BRILHANTE DECISÃO EM AÇÃO REVISIONAL

PROLATADA PELO JUIZ GERIVALDO NEIVA.

PODER JUDICIÁRIO
Comarca de Conceição do Coité - Ba.
Juizado Especial de Defesa do Consumidor

Processo Número: 01397/06
Autor: S A C
Réu: B I S A
Revisão Contratual. Possibilidade.
Contrato de financiamento de veículo com
cláusula de alienação fiduciária.
Vulnerabilidade científica e fática do
consumidor em face do contato de adesão.
Onerosidade excessiva. Função social e
boa-fé objetiva. Redução dos juros
compensatórios a 12% ao ano. Re-
equilíbrio contratual.
Dispensado o Relatório. (art. 38, Lei nº 9.099/95).
Trata-se de Ação Revisional de Contrato Bancário c/c Anulatória de
Cláusulas c/c Repetição de Indébito em que alega o autor a cobrança de
juros e taxas muito superiores ao que lhe fora informado, causando-lhe
sérios prejuízos.
Juntou os documentos de fls. 19 a 24.
O despacho de fls. 26 concedeu a medida liminar em parte e deferiu o
pedido de inversão do ônus da prova, determinando que o acionado
apresentasse o instrumento do contrato objeto da discussão.
Não houve conciliação.
O acionado ofereceu resposta escrita e, preliminarmente, alegou a inépcia
da inicial por motivo de impossibilidade jurídica do pedido. No mérito,
defendeu a legalidade das cláusulas questionadas, mas não apresentou
cópia do contrato celebrado com o autor.
Nova manifestação do autor às fls. 106 alegando a intempestividade da
resposta e requerendo a decretação de revelia do acionado, bem como o
descumprimento da inversão do ônus da prova.
A petição inicial não é inepta, pois preenche os requisitos legais e também
não é o caso de impossibilidade jurídica do pedido, conforme será
demonstrado na apreciação do mérito.
Em face do princípio da informalidade, recebo a contestação e deixo de
aplicar a pena de revelia.
Passemos, portanto, a decidir.
I – Do contrato clássico ao contemporâneo
Em excelente texto sobre a reconstrução do conceito de contrato, Roxana
Cardoso Brasileiro Borges, professora adjunta de Direito Civil da UFBA e
UNEB, professora da UCSal, Doutora em Direito das Relação Sócias pela
PUC/SP e Mestre em Instituições Jurídico-Políticas pela UFSC, fez síntese
comparativa e extremamente objetiva sobre o conceito clássico de contrato
e o conceito contemporâneo.[1]
No antigo conceito de contrato, enquanto acordo de vontade entre
interesses opostos, em antagonismo, imperavam os princípios da
intangibilidade e do “pacta sunt servanda” e o papel do Estado era
simplesmente garantir seu cumprimento, pois que necessariamente justo.
Contemporaneamente, no entanto, no novo conceito, prevalece a
noção de contrato como vínculo de cooperação e a percepção da
necessidade de atuação cooperativa entre os pólos da relação contratual.
Pois bem, desse novo conceito algumas conseqüências jurídicas
decorrem de imediato: a proteção da confiança no ambiente contratual, a
exigência da boa-fé e a observância da função social do contrato.
Nesse novo conceito, o papel do estado será sempre no sentido de
superar, também, a noção de igualdade formal pela igualdade substancial,
permitindo aos juízes interferir no contrato e relativizar o “pacta sunt
servanda,” aplicando os princípios consagrados na Constituição Federal e
no Código Civil.
Completamente fora de moda, conseqüentemente, o discurso de que
a intervenção judicial nos contratos é fator de insegurança jurídica e de um
suposto “custo Brasil”, como alardeiam os porta-vozes do empresariado
nacional e estrangeiro, pois sobre a suposta segurança jurídica deve
prevalecer, sobretudo, a justiça contratual.
A revisão contratual, portanto, não tem o objetivo de ultrapassar a
vontade das partes e gerar insegurança ao vínculo contratual, mas re-
equilibrar o contrato com a finalidade de preservá-lo, com a possibilidade
de satisfação dos interesses legítimos em jogo, buscando, por assim dizer, o
cumprimento re-equilibrado.
II – Vulnerabilidade do Consumidor
O artigo 4º, I, do Código de Defesa do Consumidor, que trata da Política
Nacional de Relações de Consumo, reconhece, expressamente, a condição
de vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo. Segundo a
doutrina[2], esta vulnerabilidade pode ser classificada da seguinte forma:
a) Técnica – quando o consumidor não possui conhecimentos
específicos sobre o objeto que está adquirindo ou sobre o serviço que
lhe está sendo prestado;
b) Científica – a falta de conhecimentos jurídicos específicos,
contabilidade ou economia;
c) Fática ou sócio-econômica – quando o prestador do bem ou
serviço impõe sua superioridade a todos que com ele contrata,
fazendo valer sua posição de monopólio fático ou jurídico, por seu
grande poder econômico ou em razão da essencialidade do serviço.
Além disso, sabe-se que atualmente a maioria dos contratos de
consumo é de “adesão”,onde o banco ou financeira já possui um contrato
padrão previamente elaborado, cabendo ao consumidor apenas aceitá-lo em
bloco sem discussão, seja em face da sua vulnerabilidade técnica, seja em
face da falta de alternativa.
Por fim, o princípio da vulnerabilidade do consumidor não pode ser
visto como mera intenção, ou norma programática sem eficácia. Ao
contrário, “revela-se como princípio justificador da própria existência de
uma lei protetiva destinada a efetivar, também no plano
infraconstitucional, os princípios e valores constitucionais, em especial o
princípio da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III), da isonomia
substancial (art. 5º, caput) e da defesa do consumidor (art. 5º, XXXII).”[3]
III - Onerosidade Excessiva
O Código de Defesa do Consumidor, ao definir os direitos básicos do
consumidor, artigo 6º, V, permite a modificação de cláusula contratual que
estabelece prestação desproporcional ou sua revisão em razão de fato
superveniente que a torne excessivamente onerosa.
A interpretação da norma não remete para o antigo conceito da teoria da
imprevisão no sentido da exigência da previsibilidade inequívoca do
acontecimento, ou seja, basta agora a ocorrência, mesmo na origem, da
lesão ou onerosidade excessiva.
“O Código de Defesa do Consumidor assumiu
uma postura mais objetiva no que diz respeito à
revisão contratual por circunstâncias
supervenientes. Basta uma breve análise do artigo
que postula tal possibilidade, para perceber que
este não menciona qualquer requisito além da
excessiva onerosidade presente: não se fala em
previsibilidade ou imprevisibilidade, não há
questionamentos acerca das intenções subjetivas
das partes no momento da contratação.”[4]
Vê-se, portanto, que a onerosidade excessiva pode ser originária, ou seja,
desde a formação do contrato, pois a condição de vulnerabilidade do
consumidor não lhe permite a compreensão da vantagem manifestamente
excessiva em favor do fornecedor do crédito.
Este princípio tem por fundamento, principalmente, a igualdade substancial
nas relações contratuais e, por conseqüência, o equilíbrio entre as posições
econômicas dos contratantes. Ao contrário do equilíbrio meramente formal,
busca-se agora que as prestações em favor de um contratante não lhe
acarretem um lucro exagerado em detrimento do empobrecimento do outro
contratante.
Assim, “em face da disparidade do poder negocial entre os contratantes, a
disciplina contratual procura criar mecanismos de proteção da parte mais
fraca, como é o caso do balanceamento das prestações.”[5]
IV - Função Social do Contrato
A nova compreensão do Direito Privado sobrepõe a perspectiva funcional
dos institutos jurídicos à análise meramente conceitual e estrutural. Não se
indaga mais, simplesmente, à cerca dos elementos estruturais com
compõem o conceito do contrato, por exemplo, mas se a sua finalidade está
sendo cumprida, pois “na perspectiva funcional, os institutos jurídicos são
sempre analisados como instrumentos para a consecução de finalidades
consideradas úteis e justas.”[6]
As transformações sofridas pelo Direito Privado em face da aplicação dos
princípios constitucionais, de caráter normativo[7], bem como dos
princípios estabelecidos no Novo Código Civil, principalmente a “função
social do contrato” prevista no artigo 421, do CC, permitem ao Judiciário a
intervenção no contrato para restabelecimento do seu equilíbrio.
O antigo princípio do “pacta sunt servanda”, portanto, precisa sofrer as
adaptações da principiologia axiológica da CF de 1988 e do CC de 2002,
ou seja, os contratos devem visar uma função social e a satisfação dos
interesses das partes contratantes, em cooperação.
Assim, quando o contrato satisfaz apenas um lado, prejudicando o outro, o
pacto não cumpre sua função social, devendo o Judiciário promover o re-
equilíbrio contratual através da revisão das cláusulas prejudiciais a uma das
partes.
Na teoria contemporânea do Direito das Obrigações, impõe-se uma
mudança radical na leitura da disciplina das obrigações, que não pode mais
ser considerada apenas como garantia do credor: “a obrigação não se
identifica no direito ou nos direitos do credor; ela configura-se cada vez
mais como uma relação de cooperação.... A cooperação, e um determinado
modo de ser, substitui a subordinação e o credor se torna titular de
obrigações genéricas ou específicas de cooperação ao adimplemento do
devedor.” [8]
Mais que isso, o contato não pode mais ser concebido como uma relação
jurídica isolada da comunidade social e que só interessa às partes
contratantes, como se impermeável às condições sociais que o cerca e que
lhe afetam.
III – A Boa-fé objetiva
A boa-fé, entendida como elemento meramente subjetivo, situação ou fato
psicológico, deu lugar ao princípio da boa-fé objetiva.
Agora, “o princípio da boa-fé impõe um padrão de conduta a ambos os
contratantes, no sentido da recíproca cooperação, com consideração dos
interesses um do outro, em vista de se alcançar o efeito prático que
justifica a existência jurídica do contrato celebrado.”[9]
Neste sentido, o artigo 51, IV, do CDC, considera nulas as cláusulas
contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que sejam
incompatíveis com a boa-fé.
Ainda em termos de legislação, o artigo 422, do Código Civil
Brasileiro, estabelece que os contraentes são obrigados a guardar os
princípios da probidade e da boa-fé.
Em conseqüência, distanciando-se da subjetividade do antigo
conceito, a boa-fé objetiva exige um dever de conduta, de ética, lealdade e
de colaboração na execução do contrato.
Não se pode dizer, portanto, que está presente a boa-fé objetiva em
um contrato que permite vantagens e lucros exorbitantes a um dos
contratantes, resultantes de estipulação de taxas de juros em muito
superiores ao razoável de uma economia estabilizada e com baixos índices
de inflação.
Por fim, o Juiz não pode se esquivar do seu papel de criação do Direito,
pois “a boa fé opera uma delegação ao juiz para, à luz das circunstâncias
concretas que qualificam a relação intersubjetiva sub judice, verificar a
correspondência do regulamento contratual, expressão da autonomia
privada, aos princípios aos quais esta última deve ser funcionalizada. Tal
delegação, prevista legislativamente, faz com que determinadas
concepções acerca do papel do juiz ainda hoje sustentadas se tornem
anacronismos com um sentido claramente retrógrado.”[10]
IV – Os Juros
A Emenda Constitucional nº 40, de fato, revogou o § 3º, artigo 192,
da Constituição Federal, que limitava a taxa de juros a 12% ao ano. Aliás,
antes mesmo da revogação através de Emenda Constitucional, o STF já
havia decidido pela necessidade de regulamentação do artigo. Dessa forma,
pode se dizer que o dito § 3º “foi sem nunca ter sido.”
Pois bem, o Código de 1916 estabelecia que a taxa de juros
moratórios seria de 6% ao ano quando não convencionada de outra forma
pelos contratantes. (cf art. 1.062, do CC de 1916).
Já o novo Código Civil, em seu artigo 406, estabelece que se tais
juros serão fixados segundo a taxa que estiver em vigor para a mora do
pagamento de impostos devidos à Fazenda Nacional.
A discussão pretoriana e doutrinária atual diverge em relação à
aplicação da SELIC ou do Código Tributário Nacional, artigo 161, § 1º:
.
“Se a Lei não dispuser de modo diverso, os juros
de mora são calculados à taxa de 1% (um por
cento) ao mês.”
O Min. DOMINGOS FRANCIULLI NETTO, do Superior Tribunal
de Justiça, no julgamento do REsp 215.881-PR, assim se posicionou:
“A Taxa Selic para ser aplicada tanto para fins
tributários como para fins de direito privado,
deveria ter sido criada por lei, entendendo-se
como tal os critérios para a sua exteriorização.
Atenta contra o comezinho princípio da
segurança jurídica a realização de um negócio
jurídico em que o devedor não fica sabendo na
data da avença quanto vai pagar a título de juros,
pois, não terá bola de cristal para saber o que se
passará no mercado de capitais, em períodos
subseqüentes ao da realização do negócio, se
repisado o aspecto de que os juros são entidades
aditivas ao principal e não mera cláusula de
readaptação do valor da moeda”.
Arrematou seu voto o ilustre Ministro defendendo a aplicação do CTN:
“a mora referida na segunda parte do art. 406 do
CC/2002 somente pode ser composta com os juros
previstos no art. 161, §1º, do Código Tributário
Nacional (Lei n. 5.172, de 25/10/66), isto é, 1%
ao mês ou 12% ao ano”.
Na mesma linha, o Enunciado nº 20, aprovado na Jornada de Direito
Civil promovida pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça
Federal, sob a coordenação científica do então Ministro Ruy Rosado, do
STJ, nos seguintes termos:
20 - Art. 406: a taxa de juros moratórios a que se refere o
art. 406 é a do art. 161, § 1º, do Código Tributário
Nacional, ou seja, 1% (um por cento) ao mês.
Por fim, os juros legais e moratórios sobre obrigações inadimplidas depois da vigência
do Código Civil de 2002, segundo entendimento deste juízo, é a de 1% ao mês,
excluída a aplicação da taxa SELIC, mesmo que momentaneamente estipulada abaixo
desse patamar.
Com relação aos juros convencionais, o limite tem sido regulado pelo dos juros legais,
uma vez que o Dec. n. 22.626, de 7 de abril de 1933, ainda em vigor, estabelece:
"Art. 1º. É vedado, e será punido nos termos desta lei,
estipular em quaisquer contratos taxas de juros
superiores ao dobro da taxa legal (Código Civil, art. n.
1.062)."
De outro lado, permitir taxas de juros no patamar do dobro da taxa legal, considerando
a estabilidade da economia brasileira e as baixas taxas de inflação, estaríamos
permitindo que o capital se transfira da esfera produtiva para a especulativa, tornando
mais interessante auferir juros do capital do que investir e produzir, contrariando a
função social do instituto de mútuo bancário, bem como indo de encontro aos objetivos
constitucionais de "garantir o desenvolvimento nacional"(art. 3°, II, CF) e "erradicar a
pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais" (art. 3°, III,
CF).
Esta prática tem permitido, por fim, que os bancos apresentem lucros cada vez
maiores, disputando recordes de lucratividade e subvertendo a lógica de uma
economia que urge desenvolver-se e permitir que a República alcance seu
objetivo: “construir uma sociedade livre, justa e solidária,” conforme previsto no artigo
3º, I, da Constituição Federal.
Depreende-se, portanto, que os juros convencionais não podem superar, no
caso de uma economia estabilizada e baixos índices de inflação, sob pena de
onerosidade excessiva e desequilíbrio contratual, também o patamar de 12% ao ano,
sob pena de abusividade por parte do agente financeiro.
V – A Jurisprudência
O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, apreciando os pontos em discussão na
presente lide, inclusive com relação à capitalização de juros e comissão de
permanência, decidiu recentemente:
APELAÇÃO CÍVEL E RECURSO ADESIVO. AÇÃO REVISIONAL DE
CONTRATO DE FINANCIAMENTO GARANTIDO COM CLÁUSULA DE
ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA. INCIDÊNCIA DO CÓDIGO DE DEFESA DO
CONSUMIDOR. Sendo o crédito fornecido ao consumidor pessoa física
para a sua utilização na aquisição de bens no mercado como
destinatário final, o dinheiro funciona como produto, implicando o
reconhecimento da instituição bancária/financeira como fornecedora
para fins de aplicação do CDC, nos termos do art. 3º, parágrafo 2º, da
Lei nº 8.078/90. Entendimento referendado pela Súmula 297 do STJ, de
12 de maio de 2004. DIREITO DO CONSUMIDOR ÀREVISÃO
CONTRATUAL. O art. 6º, inciso V, da Lei nº 8.078/90 consagrou de
forma pioneira o princípio da função social dos contratos, relativizando o
rigor do “Pacta Sunt Servanda” e permitindo ao consumidor a revisão do
contrato em duas hipóteses: por abuso contemporâneo à contratação
ou por onerosidade excessiva derivada de fato superveniente (Teoria da
Imprevisão). Hipótese dos autos em que o desequilíbrio contratual já
existia à época da contratação uma vez que o fornecedor inseriu
unilateralmente nas cláusulas gerais do contrato de adesão obrigações
claramente excessivas, a serem suportadas exclusivamente pelo
consumidor. TAXA DE J UROS REMUNERATÓRIOS. Ausente
qualquer justificativa por parte do fornecedor para a imposição ao
consumidor de taxa de juros excessiva como obrigação acessória
em contrato de consumo, o restabelecimento do equilíbrio das
obrigações exige a redução da taxa de juros remuneratórios fixada
em contrato de adesão. J uros reduzidos para 12% (doze por cento)
ao ano, com fundamento exclusivamente no disposto no art. 52,
inciso II c/c os arts. 39, inciso V e 51, inciso IV, todos da Lei nº
8.078/90. Desnecessário examinar argumentos constitucionais sobre o
tema. CAPITALIZAÇÃO DE JUROS. No caso concreto trata-se de
contrato de financiamento firmado já na vigência do Novo Código Civil.
Assim, havendo autorização expressa em lei, a incidência da
capitalização dos juros remuneratórios contratados não vai afastada,
sendo, entretanto, permitida apenas em periodicidade anual.
COMISSÃO DE PERMANÊNCIA. Obrigação acessória que vai
afastada, na esteira de jurisprudência consolidada. A correção
monetária é suficiente, e mais confiável, para servir como fator de
recomposição da perda do valor real da moeda, corroída pela inflação.
ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA. Fixado o IGP-M/FGV como índice de
correção monetária, eis que a jurisprudência indica ser o que melhor
reflete a real perda inflacionária. JUROS MORATÓRIOS. Mantidos em
1% (um por cento) ao mês. MULTA MORATÓRIA. Mantida em 2% (dois
por cento), porém, sobre o valor da parcela em atraso, nos termos do
art. 52, parágrafo 1º, da Lei nº 8.078/90. COBRANÇA DE TARIFA E/OU
TAXA NA CONCESSÃO DO FINANCIAMENTO. ABUSIVIDADE.
Encargo contratual abusivo, porque evidencia vantagem exagerada da
instituição financeira, visando acobertar as despesas de financiamento
inerentes à operação de outorga de crédito. Inteligência do art. 51, IV do
CDC. IOF. ABUSIVIDADE QUANTO À FORMA DE COBRANÇA. A
cobrança do tributo diluído nas prestações do financiamento se afigura
como condição iníqua e desvantajosa ao consumidor (CDC, art. 51, IV).
DIREITO À COMPENSAÇÃO DE CRÉDITOS E À REPETIÇÃO DE
INDÉBITO. Sendo apurado a existência de saldo devedor, devem ser
compensados os pagamentos a maior feitos no curso da
contratualidade. Caso, porém, se verifique que o débito já está quitado,
devem ser devolvidos os valores eventualmente pagos a maior, na
forma simples, corrigidos pelo IGP-M desde o desembolso e com juros
legais desde a citação. APELO DO BANCO PROVIDO EM PARTE E
RECURSO ADESIVO DO AUTOR PROVIDO. (Apelação Cível Nº
70020790275, Décima Terceira Câmara Cível, Tribunal de Justiça do
RS, Relator: Angela Terezinha de Oliveira Brito, Julgado
em 29/08/2007)
Entre nós, a 4ª Turma Recursal dos Juizados Especiais decidiu pela
Competência dos Juizados Especiais e pela aplicação da taxa de juros em 12% ao
ano.
Contrato de financiamento de veículo. Competência dos
juizados especiais nas ações que discutem ilegalidade de
juros. Contrato de adesão. Consumidor envolvido em juros e
acréscimos exorbitantes. Princípio da boa fé objetiva.
Impossibilidade de cobrança. Manifestação de cláusula
contratual exagerada. Ofensa aos art. 51, IV, do CDC.
Aplicação do art. 406 do CC c/c art. 161, § 1º do CTN. Juros
limitados a taxa de 12% ao ano. Capitalização de juros
Vedada pelo ordenamento jurídico (Súmula 121 do STF).
Recurso reconhecido e parcialmente provido. Sentença
modificada.
(4ª Turma Recursal dos Juizados Especiais. Processo nº:
JPCDT-TAT-00339/2004. Recorrente: José Anselmo da
Cunha. Recorrido: Banco ABN Amro Real S/A.
Relatora: Juíza Dinalva Gomes Laranjeira Pimentel)
Mais recentemente ainda, a mesma 4ª Turma ratificou o ampliou o
entendimento:
54858-8/2005-1 CV(10-5-5) Recorrente: Dilson Rocha dos
Santos Advogados(as): Fabiano Samartin Fernandes OAB/BA
21439 Recorrido: Banco Bradesco S/A (Setor Jurídico)
Advogados(as): Jamile Sandes Pessoa da Silva OAB/BA
17567 Juiz(a) Relator(a): Dinalva Gomes Laranjeira Pimentel
Ementa: RECURSO INOMINADO. CONTRATO DE CRÉDITO.
PRINCÍPIO DA BOA FÉ OBJETIVA. IMPOSSIBILIDADE DE
COBRANÇA DE JUROS ILIMITADOS e ALTERADOS
UNILATERALMENTE. MANIFESTAÇÃO DE CLAUSULA
CONTRATUAL EXAGERADA. OFENSA AO ART. 51, IV DO CDC.
JUROS LIMITADOS A TAXA DE 12% AO ANO. CAPITALIZAÇÃO DE
JUROS VEDADA PELO ORDENAMENTO JURÍDICO. CABÍVEL
REPETIÇÃO DO INDÉBITO DOS VALORES PAGOS A MAIOR.
RECURSO CONHECIDO e PROVIDO.
Decisão: Decidiu, à unanimidade de votos, DAR PROVIMENTO AO
RECURSO, reformando a sentença a quo para proceder à revisão dos
contratos celebrados entre as partes, em face da abusividade da
cláusula contratual, determinando que a Recorrida aplique sobre a
dívida do Recorrente taxa de juros no percentual de 12% (doze por
cento) ao ano e de multa de mora no limite de 2% (dois por cento),
dando-lhe, se for o caso, quitação do débito com devolução em dobro
de eventual excesso cobrado corrigido a partir da citação válida. Custas
processuais e honorários sucumbenciais pelo recorrido, estes arbitrados
em 15%, sobre o valor total da condenação, a teor do que dispõe o art.
55, da Lei 9099/95.
Acompanhando a decisão, a 5ª Turma Recursal referendou:
J DCSE-TAM-00411/04-1 CV(2-4-3) Recorrente: Banco
Bradesco S.A Advogados(as): Marcus Leonis Lavigne
OAB/BA 10943 Recorrido: Helene de Araujo Santos
Advogados(as): Israel Cordeiro Neto OAB/BA 6924 Juiz(a)
Relator(a): João Lopes da Cruz
Ementa: REVISÃO DE CLÁUSULAS CONTRATUAIS QUE ESTIPULAM
OS ÍNDICES DE JUROS, MULTAS e ENCARGOS ACIMA DO
PATAMAR LEGAL. OBRIGATORIEDADE DO BANCO ACIONADO EM
APRESENTAR PLANILHA DETALHADA, REFAZENDO OS
CÁLCULOS PARA INCIDIR JUROS DE 1% AO MÊS, MULTA DE 2%,
CORREÇÃO MONETÁRIA PELO INPC e SEM A INCIDÊNCIA DE
COMISSÃO DE PERMANÊNCIA. VALORES PORVENTURA
REMANESCENTES DEVERÃO SER RESTITUIDOS À PARTE
AUTORA, DE FORMA SIMPLES. ART. 515, § 3º, DO CPC.
JULGAMENTO DA LIDE, MATÉRIA EXCLUSIVAMENTE DE DIREITO.
PRELIMINARES REJEITADAS. COMPETÊNCIA DOS JUIZADOS
ESPECIAIS AO JULGAMENTO DA MATÉRIA. RECURSO PROVIDO
PARCIALMENTE. SENTENÇA REFORMADA PARA CONDENAR A
ACIONADA A APRESENTAR PLANILHA DETALHADA, REFAZENDO
OS CÁLCULOS PARA INCIDIR JUROS DE 1% AO MÊS, MULTA DE
2%, CORREÇÃO MONETÁRIA PELO INPC e SEM A INCIDÊNCIA DE
COMISSÃO DE PERMANÊNCIA. OS VALORES REMANESCENTES
DEVERÃO SER RESTITUIDOS À PARTE AUTORA, DE FORMA
SIMPLES.
Decisão: Decidiu, à unanimidade de votos, DAR PROVIMENTO
PARCIAL AO RECURSO, reformando a sentença para condenar a
acionada a apresentar planilha detalhada, refazendo os cálculos para
incidir juros de 1% ao mês, multa de 2%, correção monetária pelo inpc e
sem a incidência de comissão de permanência, mantendo a devolução
de valores remanescentes à parte autora, de forma simples. Custas
processuais pela acionada. Sem honorários advocatícios.
VI - O Caso e o Julgamento
Tem-se nos autos que o autor, de fato, celebrou contrato de financiamento no valor de
R$ 9.000,00 (nove mil reais) para pagamento em 48 parcelas de R$ 381,25 (trezentos
e oitenta e um reais, vinte e cinco centavos), totalizando R$ 18.300,00 (dezoito mil e
trezentos reais), ou seja, mais que o dobro do valor financiado, demonstrado, de logo,
visível vantagem financeira para o acionado.
Somente a vulnerabilidade do consumidor/autor, tanto científica quanto fática em face
do contrato de adesão, não lhe permitiu a compreensão da vantagem manifestamente
excessiva em favor do fornecedor do crédito.
Acrescente-se, além disso, que o acionado sequer apresentou aos autos o
instrumento do contrato para análise de suas cláusulas, descumprindo a determinação
de inversão do ônus da prova.
Reconheço, portanto, que o contrato celebrado entre as partes não atende
mais as exigências do contrato contemporâneo e que fere os princípios constitucionais
e contratuais acima discutidos, devendo ser revisto e atualizado.
Do exposto, por tudo o mais que dos autos consta, JULGO
PROCEDENTE a Ação para determinar a revisão do contrato celebrado
entre as partes para estabelecer a taxa de juros convencionais, bem como
moratórios, em 1% ao mês, excluindo-se também os valores referentes à
capitalização mensal e comissão de permanência e, por fim, adotar-se como
valores das prestações mensais aqueles indicados na planilha de fls. 22 e
23.
Da mesma forma, JULGO PROCEDENTE o pedido de Repetição do
Indébito no valor de R$ 619,96 (seiscentos e dezenove reais e noventa e
seis centavos), cujo valor deverá deduzido das parcelas vincendas.
Com efeito, segundo o disposto no artigo 884, do Código Civil, sem
correspondência em relação ao Código de 1916, “aquele que, sem justa
causa, se enriquecer à custa de outrem, será obrigado a restituir o
indevidamente auferido, feita a atualização dos valores monetários.”
Intime-se o acionado para promover a alteração do contrato em seus
sistemas, bem como confeccionar carnê de pagamentos nos termos da
presente decisão.
Por fim, fica autorizado o levantamento dos valores depositados pelo
autor em favor do acionado.
Sem custas e sem honorários.
Publique-se. Registre-se. Intime-se.
Conceição do Coité, 12 de dezembro de 2007
Bel. Gerivaldo Alves Neiva
Juiz de Direito