
à colectividade e que dão origem a um tipo de suicídio que
designa por suicídio altruísta;
c) Factores que conduzem a um exagerado relaxamento dos laços
sociais, a um estado social de insuficiente integração, de anomia,
e que dão origem a um tipo de suicídio que designa por suicídio
anómico.
Para documentar os casos de suicídio altruísta, que são os que resultam
de uma excessiva integração do indivíduo na sociedade, recorre a
numerosos exemplos tirados de costumes de povos europeus noutras
épocas ou dos povos contemporâneos de outros continentes. São
suicídios deste tipo a morte que os bárbaros dinamarqueses procuravam
em combate para fugirem à vergonha de morrerem de velhice ou de
doença, as mortes voluntárias dos indivíduos que atingiam certas idades
avançadas, o suicídio das mulheres indianas na ocasião da morte dos
maridos, o suicídio dos servos que seguem o seu senhor na morte, o
suicídio por motivos de prestígio, e assim por diante. Estes são casos de
suicídio próprios de sociedades em que o indivíduo conta por pouca
coisa, em que todo o treino social leva o indivíduo a sujeitar-se às
necessidades da colectividade. Explica, pois, que «uma vez que
chamamos egoísta ao estado em que se encontra o eu quando vive da
sua vida pessoal e não obedece senão a si próprio, a palavra altruísmo
exprime bastante bem o estado contrário, aquele em que o eu se não
pertence, em que ele se confunde com outra coisa que ele próprio, em
que o pólo da sua conduta está situado fora de si, a saber, em um dos
grupos de que faz parte».
«Todas as vezes que graves rearranjos se produzem no corpo social,
quer sejam devidos a um súbito movimento de crescimento ou a um
cataclismo inesperado, o homem mata-se mais facilmente».
Isto resulta, pois, do desregramento social, do estado de anomia, e por
isso a designação que convém a este outro tipo de suicídio é a de
suicídio anómico.
De tudo conclui Durkheim que não pode encontrar-se outra explicação
para a taxa social dos suicídios que não seja sociológica. Escreve assim
49

que «é a constituição moral da sociedade que fixa em cada instante o
contingente de mortes voluntárias. Os movimentos que o paciente realiza
e que, à primeira vista, parecem não exprimir senão o seu temperamento
pessoal são, na realidade, o seguimento e o prolongamento de um
estado social que eles manifestam exteriormente».
É, pois, nestas tendências colectivas, que reflectem as representações
colectivas, que devem concentrar-se as tentativas de entendimento
deste fenómeno social e de outros análogos. Esse é o objecto da ciência
social que, como explica Durkheim em resposta a críticas que lhe foram
feitas, parte da ideia de que «uma crença ou uma prática social é
susceptível de existir independentemente das suas expressões
individuais. Por aí, nós não pensamos evidentemente dizer que a
sociedade é possível sem indivíduos, absurdo manifesto de cuja suspeita
nos poderiam ter poupado. Mas entendemos:
1.º que o grupo formado pelos indivíduos associados é uma
realidade de outra espécie (d'une autre sorte) que cada indivíduo
tomado à parte;
2.º que os estados colectivos existem no grupo, da natureza da qual
derivam, antes de afectar o indivíduo como tal e de se
organizarem nele, sob uma forma nova, numa existência
puramente interior».
50
51

4. Métodos da observação e análise dos
factos sociais
4.1. Problemas da observação e da análise
em ciências sociais
4.1.1. Problemas gerais
A observação nas ciências sociais tem de enfrentar problemas
particulares em virtude da delicadeza que frequentemente rodeia os
factos que são objecto de estudo. Muitas das opiniões, atitudes,
comportamentos, realizações e outros factos que podem ser tema de
estudo são objecto de sentimentos poderosos que podem levar a opor
vivas reacções à curiosidade exterior. Relativamente a muitos planos da
sua vida íntima ou no que respeita às suas convicções, não é fácil
conseguir que as pessoas prestem informações, nem é mesmo
socialmente correcto procurar obtê-las.
As diversas técnicas de observação usadas nas ciências sociais podem
agrupar-se, seguindo Maurice Duverger, em três categorias principais:
– a observação documental – procura estudar os factos sociais a partir
dos documentos dos mais diversos tipos que estes tenham deixado
atrás de si;
– a observação directa extensiva – procurando estudar os factos para
além dos documentos que os possam mais ou menos fielmente
reproduzir, se situa ao nível das grandes comunidades, recorrendo
muitas vezes ao estudo de amostras representativas;
– a observação directa intensiva – tenta penetrar até às pequenas
comunidades e aos comportamentos individuais, procurando a visão
em profundidade.

4.1.2. Os quadros de interpretação
Fases do estudo científico:
 observação e descrição dos factos;
 classificação dos factos;
 explicação;
 verificação.
Naturalmente que todas estas fases do trabalho científico estão
intimamente ligadas, e no espírito do estudioso passa-se, de facto,
constantemente de uma a outra.

4.1.2.1. Descrição e classificação
Tem de reconhecer-se que, pelo que respeita às ciências sociais, o
plano das explicações gerais é aquele onde se têm registado
menores progressos, o que não deixa de ter reflexos na dificuldade
que correntemente se encontra em conseguir o acordo dos
especialistas sobre as diferentes classificações propostas. Uma
fonte importante desta dificuldade é, no entanto, também a
complexidade dos fenómenos e a sua apresentação ao observador
52

sob a forma de um continuum em que é difícil distinguir o essencial
do superficial, o constante do acidental, e por aí chegar a uma
sistematização que apareça como uma reprodução satisfatória das
próprias diferenciações reais entre os fenómenos, e não como uma
simples construção artificial correspondendo à necessidade do
espírito humano de repartir por categorias facilmente acessíveis a
multiplicidade dos fenómenos.
Muito do labor dos estudiosos das ciências sociais, especialmente
nos Estados Unidos, tem-se até hoje orientado para a descrição
dos factos, e por isso o sector mais desenvolvido do método das
ciências sociais é o das técnicas de observação. Se não
considerarmos as obras dos grandes clássicos como Herbert
Spencer, Emile Durkheim, Max Weber ou Vilfredo Pareto, que pela
sua própria natureza são de difícil imitação e estão ultrapassadas
em certos aspectos, temos de reconhecer que é de há poucos
anos a tendência para a classificação dos fenómenos e, embora
algum caminho se tenha feito nesse sentido, os resultados são de
valor desigual, devido às já referidas dificuldades que o problema
apresenta.

4.1.2.2. Tipos e tipologias
As tipologias tomaram, no entanto, grande importância na análise
nas ciências sociais, como ponto intermédio entre a descrição e a
formulação de teorias gerais de explicação, pois, em virtude dos
problemas já referidos postos pela explicação, a tendência actual é
para circunscrever o âmbito de verificação das eventuais
generalizações ou «leis sociais», a certo quadro social definido no
espaço e no tempo, e que corresponde à ideia de tipo social na sua
concepção mais lata. Como se viu, o determinismo social
concebido por alguns dos primeiros estudiosos, segundo o qual se
poderia estabelecer uma relação de causalidade entre A e B, por
forma a que uma vez verificado A viesse a surgir necessariamente
B, veio cada vez mais a ser substituído pela ideia da relação
funcional entre os fenómenos correspondendo à ideia matemática
de função e pela ideia de determinismo probabilístico. A concepção
actual do determinismo social é a de um determinismo estocástico
baseado no cálculo das probabilidades, que deixa a necessária
margem à natural liberdade humana. Mas este determinismo é
concebido relativamente a uma certa combinação de fenómenos,
um quadro social, que pode ser um tipo social determinado
histórica e geograficamente.
As grandes teorias gerais da evolução das sociedades que têm
sido propostas não têm conseguido ser objecto de uma geral
aceitação entre os especialistas.

4.1.3. O problema da experimentação
Uma das dificuldades da investigação nas ciências sociais é a falta de
condições favoráveis à experimentação das hipóteses formuladas pelos
estudiosos.
53

4.1.3.1. Repetibilidade e controlo de factores
Ao contrário das ciências da natureza, em que é quase sempre
fácil repetir os fenómenos tantas vezes quanto se deseja nas mais
diversas circunstâncias por forma a identificar com segurança o
papel das diferentes variáveis no desenrolar dos factos que se
estudam, nas ciências sociais a manipulação dos acontecimentos
necessária à criação das condições experimentais é severamente
limitada pelos problemas éticos que resultam do facto de o objecto
de uma tal manipulação ser o próprio homem.

4.1.3.2. Limites éticos ao controlo experimental
Sendo claramente inaceitável, em muitos casos, do ponto de vista
moral, ou impossível na prática criar com grupos humanos todas as
situações experimentais que podem desejar-se, poderia concluir-se
que a experimentação deve ser excluída do método das ciências
sociais. É certo que não é possível nas ciências sociais um recurso
tão amplo à experimentação como se pratica nas ciências da
natureza. No entanto, os estudiosos dos fenómenos sociais têm
procurado por processos mais ou menos engenhosos contornar
esta dificuldade, quer criando situações artificiais, que são
verdadeiras experiências no sentido tradicional, quer valendo-se
das oportunidades de observação do processo social em marcha,
criadas por circunstâncias ocasionais. Em todos os casos se trata
de uma «experimentação» realizada em condições menos
rigorosamente controladas do que é habitual nas ciências da
natureza, em que pode à vontade fazer-se variar cada um dos
elementos da situação mantendo os outros fixos, mas a que tem,
apesar disso, de reconhecer-se um interesse substancial.
Essas experiências, conduzidas muitas vezes com grupos de
estudantes universitários recrutados numa base voluntária, são
realizadas, em geral, em salas especiais com paredes de vidro,
que para os que estão dentro funcionam como espelhos, e
equipadas com toda uma complexa aparelhagem de registo de
som e de imagem. Ao grupo é posto um dado problema que se
espera desencadeie um certo processo de acções e reacções
entre os participantes, processo que uma equipa de observadores
postada do lado de fora pode seguir e registar em todas as suas
fases sem que os participantes a veja, graças ao dispositivo das
paredes de vidro transparentes de um lado só, embora se saibam
observados. Este tipo de experimentação tem sido igualmente
muito usado nos estudos sobre o comportamento no trabalho e em
especial sobre as consequências das condições que caracterizam
o ambiente de trabalho sobre o rendimento dos trabalhadores.
Disto foi um primeiro exemplo a famosa investigação de Elton
Mayo e dos seus colaboradores sobre as condições de trabalho na
fábrica de Cícero (Chicago) da Western Electric Company.
Noutro tipo de estudos, o especialista das ciências sociais procura
seguir acontecimentos em cuja génese ele teve de facto pouca ou
nenhuma intervenção como se fossem verdadeiras experiências. É
o que se passa quando um investigador resolve estudar as
consequências sociais de uma nova disposição legal através de
54

um registo cuidadoso das reacções dos indivíduos e dos grupos à
medida que se tornam aparentes os efeitos que pode ter na vida de
cada um essa disposição; ou ainda quando se utiliza a
circunstância de estar em curso uma campanha de informação
sobre a protecção contra a doença por uma melhoria da higiene
corporal e da da habitação, assim como do regime alimentar, para
medir a eficiência das diversas técnicas de transmissão de
informações e o impacte da campanha, comparando a evolução
entre os grupos a ela submetidos com a evolução observada no
mesmo período entre os que não ficam sujeitos a essa campanha.

4.1.4. O método comparativo
Mas mais do que a experimentação, o método comparativo tem sido
considerado um instrumento essencial da análise nas ciências sociais. É
através do estudo do significado das semelhanças e diferenças entre os
fenómenos que sobretudo se tem progredido. Conforme observa
Duverger, o método comparativo pode ser empregado de duas maneiras:
– ou se estudam e comparam, segundo uma mesma técnica,
fenómenos independentes embora substancialmente semelhantes;
– ou se estudam diferentes facetas do mesmo fenómeno, segundo
técnicas diferentes.

4.1.4.1. Classificação e comparabilidade
O primeiro caso corresponde à ideia tradicional de método
comparativo, que supõe naturalmente na sua aplicação uma certa
prudência, por forma a garantir que os factos ou situações que se
comparam sejam efectivamente comparáveis, a fim de que as
eventuais conclusões tenham algum valor científico. Duverger nota
por isso que o uso do método supõe uma classificação prévia dos
factos, dado que terá de fazer-se a comparação entre coisas do
mesmo tipo.
Como observa ainda Duverger, deve distinguir-se entre dois tipos
de comparações:
1. Comparações próximas – são aquelas que procuram aperceber
o sentido real da influência dos elementos de uma dada
situação por comparação com outra muito parecida, notando
cuidadosamente as variações que resultaram de diferenças na
ordem de aparecimento, na ênfase ou nas combinações dos
diversos elementos, da mesma maneira que em experiências
sucessivas de laboratório se observa o impacte sobre o mesmo
fenómeno de alterações no papel que têm na sua verificação os
diferentes elementos que o observador pôde isolar. É aliás,
neste sentido que o método comparativo é para as ciências
sociais um substituto da experiência. Este tipo de estudo
comparativo tem naturalmente de ser muito exigente quanto às
condições de analogia a satisfazer pelas coisas que se
desejam comparar.
2. Comparações afastadas – são aquelas que se fazem entre
coisas cuja analogia não é à primeira vista evidente e que por
isso, graças ao génio particular de um observador, abrem
novos caminhos à ciência.
55

Isso é o que em ciência distingue as descobertas notáveis. Não é,
no entanto, por isso mesmo, senão realizável por pessoas que já
adquiriram um grande conhecimento e domínio do campo que
estudam e, por aí, pouco corrente no trabalho da maioria dos
estudiosos.
O segundo caso de uso do método comparativo, estudo de um
mesmo fenómeno segundo técnicas diferentes, é hoje cada vez
mais empregado e é característico dos trabalhos de equipa. Para
os grandes inquéritos é cada vez mais comum mobilizar para o
estudo de um mesmo problema especialistas dos diferentes ramos
das ciências sociais, cada um ocupando-se da faceta do fenómeno
que corresponde às preocupações da sua especialidade,
procurando-se assim, pela conjugação dos resultados obtidos a
partir de diversos ângulos, chegar a uma nova visão e
interpretação dos factos. São exemplos privilegiados deste tipo de
trabalhos as monografias colectivas sobre certas áreas ou certas
comunidades, os estudos de sociologia eleitoral, e assim por
diante.

4.1.4.2. Analogias estruturais e analogias
funcionais
A comparação tem de assentar na analogia entre os fenómenos,
analogia que pode ser estrutural ou funcional conforme se estudam
estruturas ou funções e que tem em qualquer dos casos de ter em
conta se há efectivamente analogia de dimensão, de contexto
cultural e de significado, pois coisas que parecem do mesmo tipo
não podem legitimamente comparar-se se não houver uma certa
semelhança do contexto dimensional em que se verificam, nem se
se situarem em contextos culturais demasiado diferentes, nem se,
embora em situações análogas de dimensão e de contexto cultural,
tiverem efectivamente significações diferentes. Isto significa que
não é cientificamente legítimo, por exemplo, comparar o sistema
político francês com o método de escolha dos chefes e exercício
da autoridade numa tribo africana ou a monarquia inglesa com a de
uma tribo da Melanésia, porque tanto o contexto dimensional como
o contexto cultural são muito diversos, assim como não parece
apropriado comparar as rivalidades de grupos numa tribo
australiana com o fenómeno da luta dos partidos e dos grupos de
pressão nos países ocidentais, porque existe claramente uma
diferença de significado. Reserva que, aliás, é válida tanto para as
comparações no espaço como para as comparações no tempo,
entre fenómenos evoluindo no quadro de épocas muito afastadas,
embora dentro do mesmo país ou na vida do mesmo povo.
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4.2. Tipologia das técnicas da observação
nas ciências sociais
4.2.1. A observação documental
4.2.1.1. Tipos de documentos
• Documentos escritos
– arquivos públicos e documentos oficiais;
– imprensa;
– arquivos particulares;
– documentação indirecta (anuários, dicionários, literatura de
ficção).

• Estatísticas

• Outros documentos
– documentação técnica;
– documentação iconográfica e fotográfica;
– documentação fonética.

Documentos escritos
Arquivos públicos e documentos oficiais – entre os documentos
escritos, os arquivos públicos e os documentos oficiais são
naturalmente as mais importantes fontes de informação sobre
muitos assuntos. Os corpos legislativos publicam igualmente o
registo dos seus debates e volumosas colecções dos documentos
que lhes foram presentes.
Imprensa – a imprensa periódica é um fenómeno da mais alta
importância na vida social dos nossos dias e pode decerto ser
abordada não apenas como fonte de informação sobre outros
grupos, mas como objecto directo de estudo, tendo em vista a
análise das suas tomadas de posição, maneira como são
apresentados os acontecimentos, grupos em que se apoia e
grupos a que principalmente se dirige.
Arquivos particulares – os arquivos particulares de organizações ou
indivíduos, sobretudo tratando-se de entidades com posição
privilegiada em relação ao acontecimento a estudar, são
igualmente fontes de informação valiosa, embora aqui o segredo
seja também um obstáculo de relevo.
Documentação indirecta – na verdade todos os tipos de
documentos escritos, quaisquer que tenham sido os fins para que
foram originalmente elaborados, podem ser úteis ao estudioso que
os saiba explorar de forma apropriada.

Estatísticas – as estatísticas, que existem de modo geral em
grande número nos países desenvolvidos e que são um dos pontos
de apoio essenciais da análise económica, podem igualmente
servir ao estudo em outros domínios das ciências sociais. Deste
ponto de vista são especialmente úteis os apuramentos dos censos
de população, realizados na generalidade dos países de dez em
dez anos. As estatísticas do registo civil, da educação, dos
57

tribunais, dos impostos e do comércio e indústria nos seus
diferentes ramos, os inquéritos às condições materiais de vida em
certas áreas e assim por diante, na infinidade de factos que são
objecto de registo e publicação periódica de apuramentos, podem
servir de apoio valioso para o estudo de muitos aspectos
relevantes da vida colectiva. As estatísticas do comércio permitem-
nos analisar os diferentes tipos de produtos que são objecto de
trocas e por aí os padrões de consumo, de onde se pode passar à
análise dos estilos de vida.

Os outros documentos – compreendem os diferentes objectos
utilizados pelo homem, dos instrumentos manuais às edificações
para habitação, cujos vestígios constituem em alguns casos o
apoio principal ou mesmo único do estudioso, como acontece no
que se refere à Pré-História ou às civilizações que não deixaram
escrita ou cuja escrita ainda não foi decifrada, e ainda as imagens
e a linguagem.
Documentação técnica – podem ser analisados tendo em conta as
características dos materiais em que são feitos, os fins práticos a
que se destinam e o significado simbólico que têm para as pessoas
que os utilizam.
Documentação fonética – pode ser instrumento de estudo das
línguas, mas pode também servir para análise da evolução dos
grupos no decorrer das suas sessões de debate, ou para o estudo
das técnicas de propaganda, e assim por diante.

4.2.1.2. Análise de documentos
4.2.1.2.1. Métodos qualitativos

4.2.1.2.1.1. Crítica interna e crítica externa

Crítica interna – visa o entendimento do sentido exacto
do conteúdo do documento.
Crítica externa – orienta-se para o esclarecimento do
contexto em que surgiu e do impacte social que veio a
ter o documento.
Trata-se de estabelecer, além do sentido das ideias, a
autenticidade do documento, a verdade, ou seja, a
medida em que o seu conteúdo corresponde aos
factos, e os condicionalismos sociais em que se
apresenta. São as preocupações que correntemente
orientam a análise histórica dos documentos.

4.2.1.2.2. Métodos quantitativos

4.2.1.2.2.1. Semântica quantitativa e análise de conteúdo

Semântica quantitativa – a que se recorre sobretudo
para a análise literária dos textos, muito usada na
reconstituição de documentos antigos de que se
perderam partes, e que assenta na análise da
frequência do aparecimento de certos vocábulos nos
textos.
58

Análise de conteúdo – trata-se de um método
concebido para fazer frente aos problemas postos pelo
estudo da imprensa, dos programas da radiodifusão,
dos panfletos, etc., tudo documentos produzidos
diariamente em grande quantidade e cuja apreciação
eficiente não permite o uso dos métodos clássicos, que
exigem demorada consideração de cada documento,
nem, aliás, justifica o recurso a tais métodos, pois se
trata de um material produzido em massa com largas
repetições. A análise de conteúdo visa justamente
isolar na massa dos textos as linhas mestras e as
tendências que lhes dão o seu sentido real. O método é
muito usado nos Estados Unidos para o estudo das
campanhas de propaganda eleitoral dos partidos
políticos e para a análise da propaganda das potências
estrangeiras. Tem sido particularmente usado para o
estudo das tendências da política dos países
comunistas, sobre os quais se dispõe de escassas
informações, através do material apresentado na
imprensa e nos outros órgãos de informação para uso
interno e externo. A frequência com que aparecem
certos temas, as referências mais ou menos numerosas
a determinados problemas, a menção mais ou menos
frequente das diversas personalidades têm assim sido
utilizadas para chegar às tendências e correntes
políticas subjacentes à acção externa e interna dos
governos.

4.2.2. A observação directa extensiva
4.2.2.1. População e amostragem
O problema essencial está naturalmente em escolher as pessoas a
observar por forma a assegurar que sejam tanto quanto possível
representativas do conjunto.
Dois métodos principais são usados nas ciências sociais para
efectuar estas sondagens da população: o método das quotas e o
método probabilístico.
Método das quotas – consiste na determinação de quotas de
pessoas a interrogar na população total na base de um modelo
teoricamente constituído dessa população. A cada um dos
entrevistadores ao serviço do inquérito pode ser atribuída uma
quota compreendendo tantas pessoas com as características
especificadas por forma a corresponder ao plano do modelo
reduzido. As pessoas a interrogar poderão ser escolhidas à
vontade pelo entrevistador, apenas com a reserva de respeitar as
características especificadas.
Método probabilístico – as pessoas que constituem a amostra são
escolhidas rigorosamente ao acaso, por forma a que todos os
membros da população total, ou de cada uma das categorias
consideradas nesta população, tenham uma igual probabilidade de
vir a ser incluídas na amostra.
Casos particulares da técnica da sondagem são ainda a sondagem
por fases e o master-sample.
59

Sondagem por fases – consiste em distinguir diferentes níveis de
profundidade no inquérito, sempre com base em sondagens. Numa
primeira fase pode assim constituir-se uma grande amostra, que é
objecto de um inquérito rápido. Dentro dessa amostra pode
escolher-se uma outra, que será então objecto de um inquérito
mais profundo, e assim por diante.
Método do master-sample – consiste na constituição permanente
de uma amostra, geralmente volumosa, que se sabe representativa
do conjunto da população e dentro da qual se podem seleccionar
por sondagens probabilísticas amostras apropriadas para
inquéritos particulares. Este sistema tem sido usado normalmente
pelos serviços de recenseamento dos Estados Unidos. Os métodos
de sondagem probabilística têm sido na verdade mais
frequentemente escolhidos pelos serviços de estatística oficiais dos
diversos países e pelos centros de estudo universitários, que
tendem a pôr em dúvida o rigor dos resultados que podem ser
alcançados pelo método das quotas, mais favorecido pelos
institutos de opinião pública. Isto tem, por isso mesmo, sido causa
de controvérsia.

4.2.2.2. Questionário
1. A elaboração de questionário. A colheita de informações
segundo a técnica de observação extensiva assenta normalmente
num questionário, que é apresentado a todos os componentes da
amostra seleccionada pelas diversas maneiras atrás descritas. A
boa elaboração do questionário, por forma a que este traduza
fielmente as opiniões das pessoas interrogadas e a que as
perguntas postas dêem às pessoas a oportunidade de exprimirem
as atitudes e opiniões que são realmente relevantes na explicação
dos seus comportamentos efectivos, é aqui preocupação
dominante. Na verdade,
a fidelidade – que exprime a capacidade do questionário para
suscitar a expressão correcta das opiniões dos interrogados e que
se manifesta na constância das respostas dadas pelas mesmas
pessoas às mesmas perguntas em momentos diferentes, desde
que não tenha entretanto havido mudança nas opiniões, e
a validade – que traduz a capacidade das perguntas para
suscitarem respostas efectivamente relevantes para o
entendimento dos comportamentos, são, a par da
representatividade da amostra, as condições decisivas do valor das
informações colhidas por observação extensiva.
No plano da elaboração do questionário são fundamentalmente
relevantes:
a) o tipo de perguntas a incluir;
b) a ordem de apresentação das perguntas e o seu número;
c) a redacção dada às perguntas.
As séries de respostas têm, por vezes, sido organizadas por forma
a representarem variações na intensidade de uma opinião ou
atitude, pedindo-se ao interrogado que escolha a resposta que
corresponde ao seu estado de espírito (exemplo: em relação a
certa afirmação, qual é a sua posição pessoal: a) aprovo
completamente; b) aprovo com reservas; c) é-me indiferente; d)
60

não aprovo em parte; e) não aprovo de modo nenhum; f) não tenho
opinião; g) não tem resposta).
O número das perguntas a incluir num questionário tem de ser
naturalmente limitado pela receptividade do público a que se dirige,
podendo nuns casos ser uma lista bastante longa e noutros
devendo ser constituído por uma curta série de perguntas, sob
pena de desencorajar as pessoas a que se pedem respostas.
É costume, por isto, iniciar o questionário com algumas perguntas
sobre factos que possam ser respondidos sem a pessoa se sentir
demasiado comprometida e, por outro, repartir cuidadosamente as
perguntas por forma a manter afastadas umas das outras as que
sejam susceptíveis de contágio.
Uma vez preparado um projecto inicial de questionário, é costume,
a fim de reduzir as suas eventuais deficiências, submetê-lo a um
ensaio em grupo reduzido para verificar a fidelidade e a validade
das respostas obtidas.

2. A utilização do questionário. O questionário pode ser utilizado
segundo dois métodos principais:
a) apresentado directamente às pessoas, que o preenchem elas
próprias;
b) apresentado por um inquiridor, que retoma verbalmente as
perguntas e preenche o questionário.
A melhor maneira de vencer a inércia, embora seja processo mais
dispendioso, é o recurso a um entrevistador, o que igualmente
garante uma certa espontaneidade nas diversas respostas, uma
vez que o inquirido não tem ocasião de ler o questionário por
inteiro antes de responder.
Quando o questionário é apresentado por um entrevistador, este lê
as perguntas e explica-as aos inquiridos, anotando ele próprio as
respostas. Também uma das garantias da sinceridade das
respostas é o segredo, representado essencialmente pelo
anonimato das respostas, o que a presença do entrevistador
parece comprometer aos olhos do inquirido.
3. A apresentação dos resultados. As centenas ou milhares de
questionários individuais acumulados no desenrolar deste processo
são depois submetidos a um tratamento mecanográfico apropriado,
que não deixa igualmente de rodear-se de algum perigo de
deformação do sentido das respostas. Um problema de alguma
relevância é posto pelas operações de codificação necessárias
para a passagem dos resultados ao cartão mecanográfico. A
codificação implica, de facto, a classificação de respostas por
vezes muito diversas em algumas categorias restritas, e é um
trabalho que, embora, em geral, planeado juntamente com a
elaboração do questionário, supõe muitas vezes uma certa
incidência da interpretação pessoal do codificador. Uma vez
passados aos cartões, os dados podem ser objecto de diversos
apuramentos que poderão servir de base a uma análise mais ou
menos imaginativa.
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4.2.3. A observação directa intensiva
4.2.3.1. Entrevista
Uma das técnicas habituais da observação directa intensiva é a
entrevista, que só é, na verdade, diferente do questionário usado
em observação extensiva pela mais demorada e metódica atenção
que se dá ao entrevistado. As entrevistas podem visar a recolha de
informações sobre dados de facto, que só dificilmente serão
conhecidos de outro modo, ou podem, o que é mais comum,
procurar a recolha de indicações sobre opiniões, atitudes e
comportamentos prováveis. Podem, de outro ponto de vista, ter em
mira o contacto com personalidades eminentes ou dirigentes, mas
é mais comum que procurem simplesmente conhecer as opiniões
de indivíduos vulgares, que sejam tanto quanto possível
representativos da média do grupo a que pertençam.
A entrevista é tão cuidadosamente preparada como um
questionário e segue, em regra, um plano de perguntas
previamente estabelecido, embora aconteça que o entrevistado
não tenha disso conhecimento, o que se verifica geralmente
quando o entrevistador memoriza as perguntas a fazer. As
perguntas podem ser ordenadas num conjunto muito estruturado,
prevendo-se todas as respostas possíveis, ou podem ser
perguntas com respostas abertas.
Entrevista dirigida – o plano de perguntas é respeitado com rigidez,
pondo-se as perguntas na ordem previamente estabelecida;
Entrevista livre – deixa-se evoluir a conversação com o
entrevistado, pondo as perguntas desejadas pela ordem que as
circunstâncias permitam.
A entrevista é um trabalho delicado, na medida em que precisa de
ser conduzida por forma a permitir a expressão das ideias e
opiniões que o entrevistado efectivamente tem sobre as questões
postas, e requer por isso o emprego de pessoal cuidadosamente
treinado.
Processo do panel – foi usado por Lazarsfeld para medir a
evolução das atitudes e opiniões políticas no decurso de uma
campanha eleitoral, consiste na entrevista repetida, a intervalos
mais ou menos espaçados, das mesmas pessoas (panel), por
forma a documentar as eventuais variações verificadas.
Processo das focused interviews – foram muito usadas por Merton
para medir o impacte de certas experiências sobre os indivíduos.
Em geral trata-se de analisar os efeitos de um filme ou de um
programa de rádio ou de uma qualquer exposição sobre um certo
assunto, e assim por diante, entrevistando-se os indivíduos logo
após a experiência.
Processo da entrevista clínica – foi usada por Adorno e pelos seus
colaboradores em estudos sobre a «personalidade autoritária». O
método consiste no planeamento de uma entrevista visando o
esclarecimento dos motivos básicos de certas atitudes e opiniões
por todos os caminhos possíveis, abordando sucessivamente, com
flexibilidade, os diferentes aspectos relevantes da personalidade
das pessoas.
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4.2.3.2. Medida de atitudes
A medida da intensidade das opiniões e atitudes é um dos
problemas mais delicados que têm de enfrentar as ciências sociais
e por isso, nesse domínio, se têm acumulado os métodos, por
vezes muito engenhosos, embora sempre susceptíveis de algumas
reservas quanto à objectividade dos resultados a que conduzem.
Processo dos testes – Um dos processos mais vulgarizados é o
dos testes, que não são apenas usados, como é sabido, para
medir atitudes e opiniões, ou as características da personalidade
que com elas em certa medida se ligam, mas também para avaliar
os conhecimentos e aptidões das pessoas. São hoje muito
correntemente empregados na selecção do pessoal nas empresas
e mesmo no apuramento dos quadros de alguns serviços públicos.
Em alguns exércitos são elemento habitual dos critérios de
selecção dos homens para os diferentes postos. Um teste do
mesmo tipo igualmente muito usado é o Thematic Apperception
Test (T.A.T.) de Murray, que consiste numa série de gravuras
ambíguas que os examinandos são convidados a interpretar. O
método tem sido usado para o estudo dos preconceitos étnicos e
de certas opiniões políticas. O problema principal posto por todos
estes diferentes testes é o da interpretação, em que se contém, na
verdade, sempre muito de subjectivo e que por isso tem suscitado
controvérsias que tendem a moderar a confiança que os
estudiosos depositam nos testes, e assim aconselham prudência
no seu uso prático fora do domínio da investigação.
Processo das escalas – Um outro processo ligado com este dos
testes para a medida da intensidade das opiniões e atitudes é o
das «escalas». Numa forma rudimentar pode tratar-se de situar o
sujeito numa escala graduada exprimindo diferentes intensidades
de uma atitude ou opinião, podendo pedir-se ao próprio que
marque na escala a posição que lhe parece ser a sua, o que tem
obviamente muito de subjectivo, ou solicitar a um avaliador
independente que proceda a essa classificação, o que não conduz
necessariamente a resultados mais objectivos. O problema
principal da construção destas escalas é, todavia, definir com rigor
os diferentes graus de intensidade e dispô-los a intervalos iguais. E
é substancialmente à volta da solução desse problema que têm
nascido os diferentes métodos propostos para a construção das
«escalas de opiniões e atitudes».
Escala de distância social – A primeira das escalas empregadas
com alguma extensão em sociologia e psicologia social parece ter
sido a «escala de distância social» preparada em 1925 por
Bogardus. Este, procurando medir a intensidade dos preconceitos
nacionais e raciais, solicitou a um certo número de pessoas que
declarassem se aceitariam os membros dos grupos nacionais ou
étnicos cujos nomes se indicavam numa lista.
Escala de Thurstone – Um outro método de construção de escalas,
especialmente orientado para a solução do problema da igualdade
dos intervalos entre as diversas posições, foi proposto a partir de
1929-1931 por Thurstone. Na escala de Thurstone uma série de
afirmações a que o sujeito pode aderir, ou que pode repudiar,
estão ordenadas por forma que a adesão à primeira significa a
posição mais favorável e a adesão à última a posição mais
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desfavorável em relação à opinião em estudo. A escala é
construída na base da selecção e classificação, por um grupo
numeroso de pessoas qualificadas, de uma grande massa de
afirmações simples sobre a opinião cuja intensidade a escala se
destina a medir. As várias afirmações são repartidas por cada um
dos técnicos, por um certo número de grupos consoante o grau
decrescente de adesão à opinião a estudar. As que aparecerem
repartidas de forma incoerente são progressivamente eliminadas,
assim como as que se prestem à confusão. Misturadas depois as
afirmações numa ordem arbitrária, podem ser submetidas ao
paciente, cuja posição global vem a ser determinada pelo
apuramento das graduações correspondentes às reacções de
adesão ou repúdio dado às várias afirmações.
Escalas do tipo da de Thurstone têm sido muito usadas nos
Estados Unidos para estudo do racismo, do nacionalismo, da
atitude perante o problema da guerra, etc. A sua construção é,
todavia, muito complicada e por isso outros métodos têm sido
propostos para a preparação de escalas do mesmo tipo por
processos expeditos.
Escala de Lickert – A cada apreciação é atribuída uma nota e para
o conjunto das apreciações de cada pessoa uma nota global. Na
base da correlação apurada entre esta nota global e a nota
atribuída à apreciação pelo sujeito de cada uma das proposições é
feita a selecção das proposições a incluir finalmente na escala.
Entende-se que as proposições cuja nota individual tenha
correlação elevada com a nota global são relevantes para a
medida da posição sobre a opinião ou a atitude em causa. As
proposições que não estejam nestas condições são consideradas
sem ligação com a opinião ou atitude e não serão incluídas na
escala.
A escala de Lickert, apesar da sua maior facilidade de elaboração,
é menos independente do grupo em relação ao qual foi construída
do que a de Thurstone, e por aí de menor valor para uma
apreciação objectiva da repartição das opiniões e atitudes. Pode,
com efeito, comprovar-se estatisticamente uma considerável
independência e objectividade na maneira como foi feita a
classificação das diversas proposições utilizadas para a elaboração
da escala de Thurstone, o que dá a esta escala um valor geral que
não pode ser reivindicado pelas escalas do tipo da de Lickert.
Escala hierárquica – Consiste numa série de proposições
ordenadas por tal forma que a resposta afirmativa à primeira
implica resposta igualmente afirmativa a todas as que se lhe
seguem (no exemplo de perguntas hierarquizadas dado por
Duverger: 1.º É licenciado?; 2.º Tem um curso secundário?; 3.º
Tem a instrução primária?; 4.º Foi à escola?; 5.º Sabe ler?; a
resposta sim a uma das perguntas implica resposta igual a todas
as que se lhe seguem). Depois de se ter preparado para cada
questão uma escala hierarquizada deste tipo, é possível definir
com rigor a posição de cada pessoa.

4.2.3.3. Observação participante
Uma terceira forma da observação intensiva é praticada pelos que
procuram viver no todo ou em parte a experiência dos grupos que
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estudam, por forma a chegar a uma visão interna dessa vida de
grupo do mesmo ponto de vista dos que por ela normalmente
passam. Isto é o que se verifica frequentemente com os estudos
dos antropólogos. O método da observação participante tem sido,
na verdade, o método mais corrente dos estudos de antropologia
cultural. Entre nós são conhecidas as valiosas investigações
realizadas pelo Prof. Jorge Dias, seguindo largamente esse
método, tanto no que refere à Metrópole (Vilarinho da Furna e Rio
de Onor) como ao Ultramar (os Macondes de Moçambique).

FIM