41036 – Introdução às Ciências Sociais

Apontamentos de: Jorge Loureiro E-mail: jorgel@sapo.pt Data: 11.06.2008 Livro: Introdução às Ciências Sociais – Vol. I (Óscar Soares Barata) Nota: Matéria referente ao ano lectivo 2007-2008 (Dr.ª Ana Paiva)

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1. O DOMINIO DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
1.1. A especificidade do social como campo de estudo
1.1.1. Características dos factos sociais no conjunto da acção humana
As ciências sociais interessam-se especificamente pelos modos de actuar que andam associados à vida em grupo, embora possam manifestar-se por intermédio dos indivíduos. Isto pressupõe naturalmente a possibilidade de identificar e separar com rigor na vida dos homens o social do individual, o que constitui um problema que tem sido enfrentado por diversas formas na literatura especializada. No critério de Emile Durkheim devem considerar-se como factos sociais os modos de agir e as representações que são exteriores ao indivíduo, e com os quais este tem de conformar-se por efeito da vida em grupo. Apresentam-se como modelos de acção e valores em que a pessoa é criada e educada pelo grupo e em relação aos quais apenas se toleram desvios limitados. • Exterioridade – Os factos sociais são preexistentes ao indivíduo e como tal devem considerar-se exteriores a si próprio. • Coacção – Os factos sociais são coercivos porque visam canalizar os impulsos espontâneos do indivíduo no sentido aprovado pela sociedade. Por isso, em As Regras do Método Sociológico, Durkheim caracteriza os factos sociais nos termos seguintes: «Aqui temos pois uma ordem de factos que apresentam características muito especiais: consistem em maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores ao indivíduo e são dotados de um poder de coerção em virtude do qual se lhe impõem. Constituem, pois, uma espécie nova, e é a eles que deve ser dada e reservada a qualificação de sociais. É a que lhes convém; pois é claro que não tendo o indivíduo por substrato não podem ter outro que não seja a sociedade, quer seja a sociedade política no seu todo, quer seja um dos grupos parciais que ela engloba, confissões religiosas, escolas políticas, literárias, corporações profissionais, etc. Eles são, pois, o domínio próprio da sociologia. É verdade que esta palavra coacção, pela qual os definimos, corre o risco de afrontar os partidários zelosos de um individualismo absoluto. Como professam que o indivíduo é perfeitamente autónomo, parece-lhes que o diminuímos cada vez que lhe fazemos sentir que não depende apenas de si próprio. Mas pois que é hoje incontestável que a maior parte das nossas ideias e das nossas tendências não são elaboradas por nós, mas nos vêm de fora, elas não podem penetrar em nós senão impondo-se-nos; é tudo o que significa a nossa definição.»

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1.1.2. Determinação de factos sociais
Um exemplo privilegiado parece decorrer da noção de papel social, que é hoje um conceito básico da análise em sociologia, em psicologia social e em antropologia social. • Papel social – por analogia com o papel ou a parte desempenhada pelo actor na representação teatral, expressão que designa um conjunto de comportamentos que anda associado à posição de cada pessoa na teia das relações sociais. É certo que cada um integra os seus vários papéis segundo o estilo que resulta das suas próprias tendências individuais, mas todos têm ao mesmo tempo de se conformar com o modelo que lhes é proposto em cada teia de relações. O que se tem em vista com esta noção entende-se facilmente se pensarmos que cada um de nós é simultaneamente participante em certa actividade, membro de uma família, companheiro em vários grupos de amigos, e assim por diante. O mesmo indivíduo que num lugar é professor ou aluno, em casa é chefe de família ou dependente, noutros lugares exerce uma actividade política ou desportiva, noutros ainda participa em círculos de amigos com características diversas em que pode ocupar posições várias consoante o seu dinamismo e prestígio. É sabido que o sexo e a idade implicam papéis sociais específicos, mas também é fácil de ver que os comportamentos que se esperam do pai ou do chefe de família são diferentes dos do filho, como o são os do professor e do aluno, e assim por diante. É claro que existem para cada caso modelos de comportamento que os outros aguardam que cada um observe. Por isso também facilmente se vê que há na teia das relações sociais modelos ou padrões de comportamento correspondentes às situações de cada um e que são substancialmente independentes dos indivíduos que as ocupam. Ralf Dahrendorf, que dedicou a este tema um ensaio justamente famoso, Homo Sociologicus, salienta que há que distinguir a posição social e o papel social. • Posição social – Qualquer lugar num campo de relações sociais. Escreve assim: «Toda a posição leva consigo certos modos esperados de comportamento; toda a posição que a pessoa ocupa requer que ela faça certas coisas e exiba certas características; a toda a posição social pertence um papel social». As expectativas da sociedade em relação a cada papel analisam-se em dois tipos: • as expectativas de comportamento (o que chama role behaviour ou comportamento de cada papel); e • as expectativas de apresentação e características (o que chama role attributes ou atributos de cada papel). O papel de chefe de família compreende as expectativas de comportamento em relação aos diversos membros da família (mulher, filhos, parentes mais idosos, parentes afastados, etc.), em relação aos vizinhos da família, em relação à colectividade, e assim por diante. A isto chama os role segments, ou segmentos do papel. As diversas expectativas do papel implicam em regra diferentes graus de conformidade. Umas são de observância rigorosa e não podem deixar de respeitar-se, sob pena de sanções pesadas para o infractor. Dahrendorf distingue três tipos, que, na versão inglesa do seu ensaio, designa respectivamente por

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must-expectations (obrigatórias), shall-expectations (que devem cumprir-se) e can-expectations (que podem cumprir-se). As must-expectations, que constituem a base do papel, estão em regra codificadas. No caso dos exemplos que temos vindo a usar, a lei define os deveres do chefe de família ou do professor, deveres com que, em caso de desrespeito persistente, pode ser obrigado a conformar-se, quer por via legal, quer pela censura da opinião colectiva. As shallexpectations estão próximo das expectativas obrigatórias e a sua observância integra o comportamento necessário para ser tido por elemento efectivamente respeitável do grupo. Quanto às canexpectations, integram os comportamentos que podem ou não seguir-se, mas que na verdade não podem desrespeitar-se sistematicamente sob pena de marginalização. O que as não respeita é o que «não coopera», «não liga», «não se interessa», enquanto aquele que as respeita é considerado como tendo boa vontade, o que «faz mais do que a sua parte», e que por isso é geralmente estimado. A constelação de papéis sociais indicam muito sobre o indivíduo e circunscrevem de facto, pela definição consensual que lhes corresponde, a área em que pode afirmar-se a sua individualidade, que, como veremos, é ela própria substancialmente vazada pela educação em moldes definidos colectivamente. Assim a sociedade espera do pai que dedique algum do seu tempo livre aos filhos. Mas a forma de ocupar esse tempo pode ser resolvida por diversos modos: conversa, jogos, passeios, etc. Mas a verdade é que as diversas formas que podem ser seguidas são realmente definidas por aquilo que «é costume os pais fazerem com os filhos» nas horas livres, coisa que tem um conteúdo cultural substancialmente bem delimitado. Dahrendorf identifica, aliás, três componentes do elemento de liberdade deixado pela constelação de papéis sociais a que o indivíduo tem de corresponder: a) a liberdade que resulta de o papel não estar definido com rigor na sua totalidade; b) a liberdade que decorre do facto de as exigências do papel serem definidas sobretudo por exclusão, como coisas a não fazer; c) a possibilidade que o indivíduo tem de influenciar o meio social em que vive e por aí de modificar o conteúdo do papel. Os papéis sociais resultam das posições sociais e estas são, para Dahrendorf, basicamente de dois tipos: • as ascribed positions, ou posições atribuídas – Quase todas as que resultam de características físicas ou acidentes de nascimento. É-se de um sexo, de sucessivas classes etárias, de certa família, de uma dada classe social, cidadão de certo país e assim por diante, e • as achieved positions, ou posições alcançadas – Decorrem do trabalho, dos estudos, do mérito de cada um. De facto, a distinção nem sempre é clara e a mesma posição pode ser nuns casos atribuída e noutros alcançada. Assim a posição de Chefe de Estado pode ser atribuída, como acontece nas monarquias hereditárias, ou pode ser alcançada por reconhecimento de méritos próprios, segundo uma das diversas fórmulas concretas estudadas pelo Direito Constitucional.

6 O papel social é o ponto de encontro do indivíduo e da sociedade. É através dele que se afirma o que Dahrendorf chama the vexatious fact of society, o carácter coercivo do social, que, como se viu, já Durkheim identificava como característico. É claro que por ser coercivo não significa que seja desagradável ao indivíduo. A integração numa teia de posições e papéis sociais pode ser na verdade sentida como uma restrição a uma desejada liberdade de movimentos, mas também pode ser experimentada como um apoio que dá o conforto da segurança. O que parece certo é que o conteúdo do social não resulta da média dos comportamentos individuais, mas sim de certos modelos com que esses comportamentos têm, em larga medida, de conformar-se. O conteúdo do social tem de encontrar-se pela identificação do homo sociologicus, definido em termos de posição social e de papel social, e que é para Dahrendorf a unidade básica da análise sociológica. Escreve, com efeito: «Não há maneira de chegar, a partir do que o indivíduo faz, ou até faz regularmente, ao facto da sociedade, o qual é em princípio independente do indivíduo. A soma e a média das acções individuais é tão incapaz de explicar a realidade da lei e do costume como o consenso verificado por entrevistas. A sociedade é um facto, e na verdade um facto coercivo, precisamente porque não é criada nem pelos nossos impulsos nem pelo nosso comportamento habitual.» É claro que isto significa que para chegar ao entendimento dos papéis sociais é necessário identificar os grupos a que se reportam as expectativas de comportamento. Como a cada segmento de um papel corresponde um ou mais grupos, a dificuldade apenas se transfere para outro plano, pois é necessário graduar os diversos grupos com base na sua importância na definição dos papéis. As normas e sanções relevantes são definidas por grupos diferentes consoante os vários tipos de expectativas de comportamento. As expectativas obrigatórias, que correspondem a comportamentos codificados nos textos legais, implicam uma definição pela sociedade no seu conjunto. As outras expectativas, que implicam maior liberdade de observância, podem ser definidas pelo costume ou pelo consenso no seio de grupos com maior ou menor latitude, desde a associação profissional aos grupos de camaradagem ou vizinhança. O que é claro é que o entendimento das posições e papéis sociais é dado pelo sentido de que se revestem em referência às normas e sanções em vigor na sociedade em que as pessoas se integram.

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2. CONHECIMENTO E EXPLICAÇÃO NAS CIÊNCIAS SOCIAIS
2.1. A acção social e a sua interpretação
2.1.1. Características da acção social e as condições da sua interpretação
Max Weber explica que o significado das acções sociais, que são aquelas que têm em conta o comportamento dos outros, pode entenderse por duas formas: 1) Pode ser o próprio significado ou sentido inerente à acção de um indivíduo ou à média das acções de um conjunto de indivíduos; 2) O sentido subjectivo atribuído pela interpretação teórica aos movimentos dos actores na análise hipotética de um certo tipo de comportamento. Esclarece logo que «em caso nenhum se refere a um significado objectivamente “correcto” ou um que seja “verdadeiro” em algum sentido metafísico. É isto que distingue as ciências empíricas da acção, como a sociologia e a história, das disciplinas dogmáticas desse campo, tais como a jurisprudência, a lógica, a ética e a estética, que procuram determinar os significados “verdadeiros” e “válidos” ligados aos seus objectos de estudo». È, pois, evidente que se trata de um sentido social e não de um sentido absoluto. A acção dotada de sentido compreende todos os comportamentos, quer sejam «intervenções positivas» ou omissões, ou simples posições de passividade, quer se trate de actos exteriores ou de reacções interiores. Mas nela não se compreendem as acções que correspondem ao que Max Weber designa por «comportamento meramente reactivo», que é o simples efeito de uma reacção a um estímulo exterior. Tem naturalmente o cuidado de esclarecer que muitos comportamentos sociais são de tipo intermédio, especialmente aqueles que resultam das tradições existentes, e que por isso nem sempre é fácil separar com rigor as acções dotadas de um sentido subjectivo daquelas que não possuem tal sentido. Entendidas por esta forma as acções sociais podem ser classificadas em quatro tipos segundo «o modo de orientação»: a) acções racionalmente orientadas «para um sistema de fins individuais discretos», ou seja, aquelas que se orientam em função de expectativas relativas a objectos exteriores ou a outros indivíduos, e que por isso implicam a consideração dos meios para alcançar um dado fim; b) acções racionalmente orientadas para um valor absoluto, que são aquelas que resultam puramente de convicções «éticas, estéticas ou religiosas»; c) acções orientadas por considerações afectivas, de que são exemplo privilegiado as que resultam de estados emocionais ou de sentimentos; d) acções orientadas pela tradição, a qual, através da prática continuada, define determinados comportamentos.

8 O que mostra que são todas acções que podem reconduzir-se ao conceito de comportamentos dotados de sentido por referência às normas e sanções colectivas. Que estes sejam os tipos de acções dotadas de sentido que principalmente interessam à ciência social não exclui que também tenham de ter-se em conta no estudo social os numerosos tipos de acções meramente reactivas, e destituídas por isso de significado. Escreve, com efeito, Max Weber: «Em todas as ciências da acção humana têm de ter-se em conta os processos e fenómenos que são destituídos de significado, sob a forma de estímulos, resultados, circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis». Ser destituído de significado não é idêntico com ser destituído de vitalidade ou não humano; qualquer artefacto, como por exemplo uma máquina, só pode ser entendido em termos do sentido que a sua produção e uso tiveram ou terão para a acção humana; um significado que pode derivar de uma relação com propósitos extremamente variados. O que nele é inteligível ou compreensível é assim a sua relação com a acção humana, quer como meio, quer como fim; uma relação de que pode dizer-se que o actor ou actores estão conscientes e em função da qual a sua acção foi orientada. Só em termos de tais categorias é possível entender objectos desta espécie. Por outro lado, processos ou condições, animados ou inanimados, humanos ou não humanos, são neste sentido destituídos de significado na medida em que não possam ligar-se com um objectivo consciente. Quer dizer, são destituídos de sentido se não podem ser relacionados com a acção sob a forma de meios e fins, mas constituem apenas estímulos, circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis.» É óbvio, pois, que a ciência que, na definição de Max Weber, procura o entendimento das acções com vista a encontrar «uma explicação causal do seu desenvolvimento e dos seus efeitos», tem de dedicar o principal dos seus cuidados ao sentido ou significado dessas acções. A compreensão pode realizar-se por duas formas: 1) a compreensão por entendimento observacional directo de certas ideias ou comportamentos. É a que se verifica quando nos damos conta de um estado de zanga de outrem pela sua expressão facial; 2) a compreensão explicativa que resulta do entendimento dos motivos que guiam o agente. É a que consiste em ligar um acto observado a uma certa constelação de motivos. Assim o estado de zanga de que se dá conta pela expressão facial é explicado por se ter verificado certo acontecimento que o originou. É claro que há que destrinçar de entre as várias compreensões explicativas que podem enunciar-se aquela que efectivamente corresponde aos factos observados. Isto é em si difícil, quer porque muitas vezes nem o próprio agente tem consciência dos motivos que o guiam, quer porque acções que podem parecer ao observador inspiradas por motivos análogos podem, ao nível do agente, enraizar em «vários complexos motivacionais», quer ainda porque os agentes podem estar na verdade influenciados por motivos diversos e opostos. Por isso é necessário controlar a hipótese interpretativa por meio de uma observação renovada dos factos, que corresponde basicamente a uma experiência. Como tal não é muitas vezes possível, tem de partir-se da análise de um número suficiente de casos concretos comparáveis. Para haver uma boa explicação requer-se que seja adequada ao nível do significado e causalmente adequada. Como explica Max Weber, «aplicamos o termo adequada ao nível do significado à interpretação subjectiva de um processo coerente de

9 conduta quando e na medida em que, de acordo com os nossos modos habituais de pensar e sentir, as suas partes componentes tomadas nas suas relações mútuas se reconhecem constituir um complexo “típico” de significado. É mais comum dizer “correcto”. A interpretação de uma sequência de acontecimentos será, por outro lado, designada por causalmente adequada na medida em que, de acordo com generalizações formuladas a partir da experiência, há a probabilidade de que sempre ocorrerá na prática da mesma maneira». No exemplo dado por Max Weber adequada ao nível do significado é a interpretação que, de acordo com as regras correntes do raciocínio lógico, se dá à solução pelo agente de um problema aritmético. Causalmente adequada é a explicação que assenta na determinação concreta a partir de um número suficiente de casos da probabilidade de o mesmo problema vir a ser resolvido por forma certa ou errada. O que é de qualquer modo necessário para haver interpretação causal adequada é simultaneamente que a interpretação se ajuste às sequências e regularidades reveladas pelos factos e seja capaz de evidenciar o significado das relações verificadas. Como observa ainda Max Weber, a qualquer generalização, «se faltar o ajustamento ao significado, então, embora possa ser muito alto o grau de uniformidade e embora possa determinar-se numericamente com muita precisão a probabilidade, continua a ser uma probabilidade estatística incompreensível, quer lide com processos manifestos ou com processos subjectivos. Por outro lado, mesmo o mais perfeito ajustamento ao nível do significado só tem relevância causal de um ponto de vista sociológico na medida em que haja alguma forma de prova da existência de uma probabilidade de que a acção de facto normalmente toma o caminho que se sustenta ser significativo. «As uniformidades estatísticas só constituem tipos de acções compreensíveis no sentido adoptado nesta análise, e por aí só constituem “generalizações sociológicas”, quando podem ser olhadas como manifestações do significado subjectivo compreensível de um processo de acção social. Reciprocamente, as formulações de um processo racional de acção subjectivamente compreensível só constituem tipos sociológicos de processos empíricos quando podem ser empiricamente observadas com um grau de aproximação significativo. Infelizmente não é certo que a probabilidade efectiva da ocorrência de um dado processo de acção aparente seja sempre directamente proporcional à clareza da interpretação subjectiva.» Para Max Weber a certeza ou evidência do entendimento da realidade que se observa pode alcançar-se por duas vias: a) ou pelo entendimento racional, que pode ser lógico ou matemático; b) ou pela determinação «emocionalmente empática ou artisticamente apreciativa».

2.1.2. Problemas na interpretação da acção social
O primeiro problema é o saber o que realmente se tem em vista quando se fala de explicações causais. O segundo é o de saber em que medida o estudo da realidade social pode conduzir a um conhecimento objectivo. É visível, com efeito, por um lado, que nas ciências sociais as explicações causais têm de ser menos seguras do que é corrente nas ciências da natureza. As relações entre fenómenos naturais podem ser

10 em regra determinadas com rigor e, uma vez adequadamente formuladas, verificam-se todas as vezes que se reunam as mesmas circunstâncias em que inicialmente se observaram. Ora, no domínio social não apenas é difícil desmontar inteiramente os obscuros complexos motivacionais que podem encontrar-se na base da acção, como também não são em regra seguras as conclusões sobre as regularidades de comportamento que podem observar-se, em virtude da substancial autonomia dos intervenientes em cada processo de comportamento. O que tudo põe obviamente em causa a regra da generalidade que está na base do conhecimento científico. Por outro lado, também é visível que o tipo de explicação da realidade próprio das ciências sociais passa pelo entendimento do significado subjectivo das acções humanas nas suas diversas formas. O que quer dizer que o estudioso não apenas tem de lidar com complexos motivacionais em si difíceis de analisar, e até variáveis por efeito da relação social que naturalmente pode estabelecer-se entre observador e o observado, como também que o observador pode com facilidade ser afectado no seu entendimento dos factos, pela própria qualidade «emocionalmente empática» a que é necessário recorrer com frequência para lhes explicar o sentido. Este é propriamente um problema básico da epistemologia das ciências sociais, pois que a primeira condição da ciência empírica é ser objectiva, o que significa justamente que ela visa um conhecimento expresso sob a forma de relações entre pessoas ou coisas que resultem somente das circunstâncias em que estas se encontrem e por isso em termos de independência das preferências ou inclinações do observador. O que desde sempre a ciência procura é ir, para além das noções imediatas da experiência dos homens, até aos mecanismos subjacentes que determinam os factos. Não será em todos os casos passar de impressões qualitativas a constatações quantificadas, mas é sempre passar das opiniões aos factos rigorosamente verificados. Ora que pode esperar-se como objectividade na rigorosa verificação dos factos em ciências em que o observador está tão profundamente envolvido no significado dos próprios factos?

2.2. Condições do valor científico do conhecimento das ciências sociais
2.2.1. Posições relativas às condições de cientificidade das ciências sociais
A atitude de base de que parte a crítica é a que tem sido designada por cientismo ou naturalismo, por entender que o único modelo que pode tomar o conhecimento científico é o das ciências da natureza. É o que tinha em vista Auguste Comte quando, com o seu Curso de Filosofia Positiva (1830-1842), se lançou à obra de implantar o método positivo no estudo dos factos sociais. Para Wilhelm Dilthey as ciências sociais são Geisteswissenschaften, ciências do espírito, que requerem um estudo a partir da experiência interna, apoiada na própria vivência, ao invés das ciências da natureza, nas quais se parte da experiência externa. As ciências do espírito distinguem-se pela historicidade, ou seja, pelo facto de a realidade com

11 que lidam ser definida por uma combinação de circunstâncias, que é fruto de um processo histórico, e ser ao mesmo tempo feita de combinações únicas, particulares, não repetidas. A historicidade está, com efeito, sempre presente nos actos dos homens, que se inscrevem numa sucessão de acontecimentos anteriores que lhes delimitam o sentido. Por isso as ciências do espírito devem apoiar-se na inteligibilidade histórica, que se realiza por duas formas. 1. através do estudo dos factos como combinações singulares de acontecimentos, procurando explicar as condições que lhes deram origem e apurar as regras e fins do seu desenvolvimento. 2. analisando os actos e instituições que são objecto de estudo no contexto das intenções que os inspiram e por aí dos valores que lhes servem de referência, eles próprios com conteúdo constituído historicamente. O objecto das ciências do espírito não é para Dilthey descortinar o sentido profundo do devir humano, à imagem do que se tem procurado fazer com a filosofia da história, mas sim explicar os factos pelos acontecimentos que os precedem e pelas circunstâncias sociais em que se verificam. O sentido interno da história só pode ser dado pelo homem, cuja psicologia é finalmente a raiz de todos os comportamentos. Como explica Julien Freund, na sua síntese do pensamento de Dilthey, «pelo contrário, a realidade é única, mas não se deixa apreender de uma maneira única, como pretende o naturalismo. Ela é acessível, por um lado, à experiência externa e, por outro, à experiência interna, as duas formas sendo igualmente legítimas, sem que uma possa abolir a outra. Se a natureza está sujeita às condições da consciência, esta, por seu lado, está sujeita às condições da natureza». Julien Freund é de parecer que é errado considerar Dilthey como expositor do estudo do individual, por contraste com o objectivo, que geralmente se reconhece à ciência, de chegar a generalizações, e como teórico de uma distinção rígida entre a explicação e a compreensão. Nota na verdade que a análise de tipos individuais tem em Dilthey implícita a procura de uma teoria geral que abranja vários tipos e que a compreensão é um instrumento da explicação, na medida em que ultrapassa o simples apoio que esta possa encontrar nas manifestações exteriores dos fenómenos. A verdade é que o longo e copioso debate sobre o problema do conhecimento nas ciências sociais pode realmente reconduzir-se a duas teses fundamentais: o naturalismo e o historicismo. • Naturalismo – Tese (no sentido epistemológico) de que não existem outras formas de conhecimento científico válido do que as definidas a pouco e pouco pela experiência das ciências da natureza. Como observa von Hayek, «os métodos que os cientistas ou os homens fascinados pelas ciências naturais têm tantas vezes tentado impor às ciências sociais não são sempre necessariamente aqueles que os cientistas de facto seguem no seu próprio campo, mas mais aqueles que eles julgam ter empregado. Isto não é necessariamente a mesma coisa. O cientista reflectindo e teorizando acerca do seu procedimento nem sempre é um guia digno de confiança». • Historicismo – Tese (no sentido metodológico) de que o objecto das ciências sociais é o estudo de acontecimentos que são, na sua real complexidade, factos individuais, combinações de circunstâncias que se não repetem.

12 O que traz consigo o repúdio da ideia comum de que o único objecto do conhecimento científico é o estudo do geral, como aliás quer o naturalismo. Para esta corrente é também um objecto legítimo da ciência o estudo e reconstrução pensada e interpretativa dos complexos únicos de factos que constituem os acontecimentos sociais. Heinrich Rickert, que foi um dos principais expositores do historicismo e teve substancial influência na orientação metodológica de Max Weber, nota que o conhecimento humano procede em regra por dois caminhos na abordagem do real: 1) Ou considera várias coisas diversas pelos seus aspectos comuns, procurando constituir géneros, 2) ou considera várias coisas pelos seus aspectos particulares, pondo em evidência o que as torna diferentes e únicas. A forma generalizante é a das ciências da natureza. A forma individualizante é a das ciências que Dilthey chamava ciências do espírito e que Rickert prefere designar por ciências da cultura. As primeiras são nomotéticas, visam chegar à formulação de leis gerais sobre os factos. As segundas são ideográficas, interessam-se pela descrição do que é único. O real é infinito tanto intensiva como extensivamente, e por isso inesgotável. O que unicamente pode fazer a ciência é isolar certos aspectos para fins de interpretação com a ajuda de um sistema de conceitos. Em qualquer dos dois grandes tipos de ciências os dois procedimentos podem ser utilizados, pois é possível no domínio das ciências da natureza considerar um facto pelos seus aspectos únicos, assim como é possível no domínio das ciências da cultura considerar diversos factos pelos seus aspectos comuns. Que uma ou outra orientação predomine é uma questão de conveniência definida pelas exigências de uma adequada explicação em cada caso. As ciências da cultura acentuam em regra o aspecto único dos acontecimentos, embora possam por vezes preferir o caminho da generalização. Como tal, é método que não está excluído do seu âmbito. O critério orientador terá de ser o que resulte das exigências da explicação. Para que um acontecimento possa considerar-se relevante no âmbito das ciências da cultura carece de caracterizar-se simultaneamente pela unicidade, pela originalidade e por constituir uma totalidade indivisível. Assim, uma personagem histórica ou um acontecimento como a Revolução Francesa constituem uma unidade neste sentido. Com a originalidade definida por constituírem em cada caso singularidades culturais distintas de outras singularidades culturais. E, ainda, uma personalidade histórica, nos diversos elementos que a conformam e nos actos em que se afirma, ou um acontecimento integrado por diversos factos e relações, como é a Revolução Francesa, constituem uma totalidade indivisível, um conjunto que perde o sentido se for repartido nos diversos elementos que o integram. Mas também é claro que uma análise adequada de tais casos únicos requer a sua inserção numa série de factos que os precedem. O que finalmente caracteriza os factos com que lidam as ciências da cultura é estarem ligados a valores. E por isso aí a explicação consiste numa referência dos factos observados aos valores que efectivamente são postos em causa nas circunstâncias concretas em que se verificam.

13 Como explica Julien Freund na sua exposição das concepções de Rickert, «estes valores não têm, pois, de ser inventados pelo estudioso, mas ele recolhe-os com o fenómeno que constitui o objecto da sua pesquisa. A referência aos valores desempenha assim um triplo papel: 1. constitui o critério da escolha entre o essencial e o acessório; 2. é o princípio da individualização, pois que todo o fenómeno cultural se define por referência aos valores; 3. permite dar um sentido ao objecto analisado, por o integrar num conjunto».

2.2.2. As formas da explicação científica
A teoria hipotético-dedutiva sustenta que a explicação científica tem de apoiar-se na formulação de leis gerais, entendidas como hipóteses acerca da ordem natural das coisas, das quais se deduzem as consequências que podem esperar-se dadas certas condições. O que significa que a explicação a que chega é do tipo seguinte: verificado certo acontecimento, dada a lei geral aplicável, têm de esperar-se necessariamente certas consequências. De modo que uma explicação científica da forma hipotético-dedutiva deve satisfazer a três condições: a) que a proposição que define a lei geral e as condições iniciais seja tal que acarrete a conclusão; b) que as premissas sejam verdadeiras ou pelo menos suficientemente fundamentadas; c) que a explicação seja verificável empiricamente, para que possa ser desmentida se for caso disso. O que por sua vez conduz a que qualquer explicação deva ser formulada com respeito de três regras: a) a explicação deve ter forma dedutiva; b) as razões indicadas devem ter aplicação geral a todos os casos idênticos; c) as leis gerais invocadas devem ser regularidades observadas de facto. Como mostra Alan Ryan, isto tem implícito dois outros pontos. 1. que as generalizações sejam nomotéticas e não enumerativas, ou seja, que possam aplicar-se a todos os casos idênticos e não se limitem a enumerar as características do caso em estudo. 2. que se trate de relações causais e não de relações lógicas, entendendo-se por relação causal aquela que afirma que dada uma mudança em certa propriedade se verificará necessariamente mudança em outra propriedade dela logicamente independente. A regra de que as explicações devem reportar-se a regularidades observadas de facto tem a maior importância para decidir do valor da explicação em ciências sociais, e por isso é relevante notar que pode razoavelmente entender-se que não é necessária para haver explicação científica. Com efeito, como mostra Alan Ryan, em primeiro lugar muitas regularidades de facto mostram apenas como os factos se verificam, indicam que dados certos acontecimentos outros se seguem, não indicam porque se verificam, e nessa medida não são, pois, condição da explicação. Mostrar que certo fenómeno se verifica segundo certa regularidade estatística não é explicá-lo, é apenas fornecer um elemento para a sua eventual explicação. Em terceiro lugar as afirmações de regularidades de facto não são na verdade explicações causais, mas

14 podem apenas tomar-se como ponto de partida para a formulação de narrativas causais, ou seja, descrições de sucessão de fenómenos que possam conduzir a eventuais fórmulas de explicação. Uma condição da explicação científica que não pode ser afastada é, porém, a de que a explicação seja formulada em termos tais que possa ser verificada empiricamente, para que possa ser desmentida se for caso disso. Uma explicação empírica, que tem de ser geral para os factos do tipo a que se refere, será aceite sempre condicionalmente, como hipótese sujeita à confirmação da experiência. Quando surgir um facto em que as consequências que dela decorrem se não verifiquem terá de ser substituída ou completada com outra explicação que se ajuste melhor aos factos. É claro que esta condição ignora uma outra forma da explicação científica que é a explicação probabilística, cuja lógica é talvez menos rigorosa do que a da teoria hipotético-dedutiva mas que tem hoje larga aplicação tanto nas ciências da natureza como nas ciências sociais. Pode dizer-se, com efeito, que a explicação probabilística não é dedutivamente válida porque as premissas em que assenta não são de comprovada universalidade. Mas nem por isso é inteiramente inaplicável. A explicação probabilística, que não é válida para todos os casos individuais, é válida para certas classes de casos no seu conjunto. Não parece razoável recusar-lhe a qualidade de científica, pois toda a ciência parte de aproximações que vão sendo tornadas cada vez mais rigorosas à medida que melhor se esclarecem as relações entre os factos.

2.2.3. Condições da explicação nas ciências sociais
Não pode contestar-se que o comportamento é afectado por elementos psicológicos, mas a verdade é que pode mostrar-se que as explicações psicológicas apoiam-se mais em motivos, isto é, em razões para fazer ou não fazer certas coisas, do que em causas actuando mecanicamente. Ora é muito relevante para a lógica da explicação notar, como aponta Alan Ryan, que «uma importante diferença entre razões e causas é que as razões podem ser avaliadas como boas ou más, próprias ou impróprias, enquanto uma causa enunciada só pode ser ou não ser a causa do que quer que se estiver a explicar». Por outro lado, não parece poder negar-se a margem de escolha que a todos é deixada na orientação das suas próprias acções. Uma forma de abordar o problema é ter em conta que os comportamentos sociais são resultantes de regras colectivas e não procedentes de regularidades causais. As regras e valores são interiorizadas com a própria aprendizagem de uma língua e com a criação em dado meio social. Explicar as acções é esclarecer-lhes o sentido em relação às regras e valores colectivos e pôr à luz as regras e valores colectivos subjacentes aos comportamentos. O sentido das regras e valores que, por sua vez, precisa de ser esclarecido reporta-se naturalmente às características do conjunto formado pela sociedade em que os indivíduos se inserem. Por isso são hoje correntes em algumas das ciências sociais, como a sociologia ou a antropologia cultural, explicações que se dizem holistic (do inglês whole, que significa totalidade) por serem relativas à totalidade social. Noutras ciências

15 sociais, como a demografia ou a econometria, tal preocupação é naturalmente menos dominante, pois tomam como dados as concepções da vida e do mundo que podem ter as pessoas cujos comportamentos estudam.

2.2.4. Convergências e particularidades entre as ciências sociais e as outras ciências
É claro que explicar o sentido das acções por regras e valores colectivos e o sentido das regras e valores pelo sentido do conjunto social supõe uma última fase na explicação científica que é a procura das causas e consequências da configuração que tomou o conjunto social. Problema que tem sido enfrentado por diversas formas nas ciências sociais, mas cuja solução não parece poder afastar-se da fórmula geral do estabelecimento da causalidade. Para o entender basta citar o destino das concepções funcionalistas da totalidade social, que agora se avalizam com o modelo de conjunto auto-regulado de que é apontado como exemplo o modelo cibernético. Ora o modelo cibernético é ele próprio uma construção apoiada em analogias com o funcionamento auto-regulado dos grupos humanos. Como nota Alan Ryan, «é uma verdade necessária que os sistemas auto-regulados têm numerosas analogias com as sociedades, porque a noção de auto-regulação deriva inicialmente do paradigma dos seres humanos organizando-se em grupos, definindo regras para serem seguidas, e modificando mais tarde as instruções à luz da experiência. Objectos outros que os grupos de homens são olhados como sistemas por analogia com tais grupos; por isso é pouco de surpreender que noções tais como retorno (feedback) da informação e contrôle flexível sejam aceitáveis para a vida social, quando essa foi a fonte onde foram inicialmente tomadas. Aplicar a cibernética ao entendimento da sociedade é quase anedota, quando se recorda que o termo cibernética provém da palavra que designava um controlador humano». Isto leva finalmente à conclusão de que a explicação nas ciências sociais reconduz-se em larga medida a processos lógicos que são comuns às ciências sociais e às ciências da natureza. A experimentação é pouco frequente nas ciências humanas devido à escala em que se verificam os fenómenos. Também a forma como se usam os métodos de processamento quantitativo de dados nas ciências humanas é análoga à seguida nas ciências da natureza, embora seja visível que neste aspecto as ciências humanas estão menos avançadas. Por outro lado, as diferenças de domínio não podem considerar-se decisivas na medida em que o estudo das ciências humanas vai finalmente desembocar no domínio das ciências da natureza, e estas podem, em certa medida, aproveitar dos progressos das ciências humanas. É o caso, em particular, do estudo do comportamento dos animais. Finalmente, ao nível dos conceitos, é certo que o estudo das regras, valores e sinais que é o objecto das ciências humanas procede pela determinação de relações de implicação, segundo as quais uma norma arrasta a outra, ou por «relações de designação» no que respeita à relação entre os sinais que resultam de tais implicações, e não por relações de causalidade. Mas nota logo que também aqui a oposição entre os dois grupos de ciências é menos fundamental do que parece. Escreve: «Por outro lado, a consciência individual e as representações

16 colectivas são encarnadas em organismos que dependem da causalidade, de modo que a explicação de todo o comportamento ou é global e causal ou então faz intervir duas séries paralelas: uma de implicação outra de causalidade. Toda a “intenção”, em particular, é causalmente uma auto-regulação e, do ponto de vista da consciência, implicação entre valores e conhecimentos. Toda a ciência do homem é, pois, simultaneamente implicante e causal nas suas análises da pessoa humana, enquanto toda a ciência natural é causal do ponto de vista dos seus objectos materiais e implicante do ponto de vista da pessoa que organiza matematicamente o saber».

2.2.5. O problema da objectividade nas ciências sociais
A observância das regras da imparcialidade científica é na verdade outro grande problema do conhecimento no domínio das ciências sociais. Com efeito, por um lado, o observador corre o risco de ser afectado no seu entendimento do sentido interno das acções sociais de outrem pela sua própria condição social, pelos próprios termos em que se define a sua posição na constelação das relações sociais, pela rede dos papéis sociais que delimitam a sua acção social. Ora, em primeiro lugar, é da maior importância saber distinguir a actividade que visa apurar o que é, que é o objectivo que pode propor-se à ciência empírica, de outras actividades que se ocupem do que deve ser e que se situam noutros níveis do conhecimento. Com o que se não pretende sustentar que os juízos de valor estão excluídos do âmbito da ciência empírica. Trata-se somente de não esquecer em que termos tais juízos de valor são válidos no contexto das regras em que se deve movimentar a ciência empírica. Max Weber, que se ocupou longamente do problema, nota que mesmo no plano das opções referidas a valores é lícito à ciência empírica intervir desde que saiba distinguir-se o que respeita aos meios do que se reporta aos fins. Decidir em última instância dos fins últimos da actividade humana não é tarefa da ciência empírica, mas da própria pessoa à luz da sua consciência, guiada pelas normas éticas a que presta homenagem. No ensaio sobre «A Objectividade do Conhecimento nas Ciências e na Política Sociais», em que explicava os critérios que se seguiriam, por um lado, no estudo científico dos factos económicos e sociais e, por outro, na crítica política e social, na revista Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik para cuja direcção acabava de entrar em 1904, Max Weber escrevia justamente: «Trata-se simplesmente de uma ingenuidade quando por vezes até alguns especialistas continuam a acreditar que é preciso estabelecer antes de mais “um princípio” para a ciência social prática e consolidá-lo cientificamente como verdadeiro, para poder deduzir em seguida, e de forma unívoca, as normas para a solução dos problemas particulares da praxis. Por muito necessárias que sejam nas ciências sociais as discussões “de princípio” em torno de problemas práticos – isto é, reduzir ao seu denominador comum os juízos de valor que se nos impõem irreflexamente –, e por muito que a nossa revista se proponha interessar-se por elas com especial cuidado, o estabelecimento de um denominador comum prático para os nossos problemas, sob a forma de uns ideais superiores de validade universal,

17 não pode ser de modo algum a tarefa da revista nem de nenhuma ciência empírica.» Não é a ciência empírica que pode conferir a dignidade de imperativo ético a um qualquer sistema de valores. Mas dado um sistema de valores, a ciência pode ajudar a entender se um certo caminho, um certo meio, é mais ou menos apto para os alcançar. Realmente, perante uma qualquer hipótese de acção concreta a realizar, a ciência empírica pode ajudar a esclarecer as questões seguintes: a) quais os fins últimos que podem estar em causa e o valor ou valores que podem vir a ser afectados pela realização de tais fins; b) em que medida os meios propostos permitem ou não alcançar tais fins últimos; c) quais as consequências que podem resultar do emprego dos meios propostos. No âmbito dos valores que se procuram alcançar é por aí possível apreciar a razoabilidade dos fins à luz das circunstâncias em que se querem realizar, estimar a idoneidade dos meios, mostrar a sua aptidão ou inaptidão para atingir os fins, sugerir outros meios, pôr em evidência os diversos tipos de consequências que podem resultar da realização dos fins e do recurso aos vários meios, e assim por diante. Mas é claro que optar por uma das diversas alternativas em face de um conflito de valores não é já uma decisão que possa resultar apenas de um critério científico, mas uma decisão da consciência guiada por certa concepção do mundo. Como escreve ainda Max Weber no ensaio de 1904, «a ciência empírica não é capaz de ensinar a ninguém o que “deve”, mas apenas o que “pode” – e, em certas circunstâncias, o que “quer”». O que deve é do domínio dos valores; o que pode resulta das circunstâncias e da eficácia dos meios disponíveis; o que efectivamente quer é a consequência necessária e por vezes não prevista dos meios escolhidos para chegar a certo fim. Tudo isto não significa que é vedado ao estudioso das ciências sociais defender as suas próprias preferências em matéria de valores, em obediência a uma certa concepção da vida e do mundo. A verdade, porém, é que é fácil encontrar na literatura publicada no âmbito das ciências sociais abundantes exemplos de juízos de valor subjacentes ao que se apresenta como um puro tecido de elementos de facto. Não são apenas as fórmulas relativamente grosseiras da sociologia da ordem ou da sociologia do progresso, em que se repartiram os estudiosos das ciências sociais no século XIX, ou ainda a sociologia do conflito, que se tem revelado dotada de maior capacidade de duração. Mesmo ao nível mais modesto das análises ou explicações parciais, feitas com espírito prático explicitamente sem compromissos teóricos, é fácil detectar critérios de escolha e de apreciação que são basicamente juízos de valor. É justamente o que caracteriza muita da literatura sobre os chamados «problemas sociais». Pois que, como escreve com lucidez C. Wright Mills, «detectar problemas práticos é fazer juízos de valor. Muitas vezes o que é tomado pelos liberalmente práticos como sendo um “problema” é tudo o que 1) se desvia dos modos de vida da classe média, da cidade pequena, 2) o que não alinha com os princípios rurais de estabilidade e ordem, 3) o que não se harmoniza com os slogans optimisticamente progressivos do cultural lag, e

18 4) o que não está em conformidade com o justo “progresso social”. Mas de muitas maneiras a bossa da praticalidade liberal é revelada 5) pela noção de “ajustamento” e o seu oposto “desajustamento”». Mais geralmente a experiência mostra que no domínio das ciências sociais todos os temas e conceitos adquirem facilmente um sentido valorativo, pelo que o simples facto de estudar ou escrever sobre um dado assunto, mesmo com as possíveis cautelas da objectividade, é assumir sobre ele uma posição prática susceptível de influenciar as atitudes e comportamentos e de assumir um conteúdo ideológico. O que também significa que qualquer estudioso das ciências sociais está sujeito às pressões do meio no sentido de dar às suas observações e interpretações uma orientação que corresponda aos juízos de valor dominantes. Pode de certo sustentar-se que é razoável ter em conta neste campo de investigação tão particular o possível impacte social do que se conclui, se publica e se ensina. Mas é talvez mais razoável tentar manter distintos o «dever cientifico de ver a verdade dos factos» e o «dever prático de defender os nossos próprios ideais», guardando ao mesmo tempo uma justa modéstia quanto ao valor social dos resultados que a ciência pode alcançar. A abundante experiência dos frutos dolorosos que a ciência também pode produzir mostrou já que a ciência, como diz C. Wright Mills, is not a technological Second Coming, não é um Novo Messias. Mas não pode esquecer-se que a racionalidade para que as ciências sociais podem contribuir também é parte do processo que conduziu ao homem unidimensional, que para Marcuse é o fruto da irracionalidade profunda de uma sociedade industrial edificada com recurso aos instrumentos mais perfeitos que a razão até hoje pôde conceber. É por isso um sentido em que a ciência é igualmente apta para o Bem e para o Mal. Pertence ao plano do instrumental cujo uso deve ser subordinado a valores superiores. Valores que na tradição ocidental se devem orientar para a melhor realização da liberdade do homem. «A liberdade», como nota também C. Wright Mills, que «não é a mera possibilidade de fazer o que se quer; nem é a mera oportunidade de escolher entre alternativas fixas. A liberdade é, primeiro do que tudo, a possibilidade de formular as opções realizáveis, de arguir sobre elas – e, então, a oportunidade de escolher. É por isso que a liberdade não pode existir sem um mais lato papel da razão nos negócios humanos. No âmbito da biografia do indivíduo e no âmbito da história da sociedade, a tarefa social da razão é formular as opções, alargar o âmbito das decisões humanas na construção da história. O futuro dos negócios humanos não é mero conjunto de variáveis a prever. O futuro é o que tem de ser decidido – dentro dos limites, é claro, da possibilidade histórica. Mas tal possibilidade não é fixa; no nosso tempo os limites parecem realmente muito largos». Ajudar a delimitar as opções possíveis é o que cabe no âmbito da tarefa profissional do técnico. Está em causa o outro dos problemas postos pela objectividade científica que de início se referiu e que respeita à forma como o observador interpreta o sentido subjectivo das acções que estuda. Trata-se agora de ter em conta que há que reportar as acções aos valores que efectivamente estão em causa no espírito do agente e não aqueles que podem eventualmente preocupar o observador. É claro que muitas vezes

19 o agente não tem consciência perfeita dos valores que determinam a sua acção. Por esse caminho é possível formular um tipo ideal, porque construído teoricamente, de acção racional relativa a um valor, o qual serve como termo de comparação aferidor das acções reais na medida em que com ele se conformam ou dele se desviam. Construir um tipo ideal é já identificar o caminho que deve seguir a acção no quadro do esquema de valores relevante para o grupo que se estuda. Apurar em que medida as acções reais se conformam com o tipo ideal é abrir caminho para o entendimento dos diversos factores que actuam sobre o comportamento efectivo, para além dos valores a que se presta homenagem. Um exemplo disto mesmo é a análise económica toda construída sobre um tipo ideal de comportamento racional orientado para a maior satisfação face à raridade dos bens.

2.2.6. Teorias e paradigmas nas Ciências Sociais
Qualquer hipótese ou lei empírica ou sistema de hipóteses ou leis empíricas requer a mais geral delimitação do campo a que se aplica e uma certa concepção geral das condições em que se verifica. É por isso que tais hipóteses e leis sempre se acompanham de teorias sobre o conjunto dos fenómenos a que respeitam. São as teorias que esclarecem as relações gerais entre os fenómenos que tornam relevantes as hipóteses e leis empíricas. Com efeito, as teorias são realmente explicações gerais das hipóteses e leis empíricas, interpretações das razões que estão na base da existência das relações que as hipóteses e leis empíricas enunciam. Tem-se podido mostrar que em muitos casos as teorias não resultam directamente dos factos observados e de que procuram dar conta as hipóteses e leis empíricas. São antes concepções gerais que procuram dar sentido a um conjunto de factos muito diversos. Enunciada uma teoria é possível deduzir dela as relações que deverão observar-se entre factos particulares no campo em que ela se aplica. As teorias da fórmula hipotético-dedutiva são frequentes nas ciências da natureza. São, porém, menos comuns nas ciências sociais. Raymond Boudon salienta que nas ciências sociais é mais corrente o caminho de a partir de certas concepções iniciais tirar certas concepções explicativas sem ser rigorosamente por via dedutiva. A este tipo de explicações parece-lhe convir melhor a designação de paradigmas do que a de teorias. Boudon nota que na literatura actual das ciências sociais podem encontrar-se pelo menos três grandes tipos de paradigmas: a) os paradigmas teóricos ou analógicos; b) os paradigmas formais; c) os paradigmas conceptuais. Os paradigmas teóricos ou analógicos são as interpretações gerais que se apoiam em fórmulas experimentadas noutros ramos do conhecimento e aplicadas por analogia no domínio das ciências sociais. Um exemplo é o emprego que se tem feito em muitos domínios da teoria de jogos de I. Von Neumann e O. Morgenstern, que, formulada a partir de situações de jogo definidas com precisão, tem servido para o estudo das relações entre intervenientes num mercado ou das relações internacionais, e por

20 aí em circunstâncias bem menos rigorosamente delimitadas por regras bem definidas e conhecidas dos intervenientes. No caso dos paradigmas formais e dos paradigmas conceptuais, não se procede por analogia mas por subsunção, operação lógica que consiste em fazer entrar um caso individual num género ou um facto no âmbito de uma lei. Os paradigmas formais são quadros de referência que permitem formular explicações seguindo certas regras sintácticas. É, para Boudon, o caso do funcionalismo de Merton, ele próprio uma formalização do funcionalismo organicista de Radcliffe-Brown. Para Merton os fenómenos sociais devem, em regra, ser explicados pelas suas funções. De modo que, identificada uma certa relação funcional entre um conjunto de fenómenos, é possível por subsunção situar o papel de um dado facto ou conjunto de factos no âmbito dessa relação funcional. É claro que o valor de uma explicação deste tipo depende basicamente da validade do paradigma formal. A validade, para Boudon, depende da generalidade e do poder heurístico. A generalidade respeita ao conjunto das questões que o paradigma permite explicar. O poder heurístico, ou capacidade de ajudar a descobrir o sentido dos factos, respeita à possibilidade que oferece o paradigma formal de detectar os factos relevantes num dado problema. Os paradigmas conceptuais são sistemas de conceitos que permitem, ainda por subsunção, enquadrar uma dada explicação dos factos. Lembra assim como Parsons, num artigo sobre General Theory in Sociology, abre a análise da organização da estrutura social pela definição de dois eixos de diferenciação 1. em interno e externo e 2. em instrumental e consumatório, ou seja entre meios e fins, cobrindo quatro níveis que se encontram em qualquer organização: a) o nível primário ou técnico – respeita ao output do sistema; b) o nível de gestão – respeita à regulação dos inputs necessários ao output; c) o nível institucional – respeita à supervisão e direcção superior do sistema; e d) o nível societal – respeita à articulação com os objectivos da sociedade no seu conjunto. Um exemplo de paradigma conceptual largamente usado nas ciências sociais é a distinção de Tönnies da comunidade e da sociedade ou ainda a noção de anomia introduzida por Durkheim. Este tipo de paradigmas parecem a Boudon ter na literatura das ciências sociais uma «função de detecção de factores explicativos» e uma «função de generalização». Como nota ainda Boudon, os paradigmas são por sua vez susceptíveis de uma certa transmutação que permite, quer a sua generalização, quer a transformação de paradigmas analógicos em paradigmas formais, quer a transformação de paradigmas conceptuais em paradigmas formais. A verdade é que as teorias e paradigmas parecem situar-se muitas vezes a meio caminho entre a ciência empírica e as concepções gerais do mundo e da vida. É sabido que no domínio das ciências sociais muitas teorias se mostram afectadas por considerações ideológicas. Como escreve Alan Ryan, «os cientistas agarram-se às teorias mesmo muito depois de estas terem sido refutadas, no sentido de deixarem de se ajustar a largo número de factos, e os atractivos de uma “boa” teoria parecem depender muito de considerações extracientíficas, tais como as suas qualidades estéticas, a sua coerência com atitudes religiosas e

21 assim por diante. O processo de mudança é na verdade como o de uma revolução, no sentido de que a nova teoria não explica simplesmente os mesmos velhos factos por forma melhor e mais rigorosa mas sobretudo torna a antiga teoria totalmente destituída de sentido».

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3. OS FACTORES DE EXPLICAÇÃO DO SOCIAL
Toda a tentativa de explicação empírica dos factos sociais pode reconduzir-se aos quatro factores seguintes: a) hereditariedade; b) meio físico; c) cultura; d) relações sociais. São mais frequentes as explicações que fazem apelo aos quatro factores conjuntamente embora tenha variado o grau de importância que finalmente se atribui a cada um deles. Na literatura de outras épocas atribuía-se à raça ou ao sangue a causa do destino brilhante ou obscuro de certos indivíduos ou de certas famílias ou de certas categorias de pessoas ou de certos povos. Com maior esforço de exposição sistemática a mesma ideia desenvolveu-se no século passado e no presente século segundo quatro correntes de pensamento, que podem talvez em síntese designar-se pela forma seguinte: a) b) c) d) a teoria racial da história; a teoria das selecções sociais; a teoria eugénica de base biométrica; a teoria da formação selectiva de fundos raciais superiores.

3.1. A relevância social da hereditariedade
3.1.1. Genética e transmissão hereditária
As várias teorias raciais acima referidas não deixaram de ser objecto de abundantes refutações nos próprios termos em que foram formuladas. A verdade é que toda a explicação social assente no factor hereditariedade teve de reformular-se inteiramente à luz da ciência da genética, que, embora remonte à hoje famosa comunicação de Gregorio Mendel à Sociedade de Ciências Naturais de Brünn, na Áustria (hoje Brno, na Checoslováquia), em 1866, apenas se tornou conhecida do mundo científico a partir de 1900, ou seja, depois de formuladas três das teorias raciais acima resumidas. Mesmo Galton, que poderia ser mais receptivo às novas ideias e que morreu em 1911, e pôde por isso já tomar conhecimento das novas concepções sobre a hereditariedade decorrentes das leis genéticas, manteve-se, como aparentemente também Karl Pearson, fiel à sua ideia inicial de uma lei da hereditariedade que explicava as semelhanças entre os filhos e os pais na base de uma certa continuidade de características. Mendel mostrou que a hereditariedade é definida pela combinação de genes realizada no momento da fecundação. Os genes são em regra unidades independentes e estáveis, que se combinam segundo as leis do acaso, constituindo os caracteres hereditários que «são transmitidos de uma geração à outra como unidades distintas, independentes e não fragmentáveis – conceito fundamentalmente oposto ao de uma hereditariedade contínua, que era geralmente aceite naquela época e

24 subsistiu em expressões da linguagem corrente tais como “sangue puro” e “sangue misto”». Os progressos posteriores da genética mostraram que a regra das combinações ao acaso pode conhecer excepções no caso dos genes ligados, que tendem a manter-se associados de uma geração para a outra, reduzindo por aí o número de recombinações genéticas possíveis, e que a estabilidade dos genes pode ser afectada por mutações. A combinação genética própria de cada indivíduo é o seu genótipo. As características efectivamente observadas no indivíduo constituem o seu fenótipo. O mesmo genótipo pode corresponder a diferentes fenótipos em virtude de os caracteres genéticos poderem ser recessivos ou dominantes. Assim, na experiência inicial de Mendel, que foi realizada com cruzamentos de linhagens puras de ervilhas, umas com flores brancas e outras com flores vermelhas, verificou-se que as ervilhas resultantes do primeiro cruzamento mostravam todas flores vermelhas. Em caso nenhum, qualquer que fosse o número de cruzamentos, surgiram flores de cores intermédias entre o vermelho e o branco. Donde quatro conclusões importantes: 1. a cor das flores, assim como, aliás, todas as outras características genéticas, é transmitida integralmente como a dos progenitores; 2. o elemento que determina a cor vermelha destas flores é dominante e o que determina a cor branca é recessivo; 3. sugere a lei das combinações genéticas que permite apurar a proporção de descendentes de cada tipo nos sucessivos cruzamentos; 4. o mesmo fenótipo, ou seja, neste caso as mesmas flores vermelhas, pode traduzir um genótipo de linhagem pura ou, no caso de uma geração de híbridos, um genótipo de linhagem mista. Isto também significa que a partir do fenótipo não é fácil fazer previsões sobre a hereditariedade provável, salvo conhecimento pormenorizado da linhagem, o que é um facto da maior importância tanto para as aplicações práticas da genética na reprodução de plantas e animais, como no plano mais complexo da hereditariedade humana que aqui nos interessa. Neste caso, a cor das flores é definida pela junção de um elemento genético ou alelo proveniente de cada progenitor. Quando os alelos são idênticos o indivíduo diz-se homozigótico para este carácter. Quando os alelos são diferentes, um dominante e o outro recessivo, o indivíduo dizse heterozigótico. No caso do primeiro cruzamento do presente exemplo todos os indivíduos são heterozigóticos. Nos cruzamentos subsequentes entre híbridos aparece uma proporção determinável de indivíduos homozigóticos – é o que são todas as plantas com flores brancas e uma parte das que têm flores vermelhas. Os genes de um organismo estão assentes em estruturas, que são os cromossomas. Cada gene ocupa no cromossoma um lugar determinado, que é um locus. Nos animais e nas plantas selvagens, em regra as células contêm dois cromossomas de cada tipo. São por isso ditas células diplóides. Isto significa que há dois exemplares de cada locus. E por isso, genericamente, se diz quando os dois exemplares do mesmo locus são ocupados por alelos idênticos que o indivíduo é homozigótico para esse carácter e quando são ocupados por alelos diferentes que o indivíduo é heterozigótico. No decurso dos fenómenos que precedem a redução cromática [a separação dos pares de cromossomas homólogos para a formação dos

25 gâmetas] acontece que dois cromossomas homólogos se cortem no mesmo lugar e troquem um dos seus troços; os genes que se encontravam de um lado e do outro são então separados e arrastados para gâmetas diferentes, é o crossing over. Ele é tanto mais frequente entre dois loci quanto estes estão mais afastados um do outro. Segregação e recombinação fazem-se ao acaso: a transmissão dos genes à descendência é questão de probabilidades, os resultados não são previsíveis senão em grande número de casos semelhantes e exprimem-se por proporções estatísticas. Os genes são portadores de elementos que determinam a sua duplicação, que está na base de todo o processo de crescimento e reprodução dos organismos. Sabe-se hoje, a partir de uma teoria formulada pela primeira vez em 1953, que o mecanismo de conservação e duplicação das informações genéticas assenta no ácido desoxiribonucleico, designado correntemente pelas iniciais ADN, que é o elemento constituinte dos genes e é o portador de certas informações que definem um código genético segundo o qual se faz a duplicação das células. Tais informações são definidas pelo ordenamento no espaço dos diferentes constituintes da molécula de ADN, que se recopia sucessivamente. Ora no decurso deste processo de cópia podem dar-se erros que modificam os caracteres hereditários e dão origem a mutações, as quais podem depois ser transmitidas à descendência, provocando a diversificação dos organismos. Como explica David Paterson, «as mutações são de dois tipos: 1. As mutações genéticas. A mutação genética afecta a estrutura interna de um gene. Pode ser a substituição de uma base por outra numa molécula de ADN e 2. Os remanejamentos cromossómicos. Um remanejamento cromossómico é uma modificação que afecta o conjunto de um cromossoma. Um ou outro destes acontecimentos tem repercussões sobre a estrutura do organismo, que podem ser menores, mas podem também pôr em causa a sua sobrevivência». Possuem-se actualmente certas informações sobre a frequência dos erros na cópia do ADN, que permitem supor que uma célula humana que conta cerca de um milhão de genes tem uma possibilidade em cem de ser afectada por uma mutação em cada ciclo de divisão. De facto parece que o risco de mutação é diferente nos diversos genes embora as causas sejam mal conhecidas. A mutação pode dar-se nas células somáticas, e então apenas as partes do indivíduo que provêm das células que sofreram a mutação serão afectadas. Estes indivíduos são chamados mosaicos. Sabe-se, por exemplo, que no homem a doença designada por mongolismo é o resultado da presença de 3 cromossomas em vez de 2 no par cromossomático do grupo 21 ou da translocação de um elemento deste grupo para outro cromossoma. Umas mutações são favoráveis, e aumentam o poder de sobrevivência e de reprodução dos portadores dos caracteres genéticos delas resultantes, e outras mutações são, pelo contrário, desfavoráveis. O último juiz do valor de sobrevivência de uma mutação é finalmente o meio ambiente, e por isso pode dizer-se que as características genéticas de uma população traduzem sempre um certo equilíbrio com o meio ambiente.

26 Certos processos biológicos conhecidos tendem de facto a preservar a variabilidade potencial. Assim, a recessividade no estado heterozigótico, que protege os caracteres mal adaptados a certo ambiente e permite que sejam transmitidos de geração em geração. A poligenia, que é a dependência de um carácter hereditário da combinação de vários genes, e que permite preservar todos os genes desde que os seus efeitos positivos e negativos se equilibrem numa graduação que se ajuste ao ambiente. A heterose, que é a superioridade na selecção natural que a experiência mostra terem os heterozigóticos sobre os homozigóticos. Como nota Eugène Binder, «a estabilização do fenótipo normal não é uma lei absoluta, pois nas espécies ou nas populações que têm de fazer face a condições muito diversas nem sempre existe um fenótipo óptimo único, mas acontece, pelo contrário, que em condições diferentes sejam fenótipos diferentes que representem cada um o óptimo. Nesses casos a selecção de segunda ordem tende, não a estabilizar um fenótipo, mas a elaborar dispositivos adaptativos complexos em que as reacções organoformativas são influenciadas de forma precisa pelos factores externos e podem conduzir a toda uma gama de fenótipos correspondendo a uma gama de condições do meio».

3.1.2. Problemas da relação entre hereditariedade e ambiente na determinação de características individuais e grupais
3.1.2.1. Raça e genética das populações
Ora tudo isto, que é de observação genérica entre os seres vivos, é da maior importância para avaliar devidamente o significado das diferenças somáticas entre os grupos humanos e das diferenças de aptidões ou de inclinações entre os indivíduos. A diversidade somática dos grandes grupos humanos é um facto incontroverso, mas a experiência tem mostrado que é extremamente resistente à classificação e interpretação científica. São muito antigas as tentativas de classificação dos homens em raças, mas não parece até agora ter-se resolvido de forma satisfatória o problema dos tipos intermédios. O antropólogo francês Henri V. Vallois, que é autor de uma das classificações de raças hoje em uso, distingue por seu lado 27 raças, que reúne nos quatro grupos raciais seguintes: 1.º Raças primitivas; 2.º Raças negras ou negróides; 3.º Raças brancas ou leucodermes; 4.º Raças amarelas ou xantodermes. Henri V. Vallois adopta a seguinte definição das raças humanas: «São agrupamentos naturais de homens que apresentam um conjunto de caracteres físicos hereditários comuns, quaisquer que sejam as suas línguas, costumes ou nacionalidades». Por características físicas hereditárias comuns entende «os caracteres que respeitam à própria natureza dos homens:  são pequenos ou grandes, de pele clara ou pigmentada;

27 têm cabelos lisos ou crespos, braços compridos ou membros curtos;  o seu sangue mostra a presença ou ausência de certas substâncias;  a sua inteligência é flexível ou ágil ou, pelo contrário, lenta e preguiçosa, etc. Em resumo, temos aí uma série de disposições devidas quer – à estrutura do corpo, e são os caracteres anatómicos; – ao funcionamento dos órgãos, são os caracteres fisiológicos; – ao mecanismo do cérebro, são os caracteres psicológicos; – à forma como reagimos às doenças, são os caracteres patológicos. É o conjunto formado por estas quatro ordens de factos que é utilizado para definir as raças. Há somente que precisar que todos estes caracteres só têm valor se forem hereditários. Disposições que se tenham desenvolvido sob a acção do meio em que vive um indivíduo e que desapareceriam nos descendentes, não poderiam naturalmente ser considerados como raciais. Como adiante se verá, um dos pontos mais controversos de toda esta questão é a ligação entre as características somáticas e as características mentais. Na verdade, do ponto de vista da explicação nas ciências sociais, o que principalmente interessa é averiguar em que medida a diversidade dos caracteres morfológicos acarreta necessariamente diversidade das reacções sociais. E por isso é relevante apurar se existe efectivamente grande diferença entre as raças humanas para além do que se refere à pigmentação da pele, textura dos cabelos ou configuração do crânio, da face e do nariz.  Ora o que a ciência da genética mostra no seu estado presente é a substancial semelhança dos homens. Geneticamente todos os homens pertencem à mesma espécie, isto é, formam um grupo cujos membros podem cruzar-se entre si e gerar filhos capazes, por sua vez, de se reproduzirem. Facto da maior importância, pois é sabido que a regra é que os animais podem cruzar-se e reproduzir-se apenas dentro da mesma espécie, embora se conheçam casos em que é possível obter em catividade ou por fecundação artificial híbridos viáveis e fecundos. A especiação é o fruto da evolução separada de certos grupos animais, que provoca o seu isolamento genético de outros. O exemplo clássico é o das espécies Equus caballus e Equus asinus, cujos cruzamentos produzem animais resistentes mas estéreis. Biologicamente, as raças podem tomar-se como subespécies, formadas como resultado de um isolamento geográfico que nunca foi inteiramente estanque por longo tempo. O que varia, em regra, são as frequências relativas de certos elementos genéticos de população para população. O facto está comprovado para diversas características. Assim o sangue humano pode ser classificado, de acordo com certas regras, em tipos segundo diversos sistemas. Um dos sistemas mais usados é o ABO. Demonstra-se que todos os homens são ou A ou B, ou AB ou O. O que varia são as proporções ou frequências com que aparecem os diversos tipos. Por isso Boyd propôs a seguinte definição de raça: é «uma população que difere de maneira significativa das outras populações humanas pela

28 frequência de um ou de vários genes que ela possui. A escolha dos loci sobre que repousa a distinção de uma “constelação” significativa é, e muito, uma decisão puramente arbitrária; parece preferível, por um lado, não distinguir uma multiplicidade de raças diferindo somente umas das outras por um único par ou uma única série de alelos e, por outro lado, não exigir que todas as raças que se definam difiram umas das outras pelo conjunto dos seus genes.» Combinando vários sistemas de classificação dos tipos sanguíneos e certos outros caracteres que se sabem geneticamente determinados1, Boyd, segundo a variação das frequências, propôs o agrupamento dos homens em seis raças: 1.ª Grupo europeu primitivo (hipotético) representado actualmente pelos Bascos; 2.ª Grupo europeu (caucasóide); 3.ª Grupo africano (negróide); 4.ª Grupo asiático (mongolóide); 5.ª Grupo ameríndio; 6.ª Grupo australóide. As teorias mais aceites neste campo, seguindo a regra genética do ajustamento dos caracteres das populações às características do meio, explicam a variação das raças humanas substancialmente em função dos meios geográficos em que se consolidaram, embora, dada a lentidão da reprodução das sucessivas gerações humanas, muitos caracteres possam permanecer mesmo quando o habitat deixou de ser aquele em que o carácter se estabilizou. Assim W. Farnsworth Loomis propôs recentemente uma teoria que explica o grau de pigmentação da pele a partir do ajustamento às necessidades da síntese da vitamina D. A vitamina D, que governa a absorção do cálcio pelo organismo, é sintetizada pela pele com a ajuda da exposição aos raios solares ultravioletas. O excesso de vitamina D pode, por seu lado, também ser nocivo. Nas zonas muito ensolaradas durante todo o ano, a pele é escura, a fim de evitar excessiva acumulação de vitamina D. Nas zonas onde a exposição ao sol é menor, a pele é mais clara, até ser translúcida nos países mais ao norte, a fim de facilitar a síntese de vitamina D. Ideia análoga foi já avançada a respeito de outro carácter associado às diferenças raciais, a configuração do nariz, que representaria uma adaptação ao clima, traduzindo um mecanismo de contrôle das perdas de calor e humidade pelo aparelho respiratório, assim como de ajustamento do ar inspirado às condições do equilíbrio interno do organismo. A verdade, porém, é que o debate sobre a incidência social da raça, e genericamente da hereditariedade, não se tem formado em torno da cor da pele ou da configuração do nariz, mas sim naquilo que não respeita puramente à preocupação médica com a incidência e possível tratamento de certas doenças, em torno de duas grandes questões: a) a relação entre a raça ou a hereditariedade e a inteligência; b) a relação entre a hereditariedade e o crime ou o comportamento marginal. ________________________________
A sensibilidade ao composto químico P.T.C. (feniltiocarbamida), que para uns é amargo e para outros não tem gosto, e ainda a presença de um gene «secretor» que se manifesta na saliva consoante o tipo sanguíneo do sistema A B O.
1

29

3.1.2.2. Inteligência e testes de inteligência
A questão da ligação entre a hereditariedade ou a raça e a inteligência tem sido posta sobretudo em face dos resultados diferentes que dão aos testes de inteligência as crianças de diversos tipos somáticos. Pode dizer-se que a investigação das causas deste fenómeno se fez segundo três caminhos principais: a) a procura da influência que podem ter nas características mentais dos indivíduos, respectivamente, a hereditariedade e o meio ambiente; b) a crítica do valor de medida da inteligência real que têm os testes em uso; c) a avaliação dos efeitos que pode ter no próprio desenvolvimento do cérebro dos indivíduos o meio ambiente em que são criados. Em particular a relação entre a hereditariedade, a inteligência e o sucesso social foi objecto de muitos estudos desde começos do presente século, como reacção às teses racistas e especialmente às teorias hereditaristas de Galton e dos seus discípulos. De modo geral, avançou-se uma teoria de que é ao meio ambiente social e educacional, mais do que à hereditariedade, que é justo atribuir o sucesso educacional e social das pessoas. Explica-se, com efeito, que os jovens não têm à partida as mesmas oportunidades. Uns são criados em famílias prósperas e educadas e beneficiam de todo um ambiente favorável à aquisição das qualidades necessárias para alcançarem uma posição de distinção social. Outros são criados em ambientes modestos, marcados quer pela mediocridade do conforto e da alimentação, quer pela mediocridade educacional, pelo que têm necessariamente mais dificuldades em adquirir as qualidades necessárias a uma carreira a um nível social superior ao da sua família. É claro que é difícil resolver o debate em termos rigorosamente científicos, pois tal supõe que se verifique como se comportam em meios diferentes pessoas com hereditariedade idêntica. Ora já se viu que, dada a forma como se processa a lotaria genética no momento da fecundação, é raro encontrar pessoas com hereditariedade idêntica. Os únicos casos de hereditariedade idêntica são os de gémeos monozigóticos, que resultam de um único ovo que se cindiu para dar origem a mais de um indivíduo. Ora sendo assim relativamente raros os casos de hereditariedade idêntica, tão-pouco são frequentes os casos de pessoas com hereditariedade idêntica criadas em meios diversos. Os gémeos são naturalmente criados na mesma família, que tende ainda muitas vezes a acentuar a semelhança entre eles pela compra de roupas iguais, educação idêntica e assim por diante. Para comprovar a tese fez-se, no entanto, um esforço para descobrir casos de gémeos que por qualquer acidente tivessem vindo a ser criados longe um do outro (abandonado pelos pais, orfandade, etc.). Foi assim possível mostrar que, embora a hereditariedade seja importante no que respeita à conformação de certas aptidões, o meio ambiente influencia sensivelmente muitas das capacidades que é possível medir através dos testes de inteligência.

30 Tratando-se os EUA de um país profundamente marcado pelas atitudes raciais, estas experiências não foram sempre vistas com bons olhos. Das várias reacções verificadas a com maior impacte no mundo científico parece ter sido o artigo com o título de «How Much Can we Boost IQ and Scholastic Achievement», publicado em 1969 na Harvard Educational Review por Arthur R. Jensen, professor de Psicologia da Educação na Universidade da Califórnia (Berkeley), que designadamente sustenta a necessidade de reconhecer o que decorre das observações que mostram que as diferenças de inteligência têm um largo conteúdo hereditário, e por aí também racial, e que é que o que se impõe em matéria de educação não é criar um sistema educacional idêntico para todos, mas um sistema adaptado às faculdades próprias de cada grupo. O mesmo debate passou à Grã-Bretanha, onde uma posição análoga à de Jensen foi defendida por H. J. Eysenck. Aliás, um debate público sobre o assunto foi organizado na Grã-Bretanha pela Cambridge Society for Social Responsability in Science, em que Jensen defendeu as suas ideias. Os testes correntes, que são derivados dos testes concebidos por Binet em começos deste século para a selecção escolar das crianças, com vista a separar as atrasadas das com desenvolvimento normal, visam medir o quociente de inteligência, ou quociente intelectual, em termos de relação entre a idade mental e a idade cronológica por uma fórmula do tipo seguinte:
Idade mental QI= Idade cronológica x 100

De modo que se a criança estiver avançada em relação à média da sua idade surge com um QI elevado, se estiver atrasada surge com um QI baixo. O teste é, pois, construído segundo uma certa ideia do que é o nível médio em cada idade, ideia depois confirmada por validação experimental através da administração a um número representativo de indivíduos. Como os testes foram sobretudo concebidos como instrumentos de selecção escolar, aceita-se em regra que são uma boa medida da educabilidade, isto é, da aptidão de um indivíduo para se adaptar a certo sistema escolar. Mas, como muitos elementos dos testes se relacionam com o nível de conhecimentos, duvida-se de que os testes sejam capazes de medir a capacidade inata como coisa distinta do potencial definido em certo ambiente social. Como explica Joanna Ryan, «há várias razões para supor que é em princípio impossível medir “o potencial inato” e também que essa própria noção não faz sentido. A razão principal resulta do facto de que no processo de medida algum aspecto do comportamento corrente do indivíduo tem de ser usado – isto é, algumas das perícias que se desenvolvem durante uma vida. Isto porque o potencial se exprime necessariamente no comportamento efectivo; e não há nada extra “por detrás” do comportamento correspondente ao potencial que possa ser observado independentemente do próprio comportamento»... «Nada disto é negar que há tanto determinantes genéticas como ambientais da aptidão cognitiva. Nem é negar que há limites à

31 extensão em que a variação ambiental pode influenciar a performance individual e que estes limites podem em parte ser determinados por uma variedade de factores genéticos e constitucionais. O que se afirma é que é impossível separar e medir com um teste de comportamento só as determinantes não ambientais da aptidão, uma vez que interactuam com o meio ambiente por forma a garantir que qualquer teste de aptidão tem inevitavelmente de envolver ambos os aspectos». As características ambientais penetram ainda fortemente os testes a partir dos processos de normalização a que são sujeitos antes de adoptados para uso rotineiro. A normalização consiste em aplicar o teste a uma amostra que se procura tão representativa quanto possível das pessoas de certa idade a fim de definir o que é normal em cada idade. Acresce, e isto é da maior importância para a questão que aqui nos ocupa, que os testes de Stanford-Binet e Wechsler, muito em uso nos Estados Unidos da América, foram normalizados com base apenas na população branca. Por isso, como nota Joanna Ryan, quando se usam testes deste tipo para medir o QI de negros o que se averigua é a aptidão destes para fazerem em certa idade as mesmas coisas que fazem os brancos nessas idades e não propriamente a sua posição relativamente às médias de desenvolvimento da população a que pertencem. Para medir com objectividade análoga a inteligência dos negros seria necessário normalizar os testes em relação à sua própria população. Isto, que põe já em causa muito do que se escreve a partir dos mais baixos resultados médios dos testes de inteligência entre os negros, é ainda relevante para a presente questão sob outro aspecto. Mostra-se, com efeito, a partir dos testes, que há uma acentuada correlação entre os resultados obtidos pelos pais e os obtidos pelos filhos, o que se usa para afirmar a hereditariedade da inteligência, embora deva ser temperado no que respeita à ideia de hereditariedade de potencial inato pelo facto decisivo da semelhança de ambiente em que vivem pais e filhos. Ora a partir desta constatação é excessivo tirar a conclusão de que há analogamente uma hereditariedade rácica da inteligência. Como escreve W. F. Bodmer, «a extrapolação das estimativas existentes da hereditabilidade às diferenças raciais pressupõe que as diferenças ambientais entre as raças são comparáveis às variações ambientais dentro delas»... «Que sejam ou não as variações de QI dentro de qualquer das raças inteiramente genéticas ou inteiramente ambientais não tem relevância para a questão da relativa contribuição dos factores genéticos e ambientais para as diferenças entre as raças». Pode, em síntese, dizer-se que o cérebro e o sistema nervoso adquirem as características que têm no estado de formação completa por efeito de duas características fundamentais: 1. a especificidade, que respeita às reacções geneticamente programadas, embebidas no sistema por efeito da evolução anterior da espécie, e 2. a plasticidade, que permite a aprendizagem. Ora o cérebro é, talvez mais do que qualquer outro órgão, influenciado pelas condições em que se passam os primeiros anos de vida. E esse desenvolvimento, se é basicamente a expressão

32 de um programa genético, só pode efectivar-se em reacção com o meio ambiente. Como explica o biólogo Steven Rose, «o programa genético do indivíduo é uma expressão do conteúdo em ADN (os genes) do óvulo e do esperma de que se desenvolve. Mas este programa genético não pode nunca ser expresso sem um ambiente em que a expressão tem de ocorrer. Se o ambiente é inadequado, o indivíduo simplesmente morre. Mesmo diferenças marginais no ambiente externo podem induzir uma variedade de mudanças na natureza e quantidade das proteínas que estão a ser expressas nos genes». É, pois, claro que um ambiente mais ou menos favorável, quer sob a forma nutricional, quer sob a forma da interacção mental, pode ter efeitos decisivos sobre o desenvolvimento das faculdades naturais da pessoa. Efeitos análogos são sugeridos por outras observações do impacte do ambiente sobre o desenvolvimento mental. Assim, tem podido verificar-se que os gémeos têm em regra um QI que é inferior em cinco pontos ao dos não gémeos, facto que se mostra independente da condição social dos pais, da ordem de nascimento, tempo de gestação, dimensão da família e outros factores que poderiam ser relevantes.

3.1.2.3. Antropologia criminal
O médico italiano Cesar Lombroso publicou em 1876 um livro sobre o Homem Delinquente (traduzido em francês com o título de L’Homme Criminel) em que estudava minuciosamente as características anatómicas dos criminosos, mostrando a presença, em grande número de casos, de anomalias, umas como fruto das marcas da vida, outras resultado da hereditariedade. Vinha a concluir que se estava em presença de estigmas físicos que indicavam uma predisposição para o crime. Podia por isso falar-se de atavismo criminal ou, noutras palavras, da existência de tipos humanos que indicavam criminosos natos, e que seriam sobrevivências na sociedade actual do homem primitivo, selvagem, sem respeito pelas vidas e haveres dos seus semelhantes. O livro de Lombroso teve um enorme sucesso. Foi traduzido em diversas línguas e alimentou toda uma volumosa corrente de pesquisas e comentários, marcados, aliás, por profundas divergências em virtude da grande importância prática de quaisquer conclusões que pudessem abonar-se com o aval da ciência, tanto no que se refere à administração da justiça, como à prevenção e repressão do crime e ao tratamento a dispensar aos delinquentes. A ideia de uma hereditariedade associada à propensão para a marginalidade social, a delinquência ou o crime foi igualmente difundida por outras obras célebres, como o estudo de Dugdale sobre os Jukes, (The Jukes, a Study in Crime, Pauperism, Disease and Heredity, Nova Iorque, 1877), uma família de que tinham podido identificarse 709 membros, entre os quais 106 vagabundos, 206 mendigos, 181 imorais e 76 criminosos, e o estudo de Goddard sobre os Kalikaks, família com características análogas. Pierre Grapin, num livro recente, em que tenta sintetizar as tendências da antropologia criminal depois de Lombroso, identifica as correntes seguintes:

33 a) as tendências neurocerebralistas, que procuram relacionar os actos delituosos com certas anomalias da configuração neurocerebral responsáveis por determinadas propensões psicológicas ou psicopatológicas, como resultado de lesões congenitais ou de doenças ou traumatismos posteriores ao nascimento; b) as tendências biotipológicas, que procuram reconduzir a diversidade dos indivíduos a um número restrito de tipos morfológicos (na base da conformação exterior do corpo) ou de tipos constitucionais (na base de características fisiológicas ou psicológicas) que depois tentam correlacionar com os actos delituosos ou criminais; c) a genética criminal, que procura identificar a relação entre certas anomalias genéticas e a propensão para o crime; d) a tendência neo-antropológica, que procura redefinir o problema tendo em conta os actuais conhecimentos sobre a interacção entre a hereditariedade e o meio ambiente na conformação das personalidades individuais. Nas pessoas normais as mulheres são portadoras de cromossomas XX e os homens de cromossomas XY. A anomalia que com mais frequência tem sido associada a comportamentos criminosos é o chamado síndroma YY. Alguns homens portadores de uma constituição dos cromossomas sexuais XYY têm sido, na verdade, responsáveis por crimes de assassínio particularmente horrorosos. O caso mais espectacular parece ter sido o de Richard Speck, que, em 1966, matou em Chicago 8 enfermeiras. Como escreve John H. Heller, «a evidência até à data é insuficiente para provar por forma conclusiva a validade do síndroma e para atribuir tendências inatas agressivas ou criminosas a todos os 5 milhões de indivíduos do sexo masculino do tipo XYY que se estima existirem no Mundo»... «A teoria de que uma anormalidade genética pode predispor um homem para o comportamento anti-social, incluindo crimes violentos, é enganadora e atractivamente simples, mas será difícil de provar. Uma extensa verificação da composição cromossómica e observação continuada dos indivíduos do sexo masculino de tipo XYY é essencial para determinar o rigoroso risco do comportamento deste grupo. Ainda não é de modo nenhum universalmente aceite. Muitos especialistas da genética acentuam que devemos ser prudentes em aceitar a interpretação de que a condição duplo Y está especificamente associada com o comportamento criminal, e particularmente no que se refere à validade médico-legal destes conceitos». Por isso a tendência da neo-antropologia criminal é para situar o problema da delinquência no seu contexto social. Como escreve Pierre Grapin, «nesta perspectiva e por razões tiradas somente do progresso científico o crime é visto não como a consequência de tal ou tal “factor” (hereditariedade ou meio ambiente), mas como a resultante de coeficientes componentes, coagindo somente em proporções definidas que se trata de apurar». Quer dizer, aqui também, tal como se viu a propósito da inteligência, as propensões que possam decorrer da hereditariedade não serão indiferentes. Mas trata-se de apurar

34 como tais propensões podem ser canalizadas e moldadas pelo meio social em que os indivíduos nascem e são educados. Com data de 8 de Junho de 1951 foi divulgada pela UNESCO uma declaração de um grupo de antropólogos e geneticistas destinada a completar a declaração de 1950 em certos pontos que tinham sido objecto de crítica por parte de alguns especialistas. Passados alguns anos sentiu-se necessário actualizar esta declaração, e em Agosto de 1964 uma nova declaração sobre os aspectos biológicos da raça foi aprovada por um grupo de especialistas reunidos em Moscovo a convite da U.N.E.S.C.O. «Nenhuma diferença foi até agora detectada por forma convincente nas dotações hereditárias dos grupos humanos em relação ao que é medido por testes psicológicos. O estudo desta questão é prejudicado pela grande dificuldade de determinar que parte desempenha a hereditariedade nas diferenças médias observadas nos chamados testes de inteligência geral entre populações de diferentes culturas. A capacidade genética para o desenvolvimento intelectual, tal como certos traços anatómicos principais peculiares à espécie, é um dos traços biológicos essenciais da sua sobrevivência em qualquer meio natural ou social. Certos traços psicológicos são por vezes atribuídos a povos particulares. Quer tais asserções sejam ou não válidas, não encontramos qualquer base para atribuir tais traços a factores hereditários, até prova em contrário».

3.2. A relevância social do meio físico
Ao meio físico vem sendo tradicionalmente reconhecida uma influência relevante na forma que toma a estruturação das sociedades. A permanência, que foi, para além da mobilidade ocasional, a experiência de séculos até ao recente desencadear dos efeitos do êxodo rural associado ao desenvolvimento industrial e urbano, explica que a marca do meio tenha embebido profundamente a cultura tradicional em todas as suas formas. Como observa Maximilien Sorre, reportando-se à experiência europeia que neste particular é análoga à de todas as áreas de povoamento antigo, «a estabilidade pareceu-nos durante muito tempo um dos atributos essenciais das nossas velhas sociedades agrícolas da Europa Ocidental». Por isso e em harmonia com o regime económico dominante é no seguimento dos acidentes do meio físico que se estabelecem e consolidam os laços entre os diversos grupos implantados num mesmo espaço geográfico.

3.2.1. Eficiência climática
Ellsworth Huntington, que dedicou grande parte da sua vasta bibliografia à análise deste problema, pode talvez tomar-se como exemplo. Tendo observado que num país tão vasto como os Estados Unidos, que se estende à escala de um continente, o número de pessoas por divisão das habitações, o número de nascimentos por mil habitantes, o número de homicídios, a proporção de famílias possuidoras de rádio e a presença de diversos outros elementos associados à vida moderna com melhores condições de conforto, variavam de zona para zona segundo um mesmo padrão, foi levado a procurar os factores subjacentes a tal

35 diversidade, que lhe pareceu deverem encontrar-se sobretudo em diferenças em dois aspectos intimamente ligados, o estado geral de saúde e de vigor físico, por um lado, e a inclinação para trabalhar e a capacidade de trabalho, por outro. Embora ambos dependam naturalmente do vigor hereditário dos grupos e do seu nível de cultura, parece-lhe que também são, em muito, tributários do meio físico e especialmente do clima. Vê, pois, subjacente à diversidade regional do nível de vida nos Estados Unidos, assim como às grandes diversidades verificadas no mundo inteiro, a presença de um factor que designa por eficiência climática. Explica que «a eficiência climática significa a relativa eficiência que as pessoas em qualquer estado de civilização teriam nos vários climas se a sua eficiência variasse somente em reacção ao tempo e ao clima, e se as pessoas em toda a parte fossem exactamente semelhantes em todos os outros aspectos». «Toda a gente sabe que sentimentos humanos, saúde e actividade são extremamente sensíveis ao tempo e ao clima». É na verdade, em seu entender, a temperatura que explica que todas as grandes civilizações tenham surgido em primeiro lugar nas latitudes de 25º a 35º. Os casos que se conhecem de vestígios de grandes civilizações em zonas muito quentes são realmente criações de povos que aí se estabeleceram no decurso de migrações, trazendo consigo culturas formadas em áreas de clima mais estimulante.

3.2.2. Determinismo e Possibilismo geográficos
«Onde a temperatura do Inverno está abaixo do óptimo as concepções que resultam em nascimentos vivos têm normalmente um máximo quando a temperatura se aproxima ou atinge o óptimo na Primavera ou no Verão. Nos países quentes, como o Norte da Índia, este máximo está, todavia, associado aos meses de Inverno, os únicos em que a temperatura baixa até ao óptimo. O significado disto parece ser que o homem primitivo, como os animais em torno dele, tinha maiores possibilidades de sobreviver se os jovens nascessem no final do Inverno ou começos da Primavera. Os animais nascem na Primavera porque tanto o tempo como a alimentação são então favoráveis à sobrevivência. O mesmo era indubitavelmente verdadeiro para o homem primitivo». E. Huntington procura afastar a acusação de determinismo geográfico que foi feita a algumas das suas obras anteriores. Na verdade o determinismo geográfico de alguns autores antigos está agora substituído pela posição que tem sido designada por possibilismo, que vê no meio físico sobretudo um conjunto de possibilidades que o homem pode aproveitar e modificar de modo diverso consoante as tendências da sua cultura.

3.3. A cultura
3.3.1. Natureza e cultura
Na definição famosa de Melville J. Herkovits, «a cultura é a parte do ambiente feita pelo homem». Cultura é a palavra que no sentido técnico se usa para cobrir o que noutros tempos se designava genericamente por civilização. Importada no século XVIII do francês para o alemão com

36 o sentido de formação e polimento, civilidade, educação, aparece pela primeira vez com o sentido que hoje tem na obra de Gustav K. Klemm Allgemeine Culturgeschichte der Menschkeit (10 vols., 1843-1852), que é uma história geral da cultura, e a que se seguiu uma tentativa de elaboração da ciência da cultura publicada em dois volumes, em 1854 e 1855, com o título de Allgemeine Culturwissenschaft.

3.3.2. Cultura (em geral) e culturas (particulares)
Foi na obra de Klemm que Tylor parece ter recolhido o novo sentido da palavra, que na Primitive Culture (1871) define por esta forma: «Cultura ou civilização ... é o todo complexo que inclui o conhecimento, a crença, a arte, a lei, a moral, o costume e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade.» A aptidão para criar cultura é o que finalmente distingue o homem dos animais. A cultura, consolidada ao longo de sucessivas gerações, é transmitida aos mais jovens e molda todos os comportamentos, e até as atitudes e as visões das coisas e das pessoas que lhes estão subjacentes. Cada grupo humano implantado em certa área e relativamente diferenciado de grupos vizinhos semelhantes tem a sua própria cultura. Mas muitas vezes essas culturas são parte de uma mesma família cultural que abrange uma área vasta, compreendendo os diversos grupos.

3.3.3. Subculturas
Pode acontecer que certas fracções de uma mesma sociedade tenham em comum uma visão específica do mundo suficientemente distinta para que se possa falar de subcultura. A ideia tem sido avançada por alguns antropólogos até para descreverem o ambiente social que caracteriza os bairros pobres de algumas grandes cidades, sobretudo quando a pobreza coincide com a marginalidade étnica.

3.3.4. Traços, complexos e padrões e instituições culturais
Para os estudiosos é útil, para melhor esclarecimento dos factos individuais e das relações observadas entre eles, proceder por decomposição da cultura em elementos componentes. Trabalhando com os materiais etnológicos mais abundantes na altura, que respeitavam em larga parte aos índios do continente americano, Clark Wissler propôs que se distinguissem em cada cultura os traços componentes, entendidos como as menores unidades culturais individualizáveis. Os traços agrupam-se naturalmente em complexos de cultura. Os complexos de traços, que se combinam, por sua vez, em cada caso segundo formas que, em larga medida, são próprias a cada cultura, permitem identificar padrões de cultura. Enfim, como a observação mostra que muitos padrões culturais são comuns a povos vizinhos e se estendem por regiões extensas, pode por aí chegar-se à noção de área cultural, que é a área delimitada pela presença de padrões culturais substancialmente

37 idênticos. Foi assim possível identificar em relação às culturas de índios americanos um certo número de áreas culturais. A verdade, porém, é que na aplicação estes conceitos deparam com diversas dificuldades. Não se fez facilmente acordo sobre que condições mínimas deve reunir um elemento da cultura para ser identificável como traço cultural. A noção de complexo de traços tem sido muitas vezes substituída pela noção de instituição, que não tem, aliás, sido objecto de menores controvérsias.

3.3.5. Universais de cultura
A. L. Kroeber e C. Kluckhohn, na sua análise, que cobre o principal dos trabalhos publicados até 1952, reúnem 164 definições do conceito de cultura e mostram certa dificuldade em chegar a uma visão de síntese. Na revisão final de alguns aspectos da sua própria posição sobre o problema retêm como especialmente importantes os aspectos seguintes: a) «a cultura é uma categoria geral da natureza, e expressamente da natureza humana» e nesse sentido é uma categoria que simultaneamente serve para classificar e explicar; b) «a totalidade da cultura humana inclui os fenómenos culturais de todos os povos, tempos e lugares na medida em que estes fenómenos são conhecidos ou cognoscíveis»; c) «pode arguir-se que a totalidade da cultura humana é padronizada somente no sentido de uma larga semelhança em todos os tempos e lugares de algumas das suas grandes categorias, como a transmissibilidade, e na posse de valores mais ou menos universais»; d) «no entanto, a cultura total é uma generalização como “a matéria viva” ou a vida total na terra; e é da natureza das generalizações, que, como tais, não podem mostrar os contornos nítidos de fenómenos particulares»; e) «é correcto, por isso, falar tanto da cultura em geral – quer de um modo descritivo, quer explicativo – como de culturas particulares»; f) «a cultura é produzida e mudada, concretamente, por indivíduos, e cada modo de vida distinto é também o produto de um grupo. Todavia, a cultura não está necessariamente ligada pelo tempo fora a uma sociedade particular»; g) «esta é uma das muitas razões pelas quais a cultura deve ser olhada como um sistema ou categoria autónoma, e na verdade – pelo menos para certos fins – pode ser tratada francamente com relativa abstracção das personalidades e sociedades»; h) «nunca deve esquecer-se que há uma constante interacção entre a personalidade (ou a variabilidade individual) e a cultura»; i) a cultura só pode ser entendida como totalidade, pois, embora sejam os indivíduos e os grupos os criadores da cultura, «o nosso conhecimento das pessoas – e muito largamente também o nosso conhecimento das sociedades de pessoas – falhou significativamente na explicação das formas culturais: no derivar efeitos culturais específicos de causas específicas psíquicas ou sociais. De facto os conceitos ou mecanismos psicológicos e sociais nem sequer são muito bons para descrever as formas culturais»; j) «as culturas são sistemas (isto é, são organizadas) porque as variáveis são interdependentes»;

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k) «a cultura não é o comportamento nem a investigação do
comportamento na sua totalidade concreta. Finalmente toda a cultura inclui largos princípios gerais de selectividade e ordenamento (“os mais altos factores comuns”) em termos dos quais padrões de, e para, e acerca do comportamento em muito variadas áreas de conteúdo cultural são redutíveis a generalização parcimoniosa». Aos aspectos que aparecem com frequência em quase todas as culturas conhecidas têm-se chamado os «universais da cultura». Mas também aqui está longe de se ter alcançado o acordo dos antropólogos, embora se individualizem em quase todos os casos as formas culturais relativas à vida material e económica, à formação dos jovens, à família e parentesco, à constituição de grupos e associações, ao contrôle social e governo, ao saber, arte e religião, à língua, e assim por diante. A dificuldade que têm encontrado os antropólogos em chegar a um modelo comum de sistematização dos factos observados traduz no fundo a complexidade e diversidade das sociedades tribais e tradicionais de que sobretudo se têm ocupado. E é uma dificuldade que, aliás, se tem feito sentir genericamente nas ciências sociais, pois é inerente ao estudo da cultura, que nos seus diferentes aspectos constitui muito do seu objecto. Que a cultura, que absorve toda a vida dos homens e se encontra, embora com formas várias, em todos os grupos, constitua muito do objecto principal das ciências sociais não tem tão-pouco de ser motivo de surpresa. Pois à luz do que se sabe hoje sobre o caminho que segue a conformação do organismo, como fruto de uma íntima e continuada interacção do fundo genético da espécie e do meio ambiente, de que a cultura é talvez a parte dominante, parece evidente que o ser humano, mesmo naqueles aspectos da sua conformação que podem dizer-se biológicos, está profundamente marcado pelo meio cultural onde nasceu e se fez o seu treino social. Emile Durkheim procurou mostrar isto mesmo num estudo célebre sobre O Suicídio (1897), que ainda hoje é digno de meditação, apesar de superado em diversos aspectos. Pois além do valor que ainda tem de análise exemplar, subsiste a tese central, que é a de que até numa decisão tão pessoal como o suicídio pode ver-se menos o fruto de motivos individuais ou de causas atribuíveis à constituição hereditária ou ao meio físico do que a expressão das grandes correntes sociais.

3.4. As relações sociais
3.4.1. Especificidade e autonomia das relações sociais
3.4.1.1. Formas de Solidariedade
Este estudo de Durkheim sobre o suicídio mostra, pois, claramente a incidência social de um factor que não pode reconduzir-se a nenhum dos outros, que nem mesmo numa concepção ampla da cultura pode inteiramente incluir-se, e que é a forma das relações sociais que, como se viu, umas vezes estimulam o suicídio pela excessiva coesão social e outras o estimulam pelo excessivo relaxamento. Há assim necessidade de individualizar um quarto

39 factor da explicação social, que são as relações sociais, e que com o nome de «formas da solidariedade» constitui o tema central do livro De la Division du Travail Social (1893), o primeiro dos grandes livros de Durkheim. Abordando o problema da formação dos laços sociais, Durkheim nota que as pessoas podem sentir-se atraídas umas pelas outras pelas suas semelhanças ou pelas suas diferenças, embora nem todas as diferenças sejam causa de atracção, pois se o homem de reflexão pode ser atraído pelo homem de acção, o fraco pelo forte, ou o tímido pelo resoluto, não se verifica que os pródigos se sintam atraídos pelos avarentos, ou os espíritos francos pelos hipócritas, e assim por diante.

3.4.1.2. Solidariedade mecânica e orgânica
A atracção e a interdependência entre as pessoas pode estabelecer-se por forma a que estas se movam em bloco, como um só corpo, e a esse tipo de solidariedade chama Durkheim mecânica. Como explica Durkheim, «há em cada uma das nossas consciências... duas consciências: uma, que nos é comum com todo o grupo, que, por consequência, não é nós próprios mas a sociedade vivendo e agindo em nós; outra, que não representa, pelo contrário, senão a nós naquilo que temos de pessoal e distinto, no que faz de nós um indivíduo. A solidariedade que deriva das semelhanças atinge o seu máximo quando a consciência colectiva recobre exactamente a nossa consciência total e coincide em todos os pontos com ela; mas, nesse momento, a nossa individualidade é nula»... «no momento em que essa solidariedade exerce a sua acção, a nossa personalidade desaparece, por assim dizer, por definição, porque já não somos nós próprios mas o eu colectivo. As moléculas sociais que não fossem coerentes senão desta maneira não poderiam, pois, moverse num conjunto senão na medida em que não tivessem movimentos próprios, como fazem as moléculas dos corpos inorgânicos. É por isso que propomos chamar mecânica esta espécie de solidariedade». A atracção e a interdependência entre as pessoas pode, pelo contrário, levar a que cada um se mova independentemente, na sua própria esfera de acção, embora ligado ao todo por um processo de complementaridade assente na divisão do trabalho social. A este tipo de solidariedade chama Durkheim orgânica. Explica que, ao contrário da solidariedade mecânica, esta só é possível «se a consciência colectiva deixar descoberta uma parte da consciência individual, para que aí se estabeleçam essas funções especiais que ela não pode regulamentar; e quanto mais extensa for esta região mais forte é a coesão que resulta desta solidariedade. Com efeito, por um lado, cada um depende tanto mais estreitamente da sociedade quanto mais dividido for o trabalho e, por outro, a actividade de cada um é tanto mais pessoal quanto mais especializada for»... «Cada órgão, com efeito, tem a sua fisionomia especial, a sua autonomia, e no entanto a unidade do organismo é tanto maior quanto mais marcada é a individualização das partes. Em razão desta analogia propomos

40 chamar orgânica à solidariedade que é devida à divisão do trabalho». A solidariedade mecânica tem uma primeira expressão na massa homogénea, que se encontra em determinadas circunstâncias, sobretudo entre os povos primitivos, em que os elementos componentes não estão dispostos ou organizados de nenhuma maneira definida. A isto chama Durkheim a horda, agregado de onde teriam saído todos os tipos sociais. Á horda que deixou de estar isolada para se encaixar num conjunto mais vasto chama clã e aos povos que resultam do agregado de clãs designa por sociedades segmentares à base de clã. O clã é ao mesmo tempo um grupo familiar e político. A autoridade política é no clã exercida por um chefe que emerge igualmente numa base familiar. Os componentes de uma estrutura deste tipo, como nota Durkheim, não podem ser tão semelhantes que se percam na massa nem tão diferentes que comprometam a homogeneidade do todo. Pelo contrário, a solidariedade orgânica exprime-se numa estrutura social que é um sistema de órgãos diferentes, com funções individualizadas, compostos eles próprios de partes diferenciadas, coordenadas e subordinadas em torno de um órgão central moderador. Na verdade o que julga ver é a presença de uma organização segmentar à base de clãs entre os povos mais primitivos, que evolui progressivamente para se tornar uma organização segmentar de base territorial, em que as regiões, assento das comunidades locais, se substituem aos clãs como elemento organizador da sociedade. O que se verifica é que, com a diminuição da importância dos clãs, se alargam as superfícies de contacto entre os indivíduos e por aí multiplicam-se as relações entre os membros dos diferentes segmentos, dando-se o fenómeno que Durkheim designa por aumento da densidade dinâmica ou moral, e ao mesmo tempo um fenómeno de aproximação natural, quer por concentração da população, quer por melhoria das comunicações, e que descreve como aumento da densidade material. Na verdade a evolução de uma e outra estão intimamente ligadas, uma vez que o aumento da densidade moral depende da densidade material. O fenómeno atingiu a sua forma mais elevada com o aparecimento das cidades, tudo se traduzindo no que se chama uma «condensação da sociedade». Esta acompanha-se de modo geral também de um alargamento da massa populacional que descreve como elevação do volume social. É como resultado da afirmação deste processo que a pouco e pouco se impõe a necessidade de uma divisão de trabalho, que se vai tornando cada vez mais complexa. A solidariedade orgânica está ligada à aceitação da diferença, a laços sociais de natureza contratual, à especialização de actividades e a um direito restitutivo, que traduz manos o peso da censura colectiva sobre os culpados de desvios das práticas comuns que a preocupação de definir e regular adequadamente as várias funções sociais.

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3.4.1.3. Conteúdos e formas (das relações sociais)
Georg Simmel levou mais longe ainda esta ideia, mostrando que era possível e mais correcto distinguir nas relações sociais o conteúdo da forma e fazer desta última o objecto de um ramo especial da sociologia, a sociologia pura ou formal. Explicava que «tudo o que está presente nos indivíduos (que são os dados imediatos, concretos de toda a realidade histórica) sob a forma de um impulso, interesse, propósito, inclinação, estado psíquico, movimento – tudo o que está presente neles de maneira a engendrar ou provocar efeitos em outros ou a receber tais efeitos designo por conteúdo, por assim dizer o material da associação (sociation). Em si próprios, estes materiais com que se preenche a vida, as motivações que a impulsionam, não são sociais. Rigorosamente falando, nem a fome, nem o amor, nem o trabalho, nem a religiosidade, nem a tecnologia, nem as funções e os resultados da inteligência são sociais. São factores de sociation apenas quando transformam a mera agregação de indivíduos isolados em formas específicas de estar com e para os outros – formas que estão incluídas no conceito geral de interacção. Sociation é assim a forma (realizada de inumeráveis maneiras diferentes) como os indivíduos desenvolvem juntos unidades que satisfazem os seus interesses». Estas formas, explica ainda Simmel, existem «por si próprias e pela fascinação que na sua própria libertação destes laços (com o conteúdo) difundem. É precisamente o fenómeno a que chamamos sociabilidade». Estas formas, para além do seu conteúdo específico, são caracterizadas pelo sentimento que os que nela participam têm de estar associados e o prazer que daí retiram. A constituição da relação social é assim um valor em si próprio, independentemente de qualquer conteúdo, que está exemplificado por forma privilegiada na reunião social em que as pessoas normalmente se esforçam por manter as conversações e as diferentes actividades em nível neutro para não comprometerem o sucesso da reunião, que é representado sobretudo pelo gozo do prazer de estarem juntas. Por isso são relevantes no trato social, nesse contexto o tacto, a sensibilidade, a simpatia e a cordialidade. Como exemplos deste estar junto apenas pelo prazer da ligação social sem qualquer outro objectivo, e que exprime a forma mais pura da sociabilidade, Simmel aponta os jogos ditos de sociedade, a coquetterie, a conversação, e assim por diante.

3.4.1.4. Estrutura social e funções sociais
Esta mesma tomada de consciência da necessidade de distinguir no âmbito da vida colectiva o que respeita às relações sociais do que se reporta à cultura está na origem da individualização, no seio da antropologia, de uma antropologia social, que se desenvolveu especialmente na Inglaterra sob o impulso de Radcliffe-Brown e dos seus discípulos. Nesta orientação, à antropologia cultural cabe estudar a cultura, que é conteúdo ou a «essência» da vida social, e à antropologia social cabe estudar as relações sociais, que constituem um processo de acções e interacções. Explica

42 Radcliffe-Brown, num dos seus últimos escritos (1952) que, em seu entender, «a realidade concreta com que lida a antropologia social na observação, descrição, comparação e classificação não é, de modo nenhum, uma essência mas um processo: o da vida social. O objecto primeiro da investigação é constituído pela vida social de uma região particular do globo, durante um certo período de tempo: o processo consiste ele próprio em uma multidão de acções e de interacções de seres humanos, agindo individualmente ou em relação uns com os outros, quer dizer, em grupos. Na diversidade dos acontecimentos particulares aparecem regularidades, de modo que é possível expor ou descrever certos traços gerais da vida social de uma região determinada, quer dizer, o que podemos chamar uma forma da vida social. No seu conjunto, os vários elementos da vida social estão ligados entre si por certas «relações de interconexão e interdependência» constituindo um sistema social, e por isso compreender um qualquer «traço constante de uma forma social» é situá-lo em relação ao sistema de que faz parte. O sistema é um processo em evolução, caracterizado simultaneamente por certas relações mais estáveis e outras em via de mais acentuada transformação. No fundo um sistema social é um sistema adaptativo que se manifesta em três aspectos: a) uma adaptação ao meio físico, que é a adaptação ecológica; b) um ordenamento dos vários componentes institucionais da vida social, que é a adaptação institucional; e c) um processo de aquisição pelos indivíduos dos comportamentos próprios da cultura do grupo e que é a adaptação cultural. O ordenamento particular das partes que constitui o todo social é a estrutura social . A relação entre um traço social e a estrutura é a sua função. Por isso, escreve Radcliffe-Brown, «os três conceitos de processo, de estrutura e de função são assim os componentes de uma teoria única, os elementos de um esquema de interpretação dos sistemas sociais humanos. Estão ligados por uma relação lógica, na medida em que o termo “função” define as relações do processo e da estrutura. Deste modo, esta teoria é aplicável ao estudo da permanência das formas da vida social e igualmente aos processos de mudança dessas formas». Esta preocupação com as relações sociais como realidade própria tem sido, aliás, fonte de desacordos ainda não apagados no seio da antropologia. A antropologia social vem a ser para essa corrente concebida como um ramo da sociologia que se preocupa sobretudo com as sociedades primitivas, e por isso se vê procurar os seus antecedentes teóricos na obra de Spencer e Durkheim, que surgem assim simultaneamente como fundadores da sociologia e da antropologia.

3.4.1.5. Sociedade e cultura
Esta concepção, assim como, aliás, os reflexos da polémica com os antropólogos americanos, transparece bem da forma como Evans-Pritchard, figura eminente da escola britânica, apresenta o objecto da antropologia num texto que foi parte de uma série de palestras pronunciadas em 1950 na B.B.C.: «Entre os primeiros

43 antropólogos, Morgan, Spencer e Durkheim concebiam o objecto do que agora se convencionou chamar antropologia social como a classificação e análise funcional das estruturas sociais. Este ponto de vista é ainda o dos adeptos de Durkheim, em França. Por outro lado, Tylor e um certo número de outros investigadores, mais particularmente inclinados à etnologia, pensam que o objecto da antropologia é classificar e analisar as culturas. Este ponto de vista dominou durante muito tempo a antropologia americana e explicase, penso eu, pelo facto de que eles estudavam sociedades índias que, fraccionadas ou desintegradas, se prestavam mais facilmente a investigações culturais que a investigações sobre as relações sociais; é preciso ajuntar que os investigadores americanos não tinham o hábito do trabalho intensivo de campo, lacuna devida à sua ignorância das línguas vernáculas (ao contrário dos investigadores britânicos), e que tinham mais inclinação para estudarem a cultura e os costumes que as relações sociais. Se são problemas de estrutura social, ele deve antes considerar o conjunto das relações sociais dos indivíduos a que respeita o inquérito do que entrar no pormenor da expressão cultural.»

3.4.1.6. Formas de sociabilidade e tipos de unidade colectivas
No esquema de interpretação sociológica proposto por Georges Gurvitch inclui-se uma sistematização das formas de sociabilidade, como elemento central do que se designa correntemente por «relações sociais» e «interacção social», que aspira justamente a marcar um passo em frente sobre os diversos conceitos propostos para exprimir a essência dos laços sociais e de que se tornaram correntes: • o in-group e o out-group de Summer; • os grupos primários e secundários de Cooley; • a distinção de Tonnies em sociedade e comunidade; • a solidariedade orgânica e a solidariedade mecânica de Durkheim; e assim por diante. Trata-se de encontrar os tipos sociais que efectivamente se combinam nos fenómenos mais complexos, os tipos sociais mais gerais e mais abstractos. Explica assim o seu pensamento: «Consideramos que os componentes mais elementares da realidade social são constituídos pelas múltiplas maneiras de estar ligado pelo todo e no todo, as formas de sociabilidade que, em diferentes graus de actualidade e de virtualidade, se combatem e equilibram em cada unidade colectiva real. As formas da sociabilidade são fenómenos sociais totais, o que pressupõe que elas contém, pelo menos virtualmente, todos os escalões em profundidade, mas são fenómenos sociais totais aestruturais, o que não as impede de serem utilizadas pelas unidades colectivas reais macrossociológicas no seu processo de estruturação.» São tipos microssociológicos cuja repetição e combinação ajuda a entender as outras duas «escalas de grupos sociais», • os tipos de unidades colectivas particulares (grupos de actividade, localidade, parentesco, etc.) e

44 os quadros estruturais da sociedade – tipos que resultam da sua combinação hierárquica, da sua integração e desintegração na sociedade global. Distingue em primeiro lugar • a sociabilidade espontânea; e • as expressões organizadas da sociabilidade, o que visa diferenciar o rígido, cerimonial, preestabelecido, do mais propriamente espontâneo. Analisando, depois, as formas de sociabilidade espontânea, considera • a sociabilidade espontânea por interpenetração, participação e fusão parcial no Nós (Nous) e • a sociabilidade espontânea por oposição parcial e ligação mútua entre Eu, Tu, Ele (Moi, Toi, Lui, Il), constituindo as relações com outrem (rapports avec autrui). O Nous «constitui um todo irredutível à pluralidade dos seus membros, uma unidade nova indecomponível onde, todavia, o conjunto tende a ser imanente às suas partes e as partes imanentes ao conjunto». O sentimento de relação conjunta, de ligação a um mesmo todo, não está ausente das «relações com outrem», mas aqui, ao elemento comum que definiria um Nós, sobrepõe-se o elemento de delimitação e diferenciação dos participantes. Esta heterogeneidade parcial, que admite toda uma escala de graus e de tonalidades, estende-se a todas as formas de relações com outrem. Não se aplica apenas às relações com outrem que comportem lutas, conflitos, reservas, delimitações recíprocas de interesses e de direitos, ou mais largamente implicando um recurso necessário à comunicação por sinais e símbolos; é igualmente válida para as mais íntimas relações com outrem, para as que se fundam sobre intuições actuais, e que, todavia, não suprimem de modo nenhum o elemento de oposição parcial «entre os parceiros».

Os vários graus de intensidade que pode apresentar a sociabilidade por interpenetração, participação e fusão parcial no Nós permitem distinguir como tipos, seguindo a tradição da literatura sociológica, • a massa, • a comunidade e • a comunhão. Massa – o grau de participação no Nós é fraco, limitando-se ao aspecto superficial das relações e mantendo-se reservado o mundo mais íntimo e pessoal das pessoas. Comunidade – traduz uma situação intermédia, em que o grau de participação no colectivo vai muito além dos aspectos superficiais actuantes no caso da massa, mas observando-se ainda uma certa independência de determinados aspectos do Eu das pessoas em presença. Comunhão – representa o ponto máximo da fusão no Nós, cuja influência e atracção penetra até ao mais íntimo do Eu dos participantes. A intensidade e o volume da fusão no Nós variam inversamente, dado que é difícil estender um grau de adesão muito íntimo a um grande número de pessoas.

45 Paralelamente, a sociabilidade por oposição parcial pode levar a graus diversos de intensidade nas relações com outrem, podendo distinguir-se • as relações de aproximação, • as relações de afastamento e • as relações mistas. Recobrindo estas formas de sociabilidade por fusão parcial e sociabilidade por oposição parcial aparecem na análise de Gurvitch, • a sociabilidade activa e • a sociabilidade passiva, distinguindo-se cada caso conforme o ascendente que as obras comuns são susceptíveis de tomar sobre os próprios sentimentos de participação, ou de oposição, suscitados pelos fenómenos de sociabilidade. Distingue ainda nos Nós activos, conforme • realizam uma só obra comum – Nós unifuncionais, • ou várias – Nós multifuncionais, • ou têm funções múltiplas difíceis de enumerar – Nós suprafuncionais. Abordando o problema da sociabilidade organizada, que se liga com o número de funções que se procura servir, salienta a necessidade de distinguir os diferentes casos conforme o grau de abertura às formas de sociabilidade espontânea. Trata-se essencialmente de considerar os casos de sociabilidade organizada segundo • o princípio de domínio e • o princípio de colaboração. Distingue, por fim, entre os Nós, organizados ou não, • os que servem o interesse geral e • os que servem interesses particulares.

3.4.2. Grupos e sociedade
3.4.2.1. Grupo, Associações, Organizações e Sociedade global
As formas de sociabilidade são um elemento importante da realidade dos grupos, mas há neles algo mais do que um certo tipo ou tipos de formas de sociabilidade. Os grupos situam-se no plano macrossociológico e estão mais perto dos níveis mais rígidos e organizados do social do que as formas de sociabilidade, muito ligadas aos níveis onde o elemento de espontaneidade é mais nítido. Os grupos não se confundem com a sociedade global em que se inscrevem, a qual decerto os penetra e os impregna de algum modo da coloração particular que lhe é própria, nem se esgotam inteiramente nas relações de interacção e de interdependência que ligam os indivíduos. Cada pessoa é membro de numerosos grupos, a cada um dos quais dão uma individualidade própria as relações estabelecidas entre os membros no seu seio. Gurvitch, procurando formular uma definição do grupo, sentiu por isso a necessidade de situar as suas ideias em relação às teorias conhecidas e começou assim por elaborar uma lista daquilo que os grupos não são ou não são necessariamente, lista que se afigura

46 de algum interesse para situar as concepções mais recentes sobre estes fenómenos. 1º Os grupos não são uma quantidade ou uma colecção de indivíduos semelhantes nem simples categorias sociais, pelo menos enquanto agregado puramente nominal. 2º Os grupos não são médias estatísticas. É possível, de facto, estudar por processos matemáticos apropriados um padrão provável das relações entre os membros de um grupo constituído de certa maneira hipotética, mas a observação social revela nos grupos situações consideravelmente diferentes, ao ponto de o contraste entre a situação teórica e a situação de facto ter podido ser utilizada pela escola sociométrica americana como teste da realidade do grupo. 3º Os grupos não são, além disso, simples ajuntamentos (assemblages) de pessoas reunidas e justapostas. Muitas vezes os grupos podem ser formados por pessoas distantes umas das outras, embora ligadas de certo modo. 4º Os grupos não são simples relações sociais, nem relações sociais positivas e complementares, nem sistemas ou unidades de interacções humanas. Neste caminho se têm orientado os mais influentes sociólogos americanos, que, insistindo no aspecto relações com outrem da sociabilidade têm desconhecido o papel desempenhado pela participação num mesmo Nós, aliás até como elemento implícito nas próprias relações com outrem. 5º Os grupos não são simples conjuntos de estatutos e de papéis sociais. 6º Os grupos não podem reduzir-se às associações, no sentido de grupos formados para a satisfação de diversos tipos de interesses, conforme a análise de MacIver. 7º Os grupos não podem ser reduzidos às organizações, pois como fenómeno social total podem actualizar-se a todos os níveis de manifestação dos fenómenos e como combinação particular de formas de sociabilidade não podem exprimir-se apenas num dos aspectos dessas formas. Subjacente ao grupo, por mais importante que no seu seio seja o papel da organização, existe sempre uma realidade espontânea que pode ter papel decisivo no equilíbrio de tensões que efectivamente define a realidade do grupo. 8º Os grupos não podem ser reduzidos às formas de sociabilidade nem às sociedades globais, pois constituem eles próprios um equilíbrio de formas de sociabilidade e inscrevem-se a par de outros grupos, em ligação com eles, num meio social mais vasto que os enquadra e influencia – a sociedade global, de que hoje a nação organizada em Estado é o exemplo mais frequente. Tudo isto permite agora situar na sua realidade própria o grupo que Gurvitch define como uma unidade colectiva real mas parcial, directamente observável e assente em atitudes colectivas, contínuas e activas, tendo uma obra comum a realizar, unidade de atitudes, de obras e de comportamentos, a qual constitui um quadro social estruturável tendendo para uma coesão relativa das formas de sociabilidade. Os grupos são unidades colectivas, englobando uma multiplicidade de formas de sociabilidade, integrando-se nas sociedades globais, de que são um dos elementos constitutivos. A obra comum e a

47 unidade de comportamentos dá por sua vez uma certa coesão ao conjunto, levando-o a sobrepôr-se ao sistema de Nós e de relações com outrem que se actualizam no seu seio, por forma a estabelecer-se um equilíbrio, mais ou menos precário, na medida em que se trata de uma realidade em constante evolução, dos múltiplos elementos do social, que por sua vez pode permitir uma estruturação, ou seja, uma certa organização, das múltiplas hierarquias que se actualizam no seio do grupo, e uma certa definição do grupo em relação ao meio em que se inscreve, estruturação essa que pode ou não vir a traduzir-se numa ou em mais organizações, conforme as tendências do grupo que procurem exprimir-se por esse meio.

3.4.3. O “Suicídio” de Dürkheim como exemplo do estudo da incidência dos factores de explicação do social
Durkheim parte, em boa lógica, de uma análise do que deve entender-se por suicídio, facto de que todos falam correntemente, mas que poucos são capazes de definir com exactidão. Na verdade, o seu intento é incluir entre os suicídios não apenas aquelas mortes que resultam directamente «de um acto de que o paciente é o autor», mas de todos os actos em que aquele que os pratica possui a consciência de que tem de resultar a morte, mesmo que esta seja realmente um acto de outrem. Pretende mostrar que «a taxa dos suicídios constitui, portanto, uma ordem de factos una e determinada; é o que mostram juntamente a sua permanência e a sua variabilidade». É uma ordem de factos que pode, por isso, ser propriamente objecto de estudo pelo sociólogo. Ora, tratando-se de lhe encontrar as causas pode recorrer-se a duas ordens de factores: 1. Factores extra-sociais: a) Efeitos dos estados psicopáticos. Examinando em primeiro lugar os possíveis efeitos de estados psicopáticos, postos na origem do suicídio por alguns autores do tempo, é levado à conclusão de que «a taxa social dos suicídios não tem nenhuma relação definida com a tendência para a loucura, nem, por via de indução, com a tendência para as diferentes formas de neurastenia. Não é porque uma sociedade contem mais ou menos neuropatas ou alcoólicos que ela tem mais ou menos suicidas»; b) Efeitos da raça e da hereditariedade. Abordando as possíveis relações da taxa de suicídios com factores ligados à constituição física hereditária, que igualmente tinham sido postos na base das diferenças do fenómeno de país para país e de região para região, começa por criticar as definições de raça que têm sido propostas; c) Efeitos dos factores cósmicos. Observa, com efeito, que o factor subjacente à evolução do fenómeno é a duração do dia. Os suicídios são mais frequentes nas épocas do ano em que os dias são mais longos. E o que determina, ainda, as maiores frequências de suicídios nestes períodos não é naturalmente a luz, mas a maior intensidade da vida colectiva. Escreve assim, em conclusão, que, «se as mortes voluntárias se tornam mais numerosas de Janeiro para Julho não é porque o calor exerça

48 uma influência perturbadora sobre os organismos, é porque a vida social é mais intensa. Sem dúvida que, se ela adquire essa intensidade, é que a posição do Sol sobre a elíptica, o estado da atmosfera, etc., lhe permitem desenvolver-se mais facilmente que durante o Inverno. Mas não é o meio físico que a estimula directamente; sobretudo não é ele que afecta a marcha dos suicídios; d) Efeitos da imitação, que para Durkheim deve ser vista como um fenómeno da psicologia individual. Com este entendimento parece-lhe incontestável que a imitação é responsável por diversos casos de suicídio. Mas entrando mais profundamente nas variações regionais e nacionais do fenómeno, é levado a sustentar que não pode descortinar-se nenhuma tendência de propagação de uma corrente de suicídios dentro de uma sociedade ou de um grupo de indivíduos. 2. Factores sociais a) Factores que conduzem a uma excessiva separação do indivíduo do corpo social, uma excessiva individualização, e que dão origem a um tipo de suicídio que designa por suicídio egoísta; b) Factores que provocam uma excessiva subordinação do indivíduo à colectividade e que dão origem a um tipo de suicídio que designa por suicídio altruísta; c) Factores que conduzem a um exagerado relaxamento dos laços sociais, a um estado social de insuficiente integração, de anomia, e que dão origem a um tipo de suicídio que designa por suicídio anómico. Para documentar os casos de suicídio altruísta, que são os que resultam de uma excessiva integração do indivíduo na sociedade, recorre a numerosos exemplos tirados de costumes de povos europeus noutras épocas ou dos povos contemporâneos de outros continentes. São suicídios deste tipo a morte que os bárbaros dinamarqueses procuravam em combate para fugirem à vergonha de morrerem de velhice ou de doença, as mortes voluntárias dos indivíduos que atingiam certas idades avançadas, o suicídio das mulheres indianas na ocasião da morte dos maridos, o suicídio dos servos que seguem o seu senhor na morte, o suicídio por motivos de prestígio, e assim por diante. Estes são casos de suicídio próprios de sociedades em que o indivíduo conta por pouca coisa, em que todo o treino social leva o indivíduo a sujeitar-se às necessidades da colectividade. Explica, pois, que «uma vez que chamamos egoísta ao estado em que se encontra o eu quando vive da sua vida pessoal e não obedece senão a si próprio, a palavra altruísmo exprime bastante bem o estado contrário, aquele em que o eu se não pertence, em que ele se confunde com outra coisa que ele próprio, em que o pólo da sua conduta está situado fora de si, a saber, em um dos grupos de que faz parte». «Todas as vezes que graves rearranjos se produzem no corpo social, quer sejam devidos a um súbito movimento de crescimento ou a um cataclismo inesperado, o homem mata-se mais facilmente». Isto resulta, pois, do desregramento social, do estado de anomia, e por isso a designação que convém a este outro tipo de suicídio é a de suicídio anómico. De tudo conclui Durkheim que não pode encontrar-se outra explicação para a taxa social dos suicídios que não seja sociológica. Escreve assim

49 que «é a constituição moral da sociedade que fixa em cada instante o contingente de mortes voluntárias. Os movimentos que o paciente realiza e que, à primeira vista, parecem não exprimir senão o seu temperamento pessoal são, na realidade, o seguimento e o prolongamento de um estado social que eles manifestam exteriormente». É, pois, nestas tendências colectivas, que reflectem as representações colectivas, que devem concentrar-se as tentativas de entendimento deste fenómeno social e de outros análogos. Esse é o objecto da ciência social que, como explica Durkheim em resposta a críticas que lhe foram feitas, parte da ideia de que «uma crença ou uma prática social é susceptível de existir independentemente das suas expressões individuais. Por aí, nós não pensamos evidentemente dizer que a sociedade é possível sem indivíduos, absurdo manifesto de cuja suspeita nos poderiam ter poupado. Mas entendemos: 1.º que o grupo formado pelos indivíduos associados é uma realidade de outra espécie (d'une autre sorte) que cada indivíduo tomado à parte; 2.º que os estados colectivos existem no grupo, da natureza da qual derivam, antes de afectar o indivíduo como tal e de se organizarem nele, sob uma forma nova, numa existência puramente interior».

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4. Métodos da observação e análise dos factos sociais
4.1. Problemas da observação e da análise em ciências sociais
4.1.1. Problemas gerais
A observação nas ciências sociais tem de enfrentar problemas particulares em virtude da delicadeza que frequentemente rodeia os factos que são objecto de estudo. Muitas das opiniões, atitudes, comportamentos, realizações e outros factos que podem ser tema de estudo são objecto de sentimentos poderosos que podem levar a opor vivas reacções à curiosidade exterior. Relativamente a muitos planos da sua vida íntima ou no que respeita às suas convicções, não é fácil conseguir que as pessoas prestem informações, nem é mesmo socialmente correcto procurar obtê-las. As diversas técnicas de observação usadas nas ciências sociais podem agrupar-se, seguindo Maurice Duverger, em três categorias principais: – a observação documental – procura estudar os factos sociais a partir dos documentos dos mais diversos tipos que estes tenham deixado atrás de si; – a observação directa extensiva – procurando estudar os factos para além dos documentos que os possam mais ou menos fielmente reproduzir, se situa ao nível das grandes comunidades, recorrendo muitas vezes ao estudo de amostras representativas; – a observação directa intensiva – tenta penetrar até às pequenas comunidades e aos comportamentos individuais, procurando a visão em profundidade.

4.1.2. Os quadros de interpretação
Fases do estudo científico:  observação e descrição dos factos;  classificação dos factos;  explicação;  verificação. Naturalmente que todas estas fases do trabalho científico estão intimamente ligadas, e no espírito do estudioso passa-se, de facto, constantemente de uma a outra.

4.1.2.1. Descrição e classificação
Tem de reconhecer-se que, pelo que respeita às ciências sociais, o plano das explicações gerais é aquele onde se têm registado menores progressos, o que não deixa de ter reflexos na dificuldade que correntemente se encontra em conseguir o acordo dos especialistas sobre as diferentes classificações propostas. Uma fonte importante desta dificuldade é, no entanto, também a complexidade dos fenómenos e a sua apresentação ao observador

52 sob a forma de um continuum em que é difícil distinguir o essencial do superficial, o constante do acidental, e por aí chegar a uma sistematização que apareça como uma reprodução satisfatória das próprias diferenciações reais entre os fenómenos, e não como uma simples construção artificial correspondendo à necessidade do espírito humano de repartir por categorias facilmente acessíveis a multiplicidade dos fenómenos. Muito do labor dos estudiosos das ciências sociais, especialmente nos Estados Unidos, tem-se até hoje orientado para a descrição dos factos, e por isso o sector mais desenvolvido do método das ciências sociais é o das técnicas de observação. Se não considerarmos as obras dos grandes clássicos como Herbert Spencer, Emile Durkheim, Max Weber ou Vilfredo Pareto, que pela sua própria natureza são de difícil imitação e estão ultrapassadas em certos aspectos, temos de reconhecer que é de há poucos anos a tendência para a classificação dos fenómenos e, embora algum caminho se tenha feito nesse sentido, os resultados são de valor desigual, devido às já referidas dificuldades que o problema apresenta.

4.1.2.2. Tipos e tipologias
As tipologias tomaram, no entanto, grande importância na análise nas ciências sociais, como ponto intermédio entre a descrição e a formulação de teorias gerais de explicação, pois, em virtude dos problemas já referidos postos pela explicação, a tendência actual é para circunscrever o âmbito de verificação das eventuais generalizações ou «leis sociais», a certo quadro social definido no espaço e no tempo, e que corresponde à ideia de tipo social na sua concepção mais lata. Como se viu, o determinismo social concebido por alguns dos primeiros estudiosos, segundo o qual se poderia estabelecer uma relação de causalidade entre A e B, por forma a que uma vez verificado A viesse a surgir necessariamente B, veio cada vez mais a ser substituído pela ideia da relação funcional entre os fenómenos correspondendo à ideia matemática de função e pela ideia de determinismo probabilístico. A concepção actual do determinismo social é a de um determinismo estocástico baseado no cálculo das probabilidades, que deixa a necessária margem à natural liberdade humana. Mas este determinismo é concebido relativamente a uma certa combinação de fenómenos, um quadro social, que pode ser um tipo social determinado histórica e geograficamente. As grandes teorias gerais da evolução das sociedades que têm sido propostas não têm conseguido ser objecto de uma geral aceitação entre os especialistas.

4.1.3. O problema da experimentação
Uma das dificuldades da investigação nas ciências sociais é a falta de condições favoráveis à experimentação das hipóteses formuladas pelos estudiosos.

53

4.1.3.1. Repetibilidade e controlo de factores
Ao contrário das ciências da natureza, em que é quase sempre fácil repetir os fenómenos tantas vezes quanto se deseja nas mais diversas circunstâncias por forma a identificar com segurança o papel das diferentes variáveis no desenrolar dos factos que se estudam, nas ciências sociais a manipulação dos acontecimentos necessária à criação das condições experimentais é severamente limitada pelos problemas éticos que resultam do facto de o objecto de uma tal manipulação ser o próprio homem.

4.1.3.2. Limites éticos ao controlo experimental
Sendo claramente inaceitável, em muitos casos, do ponto de vista moral, ou impossível na prática criar com grupos humanos todas as situações experimentais que podem desejar-se, poderia concluir-se que a experimentação deve ser excluída do método das ciências sociais. É certo que não é possível nas ciências sociais um recurso tão amplo à experimentação como se pratica nas ciências da natureza. No entanto, os estudiosos dos fenómenos sociais têm procurado por processos mais ou menos engenhosos contornar esta dificuldade, quer criando situações artificiais, que são verdadeiras experiências no sentido tradicional, quer valendo-se das oportunidades de observação do processo social em marcha, criadas por circunstâncias ocasionais. Em todos os casos se trata de uma «experimentação» realizada em condições menos rigorosamente controladas do que é habitual nas ciências da natureza, em que pode à vontade fazer-se variar cada um dos elementos da situação mantendo os outros fixos, mas a que tem, apesar disso, de reconhecer-se um interesse substancial. Essas experiências, conduzidas muitas vezes com grupos de estudantes universitários recrutados numa base voluntária, são realizadas, em geral, em salas especiais com paredes de vidro, que para os que estão dentro funcionam como espelhos, e equipadas com toda uma complexa aparelhagem de registo de som e de imagem. Ao grupo é posto um dado problema que se espera desencadeie um certo processo de acções e reacções entre os participantes, processo que uma equipa de observadores postada do lado de fora pode seguir e registar em todas as suas fases sem que os participantes a veja, graças ao dispositivo das paredes de vidro transparentes de um lado só, embora se saibam observados. Este tipo de experimentação tem sido igualmente muito usado nos estudos sobre o comportamento no trabalho e em especial sobre as consequências das condições que caracterizam o ambiente de trabalho sobre o rendimento dos trabalhadores. Disto foi um primeiro exemplo a famosa investigação de Elton Mayo e dos seus colaboradores sobre as condições de trabalho na fábrica de Cícero (Chicago) da Western Electric Company. Noutro tipo de estudos, o especialista das ciências sociais procura seguir acontecimentos em cuja génese ele teve de facto pouca ou nenhuma intervenção como se fossem verdadeiras experiências. É o que se passa quando um investigador resolve estudar as consequências sociais de uma nova disposição legal através de

54 um registo cuidadoso das reacções dos indivíduos e dos grupos à medida que se tornam aparentes os efeitos que pode ter na vida de cada um essa disposição; ou ainda quando se utiliza a circunstância de estar em curso uma campanha de informação sobre a protecção contra a doença por uma melhoria da higiene corporal e da da habitação, assim como do regime alimentar, para medir a eficiência das diversas técnicas de transmissão de informações e o impacte da campanha, comparando a evolução entre os grupos a ela submetidos com a evolução observada no mesmo período entre os que não ficam sujeitos a essa campanha.

4.1.4. O método comparativo
Mas mais do que a experimentação, o método comparativo tem sido considerado um instrumento essencial da análise nas ciências sociais. É através do estudo do significado das semelhanças e diferenças entre os fenómenos que sobretudo se tem progredido. Conforme observa Duverger, o método comparativo pode ser empregado de duas maneiras: – ou se estudam e comparam, segundo uma mesma técnica, fenómenos independentes embora substancialmente semelhantes; – ou se estudam diferentes facetas do mesmo fenómeno, segundo técnicas diferentes.

4.1.4.1. Classificação e comparabilidade
O primeiro caso corresponde à ideia tradicional de método comparativo, que supõe naturalmente na sua aplicação uma certa prudência, por forma a garantir que os factos ou situações que se comparam sejam efectivamente comparáveis, a fim de que as eventuais conclusões tenham algum valor científico. Duverger nota por isso que o uso do método supõe uma classificação prévia dos factos, dado que terá de fazer-se a comparação entre coisas do mesmo tipo. Como observa ainda Duverger, deve distinguir-se entre dois tipos de comparações: 1. Comparações próximas – são aquelas que procuram aperceber o sentido real da influência dos elementos de uma dada situação por comparação com outra muito parecida, notando cuidadosamente as variações que resultaram de diferenças na ordem de aparecimento, na ênfase ou nas combinações dos diversos elementos, da mesma maneira que em experiências sucessivas de laboratório se observa o impacte sobre o mesmo fenómeno de alterações no papel que têm na sua verificação os diferentes elementos que o observador pôde isolar. É aliás, neste sentido que o método comparativo é para as ciências sociais um substituto da experiência. Este tipo de estudo comparativo tem naturalmente de ser muito exigente quanto às condições de analogia a satisfazer pelas coisas que se desejam comparar. 2. Comparações afastadas – são aquelas que se fazem entre coisas cuja analogia não é à primeira vista evidente e que por isso, graças ao génio particular de um observador, abrem novos caminhos à ciência.

55 Isso é o que em ciência distingue as descobertas notáveis. Não é, no entanto, por isso mesmo, senão realizável por pessoas que já adquiriram um grande conhecimento e domínio do campo que estudam e, por aí, pouco corrente no trabalho da maioria dos estudiosos. O segundo caso de uso do método comparativo, estudo de um mesmo fenómeno segundo técnicas diferentes, é hoje cada vez mais empregado e é característico dos trabalhos de equipa. Para os grandes inquéritos é cada vez mais comum mobilizar para o estudo de um mesmo problema especialistas dos diferentes ramos das ciências sociais, cada um ocupando-se da faceta do fenómeno que corresponde às preocupações da sua especialidade, procurando-se assim, pela conjugação dos resultados obtidos a partir de diversos ângulos, chegar a uma nova visão e interpretação dos factos. São exemplos privilegiados deste tipo de trabalhos as monografias colectivas sobre certas áreas ou certas comunidades, os estudos de sociologia eleitoral, e assim por diante.

4.1.4.2. Analogias estruturais e analogias funcionais
A comparação tem de assentar na analogia entre os fenómenos, analogia que pode ser estrutural ou funcional conforme se estudam estruturas ou funções e que tem em qualquer dos casos de ter em conta se há efectivamente analogia de dimensão, de contexto cultural e de significado, pois coisas que parecem do mesmo tipo não podem legitimamente comparar-se se não houver uma certa semelhança do contexto dimensional em que se verificam, nem se se situarem em contextos culturais demasiado diferentes, nem se, embora em situações análogas de dimensão e de contexto cultural, tiverem efectivamente significações diferentes. Isto significa que não é cientificamente legítimo, por exemplo, comparar o sistema político francês com o método de escolha dos chefes e exercício da autoridade numa tribo africana ou a monarquia inglesa com a de uma tribo da Melanésia, porque tanto o contexto dimensional como o contexto cultural são muito diversos, assim como não parece apropriado comparar as rivalidades de grupos numa tribo australiana com o fenómeno da luta dos partidos e dos grupos de pressão nos países ocidentais, porque existe claramente uma diferença de significado. Reserva que, aliás, é válida tanto para as comparações no espaço como para as comparações no tempo, entre fenómenos evoluindo no quadro de épocas muito afastadas, embora dentro do mesmo país ou na vida do mesmo povo.

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4.2. Tipologia das técnicas da observação nas ciências sociais
4.2.1. A observação documental
4.2.1.1. Tipos de documentos
• Documentos escritos – arquivos públicos e documentos oficiais; – imprensa; – arquivos particulares; – documentação indirecta (anuários, dicionários, literatura de ficção). Estatísticas Outros documentos – documentação técnica; – documentação iconográfica e fotográfica; – documentação fonética.

• •

Documentos escritos Arquivos públicos e documentos oficiais – entre os documentos escritos, os arquivos públicos e os documentos oficiais são naturalmente as mais importantes fontes de informação sobre muitos assuntos. Os corpos legislativos publicam igualmente o registo dos seus debates e volumosas colecções dos documentos que lhes foram presentes. Imprensa – a imprensa periódica é um fenómeno da mais alta importância na vida social dos nossos dias e pode decerto ser abordada não apenas como fonte de informação sobre outros grupos, mas como objecto directo de estudo, tendo em vista a análise das suas tomadas de posição, maneira como são apresentados os acontecimentos, grupos em que se apoia e grupos a que principalmente se dirige. Arquivos particulares – os arquivos particulares de organizações ou indivíduos, sobretudo tratando-se de entidades com posição privilegiada em relação ao acontecimento a estudar, são igualmente fontes de informação valiosa, embora aqui o segredo seja também um obstáculo de relevo. Documentação indirecta – na verdade todos os tipos de documentos escritos, quaisquer que tenham sido os fins para que foram originalmente elaborados, podem ser úteis ao estudioso que os saiba explorar de forma apropriada. Estatísticas – as estatísticas, que existem de modo geral em grande número nos países desenvolvidos e que são um dos pontos de apoio essenciais da análise económica, podem igualmente servir ao estudo em outros domínios das ciências sociais. Deste ponto de vista são especialmente úteis os apuramentos dos censos de população, realizados na generalidade dos países de dez em dez anos. As estatísticas do registo civil, da educação, dos

57 tribunais, dos impostos e do comércio e indústria nos seus diferentes ramos, os inquéritos às condições materiais de vida em certas áreas e assim por diante, na infinidade de factos que são objecto de registo e publicação periódica de apuramentos, podem servir de apoio valioso para o estudo de muitos aspectos relevantes da vida colectiva. As estatísticas do comércio permitemnos analisar os diferentes tipos de produtos que são objecto de trocas e por aí os padrões de consumo, de onde se pode passar à análise dos estilos de vida. Os outros documentos – compreendem os diferentes objectos utilizados pelo homem, dos instrumentos manuais às edificações para habitação, cujos vestígios constituem em alguns casos o apoio principal ou mesmo único do estudioso, como acontece no que se refere à Pré-História ou às civilizações que não deixaram escrita ou cuja escrita ainda não foi decifrada, e ainda as imagens e a linguagem. Documentação técnica – podem ser analisados tendo em conta as características dos materiais em que são feitos, os fins práticos a que se destinam e o significado simbólico que têm para as pessoas que os utilizam. Documentação fonética – pode ser instrumento de estudo das línguas, mas pode também servir para análise da evolução dos grupos no decorrer das suas sessões de debate, ou para o estudo das técnicas de propaganda, e assim por diante.

4.2.1.2. Análise de documentos
4.2.1.2.1. Métodos qualitativos
4.2.1.2.1.1. Crítica interna e crítica externa

Crítica interna – visa o entendimento do sentido exacto do conteúdo do documento. Crítica externa – orienta-se para o esclarecimento do contexto em que surgiu e do impacte social que veio a ter o documento. Trata-se de estabelecer, além do sentido das ideias, a autenticidade do documento, a verdade, ou seja, a medida em que o seu conteúdo corresponde aos factos, e os condicionalismos sociais em que se apresenta. São as preocupações que correntemente orientam a análise histórica dos documentos.

4.2.1.2.2. Métodos quantitativos
4.2.1.2.2.1. Semântica quantitativa e análise de conteúdo

Semântica quantitativa – a que se recorre sobretudo para a análise literária dos textos, muito usada na reconstituição de documentos antigos de que se perderam partes, e que assenta na análise da frequência do aparecimento de certos vocábulos nos textos.

58 Análise de conteúdo – trata-se de um método concebido para fazer frente aos problemas postos pelo estudo da imprensa, dos programas da radiodifusão, dos panfletos, etc., tudo documentos produzidos diariamente em grande quantidade e cuja apreciação eficiente não permite o uso dos métodos clássicos, que exigem demorada consideração de cada documento, nem, aliás, justifica o recurso a tais métodos, pois se trata de um material produzido em massa com largas repetições. A análise de conteúdo visa justamente isolar na massa dos textos as linhas mestras e as tendências que lhes dão o seu sentido real. O método é muito usado nos Estados Unidos para o estudo das campanhas de propaganda eleitoral dos partidos políticos e para a análise da propaganda das potências estrangeiras. Tem sido particularmente usado para o estudo das tendências da política dos países comunistas, sobre os quais se dispõe de escassas informações, através do material apresentado na imprensa e nos outros órgãos de informação para uso interno e externo. A frequência com que aparecem certos temas, as referências mais ou menos numerosas a determinados problemas, a menção mais ou menos frequente das diversas personalidades têm assim sido utilizadas para chegar às tendências e correntes políticas subjacentes à acção externa e interna dos governos.

4.2.2. A observação directa extensiva
4.2.2.1. População e amostragem
O problema essencial está naturalmente em escolher as pessoas a observar por forma a assegurar que sejam tanto quanto possível representativas do conjunto. Dois métodos principais são usados nas ciências sociais para efectuar estas sondagens da população: o método das quotas e o método probabilístico. Método das quotas – consiste na determinação de quotas de pessoas a interrogar na população total na base de um modelo teoricamente constituído dessa população. A cada um dos entrevistadores ao serviço do inquérito pode ser atribuída uma quota compreendendo tantas pessoas com as características especificadas por forma a corresponder ao plano do modelo reduzido. As pessoas a interrogar poderão ser escolhidas à vontade pelo entrevistador, apenas com a reserva de respeitar as características especificadas. Método probabilístico – as pessoas que constituem a amostra são escolhidas rigorosamente ao acaso, por forma a que todos os membros da população total, ou de cada uma das categorias consideradas nesta população, tenham uma igual probabilidade de vir a ser incluídas na amostra. Casos particulares da técnica da sondagem são ainda a sondagem por fases e o master-sample.

59 Sondagem por fases – consiste em distinguir diferentes níveis de profundidade no inquérito, sempre com base em sondagens. Numa primeira fase pode assim constituir-se uma grande amostra, que é objecto de um inquérito rápido. Dentro dessa amostra pode escolher-se uma outra, que será então objecto de um inquérito mais profundo, e assim por diante. Método do master-sample – consiste na constituição permanente de uma amostra, geralmente volumosa, que se sabe representativa do conjunto da população e dentro da qual se podem seleccionar por sondagens probabilísticas amostras apropriadas para inquéritos particulares. Este sistema tem sido usado normalmente pelos serviços de recenseamento dos Estados Unidos. Os métodos de sondagem probabilística têm sido na verdade mais frequentemente escolhidos pelos serviços de estatística oficiais dos diversos países e pelos centros de estudo universitários, que tendem a pôr em dúvida o rigor dos resultados que podem ser alcançados pelo método das quotas, mais favorecido pelos institutos de opinião pública. Isto tem, por isso mesmo, sido causa de controvérsia.

4.2.2.2. Questionário
1. A elaboração de questionário. A colheita de informações segundo a técnica de observação extensiva assenta normalmente num questionário, que é apresentado a todos os componentes da amostra seleccionada pelas diversas maneiras atrás descritas. A boa elaboração do questionário, por forma a que este traduza fielmente as opiniões das pessoas interrogadas e a que as perguntas postas dêem às pessoas a oportunidade de exprimirem as atitudes e opiniões que são realmente relevantes na explicação dos seus comportamentos efectivos, é aqui preocupação dominante. Na verdade, a fidelidade – que exprime a capacidade do questionário para suscitar a expressão correcta das opiniões dos interrogados e que se manifesta na constância das respostas dadas pelas mesmas pessoas às mesmas perguntas em momentos diferentes, desde que não tenha entretanto havido mudança nas opiniões, e a validade – que traduz a capacidade das perguntas para suscitarem respostas efectivamente relevantes para o entendimento dos comportamentos, são, a par da representatividade da amostra, as condições decisivas do valor das informações colhidas por observação extensiva. No plano da elaboração do questionário são fundamentalmente relevantes: a) o tipo de perguntas a incluir; b) a ordem de apresentação das perguntas e o seu número; c) a redacção dada às perguntas. As séries de respostas têm, por vezes, sido organizadas por forma a representarem variações na intensidade de uma opinião ou atitude, pedindo-se ao interrogado que escolha a resposta que corresponde ao seu estado de espírito (exemplo: em relação a certa afirmação, qual é a sua posição pessoal: a) aprovo completamente; b) aprovo com reservas; c) é-me indiferente; d)

60 não aprovo em parte; e) não aprovo de modo nenhum; f) não tenho opinião; g) não tem resposta). O número das perguntas a incluir num questionário tem de ser naturalmente limitado pela receptividade do público a que se dirige, podendo nuns casos ser uma lista bastante longa e noutros devendo ser constituído por uma curta série de perguntas, sob pena de desencorajar as pessoas a que se pedem respostas. É costume, por isto, iniciar o questionário com algumas perguntas sobre factos que possam ser respondidos sem a pessoa se sentir demasiado comprometida e, por outro, repartir cuidadosamente as perguntas por forma a manter afastadas umas das outras as que sejam susceptíveis de contágio. Uma vez preparado um projecto inicial de questionário, é costume, a fim de reduzir as suas eventuais deficiências, submetê-lo a um ensaio em grupo reduzido para verificar a fidelidade e a validade das respostas obtidas. 2. A utilização do questionário. O questionário pode ser utilizado segundo dois métodos principais: a) apresentado directamente às pessoas, que o preenchem elas próprias; b) apresentado por um inquiridor, que retoma verbalmente as perguntas e preenche o questionário. A melhor maneira de vencer a inércia, embora seja processo mais dispendioso, é o recurso a um entrevistador, o que igualmente garante uma certa espontaneidade nas diversas respostas, uma vez que o inquirido não tem ocasião de ler o questionário por inteiro antes de responder. Quando o questionário é apresentado por um entrevistador, este lê as perguntas e explica-as aos inquiridos, anotando ele próprio as respostas. Também uma das garantias da sinceridade das respostas é o segredo, representado essencialmente pelo anonimato das respostas, o que a presença do entrevistador parece comprometer aos olhos do inquirido. 3. A apresentação dos resultados. As centenas ou milhares de questionários individuais acumulados no desenrolar deste processo são depois submetidos a um tratamento mecanográfico apropriado, que não deixa igualmente de rodear-se de algum perigo de deformação do sentido das respostas. Um problema de alguma relevância é posto pelas operações de codificação necessárias para a passagem dos resultados ao cartão mecanográfico. A codificação implica, de facto, a classificação de respostas por vezes muito diversas em algumas categorias restritas, e é um trabalho que, embora, em geral, planeado juntamente com a elaboração do questionário, supõe muitas vezes uma certa incidência da interpretação pessoal do codificador. Uma vez passados aos cartões, os dados podem ser objecto de diversos apuramentos que poderão servir de base a uma análise mais ou menos imaginativa.

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4.2.3. A observação directa intensiva
4.2.3.1. Entrevista
Uma das técnicas habituais da observação directa intensiva é a entrevista, que só é, na verdade, diferente do questionário usado em observação extensiva pela mais demorada e metódica atenção que se dá ao entrevistado. As entrevistas podem visar a recolha de informações sobre dados de facto, que só dificilmente serão conhecidos de outro modo, ou podem, o que é mais comum, procurar a recolha de indicações sobre opiniões, atitudes e comportamentos prováveis. Podem, de outro ponto de vista, ter em mira o contacto com personalidades eminentes ou dirigentes, mas é mais comum que procurem simplesmente conhecer as opiniões de indivíduos vulgares, que sejam tanto quanto possível representativos da média do grupo a que pertençam. A entrevista é tão cuidadosamente preparada como um questionário e segue, em regra, um plano de perguntas previamente estabelecido, embora aconteça que o entrevistado não tenha disso conhecimento, o que se verifica geralmente quando o entrevistador memoriza as perguntas a fazer. As perguntas podem ser ordenadas num conjunto muito estruturado, prevendo-se todas as respostas possíveis, ou podem ser perguntas com respostas abertas. Entrevista dirigida – o plano de perguntas é respeitado com rigidez, pondo-se as perguntas na ordem previamente estabelecida; Entrevista livre – deixa-se evoluir a conversação com o entrevistado, pondo as perguntas desejadas pela ordem que as circunstâncias permitam. A entrevista é um trabalho delicado, na medida em que precisa de ser conduzida por forma a permitir a expressão das ideias e opiniões que o entrevistado efectivamente tem sobre as questões postas, e requer por isso o emprego de pessoal cuidadosamente treinado. Processo do panel – foi usado por Lazarsfeld para medir a evolução das atitudes e opiniões políticas no decurso de uma campanha eleitoral, consiste na entrevista repetida, a intervalos mais ou menos espaçados, das mesmas pessoas (panel), por forma a documentar as eventuais variações verificadas. Processo das focused interviews – foram muito usadas por Merton para medir o impacte de certas experiências sobre os indivíduos. Em geral trata-se de analisar os efeitos de um filme ou de um programa de rádio ou de uma qualquer exposição sobre um certo assunto, e assim por diante, entrevistando-se os indivíduos logo após a experiência. Processo da entrevista clínica – foi usada por Adorno e pelos seus colaboradores em estudos sobre a «personalidade autoritária». O método consiste no planeamento de uma entrevista visando o esclarecimento dos motivos básicos de certas atitudes e opiniões por todos os caminhos possíveis, abordando sucessivamente, com flexibilidade, os diferentes aspectos relevantes da personalidade das pessoas.

62

4.2.3.2. Medida de atitudes
A medida da intensidade das opiniões e atitudes é um dos problemas mais delicados que têm de enfrentar as ciências sociais e por isso, nesse domínio, se têm acumulado os métodos, por vezes muito engenhosos, embora sempre susceptíveis de algumas reservas quanto à objectividade dos resultados a que conduzem. Processo dos testes – Um dos processos mais vulgarizados é o dos testes, que não são apenas usados, como é sabido, para medir atitudes e opiniões, ou as características da personalidade que com elas em certa medida se ligam, mas também para avaliar os conhecimentos e aptidões das pessoas. São hoje muito correntemente empregados na selecção do pessoal nas empresas e mesmo no apuramento dos quadros de alguns serviços públicos. Em alguns exércitos são elemento habitual dos critérios de selecção dos homens para os diferentes postos. Um teste do mesmo tipo igualmente muito usado é o Thematic Apperception Test (T.A.T.) de Murray, que consiste numa série de gravuras ambíguas que os examinandos são convidados a interpretar. O método tem sido usado para o estudo dos preconceitos étnicos e de certas opiniões políticas. O problema principal posto por todos estes diferentes testes é o da interpretação, em que se contém, na verdade, sempre muito de subjectivo e que por isso tem suscitado controvérsias que tendem a moderar a confiança que os estudiosos depositam nos testes, e assim aconselham prudência no seu uso prático fora do domínio da investigação. Processo das escalas – Um outro processo ligado com este dos testes para a medida da intensidade das opiniões e atitudes é o das «escalas». Numa forma rudimentar pode tratar-se de situar o sujeito numa escala graduada exprimindo diferentes intensidades de uma atitude ou opinião, podendo pedir-se ao próprio que marque na escala a posição que lhe parece ser a sua, o que tem obviamente muito de subjectivo, ou solicitar a um avaliador independente que proceda a essa classificação, o que não conduz necessariamente a resultados mais objectivos. O problema principal da construção destas escalas é, todavia, definir com rigor os diferentes graus de intensidade e dispô-los a intervalos iguais. E é substancialmente à volta da solução desse problema que têm nascido os diferentes métodos propostos para a construção das «escalas de opiniões e atitudes». Escala de distância social – A primeira das escalas empregadas com alguma extensão em sociologia e psicologia social parece ter sido a «escala de distância social» preparada em 1925 por Bogardus. Este, procurando medir a intensidade dos preconceitos nacionais e raciais, solicitou a um certo número de pessoas que declarassem se aceitariam os membros dos grupos nacionais ou étnicos cujos nomes se indicavam numa lista. Escala de Thurstone – Um outro método de construção de escalas, especialmente orientado para a solução do problema da igualdade dos intervalos entre as diversas posições, foi proposto a partir de 1929-1931 por Thurstone. Na escala de Thurstone uma série de afirmações a que o sujeito pode aderir, ou que pode repudiar, estão ordenadas por forma que a adesão à primeira significa a posição mais favorável e a adesão à última a posição mais

63 desfavorável em relação à opinião em estudo. A escala é construída na base da selecção e classificação, por um grupo numeroso de pessoas qualificadas, de uma grande massa de afirmações simples sobre a opinião cuja intensidade a escala se destina a medir. As várias afirmações são repartidas por cada um dos técnicos, por um certo número de grupos consoante o grau decrescente de adesão à opinião a estudar. As que aparecerem repartidas de forma incoerente são progressivamente eliminadas, assim como as que se prestem à confusão. Misturadas depois as afirmações numa ordem arbitrária, podem ser submetidas ao paciente, cuja posição global vem a ser determinada pelo apuramento das graduações correspondentes às reacções de adesão ou repúdio dado às várias afirmações. Escalas do tipo da de Thurstone têm sido muito usadas nos Estados Unidos para estudo do racismo, do nacionalismo, da atitude perante o problema da guerra, etc. A sua construção é, todavia, muito complicada e por isso outros métodos têm sido propostos para a preparação de escalas do mesmo tipo por processos expeditos. Escala de Lickert – A cada apreciação é atribuída uma nota e para o conjunto das apreciações de cada pessoa uma nota global. Na base da correlação apurada entre esta nota global e a nota atribuída à apreciação pelo sujeito de cada uma das proposições é feita a selecção das proposições a incluir finalmente na escala. Entende-se que as proposições cuja nota individual tenha correlação elevada com a nota global são relevantes para a medida da posição sobre a opinião ou a atitude em causa. As proposições que não estejam nestas condições são consideradas sem ligação com a opinião ou atitude e não serão incluídas na escala. A escala de Lickert, apesar da sua maior facilidade de elaboração, é menos independente do grupo em relação ao qual foi construída do que a de Thurstone, e por aí de menor valor para uma apreciação objectiva da repartição das opiniões e atitudes. Pode, com efeito, comprovar-se estatisticamente uma considerável independência e objectividade na maneira como foi feita a classificação das diversas proposições utilizadas para a elaboração da escala de Thurstone, o que dá a esta escala um valor geral que não pode ser reivindicado pelas escalas do tipo da de Lickert. Escala hierárquica – Consiste numa série de proposições ordenadas por tal forma que a resposta afirmativa à primeira implica resposta igualmente afirmativa a todas as que se lhe seguem (no exemplo de perguntas hierarquizadas dado por Duverger: 1.º É licenciado?; 2.º Tem um curso secundário?; 3.º Tem a instrução primária?; 4.º Foi à escola?; 5.º Sabe ler?; a resposta sim a uma das perguntas implica resposta igual a todas as que se lhe seguem). Depois de se ter preparado para cada questão uma escala hierarquizada deste tipo, é possível definir com rigor a posição de cada pessoa.

4.2.3.3. Observação participante
Uma terceira forma da observação intensiva é praticada pelos que procuram viver no todo ou em parte a experiência dos grupos que

64 estudam, por forma a chegar a uma visão interna dessa vida de grupo do mesmo ponto de vista dos que por ela normalmente passam. Isto é o que se verifica frequentemente com os estudos dos antropólogos. O método da observação participante tem sido, na verdade, o método mais corrente dos estudos de antropologia cultural. Entre nós são conhecidas as valiosas investigações realizadas pelo Prof. Jorge Dias, seguindo largamente esse método, tanto no que refere à Metrópole (Vilarinho da Furna e Rio de Onor) como ao Ultramar (os Macondes de Moçambique).

FIM

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